Matrix: impacto filosófico

Matrix 4: sinopse sugere que sequências anteriores não são canônicas -  TecMundo

Nesse excelente vídeo produzido pelo Meteoro Brasil, o jornalista Álvaro Borba faz uma análise da filosofia antes e depois do impacto do filme. Muito além da Matrix, somos instados a refletir sobre nossa existência e o mundo em que estamos. Ou será que não estamos?

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“Quanto menos desejos você tem, mais perto está dos deuses”: a atualidade de Sócrates

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A morte de Sócrates (Jacques-Louis David – 1787)

Sócrates é um formidável remédio contra a presunção. Quando você está se achando o rei do universo, quando você olha para o espelho e admira apaixonadamente o que vê, quando você começa a acreditar que é uma prova viva da existência de Deus, bem, é tempo de pensar em Sócrates. Maior de todos os filósofos, grande mestre de gênios como Platão e Aristóteles, ídolo de todos os pensadores relevantes que vieram depois dele pelos séculos afora, Sócrates pronunciou a maior frase contra a arrogância da história da humanidade: “Tudo o que sei é que nada sei”.

Sócrates (470-399 a.C.) mudou a história da filosofia. Deu a ela um inédito caráter prático, moral e ético. Com ele a filosofia se transformou como que num manual para tornar melhor a vida de todos nós. Para nos ajudar a enfrentar as adversidades. Para nos aprimorarmos interiormente. Pensador nenhum se igualou a ele, e no entanto Sócrates jamais escreveu um único livro. Suas ideias e atitudes foram transmitidas à humanidade sobretudo pelas obras de Platão, seu discípulo. Sócrates é o personagem principal dos textos de Platão (428-348 a.C.).

Ele reuniu um número extraordinário de virtudes. Tinha uma vida simples. “Quanto menos desejos você tem, mais perto está dos deuses”, disse ele. Sêneca, o estoico romano, escreveu com reverência que Sócrates não se deixava perturbar pelos bens materiais: desfrutava deles se os tinha. Abstinha-se deles sem sofrimento se os perdia. Foi corajoso na vida e na morte. Combateu em algumas guerras de Atenas, a cidade que o fez ser o gigante que foi e depois o matou. Recebeu condecoração por bravura. Há registros de resistência invulgar em seus dias de guerreiro: andava de pés descalços e sem casaco sob temperaturas baixíssimas.

Tinha além do mais senso de humor. “Case-se”, recomendava ele a todos. “Ou você encontra uma boa mulher e vira um homem feliz ou acha uma megera e se transforma num filósofo”. Xantipa, sua mulher, era reconhecidamente insuportável. Com ela teve três filhos.

Na maior parte da vida de Sócrates, Atenas estava em seus dias de esplendor. A Guerra do Peloponeso, em que Atenas foi derrotada por Esparta, selou a sorte de Sócrates. Atordoada, humilhada, a cidade procurou culpados por sua derrocada. Sócrates foi acusado de corromper a juventude com suas ideias. Um tribunal condenou-o a tomar cicuta. Seus discípulos armaram uma fuga, mas Sócrates recusou. Ele agiria como um covarde, e então seu exemplo não teria valor para a posteridade. Para ser Sócrates ele sabia que tinha que pegar o copo que seu carrasco lhe passaria e tragar seu conteúdo com gloriosa tranquilidade.

A morte de Sócrates está registrada num clássico da literatura universal: Fedon, de Platão. Sócrates consolou os discípulos, devastados. Lembrou a um deles que tinha uma dívida que devia ser paga. Pediu instruções ao homem incumbido de dar-lhe veneno, para evitar problemas na execução. Pronunciou, prestes a tomar a cicuta, palavras que o jovem Platão tornaria eternas:

“Chegou a hora de partir, vocês para a vida, eu para a morte. Qual dos dois destinos é melhor, só os deuses sabem.”

Autor: Paulo Nogueira

Fonte: Diário do Centro do Mundo

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O mito do anel de Giges

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Rei Candaules – Jean Léon Gérôme (1859)

Quem, não tendo medo de ser visto e punido, resistiria à tentação de fazer o que quiser? (Platão – O mito do anel de Giges)

Através do famoso “mito do anel de Giges”, Platão (427-347 a.C.) nos esclarece que, disfarçavelmente violento e ganancioso, o homem é levado pelo desejo de ter sempre mais (poder, glória, conforto, prazeres e vantagens, por exemplo) e que é a “Lei” que o reconduzirá ao respeito pela igualdade, pois não agiremos assim de bom grado por natureza, mas somente forçosamente.

A tese acima não é exclusivamente de Platão, trata-se de uma “opinião comumente admitida” que, embora seja “amoral em seus fundamentos, perigosa em suas consequências”, há séculos, animou (e ainda anima!) o debate sobre as relações da natureza da lei e, tanto de quais são nossas características inatas quanto quais são as nossas características adquiridas.

De Maquiavel a Thomas Hobbes, de Rousseau a Sigmund Freud passando por tantos outros, essa problemática questão tem sido foco de análise nas ciências humanas: desvendar nossa “natureza” é imperativo, até para que possamos compreender melhor como lidar com ela.

No Livro II da República, Platão expõe a teoria de que ninguém é justo, honesto e íntegro voluntariamente, mas que quem pratica a justiça só o faz meio que “obrigado”, por ser tímido, covarde, ainda por se sentir velho e impotente para deixar aflorar sua ambição ou por se ver coagido a temer represálias daqueles com os quais convive e dos guardiões da justiça, como a polícia, por exemplo.

É justamente por não sermos autossuficiente e termos essa perversa “formatação” que demos origem às leis, aos contratos e as convenções, pois se deixar por nossa conta, seguramente, privilegiaremos os nossos interesses, fazendo o que nos aprouver. E isso, todos (exceto, eu e você, leitor), pois se permitíssemos igualmente ao justo e ao injusto agir como desejam, agirão do mesmo modo. É o que vai nos revelar esse mito.

Giges era um pastor que morava na região da Lídia. Após uma tempestade, seguida de um tremor de terra, o chão se abriu e formou uma larga cratera onde ele apascentava seu rebanho.

Surpreso e curioso, o pastor desceu até a cratera e descobriu, entre outras coisas, um cavalo de bronze, cheio de buracos através dos quais enfiou a cabeça e viu um grande homem nu que parecia estar morto.

Ao avistar um belo anel de ouro na mão do morto, Giges o tirou e tratou de fugir logo dali. Mais tarde, reunindo-se com os outros pastores para fazer o relatório mensal dos rebanhos ao rei, Giges usou o anel.

Após tomar seu lugar entre os pastores na Assembleia, ele girou por acaso o engaste do anel para o interior da mão e imediatamente tornou-se invisível para os demais presentes.

E foi assim, totalmente invisível, que Giges ouviu os colegas o mencionarem como se ele não estivesse ali. Mexeu novamente o engaste do anel para fora da mão e tornou a ficar visível. Admirado com a descoberta desse poder, Giges repetiu a experiência para confirmar a magia. Seguro de si, sem titubear, ele dirigiu-se ao palácio, seduziu a rainha, matou o rei a apoderou-se do trono.

Platão afirma que, tanto faz se colocarmos um anel desses no dedo de um homem justo e outro no dedo de um homem injusto, o fato é que não encontraremos ninguém com temperamento suficientemente forte para permanecer fiel à justiça e resistir à tentação de se apoderar dos bens e dos benefícios de outrem.

Detendo poder e certo da impunidade, o homem se sente um deus entre os homens:

“Nisso, nada o distinguiria do injusto, e tenderiam os dois pra o mesmo fim, e poder-se-ia ver nisso uma grande prova de que não se é justo por escolha, mas por constrangimento, visto que não se encara a justiça como um bem individual, pois sempre que se acredita poder ser injusto [sem sofrer represálias] não se deixa de o ser.”

Quem seria suficientemente insensato para permanecer fiel à justiça, no momento em que tivesse na mão todos os poderes? Ninguém escolhe a justiça: se nos abstemos da injustiça, é porque não podendo fazer de outro jeito, resta seguir a lei. Resumindo: só se faz o bem por não se poder fazer impunemente o mal.

Segundo Platão, todos os homens, com efeito, creem que a injustiça lhes é muito mais vantajosa individualmente que a justiça e que eles tem todas as razões para acreditar nisso:

“Com efeito, se um homem, tornado senhor de um tal poder, não consentisse nunca em cometer uma injustiça e em tocar nos bens de outrem, seria olhado pelos que tivessem a par do segredo como o mais infeliz e insensato dos homens.”

Decerto, tememos nos outros o que sabemos trazer conosco, por isso enaltecemos tanto a honestidade. Ao testemunhar uma ação honesta os homens

“Não deixariam de fazer em público o elogio da sua virtude, mas com o objetivo de se enganarem mutuamente, com medo de serem vítimas de alguma injustiça.”

Será assim que a investigação sobre a justiça terá início e ocupará nove livros do mais longo e indispensável diálogo de Platão. Caberá a Sócrates mostrar, de forma magistral, que a justiça é mais vantajosa que a injustiça, e em si mesma o maior dos bens.

Uma das maiores mazelas sociais – a corrupção –, impera porque, quando o Direito cede lugar às manobras escusas, asseguramos aos detentores de poder a certeza da impunidade.

Omissos, ouvimos “estalar imediatamente o verniz da educação moral”, da “civilização”. Impune, regredindo à sua “verdadeira natureza”, a ardilosa besta está aí, pronta para reaparecer. E reaparecerá. Pedindo votos.

Autora: Luciene Felix

Fonte: Conhecimento sem Fronteiras

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As motivações para filosofar

Alimentando a mente. É comum nos sentirmos ansiosos… | by Cali (Renato  Caliari) | KiSimples | Medium

Introdução

Um casal de bons dançarinos sempre se esforça na busca de uma melhor apresentação, indo aos limites de seus corpos, pois se emprenham ao máximo para situarem-se dentro do ritmo da música, se aplicam em seguir fielmente a coreografia planejada, empregando todas as suas forças na transmissão de um espetáculo sublime.

Contudo, qual o motivo que leva o casal a dançarem? Dentro de um período capitalista, a resposta mais provável seria a de que fosse simplesmente pelo dinheiro, porém se este mesmo casal estiver situado em uma festa entre amigos, certamente não são pelo dinheiro que eles articulam ritmados seus corpos.

