A Herança Grega na Maçonaria – 4ª Parte

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Grécia: Nascimento da Filosofia? As influências do Pensamento Grego e os Filósofos Gregos mais estudados no âmbito da Maçonaria. Os estudiosos maçons e suas considerações sobre a Filosofia

Desde o início dessa proposta, buscamos mostrar aqui o que a Maçonaria absorveu da cultura grega, incluídos vários dos aspectos pertinentes. Este que pretende ser o último trabalho da série irá tratar da filosofia grega e dos seus luminares. A Maçonaria vem se utilizando desde muito tempo desse cimento cultural, dessa sabedoria toda que, antes de tudo, é necessário dizer, é patrimônio da humanidade inteira. Veremos ao longo deste trabalho, então, quais as maiores influências recebidas pela Maçonaria, quais os filósofos gregos que no seio da nossa doutrina maçônica são mais estudados e aproveitados. Mas, para começar, que tal nos municiarmos com algumas informações a respeito das prováveis origens da filosofia? 

Da Mitologia para a Filosofia?

Antes de darmos início, uma pergunta já vem embutida, se é que queremos falar das origens da Filosofia: Como se deu o rompimento do pensamento mítico, que precedeu ao pensamento filosófico na Grécia antiga?

Em um determinado momento, compreendido no período que vai do século X ao VI a.C., uma série de condições históricas acabaram sendo favoráveis para que houvesse o surgimento de uma nova maneira de pensar. Uma nova forma de abordar a realidade, responsável por romper aos poucos com aquilo que se convencionou chamar de pensamento mítico.

Esse pensamento mítico, para entendermos melhor, tinha muito da sua fundamentação registrada em quatro obras cujos títulos e autores são: a “Ilíada” e a “Odisseia” de Homero, e a “Teogonia” e “Os Trabalhos e os Dias” de Hesíodo.

Essas epopeias podem ser consideradas então, a essência do pensamento mítico. Elas são definidas por Joel Gracioso em seu artigo “Investigação da Existência” da seguinte forma: “As epopeias são o resultado da mistura de lendas jônicas e eólias, incorporando relatos sobre viagens marítimas e outros elementos advindos do contato do mundo grego com a cultura de outros povos.

Mas, depois de todos aqueles deuses mostrando seus inúmeros poderes, que se envolvem com os mais variados tipos de transformações, que interferem nas vidas dos seres humanos e na natureza, eis que, no discurso mítico, o fabuloso e o fantástico são coisas normais, algo começa a mudar. Essa maneira que até aquele período vigorara, de entender o mundo e também de pensá-lo com a presença maciça dos deuses, começa a definhar e uma nova e instigante matriz de pensamento irrompe. O seu nome: filosofia.

Vejamos o surgimento da filosofia sob mais de uma ótica, e isso assim, vai ajudar a alargarmos os horizontes dos nossos pensamentos.

O Nascimento da Filosofia

No “Vade-Mécum Maçônico”, de autoria do Irmão João Ivo Girardi, no verbete “FILOSOFIA, HISTÓRIA DA”, em seu item 1, intitulado Filosofia Pré-Socrática, em suas primeiras linhas, é possível termos uma visão sucinta dos primeiros tempos da Filosofia grega:

“Por filosofia entendemos uma forma completamente nova de pensar, surgida na Grécia por volta de 600 a. C. Antes disso, todas as perguntas dos homens haviam sido respondidas pelas diferentes religiões. Essas explicações religiosas tinham sido passadas de geração para geração através de mitos. Um mito é a história de deuses e tem por objetivo explicar por que a vida é assim como é. Ao longo de milênios, espalhou-se por todo o mundo uma diversificada gama de explicações mitológicas para as questões filosóficas. Os filósofos gregos tentaram provar que tais explicações não eram confiáveis. Criticaram os deuses porque tinham muita semelhança com os homens. Eles eram tão egoístas e traiçoeiros como qualquer um de nós. Pela primeira vez na história da humanidade foi dito claramente que os mitos talvez não passassem de frutos da imaginação dos homens. Um exemplo dessa crítica aos mitos pode ser encontrado no filósofo Xenófanes, nascido por volta de 570 a.C. Para ele, as pessoas teriam criado os deuses a sua própria imagem e semelhança. Naquela época os escravos faziam todo o trabalho braçal e os cidadãos livres podiam dedicar-se exclusivamente à política e à cultura; sob tais condições de vida, o pensamento humano deu um salto; sem depender de nada e de ninguém, cada indivíduo podia agora opinar sobre como a sociedade devia ser organizada. Desse modo, o indivíduo podia formular suas questões filosóficas sem ter que para isso recorrer à tradição e mitos. E assim a filosofia se libertou da religião.”

Há seguramente, os prós e os contras. Vejamos um pouco do que essas outras cabeças pensam:

John Burnett (1863-1928), professor de origem escocesa, diz que a filosofia nasceu quando as velhas explicações míticas já não convenciam mais, por conseguinte, os pensamentos de ordem filosófica somente poderiam florescer num local onde não existisse qualquer influência da mitologia.

E podemos perguntar: Será que foi tão simples assim? F.M.Cornford (1874-1943), professor e poeta inglês, procurou mostrar que a estrutura dos Mitos ainda estava presente nos filósofos que se sucederam. Isso quer dizer que, além de se utilizarem dos termos próprios do universo da mitologia, eles faziam uso de um empréstimo conceitual. Resumindo: a Filosofia herdou e continuava a se utilizar do conteúdo do Mito.

Comentários

Com relação ao nascimento da Filosofia há várias teses. Para uns, nem caberiam eventuais discussões, pois, ela tem data e local de nascimento: final do século VII e início do século VI nas colônias gregas da Jônia na Ásia menor. Mas, há controvérsias. Há os que defendem uma origem oriental da Filosofia, e nesse caso ela seria uma mera continuação do próprio passado dos orientais. Lá na Antiguidade, Diógenes Laércio já defendia a criação da Filosofia como produto grego, sem que eles tivessem se apropriado de nada dos orientais, ou seja, para aqueles ditos ocidentalistas, ela era uma invenção totalmente nova.

A título de ilustração, e mesmo para evitar o que possa ser entendido como omissão, demonstraremos rapidamente que em relação ao nascimento da filosofia na Grécia, são várias as linhas de pensamento. Vejamos um pequeno trecho recolhido dessa obra importante que é “Civilizaciones de Occidente” da autoria de Edward McNall Burns, onde está sacramentada a existência de mais de uma forma de pensar sobre o assunto, ainda que contrarie algumas posições arraigadas:

Antecedentes de la Filosofia Griega – Por lo descripto en los capítulos anteriores resulta evidente que es errónea la idea popular de que los griegos crearon la filosofía. Siglos antes, los egípcios habían meditado mucho sobre la naturaleza del universo y los conflictos sociales y morales del hombre. Lo que hicieron los griegos fue más bien dar a la filosofía un contenido más amplio que el que tenia entonces. Trataron de hallar respuestas para todas las preguntas posibles sobre la naturaleza del universo, el problema de la verdad y el significado y la finalidad de la vida. Evidencia la magnitud de su hazaña intelectual el hecho de que la filosofia haya sido desde entonces en gran parte una discusión sobre la validez de las conclusiones a que ellos llegaron.” 

Também, não sei se por casualidade ou por sorte, tenho em mãos a revista “Cult” em sua edição de agosto de 2015, portanto, recém chegada às bancas com um dossiê em seu interior com o título de “Filosofia da Ancestralidade” onde à pág. 40 o título é altamente sugestivo: “Os gregos não inventaram a Filosofia”. Neste artigo, é mencionada a obra “A Filosofia Antes dos gregos” de José Nunes Carreira, onde o Egito aparece como uma região rica em produção filosófica. Mas, a questão em si continua, pelo visto, gerando polêmicas, objeções, argumentos diversos, críticas. Inclusive, fica claro, que uma agenda da de leitura dos textos africanos mais antigos (há muitos autores que advogam dessa hipótese: a filosofia não nasceu grega), não sinaliza um interesse em substituir a Grécia pelo Egito. Mas, e sempre tem o “mas”, como é dito ao final do artigo: “O projeto de dominação do Ocidente tem um aspecto epistemológico que pretende calar qualquer filosofia que tenha sotaques diferentes. Afinal, a filosofia foi ‘eleita’ como suprassumo da cultura ocidental.

E a esta altura do campeonato, já poderá alguém, que esteja lendo o presente trabalho, inquirir: Mas, por que será que ele está falando disso tudo, quando o assunto é mesmo a Filosofia grega e a Maçonaria?

Bem, eu não desperdiçaria a oportunidade de atiçar a curiosidade daqueles Irmãos que tem as condições necessárias para valorizar isso que é uma busca pela verdade (o que eu acho que deveria ser o motor de todo o Maçom: a curiosidade por esmiuçar as questões e a certeza de que não existem verdades absolutas),

Há um autor e estudioso Maçom, que sempre cito em meus trabalhos, o Irmão Theobaldo Varoli Filho. Pois, utilizando-me agora das obras também desse outro sábio Irmão que se chama Raimundo Rodrigues, vejo que no seu livro ”A Filosofia da Maçonaria Simbólica’’, ele numa das páginas iniciais, que precedem aos textos, faz a citação de uma frase lapidar do Irmão Varoli Filho, com a qual concordo em gênero, número e grau, e é digna de ser repetida aqui:

“A Maçonaria tem por princípio a constante investigação da verdade. Não é maçom quem não for investigador da Verdade.” (Theobaldo Varoli Filho, in Curso de Maçonaria Simbólica, vol.III, pág. 16).

Pelo fato de que ainda temos mais a dizer sobre a questão das origens da filosofia, e com o intuito de bem assimilar o que disse um estudioso do porte de Pierre Vernant, antes, vamos a uma definição do termo “Pólis”, pois, detendo o seu conceito antes em nossa memória, será de muita importância para entender na íntegra a opinião desse historiador francês.

A Pólis: uma definição

Façamos um condensado a seguir, do que era a “Pólis” com base em dados colhidos da Internet:

A “Pólis” era o modelo das cidades antigas da Grécia, que vigorou desde o período arcaico até o clássico. Pelas suas características, o termo pode ser utilizado como sinônimo de cidade. “A pólis possuía uma configuração espacial própria: normalmente ficava justaposta ou circundava a acrópole (a parte alta da cidade, destinada aos templos); possuía um espaço central público, a ágora, onde também se localizava o mercado, além de um gymnasion. A cidadania de uma ‘pólis’ normalmente estava reservada aos homens adultos que ali nasceram.” As ‘poleis’ perderam sua importância durante o domínio romano. Resumindo: é a cidade, entendida no sentido de comunidade organizada, e que é formada pelos cidadãos (politikos). Modo de vida urbano que pode ser considerado a base da civilização ocidental.

Agora que sabemos o que é pólis, podemos falar de Pierre Vernant, renomado historiador e antropólogo francês, que vê o aparecimento da Filosofia de outro ângulo, ou seja, vê como um grande e principal fator incidindo para o seu nascimento e de sua diferença em relação ao Mito, justamente o aparecimento da Pólis, o que pode ser considerado um acontecimento político. Eis que, com o advento da Pólis, o universo espiritual, assim como a mentalidade das pessoas começou a mudar. O que girava então em torno do palácio real, e que pode ser traduzido por vida econômica, social e religiosa, a partir do momento que começou a entrar em crise foi dando lugar a um novo modelo de organização social: a Pólis.

Maçonaria e Filosofia

A Filosofia e o seu estudo no ambiente maçônico tem o aval de vários Irmãos estudiosos. Que tal esse comentário do Irmão Theobaldo Varoli, para começar?

“Como dissemos, a Grécia foi o reino da dialética. Por sinal, ‘dialética’ é uma das obras de Platão. Falar em Dialética é falar em Maçonaria. Daí nunca é demais recomendar às Lojas o dever de escolherem obreiros versados em filosofia, encarregados de proferir palestras culturais, principalmente sobre os ensinamentos da antiga Grécia.“

Sobre a Dialética e um comentário

Para não deixarmos nenhuma lacuna com relação a algumas palavras que vão surgindo, e pelo fato de que vale saber sempre, um dicionário comum definiria a Dialética como:

DIALÉTICA: Arte e argumentar ou discutir./ Maneira de filosofar que procura a verdade por meio de oposição e conciliação das contradições. (lógicas ou históricas)’

Já li também que a dialética, pode ser definida como, “a arte do diálogo”.

Com relação à opinião que o Irmão Theobaldo Varoli emitiu no trecho acima, retirado do seu livro, eu somente queria comentar que essa foi mesmo uma virtude do Irmão Varoli, no sentido de que, em seus livros esteve sempre focado em orientar, demonstrar, dar um parecer em muitas questões que iam surgindo ao longo dos seus escritos, preocupado em fazer que a versão mais próxima da verdade fosse a que prevalecesse. Além do mais, suas recomendações eram o resultado da sua sabedoria e experiência.

O Irmão Raimundo Rodrigues, o nosso Mestre maior em Filosofia, em seu livro “A Maçonaria e o Hábito da Virtude”, brinda-nos com sábias palavras quando faz esclarecimentos importantes sobre Maçonaria e Filosofia:

“Conforme o leitor já sabe, a filosofia maçônica não é produto de um filósofo, mas de dezenas e dezenas de filósofos, de várias épocas diferentes. É exatamente por isso que se torna coisa difícil querer seguir o curso da filosofia maçônica ou ter a pretensão de querer ordenar suas posições. Podemos afirmar que já o fizemos várias vezes, que a filosofia maçônica engloba muito do esoterismo quer oriental quer ocidental, todavia o seu conteúdo não apresenta os desvios de opinião, os acidentes de percurso da filosofia grega. Temos, de nós para nós mesmos, que tal coisa se deve ao fato de que o ideário maçônico só é alcançado através da interpretação dos símbolos. Note-se que os símbolos podem proporcionar várias interpretações. O que faz com que a doutrina maçônica não apresente aquele rigor próprio da filosofia. E é exatamente aí que se verifica que a Ordem proporciona a seus exegetas, plena e completa liberdade de pensamento.”

Em outro livro de sua autoria, “Templo de Salomão”, no artigo que leva o título de “A Filosofia e a Arte Real” o Irmão Raimundo Rodrigues assim se pronuncia:

“Filosoficamente, a Maçonaria não se prende a uma escola ou a um sistema porque, então, estaria negando os princípios fundamentais de sua doutrina. Temos de nós para nós, que se a Ordem se deixasse prender a uma escola ou a um sistema filosófico, estaria impondo a seus membros um determinado rumo, obrigando-os a palmilhar sempre a mesma estrada; se assim fosse, certamente ela não mais existiria, pois estaria negando um de seus mais sagrados princípios: a liberdade de pensamento. Através de seu posicionamento filosófico a Maçonaria está mostrando aos Maçons que, antes de tudo, ele tem um compromisso consigo mesmo, com o seu pensar, com o que fazer de sua própria existência.”

Dito isso que é de uma importância extrema, podemos dar continuidade. Aliás, daqui em diante é imprescindível a nossa recorrência direta às obras do Irmão Raimundo Rodrigues, visto ele ser o nosso autor que mais tem abordado assuntos de ordem filosófica, creio eu, no meio maçônico. Ainda bem, que em minha biblioteca devem estar presentes, pelo que me consta, todas as suas obras.

Voltando ao seu livro “A Maçonaria e o Hábito da Virtude”, extraímos dali uma citação que o Irmão Raimundo Rodrigues fez da lavra do filósofo Mussa Battal com relação aos filósofos que devem ser mais estudados no contexto maçônico:

“Os grandes filósofos da Grécia, os da época helenística, os filósofos do Renascimento e os da Ilustração são que estão mais próximos de nossa doutrina maçônica.”

E num trabalho publicado na revista “O Prumo”, inserido numa coletânea mais recente, da lavra do Irmão Raimundo Rodrigues intitulado “A Incidência Filosófica nos Graus Simbólicos”, em determinada altura ele escreveu:

“Os Graus Simbólicos estão impregnados da filosofia dos grandes avatares da Grécia antiga: Tales, Xenófanes, Heráclito, Parmênides, Pitágoras, Empédocles, Anaxágoras, Sócrates, Platão e Aristóteles.”

Consoante então a nossa proposta escancarada desde o começo desse trabalho, de elencar os filósofos gregos mais estudados nos meios maçônicos, ou mais recorrentes, veremos os mesmos sendo citados em conjunto com as informações e orientações que forem julgadas pertinentes, em sucintas biografias, como forma de ajudar aqueles Irmãos que desejem se aprofundar mais nas suas obras.

Como já foi dito, os livros do Irmão Raimundo Rodrigues por si só já seriam uma excelente introdução ao mundo da filosofia, de um modo geral, desde os seus primórdios já que ele mais do que ninguém sabe expor de maneira bastante acessível os filósofo gregos, assim como os que vieram depois.

No final deste trabalho, constam os títulos de suas obras que foram utilizadas com os dados pertinentes e necessários para quem quiser buscá-las junto a sua editora.

Período Pré-Socrático ou Filosofia Pré-Socrática (Séc. VII e VI a.C.)

