De Deus ao Grande Arquiteto do Universo

Pierre Dupont, Portrait de Pierre François, huile sur toile, 76 x ...

Na abertura dos trabalhos na Grande Loja da França se fala “Á Glória do Grande Arquiteto do Universo”, e essa mesma invocação é repetida ao término dos trabalhos. Ao ouvir isso, os Irmãos consideram essa expressão como um fato original e raramente questionam a sua origem e significado profundo. Mas é necessário conhecer nossa História para saber de onde viemos. O presente artigo nos permitirá saber como chegamos a essa noção de Grande Arquiteto que é, pelo Rito Escocês Antigo e Aceito, a pedra angular do caminho iniciático. Vou tentar explicar como a Maçonaria iniciática passou de Deus ao Grande Arquiteto do Universo.

Desde o nascimento do Cristianismo até o fim do Idade Média, Deus está em toda parte e em tudo, e ai de quem contestasse este postulado. Na Maçonaria, até o século XVIII, os trabalhos se desenrolavam e seus juramentos eram realizados sobre a Bíblia, “na presença de Deus e de São João”. A invocação de Deus era vital na época porque, desde a Idade Média, a onipotência da Igreja Apostólica Romana governava não apenas a consciência, mas também todas as instituições, desde corporações menores até a realeza. Ela condenava à morte aqueles que não pensavam dessa forma. Desde o início da Maçonaria, a crença é, portanto, obrigatoriamente em Deus, Grande Geômetra (de acordo com a expressão de Pitágoras) que mede o universo com sua bússola, como mostrado por muitas iconografias do século XIV, e ainda permanece hoje na Maçonaria Anglo-Saxônica.

Em toda religião, a Palavra Divina tem uma virtude criativa. Assim, em Gênesis, seres e coisas adquirem sua existência no momento em que Deus as cria e dá nome a elas. Essa noção criacionista da Palavra ainda se encontra nas sociedades tradicionais, sendo uma condescendência primitiva, onde o recém-nascido só entra no estado de criatura após vários dias ou várias semanas, a partir do momento em que recebe um nome, resultado de um ato de fala. Dar um nome para um ser ou uma coisa é equivalente a um ato divino e fornece uma forma de poder para quem nomeia sobre aquele que é nomeado.

Então, dando um nome à divindade, o homem de alguma forma, garante poder sobre ela e a reduz para a dimensão humana. Os homens, com a cumplicidade de alguns religiosos, apreenderam a noção de Deus para dar-lhe não apenas um forma humana (isso é chamado de antropomorfismo), mas também sentimentos que o representam como um parente (um exemplo é o Deus Pai), um patriarca que pede para ser adorado, que se eleva a Juiz Supremo (veja o último julgamento) e que pune aqueles que pecam contra ele (ver Inferno e Purgatório). Deus é assim concebido à imagem do homem e é apenas um reflexo de sua personalidade. Aqueles que permanecem escravos de concepções imperfeitas e estreitas sobre o que é a Divindade, são suscetíveis a gerar fanatismo, fundamentalismo e perseguições, que são a negação da liberdade de consciência, como vemos com muita frequência em nossa sociedade atual.

Pela Maçonaria dos Antigos, à qual nós pertencemos, desde que a ideia permaneça única e homogênea nas Lojas e não difere da ideia de Deus do mundo profano, isto é, da Igreja Católica Romana, a ideia de um Deus Geômetra se tornou o início do renascimento do Grande Arquiteto do Universo (a primeira menção se deve a Philibert Delorme por volta de 1565, que o retirou de Platão), que não apresentou problemas aos irmãos: o Grande Arquiteto era Deus. Mas com o início do Iluminismo, se passa a  defender a ideia da religião natural e gradualmente abandonará a noção de espiritualidade, uma ideia que será adotada pela Maçonaria dos Modernos, como evidenciado pela primeira versão das Constituições de Anderson de 1723, cuja versão de 1738 e as versões a seguir, contém a crença em um Deus obrigatório. Enquanto isso, os Antigos (Escoceses, Irlandeses e Católicos do norte da Inglaterra) mantêm a crença em Deus, mas não a impondo como um dogma, ao contrário dos ingleses.

