A morte (e a vida)

Imagem relacionada

Em Maçonaria, os símbolos e rituais servem para colocar ao dispor do maçom os conhecimentos, os temas, os valores com significado e importância no ideário maçônico. O que cada maçom aprende ou não aprende, reflete ou não reflete, assimila ou não assimila em face desses símbolos ou rituais é com ele. Cada um é como é e livremente aproveita (ou não) da forma que melhor entende o que lhe é proporcionado.

Ao longo do seu percurso, o maçom é confrontado, simbólica e ritualmente, com a morte. Desse confronto, fará a reflexão que quiser ou for capaz, tirará a lição que conseguir tirar. Mas é importante que esse confronto exista.

A morte – sabemo-lo, embora mutos o procurem esquecer pelo máximo de tempo possível… – é inevitável. A todos chegará, a cada um na sua hora. Normalmente, quanto mais novos somos, mais afastamos esse tema do nosso pensamento. É uma desagradável questão distante com que esperamos não ser confrontados por décadas – se nos detemos a pensar nisso ainda vamos deprimir e mais vale mas é pensarmos no que vamos fazer hoje e amanhã e esta semana e nas próximas férias…

No entanto, os maçons são confrontados com a morte e assisado é que reflitam sobre esse tema. Desde logo, porque fazendo-o quando a morte não lhes está iminente, tal lhes permite racionalmente fazerem a sua análise e, sem urgências, ficarem em paz com a certeza de que um dia ela os atingirá.

A morte faz parte da vida. O ciclo natural do nascimento, crescimento, maturidade, declínio, morte está presente em todos os seres vivos, é ínsito à Vida. Quanto mais cedo e melhor aceitarmos isso, mais cedo e melhor estaremos em condições de aproveitar e viver plenamente a vida.

Para o crente, a morte não é o fim, mas uma Passagem. Mas, deste lado da mesma, forçoso é reconhecer que é uma Passagem para o Desconhecido…

A morte, o reconhecimento da sua inevitabilidade e, portanto, a sua aceitação, é, desde logo um importante fator de consciência da fundamental Igualdade entre todos nós.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos proclama, logo no seu art. 1.º, que todos os seres humanos nascem livre e iguais em dignidade e em direitos. Mas, ao contrário do que possa parecer, a parte final desta proclamação (“em dignidade e em direitos”) restringe o alcance da primeira parte da frase. E fá-lo bem, porque, em bom rigor todos os seres humanos, sendo essencialmente iguais, são individualmente diferentes. Uns nascem em berço de ouro, outros em pobres enxergas. Uns são geneticamente dotados de saúde, outros têm a infelicidade de virem a este mundo com doenças congênitas. Uns são inteligentes, outros nem tanto assim. Uns são belos, outros nem por isso. Pese embora a proclamada igualdade “em dignidade e em direitos”, temos que reconhecer que, parafraseando George Orwell em O Triunfo dos Porcos, “uns são mais iguais do que outros”. Uns, bafejados pela genética, mas também condições sociais, partem para a jornada da vida com vantagem. Outros terão de superar deficiências, insuficiências, simples acasos como o lugar de nascimento ou de colocação social dos seus genitores para lograrem atingir os mesmos objetivos e patamares muito mais facilmente atingidos pelos bafejados pela sorte na sua concepção e nascimento.

Quer queiramos, quer não, apesar da fundamental Igualdade entre os seres humanos, a verdadeira, a completa, a material Igualdade só existe na morte! A morte é o encerrar do ciclo neste plano de existência para o milionário e para o indigente, para o belo e para o feio, para o inteligente e para o menos dotado. A morte é a Grande Igualizadora!

Entender a nossa finitude e aceitá-la, mas também entender a fundamental Igualdade que a todos junta na morte é essencial para entendermos e fruirmos completamente a Vida.

A essencial Igualdade da morte é que todos, rigorosamente todos, quando chega esse momento tudo deixam para trás: riquezas, estatuto, honras, mas também dívidas, condenações e opróbrios.

Acumular riquezas, obter estatuto, receber honras implicam esforços, escolhas, renúncias. Ter suficientes bens materiais para poder proporcionar a si e aos seus uma vida segura e confortável e fazer sacrifícios para isso é entendível. Prescindir de fruir plenamente a vida só para acumular riquezas muito para além dessa medida e que, chegada a hora da morte, para trás ficarão, não será, para muitos, uma prioridade. O mesmo quanto ao estatuto, que inexoravelmente termina com a morte física, e com as honras, que gradualmente se desvanecem nas memórias dos que ficam até inevitavelmente desaparecerem, ou, quando muito, e em reduzido número de casos, se limitarem a referências nos livros de história ou de uma qualquer especialidade. Mesmo os grandes, celebrados e recordados artistas, heróis e criadores desconhecem, após a sua morte, que permanecem celebrados e recordados…

Portanto, a consciência e a aceitação de que a nossa vida é finita e que, chegada a morte, tudo deixamos para trás, em bom rigor não são pungentes, não são atemorizadora, são libertadoras, porque essa consciência e aceitação nos permitem viver e fruir plenamente a Vida.

A vida á para ser vivida da forma mais livre, mais pujante, mais compensadora, que nos for possível.

A VIDA É BELA! Mas só temos total consciência disso e a plena capacidade de a fruir depois de termos encarado a nossa finitude e de estarmos em paz com a nossa morte.

Autor: Rui Bandeira

Fonte: A Partir da Pedra

O anoitecer da vida e a imortalidade

“Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, eu vo-lo teria dito. Pois vou preparar-vos lugar. (João l4:2)

Dê ou não, o meio, condições para que o tempo de vida se prolongue o ser humano fatalmente morrerá. Breve é a nossa passagem por esta vida terrena. Ontem chegamos, hoje nos banhamos no Rio da Vida, amanhã partiremos. O Rio da Vida já corre muito antes do nosso nascimento e continuará a fluir, indiferente, após a nossa partida.

A morte, ou seja, a total e permanente cessação dos processos vitais do organismo, das funções físicas e mentais, é o fecho de um ciclo que começou com a separação do indivíduo da paz intra-uterina pelo nascimento e que termina com o retorno simbólico a um estado de paz e silêncio, onde não há mais desejos nem dor.

Desde a infância o homem tem consciência da morte como o fim da sua história natural e pessoal, e o impacto deste conhecimento influencia suas atitudes diante da vida conforme as experiências sofridas nas várias fases do desenvolvimento.

Na velhice, a morte já é algo familiar ao indivíduo. Sua atitude a respeito dela pode variar de uma suave expectativa, de quem está ciente de ter realmente um saldo positivo dos investimentos vitais realizados e que se perpetuará na espécie, até a angústia e o desespero de quem viveu estéril e improdutivamente. O velho é o produto final dos valores que foi assumindo durante toda uma vida. Só se torna uma preparação para a morte, quando se renuncia a um projeto de vida, quando se mata a esperança.

“A morte de um jovem me parece uma chama extinta com um dilúvio de água: enquanto a de um velho se assemelha à chama que se apaga naturalmente, ao fim da reserva de combustível” (Cícero).

Muitos consideram que o falecimento de uma pessoa amada é verdadeira desgraça, quando, na verdade, morrer não é finar-se nem consumir-se, mas libertar-se.

Devemos nos afligir? Sim, se não soubéssemos que nada morre a não ser o invólucro terrestre. Não, se como ensina nossa consoladora Ordem, somos essencialmente espíritos e, por isso, devemos aproveitar todas as oportunidades para nos aprimorarmos como pessoas, como “pedras polidas”. Diante das dificuldades, temos que nos superar. Escutemos o espírito ou a voz da Verdade em nosso coração e teremos a orientação sobre o caminho a seguir. Crescer espiritualmente, extirparmos os defeitos, as mazelas, etc.