Os primeiros gregos a fazerem indagações sobre o sentido da existência humana, no tempo e no espaço, foram denominados de pré-socráticos. Estes homens materializaram o mundo em palavras, e para isso foi preponderante o uso da razão. O fato de haver essa delimitação no universo do pensamento grego, ou seja, os que antecederam Sócrates, os que vieram depois, etc., têm o objetivo de facilitar o estudo da Filosofia, ou seja, é uma forma dialética encontrada para absorver melhor os seus conceitos, pois, sabemos que tal universo é grande e complexo demais.

Esses filósofos também conhecidos por naturalistas possuíam como escopo das suas especulações o problema cosmológico, e com isso, buscavam o princípio das coisas.

Um dos grandes filósofos desse período e de fundamental importância para a Maçonaria foi Pitágoras, o qual já mereceu um estudo na segunda parte deste trabalho, em razão da Escola Pitagórica ou Pitagorismo. Portanto, para mais informações, recomendamos ao leitor que consulte o trabalho citado.

De qualquer maneira aproveitando um trabalho recente do Irmão João Ivo Girardi no JB NEWS nº 1.767, intitulada “Filósofos a.C.” extraímos do mesmo a pequena biografia relativa a este filósofo. Com certeza, muito mais poderá ser encontrado sobre Pitágoras, também, no “Vade-Mécum Maçônico’ da autoria do Irmão João Ivo Girardi. Vejamos então os dados sobre Pitágoras no JB NEWS: “Pitágoras (570 a.C.) Filósofo e matemático grego. Temas: metempsicose e matemática. Refrão: ‘Todas as coisas são baseadas nas formas geométricas.’ Mais conhecido pelo Teorema de Pitágoras, Cesura pitagórica. Atribuem-se mais coisas a Pitágoras do que se conhece sobre ele. Aparentemente, pregou a doutrina da metempsicose (a transmigração das almas, ou reencarnação), e absteve-se de comer feijão. A ele é atribuído o famosos teorema da geometria euclidiana, que levou seu nome. Também a ele é creditada a descoberta de que a escala musical de tons e semitons não permite à afinação perfeita dos instrumentos. Essa anomalia acabou levando à afinação de temperamento igual na época de J.S. Bach. (p.ex. O Cravo Bem Temperado).”

Somente para termos uma ideia geral dos muitos filósofos e suas escolas, que antecederam a Sócrates, citaremos os principais, com base na Wikipédia:

  • Escola Jônica: Tales de Mileto, Anaxímenes de Mileto, Anaximandro de Mileto e Heráclito de Éfeso.
  • Escola Itálica: Pitágoras de Samos, Filolau de Crotona e Árquitas de Tarento.
  • Escola Eleática: Xenófanes, Parmênides de Eléia, Zenão de Eléia e Melisso de Samos.
  • Escola da Pluralidade: Empédocles de Agrigento, Anaxágoras de Clazômena, Leucipo de Abdera e Demócrito de Abdera.
  • Escola Eclética: Diógenes de Apolônia, Arquelau de Atenas.

E a título de complementação, podemos ainda dizer que, Tales de Mileto, Anaximandro e Heráclito eram físicos. Pitágoras desenvolveu a sua doutrina defendendo a idéia de que tudo preexiste à alma, já que a mesma é imortal. Demócrito e Leucipo defenderam a formação das coisas todas, com base na existência dos átomos.

Período Clássico ou Filosofia Clássica (470 a 320 a.C.)

“(…) ênfase nas questões antropológicas e maior sistematização do pensamento. Desse período fazem parte os sofistas, o próprio Sócrates, seus discípulos Platão e Aristóteles, discípulo de Platão.”

Sócrates

Sócrates é considerado uma espécie de divisor de águas. O período em que ele viveu dentro do contexto filosófico grego é chamado de Período Clássico, onde juntamente com ele destacaram-se os sofistas.

Quem eram os sofistas? “Os sofistas, entre eles, Górgias, Leontinos e Abdera, defendiam uma educação, cujo objetivo máximo seria a formação de um cidadão pleno, preparado para atuar politicamente para o crescimento da cidade. Dentro desta proposta pedagógica, os jovens deveriam ser preparados para falar bem (retórica), pensar e manifestar suas qualidades artísticas.”

O Irmão Theobaldo Varoli Filho comentou sobre Sócrates, esse que foi um dos luminares da filosofia grega:

“O surto da alta filosofia grega começa com Sócrates, ateniense, filho do escritor Sofrênico e da parteira Fenarete. Foi escritor mas nada deixou escrito. (…) Diz a história que Sócrates, acusado de corromper a juventude e criar novos deuses, não quis defender-se e seus juízes demagogos o condenaram a beber cicuta e morrer. 

Sócrates restabeleceu a preponderância do inteligível, pois os sofistas, sensualistas acima de tudo, preferiam o império do sensível na busca do conhecimento. Assim, na lógica socrática, o objeto da ciência seria o conceito e a busca de definição (o que é e para que fim). Para se atingir esse alvo, mister se tornaria empregar principalmente a observação e a comparação, examinando seres ou indivíduos da mesma espécie, excluindo-lhes as diferenças e conservando as características comuns e estáveis, até perceber-lhes a natureza, a essência. A esse método Sócrates chamou de ‘indução’, palavra que atualmente seria ‘partir do particular para o geral’, tal como, Galileu, que, verificando as oscilações de um pêndulo nas mesmas condições e em vários lugares, chegou à generalização, ou lei do isocronismo e das amplitudes oscilatórias. Da dialética de Sócrates, o que muito interessa aos maçons é o processo da polêmica empregada no sentido didático, tal como o mestre a ideou, dividindo o diálogo em duas partes: a ‘ironia’ e a maiêutica (parto das ideias). Pela ironia o mestre ouvia o antagonista com atenção e humildade, com o interesse de quem deseja aprender e, assim colhia os elementos convergentes dou divergentes , com a atenção de quem deseje aproveitar-se da ‘antanagoge’ (método de usar dos argumentos do adversário, para derrotá-lo). Iniciadas as perguntas, o interlocutor, procurando defender as suas teses, chegaria a contradizer-se a confessar a própria ignorância. Pela ‘maiêutica, o discípulo era interrogado e levado a obter os conceitos e definições, partindo de casos particulares e concretos. Assim, o próprio discípulo ‘paria’ as ideias.

NOTA DO AUTOR AO APRENDIZ – Maçonaria considera a Lógica uma de suas sete ‘luminárias’, ao lado da Aritmética, Geometria, Gramática, Retórica, Música e Astronomia, completando as sete artes liberais da antiguidade, instituídas oficialmente entre os beneditinos e denominadas, por Boécio, na divisão ‘Trivium et Quadrivium’.(…)

O método, caminho ordenado e lógico para se chegar à Verdade, é o objeto principal da Lógica. Os dois métodos fundamentais são o dedutivo e indutivo. O dedutivo vai do geral para o particular, como ocorre na matemática, principalmente na Geometria, na qual, de uma verdade geral, como, por exemplo, da demonstração da tese de um teorema, decorrem corolários ou particularidades que, de certo modo, passam a constituir generalidades. O indutivo ou de generalização, começa no particular e chega à verdade geral. As ciências naturais se fundaram principalmente na observação dos fenômenos particulares. Há ainda os métodos mistos ou correlatos com os dois principais. Assim, há os métodos psicológico, matemático, experimental, de análise e síntese de observação dos fatos (…) e o método dialético, (…) um dos grandes métodos empregados pela maçonaria. 

A regra ‘conhece-te a ti mesmo’, de Sócrates, é um dos lemas fundamentais da maçonaria (autognose) e a sua filosofia é desenvolvida principalmente no grau de Companheiro, por meio de uma entre várias interpretações do pentagrama pitagórico. A doutrina socrática admitia a existência de Deus, a espiritualidade e imortalidade da alma.” 

Platão

Platão foi discípulo de Sócrates e defendia que “as ideias formavam o foco do conhecimento intelectual”.

Conforme o resumo dos “Filósofos a.C.” do Irmão João Ivo Girardi, no citado JB NEWS, temos o seguinte:

“Platão (429-327 a.C.) Filósofo e acadêmico grego. Tema: essencialismo. Refrão: As essências da bondade, da beleza e da justiça só podem ser compreendidas através de uma jornada filosófica. Obra mais conhecida: Os Diálogos de Platão (incluindo A República). Platão fundou a Academia (protótipo da universidade) em Atenas. Seus diálogos envolvendo seu professor Sócrates abrangeram a maior parte do que sabemos sobre a filosofia de Sócrates, por isso fica difícil separar as idéias dos dois. Platão é considerado o fundador do estudo e do discurso filosófico como ainda praticado hoje.”

Da obra do Irmão Theobaldo Varoli Filho, extraio as seguintes considerações sobre Platão:

“Contudo, Platão deixou algo para a Maçonaria, que é a síntese de que há de melhor das lições de todos os sábios. Quanto à ética individual, o mestre ensinou a consideração pelas ideias e, principalmente, pelas idéias do Bem. A seu ver, deveria o sábio desligar-se do corpóreo e sensível e aprimorar as tendências superiores. Essa ética platônica se consubstanciava no quaternário Sabedoria, Fortaleza, Temperança e Justiça.”

No “Dicionário de Maçonaria” do Irmão Joaquim Gervásio de Figueiredo, no verbete PLATÃO consta:

‘(…) Tão vivo foi e continua a ser o seu pensamento, que os antigos o cognominaram ‘o divino Platão’, e modernos pensadores ocidentais ainda o consideram ‘o pai da filosofia’. Nos ensinos ministrados no grau de Companheiro (2º), da Maçonaria Simbólica, se reflete muito da filosofia platônica.”

Aristóteles

Sobre Aristóteles, utilizamo-nos mais uma vez do Irmão João Ivo Girardi, em sua série de biografias sucintas:

“Aristóteles (384-322 a.C.). Filósofo grego, cientista e naturalista. Temas: lógica, metafísica, ética. Refrão: O meio-termo (evitar extremos em ideais e comportamento). Obras mais conhecidas: Metafísica, Ética a Nicômaco. Quando estudava na Academia de Platão, a principal preocupação de Aristóteles era o conhecimento, obtido por meio da observação de fenômenos naturais. Ele gostava de classificar as coisas (chegou a escrever um livro chamado Categorias). Praticamente inventou a lógica e foi pioneiro em várias ciências. Foi tutor de Alexandre Magno. Por quase dois milênios, Aristóteles foi conhecido como O Filósofo.”

O Irmão Antônio Nami, autor do livro “Maçonaria de A a Z”, incluiu nessa sua obra, o verbete ARISTOTELISMO, que em seu bojo guarda muitos assuntos de interesse e objeto de estudos dos Maçons. O termo possui o seguinte significado:

“Grupo de doutrinas de Aristóteles, filósofo grego, e de seus seguidores. São temas centrais do Aristotelismo a teoria da abstração e do silogismo, os conceitos ato e potência, forma e matéria e substância e acidente; doutrinas todas que serviram à criação da lógica formal e da ética e que exerceram, e ainda exercem enorme influência no pensamento ocidental.”

Pós-Socráticos ou Filosofia Pós-Socrática (320 a.C. até o início da Era Cristã)

Esta época vai do final do período clássico (320 a.C.) até o começo da Era Cristã. Preponderou o interesse pela física e pela ética. Nesse período temos as doutrinas: Ceticismo, a qual no pensamento dos seus filósofos, a dúvida deveria estar sempre presente, pois o ser humano não tem como conhecer nada de forma exata e segura. O filósofo de destaque é Pirro de Élida. O Epicurismo ou Hedonismo: os filósofos defendiam a ideia de que o bem era originário da virtude. O filósofo de destaque é Epicuro. Estoicismo: a razão era defendida ao extremo. A emoção, o prazer e o sofrimento deveriam ser deixados de lado. Sobre o estoicismo veremos um pouco mais, dado ao interesse e estudo do mesmo pelos maçons.O filósofo de destaque é Zenão de Cítio.

O Estoicismo

Evidentemente o estoicismo merece um tratamento especial, ou bem mais do que algumas simples linhas. Conforme o nosso Irmão Raimundo Rodrigues em sua obra “Sutilezas da Arte Real”, os estoicos eram uma corrente filosófica da Grécia que são muito estudados pelos Maçons. Vejamos o seguinte trecho, que pertence ao capítulo intitulado “A Filosofia dos Estoicos e a Arte Real”:

“O estoicismo surgiu no período helenístico que é o grande movimento filosófico depois do período pré- socrático que alguns críticos denominam de pós-aristotélico. Além do estoicismo, surgiram nessa época o epicurismo, o ceticismo e o ecletismo. É de ver-se que o ramo filosófico criado por Zenão de Citim, foi uma Escola de grande influência e que conseguiu atravessar alguns séculos, talvez porque apresente uma gama de originalidades que surpreende a quem se resolva estudá-lo em profundidade. Nota-se desde logo, que a ética maçônica tem muito a ver com o estoicismo que, na essência, esposa o racionalismo ético. Assim como o estoicismo, a Maçonaria grita a seus membros que não se deixem dominar por paixão alguma. Aliás, a grande similitude existente entre a filosofia estoica e a doutrina maçônica reside na oferta de normas claras de comportamento. E tem mais: além de ser uma doutrina essencialmente moral, o estoicismo contém importantes ensinamentos sobre a estrutura dos cosmos e sobre o conhecimento humano, o que também é de grande interesse da Arte real. (…) Pode-se hoje, estudar o estoicismo sob vários ângulos porque, apesar de terem chegado até nós poucos fragmentos dos escritos de Zenão, temos as obras completas dos maiores seguidores dos estoicos, como Epicteto, Sêneca e Marco Aurélio. Às vezes os estoicos se afastam tanto de Platão quanto de Aristóteles. Eles têm uma visão bem deles (poderíamos até dizer – maçônica) sobre o sentimento, a emoção e a paixão. A nós nos parece que a maçonaria buscou no estoicismo os ensinamentos que nos fornece sobre eles. Vejamos: o estoicismo nos ensina que o sentimento é a emoção racionalizada. Já a emoção é o tônus vital do psicossomático, enquanto que a paixão é o domínio bruto do sentimento e que, muitas vezes, nos leva ao fanatismo. É esta, exatamente esta, a doutrina maçônica.”

E do “Vade-Mécum Maçônico” do Irmão João Ivo Girardi, com o objetivo de ilustrar melhor a utilização que a Maçonaria faz da filosofia estoica, reproduzo o seguinte trecho pertencente ao verbete ESTOICISMO:

“7. A Maçonaria vale-se da ética dos estóicos quando vê na virtude o único bem da vida. Viver de acordo com a virtude significa viver conforme a natureza, que se identifica com a razão, no sentido cósmico universal. O lado patológico da realidade humana é constituído quando são desprezados os afetos e as inclinações, constituindo a virtude, na liberdade, na igualdade e na fraternidade. Sendo a virtude um dos únicos bens, o vício e a ignorância são o mal, e a noção do dever, de viver segundo a razão, significa o senso de responsabilidade, cujo conjunto forma a sua ética.”

Ainda, do clássico “História da Filosofia”, de Gonzague Truc, retiro as seguintes passagens:

“É no domínio da moral que a doutrina se expande e assume toda a sua amplidão. (…) Em face do dever não pode haver transigência, como não pode haver abstenção. (…) A grande máxima será: ‘Viver em conformidade com a natureza’ (entenda-se: ‘Viver em conformidade com a razão.’)”

Comentários

De maneira evidente, os estoicos e a sua moral, que para uns chega a ser definida como uma das mais elevadas, e ao mesmo tempo, uma das mais absurdas, faz com que detectemos uma certa infantilidade no seu “viver segundo a razão”, pois, entendemos também que a razão não pode legislar tudo, e além do mais, não se pode lidar com nosso sentimento na base do ON/OFF. Os anelos que a escola estoica idealizou, no entanto, acabaram sendo cumpridos pela moral cristã, consubstanciados em pureza e desprendimento.

Conclusão

Para o leitor que até aqui pacientemente acompanhou essa série de trabalhos, todos relacionados com aquelas áreas em que a cultura grega muito se destacou, aliás, não haveria nem como tentar estipular a dimensão disso tudo em termos de benefícios para o progresso da humanidade, e para o desenvolvimento intelectual do homem, fica mais uma vez uma amostra, dessa vez, a grega, dentre tantas outras, desde as tradições orientais, a hermética, a cabalística, a bíblica, a dos construtores de catedrais, enfim, que convergem para esse rico universo que é o da Maçonaria. Vou recair naquela “ladainha” se assim alguém achar por bem entender, mas, não custa nada dizer que há muito mais esperando para quem tem a curiosidade de saber, a vontade de buscar incessantemente a verdade, ou para aquele que trabalha constantemente a sua pedra bruta e que a exemplo de Sócrates, Platão, Aristóteles e tantos outros gregos maravilhosos, e aqui uma ênfase para os estoicos, que pensaram e trabalharam sobre as Virtudes, busca com supremo afinco a sua pedra filosofal, porque, antes de tudo, acredita que ela pode ser encontrada. Este é o Maçom, um eterno buscador. Então, usando do que já pode ser considerado um chavão, assumo o risco, mas, vou dizer também que a totalidade desses trabalhos não tem a pretensão de ser definitivos, já que há muitos outros desdobramentos que possam ser trabalhados. Com uma gama tão grande de filósofos, e estamos falando da Grécia antiga, escolhemos alguns, que como dissemos tem seus conceitos, suas doutrinas, suas idéias mais aproveitadas, e em conformidade com a nossa doutrina, o que não quer dizer que outros também não sejam importantes e que não mereçam ser lidos. Eu sou daqueles que comungam da ideia de que para o Maçom a leitura da Filosofia, e aqui numa referência à Filosofia e aos filósofos de todas as épocas, para o Maçom, é leitura fundamental.

