“Os filhos da viúva” sob a ótica da suspeição (Parte I)

Congregados marianos, intelectuais católicos, repressão e estratégias de reorganização maçônica nos meandros da burocracia do estado (1937-1945)

Aventuras na História · Na mão de Getúlio Vargas, o Congresso ficou fechado  por nove anos

No dia 15 de dezembro de 1938, mais de um ano após a ordenação de fechamento das lojas maçônicas em Pernambuco, a oficina maçônica Barão do Rio Branco, localizada, na cidade de Rio Branco, interior de Pernambuco (atual Arcoverde), teve suas portas reabertas, com a presença dos seus membros. Porém, a reunião que aconteceria nas suas dependências na Rua Cardeal Arcoverde, no centro da cidade, não se revestia de nenhum caráter administrativo, ritualístico ou festivo, o objetivo principal da reunião, era cumprir a nova determinação expedida pelo Dr. Etelvino Lins[1], Secretário de Segurança Pública do Estado, que, através do ofício nº 2570, enviado no dia 22 de outubro de 1938, recomendava o encerramento definitivo e a extinção das lojas maçônicas no Estado. (ATA, 1938 ).

Segundo o relato do Delegado de Polícia Política local, o Sargento do 3º Batalhão, Paulo Ferreira Dantas, após entrar em entendimento com os membros da loja e a formação de uma comissão com cidadãos de Rio Branco que não possuíam vínculos com a oficina maçônica local, ficou resolvido que a comissão de cidadãos, usufruiria da permissão de decidir qual seria o destino do patrimônio da Loja Barão do Rio Branco. Diante destas tratativas foi autorizada a abertura da sede da oficina maçônica, para a realização de uma reunião, que possuía as seguintes finalidades:

PRIMEIRO: desligar a referida Loja da obediência do Grande Oriente e Supremo Conselho do Brazil, tornando-se uma organização independente; SEGUNDO: nomear uma comissão de cidadãos idoneos, residentes nesta cidade com poderes bastante geraes que lhes ficam outorgado desde já vender todos os haveres, bens moveis e imóveis da referida loja, assim como assinar documentos dar quitação, pagar seus débitos e se saldo houver fazer doação ao mesmo a quem julgar conveniente: TERCEIRO: extinguir para sempre a loja maçonica Barão do Rio Branco. (ATA, 1938)

Através da passagem destacada é possível observar que as exigências e recomendações enviadas à Secretaria de Segurança Pública de Pernambuco, que deveriam ser cumpridas, endureceriam ainda mais com relação aos setores maçônicos no estado; propondo inclusive, como ficou assinalada no terceiro tópico, a da eliminação da loja maçônica local, podemos, então, verificar na maneira como o terceiro ponto foi redigido, a utilização de uma postura e argumento com forte teor autoritário e baseado na justificativa e possibilidade de eliminação do outro, posição comum em governos que se orientam por posições ditatoriais. O ponto em questão atrelado às outras duas determinações foi colocado em votação e aprovado pela assembleia formada por maçons e não maçons, constituindo-se em exemplos que passaram a orientar a postura oficial com relação aos segmentos maçônicos assumidos pelo regime do Estado Novo em Pernambuco de 1937 a 1945.

Muito do desejo pelo silenciamento dos maçons locais, principalmente, com o advento do Estado Novo, devia-se ao fato de que, parte do secretariado de Agamenon foi formada do ponto de vista intelectual, tanto dentro de uma forte cultura anticomunista, quanto de um gritante antimaçonismo, que, na visão desses setores, nada mais era do que um desdobramento daquele ideário político, patrocinado em grande parte pelo judaísmo internacional. (GIRARDET, 1987; ALMEIRA, 2001; SILVA, 2010).

Sob tal aspecto, esta visão tinha um lastro ambientado no forte sentimento antissemita, introjetado em muitos dos líderes intelectuais e políticos pernambucanos, que ganhavam espaço no governo Agamenon[2]. Concepções que foram forjadas na militância que alguns destes membros tiveram em associações juvenis católicas a exemplo da congregação mariana vinculada ao colégio Nobrega do Recife, uma das associações mais dinâmicas e reconhecidas pelo seu conservadorismo, sob a supervisão espiritual e intelectual do padre Fernandes.

