O coração e o seu simbolismo esotérico

Simbolismo do Coração - Alquimia Operativa

Movimento fundado no século XVIII no espírito das luzes, mas na penumbra dos seus templos, a Maçonaria afirma, desde a sua criação, uma originalidade sem paralelo na procura espiritual e no seu modo de funcionamento. Enquanto ordem universal, filosófica e progressiva, foi e é um conservatório de tradições. Ela é rica em iconografia (selos, brasões, logotipos, cartas, diplomas, etc.). Quando se olha para a iconografia maçónica, não se pode ficar indiferente com o número importante de Lojas que adotaram emblemas com a imagem de um coração inflamado, como símbolo distintivo. Com este artigo pretende-se refletir sobre o simbolismo do coração na Maçonaria.

Introdução

De uma forma metafórica, entregamos o coração a uma pessoa que se ama, significando que lhe confiamos a vida. É também um símbolo corrente utilizado para representar o centro da atividade emocional, espiritual, moral ou intelectual. Mais amplamente, a palavra “coração” designa que se encontra ao centro. Para além da questão física (órgão muscular), na linguagem comum ele representa o amor, a generosidade, a franqueza, a coragem, etc. Os egípcios acreditavam que era no coração que se encontrava a essência do homem, e compreende a vida sobrenatural. Os hebreus faziam dele o lugar de todas as faculdades da alma e da sua inteligência, na sua expressão mais pura. Os índios da América viam no coração o santuário, no qual habitava o “grande espírito”, isto é, Deus. Num dos provérbios chineses, é dito que “o fundo do coração é mais longe do que o fim do mundo”. Para eles, é, portanto, o coração e não a cabeça que está na origem do pensamento. Nas religiões atuais, o coração reveste igualmente de uma grande importância. No judaísmo utiliza-se a expressão “falar com o seu coração” (Ouaknin, 2004). Os muçulmanos dizem o coração é o local onde a Divindade habita: “a minha terra e o meu céu não me contêm, mas eu estou contido no coração do meu fiel servidor”, declarou Alá pela boca do profeta (Dassa & Dassa, 2004). Na mística cristã do oriente, do século IV ao XVII, o coração assume um lugar fundamental (La CroixHaute, 2002; Losky, 2002, Schnetzler, 2002, Deseille, 2004, Rousse-Lacordère, 2007). Os teólogos Isaac de Nínive (morte no século VI d.C.) e Angelus Silésius (1624-1677) referiram que o coração não pertencia ao corpo, à alma ou ao espírito, mas que ele se situava a um nível superior que integrava a totalidade do ser (Khaitzine, 2001; Labouré, 2009).

Segundo Mollier (2014), a Maçonaria, enquanto ordem universal, filosófica e progressiva, foi e é um conservatório de tradições. Selos, cartas, diplomas, certificados, patentes, e a sua rica iconografia[1], podem ser, atualmente, curiosos(as), e anacrónicos(as), aos olhos dos usos do mundo profano (não iniciados). A sua utilização foi generalizada nas sociedades tradicionais. “Desde o século XVIII existe uma tradição heráldica maçónica”, sustenta Mollier (2014, p.131). Quando se olha para a iconografia maçónica, não se pode ficar indiferente com o número importante de Lojas[2] Maçónicas que adotaram emblemas com a imagem de um coração inflamado, como símbolo distintivo.

Com este artigo, que se pretende qualitativo e interpretativo, procuramos refletir sobre o coração e o seu simbolismo esotérico na tradição iniciática maçónica.

1 – A iconografia das Lojas em França

Quando olhamos para a iconografia[3] maçónica, não podemos ficar indiferentes e até mesmo surpreendidos com o número importante de Lojas, nomeadamente francesas, que no século XVIII e seguintes adotaram o emblema/brasão com a imagem de um coração inflamado, como símbolo distintivo. As figuras desses corações, muitas vezes colocados em duplicado ou triplicado, inscrevem-se diretamente numa longa tradição iconográfica cristã. A pesquisa efetuada em Portugal sobre emblemas com a representação do coração, das Respeitáveis Lojas portuguesas, de diversas Obediências (Grande Oriente Lusitano, Grande Loja Soberana de Portugal e Grande Loja Simbólica de Portugal), foi infrutífera. Destacamos, então, alguns exemplos das Lojas francesas:

A Loja “Le tendre accueil d’Angers” (fundada em 1779)[4] mostrava um coração inflamado numa estrela com seis ponta.