O Irmão João Ivo Girardi inaugurou seu texto “Filósofos a.C.” com esse parágrafo que se adapta perfeitamente, e que agora escolho com o propósito de utilizá-lo neste fechamento:

“A Maçonaria sempre encontrou franca correspondência com os filósofos, pois ambos condenam todo e qualquer dogmatismo e cada membro tem o direito de formar seus próprios conceitos sobre a Divindade, como princípio de tolerância. Também a doutrina moral dos maçons, que se baseia no maior aperfeiçoamento do ser humano durante a existência terrena encontra em muitos filósofos, uma base segura de seus conceitos e práticas.”

Essa base, conforme pudemos constatar ao longo do trabalho que ora finda, tem muitos filósofos da Grécia antiga.

Autor: José Ronaldo Viega Alves

Fonte: JB News

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Consultas Bibliográficas

Internet:

JB NEWS, nº 1.767, de 2 de agosto de 2015. “Filósofos _ a. C.” – Trabalho de autoria do Irmão João Ivo Girardi “Os Primeiros Filósofos e a Busca do Princípio de Todas as Coisas” postado por Elaine Barbosa – Disponível em: parquedaciencia.blogspot.com.br “Pré-Socráticos” – Disponível em: https.//pt.wikipedia.org/wiki/Pré-socráticos “Conceitos Diversos: Pólis” – disponível em: WWW.Ceap.br/material/ “Pólis” – disponível em: WWW.dicionarioinformal.com.br/pólis/

Revistas:

CULT, nº 204, agosto de 2015. “Os Gregos Não Inventaram a Filosofia” Artigo de Renato Noguera FILOSOFIA ESPECIAL GRÉCIA, Ano I, nº 1. “Investigação da Existência” – Artigo de Joel Gracioso – Editora Escala.

Livros:

BURNS, Edward McNall. “Civilizaciones de Occidente” – Tomo 1 – Ediciones Siglo Veinte – 14ª Edicion – Buenos Aires, Argentina – 1983 FIGUEIREDO, Joaquim, Gervásio de. “Dicionário de Fiklosofia” – Editora Pensamento GIRARDI, João Ivo. “Do Meio-Dia à Meia-Noite – Vade-Mécum Maçônico” – Nova Letra Gráfica e Editora Ltda. 2ª Edição – 2008 NAMI, Antônio. “Maçonaria de A a Z” – Madras Editora Ltda. 2013 O PRUMO 1970-2010 COLETÂNEA DE ARTIGOS – GRAU 3 – MESTRE – VOLUME 1- “a Incidência Filosófica nos Graus Simbólicos” – Trabalho do Irmão Raimundo Rodrigues de Albuquerque PEQUENO DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO KOOGAN LAROUSSE – Editora Larousse do Brasil – 1980 RODRIGUES, Raimundo. “A Maçonaria e o Hábito da Virtude” – Editora Maçônica “A Trolha” Ltda. – 1ª Edição – 2004 RODRIGUES, Raimundo. “Templo de Salomão” – Editora Maçônica “A Trolha” Ltda. 1ª Edição – 2005 RODRIGUES, Raimundo. “A Filosofia da Maçonaria Simbólica” –Volume 4 – Editora Maçônica “A Trolha” Ltda. – 1ª Edição – 2007 RODRIGUES, Raimundo. “Sutilezas da Arte Real” – Editora Maçônica “A Trolha” Ltda. – 1ª Edição – 2003 TRUC, Gonzague. “História da Filosofia” – Editora Globo – 1ª Edição – 2ª Impressão – 1968 VAROLI FILHO, Theobaldo. “Curso de Maçonaria Simbólica” – 1º Tomo (Aprendiz) 2ª Edição – Editora A Gazeta Maçônica S.A. 1977.

A Herança Grega na Maçonaria – 3ª Parte

mitologia-grega

A Contribuição grega na Maçonaria: as Ordens Arquitetônicas e as colunas Dórica, Jônica e Coríntia; a Mitologia; os Gregos e a Astrologia; a Estrela Pentagonal

Para a faísca inicial, é bom já considerarmos as informações que vem na sequência, com as quais o Irmão Kennyo Ismail inaugura o artigo de sua autoria “As Ordens Arquitetônicas”:

“Muitos ritos fazem explícita referência às ordens arquitetônicas que compõem a arquitetura clássica, e que foram desenvolvidas pelos gregos e os romanos. São cinco ordens, sendo três de origem grega e duas de origem romana. As ordens de origem grega são as mais antigas e originais, sendo que as duas ordens romanas são apenas derivações delas. Como todo bom ‘construtor’, o maçom deve saber distingui-las, relacioná-las com o Templo e conhecer seus significados.”

As Ordens Arquitetônicas

O que é uma Ordem Arquitetônica?

De acordo com A. Jardé, em sua obra muito conceituada intitulada “A Grécia Antiga e a Vida Grega”, Ordem é uma combinação específica de três elementos arquitetônicos: base, coluna e entablamento.

Vejamos um pouco mais daquilo que ele escreveu sobre o assunto:

“AS ORDENS – Os monumentos se diferenciam pela disposição e proporções dos diversos elementos arquitetônicos, que compõe a colunata: é a isso que se dá o nome de Ordem. Distinguem-se duas ordens: a Ordem Dórica e a Ordem Jônica. A chamada Ordem Coríntia é uma variante da Ordem Jônica, de que diverge pelo emprego de um capitel decorado com folhas de acanto.

A ordem dórica, por assim dizer, é a reprodução em pedra da antiga construção de madeira. A coluna repousa diretamente sobre os degraus do envasamento. O capitel compõe-se de duas partes, do Equino ou Coxim, uma espécie de almofada ovalada (echinos) e do Ábaco ou Talho (ábax), uma simples laje quadrada ou retangular. Sobre os capitéis assenta-se a viga mestra ou Arquitrave. Mais acima, o friso apresenta uma sucessão de Tríglifos (tríglyphoi), que correspondem aos pontos extremos das vigas, e de Métopas, geralmente esculpidas.

Na ordem jônica, a base da coluna é torneada. O capitel caracteriza-se pelas espirais ou Volutas. A Arquitrave, em lugar de ser monolítica, divide-se em três bandas (fasces). O friso é contínuo e quase sempre decorado com esculturas.

A ordem dórica é mais pesada e mais severa, a ordem jônica é mais esbelta e mais elegante. Os gregos comparavam a primeira com a beleza masculina e a segunda com a beleza feminina.”

A Maçonaria e as Ordens Arquitetônicas

Para enlaçarmos os temas, Maçonaria e Arquitetura, agora no começo, ainda que, um tanto mais extensa que as habituais transcrições que faço, o verbete constante no Vade-Mécum Maçônico do irmão João Ivo Girardi, com o título de “ARQUITETÔNICAS, ORDENS”, possui um texto condensado que reúne informações valiosas, do tipo onde nada é descartável.

Antes, porém, retirei do trabalho intitulado “As Cinco Colunas de Arquitetura”, publicado há muitos anos na revista “O Prumo”, de autoria do Irmão Vanio de Oliveira Matos, esse parágrafo: “Uma Ordem de Arquitetura é o Sistema de todos os Ornamentos e proporções de Colunas e Pilares, ou um arranjo particular das partes projetadas de uma construção, especialmente aquela de uma coluna que forma a beleza perfeita e completa de um todo (William Preston, 1781).”

Agora o excerto que foi retirado do Vade-Mécum Maçônico:

ARQUITETÔNICAS, ORDENS:

1. Arquitetos e artistas primitivos reproduziram em seus trabalhos os conhecimentos adquiridos, transmitindo-os através de um sistema simbólico. Exatamente por não existir na antiguidade, uma linguagem escrita ou uma forma de expressão que permitisse transportar idéias abstratas. Esse simbolismo, unido aos primitivos sistemas religiosos, veio a ser uma linguagem sagrada de grande significado secreto.

Em Maçonaria, escreve o Irmão Adolfo T. Benitez: ‘todas as instruções e seus mistérios são comunicadas em forma de Símbolos fundados em uma ciência especulativa e uma arte prática; tornando-se as ferramentas da profissão, espiritualizando-se os termos de arquitetura, foram eles relacionados com a Virtude e com a história e adotados como símbolos.

Em Arquitetura, Ordem, é a forma e a disposição das partes salientes dos Pilares e do Entablado. Por sua vez, cada uma dessas duas partes de uma construção divide-se em três. É fácil, pois compreender o porquê da inclusão de tal Símbolo nas instruções do 1º Grau Maçônico. Assim, ao passo que a Coluna (pilar) compreende a base, o fuste e o capitel, o entablamento, é o conjunto da arquitrave, do friso e da cornija. Os dois processos de construção são distinguidos por estas duas partes.

No início, a ideia da Coluna Dórica, veio do Egito, ao passo que a Coluna Jônica é originária da Assíria. Os gregos, entretanto, as remodelaram de tal maneira, que são eles hoje considerados como inventores. As Colunas Toscana e Compósita são de origem romana. A primeira, tão singela quanto Dórica, é caracterizada pela ausência de qualquer ornato; o fuste é cilíndrico e liso e o capitel parecido com o Dórico. A Compósita é uma mistura dos ornamentos da Jônica e da Coríntia, ou seja, tem no seu capitel as volutas da Ordem Jônica e as folhas de acanto da Ordem Coríntia.

2. As Cinco Ordens de Arquitetura aparecem no Painel de Companheiro com relativo destaque. Seu aparecimento na Ordem Maçônica é datado de 1738, no frontispício da capa da 2ª edição da Constituição de Anderson. Depois desse aparecimento triunfal, elas ressurgem na década de 1770, quando o Irmão William Preston (o primeiro professor de Maçonaria) passa a ensinar seu Simbolismo na Maçonaria. Era comum, por essa época, o ensino da Arquitetura nas reuniões das Lojas. Aqueles que viajavam sempre traziam dados novos que, durante as Sessões, repassavam aos Irmãos. O primeiro registro está num Catecismo de um Manuscrito – A Masons Examination -, que apareceu em 1723. Ali aparece pela primeira vez a referência sobre as Cinco Ordens.

3. O Irmão William Preston em seu livro ‘Lecture’ sobre as cinco Ordens de Arquitetura conclui desta maneira ’As antigas Ordens de Arquitetura reverenciadas pelos maçons, não são mais que Três, a Dórica, a Jônica e a Coríntia.’ A Coluna Dórica é curta e maciça; ela evoca a ideia de força e grandeza; sua altura é igual a oito vezes o diâmetro de sua base; seu contorno é cavado de vinte caneluras formando arestas vivas; seu capitel, pouco elevado, mostra uma seção retangular. Seu nome, de acordo com Vitrúvio, viria de Dorus, filho de Heleno, rei da Acaia e do Peloponeso. Representada na Loja pelo 1º Vigilante. A Coluna Jônica é a mais esbelta e graciosa: sua altura é igual a nove vezes o diâmetro de usa base; ela tem vinte e quatro caneluras separadas por um filete e não por uma aresta vivia; seu capitel é caracterizado por um duplo enrolamento em espiral chamado voluta. De acordo com Vitrúvio, ela viria dos jônios da Ásia e do templo de Éfeso. Representada na Loja pelo Venerável Mestre. A Coluna Coríntia é a mais bonita; sua altura é igual a dez vezes o diâmetro de sua base; seu fuste (tronco) é liso e canelado; seu capitel é uma corbelha de folhas de acanto (planta espinhosa, originária da Grécia e da Itália). De acordo com Vitrúvio, seria devida ao escultor Calímaco, de Corinto. Representada na Loja pelo 2º Vigilante. Costuma-se considerar a Coluna Dórica como símbolo do Homem, enquanto a Coluna Jônica simboliza a Mulher. Às três Ordens de Arquitetura acima definidas, acrescentam-se às vezes a ordem Compósita, ou Romana, e a ordem Toscana. Essas ordens são ‘’modernas e participam das outras três; não devem ser levadas em conta no simbolismo maçônico.

4. (…) ‘a essas Colunas foram dadas três ordens de Arquitetura: a Jônica, para representar a Sabedoria; a Dórica, significando a Força; e a Coríntia, simbolizando a Beleza.’”

As Colunetas

Vejamos o que o Irmão Kennyo Ismail escreveu sobre as colunetas, na sua obra Desmistificando a Maçonaria, da qual já nos utilizamos com um pequeno trecho logo acima:

“Sem entrar no mérito do uso das colunetas no REEA em algumas obediências brasileiras, o que, ao que tudo indica, também surgiram no Brasil apenas após 1927, provavelmente copiadas dos rituais ingleses, compreendamos o uso destas nos trabalhos em Loja: a coluneta Jônica (‘sabedoria’) fica sempre de pé, mostrando que a sabedoria deve reinar sempre, 24 horas por dia, seja no trabalho, seja no descanso. Já, as colunetas Dórica e Coríntia se revezam: a Dórica (‘força’) é erguida durante os trabalhos (do meio-dia à meia-noite), quando a força é necessária para a execução dos trabalhos; enquanto a Coríntia (‘beleza’) está levantada durante o descanso, considerado antes da Loja devidamente aberta e aos ser devidamente fechada (da meia-noite ao meio-dia).”

Comentários

Com certeza, existem outras informações e explicações sobre o uso das colunetas: no Vade-Mécum, por exemplo, é comentado sobre o fato de que antigamente não existia a função de 2º Vigilante. Logo que surgiu o mesmo, a regra que passou a prevalecer foi a de que o Irmão 1º Vigilante seria o responsável pela Loja durante os trabalhos, e o Irmão 2º Vigilante o responsável durante o período das recreações. É mencionado também, que é essa a divisão pela qual é lembrada na posição alternada das colunas, no Rito de York.

O Irmão Theobaldo Varoli Filho apresenta uma analogia e interpretação, que confesso, ainda não havia visto. Temos que nos acostumar com a ideia de que em Maçonaria, há inúmeras interpretações quando o assunto envolve Simbolismo, e acho que analogias muito mais..

Vejamos a parte em que ele trata das Ordens Arquitetônicas, e as suas explicações:

“… três luzes governam uma loja. Esse governo pousa sobre três colunas gregas: a coluna jônica, da sabedoria e do Venerável Mestre; a coluna dórica, da força (potência), do 1º Vigilante; a coluna coríntia, da beleza, do 2º Vigilante. Conforme o rito, as duas últimas podem ficar em posições diferentes, mas nunca no Oriente. Isso não importa, eis que o que se encarece é o significado histórico e filosófico das três colunas. Elas representam tudo quanto estudamos até aqui. A sabedoria jônica venceu a força espartana (dórica) e, quando ato e potência se equilibraram, surgiu a beleza, que se completou, mais tarde, e já na época helenística, ensejando a perfeição da coluna coríntia e completando o ternário, o qual, por sua vez, viria a repercutir em toda a história da humanidade. É costume colocar essas colunas sobre o ‘altar’ (mesa) das três luzes (Venerável e Vigilantes), cada qual com a sua coluna correspondente. Cumpre observar que as colunas dórica e coríntia, nada tem que ver com as colunas ‘J’ e ‘B’.”

Nociones de Arquitectura y  Masonería: sobre a simbología, sobre los estilos y sobre los princípios

Já havia começado o trabalho que o leitor tem em mãos quando tomei conhecimento de que estava em curso uma “Feria Del Libro” na cidade de Rivera, Uruguai (para quem não tem conhecimento, a cidade onde moro, Sant’Ana do Livramento, Rio Grande do Sul, Brasil, faz fronteira com a cidade de Rivera, capital do Departamento de Rivera, República Oriental do Uruguay. Resumindo: são meus vizinhos). E fui até lá, por dois motivos principais: aprecio os livros editados na Argentina e na Espanha, e amo a língua espanhola.

Pois, acabei encontrando e comprando o livro “Arte Y Masonería”, entre outros, claro, da autoria do estudioso argentino Pablo Mateo Tesija, conferencista e diretor da revista maçônica “Símbolo”, editada em Buenos Aires, que traz entre outros assuntos o simbolismo relativo às ordens arquitetônicas, justo sobre o que estamos tratando, e que me fez entender melhor as considerações do Irmão Theobaldo Varoli Filho, e que se coadunam com elas. Dessa obra, extraio então, um trecho que julguei “brillante” em suas explicações:

“Con respecto a los tres primeros (dórico, jónico y corintio), se estudiará su relación con las divinidades griegas. Heracles o Hércules, en el primer caso; Palas Atenea o Minerva, para el segundo y Afrodita o Venus, para el tercero.