Assim, refletindo sobre uma possível resposta do próprio casal, sobre o motivo pelo qual dançam, e sendo ela a mais nobre resolução, eles diriam que dançam pelo simples prazer de dançarem, ou talvez por que pela dança conseguem por meio de seus corpos atingirem e reproduzir estágios mais próximos do belo, dentro da finitude humana.

Sem embargo, a dança sendo uma arte, goza da mesma dificuldade da filosofia, na pergunta pela qual é exercida, ambas, dançarina e filosofa, acabam por se pegarem refletindo no motivo pelo qual praticam cada uma das suas atividades artísticas, porém a segunda respectivamente irá usar sua própria ferramenta para responder por que a utiliza. Enquanto que a dançarina não pode dançar para responder dignamente por que dança.

Desta maneira, este artigo irá tentar responder “Por que filosofar? ”, baseando-se nos seguintes autores: Max Horkheimer (alemão, escola de Escola de Frankfurt, falecido em 1973) escritor de Eclipse da Razão, Enrico Berti (italiano, da Accademia dei Lincei) autor de Convite à filosofia e Marilena Chauí (brasileira) Introdução à história da filosofia, tendo como filosofo central Aristóteles, em sua obra Metafísica. Tomando o cuidado de articular de maneira coesa tantas linhas diferentes de pesquisa.

Seguindo, em vista de responder à pergunta que motiva este artigo, cabe inicialmente destrinchar esta problemática – Por que filosofar? Assim, observando a oração, notam-se dois elementos: o primeiro “Por que” que questiona qual a motivação do exercício sobre o objeto no caso a “Filosofia”. Deste modo, metodologicamente para tentar responder “Por que Filosofar? ”, tomo a liberdade de inicialmente explanar sobre o que é a filosofia e como ela nasce; na sequencia apresentar o porquê, ou melhor, os motivos pelos quais somos levados a realizar tal atividade, ou não; ao fim evidenciando como filosofar quiçá contribui para o aprimoramento do ser humano que o faz.

O que é Filosofia?

Ainda seguindo com o exemplo da dança, para explicar o que ela é em si, se mostra bem mais fácil, expor ela como uma ação, e discorrer sobre como ela nasce, isto é, sem desejar alongar-me sobre o exemplo, talvez a dança nasça de um desejo do bailarino em expressar todo o seu vigor físico, pelo prazer em dançar. O mesmo método aplica-se a filosofia, destarte qual seria a semente que origina e mantem a filosofia? Para Enrico Berti (2013, p. 56) “a filosofia nasce da maravilha, ou da pesquisa, da pergunta, da dúvida”. Assim, a filosofia é um ato honesto de perguntar que nasce do espanto, do maravilhar-se, sempre em vistas do real, verdadeiro. Para Berti afirmar isto, ele se baseia em dois dos maiores filósofos que nosso planeta já teve a honra de gerar e prover sustento – Platão e Aristóteles, sendo que o último Aristóteles (1984, p.14) na Metafísica diz que “Foi […] pela admiração que os homens, assim hoje como no começo, foram levados a filosofar”.

Em resumo, a filosofia brota de um encontro espantoso com algo, cominando em um ato quase instintivo de perguntar sobre o algo visto. Cabendo a cada filosofo contribuir com a humanidade apresentando sua parte na resolução acerca da Verdade.

Por que filosofar?

Sabendo agora que a filosofia é sempre a tentativa de buscar dentro da limitação humana respostas para a maravilha, cabe discorrer inicialmente que maravilha é essa e na sequencia por que ela deve ser questionada.

Num mundo banhado por estímulos vazios; gigantescos mundos ínfimos; dentro de aparelhos tecnológicos; e em diálogos vazios e sem paixão, realmente, fica difícil observar o maravilhoso universo que nos cerca e somos. Contudo, vale o esforço de abrir as janelas de nossas celas, e de nossas mentes e olhar tudo o que nos cerca, bem como os primeiros filósofos, chamados pré-socráticos fizeram, isto é, olharam para o mundo se se perguntaram o porquê daquilo, como diz Chauí (1994, p. 48) ao falar sobre Tales de Mileto: “Fez algumas descobertas astronômicas: além da previsão do eclipse solar, descobriu a constelação da Ursa Menor e aconselhou os navegantes a se guiarem por ela”.

Com efeito, o charme da maravilha está no olhar do observador, não é muito difícil, basta olhar o sol, e se perguntar o porquê de seu brilho, ver as aves que cantam e buscar entender o motivo do seu tipo de melodia, por fim, apreciar por exemplo, um par de bailarinos e se perguntar o porquê de seus movimentos precisamente coreografados despertam na plateia sentimentos tão alegres. Tudo isso passa despercebido aos olhares menos treinados e mais preocupados com a sobrevivência.

Assim, segundo Berti baseado em Aristóteles, existem três graus de maravilha. O primeiro baseado nos problemas mais simples, que estão presentes em nosso cotidiano, o segundo estágio se atem as problemáticas de ordem maior que a anterior, se na fase inicial maravilhamo-nos com a alternância das estações neste segundo indagamos sobre as fases da lua e os eclipses lunares. O último grau da maravilha é aquele que diferente dos anteriores se debruçam nos particulares, ao contrário, questiona o princípio de todas as coisas, ou melhor, a geração do universo. (BERTI, 2013, p. 63-66)

Após compreender a maravilha e seus graus, resta destrinchar os motivos pelos quais nós nos questionamos a cerca destas maravilhas ou não. Seguindo a regra popular que diz que ao se receber duas notícias uma boa e outra ruim, a péssima deve ser apresentada por primeiro, a fim de gerar inicialmente o impacto para depois ser amenizada pela novidade boa. Com efeito, começo na apresentação dos elementos de por que não nos questionamos acerca dos espantos do dia-a-dia, ou melhor, por que não filosofamos.

Por que não filosofamos

A filosofia entendida como ciência exige segundo Berti com base em Aristóteles, duas coisas básicas para seu exercício: pensar e tempo. A primeira uma raridade no atual contexto, ou até mesmo o exercício do pensamento acaba sendo ignorado. Assim, muitos de nós desprezamos nossa maior habilidade perante os demais animais, pois pensar sobre coisas úteis requer atenção, cuidado, paciência, elementos que não são dados a todos, ou não são desejados. (BERTI, 2013, p.104)

Já o tempo, tão escasso e mal utilizado é o segundo elemento de exigência, uma vez que somos seres finitos inseridos no tempo, o exercício do pensar exige intervalos, para que a reflexão acerca do se maravilhar possa ser frutífera.

Deste modo, uma pessoa pode não vir a filosofar, por que não possui tempo, para dedicar-se a pensar sobre a maravilha que até ela se deparou ou não, bem como também não deseja ou pode pensar sobre o espanto que a cerca. Resta seguir na discussão do outro extremo, por que somos motivados a filosofar?

O motivo de filosofar?

Retomando a analogia presente na introdução e repetida algumas vezes, agora frente a frente com a dançarina a questionamos, qual o motivo de você dançar? Muitas são as repostas, como exemplo: por questões culturais, devido a manutenção do corpo, para tranquilizar a mente, devido a religiosidade etc. Enrico Berti, buscando responder a mesma questão, porém tendo como objeto a filosofia, consome um capítulo inteiro de sua obra nesta empreitada na resolução das motivações que levam um ser humano a consumir tempo e pensamento no exercício filosófico.

Porém somente ao final de aproximadamente trinta páginas e sobre o ombro de Aristóteles ele chega a um consenso no qual consinto. O verdadeiro motivo que nos leva a filosofar é um desejo intrínseco ao ser humano em conhecer, essa é a primeira camada, a isca que todos mordem, porém somente os mais corajosos possuem o ímpeto de ir à ponta da vara. (BERTI, 2013, p.47)

Assim, o motivo de filosofar é de querer ir a fundo, de conhecer o que é o Real, concentrando-me ao máximo na investigação da Verdade, usando toda a minha capacidade intelectiva na busca das respostas. E tal processo é como que um ciclo infinito, pois à medida que se descobre respostas às maravilhas encontradas, novas surgem e as resoluções vão parecendo insuficientes. Mas, este processo que parece inútil, que exige tempo pode contribuir em algo para a humanidade, visto que em um primeiro olhar, ela não produz nada sensível, nada que agregue valor financeiro para a sociedade e mercado. Em suma, seria então a filosofia inútil?

Filosofia como possibilidade de aprimoramento

Sim, a filosofia é inútil. Parece uma expressão forte e devastadora para qualquer estudante de filosofia, porém a dançarina também receberia a mesma resposta. E isso mostra como estamos avançados, ou seja, enquanto humanidade nos damos ao luxo de gastar tempo e recursos com coisas que são inúteis. Pois se a filosofia tivesse como princípio e objetivo algo, este algo faria dela escrava. Por exemplo, dizer que a filosofia serve para construir conceitos somente, logo a filosofia é serva da construção de conceitos não possuindo possibilidade de ser utilizada para outros fins. Assim, a filosofia é útil pelo valor que ela possui em si mesma, bem como a dança e as outras artes. (BERTI, 2013, p.106)

Porém é notável a evolução física e mental de uma bailarina, que dançando aprimora-se como humana, o mesmo se dá no exercício filosófico, ao passo que a investigamos o porquê das coisas, nos debruçando sobre as perguntas que busquem revelar a verdade. Com efeito, a filosofia segundo Berti (2013, p. 111) é a “aquisição e uso da sabedoria”, desta forma neste caminhar de “por que filosofar? ”, dentre tantas respostas incertas algo se mostra claro, que nessa devassa o seu protagonista no mínimo irá conhecer um pouco mais sobre a sabedoria e como aplicá-la.

Enfim, o saber filosófico carregado de toda tradição e legado, possui em si o que a sociedade detém de mais nobre e próximo do Belo, e aqueles que segundo Max Horkheimer contribuíram na descoberta de um fragmento da verdade, são hoje lembrados pelos mais sábios como pessoas dignas de memória e honra. (HORKHEIMER, 2002, p. 172)

Conclusão

A filosofia nascendo deste maravilhar-se, e o exercício do filosofar o processo honesto e racional de questionamento a cerca deste espanto, motivado pela busca de respostas verdadeiras, tendo nenhuma utilidade prática, porém contribuindo indiretamente num aprimoramento das capacidades intelectuais daqueles que realizam tal ato de filosofar, resta então saltar e dizer para que fim a filosofia caminha.

