Cronos e Kairos: Os Matizes do Tempo – Artigo 6

Ilustraciones de William BlakeNewton – William Blake (1795–c.1805)

O Tempo entre os espaços sagrados

Falar em Sagrado é falar no sublime no mágico, no que está muitas vezes acima do que pensamos algo muitas vezes apenas no nosso imaginário, porém nesse tempo sagrado existem os espaços sagrados, no qual Bourdieu, assim relata:

Um campo pode ser definido como uma rede ou uma configuração de relações objetivas entre posições definidas objetivamente em sua existência e nas determinações que elas impõem a seus ocupantes, agentes ou instituições. Em outras palavras , o campo pode ser considerado um mercado em que os agentes se comportam como jogadores. No caso do campo religioso brasileiro, o surgimento constante de novos atores sociais na disputa com o clero, institucionalizado na manipulação simbólico mais amplo do que as fronteiras da religião institucionalizada. (BOURDIEU, 1990 apud BITUN, 2011)

Para (ELIADE, 2001, pp 63-64) nos esclarece que assim tal como o espaço, o tempo também não é para o homem religioso, nem homogêneo nem continuo. E nestes casos relata:

Há , por um lado, os intervalos de Tempo Sagrado, o tempo das festas; por outro lado, há o tempo profano, a duração temporal ordinária na qual se inscrevem os atos privados de significado religioso. Entre essas duas espécies de tempo, existe é claro, uma solução de continuidade, mas por meio dos ritos o homem religioso pode passar, sem perigo de duração temporal ordinária par o tempo sagrado. (ELIADE, 2001.pp 63- 64)

Ainda para Eliade, o mito conta uma história sagrada, um acontecimento primordial que teve lugar no começo do Tempo, ab initio. Para ele o mito é pois a história do que se passou in Illo tempore, é a narração que os deuses ou os seres divinos fizeram no começo dos tempos. (2001. P.84). Contudo Cronos e Kairos são termos gregos para designar o tempo. Cronos é o tempo medido pelo relógio. É o tempo determinado dentro de um limite. Kairos significa o momento certo, oportuno. Refere-se a um aspecto qualitativo do tempo. Nosso dia-a-dia é marcado por esses dois tempos, enquanto cronos quantifica, kairos qualifica. Devemos restabelecer o tempo Sagrado, tornando nos contemporâneos dos deuses – o tempo possibilita que as pessoas experienciem os diversos tipos de tempo, construam um tempo interior principalmente perante acontecimentos de pausas, silêncio pequenas perdas, luto e morte. (SANTOS, 2010)

A autora nos afirma “homem compreende subjetivamente seu lugar no mundo de acordo com o tempo e o espaço ”Não devemos esquecer que toda festa religiosa, representa a reatualização de um evento sagrado que teve lugar num passado mítico. O tempo é essencial e até para Deus esse tempo é:

“Há, para todas as coisas, um tempo determinado por Deus, e há tempo para todo propósito debaixo do Céu: há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de colher o que se plantou; tempo de matar e tempo de curar; tempo de derribar e tempo de edificar; tempo de chorar e tempo de rir; tempo de prantear e tempo de saltar; tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar; tempo de buscar e tempo de perder; tempo de guardar e tempo de deitar fora; tempo de rasgar e tempo de coser; tempo de estar calado e tempo de falar; tempo de amar e tempo de aborrecer; tempo de guerra e tempo de paz” (Eclesiastes 3:1-8).

SANTOS assim nos descreve:

A palavra cronologia possui origem grega em chronos que é definido como o tempo; e logos como estudo, ou seja, a sequência, a organização do tempo. Dentro desta terminologia, existe uma diferenciação entre Chronos (Χρόνος) e Cronos (Κρόνος). Chronos é um termo geral que significa alguma coisa relativa ao tempo; assuntos relativos à temática do tempo; já Cronos é uma das personificações do deus grego, que personifica o tempo. Cronos é filho do Titã Urano (que é o Céu) casado com Rhéa, e pai de Zeus. (SANTOS 2010)

Já sobre Kairós podemos assim dizer que “ pode ser visto como um momento “ponte” em que é necessário atravessar para enxergar novas situações, que partem de uma situação e tomam uma direção e um sentido diferente. A autora ainda nos diz que devemos compreender em que momento ele surge e essa descoberta é uma descoberta individual; cada pessoa sente, percebe de alguma forma quando ele está acontecendo. É aquele momento que escutamos no consultório quando os pacientes dizem: “que tudo está conspirando ao meu favor”, no sentido de que as ações feitas, estão sendo realizadas e desenvolvidas no tempo certo. (SANTOS 2010) De acordo com o Dicionário Grego do Novo Testamento, conceituamos Cronos e Kairós em:

Kairós – “Tempo”, especialmente um “ponto no tempo”, “momento”, “tempo oportuno”, “oportunidade favorável”, “ponto justo”, “medida certa”, “lugar apropriado”, “aquilo que é conveniente apropriado ou decisivo”. Na teologia passou a ser usado para descrever a forma qualitativa do tempo ou “o tempo de Deus”, o tempo que não pode ser medido, é o tempo da oportunidade, livre do peso das cargas que se passam e da ansiedade das coisas que acontecem antes do tempo, ele se manifesta sempre no presente, instante após instante; Kairós marca os momentos que se tornam inesquecíveis, ainda que tenham sido breves, os gregos acreditavam que com o Kairós poderiam enfrentar o cruel e tirano Chronos. Quando se fala em Kairós se quer indicar que alguma coisa aconteceu tornando possíveis ou impossíveis certas coisas.

Chronos – “Tempo”, “período de tempo”, “espaço de tempo, longo ou breve”.Chronos serve inicialmente para a designação formal de um espaço de tempo, ou ponto de tempo, refere-se ao tempo cronológico ou sequencial que pode ser medido. Ele controlava o tempo desde o nascimento até a morte, um pensamento Grego era que Chronos representava o tempo que faltava para a morte, uma vez que era impossível fugir do mesmo, todos seriam mais cedo ou mais tarde vencidos (devorados).

Contudo a autora conclui que:

Carecemos aprender a lidar com o tempo, mas com o nosso próprio tempo, ao qual reconheço como tempo interno. É valorizar o tempo das simplicidades e reconhecer o prazer e a felicidade dentro da alma de cada um de nós, considerando nossa história passada, vivenciando plenamente o presente e agradecendo de alguma forma o que o destino, do qual somos responsáveis, nos reserva. É resgatar o tempo de espera, refletir sobre a necessidade de sempre preencher o tempo, e ainda lidar com o inevitável potencial do vazio/solidão que carregamos em nós. É experienciar o tempo como um processo, o desfrutar de um caminho e não uma meta. Só assim o tempo estará a serviço das transformações internas. (SANTOS, 2010)

Autor: Alexandre Salomé de Souza

Fonte: Revista Pandora Brasil

Referências bibliográficas

BIBLIA SAGRADA, Ave Maria, 71ª edição, Edição Claretiana, 1989. BITUN, Ricardo. Mochileiros da fé. São Paulo. Editora reflexão. 2011 ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano. São Paulo. Martins Fontes. 2001 RUSCONI, Carlo; Dicionário do Grego do Novo Testamento; 4ª edição; São Paulo; Editora Paulus; 2003. SANTOS, Karina Servi. EXPERIÊNCIAS DO TEMPO: REFLEXÕES SOBRE TEMPO E ALMA. Curitiba .2010. Disponivel em: http://www.symbolon.com.br/monografias/Experiencias%20do%20tempoKarinaCervi.pdf. Acesso em 23 de Novembro de 2015)

Cronos e Kairos: Os Matizes do Tempo – Artigo 5

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O TEMPO DE SALOMÃO

O Eclesiastes e a Sociedade Contemporânea

Uma visão a respeito dos tempos no Cronos, Kairós e Aion

Hoje o tempo voa, amor Escorre pelas mãos Mesmo sem se sentir Não há tempo que volte, amor Vamos viver tudo o que há pra viver Vamos nos permitir. Trecho da canção de Lulu Santos, ‘Tempos Modernos

Sociedade do coelho branco

Uma fina ironia: um ensaio, meio crônica, a respeito dos conceitos de tempo sendo produzido sob a sensação pouco confortável de que não se dispõe de tempo suficiente para fazê-lo. Afinal, vive-se na atmosfera de uma sociedade em que a aceleração do tempo é fator preponderante para a produção de uma variedade de bens em número cada vez maior, num tempo cada vez menor. Desse modo, as sobras que recolhemos são o ruído, a superficialidade e a pressa. Assim, Carl Gustav Jung irá dizer que “a pressa não é do diabo; ela é o diabo”[1]. E o ‘diabo’ tem deixado suas marcas na economia de um 2015 marcado pelo excesso de produção e de oferta, e retração na procura.

A contradição na qual se vive pode ser percebida na relação que se estabelece entre a correria desesperada para se alcançar alvos a fim de que no tempo futuro se possa largar a fim de desfrutar do tempo. O problema é que o carrossel, uma vez girando, parece não parar mais. ‘Pare o mundo que eu quero descer’? Zigmund Bauman dirá desse tempo que “é preciso acelerar o alcançar caso se deseje a delícia do largar” (Bauman, 08). Se é possível emitir algum juízo de valor com base nos recorrentes surtos de saudosismos, já houve tempos melhores.

Os seres humanos da sociedade moderna ocidental parecem programados com um tipo de descompasso cronológico, pois à semelhança do coelho branco da fábula ‘Alice no País das Maravilhas’, de Lewis Carrol, vive-se gritando “estou atrasado, estou atrasado”, ou “é tarde demais, é tarde demais”. Num determinado momento, a personagem principal vai perguntar ao apressado: “Quanto tempo dura o eterno”? Ao que o coelho responde: “Às vezes apenas um segundo”. O coelho parece conectado com a teoria da relatividade tempo-espaço, não a de Eistein, mas aquela que brota da perspectiva do Deus da Bíblia, sobre quem o escritor irá dizer: “… para o Senhor, um dia é como mil anos, e mil anos é como um dia” (2Pedro 3.8).

Do lado de cá da eternidade, ou no ‘andar de baixo’, é possível perceber o caráter de relatividade num mesmo fragmento de tempo. Para um maratonista, que corre seus 42 Km de prova, um segundo não adquire a mesma importância daquela fração de que pode decidir a medalha para um corredor dos 100 metros rasos. Para a senhora que aguarda o nascimento do primeiro rebento, os segundos se esticam indefinidamente, os mesmos que parecerão tão velozes quando se desfruta de um prazer longamente esperado. Para Karl Marx, o tempo do operário do século XIX é relativizado e alienado pelo dono do capital, pois para aquele um dia de trabalho renderá muito menos do que uma hora para este, no fim das contas.

Todavia, há momentos cuja fugacidade irá se revestir de importância e de tal densidade que farão os outros recortes do tempo parecerem insignificantes. Trata-se do tempo da decisão, da oportunidade única, irrepetível. Quando criança, o autor deste ensaio prendia a respiração naquele que era o clímax das apresentações circenses: o trapézio. O ponto alto era aquele instante exato de tempo em que um – ou uma – dos artistas soltava suas mãos e voava no espaço para alcançar aquela barra transversal que vinha em sua direção, ou os braços estendidos de seu parceiro de show. O segundo anterior, e aquele que sucede ao fragmento no qual a decisão é tomada, são relativizados. São apenas moldura que cerca o tempo da decisão. Introduz-se, nesse ponto, duas dimensões do tempo: ‘cronos’ e ‘kairós’.