A questão de Deus na Maçonaria continuará na segunda metade do século XIX, mas o uso da palavra “Deus” se torna polêmico por certos Supremos Conselhos e certas Grandes Lojas. Existem várias razões para isso:

  • Campanhas anti-maçônicas em países católicos depois que o Papa perdeu muito de seu poder quanto ao Estado em 1870;
  • O renascimento de doutrinas ultramodernas favoráveis à Santa Sé;
  • A radicalização da doutrina católica (infalibilidade pontifical, proclamação da afirmação “fora da Igreja não há Salvação” que vai contra a liberdade de consciência);
  • E especialmente a atitude ultraconservadora da Igreja Católica que se manifesta contra a modernidade, liberdades individuais e coletivas, direitos humanos, democracia, sufrágio universal, ciência, filosofia.

Este fato foi debatido no Concílio dos Supremos Conselhos, reunidos em Lausanne de 6 a 22 de setembro 1875 para atualizar as Grandes Constituições de 1786, que regiam o Rito Escocês Antigo e Aceito, sobre a definição de Grande Arquiteto do Universo.

Para satisfazer todas as crenças e admitir todos os pontos de vista, os representantes dos doze Supremos Conselho presentes (dos vinte e três na época) usaram três expressões diferentes para definir o Grande Arquiteto do Universo, a saber:

  • No preâmbulo “a Maçonaria é uma instituição de fraternidade universal cuja origem volta ao berço da sociedade humana; ela tem como doutrina o reconhecimento de uma força superior que ela proclama existir sob o nome de Grande Arquiteto do Universo”;
  • Na Declaração de Princípios “A Maçonaria proclama, como proclama desde a sua origem, a existência de um princípio criador sob o nome Grande Arquiteto do Universo”;
  • Manifesto “Para elevar o homem à seus próprios olhos, para torná-lo digno de sua missão na Terra, a Maçonaria postula o princípio que o Criador Supremo deu ao homem também a liberdade mais preciosa, herança da humanidade inteira, que nenhum poder tem o direito de extinguir ou amortizar e que é a fonte dos sentimentos de honra e dignidade”. [1]

Três interpretações de Deus para satisfazer todos os maçons: Força superior endereçada aos agnósticos; Criador Supremo endereçado aos teístas; Princípio Criador para os deístas. Mas esse desejo de atender todas as sensibilidades religiosas é interpretado como uma recusa em se pronunciar e levará a rejeições dos teístas acusando os deístas de suavidade e, os agnósticos de ateísmo.

O Supremo Conselho da França e, depois dele, a Grande Loja da França, manterá a invocação de Grande Arquiteto do Universo definida, fora de todo o significado religioso, como Princípio Criador, abrindo o caminho para a Maçonaria não mais teísta, mas deísta, enraizada na tradição dos Antigos, respeitosos da liberdade de consciência e do direito de todos de exercê-lo em sua abordagem enquanto os Anglo-Saxões mantêm o reconhecimento de Deus e de sua mensagem revelada, assim como da imortalidade da alma, que o Grande Oriente da França suprime qualquer referência a Deus e o Grande Arquiteto e que a Bélgica, defendendo a imortalidade da alma, usa a expressão “Princípio Superior” que constitui uma aberração, porque implica que há um ou mais Princípios inferiores.

Durante o século XX, entre ciência e fé, a ideia de Deus está se tornando cada vez mais heterogênea com a perda de marcos metafísicos e a lógica do cientificismo. A noção de Deus está dividida entre dúvida e desconfiança da ciência e o surgimento de seitas que se tornam novas religiões, como a Cientologia ou Nascidos de Novo Cristãos (Born again Christians). Para nós, Maçons do Rito Escocês Antigo e Aceito, o Grande Arquiteto do Universo está a salvo destas discussões porque representa um símbolo, e um símbolo é interpretável por cada um de acordo com a abertura de sua consciência.

Para o Rito Escocês Antigo e Aceito, o Grande Arquiteto do Universo é o Princípio Criador. Etimologicamente, “princípio”, deriva do latim de principium, derivado de princeps, “que ocupa o primeiro lugar”. Significa “começo, origem dos tempos, causa original, fonte de todas as coisas”, então o adjetivo “criador” é supérfluo porque já está implícito no termo “princípio”. Pessoalmente, já anunciei várias vezes (e minha definição foi repetida no Journal de la Grande Loge de France), defendo a noção de princípio com P maiúsculo sem qualquer outro qualificador. Para mim este termo reconcilia todas as interpretações tomando uma dimensão transcendente aceitável por todos que procuram de boa-fé, sejam crentes ou incrédulo, mantendo uma religião venerando um Deus ou uma religião sem um Deus (como o budismo Ortodoxo).