É notável que o número de filósofos nunca foi grande, deste a antiga Grécia, berço da filosofia ocidental, tal habilidade somente estava ao alcance de um seleto grupo de homens. Contudo, em nosso contexto contemporâneo, inundado de estímulos e prazeres inúteis sempre à disposição, “por que filosofar? ” Não passa nem próximo de um número mínimo daqueles que nobremente conduziriam este saber sagrado as próximas gerações.

Sem pretensão de ser dogmático, porém, é evidente como ainda após a revolução digital com tanta informação, a humanidade não consegue refletir sobre a veracidade dos dados que nos cerca, e de como a Verdade constantemente é relativizada, sendo escrava daqueles que desejam utiliza-la para seu bel-prazer.

Desta maneira, as estantes das livrarias ficam abarrotadas de livros de autoajuda, sempre repetindo as mesmas formulas, os filmes lacaios do mercado presos em repetir as mesmas histórias, dentre tantas artes que perdem cada vez mais seu brilho, como uma dançarina que vai esgotando suas forças próximo ao término do espetáculo.

Deste modo, “por que filosofar? ” É um meio de se salvar da savana que não tem piedade, é a pequena brecha de luz da caverna, o conjunto de desenhos de uma dança que leva a Verdade. Assim, nós pequeno grupo nobre, somos incumbidos pela própria Verdade a tentar conduzir outros para fora, para abrirem seus olhos ao Belo e ao Bom.

Uma vez que do mundo recebemos tal habilidade que nos melhora constantemente, é justo devolver, animando outros neste movimento de também filosofar. Pois, somente desta maneira, com pessoas cientes da incrível capacidade que possuem de refletir e pensar, talvez possamos crescer pequenos passos no sentido de uma melhor humanidade, comprometida sobretudo com a Verdade que é intrinsicamente absoluta e imutável.

Autor: Anderson Alves Francisco

Fonte: Revista Pandora

Referências

ARISTÓTELES. Metafisica: Livro I; Tradução: Vincenzo Coceo. São Paulo: Abril S. A. Cultural, 1984 (Coleção os Pensadores).

BERTI, E. Convite à filosofia; Tradução: Fernando Soares Moreira. São Paulo: Edições Loyola, 2013.

CHAUÍ, M. Introdução à história da filosofia: dos pré-socráticos a Aristóteles. 1 ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.

HORKHEIMER, M. Eclipse da Razão; Tradução: Sebastião Uchoa Leite. São Paulo: Centauro, 2002.

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O Cobridor Interno de cada um

Come avere successo nella vita grazie a cinque competenze emotive -  Centodieci

Todos os códigos e preceitos morais, estabelecidos em todas as épocas, têm um denominador comum: a separação entre o que é bom e o que é mau. Fazer o que é bom é moralmente correto. O que modifica é o conceito de BEM, variável segundo a cultura e evolução de um povo, em cada época. Variável também sob influências religiosas. Até mesmo a situação geográfica poderá influir no conceito do bem e do mal.

O homem primitivo, o Pithecantropus erectus, provavelmente era dotado de uma consciência rudimentar, não vivendo muito diferente dos outros animais. Mas, através dos milênios, o homem foi adquirindo autoconsciência, tomando conhecimento de si mesmo e do mundo à sua volta. Através da autoconsciência, o homem cria possibilidades de níveis mais altos de integração. Nesse estágio, o homem sabe que sabe e tem a faculdade de estabelecer julgamentos morais dos atos realizados, distanciando-se, deste modo, de outras espécies animais.

À medida que o homem, individualmente ou como raça, evolui, expandindo sua consciência, vai tornando mais complexa sua relação com o mundo e com si mesmo, porque outros fatores tornam-se importantes na estruturação de sua conduta moral. Um exemplo significativo, que me veio agora à mente: a escravidão de seres humanos. Há os relatos bíblicos a respeito desse assunto e, mais próximo de nós, a escravidão humana, oficializada em nosso país, até há bem pouco tempo. Era normal o senhor rico, dono de terras, construtor de igrejas (religioso portanto) ter os seus escravos, a quem tratava como animais, separados em senzalas, sem direitos e sujeitos a castigos inomináveis. Ah, mas havia os senhores bons! Até que ponto eram bons? Porque castigavam menos?

O que eu quero dizer é que, moralmente, era tido como correto ter, entre seus bens, os escravos. Além de tudo, amparado por lei. E ninguém tinha dor de consciência porque, além de legal, os limites das consciências de então eram muito estreitos, pautavam-se por padrões que hoje até nos horrorizam, e são incompreensíveis para nós. Havia as exceções, e entre estas, orgulhosamente, os maçons.

Outro exemplo é a separação de classes, mais evidente nos antigos, não tão antigos, reinados da Europa. A distância entre a plebe e a nobreza, odiosa, era uma coisa “natural”. Como era natural mandar alguém para a fogueira simplesmente por admitir fatos, tidos como heréticos, e que hoje qualquer pessoa admite como se nunca houvesse sido diferente. Mutatis mutandis, hoje é a mesma coisa, com outra roupagem, basta ler os jornais e ver a televisão. As condutas morais em nosso tempo, estribadas na maior parte em leis, estão a exigir outras “revoluções francesas”. Revoluções brancas, sem dúvida, porque de 1.792 até agora, a humanidade evoluiu um pouco e, em vez de paus, porretes, sabres ou baionetas, temos o voto, arma silenciosa porém, de uma eficácia ainda não percebida por todos.

Retomando o fio do raciocínio: à medida que o homem cresce interiormente, tomando consciência dos valores intrínsecos da alma, seus padrões morais também se modificam, tornam-se mais sutis, havendo maior exigência de si mesmo no comportamento moral. Há a influência do meio, da estabilidade social, da religiosidade, da cultura própria de seu país e de muitos outros fatores.

De qualquer maneira que se olhar o padrão moral do homem, ou de um povo, uma coisa é certa: a consciência é o fator principal na crivagem do bem e do mal.

A consciência é o Cobridor Interno. É o guardião permanente de nossa conduta. A todo momento, em nosso dia-a-dia, nos relacionamentos profissionais ou familiares, a nossa consciência é abordada no sentido de responder às questões que surgem. É ela quem nos diz: isso é bom ou isso é mau. Por isso, é preciso reflexão antes de tomarmos decisões, na base do sim ou do não. Uma conduta impensada, uma frase inoportuna e mal colocada, poderão trazer-nos dissabores o resto da vida, porque agimos contra a consciência, que não teria sido ouvida devidamente.

Tomemos tento, portanto, em nosso guardião interno. Falar e agir, segundo seus ditames. Se ele nos diz “não faça isso”, não façamos.

De um modo geral, o que não gostaríamos que nos fizessem não devemos fazer a outrem. Agindo assim, teremos um bom caminho andado para vivermos felizes e cheios de amigos, não sendo necessário abandonar nossos princípios e nem pactuar com atos indignos ou incorretos.

Num homem pouco evoluído, no entanto, esses limites de consciência não tem a mesma dimensão da de um homem com mais madurez de alma e, assim, o mal praticado por alguns, não teria para os seus praticantes o mesmo nível moral. Praticam o mal sem se aperceberem do desvio moral em que estão incorrendo. É necessário apenas um pouco de atenção para percebermos isto em nossos relacionamentos, imediatos ou não. (Um exemplo recente é o do deputado “pianista”, no Congresso. Para muitos de seus pares, e para ele próprio, um deslize pequeno não significa ser desonesto. . . questão de ponto de vista).

Em nossos Templos, e fora deles, temos um campo imenso para exercitar a consciência – e expandi-la. No silêncio de nosso Templo Interior, abriga-se a alma, com os atributos que lhe foram dados pelo Grande Arquiteto do Universo, Deus.

Quando tivermos consciência de todo o nosso potencial espiritual, estaremos prontos para sermos maçons em plenitude.

Autor: Fausto Rodrigues do Valle

Loja Maçônica Francis Bacon, 2610 Goiânia – GO

Fonte: JB News

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Pensar é perigoso; não pensar é mais perigoso ainda

Mente vazia, oficina do diabo: entenda o profundo significado dessa frase -  Portal

“A minha convicção”, escreveu Hannah Arendt, “é que o pensamento nasce de acontecimentos da experiência vivida e que deve continuar-lhes ligado como aos guias que servem para nos orientarmos.” [1]

Sem dúvida, na vida de Arendt a experiência vivida quintessencial para determinar os rumos de seu pensamento foi sua condição como judia alemã perseguida pelos nazis.

Obrigada ao exílio em 1933, ano do incêndio do Reichstag e do início do III Reich hitlerista, Arendt emigrou para a França. Ali, em 1937, perderia sua cidadania alemã, tornando-se uma apátrida, categoria que depois teria presença tão forte em sua obra.

Os apátridas, já que foram despidos do escudo protetor da cidadania – que ela definia como “o direito a ter direitos” -, adentram numa zona perigosa da condição humana, onde são considerados por poderes totalitários como seres matáveis, sub-humanos.

