Irlanda – Lendas e paixões no coração da Maçonaria

hands across the divide sculpture derry city londonderry ireland  Photography by Joe Fox | Saatchi Art
Hands accross the Divide – Escultura de Maurice Harron, erigida em 14991 em Derry, na Irlanda do Norte. Dois homens se estendem as mãos sem conseguir se tocar. Sob dominação inglesa, portanto protestante até 1921, depois sob o peso da Inglesa católica, a Irlanda será por muitos séculos o teatro de conflitos sangrentos. Considerado ainda hoje uma questão inglesa e protestante, a Maçonaria suscita desconfiança na Irlanda muito católica.

A Maçonaria irlandesa, tão antiga quanto a própria Maçonaria é tudo, menos uma questão simples. Protestante em país católico, mas ao mesmo tempo próxima dos nacionalistas, às vezes legalista, mas com sotaques rebeldes, sua história testemunha os desnorteantes paradoxos que caracterizam a história tumultuada da ilha. É por isso que ela é pouco estudada e ainda objeto de preconceitos hostis tanto da parte de católicos que a confundem com os extremistas protestantes da Ordem de Orange, quanto da parte desses últimos.

Vai-se de verdadeira maçonaria assim como da verdadeira cruz. Cada um deles, onde quer que se coloque, reivindica uma autenticidade mais autêntica, uma anterioridade mais anterior uma verdade mais verdadeira. Para a Irlanda, a autenticidade como a anterioridade assumem a forma de uma inscrição gravada sobre um esquadro em latão encontrado em 1830 durante as obras de reconstrução da ponte de Limerick sobre o Shannon. Erodida, mas visível, a inscrição grafada sobre o esquadro indicava a data de 1507 acompanhada dessa frase : “I will strive to live with love and care upon the level and by the square” (Eu me esforçarei para viver com amor e cuidado, sobre o nível e pelo esquadro). Não faltaria nada mais para imaginar que a maçonaria na Irlanda nada tinha a invejar, em questão de antiguidade, com as Old Charges, essas antigas obrigações dos maçons operativos ingleses recheados de mitos religiosos descritos em antigos manuscritos. Para o historiador, entretanto, este esquadro piedosamente conservado pela Union Lodge nº 13 de Limerick não conseguiria atestar a existência de uma maçonaria antiga no sentido em que a entendemos atualmente, mas antes de uma tradição operativa muito antiga associando trabalho e virtudes morais.

Uma coisa não impede a outra. Se a existência de uma maçonaria regular ─ codificada por regras ─ não seria percebida antes do século XVIII, encontra-se um testemunho comprovante, se não da existência de lojas, pelo menos dos termos “maçonaria” e “loja maçônica” em The Tripos, discurso em forma de peça, onde o esotérico disputa com o cômico, feita em 1688 como era a tradição por ocasião da entrega de diplomas aos estudantes do Trinity College, a grande universidade protestante de Dublin:


“Foi ordenado que para a honra e dignidade da universidade será introduzida uma sociedade de maçons consistente em cavalheiros, relojoeiros, porteiros, eclesiásticos, catadores, mascates, oficiais de justiça, adivinhos, funileiros, cavalheiros, telhadistas, pedreiros, poetas, advogados, desenhistas, mendigos, vereadores, pavimentadores, remadores, novatos, bacharéis, mestres, castrador de leitões, doutores, coveiros, proxenetas, lordes, açougueiros e alfaiates, que deviam ingressar por juramento à ordem de jamais revelar seu possante segredo antigo, nem o nome dos irmãos do grupo, conforme o espírito dos maçons do Trinity College que organizaram uma busca para contribuir para o tronco de caridade destinado a vir em socorro de uma irmão necessitado…”

Este texto foi atribuído a Jonathan Swift pelo irmão Walter Scott que o publicará no início do século XIX.[1]

Daí a pensar que o autor de Viagens de Gulliver, que foi reitor anglicano da catedral Saint Patrick de Dublin, havia sido maçom, é só um passo que muitos autores deram alegremente, felizes demais de se encontrar em fraternidade com tal glória.

