Maçonaria e Igreja Católica, reconciliação improvável – Parte IV

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Uma reconciliação ou eventual aliança entre a Igreja Católica e a Maçonaria, como instituição, tão sonhada e sempre distante, permanecerá improvável enquanto as partes se valerem de arroubos retóricos e continuarem a alardear o privilégio e a propriedade da Verdade, sem examinar as reais causas do conflito com espírito fraterno, e não vislumbrarem as características complementares do Exoterismo (Igreja) e Esoterismo (Maçonaria), estratégia essa que continuará a alimentar uma série de equívocos e incompreensões, enquanto os seus reais adversários de fato evoluem, renovam-se e conquistam terreno. Nesse impasse, perde-se a oportunidade de construir uma sociedade melhor para todos.

Caso a maçonaria ceda às pressões para tornar transparente seus rituais simbólicos e sua tradição de sociedade iniciática, restando a sua essência e sua aparência aberta aos não iniciados em seus arcanos, a Ordem perderá certamente seu glamour e a aura de sociedade discreta, transformando-se em algo parecido com um clube social ou de serviço, comprometendo sua sobrevivência na autenticidade construída ao longo dos últimos 300 anos, formando protagonistas e construtores sociais.

Vale reiterar que maçonaria não é uma instituição secreta, pois as Lojas têm endereço, CNPJ, Estatutos e Regimentos registrados em Cartório, porém somente entra quem é convidado, não existindo, portanto, um guichê de inscrições. Ademais, “maçons desfilam pelas ruas com seus ternos pretos, alguns levam sempre na lapela um distintivo, outros até usam decalque no seu carro, ou trazem seus chaveiros com emblemas maçônicos” (Vasconcellos, 1999).

Até aqui, a maçonaria sobreviveu aos ataques sofridos, tanto internamente, no sentido de controlá-la, por interesses particulares e disputas de poder, bem como à indiferença de muitos de seus membros, como externamente, visando a enfraquecê-la e suprimi-la. A maçonaria não pode, isso sim, perder de vista a sua condição de escola de civismo, de liberdade, de fraternidade, de progresso, de solidariedade e de formação de líderes, onde se estuda moral, arte e ciência e debatem-se questões sociais de relevo com o foco na responsabilidade social e cidadã, visando à felicidade da humanidade.

É notório que maçonaria não é religião, não faz apologia de nenhum líder espiritual, pois não existe um magistério maçônico, não oferece sacramentos, não podendo, pois, opor-se ao da Igreja. Contudo, seus membros são espiritualizados e comungam uma dimensão religiosa não limitada a uma religião específica, consubstanciando-se no efetivo ecumenismo. A comparação com uma “seita” é inapropriada, pois essa expressão é atribuída a uma religião falsa sob o ponto de vista da Igreja Católica.

Também não é uma escola ocultista e não tem uma filosofia própria, a não ser a prática do bem e da solidariedade, que não lhe são exclusivos. A maçonaria sempre respeitou a opção religiosa de seus membros e não proíbe as divergências de pensamentos. É reconhecido o apoio que prestou a várias denominações evangélicas que enfrentaram preconceitos e dificuldades para instalação em algumas localidades no Brasil.

A Franco-Maçonaria apresenta-se como uma das vias de pesquisa do Conhecimento, via que não se choca com nenhuma crença. A arte de construir o templo, cara aos maçons da Idade Média, não interessará a todo homem preocupado com a autenticidade?” (Jacq, 1977).

Conforme demonstra Alec Mellor (1976), não existem dogmas maçônicos. “A própria noção de Landmark não se confunde com o do dogma”. Segundo ele, “a diferença está em que a Maçonaria não reivindica a Revelação…. longe de opor-se à Igreja, neste ponto, a incompatibilidade teria surgido se ela tivesse seus dogmas”.

Por outro lado, vislumbra-se estéril essa preocupação e expectativa de muitos maçons no sentido de que a Ordem e a Igreja assinem um tratado de paz e recebam as bênçãos para continuar os trabalhos como o fora nos tempos da maçonaria de ofício. A situação atual não se mostra incômoda a não ser para aqueles maçons inseguros, que não tem equilíbrio emocional, independência intelectual, coragem moral suficiente para assumir com todas as letras que são católicos ou de outra religião e maçons, e que tal postura não é dual, e sim complementar.

Já é hora de erguer-se uma ponta do véu. A Igreja, que já desfrutou de poder hegemônico e influência imediata junto à sociedade, tem os seus motivos regulamentares e contradições como todas as instituições e não pode sucumbir a pressões maçônicas para que se superem eventuais divergências. O Papa Francisco, na sua missão apostólica de liderança e renovação, enfrenta resistências da ala ultraconservadora e de alguns Príncipes da Igreja, além de outras verdades inconvenientes em seus bastidores.

Da mesma forma, sabe-se que muitos maçons ocupantes de posições não eclesiásticas nas igrejas, os ministros leigos, recebem por vezes pressão para que escolham ficar nos postos ou abandonar a maçonaria. Isso também depende da linha de pensamento de cada Diocese.

Não resta dúvida de que situações de decepção e frustração poderão ser enfrentadas por vários obreiros e familiares em suas comunidades religiosas, no sentido de sentirem-se discriminados ou considerados nocivos pelo fato de pertencerem à Ordem, e por vezes estigmatizados. Mas, isso é fruto de desconhecimento dos fatos e da história, sobre os quais muitos desafetos se felicitam pela incompreensão.

Ademais, acreditar que o fim do conflito oficial poderá acarretar o fim do conflito das ideias seria, no entanto, ilusório, pois resistências de religiosos e anticlericalismo de certos maçons, ainda que regulares, se circunscreve na seara da liberdade de pensamento e expressão. Nem por isso, Igreja e a Maçonaria deixarão de seguir seus caminhos. Lembrando Galileu Galilei:  Eppur si muove!.

Por sua vez, ainda que a qualificação de “universal” da maçonaria faça transparecer uma falsa ideia de unidade, na realidade enseja uma instituição dividida em várias Potências ou Obediências, com milhares de Lojas, que gozam de autonomia administrativa, e vários Ritos e estes com seus respectivos graus, estando esse ideal de união em estado latente, como uma aspiração, uma quimera. Há outros, entretanto, que veem essa diversidade como vantagem.

E o desafio que se impõe aos Mestres Maçons é justamente reunir o que está disperso. Apesar dessas “várias maçonarias”, algumas com orientações mais particulares, pelo menos o espírito de união, de fraternidade, de reconhecimento e a interação entre os obreiros na base permanecem inabaláveis.

Como a pretensa reaproximação entre Igreja e Maçonaria vislumbra-se improvável, que os obreiros incomodados façam a escolha que ditar a consciência! Se não estiverem seguros dos pilares da maçonaria é melhor que aceitem o conselho do arrependimento e peçam para sair de forma honrosa e não sofram mais por isso. A vida é muito curta para que se suporte mais esse conflito. Se servir de consolo, importa relevar que mesmo fora, continuam maçons, visto terem passado pela “iniciação”, podendo ser reintegrados quando assim o desejarem e estiverem plenamente seguros de que na maçonaria não há coisa alguma que atente contra suas crenças.