Une approche ésotérique du cœur
Figura 1: Brasão da Loja Maçónica Francesa “Le tendre accueil d’Angers”
Fonte: Laurant (2003)

A Loja “Les coeurs unis de Paris” (fundada em 1820) apresentava dois corações inflamados em cima de uma coluna (ou entre o esquadro e o compasso) (cf. Figuras 2 e 3).

Une approche ésotérique du cœur
Figuras 2 e 3: Brasão da Loja Maçónica Francesa “Les coeurs unis de Paris”
Fonte: Laurant (2003)

De sublinhar aqui uma pequena curiosidade: num leilão realizado em Cannes, em 2019, esteve à venda um medalhão (oval, que finaliza com uma mão, em latão dourado, do início do século XIX, com as dimensões de 5 cm x 4 cm, com o preço de licitação de 80/100 €) desta Loja (cf. Figura 4).

Figura 4: Medalhão da Loja Maçónica “Les coeurs unis de Paris”
Fonte: http://www.cannes-encheres.com (consultado em 26/01/2020)

A Loja “La parfaite unité des coeurs”, igualmente em Paris, dispunha de três pequenos corações num triângulo (esquadro e compasso) (cf. Figura 5).

Figura 5: Brasão da Loja Maçónica Francesa “La parfaite unité des coeurs”
Fonte: Laurant (2003)

A “L’ancienne cauchoise de Caudebec”, na Normandia, inscrevia os dois corações numa estela flamejante (resplandecente)

Esta Loja foi fundada em 1786, numa cidade onde o protestantismo ganhava terreno. Dotada de um Capítulo, a Union Cauchoise contava com oito eclesiásticos entre os doze fundadores. A Loja “Ardente Amitié”, a Oriente de Rouen, também adotou no seu emblema o coração (cf. Figura 6).

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Figura 6: Brasão da Loja Maçónica Francesa “Ardente Amitié”
Fonte: https://www.cgb.fr/franc-maconnerie-rouen-lardente-amitie-ttb,fjt_527704,a.html (consultado em
26/01/2021)

A Loja “Les coeurs sincères” seguiu semelhante caminho (cf. Figura 7).

Figura 7: Brasão da Loja Maçónica Francesa “Les coeurs sincères”
Fonte: Laurant (2003)

Também interessantes são os emblemas/brasões de duas Lojas de Avignon: “Les amis à l’épreuve”[5] e “Les amis sincères” mostram dois corações trespassados por um prego e outro com três corações inflamados, mas atravessados por uma flecha. Existe aqui também uma associação com o número 4, a forma chave que alimenta inúmeras especulações esotéricas nas marcas de algumas casas de impressão nos séculos XVI e XVII, assim como em diversos maçons (Subrini, 2012). Elas testemunham igualmente um enraizamento deste símbolo na cultura cristã nos meios intelectuais, onde floresce, nessa época, uma reflexão esotérica[6].

As Constituições do Grande Oriente de França (GODF) foram seladas por três corações unidos.

Encontrámos também a representação do coração, no caso particular trespassado por uma espada, na iconografia da III Ordem de Sabedoria do Rito Francês (cf. Figura 8).

Figura 8: Iconografia com a representação do coração, III Ordem de Sabedoria do Rito Francês
Fonte: Mainguy (2003)

Uma posição particular assume na figura do pelicano que bica o seu próprio peito para alimentar os seus filhos com o sangue (figura que se vê no Grau 18, do Rito Escocês Antigo e Aceito – REAA). Esta alegoria, ausente da Bíblia, estava, no entanto, omnipresente nos manuscritos medievais e conhecem um sucesso contínuo tanto na iconografia cristã, como na Maçonaria escocesa (REAA e Regime Escocês Retificado – RER). Pode-se também associar o coração não visível ao gesto do São João, o Apóstolo amado, com a cabeça no peito do seu mestre, como que à escuta de um segredo (Laurant, 2003).

LE PELICAN de Jean-Pierre - la Franc Maçonnerie au Coeur
Figura 9: Le Pelican

2 – O cristianismo latim: uma religião do coração
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Depois do fim da Idade Média, a experiência mística associava o tema da entrada no coração de Cristo a uma nova devoção, visando o acesso direto, pessoal, e sem a mediação sacerdotal, no absoluto divino. Depois da Reforma, o Jean Eudes (1601-1680), presbítero francês, canonizado pela Igreja católica em 1925, colocou as bases do que viria a tornar-se o culto do sagrado-coração e símbolo da “Reparação” da “grande transgressão” da Revolução Francesa para terminar, em 1956, com a elaboração teológica da Encíclica Haurietis Aqua Aquas (é uma encíclica de referência do Papa Pio XII sobre devoção ao Sagrado Coração, escrita em 15 de maio de 1956).

