Maçonaria na modernidade tardia: mitos e imaginários (Parte II)

A Maçonaria que 95% dos maçons desconhecem!

As críticas à Maçonaria e o imaginário antimaçônico

Escolhemos uma consulta aos sites na internet para procurar perceber como a Maçonaria é vista por seus opositores e aprofundar um pouco a reflexão sobre o imaginário que a envolve.

A Igreja Católica é opositora da Maçonaria desde os tempos da Revolução Francesa, à medida que os maçons combatiam a falta de liberdade de pensamento que a Igreja era uma das principais responsáveis. As críticas da Igreja Católica já foram mais contundentes, mas hoje permanece a proibição aos católicos de pertencerem à Maçonaria, como aparece no site https://padrepauloricardo.org/episodios/um-catolico-pode-ser-macom:

Permanece, portanto imutável o parecer negativo da Igreja a respeito das associações maçônicas, pois os seus princípios foram sempre considerados inconciliáveis com a doutrina da Igreja e por isso permanece proibida a inscrição nelas. Os fiéis que pertencem às associações maçônicas estão em estado de pecado grave e não podem aproximar-se da Sagrada Comunhão. (Acesso em 15/07/2014).

A principal motivação para essa proibição, na continuidade da reflexão apresentada no site, é que a Maçonaria defende o relativismo religioso como regra fundamental para seus adeptos. Esse fato fere o princípio cristão de que somente Jesus Cristo pode levar à salvação, o que contraria qualquer tipo de relativismo. Assim, desde o século XIX quando diversos documentos papais condenaram a Maçonaria, permanece o veredicto católico sobre o erro de se participar dessa instituição[4].

Já outros sites são bastante agressivos contra a Maçonaria, como, por exemplo, o site http://intellectus-site.com/site2/artigos/maconaria-braco-direito-do-diabo.htm, que em tom violentamente contrário, procura mostrar que os símbolos e ideais maçônicos são contrários à Bíblia e ligados a Lúcifer ou Satanás. No texto do site encontramos:

Deus está entregando o Brasil nas mãos de saqueadores e de homens cujo coração não somente se encontra longe dele, mas cujos intentos nunca levam em consideração nem o amor ao próximo e nem a misericórdia. Porém, estamos falando de uma nação inteira, de um país com quase 200 milhões de pessoas, como se tem dado isto na prática?
As Origens da Maçonaria e de seu Pai, Lúcifer
Essa organização luciferiana, chamada de Maçonaria, diferentemente do que muitos supõem, não é um organismo isolado e singular no mundo. Antes, trata-se de um poderoso segmento do Império de Satanás. (Acesso em 15/07/2014).

Como pode ser entendido pelo texto citado, o autor do site associa a Maçonaria ao satanismo e também reputa a essa instituição o que ele entende como fracasso do Brasil em se tornar uma nação desenvolvida. O interessante deste site é que o autor parece conhecer bastante os ritos e símbolos da Maçonaria, pois se utiliza de imagens dos mesmos e textos maçônicos para exemplificar e contestar cada elemento pertencente à Maçonaria. Ao fim de sua argumentação, a conclusão é bastante contundente:

A Bíblia e a Maçonaria são opostas entre si e eternamente inconciliáveis!
A Maçonaria é uma organização iniciática, ocultista e completamente satânica!
A Maçonaria se infiltrou na política brasileira, e continua infiltrada, e nenhuma nação da Terra pode ser beneficiada por uma organização filha do Inferno! Muito pelo contrário!
O deus da Maçonaria não é o Deus da Bíblia! O deus da Maçonaria é o diabo!
Impossível ser Cristão e Maçom ao mesmo tempo! Mais cedo ou mais tarde, a escolha terá de ser feita, e significará o Céu ou o Inferno, respectivamente.
(http://intellectus-site.com/site2/artigos/maconaria-braco-direito-do-diabo.htm Acesso em 15/07/2014)

O interessante da contraposição desses dois sites em relação à Maçonaria é que a finalidade é a mesma – manter os cristãos afastados dessa instituição –, mas a forma assumida reflete dois modos contemporâneos do cristianismo de combater as demais crenças: a argumentação racional e assertiva com base em pressupostos teológicos, que é característica do catolicismo e demais igrejas protestantes históricas; e a demonização pura e simples, mesmo que acompanhada de certo conhecimento do tema, que é característica das igrejas evangélicas de cunho pentecostal e neopentecostal surgidas nos últimos 120 anos.