Cristo em pé sobre o globo, cercado pelos quatro elementos (Lyon, Mathieu Huss, 1482)

Assim como Deus, o Princípio está sob o domínio do incognoscível, mas, diferentemente da religião, você não pode dar um nome sem cair em uma forma de profanação. É inefável que, sem nomear, a qualificação de Grande Arquiteto do Universo permite aos descendentes dos construtores que concebam uma entidade acessível à razão humana sem dar a ela poderes sobrenaturais que provavelmente favorecem a superstição. Se transpusermos essa qualificação de plano espiritual para o plano material, encontramos no Grande Arquiteto as noções da arquitetura de base, a saber: Ordem, Plano, Geometria, Harmonia, todas as noções que o homem pode integrar facilmente em seu sistema de pensamento.

Este princípio transcendente repousa não apenas na Palavra criativa, mas também na Luz (é necessário sabermos que a origem indo-europeia da palavra “Deus” denota a ideia de brilho). Esta trindade esotérica Princípio / Palavra / Luz, que não vai contra a interpretação religiosa da Trindade, baseada no tríptico Pai / Filho / Espírito Santo.

Nesse sentido, qual é a atitude da Igreja em relação a Maçonaria? Enquanto o Grande Arquiteto era Deus, nunca houve o menor problema. Mas a partir do momento em que os dois símbolos não coincidem mais a partir do século XVIII, as relações estragam e a atitude da Igreja se torna mais radical. Como os regimes totalitários político ou militares que a condenaram e ainda hoje a condenam, a Igreja Apostólica Católica Romana não foi deixada para trás em sua perseguição à Maçonaria. Para constar, mencionarei apenas os textos mais importantes publicados desde o nascimento da Maçonaria, na França e nos países subservientes a Roma:

  • A bula In eminenti apostolanus specula de 28 de abril 1738 do papa Clemente XII condenando os Francos-Maçons “que se reúnem na escuridão do segredo porque odeiam a luz”;
  • A bula Providas romanorum de Bento XIV de 16 de março de 1751, que confirma a penalidade de proibição e de excomunhão de 1738;
  • A carta apostólica Quo graviora de Leão XII de 13 de março de 1826, recordando a condenação da sociedade dos Franco-Maçons;
  • A cíclica Humanum genus de Leão XII de 20 de abril de 1884, confirmando a condenação da Franco-Maçonaria;
  • Mais perto de nós, a carta do Presidente da Congregação da Doutrina da Fé de 26 de novembro 1983, reafirmando a incompatibilidade entre a Igreja e Maçonaria; [2]
  • Deste último decorre a demissão em maio de 2013 do Pároco de Megève, infligido pelo bispo de Annecy o pedido do Vaticano de pertencer ao Grande Oriente da França, alegando que pertencer a Maçonaria e o serviço da Igreja Católica são incompatíveis.

Pessoalmente, considero que a condenação da Maçonaria pelo Vaticano aplica-se a Maçonaria sectária e anticlerical, mas nunca se referiu ao Rito Escocês Antigo e Aceito, porque nunca se opôs abertamente à religião, pelo contrário. Basta lembrar dessa passagem do manifesto do Concílio de Lausanne para se convencer disso:

“Para os homens para quem a religião é o consolo supremo, a Maçonaria [3] diz: cultive sua religião sem impedimentos, siga as inspirações de sua consciência; Maçonaria não é uma religião, ela não tem um culto …”.

Mais recentemente, outras Igrejas também tem se declarado hostis à Maçonaria, como a Igreja Anglicana cerca de vinte anos atrás, e as Seitas sectárias americanas como a Cientologia e os Nascidos de Novo Cristãos (Born again Christians), mas por diferentes razões: de fato, a Maçonaria Anglo-Saxônica, que é um quintal das Igrejas estabelecidas, é considerado um concorrente por Canterbury, uma vez que o número de fiéis caiu acentuadamente na prática do culto na Grã-Bretanha; por causa do importante lugar que ocupa nos Estados Unidos, representa um déficit para seitas de todos os tipos que passaram do declínio da espiritualidade para o benefício da religiosidade.

Após essa digressão no mundo da religião, vamos voltar ao nosso assunto.

O Princípio preexiste necessariamente a Palavra e para a Luz que são energias, isto é, forças. Até o espírito mais rebelde da metafísica é obrigado a observar que:

  • Por trás do princípio, existe a fonte, há energia,
  • Por trás da energia existe a lei, ou seja, um conjunto de regras,
  • Por trás da lei está o plano que permite o cimento de todas as coisas,
  • E que o plano apresenta o Arquiteto que o concebe.