Chronos e Kairós: a realidade do mito

Os significados que convencionalmente passou-se a atribuir às duas expressões que se referem ao tempo, ‘chronos’ e ‘kairós’, teriam surgido da mitologia grega. Representado como um velho tirano e cheio de crueldade, Chronos controlava o tempo desde o nascimento até a morte, ditando aos mortais o que deveria ser realizado. No mito, Chronos emasculou o próprio pai com a intenção de se apoderar do mundo. Mais tarde, como Senhor do Tempo, devora seus próprios filhos para continuar soberano. Imagem bizarra, que não é vista dessa maneira na moderna sociedade de produção, que recompensa os que fazem do cronômetro o seu deus, e que somente mais tarde perceberão que os filhos de Chronos serão por ele devorados: família, valores e significado.

Kairós era filho de Cronos, retratado como um jovem calvo, com apenas um cacho de cabelos na testa, de agilidade sem igual. Possuidor de asas nos ombros e calcanhares, Kairós corria rapidamente e só era possível detê-lo agarrando-o pelos cabelos, encarando-o de frente. Porém, depois que ele passava, era impossível trazê- lo de volta. Devido a tal agilidade, Kairós podia não ser percebido pelo observador desatento. Contrariamente ao seu pai, expressava uma ideia considerada metafórica do tempo, ou seja, não-linear e que não se pode determinar ou medir, uma oportunidade ou mesmo a ocasião certa para determinada coisa.

O mito grego é, antes, projeção antecipada de uma sociedade que o filósofo Zigmund Bauman vai chamar de ‘líquida’, “sociedade em que as condições sob as quais agem os seus membros mudam num tempo mais curto do que aquele necessário para a consolidação, em hábitos e rotinas, das formas de agir” (Bauman, 7). Ou seja, uma sociedade precária, vivida em condições de constante incerteza.

Não admira que nesse mundo líquido neuroses e patologias modernas como a depressão surjam, em grande parte, das sementes do diabo citado por Jung, ‘a pressa’. Fenômeno que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), afeta cerca de 5% da população mundial com desdobramentos extremamente negativos, em alguns casos, trágicos, não apenas para os portadores como para seus familiares, a depressão é o mal do século. (Máspoli, 14).

Contradição, o fato de que a ciência recente que estuda os ciclos, ritmos e compassos que a natureza biológica determina, e que de alguma forma funcionam como proteção do ser humano, leve o nome de cronobiologia, posto que são estes ingredientes exatamente aqueles que são triturados e consumidos pela voracidade de Chronos. Assim, distraídos, pressionados e amedrontados por ele, não vemos passar o filho Kairós, perdemos o ‘timing’, o tempo oportuno.

1. Eclesiastes: uma reflexão sobre o tempo, decisões e melancolia

Visitar o tempo que passou, cultivando ingredientes de saudosismo melancólico, parece ser o passatempo preferido daqueles que olham para o cronômetro da existência como se esta estivesse agonizando. Assim parece se comportar o autor do livro do Eclesiastes, expressa sua crise e incertezas acrescentando lembranças de um passado de grande prosperidade como ingredientes que aprofundam a melancolia sem perceber que, ainda que o Kairós seja reconhecido e decisões tenham sido habilmente tomadas, Cronos continua determinando que a existência escoe por entre os dedos.

O Eclesiastes foi introduzido no cânon judaico e cristão não sem muito debate, em razão de seu conteúdo por vezes polêmico e de um existencialismo deprimente. Ed René Kivitz, pastor batista, vai nomeá-lo de ‘o livro mais mal-humorado da Bíblia’[2]. De autoria desconhecida, a obra pode ser mais adequadamente datada no período pós-exílico, em razão da linguagem, próxima do hebraico rabínico, bem como o conteúdo, que aponta para uma cosmovisão teológica que reflete a influência de um pensamento bem posterior à data em que viveu o personagem a quem o conteúdo homenageia, a saber, Salomão, filho de Davi, cuja vida e/ou contribuições literárias certamente fornecem a matéria prima para a obra.

Em razão de seu conteúdo compósito, não se trata de uma obra de fácil compreensão, e às vezes parece ter sido escrita por mais de um autor. Na realidade, o seu autor estabelece uma linha de discussão consigo mesmo criticando os próprios pensamentos e ações. O texto base para a reflexão deste ensaio se encontra no capítulo 3, com sua ênfase na discussão a respeito do tempo enquanto momentos que se sucedem e, sobretudo enquanto oportunidade, escolha e decisão.

2. O Tempo ‘Aion’ de Salomão

Salomão, filho de Davi, a quem os capítulos 1 e 2 do Eclesiastes nitidamente se referem, reinou por quarenta anos em Jerusalém (962 a 922 a.C) se revelando um empreendedor extraordinário, proporcionando que o seu período de reinado fosse o tempo que todo o judeu adotou como paradigma escatológico, como o passado que se deseja repetir, e dentro do qual viver, tempo de tal dimensão que convida à rendição:

Em Aion, alcançamos a dimensão do eterno, da finalidade da expansão, da justa medida imprecisa entre a imanência e a transcendência. Porque este é o “não tempo”. E “não tempo” também é tempo. Imensurável. Tempo do para sempre.[3]

Salomão assumiu o trono num tempo em que os impérios do Egito, Assíria e Babilônia enfrentavam crises internas e, portanto, não ofereciam ameaças a Israel, assim, o novo rei soube como ninguém aproveitar as oportunidades. Esse homem de estado e chefe militar, consolidou seu poder eliminando inimigos (incluindo o seu meio irmão Adonias, que havia usurpado o trono) e estabelecendo relações e alianças com vários monarcas que reinavam no entorno do reino de Israel. Apesar de não ser guerreiro como fora seu pai Davi, estava longe de ser inexperiente em matéria de conhecimento militar, assim, aumentou sensivelmente o número de seu exército e o equipou. Salomão era um ‘gênio’ comercial, capaz de compreender perfeitamente a posição estratégica onde se localizava Israel, assim, proporcionou que Israel vivesse uma era de grande prosperidade econômica e florescimento cultural.

Contudo, aos poucos Salomão revela as faces de uma personalidade contraditória. A sabedoria do rei se mistura com a cobiça indisfarçável, e com delírios de grandeza, algo que parece acometer os grandes empreendedores: déficit no orçamento e elevação de impostos para compensar; a instituição da corveia (escravidão ‘branca’), a penhora e venda de cidades para custear os gastos, casamento com dezenas de mulheres para ratificar alianças e, finalmente, desintegração das convicções internas, pela adoção de práticas religiosas que eram incompatíveis com a fé de Israel. John Bright, historiador, irá afirmar:

Ele era naturalmente um homem de grande astúcia, capaz de realizar plenamente as potencialidades econômicas criadas por Davi. Ao mesmo tempo, ele manifestou em outras áreas uma cegueira tal, para não dizer estupidez, que apressou a desintegração deste império. (Bright, 276).

É por meio das lentes multifocais voltadas para os dois tempos (aion) que o livro do Eclesiastes pode, e deve ser lido: o período da edição da obra, por volta do ano 250 a.C, e recuperando-se imagens dos tempos de saudosa prosperidade do reinado de Salomão.

3. Kairós: há tempo para todo o propósito debaixo do céu

Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu… Eclesiastes 3.1

2 há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou; 3 tempo de matar e tempo de curar; tempo de derrubar e tempo de edificar; 4 tempo de chorar e tempo de rir; tempo de prantear e tempo de saltar de alegria; 5 tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar 6 tempo de buscar e tempo de perder; tempo de guardar e tempo de deitar fora; 7 tempo de rasgar e tempo de coser; tempo de estar calado e tempo de falar; 8 tempo de amar e tempo de aborrecer; tempo de guerra e tempo de paz. 9 Que proveito tem o trabalhador naquilo com que se afadiga? 10 Vi o trabalho que Deus impôs aos filhos dos homens, para com ele os afligir. 11 Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo; também pôs a eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez desde o princípio até ao fim. (Versão Almeida Revista e Atualizada)

No capítulo três do Eclesiastes, entre os versículos 1 a 11, a expressão tempo traduzida na Septuaginta[4] por ‘kairós’ ocorre 30 vezes, como tradução do termo hebraico zeman, palavra somente encontrada na literatura posterior (como em Neemias 2.6; Ester 9.27; 31). A tradução indica ‘tempo determinado’. A palavra grega vai ocorrer no Novo Testamento como ‘tempo oportuno’ ou ‘apropriado’ (Rm 5.6; Gl 6.10). Por sua vez, a palavra ‘cronos’, no espaço citado, vai ocorrer apenas no verso 1, o que pode ser explicado pelo fato de que uma das características notáveis do pensamento do Antigo Testamento é a ausência de um vocábulo para tempo cronológico abstrato na mesma medida em que o grego o usa. (Douglas, pág.1309).

Seja como for, a ênfase do autor não reside no tempo que escorre pela ampulheta, mas nas estações próprias que se apresentam diante da existência de formas variadas, nem sempre convidativas, mas ainda convocando a uma decisão.

O autor evita emitir um juízo de valor como se a expressão kairós estivesse, de alguma forma, associada sempre a uma estação primaveril permanente. Por meio de oposições, o autor revela que o kairós inclui na existência tanto momentos que evocam celebração quanto experiências que conduzem ao quebrantamento. Bem e mal recebem significados distintos daqueles que a sociedade moderna estabeleceu, associando o ‘bem’ a situações de experiências prazerosas e confortáveis e ‘mal’ como sendo aqueles momentos dramáticos.

Uma das dificuldades de compreensão da mensagem do Eclesiastes guarda relação com a aparente contradição entre a cosmovisão hebraica acerca do tempo, linear, e a visão cíclica e repetitiva, como apresentada pelo autor, sobretudo no capítulo 1. Este aspecto certamente indica algum tipo de influência do ambiente no qual o livro foi escrito, no período ptolomaico.

4 Geração vai e geração vem; mas a terra permanece para sempre. 5 Levanta-se o sol, e põe-se o sol, e volta ao seu lugar, onde nasce de novo. 6 O vento vai para o sul e faz o seu giro para o norte; volve-se, e revolve-se, na sua carreira, e retorna aos seus circuitos. 7 Todos os rios correm para o mar, e o mar não se enche; ao lugar para onde correm os rios, para lá tornam eles a correr. Eclesiastes 1. 4-7

4. Pessimismo Apocalíptico ‘versus’ Existencialismo Pessimista

O período em que o Eclesiastes foi escrito leva as violentas marcas da tentativa de Alexandre, o Grande, de implantar a cultura grega sobre os povos dominados. Alguns, como os persas, parecem ter aberto os portões de sua cultura e de seus palácios para o filho de Felipe da Macedônia. Tal não seria o caso dos judeus, povo que após o regresso do exílio babilônico se tornaria dominado por uma escatologia que lhes fazia pensar no tempo futuro como o período de paz, liberdade e prosperidade. Nada obstante, o período em questão, vai gestar um certo tipo de pessimismo que de alguma forma dará à luz o que conhecemos como literatura apocalíptica, uma tentativa de reinterpretação dos tempos estabelecidos pelos profetas a respeito da restauração de Israel. Os autores apocalíticos fazem resignificar as profecias a respeito da restauração de Israel, arrancam-nas do tempo presente e as lançam para um ‘aion’ a ser estabelecido tão somente pela intervenção catastrófica de Deus na história.