Esses dois exemplos que coletamos constituem uma pequena, mas significativa, amostra do que uma rápida consulta ao “Google” oferece: encontram-se 2.400.000 (dois milhões e quatrocentos mil) sites que disseminam informações sobre a Maçonaria e também os que tratam tanto das acusações dos inimigos da Maçonaria como das defesas postadas pelos maçons e seus defensores. Ao consultar o conteúdo de muitos deles, encontramos sempre os mesmos argumentos contrários e as mesmas explicações, mostrando que o diálogo é impossível entre essas correntes de pensamento, e que, apesar da Maçonaria estar expondo publicamente a parte não secreta de seus rituais e doutrinas, não há um limite para o estímulo dos opositores ao imaginário que procura transformar a instituição numa força demoníaca e conspiradora contra a sociedade que se pensa cristã.

Considerações sobre os mitos e o imaginário que cercam a Maçonaria

A consulta aos livros que estudam a história da Maçonaria, aos artigos de divulgação em revistas científicas e de divulgação jornalística e aos sites que tratam dos temas ligados à Maçonaria, nos possibilitaram um entendimento sobre o poder que é atribuído à Maçonaria, o medo e as polêmicas que a instituição suscita socialmente, assim como os motivos para que ela seja condenada pelos defensores mais radicais do cristianismo.

O surgimento dessa instituição num momento histórico de grandes transformações no mundo ocidental, com a revolução produzida pelos ideais renascentistas e depois iluministas, o confronto das novas formas de pensamento com as tradicionais formas de poder que vigoravam desde o final da Antiguidade, mais precisamente o poder monárquico e o clerical, colocou a Maçonaria no centro de muitas polêmicas, principalmente por acolher entre seus adeptos muitos defensores dessas novas ideias.

Aliado a essa opção pela defesa da liberdade de pensamento e de investigação que marcou a Maçonaria desde o princípio, sua constituição sob a forma de sociedade iniciática, adepta do estudo das ciências ocultas cuja origem remonta a um passado mítico, produziu um efeito impressionante sobre o imaginário das sociedades ocidentais onde a instituição atuou decisivamente. A capacidade de manipular o poder, de influenciar decisões, de mudar os rumos dos acontecimentos, sempre foram capacidades atribuídas aos magos. Numa sociedade de maioria cristã e intolerante com outras formas de crença e de conhecimento religioso, o poder mágico atribuído aos maçons só poderia ter uma única origem, que não era, obviamente, ligado a Jesus Cristo.

Hoje os conhecimentos ditos ocultos estão disponíveis na internet sob a forma de artigos, documentários, guias práticos, etc., não constituindo mais nenhum mistério essas informações que – segundo o imaginário coletivo – podem ajudar uma pessoa a manipular situações e mentes. O fato da Maçonaria permanecer como alvo das críticas e oposições ferrenhas dos cristãos está mais ligado ao passado e ao imaginário social do que ao presente, pelo fato da instituição ter perdido – no último século – grande parte de seu estímulo para lutar por ideais que agora já são bastante comuns e públicos.

É sobre esse aspecto que trataremos na continuidade do texto.

A presença da Maçonaria na História e o discurso e práticas atuais

Já abordamos rapidamente alguns aspectos da participação da Maçonaria e dos maçons na Revolução Francesa e na Independência dos Estados Unidos. Nessas duas nações inspiradoras da maior parte dos ideais que hoje fundamentam a cultura ocidental, assim como na Grã-Bretanha, nação onde se originou a instituição maçônica, o papel da Maçonaria foi muito importante historicamente. Chatenet (2009), por exemplo, afirma que, entre George Washington e Bill Clinton, apenas dois presidentes americanos não pertenceram à Maçonaria: John Kennedy e George Bush.