E isso está em perfeita concordância com o conceito de Grande Arquiteto do Universo, ao mesmo tempo um símbolo menos redutivo e menos violador da consciência do que a interpretação de um Deus revelado, uma abordagem metafísica acessível a razão humana. Além disso, um símbolo é por definição interpretável e evolutivo de acordo com o conhecimento de cada um, seja cultural, religioso ou espiritual. Este símbolo tem, por outro lado, a vantagem de reconciliar religiões dogmáticas e religiões que não reconhecem a ideia de um Deus criador, tantos os crentes quanto os não crentes. Finalmente, este símbolo difere da ideia de Deus, pois ele representa um conceito, e nesse sentido ele não pode julgar nem Punir, muito menos ser adorado.

Assim, por reposicionamentos sucessivos na história da Maçonaria iniciática, o Grande Arquiteto do Universo foi gradualmente se destacando do conceito de Deus. O espaço assim criado entre Deus, proposto como o detentor da Verdade revelada, e o Grande Arquiteto do Universo, símbolo do Princípio, surgiu como um espaço de liberdade para as pressões por uma espiritualidade livre de todos os dogmas. Para o homem livre, elaborar sua própria ideia da Divindade se torna um dos desafios do século XXI.

No mesmo sentido dessa evolução do conceito da divindade, o lema dos Conselhos Supremos do Mundo, Deus meumque Juice (ou seja, o certo, para o Maçom Escocês, interpretar Deus de acordo com sua cultura e o grau de abertura do seu espírito), que combina harmoniosamente fé e razão e especifica o relacionamento reconhecido pelo Rito entre o Divino e o Homem, este último não sendo imposto, em sua qualidade de Maçom, de nenhuma outra maneira além da escolhida por sua consciência como um homem livre. E nessa afirmação do Grande Arquiteto do Universo, o Sistema Escocês respeita a liberdade de todos de pensarem ou não sobre a divindade. Após o Concílio de Lausanne, o Soberano Grande Comendador Crémieux declarou:

“Não damos forma ao Grande Arquiteto do Universo, deixamos cada indivíduo pensar o que quiser.”

Porque Deus é algo pessoal que não se compartilha. O Maçom Escocês não está esperando por uma resposta revelada, muito menos uma definição mundial. Aí reside a dificuldade da abordagem iniciática, mas descobrir toda a sua grandeza e procurar por seus mistérios nos permite alcançar harmonia e equilíbrio que garante a nossa plenitude como homens.

Atualmente, alguns cientistas de alto escalão têm uma visão da divindade muito próxima da nossa. Assim, o astrofísico Trinh Xuan Thuan, em Caos e Harmonia, publicado pela Fayard Editions, escreve:

“O universo é definido com extrema precisão. São necessários pouco mais de dez números (na verdade quinze números chamados “constantes físicas”) para descrevê-lo: o da força gravitacional, a velocidade da luz, aquela que dita o tamanho dos átomos, sua massa, a carga de elétrons, etc. No entanto, seria suficiente que um desses números fosse diferente para que o universo inteiro e, portanto, nós, não existíssemos. Uma relojoaria muito delicada porque, com mudanças de algumas casas decimais, nada acontece e o universo é estéril. O Big Bang tinha que ter alguma densidade. Estrelas produzem carbono. A Terra está a certa distância do sol. A atmosfera tinha uma boa composição. Tudo isso foi necessário para a vida aparecer. Milhares de outras combinações foram possíveis. Os físicos recriam [essa atmosfera] em laboratório, mas nenhum cria à vida. Essa competição de circunstâncias é extraordinária demais para que o acaso seja o único responsável.”

O autor usa a metáfora da relojoaria, como a definição de Voltaire de Grand Horloger (“É impossível para mim conceber ver um relógio sem relojoeiro”), mas especialmente detectamos a presença de um espírito acima de tudo, imaginação ou elucubração, como Nativos americanos que usam a frase “Great Manitou” (Grande Espírito) para designar Deus.

Em conclusão, o Franco-Maçom Escocês descobre que pertence a um conjunto universal unido governado pelo Princípio, símbolo da transcendência, sem o direcionamento a um Yahvé, um Deus, um Alá ou um Buda ou qualquer outro ídolo, conceitos que limitam aos preceitos de uma Igreja, com exclusão de todas as outras crenças. Através da iniciação, a fé se manifesta no nível de uma experiência interior independente de dogmas que restringem a liberdade de consciência.

Embora se recuse a lidar com questões da vida cotidiana (no nível religioso, político ou social) sem ignorá-la, o caminho escocês é um caminho exclusivamente iniciático em sua dimensão espiritual, que torna o maior grupo de Maçons do mundo.