Arendt, tratada como pária pela Alemanha que expulsou esta filha de seu ventre, na França chegou a ponto de ser encarcerada no campo de concentração de Gurs em 1940. [2]

Libertada em maio de 1941, emigrou para os EUA, em uma época em que já se desenrolava o mecanismo fatal da Solução Final: o extermínio em massa de judeus nos campos de concentração como Auschwitz, Treblinka e Birkenau:

“Eis os fatos: 6 milhões de judeus, 6 milhões de seres humanos foram arrastados para a morte sem se poderem defender… Não há história mais difícil de contar em toda a História da humanidade. E, no entanto, nós precisamos desesperadamente, para o futuro, da história verdadeira desse inferno construído pelos nazis. Não só porque tais fatos alteraram e envenenaram o próprio ar que respiramos, não só porque povoam os nossos pesadelos e impregnam os nossos pensamentos dia e noite, mas também porque se tornaram a experiência fundamental da nossa época e a sua angústia fundamental.” [3]

O totalitarismo, como grande catástrofe do século XX, torna-se central para o pensamento de Arendt, filósofa devotada a compreender como foram possíveis as atrocidades e os horrores totalitários. Sintetizando as conclusões arendtianas, Catherine Vallée pondera:

“o mal extremo infiltra-se no mundo quando os cidadãos abandonam o espaço público-político para se refugiarem na segurança e no aconchego dos valores privados; quando aceitam cumprir ordens que desaprovam, lavando daí as mãos; quando desistem de pensar por si mesmos para irem na onda. Existe uma única defesa contra o totalitarismo: saber desobedecer, ousar pensar pela própria cabeça, nunca desistir de si. Não desertar do espaço público, pensar por si mesmo, ousar desobedecer: estas exigências conduzem Hannah Arendt a voltar-se para Sócrates como para alguém de quem a atualidade ainda tem muito que aprender.” [4]

Sócrates, que defendia que uma vida irrefletida não vale a pena ser vivida, representaria para Arendt um emblema de vida filosófica dedicada àquela reflexão ajuizada que ela enxergava como antídoto salutar contra o totalitarismo. Vale lembrar que toda a reflexão sobre Adolf Eichmann, no livro-reportagem que Arendt escreve em 1961 a convite da revista The New Yorker, versa sobre as consequências funestas e atrozes da irreflexão:

“Eichmann representa o exemplo-tipo daquilo a que hoje chamamos ‘os criminosos de gabinete’ ou ‘os funcionários do mal’. Se ele nunca participou diretamente nas execuções, nem por isso deixou de ser o organizador eficaz e zeloso da Solução Final. O que Arendt descobre em Jerusalém é que esse homem capaz de crimes tão monstruosos não tem nada de um monstro: é descrito como normal, não tem tendências para o assassinato; também não é um ideólogo fanático, nem mesmo um anti-semita convicto. A noção de ‘banalidade do mal’ procura portanto revelar esse mal novo que não tem raízes nem motivos, que faz somente parte do ofício como se se tratasse de uma tarefa vulgar, e onde se unem num incompreensível paradoxo o caráter tão pouco ‘malvado’ do criminoso e o caráter tão monstruoso dos crimes que, apesar disso, ele cometeu.

Como se sabe, o único traço marcante de sua personalidade… é que ele se mostra ‘incapaz de pensar’. Não quer isto dizer que seja estúpido, mas repete fórmulas já gastas, estereótipos; e que se mostra totalmente desamparado quando se lhe apresenta uma situação nova para a qual não dispõe de uma banalidade de catálogo. Recusar-se a pensar é o mesmo que dizer, sobretudo, que Eichmann nunca se interrogou sobre o sentido das suas ações: ‘lavou as mãos’ da Solução Final que ele próprio organizou, demitindo-se de toda a responsabilidade e recusando-se a qualquer juízo pessoal.” [5]

Se a irreflexão, a idiotia, a incapacidade de assumir responsabilidade por seu próprio juízo e por suas próprias ações, acaba levando-nos ladeira abaixo rumo aos horrores totalitários, então é evidente que o só há remédio na difícil arte de pensar com coragem e autonomia, com senso crítico sempre alerta e vigilante, ousando dizer “não” àqueles que nos ordenam que façamos algo que julgamos, através de nossa faculdade de discernir entre Bem e Mal, como um mal evidente. É o que Arendt resumiu com a bela expressão: “pensar sem corrimão”.

Ainda que viver sem refletir seja plenamente possível, e não faltam exemplos em nosso cotidiano daqueles que parecem atravessar a terra como sonâmbulos, aplicando à suas mentes a perigosa lei do mínimo esforço, segundo Arendt “fracassa em fazer desabrochar sua própria essência – ela não é apenas sem sentido; ela não é totalmente viva.” [6]

Demitir-se da tarefa de pensar por si mesmo, recusar o peso da responsabilidade própria, é o atalho mais rápido para que nos tornemos os cordeirinhos obedientes dos poderes mundiais que transformam os seres humanos em supérfluos e que, por escassez de amor ao mundo e à pluralidade a ele inerente, praticam as hecatombes de diversidade de que o século XX foi o palco sem precedentes.

Sócrates, o pensador-dialogante, agindo no espaço público através de suas provocações questionadoras, praticando a maiêutica (o parto das ideias) no coração da polis, poderia ser visto como símbolo da conduta daquele que não deseja permitir que o povo não pense.

Ainda que seja xingado por seus detratores, apelidado de mosca irritante, Sócrates é aquele que não dá permissão para a preguiça do pensamento. Sua ação política, ainda que ele não tenha sido governante nem tenha ocupado cargos públicos, tem a ver com esta presença no espaço público, em que ele toma a iniciativa de instaurar zonas de diálogo onde o pensamento é exercitado em comum, entre a multiplicidade dos humanos.

Como conciliar esta imagem de Sócrates, o cidadão que dissemina a reflexão pelo corpo social, com a imagem platônica, veiculada pela obra “A República” (Politeia), onde o socratismo se tinge de dogmatismo, ou mesmo de tirania, através da doutrina do filósofo-rei?

Para Arendt, Platão teria traído o Sócrates real, ou melhor, haveria no corpus platônico dois tipos de diálogos: os primeiros, veículo do Sócrates autêntico, são aqueles que conduzem a aporias e são verdadeiras máquinas de demolição do dogmatismo, que fazem o pensamento fluir, ainda que ele não chegue a descansar no remanso tranquilo das certezas indubitáveis; os segundos, veículo de um Sócrates inventado por Platão, seriam mais dogmáticos e revelariam uma figura arrogante, prepotente, que pensa poder impor à polis o governo monárquico do filósofo-rei, superior a quaisquer outros governantes devido à perfeição moral de seu ascetismo existencial e de sua cognição que ascende ao transcendente.

Arendt apoia-se, para realizar esta divisão da obra platônica em duas metades, no helenista G. Vlastos, que defende: “Nas diferentes partes do corpus platônico, encontram-se dois filósofos com o nome de Sócrates. O indivíduo continua a ser o mesmo, mas em grupos de diálogos diversos vemos ele praticar filosofias tão diferentes que é impossível terem sido descritas em coabitação constante no mesmo cérebro, a menos que se tratasse do cérebro de um esquizofrênico.” [7]

Filiando-se ao legado do primeiro Sócrates, o cidadão-pensante, a mosca na sopa da irreflexão, o parteiro de diálogos que movem o pensamento, Arendt afirmará que a pluralidade é a lei da terra, que “nenhum homem é uma ilha” (John Donne), e que a quintessência da política está aí: no fato de sermos indivíduos que participam de uma comunidade e por isso são inextricavelmente ligados aos outros por responsabilidades. Pensar é também uma responsabilidade, assim como respeitar a pluralidade que é inerente à condição humana.

“Arendt não é Lévinas. A ‘responsabilidade pelo outro’ enraíza-se, para Lévinas, no encontro do rosto do outro, necessariamente então no singular; e uma tal responsabilidade é por essência ética. A responsabilidade arendtiana é ‘responsabilidade pelo mundo’, é uma responsabilidade política que reclama um combate por direitos iguais para todos. Há pois um cuidar dos outros no plural, próximos e afastados, que encontramos ou que ficarão para sempre sem rosto, responsabilidade para com aqueles que vivem, mas também para com aqueles que hão-de viver. Arendt está, quanto a este ponto, muito próxima de seu amigo Hans Jonas: a responsabilidade pelo mundo é sempre responsabilidade pelo seu futuro.” [8]

Temos a responsabilidade de pensar, assim como devemos estar alertas quanto à arrogância de crermos que chegamos na verdade, que possuímos o conhecimento irrefutável do real. O pensamento se paralisa no sujeito que acredita demais que já sabe de tudo, e liberta-se quando conseguimos ir além de nossas crenças e opiniões, num processo de auto escrutínio e auto sondagem que cada eu tem a responsabilidade de fazer em meio à comunidade plural em que vive.

“Arendt destaca o lado ‘demolidor’ de Sócrates, que arrasa ‘os preconceitos e as crenças mal fundadas’, isto é, ‘as regras de uma sociedade dada numa época dada’, regras que pouco a pouco se tornam costumes e deixam de ser compreendidas por não serem interrogadas, são aplicadas de maneira mais ou menos mecânica, e que por isso deixam de ter sentido mesmo para quem as aplica. O conteúdo da regra pode então ser excelente, má é a relação que aquele que obedece mantém com a regra.” [9]

A adesão acrítica, impensada, a normais sociais reinantes em um dado momento histórico de uma sociedade específica, nunca poderá estar entre as práticas de um pensador que deseja pôr seu pensamento no exercício contínuo da avaliação da existência. O sabichão, que parou de estudar pois crê que tudo já aprendeu, é justamente o interlocutor preferencial de Sócrates, demolidor de pseudo-sábios, questionador infatigável dos seus concidadãos, e que segundo Arendt não visava ao saber definitivo, engessado, que conectamos ao termo Verdade e do qual Platão fez um ídolo perigoso.

Sócrates foi traído por Platão pois este quis pintá-lo, na República ou nas Leis, como um dogmático pregador de Verdades Transcendentes, quando o Sócrates de carne e osso havia sido um pensador em exercício interminável de seu juízo e que não aderia aos diktats / ditames da época em Atenas. O pensamento deve explorar de modo audaz o processo interminável do exame crítico, que começa pela relação do eu consigo mesmo, o auto diálogo reflexivo que instaura a travessia do autoconhecimento.

A distinção entre pensar conhecer ganha então extrema importância: o pensamento é uma atividade que não visa o repouso final na tranquilidade de um conhecimento ganho de uma vez por todas.

Pensar de verdade é sempre soltar o corrimão e pensar além do que se conhece. 

Aquilo que Sócrates admitia, sua própria ignorância, não é um vazio, um oco, um nada, mas sim a plena ciência de que não conhecemos clara e distintamente quase nada; a admissão de ignorância é positiva, abre um espaço de liberdade, onde o juízo se exercitará em público, com os outros, na pluralidade da esfera pública onde, na democracia ateniense, a persuasão devia valer mais que a violência.

Duas atividades humanas são essencialmente políticas, e Sócrates não as separava: “ação e palavra”, que “supõem diretamente a relação entre os homens e portanto a pluralidade, “formam um todo”, pois “a ação política cumpre-se pela palavra; a palavra é, em política, uma das formas privilegiadas da ação… Para Arendt, ‘viver numa cidade [polis] significava que todas as coisas se decidiam pela palavra e pela persuasão e não pela força nem pela violência.’ Ao despotismo que caracteriza a vida privada da família, onde o dono da casa [despotes] exerce um poder absoluto, opõe-se a experiência não violenta da cidade onde tudo se faz pela persuasão.