Se olharmos para a história do Brasil, apesar da participação maçônica não ter sido tão preponderante como nos EUA, houve claras influências da Maçonaria no movimento republicano e abolicionista, assim como na direção que o Brasil tomou na Primeira República. (AZEVEDO, 1996; BARATA, 1999).

As ideias maçônicas estão presentes no Brasil desde o final do século XVIII (AZEVEDO, 1996, ACIOLY, 2004), havendo especulações sobre a presença dessas ideias na Inconfidência Mineira. Entretanto, há certo acordo entre os historiadores de que a primeira Loja foi fundada em 1801. Nas décadas seguintes, até 1860, aconteceu grande expansão das Lojas pelo Brasil, que se afiliaram às tradições maçônicas francesa, belga, portuguesa e inglesa (AZEVEDO, 1996, p. 182).

Apesar de ser impossível dissociar as atividades maçônicas das principais questões que motivaram transformações no Brasil durante o período imperial e no início da República, poucos estudiosos se aventuraram a um aprofundamento maior sobre a real participação da Maçonaria nos eventos políticos, econômicos, sociais e culturais.

Barata (1999) procurou mostrar a Maçonaria no Brasil – como também na sua origem europeia – como a principal divulgadora dos ideais do iluminismo e da ilustração, tendo seus membros se tornado alguns dos mais importantes defensores da abolição da escravidão, da necessidade de modernização para o país, tanto economicamente como na área da educação. O esforço para retirar da Igreja Católica o predomínio sobre o sistema educacional brasileiro aparece como um dos principais investimentos maçônicos, fato que aconteceu nos principais estados do Brasil, como também mostra o artigo de Colussi (2000) quando aborda a participação da Maçonaria no Rio Grande do Sul.

Vieira (1999) centra seu foco na participação da Maçonaria na Questão Religiosa (ocorrida entre 1872 e 1875), conflito que envolveu a Maçonaria, a Igreja Católica e o Regime Imperial, e que contribuiu significativamente para o aumento do descrédito do governo monárquico de conduzir o Brasil ao desenvolvimento, à medida que tinha dificuldade de lidar com o poder religioso e impor sua autoridade (ROMANO, 1979). Esse conflito acabou por beneficiar o movimento republicano e o movimento favorável à vinda de imigrantes para substituir a mão de obra escrava. Para Vieira (1999) a Questão Religiosa e a atuação da Maçonaria – mesmo que os protestantes também tivessem dificuldade de aceitar a instituição maçônica – contribuíram para que o Protestantismo tivesse maior liberdade de atuação no Brasil, país que tinha na época o catolicismo como religião oficial.

Morel e Souza (2008), numa abordagem fundamentada historicamente, mas com o viés do enfoque e da linguagem jornalística, esforçam-se por apresentar um panorama geral da Maçonaria, desde seu surgimento na Grã-Bretanha, explicando seus mitos e sua condição de organização iniciática, até sua chegada e desenvolvimento no Brasil. Procuram mostrar a participação dos maçons nos principais eventos da política brasileira no século XIX e contradizem a tese de Sérgio Buarque de Holanda de que a Maçonaria perdeu força no Brasil devido ao avanço do pensamento positivista. O aspecto diferenciado da obra de Morel e Souza (2008) é ter avançado até o período contemporâneo, quando há um silêncio entre historiadores sobre a Maçonaria, analisando a transformação da Maçonaria em função das transformações culturais acontecidas no Brasil e no mundo.

Azevedo (1996) procura fazer uma reflexão sobre esse silêncio que cercou os estudos sobre a Maçonaria a partir da década de 1940. A autora afirma que mesmo os historiadores da Escola dos Annales pouco se interessaram pelo tema desde a fundação da revista (AZEVEDO, 1996, p. 186). Outro fato que a autora destaca, é que no Congresso Internacional do Bicentenário da Revolução Francesa, realizado na Sorbonne em 1989, entre as mais de duzentas comunicações apresentadas nenhuma tratou da participação da Maçonaria (AZEVEDO, 1996, p. 188).