Enfim, a Igreja é eterna e a Maçonaria tem prazo de validade. Conforme ensina Michel Cugnet, citado por Benimeli (2007, p.666):

O mais belo futuro que poderia ser oferecido à Franco-Maçonaria seria que ela desaparecesse por não ter mais razão de ser, pois isto significaria, então, dizer que todos os seres humanos responderam sem restrição alguma ao ideal de Fraternidade e de Tolerância, vivendo em ‘Fé, Esperança e Caridade’, e que o Templo simbólico da Humanidade estaria terminado.”

“… examinem tudo e fiquem com o que é bom” (1 Ts 5,21)

Finis

Autor: Márcio dos Santos Gomes

* Trabalho apresentado na reunião de 02.10.2018 da Academia Mineira Maçônica de Letras – A Casa de Tiradentes.

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, um colaborador do blog.

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Referências bibliográficas

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BARROSO, Gustavo. História Secreta do Brasil – Volume 1. Porto Alegre: Editora Revisão, 1990;

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https://infovaticana.com/2017/11/27/asi-desaparecio-la-prohibicion-la-masoneria-del-codigo-derecho-canonico/

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CASTELLANI, José. A Ação Secreta da Maçonaria na Política Mundial. São Paulo: Landmark, 2007;

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https://opontodentrodocirculo.wordpress.com/2017/04/19/a-inconfidencia-mineira-a-maconaria-e-a-arcadia-ultramarina-parte-ii/

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https://opontodentrodocirculo.wordpress.com/2016/11/05/a-proclamacao-da-republica-e-a-maconaria-parte-i/

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Maçonaria e Igreja Católica, reconciliação improvável – Parte III

Imagem relacionadaCharge de c.1870 a respeito da Questão Religiosa

Na Revolução Pernambucana de 1817, também conhecida como “Revolução dos Padres”, e na Confederação do Equador, de 1824, ambas com foco em Pernambuco e de influência maçônica, a liderança principal encontrava-se nas mãos de padres e frades formados em Olinda. Em 1817, dos 310 ditos subversivos, havia 60 padres e 10 frades. Em 1824 havia 40 padres, com destaques para a liderança de Frei Caneca, e do Padre Mororó, outra importante liderança, ambos executados a tiros. “O iluminismo chegou ao Nordeste pelas mãos dos padres Oratorianos…” (Terra, 1996).

“A Constituição de 1824 estabelecia o catolicismo como religião oficial do Império. O Brasil havia herdado de Portugal o “regalismo”, que subordinava a Igreja ao Estado. O monarca, exercendo a chefia do Estado, era o representante supremo da Santa Sé no país. Os membros da Igreja eram pagos e sustentados pelo Estado, como se fossem funcionários públicos, por isso o imperador tinha o direito do “padroado”, podendo nomear os sacerdotes para os principais cargos religiosos. Ainda pelo direito do “beneplácito” (Art. 102, § XIV), as bulas e breves do papado somente eram aplicadas após a aprovação do imperador.” (Gomes, 2016)

“Com essa independência em relação a Roma, o padre brasileiro atuava politicamente, raramente respeitava o voto de castidade e muitos viviam com sua mulher e criavam filhos. A vinculação a partidos políticos facilitava a nomeação e promoção. Os bispos que defendiam a moralização da Igreja lutavam contra a subordinação ao império e muitas vezes entravam em choques com as autoridades, na tentativa de impor aos seus subordinados as doutrinas que vinham de Roma e não tinham o beneplácito do imperador.” (Gomes, 2016)

“Grandes políticos do império, inúmeros sacerdotes e membros das irmandades religiosas eram militantes de lojas maçônicas. Entretanto, em 1864, Pio IX, através da bula “Syllabus”, proibiu qualquer ligação da Igreja com a Maçonaria. Em 1873, o bispo de Olinda, dom Vital Maria de Oliveira, disposto a reformar o clero e as irmandades, ordenou que os padres abandonassem a maçonaria e os maçons fossem excluídos das irmandades religiosas, encontrando muitas resistências. O mesmo fez o bispo do Pará, dom Antônio de Macedo Costa. Aí eclodiu a chamada Questão Religiosa, também conhecida como Questão Maçônica ou Questão dos Bispos.” (Gomes, 2016)

“A situação se tornou crítica quando, durante uma festa em comemoração à lei do Ventre-Livre, o padre Almeida Martins negou-se a abandonar a maçonaria, sendo suspenso de sua atividade religiosa pelo bispo do Rio de Janeiro. Essa punição tinha sido antecedida por um discurso feito pelo padre Almeida Martins em loja maçônica do Grande Oriente, no qual o religioso exaltou a figura do visconde do Rio Branco, que, como primeiro-ministro, era Grão-Mestre da maçonaria, porém da ala monarquista.” (Gomes, 2016)

“Neste processo, o bispo de Olinda, D. Vital e o de Belém, D. Macedo, determinaram o fechamento de todas as irmandades que não quiseram excluir seus associados maçons. A reação do governo foi rápida e enérgica, quando em 1874, o primeiro-ministro, visconde do Rio Branco, então Grão-Mestre da maçonaria, determinou a prisão dos bispos. Os atingidos recorreram ao Imperador, que pressionou os bispos a voltar atrás. Não acatando a ordem foram condenados a quatro anos de prisão.” (Gomes, 2016)

“Dom Pedro II, embora não sendo maçom, era simpatizante e circulavam notícias de que participaria das discussões filosóficas das lojas e por isso não acolheu bulas de Pio IX que proibiam fiéis de aderirem à Ordem. Em 1875, o gabinete conservador do duque de Caxias anistiou os dois bispos. Apesar da anistia a ferida não foi cicatrizada e o Império decadente perdia o apoio do clero e da população, constituindo-se num importante fator para queda do obsoleto regime monárquico e para separação do mesmo com a Igreja. As punições contra as irmandades do Pará e de Olinda foram suspensas por Roma.” (Gomes, 2016)

Sobre a “Questão Religiosa” o Bispo-auxiliar-emérito de Brasília, o jesuíta Dom João Evangelista Martins Terra, no seu livro Maçonaria e Igreja Católica (1996), afirma:

Quem saiu vitoriosa dessa dolorosa questão foi a Igreja, que, forçando o Governo a recuar, deixou o Estado regalista desmoralizado e a maçonaria completamente abalada em seu prestígio. D. Vital passou à posteridade como Mártir da maçonaria”. Prossegue, assegurando: “Os ataques da imprensa maçônica ainda continuaram, mas o clero, escarmentado, saiu depurado.” (p. 61/62).