Nada pode pretender se estabilizar no coração do maçom se não possui, em seu conjunto, como em seus menores detalhes, essa emanação pura e divina que chamamos a Verdade; um ponto fundamental da doutrina maçônica porque afirma que o Maçom deve estar, constantemente em busca da verdade. Designa a realidade, a exatidão; a qualidade pelas quais coisas e pessoas aparecem tais como são; é a única imutável como o Criador, que dela é a fonte. Isso não significa, todavia, que a verdade total, absoluta, seja atingível, pois, se isso fosse possível, essa busca constante deixaria de ser uma meta de vida e o ensinamento perderia o seu valor. Significa, apenas, que o Homem é perfectível, mas que nunca chegará ao acme da perfeição total, que só pode ser conseguida com o conhecimento da verdade absoluta, ou seja, daquela que independe de interpretações, pois são variáveis de acordo com as tendências e as paixões.

A grande Verdade é que decidimos a pessoa que escolhemos ser. Potencialmente, somos perfeitos. Está em nós, particularmente no Maçom, caminharmos para a perfeição. Cada dia decidimos continuar do jeito que somos ou mudar.

Devemos perguntar-nos: o que estamos fazendo neste planeta?

Parece que a resposta será: evoluirmos espiritualmente e aprendermos a melhor servir e amar.

A Maçonaria aceita que o maçom, após sua morte física, adentra em um Oriente Eterno, local místico, situado em outro plano, totalmente desconhecido. No momento da “desencarnação”, havendo lucidez, o maçom deve aguardar com ansiedade essa “passagem” de um estado de consciência para outro, mais real e mais sublime.

A partida, não é mais que um avanço de alguns dias, alguns anos talvez, sobre a viagem que todos nós devemos realizar em direção ao Oriente Eterno, a nossa pátria comum, o infinito. Infinito é uma das denominações de Deus; o ser humano, na sua vida espiritual, é infinito. As Lojas maçônicas possuem a Abóboda Celeste para simbolizar o infinito.

Teoricamente, tudo tem um final, mas esse final constitui o “seio do Senhor”, ou seja, a assimilação do Criador com a criatura. O infinito é o que dá ao homem a esperança de sua eternidade.

O maçom aplica o substantivo “infinito” para expressar o seu amor ao seu irmão de fé; infinito é o amor de Deus para conosco, e em retribuição a nossa entrega a Ele deve, por sua vez, ser infinita.

O que não tem fim é a eternidade; entender isso é privilégio de poucos; porém, a perseverança abre o entendimento.

Quando um de nós deve empreender uma longa peregrinação toda a família se reúne para festejar a partida, ou se juntam amigavelmente para enumerar as qualidades, as virtudes sociais e familiares do futuro imigrante; cada um faz seus votos para uma feliz viagem e um breve regresso.

Assim, diante dos que partiram na direção da morte, assuma o compromisso de preparar-se para o reencontro com eles na vida espiritual. Prossegue em sua jornada na Terra sem adiar as realizações superiores que lhe competem. Pois elas são valiosas, quando você fizer a grande viagem, rumo à madrugada clarificadora da eternidade.

Contam que um filósofo, quando hospitalizado, um médico legista lhe disse que tinha aberto muitos corpos, mas jamais tinha encontrado um espírito. O filósofo, então, lhe explicou que não se poderia achar o pássaro, depois que a gaiola tinha sido aberta.

O genial Victor Hugo deixou o texto que se segue falando do homem e da imortalidade:

“A morte não é o fim de tudo. Ela não é senão o fim de uma coisa e o começo de outra. Na morte o homem acaba, e a alma começa.

Que digam esses que atravessam a hora fúnebre, a última alegria, a primeira do luto. Digam se não é verdade que ainda há ali alguém, e que não acabou tudo?

Eu sou uma alma. Bem sinto que o que darei ao túmulo não é o meu eu, mas o meu ser. O que constitui o meu eu, irá além.”

O homem é um prisioneiro. O prisioneiro escala penosamente os muros da sua masmorra. Coloca o pé em todas as saliências e sobe até ao respiradouro. Aí, olha, distingue ao longe a campina. Aspira o ar livre, vê a luz. Assim é o homem. O prisioneiro não duvida que encontrará a claridade do dia, a liberdade. Como pode o homem duvidar se vai encontrar a eternidade à sua saída?

Por que não possuirá ele um corpo sutil, etéreo. De que o nosso corpo humano não pode ser senão um esboço grosseiro?

A alma tem sede do absoluto e o absoluto não é deste mundo. É por demais pesado para esta terra. O mundo luminoso é o mundo invisível. O mundo luminoso é o que vemos.

Os nossos olhos carnais só vêem a noite.

A morte é uma mudança de vestimenta. A alma, que estava vestida de sombra, vai ser vestida de luz. Na morte o homem fica sendo imortal.

A vida é o poder que tem o corpo de manter a alma sobre a terra, pelo peso que faz nela. A morte é uma continuação.

Para além das sombras, estende-se o brilho da eternidade. A alma passa de uma esfera para outra, torna-se cada vez mais luz. Aproxima-se cada vez mais e mais de Deus.

O ponto de reunião é no infinito. Aquele que dorme e desperta, desperta e vê que é homem. Aquele que é vivo e morre, desperta e vê que é Espírito.

Autor: Valdemar Sansão

Fonte: Blog O Aprendiz

Doação para manutenção do blog

Está gostando do blog, caro leitor? Só foi possível fazermos essa postagem graças ao apoio de nossos colaboradores. Todo o conteúdo do blog é fornecido gratuitamente, e nos esforçamos para fazer um ambiente amigável para os públicos interessados. O objetivo é continuar no ar oferecendo conteúdo de qualidade que possa contribuir com seus estudos. E agora você pode nos auxiliar nessa empreitada! Faça uma doação e ajude a manter o blog funcionando. Para garantir sua segurança utilizamos a plataforma de pagamentos PayPal e você pode contribuir usando o cartão de crédito, para isto basta clicar logo abaixo na bandeira correspondente ao seu cartão. Se preferir, pode também fazer sua doação por transferência bancária em favor de Luiz Marcelo Viegas da Silva, CPF 633.643.366-87, Banco do Brasil, Ag: 2115-6 CC: 14770-2.

$10.00

A Cara da Morte

hqdefault (1)

“Eu vi a cara da morte e ela estava viva.” Um dos refrões de maior sucesso de Cazuza talvez nunca tenha feito tanto sentido.

A cada vez mais comum exposição pública da vida começa a valer para a morte. Aos poucos, sai o véu que escondia a dor da perda e o luto passa a ser falado, exposto e compartilhado – dentro e fora dessa existência chamada redes sociais.

A estudante de veterinária Ísis Vanilde Leite Souza tinha 24 anos quando morreu vítima de câncer, em janeiro de 2012. Para poupar a mãe de mais sofrimento, o irmão de Ísis removeu a página da jovem do Facebook e trocou o computador da casa, eliminando fotos, mensagens e vídeos pertencentes à jovem. O rapaz não sabia, mas Eliana Rocha Leite Souza, 52, foi justamente na contramão para lidar com a perda da filha. Ela recorreu a amigos de Ísis e ao Orkut para tentar recuperar imagens e criou um memorial no Facebook, onde hoje publica textos, fotos e vídeos. “É meu ponto de encontro com minha filha. É onde descarrego toda minha saudade e declaro todo o amor que sinto por ela”, afirma.

Essa exposição da dor e da saudade sinaliza uma transformação sobre como encaramos o fim. Ainda causa estranheza para a maioria de nós como a morte e suas consequências foram parar na vitrine – ou você nunca julgou, mesmo sem ter a intenção, aqueles que conversam publicamente com seus mortos no ambiente digital? Se a privacidade diminuiu em vida, o mesmo começa a valer para a morte.