Existia uma loja no Trinity College no tempo de Swift como se afirmou? Possível, se acreditarmos na narrativa que precede. O que é certo é que existe no Trinity College um manuscrito datado de 1711 – ou seja, seis anos antes da reunião de quatro lojas londrinas que deviam dar à luz a Grande Loja da Inglaterra – que descreve sob a forma de um “catecismo” o ritual de uma loja maçônica. Muitos duvidam que esse manuscrito, o primeiro a evocar o grau de mestre foi de redação irlandesa. E, para dizer a verdade, não se sabe muito bem como ele chegou às mãos de sir Thomas Molyneux (1661-1733), colecionador emérito que o doou à biblioteca do Trinity College.

Essa não é, ainda, a única curiosidade testemunhando a antiguidade da maçonaria na Irlanda. O americano Albert Mackey (1801-1881) relata em sua monumental História da Maçonaria, a surpreendente história de Elizabeth Aldworth, nascida Saint-Léger (1692 ou 1695-1773). Em 1712, ela teria sido surpreendida observando por meio de um buraco em uma parede em obras, o desenrolar de uma sessão maçônica na casa de seu pai, o Conde de Doneraile, na região de Cork. Após consultas, os membros da loja decidiram dar à jovem curiosa essa terrível escolha: “A iniciação ou a morte”. Ela aceitou a iniciação e permaneceu membro da loja até sua morte aos 80 anos de idade. Uma famosa gravura, posterior à sua morte a representa à ordem, com seus paramentos. Sem dúvida, existe algum embelezamento nessa história incrível. A propósito, principalmente, da data de iniciação, que parece bem precoce. Mas o fato de que o nome da Lady freemason figura em um texto de 1744, de autoria do erudito e propagandista da maçonaria na Irlanda, Fiefeld d’Assigny[2] é testemunho da veracidade. Ele também aparece sobre uma placa funerária na catedral Saint Finnbare de Cork, sobre a qual é mencionada a qualidade maçônica de Lady Aldworth.

Entre algumas lendas e muito exagero, é a data de 1725 que retém a maior parte dos historiadores como a data de criação da Grande Loja da Irlanda. Esta foi anunciada publicamente, como era o costume, pelo Dublin Weekly Journal que apresenta o excêntrico Richard Parsons, conde de Rosse, então com 29 anos de idade, como Grão Mestre da nova instituição. Esta publicação é, de resto, uma das raras provas de função do Conde. Todos os documentos oficiais da Grande Loja da Irlanda antes de 1760 e todos os livros de atas antes de 1780 foram, na realidade, perdidos. Dispõem-se entretanto de muitas atas de lojas locais e provinciais que permitem reconstituir a atividade das lojas que enxameavam na ilha durante a primeira metade do século XVIII.

Um Grão mestre não muito protestante

Richard Parsons, o 1º. Conde de Rosse (1702-1741) foi uma personalidade no mínimo excêntrica e também controversa que seu descendente longínquo, o fotógrafo Antony Armstrong-Jones, que se casou com a princesa Margareth, irmã da rainha Elizabeth II em 1960.

Richard Parsons foi eleito Grão Mestre da Grande Loja da Irlanda quando tinha 23 anos, em 1725, e conservou seu cargo por seis anos. Tinha a reputação de ser libertino, tanto no plano da moral, quanto filosófico; ele escreveu Dionysus Rising depois de uma viagem ao Egito, durante a qual ele alegava ter encontrado certos manuscritos da biblioteca de Alexandria segundo os quais a maçonaria teria tido sua origem em um arquiteto adepto do culto de Dionísio. Ele fundou uma seita dionisíaca cujo ideal era tanto alcoólico quanto filosófico. Richard Parsons é também conhecido por ter criado na Irlanda um Hell-Fire club, um desses clubes frequentados pela aristocracia libertina, onde eles se reuniam para declamar versos, discutir filosofia, zombar da religião e consumir bebidas fortes.