Mark Sneed escreve excelente obra a respeito do pessimismo que envolve o povo judeu, chamando a atenção para o fato de que a versão pessimista da história nesse período do judaísmo está, todavia, muito distante do pessimismo existencialista proclamado por pensadores modernos tais como Jean Paul Sartre, Martin Heidegger e Albert Camus. (Sneed, 168). O desencantamento, ou a vacuidade na experiência do escritor do Eclesiastes (Ec 1.2, 14) que de alguma forma representa o povo judeu, não é da mesma natureza. O pessimismo judeu aponta para Deus, crê em sua intervenção. O vazio existencial se revela no pessimismo quanto ao tempo presente, mas aposta no ‘aion’, aquele tempo futuro que é desdobramento de todas as ações e promessas de Deus no tempo passado. O ‘nada’ do cronos e a ausência de um novo kairós são plataformas que lançam a fé para o futuro.

5. Entre o messianismo e a modernidade

A agonia pela qual passa o pregador está relacionada com sua insatisfação a despeito de tantas oportunidades aproveitadas. Kairós não tem poder para esticar o contentamento obtido pelo aproveitamento da oportunidade. Assim, é preciso que outra oportunidade e outra e outra surjam, o tempo todo. O empresário empreendedor, incansável, que amealhou muitas riquezas à medida que corre atrás do cronos, poderá perceber que seu empreendedorismo lhe cegou para outras oportunidades que o kairós disponibilizou. Nesses termos, nada mais moderno do que o Eclesiastes, nada mais conectado com o processo de secularização. Correr atrás do cronos foi correr atrás do vento (Ec 2.17).

A sociedade brasileira retém nos substratos de seu inconsciente coletivo a noção de tempo que ainda preserva elementos de um messianismo sebastianista, que ignora o kairós, o tempo da oportunidade, à espera de que o cronos escorra até o tempo em que algum messias crie um tipo de ‘aion’ apocalíptico. Por outro lado, vive a gente tupiniquim pressionada pelos valores – ou anti-valores – da sociedade moderna e neoliberal, que privilegia o consumo a todo custo, portadora de uma agenda orientada pela pressa, aquele diabo que na mitologia levou o nome de cronos. Um povo que dias atrás se esforçava por fazer o tempo acelerar, ainda não aprendeu a ver o kairós passar. A crise na qual se vive neste 2015, vista na retração do consumo, nos escândalos financeiros e políticos e na ética esvaziada de seus elementos básicos, deveria ser o tempo da oportunidade para a ruptura com o lamento alienante e para decisões de tomar o tempo nas mãos.

O pessimismo do Eclesiastes estabelece a plataforma de lançamento a partir da qual decisões são tomadas. O tempo é este, já foi, não está mais aqui. Como aquele coelho branco, o atraso faz correr atrás do cronos, não se limita a vê-lo escapar.

1 Lança o teu pão sobre as águas, porque depois de muitos dias o acharás. 2 Reparte com sete e ainda com oito, porque não sabes que mal sobrevirá à terra. 3 Estando as nuvens cheias, derramam aguaceiro sobre a terra; caindo a árvore para o sul ou para o norte, no lugar em que cair, aí ficará. 4 Quem somente observa o vento nunca semeará, e o quem olha para as nuvens nunca colherá. 5 Assim como tu não sabes qual o caminho do vento, nem como se formam os ossos no ventre da mulher grávida, assim também não sabes as obras de Deus, que faz todas as coisas. 6 Semeia pela manhã a tua semente e à tarde não repouses a mão, porque não sabes qual prosperará; se esta, se aquela ou se ambas igualmente serão boas. Eclesiastes 11.1-6

O autor deste ensaio não tem sido muito hábil em enxergar a passagem do kairós daqui pra lá, e de lá prá cá. Mas aprendeu com seus pais, que zombavam da tirania do cronos e que viviam na doce expectativa de que o aion já os esperava. A propósito dos trapezistas, eles acertaram o segundo em que deveriam largar as mãos aqui e agarrar ali. Mesmo que tivessem se adiantado ou atrasado, havia ali o aion da rede, sempre à espera de um erro eventual. Esse é o tempo, que desafia todos os tempos.

Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos dos quais dirás: Não tenho neles prazer. Eclesiastes 12.1

Autor: Amauri Vassão Filgueiras

Fonte: Revista Pandora Brasil

Notas

[1] – Citado por Richard Foster em ‘Celebração da Disciplina, o Caminho do Crescimento Espiritual. Editora VIDA, 1983, pág. 10.

[2] – Obra publicada pela Mundo Cristão, 2009.1ª ed. 2009; 7ª edição, 2011.

[3] – Extraído de artigo a respeito dos tempos ‘aion, cronos e kairós’. http://www.biocentrum.com.br/2012/03/ostempos-em-aion-kairos-e-kronos-por.html

[4] – Sptuaginta, ou tradução dos LXX (setenta). Resultado de séculos de esforços de tradução para o grego do Antigo Testamento a partir do período pós-exílio.

Referências bibliográficas

SNEED, Mark. R. The Politics of Pessimism in Ecclesiastes. Society of Biblical Literature. Atlanta, 2012. 342 p. CHAMPLIN, Russel Norman. O Antigo Testamento Interpretado. Hagnos, 2001. São Paulo. 2ª Ed. O Novo Dicionário da Bíblia. Org. J. D.; Douglas. Ed. Vida Nova. Reimpressão 2007. São Paulo. KIVITZ, Ed René. O Livro Mais Mal Humorado da Bíblia. Ed. Mundo Cristão, São Paulo. 2009. ECLIPSE DA ALMA: A depressão no contexto da psiquiatria, da psicologia de Carl Gustav Jung e da religião. Antonio Máspoli Gomes Araújo, org. 2ª Ed. São Paulo: Fonte Editorial, 2014. 400p.

Cronos e Kairos: Os Matizes do Tempo – Artigo 4

Saturn Devouring a Son – Peter Paul Rubens (1636)

O Kronos devora! A intrigante relação entre tempo e trabalho na modernidade

Vivemos em momentos, pelo menos nos centros urbanos, em que a corrida contra o tempo, na busca da realização dos afazeres cotidianos, tornou-se práxis na vida do homem moderno. A impressão que temos é que, o tempo é pouco para realização de tantas tarefas que nos cabe no dia a dia, mas, nem sempre foi assim. A relação que o homem moderno estabelece com o seu tempo e suas tarefas, atividades, trabalho, tem um histórico precedente, característico de inúmeras questões relacionadas a Modernidade, e hoje, ainda que este não perceba, a intrigante relação entre tempo e trabalho, continua sendo um desafio, que nos leva a considerar que o Kronos (tempo), de fato devora!

No panteão de divindades greco-romanas o Kronos era uma divindade grega, o Saturno dos romanos. Era senhor do universo, mas, com medo de um de seus filhos destroná-lo, assim que nasciam, os devorava. Nesse caso, o único filho a escapar foi Zeus. A mitologia acrescenta que Zeus não foi devorado por Kronos, pois sua mãe teria colocado no lugar dele uma pedra. Quando ele cresce, obriga seu pai a vomitar os seus irmãos, e então, prende todos eles. Conforme Martins, Aquinoll, Sabóiall e Pinheiro (2012, p. 220, 221), o “Kronos representa esse tempo que todos conhecemos, contado em 24 horas para um dia. O passado sucedido pelo presente, que será ultrapassado pelo futuro.” Consideramos que, assim como o Kronos devorava seus filhos, o tempo tem devorado o homem na Modernidade.

Ao longo da história, o homem tem se adaptado de forma diferente ao tempo e ao seu trabalho, e na Modernidade, essa relação se torna ainda mais curiosa.

Denomina-se Modernidade, o período que configura a modificação na cosmovisão do homem em relação ao mundo desde o século XV até os dias atuais. Essa compreensão diferencia-se de classificações histórico-antropológicas, pois estas, dividem a existência do homem “em períodos (Pré-história, Idade Antiga, Média, Moderna, Contemporânea) a partir de mudanças naturais (geológicas ou biológicas), sociais ou fatos políticos relevantes” (HANSEN, 2000, p. 51 e 52). A sociedade moderna nasceu com a ruptura da ordem de um mundo sagrado, dando lugar a separação, e a interdependência da ação racional instrumental do sujeito pessoal (TOURAINE, 1998, p. 228). Com os tempos modernos, o homem se tornou o centro do universo, e todo conhecimento passou a relacionar-se estritamente com a razão. Posteriormente, a ideia de progresso ocuparia um lugar intermediário, central, entre a racionalização e o desenvolvimento, relacionando a crença no progresso, ao amor pelo futuro (TOURAINE, 1998, p. 72). Coelho (2005, p.65), a partir da concepção de Augusto Comte, observa que a ideia de progresso, era uma concepção fundamental para o desenvolvimento, e o progresso era entendido, sobretudo, para além dos limites de melhoria de condições materiais, servindo como um promotor de excitação da intelectualidade no predomínio da razão. O agir do homem não seria mais definido por uma vontade divina, mas pelo próprio sujeito que passava a dar significado à sua existência, tornando-se responsável por seus próprios progressos e fracassos (CRUZ, 2011, p. 34).

A modernidade trouxe em sua configuração inúmeras mudanças para a vida do homem, e entre elas, a mudança relacionada ao tempo e trabalho, profundamente marcada a partir da revolução industrial. Antes disso, o tempo de produção de um trabalho, era determinado pelo próprio trabalhador, e sua recompensa estava vinculada a produção de um determinado serviço. O que estava em foco era a tarefa e não o tempo que ela consumia (MARTINS; AQUINOLL; SABÓIALL; PINHEIRO, 2012, p. 222).

Linhares e Siqueira (2014, p. 106 e 107), ao considerar a posição de Bauman (2001), Cugini (2008), e Basílio (2010), explicam que:

O conjunto de transformações que marcaram a história da humanidade, principalmente pós revolução industrial contribuiu para a fecundação de um novo mundo, um mundo líquido, caracterizado por contínuas transformações do mundo do trabalho, que à luz da metáfora baumaniana, revelou-se líquido, já que caracterizado pela incerteza, fluidez e demanda por agilidade, elementos que contribuíram para a precarização das condições laborais impostas aos trabalhadores.

Esse novo modelo de sociedade (industrial), gerou uma mobilização, que caracterizou a classe operária como um exército do trabalho, tornando-os, servidores do lucro (TOURAINE, 1998, p, 270). Com o mundo moderno veio também as profundas rupturas e transformações na ordem das coisas, e a promessa de um novo mundo, que seria admirável. A demanda por força de trabalho, e o tempo gastos com este, foram priorizados, de forma que a produção em larga escala passou a ser necessária. O tempo tornou-se impessoal, veloz e devorador. Os rastros de um tempo múltiplo, litúrgico e eterno expresso por catedrais e abadias medievais, foram apagados, e em seu lugar surgiram as chaminés das fabricas, o relógio, e o trabalho industrial e produtivo (CARVALHO, 1996, p. 128).