Segundo Silvia Cortez Silva (2010), o staff do Estado Novo, sob a intervenção de Agamenon, era, em grande parte, formada por figuras que se encontravam vinculada aos setores intelectuais ligados ao ideário católico e que eram remanescentes da Congregação Mariana do Colégio Nóbrega, sendo neste sentido, como apontamos “filhos intelectuais” do Padre Antônio Fernandes, o principal mentor dos congregados, personagem que nos “Tempos de Agamenon”, usufruiria de livre circulação nos espaços de poder. (CABRAL; LIMA, 2011).

Um dos mais importantes colaboradores do governo Agamenon e Secretário de Segurança Pública, Etelvino Lins, que assumiu a pasta em dezembro do ano de 1937, militou e formou o seu caráter e intelectualidade, neste centro de sociabilidade católica e conservadora. Tal ideário assumiu gradativamente mais espaço no interior do campo político e intelectual pernambucano e nacional no pós-1930 e de maneira intensa ao longo do Estado Novo, a partir da estratégia de reaproximação entre Igreja Católica e o Estado, fomentando assim, um ideário de fortalecimento e restauração dos valores e visões de mundo católico desfrutando de espaços cada vez mais no campo burocrático do estado pernambucano. (ATAÍDE, 2001; DIAS, 1996; MOURA, 2012).

No caso de Pernambuco, através de Agamenon Magalhães[3], procurou–se construir a cópia fiel e aproximada, do modelo de governo do Estado Novo idealizado por Getúlio Vargas. Dentre os seus colaboradores mais diletos, o interventor pernambucano assumia papel de destaque. Diante dessa configuração de poder político, é possível observar, que, os congregados estariam, tanto no primeiro, quanto nos demais escalões da administração do Estado, usufruindo assim, de uma rede de sociabilidades e solidariedades, que não deixariam de influenciar e efetivar de alguma maneira as estratégias de ação do novo regime, principalmente, com relação a determinados segmentos. Animados por este “espírito novo”, emanado pelo regime político que se instaurava, seriam abertas várias cruzadas contravalores e práticas compreendidas como contrárias à visão que moldava o Estado Novo. (PIRES, 2008; SILVA, 2010).

Neste sentido, os maçons, o carnaval de rua, as religiões de matriz africana, as doutrinas espiritas e protestantes, nada passava incólume aos olhos do Estado, que desempenhava uma postura vigilante, comportamento próprio de um regime autoritário e de força, como o instaurado pelo Estado Novo. Dentro de tal lógica, todo e qualquer segmento que não se enquadrasse dentro da visão de mundo da Igreja Católica, passou então a ser julgado pelo signo da desconfiança, sendo alvo do poder fiscalizador e investigativo do Estado. (CAMPOS, 2009).

As aproximações dos representantes da intelectualidade católica conservadora, via congregação mariana, dos órgãos de segurança e repressão, passaram a constituir-se uma rotina. Um dos intelectuais pernambucanos, que presenciou a instalação desta lógica, entremeada de intolerância, violência e perseguições, foi o escritor Paulo Cavalcanti (1985). No seu livro de memórias, esse autor remontou o cenário de espionagem e perseguição instaurado pela força policial do Estado Novo, traçando as suas ligações com a intelectualidade e com o laicato católico, que tinha nos congregados marianos o seu modelo mais elaborado.

Este espírito no qual os órgãos de vigilância, que haviam se constituído de maneira inicial, no inicio da Era Vargas, apresentavam-se como instrumentos de observação e monitoramento, marcaria a lógica da suspeição destacada por Giselda Brito Silva (2002), tal perspectiva construiu procedimentos de força que reforçava a vigilância dos supostos adversários políticos e intelectuais, através da imprensa que reforçava a construção de estereótipos e estigmatização não apenas para os supostos adversários políticos, como os comunistas, principalmente no pós-1935, quando ocorre uma intensificação, mas também para grupos que estariam no mesmo campo político, no caso os integralistas. Os maçons que não se constituiriam como partido organizado, mas que devido, a um conjunto de pautas que podem ser relacionadas à defesa do ideário liberal, passaram a ser compreendidos como “suspeitos”, principalmente a partir de 1937 e no caso de Pernambuco a força do ideário católico-conservador, que se apresentava em vários espaços da burocracia estatal, constituía-se num incremento a mais desta lógica de suspeição.