Temos dificuldade, diz Arendt, em compreender hoje a força da persuasão [peithein] grega, cuja importância política é indicada pelo fato de Peithô, a deusa da persuasão, ter um templo em Atenas… Os atenienses tinham orgulho em resolverem, ao contrário dos bárbaros, os seus assuntos políticos pela palavra e sem o recurso à coerção; consideravam a retórica, arte da persuasão, a mais alta e verdadeira arte política.’ Persuadir é propor argumentos à razão de um interlocutor, é ‘cortejar o consentimento de outrem’; não é, portanto, nem coagir nem pressionar, é essencialmente deixar livre… Segundo Arendt, a prática do diálogo é a maneira socrática de ser cidadão e de fazer política.” (VALLÉÉ: 1999, p. 46) [10]

Se a política se diferencia da guerra, é porque a política baseia-se no intercâmbio persuasivo e a guerra na coerção violenta, mas além disso a política está na dependência do exercício do pensamento, enquanto a guerra triunfa no solo nefasto da estupidez.

Pensar de verdade, com os outros, no espaço público, é uma força política sem a qual vamos chafurdando no totalitarismo, reinado total de uma falsa opinião (a de que a pluralidade humana deve ser sacrificada, ou seja, seres humanos supérfluos devem ser exterminados em prol de uma unidade homogênea, como aquela que motivou o delírio genocida dos nazis e seu “arianismo”, racista e eugênico). Dialogar de modo civilizado, com mútua disposição para o aprendizado, é o que torna a convivência política passível de dar bons frutos quando se traduz em ação conjunta:

O diálogo socrático – travessia do pensamento, sem ter como destinação o remanso lago das certezas indubitáveis (tanto é assim que a maioria deles acaba em aporia, ou seja, numa situação embaraçosa, onde o mistério permanece… – tem um alcance político, e não só para a antiga Atenas; nós também, mais de 2.500 anos depois, ainda carecemos de compreender o quanto a política e o diálogo estão imbricados.

Mestre da arte dialogal, Sócrates não se limitou às conversações privadas entre um Eu e um Tu; seus bate-papos não se desenrolam dentro de casa, com parentes fechados no oikos. O diálogo rompe com as paredes da idiotia reinante e vai para o meio da fervilhante pluralidade humana:

“O objeto do diálogo socrático não é nem tu, nem eu, mas o mundo que está entre nós: a coragem, a justiça, a piedade… Há sempre espectadores para os diálogos de Sócrates, os quais podem, se o desejarem, tomar a palavra. Na linguagem de Arendt, o espectador é sempre ao mesmo tempo um juiz. Quando Sócrates interroga, quando alguém lhe responde para dizer o que lhe parece, são todos os que ali se encontram que aprendem a ver o mundo do ponto de vista de um outro, adquirindo assim uma ‘mentalidade alargada’, que permite julgar e que é a função política por excelência.” [11]

Autor: Eduardo Carli de Moraes

Fonte: A Casa de Vidro

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Notas

[1] – ARENDT, H. A Crise do Homem Moderno (1958), apud Vallée, p. 14.

[2] – AUSCHWITZ STUDY GROUP (ASG). “Hannah Arendt, the Prisoner of Gurs Camp”. http://auschwitzstudygroup.com/56-english/projects/the-forgotten-camps/445-gurs-3

[3] – ARENDT, H. Auschwitz e Jerusalém (1941-1966). Agora: 1993, apud Vallée, p. 13.

[4] – VALLÉÉ, C. Hannah Arendt: Sócrates e a Questão do Totalitarismo. Lisboa: Piaget, 1999, p. 14.

[5] – Idem, p. 19.

[6] – ARENDT, H. A Vida do Espírito. Citada por Revista CULT: https://www.facebook.com/blogacasadevidro/posts/2481619525197691.

[7] – VLASTOS, G. “Sócrates Contra Sócrates Em Platão”. In: Socrate: ironie et philosophie morale. Aubier, 1994, p. 70. Apud Vallée, p. 24.

[8] – VALLÉÉ, C. Op Cit, p. 26.

[9] – Idem, p. 39.

[10] – Idem, p. 46

[11] – Idem, p. 48.

Tempo

Por que falta tempo na nossa vida atualmente? - Instituto Life Coaching

O que há de mais valioso no Mundo não é dinheiro. nem joias ou diamantes. Muito menos ouro, dourado ou negro. Nem sequer as crianças – como muitas vezes dizemos. O que há de mais valioso no Mundo é o Tempo. Não se pode comprar nem vender, não se pode guardar nem acumular. Tem-se o que se tem e é esse que se pode e deve administrar o melhor possível.

O que há de mais democrático no Mundo não é o voto. Nem as eleições. Muito menos a separação de poderes. Nem sequer a limitação de mandatos. O que há de mais democrático no Mundo é o Tempo. O dia tem vinte e quatro horas, a hora tem sessenta minutos, o minuto tem sessenta segundos, quer para o multimilionário mais rico do planeta, quer para o mais miserável pária sem abrigo do mais pobre recanto deste Mundo. O rico, por mais que o deseje, não consegue que o seu dia tenha trinta horas, nem a sua hora oitenta minutos, nem o seu minuto cem segundos. O pária miserável pode não ter nada de nada, mas tem exatamente as mesmas horas no seu dia que o multimilionário, os mesmos minutos na sua hora, os mesmos segundos no seu minuto.

O que há de mais implacável no Mundo não é o Mal. Muito menos o Déspota. Nem sequer o Terrorista. O que há de mais implacável no Mundo é o Tempo. Chega, passa e vai, insensivelmente, sempre ao mesmo exato ritmo.

O que muda é a nossa percepção do Tempo. Se estivermos confortavelmente sentados vendo um belo pôr-do-sol, ouvindo uma música do nosso agrado, bebendo uma bebida da nossa preferência, sendo acariciados pela mulher que amamos, enquanto cheiramos o seu agradável perfume, esse Tempo, por muito longo que seja, parecer-nos-á sempre breve, seguramente muito mais breve do que nos pareceria a exata mesma quantidade de tempo em que estivéssemos a ser agredidos por um energúmeno feio e malcheiroso, que nos berrava impropérios, sentindo na boca o sabor de alguma porcaria que ele ali nos enfiara…

Cada um dispõe em cada dia do mesmo tempo que todos os demais, exatamente 86.400 segundos em cada dia, nem mais um, nem menos um. Cada um tem a responsabilidade de usar esse Tempo da melhor forma possível, distribuindo-o profícua e harmonicamente entre o cumprimento dos seus deveres, o convívio com aqueles de quem gosta, o descanso, o lazer, o alimento do seu corpo e a nutrição do seu espírito, a busca e o encontro, a reflexão e a ação. Todos temos exatamente a mesma riqueza para gastar em cada dia. Se a aproveitamos ou desperdiçamos, é conosco e seremos nós que sentiremos as consequências, boas ou más, do nosso aproveitamento ou do nosso desperdício. O que não gastarmos, o que não usarmos, não podemos guardar. Está perdido e nunca mais será recuperado…

O Tempo é uma dimensão diferente das outras. O comprimento, a largura, a altura são dimensões em relação às quais nos sentimos exteriores. E medimos o comprimento da mesa, a largura do quadro, a altura do armário. Somos exteriores a essa medida. Mesmo em relação às nossas medidas… Mas a dimensão do Tempo é diferente. Nós todos estamos DENTRO do Tempo. Por isso o não vemos. Por isso o Tempo Presente é tão fugaz que, mal o apercebemos, já é Tempo Passado. Comprimento, largura e altura são dimensões terrenas. O Tempo é dimensão divina. Por isso podemos mudar o comprimento, alterar a largura, modificar a altura do que quisermos, mas não podemos mudar, nem num centésimo de segundo, o Tempo que é. Podemos aproveitá-lo melhor, fazendo mais em menos Tempo. Não podemos mudá-lo. Podemos apenas usar em cada dia a exata quantidade de Tempo que o Criador determinou que todos e cada um de nós dispuséssemos em cada dia.

O Tempo não pode ser comprado, nem vendido (pode-se comprar ou vender uma ocupação do tempo, o que é diferente), mas pode ser usado, aproveitado, individualmente ou em conjunto. O mesmo Tempo, aproveitado ou usado em conjunto por vários ou por muitos, multiplica-se automaticamente, potenciando a capacidade do grupo que o aproveita em conjunto. No entanto, sendo globalmente mais rentável o Tempo aproveitado em conjunto, o Tempo individual de cada um continua a ser pessoal, só seu, com um significado preciso e definido para esse preciso indivíduo. O Tempo que um músico despende a dar um concerto numa sala de espetáculos é rentabilizado pelas centenas ou milhares de pessoas que desfrutam desse espetáculo. O Tempo de um multiplica-se por muitos. Mas um concerto para mil equivale a mil concertos individuais. O músico é o mesmo. A música é individualmente, quiçá diferentemente, apreendida por cada um dos mil ouvintes. O Tempo de cada um continua a ser pessoal e único. E o mesmo se passa se, em vez de ser um a criar e mil a beneficiar, forem mil e um a criarem para esses mil e um e incontáveis milhares ou milhões mais beneficiarem.

Quando os maçons se reúnem, e repetem o ritual, tratam dos assuntos da ordem do dia, estudam, ensinam ou aprendem símbolos e seus significados, moralidades e seus motivos, condutas e suas consequências, aproveitam em conjunto o Tempo, potenciando o seu valor, cada um beneficiando individualmente, ao seu modo, do uso desse Tempo.

Os maçons aprenderam uma coisa singela: que o Tempo de cada um é potenciado pelo seu uso em conjunto, afetando e aproveitando a cada um da forma que convém a cada qual. Tempo de Estudo, Tempo de Paz, Tempo de Debate, Tempo de Repouso, sobretudo Tempo de Confiança nos seus Irmãos e Tempo de Harmonia com eles. Todos estes Tempos, e mais, valem infinitamente mais em conjunto, revertendo esse valor para cada um dos indivíduos. Por isso os maçons reservam uma parte do seu Tempo para o aproveitar em conjunto com seus Irmãos.