Touraine (1998, p.87), ao retratar a postura de Marx frente a industrialização, expõe que:

[Marx] observa um mundo industrial onde os homens são reduzidos a um estado de mercado, onde o salário tende a baixar ao nível da simples reprodução biológica da força de trabalho, onde o “ser genérico” do homem é destruído pela dominação do dinheiro, dos objetos e das ideologias individualistas. […] Ora, esta prática consiste antes de tudo nas relações sociais de produção.

A monetização da economia e o crescimento do mercado consumidor, que tornou-se o alicerce no surgimento do capitalismo, acabou adotando duras mudanças na produção e relações de trabalho (MARTINS; AQUINOLL; SABÓIALL; PINHEIRO, 2012, p. 224), submetendo trabalhadores em uma organização que violaram sua autonomia profissional. Fez do trabalhador, apenas instrumentos do lucro, ignorando totalmente suas questões fisiológicas, psicológicas e sociais (TOURAINE, 1998, p. 99). Como consequência, essa força de trabalho instaurada em um mercado competitivo e impessoal, ocasionou inúmeras mudanças na vida das pessoas (BERTAMONI, 2009, p. 22).

Linhares e Siqueira (2014, p. 107) referindo-se a concepção de Antunes (2011) sobre a liquidez da modernidade, retratam ainda outras adaptações e transformações que foram ocorrendo, concernentes ao trabalho. Essas mudanças englobam:

[…] redução do proletariado fabril, industrial e manual; desemprego estrutural; surgimento da sociedade de serviços (setor terciário) e da era da informatização do trabalho; enorme ampliação do assalariamento no setor de serviços; flexibilização da jornada e do local de trabalho; fim da estabilidade no emprego; maior demanda por profissionais mais qualificados (administradores, especialistas, técnicos, funcionários administrativos e de vendas); significativa heterogeneização do trabalho; crescente incorporação do contingente feminino no mundo operário; expansão do trabalho parcial, temporário, precário, subcontratado e terceirizado, além da complexificação da classe trabalhadora.

Essa Modernidade, que muda radicalmente as questões relacionadas ao trabalho, vai interferir diretamente na vida do homem, e nesse cenário, continuará alterando os seus costumes de vida, tradições e hábitos. A produção e consumo, bem como a circulação de mercadorias vão ocorrer sem pudor, e marcados pelo utilitarismo, o homem será desafiado a acompanhar as transformações atribuídas à ele (LINHARES e SIQUEIRA, 2014, p. 107).

Hansen (2000, p.54) expõe que, o homem moderno, tem sido atropelado por informações que chegam a todo momento e ao mesmo tempo, interferindo na maneira que este lida com o tempo. Vive apressado, com a impressão de que o tempo lhe foge diante das inúmeras exigências por metas e prazos a cumprir. Além disso, os seus espaços físicos foram reduzidos, e as pessoas, que apesar de estarem aparentemente próximas, passaram a interagir socialmente de forma superficial.

Touraine (1998, p. 216), aborda:

[nos] nossos dias, a imagem mais vivível da modernidade é a do vazio, de uma economia fluida, de um poder sem centro, sociedade muito mais de troca que de produção. Resumindo, a imagem da sociedade moderna é a de sociedade sem atores.

O homem, que antes era sujeito e ator do seu tempo, utilizando-o de forma participativa e compartilhada, passa a ser submisso a ele, realizando os seus afazeres de forma individual e impessoal, na tentativa de dar conta das muitas tarefas que lhes são atribuídas.

A solução para essa questão parece torna-se possível, mas, apenas por meio da reapropriação da consciência perdida, da fala, do desejo, e do resgate a autonomia, promovendo a capacidade de pensar e agir de forma crítica sobre a organização do seu próprio trabalho (LINHARES e SIQUEIRA, 2014, p. 110).

Por fim, entendemos que o tempo e o trabalho, radicalmente alterados com a modernidade, devem promover reflexões, na tentativa de não permitir que estes nos escravize ou devore, mas, contribua ao nosso favor.

Autora: Bernadete Alves de Medeiros Marcelino

Fonte: Revista Pandora Brasil

Referências bibliográficas

BERTAMONI, Hélia Fraga Gomes. Entre Cronos e Kaerós: a auto-percepção da idade na velhice. Dissertação de Mestrado, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2009. Disponível em: . Acesso em: 13 Nov. 2015. COELHO, Ruy. Individuo e Sociedade na Teoria de A. Comte. São Paulo: Perspectiva: Cesa – Sociedade Científica de Estudos da Arte, 2005. CRUZ, Daniel Nery da. CARDOSO, João Santos. A discussão Filosófica da Modernidade e da Pós – Modernidade. Revista Eletrônica Print by, nº.13, p. 33-46, São João Del-Rei, 2011. Disponível em: . Acesso em: 16, Non. 2015. HANSEN, Gilvan Luiz. Espaço e Tempo na Universidade. Geographia. Ano. II nº. 3, p. 51-67, Londrina, 2000. Disponível em: . Acesso em: 16 Nov. 2015. LINHARES, Roziano Linhares; SIQUEIRA, Marcus Vinícius Soares. Um diálogo entre a psicodinâmica do trabalho e a sociologia clínica no universo da modernidade líquida. Revista Interinstitucional de Psicologia, v. 7 nº1, p. 106-118, jan – jun, 2014. Disponível em: . Acesso em: 16 Nov. 2015. MARTINS, José Clerton de Oliveira; AQUINOLL, Cássio Adriano Braz de; SABÓIALL, Iratan Bezerra de; PINHEIRO, Adriana de Alencar Gomes. De Kairós a Kronos: metamorfoses do trabalho na linha do tempo. Cadernos de Psicologia Social do Trabalho, vol. 15, nº. 2, p. 219-228, 2012. Disponível em: . Acesso em: 15 Nov. 2015. SABÓIA, Iratan Bezerra de. Cronos e Kairós: reflexões sobre temporalidade laboral e solvência social. Dissertação de Mestrado. Universidade do Ceará, 2007. Disponível em: . Acesso em: 16 Nov. 2015. TOURAINE, Alain. Crítica da Modernidade. Petropólis: Editora Vozes, 1998. SITE: https://pt.wikipedia.org/wiki/Mitologia_grega

Cronos e Kairos: Os Matizes do Tempo – Artigo 3

Uma questão de tempo: a temporalidade moderna

O tempo é uma questão para os homens, nos textos bíblicos como Eclesiastes, na mitologia grega e nos pensadores filosóficos de todos os tempos.

O Kronos e o Kairós são definições que auxiliam na compreensão e discussão sobre a temporalidade.

Na mitologia grega Kronos é uma divindade, o deus do tempo cronológico; que destronou seu pai. Seu neto Kairós, filho de Zeus, era a personificação do tempo subjetivo, pessoal de cada homem e de cada deus.

Esse era o tempo oportuno, o momento certo; era simbolizado por um jovem atleta que tinha asas nos pés, sendo veloz em seus movimentos e transitando de um espaço a outro aleatoriamente se tinha dificuldade de alcança-lo.

Conforme Coenen e Brown, a eternidade e o tempo são duas categorias distintas, e, os gregos tinham diversas palavras para designar diversas facetas destas duas categorias, como é possível perceber a seguir com duas definições kairós e chronos (2452- 2476):

Para Hesíodo, kairós estava relacionado com a “medida certa”, apropriado ou decisivo. Além do sentido material, temporal e léxico possuía a conotação do “lugar apropriado”.

No sentido material e temporal kairós tem o sentido de uma situação critica que exige uma decisão que evite fatalidades ao homem. Para Aristóteles, kairós era uma situação positiva: uma oportunidade. Para Platão, uma situação negativa: “perigo”, um risco.

No sentido temporal, subentende um tempo oportuno, tempo apropriado, um momento favorável.

A partir de Homero, chronos, não é mais um determinado tempo fixado em uma regra geral; o tempo passa ser invariável “longo” ou “curto”.

Posteriormente assume o sentido de tempo desperdiçado, ou período e a duração de vida.

Para o homem grego o tempo era o poder determinante de sua vida, por um lado parecia que o tempo era infinito, mas por lado percebia que o tempo alocado ao individuo era finito, curto demais.

O tempo “onividente” era juiz de todas as coisas, era o esclarecedor de questões obscuras, principalmente ai verdadeiro valor de um homem e o tempo era aquele que curava as pessoas de suas feridas por meio do esquecimento.

No entanto, o tempo não trazia a salvação da morte, por isso, o grego buscava consumir, gastar o tempo de sua existência, ou estender a vida após a morte deixando um legado, uma fama póstuma.

Portanto, para os gregos o problema sobre o tempo era vencer seus obstáculos por meio da esquematização intelectual.

Com Platão, o chronos foi criado juntamente com os céus estrelados e voltará a desaparecer, juntamente com eles. Um tempo oposto a imutabilidade do Eterno e Infinito, marcado pela brevidade do tempo, com os conceitos temporais de passado, presente e futuro. O tempo, no pensamento de Platão, corresponde o movimento dos planetas.

Aristóteles percebeu o chronos na realidade dos existentes, se afastando da ideia de Platão da Existência. Os movimentos podem ser medidos por números, definindo o tempo como a medida contínua de movimentos sucessivos, este é o tipo de processo que os gregos expressam as coisas de modo visual.

Tanto em Aristóteles como em Platão, o tempo tem uma posição de inferioridade ao espaço.

Porém, quando Coenen e Brown tratam do pensamento teológico, eles marcam suas diferenças em relação ao pensamento judaico-cristão dos pensadores gregos.

Teologicamente falando, o tempo duradouro é propriedade de Deus, o Criador, ao passo que o tempo passageiro pertence ao homem, como criatura. Chronos denota principalmente a expansão quantitativa e linear do tempo, um espaço ou período de tempo, e, portanto, é um termo para o conceito formal e científico do tempo. […] É instrutivo para a totalidade do modo de o NT entender o tempo que não é o conceito formal de chronos, mas sim, o de kairós, que qualificava o conteúdo do tempo de Jesus, que fica em primeiro plano.  (COENEM & BROWN, 2013, 2452)

No pensamento judaico-cristão o tempo não ocupa espaço de reflexão, mas sim, o momento em que o homem terá o encontro com Deus no tempo oportuno (kairós), em um dia (chronos).

O filósofo Santo Agostinho, seguindo o pensamento cristão e sendo influenciado por Platão, debruçou-se a compreender o que seria o tempo:

“Que é, pois, o tempo? Quem poderá explicá-los clara e brevemente? Se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta já não sei.” ” (AGOSTINHO, 1981, 243).

O filósofo buscou compreender a distinção da temporalidade da eternidade como tempo divino com a temporalidade cronológica da criação, portanto, do mundo e dos homens.

Na eternidade, que pertence ao divino, sempre é presente como é Deus, o Deus dos cristãos.