Algumas explicações têm sido apresentadas para justificar – segundo a autora – o silêncio a que os historiadores relegaram a Maçonaria. A primeira delas é “o impacto do mito da conspiração maçônico-judaica que perpassou o imaginário europeu desde o início da década de 1930” (AZEVEDO, 1996, p. 188), outro motivo seria a dificuldade de acesso às fontes maçônicas, sigilosas pela própria natureza da instituição, por fim, a opção por não pesquisar uma sociedade secreta que supostamente estuda ciências ocultas, tema pouco interessante para a abordagem mais racionalista contemporânea.

Na abordagem de Azevedo (1996), assim como em Morel e Souza (2008) e em reportagens das revistas História Viva e Superinteressante, aparece um aspecto que se mostra bastante relevante para a abordagem que procuramos dar sobre o tema: apesar dos elementos míticos e imaginários que cercam a Maçonaria ainda nos dias atuais, a instituição se tornou comum, isto é, deixou de ser uma vanguarda do pensamento político e cultural como foi nos tempos em que os ideais iluministas ainda necessitavam de um intenso esforço para se tornarem a base da sociedade ocidental.

Nos dias atuais a liberdade de pensamento é uma realidade no ocidente, a liberdade de iniciativa, a liberdade religiosa, a educação laica, a sociedade e os costumes secularizados já constituem o núcleo fundamental da cultura ocidental, tornando, nessa perspectiva, a Maçonaria uma instituição comum, com participação política e social naturalmente aceitas, mesmo que relativamente estigmatizada pelo fato de manter secretos seus rituais. Essa atual posição da Maçonaria na sociedade aparece, por exemplo, no texto de Gwercman (2005) que, citando trecho da entrevista de H. Paul Jeffers, autor de um livro sobre a Maçonaria, escreve: “Atualmente, a maçonaria mais parece uma tentativa por parte de homens bem intencionados, na maioria brancos e velhos, de entender o sentido da vida.” (GWERCMAN, 2005, p. 59).

Essa afirmação parece ser um exagero, mas as indicações dos sites e das reportagens mostram que, realmente, o que intriga e incomoda os não maçons é o mistério e o imaginário, particularmente as construções negativas que já citamos: satanismo, complôs, etc.

Nas reportagens de revistas que selecionamos para analisar como a Maçonaria aparece atualmente nas publicações, à medida que os livros sobre a Maçonaria que citamos são poucos e provavelmente lidos por um restrito número de pessoas, emergem alguns traços interessantes que devem ser destacados.

Nefontaine (2007), por exemplo, aponta que o segredo ou discrição – como dizem os maçons – é uma condição para manter um dos pontos centrais da organização: a liberdade de pensamento e de busca do conhecimento. Não falando sobre os rituais e sobre as experiências internas que acontecem nos templos, os maçons reservam esse local para a vivência de momentos únicos, voltados para a reflexão e para o debate sobre todos os temas que estão em voga na sociedade, na política, na economia, na ciência e na espiritualidade. Esse autor afirma:

Mas qual a eficácia de ocultar informações? Na França, as lojas maçônicas foram apresentadas como laboratórios de ideias em que novos temas podiam ser explorados com total liberdade, o que contrastava com as tendências naturalmente conservadoras e imobilistas da sociedade. Assim, o segredo permitiu a eclosão e a discussão livre de ideias novas e progressistas, que puderam concorrer para o estabelecimento de legislações sociais e éticas como o descanso remunerado, a liberação do aborto a partir de 1973, a contracepção e o planejamento familiar. (NEFONTAINE, 2007, p. 63)

Outro aspecto que aparece como relevante para a análise sobre a atuação da Maçonaria na atualidade refere-se à suposta proteção social que os maçons recebem da Organização. Gwercman (2005) propõe que a Maçonaria, apesar de não estar mais tão ativa na busca pela influência direta no poder político, permanece atuando nos bastidores para conseguir favores ou alcançar metas que podem ser voltadas tanto para benefícios sociais (hospitais, creches, casas de correção, etc.) como para beneficiar os próprios irmãos. Nesse sentido o autor lança algumas indagações:

Muitos maçons brasileiros adoram listar pessoas importantes que integram a ordem. São empresários, policiais de alta patente, políticos, juízes. Todos unidos pelo compromisso de ajuda mútua – irmão que é irmão nunca deixa o outro na mão. Atualmente, por exemplo, circula entre os maçons paulistas a história de um julgamento recente, parte de um escândalo nacional, que caminhava para a condenação do réu e mudou de rumo após telefonemas entre altos membros do tribunal. Advogados, juízes e o acusado eram iniciados na ordem. Casos assim são frequentemente ouvidos, ainda que na maioria das vezes em tom de boato. E preocupam muita gente. Por mais que os integrantes da maçonaria sejam gente da mais fina estirpe e dotados das melhores intenções, será que têm condições de abandonar os valores e pactos da fraternidade na hora de exercer cargos na sociedade pública? (GWERCMAN, 2005, p. 59)

Esse é um problema que, com certeza, não obterá resposta. Todas as pessoas que ocupam cargos públicos – sejam maçons ou não – podem cometer o mesmo tipo de ato de improbidade, beneficiando parentes, amigos, membros da mesma religião, etc. Não há nenhuma garantia de honestidade quando esses fatores estão em jogo, sendo os casos de honestidade a exceção à regra. Então, esse não é um problema dos maçons, mas – como já afirmamos – do imaginário social que leva grande parte das pessoas a enxergar a Maçonaria sob a ótica que a tem marcado desde o início de suas atividades.

Considerações Finais

A modernidade tardia ou pós modernidade[5] trouxe a necessidade das instituições tradicionais da sociedade ocidental se reinventarem. A não aceitação pura e simples das verdades religiosas ou científicas, por um lado, e a liberdade de investigação e busca por caminhos alternativos de conhecimento e realização pessoal, por outro, redefiniu ou vem redefinindo os papéis e a importância das instituições dentro da ordem social, assim como sua perspectiva de alcançar ou manter o sucesso de suas ideias, crenças, doutrinas e regras.

Ao abordar a Maçonaria como tema de reflexão, nos colocamos diante do fato de que há grande riqueza na história da instituição e também múltiplas interpretações existentes sobre a criação e o desenvolvimento da mesma, assim como sobre seus rituais e sua participação na história de muitas sociedades. Mas entendemos que hoje essa riqueza pode não ser suficiente para a continuidade de suas atividades no nível em que quase sempre se colocou.

No nosso entender, o mito de origem da Maçonaria ainda constitui uma forma de conferir autoridade e reverência aos rituais e conhecimentos que a instituição ensina internamente e defende socialmente. Colocar-se como herdeira da tradição dos grandes construtores da humanidade, conhecedores da arte de erguer monumentos extraordinários – como os egípcios – é se afirmar a partir de conhecimentos imemoriais, que não precisam ser verdadeiros, no sentido que é dado pelo Cristianismo e pela ciência, mas no sentido mítico, como modelos exemplares de conduta e comportamento. Nessa perspectiva, os mitos maçônicos são compreensíveis e conferem sentido à existência de uma instituição como a Maçonaria.

Entendemos também que o imaginário social, construído, como vimos, durante e após a Revolução Francesa e a Independência dos Estados Unidos, mostra que a instituição lutou por seus ideais como qualquer outra instituição e que o fato de ser uma Ordem iniciática e que mantém seus rituais em segredo, causou maior preocupação nos não adeptos do que o poder real que a instituição possuiu durante sua história. Seus membros fizeram política, procuraram influenciar os destinos das sociedades em que participavam – assim como os cristãos sempre fizeram – mas foram demonizados por não tornarem públicos os seus membros e seus ritos e doutrinas.