No coração admirável da sagrada mãe de Deus, Jean Eudes desenvolveu a figura dos corações associados a Maria e ao seu filho divino, imagem que é duplicada no plano da reincarnação entre os dois polos: celeste e terrestre, e depois articulada com a questão da alma. O coração espiritual de Maria é o coração de Jesus. Esta argumentação vai alimentar ricas especulações que ultrapassam o quadro teológico para integrar o campo esotérico através das noções como o “centro do plano divino”, o coração que ganha à cabeça e ao intelecto, ou às relações masculino e feminino.

Não nos vamos alongar aqui sobre a interpretação cardiocêntrica, mas podemos apontar Clemente de Alexandria (150 d.C.-215 d.C.), escritor, teólogo, nascido em Atenas, que estabeleceu nos Stromate V (o terceiro trabalho na trilogia de Clemente sobre a vida cristã) uma série de correspondências entre a função particular do coração na cultura grega, nas religiões e nos mistérios e na tradição judaico-cristã. Invocava que a primeira permitia o conhecimento de Deus que dá a vida eterna e a segunda evidenciava a relação com a iniciação aos mistérios pitagóricos. Para os pitagóricos, os números mantinham uma relação direta com a matéria, considerando o número 1 como um ponto, o 2 como uma reta, o 3 como uma superfície e o 4 como um sólido. As sequências dos pontos nas quatro fileiras formam a representação geométrica do quarto número triangular. Assumindo que 1 + 2 + 3 + 4 = 10, o número “dez” era visto como uma espécie de conjunto de 4 elementos (terra, ar, água, fogo), o “alicerce” das coisas do mundo[7]. Willermoz destaca que

Os números, por si próprios, não têm uma virtude particular. Eles são os signos representativos da natureza dos seres e das coisas. Eles são uma espécie de linguagem intelectual, mais específica do que a linguagem normal para exprimir e para tornar sensível à inteligência humana o valor das forças, das faculdades e das propriedades dos seres e das coisas, assim como a ação particular que cada classe dos seres espirituais é chamada a operar na ordem providencial ou sabedoria e a vontade que o Criador lhes colocou, e que poderá ser modificado pela mesma Vontade (Subrini, 2012, p.44).

De referir aqui que Roger Dachez, médico, historiador, presidente do Instituto Maçónico de França, referiu que no início da Maçonaria (1717) não havia nada de hermetismo nos rituais[8]. Só surge mais tarde no século XIX. Inicialmente havia a referência à água e ao fogo. O primeiro seria pregado por São João Baptista. O segundo seria a obra purificadora de Jesus Cristo. Mesmo o grau de Rosa-Cruz (grau 18.º do REAA, ritual datado de 1765) não fazia referência inicialmente aos 4 elementos. Isso foi acrescentado mais tarde, o que não deixa de ser “uma grande acrobacia”, referiu Dachez num testemunho que se pode encontrar num vídeo divulgado na Internet[9].

3 – Um outro século XIX

Numa mistura de várias correntes, e de várias especulações sobre o coração no centro divino do plano humano, surge num manuscrito maçónico, datado de 1812, destinado à instrução dos Irmãos, e que foi publicado na revista Renaissance Traditionnelle (criada por René Guilly, que fundou a Loja maçónica Du Devoir et la Raison, em 1955, Paris): “A geometria do maçom”, reenviando para os números do Santo Agostinho. As figuras apresentadas remetem para o coração, como verdadeiro suporte de meditação. Remete para referências escriturísticas (da sagrada escritura) e comentários teológicos. Fazem alusão ao puro amor e à oração cordial que podem ser revelados.