Na eternidade, ao contrário, nada passa, tudo é presente, ao passo que o tempo nunca é o todo presente. Esse tal verá que o passado é impelido pelo futuro e que todo o futuro esta precedido dum passado, e todo o passado e futuro são criados e dinamam d’Aquele que sempre é presente. Quem poderá prender o coração do homem, para que pare e veja como a eternidade imóvel determina o futuro e o passado, não sendo ela nem passado e nem futuro? (AGOSTINHO, 1981, 242)

Deus é o dominador do futuro. O tempo é uma criação divina, de um Deus que existe antes do tempo. “Criastes todos os tempos e existes antes de todos os tempos. Não é concebível em que possa dizer-se que não havia tempo.” (1981, 243).

Agostinho entendia que o homem que vive no tempo cronológico marcado por passado, presente e futuro não pode compreender a eternidade, pois este está preso neste tempo que remete ao cotidiano, enquanto a eternidade é todo presente.

A esse, que o poderá prender e fixar, para que pare um momento e arrebate um pouco do esplendor da eternidade perpetuamente imutável, para que veja como a eternidade é incomparável, se a confronta com tempo, que nunca para? Compreenderá então que a duração do tempo não será longa, se não se compuser de muitos movimentos passageiros. (AGOSTINHO, 1981, 242).

Para o filósofo, o futuro não existe e nem o passado, e o presente é um momento com curto período de existência.

De que modo existem aqueles dois tempos – o passado e o futuro -, se o passado já não existe e o futuro ainda não veio? Quanto ao presente, se fosse sempre presente, e não passasse para o pretérito, já não seria tempo, mas eternidade.  (AGOSTINHO, 1981, 244)

Para Agostinho, o tempo do homem é constituído por três tempos, subdividindo este tempo por mais partes encontra-se o presente.

Se pudermos conceber um espaço de tempo que não seja suscetível de ser subdividido em mais partes, por mais pequeninas que sejam, só a esse podemos conceber um espaço de tempo presente. Mas este voa tão rapidamente do futuro ao passado, que não tem nenhuma duração. Se a tivesse, dividir-se-ia em passado e futuro. Logo, o tempo presente não tem nenhum espaço. (AGOSTINHO, 1981, 244).

Portanto, o passado e o futuro para Agostinho não existe, ele se encontra no imaginário das pessoas que projeta suas memórias e expectativas no presente.

“É impróprio afirmar que os tempos são três: pretérito, presente e futuro. Mas talvez fosse próprio dizer que os tempos são três: presente das coisas passadas, presente das presentes, presentes das futuras.” (Idem, 249)

A questão da duração dos tempos, Agostinho entendeu que somente é possível prolongar o passado e o futuro no espírito humano pela expectativa, atenção e memória. Sendo assim, o futuro não existe, mas sim, “o futuro longo é apenas a longa expectação do futuro” e como não existe o passado, pois “o pretérito longo é outra coisa não é senão a longa lembrança do passado” (255).

Segundo Ricardo Bitun, com a mudança da sociedade tradicional para a sociedade moderna, o paraíso, o lugar de descanso e prazer; foi transferido do porvir, de eras vindouras para o tempo “hoje” por meio do progresso técnico-cientifico, em que o homem é seu próprio deus e o tempo, conforme Bauman; vence e domina o espaço e as pessoas.

Conforme Ricardo Bitun a modernidade trouxe profundas mudanças nos conceitos.

de espaço e tempo e a utopia ou a parusia que sofreu um processo de secularização ou imanetização. A razão moderna está no centro do processo de desencantamento do mundo e no coração da esperança moderna: a esperança de que a realização dos sonhos da humanidade reside no progresso tecnológico […] o homem se tornou o sujeito de sua emancipação. (SUNG, 1994, apud BITUN, 2011, 36).

Conforme Bauman (107-149), a história do tempo começou com a Modernidade, isto é, “a modernidade é o tempo em que o tempo tem uma história” (2000,129), isto ocorreu quando o espaço e tempo se tornaram distintos devido o uso de meios de transportes não-humano e não-animal substituindo o wetware (os humanos e animais) na movimentação pelo espaço.

O tempo torna-se independente aos fatores imutáveis da massa da terra e dos mares, pois se tornou dinâmico, ajustável e manipulado; como ferramenta na modernidade ganha status de dinheiro e riqueza, opondo-se ao espaço, cada vez mais superado pela velocidade do tempo.

O hardware venceria o wetware, a questão do tempo na modernidade ganharia novas facetas: a sua emancipação do espaço e posteriormente a conquista do espaço.

Com a racionalidade e eficiência da produção o tempo passa a ser rotinizado, amansado e congelado para que o domínio do espaço não se tornasse um caos.

Mas tudo se transforma com o software e com advento da modernidade leve, a partir deste momento o tempo passa ser “tempo nenhum” (BAUMAN, 2000, 136), pois agora com o software o espaço é reduzido e atravessado em tempo real.

A marca do tempo torna-se a “instantaneidade” determinando as relações de dominação, sendo assim, os dominadores são os detentores dos meios de velocidade para obter informações, atravessar espaços e conecta-se a outras pessoas.

As dominadas são aquelas ainda presas ao espaço não podendo mover-se tão rapidamente. Aceleração e procrastinação são armas neste processo de dominação.

Na instantaneidade o longo prazo é substituído pelo curto prazo, consumo passa a está nos objetos não duráveis, a durabilidade torna-se um recurso de risco.

O modo de convívio dos humanos também é transformado pela instantaneidade, este período é marcado pela desvalorização da eternidade e da durabilidade, uma geração que não se prende em memórias e nem na expectativa do futuro. No entanto, Bauman entende:

Mas a memória do passado e a confiança no futuro foram até aqui os dois pilares em que se apoiavam as pontes culturas e morais entre a transitoriedade e a durabilidade, a mortalidade humana e a imortalidade das realizações humanas, e também entre assumir a responsabilidade e viver o momento.  (BAUMAM, 2000, 149)

A revista Época, com a matéria ”Desacelere” apresenta o livro de Frank Partnoy Como fazer a escolha certa que defendeu que as decisões mais eficientes são tomadas por aqueles que procrastinam suas decisões para o amadurecimento diferentemente dos que usam a intuição imediatista.

A questão é o tempo necessário para tomada de decisões, a discussão de Bauman sobre o tempo e o espaço facilita entender que neste ponto as decisões são o meio para o fim que é o tempo.

O site o GLOBO com a matéria Tudo ao mesmo tempo agora: um fenômeno da era digital, afirma que os humanos tornaram se escravos do presente, dos momentos e isto por causa dos tabletes, celulares e mídias digitais.

Ao mesmo tempo em que desorientados é urgente à obrigatoriedade de conseguir lidar com as informações e a realidade ao redor.

O professor Douglas Rushkoff, entende que os humanos estão presos ao presente um “instante prolongado”. Uma saída do “futurismo” para o “presentismo”, desta forma, os humanos encontram se congelados a um instante.

As pessoas não percebem que o uso dos meios digitais são para poupar o tempo e organizar as tarefas, elas fizeram ao contrário, estão viciadas na velocidade e sentem a necessidade de está em todos os lugares e fazer o que querem tudo ao mesmo tempo.

O direito da espera foi perdido, a necessidade de está conectado ao mundo virtual e viver a identidade virtual causa um caos mental chamado de “Digifrenia”.

A pós modernidade ou modernidade líquida como se refere Bauman é um momento que instiga novas reflexões, em que os conceitos estão diluídos. E o conceito tempo não escapa a diluição e a necessidade de reflexão.

Autora: Priscilla Luciane Bastos Oliveira

Fonte: Revista Pandora Brasil

Referências bibliográficas

AGOSTINHO, Santo. Confissões – livro XI: O homem e o tempo. Disponível: http://www.fafich.ufmg.br/bib/downloads/CONFISSOES_Livro_XI_O_Homem_e_ o_Tempo.pdf. Acessado em: 22-11-2015

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2000. pags 107-149.

BITUN, Ricardo. Mochileiros da Fé. São Paulo: Editora Reflexão, 2011.

COENEN, Lothar & BROWN, Colin. Dicionário Internacional de teologia do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2013 pags. 2452-2476.

Revista Época. Desacelere. Acessado em 22-11-2015. Disponível em: http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/noticia/2012/10/desacelere.html

Site o Globo. Tudo ao mesmo tempo e agora: um fenômeno da era digital. Acessado em: 22-11-2015. Disponível em: http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/noticia/2012/10/desacelere.html

Cronos e Kairos: Os Matizes do Tempo – Artigo 2

Kairós x Chronos: O Tempo de Todas as Coisas

Mark Freier, em seu artigo sobre o tempo, Chronos and Kairos (2006), reflete sobre a ironia da tecnologia que proporciona rapidez quanto ao fluxo de informações e, ao mesmo tempo, nos brinda com uma sensação de que não há tempo suficiente. Freier prossegue introduzindo uma explicação deste fenômeno oferecida por Christie e Bruun (2003), que elencaram quatro aspectos sobre a atual percepção de tempo:

  • O tempo está padronizado e mecanizado, ao invés de estar baseado nos sinais da natureza, como a maré e a lua;
  • O tempo está segmentado – anteriormente, a divisão entre manhã e tarde seriam suficientes, mas, hoje, os dias precisam ser meticulosamente medidos em horas, minutos e segundos;
  • O tempo tornou-se perturbador – no século XVI havia um único relógio para lembrar toda a comunidade do horário de despertar, ir à igreja e dormir – hoje, é impossível escapar do tempo, pois o “tique-taque” de tantos relógios não pára;
  • Houve uma mudança no caráter do tempo: de subjetivo, sutil e com fluxo sazonal, tornou-se onipresente, objetivo e linear, com uma construção cronológica, diminuindo a cada segundo que passa.

Para abordar a origem da palavra tempo, Freier reporta-se à pesquisa chronos (xρόνος) e kairós (καιρός): a primeira (chronos) refere-se ao tempo cronológico e sequencial, como aquele medido pelo calendário. Implica em ordem, ritmo, previsibilidade. A outra (kairós) é mais vaga, complexa e dependente da cultura, sem equivalente preciso em nosso idioma, algo parecido com “tempo oportuno” – o momento de um período indeterminado de tempo no qual “algo” especial acontece. Os mais pragmáticos poderiam dizer que chronos é tempo quantitativo, ao passo que kairós é qualitativo e não pode ser medido. Freier recorda a distinção de tempo adotada pelo filósofo francês Henri Bergson: tempo verdadeiro (real) x falso – “la durée pure” (duração pura do tempo) não medido pelo relógio.

Elisabete Sofia Lepera (2004, p. 18) conta que, na mitologia grega, o deus Kairós possuía pés alados, permitindo-lhe andar em muitos níveis de consciência. Era o deus que representava o princípio da sincronicidade. Na mesma obra, reportando-se a Joseph Campbell (2004, p. 18), faz uma reflexão sobre o momento em que um ser humano olha para o passado e reflete sobre sua própria história, os acontecimentos e as pessoas que cruzaram seu caminho e como esse “refletir” sobre o tempo que passou parece transmitir a sensação de que havia uma ordem e um plano consistentes, e que aquilo (pessoas e acontecimentos que influenciaram sua vida e vice-versa) que parecia ser acaso tornou-se posteriormente fundamental na composição do enredo da história. Isso se movimenta e se ajusta em todas as pessoas e em todos os lugares de forma sincronizada, como em uma sinfonia, estruturando o sistema.