Assim aprendem e praticam entre si e podem e devem praticar no exterior, na sua vida de todos os dias, perante os seus parceiros de vida, de negócios, de viagem, de tudo, que a Cooperação é mais eficaz que a Competição, que a Harmonia é mais gratificante que a Cizânia, que a melhoria de Um ajuda Todos a melhorar e que a melhoria de Todos se reflete na melhoria de cada Um. E podem e devem viver e aproveitar o seu Tempo na sua vida de todos os dias, perante todos aqueles que os rodeiam, pela mesma forma que vivem e aproveitam o seu Tempo entre seus Irmãos. E o seu exemplo frutificará onde houver condições para que frutifique, em quem estiver apto para tal. E assim o Mundo melhorará mais um pouco. E de pouco em pouco se fará muito. Em pouco Tempo, em muito Tempo, no Tempo que for…

Autor: Rui Bandeira

Fonte: A Partir da Pedra

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Magnificência – a virtude de saber-se digno de honra

Os Sete Magníficos (1960) | A Grande Ilusão
Os Sete Magníficos (1960)

“(…) olhar menos à verdade do que à opinião dos outros, é próprio de um covarde. ” (Aristóteles)

Segundo Aristóteles, megalopsykhia (a magnanimidade, o apreço, o alto apreço) é a postura correta em relação ao maior dos bens exteriores, a saber, a honra.

Franco e verdadeiro, levando os outros em consideração, magnânimo é quem age de acordo com a areté (excelência).

Versemos sobre essa disposição de caráter que, quando em falta, revela indevida humildade, quando em excesso, demonstra vaidade.

Sendo a honra, a finalidade comum de todas as virtudes, indubitavelmente honroso, o magnificente inspira o que tantos desejam, a saber, admiração.

Comumente, deter poder e riqueza confere distinção, e é na explicitação (no uso e emprego) disso que vários intentam angariar admiração. Muitos honram quem possui poder e riqueza, mas só merece ser honrado o ser humano bom, pois dispor desses atributos sem ser virtuoso não têm por que alimentar a pretensão de fazer jus ao epíteto de “magnânimo”, o que implica numa virtude perfeita.

Quanto às posses, as atitudes em relação aos gastos têm sido reveladoras dos princípios e dos valores que permeiam a vida dos indivíduos.

Extravagantes, os vaidosos se exibem, não por terem em vista a honra, mas por pensar que ao ostentar riquezas serão admirados. Ponderemos o quão longe estão da genuína magnanimidade.

Espíritos que têm a si mesmo em altíssimo apreço não ambicionam as coisas vulgarmente acatadas, pois, dotados de um caráter que basta a si mesmo, a pessoa verdadeiramente magnânima se arroga o que corresponde aos seus méritos, ao que não pode ser comprado, que sequer tem preço, mas elevado valor.

Altivo, possuidor de bom e nobre caráter, seria indecoroso para um indivíduo magnânimo fugir ao perigo, praticar atos vergonhosos, incorrer em injustiça.

É sobretudo por honras e desonras que o magnânimo se interessa, e as honras que forem grandes e conferidas por homens bons, ele as receberá com moderado prazer, mas as honras que procedem de pessoas quaisquer e por motivos insignificantes, ele as desprezará, visto não ser isso o que merece.

Quem aspira à magnanimidade irá se conduzir com moderação no que diz respeito ao poder, à riqueza e a toda boa ou má fortuna que lhe advenha, e não exultará excessivamente com a boa fortuna nem se abaterá com a má sorte.

O homem magnânimo despreza respaldado em julgamento justo, mas os ordinários o fazem sem que haja motivo sério.

É magnânimo saber que há condições em que não vale a pena viver. É também característico de quem faz jus à magnanimidade não pedir nada ou quase nada, mas prestar auxílio de muito bom grado. E adotar uma atitude digna em face das pessoas que desfrutam de alta posição e são favorecidas pela boa fortuna.

É coisa difícil e grande marca de altivez mostrar-se superior aos de classe elevada, embora seja fácil com os de classe mediana.

Sem dúvida, uma conduta altiva ao se relacionar com pessoas superiores em poder e riqueza não é sinal de má educação, mas altivez diante dos humildes é vulgar, afirma o Estagirita.

À magnanimidade convém sermos francos em nossos ódios e amores, falarmos e agirmos abertamente:

“(…) ocultar os seus sentimentos, isto é, olhar menos à verdade do que à opinião dos outros, é próprio de um covarde. ”.

A franqueza do magnânimo provém de certo desdém por miudezas.

Por não ser escravo de ninguém, é incapaz de fazer com que sua vida gire em torno de outro (coisa de aduladores, que sequer respeitam a si próprios) e não guarda rancor por ofensas que lhe façam, prefere relevá-las.

É avesso a maledicências e conversas fúteis, pois não fala sobre si mesmo nem sobre os outros e tampouco fica alardeando seus feitos. Também não sucumbe aos elogios que lhe fazem. A tranquilidade paira sobre as atitudes, a fala e o modo de portar-se de uma pessoa verdadeiramente magnânima, pois quem costuma levar poucas coisas a sério em nada se apressa.

Como afirmamos no início, quem está aquém da magnanimidade é indevidamente humilde, e quem o ultrapassa é vaidoso. Ponderemos sobre esses extremos.

As pessoas vaidosas aventuram-se a honrosos empreendimentos que não tardam a denunciá-las pelo que são. Adornam-se com belas roupas, ares afetados e coisas que tais, desejam que suas boas fortunas se tornem públicas, tomando-as para assunto de conversa, como se desejassem ser honrados por causa delas.

É vaidoso aquele que se julga digno de grandes coisas sem possuir qualidades para tanto. Desdenhosos e insolentes, sem virtude não é fácil carregar com elegância os bens da fortuna, pondera o filósofo.

Vaidosas, exibidas, essas pessoas costumam se julgar superiores aos demais, desprezando-os, proceder como virtuosos está fora de seu alcance, embora imitem o homem magnânimo, excedem em relação aos méritos próprios.

Em contrapartida, é indevidamente humilde, diz Aristóteles, o homem que se julga menos merecedor do que realmente é. Se comparado às pretensões do magnânimo, a pessoa indevidamente humilde revela-se deficiente em confronto com os seus méritos próprios.

O que é digno de coisas boas e ainda assim, indevidamente humilde, está roubando de si mesmo daquilo que merece, e parece ter algo de censurável porque – excessivamente modesto –  não se julga digno de boas coisas e também parece não se conhecer, do contrário desejaria as coisas que merece.

Ambas disposições de caráter são típicas de tolos, no entanto, são vícios que, ainda que equivocados e um tanto indecorosos, não desonram ninguém, até porque nem são nocivas aos demais. Contudo, a humildade indébita se opõe ainda mais à magnanimidade do que a vaidade, tanto por ser mais comum como por ser ainda pior:

“Quem se considera indigno de nobreza e riqueza irá se abster de ações e empreendimentos nobres.”

Mas a pessoa verdadeiramente magnânima, visto merecer mais do que os outros, deve ser boa no mais alto grau, pois o melhor sempre merece mais, e o melhor de todos é o que mais merece, conclui o filósofo.

Autora: Luciene Felix Lamy

Fonte: Blog Conhecimento sem Fronteiras

Referência

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco.

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Conatus

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1. Abstrato

Avaliação da possibilidade do maçom frear o motor do desejo que o movimenta ao erro e submissão, sem matar o Conatus, sua iniciativa de persistir e evoluir independente.

2. Origem

Diversos filósofos aplicam o conceito Conatus na explicação da origem da violência que tira a liberdade do homem: aquela que o impede de andar com as forças de sua própria iniciativa, escravizando-o através de paixões e desejos.

Trata-se de um verbo latino que dá tratamento filosófico à compreensão e determinação necessárias para tornar-se livre, continuar a existência e aprimorar-se na linha de tempo reservada para a vida: a base da vivência maçônica.

Tem aspectos positivos e negativos que são interessantes de serem analisados, pois exercita uma dicotomia que auxilia no entendimento do ser.

Sem que muitos o percebam, é parte das grandes provocações que a Maçonaria faz a seus adeptos, já desde o primeiro psicodrama do simbolismo: a cerimônia da iniciação; ocasião em que o iniciando é instado se deseja persistir mesmo em presença da luta interna contra rejeição, desejo e paixão.

3. Baruch Espinoza

Para Baruch Espinoza o conceito Conatus é:

  • O desejo de viver, existir;
  • Esforço que se manifesta na consciência em direção da auto perseverança para continuar existindo;
  • A vida repleta de desejos dos quais depende o usufruto da vida;
  • Onde o homem é essencialmente composto de desejos;
  • A potência de agir e resistir;
  • A essência da humanidade que varia de acordo com a intensidade da autopreservação onde não ter desejos é suicidar-se: é morte!

Como viver sem submeter-se a desejos que escravizam à existência?

Como perseverar na vida com qualidade debaixo do princípio de autoconservação natural que pode levar à escravidão?

O conceito Conatus tem diversas significações em resultado do instinto e livre-arbítrio naturais contrapondo-se ao exercício consciente da liberdade.

4. Desejo

Desejo é potência, capacidade de realizar, força que leva à ação.

Tudo que resulta em ação é resultado de desejos.

É nisso que se baseiam os oportunistas para exaurir a força da maioria dos humanos: exploram os outros através de seus próprios desejos. Os abusadores deduziram que o homem está construído mais para desejar que para raciocinar.

Pensar é atividade cansativa, para alguns até dolorosa.

Poucos pensam!

A absoluta maioria da massa humana prefere receber o produto de outros pensadores e levar a vida apenas nutrindo seus apetites e desejos primários: são aqueles que estacionam na base da Pirâmide das Necessidades de Maslow, ao nível das necessidades fisiológicas, e dificilmente alcançam ao estágio da autorrealização.

O homem exibe em primeiro plano os resultados de seus desejos e não o resultado de sua capacidade racional.

Os desejos e paixões não deveriam ser a raiz de todo mal, perversidades e perturbações, mas, em resultado da preguiça, são!

Por indolência ou por perversidade, as paixões e desejos escravizam o homem. E o pior, é o próprio escravo que assim o deseja, preferindo a prisão no recôndito de suas paixões que ser livre com responsabilidade.

Daí ser o maçom instado em combater o bom combate para vencer suas paixões escravizantes e praticar as boas paixões para servir e trazer felicidade para si mesmo e aos conviventes.