Tradução: Rodrigo de Oliveira Menezes

Texto recebido por e-mail, sem o nome do autor, em Francês. Traduzido e publicado.

Fonte: Ritos & Rituais

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Notas

[1] – Independente da interpretação do autor, vale a ressalva que a Proclamação de Princípios do Concílio de Lausanne foi o ponto principal de embate entre os Supremos Conselhos, fazendo com que muitas das determinações acolhidas pelos seus representantes não fosse aceita ou seguida por Escócia, Estados Unidos e demais países alinhados. Existe um artigo muito bem escrito no próprio site que narra todo esse desenrolar podendo ser acessado pelo link: https://ritoserituais.com.br/2018/09/19/o-concilio-dos-supremos-conselhos-do-rito-escoces-antigo-e-aceito-parte-1/

[2] – A íntegra desse texto já foi publicada no site através do link: http://ritoserituais.com.br/2019/06/25/macom-pode-comungar/

[3] – Naturalmente, esta é a Maçonaria do Rito Escocês Antigo e Aceito.

Maçonaria e Secularismo

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O secularismo é um conjunto de princípios legais baseados no primado da liberdade de consciência; não é uma arma contra as religiões, nem uma religião civil. A universalidade da lei comum não deve se referir a nenhuma das várias religiões para se impor a todos os cidadãos. Uma loja maçônica é um lugar de aceitação da diferença, de pacificação de intercâmbios. Isso porque a Maçonaria considera que o secularismo é um princípio universal de pacificação social.

A oportunidade que nos é oferecida de questionar aqui as ligações entre a Maçonaria e o secularismo é particularmente bem-vinda.

Princípio emblemático da tradição republicana francesa, sacralizado pela Terceira República e considerado “intangível” até 1940, o secularismo é hoje o lugar de um profundo esquecimento e, no momento em que ele é perigosamente desafiado pelos “fanatismos” e intolerâncias, sejam eles culturais, políticos, econômicos, religiosos, raciais, não é mais propriamente defendido e a pior das confusões reina em torno da noção…

Às vezes, o secularismo é confiscado em favor de um projeto identitário e usado como uma arma contra o Islã. Outras vezes, e ao contrário, pode-se dizer, ele é reduzido a um simples princípio de tolerância a serviço de um projeto multicultural de organização de designações identitárias. Ele é também apresentado como uma espécie de religião civil – aquela daqueles que não teriam nenhuma religião – quando não é visto como uma mera máquina de guerra contra convicções e sentimentos religiosos!… Cada um à sua maneira, todos esses discursos constituem tantas desnaturações do secularismo republicano.

É verdade que em nosso país a Maçonaria é sempre associada ao secularismo. Com suas tomadas de posição vigilantes a cada suposta ameaça, ela seria até vista – sem trocadilho – como “guardiã do templo”! …

A inspiração das lojas

Desde seus primeiros passos, a moderna Maçonaria desenvolve um pensamento universalista.  As Constituições de Anderson – seu texto fundador – anunciam que ela pretende se tornar o “Centro da União, [permitindo] uma amizade sincera entre pessoas que poderiam ter permanecido a uma distância perpétua”, seja por razões políticas, religiosas ou nacionais.

A loja que trabalha nesse “centro da união” é uma comunidade que implementa uma “fraternidade eletiva” em busca do pluralismo social, político e religioso. Ela só pode existir e durar porque é soldada por rituais rigorosos e eficazes.

A Loja Maçônica em trabalho é também um método, uma disciplina que contraria toda a espontaneidade e se opõe a todas as inclinações naturais, para realizar uma mudança de estrutura mental para assegurar a superação de intercâmbios interpessoais em benefício da unidade da loja. É uma contra-cultura tradicional na qual os maçons, protegidos pelo segredo de seus intercâmbios, se tornam tantos “contrabandistas” heterodoxos.

O que esta contracultura propõe é, antes de tudo, o trabalho sobre si mesmo – os maçons falam do seu “templo interior” que torna possível encontrar a unidade interior, reconciliar-se consigo mesmo, a condição primeira para poder para realmente abrir para os outros que eles aprenderam a ver como irmãos e, ao fazê-lo, trabalhar para a melhoria da humanidade – no “templo da humanidade” – Esta contracultura se afirma como um continuidade espiritual, uma tomada de consciência da solidariedade universal.