O autor do livro de Eclesiastes também discorre sobre o tempo e reflete: há tempo de guerra e tempo de paz, tempo de rir e tempo de chorar, tempo de plantar e tempo de colher o que se plantou. Isso implica em que, enquanto uns estão no seu tempo de guerra, outros, simultaneamente, estão em tempo de paz e assim sucessivamente. Enquanto uns estão no seu tempo de rir, outros, ao mesmo tempo, estão em tempo de chorar. Enquanto uns estão no seu tempo de plantar, outros, concomitantemente, estão em tempo de colher. Enfim, sugere incoerência ou incompatibilidade entre o kairós e o chronos de uns e outros.

Independente de onde alguém possa estar hoje, no hemisfério norte ou sul, no oriente ou ocidente, é impossível (aos humanos sadios) não lamentar o terror experimentado na capital francesa: uns estão em tempo de paz (os que viviam despreocupadamente) e outros, em tempo de guerra (homicidas e suicidas).

Houve um tempo em que os cristãos entendiam que era tempo de evangelizar o mundo e para isso, os militantes invadiam povoados e impunham sua concepção de verdade porque entendiam que era tempo daquelas pessoas aderirem ao cristianismo. Aqueles eram os tempos das Cruzadas (os militantes que compunham aqueles exércitos se percebiam como soldados de Cristo).

Após um longo tempo, os líderes do cristianismo reconheceram que aquele tempo, quando tentavam impor sua cosmovisão, foi um tempo de erros.

O tempo das Cruzadas passou. Estamos em tempos de Isistadas e Alcaetadas (desculpe o neologismo): militantes de um exército radical que, argumentando estar agindo em nome de Maomé, seguem os modelos e os passos dos militantes das Cruzadas.

Nunca será tempo de conquistar nada com violência. O cristianismo parece ter aprendido esta lição. Gandhi e Mandela provaram isso ao mundo.

Mas é tempo de fazer uma confissão: sou cristã. Aderi ao cristianismo. Em principio, por exclusiva racionalidade, pois uma vez que estamos no ano 2015 depois de Cristo, é incontestável que Cristo viveu há 2015 anos e sua mensagem tinha como foco o amor (a Deus e ao próximo). Isso já bastaria para ser seu seguidor. Mas C.S. Lewis pondera sobre um aspecto que leva à fé racional: “um simples homem que ensinou as coisas que Jesus ensinou e se posicionou da forma como o fez não poderia ser considerado meramente um mestre especial. Ou Jesus é quem afirmou ser ou então deve ser encarado como um lunático – aquele tipo de pessoa que afirma ser uma omelete – ou o demônio. Decida.” (tradução livre, Book II, ch. 3).

Enfim, por ser cristã, não creio em reencarnação. Mas diante da tragédia na França, pondero da mesma forma como fez o homem citado em Lucas 16 (aquele que pediu para que Lázaro voltasse à terra e conversasse com sua família de modo que não tivessem o mesmo destino que ele): será que o profeta Maomé não poderia deixar o lugar onde está, voltar para esta terra e repetir em voz audível: “A verdadeira riqueza do homem é o bem que ele faz neste mundo”; “Não é forte quem derruba os outros; forte é quem domina a sua ira (Maomé, 82)”; “A pior forma de covardia é testar o poder na fraqueza do outro”; “Uma boa ação é aquela que faz aparecer um sorriso no rosto do outro”; “Retribui o mal com o bem, e eis, aquele entre o qual e vós houvesse inimizade, se tornaria vosso sincero amigo. Corão 41,34”.

Não conheço o Corão. Essas são apenas algumas frases colhidas na internet, mas apontam um padrão completamente incompatível com aqueles que os radicais têm adotado. A esses, fica nossa mensagem: é tempo de refletir qual é o sentido em não comer esse ou aquele alimento para não se contaminar, mas sujar as mãos com tanto sangue. O que contamina mais? Tocar um alimento que depois de digerido é excretado ou pegar em armas e infectar-se com o sangue alheio ao tirar a vida do seu próximo?

É tempo de refletir sobre a incoerência de investir bastante tempo rezando e depois gastar outro tanto de tempo planejando como destruir a vida dos semelhantes.

Os cristãos há muito concluíram que proporcionar liberdade de escolha é uma forma de propagar sua fé. Jesus fez isso.

É tempo de refletir: se os cristãos propagassem essa mensagem com mais vigor talvez pudessem fazer os radicais muçulmanos perceberem que copiam o equivocado modelo dos militantes das Cruzadas e da Inquisição.

É tempo de refletir: quem vai dar o primeiro passo em relação aos seus pecados: os cristãos, proclamando em todos os lugares e em voz mais audível o quanto seu passado os condena por tentar impor sua religião? Ou os radicais muçulmanos, que pensando estar defendendo a mensagem de Maomé, seguem precisamente os passos dos cristãos das Cruzadas e da Inquisição?

Talvez o primeiro passo seja daqueles mais fieis e coerentes com suas crenças.

É tempo de rever a história. Deus, ou Allah, permitiu, conforme o relato do livro de Ester, que o império persa, na época de Xerxes, subjugasse os judeus. O livro descreve as condições da Pérsia, a sofisticação e a generosidade daquele imperador para com seus súditos e sua tolerância em relação à religião: sob o domínio Persa, os judeus podiam exercer sua fé e praticar seus ritos. E havia prosperidade na Pérsia. Era tempo de prosperidade. Até que um elemento, apenas um (Haman), decidiu que sua intolerância religiosa deveria se tornar uma questão de Estado. Quase conseguiu. Mas Xerxes tomou as providências necessárias para garantir liberdade religiosa dentro de seu domínio.

As Cruzadas provaram ser batalhas insanas.

Há um provérbio que diz: errar sobre a mesma questão implica em voltar a comer o próprio vômito. Os radicais estão fazendo pior do que comer seu próprio vômito: estão comendo o vômito dos cristãos.

Os cristãos atacaram não cristãos. Os nazistas, os judeus. Os radicais muçulmanos, os não muçulmanos. Os países atacados, atacam. É um círculo vicioso que não tem fim. É assim que o mundo tem gerenciado seus conflitos e não há uma proposta diferente. É um antigo paradigma, como ensinou Thomaz Khun. Mas está esgotado. É tempo de adotar outro, com novos meios, instrumentos e abordagens.

Paulo Gabriel Hilu da Rocha Pinto, em seu artigo sobre comunidades muçulmanas no Brasil, aborda a quase incrível participação do shaykh Mahdi na conciliação dos interesses desde sempre conflitantes entre sunitas e xiitas, fazendo-os conviver pacificamente, em Curitiba, após criar um consenso e adotar doutrinas comuns do Islã, incorporando valores e práticas do universo cultural árabe.

É por essa razão que eu, cristã, com todo o respeito, honra e dignidade devidos ao shaykh Mahdi, proponho a um muçulmano: ajude a encontrar uma solução para esses conflitos. Os resultados obtidos em Curitiba lhe credenciam para interferir nesse processo e sugerir um novo paradigma.

Que Deus, ou Allah, nos abençoe.

Autora: Nadir Chagas Ribeiro dos Santo

Fonte: Revista Pandora Brasil

Referências bibliográficas

Bíblia de Estudo de Genebra. São Paulo e Barueri. Editora Cultura Cristã. 1999. LEPERA, Elisabete Sofia. Sincronicidade: o tempo de Kairós na psicoterapia. Contribuições da abordagem sistêmico-simbólica. 1ª edição. São Paulo. Vetor. 2004 PEREIRA, João Baptista Borges. Religiosidade no Brasil. São Paulo. Edusp. 2012.

Internet:

Freier, Mark. Chronos and Kairos: Intoxication and the quest for transcendence. 2006. Disponível em www.academia.edu . Acesso em 14/11/15. Lewis, C.S. Mere christianity. Book II, ch. 3. Disponível em www.churchleaders.com . Acesso em 14/11/15

Websites:

www.academia.edu . Acesso em 14/11/15

www.citador.pt/frases/citacoes/a/textos-islamicos  Acesso em 14/11/15

http://www.churchleaders.com/pastors/free-resources-pastors/152257-free-ebookmere-christianity.html. Acesso em 14/11/15

Cronos e Kairos: Os Matizes do Tempo – Artigo 1

Apresentação

O tema dessa série é “Cronos e Kairos: os matizes do tempo”. Duas das mais conhecidas palavras para se referir ao tempo na Grécia Antiga.

Esse trabalho foi realizado pela turma da disciplina Filosofia da Religião do Programa de Pós-graduação, stricto sensu, da Universidade Mackenzie, do 2º semestre de 2015. Como professor desta disciplina propus e incentivei aos alunos esse desafio e eles aceitaram e se motivaram imediatamente. E toparam começar a escrever. O resultado pode ser constatado nos 12 artigos que publicaremos nas próximas semanas.

Para o filósofo grego Evanghélos Moutsopoulos Kairos, o tempo, designa, um modo de ser. Sua apreensão supõe as categorias estéticas de homotemporalidade (simultaneidade) e a de heterotemporalidade (antes, depois), mas também as categorias dinâmicas do ainda-não e do nunca-mais. Por isso para Moutsopoulos, fazer projetos implica na intencionalidade, na existência de um instante privilegiado, do tempo axiológíco e surracionalmente considerado: Kairós.

Moutsopoulos afirma que Substantivado, Kairós é o tempo oportuno, o instante propício. Mas em Moutsopoulos aparece também o adjetivo kairícidade, que ele aplica à criação artística, à obra de arte e à própria consciência humana. Kairicidade significa, então, ter Kairós, isto é, expressar, no tempo, o caráter qualitativo: da criação artística, do nível de realização atingida pela obra e da própria consciência que, no confronto com o mundo, traduz valores, humaniza o mundo.

Para Moutsopoulos, Kairós refere-se não ao ser, mas ao sendo no tempo, à mudança, à ruptura ou evolução quanto ao passado.

Sendo que Crónos é o tempo que transcorre, o tempo que passa, o tempo cronológico…

Boa leitura a todos!

Prof. Dr. Jorge Luis Gutiérrez

Um Ensaio Sobre o que é o Tempo

Ele disse: “Amada, nunca poderemos viver nem um instante do passado, nem um instante do futuro. Quando o passado estava transcorrendo não era passado mas presente; E quando o futuro chegue não será futuro mas presente. Vivemos sempre no encantador e eterno hoje…” Ela disse: “Amado, vivemos a todo momento no embriagador presente. Que sempre corre para longe. Fuje para a memoria, para os amores alegres, para as fotografias, para esconder-se nas palavras que um dia voltarão transformadas em poemas…” Por isso ela não falava do passado e ele não falava do futuro. Dançavam e se amavam em dias sem tempo. E conjugavam, em tempos atuais, todas as formas do verbo existir… aqui e agora. (Jorge Luis Gutiérrez)

É sabido que a palavra “tempo”[1] serviu de inspiração poética no passado e continua inspirando. O tempo traz uma reflexão sobre limitação e finitude, uma vez que é representado por uma contagem cronológica, contagem regressiva, apontando-nos para o fim. O tempo pode gerar na existência humana um estresse, uma certa ansiedade, quando se é apenas Kronos se esquecendo do Kairós.