El dórico representará simbólicamente la fuerza, la solidez de una construcción desprovista quizás de adornos y detalles esteticistas pero que, pese a ello, cumple a la perfección con su cometido. El jónico rememorará la sabiduría, con el perfecto equilibrio entre utilidad e estética, representando un avance hacia otro tipo de preocupaciones. Es decir, ya dominados los princípios básicos del arte real, la mirada se vuelve al equilíbrio entre funcionalid y estética; la primera sola parece insuficiente, recibiendo el aspecto decorativo su lugar en la obra. Por último, el coríntio será el paradigma de la belleza profana, cobrando una importancia casi exluyente la decoración de la columna. De la combinación de estos tres princípios el masón logrará una obra ‘bella’, entendiendo por ella una obra ‘verdadera’

Cada uno de estos tres estilos arquitectónicos que hemos tomado como ejemplo tendrá su contrapartida ética en el plano simbólico.El dórico representará la fuerza de carácter necesaria para lograr el objetivo propuesto; el jónico, la sabiduría que debe servirnos de guia constante y el coríntio el amor que debemos poner en la empresa abordada. Estos tres elementos serán, también desde el punto de vista del arte sacro como del masónico, sinônimo de ‘belleza o verdad’ en la construcción tanto personal como social. La simbología de ellos puede ser completada de acuerdo a los distintos puntos de vista, obediencias, ritos y grados en que se trate, aunque el sustrato último será el mismo.”

Comentários

Sem dúvida, a última frase resume praticamente tudo: “a simbologia deles pode ser completada, conforme os diferentes pontos de vista, obediências, ritos e graus em que se trate, mas, a essência última será a mesma.”

E para finalizar o assunto “Ordens Arquitetônicas“, gravemos fundamentalmente que os estilos arquitetônicos clássicos, o dórico, o jônico e o coríntio, são utilizados em vários dos Graus maçônicos, e valem por seus aspectos quais sejam: o estilístico, o histórico, o mitológico e o simbólico.

A Mitologia

O que é Mitologia?

Com base em um dicionário comum, a Mitologia em sua definição mais simples é posta assim:

“MITOLOGIA. (gr.muthologia, as) 1. Conjunto de mitos de uma determinada cultura. 2. Coletânea dos mitos dos antigos romanos e gregos. 3. Estudo sistemático dos mitos.”

Um conjunto de mitos, ou uma coletânea dos mitos e o estudo dos mitos. Então vejamos a definição do que é mito.

O que é Mito?

“(lat.mythus, i) 1. Narrativa de ordem remota e significação simbólica, sobre as forças da natureza e os aspectos gerais da condição humana, cujos personagens são deuses, seres sobrenaturais etc. 2. Construção da mente que não se baseia na realidade; fantasia. 3. Afirmação falsa, divulgada com intuitos difamatórios, propagandísticos, etc.; fábula. 4. Fig. Representação mental de fatos ou personagens reais de forma idealizada e tomada como modelo estereótipo.”

Mitologia Grega: uma introdução

Dizer que a Mitologia é um assunto extremamente fascinante já virou lugar-comum. De qualquer forma, para conhecer a fundo as civilizações antigas, o estudo da mitologia é fundamental. No caso da Grécia, ou da civilização grega, não conseguimos imaginar qualquer estudo sobre a mesma, deixando de fora sua mitologia, ou no mínimo, algum aspecto que guarde relação com ela. A história da Grécia parece estar todo tempo entrelaçada com a sua mitologia.

Pierre Grimal, estudioso consagrado no terreno da mitologia, em seu livro “Mitologia Grega”, já considerado um clássico, entre tantas coisas interessantes, escreveu:

“Dá-se o nome de mitologia grega ao conjunto de relatos fantásticos e lendas cujos textos e monumentos representativos nos mostram que estavam em voga nos países de língua grega entre os séculos IX ou VIII antes de nossa era, época a que se reportam os poemas homéricos, e o fim do paganismo, três ou quatro séculos depois de Jesus Cristo. É uma matéria enorme, de definição bastante complicada, de origens e características muito diversas e que desempenhou e desempenha ainda um papel considerável na história espiritual do mundo.

Todos os povos, em um determinado momento de sua evolução, criaram lendas, ou seja, relatos fabulosos os quais durante certo tempo deram crédito – ao menos em algum grau. No mais das vezes, as lendas, por fazerem intervir forças ou seres tidos como superiores aos humanos, pertencem ao domínio da religião. Elas se apresentam, pois, como um sistema mais ou menos coerente de explicação do mundo, e cada um dos gestos do herói cujas proezas são relatadas é criador e gerador de conseqüências que ressoam pelo universo inteiro. (…) Esta é talvez a característica mais interessante do mito grego: a constatação de que ele se integrou a todas as atividades do espírito. Não existe nenhum domínio do helenismo, tanto na plástica quanto na literatura, que não tenha constantemente recorrido a ele. Para um grego, o mito não conhece fronteiras. Ele se insinua em toda parte. É tão essencial para o seu pensamento quanto o ar ou o sol o são a sua própria vida.”

Comentários

Heróis, deuses e semideuses estão entre aqueles personagens que povoam a mitologia da Grécia. Muitos foram os narradores dessas histórias. Outros as recontaram, as reinventaram milhares de vezes. Filósofos, poetas, pensadores, escritores, todos ele beberam uma ou outra vez dessas fontes. A Maçonaria também bebeu do misticismo e da mitologia da antiga Grécia.

A Mitologia grega tem sua importância reconhecida no universo da Maçonaria, fundamentalmente no uso das expressões simbólicas. O misticismo que está entranhado na doutrina da Maçonaria, e que sobressai no Simbolismo e na Ritualística, tem suas raízes lá no misticismo religioso da antiga Grécia, como pudemos deixar já evidenciado por ocasião da temática apresentada nos trabalhos precedentes e que versaram sobre os Mistérios Gregos. Com certeza, há uma infinidade de deuses: deuses do céu, da terra, da fertilidade, dos animais, subterrâneos, ancestrais ou heróis e olímpicos. Veremos apenas alguns deles, em sua relação ou representação que adquirem na Arte Real.

Antes, porém, gostaria de transcrever um pequeno trecho que consta no “Dicionário Maçônico” de autoria do Irmão Rizzardo da Camino, que trará um pouco de discernimento para todos nós:

“A Mitologia é rica quanto à imaginação dos que a estabeleceram; foram os sábios da Antiguidade que assim provaram para manter disciplinados os povos. O culto aos deuses foi um exercício primitivo em distinção ao culto à Divindade monoteísta. Com a fixação do Cristianismo, a Mitologia foi posta de lado e hoje serve apenas como expressão simbólica.”

Mitologia Grega e Maçonaria

O Irmão Nicola Aslan escreveu que a Mitologia significa propriamente a história fabulosa dos deuses, dos semideuses e heróis. Também, que a denominação Mitologia assume uma dimensão maior, quando é estendida à história das religiões antigas, ao detalhamento dos cerimoniais que faziam parte das mesmas, dos seus mistérios e dos seus mitos. Aslan traduz um trecho referente ao verbete Mitologia da “Encyclopaedia” de Mackey que diz:

“É literalmente a ciência dos mitos, definição muito apropriada, pois a mitologia é a ciência que trata da religião dos antigos pagãos, que foi quase completamente fundada em mitos ou tradições populares e contos lendários; e assim Keightly (Mythol. Of. Anc. Greece and Italy)diz que ’a mitologia deve ser vista como o repositório da primitiva religião do povo’.

O seu interesse para um estudioso Maçom, procede do constante antagonismo existente entre as suas doutrinas e as dos Mistérios primitivos da antiguidade, e a luz que os mistérios mitológicos trouxeram para a antiga organização da Maçonaria Especulativa.”

A fim de entender a relação Mitologia-Maçonaria, novamente socorramo-nos do Vade-Mécum Maçônico, onde no verbete MITOLOGIA, além de uma breve explanação sobre o uso das estátuas, são disponibilizadas também informações sobre o simbolismo contido nos cargos em Loja em sua relação com os deuses da mitologia grega:

MITOLOGIA:

  • Conjunto de mitos sobre a origem histórica de um povo; a história lendária de deuses e semideuses da antiguidade.
  • Conjunto de lendas e crenças que, por princípios simbólicos, fornecem explicações para a realidade universal.
  • A mitologia greco-romana exerce grande influência na arte, principalmente na literatura e no teatro durante a Antiguidade e o Renascimento.
  • O fato de a maçonaria admitir as estátuas dos deuses Minerva, Hércules e Vênus não significa idolatria; esses deuses e suas estátuas são apenas símbolos – de Sabedoria, Força e Beleza, que é a trilogia maçônica por excelência. Essas estátuas não são veneradas, apenas justificam que a Maçonaria é também mitológica, especialmente quanto aos graus filosóficos.
  • Os Cargos em Loja representam e possuem o apanágio de vários deuses do Olimpo e de semideuses do panteão grego. Assim tem-se:

Venerável – seria a representação de Zeus (Júpiter para os romanos), por sua condição de dirigente máximo da loja, já que Zeus era o principal dos deuses, soberano do mundo, que reinava no monte Olimpo, a mais alta montanha da Grécia; controlando as ações humanas e as dos demais deuses, era o protetor de toda a Grécia, embora cada cidade tivesse ainda, o seu protetor especial. Mas, o Venerável pode, também, ser simbolizado pela deusa Atená, ou Palas Atená (Minerva), nascida da própria cabeça de Zeus e que era a deusa da inteligência, da sabedoria e da paz, já que o Venerável Mestre deve ter essas qualidades para poder bem dirigir ao seus Irmãos.

1º Vigilante: – representa Ares (Marte), deus da agricultura e da guerra, além do símbolo da força, já que esta é a característica deste cargo, que também é relacionado com Héracles (Hércules), filho de Zeus e da princesa Alcmena, considerado o maior de todos os heróis gregos e que era poderosamente forte, o mais vigoroso de todos os homens.

2º Vigilante – Simboliza Afrodite (Vênus), filha de Zeus e que era a deusa do amor e da beleza; o 2º Vigilante dirige a Coluna da Beleza, enquanto que o 1º Vigilante dirige a Coluna da Força e, o Venerável a simbólica Coluna da Sabedoria. É por isso que muitos Ritos possuem, em seu Ritual, o acendimento de velas que representa esse três atributos.

Orador – é a representação de Apolo, ou Febo (mesmo nome para os romanos), filho de Zeus e deus do Sol, criador da poesia e da música, do canto e da lira, da profecia e das artes; o Orador responsável pela guarda da lei e das peças de oratória representa a Luz, simbolizada por Apolo.

Secretário – Corresponde a Ártemis (Diana), filha de Zeus e de Hera e que era a divindade protetora das florestas, da caça e das flores, além de ser também, a deusa da Lua, que o Secretário simboliza ao refletir o que vem do Sol (Orador).

Mestre de Cerimônias – corresponde a Hermes (Mercúrio), filho de Zeus e que era o mensageiro dos deuses, além de deus protetor dos pastores, dos comerciantes, dos viajantes e dos oradores; é o símbolo do Mestre de Cerimônias, já que esse Oficial, em sua circulação, é o mensageiro das Dignidades da Oficina.”

Ainda, com o intuito de fornecer maiores detalhes (consta no Vade-Mécum que somente o Rito Brasileiro prevê a sua obrigatoriedade, e ainda que a representação dessas figuras mitológicas pode ser feita também na forma de pinturas) sobre o uso das estátuas, o Irmão Kennyo Ismail, também se deteve sobre o assunto, e à pág. 36 da sua obra já citada, dispõem sobre elas fazendo o seu comentário, o qual reproduzo na sequência:

“Vale ressaltar que alguns templos no Brasil costumam ser ornamentados com pequenas estátuas de três deuses gregos, ilustrando de forma ainda mais evidente tais simbologias:

  • Atena: deusa da Sabedoria, colocada próxima ao trono do Venerável Mestre, geralmente usando um chapéu (que denota sabedoria, por isso também usado pelo Venerável Mestre);
  • Héracles: mais conhecido pelo nome romano Hércules, semi-deus da Força. Colocado próximo à posição do Primeiro Vigilante, costuma ser apresentado com um porrete na mão;
  • Afrodite: deusa da beleza, colocada próxima à posição do Segundo Vigilante, comumente representada por uma pequena réplica da famosa estátua Vênus de Milo.”

Das Colunas Zodiacais e da Astrologia

Sabemos que as Colunas Zodiacais guardam significados profundos e que abarcam uma relação com todos os graus iniciáticos da Maçonaria. As Colunas Zodiacais, na realidade, são doze meias colunas, seis na parede norte e seis na parede sul, nenhuma ocupando as paredes do Oriente, e elas são da ordem Jônica. Há uma relação mística, onde a consonância com as renovações pelas quais a Natureza passa, e a representação implícita das mortes e das ressurreições. Essas manifestações estão contidas nos ciclos aos quais os vegetais estão sujeitos. Há uma relação ainda com o Sol e os mitos solares, tão comuns em civilizações da antiguidade. Na Maçonaria Simbólica, a presença dos signos zodiacais tem a ver com o caminho místico que o Iniciado irá percorrer, desde o Aprendiz até ao Mestre. Essas influências em nossa doutrina nos remetem para as civilizações antigas, entre elas, os gregos, pois, foi através deles que a Astrologia, como diz no “Vade-Mécum Maçônico”: “atingiu a sua maioridade, com a racionalização e a determinação da função dos planetas, casas e signos.

Para reforçar tal importância e considerando o “leit-motiv” do trabalho em curso, ou seja, as influências que a Maçonaria recebeu da Grécia antiga, vejamos o que escreveu o Irmão José Castellani em seu livro “Origens Históricas e Místicas do Templo Maçônico”:

“A ASTROLOGIA, embora, como já se viu, não possa ser creditada a apenas uma civilização, sendo muito mais medieval, adquiriu entre os gregos, os seus aspectos fundamentais e mais duradouros; a partir do século III a. C., os gregos empenharam-se em transformar a astrologia babilônica de acordo com suas próprias tradições, tornando-a cada vez mais complexa. Eles foram os responsáveis pela popularização de um sistema, que, anteriormente, só era acessível aos reis: o método de calcular destinos individuais, baseado no momento do nascimento. O primeiro livro astrológico moderno e menos empírico do que os anteriores a ele, o Tetrabiblos, tem sua autoria atribuída ao matemático, astrônomo e geógrafo Ptolomeu, nascido em Alexandria e que desenvolveu seu trabalho no século II da era atual, estabelecendo os princípios da influência cósmica, que constituem o cerne da moderna astrologia. Sob a influência da cultura grega, os planetas, as casas e os signos do Zodíaco foram racionalizados, tendo determinada a sua função, de tal maneira que, até hoje, houve muito pouca mudança.”

A Estrela Pentagonal

Não vamos entrar no campo das discussões sobre a Estrela Pentagonal, dos outros nomes que ela possa adquirir, das ligações que alguns estabelecem com as Ciências Ocultas, enfim… O objetivo aqui é mesmo apontar, relacionar, descrever e tecer alguns comentários, quando se fizerem necessários, sobre os símbolos, as doutrinas, as escolas, os elementos diversos que fazem parte da cultura grega e que tem sim, comprovadamente alguma conexão com a Maçonaria. Portanto, até cabe num futuro, elaborar um trabalho sobre as diversas estrelas, com suas descrições, com suas origens históricas, com suas funções e suas devidas representações nos rituais maçônicos.

Por ora, vamos nos ater a sua origem pitagórica, o que significa dizer que está inserida no presente trabalho por seu pertencimento às origens gregas. Vejamos o que nosso Irmão Jose Castellani escreveu sobre a mesma:

“A Estrela de Cinco pontas, ou Pentagrama (cinco letras), ou Pentalfa (cinco princípios), que, a partir dos meados do século XVIII, passou, com o nome de ESTRELA FLAMEJANTE, a fazer parte dos símbolos maçônicos (foi introduzida pelo Barão de Tshoudy, criador do Rito Adoniramita), é de origem pitagórica, representando, na Maçonaria, a mesma coisa que no pitagorismo: como ESTRELA HOMINAL, simboliza o homem, em sua alta espiritualidade. Ela representa, também, em muitos ritos, o planeta Vênus, sendo, por isso, colocada na Coluna do 2º Vigilante (já que ele simboliza a deusa Vênus, como já foi visto) entre o Sol (que está no Oriente) e a Lua (que está no Ocidente), pois se trata de um corpo com luz intermediária. Alguns autores tem associado a Estrela pentagonal maçônica com a estrela de cinco pontas usada no ocultismo, na alquimia e na magia medieval, com significado muito diferente daquele dado pelas escolas pitagóricas; a realidade, porém é que ela é mesmo pitagórica, até pela sua interpretação simbólica.”

Autor: José Ronaldo Viega Alves

Fonte: JB News

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Consultas Bibliográficas

Revistas:

O PRUMO, nº 94, jan./vev. 1994. “As Cinco Colunas de Arquitetura” – Trabalho de autoria do Irmão Vanio de Oliveira Matos.

Livros:

ASLAN, Nicola. “Grande Dicionário Enciclopédico de Maçonaria e Simbologia- Volume 3 -Editora Maçônica “A Trolha” Ltda. – 3ª Edição – 2012. CASTELLANI, José. “Origens Históricas e Místicas do Templo Maçônico” – Editora “A Gazeta Maçônica” – 1991 DA CAMINO, Rizzardo. “Dicionário Maçônico” Madras Editora Ltda. – 2006 Dicionário Enciclopédico Ilustrado – VEJA LAROUSSE – Volume 15 – Editora Abril S/A – 2006 GIRARDI, João Ivo. “Do Meio-Dia à Meia-Noite – Vade-Mécum Maçônico” – Nova Letra Gráfica e Editora Ltda. 2ª Edição – 2008 GRIMAL, Pierre. “Mitologia Grega” – L&PM PocketEncyclopaedia – L&PM Editores – 2009 ISMAIL, Kennyo. “Desmistificando a Maçonaria” – Universo dos Livros Editora Ltda. 2012 JARDÉ, A. “A Grécia Antiga e a Vida Grega” – Editora da Universidade de São Paulo – 1977 TESIJA, Pablo Mateo. “Arte y Masonería” – Editorial Kier S.A. – Buenos Aires, Argentina – 2014 VAROLI FILHO, Theobaldo. “Curso de Maçonaria Simbólica” – 1º Tomo (Aprendiz) Editora A Gazeta Maçônica S.A. – 2ª Edição – 1977.