Apesar de lenta, essa mudança de comportamento ganha força nas redes sociais, seguindo o caminho de outros movimentos contemporâneos – da insatisfação política à luta pela igualdade de gêneros. É preciso reconhecer: aquele mesmo Facebook que incita o ódio e expõe o radicalismo dos seus amigos vem contribuindo aos poucos para fazermos as pazes com a única certeza que temos da vida. Assim como Eliana, há cada vez mais pessoas dispostas a enfrentar a dor da perda sem medo de mostrá-la ou receio de causar desconforto aos outros – mesmo que estejam sujeitas a julgamentos por causa da exposição.

A mãe de Ísis define o momento que vivemos como um paradoxo. Divulgada à exaustão pela mídia, a morte passou a ser consumida de forma escancarada, como um espetáculo. As pessoas participam, sofrem e falam sobre mortes que não lhes pertencem. Por outro lado, não conseguem ouvir as manifestações de alguém muito próximo que perdeu um filho.

“Torço por uma mudança na forma como se encara o luto. A sociedade não autoriza expressões de dor, lamento e saudade. É comum a pessoa enlutada se considerar inadequada e acabar se isolando”, explica Elaine Gomes dos Reis Alves, psicóloga do LEM-USP (Laboratório de Estudos sobre a Morte da Universidade de São Paulo). Para ela, a internet cria uma oportunidade de elaborar o luto, compartilhar sentimentos e prestar homenagens. “É altamente necessário um equivalente no ambiente offline. O enlutado deveria ter autorização para sofrer e lamentar enquanto precisasse”, completa.

FACES DA MORTE

A forma de lidarmos com a morte muda com o passar do tempo. Veja a seguir os destaques desta transformação descritos no livro “História da Morte no Ocidente”, do historiador francês Philippe Ariès.

Idade Média – DESESPERO

O luto imediato chegava a ser violento. Logo após a morte, os presentes rasgavam suas roupas, arrancavam o cabelo, esfolavam suas faces, caíam desmaiados e podiam até beijas “apaixonadamente” o morto – que era elogiado. Ritual era comum para ricos e pobres.

Século XII – ATÉ EU

Até então havia uma resignação ao destino coletivo, resumida na seguinte fórmula: morremos todos. Surge então a constatação da morte de si mesmo. Isso cria um violento apego às coisas da vida, bem como o gosto amargo do fracasso, confundido com a mortalidade.

Século XIII – TESTAMENTO

Diante da morte, o homem torna-se seu próprio juiz. Como mostra a gravura “Ars Moriendi”, o moribundo poderia ser salvo (caso renunciasse às posses) ou condenado (se quisesse levá-las). Vem daí o testamento, que permitia salvar a alma sem sacrificar as posses.

Século XIV – LOCALIZAÇÃO

Até então pouco importava o lugar da sepultura – muitas vezes sem identificação ou qualquer inscrição. A visita ao túmulo era um ato desconhecido, mas isso muda a partir do século XIV: cria-se então a prática de localizar o lugar onde o morto foi enterrado.

Século XVIII – MORTE PÚBLICA

Morte é uma cerimônia pública. Parentes, amigos e vizinhos (inclusive as crianças) entravam no quarto do moribundo. Passantes acompanhavam os cortejos que encontravam na rua. A morte ganha um sentido romântico: é exaltada, desejada, arrebatadora.

Século XVIII – TÚMULOS

Os túmulos viram signo da presença além da morte. É preciso ter a possibilidade de visitá-los, estejam em cemitérios públicos ou na propriedade da família. A concessão da sepultura vira uma propriedade, uma morada pertencente ao morto e a sua família.

Século XIX – HISTERIA

A morte continua pública, mas cria-se uma intolerância com a ideia da separação. O luto se desenrola com ostentação: os enlutados choram, desmaiam e jejuam. É um retorno à Idade Média após séculos de sobriedade. A morte temida não é a própria, mas a do outro.

Século XIX – PROBLEMA

Aqueles em volta do moribundo tentam esconder a gravidade de seu estado. Isso evolui até um sentimento típico do século XX: poupar não o moribundo, mas a sociedade das pertubações causadas pela morte. Na 2ª metade do século os ritos tem menos carga dramática.

Século XX – PROIBIDO

Local da morte muda de casa para o hospital, onde se prestam cuidados adequados. Cerimônias são mantidas, mas as manifestações excessivas de luto são condenadas. Dor demasiada não inspira pena, mas repugnância. O luto passa a ser solitário: o que era exigido vira proibido.

Durante o século 20, sem considerar as peculiaridades de cada cultura ou religião, a morte foi tratada como tabu pelos países do Ocidente – sentimentos como tristeza, desconforto e angústia tinham o rótulo “use com moderação”. Nesse contexto, o luto vem com prazo de validade: poucos meses após a perda, espera-se que os afetados respondam “tudo bem” quando perguntados como estão – mesmo que nada esteja bem.

No livro “História da Morte no Ocidente”, de 1975, o historiador francês Philippe Ariès relata a transformação. Nos séculos 18 e 19, a morte era uma cerimônia pública, com cortejos, visitas (inclusive de crianças) ao quarto do falecido e um luto hoje considerado histérico, do qual faziam parte choro, desmaio e jejum. Isso tudo foi mudando de forma lenta, como geralmente são as modificações ligadas à morte, até ela tornar-se vergonhosa no século 20. Isso. Vergonhosa, proibida e inominável, segundo a descrição de Ariès.

“É importante que a sociedade, a vizinhança, os amigos, os colegas e as crianças se apercebam o mínimo possível de que a morte ocorreu. Se algumas formalidades são mantidas, e se uma cerimônia marca a partida, devem permanecer discretas”, diz o historiador, segundo quem o luto solitário e envergonhado tornou-se uma espécie de masturbação. Não fosse assim, perturbaria o dever moral e a obrigação social de contribuir para a felicidade coletiva. “Uma dor demasiado visível não inspira pena, mas repugnância: é um sinal de perturbação mental ou de má educação. É mórbida“, completa.

Destacada por Ariès assim mesmo, em itálico, a palavra “mórbida” não tem ligação direta com a morte. Ela aparece no dicionário como estado ou condição doentia; enfermidade; algo que denota desequilíbrio psíquico. Ou seja: o termo traz todo um julgamento, indicando uma ação ou um sujeito que foi além dos limites. Assim como poderia ser classificado, de forma pejorativa, o luto dramático do século 19 ou, mais recentemente, uma homenagem no Facebook. Um memorial online pode ser considerado estranho? Sim, porque ainda é algo novo. Mórbido? No sentido literal da palavra, só um especialista (real, não aqueles de Facebook) para saber.

Ariès morreu em 1984, mesmo ano do nascimento de Mark Zuckerberg, e não chegou a conhecer a força social da internet. Se você já usou Orkut, Twitter, Instagram e Facebook – estes dois últimos pertencentes a Zuckerberg, sabe que a postura descrita por Ariès entre os enlutados vem mudando – por mais que muitos julguem e ainda julgarão impróprias as demonstrações públicas de tristeza. Essas ferramentas vêm dando voz àqueles que querem, sim, falar sobre a ausência, homenagear seus mortos e discutir abertamente a dor da perda.

As transformações são lentas e desconhecem os limites entre online e offline: há também cada vez mais grupos de apoio e terapias de luto presenciais. Fato é que esse novo posicionamento tira, aos poucos, aquele véu praticamente obrigatório que existia há algumas décadas. “Nos últimos tempos, o psíquico deixou de ser tão mistificado e as pessoas passaram a se interessar mais pelo autoconhecimento”, explica Sylvia T. Pupo Netto, psicóloga filiada à SBPSP (Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo). “Quando se dá nome aos sentimentos, eles ficam mais naturais. Essa normatização não aplaca a dor da perda, mas facilita a identificação e a troca entre as pessoas”, afirma.