Pouco tempo antes de sua morte, Richard Parsons recebeu uma carta de um pastor de Dublin, recomendando que ele se arrependesse de sua vida de debochado, libertino, bêbado, blasfemo, jogador e outras amáveis inclinações. Ele ordenou que essa carta fosse endereçada ao muito preconceituoso conde de Kildare, que furioso, exige que o pastor autor da carta fosse castigado. Quando se percebe que se tratava de uma última façanha de Richard Parsons, este já não estava nesse mundo.

Lojas da Irlanda ou lojas irlandesas?

Aqui se coloca uma importante questão. Devemos falar de lojas da Irlanda ou de lojas irlandesas? Uma pergunta que não podemos responder sem uma revisão histórica.

No século XII, a Irlanda, cristianizada desde o século V, era o teatro de guerras incessantes entre diversos reizinhos, depois de ter sido presa dos invasores vikings, Em 1170, chamado pelo rei da província de Leinster e com o acordo do Papa, o rei normando da Inglaterra, Henrique II, tomou pé em Dublin, antes que os barões anglo-normandos assumissem a posse das melhores terras e submetessem a quase totalidade da nobreza gaélica. É preciso, então, ter em mente que a partir dessa época e até a criação do estado livre da Irlanda em 1921, a quase totalidade das elites da ilha, quer intelectuais, políticas ou econômicas e que constituíam o essencial dos efetivos maçônicos a partir do fim do século XVII eram anglo-irlandeses, dos quais muito majoritariamente protestantes. O que, como veremos mais tarde, não impediu as elites protestantes mais esclarecidas de se opor vigorosamente a Londres e à coroa, e mesmo se solidarizar com o povo irlandês católico.

A dominação inglesa se acentuou com o cisma de 1536-1537 que assistiu ao rei da Inglaterra, Henrique VIII, romper com Roma para criar sua própria igreja, tornando-se assim Chefe da Igreja da Inglaterra, assim como da Irlanda, rapidamente conquistada pela Reforma protestante. Um tal sismo religioso não ficou sem consequências para o povo irlandês e para alguns “velhos ingleses” bem decididos a permanecer católicos. Até então, a presença inglesa era essencialmente representada pela aristocracia e uma parte da burguesia das cidades. Mas, a partir da segunda metade do século XVI, e ao longo de todo o século seguinte, a Inglaterra se lançou em uma política de grandes plantações, chamadas de colônias, confiscando pouco a pouco as melhores terras em favor dos colonos ingleses, a quem se juntam ao norte da ilha os protestantes presbiterianos perseguidos pela Igreja Anglicana. A dominação protestante se torna sanguinária assim que, tendo mandado decapitar o rei Charles I, Oliver Cromwell decide conquistar a Irlanda em 1649, semeando o terror e cometendo massacres contra a população católica. Depois, em 1690, foi o príncipe William de Orange que se tornou rei da Inglaterra sob o nome de William III, que esmagará em solo irlandês, na batalha de Boyne, o rei católico da Inglaterra, James II Stuart. Este último se exilou na França em Saint-Germain-em-Laye e é um dos mais ardentes partidários da causa jacobita, Charles Radcliffe, Lord Derwentwater que virá a se tornar o primeiro grão-mestre da ordem maçônica na França. Mas, essa é uma outra história…

O ponto alto da gigantesca espoliação, tanto cultural quanto religiosa e política, sofrida pela Irlanda foi, nos primeiros anos do século XVIII, a aplicação das “leis penais”, privando os católicos irlandeses de seus últimos direitos civis e religiosos.