Relembrando aquele contexto, Paulo Cavalcanti apresentou este momento político de Pernambuco, destacando o posicionamento de forte viés de autoritarismo, que marcou os “Tempos de Agamenon”, desconstruindo assim, a versão que o governo pretendia construir, como uma verdade a ser imposta à memória pernambucana:

A polícia de Agamenon Magalhães sob a influencia dos congregados marianos e do seu líder, o Padre Jesuíta Antônio Fernandes, se arrogava o direito de espionar as atividades dos “nova-seitas”, dos “catimbozeiros”, dos “venerandos-irmãos” e dos espiritas, tratando-os sob a vala comum dos excomungados da Igreja ou dos perseguidos políticos da ditadura do Estado Novo. (1985, p. 21).

Os “venerandos-irmãos” era o termo utilizado pelos intelectuais do segmento católico, de forma irônica, para se reportar aos maçons. Como podemos observar no testemunho elaborado por Paulo Cavalcanti, apresentava a perspectiva de que os segmentos, indivíduos ou grupos eram considerados suspeitos, sendo desta forma, encarados e reduzidos à lógica da suspeição implantada pelo aparato policial varguista e intensificado nos tempos do Estado Novo, construindo de maneira racional uma confusão entre diferentes personagens como maçons, protestantes, espiritas e praticantes das religiões de matriz africana. Tal estratégia justificava-se, pelo fato de estabelecer no campo discursivo um processo de homogeneização, que tinha como centro difusor do discurso as autoridades policiais e intelectuais de matriz católica-conservadora, na operação deste discurso. Dimensão que fortalecia a postura vigilante, de suspeição e a repressão de todos estes segmentos que eram tratados como iguais. (SILVA, 2002).

Outra figura que, junto com Cavalcanti, testemunhou o poder usufruído pelos Congregados Marianos na equipe de Agamenon, foi o jornalista e político pernambucano, Andrade Lima Filho[4], no seu livro China Gordo: Agamenon e sua época (1976). Obra que mescla dados autobiográficos, com a percepção do autor sobre a realidade política, tanto da fase em que Agamenon foi interventor quanto do momento em que o político voltou ao governo de Pernambuco na década de 1950, este último momento de forma democrática.

Esse autor destacou a influência e o poder de Agamenon na elaboração de uma bem urdida trama política, tendo como espaço privilegiado de sua atuação política as diversas regiões e setores do estado. Andrade Lima destacou ainda, o prestígio e a influência que a Congregação Mariana desfrutava no interior e espaços de poder do Estado Novo, aspecto que podia ser vislumbrado, a partir dos vários cargos administrativos de relevância ou até mesmo do 2º escalão do governo, que, a partir de dezembro de 1937, muitos dos seus “antigos” filiados desempenharam na interventoria do “China Gordo”.

Sob tal aspecto Andrade Lima observou: Oriundos todos da então poderosa Congregação Mariana, à época dirigida pelo famoso jesuíta hindu padre Antonio Fernandes, compunham eles a “inteligentzia” totalitária de Agamenon. Lá estavam: na Segurança, Etelvino Lins, seu Pina Manique; na Fazenda, Manuel Lubambo, o maurrasiano do grupo monarquista de Fronteiras; na Justiça, com a saída de Moura, Arnóbio Tenório, antes ocupante da secretaria do Governo; e, na Agricultura, Apolônio Sales, fazendo estágio para o Ministério, onde alternaria, depois, a criação de perus de raça com a pratica dos exercícios espirituais, acumulando, assim, as vitualhas do corpo e as provisões da alma. Mas havia outros “infantes”: Nilo Pereira, por exemplo, colocado, à inglesa, no seu “rigth place”, isto é, o setor da Educação, ainda departamento, ou José Maria Albuquerque Melo, que substituiu Tenório na secretária do Governo e a quem incumbia, entre outras coisas, encaminhar, depois de datilografado e revisto, o artigo de Agamenon para a Folha da Manhã. (FILHO, 1976, p. 43).

Diante desse quadro de profissionais que, além do rigor técnico, ainda se destacavam como exímios católicos militantes, ocupando locais e funções de direcionamento e implantação de políticas para o Estado, não podemos deixar de considerar a força que tiveram, no sentido de impedir qualquer projeto ou ação de setores que não estivessem alinhados com a visão de mundo católico. Tais aspectos, como podem observar a partir das memórias tanto de Paulo Cavalcanti, quanto de Andrade Lima, acabou voltando-se para vários segmentos sociais e políticos, a exemplo, no caso específico do nosso texto, dos maçons.