O QUE VOCÊ QUER SER QUANDO MORRER?

Precisamos falar sobre a morte – mais especificamente, a sua. E sobre o que será feito dos seus perfis virtuais depois que você se for.

O Facebook, que se tornou uma poderosa agenda social, alertando sobre aniversários e eventos, agora também informa e repercute perdas. Hoje, é comum as páginas do falecido e de seus parentes receberem os pêsames. A curiosidade leva a bisbilhotar os posts de quem se foi. Muitos desses perfis são mantidos ou transformados em memoriais, recebendo atualizações publicadas por antigos contatos. Nessa configuração, a realidade da morte contrasta com as postagens típicas de redes sociais, onde geralmente se exalta a alegria. Temos assim um novo contexto para o verso de Cazuza “Eu vi a cara da morte e ela estava viva”. Nas redes sociais, numa era de fotos e vídeos abundantes, muitas vezes ela realmente parece estar.

“Existe aquela história de escrever um livro, plantar uma árvore, ter um filho. Hoje, aquilo que você posta também vira um legado de sua passagem pela vida”, compara Ana Luiza Mano, membro do NPPI (Núcleo de Pesquisa da Psicologia em Informática) da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Não que isso seja positivo para todos, reforçando que o luto é um processo extremamente pessoal. Da mesma forma que esconder a dor pode aumentar o sofrimento, há também quem se incomode com a exposição.

“Cada um vai descobrir como construir esse novo relacionamento com quem se foi. Não tem certo nem errado, apenas formas diferentes de tratar a saudade e a memória”, resume a publicitária Mariane Maciel, 38. Cofundadora do projeto “Vamos falar sobre o luto?”, ela enfrentou a morte da mãe em junho de 2008. Exatamente um ano depois, seu então namorado morreu no acidente com o avião da Air France. Hoje, ela e mais seis amigas buscam com o projeto acolher e inspirar pessoas: “A morte e o luto também fazem parte da vida, independentemente da nossa vontade”, afirma.

Assim, muitas vezes de forma abrupta, a separação chega e exige que se lide com ela. É essa a situação do jornalista John Lenon Viudes, 24, depois que um carro bateu em sua moto na Rodovia Anhanguera (SP), em junho deste ano. Ele fraturou três vértebras e a clavícula. Sua noiva, Karen Lima, 22, estava na garupa e morreu. “Passei pelos piores dias da minha vida e pensei em fazer besteira. Mas percebi que tinha a escolha de lutar para que a morte de minha noiva não virasse só uma estatística. Essa luta por justiça deu sentido ao sofrimento: quero evitar que outras famílias passem pelo mesmo.” Segundo o boletim de ocorrência, o motorista do carro estava bêbado.

Apesar de ser tudo muito recente, John já participou de eventos de conscientização e deu palestras para jovens que estão tirando habilitação. Também criou a comunidade virtual “Justiça pela Karen” e juntou-se ao movimento “Não Foi Acidente”, que tenta tornar mais rígidas as leis de trânsito. A organização tem profissionais especializados em luto, que participam de encontros presenciais em São Paulo e de um grupo fechado no Facebook chamado Acalmando Corações. Dele faz parte o livreiro Bernardo Gurbanov, 62, que perdeu o filho Matias aos 26 anos, em janeiro de 2014.

O professor de espanhol ia de moto para o aniversário da mãe quando um carro o atingiu na avenida Giovanni Gronchi, em São Paulo. Matias morreu na hora. O Facebook do jovem foi transformado em memorial, hoje visível só aos antigos contatos, e os amigos criaram uma comunidade para homenageá-lo. Bernardo é um dos administradores desse grupo, que visita todos os dias. “É uma forma de manter viva a memória do Matias, mesmo que a emoção nos leve às lágrimas muitas vezes. Graças à página, diversos amigos nos enviaram fotos e vídeos [do Matias] que não conhecíamos”, afirma.

No instituto de psicologia Quatro Estações, especializado no atendimento a pessoas enlutadas, muitos pacientes relatam o uso dessas ferramentas digitais para elaborar a perda. Para a sócia-fundadora Luciana Mazorra, trata-se de uma forma de prestar homenagens diante da escassez de rituais mais tradicionais na sociedade contemporânea. Porém, ela alerta para complicações, caso o enlutado deixe de buscar outras relações e fontes de apoio por causa do ambiente virtual.

Outro problema ligado às novas manifestações de luto pode ser a superexposição. Uma viúva que pediu anonimato, por exemplo, se diz indignada com tantas postagens na página do companheiro, morto há poucos meses. Ela mantém o perfil no ar a pedido da família dele. “Ele era muito discreto e está sendo exposto de uma forma como detestaria. Começaram a marcá-lo em tudo.” Já a socióloga Dolores Ribeiro Coutinho, 53, enfrentou críticas quando travou uma briga judicial com o Facebook para excluir o perfil de sua filha única, Juliana Ribeiro Campos, transformado pela empresa em memorial.

A jornalista morreu em maio de 2012, aos 24 anos, após uma intercorrência médica. “Muitos postavam mensagens de saudade e de perda profunda, porque sua partida deixou um buraco muito grande. A página de Juliana virou um muro de lamentações, muito diferente da imagem positiva dela, e isso me incomodava”, afirma Dolores. A socióloga não tinha perfil na rede, mas pessoas próximas lhe relatavam e enviavam as homenagens consideradas de mau gosto. Ela tentou a exclusão da página durante sete meses, sem sucesso. O problema, diz, estava no fato de as postagens serem feitas, obviamente, sem autorização da principal pessoa envolvida – no caso, sua filha. Uma liminar determinou a exclusão do perfil, e o caso foi concluído em segredo de Justiça. O Facebook não comenta esse caso específico.

A advogada Celina Sobral de Mendonça explica que o acesso à herança digital, seja para preservar ou excluir dados, é de interesse dos herdeiros (cônjuges, ascendentes e descendentes). “Ainda não há uma lei que obrigue os provedores a repassar o conteúdo deixado pelos falecidos. Mas há projetos de lei em tramitação para garantir acesso a esses arquivos”, afirma a especialista em direito digital e de família do escritório Opice Blum Advogados Associados. Esse patrimônio não se refere apenas a perfis, como também a livros, filmes e outros tipos de conteúdo.

Falamos até aqui das perdas inesperadas, protagonizadas por aqueles que partiram sem dizer – entre muitas outras coisas – o que fazer com suas páginas pessoais (a propósito: já pensou no assunto? Instruiu alguém sobre sua herança digital?). No sentido oposto, há pessoas que adotam intencionalmente a tecnologia como testemunha das partidas.

“Amo todos vocês. Por favor, não percam um único segundo com lágrimas. Garanto que tudo está acontecendo conforme o planejado”, escreveu publicamente no Facebook o usuário Plainwhite Tom em janeiro de 2014, antes de acabar com sua vida. Ele mandou mensagens privadas para diversos contatos, inclusive para a mãe e o irmão, como mostra um mini-documentário (em inglês) sobre morte e luto na era digital. O radialista Scott Simon, também dos EUA, compartilhou com mais de 1 milhão de seguidores no Twitter, em 2013, reflexões sobre os últimos dias de sua mãe. “Acabei de perceber: um dia ela me deixou partir para o mundo. Agora tenho de deixá-la fazer o mesmo”, escreveu.

O caso provavelmente mais extremo pertence ao jornalista esportivo Martin Manley, que se matou em 2013, no dia em que completou 60 anos. Durante um ano, ele alimentou em segredo um blog pessoal dividido em 34 categorias no qual falava sobre suas motivações. “Quero controlar a hora, a maneira e as circunstâncias de minha morte.” No dia escolhido, agendou posts em seu blog pessoal e na sua página profissional, além de e-mails para os mais próximos, contando o que havia feito. O Yahoo tirou o site pessoal do ar, e hoje esse mesmo endereço anuncia técnicas para aplique de cabelo.