Na esteira teológica, é de referir o Martinismo, como via cardíaca. O Martinismo é uma via altamente iniciática que remonta ao século XVIII (Ambelain, 1946, 1948, 1985; Vivenza, 2012). Amadou (1946, 2011) considera que a palavra “martinista” abrange significados diversos. Em primeiro lugar, ele designa o sistema de teosofia constituído por Louis-Claude de Saint-Martin (1743-1803), iniciado na “L’Ordre des Chevaliers Maçons Elus Coëns de l’Univers” em 1768 (Vivenza, 2003). “Martinista” é, assim, aquela ou aquela que estuda este sistema e o coloca em prática. “Martinista” designa também a doutrina e o sistema de Martinès de Pasqually (1727-1774), que foi o mestre de Saint-Martin, na Ordem dos Elus Coëns (sacerdotes, na palavra hebraica) (Nahon, 2011; Caillet, 2011). Os martinistas são assim os Eleitos Coëns. O “martinismo” é ainda o Regime Escocês Retificado de Jean-Baptiste de Willermoz. Por fim, o “Martinismo” designa a Ordem Martinista de Gérard Encausse (1865-1916), médico, mais conhecido por Papus, na “Belle Époque”, e por Augustin Chaboseau (1868-1946), no século XIX. Estes homens e mulheres incarnam movimentos tradicionais, mas seguem a doutrina da Reintegração, que os liga à tradição judaico-cristã (Amadou, 2016).

Segundo Amadou (1946), as teorias de Martinès e de Saint-Martin eram as mesmas, mas uma profunda diferença separava as duas. A de Martinès procurava situar-se na Maçonaria superior e a de Saint-Martin dirigia-se aos profanos, isto é, aos não iniciados. A segunda afastava as práticas e as cerimónias, que para a primeira eram de uma importância capital. O Martinismo é “um ambiente, um estado de espírito, um ‘espírito’” (Amadou, 1946, p.15). Assim sendo, apelam a uma via interior que permite realizar a comunhão com Deus (seja ele qual for) a partir do coração do ser humano. Esta doutrina é considerada uma via cardíaca (designação de Papus), a via do amor que conduz ao abrasamento do coração do homem pelo Divino. “Nessa senda, não é a cabeça que devemos abrir, mas o coração”, afirma Saint-Martin nas suas obras. Segundo a tradição Martinista, o universo e o homem não estão mais no estado original, pois a harmonia que caracterizava a Criação nas suas origens foi rompida. Isso está patente na doutrina do RER, misturado com a parte mais visível da Estrita Observância (Templária), que Jean-Baptiste de Willermoz (1730-1824) fundiu.

4 – O coração e o conhecimento

É do nosso conhecimento que desde 1717, vários sistemas (ritos) surgem abordando diversas temáticas, e que são construídas a partir da dramaturgia de hiramita (Adonhiram, o arquiteto do templo do Rei Salomão), ou de assuntos da bíblia revisitados, de récitos cavaleirescos, de referências herméticas ou templárias. Nos rituais da Maçonaria a palavra “coração” surge imensas vezes. No caso da II Ordem do Rito Francês, é possível constatar várias alusões a ele. Eis alguns exemplos:

… pondo a mão direita sobre o coração, em sinal de fidelidade…
… Um coração puro…
… pela Aclamação (mão no coração)…
… O Gr∴ Exp∴ pega no punhal e coloca a sua ponta sobre o coração do recipiendário.
… Se tens ressentimentos fechados no teu coração contra os Irmãos, consentes em deixá-los
aqui?
… Ela necessita duma vontade permanente a fim de eliminar do teu coração, em cada
instante, todos os sentimentos de inimizade.
…. Tira as luvas, coloca a tua mão direita sobre a espada, e a mão esquerda, em compasso,
sobre o teu coração.
… O P∴M ∴ [Perfeito Mestre] passa a trolha frente ao coração do candidato, e diz… … pela Bateria da Segunda Ordem (3, 5, 7, 9), e pela Aclamação (mão no coração)
… Um coração puro, zeloso e amante da virtude e da verdade.

O coração puro é, na verdade, uma abstração e uma questão filosófica. Para Arnault (1996), o templo maçónico representa o coração humano (cf. Figura 10). Símbolo da construção maçónica por excelência, da paz profunda para que tendem todos os maçons, o coração puro remete para as questões da justiça e da vingança como no ritual da I Ordem das Ordens de Sabedoria.