Na mesma obra, comentando sobre a situação dos bispos e padres maçons de então, ressalta que não é preciso negar esse fato, mas explicá-lo no contexto histórico, no sentido de que os envolvidos não se interessavam pelas doutrinas maçônicas e sim por desfrutar de ambiente secreto onde podiam discutir suas ideologias liberais ou ideias revolucionárias. Por outro lado, aduz que a maçonaria tinha-se infiltrado em quase todas as confrarias e irmandades da Igreja e pretendia dominar o próprio poder eclesial.

Ainda dentro da questão religiosa, o conflito entre a igreja e o governo rendeu agressões à maçonaria na Paraíba. A Revolta do Quebra-Quilos (1874-1875), considerada uma das mais importantes revoltas sociais no fim do Império, ocorrida da região Nordeste, foi motivada pela adoção do sistema métrico decimal francês (Lei 1.157, de 26 de junho de 1862), pela obrigatoriedade do alistamento militar (imposto do sangue) e pela criação do imposto do chão pago nas feiras.

Um dos efeitos colaterais foram os ataques a casas de maçons e lojas maçônicas, como foi o caso da loja maçônica “Segredo e Lealdade”, em Campina Grande, que foi saqueada e seus documentos destruídos. Os quebra-quilos, insuflados por padres, alegavam que várias autoridades na Paraíba e no resto do país pertenciam à maçonaria e eram responsáveis pela introdução daquelas medidas. Padres diziam que o imperador era maçom, assim como o fora seu pai e, portanto, haveria um complô maçônico no país (Gomes, 2016).

Durante o Estado Novo, nos anos de 1930 a 1945, a maçonaria enfrentou várias campanhas difamatórias, polêmicas e notícias falsas, fruto do desconhecimento de seus princípios, por várias organizações, decorrentes de pensamentos conservadores e de tendências autoritárias, alegando que os maçons articulariam a destruição de todas as pátrias, estando por traz de todos os acontecimentos revolucionários no Brasil e no mundo, segundo escreveu o intelectual católico Ramos de Oliveira em sua obra “A ilusão maçônica” (Gomes, 2018).

Na mesma linha, o supracitado Gustavo Barroso, também militante integralista e simpatizante do nazismo, atacou a maçonaria em várias de suas obras, defendendo a tese de que a mesma teria planos para o Brasil e que os principais acontecimentos da história brasileira seriam resultado de ações conspiratórias maçônicas. A imprensa integralista reforçou a associação entre maçonaria, judaísmo e comunismo (Gomes, 2018).

As transformações do século XX, no contexto social, tornaram as condenações sofridas pela maçonaria menos impactantes, vez que foram baseadas em momentos político-sociais em processo de evolução.

O historiador maçônico José Castellani (2007) analisa:

“O subdesenvolvimento intelectual do povo brasileiro, todavia, iria proporcionar ao clero de pequenas e médias cidades, a base popular de suas difamações contra os Maçons, gerando até fatos pitorescos: párocos que afirmavam que os Maçons adoravam ao diabo, realizando missas negras e cultuando bodes negros, faziam com que os fiéis de seus rebanhos, ricos em fervor religioso……. tivessem medo de passar em frente aos templos maçônicos e que se, forçosamente tivessem que fazê-lo, fizessem contritamente o sinal da cruz para se livrarem dos ‘maus fluídos’ daquelas ‘casas do diabo’”.

Todos esses acontecimentos ainda estão presentes na mente popular, fruto dessas sementes do passado, gerando descrédito e prevenção contra os maçons, sendo este um tema negligenciado pelos estudiosos e por muitos visto como exótico.

Entre 1751 a 1902 a Maçonaria sofreu severas condenações de parte da Igreja, todas sempre se reportando à In Eminenti, de Clemente XII, a “Bula Mãe”, adicionando-lhes elementos religiosos, sendo registrados vários pronunciamentos[7]. Em 25 de maio de 1917, as encíclicas e cartas apostólicas anteriores foram consolidadas no Código de Direito Canônico. A igreja declarava, no Cânone 2335, que “aqueles que se juntam a uma seita maçônica ou outras sociedades do mesmo tipo conspiram contra a Igreja ou contra as autoridades civis legítimas, estão sujeitos à excomunhão”.

No referido Código, por ter incorrido na excomunhão, dentre outras proibições, todo maçom deveria ser afastado dos sacramentos (confirmação, confissão, comunhão, unção dos enfermos), ainda que os pedisse de boa fé (cân. 2138, § 1); não poderia ser padrinho de batismo (cân. 765, n. 2), nem de crisma (cân. 795, n. 1). Para contornar esses constrangimentos e proporcionar um alento aos membros católicos, foram introduzidas na maçonaria as cerimônias de apadrinhamento, como a adoção de Lowtons, o reconhecimento conjugal e as pompas fúnebres.

Ainda em 1968, o padre jesuíta espanhol, José Antônio Ferrer Benimeli, no Livro “A Maçonaria depois do Concílio Vaticano II”, defendeu a tese de que a Maçonaria regular não deveria ser condenada. No seu ponto de vista, somente a Maçonaria irregular, ateia e anticlerical, seria passível de condenação.

O Código de 1917 foi revogado com a promulgação de um novo Código Canônico por João Paulo II, em 25 de janeiro de 1983, passando a constar do Cânone 1734 a seguinte redação: “Aquele que se entra para uma associação que conspira contra a Igreja deve ser punido com justa pena; aquele que promove ou dirige tal associação, no entanto, deve ser punido com interdito”.

Em virtude de várias interpretações e questionamentos, em especial no entendimento de que estaria implícita a aceitação de filiações na maçonaria regular, em novembro daquele ano, a Congregação para a Doutrina da Fé emitiu um comunicado declarando que os fiéis que pertencem às associações maçônicas estão em estado de “pecado grave” e não poderiam receber a “Santa Comunhão”.

Segundo Lutffala Salomão (1998),

A publicação da Declaração foi mais uma acomodação política dos minoritários insatisfeitos, feita nos últimos instantes, e pode-se até dizer a contragosto do Papa. Afinal ela afrontava uma decisão já tomada e aprovada, logicamente pela maioria de toda a Congregação reunida com a finalidade específica de renovação do Código”.

Comentando sobre a “Igreja e a Maçonaria Hoje”, o jesuíta D. Martins Terra (1996) ressalta que, no Brasil, o jesuíta Padre Alberton “publicou uma obra bastante apologética intitulada ‘A Maçonaria e a Igreja Católica, Ontem, Hoje e Amanhã’ (Edições Paulinas, S. Paulo, 1981)”. Resume dizendo que “a obra foi escrita antes da última declaração oficial da Congregação para a Doutrina da Fé, que veio esclarecer autoritariamente a questão e por um ponto final às dúvidas e controvérsias hodiernas” e que hoje certamente o referido Padre teria feito comentários menos utópicos e mais realistas (p.82/83). Ocorre que a obra citada é em coautoria com o Padre Benimeli, considerado um dos melhores historiadores contemporâneos da Maçonaria, para muitos o maior maçonólogo do mundo, na qual os jesuítas Valério Alberton e Giovani Caprille fizeram as versões e adaptações para o português e o italiano, respectivamente[8].