As previsões do que pode vir a acontecer ainda parecem assustadoras – ao menos nos filmes. “Transcendence: A Revolução” (2014) retrata um pesquisador à beira da morte que tem sua consciência transferida para o computador. Já em “Violação de Privacidade” (2004), o ator Robin Willians interpreta um editor que faz vídeos para homenagear os mortos na cerimônia de adeus. A matéria-prima de seu trabalho são todos os registros da vida, gravados em um implante cerebral.

Mesmo tratando-se de ficção, Willians assegurou-se contra qualquer prática parecida. Morto em 2014, ele restringiu em testamento o uso de sua imagem, nome e assinatura por 25 anos. Assim, ficam proibidas recriações digitais e hologramas, como fizeram com o falecido ator Paul Walker no filme “Velozes e Furiosos 7”. A diferença entre Willians e Walker, nesse caso, está no fato de o primeiro ter planejado sua própria morte, deixando instruções sobre o que exatamente (não) deveria ser feito com sua imagem.

Quem, assim como Willians, prefere um descanso total pós-morte também precisa ficar atento a mais algumas possibilidades. Já existem redes sociais que “aprendem” a personalidade do usuário para continuar postando após a morte do mesmo. Veja bem: não se trata de um memorial. Seria como se o falecido estivesse a publicar temas do seu interesse, fossem eles escândalos de arbitragem do futebol, o novo vídeo da cantora Nicki Minaj ou uma mensagem de aniversário ao melhor amigo. Esses serviços, como o Eter9, usam a inteligência artificial para captar os hábitos dos clientes e alimentar a busca da imortalidade digital. Resta saber se serão capazes de sobreviver ao predatório mundo da inovação, tanto que alguns deles, como o Virtual Eternity, já pereceram – no mundo real do capitalismo, a morte é mesmo implacável.

Texto de Juliana Carpanez

Juliana é editora do UOL. Passou todas as suas senhas para os pais. Mas mudou as combinações há pouco e esqueceu de avisá-los.

Artigo extraído do site http://tab.uol.com.br/

A Doutrina Secreta da Morte

Resultado de imagem para a morte

Ao abordarmos o tema a que nos propomos pode-se argumentar; o que pode falar alguém acerca da morte? Acaso alguém já retornou do que chamamos morte?

A essa pergunta responderemos com as palavras do Lama (Sacerdote Tibetano) Anagarika Govinda, que quando inquirido a esse respeito explicou:

Não há uma pessoa, na verdade, nenhum ser vivo, que não tenha retornado da morte. De fato, todos nós morremos várias mortes antes de virmos para esta encarnação. E aquilo a que chamamos nascimento é apenas o lado inverso da morte, como um dos dois lados de uma moeda, ou ainda como uma porta, que chamamos de “entrada” a partir do lado de fora, e de “saída”, a partir do lado de dentro de um quarto. É ainda mais surpreendente que nem todos se lembrem de sua morte anterior. E, devido a esse lapso de memória, a maioria das pessoas não acredita que tenha havido uma morte anterior. Mas também não se lembram de seu mais recente nascimento, embora não duvidem de terem nascido recentemente. Tais pessoas esquecem que a memória ativa é uma pequena parte de nossa consciência normal, e que nossa memória inconsciente registra e preserva cada impressão e experiência passadas de que nossas mentes despertas não conseguem se lembrar.” (Livro Tibetano dos Mortos, pág. XLIX – Edit. Pensamento)

Além do que foi dito acima, podemos acumular conhecimento a respeito da morte analogamente à forma como aprendemos a respeito da existência de um país distante. Poderíamos resumir esse aprendizado como se dando de três modos; primeiro podemos ter o relato da existência desse país, feito pelos seus próprios habitantes, o segundo modo seria ouvir falar a respeito dele por pessoas que viajaram até ele e ao voltarem nos descrevem os seus hábitos e costumes, o terceiro e último modo seria, ler livros, ver fotos, ou assistir a filmes, que podem ser documentários ou reportagens, sobre os acontecimentos nesse longínquo país.

No primeiro caso, poderíamos tomar conhecimento da existência após a morte, pelo contato com os habitantes dos diversos “mundos post-mortem”, que mais adequadamente poderíamos chamar de dimensões ou planos da existência. Aos contatos feitos com os habitantes dessas outras dimensões, costuma-se chamar de aparições, não que eles verdadeiramente apareçam do nada, a realidade é que já estavam ali, só não podíamos percebê-los, pois só somos capazes de perceber determinadas frequências vibratórias, e os habitantes de outras dimensões vibram em frequências que normalmente não podemos captar. O fenômeno da aparição se dá quando o chamado morto consegue alterar sua própria vibração a ponto de se tornar perceptível por nós, ou quando temos, mesmo que momentaneamente, a capacidade de captarmos vibrações acima do nível considerado normal. Durante o período que dura a aparição, ocorrem os relatos da “vida post-mortem”, feitos pelos próprios habitantes dos mundos, normalmente, além de nossas percepções.

No segundo caso de nosso exemplo, poderíamos citar os habitantes de nosso mundo, ou plano de existência, que desenvolveram a capacidade de “viajar”, com sua consciência até outros planos, além desse que habitamos. Nesse segundo caso se encontram a maioria dos médiuns e projeciologistas, que realizam a viagem ou projeção intencionalmente, estando também incluídos nessa categoria, a maioria das pessoas que ao se deitarem para dormir, todas as noites, viajam inconscientemente, pelos vários planos que explicaremos mais adiante. Nesse estado de sonho, é que se dá o contato com os seres do “outro mundo”. Quando essas pessoas retornam do seu sono ou de seu transe, conforme for o caso nos falam do que viram e ouviram.

Vale ressaltar que não ocorre nenhuma viagem, ninguém vai a lugar algum, o que ocorre é um fenômeno de consciência, muito semelhante ao processo de sintonizarmos um rádio numa determinada estação, as ondas que passamos a captar sempre estiveram ali, naquela frequência, apenas ajustamos o nosso aparelho e passamos a captá-las. Alguns médiuns ou parapsicólogos que desconhecem esse mecanismo, poderão afirmar que realmente realizam “viagens astrais”, ou coisas similares, sem levarem em conta que o tempo e o espaço, tal qual conhecemos, são atributos da consciência neste plano em que vivemos. Um exemplo será melhor para esclarecermos o que queremos dizer, quem já não sonhou que passou muito tempo, dias, ou até mesmo anos, no qual ocorreram várias acontecimentos e quando acordou percebeu que apenas algumas horas haviam transcorridos? Outras vezes se dá o contrário, nos deitamos e após o que nos pareceu alguns segundos, despertamos e vemos espantados, que dormimos toda uma noite. O tempo e o espaço são relativos, cada mundo ou dimensão tem suas próprias referências.