Mas como matar o motor do desejo que movimenta o homem ao erro e submissão sem matar o Conatus, sua iniciativa de persistir em evoluir independente?

Usando deste elemento motor para desenvolver, pela racionalidade, apenas o lado bom e livre desta potência natural.

Na Maçonaria é oferecida a oportunidade de desenvolver a capacidade de iluminação, o desejo de andar com as próprias forças, sem auxílio ou tutela de outros, nutrindo os próprios desejos naturais sem submeter-se ao desejo de terceiros em virtude de preguiça para evoluir utilizando dos recursos de seu próprio discernimento.

5. Fraternidade

A convivência fraterna, e sem necessidade de escudos hipócritas, têm potencial para libertar o homem.

A fraternidade existe para proporcionar experiências alegres e agradáveis que levam ao desenvolvimento de forças de ataque e defesa para derrubar desejos que degradam.

A iluminação maçônica tem a pretensão, não a certeza, de propiciar o meio onde a potência para existir com qualidade seja aumentada. Tudo depende de como cada um reage diante da provocação da Maçonaria que, pela fraternidade, induz às experiências alegres de convivência, afastando os adeptos de situações dolorosas e tristes causadas pela tirania, opressão e prepotência de minorias sobre maiorias.

Os encontros efetuados em loja, com sua ritualística e atividades cognitivas cultas, levam a desfrutar da vida com alegria e utiliza a ação Conatus em seu sentido positivo, presta-se a induzir perseverança para continuar na autoconstrução. A loja é semelhante a uma família e ao mesmo tempo uma escola de conhecimentos. Os mestres têm a obrigação de promover atividades e eventos que alimentem o Conatus dos demais associados de tal forma a aumentar sua potência e desejo para a vida fraterna. Não se trata exclusivamente de festividades sociais, mas de reuniões alegres que promovam o bem, o culto, o erudito. Os banquetes maçônicos são culturais. De um lado apreendem-se conhecimentos e de outro, estes mesmos saberes são servidos e distribuídos aos conviventes. É um sistema de trocas que funciona por indução: impossível de representar em linguagem oral ou escrita porque afluem forças que são sentidas, mas ainda impossíveis de serem verbalizadas.

Desta forma são construídas personalidades fortes que agem na sociedade em todas as suas dimensões.

Desenvolvem-se líderes e não títeres.

Despertam potencialidades que levam ao desenvolvimento de gestores dos próprios destinos e transformadores da sociedade para desfrutar daquilo que a natureza oferece.

O objetivo é lúdico e ao mesmo tempo de árduo trabalho na autoconstrução.

O centro é o homem maçom.

É uma experiência espiritual.

A mudança, de forma agradável, é centrada no maçom, no adepto, e não nos homens da sociedade. A sociedade é afetada por consequências das ações dos maçons.

É o homem forjado nas oficinas da ordem maçônica que vai fazer a diferença na sociedade onde tem a potencialidade de conduzir seu destino e ajudar outros a desenvolverem-se de igual forma.

6. Teoria da Afetividade

O conceito Conatus é central dentro da teoria da afetividade.

O operador dinâmico é o maçom e sua afetividade enquanto ser concebido como tendo uma natureza comum.

A amizade é estratégica no procedimento de elevar a capacidade de perseverança, de Conatus, para o desenvolvimento ao bem.

O sucesso da atividade maçonicamente orientada depende e é inseparável dos laços que se formam entre os irmãos. O próprio tratamento como irmandade já implica na exigência de camaradagem na atividade lúdica e cultural.

A ação Conatus é um esforço que não possui objeto, mas é estratégica: é uma potência de agir dentro da fraternidade, seguindo a teoria da afetividade, com fortes possibilidades de conservação do desejo de fazer o bem para a humanidade. Assim, o maçom produz os frutos resultantes da própria produtividade dos dons afetivos que a natureza disponibilizou dentro dele.

Os aspectos positivos do conceito Conatus são as decisões internas que, necessariamente, passam pela vontade de viver em sociedade com outros seres vivos;

“O homem é, por natureza, um ser social” (Karl Marx).

7. Thomas Hobbes

Segundo Thomas Hobbes, o conceito Conatus é indispensável na análise da concepção da natureza humana, em:

  • Tudo aquilo que, de alguma forma, propicia a vida em resultado do desejo e da vontade individual;
  • Um fogo interno que move o homem a dirigir-se àquilo que lhe traz prazer e o afasta do que o desagrada;
  • Ação sem imposição externa: resultante do esforço em perseverar;
  • Capacidade natural de auto-conservação: característica racional humana em resultado da consciência de preservação da vida;
  • Preservar a essência interna do homem livre;
  • Manter um estado natural de vida do homem em sociedade.

Por outro lado, a característica natural do conceito Conatus é observada também em aspectos negativos, caracterizado por:

  • Egoísmo do homem que, desassossegado, deseja poder sempre mais que os outros, tendência que o acompanha até a morte;
  • Inclinação que move o homem a vencer sempre;
  • Luta no acumulo de recursos para além da necessidade;
  • Guerra de todos contra todos na vida social;
  • Homem governado por suas paixões, que acha possuir o direito natural de apoderar-se do que bem entender;
  • Aquilo que impulsiona o homem a ultrapassar ao outro na vida social, de onde afloram sentimentos de perdedor e vencedor;
  • Disposição que torna os homens iguais em força quando o fisicamente mais fraco adquire a capacidade de matar o fisicamente mais forte ao usar de estratagemas mais espertos.

Subjugar o outro é característica natural do homem enquanto selvagem ou enquanto não vence a si mesmo. Sua tendência natural é de sempre subjugar os da própria espécie, explorando e exaurindo a força de produção do outro, dando o mínimo ou nada em troca.

Segue a máxima: “estamos aqui para comer uns aos outros”.

Esta disposição mental violenta e agressiva pode ser moderada quando cada indivíduo ingressa de forma responsável na vida social: uma das fortes propostas da Maçonaria: pela igualdade, mesmo em presença das diferenças.

O estudo dos contrates do conceito Conatus proporciona o entendimento de como funciona a violência humana decorrentes do despotismo, da arrogância e da prepotência de indivíduos, pessoas e grupos.

Ao maçom, a dicotomia do conceito Conatus aponta caminhos para:

  • Tornar-se bem sucedido e evitar ser presa daqueles que se acham com mais direitos.
  • Fomentar relacionamentos onde todos levam vantagens, não necessariamente igualitárias, mas justas.
  • Ajudar no entendimento das razões da existência da violência, traduzindo-a como característica natural do livre-arbítrio que pode ser superada pela transformação consciente.

8. Liberdade e Livre-arbítrio

A ação humana é livre na proporção em que o ator entende como funciona sua determinação, seu exercício de Conatus. O pensamento correto de liberdade advém da análise das possibilidades, onde liberdade e possibilidade são ideias independentes. A liberdade consta de possibilidades de ações e ideias independentes.

Aprende-se na Maçonaria que o homem só pode considerar-se livre se, em sua caminhada pelo mundo, tiver a seu dispor a possibilidade de escolher racionalmente entre alternativas. É a razão da pugna da ordem maçônica em oferecer liberdade para toda a sociedade humana. Assim, ela desenvolve homens com conhecimento da liberdade que se manifesta àqueles que obtêm consciência da autodeterminação: do Conatus.

O maçom constata esta liberdade quando descobre que nada existe fora dele mesmo que lhe imponha uma direção: é o exercício do Conatus voltado ao esforço de atender a tendência de ser livre para persistir em existir e evoluir continuamente.

Com este entendimento, não se confunde liberdade com livre-arbítrio:

  • Liberdade – Livre-arbítrio;
  • Autodeterminação: a decisão vem do depois de pensado e avaliado. – Agir sem motivos ou finalidades: em resultado de impulso natural e instintivo;
  • Limitada e racional. – Ilimitado: manifesta-se sem razão ou objetivo;
  • Racional; artificial, dissimulada. – Emocional, instintivo, natural, franco.

O autoconhecimento livra o homem do obscurantismo assim como a autodeterminação leva o homem a desfrutar da liberdade com coerência.

Gostar de alguma coisa, considerando que possa ser resultado de imposição de modismos ou propaganda da mídia, não implica em falta de liberdade, desde que a ação, ou gosto, seja resultado de desejo interno, particular. É liberdade desde que o gosto pertença à pessoa em resultado de sua autodeterminação.

Já o livre-arbítrio não passa de uma ilusão da imaginação, espécie de conhecimento inicial. Livre-arbítrio, na ótica de Baruch Espinoza, é um preconceito primordial, fonte de todos os outros preconceitos.

9. Conceito e Ação Conatus

Em diversas oportunidades da jornada, o adepto maçom é levado explorar e reforçar sua inclinação latente e congênita de existir com qualidade e de aprimorar-se como pessoa humana na ação Conatus que lhe é inerente.

A melhoria pessoal ocorre na mente, no espírito, na psique e na matéria. Mudança que acontece em todas as dimensões humanas com vistas a produzir um ser humano melhorado em condições de persistir, de aplicar Conatus em sua jornada.

A exploração do conceito Conatus, em seus aspectos positivos, evita a vaidade congênita que tende ao desejo de querer ser mais importante que o outro, daí constar na divisa da Maçonaria: a igualdade. Não existe igualdade sem fraternidade e liberdade. Assim sendo, a ação Conatus impulsiona ao equilíbrio: ocorre aporte de determinação e persistência quando se exercitam igualmente igualdade, liberdade e fraternidade.

Ao frequentar as sessões maçônicas, lentamente, em resultado de fraterna convivência, o maçom se modifica e domina a inclinação de reinar sobre os demais, considera-se igual e, com isso, propicia a liberdade de si mesmo. Entender isso é iniciar-se em espírito: abraçar uma vibração energética que fica acima da realidade perceptível aos sentidos. Ao vencer a vaidade e a soberba torna-se irmão, inicia-se maçom: é reconhecido maçom. Assim, a sua regularidade como maçom vai muito além dos sinais, toques e palavras. Demonstra que entendeu a mensagem da cerimônia de iniciação: a dramatização da iluminação maçônica. Entendeu que está no Universo para servir seus irmãos e à sociedade: “a Maçonaria está nele!” —, dizem sem falsa retórica os mais adiantados.