A Herança Grega na Maçonaria – 2ª Parte

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A Herança Grega na Maçonaria: o Pitagorismo, os Mistérios Dionisíacos e o Orfismo. A Iniciática Grega e sua relação com a Maçonaria na visão de Theobaldo Varoli Filho

De volta à Grécia

O Irmão José Castellani, em artigo publicado com o titulo de “Influência da Antiga Civilização Grega na Simbologia Maçônica”, construiu uma bela e sucinta introdução sobre o que a cultura grega produziu, e que transcrevo a seguir, com o intuito puro e simples de que a mesma refresque as nossas memórias ou sirvam de passagem para a nossa máquina do tempo em sua viagem pelo mundo grego, onde veremos as influências todas que direta ou indiretamente foram assimiladas pela doutrina maçônica.

“Os grandes legados da civilização helênica, a todos os povos, foram, principalmente, baseados na ciência, nas artes, na literatura e na religião. A poesia, heroica e religiosa, surgiu na Trácia e em Delfos, no Templo de Apolo; constituíram-se os ciclos poéticos, inspirados nos fatos históricos, derivando, dessas fontes, os imortais poemas “A ILÍADA” e “A ODISSEIA”, de Homero. O período clássico da literatura grega desenvolve-se entre os séculos V e IV a.C., quando a literatura dramática adquire a potência máxima e o teatro evolui, deixando de ter a sua expressão apenas nas festas dedicadas ao deus Dionísio; a tragédia é moldada com Pratinas, Frínico e Téspis, alcançando a perfeição com Sófocles, Ésquilo e Eurípedes; a comédia toma formas com Epicarmo, Sofron e, principalmente, Aristófanes.

Na filosofia distinguem-se: Euclides e a Escola de Megara, Anaxágoras, Demócrito, Antístenes e a Escola Cínica, Fédon e a Escola de Élis e, principalmente, Aristóteles e o Liceu, Platão e a Academia. A história, cujo principio está em Heródoto, é cultivada por Filistos, Tucídedes, Éforo, Xenofonte e Teopompo; a geografia é impulsionada por Eratóstenes, Nearco e Polemon.

Na matemática e na astronomia, destacam-se Euclides e Arquimedes, enquanto que a filologia tem como seus expoentes, Aristarco, Calímaco e Zenódoto, tudo isso ao par com os ensinamentos dos pensadores jônicos, como Tales de Mileto, Pitágoras de Samos e Heráclito de Éfeso. A arquitetura, especialmente a dos Templos, sempre foi muito desenvolvida, desde a Grécia arcaica, de maneira geral, nas concepções religiosas pertinentes aos deuses olímpicos, semideuses e heróis, e especificamente no culto a Dionísio, nos Mistérios de Elêusis, no Orfismo e no Pitagorismo. O gênio grego, grande influenciador na cultura do mundo antigo, através de Roma, chegou até ao mundo contemporâneo ainda com grande influência moral, intelectual e artística, e ao qual, a riqueza da Simbologia Maçônica não poderia escapar.”

De volta à civilização grega então, vamos conhecer quais os outros Mistérios que faziam parte desse universo. Antes, um trecho acerca dos mesmos, extraído da obra “MAÇONARIA – Escola de Mistérios – A Antiga Tradição e seus Símbolos” do Irmão Wagner Veneziani Costa:

“De Pitágoras a Plutarco, os professores do passado testemunharam em favor dos Mistérios, até Cícero, que declarou que ‘o aprendizado do homem na morada do lugar Oculto o compelia ao desejo de viver de maneira nobre e suscitava pensamentos felizes para a hora de sua morte’. O homem vivia sua época majestosa; eles não eram somente sublimes e nobres mas, também, elevados e sutis.

Platão dizia que os Mistérios foram estabelecidos por homens de grande talento que, no início dos tempos, se esforçaram para ensinar a pureza, para superar a crueldade da raça, para exaltar sua moral e refinar seus modos e para conter a sociedade por meio de vínculos mais fortes do que aqueles impostos pelas leis humanas. Sendo esses os seus propósitos, aquele que se importa com a vida do homem, em geral, entrará em seus santuários desaparecidos com compaixão; e se nenhum Mistério mais se liga ao que eles ensinaram – nem mesmo a sua antiga alegoria da imortalidade -, há interesse permanente em seus ritos, em sua dramatização e em seus símbolos empregados no ensinamento da sábia, virtuosa e bela Verdade. Estamos cada vez mais seguros em afirmar que a ideia e o uso da iniciação, são tão antigos quanto a Casa dos Homens da sociedade primitiva, pois eram universais e assumiram formas diferentes em territórios diferentes.”

Comentários

A título de ilustração, e baseado em outro tanto no que até aqui foi exposto, considerando ainda o trabalho que precedeu este, atentemos para alguns detalhes importantes que deveremos ter em mente:

  • Os Mistérios eram praticados por vários povos da antiguidade, não era um privilégio dos gregos, tanto que, aos Mistérios de Elêusis tem sido atribuídas várias origens, entre elas, a egípcia, a cretense, a tessálica ou trácia.
  • Os Mistérios de Elêusis são considerados os mais importantes, ainda restando o Pitagorismo, e esse, sem dúvida, por ter sido liderado por Pitágoras, bastante familiar aos Maçons em virtude dos ensinamentos de Pitágoras serem constantes na Ordem Maçônica. Havia outros Mistérios, com certeza. Ouçamos o Irmão Luiz Vitório Cichoski, que à pág. 86 do seu livro, “Fundamentos da Iniciação”, diz assim: “Nos relatos históricos da Maçonaria menções à Grécia são uma constante. São sempre lembrados os Mistérios relativos às sociedades Eleusina, Órfica, Pitagórica, Dionisíaca.
  • No que tange aos Mistérios Gregos, a prioridade então, é abordar somente aqueles que possuem ligações mais perceptíveis com a Maçonaria no que se refere a sua herança, e onde o Pitagorismo, com certeza, tem sua devida importância.

Quem foi Pitágoras?

Antes, vejamos uma biografia do filósofo e matemático Pitágoras, com dados extraídos do “Dicionário de Maçonaria”, esse que já é um clássico do Irmão Joaquim Gervásio de Figueiredo:

PITÁGORAS (580-500? A.C.). Célebre filósofo grego, nascido na ilha de Samos e fundador da escola Pitagórica, depois de haver estado no Egito, onde foi iniciado no santuário de Tebas, e na Caldeia e Índia, onde estudou astronomia, astrologia e ciências matemáticas, esotéricas, etc. No último destes países é conhecido com o nome de Yavanâchârya (‘O Mestre Jônio’). À sua escola afluíam as melhores inteligências dos centros civilizados, e seus discípulos se tornaram lendários por seus conhecimentos sobre conduta social, fidelidade a seus princípios, e exemplar espírito de solidariedade e fraternidade. Foi o primeiro a ensinar o sistema heliocêntrico, sendo considerado o maior matemático, geômetra, astrônomo e metafísico da antiguidade histórica, e professou a doutrina da reencarnação ou metempsicose, mas sem as distorções que alguns lhe adicionam. Uma conjuração política suscitada em Crotona, encabeçada por Cylon, cuja admissão fora recusada na Ordem por ter sido julgado ambicioso e cruel, voltou-se também contra essa Escola, destruiu-a e massacrou muitos de seus membros. Pitágoras desapareceu então misteriosamente e nunca se encontrou seu corpo. De sua doutrina restam os ‘Versos Áureos de Pitágoras’, que ainda percorrem o mundo, e muitos Irmãos consideram ser a Ordem Maçônica uma sua continuadora. Segundo uma lenda, ele chegou a ir às Gálias para iniciar-se ali também nos Mistérios Druídicos.”

Aliás, sobre esses mesmos Versos Áureos temos um comentário verdadeiramente esclarecedor do Irmão Theobaldo Varoli Filho:

“(…) A propósito, é muito lamentável que certas lojas maçônicas costumem exibir, nos seus salões de PP.’.PP.’., certas versões dos ‘Versos Áureos’ ou ‘Carmen Aureum’, traduzidas do latim e deturpadas por tradutores maçons, os quais, por sua vez, atribuíram o canto diretamente a Pitágoras, quando deveriam esclarecer-lhe a verdadeira procedência. Esses versos resultaram de uma síntese de várias e poucas máximas apregoadas por discípulos da escola itálica ou pitagórica. ‘Venera os deuses de acordo com a sua condição, cumpre a tua palavra, honra os heróis e os gênios que estão debaixo da terra’(ctônicos), eis alguns trechos dos Versos Áureos, proclamados como mandamentos. No mais, é quase despido de importância o que esse versos possam oferecer à filosofia do simbolismo maçônico, pois os ensinamentos pitagóricos tem muito maior alcance na doutrina da Maçonaria, a partir do conceito do Uno e a seguir, na interpretação dos números das figuras geométricas, na iniciática da díada e dos opostos, estudada no grau de companheiro e originalmente inspirada na Tábua das Oposições (contrastes) atribuída ao médico Alcmon. Este discípulo de Pitágoras foi aquele que em primeiro lugar proclamou que o cérebro é o centro de sensibilidade.”

Comentários

Vou fazer um comentário bem sucinto, até pelo fato de possuir um trabalho, que foi publicado pela revista “A Trolha” em sua edição de nº 325, Novembro/2013, que se intitulava “Comentário e Síntese do Grau mais Histórico e Intelectual da Maçonaria: o de Companheiro Maçom”. Pois é, lendo as considerações do Irmão Theobaldo Varoli Filho, principalmente quando ele menciona que os ensinamentos pitagóricos tem maior alcance na doutrina maçônica e que são estudados no Grau de Companheiro Maçom, eu me remeto àquele trabalho, onde entre outras coisas eu escrevi: “Se existem poucas sessões de Companheiro, desculpa muito utilizada, mas, verdade verdadeira, não poderá ser um impeditivo para que sejam montados grupos de estudos em períodos pré-sessão, ou num outro dia, previamente escolhido, onde Companheiros possam ouvir aos seus Mestres instrutores, sobre as questões todas que os afligem e assim crescerem em conhecimento, bebendo da história, da ritualística, da filosofia e da ciência tão presentes nesse que é o Segundo Grau da Maçonaria Simbólica.” Sem generalizar, mas, Pitágoras, nem é tão falado assim, muito menos estudado como deveria.

O Pitagorismo

O “Vade-Mécum Maçônico” do Irmão João Ivo Girardi dá-nos as seguintes informações sobre o Pitagorismo (pág. 503):

“O Pitagorismo foi um movimento de reforma do Orfismo grego, que era uma religião de contornos vagos, mais uma disposição de espírito do que uma doutrina racional, a qual concebia um ideal de vida purificada, ascética e virtuosa, insistindo na oposição da alma e do corpo e na responsabilidade individual.”

Ainda, em sua pág. 419, no item 3 do verbete “Mistérios Gregos”, temos:

“Pitágoras: foi buscar os princípios de sua doutrina filosófica na Índia e no Egito, depois de haver sido iniciado nos Mistérios Gregos. Sempre encobriu a sua filosofia com o véu dos Mistérios – tinha um cuidado especial na escolha de seus discípulos. Dividia-os em três categorias:

 I – Ouvinte (Alkoustikoi) – deveria demonstrar três anos em meditação, ocasião em que se lhes prescrevia certos trabalhos intelectuais, cujos resultados, se satisfaziam o Mestre, facultavam a ascensão à segunda etapa;

II – Matemático (Mathematikoi) – nesta etapa, que durava cinco anos, o candidato devia permanecer em profundo silêncio, ouvindo a voz do Mestre através de um véu que ocultava a entrada do Santuário. Como já se encontra numa fase mais avançada devia por em prática o cerne da doutrina pitagórica: relacionar os diversos ramos da matemática com a música, descobrindo as correspondências entre as ciências;

III – Físico (Physikoi) – ao alcançar este estágio estava apto a receber o perfeito conhecimento da doutrina sagrada. A física era conhecida não no sentido atual do termo, porém como era usado na Grécia Clássica: o estudo da natureza.

Os iniciados entregavam-se ao estudo místico dos mistérios da natureza e da vida interior do homem. O símbolo distintivo da comunidade criado por Pitágoras era uma estrela de cinco pontas, que representa em sua posição normal – vértice para cima – o homem em sua alta espiritualidade, pois, nela, pode-se inscrever uma figura humana, com a cabeça ocupando a ponta superior e os membros superiores e inferiores as demais pontas. Por isso, ela é chamada de Estrela Hominal, representando a sabedoria, a gnose e a espiritualidade, com todos os seus atributos.

(…) Diz José Castellani: ‘Os três Graus maçônicos (Aprendiz, Companheiro e Mestre) representam as três grandes fases da evolução do pensamento do homem; intuição, análise e síntese; de maneira geral, os três estágios das escolas pitagóricas seguem também, essa evolução. Além disso, os Ouvintes do pitagorismo, guardavam absoluto silêncio, durante o seu aprendizado, limitando-se a ouvir e aprender, situação muito similar a da Maçonaria, onde o Aprendiz, simbolicamente, é uma criança e, portanto, não fala, limitando-se, também, a ouvir os Mestres. Os Mestres na maçonaria possuem também, no simbolismo de seus trabalhos, semelhança com os Físicos do pitagorismo, pois, ambos tem o escopo de estudar os mistérios da natureza e a vida interior do homem’.”

Muito oportuno é registrar o trecho que dá sequência, já que ajuda a cumprir um dos objetivos principais do presente trabalho que é mostrar as heranças da Maçonaria e do quanto ela está impregnada com essas mesmas influências:

“A tradição de Pitágoras foi transmitida para as Escolas Neoplatônicas. Seus ensinamentos internos vieram a influenciar nos ensinamentos cristãos e formaram, também, a base de muitas escolas de instrução mística, aparecendo atualmente em muitos Graus Maçônicos superiores. Em Loja Maçônica composta – tal como temos na atualidade – encontramos perfeitamente a teologia grega, na representação de vários cargos.”

E também:

“O Pitagorismo não foi um movimento efêmero, mas muito sério; a prova disso é o seu extenso período de influência; uma Escola que dava início às novidades provindas do intelecto. Seus conhecimentos incursionavam pela filosofia, geometria, astronomia, matemática e música. Primeiro desvendador da alma e precursor da psicologia, o seu saber envolvia misticismo, verdades e fantasias. Pitágoras foi inovador em alguns princípios considerados tabus na época, como o heliocentrismo, unidade invisível de Deus, igualdade de condições entre os sexos, na transmigração das almas, ou metempsicose; na dissociação entre astronomia e astrologia, a química com a alquimia e, sobretudo o amplo significado dos números. Afirmava ‘que todas as coisas são números’. É aqui que a Maçonaria encontra guarida de vez que valoriza os números e com eles tece a tênue fusão entre o pensamento e a divindade. A Arte Real dimensiona o Grande Arquiteto do Universo, usando a Geometria.

(…) Uma boa parte da religião e filosofia dos egípcios parece ter sido construída quase totalmente sobre a ciência dos números; por isso, cada coisa na Natureza era explicada com base neles. Os Pitagóricos os tinham em tão elevada opinião que chegavam a considerá-los como a origem de toda as coisas, admitindo mesmo que o conhecimento dos números era equivalente ao conhecimento de Deus. Os sacerdotes egípcios ensinaram a Pitágoras que, enquanto a Mônada – número 1 – possuía a natureza de causa eficiente, dualidade era meramente matéria passiva.

Um ‘ponto’ correspondia à Mônada, sendo ambos indivisíveis; e como a Mônada era o princípio dos números, também o ponto, a sua vez, era das linhas. Uma linha, diz com dualidade, sendo ambas consideradas como ‘transições’. A linha é um comprimento sem largura, estendendo-se entre dois pontos. Uma superfície liga-se a tríade porque, em adição ao dual, isto é, o comprimento e a largura, possuem a terceira propriedade, que é efetivada pela atribuição de três pontos, sendo dois opostos entre si e o terceiro na junção das linhas feitas pelos outros dois. Um sólido ou cubo representa a tétrada; se se dispuser três pontos em forma triangular e colocar-se um quarto ponto central sobre eles, ter-se-á um corpo sólido na forma de uma pirâmide, que tem três dimensões – comprimento, largura e altura.