No Terceiro e último caso do nosso exemplo de como acumular conhecimento acerca da morte, que é o de uma pessoa que assiste a um filme a respeito de um país longínquo, poderíamos enquadrar as pessoas que são capazes de ver com certa continuidade, fatos e habitantes de outro plano da existência, sem perderem a consciência no plano físico, podendo em alguns casos “ligar” ou “desligar”, esse processo ao seu bel-prazer. Essa capacidade possibilita a essas pessoas por assim dizer “viverem em dois mundos”, nesse último grupo é onde encontram-se os chamados Mestres e Adeptos, que muitas revelações trouxeram a humanidade encarnada. Nesse grupo também existem pessoas que por “acidente”, destrancaram as portas do subconsciente, e passaram a perceber o oculto. Sem a compreensão necessária para isso, muitos desses infelizes enlouquecem, quando não conseguem fechar novamente os portões que a natureza mantinha selados, para serem abertos em uma época em que esses seres, já amadurecidos teriam uma melhor compreensão do oculto. Enfim é das pessoas desse último grupo, que são capazes de perceber múltiplos planos simultaneamente, é que se pode colher alguns relatos mais precisos e esclarecedores, pois eles podem descrever o que percebem, como alguém que tece comentários a respeito de uma peça de teatro, muitas pessoas com essa características escrevem ou falam a seus discípulos sobre a realidade que contemplam. Para a consciência destes seres, a morte simplesmente não existe, enquanto estão conosco, vivenciam a realidade póstuma e quando chega o seu momento, despem-se dos seus corpos como quem troca de roupa.

Baseado no relato desses três grupos, em algumas poucas experiências pessoais e nos ensinamentos da Sabedoria Iniciática das Idades é que nos baseamos para elaborar o presente estudo.

As Crenças da Humanidade e os Mundos Post-mortem

Para compreendermos melhor os mistérios dos mundos post-mortem, é imprescindível, entendermos que aquilo em que acreditamos influencia nas camadas do que chamamos inconsciente coletivo e quanto maior o número de pessoas que acreditam em determinada coisa, mais ela tende a ser plasmada, nos planos mentais e astrais, a ponto de em alguns casos objetivar-se no plano físico. Partindo desse conhecimento, poderíamos, dizer que as crenças humanas modificam de certa forma as “paisagens” dos planos mentais e astrais, gerando nestas dimensões sons, cores e formas em harmonia com os nossos sentimentos e pensamentos.

Além disso, as crenças inculcadas em nossa mente desde criança, acabam por dominar por completo nossa consciência, entrando na composição de nossos corpos sutis. Se, por exemplo, acreditamos em deleites e sofrimentos a serem experimentados na existência post-mortem, em céu, inferno, anjos, demônios, etc…, essas crenças provocarão deliciosas fantasias e sofrimentos infernais a serem experimentados por aqueles que verão suas expectativas mais íntimas tornarem-se realidade ao desencarnarem.

De acordo com o exposto, podemos concluir que as experiências póstumas nos mundos interiores de um kardecista, diferem do que será vivenciado por um católico, cada uma sendo composta do conteúdo psíquico com que foi alimentada a consciência do morto.

Devemos levar também em consideração, os ensinamentos milenares quando nos falam que o homem não deixa de ser aquilo que é imediatamente após a morte, ou seja a pessoa não perde imediatamente suas características psicológicas imediatamente, assim, sendo um protestante não deixará de ser protestante, imediatamente após sua morte. O processo de “desidentificação”, dependerá muito do nível de compreensão de cada um a respeito do que está realmente lhe acontecendo.

Cada religião alimenta em seus seguidores determinadas expectativas em relação ao mundo dos mortos, e devido ao fato dos desencarnados continuarem na vida psíquica, a possuir tais crenças e necessidades, é compreensível o caso de uma alma católica que necessita que se reze uma missa em sua memória, para que possa descansar no “purgatório”, como lhe foi ensinada em vida. Sua crença de que só assim poderá ter paz, poderá levá-la. a desencadear fenômenos de aparição, solicitando a realização da missa. Já no caso de uma alma seguidora do hinduísmo, esta exigirá um rito hindu, para que, como lhe foi ensinado em vida, possa ser criado seu novo corpo em substituição ao que foi destruído na pira funerária.

Além de nos depararmos com nossas próprias criações, ao desencarnarmos somos defrontados, de acordo com nossa afinidade, com as criações psíquicas que dominam as mentes da massa da humanidade. Portanto devemos nos esclarecer, acerca das características da existência nos mundos interiores, pois neles conforme forem os nossos pensamentos, temores e expectativas, assim serão os nossos primeiros contatos com os mundos invisíveis.

O Processo da Morte

Apesar de em nossa civilização a existência além da vida ser considerada ficção, fazendo parte daquilo que os cientistas chamam de fantasia ou superstição, outros povos que desenvolveram grandes civilizações que lograram avanços, não tanto no mundo exterior como faz a civilização ocidental, desenvolveram-se em outro sentido, em direção aos mundos interiores, em busca dos universos contidos dentro do ser humano. Os sábios dessas civilizações, verdadeiros pesquisadores da consciência, apoiados no tríplice suporte formado pela religião, pela ciência e pela arte, tornaram-se verdadeiros cosmonautas de mundos que só podem ser atingidos pela introspeção. Lograram ultrapassar os portões da morte e travar relações com seres, aos quais chamamos deuses, anjos e demônios.

Parte dos segredos dessa ciência verdadeiramente hermética, foi registrado pelos egípcios no Pert em Hru, nome que poderíamos traduzir por “O surgir do dia”, conhecido no mundo acadêmico como “O Livro dos Mortos”. Outros povos também deixaram compilações a respeito desse importante assunto, porém nenhum povo deixou uma codificação mais clara e precisa do que o povo Tibetano, místico por natureza, eles registraram suas experiências nesse campo no livro conhecido como Bardo Thodol, que poderíamos traduzir aproximadamente por, “Libertação pela audição no plano post-mortem”, essa coletânea de conhecimentos passados de boca para ouvido, compilados no século VIII d.C., pelo mestre Padmasambava, seria o livro dos mortos tibetanos.

Segundo os ensinamentos contidos no Bardo Thodol, da mesma forma que existe uma arte de viver, existe uma arte de morrer, e o momento mais importante da existência, é o momento de sua passagem, momento em que o indivíduo precisa de paz e tranqüilidade; tão delicado como no nascimento. Nessa ocasião a pessoa deve estar o mais consciente possível a respeito do que está lhe ocorrendo e não adormecido, sobre o efeito de drogas e sedativos, que faz com que a grande maioria dos moribundos não saiba o que esta lhes ocorrendo. Isso, promoveria a perda da grande oportunidade de saírem do roda de nascimentos e mortes, da Roda de Sansara, a que todos os seres encarnados estão submetidos.

Segundo o livro dos mortos tibetanos, durante a morte a percepção do que acontece no exterior vai sendo substituída pelo aumento da percepção do que acontece em nosso interior. O primeiro dos fenômenos mais marcantes que o indivíduo percebe é uma luz clara, branca, que lhe aparece através de um túnel. Segundo os tibetanos, esse fenômeno se dá, por que a energia vital, conhecida como Kundaline, que encontra-se na base da coluna vertebral, emite sua primeira irradiação, no seu processo de abandono do corpo.

Essa primeira irradiação percorre um dos três canais etéricos localizados na coluna, conhecidos por Nadis, abrindo caminho do Chacra Raiz, situado na região do cóccix, até o centro de força situado no alto da cabeça, por onde deixará o corpo.

Quando essa primeira irradiação da energia vital, passa pelo centro de força situado no peito, conhecido como Chacra Cardíaco, o moribundo percebe uma luz brilhante surgindo no fim de um túnel. Isso acontece por que durante a morte a consciência é transferida para o Chacra Cardíaco, que é onde reside a essência do ser, onde vibra o chamado átomo primordial, por isso quando a energia vital passa por esse chacra, o indivíduo tem a impressão de ver uma luz brilhando através de um túnel (o Nadi da coluna vertebral que está ativado no momento).

A esse primeiro aparecimento da luz brilhante e diáfana os iniciados chamam de primeira apresentação. Se durante essa irradiação o indivíduo for capaz de unir-se a luz, fundindo sua consciência individual à sua vitalidade, no microcosmo de seu corpo, atingirá o estado vibracional do Sol Central macrocósmico, fundindo-se a ele, que em absoluto repouso é o plano da existência eterna, que vibra no centro da roda de nascimentos e mortes.