É nesse contexto, no mínimo problemático, que a maçonaria fez sua aparição e se desenvolveu na Irlanda. Durante o século XVIII, centenas de lojas foram fundadas nos quatro cantos da ilha. Seus membros se reuniam nas tavernas e albergues. As reuniões da Grande Loja tendo, elas, os membros mais prestigiosos como a Assembly Rooms na South William Street em Dublin. Nos anos 1780, a popularidade foi tão ou mais importantes que se desenvolveram muitas lojas militares entre os Volunteers, uma milícia destinada a manter a ordem na Irlanda, agora que numerosos regimentos haviam deixado a ilha para combater os rebeldes da América. Assim, existiam, entre outros na região de Fermanagh em Ulster, um regimento conhecido pelo nome de Lowerstown Masonick Volunteers. Embora dedicados, em princípio, à coroa, esses regimentos e lojas que lhes eram vinculadas não eram indiferentes ao destino de um país submetido à boa vontade de Londres. É por isso que nos últimos anos do século, após o sucesso dos revolucionários americanos e franceses, as ideias do Iluminismo começaram a se espalhar, se não em todo o país, mas ao menos nos meios protestantes presbiterianos do Ulster, a região mais rica que contava com mais lojas.

Os Irlandeses Unidos

Se bem que se deve considerar com extrema prudência a influência de lojas sobre o movimentos dos United Irishmen (Sociedade dos Irlandeses Unidos), é provável que as ideias de universalidade fundadas no deísmo e desenvolvidas perto de um século antes pelo filósofo “livre-pensador” John Toland (ver quadro) iluminavam o caminho filosófico de certas lojas. O movimento dos Irlandeses Unidos que se desenvolveu de maneira aberta em 1791, e então clandestinamente depois de 1795, via na maçonaria, ao mesmo tempo, uma corrente de pensamento liberal oposta ao sectarismo, e um meio de se organizar de maneira semiclandestina nas lojas que agora estavam bem estabelecidas.

Como seu nome indica, os irlandeses unidos consideravam as diferenças religiosas como o principal obstáculo à união de todos os Irlandeses. É em tal estado de espírito que em 25 de junho de 1795, quatro lojas da região de Lisburn, no Ulster, reunidas na sede da Loja nº 429 na cidade de Magheragall fizeram a seguinte proclamação:

“[…] seja o que possam pensar os imbecis, os ignorantes e os supersticiosos, o último desejo de nossa instituição é sempre o bem-estar dos homens e a reunião em uma única e mesma família, uma fraternidade [ … ] Deixemos os encrenqueiros entre os homens conduzir as ações diabólicas que visam dividir a humanidade em partidos e os jogar em um combate sangrento, irmão contra irmão, sob o pretexto da religião, para em seguida se comportar como predador de todos os partidos! [ …] Assim, a humanidade se tornando uma família sob isso, em harmonia e reconhecida, poderá se reencontrar e se juntar novamente à Grande Família dos céus ─ onde o malfeitor deixará de atormentar e o fraco será sem temos ─ onde o santo e o religioso de todas as confissões serão unidos em amizade e em amor […]”[3]

Esta profissão de fé, ao mesmo tempo maçônica e de inspiração messiânica, não deve levar a subestimar a importância da maçonaria em um movimento que ao se radicalizar em violência e na busca de uma aliança com a França, termina por ver voltar contra si os conservadores, tanto católicos quanto protestantes, assim como um grande número de maçons.

Segundo o historiador Jim Smyth[4], contam-se apenas uns trinta maçons entre os Irlandeses Unidos. Um número pequeno, compensado pela importância que eles assumem no movimento. A começar por Archibald Hamilton Rowan (1751-1834) um advogado protestante, iniciado na universidade de Cambridge que foi por algum tempo amigo de Robespierre, e foi aprisionado antes de se exilar na América.

Ainda que paire alguma dúvida sobre a filiação de William Drennan (1754-1820), alega-se que ele tenha sido iniciado em uma loja de Newry, no Ulster, em 1784. Ele foi um dos fundadores dos Irlandeses Unidos ao lado de John Mac Craken, membro da loja Brown’s Square 763, que foi enforcado pelos ingleses por ter-se recusado a denunciar seus companheiros após a sufocação da revolta de 1798. O irmão William Orr, acusado de ter feito um soldado prestar o juramento dos Irlandeses Unidos, conheceu a mesma sorte trágica.

John Toland, um maçom antes do seu tempo

Muitos autores querem ver nesse filósofo irlandês um precursor da maçonaria, se não ele mesmo um iniciado. O que ninguém demonstrou.