Figura 10: Símbolos maçónicos, com o coração no centro

Outra questão a salientar é que o coração não é uma força duvidosa, nomeadamente na sua dimensão afetiva. Ele não trabalha contra a força da razão. O coração revela a faculdade de conhecimento, nomeadamente para as verdades da Segunda Ordem, ou seja, as verdades geométricas. A síntese desta Ordem consta do Grande Capítulo Geral[10] de 18 de dezembro de 1784. É o exemplo típico da fusão de vários graus operados, nomeadamente o Perfeito Mestre Inglês (cordeiro de ouro) e o Verdadeiro (ou Perfeito) Mestre Escocês, no século das Luzes. Na época chama-se “Écossais de la Voûte”. Completa a mestria depois do desaparecimento dos assassínios de Hiram, o mestre de construção do templo do Rei Salomão (esta personagem alegórica de Hiram Abiff constrói-se com a prática do III Grau, Mestre, que as Lojas de Londres vão adotar e adaptar progressivamente a partir de 1725, o que explica que o nome de Hiram não tem nenhum destaque alegórico nas Constituições de Anderson de 1723. Anderson tem em conta esta figura com o Grau de Mestre na versão de 1738. Aparentemente terá sido Samuel Prichard que, na “Masonary Dissected”, em 1730, faz alusão à morte de Hiram). É o coroamento do tema essencial desta Ordem, que é a purificação e o sacrifício, a descoberta do Delta e do tetragrama, símbolo da palavra do mestre. Todos os caminhos simbólicos levam ao coração. Não é por isso estranho que as interpretações se tenham cruzado ao mesmo ritmo que os homens e passou do campo da fé ao da especulação esotérica e o inverso.

Mainguy (2003) observa que a primeira parte da II Ordem do Rito Francês consiste nas purificações, fumigações, unções, manducações. Quanto à segunda parte da cerimónia, tudo leva a crer que é uma versão francesa de um Arco Real arcaico de origem britânica, mas tem dúvidas se inglês, irlandês ou escocês. Mainguy (2003) refere também que de escocês, esta Ordem apenas tem o nome. Independentemente da origem, o recipiendário encontrará referências familiares. Um judeu encontrará lembranças do Shabbat (é o dia de descanso do judaísmo, sábado), um cristão uma evocação de comunhão, um muçulmano as abluções rituais (ablução, do latim ablutio, “lavagem”, rito de purificação). De facto, o esoterismo é uma via espiritual que se apoia legitimamente em formas exteriores e interiores. Ele designa um padrão geral, que engloba variadíssimos movimentos religiosos e espirituais – diversas e até contraditórias “vias”.

Para Faivre (2019 [1992]), o termo “esoterismo” é usado para definir um “padrão de pensamento” que engloba diversos movimentos (vias) espirituais. Os elementos são encontrados aqui expurgados dos seus aspetos morais e dogmáticos. Mainguy (2003) cita um manuscrito dos Escoceses Perfeitos, referindo que este grau não pretende ser uma religião que não seja a natural, isto é, a de reconhecer primeiro um Ser Supremo (o conhecimento do Ser Supremo é difícil de demonstrar, a menos que falemos ao coração do neófito e que se evite, com cuidado, o dogmatismo), de amar e de socorrer os seus Irmãos nas suas necessidades. Este grau é muito próximo da versão inicial do 14.º grau do REAA. Os Eleitos Escocês são convidados a tomar consciência que eles estão ligados ao Universo e que o seu comportamento no quotidiano não pode deixar de ser de benevolência relativamente ao seu próximo, porque tudo é Um e o Um é tudo. E isso está no coração.

Bédarride (2013) realça que quando um homem consegue enraizar no seu coração o amor do Ideal maçónico, isto é a prossecução da mais alta cultura moral, a noção do prazer e da felicidade são completamente diferentes das que podemos conceber na vida profana e mundana.

5 – Conclusão

A Maçonaria é uma Ordem universal, progressista, filosófica e filantrópica. Ela procura o aperfeiçoamento moral e espiritual dos seus membros e a defesa da moral universal. Compreende um extenso acervo de sinais, toques, palavras, símbolos e elementos decorativos com riqueza alegórica. Quando se olha para a iconografia maçónica, notamos o número importante de Lojas que adotaram emblemas com a imagem de um coração inflamado, como símbolo distintivo.

O simbolismo do coração, enquanto significação espiritual e esotérica, assume um papel importante e convergente, enquanto ponte de união entre o Homem e a crença em Deus. Na tradição iniciática maçónica, o simbolismo do coração está presente, como vimos pelos brasões/logotipos das Lojas. Enquanto símbolo, ele pode ser interpretado de diferentes formas. A argumentação a seu respeito alimenta especulações, que ultrapassam o quadro teológico para integrar o campo esotérico.

Autor: Vitor Rosa

Fonte: Revista Ad Aeternum

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Notas

[1] – Iconografia é uma forma de linguagem visual que usa imagens para representar algum tema.

[2] – Loja maçónica (também designadas por Oficinas) é o local onde os maçons se reúnem periodicamente para trabalhar de forma ritualística.