Expressando sua opinião sobre os Corpos Regulares de Platão, os pitagóricos arguiam que o mundo era feito por deus ‘em pensamento e não no Tempo’, e que havia Ele começado Sua Obra com fogo e o 5º Elemento; por isso, há cinco figuras de corpos sólidos que são expressões matemáticas. E dizem que a terra foi feita de um cubo, o fogo de uma pirâmide, o ar, de um octaedro, a água de um icosaedro (20); e a Esfera do Universo, de um dodecaedro. E assim foram deduzidas as combinações da Mônada com princípio de todas as coisas. Da Mônada veio a dualidade indeterminada; delas duas vieram os números; dos números os pontos; dos pontos, as linhas; das linhas, as superfícies; das superfícies, os sólidos; destes, os corpos sólidos cujos elementos são quatro – fogo, água, ar e terra. De todos eles sob várias transmutações, foi criado o mundo.

Pitágoras ensinou a seus discípulos a Geometria, da qual podiam ser capazes de deduzir uma razão para todos os seus pensamentos e ações, bem como averiguar a verdade ou a falsidade de qualquer proposição através do infalível processo de demonstração matemática. Assim sendo, capazes de contemplar a realidade das coisas e detectar o embuste e a fraude declarava-se estar no caminho que levava à felicidade perfeita. Tal era o ensino e a disciplina das Confrarias Pitagóricas.”

Os Mistérios Dionisíacos

Do “Vade-Mécum Maçônico”, também transcrevemos o verbete DIONÍSIO, onde de forma resumida há menção ao culto também. Diz assim:

DIONÍSIO: Deus grego (Baco para os romanos), era filho de Zeus (Júpiter para os romanos) e, além de ser o protetor da vegetação e das vinhas, era, também, o deus dos mortos, através das promessas de ressurreição. O culto a Dionísio apresentava muitos aspectos, pois, pelas promessas de ressurreição, despertava grande fervor religioso, entre o povo, por deter o segredo da imortalidade. A lenda do assassinato de Dionísio, pelo Titã, seguido do seu esquartejamento e de sua ressurreição dentre os mortos, corresponde, intimamente, à lenda de Osíris e era ensinada com o mesmo significado desta. Estas duas lendas e mais a do deus sumeriano Dumuzi, contribuíram par a lenda do 3º Grau Maçônico.”

Por sua vez, o Irmão Luiz Vitório Cichoski, já citado anteriormente, contribui com algumas informações sobre Dionísio e também com as suas ponderações, no mínimo instigantes, sobre as associações que são feitas em âmbito maçônico com tal divindade. Vejamos o que ele diz:

“Miticamente, e de acordo com Heródoto, Dionísio (Baco) era filho de Zeus e da mortal Sêmele, filha do rei Cadmo e Harmonia. Essa ligação provocou em Hera um ciúme patológico que a levou a convencer Sêmele de solicitar de Zeus uma prova de sua divindade, pois sabia ela que tal evento eliminaria a rival. E assim deu-se. Percebendo Zeus que a amante estava grávida, aninhou o prematuro ser na sua coxa até que se completasse o tempo, quando então o heterogêneo divino-humano ser nasceu e recebeu o nome de Dionísio – dis (dois) + ónisos (nascido). Desde então passou a ocultar-se de Hera que mantinha o desejo de eliminá-lo como o fizera com sua mãe. Vários episódios compõem sua biografia onde perece e é ressuscitado pelo pai, o Senhor do Olimpo.

É reconhecido como o Deus do vinho – que os romanos chamavam de Baco – e o comportamento dos seus seguidores, envolvidos pelos efeitos etílicos, demonstra o lado irracional, violento e incontrolável da libação. Sua corte, seus seguidores – as Mênades ou Bacantes – são tomadas de surtos maníacos ferozes, durantes os quais cometem os maiores desatinos.

Causa estranheza a associação deste Deus, ligado à lascívia e à depravação, com muitos vícios com a Maçonaria que se propõe a combatê-los. Tal associação é vista por alguns através de diversos Símbolos com grande representação negativa: o bode, o tirso, serpentes, o desasseio. Por sinal, os festejos públicos deste Deus acabaram proibidos em Roma a partir de 186 a.C.

Deixando de lado os aspectos mitológicos, maçonicamente, encontramos razão de estudarmos este estranho Deus grego, visto ter ele, assim como outros deuses agrários, completado uma Viagem Iniciática ao submundo, isto é, ao inferno de Hades para resgatar sua mãe, Sêmele, e entronizá-la entre os deuses do Olimpo. Portanto, pelo fato de haver morrido e ressuscitado diversas vezes e, também, descido ao reino de Hades, é possível associar este Deus com o Mito do eterno retorno, isto é, do nascimento, morte e ressurreição.”

Ainda:

“(…) Uma das principais fontes relativas ao culto de Dionísio está em ‘As Bacantes’, de Eurípedes. É nesta tragédia que o autor sugere que os folguedos noturnos – com sua agressividade, selvageria e mania – exemplificam um rito secreto: 

‘Penteu: – Dessas orgias por ti obtidas, qual a natureza?

Dionísio: – Aos não iniciados vedadas estão as coisas secretas.’

É a partir desta compreensão que se associa o culto de Dionísio com as sociedades secretas e, daí, com a Maçonaria. Haveria em tudo que vimos caracterizar o Rito e o Mito deste Deus grego elementos encontrados nos Ritos e Mitos da Maçonaria Especulativa Moderna?

Pois o relato do Mito e Ritual de Dionísio-Zagreu pode ser a chave para um dos preconceitos mais arraigados associado com a Maçonaria Moderna. Este enredo foi trazido ao conhecimento ocidental pelos autores cristãos da antiguidade. No referido enredo, Hera, ainda enciumada com o filho de Sêmele, enviou titãs para encontrarem e exterminarem a criança. Para se aproximarem do infante sem despertar suspeita, presenteiam-lhe com diferentes mimos – chocalhos, espelho, ossinhos, pião, na sequência agarram-no, esquartejam-no colocando os pedaços em um caldeirão para assarem e comê-los. Contudo, o coração da criança acaba nas mãos de Atena (ou Reia, ou Deméter) que o entrega a Zeus e este, então, traz Dionísio outra vez à vida. Um aspecto acabará proporcionando uma espécie de redenção destes mitos macabros quando se der a aproximação do culto de Dionísio com o Orfismo, que admitia a imortalidade e a reencarnação da alma pela purificação – contribuindo com a representação do renascimento purificado.”

Comentários

Com relação ao Orfismo, nosso próximo Mistério, ainda que, ligado ao Culto de Dionísio, faremos uma breve explanação, já que, não foram encontradas influências diretas desse Mistério para com a Maçonaria.

Antes, porém de adentrar no tema, é importante frisar sobre o que já foi dito sobre as ressalvas necessárias. No trabalho anterior, fizemos questão de repassar o pensamento de Frau Abrines, colhido pelo Irmão Nicola Aslan, sobre a questão de não existir qualquer conexão histórica entre os mistérios antigos e a Maçonaria, e isso é altamente relevante para nós.

Por isso, e somente por isso, ouçamos também o que disse o grande estudioso Alec Mellor (ele estava se referindo ao que Ramsay havia defendido em seu discurso):

“Sob uma forma diferente, mas igualmente inaceitável, outros usaram desde o século XVIII, o simbolismo comparado, ou, com maior exatidão, abusaram, a fim de procurar título ao Ritual Maçônico. Raciocinaram por paralogismo, valorizaram semelhanças fortuitas, admitiram analogias muito vagas, apresentaram como certezas comparações forçadas com muita enfatuação, mas com bem pouco simples bom-senso, na falta de conhecimento históricos. (…) O erro capital de alguns foi o de acreditar que os mistérios antigos comportavam um ensinamento altamente filosófico destinado a uma elite de pensadores e, depois, de transportar essa falsa hipótese no quadro da Maçonaria e mais particularmente nos Altos Graus. O erro remonta, aliás, a uma época mais remota…”

O Orfismo

Era um culto de natureza religiosa e filosófica que teria sido instituído por Orfeu e teve uma grande expansão nos séculos VII e VI a.C, na Grécia. Conforme o “Vade-Mécum Maçônico”, os principais elementos que constituem a doutrina órfica são:

“I. No homem há um princípio divino, uma alma que caiu em um corpo para corrigir uma imperfeição;

II. Essa alma não só preexiste ao corpo como também sobrevive a ele, estando destinada a reencarnar em corpos sucessivos até que consiga depurar-se das imperfeições e dos erros que a fazem voltar ao mundo.”

Ainda conforme o disposto no “Vade-Mécum Maçônico”, importante é levarmos em consideração, o seguinte:

“De um modo geral, a mensagem órfica é a de que todos somos deuses, por herança divina. E deveremos voltar a estar junto a Deus. Sem o orfismo não se explicaria a filosofia e a doutrina de Pitágoras, nem a de Empédocles e, sobretudo, não se explicaria Sócrates e boa parte do pensamento de Platão, bem como toda a tradição que deriva de ambos.”

O Irmão Luiz Vitório Cichoski, em seu excelente livro, já citado anteriormente, intitulado “Fundamentos da Iniciação”, faz um relato da lenda em seus mínimos detalhes, que não irei transcrever aqui por razões de espaço, mas, os seus comentários posteriores, em parte, reproduzo na sequência:

“Modernamente, principalmente após a descoberta (1962), estudo e publicação (2005) dos papiros de Darveni, na Macedônia, reconhece-se no orfismo ‘uma das mais antigas religiões de mistérios grega… de influência persa, zoroastriana’. (…) Um de seus feitos fundamentais guarda estreita relação com a Maçonaria, pois, é tido como ‘fundador das Iniciações’ e de mistérios; para tanto se valia da catarse e de purificações. Contudo, ‘ignoramos o essencial da Iniciação que se considerava fundada‘ por Orfeu. Dela conhecem-se apenas as exigências preliminares: vegetarianismo, ascetismo, purificação, instrução religiosa (hierì lógoi, livros). Dela também se conhecem as pressuposições teológicas: a transmigração e, por conseguinte, a imortalidade da alma’.

Mais uma vez é preciso comparar as características do orfismo com a Maçonaria de nossos dias. Quais os pontos de aproximação? Qual a possível herança órfica encontrada em nossa Instituição? Recordando que os dois pontos fundamentais da teogonia órfica eram: a) transmigração das almas e, b) a imortalidade das almas.  (…) Tanto o orfismo como o pitagorismo defendiam além da dupla consideração para com a alma – imoralidade e transmigração – com a punição no Inferno e o retorno final ao Céu; mais ainda, o vegetarianismo, necessidade de purificações, ascetismo.

(…) Outra característica importante em um estudo pareado com a Maçonaria, é a possibilidade de se reconhecer nos ‘órficos’ os sucessores dos grupos iniciatórios que, na época arcaica, exerciam diferentes funções sob o nome de cabiros, telchines, curetes, coribantes, dáctilos, grupos cujos membros guardavam ciosamente certos ‘segredos de ofício’ (eram metalúrgicos e ferreiros, mas também curandeiros, adivinhos, Mestre de Iniciação, etc.). Os ‘segredos de ofício’ relacionados a diferentes técnicas que buscavam o domínio sobre a matéria tinham simplesmente cedido lugar aos segredos’ referentes ao destino da alma depois da morte’.”

Comentários

Os Mistérios Gregos, com certeza, não se esgotam aqui, há muito mais para ser descoberto para aqueles que se interessem pelo assunto. O objetivo proposto era mesmo abordar em parte, e em específico aqueles “Mistérios” que guardam uma relação (e isso, me parece que mais em função de analogias) com alguns aspectos das nossas Iniciações.

O Irmão Luiz Vitório Cichoski descreve ainda em seu livro, o culto de Átis e Cibele.

Para encerrar o assunto “Mistérios Gregos”, resolvo transcrever uma nota daquele que foi um grande escritor e estudioso maçom, o Irmão Theobaldo Varoli Filho, que consta em seu “Curso de Maçonaria Simbólica”, no volume primeiro, direcionado para o Aprendiz, em seu capítulo X, todo ele concernente à Grécia, na parte reservada aos Mistérios Gregos. Ninguém é obrigado a concordar na íntegra com o teor do texto que vem a seguir, como eu mesmo não concordo em sua totalidade, mas, é sempre bom ouvi-lo e tirar nossas próprias conclusões. Eis o que ele escreveu:

NOTA DO AUTOR AO APRENDIZ – Por mais enfadonho que seja este nosso trabalho, ele revela a nossa intenção de desmascarar certos mistificadores que nas lojas apregoam o caráter ‘maçônico’ dos mistérios dionisíacos e outros como os de Elêusis e de Orfeu. A Maçonaria contemporânea prepara o aprendiz para a verdade e procura expurgar a Sublime Ordem dos poucos mestres da mentira que ainda restam nas lojas. Uma coisa é estudar a evolução da iniciática, outra coisa é anotar os títulos das lombadas de certos livros e inventar origens da maçonaria, como o fizeram, lamentavelmente, muitos escritores maçons, abusando da boa-fé de irmãos desavisados e, assim, encontrando acolhida e projeção de obras fundadas na falsidade. Isso precisa ter fim e, aliás, foi uma das causas de afastamento de intelectuais da Sublime Instituição.

O maçom de hoje pode reconhecer a origem iniciática do teatro grego, pois isso tem sérios fundamentos. Pode haurir das obras de Sófocles os ensinamentos que inspiram ‘Antígona’, ‘Electra’, ‘As Trequinianas’, ‘Édipo-Rei’, ‘Ajax’, ‘Filoctetes’, ‘Édipo em Colona’, etc. Pode admirar-se das peças de Eurípedes, como ‘Efigênia em Táurida’, ‘Efigênia em Áulis’, ‘Electra’, ‘Hipólito Coroado’, ‘As Troainas’ e outras. Pode supor que Eurípedes era um iniciado, como sugere o citado verso das ‘Bacantes’. Pode maravilhar-se com Aristófanes, que em ‘As Rãs’ previu a Lei de Gresham (a moeda má expele a boa) e em ‘As Nuvens’ se pôs a criticar impiedosamente e mediocremente a filosofia de Sócrates, como criticou a outros filósofos, inclusive os sofistas, os costumes gregos, a política, a religião, a guerra e a vaidade ateniense, em outras suas obras como ‘As Vespas’, ‘As Aves’, ‘Lisístrata’, etc. Pode supor que Ésquilo tenha sido iniciado em Elêusis, ainda que pouco se logre inferir do que restou dos oitenta dramas que escreveu, entre os quais ‘Prometeu Agrilhoado’, ‘Os Persas’, ‘Os Sete Chefes diante de Tebas’, ‘Agamenon’, ‘Coéforas’, ‘As Eumênidas’ e ‘As Suplicantes’. O que não pode nem deve permitir é essa fantasia pela qual a Maçonaria seria filha e sucessora de todas as organizações iniciáticas que passaram pelo mundo.”

Eu diria que o texto acima é sempre atual, ainda que não admitamos concordar com o mesmo ao pé da letra. Mesmo hoje, com toda a informação disponível, com todas as pesquisas maçônicas que decorreram da época em que o Irmão Varoli escreveu o texto até os dias de hoje, muita coisa ainda é publicada sem critérios exigentes, muitas teorias fantasiosas continuam aparecendo, muitas conclusões pouco fundamentadas idem. Ao realizarmos as pesquisas que os nossos trabalhos exigem, nos deparamos volta e meia com textos circulando na Internet, ou até mesmo livros que foram publicados recentemente, onde falta a devida sustentação. Eu acho que fundamentalmente, o Irmão Varoli se referiu nessa sua nota aos Aprendizes, na base de um alerta sobre a importância da boa leitura, da instrução maçônica ser bem alicerçada, sem titubeios, e com certeza ele na essência do que proferiu, insinuou sobre a velha questão de saber separar o joio do trigo.

Autor: José Ronaldo Viega Alves

Fonte: JB News

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Consultas Bibliográficas

Internet:

“Religião de Mistérios” – Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Religiao_de_misterios

Revistas:

A TROLHA, nº 325, novembro de 2013. “Comentário e Síntese do Grau mais Histórico e Intelectual da Maçonaria Simbólica: o de Companheiro Maçom” – Trabalho de autoria do Irmão José Ronaldo Viega Alves.

Livros:

Aslan, Nicola. “Grande Dicionário Enciclopédico de Maçonaria e Simbologia” Volume 3 – 3ª Edição – 2012 CADERNOS DE PESQUISAS MAÇÔNICAS – Caderno 4 – “Influência da Antiga Civilização Grega na Simbologia Maçônica” – Artigo de autoria do Irmão José Castellani – Editora Maçônica “A Trolha” Ltda. 1ª Edição 1992 CICHOSKI, Luiz Vitório. “Fundamentos da Iniciação” – Editora Maçônica “A Trolha” Ltda. 1ª Edição – 2014 COSTA, Wagner Veneziani. ”MAÇONARIA – Escola de Mistérios – A Antiga Tradição e seus Símbolos” – Madras Editora ltda. 2006 FIGUEIREDO, Joaquim Gervásio de. “Dicionário de Maçonaria” – Editora Pensamento GIRARDI, JOÃO Ivo. “Do Meio-Dia à Meia-Noite Vade-Mécum Maçônico” Nova Letra Gráfica e Editora Ltda. 2ª Edição – 2008 VAROLI FILHO, Theobaldo. “Curso de Maçonaria Simbólica” – 1º Tomo (Aprendiz) 2ª Edição – Editora A Gazeta Maçônica – 1977.