Ela é o lugar de uma certa igualdade, marca de tolerância e de abertura. Em loja, aceitar a diferença do outro, aceitar sua palavra e a respeitar é, para todo maçom, um requisito absoluto. Mas a tomada em consideração desta alteridade é feita no âmbito de referências comuns que não podem ser transgredidas.

Com suas ferramentas tradicionais de pacificação progressiva das relações, a Maçonaria é, portanto, uma espécie de laboratório de sociedade, laboratório do laço social que faz germinar naturalmente o princípio do secularismo.

Embora supervisionadas de perto, as lojas maçônicas foram, na sociedade política muito fechada do século XIX francês, as únicas associações ativas toleradas e, portanto, naturalmente, os lares subterrâneos do essencial da vida intelectual e política do país. É por isso que, desde a capitulação de Sedan, a República surgirá toda armada de lojas. Léon Gambetta, e todos os Jules, Simon, Grévy, Favre e especialmente Ferry, para citar apenas essas eminentes personalidades da primeira geração republicana, todos vieram diretamente das lojas.

A construção republicana do secularismo

A República tem por ambição uma construção permanente do laço cívico além das designações identitárias de cada um, na busca e preservação do que é comum a todos. No final do século XIX e início do século XX, a Maçonaria será participará verdadeiramente dos combates políticos para a construção do secularismo do Estado e as concepções que ela defenderá não serão diferentes daquelas que a República vai se dedicar a implementar.

O secularismo é um conjunto de princípios jurídicos baseados no primado da liberdade de consciência. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 26 de agosto de 1789, tem a religião por uma “opinião” como qualquer outra (Artigo 1.0), que surge, portanto, exclusivamente da liberdade de cada um. Isso necessariamente decorre da igualdade de todas essas opções espirituais aos olhos da lei e, portanto, a igualdade de todos os cidadãos, independentemente de suas opiniões ou religião. A universalidade da lei comum que não deve se referir a nenhuma das diferentes religiões para se impor ao conjunto dos cidadãos é indispensável.

O secularismo torna-se, assim, um princípio de organização social.  O poder público e a esfera a ele associada, com vistas a constituir, estabelecer e garantir os direitos e liberdades que beneficiarão a universalidade dos cidadãos, deve estar sujeitos a uma reserva absoluta em matéria de opções espirituais.

A esfera privada é a dos indivíduos e das comunidades, livre no respeito a lei.  Cada cidadão devem poder exercer estas liberdades individuais e privadas, que são as liberdades de consciência, de opinião religiosa ou outras – e da expressão, fora do domicilio privado, em nível de espaço civil aberto a todos, no respeito ao direito comum e à ordem pública.

Ao mesmo tempo, o Estado garante a independência dessas duas esferas e da unidade da comunidade política dos cidadãos em torno de valores comuns compartilhados.

Em uma sociedade secular, o reconhecimento do direito de cada um construir e expressar sua diferença é, portanto, sempre concebida em um espaço de relacionamento, confronto e diálogo com os outros. Esse comportamento representa, obviamente, um ideal difícil de construir e alcançar, que produziu em nosso país um modo de vida que é objeto de um consenso duradouro.

Ninguém precisa conhecer as escolhas filosóficas ou religiosas uns dos outros, elas lhes pertencem. Ninguém precisa conhecê-las, especialmente o Estado, que se proíbe de os recensear. Aqui, novamente, a religião é entendida como uma escolha individual, uma opinião – que se pode mudar – e não como um pertencimento. O culto público, que é legítimo, é praticado em lugares que lhe são normalmente reservados  e isso se traduz em nosso país pelo surgimento gradual de uma cultura compartilhada da discrição das expressões religiosas na sociedade civil.

É a própria essência da tradição histórica e jurídica francesa que vê nessa discrição compartilhada a melhor maneira de garantir que todos tenham a oportunidade de viver juntos em uma convivência serena e pacífica, baseada no respeito aos diferentes pensamentos.

Fundamentalmente, se o secularismo francês respeita todas as opções espirituais, é antes de tudo na medida em que elas são expressões da liberdade de consciência dos cidadãos. Assim, a República estará, sem dúvida, menos preocupada expressamente com o indivíduo cuja afiliação a uma comunidade é adquirida do que com o ateu, o agnóstico ou o crente individualista que rompe com seu grupo, porque eles estão sozinhos e sua liberdade precisa da proteção do Estado, que também deve ser capaz de proteger o direito de acreditar e de blasfemar.