Eclesiastes 3:

Para tudo há uma ocasião certa; há um tempo certo para cada propósito debaixo do céu: Tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou, tempo de matar e tempo de curar, tempo de derrubar e tempo de construir, tempo de chorar e tempo de rir, tempo de prantear e tempo de dançar, tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntá-las, tempo de abraçar e tempo de se conter, tempo de procurar e tempo de desistir, tempo de guardar e tempo de jogar fora, tempo de rasgar e tempo de costurar, tempo de calar e tempo de falar, tempo de amar e tempo de odiar, tempo de lutar e tempo de viver em paz.[2]

Segundo Bulfinch, (1999), Kronos traz uma conotação negativa. Seu lado celestial é herdado de Urano e seu lado terrestre vem de Gaia ou Géia. É um tempo que não tem muita preocupação com as pessoas, apenas consome os instantes. Em contra partida temos o Kairos[3], tempo de graça, de favor de Deus e de oportunidade de salvação. Também pode ter o significado de ocasião (CABALLERO, 1990).

Na diversidade da mitologia grega, encontramos duas possibilidades de compreensão do tempo que podem ser convocadas para as representações do tempo de trabalho. Essa apropriação é válida pela possibilidade de aproximação que se apresenta contemporaneamente: o tempo de Kronos (em grego, κρόνος, isto é, a duração controlada) e o tempo de Kairós (em grego, καιρός, o momento certo ou oportuno)[4], (MARTINS et al., 2012).

Quando olhamos para o primeiro livro da Bíblia, Gênesis, Capítulo 1, versículo 1: “No princípio Deus criou os céus e a terra”, Krauss e Heinrich (2007), dizem que “no princípio” (em hebraico be-reschit) indica que a criação, em contraposição ao seu criador, que é pensado para além do tempo, deve ser vista como acontecimento temporal. Com base nesse texto podemos ousar dizer que o sentido de tempo só existe em consequência da existência humana. Para Heidegger (2002) “o ente é e está no tempo”; faz-se necessário esclarecer o comportamento elementar desse contar com o tempo.

Tempo, espaço e mundo são realidades históricas, que devem ser mutuamente conversíveis, se a nossa preocupação epistemológica é totalizadora. Em qualquer momento, o ponto de partida é a sociedade humana em processo, isto é, realizando-se. Assim empiricizamos o tempo, tornando-o material, e desse modo o assimilamos ao espaço, que não existe sem a materialidade (SANTOS, 2006).

Com base nas linhas de pensamentos citadas acima em Heidegger (2002), e Santos (2006), o tempo existe a partir do momento em que o “ser humano” passa a existir, pois o “divino é eterno”[5], Deus é eterno, atemporal[6]. Falando de tempo a partir de conceitos de Santo Agostinho, Cardoso (2010), nos apresenta um conceito de que o tempo existe no espírito do homem, porque é neste mesmo espírito que se conservam presentes o passado, o presente e o futuro. Seguindo nesta mesma linha de pensamento é que Castro (2008) diz que podemos afirmar que aonde há sujeito, há alguma forma de referência ao tempo ou, em outros termos, que o tempo é inerente ao sujeito, que ele só existe em relação ao sujeito, a uma maneira de ser que lhe é intrínseca.

Nas três divisões do tempo: presente, passado e futuro, Agostinho (1981), afirma que podemos denominar tempo longo ou breve, somente para o futuro e o passado[7]. Assim podemos arriscar em dizer que o momento presente tem um “que” de eterno, pois é sempre presente.

O tempo presente não tem extensão, logo não se pode medi-lo enquanto existe, porque não se localiza no espaço. Enfim, o tempo não é uma sucessão de espaços separados, mas sim contínuo e indivisível, ele é uma continuidade, não admite sua divisão em antes e depois. (…) No conceito de tempo há dois elementos: um transitório (sucessão) e um permanente (duração). O tempo psicológico não passa de uma percepção da sucessão contínua no campo da consciência com aspecto de localização e de anterioridade (SANTOS, 2010).

São vários os ditados populares que encontramos falando sobre o tempo, e fazem sentido[8]: “Com o tempo, tudo se cura”; “É preciso dar tempo ao tempo”; “Quem tem pressa como cru”. Esses são ditos populares que podem nos ajudar a pensar o tempo como tempo Kairós, tempo da graça, quando não devemos apressar o tempo, mas permitir que ele siga seu curto. Barry Stevens11 escreveu o livro com o título “Não apresse o rio, ele corre sozinho“. A reflexão desse livro nos ajuda a pensar o tempo ainda como tempo da Kairós, onde é preciso deixar que a vida siga seu curso sem estresse, sem fazer pressão, fazendo o que se deve fazer, esperando na graça de Deus. Segue um trecho do livro:

“A vida é como o rio. Por que apressar? Por que correr se não há necessidade? Por que empurrar a vida? Por que chegar antes de se partir? Toda natureza não tem pressa. Vai seguindo seu caminho. Assim também é a árvore, assim são os animais. Tudo o que é apressado perde o gosto e o sentido. A fruta forçada a amadurecer antes do tempo perde o gosto. Tudo tem seu ritmo. Tudo tem seu tempo. E então, por que apressar a vida da gente? Desejo ser um rio. Livre dos empurrões dos outros e dos meus próprios. Livre da poluição alheias e das minhas. Rio original, limpo e livre. Rio que escolheu seu próprio caminho. Rio que sabe que tem um ponto de chegada. Sabe que o tempo não interessa. Não interessa ter nascido a mil ou a um quilômetro do mar. Importante é chegar ao mar. Importante é dizer “cheguei”. E porque cheguei, estou realizado. A gente deveria dizer: não apresse o rio, ele anda sozinho. Assim deve-se dizer a si mesmo e aos outros: não apresse a vida, ela anda sozinha. Deixe-a seguir seu caminho normal. Interessa saber que há um ponto de chegada e saber que se vai chegar lá (STEVENS, 1978).

Seguindo esse conceito de tempo como Kairós, tempo oportuno, tempo da graça, que a vida humano precisa saber dar tempo ao tempo às coisas, pois elas têm sua razão de ser. Tudo tem sua hora e seu motivo de ser. Nada acontece por acaso. Esse sentido também é encontrado na espiritualidade indiana. Na Índia, são ensinadas “As quatro leis da espiritualidade”[10]:

  • A primeira lei diz: “A pessoa que vem é a pessoa certa”.

Ninguém entra em nossas vidas por acaso. Todas as pessoas ao nosso redor, interagindo conosco, têm algo para nos fazer aprender e evoluir em cada situação.

  • A segunda lei diz: “Aconteceu a única coisa que poderia ter acontecido”.

Nada, nada absolutamente nada do que acontece em nossas vidas poderia ter sido de outra forma. Mesmo o menor detalhe. Não há nenhum “se eu tivesse feito tal coisa…” Ou “aconteceu que um outro …”. Não. O que aconteceu foi tudo o que deveria ter acontecido, e foi para aprendermos a lição e seguirmos em frente. Todas e cada uma das situações que acontecem nas nossas vidas são perfeitas.

  • A terceira lei diz: “Toda vez que algo se inicia é o momento certo”.

Tudo começa na hora certa, nem antes nem depois. Quando estamos preparados para iniciar algo novo nas nossas vidas, é que as coisas acontecem.

  • E a quarta e última lei afirma: “Quando algo termina, termina”.

Simplesmente assim. Se algo acabou nas nossas vidas é para a nossa evolução. Por isso, é melhor seguir em frente e enriquecer-se com a experiência.

Para compor o que hoje conhecemos de Gestalt-terapia[11], Perls[12], cunhou um termo que também pode nos ajudar a viver o tempo da graça, tempo Kairós. Em uma de suas palestras o próprio Perls assim disse:

Nas minhas palestras sobre Gestalt-terapia, tenho apenas um objetivo: transmitir uma fração do significado da palavra agora[13]. Para mim, nada existe senão o agora. O passado já não é, e o futuro ainda não é. Somente o agora existe. (…) Eu sustento que toda a terapia tem que ser feita no agora. Tudo o mais é interferência. E a técnica que nos permite compreender é permanecer com o agora é a sequência de conscientização, isto é, a descoberta e a tomada plena de consciência de cada experiência real e concreta (FAGAN, J. e SHEPHERD, I. L., 1970).

Essa é a única possibilidade de existência, posto que o ontem já foi e o amanhã não chegou. Mesmo que o indivíduo teça fantasias sobre o futuro, ou rememore o passado, isso está sendo feito aqui e agora e tudo que há para saber está disponível neste momento. Tal ideia define por si mesmo grande parte dos pressupostos gestálticos; pensar assim equivale a ficar com o aspecto fenomenológico de cada momento, e quando isso não é possível instala-se a ansiedade. Para Perls, a ansiedade é um distúrbio relativo à impossibilidade de permanecer no presente, por isso projetamos fantasias a respeito do que ainda não foi. Ansiedade é a tensão entre o agora e o depois (KIYAN, 2006). 

Segundo Kiyan (2006), para Perls, o indivíduo precisa tomar consciência[14] de sua existência no aqui agora. Essa consciência possibilita ao indivíduo responsabilidade diante de sua existência, aumentando sua potencialidade e isso resulta uma auto-realização.

Para o Senhor, um dia é como mil anos e mil anos com um dia (2 Pedro: 3,8).

Qual seria a diferença do tempo para um enamorado quando está junto de sua amada e um paciente que aguarda na sala de espera pelo resultado de uma biopsia médica? Para os enamorados, o tempo juntos parece ter passado rápido, quase que imperceptível, parece ter sido encolhido e para o paciente que espera o laudo, o tempo de espera parece ter sido longo demais, infindável[15].

Chamamos “longo” ao tempo passado, se é anterior ao presente, por exemplo, cem anos. Do mesmo modo dizemos que o tempo futuro é “longo”, se é posterior ao presente, também cem anos. Chamamos “breve” ao passado, se dizemos, por exemplo “há dez dias”; e ao futuro, se dizemos “daqui a dez dias”. Mas como pode ser breve ou longo o que não existe? Com efeito, o passado já não existe e o futuro ainda não existe. Não digamos: “é longo”, mas digamos do passado: “foi longo”; e do futuro: “será longo” (AGOSTINHO, 1981).

O tempo, cronologicamente falando é o mesmo, mas o tempo psicológico de cada um é diferente[16]. O que dizer ainda de um monge em estado de contemplação, onde pode passar horas meditando sem que essas horas lhe sejam percebidas? A sensação da graça parece anestesiar sua consciência de temporalidade.

A ideia de tempo guarda em si faces contraditórias, tanto de um “tempo intemporal” – abstrato, heterogêneo e infinito − quanto de um “tempo temporal” – concreto, homogêneo, contínuo e regular. O tempo pode ser definido também como único e singular ou múltiplo e plural. Há os tempos individuais e coletivos, como também os “tempos cíclicos”, por exemplo, da infância, do trabalho, da velhice, do lazer (CASTRO, 2008). 

Martins et al., (2012) diz que computadores, celulares, aviões, carros, todo esse arsenal tecnológico, liberam o sujeito contemporâneo de atribuições simples e otimizam o tempo. Antigamente saber notícias de familiares distantes levavam meses, pois dependia de muitos fatores limitantes de espaço e tempo. Hoje nos comunicamos em tempo real com os avanços da Internet. Visto dessa forma então o tempo pode ser uma debilidade humana, uma vez que pode ser superado com a tecnologia[17]. Poderíamos então dizer que é a matéria quem nos debilita?