A herança grega na Maçonaria – 1ª Parte

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A Grécia e as suas influências. Qual é a herança grega para a Maçonaria? O que são os Mistérios? As religiões de Mistérios e os Mistérios de Elêusis

“A contribuição da mística, da filosofia e da mitologia dos antigos gregos é de real importância na doutrina e na ciência maçônicas; estilos arquitetônicos, atributos dos deuses, de sua mitologia e o cerne do pensamento filosófico da Grécia antiga são encontrados em toda a extensão dos catecismos maçônicos.” (Passagem extraída do verbete GRÉCIA, que consta no “Vade-Mécum Maçônico” de autoria do Irmão João Ivo Girardi)

Introdução

Vários motivos ensejaram uma vontade minha em escrever sobre a Grécia, e talvez o principal deles resida no fato do bombardeio com o nome Grécia, que vínhamos sofrendo, via meios de comunicação, em virtude de acontecimentos recentes. Uma coisa puxa a outra, e o nome Grécia, que nos últimos tempos tem ocupado as manchetes dos jornais do mundo todo, em vista dos seus problemas de ordem econômica, que, aliás, se arrastam desde o ano de 2010, faz com que, pensemos na Grécia de uma forma solidária, afinal, como não levarmos em conta, ou não pesarmos e sopesarmos tudo o que a civilização grega legou à humanidade. Quem um dia, não estudou, ou no mínimo ouviu falar, quando da nossa passagem pelos bancos escolares e estendendo-se até a faculdade, sobre os feitos e as contribuições dos gregos? Diante dos fatos mais recentes, e dos seus desdobramentos, é até possível detectarmos o velho espírito helênico presente, em virtude da resposta dos gregos aos poderosos, que foi a de um povo que não quis ser submetido aos ditames da austeridade, traduzidas nas imposições da Comissão Europeia.

Mas, em tempos de crise mundial, a Grécia atualmente vive a sua verdadeira tragédia contemporânea.

Há tanto para dizer sobre a Grécia antiga, o “berço da civilização”, pois, a Grécia está presente em nossas vidas desde muito cedo, a mesma Grécia que inventou e viu nascer através de alguns dos seus expoentes máximos como Sófocles e Ésquilo, o gênero tragédia. Sinais dos tempos.

Este trabalho quer ser um pouco diferente somente em sua introdução, não deixar de lado, ao mesmo tempo em que o foco principal reside no passado desse país, comentar ligeiramente os momentos atuais, concomitantemente falar da Grécia e as suas importantes contribuições para a civilização, e também através de alguns “flashs” mostrar sobre a necessidade de ficarmos atentos aos problemas que atingem outros países, até pelo simples fato de que hoje, principalmente no terreno da macroeconomia, tudo acaba, mais cedo ou mais tarde, repercutindo pelo mundo afora. E até nisso, a Grécia ainda pode ensinar-nos alguma coisa.

O objetivo maior seguirá sendo, ao longo do trabalho, falarmos um pouco da civilização grega e daquilo que, sem deixar de levar em consideração os prós e os contras, realmente podemos considerar como contribuição dessa mesma civilização para a Maçonaria.

Antes, como forma de mostrar um panorama geral das contribuições da Grécia à humanidade, passo à reprodução de alguns trechos referentes ao editorial que o filósofo Lúcio Packter escreveu para um número especial da revista “Filosofia”, e que versou sobre a Grécia:

“O Islã não tinha então uma teologia desenvolvida; o aprofundamento veio da mesma fonte onde o cristianismo buscara sua inspiração: o pensamento grego. Já entre as tradições que chegam ao ocidente, o direito ao voto é um dos elementos mais notórios. (…) Também a História nos foi deixada por Heródoto como mais uma contribuição grega. (…) Os gregos inovaram nas ciências e na matemática conferindo um rigorismo pouco usual se os compararmos com a matemática babilônica, por exemplo. A herança grega afeta em diferentes graus desde o modo como hoje pensamos, nosso vestuário, nossas relações com religião e religiosidade, a ciência, a Filosofia, a cultura, as relações sociais, a educação, e avança em direção a elementos como Arquitetura, Física, Biologia. Dificilmente encontraremos uma área das atividades humanas que seja deserta das inclinações gregas.”

A título de ilustração: dois brilhantes comentários, o do professor Roberto S.  Kahlmayer–Mertens e do professor Fernando Gay da Fonseca

Conforme havia prenunciado antes, mais motivos se somaram para que eu fosse compelido a escrever sobre a Grécia. A leitura que havia feito a alguns meses, de uma entrevista com o Doutor em Filosofia e Professor Roberto S. Kahlmayer-Mertens, que em uma análise do cenário da filosofia no Brasil, aproveitou para fazer um convite ao estudo dos gregos. Antes, porém, o professor Kahlmeyer-Mertens citou uma passagem folclórica envolvendo o grande filósofo alemão Martin Heidegger. Resumidamente é o caso de um jovem que perguntou a Heidegger o que seria necessário para se fazer filosofia, ao que ele teria respondido: “Leia os gregos e não vá à universidade.” O episódio em si denotaria as críticas pesadas de Heidegger ao academicismo de sua época. Porém, após a sua leitura, o que não me saiu da cabeça é que no conselho dado por parte do grande Heidegger ao jovem aluno, esteve implícita terminantemente a ideia de que ler os gregos é fundamental, e ao que o Prof. Kahlmeyer-Mertens após, reforçou, como sendo um saudável conselho, embora revelasse também possuir dúvidas quanto a parte em que Heidegger desaconselha a ida à universidade. Fica disso tudo, porém, não o que Heidegger teria dito, mas a maneira com que o Prof. Kahlmeyer-Mertens rematou a questão: “Leia os gregos e vá à universidade”.

Comentários

Confesso que sendo Maçom, e sendo apaixonado pela leitura e pelo estudo, não conseguiria visualizar o perfeito entendimento daquilo tudo que até aqui assimilei nessa caminhada (e que falta muito ainda), do conhecimento que julgo ter adquirido, das analogias, principalmente, que pude estabelecer, enfim da própria facilitação do que ouvi e aprendi ao longo da estrada maçônica, sem ter recorrido aos gregos, sem ter contado com a ajuda dos gregos, sem ter lido alguns dos gregos ou não ter bebido das fontes gregas. Quem poderia refutar a assertiva de que somos dependentes dos pensamentos dos filósofos gregos, e em todos os momentos das nossas vidas estamos mergulhados no universo de um ou de outro desses filósofos? O que nos direciona também, para o universo maçônico, pois, são muitos os canais de ligação. Portanto, leiam os gregos, meus Irmãos!

Prosseguindo com os comentários dos professores citados, agora é a vez de outro professor, que escreve eventualmente artigos em jornais, Fernando Gay da Fonseca, em um artigo recente que intitulou “A dívida da Grécia e a dívida com a Grécia”, onde comentou a rejeição do povo grego, na consulta popular que foi realizada para que respondessem sobre se aceitariam ou não as condições a serem impostas pelos seus credores, e do qual destaco essa passagem:

“Na consulta popular, saiu vitorioso o “não” por mais de 60%. Não entendo de microeconomia, quanto mais de uma macroeconomia, mas sei o que é galhardia e independência. Nesta decisão o povo grego honrou essas qualidades. A velha Grécia está sempre jovem pela riqueza da sua história, na qual temos a presença de pensamentos dos seus maiores filósofos, como Anaxímenes, Anaxágoras, Heráclito, seguindo na direção de Sócrates, com sua maiêutica, Platão e o seu mundo das ideias que foi traduzido para o cristianismo por Santo Agostinho. E o grande Aristóteles, preceptor de Alexandre, que foi a luz que iluminou o pensamento de São Tomás de Aquino. Tudo isso reporta a esse povo que disse não a uma limitação que queriam que fosse aceita, limitando a sua liberdade de avaliação. Essa gente é aquela que busca o húmus debaixo das pedras, para plantar suas oliveiras, e dança quebrando pratos, como querendo destruir tudo o que lhe é adverso. Eles continuam fiéis à mensagem de um Paulo de Tarso, que pregou, por todos os cantos do seu território, a história do Deus desconhecido. Atenas, o seu Partenon, Ágora e tantos outros monumentos refletem no povo que fez história e conta histórias, como a do Minotauro, para alimentar firmeza. Os credores buscam elementos para retomar negociações. Como disse inteligentemente um presidente francês, a Europa sem a Grécia não é Europa.”

Esses motivos já valem por si sós, uma viagem no tempo pela Grécia, aquela para rememorarmos o muito que representa da sua contribuição para a humanidade, ainda que, como já disse, o foco maior é tudo aquilo que possa guardar referência ao que a Maçonaria pôde colher, assimilar ao longo da sua existência e reparte hoje com os seus adeptos.

Como saber a real dimensão do que a Maçonaria teria bebido dessas fontes, e o quanto nós Maçons sabemos dos tesouros do conhecimento grego?

A Grécia deixou três legados fundamentais para o mundo, entre outros tantos, conforme o que foi citado anteriormente pelo filósofo Lúcio Packter. Mas, vejamos sob outro ângulo: a Filosofia, a Democracia e o Teatro. Na Filosofia há a liberdade de pensar sem ter de obedecer às imposições de cunho religioso. Na Democracia, podemos conviver socialmente de forma que os opostos se reconheçam e se respeitem. No Teatro, podemos vivenciar os horrores desta vida, com base na representação, sem que haja a culpa ou o risco de sequelas. (Vasconcellos, pág. 3, Jornal ZH, 21.07.2015)

Com certeza, o Teatro exprime a liberdade, e como na Filosofia e na Democracia essa liberdade está implícita, conforme o exposto acima, podemos dizer então, que a Grécia nos deixou áreas bem definidas para que exercitemos as ideias sobre o que seja ou o que se imagine que seja a liberdade.

Há muito para ser avaliado no que se refere às contribuições extraordinárias da civilização grega para o progresso da humanidade, e no que tange aos ensinamentos maçônicos, o Irmão Theobaldo Varoli Filho, já se manifestava escrevendo sobre o cabedal que interessa à Maçonaria e que é proveniente dessa civilização, aliás, isso envolveria assuntos tão variados como: a filosofia, as três ordens arquitetônicas, a mitologia, a iniciática, o desenvolvimento da democracia, o simbolismo e o alegorismo, as artes, os templos e as construções. Frente a isso tudo, a vontade seria mesmo poder abordar cada um dos tópicos que foram elencados acima. De alguns deles já estamos falando desde o começo, seja nas entrelinhas, seja diretamente: democracia, liberdade… O resto virá, durante o desenvolvimento do trabalho, e não necessariamente na ordem disposta.

A herança grega na Maçonaria

Muitos dos nossos Irmãos estudiosos se debruçaram sobre o assunto, desenvolvendo pesquisas mais amplas e detalhadas sobre as influências que a Maçonaria recebeu da Grécia antiga, reconhecendo a dimensão disso tudo, e melhor ainda, com as devidas ressalvas, publicaram seus resultados. Disse o Irmão Theobaldo Varoli Filho:

“As boas lojas maçônicas do mundo contemporâneo já não se limitam a recitar para os obreiros as ininteligíveis instruções e não mais ocultam as fontes gregas que os maçons aceitos do passado foram rebuscar, para introduzi-las nos rituais. A maçonaria moderna não engana. Demonstra desde logo a verdade e deixa as conjecturas para quem quiser. Assim, por exemplo, quando os maçons tenham de referir-se aos quatro elementos – ar, água, terra e fogo, que os antigos consideravam corpos simples e fundamentais da formação do universo, não deixarão de mencionar o hilozoísmo e o panteísmo da escola jônica de Tales de Mileto (624-428 a.C.), Anaximandro (611-547 a.C.), Anaxímenes (588-524 a.C.), e a notável evolução para os ensinamentos de Heráclito (535-475 a.C.), Empédocles (495-435 a.C.) e Anaxágoras (500-428 a.C.). Não mais apresentarão certas teorias como segredos, como faziam, por exemplo, com a tétrada pitagórica, figura mencionada em qualquer livro de história da filosofia. O simbolismo maçônico não mais comporta licenciosidade de interpretações e ocultação das origens nas quais se inspirou. Essa verdade pode desagradar a muitos maçons que precisam dormir para sempre, se não quiserem acompanhar a verdadeira maçonaria. A mitologia é relevada pelos maçons, não só como fonte de inspirações alegóricas, simbólicas e éticas, como também pelo fato de representar uma das grandes fases na evolução das crenças e fornecer elementos de comparação entre diversas religiões. Sendo a maçonaria uma ordem a serviço da democracia, nada mais seria preciso dizer em abono da recomendação que se faz aos maçons, no que tange às conquistas populares e democráticas da antiga Hélada.”

Os Mistérios Gregos

Não saberia dizer até onde nós Maçons temos isso que poderia ser classificado como um conhecimento razoável sobre o que eram os Mistérios e como funcionavam. A iniciática grega, digamos assim, acho que não é um tema abordado regularmente, e mesmo possibilidades de se fazerem analogias ou referências com as nossas Iniciações, não são aproveitadas, ou pelo menos, não me lembro de haver presenciado qualquer coisa nesse sentido em Loja, sendo assim, tomo a liberdade de dizer que dependendo do Mistério e mesmo no caso dos que guardam supostamente semelhanças com passagens dos rituais maçônicos, não são de domínio dos Irmãos encarregados de ministrarem instruções, e não são mais explorados pelo próprio desconhecimento, onde podem ser incluídos aí, um certo desinteresse e a falta de leituras mais aprofundadas. Então, a título de ilustração, é importante que tenhamos uma noção de como eram, e é importante frisar, dos seus significados maiores, para entendermos as origens das nossas próprias iniciações. No mínimo, devemos abordar aqui, ainda que sucintamente, os mais importantes deles. E sempre com as devidas ressalvas.

Mas, o que são mesmo os Mistérios?

Sempre que me deparei com a palavra “Mistérios”, presente nos títulos de textos, livros ou até mesmo de filmes eu quis desvendá-los. Uma propensão que eu diria é dada a todo ser humano. A palavra por si só, atrai. Quando comecei a me deparar com ela, e não foram poucas as situações, lembro particularmente das pesquisas para os trabalhos maçônicos, por ter me utilizado bastante do “Dicionário Maçônico” do Irmão Joaquim Gervásio de Figueiredo, (era o único que eu possuía tempos atrás) onde seguido dava com a palavra Mistério, já que há quase trinta páginas na obra citada se referindo ao assunto e verbetes desfilando ao longo delas contendo a palavra Mistérios. Há coisa de alguns meses atrás, andei incursionando por ali e, escrevendo sobre os “Mistérios Judaicos’, mas, eu não me detive no trabalho respectivo em fazer maiores esclarecimentos sobre o que significam os Mistérios, isso eu pretendo fazê-lo a partir de agora. Depois, iremos penetrar nos Mistérios Gregos que, me parece, envolvem mais detalhes, assim como parecem ter exercido maiores influências que os outros. Começarei definindo o que são os Mistérios, então.

Do “Dicionário Enciclopédico do Pensamento Esotérico Ocidental”, e do que consta no verbete MISTÉRIOS, retiramos as seguintes passagens:

“Situados entre os mais famosos aspectos da antiga religião grega e romana, os Mistérios eram rituais tradicionais de iniciação, muitos deles transmitidos desde épocas bem mais remotas. O mundo grego tinha uma rica variedade de Mistérios, e no passado alguns estudantes de misticismo tinham por hábito serem iniciados no maior número possível de mistérios. Os Mistérios mais famosos eram os Mistérios Eleusianos, realizados uma vez ao ano na pequena cidade de Elêusis. (…) Estavam associados ao mito da procura de Deméter por sua filha Perséfone. (…) Os ritos de iniciação dos Mistérios eram secretos, e só restaram referências esparsas e imagens para que os estudiosos modernos arrisquem palpites sobre o seu conteúdo. (…) A maioria dos Mistérios estabelecia apenas um estágio de iniciação. Os Mistérios Eleusianos eram diferentes porque tinham duas fases, a Myesis, ou Mistérios menores, e os Teletai, ou Mistérios Maiores. (…) Os Mistérios eram um importante aspecto da religião pagã do mundo antigo, e, como a maioria dos outros aspectos do paganismo clássico, aparentemente se extinguiram quando o cristianismo assumiu o controle do mundo romano e as práticas pagãs tornaram-se ilegais. Certos elementos dos Mistérios foram preservados em círculos mágicos, como atestam os papiros mágicos greco-egípcios. (…) Como muitos dos magos, gregos e romanos mais filosóficos também eram iniciados nos Mistérios, esses empréstimos eram possíveis, e podem ter permitido que fragmentos das práticas dos Mistérios passassem para as tradições mágicas posteriores. Tentativas de identificar os trechos específicos dos Mistérios no ocultismo posterior, porém, tem sido bem problemáticas. Parece que pouca atenção foi dada aos Mistérios durante a Idade Média e o Renascimento, mas o aparecimento da Maçonaria no século XVIII tornou os rituais de iniciação um tema de grande interesse. Tal interesse se manifestou de diversas maneiras. Primeiro, foram feitas tentativas de demonstrar (sem muitas evidências) que a Maçonaria ou alguma outra ordem fraternal seria a descendente direta de uma tradição específica de Mistérios, ou então dos Mistérios como um todo. Em seguida, foram criados novos rituais de lojas baseados nos fragmentos de informação restantes sobre os Mistérios, um projeto que pode ter atingido o zênite com a invenção do Sétimo Grau dos Patrons of Husbandry (The Grange). Uma tentativa vitoriana de reencenar os Mistérios Eleusianos. Em terceiro, os Mistérios foram interpretados com a leitura dos hábitos e tradições das lojas fraternais dos séculos XVIII e XIX nas antigas Grécia e Roma. Esses três elementos tiveram um importante efeito sobre o desenvolvimento da história mítica do ocultismo no período moderno.”

