O maçom Simón Bolívar: entre o mito e a verdade histórica – Parte III

Palomo é o companheiro de batalhas de Simón Bolívar - Cavalus

Maçonaria francesa, não americana

Aqui ainda temos que fazer mais reflexões. A primeira é que estamos tratando, não de uma sociedade patriótica americana no estilo dos Cavaleiros Racionais, mas de uma Maçonaria Francesa que logo terminaria, por um lado identificando-se como uma maçonaria bonapartista para o serviço e uso de Napoleão; e por outro está a origem e principal órgão da Maçonaria Escocesa da França. Maçonaria que não tem nada a ver com as lojas Lautaro Mirandistas ou San Martinianas, que da Maçonaria não tinha nada mais do que o uso da palavra Loja, porque nem em seus estatutos ou Constituições, nem em seus objetivos e recrutamento tinham a menor semelhança com a Maçonaria. Como é bem atestado, entre muitas outras coisas, pelo juramento de que os membros das “lojas” lautarinas tinham que tomar [61].

Por outro lado, a Maçonaria em que Bolívar entrou em  Paris  não tinha nada “americano” sobre isso. Apesar do que foi escrito por Vicente González Loscertales, que garante que Bolívar foi impregnado em Paris com ideias iluministas, as noções de independência, soberania popular, progresso e civilização, “o que o levou a se juntar à Maçonaria Americana em Paris, onde ele alcançou o grau de mestre”[62].

Se analisarmos a composição social dos 47 membros que compõem a loja de Santo Alexandre da Escócia no ano em que o nome de Bolívar aparece, encontramos o seguinte resultado: em primeiro lugar não há outros “americanos” além de Bolívar, que, no entanto, está registrado como um oficial espanhol. Todos os outros são franceses, exceto dois nobres venezianos e Manuel Campos, um nobre espanhol. Entre as profissões estão 10 militares, incluindo Bolívar, 6 advogados e homens de direito, 6 médicos e doutores da medicina (incluindo o regente da Faculdade de Medicina de Paris), 6 altos funcionários, 5 proprietários, 2 funcionários, empresários e músicos, respectivamente, e um de cada uma das seguintes profissões: rentista, pintor, acadêmico, marinheiro, senador…, bem como os três nobres mencionados [63]. Além   disso, é impressionante que na frente da juventude de Bolívar que   em 24 de julho de 1804 tinha completado vinte e um anos, há muitos aposentados ou ex-militares, ex-médicos, ex-advogados, ex-funcionários, ex-marinheiros, ex-magistrados. Assim, tendo em vista os componentes da loja e suas qualidades, parece que qualquer possível “conexão “americana está excluída.  Na loja de Bolívar destacam-se, entre outros, dois membros por suas obras e atividades posteriores, os dois graus 33: Conde Antoine Thory [64] e Auguste de Grasse Tilly [65].

Américo Carnicelli também disponibiliza um novo documento intitulado “Lista nominal dos Mazones [sic] de altos graus que são conhecidos em diversos órgãos no mês de abril de 1824”, feito pelo Grão-Comandante M. Ilt. José Cerneau [66]. Há um total de 84 supostos maçons em posse do 33º grau.  Nesta lista está Simón Bolívar na 58ª   colocação.  Outras listas seguem com notas 32 e 30. Trata-se de um documento sem papel timbrado ou selo oficial, que pertencia ao herói José Félix Blanco, e que hoje está em Caracas no Arquivo Geral da Nação [67].

Pessoalmente, penso que o valor histórico deste documento é bastante escasso, se não nulo, embora o tenha do ponto de vista do testemunho. Apresenta uma extraordinária semelhança com as numerosas listas de supostos maçons que existem entre os papéis reservados de Fernando VII do Arquivo do Palácio Real de Madrid, e que foram feitas pela polícia com base em presunções, denúncias, suspeitas, etc. Curiosamente, Seal-Coon em seu já citado e prestigiado trabalho intitulado Simón Bolívar Maçom descarta este documento que ele nem sequer menciona, apesar de usar Carnicelli como uma de suas principais fontes de informação.

Nelson Martínez vai mais longe em seu Simón Bolívar quando diz que, desde que deixou a Europa, trabalhou fora das decisões de “uma maçonaria cujo aparelho e mistério não parecem atraí-lo” [68]. Na verdade, Bolívar não aparece  mais em nenhuma outra pousada europeia ou americana. O próprio Carnicelli, que usa tanta documentação maçônica, embora nem sempre aponte as fontes, é incapaz de nos dizer uma única loja americana na qual Bolívar está listado como membro. E quando ele fornece a Lista de Maçons de 1809 a 1828 [69] ele não pode deixar de apontar para Simon Bolivar, Libertador, como um membro da loja St. Alexandre da Escócia em Paris, sendo o único que não aparece em Pousada americana.  Que é um reconhecimento indireto de sua não atividade maçônica na    terra que ele libertou ou se tornou independente. Em outras palavras, diante de um ou dois anos de militância maçônica em Paris, estamos enfrentando 25 ou 26 anos depois de afastamento maçônico, ou pelo menos de nenhuma notícia de participação direta.