Aprendeu bem e responde favoravelmente às provocações da Maçonaria em seus rituais: faz o bem e se modifica em resultado da prática do bem. Para um homem assim, os diplomas, as medalhas, os aventais, os colares e outros penduricalhos traduzem expressões de vaidades! Encontrou o poder e a riqueza que edifica seu próprio templo vivo nas virtudes que estão no espírito! Desta forma a ação do Conatus faz o homem persistir em evoluir constantemente.

A jornada modificadora interna do maçom segue em ascendência por uma senda que é semelhante a uma escada dupla que sobe de um lado e desce pelo outro. De um lado, enquanto o maçom sobe, ele é servido por seus irmãos de conhecimentos e ciências, e de outro, enquanto desce pela escada, baseado em virtudes, ele serve seus irmãos. É um exercício de humildade sem precedentes, haja vista a característica natural negativa do conceito Conatus aplicada ao ser humano leva o homem a sentir-se naturalmente mais importante que o outro. Servir sem esperar nada em troca é o altruísmo mais elevado que o maçom pode alcançar! Com isso ele serve qual construtor de templos vivos numa sociedade perdida, pervertida e alienada a um sistema terrível de usura e escravatura.

Livre da escravidão ao sistema, florescem qualidades internas que edificam o caráter. O ritual maçônico instiga ao hábito das coisas a serem desenvolvidas no dia-a-dia em todos os lugares.

E do hábito amadurecem grandes maçons que vencem o teste do tempo!

Sem confundir liberdade com livre-arbítrio e longe de se afetar com a perda de liberdade com a evolução científica, o maçom iniciado no espírito — que vive uma experiência espiritual — usa dos conhecimentos e criações científicas para servir a si e aos seus irmãos.

O conceito Conatus é entendido e utilizado em suas dimensões positivas e de construção do desejo e da paixão para o bem: é essencial na manutenção da perseverança para realizar a caminhada da modificação em sentido lato do ser para o bem.

O maçom iniciado no espírito — naquele onde a Maçonaria penetrou em resultado das reiteradas provocações — é o mestre servidor de seus irmãos. Sua alma purificada pelo serviço prestado aos irmãos faz seu corpo resplandecer! Este brilho, esta luz é resultado positivo da ação Conatus, do ensino e do apoio dado aos irmãos porque é com isto que se dá honra e glória ao Grande Arquiteto do Universo!

Autor: Charles Evaldo Boller

Fonte: Segredo Maçônico

Referências

PAES LEME, André, Spinoza: o Conatus e a Liberdade Humana.

LIMONGI, Maria Isabel, Hobbes e o Conatus: da Física à Teoria das Paixões.

PEREIRA, Rafael Rodrigues, o Conatus de Spinoza, Autoconservação ou Liberdade.

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O homem e o seu Caminho

A Emancipação do Homem:. Do Humanismo ao Pós-modernismo | by Rafael Schier  Granado | Medium

I

O Homem abeirou-se do Sábio e perguntou-lhe:

– Como encontrarei a Luz no Caminho da minha Vida?

O Sábio respondeu-lhe:

– No Caminho da tua Vida encontrarás três Portais. Lê as regras escritas em cada um deles e cumpre-as. E agora vai! Segue o teu Caminho!

– O Homem seguiu o seu Caminho. Em breve deparou com um Portal onde estava escrito:

Muda o mundo

O Homem pensou que, na verdade, se havia algumas coisas no Mundo que lhe agradavam, havia muitas outras que eram objeto do seu desagrado. E começou a sua primeira luta: os seus ideais, o seu ardor e o seu poder levaram-no a confrontar-se com o Mundo, para corrigir, para conquistar, para mudar a realidade de acordo com os seus desejos. Nisso encontrou o prazer e a volúpia do conquistador, mas não trouxe Paz ao seu coração. Conseguiu mudar algumas coisas, mas muitas outras resistiram aos seus propósitos.

O Sábio perguntou-lhe então:

– Que aprendeste no teu Caminho?

O Homem respondeu:

– Aprendi a distinguir entre o que está ao meu alcance e o que se lhe escapa, o que depende e o que não depende de mim.

O Sábio retorquiu:

– Isso é bom. Usa as tuas capacidades para agires no que estiver ao teu alcance e esquece o que estiver para além delas

II

Pouco depois, o Homem encontrou o segundo Portal. Nele estava escrito:

Muda os outros

O Homem pensou que, realmente, os outros tanto podiam ser fonte de alegria, de prazer ou de satisfação, como de dor, amargura ou frustração e rebelou-se contra tudo o que lhe pudesse desagradar nos outros. Tentou moldar as suas personalidades e corrigir os seus defeitos. Esta foi a sua segunda luta. Fê-lo com persistência, mas nunca conseguiu remover as suas dúvidas sobre a real eficácia dos seus esforços de mudar os outros.

O Sábio perguntou-lhe então:

Que aprendeste no teu Caminho?

O Homem respondeu:

– Aprendi que os outros não são a causa nem a fonte das minhas alegrias ou das minhas tristezas, da minha satisfação ou dos meus desaires. São apenas oportunidades para todos se me revelarem. É em mim que tudo tem raízes.

O Sábio retorquiu:

– Tens razão. Os outros revelam-se-te na medida do que acordam em ti. Agradece aos que fazem vibrar em ti as cordas da Alegria e da Satisfação. Mas não odeies os que te causam sofrimento ou frustração, porque, através deles, a Vida ensina-te o que te falta aprender e qual o Caminho que ainda te falta percorrer.

III

Então o Homem encontrou o terceiro Portal, onde se lia:

Muda-te a ti próprio

O Homem pensou que, se na realidade era ele próprio a fonte dos seus problemas, então era em si próprio que teria de trabalhar. Começou então a sua terceira luta. Tentou moldar o seu carácter, lutar contra as suas imperfeições, acabar com os seus defeitos, mudar tudo o que lhe desagradava em si próprio, tudo o que não correspondia ao seu ideal. Teve algum sucesso, mas também alguns fracassos e duvidou das suas reais capacidades.

O Sábio perguntou-lhe então:

– Que aprendeste no teu Caminho?

O Homem respondeu:

– Aprendi que há em mim aspectos que consigo melhorar e outros que não consigo alterar.

O Sábio retorquiu:

– Isso é bom!

Mas o Homem prosseguiu:

– Sim. Mas começo a ficar cansado de lutar contra tudo, contra todos, contra mim próprio. Isto nunca terá fim? Nunca terei descanso? Quero poder parar de lutar, desistir, abandonar tudo…

O Sábio prosseguiu:

– Essa é a tua próxima lição. Mas antes de prosseguires, volta-te para trás e observa bem o Caminho que percorreste.

IV

Olhando para trás, o Homem viu à distância o terceiro Portal e reparou que, no lado de trás, estava escrito:

Aceita-te a ti próprio

O Homem surpreendeu-se por não ter visto a inscrição quando passara o Portal no sentido contrário e pensou que, quando se luta, fica-se cego para tudo o que esteja para além da luta. Reparou então em tudo o que deixara cair, que deitara fora, enquanto lutara contra si próprio: os seus defeitos, as suas sombras, os seus medos, os seus limites, tudo antigas preocupações suas. Aprendeu então a reconhecê-los, a aceitá-los, a conviver com eles. Aprendeu a amar-se a si próprio sem voltar a comparar-se com os outros, sem se julgar, sem se repreender.
O Sábio perguntou-lhe então:

– Que aprendeste no teu Caminho?

O Homem respondeu:

– Aprendi que odiar ou repudiar uma parte de mim próprio é condenar-me a nunca estar de acordo comigo mesmo. Aprendi a aceitar-me a mim próprio, total e incondicionalmente.

O Sábio retorquiu:

-Isso é bom! Essa é a primeira regra da Sabedoria. Agora regressa ao segundo Portal.

V

Ao aproximar-se deste, o Homem leu, nas suas traseiras:

Aceita os outros

Reparou então em todas as pessoas com quem tinha estado em toda a sua vida, quer nas que tinha amado ou com quem tinha tido amizade, quer nas que lhe tinham desagradado. Naqueles que tinha apoiado e naqueles contra quem tinha lutado. Mas a sua maior surpresa foi que se apercebeu que agora nem notava as suas imperfeições nem os seus defeitos, que antes tanto o incomodavam.

O Sábio perguntou-lhe então:

– Que aprendeste no teu Caminho?

O Homem respondeu:

– Aprendi que, estando em paz comigo mesmo, já nada me incomoda nos outros, nada neles temo. Aprendi a amar e a aceitar os outros, total e incondicionalmente.

O Sábio retorquiu:

– Isso é bom! Essa é a segunda regra da Sabedoria. Regressa agora ao primeiro Portal.

VI

Aproximando-se deste, o Homem leu a tardoz a inscrição:

Aceita o mundo

O Homem pensou que também não vira estas palavras quando ali passara no sentido contrário. Olhou à sua volta e reconheceu o Mundo que tentara conquistar, transformar, mudar. Ficou estupefato pelo Brilho e pela Beleza de tudo, pela sua Perfeição. No entanto, era o mesmo Mundo de antes. Que mudara? O Mundo ou a sua percepção dele?

O Sábio perguntou-lhe então:

– Que aprendeste no teu Caminho?


O Homem respondeu:

– Aprendi que o Mundo é o espelho da minha alma. Que a minha alma realmente não pode ver o Mundo, que se vê a si própria nele. Quando a minha alma está alegre, o Mundo parece-lhe alegre. Quando está triste, assim lhe parece o Mundo. O Mundo em si não é alegre nem triste: Está lá. Existe, é tudo. Não era o Mundo que me perturbava, mas a ideia que eu tinha dele. Aprendi a aceitar o Mundo sem o julgar, a aceitá-lo total e incondicionalmente.

O Sábio retorquiu:

– Essa é a terceira regra da Sabedoria! Estás agora em consonância contigo próprio, com os outros e com o Mundo.

Um profundo sentimento de Paz, de Serenidade, de Plenitude, encheu o Homem. Dentro dele, o Silêncio substituiu todo o fragor das lutas que travara.

E então o Sábio concluiu:

– Agora, estás pronto para, quando chegar o momento, passares em paz o último e desconhecido Portal, aquele que vai do Silêncio da Plenitude para a Plenitude do Silêncio.

Autor: Rui Bandeira

Adaptação de um texto de autor anónimo lido no blog Southern Knight .

Fonte: A Partir da Pedra

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