Os desafios do presente

A construção republicana se define por seu caráter universalista, do qual o secularismo é uma ferramenta essencial.. Atualmente, assistimos a um ressurgimento de manifestações de afirmação identitária inspiradas na religião, mas que vão muito além das questões de culto, desafiando abertamente o secularismo e os princípios republicanos. E também observamos que a liberdade de consciência e a igualdade de todos recuam e não são mais garantidas em certos espaços privados.

No exato momento em que, portanto, parece que nosso secularismo constitucional devia, sem dúvida, ser exercido, além dos serviços públicos, na proteção do espaço social, “um lugar de compartilhamento sob o olhar dos outros”, em face de demandas urgentes de expressão religiosa, percebemos que o secularismo perdeu muito de sua força simbólica. O Estado republicano tem o dever de se envolver na defesa de projetos universalistas diante  ataques comunitaristas de certos grupos de pressão.

Como as lojas sabem fazer, a República deve se esforçar para criar públicos comuns.  Ela deve saber lutar contra as discriminações com base na igualdade, apresentando o que é comum aos indivíduos e grupos sociais, e não através do reconhecimento identitário, que se fechará como uma armadilha implacável sobre o cidadão e seus direitos.

Um estado neutro, sensível apenas à liberdade do cidadão individual é um modelo moderno e portador de progresso para o futuro. Seu instrumento fundamental é o secularismo, que por si só é capaz de impregnar um pensamento universalista da diversidade, livre da vulgata culturalista que atualmente está se espalhando sem restrições alguma no debate político e na mídia. Ela aparecerá então como um princípio universal de pacificação social.

Autor: Jean-Philippe Hubsch
Tradução: José Filardo

Fonte: REVISTA BIBLIOT3CA

Booz ou Boaz?

Resultado de imagem para matrimonio de la ley del leviratoRuth and Boaz – David Wilkie Wynfield (1879)

Nas Lojas brasileiras muito se confunde quanto à forma correta do nome Boaz, uns dizendo Booz, outros Boaz. Neste texto, eu procuro mostrar duas coisas. Primeiro, que o correto é Boaz, o que, aliás, é trivial, pois, para tanto basta observar a pronúncia hebraica. Em segundo lugar — e principalmente — , eu procuro dar uma explicação sobre o porquê de os tradutores antigos, ao escreverem a Septuaginta e a Vulgata, optaram pela transliteração incorreta do nome.

O termo Boaz aparece 18 vezes no Livro de Ruth, 3 vezes nas Crônicas, 1 vez em 1 Reis, 1 vez em Mateus e 1 em Lucas.

Na edição maçônica norte-americana da Bíblia Sagrada (Heirloom Bible Publishers, Kansas), o termo é Boaz. Na Encyclopedia of Freemasonry, de Albert Mackey (1917), é Boaz. Em Light on Masonry, de Elder D. Bernard (1828), é Boaz. O Manual of Freemasonry, de Richard Carlile (uma exposée da Maçonaria publicada aos poucos na revista The Republican, em 1825), é Boaz. No The Complete Ritual of the Scottish Rite Profuselly Illustrated, editado por um Soberano Grande Comendador (anônimo), 33o, e complementado por J. Blanchard, no século XIX (sem data), é Boaz. Em Morals and Dogma, de Albert Pike (1871), é Boaz.

Em todas as obras antigas, enfim, o termo é Boaz. Isso não nos surpreende, se observarmos que na escrita hebraica massorética, o que temos é בֹּ֫עַז (Bṓʿaz) e que, além disso, não existem vogais repetidas no Hebraico, de modo que Booz é uma pronúncia incorreta. Nos tempos modernos, o Irmão Harry Carr, em seu artigo “Pillars and globes, columns and candlesticks”, publicado em Ars Quatuor Coronatorum, Transactions of the Quatuor Coronati Lodge №2076 London, em 2001, e apresentado antes na Vancouver Lodge of Education and Research, em 20 novembro de 1998, é Boaz. Nesse artigo, Harry Carr reproduz alguns trechos de exposées publicadas entre 1760 e 1765, nos quais o termo é Boaz.

Por que, então, alguns autores nacionais insistem que o correto é Booz ou, quando muito, que tanto pode ser Booz quanto Boaz? Há duas razões para esse erro. O primeiro deles — e mais óbvio — é o desconhecimento do Hebraico. Em geral o argumento usado é que na escrita hebraica antiga não existiam vogais até o surgimento dos sinais massoréticos (século X), o que, segundo eles, justificaria qualquer pronúncia. Porém, não atentam para o fato de o Hebraico não admitir vogais repetidas, o que prontamente elimina Booz, de modo que, neste caso, a suposta ambivalência não existe.