É bem provável, como observaremos nas páginas seguintes, que a dificuldade em reorganizar a vida maçônica em Pernambuco no pós-1937, deu-se em grande medida devido à pressão que os congregados realizavam para barrar qualquer possibilidade de retorno ao cenário pernambucano das atividades maçônicas. Assim, enquanto, no Rio de Janeiro as atividades maçônicas voltaram à normalidade, a partir de janeiro de 1938, em Pernambuco, estas atividades permaneceram suspensas até 1945, quando as colunas do Estado Novo, começaram a ruir.

Continua…

Autor: Augusto César Acioly Paz Silva

Fonte: Revista de História – USP

*Augusto é Doutor em História pela Universidade Federal de Pernambuco – UFPE. Professor do Departamento de História do Centro de Ensino Superior de Arcoverde, instituição ligada à Autarquia de Ensino Superior de Arcoverde, cidade de Arcoverde, Pernambuco.

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Notas

[1] – Filho do escritor e político Ulisses Lins e Rosa Bezerra Lins de Albuquerque, nasceu em 20 de novembro de 1908, no município de Alagoa de Baixo, atual Sertânia em Pernambuco. Descendentes da elite agrária e política local. Bacharelou-se em Direito na Faculdade de Direito do Recife no ano de 1930, assumiu muitos postos da administração pública do Estado, dentre os quais promotor de Goiana, segundo e primeiro delegado auxiliar, com a implantação do Estado Novo, em 1937, foi convidado a exercer a função de Secretário de Segurança de Pernambuco até 1945, quando através da articulação do interventor Agamenon Magalhães, foi nomeado interventor de Pernambuco permanecendo nesta função até as eleições de 1945, preparando o processo de transição para a redemocratização do período pós Estado Novo, ao longo do século XX, assumiu vários postos políticos de representação do Estado, foi sempre um aliado de primeira hora de Agamenon Magalhães. IN: Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro pós 1930. 2ª ed. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2001.

[2] – O governo de Agamenon Magalhães, que ocorreu no período de 1938 a 1945, foi reconhecidamente um dos modelos de interventoria que materializaram de forma destacada o ideário estadonovista. No caso do seu staff, tivemos a participação de muitos personagens forjados dentro de uma cultura política e intelectual, referenciados por sociabilidades nos quais segmentos da Igreja Católica local possuíram destacado papel na formação destes indivíduos, o que no leva a compreender porque os entraves ao funcionamento das atividades maçônicas permaneceram interditados aqui em Pernambuco, mesmo quando foram retomadas em outros estados da federação como Rio de Janeiro e São Paulo, antes mesmo do final do Estado Novo.

[3] – Natural da Vila Bela, atual Serra Talhada no estado de Pernambuco, nasceu no ano de 1893, estudou na Faculdade de Direito do Recife (1912-1916) assumiu no ano de 1918, o cargo de promotor público na cidade de São Lourenço da Mata, foi eleito no ano de 1918 como deputado estadual, iniciando a sua carreira política, pela legenda do Partido Republicano Democrata, com o apoio de Manuel Borba, iniciou a sua colaboração na imprensa, através dos jornais A Ordem e A Província, foi um dos entusiastas da candidatura de Nilo Peçanha, e apoio o movimento de 1930 em Pernambuco. Ao longo da década de 1930, desempenhou várias funções políticas foi um aliado de primeira hora de Getúlio Vargas, com a instalação do Estado Novo, tornou-se interventor no período de 1938-45, saindo deste cargo para assumir a pasta de trabalho e articular a transição para a redemocratização. Elegeu-se governador de Pernambuco em 1950 e faleceu de um ataque cardíaco em 1952. IN: Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro pós 1930. 2ª. Ed. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2001.

[4] – Antonio de Andrade Lima Filho nasceu em 1910, na cidade de Goiana/PE, formou-se em Direito pela Faculdade de Direito do Recife e Ciências Econômicas, na juventude militou na AIB, desempenhou atividades ligadas ao jornalismo, advocacia e ao ensino, foi deputado federal nas legislaturas de 1959-1967, faleceu no ano de 1983 na cidade do Recife.

Autor: Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Academia Mineira Maçônica de Letras. Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com

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