Uma verdadeira introdução ao assunto Mistérios, e ainda, sobre as possíveis conexões com a Maçonaria, usando do equilíbrio que o assunto requer, consta no “Grande Dicionário Enciclopédico…” do Irmão Nicola Aslan, de onde extraio o seguinte:

“Segundo Frau Abrines, os mistérios da antiguidade consistiam em uma série de símbolos, de parábolas e de sentenças obscuras, cujo conhecimento era reservado às classes sacerdotais e que se transmitiam por tradição e através de uma série de iniciações. A iniciação era uma escola na qual eram ensinadas as verdades da religião primitiva, a existência e os atributos de um Deus único, a imortalidade da alma, os castigos e as recompensas de uma vida futura, os fenômenos da natureza, as artes, as ciências, a moral, a legislação, a filosofia, a beneficência, o magnetismo animal, etc. Em todos os mistérios eram apresentados ao iniciado, por meio de imagens, a felicidade do justo e a desgraça do mal, depois da morte; as provas a que era submetido impressionavam o seu espírito temperando-o, para que fosse capaz de compreender as grandes verdades.

Grande parte do Cerimonial Maçônico de Iniciação tira a sua origem dos mistérios da antiguidade. Este Cerimonial foi adaptado às circunstâncias e exigências modernas. Na Maçonaria, dá-se o nome de mistérios às Cerimônias, figuras alegóricas e emblemas da Maçonaria, como também aos Sinais, aos Toques, e às Palavras por serem coisas que não devem ser divulgadas. Não existe porém, qualquer conexão histórica entre os mistérios antigos e a Maçonaria. Como todas as corporações medievais ou operativas tinham um cerimonial de recepção, diferente da Iniciação Maçônica moderna.”

O Irmão João Anatalino Rodrigues em seu livro “O Tesouro Arcano” escreveu o seguinte:

“Sabemos que, como estrutura arquetípica, a Maçonaria é contemporânea das primeiras civilizações. Desde os tempos mais antigos, os povos que alcançaram os mais altos estágios civilizatórios cultivam a tradição de preservar sua cultura, seus conhecimentos e suas conquistas mediante a reunião de grupos específicos de indivíduos que comungam de interesses mútuos. Esses grupos se formam por cooptação, procurando aglutinar, na forma mais nivelada possível, os ‘iguais’ dentro de uma sociedade, fundamentados na crença de que aqueles que estão mais envolvidos com determinado sistema é que tem maior interesse em preservar seus valores. É nesse amplo espectro, que funde religião, política, mitologia e história, que iremos encontrar, por exemplo, as antigas manifestações culturais conhecidas como Mistérios, que vários autores maçons costumam invocar como sendo as estruturas mais antigas da Maçonaria.”

Comentários

Como podemos ver, ainda que subentendida, e após a leitura dos textos acima, a herança dos Mistérios Gregos pode ser bem maior sobre as ciências ocultas do que mais diretamente sobre a própria Maçonaria. Sem dúvida, seria o caso de discutir, quais os ritos que absorveram ou tiveram maiores adaptações em seus rituais se utilizando daquilo que teria sobrevivido dos tempos em que eram praticados, e que pelo que pudemos ver, não foi muito não. É um terreno perigoso, sem dúvidas, para apontar com certeza as dimensões dessas influências, e como sabemos alguns autores fazem questão de ver isso tudo com uma clareza que uma maioria não vê.

Os Mistérios Gregos e a  Maçonaria: o dicionário de Joaquim Gervásio de Figueiredo

Do clássico “Dicionário de Maçonaria” do Irmão Joaquim Gervásio de Figueiredo, extraímos a primeira parte, digamos assim, da sua definição, e que vem ajudar em nossos propósitos:

“MISTÉRIOS. Termo genericamente aplicado a antigas religiões e escolas ocultas pré-cristãs, dos egípcios, persas, gregos, judeus, romanos, celtas e escandinavos. Homens e mulheres de qualquer posição e cultura podiam solicitar sua iniciação nos diversos mistérios, que se dividiam em Menores (exotéricos) e Maiores (esotéricos).”

Retornamos ao Dicionário de Aslan, para utilizarmo-nos de uma descrição utilizada por ele, creditada a Albert Pike, que diz assim:

“Onde começaram os Mistérios? Ninguém o sabe. Supõe-se que vieram da Índia, passaram para a Caldeia, o Egito, de onde foram transportados para a Grécia. Qualquer que seja o lugar das suas origens foram praticados em todas as nações da antiguidade, e, como era o comum, os habitantes da Trácia, os cretenses, os atenienses disputaram a honra de tê-los inventado e cada um desses povos pretendeu nada ter tirado do outro. (p.159)”

Já no tocante, especificamente, aos Mistérios Gregos, também extraímos algumas passagens do “Dicionário de Maçonaria”, do Irmão Joaquim Gervásio de Figueiredo, com ênfase para aquelas onde o autor estabelece as presumidas ligações com a Maçonaria:

MISTÉRIOS GREGOS

1 – Origens – Atribui-se sua origem a Orfeu, que se calcula haver vivido uns sete mil anos antes de Cristo. Os mais importantes e conhecidos foram os Eleusinos, cuja influência e excelência foram sempre proclamadas não só por seus iniciados como pelos maiores homens da era clássica, como Píndaro, Sófocles, Isócrates, Plutarco, Heródoto, Platão, Cícero e muitos outros. Todavia, muito escasso é o conhecimento do mundo moderno sobre seus sistemas, métodos e doutrinas, pois sempre foram mantidos sob rigoroso e juramentado sigilo, a ponto de a opinião pública, que os respeitava e reverenciava, infligir terríveis penalidades a quem os violasse. Reduzidas são, pois, as informações obtidas diretamente das fontes chamadas pagãs; a sua maioria nos chegou através de antigos escritores cristãos, como Hipólito, Clemente de Alexandria, Orígenes, Arnóbio e outros.(…) Além do mais, tudo quanto a seu respeito (Mistérios Eleusinos, grifo meu) que se conhece hoje, restringe-se à cerimônias e provas externas então aplicadas aos candidatos, e às instruções administradas ao público através de vários mitos, parábolas e alegorias. E quando os profanos de então insistiam por informações que os oficiais não desejavam adiantar, só lhes prestavam as estritamente permitidas e necessárias.

2 – Mistérios Menores. Estes eram celebrados no Templo de Deméter e Coré ou Kore (Virgem), em Agra, perto de Atenas, no mês de março, pelo equinócio da primavera. Os ensinamentos que ali se davam, giravam em torno da vida póstuma no mundo intermediário ou astral, o Hades, e neste sentido se pode equiparar estes mistérios ao 1º Grau maçônico, enquanto difiram as respectivas cerimônias. (…)

3 – Mistérios Maiores – Celebravam-se estes no mês de setembro (Boedromion), pelo equinócio do outono, tendo por centro a cidade de Elêusis, distante de Atenas cerca de 20 quilômetros. Nessa época toda a Grécia entrava em férias, e realizavam-se pomposas procissões públicas, com a participação dos iniciados de todas as classes sociais. Estas procissões foram detalhadamente descritas por escritores seus contemporâneos, mas afora estas descrições exotéricas, nada se sabe dos Mistérios Maiores no mundo externo, a não ser através de poucas e obscuras insinuações. Tais procissões duravam toda uma semana, partindo de Elêusis dia 13 de setembro até o Eleusinion no sopé da Acrópole, cidadela cercada de altos muros, como a matriz de Elêusis, e aonde só os iniciados podiam entrar. No dia 19, completadas todas as cerimônias, a procissão retornava a Elêusis, sempre com grande imponência. Os Mistérios Maiores, cujas instruções sobre a vida depois da morte abrangiam o mundo-céu, os Campos Elíseos, correspondiam, de certo modo, ao atual 2º Grau maçônico.

(…) A Maçonaria não herdou diretamente a sucessão eleusina, porém algo de sua inspiração e influência foi transmitido às escolas místicas da Idade Média. Todavia, seus ritos visam a mesma finalidade, relacionam-se com os mesmos mundos invisíveis e prepararam Almas para a mesma augusta realidade oculta por trás de todos os verdadeiros sistemas de Mistérios. ”

As influências dos Mistérios na Maçonaria na visão do estudioso Hervé Masson

Corroborando, a importância desses Mistérios como um todo, vejamos um trecho do “Manual-diccionário de Esoterismo” de Hervé Masson:

“Las ‘religiones de misterios’ de la antiguedad se han extinguido. Privadas de su soporte esotérico, perdieron su carácter de necesidad iniciática. Pero el mensaje que habián recibido y que constituía su contenido primordial, ha pasado a otras manos. Hoy como hace miles de años, la via inicática discurre por los mismos sítios, con variantes, claro está, pero inspirada por el mismo espíritu y persiguiendo un propósito idêntico. Mitos parecidos (como la leyenda de Hiram en la Masonería), ritos análogos y un proceso palingenésico semejante caracterizan a la iniciación de hoy y a la del pasado. No ha existido una verdadera fractura entre una y outra. En primerísimo lugar, el esoterismo de las ‘religiones de misterios’ se prolongó en las asociaciones de oficio, tanto en Grecia como en Roma. Se sacralizaba el trabajo por la afiliación a este o aquél rito, por la práctica de una iniciación. En estrecho paralelismo com la obra divina de la creación, la labor humana se elevaba al plano demiúrgico. Se convertia, también ella, en una ‘creación’. Hemos visto que ciertas confraternidades y corporaciones estaban afiliadas a los ‘misterios’ de Dionysos. Los metalúrgicos fueron particularmente dionisíacos.Acaso los ocultos ritos de las Cabirias legendarias, ancestros de la alquimia guardaban relación con el culto de Dionysos, o del Zagreo órfico? Más tarde, en Roma, las corporaciones de talladores de piedra y obreros de la construcción, invocaban el patronazgo de Jano bifronte. La afiliación a los ‘collegia’ presentaba un carácter eminentemente iniciático, que será transmitido hasta nuestros días mediante el Compagnonnage y la Masonería. (Grifo meu) Es evidente que las formas esotéricas, el soporte religioso, e incluso cultural, han cambiado profundamente. Pero el mismo esoterismo, los mismos temas iniciáticos, han resistido a la prueba del tiempo con una simple y transparente transposición. Intangibles, reaparecen en pleno siglo XX en el seno de las sociedades iniciáticas modernas especulativas y operativas. La leyenda de Hiram que resumimos en su capítulo, es un ejemplo de esta vocación iniciática del mito palingenésico.”

Os Mistérios de Elêusis – Existe uma herança na Maçonaria? A opinião do irmãos e estudioso Theobaldo Varoli Filho

Em primeira instância, tendo tomado conhecimento do que eram propriamente os Mistérios de Elêusis, já é possível a partir desta leitura, perceber as analogias decorrentes que poderão ser feitas com relação à Iniciação Maçônica. Para isso, transcrevo o trecho referente a estes mistérios em particular, constante no verbete MISTÉRIOS GREGOS do “Vade-Mécum Maçônico” da autoria do irmão João Ivo Girardi:

“Nos Mistérios de Elêusis encontramos: o culto agrário da deusa Deméter, que ensina o cultivo do trigo, e o culto de sua filha Perséfone, ou Core (Prosérpina, para os romanos). Deméter, deusa das colheitas amava, de maneira intensa, sua filha Perséfone, que foi raptada certo dia, enquanto colhia flores no campo, por Hades, (Plutão para os romanos), deus dos infernos. Após procurá-la pelo mundo interior, Deméter se encontra com Apolo (o Sol), que a informa de tudo. Deméter, tomada de cólera contra a Terra, não permite que nela, cresçam os grãos e os frutos. Diante de tal situação, Zeus resolve interferir junto a Hades, afim de que devolva Perséfone. Estabelece, entretanto, uma condição: a de que poderia voltar ao Olimpo, caso não houvesse ingerido nenhum alimento. Como ela havia ingerido os grãos de uma romã, não pode voltar, sendo-lhe permitido, somente, que passasse seis meses do ano com sua mãe e os outros seis meses no inferno. A lenda nos mostra, assim, Perséfone simbolizando as sementes, que, sob a terra, permanecem durante a metade do ano, frutificando depois sobre a mesma. Representa, esotericamente, a eternidade e a imortalidade, segredos que os Mistérios de Elêusis transmitiam aos iniciados e que, sem dúvida vieram a influenciar o 3º Grau maçônico, quando apresenta a lenda da morte e da ressurreição de Hiram-Abif. Os Mistérios de Elêusis dividiam-se em dois Graus: os Mistos – onde eram dados ensinamentos relativos à vida depois da morte, no mundo astral, como que intermediário entre o material e o espiritual. Os Epoptas – representava um Grau mais elevado – recebiam instruções mais profundas sobre a origem do homem e do Universo, e mais sobre o domínio da mente. O símbolo do Grau era uma espiga de trigo. Nos Mistérios de Elêusis encontramos algumas analogias com a Iniciação Maçônica. Nesta, as provas, que representam a morte física do Iniciado e o seu renascimento num plano superior, são iguais aos ensinamentos ministrados aos Iniciados no culto de Deméter sobre os mistérios da morte e da ressurreição. No 1º Grau – Mistos – deparamos com uma grande relação com o 1º Grau Maçônico – Aprendiz. Em ambos, por exemplo, o Iniciado se dedica ao estudo da evolução racional da espécie humana e da formação do universo, de acordo com as Doutrinas Iniciáticas. No 2º Grau – Epoptas – dos Mistérios de Elêusis , bem como o 2º Grau Maçônico – Companheiro – o símbolo é o mesmo: a renovação constante da vida, através da imortalidade da alma, tão difundidos na Doutrina Mística da Maçonaria.”

À página 164, do seu “Curso de Maçonaria Simbólica”, escreveu o Irmão Theobaldo Varoli Filho:

“Certos escritores ditos ‘ocultistas’ encarecem os mistérios de Elêusis, como outros, e fazem conjecturas, as quais, apresentadas com uma certa magnificência literária, parecem exprimir a verdade. Nas bibliotecas maçônicas sobejam livros dessa espécie. Muitos deles chegam a afirmar que os próprios maçons não entendem a Maçonaria. Acautelem-se os Aprendizes contra essa literatura que a Maçonaria repele. A Sublime Instituição abomina o obscurantismo e a superstição. Quanto a pretender que a Maçonaria derive também dos ‘Mistérios de Elêusis’, constitui um atestado de crassa ignorância ou um propósito de mistificação. O culto a Elêusis foi duradouro, mas instável, como todos os anteriores ao do Grande Arquiteto do Universo.”

O Irmão Theobaldo Varoli Filho tece suas considerações, sem se deixar levar por simples influências. Uma pergunta que ele formula sobre os Mistérios de Elêusis e que ele mesmo responde, é digna de figurar aqui pelo seu teor. Vejamos:

“Os cultos de Elêusis estariam para Ceres ou Deméter assim como o culto da atual Maçonaria mística estaria para o Grande Arquiteto do Universo?

Assim entendem muitos maçons místicos. Essa comparação, entretanto, não passa de exagero. Ceres era uma divindade especialíssima, conforme veremos, e o G.’.A.’.D.’.U.’. é a denominação dada pelo maçons a Deus, Criador Supremo, conhecido e venerado por vários nomes em diversas religiões. A diferença é tão grande que não se pode estabelecer comparação. Além disso, a iniciática maçônica consiste em integrar o iniciado na ética universal e não em preparar o maçom para alcançar o céu. Este mister a maçonaria deixa aos cuidados dos próprios crentes das diversas religiões, todas elas respeitadas pela Sublime Instituição.”

Para fechar este bloco, voltamos a recorrer ao Irmão João Anatalino Rodrigues, com suas sábias considerações sobre o assunto:

A Influência na Maçonaria – Eis por que tanto os Antigos Mistérios egípcios quanto os Mistérios de Elêusis são constantemente invocados nos rito maçônicos, pois ambos evocam a necessidade de uma morte ritual e uma regeneração do recipiendário, como condição essencial a sua passagem de um estado de consciência profana para uma consciência superior de iniciado. A cerimônia de iniciação na Maçonaria tem sido comparada à recepção do neófito nos Pequenos Mistérios e a cerimônia de elevação ao Grau de Mestre na Maçonaria Simbólica é, para muitos autores maçônicos, numa corruptela da iniciação nos Grandes Mistérios. Há inclusive autores que acreditam que a lenda de Hiram tenha sido diretamente adaptada dessa fonte, pois que o arquiteto do Templo de Salomão, assassinado por três companheiros traidores, cumpre idêntico papel ao de Osíris nos Mistérios Egípcios e de Perséfone nos Mistérios Eleusinos. Essas comparações e analogias são, a nosso ver, um tanto licenciosas. Todavia a instituição que existia por trás dessas práticas iniciáticas se assemelha bastante ao que hoje praticamos na Maçonaria Moderna.”

Autor: José Ronaldo Viega Alves

Fonte: JB News

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