O também jesuíta, Padre Jesús Hortal Sánchez, doutor em Direito Canônico, da Arquidiocese do Rio de Janeiro, em artigo publicado na revista Direito e Pastoral, ano VI, nºs. 23-24, janeiro-abril de 1992. pp. 58-81, afirma:

Duzentos e cinquenta anos após aquela primeira condenação, a posição da Igreja Católica parece não ter mudado muito. Como veremos, a razão básica da última condenação (23/11/83) continua a ser a mesma: a inconciliabilidade entre a afirmação sincera e plena da fé católica e o relativismo que parece ocultar-se atrás do universo simbólico maçônico”.

Não obstante o Cânon 2335, do Código de 1917, não ter sido introduzido no Código de Direito Canônico de 1983, a posição minoritária vencida tem seus argumentos constantemente alardeados por uma corrente eclesiástica que acredita que para a maioria dos fiéis “é impossível formar um juízo exato sobre este assunto” e que a Igreja deve “indicar aos fiéis onde se escondem os perigos para a sua fé e para a sua vida cristã”. Registra o artigo que a Maçonaria constitui “um perigo extraordinário” e muito “mais sutil” que o comunismo[9], “porque este é um inimigo declarado da Igreja, e a Maçonaria é mais hipócrita” (Infovaticana, 2017).

Frei Boaventura Kloppenburg (1992), afirmou que:

Igreja e Maçonaria são dois senhores bem diferentes”….duas entidades inconciliáveis”, mas isso não significa que “não haja possibilidade de conciliação entre o pastor da Igreja e o cidadão católico afiliado a uma loja maçônica” e que “sempre encontrarão nos pastores da Igreja muita compreensão e pronta disponibilidade para ajudá-los, no que for possível, a fim de sair do estado de pecado grave”. Para ele, somente dessa forma “a conciliação é possível”.

Reforçando o argumento sobre a possibilidade de reconciliação, Frei Kloppenburg (1992, p.259/263), consignou que “Continuar na Maçonaria, conhecendo a Declaração de 1983, embora de fato nela tenha entrado de boa-fé, seria formalizar conscientemente o ato de desobediência em matéria grave”. Esse católico que se faz maçom é excluído, segundo ele, da comunhão eucarística, mas não é denunciado nem perseguido, estando a Igreja “sempre de braços abertos, pronta a receber o filho pródigo que retorna arrependido à casa paterna”.

Confundindo ainda maçonaria com religião, Frei Kloppenburg (1992) deduziu que “A Igreja não rejeitou a Maçonaria porque defende os princípios fundamentais do espiritualismo (ainda nisso, diz o religioso de forma surpreendente, ‘ela é digna de louvor’), mas porque fez questão de ignorar sistematicamente os princípios básicos do cristianismo”.

No entendimento daquele religioso, Roma tem o direito de “desaprovar e considerar irregular e infiel a Maçonaria como tal, pelo fato de ter riscado de seus rituais, orações e princípios toda e qualquer alusão à Augusta e Santíssima Trindade, ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, o princípio fundamental de qualquer Cristianismo”. Faltou alguém confidenciar ao Frei sobre certo Rito Escocês Retificado, praticado desde 1778, que é fundamentado nos pressupostos da religião cristã, baseado na fé na Santíssima Trindade, o que poderia ter amenizado as críticas[10]. Ainda segundo ele, a maçonaria se refere a Deus como um “… abstrato, vago e indeterminado Grande Arquiteto do Universo”.

Retorquindo à obra de Frei Kloppenburg de 1956, intitulada “A Maçonaria no Brasil”, o escritor maçônico A. Campos Porto publicou, em 1957, o livro “A Igreja Católica e a Maçonaria”, onde analisa os argumentos desabonadores desenvolvidos naquela obra, ratificando que:

A Maçonaria não combate o catolicismo, como não combate nenhuma religião, pois na sua organização fraternal ela abriga indistintamente irmãos que professam cultos diferentes…”. Enfim, que maçonaria não é “contra nenhuma outra religião que tenha por finalidade a grandeza, a felicidade e o respeito do homem concorrendo numa permanente colaboração para a Evolução, tudo sob a égide da Divindade”.

Por vezes subindo os tons do contraponto para o contexto da época, numa verdadeira troca de chumbo, Campos Porto (1957) aborda aspectos históricos para mostrar contradições no seio da própria Igreja Católica, bem como levanta questionamentos sobre as posições mais acolhedoras das demais religiões em relação à maçonaria e da sua contribuição ao longo dos tempos.

Dissidências de ambas as partes são uma realidade e os testemunhos de ex-padres e ex-maçons pululam nas redes sociais, conforme as experiências vivenciadas e de acordo com o público a que se destinam, sendo que em situações como essas, a primeira vítima é sempre a Verdade. Argumentos para reforçar decisões adotadas proliferam e, nesta seara, todos têm suas razões, por culpa ou não das instituições que não souberam dar as respostas adequadas, e que isso sirva-nos de escarmento, aproveitando o termo utilizado por Dom João Evangelista Martins Terra (1996), acima citado.

Continua…

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, um colaborador do blog.

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Notas

[7] – Bento XIV, Providas Romanorum, 18 de maio de 1751; Pio VII, Ecclesiam A Jesu Christo, 13 de setembro de 1821; Leão XII, Quo Gravioria Mala, 13 de março de 1825; Pio VIII, Traditi Humilitati, 24 de maio de 1829; Litteris Altero, 25 de março de 1830; Gregório XVI, Mirari Vos, 15 de agosto de 1832; Pio IX, Qui Pluribus, 9 de novembro de 1846; Quibus Quantisque Malis, 20 de abril de 1849; Quanta Cura, 8 de dezembro de 1864; Multiplices Inter, 25 de setembro de 1865; Apostolicae Sedis Moderatoni, 12 de Outubro de 1869; Etsi Multa, 21 de novembro de 1873; Leão XIII, Etsi Nos, 15 de fevereiro de 1882; Humanum Genus, 20 de abril de 1884; Officio Sanctissimo, 22 de dezembro de 1887; Dall’Alto Dell’Apostolico Seggio, 15 de outubro de 1890; Inimica Vis, 18 de dezembro de 1892; Custodi di Qualla Fede, 18 de dezembro de 1892; Praeclara, 20 de junho de 1894; e Annum Ingressi, 18 março de 1902.

[8] – Entre os dias 7 e 9 de setembro de 2017, Padre Benimeli participou do I Congresso Internacional de Ciência & Maçonaria, realizado em Brasília. Ver palestras em: https://opontodentrodocirculo.wordpress.com/2017/12/08/elevacao-e-declinio-da-maconaria-no-mundo/

[9] – A Igreja Católica assinou, em 24.09.2018, um acordo dando ao Partido Comunista Chinês poder de decisão na nomeação de bispos que controlarão a instituição naquele país. A Igreja disse que “vai perseverar em seguir um caminho adequado a uma sociedade socialista, sob a liderança do Partido Comunista Chinês”.