John Toland (1670-1722) nasceu em uma família católica, mas converteu-se muito jovem ao protestantismo presbiteriano, religião onde o despojamento o aproxima do deísmo, depois do panteísmo. Ele deixou a ilha com dezoito anos, em 1688, para retornar somente nove anos mais tarde, em 1697, por ocasião do lançamento de seu livro mais célebre, Cristianismo sem mistério, que desencadeará a polêmica. Seu livro foi condenado a ser queimados pelo carrasco em praça pública, sentença executada em 11 de setembro de 1697. Foi portanto com muita pressa que Toland precisou fugir de seu país natal, onde nada indica que ele alguma vez retornou.

Seu deísmo foi detestável tanto aos olhos dos anglicanos quanto dos católicos, enquanto seu apoio ardente e devotado à causa da Revolução Gloriosa de William de Orange e aos Hanovers, e mais geralmente à causa do protestantismo europeu, de quem ele via a Inglaterra como o maior defensor, não era, por sua natureza, provável de o tornar amável aos olhos dos compatriotas católicos. Segundo alguns pontos de vista, ele participa da figura do traidor e do renegado, na medida em que por suas origens ele era um autêntico irlandês. Toland foi a primeira pessoa a ser qualificada como livre-pensador. Em 1717, ele reunirá todos os druidas da Inglaterra e da Irlanda para fundar a Ordem Druida, primeiro movimento neo-druídico do qual ele foi o primeiro “Grande Druida”. Ele escreveu o Panteistcom, que criou a noção e a palavra panteísmo e experimentou um grande sucesso na França junto à aristocracia esclarecida. Sua obra testemunha que, como Spinoza, ele pensava ser possível tornar os homens, se não racionais, mas pelo menos razoáveis ao liberta-los da superstição.

A Maçonaria demonizada

Por outro lado, seja o que foi dito essencialmente para o difamar, o principal artesão da revolta de 1798, Theobald Wolfe Tone (1763-1798) não era maçom. Protestante e republicano já era suficiente para o demonizar, tantos aos olhos dos ingleses, quanto aos olhos do alto clero católico. Entretanto, o jovem Theobald foi um dos mais argentes a buscar uma aliança com o movimento dos Defensores Católicos, uma sociedade de católicos abertos aos ideais republicanos. Admirador da Revolução americana, ele embarcou para os Estados Unidos em 1795, depois chegou à França no ano seguinte, onde consegue convencer os dirigentes do Diretório a conduzir uma intervenção em favor de seus compatriotas insurgidos. É assim que ,em 15 de dezembro de 1796, uma frota de quarenta e cinco navios, transportando 13.400 homens, partirá de Brest para o sul da Irlanda. Mas a expedição, surpreendida por uma tempestade, se transformou em fiasco na baia de Bantry, próximo a Cork, deixando no local milhares de prisioneiros e de mortos. Depois, em setembro de 1798 após os Irlandeses Unidos serem esmagados na batalha de Vinegar Hill, uma nova expedição francesa terminará também em fracasso. Wolf Tone, reconhecido sob uniforme francês, foi preso e enforcado sob acusação de alta traição. Até então, os maçons irlandeses estavam divididos sobre suas relações com Londres e seu apoio a um ou outro campo. O Grão Mestre da Grande Loja da Irlanda, Richard Hely Hutchinson, segundo lorde de Dounoughmore (1776-1825), havia ardentemente pleiteado em favor dos pequenos proprietários irlandeses privados de suas terras. Mas, a partir de 1793, ele proíbe toda discussão de natureza religiosa e política em loja. Sem dúvida ele pretendia conservar da maçonaria irlandesa a sua especificidade e sua autonomia em relação a Londres e não pretendia envolver sua obediência na querela aberta em 1753 pelo irlandês católico Laurence Dermott (1720-1791), a respeito de uma pretensa desobediência aos landmarks da Ordem, que deverá culminar com a criação da obediência dissidente dos Antigos.