O tempo é um ilusão. É uma impressão criada, em parte, por nossos cinco sentidos. Na realidade “ontem” e “amanhã” estão englobados em um único todo unificado. Apesar disso, não conseguimos revisitar os momentos memoráveis de ontem, e tampouco temos condições de prever os eventos de amanhã. Muitos de nós mal conseguem lidar com as dificuldades do presente. Isso dá margem a uma impressionante ilusão, não é? (BERG, 2011). 

Ainda segundo Berg (2011), no sistema da cabalística[18] o tempo pode ser assim classificado:

  • É a distância entre causa e efeito;
  • Separação entre ação e reação;
  • É o espaço entre uma atividade e sua repercussão.

De acordo com Berg (2011), o passado e o futuro nunca se separaram e são os limites de nossa consciência que nos impedem de perceber o ontem, o hoje e o aqui, agora.[19]

Falando de tempo e eternidade, Bonaccini (2004), apresenta uma visão de Santo Agostinho, onde pode nos ajudar numa compreensão melhor do tempo enquanto temporalidade e do tempo enquanto eternidade:

As coisas belas “nascem e morrem, e nascendo começam a existir, e crescem para alcançar a perfeição, e uma vez perfeitas, começam a envelhecer, e morrem”. E “embora nem tudo chegue à velhice, tudo perece. Logo, quando nascem e esforçam-se por existir, quanto mais depressa crescem para existir, tanto mais se apressam para não existir. Essa é sua condição…”

Dizer que as coisas mudam sucessivamente é dizer que elas passam do futuro ao presente e afundam no passado. O fato de o presente virar passado é aquilo que o distingue do presente sempre eterno. Pois justamente porque muda não pode o presente ser todo presente. Somente a eternidade é sempre toda presente. A “sucessão dos tempos é feita de uma multidão de instantes que não podem correr simultaneamente (…) todo passado e futuro tiram sua existência e curso do eterno presente (…) a eternidade, que não é futura, nem passada, determina o futuro e o passado…”

Autor: Benedito Carlos Alves dos Santos

Fonte: Revista Pandora Brasil

Notas

[01] – As marcas temporais, entretanto, nem sempre foram as mesmas. Observa-se que o padrão de tempo, após longa caminhada humana, foi sendo modificado, até que o dia solar passou a ser uma medida universal. Adotou-se, a partir da Assembleia Nacional da França (1789), métodos de medida que, ao tomarem como base as dimensões da Terra, acabaram com as ambiguidades e regionalismos dos sistemas de medidas anteriormente utilizados. Enfim, uniformizou-se o tempo do mundo, padronizou-se o tempo social e os homens foram enquadrados neste mundo temporal (FERREIRA e ARCO_VERDE, 2001).

[02]Eclesiastes 3

[03] – Mateus, 1,15: O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho.

[04] – O primeiro tempo, Chronos, de natureza quantitativa, era usado pelos gregos no contexto cronológico, sequencial, linear. O segundo tempo, Kairós, existencial, tempo oportuno, de natureza qualitativa, era usado para enfrentar o cruel e tirano Chronos. Latim, Aevum, igual a eternidade. Disponível clicando AQUI.

[05] – Deus existe desde toda a eternidade e o homem é finitude enquanto matéria. Passou a existir em dado momento. Ler em Is. 54,8: “O amor de Deus é eterno”. Is. 54,10: “Os montes podem mudar de lugar e as colinas podem abalar-se, mas o meu amor não mudará”. E ainda: Jr. 31,3: “Eu te amei com um amor eterno, por isso conservei por ti o amor”.

[06] – Que é, pois, o tempo? […]Vós sois, antes de todos os tempos, o eterno Criador de todos os tempos. Estes não podem ser coeternos convosco, nem nenhumas outras criaturas, ainda que haja algumas que preexistem aos tempos”. (Santo Agostinho, Confissões, Livro XI, §14 e 30).

[07] – Chamamos “longo” ao tempo passado, se é anterior ao presente, por exemplo, cem anos. Do mesmo modo dizemos que o tempo futuro é “longo”, se é posterior ao presente, também cem anos. Chamamos “breve” ao passado, se dizemos, por exemplo “há dez dias”; e ao futuro, se dizemos “daqui a dez dias”. Mas como pode ser breve ou longo o que não existe? Com efeito, o passado já não existe e o futuro ainda não existe. Não digamos: “é longo”, mas digamos do passado: “foi longo”; e do futuro: “será longo” (AGOSTINHO, 1981, p. 304).

[08] – Disponível clicando AQUI.

[09] – Escrito em 1978, o livro é um relato a respeito do uso que a autora faz da Gestalt-terapia e dos caminhos do Zen, Krishnamurti e índios americanos para aprofundar e expandir a experiência pessoal e o trabalho através das dificuldades.

[10] – Disponível clicando AQUI.

[11] – 3 A Gestalt-terapia é uma abordagem psicoterapêutica nascida da inter-relação de várias escolas filosóficas e teorias a partir da organização específica que seu criador, Frederick Perls, contruiu (KIUAN, A. M. M., 2006).

[12] – Friedrich Salomon Perls, nasceu no ano de 1893 em Berlim num gueto judeu, terceiro e último filho (único homem0 de um casal judeu, “emocionalmente desajustado” (KIUAN, A. M. M., 2006).

[13] – Grifo do autor.

[14] – A palavra “conscientização” vem da tradução de awareness, e “cônscio de” (FAGAN, J. e SHEPHERD, I. L., 1970).

[15] – A noção em senso comum de tempo é inerente ao ser humano, visto que todos somos, em princípio, capazes de reconhecer e ordenar a ocorrência dos eventos percebidos pelos nossos sentidos. Contudo a ciência evidenciou várias vezes que nossos sentidos e percepções são mestres em nos enganar. A percepção de tempo inferida a partir de nossos sentidos é estabelecida via processos psicossomáticos, onde variadas variáveis, muitas com origem puramente psicológica, tomam parte, e assim como certamente todas as pessoas presenciaram em algum momento uma ilusão de ótica, da mesma forma de que em algum momento houve a sensação de que, em certos dias, determinados eventos transcorreram de forma muito rápida, e de que em outros os mesmos eventos transcorreram de forma bem lenta, mesmo que o relógio – aparelho especificamente construído para medida de tempo – diga o contrário. Disponível clicando AQUI.

[16] – O ser e sua relação com o tempo é uma questão que perpassa toda a obra de Freud. Existe um denominador comum ao pensamento de Freud e de Lacan: além de se relacionar ao sujeito, o tempo sofre influência direta do contexto, principalmente naquilo que esse contexto traz de contingencial ao sujeito – seja no âmbito pulsional ou social. E uma das contingências inevitáveis que o tempo real nos impõe diz respeito a seu caráter de transitoriedade, de passagem, de escoamento. Como diria o poeta, ‘o tempo passa, se esvai por entre os dedos da memória, que tenta retê-lo (CASTRO, 2008).

[17] – Segundo Geroge Bushell (2012), a luz viaja no vácuo a uma velocidade fixa de cerca de 300.000 km/s. Segundo a Teoria Geral da Relatividade de Einstein, a matéria não pode alcançar ou ultrapassar essa velocidade, pois se converteria em energia antes disso. Segundo Dr. Pandian, do Instituto Max Planck de Radioastronomia: “Nada impede que objetos, separados por distâncias imensas, movam-se, um em relação ao outro, a velocidades maiores que a da luz”. Disponível clicando AQUI.

[18] – Cabala (também Kabbalah, Qabbala, cabbala, cabbalah, kabala, kabalah, kabbala) é uma sabedoria que investiga a natureza divina. Kabbalah (קבלה QBLH) é uma palavra de origem hebraica que significa recepção. Disponível clicando AQUI.

[19] – Imagine um edifício de trinta andares. Estamos agora o décimo quinto andar, o qual representa o momento presente. Os andares do primeiro ao décimo quarto representam os incrementos do tempo que nos elevam a este momento atual. Os andares do décimo sexto ao trigésimo representam o futuro. O que percebemos com nossos cinco sentidos no momento atual? Apenas o décimo quinto andar. Não conseguimos ver os andares abaixo ou acima do décimo quinto. Entretanto, todos os andares – ou seja, o passado, o presente e o futuro – existem como um todo unificado: o edifício de trinta andares inteiro. Se pudéssemos ficar pairando no ar do lado de fora do décimo quinto andar e olhar para o edifício a certa distância, poderíamos ver todos os trinta andares de uma só vez! (BERG, 2011).

Referências Bibliográficas

AGOSTINHO, S. O Homem e o Tempo. In: Confissões. 10. ed. Porto: Livraria Apostolado da Imprensa, 1981. BERG, Y. O poder da Kabbalah. 13 Princípios par superar desafios e alcançar a plenitude. São Paulo: Kabbalah Centre do Brasil, 2011. BONACINNI, J. A. Tempo e eternidade Excurso sobre a concepção agostiniana de tempo. 2004. Disponível AQUI. BULFINCH, T. O livro de ouro da mitologia: História dos Deuses e Heróis. Trad. David Jardim Júnior. 8ª ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999. CABALLERO, B. Nas fontes da Palavra: Leitura, meditação e anúncio, ano B. Aparecida-SP: Santuário. 1990. CARDOSO, G. F. Tempo e Eternidade em Santo Agostinho. 5º Encontro de Pesquisa na Graduação em Filosofia da Unesp. Vol. 3, nº 1, 2010. www.marilia.unesp.br/filogenese CASTRO, J. E. A psicanálise e o tempo. Psicanálise & Barroco em Revista v.6, n.3: 60-74, jul.2008. “Crónos e Kairos” Revista Pandora Brasil – Nº 69 – Dezembro de 2015 – ISSN 2175-3318 FAGAN, J. e SHEPHERD, I. L. (Org.). Gestalt-terapia: Teorias, técnicas e aplicações. Trad. Álvaro Cabral. 4ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1970. FERREIRA, V. M. R. e ARCO-VERDE, Y. F. S. Chrónos & Kairós: o tempo nos tempos da escola. Educar, Curitiba, n. 17, p. 63-78. 2001. Editora da UFPR. FREUD, Sigmund. Obras Completas, Rio de Janeiro: Imago, 1980. HEIDEGGER, M. (2002). Ser e Tempo, (Td. Marcia Sá Cavalcante Schuback), 10ª Ed, Parte II. Petrópolis: Vozes. KIYAN, A. M. M. E a Gestalt emerge: vida e obra de Frederick Persl. 2ª ed. São Paulo: Altana, 2006. KRAUSS, Heinrich e KUCHLER, Max. As origens. Um estudo de Gênesis 1-11. São Paulo, Ed. Paulinas, 2007. MARTINS, J.C. et al. De Kairós a Kronos: metamorfoses do trabalho na linha do tempo. Cadernos de Psicologia Social do Trabalho, 2012, vol. 15, n. 2, p. 219-228. MITOLOGIA GREGA (2011). Cronos. Disponível AQUI Acesso em: 18 nov. 2011. Monteiro SANTOS N. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. 4. ed. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2006. STEVENS, B. Não apresse o curso do rio (ele corre sozinho). Trad. George Schlesinger. São Paulo: Summus, 1978.