[10] – Registre-se ainda o Rito Sueco, mais praticado nos países escandinavos (Suécia, Dinamarca, Noruega e Finlândia, além da Islândia), e em muita menor escala nos Países Baixos e na Alemanha, com origem a partir de 1759 e sentido profundamente cristão. Ver também: “A Influência da Bíblia na Maçonaria”, em: https://opontodentrodocirculo.wordpress.com/2018/08/28/a-influencia-da-biblia-na-maconaria/

Maçonaria e Igreja Católica, reconciliação improvável – Parte II

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A maioria esmagadora das lojas maçônicas europeias dos séculos XVII e XVIII foi fundada por ingleses, irlandeses e escoceses, das mais variadas áreas profissionais, considerados hereges pela origem, dado que a religião anglicana era caracterizada como uma seita pelos inquisidores.

O Tribunal do Santo Ofício, o braço jurídico da Igreja na Europa Ocidental, como também era chamado a Inquisição, tinha como objetivo investigar e punir sumariamente os crimes contra a fé católica, assim considerados aqueles que pusessem em dúvida os princípios e dogmas da Santa Igreja Católica, Apostólica e Romana, bem como quem exercesse culto que lhe fosse contrário. Num segundo momento, funcionou também como instrumento de coação, de forma a manipular autoridades e obter vantagens políticas.

Apesar disso, não havia algo sólido para que a maçonaria fosse de plano acusada de ‘heresia’, face à sua origem eminentemente Cristã. As citadas Constituições jamais foram colocadas no Index[5] pelo Santo Ofício, nem uma tendência propriamente doutrinária era imputada pela Bula à maçonaria. Quando os inquisidores foram à procura dos membros, muitas lojas já não se reuniam, com o receio da excomunhão. Outras permaneceram na clandestinidade. Ainda assim, onde a Bula foi aplicada, a Inquisição julgou e puniu inúmeros maçons, bem como aqueles assim equiparados.

Na França, o parlamento não aprovou a Bula In Eminenti e por isso ela não entrou em vigor naquele país. O Cardeal de Fleury, Primeiro Ministro de Luiz XV, “que era acima de tudo um diplomata experiente e um estadista, considerou que a vida política francesa já estava bastante complicada para fazer da maçonaria um grande problema, e principalmente depois de Roma ter falado.” (Benimeli, 2007).

O governante preferiu desobedecer ao soberano pontífice a descontentar a nobreza e perturbar a serenidade daquele país, onde se verificava acentuada participação do clero católico nas lojas e dos maçons nas atividades paroquiais, tendo a maçonaria ajudado a promover a aproximação social e até política da nobreza dominante e da burguesia ascendente, pois os elementos mais brilhantes e mais ativos da aristocracia, de uma forma subliminar, faziam parte dela.

A influência do Iluminismo da segunda metade do século XVIII, com destaque para os adversários do catolicismo, como os franceses Rousseau, Voltaire, D’Alembert e Diderot e que levou à deflagração da Revolução de 1789, marcou o divórcio entre a Igreja e a maçonaria, que estava entranhada em todas as classes sociais. A partir daí, não somente as reuniões, mas a instituição maçônica, por adiantar-se a seu tempo, é que tem seu funcionamento impedido, pela sua identificação com as ideias de liberdade e de democracia, que se opunham ao absolutismo reinante.

Nos anos de 1880, Leo Taxil, escritor e jornalista escroque francês, iniciado na maçonaria aos 27 anos, e logo em seguida expulso por condenação em processo de plágio, divulgou uma série de panfletos contra a Maçonaria (as fake news da época), sendo inclusive recebido em audiência privada com Leão XII. Posteriormente, desmentiu tudo o que havia escrito, confessando que queria apenas ganhar dinheiro à custa da Igreja. Porém, o estrago persiste e o lixo literário antimaçônico produzido continua sendo reciclado e utilizado como referência, com vários autores recopiando-se uns aos outros, lançando mão de informações de segunda ou terceira mão, sem uma avaliação mais criteriosa e isenta.

Quase todos os argumentos em desfavor de um arrefecimento dos ânimos, no que tange a uma posição mais acolhedora por parte da Igreja, tem como destaque o Grande Oriente da França que, em 14 de setembro 1877, suprimiu as referências religiosas de seus regulamentos, além de ações provocativas que acirraram as posições. Tudo isso tem reflexos ainda hoje em nosso país, tendo em vista que o Grande Oriente do Brasil é reconhecido simultaneamente e mantém relações com a Grande Loja Unida da Inglaterra e com o Grande Oriente da França.

No período jacobino (1792/1794), a maior parte das lojas francesas foi fechada, com fugas e execução de inúmeros maçons que não compactuaram com a nova ordem estabelecida.  Apesar da sua influência decisiva na Revolução, esta também orientou fortemente os rumos da maçonaria, que funcionou também como veículo para expansão das ideias iluministas, atuando como um partido político camuflado.

Em Portugal, as duas primeiras lojas maçônicas modernas foram fundadas em 1733, sendo uma composta de protestantes e outra de católicos (Grainha, 1976). Segundo Clavel, citado por Benimeli (2007), as primeiras lojas foram erguidas em 1727, por delegados de Paris. Em 1738, ao ser promulgada a Bula condenatória de Clemente XII, a loja católica dissolveu-se, mas alguns dos obreiros não acataram a decisão papal, ingressando em outras clandestinas. A terceira loja estabelecida em Lisboa foi fundada em 1741, com maioria de franceses, pelo calvinista suíço naturalizado inglês John Coustos, e que se tornou um caso emblemático de atuação da Inquisição. Os estrangeiros que a fundaram acreditavam não estar abrangidos pela proibição.

John Coustos e o católico parisiense Alexandre Motton foram denunciados perante o Santo Tribunal em 1742, como maçons, em decorrência de comentários da mulher de um rival no ofício da joalharia. As autoridades eclesiásticas estimulavam as delações e os advogados de defesa sempre atuavam no sentido de exortar o acusado a que confessasse o crime que lhe era atribuído. A prisão deles e de seus companheiros foi determinada em março de 1743. Tal prisão ocorreu tão logo D. João V, tomado de loucura religiosa, promulgou um édito, sem a anuência das Cortes, segundo o qual se condenaria à morte, sem apelo, a qualquer que se comprovasse ser maçom.

Motton foi o primeiro a ser julgado e ficou nas prisões da inquisição durante um ano e três meses, sendo condenado a penas espirituais e a pagar pesadas custas. Simultaneamente, idêntico procedimento fora aplicado a Thomas Bruslé e João Bauptista Richart.