Testemunho que coincide com o que o ajudante de campo de Simón Bolívar, Louis Perú de Lacroix escreve em seu Diario de Bucaramanga.  Lá ele diz que o Libertador confessou a ele: primeiro que ele tinha se tornado um maçom em Paris; depois disse que     abandonou a Maçonaria porque ele não encontrou nada de novo nela, apenas repetições insubstanciais [70].

Continua…

Autor: Jose Antonio Ferrer Benimeli

Fonte: REHMLAC

*Clique AQUI para ler a primeira e a segunda parte do artigo.

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Notas

[61] – La fórmula del juramento del segundo grado era la siguiente: “Nunca reconoceré por gobierno legítimo de mi patria sino a aquel que sea elegido por la libre y espontánea voluntad de los pueblos; y siendo el sistema republicano el más adaptable al gobierno de las Américas, propenderé por cuantos medios estén a mi alcance, a que los pueblos se decidan por él”. Mitre, Historia de Belgrano, vol. II, 213.

[62] – Vicente González Loscertales, “Bolívar: El hombre y el mito”, Historia 16 87 (julio 1983): 50.

[63] – No deja de ser curioso, pero así figuran en el Cuadro: de profesión, noble. Biblioteca Nacional de París. Gabinete de Manuscritos. Fondo F.M.2 100 bis. Dossier 3.

[64] – El historiador Antoine Thory es autor de Annales originis magni Galliarum O. ou Histoire de la fondation du Grand Orient de France et des révolutions qui l’ont précédée, accompagnée et suivie, jusqu’en mil sept cent quatre vingt dix neuf, époque de la réunion à ce corps de la Grande Loge de France, connue sous le nom de Grand Orient de Clermont ou de l’Arcade de la Pelleterie (París: Dufart, 1812) que posteriormente adoptó el título de Acta Latomorum ou Chronologie de l’Histoire de la Franche-maçonnerie française et étrangère (París: Dufart, 1815).

[65] – El conde Auguste de Grasse-Tilly, capitán de artillería, comisionado por el Supremo Consejo de Charleston, tras su estancia en las Antillas, desembarcó en Burdeos a comienzos de julio de 1804. Poco después está ya en París como propagandista y difusor del rito escocés antiguo y aceptado, fundador del Supremo Consejo del Grado 33 y miembro de la logia San Alejandro de Escocia. En 1806 lo encontramos en Italia, en 1809-1811 en España y en 1817 en Bélgica, según Carnicelli, Díaz y Pérez y Clavel. Carnicelli, La masonería, tomo I, 43; Nicolás Díaz y Pérez, La Franc-Masonería Española (Madrid: R. Fe, 1894), 211-213; F.T.B. Clavel, Histoire Pittoresque de la Franc-Maçonnerie et des Sociétés Secrètes anciennes et modernes (París: Pagnerre, 1843), 206 y 241.

[66] – De este mismo autor se conoce una obra titulada Senda de las luces masónicas (New York: Wingslang, 1821).

[67] – Archivo General de la Nación (Caracas). Papeles del prócer José Félix Blanco. tomo I, no. 298.

[68] – Nelson Martínez, Simón Bolívar, 16.

[69] – Carnicelli, La masonería, tomo II, 374-376.

[70] – Luis Perú de Lacroix, Diario de Bucaramanga (Caracas: Ed. de Nicolás E. Navarro, 1935), 77. Luis Perú de Lacroix, nacido en Francia el 14 de septiembre de 1780 en realidad se llamaba Luis Gabriel Juan de Lacroix Peroux, según Seal-Coon, y descendía de un linaje distinguido. Su biografía, según el mismo autor, se resume así: Sirvió de oficial en el ejército de Napoleón pero con la restauración de Luis XVIII tuvo que huir a las Antillas donde se unió al corsario francés Luis Aury en 1814. Este operaba bajo bandera mejicana y conquistó a los españoles la isla Old Providence. Establecido allí nombró a Lacroix comandante general, y Secretario de Estado de su “gobierno”. Por este tiempo Lacroix adoptó una forma españolizada de sus nombres y apellidos. Aury murió en agosto de 1821 y entonces Perú de Lacroix ofreció sus servicios a la nueva república de Gran Colombia y fue enviado a Cartagena; luego encontró a Simón Bolívar con quien trabó amistad y fue condecorado por él en Bucaramanga donde escribió su famoso Diario de Bucaramanga. Elevado a general en 1830 fue llamado por Manuela Sanz, la querida de Bolívar en noviembre del mismo año, para que acudiera a San Pedro Alejandrino, Santa Marta, pues Bolívar quería verle. Llegó pocos días antes del fallecimiento de El Libertador. El otoño siguiente Perú de Lacroix fue exiliado por el gobierno anti-bolivariano y se marchó de Bogotá para Jamaica. En 1833 estaba en Caracas y en julio de 1835 se puso a la cabeza del movimiento rebelde reformista. Fue derrotado y Perú de Lacroix abandonó Venezuela y su familia, refugiándose en Francia. En París, a la edad de 56 años se suicidó. Seal Coon, “La isla de Jamaica y su influencia masónica en la Región”, en Masonería española y América, coord. Ferrer Benimeli (Zaragoza: CEHME, 1993), tomo I, 219.

Autor: Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Academia Mineira Maçônica de Letras. Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com

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