A exemplo de Dermott, a maçonaria irlandesa havia sido capaz, até o início do século XIX, de contar em suas fileiras com um certo número de católicos esclarecidos, frequentemente originários do meio “Antigo inglês”, esses descendentes dos primeiros colonos anglo-normandos que chegaram no século XII, e que continuaram profundamente ligados à religião católica e por sua vez despossuídos pelos novos protestantes que chegaram. Até então as bulas papais de 1738 e 1751 tinham sido ignoradas na Irlanda. Mas, diante da influência crescente das ideias da revolução francesa e a emergência da “primavera dos povos” em 1848, a Igreja católica para quem as ideias iluministas eram de inspiração satânica ─ ela havia arrastado para a lama um de seus padres esclarecidos, o padre John Murphy, líder da revolta de 1798 ─ decidiu de maneira muito política, realizar a caça aos liberais e, portanto, dos maçons para melhor se colocar ao lado dos nacionalistas irlandeses católicos.

Daniel O’Connell, um maçom muito católico

A condição de maçom de Daniel O’Connell (1775-1847), encarnação suprema do nacionalismo católico irlandês, permanece em muitos aspectos, ainda hoje, um assunto pouco evocado, se não, um tabu na Irlanda. De uma parte porque a maçonaria ainda é considerada ali como uma questão inglesa e protestante, mas também porque a biografia daquele que é chamado o “emancipador”, comporta certas zonas sombrias. Como, por exemplo, seu desafio em relação aos Irlandeses Unidos de 1798 e seu recurso ao exército britânico para reprimir os trabalhadores grevistas quando ele era prefeito de Dublin em 1841.

O’Connell havia sido iniciado em 1799 na loja nº 189 de Dublin e depois filiou-se à loja nº 13 de Limerick. Um manuscrito conservado na sede da Grande Loja Unida da Inglaterra, em Londres, tratando de diferenças entre lojas por ocasião dos eventos de 1798, traz a sua assinatura. O que mostra que sua participação na maçonaria não anedótica. A data de sua partida da Ordem não é conhecida. Mas é provável que isso aconteceu depois da campanha antimaçônica conduzida à época pelo clero romano.

Este período marca um ponto de inflexão na abordagem do nacionalismo irlandês e as relações entre católicos e protestantes. Em seus esforços para livrar o povo irlandês da infâmia na qual ele era mantido pela igreja anglicana e a aristocracia inglesa, O’Connell, em determinado momento, sofreu a séria concorrência do movimento Jovem Irlanda, mais radical, mais republicano e conduzido por líderes, quase todos protestantes. É assim, para assegurar o apoio infalível do clero e de Roma, que O’Connell imprimirá ao movimento nacionalista uma direção claramente conservadora, mais religiosa e bastante menos marcada pela filosofia emancipadora do Iluminismo. Desde então, mesmo se James Stephens, John Mitchell ou Tomas Clarke Luby, que fundaram a muito radical Fraternidade Republicana Irlandesa, fossem protestantes, a corrente liberal e revolucionária que eles encarnavam não ocupava senão um lugar marginal em um republicanismo irlandês portador, antes de seu tempo, de uma ideologia que Maurice Barrès e Charles Maurras não teriam renegado.

A Ordem Orangista, uma paródia de maçonaria

Todo ano, no começo de julho, as televisões mostram as imagens insólitas de senhores entre duas idades, vestidos de negro, usando chapéus coco, armados de um guarda-chuva e cruzando o peito uma faixa laranja.

Essas paradas orangistas destinam-se a comemorar a batalha de La Boyne, vencida em 1690 pelo Rei Billy, o mui calvinista holandês William de Orange, que se tornou rei da Inglaterra, contra o mui católico rei destituído da Inglaterra e Escócia, James II Stuart.