O processo de Coustos teve maior destaque, pois era o Venerável da Loja de Lisboa e não professava a religião católica. Por ser “considerado perturbador e causador de escândalos e de ruína espiritual das almas dos fiéis católicos romanos”, foi pedido que “ele fosse castigado com as penas mais graves, de acordo com o direito e as Bulas pontifícias”. Por ser “herege protestante” e de ter “introduzido e exercido na cidade de Lisboa a seita dos Pedreiros Livres, condenada pela Sé Apostólica”, sua sentença final foi de cumprir quatro anos nas galés (Benimeli, 2007).

Por interferência diplomática, Coustos conseguiu ser enviado para Londres, onde publicou em 1746 um relatório autobiográfico sobre a sua prisão e torturas em Lisboa, descrevendo a si mesmo como um herói que enfrentara os juízes da Inquisição. Referida publicação obteve grande repercussão e foi traduzida em várias línguas. Ainda segundo Benimeli (2007), documentos atualmente disponíveis “permitem corrigir um pouco a sua versão”.

Depois da morte de D. João V, em 1750, sucedeu-lhe no trono o seu filho D. José I, que reinou entre 1750 e 1777. Nesse período, em Portugal, lojas funcionaram com o favorecimento do primeiro-ministro, o Marquês de Pombal. Várias foram abertas em todas as cidades do Reino como filiais da de Lisboa e a maçonaria tivera então o seu prestígio, com forte influência francesa.

Consta que Pombal, maçom e iluminista, teria sido iniciado em Londres ou Viena, em 1745. Entre as ações modernizadoras, Pombal adotou uma Constituição liberal baseada na Inglesa, aboliu a Inquisição, expulsou os jesuítas de Portugal e das colônias (1759), além de afastar a igreja da administração do Estado.

Especula-se que a primeira Grande Loja fundada em Lisboa, foi instalada no convento de São Vicente e teve por Grão-Mestre um irmão do Marquês de Pombal. Estavam, portanto, a coberto dos privilégios e das imunidades de que gozavam os mosteiros e conventos, com grande pesar dos dominicanos, que rondavam as portas, mas não podiam entrar.

Gustavo Barroso, pensador católico, antissemita e antimaçom, no livro “História Secreta do Brasil” (2009), afirma que o Marquês de Pombal principiou “no reino lusitano a era dos maçons, que não passavam de cristãos novos, tanto que as duas palavras eram sinônimos e, no campo, pedreiro-livre era sinônimo de judeus”.

Com a morte de D. José I, em fevereiro de 1777, sucedeu-lhe no trono sua filha mais velha D. Maria I, que depôs Pombal, e as perseguições contra os maçons foram deflagradas pelo Intendente-Geral da Polícia Diogo Inácio de Pina Manique, que acumulava vários cargos, tornando-se o grande senhor do governo de D. Maria I.

A rainha, por sua vez, reintroduziu a lei do seu avô contra os ‘pedreiros-livres’, iniciando um novo e triste período para a maçonaria portuguesa. Os homens mais eminentes do país tiveram de fugir para livrar-se das garras da Inquisição então reativada. Devido às perseguições, os maçons não faziam registros em documentos, que poderiam cair em mãos de denunciantes ou de um “Santo Inquisidor”. A Inquisição foi finalmente extinta em Portugal em 1821 e na Espanha em 1834.

Na Itália, as lutas de unificação tiveram com protagonismo uma minoria militante mobilizada e organizada por associações como a maçonaria e a Carbonária, esta também chamada maçonaria florestal, porém de caráter político independente, eminentemente secreto e revolucionária, com valores patrióticos e liberais, fundada em Nápoles em 1810 e tendo como finalidade principal a unificação da Itália. A condição de maçons dos principais líderes carbonários, como Cavour, Mazzini e Garibaldi gerou reflexos na imagem da maçonaria.

Em junho de 1871, o novo governo da Itália instalou-se em Roma, completando oficialmente a unificação e, logo depois, reconhecendo o poder temporal de Pio IX sobre o Vaticano e o pequeno território vizinho, representando uma grande perda, já que o poder de Roma abrangera uma extensa região da península itálica[6]. A implicação no processo de unificação da Itália pode ser considerada o marco decisivo para aprofundamento das animosidades em relação à maçonaria.

O Grande Oriente Lusitano, considerado a primeira grande loja regular portuguesa surgiu em 1804, aprovando-se sua Constituição em 1806. Ainda naquele ano foi decretado o Bloqueio Continental, que impediu o acesso dos navios ingleses a portos dos países então submetidos ao domínio do Império Francês de Napoleão Bonaparte, que em 1808 provocou a fuga da Coroa Portuguesa para o Brasil. Naquele momento, Inglaterra e França disputavam a liderança no continente europeu. Em 16 de dezembro de 1815, o Brasil foi elevado à categoria de reino: Reino Unido a Portugal e Algarves.

Continua…

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, um colaborador do blog.

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Notas

[5] Index Librorum Prohibitorum (Índice dos Livros Proibidos): lista que continha a relação das publicações e teorias que iam contra os dogmas da Igreja Católica Romana, cujo conteúdo era considerado impróprio. Inicialmente foi uma reação contra o avanço do protestantismo e teria como objetivo prevenir a corrupção dos fiéis. A primeira versão foi promulgada pelo Papa Paulo IV em 1559. Uma revisão foi autorizada pelo Concílio de Trento (1545-1563). A última edição foi publicada em 1948 e o Index só foi abolido pela Igreja Católica em 1966, pelo Papa Paulo VI (Wikipédia).

[6] – Os Estados Pontifícios eram formados por um aglomerado de territórios, basicamente no centro da península Itálica, que se mantiveram como um estado independente entre os anos de 756 e 1870, sob a direta autoridade civil dos papas, e cuja capital era Roma (Wikipédia).

Maçonaria e Igreja Católica, reconciliação improvável – Parte I

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“… Do templo de Javé brotará uma fonte que irrigará o Vale das Acácias” (Joel, 4:18)[1]

A Maçonaria Operativa ou de Ofício[2], que dominava a arte de construir, nasceu e floresceu na Europa, sob o manto da Igreja Católica, por volta dos séculos XI ou XII, por intermédio das corporações ou confrarias dos mestres construtores de catedrais e mosteiros, que recebiam instrução e evangelização dos frades e protegiam os ensinamentos secretos da arquitetura e os interesses corporativos da classe.

A Igreja representava a maior instituição da época e o único poder capaz de assegurar o financiamento das construções, influenciando de forma marcante a vida cultural da Idade Média, constituindo-se a arquitetura religiosa a manifestação artística mais expressiva daquele período. Nesse sentido, o conhecimento, o saber, era monopólio da Igreja. A educação do povo estava aos seus cuidados.  Os governos só educavam os nobres.