Se, no entanto, o indivíduo por medo, não conseguir fundir-se a essa luz brilhante, esta desaparecerá, e o ser mergulhará num estado de sonolência, até a chamada segunda apresentação, que ocorre quando mais uma vez, outra parcela da energia vital irradia-se através da coluna vertebral, por um dos dois canais etéricos restantes. Essa segunda parcela de energia liberada pelo Chacra Raiz, desperta as formas pensamento, que foram geradas pela pessoa durante sua vida, e essas formas pensamento “saltam diante deste”. Durante essa experiência, seus pensamentos e sentimentos, bons, assumem formas, bondosas e belas, de santos, parentes desencarnados, etc., que com seus conselhos nos confortam.

Durante esse período toda a câmara cardíaca é permeada pela luz da segunda emanação, que como um perfume sutil pode não ser percebida, em meio aos estímulos gerados pelas formas de pensamento que lhe invadem a consciência, mas se o moribundo for capaz de entender que essas visões não passam de criações psíquicas dele mesmo e não se fixar nessas imagens, o ser consciente poderá tentar perceber a luz brilhante nessa segunda tentativa. Se ele não for capaz de realizar isso, as formas benévolas serão sucedidas pelas formas aterradoras, que representam seus desejos e pensamentos violentos, egoístas, de ódio, de ambição, etc. Mesmo diante dessas imagens ameaçadoras, o iniciado não se abalará, mantendo-se em estado de meditação, de tranqüilidade e harmonia, no estado de consciência chamado pelos místicos de Dhiana, que poderá promover sua integração interna e libertá-lo do ciclo de encarnações. Cabe dizer que, essa libertação só será possível após o indivíduo ter concluído seu aprendizado na terra, tendo reunido valores que o possibilitem atingir o estado de meditação profunda, o estado de Dhiana.

Se, porém, o moribundo não conseguir fundir-se a segunda emanação, reintegrando-se a natureza prístina, a consciência é atraída pelos centros de força inferiores, ligados a sentimentos e pensamentos altamente materialistas, que vão envolvendo o ser com imagens hedonistas normalmente ligadas as suas fraquezas, que o arrastam para uma espécie de pesadelo.

Por fim, o ser mergulha num estado de inconsciência, que é alternado por períodos conscientes, carregados de imagens que pululam no inconsciente coletivo, ligadas a seus condicionamentos. Esse período tem duração relativa, pois como já dissemos, o passar do tempo no plano astral difere do seu transcorrer no plano físico. Alguns dias no plano físico podem parecer eternidades no astral e centenas de anos no físico podem representar segundos no astral. Assim a personalidade vai se dissolvendo em meio as ilusões do plano astral.

Posteriormente, ao penetrar no plano mental, ela é envolvida pelos condicionamentos mentais. O indivíduo fica nesse estado semiconsciente até que a personalidade se desintegre totalmente e a energia vital, numa terceira e última irradiação, seja absorvida pela mônada.

Vale esclarecer, que o que é absorvido pela mônada, é a essência espiritual, o átomo primordial, a verdadeiro Homem: Uno, Trino e Indivisível, pois nesse ponto a personalidade, não mais existe. Esse átomo primordial, a essência que animava a personalidade, é reintegrado à mônada para que seja revitalizado, e novamente “enviado” a face da terra, quando houver uma nova oportunidade de aprendizado, quando serão reconstruídos seus veículos mentais e emocionais, sendo atraída por fim, para dentro de um útero, para reconstruir um corpo físico.

Todo o trabalho da iniciação, todo o trabalho de uma Escola Iniciática, é no sentido de preparar o discípulo para a morte, para o momento em que ele terá a oportunidade de se iluminar, através da integração com sua essência.

É importante ressaltarmos, que durante a vida terrena, isso poderá ocorrer, o indivíduo devidamente preparado poderá iluminar-se, fundindo sua consciência à sua vitalidade, atingindo um nível vibracional que o possibilite integrar-se ao seu verdadeiro Ser, o Sol Central, do qual ele é apenas um dos raios.

Dessa forma existem seres na terra que são verdadeiras expressões da Divindade entre nós e como tal, são reconhecidos pela natureza e pelas pessoas com sensibilidade para tal. Estes são os chamados iluminados, seres que em vida viram a luz brilhante de seu eu interno, e nela estabeleceram o centro de sua existência.

O indivíduo deve durante a sua vida terrena, preparar-se para a morte, sem exageros mórbidos, mas com seriedade, consciente de que assim como nascemos, todos passaremos por ela , entendendo que todo o apego, toda resistência à mudança, só produz sofrimento e decepções, pois a vida é um fluxo e a tentativa de deter esse fluxo por mero capricho, nos coloca em oposição as Leis Universais. O ser tem que ser capaz de desapegar-se de situações e pessoas, tornando-se flexível em seus conceitos, como uma criança, aprendendo, modificando-se, fluindo como um rio. Poderíamos dizer num sentido psicológico, morrendo e nascendo, transformando-se a cada dia.

Somente se pudermos compreender isso, seremos capazes de entender a chave iniciática contida nas palavras de São Francisco de Assis, quando dizia que “…é morrendo que se nasce para a vida eterna” ou a declaração proferida pelo Faraó, no final da quinta etapa da iniciação egípcia, “Sebek Ur Sebek” – “Só a morte pode vencer a morte”.

Autor: Márcio Homem

A Morte

Morte simbólica — Saiba o momento certo de se transformar

A oposição entre a morte e a vida é uma das questões mais antigas que a humanidade enfrenta. No entanto, morrer opõe-se a nascer, enquanto Alfa e Ômega de cada tempo de vida. No mundo ocidental estamos habituados a temer o outro, ou seja, tudo o que é contrário; somos nós ou os outros; se temos vida tememos a morte. Branco ou preto, opostos ou complementos. Antítese. No mundo oriental, encontramos a síntese da vida e da morte. Ambas fazem parte do caminho, entrelaçadas, permitem ao homem que avança para a morte saber-se imortal.

A morte será real ou simbólica?

Toda a morte é simbólica e iniciática, permitindo-nos ingressar numa nova vida, renascendo interiormente e transmutando o nosso íntimo, o nosso verdadeiro ser. Não é apenas uma inevitabilidade, mas pode ser também o caminho para uma nova oportunidade, um recomeço.

A morte é fundamental na iniciação maçônica, representando um ritual de passagem do profano para iniciado, constitui uma oportunidade de aceder à uma nova visão da realidade, transformando os metais inferiores, de que necessitei de me separar, em metais superiores dos quais já não será necessário despojar-me.

O tempo de vida do iniciado dá-lhe uma nova oportunidade de vencer o vício e as paixões abrindo o caminho da Luz e da Verdade, libertando o espírito dos grilhões impostos pela razão, como nos transmitiu Paracelso, para quem o conhecimento visionário se substituirá à compreensão literal dos textos. Este é o tempo para buscar o conhecimento primordial e fundamental, que diz respeito à natureza divina da própria essência do ser, em que a alma surge como centelha de luz divina. Branco.

A informação incorreta remete para o temor, em que a centelha de luz está sujeita à influência de forças exteriores e obscuras, no exílio da matéria. Cativos no cárcere imperfeito que é o corpo, somos iludidos pelos sentidos exteriores. A ilusão, esta Maya que nos confunde e faz acreditar no mundo material. Estamos pois nesta terra, esta Gaya onde os densos véus de Maya nos impedem de receber o influxo espiritual do Sol. Preto.

Esse dualismo, presente em Zoroastro e Platão, cava um abismo entre interior e exterior, sujeito e objeto, espírito e matéria. Dois caminhos paralelos.