Mas, bem mais que uma comemoração, essas paradas que percorrem as ruas adjacentes aos quarteirões católicos da Irlanda do Norte, são provocações que frequentemente degringolaram no passado, destinadas a mostrar aos católicos que os donos de seu pais são ainda os protestantes favoráveis à União com a Grã-Bretanha. Portanto, para um católico, chamar qualquer pessoa de orangista é um insulto. Um insulto que repercute sobre a maçonaria, vez que a ordem orangista mantém uma confusão funesta com a Arte Real. A estrutura da instituição orangista é, em grande parte, a mesma desde sua formação em 1795. Os orangistas são organizados em lojas e prestam um juramento pelo qual se comprometem a “defender a religião protestante”, “sua doutrina e seus preceitos”, e “opor-se energicamente aos erros e doutrinas da Igreja romana”.

As lojas obedecem a um ritual, elegem um mestre, bem como oficiais. Os mestres de loja formam, por sua vez, uma loja distrital cujos oficiais participam da Grande Loja do condado que, por sua vez, envia representantes à Grande Loja Orangista da Irlanda.

É provável que, a título individual, certos orangistas sejam também maçons. Mas isso não prova absolutamente nada. Na práticas as duas instituições se detestam cordialmente. Mas o fato de que a maioria dos maçons irlandeses seja protestante, sustenta uma confusão nociva para a Maçonaria.

A sufocante dominação da Igreja

Depois que a Grã-Bretanha concedeu à criação do estado livre da Irlanda em 1920, conservando sua mão sobre a Irlanda do Norte, o novo estado Irlandês foi submetido durante mais de meio século à sufocante dominação de uma igreja católica que se identificava em sua missão terrestre a todo o povo irlandês. E, embora o preâmbulo do tratado de 1920 mencionasse a livre expressão das lojas no novo estado, um artigo da revista inglesa The Spectator, de junho de 1922[5], reporta que muitos templos foram atacados e pilhados. Em Dundalk, não muito distante da fronteira com a Irlanda do Norte, os maçons foram forçados a deixar a cidade. Em Dublin, a sede da Grande Loja da Irlanda, na Rua Molesworth foi ocupada por membros do IRA, que se apoderaram os registros das lojas. Pouco tempo depois, registrou-se o assassinato de diversos protestantes na região de Cork. Em Mullingar, no centro da ilha, o templo foi pilhado e objeto de uma tentativa de incêndio, impedida, insiste o artigo, pela intervenção de um padre católico… De fato, a Irlanda conquistou sua liberdade nacional sufocando todo tipo de liberdade. Este é o paradoxo irlandês. Mas nós conhecemos outros exemplos…

Nesse país, qualquer que seja o campo, as paixões nacionalistas, exacerbadas pelo sentimento religioso, muito frequentemente sufocaram-se os impulsos tanto do coração quanto da razão. Os valores de tolerância que encarnam a maçonaria são ilustrados pelas três faixas verticais da bandeira irlandesa adotada em 1848: verde para a Irlanda católica, laranja para os protestantes em memória a William de Orange e, ao centro uma faixa branca sinônimo de neutralidade e respeito.

Mas, se eles têm no coração o ideal de promover seus ideais, os maçons são apenas homens entre os homens. Nem mais nem menos idealistas, nem mais nem menos submetidos às suas paixões. Na Irlanda, como em todos os lugares.

Autor: Jean-Moïse Braitberg

Tradução: José Filardo

Fonte: Bibliot3ca Fernado Pessoa

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Notas

[1] – “A obra em prosa de Jonathan Swift, vol. VI, p. 209-242, ed. 1824

[2] – Fiefeld d’Assigny, Cinco Documentos maçônicos Irlandeses, edição bilingue, Editora La Hutte

[3] – Texto em inglês em http://www.unitedirishmen.ie

[4] – Freemasonry and the United Irishmen, in The United Irishmen: republicanism, radicalism and Rebellion. The Liliput Press, Dublin, 1993

[5] – http://archive.spectator.co.uk/article/3rd-june-1922/sinn-fein-rule-in-ireland-attacks-upon-freemasons

Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG e da Academia Mineira Maçônica de Letras. Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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Uma resposta para Irlanda – Lendas e paixões no coração da Maçonaria

  1. Edson Nordi disse:

    Grato
    ________________________________

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