Regulamentos na forma de cartas e constituições, descrevendo os compromissos dos membros, bem assim os conhecimentos e instruções morais e religiosas, de conteúdo explicitamente cristão, formavam os “Antigos Deveres”, “Antigas Constituições” ou “Manuscritos”, delineando um sentido espiritual e material aplicáveis aos obreiros construtores, precursores da maçonaria moderna. O Museu Britânico e a biblioteca maçônica de West Yorkshire guardam vários desses documentos, que formam a base das constituições maçônicas.

Como não existia um organismo central que tomasse decisões para a totalidade das guildas de ofício, cada uma conservava sua autonomia e usava um manuscrito dos “Antigos Deveres” que melhor lhes aprouvesse e sobre os quais os juramentos eram prestados. Os mais famosos são o “Poema Regius” ou “Manuscrito Halliwell”, provavelmente de 1390, e o “Manuscrito de Cook”, estimado de 1450.

Alguns autores advogam a precedência da Carta de Bolonha, de 1248, como o primeiro documento maçônico conhecido. Esses documentos já denotavam que os membros originais especulavam sobre o uso emblemático e simbólico de seus instrumentos e ferramentas no contexto das práticas de construção.

A partir do século XV, com o declínio da construção de catedrais medievais, do nascimento da burguesia e do comércio, sem as tutelas eclesiástica e feudal, e enfrentando a diminuição de seus membros oficiais, a situação das lojas começou a mudar, com a entrada dos ditos “especulativos”, que não eram necessariamente homens ligados à arte de construir, mas cidadãos burgueses em geral, militares e comerciantes. Importa ressaltar que aquelas entidades já contavam em seus quadros com empregados para cuidar do acervo e solucionar problemas técnicos e administrativos.

A mudança significativa se deu no final do século XVI quando, em número cada vez maior, os denominados Maçons Livres e Aceitos, substituíram os trabalhadores, transformando-se em sociedade de auxílio mútuo e num espaço para a livre manifestação do pensamento, com seleção dos membros “entre os homens conhecidos pelos seus dotes culturais, pelo seu talento e pela sua condição aristocrática, que poderiam dar projeção a elas, submetendo-se, todavia, aos seus regulamentos” (Castellani, 2007).

Ainda em períodos anteriores, começando a reinar a intolerância em muitos Estados europeus, as corporações de ofício não conseguiram impedir a evolução representada pela aceitação de homens não operativos nas lojas (os adotados), não se tratando ainda de intelectuais e filósofos, mas de diversos sectários, hermetistas e daqueles que desejavam entregar-se às pesquisas espirituais fora do dogmatismo e atraídos pela calorosa fraternidade, segurança e liberdade que tinham para fazer reuniões, face às proibições impostas pelas autoridades por receio de conspirações.

Como, à época, não havia templos maçônicos – o primeiro só seria inaugurado na Inglaterra em 1776 – as reuniões aconteciam no interior de tabernas ou nos adros das igrejas, que tinham um papel social muito importante. O grande atrativo eram os jantares e confraternizações que permitiam formar uma rede de networkingavant la lettre”, além de ser uma distração, com o atrativo do mistério. Nos templos religiosos havia bibliotecas e escolas de música, funcionando também como centros de cultura e educação e como locais de reunião e difusão e de troca de ideias.

Em 1709, o reverendo Jean Theofhile Désaguliers, pastor presbiteriano, filósofo francês, foi iniciado na Loja São Paulo em Londres, também conhecida como “A Loja da Cervejaria” ou “O Ganso e a Grelha”, no adro da Catedral de São Paulo, o que iria apressar o processo de transformação do arcabouço para a moderna maçonaria (Castellani, 2007).

Assim, em 24 de junho de 1717[3], atendendo à convocação de Désaguliers, a essa altura membro da Real Sociedade de Londres (Royal Society) e amigo de Sir Isaac Newton, quatro Lojas reuniram-se em assembleia e a Inglaterra deu o primeiro passo em direção à organização nacional por meio das Grandes Lojas, fundando a Grande Loja de Londres, sob a direção de um Grão-Mestre, permitindo à maçonaria ampliar o seu escopo ao criar um sistema obediencial, concentrando por decisão própria o poder legislativo total.

Na fase operativa dos pedreiros trabalhadores, as lojas maçônicas não estavam submetidas a nenhuma jurisdição ou a um poder central que as aglutinassem, a não ser os vínculos fraternais e profissionais. A criação da primeira Obediência Maçônica do mundo, formada pelos Aceitos, é considerada o marco da moderna maçonaria, com o enfoque de sociedade de pensamento ou de construtora social, visando ao aperfeiçoamento moral e intelectual de seus membros, de caráter cosmopolita e secreto. Ainda hoje, a Grande Loja Unida da Inglaterra é a instituição central que “reconhece” ou “não reconhece” as obediências ou associações nacionais.

Especula-se sobre a influência que teria tido a Royal Society, fundada em 1660, pelo elevado nível intelectual de seus membros, no nascimento da maçonaria moderna, com o registro de vários nomes de prestígio em comum e a marca do Iluminismo. As premissas básicas da religião e da teologia eram questionadas pelos seus fundadores, evitando-se, contudo, os problemas de fé.

Na sequência da fundação da Grande Loja de Londres, a maçonaria conquista toda a Inglaterra, o continente europeu e, seguidamente, todas as partes do mundo. De 1721 a 1736, estabelece-se na França; de 1733 a 1741, na Alemanha; de 1723 a 1735, nos Países Baixos; em 1731, na Rússia; de 1735 a 1754, na Suécia; de 1743 a 1749, na Dinamarca; de 1727 a 1728, na Espanha; em 1733, na Itália; de 1733 a 1743, em Portugal; em 1737, na Suíça; em 1738, na Turquia (Grainha, 1976).

Evidências históricas do Século XVII demonstram que na Escócia a maçonaria era bem mais forte do que a Inglesa. O historiador David Stevenson (2009) defende a tese de que a maçonaria tal como se conhece foi uma invenção escocesa, inclusive quanto ao uso da palavra “Lodge”, no sentido maçônico, enterrando um antigo paradigma e lançando luzes sobre o estudo das suas origens.

O jesuíta José Antônio Ferrer Benimeli, (2007), no prefácio à 5ª edição de seu livro “Arquivos Secretos do Vaticano e a Franco-Maçonaria”, esclarece que deliberadamente ignora as polêmicas mais recentes a respeito das origens da Franco-Maçonaria: Stevenson versus Hamill, ou da Escócia contra a Inglaterra, “no âmbito de uma nova disputa pelos poderes e as influências maçônicas internacionais onde a França toma partido em favor da Escócia, de preferência à Inglaterra...”.

O Grande Oriente da França foi fundado em 1728[4]. “A mais antiga Loja de Paris, e provavelmente da França, havia sido fundada, em 1725, pelos partidários dos Stuart, que, por seus complôs contra os soberanos legais da Inglaterra, haviam sido obrigados a se refugiar na França” (Benimeli, 2007).