O chão de mosaico de ladrilhos pretos e brancos remete para a natureza bipolar da existência terrena. A quimera da luz e das trevas, forma e matéria. Conduz ao Santo dos Santos que contém o fogo espiritual eterno que nenhum mortal pode ver.

Resta-nos a alquimia. Corpo hermético que nos possibilita a nossa própria transmutação. Transmutação dos metais. Alegoria da transmutação da nossa própria alma. Este é o nosso trabalho enquanto alquimistas. A nossa verdadeira obra alquímica. A arte real.

Três são as substâncias que dão a cada coisa o seu corpus, dizia Paracelso. O que arde é enxofre, o que deita fumo é mercúrio, o que se transforma em cinzas é o sal. O sal é o sedimento físico, o cadáver. O par alquímico enxofre e mercúrio, Sol e Lua, Masculino e Feminino, unem-se apenas pela ação do fogo salino. O enxofre e o sal são duas forças em perpétua oposição. Enquanto o enxofre simboliza tudo o que nos induz movimento, mudança, criação e expansão, o sal remete para tudo o que na nossa vida constitui estabilidade, resistência e inércia. Um precisa do outro, pois são dois polos da Energia Universal. O equilíbrio entre estas duas tendências produz o mercúrio vital, princípio da inteligência e da sabedoria, caminho para as virtudes.

Morrer e renascer. Branco e preto

Chegaremos ao ternário, harmonizando os opostos, refletiremos no mundo a unidade inicial. Encontraremos os três pontos. Força, Beleza e Sabedoria; Fé, Esperança e Caridade; Liberdade, Igualdade e Fraternidade; Osíris, Íris e Hórus; Brahma, Vishnu e Shiva; Enxofre, Sal e Mercúrio; Pai, Mãe e Filho.

Chegaremos ao triângulo, símbolo de Perfeição, Harmonia e Sabedoria.

A morte como transcendência da vida humana não é algo evidente. Cremos que a morte é deixar de viver, no entanto se a alma supera a morte, então a morte é o meio para alcançar una nova vida.

Morrer é voltar a viver

Isto é defendido por muitas doutrinas que acreditam que os homens constam de um corpo corruptível e de uma alma imortal.

A alma é um princípio imaterial que anima o corpo. Esta imaterialidade é o que assegura à alma a sua imortalidade, não podendo se extinguir porque é uma centelha divina, uma participação do seu criador, o GADU.

Como nos transmitiu William Shakespeare, nós somos feitos da mesma matéria que os sonhos.

Refletir sobre a morte obriga-nos a refletir sobre a vida

A Câmara de Reflexões, isolando-nos do mundo, propícia a introspecção profunda, “o conhece-te a ti mesmo“, na busca da pedra filosofal. Sepulcro e ovo; a Câmara permite-nos pensar a morte não como um fim, mas como um começo.

Superamos a prova da terra, qual grão de trigo que atirado à terra teve de germinar, abrindo o caminho para a luz. Afinal descemos ao interior da terra, penetramos para lá das aparências e retificando a nossa forma de ver, pensar e agir encontraremos a pedra filosofal, essencial na nossa própria transmutação. Encontramos o pão. O grão de trigo fez o seu caminho. Também nós temos de fazer o nosso caminho. Desbastar a pedra bruta. Só a pedra cúbica poderá ser utilizada na construção do templo.

Depois, morrerá o “eu inferior”, sendo integrado e alinhado no “Eu Superior”, queimando de vez o Karma, que se tornará Dharma. Chegará o momento de sair da roda de Samsara, pois terminará o ciclo das reencarnações, em que a jangada após atravessar o rio, permite ao passageiro alcançar o Nirvana.

A morte representa o desconhecido. Por isso, é fonte natural de receios e angústias. No entanto, é vulgar encontrarmos entre os profanos a aceitação da morte pela sua inevitabilidade e apenas tementes da dor que acompanha a corrupção do corpo, imposta pelo avançar do tempo ou pelo malho, que nos tomba através da doença ou de acidente. Quando compreendermos a morte estaremos a compreender a vida.

A morte é muitas vezes a única solução que resta numa vida sem sentido, possibilidade de recomeço quando o rio da vida não pode mais seguir o seu caminho e até o livre arbítrio deixa de poder ser exercido. Encontramos neste caso suicidas, mas também pessoas insuspeitas que desenvolvem todo o tipo de doenças psicossomáticas, forma discreta da alma se livrar do corpo.

Outros casos existem que exigem reflexão mais profunda e que não poderemos explorar. Ficam para outra oportunidade.

A Acácia florescerá onde for plantada.

A morte foi objeto de muitas manipulações ao longo dos séculos. A forma como enfrentamos a morte influencia decisivamente a forma como vivemos. O medo da morte pode paralisar a vida. Por isso, tantas e tantas vezes no passado, o medo da morte foi usado para controlar os impulsos dos injustiçados. Superar esse temor liberta-nos.

Atingimos um poder imenso. Aproximamo-nos da liberdade.

Aqui chegados, importa clarificar que não dizemos “que viva a morte” como o personagem funesto da guerra civil espanhola, mas sim não temeis a morte! Pois, a nossa verdadeira essência é imortal.

A ampulheta marca a brevidade do nosso tempo de vida até que a gadanha ceife o fio que nos liga ao veículo que nos transporta nesta passagem e nos lance na eternidade. Assim, importante é a maneira como empregamos este tempo que nos é concedido. Imenso privilégio poder partir nessa viagem estando em completa paz interior.

No momento de passar ao Oriente Eterno, deixamos, então, o nosso corpo, iniciando a viagem em direção à Luz, penetrando o túnel inundado de luz e escutando a música das esferas no regresso a casa. Até renascermos e voltarmos a ver-nos numa Cadeia de União.

Autor: J. Paulo

Fonte: Maçonaria em Portugal

Screenshot_20200502-144642_2

Só foi possível fazermos essa postagem graças à colaboração de nossos leitores no APOIA.SE. Todo o conteúdo do blog é disponibilizado gratuitamente, e nosso objetivo é continuar oferecendo material de qualidade que possa contribuir com seus estudos. E você também pode nos auxiliar nessa empreitada! Apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos blogs maçônicos mais conceituados no Brasil. Para fazer sua colaboração é só clicar no link abaixo:

https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Bibliografia

Blaschke, Jorge e Rio, Santiago, A Verdadeira História da Maçonaria, Quidnovi, Matosinhos, 2006.
Blavatsky, Helena Petrovna, As Origens do Ritual na Igreja e na Maçonaria, Editora Pensamento, São Paulo.
Camino, Rizzardo da, O Aprendiz Maçom, Madras, São Paulo, 1996.
Camino, Rizzardo da, Rito Escocês Antigo e Aceito (1º ao 33º), Madras, São Paulo, 1999.
Figueiredo, Joaquim Gervásio de, Dicionário de Maçonaria, 2ª Edição, Revista e Aumentada, Editora Pensamento, São Paulo, 1996.
Guénon, René, Os Símbolos da Ciência Sagrada, Editora Pensamento, São Paulo, 1993.
Jacq, Christian, A Viagem Iniciática ou Os Trinta e Três Graus da Sabedoria, Edições ASA, Porto, 1999.
Jacq, Christian, O Mundo Mágico do Antigo Egipto, Edições ASA, Porto, 2000.
Leadbeater, Charles Webster, A Vida Oculta na Maçonaria, Editora Pensamento, Tradução da 2ª Edição de 1928, São Paulo, 1997.
Lepage, Marius, História e Doutrina da Franco-Maçonaria, Editora Pensamento, São Paulo, 1978.
Palou, Jean, A Franco-Maçonaria Simbólica e Iniciática, Editora Pensamento, São Paulo.
Wilmshurst, Walter Leslie, Maçonaria – Raízes e Segredos da sua História, Tradução Portuguêsa, Prefácio, Lisboa, 2002.