[3] – Do grego “eykon” (imagem), e “grafia” (escrita), a iconografia é uma forma de linguagem visual que usa imagens para representar algum tema (Sanchez, 2016).

[4] – A Biblioteca Nacional de França (BnF) tem diversa documentação sobre esta Loja. Blanvillain (1985) refere que, em 1774, havia 22 membros. Outros autores datam de 1776 a sua fundação: https://www.hiram.be/journees-du-patrimoine-a-angers/ (consultado em 28/10/2020).

[5] – O Arquivo Departamental de Vaucluse tem vários documentos relativos a esta Loja. A Maçonaria terá surgido em Avignon em 1737 (Mesliand, 1969). Para Mesliand (1969), é preciso esperar até 1774 para se ter testemunhos seguros sobre a atividade maçónica nesta cidade.

[6] – Ao longo do século XVIII, os maçons franceses, como os seus homólogos ingleses, consideravam a crença em Deus como natural. Os britânicos só introduziram explicitamente a crença no Grande Arquiteto do Universo em 1813, a favor da união dos Antigos e dos Modernos, afastando-se da visão muito tolerante das Constituições de Anderson de 1723. Os franceses, quanto a eles, viveram felizes sem o GADLU até 1848, quando foi introduzido nas suas Constituições. Quando um vento de liberalismo sopra, convém dizer depois da Comuna de Paris, o pastor Frédéric Desmons consegue convencer os seus Irmãos, depois de várias tentativas falhadas, de suprimir das constituições do GODF a obrigação de crer na existência de Deus e a imortalidade da alma. E quando o GODF toma esta decisão histórica, a Grande Loja Unida da Inglaterra rompe as ligações diplomáticas com esta Maçonaria. E passa-se a falar de irregulares e regulares.

[7] – O número 4 encontra-se nos símbolos do grau do Mestre Perfeito, do REAA. O 4 é o primeiro dos números quadrados e o primeiro dos números perfeitos. É definido como perfeito para os Pitagóricos. E diz-se que é perfeito quando ele é igual à soma e ao produto dos seus fatores. O número 4 marca a estabilidade e a durabilidade da obra a levar a cabo. É o número da terra. Este número par, simboliza a solidez, a organização e a universalidade representadas nos 4 elementos da tradição ocidental, as quatro direções do espaço, os quatro pontos cardinais, à cruz de 4 pontas. Para o Pitagóricos, o 4 organiza a estrutura fundamental do cosmo. Nas famosas Les Leçons de Lyon aux Elus Cohen, Louis-Claude de Saint Martin, Jean-Jacques du Roy d’Hauterive e Jean-Baptiste de Willermoz durante dois anos (1774-1776) escreveram muito sobre os números, instruindo os seus irmãos (Amadou, 2011).

[8] – Para os historiadores dos graus e dos rituais, parece claro que, na história da Maçonaria francesa, que, de certa forma, impulsionou a Maçonaria europeia, há duas épocas: uma época que se pode qualificar de fundadora, onde se construiu, se inventou e se estruturou os graus dos diferentes sistemas que deram origem a rituais como os que conhecemos; e depois uma época, que podemos dizer de estabilização, ou de adaptação, onde finalmente há uma espécie de generosidade, de fecundação criadora do século XVIII. A bem dizer, não se inventou nada de novo, mas ensaiou-se de fazer viver o que tinha sido criado.

[9] – Cf. https://www.youtube.com/watch?v=uagBZzy19yk (consultado em 3/11/2020) e
https://www.youtube.com/watch?v=d5zTybiYL9o (consultado em 02/11/2020).

[10] – Em Maçonaria, os Capítulos são Lojas superiores ao grau de Mestre. São os designados “Altos Graus”, ou “Ordens de Sabedoria”. O Grande Capítulo Geral do GODF é a jurisdição suprema das Ordens de Sabedoria, depois do grau de Mestre. Administra a continuidade do Rito Francês. Ele é o depositário e o guardião da tradição maçónica deste Rito, nas suas diferentes codificações reconhecidas pelo GODF. Mantém esta tradição no seu espírito, pelo método de aperfeiçoamento intelectual, moral e filosófico praticado nos Soberanos Capítulos.

Referências

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG e da Academia Mineira Maçônica de Letras. Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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Uma resposta para O coração e o seu simbolismo esotérico

  1. Carlinhos de Brito disse:

    “O Coração tem razão que a própria razão desconhece, é terra onde ninguém vai” e onde tudo acontece.
    Haa Coração!

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