Entre 1727-1728 criaram-se lojas na Espanha, que se chocaram imediatamente com a Inquisição. A Inglaterra abriu oficinas nas possessões coloniais e, em 1730, fundou-se uma loja em Calcutá. Nos anos de 1732-1733, lojas foram criadas na América; Florença, em 1732; Milão e Genebra, em 1736; e Alemanha, em 1737. Essa expansão passou, assim, a incomodar os poderes dominantes (Jacq, 1977).

Os ataques então sofridos pela Maçonaria se deviam em especial ao seu caráter iniciático e pelo “sigilo” decorrente das modificações dos rituais introduzidos pela nova base legal escrita por James Anderson, escocês e pastor da Igreja Presbiteriana em Londres, conhecida como Constituição de Anderson ou Constituição dos Maçons Livres, divulgada em 1723 (vide Nota 2 acima). O trabalho contou com o auxílio de Jean Theophile Désaguliers, sob a influência de intelectuais, aristocratas e dissidentes religiosos.

Como a Constituição de Anderson não considerou no “Parágrafo Relativo a Deus e à Religião” o aspecto “Cristão Trinitário” das “Old Charges”, onde um maçom era obrigado a ser apenas daquela religião “na qual todos os homens de bem estão de acordo”, inaugurou-se então o conflito com a Igreja, em face da retirada do catolicismo como a religião tradicional da maçonaria.

É bom lembrar que a Inglaterra ignorava a autoridade do Sumo Pontífice desde o rompimento com a Igreja Católica, em 1534, com a criação da Igreja Anglicana pelo rei Henrique VIII, por este não ter obtido o divórcio para casar-se com a sua amante. Com isso, o rei se autoproclamara único protetor e chefe supremo da Igreja e do clero da Inglaterra, confiscando os bens e abolindo o celibato dos padres.

As lojas maçônicas eram consideradas como centro de influência protestante inglesa e, portanto, contrárias aos interesses das famílias dinásticas europeias, de orientação católica. Passou também a incomodar os poderes dominantes de cada país, despertando o receio de conspirações para derrubada e tomada do poder pelo grande afluxo de nobres e aristocratas aos seus quadros.

Ao assumir um caráter liberal e libertário, ainda que clandestina, criou-se, então, um fosso entre a maçonaria e a Igreja Católica, “uma vez que esta, conservadora, apoiava os regimes monárquicos absolutistas, deles participando ou até comandando-os” (Castellani, 2007). “O desenvolvimento da burguesia, de relações de produção capitalista, e do Estado Nacional Absolutista eram mudanças que representavam novas forças, cuja evolução se fazia em detrimento da sociedade feudal que tinha na Igreja Católica seu principal sustentáculo ideológico” (Aquino, 1993).

Em função das reuniões de caráter secreto, que julgavam prestar obediência a um poder central de Londres, muitos governantes pediam providências ou soluções ao Papa. Assim, por pressão dos inquisidores, Clemente XII, aos 86 anos, cego e preso ao leito quase que constantemente, assinou, em 28 de abril de 1738, a Bula “In Eminenti Apostolatus Specula”, que atribuía o castigo da excomunhão a quem frequentasse ordens iniciáticas secretas, incluindo-se a maçonaria, que ficou então na mira da Igreja.

Esse foi o primeiro documento oficial do Vaticano condenando a maçonaria, embora já existissem éditos de Estados temporais proibindo reuniões de maçons, considerados suspeitos de ir contra a ordem pública. Tal medida se deu muito mais por motivos temporais, diante do incômodo provocado pelo clima de segredo e de juramento de que era cercada a maçonaria, do que por temores de distúrbios espirituais e religiosos.

O Vaticano além do poder temporal representava também o poder espiritual e ao condenar a maçonaria perpetuou uma reação própria de uma determinada época e projetou-a para o futuro “até os dias atuais, quando isso parece um grande e insustentável anacronismo” (Castellani, 1996).

Benimeli (2007), afirma:

Da documentação vaticana conhecida até o momento e que nós comentamos em capítulos anteriores se destaca um fato evidente: em Roma, não se sabia ao certo o que era a Maçonaria, nem o que ela pretendia; e isso apesar das informações pedidas a Haia e a Bolonha, apesar das denúncias recebidas de Florença”.

As proibições da Bula In Eminenti, por sua divulgação e proclamação, foram logo aplicadas nos países católicos, produzindo efeitos diversos, passando a maçonaria a ser considerada uma seita e uma congregação por aceitar simultaneamente pessoas de várias religiões e exigir um juramento solene de discrição e segredo absoluto aos seus membros sobre os assuntos tratados nas reuniões e do simbolismo envolvido.

Pesava ainda o fato de que, em época em que a liberdade de reunião era das mais restritas, a maçonaria apresentava-se como um espaço em que o intercâmbio de ideias era mais seguro. A Bula não conseguiu erradicar ou impedir a disseminação da maçonaria. Na Inglaterra os maçons católicos praticamente não foram afetados pelas proibições de Roma, dada a condição da maçonaria como instituição inclusiva e não sectária.

Os membros do clero que influenciaram a decisão do Papa tinham uma preocupação com as lojas maçônicas de algumas cidades Italianas, como Florença, Veneza e Pisa, onde teve curso uma verdadeira caçada à maçonaria e aos seus membros. Havia a desconfiança de que em todas as cidades da Itália estaria se espalhando “esse veneno”, e que eles se esforçariam para ganhar adeptos com o argumento de que todos os associados formariam um só corpo com a “Congregação” constituída na Inglaterra, antipapista e anticatólica. A punição acabou sendo estendida para toda a Europa continental.

Continua…

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, um colaborador do blog.

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Notas

[1]Bíblia Sagrada, Edição Pastoral. Good News Bible, American Bible Society – Joel, 3:18

[2] – As denominações variam conforme a fonte, considerando-se as principais (1) os “Collegia” romanos, já existentes na época pré-cristã; (2) as Associações monásticas, surgidas na século VII; (3) as Confrarias, surgidas no século XI; (4) as Guildas, a partir do século XII; (5) os Ofícios Francos ou Franco-Maçonaria, após o século XII (Castellani, 1987).

[3] – Referida data é aceita por convenção. A fundação da Primeira Grande Loja, no dia de São João, em 1717, consta da narrativa contida na Constituição de Anderson que foi reformada e republicada em 1738. Muitos autores atribuem a Anderson a criação da maçonaria simbólica, em função desse trabalho, mas há controvérsias. Para outros, Jean Theophilus Désaguliers é considerado o pai da Maçonaria Especulativa Moderna.

[4] – Consta do site a fundação em 1728, como Primeira Grande Loja da França, que tomou a sua forma e seu atual nome em 1773. Pratica a maçonaria liberal e define-se adogmática, não exigindo a crença em um ser supremo para iniciar novos membros. A Grande Loja Nacional Francesa foi fundada em 1913, a partir da loja do Grande Oriente de França. Há divergências entre essas datas, conforme a fonte de pesquisa.