A curiosidade, e também o medo, em relação a tudo que é misterioso, emoção comum à maioria dos seres humanos, parece ser o fermento que impulsionou o imaginário antimaçônico, deixando sempre a dúvida sobre se existe mesmo todo o poder que é conferido a essa instituição. De qualquer modo, os maçons continuam mantendo esse imaginário intacto – e talvez se divertindo com ele – porque permanecem fiéis aos segredos da Ordem e continuam atuando sem que a sociedade saiba exatamente onde começa e onde termina sua influência.

Uma questão para ser investigada é se esses mitos e esse imaginário, nas condições do tempo atual, são adequados à manutenção da Maçonaria como uma instituição de peso na sociedade, como aparenta ter sido em outros momentos históricos. Nesse sentido, instituição maçônica não correria o risco – por ter perdido o sentido de sua antiga luta por valores universalistas nos campos político e religioso – de se tornar apenas uma instituição de sociabilidade, que agrega pessoas em torno da manutenção de um status que não representa mais a riqueza da construção histórica e imaginária que a fundamenta?

Autor: André Luiz Caes

Fonte: Revista Sapiência- Sociedade, Saberes e Práticas Educacionais

*Clique AQUI para ler a primeira parte doa artigo.

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Notas

[4] – Podemos citar a Carta Encíclica Humanum Genus, publicada pelo Papa Leão XIII em 20 de abril de 1884, a primeira a não apenas condenar a Maçonaria, mas a apresentar argumentos sobre o posicionamento da Igreja e não apenas acusações. Conferir: http://w2.vatican.va/content/leo-xiii/pt/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_18840420_humanum-genus.html Acesso em 15/07/2014.

[5] – Não entramos particularmente na discussão desses conceitos, que podem ser melhor compreendidos em diversas obras, das quais citamos: GIDDENS, Anthony. As consequências da modernidade. São Paulo: Unesp, 1991; BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar na pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.

Referências

ACIOLY, Augusto César. As luzes da Maçonaria sobre Pernambuco. Recife: UFPE,
ANPUH, Anais, Outubro/2004.

AZEVEDO, Célia M. Marinho de. Maçonaria: história e historiografia. São Paulo:
Revista USP (32), Dezembro/Fevereiro, 1996/1997.

BARATA, Alexandre Mansur. Luzes e Sombras. A ação da Maçonaria brasileira
(1870-1910). Campinas: UNICAMP, 1999.

BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar na pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.

BENHAMOU, Philippe. Uma fabulosa indústria de teorias. São Paulo: Ed. Duetto, Revista História Viva nº 71, Ano VI. p. 28 e 29.

BENHAMOU, Philippe. A lenda do complô maçônico. São Paulo: Ed. Duetto, 2009a. Revista História Viva nº 71, Ano VI. p. 30 a 33.

CAES, André Luiz. Da espiritualidade familiar ao espírito cívico: a família nas
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CHATENET, Madeleine du. A irmandade faz a América. São Paulo: Ed. Duetto, 2009. Revista História Viva nº 71, Ano VI. p. 37 a 41.

COLUSSI, Eliane Lucia. A Maçonaria gaúcha e a defesa do ensino laico no período da República Velha. Pelotas: Universidade Federal/ASPHE/FAE, História da Educação, nº 7, abril 2000, p. 59 a 73.

CROATTO, José Severino. As linguagens da experiência religiosa: uma introdução à fenomenologia da religião. São Paulo: Paulinas, 2010.

DARNTON, Robert. Boemia literária e Revolução: o submundo das letras no Antigo Regime. São Paulo: Cia. das Letras, 1987.

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GIDDENS, Anthony. As consequências da modernidade. São Paulo: Unesp, 1991.

GWERCMAN, Sérgio. A Ordem. São Paulo: Editora Abril, 2005. Revista
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LOPES, Reinaldo. Guerreiros de Cristo. São Paulo: Editora Abril, 2006. Revista
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MOREL, Marco e SOUZA, Françoise Jean de Oliveira. O poder da Maçonaria: a
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VIEIRA, David Gueiros. O Protestantismo, a Maçonaria e a Questão Religiosa no
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Sites:
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http://w2.vatican.va/content/leo-xiii/pt/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_18840420_humanum-genus.html

Autor: Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Academia Mineira Maçônica de Letras. Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com

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