A segunda razão está nas traduções portuguesas da Vulgata. De fato, na Vulgata o termo é Booz. Se São Jerônimo (347–420 d.C.) traduziu o Antigo Testamento diretamente do Hebraico para o Latim, por que optou por Booz e não Boaz? Só vejo duas explicações. Primeiro, em sua época, ainda não existiam os sinais massoréticos, que indicam as vogais. Somente alguém absolutamente fluente em Hebraico poderia ler corretamente o texto hebraico. São Jerônimo, porém, era ilírio e só aprendeu Latim e Grego no início de sua vida adulta. Quando maduro, mudou-se para Jerusalém para estudar Hebraico. É bem provável que, diante de uma dúvida, consultasse a Septuaginta, a versão grega da Bíblia, que também traz Booz (Βοος, que deve ser lido como Βοός, pois não é possível, por razões morfológicas, dizer Βόος em Grego).

Nessa série encadeada de porquês, surge mais um. Por que a Septuaginta traz Booz e não Boaz? Por uma razão muito simples. Boaz é nome próprio e é oxítono. Em Grego, um nome próprio masculino pode terminar em –ας, como ὁ Ξανθίας (cuja pronúncia é ksanthías, donde veio o nosso Xântias), mas não pode jamais ser oxítona. O mesmo ocorre com os substantivos terminados em –ας, como ὁ νεανίας (o jovem), que não podem ser oxítonos. Por outro lado, substantivos terminados em –ος podem ser oxítonos, como θεόϛ (theós, pronuncie the-ós, com o th ligeiramente aspirado).

Dessa forma, os sábios que verteram a Bíblia para o Grego podem ter optado por Booz (Βοός) em vez de Boaz apenas para preservação do acento tônico na última sílaba, uma exigência natural se a intenção era não desvirtuar demais a pronúncia de um nome próprio e fazê-lo ser entendido pelo leitor ou ouvinte grego. Em outras palavras, se a intenção era fazer a história bíblica minimamente inteligível ao grego, os tradutores tinham de resolver a seguinte questão: ou preservavam a grafia BOAZ mas trocavam o acento tônico da última para a penúltima sílaba (ou seja, Bóaz) ou trocavam Boáz para Boós e preservavam a oxítona. O nome Boáz, oxítono, soaria muito estranho ao ouvido grego, mas não Boóz e tampouco Bóaz. O que é mais próximo de Boáz: Bóaz ou Boóz? Eles julgaram que era Boóz. Dessa forma, São Jerônimo, mesmo que estivesse ciente da correta pronúncia hebraica, pode ter optado por Booz por influência da Septuaginta, tendo preferido, sabiamente, manter uma coerência entre a versão latina e a versão grega já estabelecida há séculos.

Os autores maçônicos antigos devem ter sabido disso, pois todos, no mínimo, eram fluentes em Latim, com boas noções de Grego e alguns até de Hebraico, além de, sendo em sua maioria protestantes, terem em mãos a versão protestante da Bíblia, que, ao contrário da Vulgata, trazia Boaz, graças ao gênio de Lutero. Textos não-maçônicos também trazem Boaz, como Historiarum Totius Mundi Epitome, seção 16, de Cluverius Johannes, de 1667.

Conclui-se, assim, que a pronúncia correta é Boaz e que, além disso, Booz é apenas a herança de uma característica fonética do idioma Grego, que herdamos por intermédio da Vulgata. A opção pelo aparente erro fonético se deve à perspicácia dos antigos tradutores, convictos que estavam de tornar esse e outros nomes hebraicos inteligíveis aos ouvidos gregos, sem prejuízo do significado mais profundo das histórias que traduziam.

Autor: Rodrigo Peñaloza

Rodrigo é  Ph.D em Economia pela University of California at Los Angeles (UCLA), M.Sc. em Matemática pelo Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) e Ba. em Economia pela Universidade de Brasília (UnB). É professor adjunto do Departamento de Economia da UnB, Mestre Instalado, filiado à Loja Maçônica Abrigo do Cedro n.8, jurisdicionada à Grande Loja Maçônica do Distrito Federal.

Fonte: Medium

Para historiador, Papa Francisco derruba o evangelho e se aproxima da Maçonaria

Papa Francisco e Ahmad el-Tayeb, em Abu DhabiPapa Francisco e Ahmad el-Tayeb, em Abu Dhabi Foto:Getty Images

Professor emérito da Universidade de Roma, Roberto de Mattei critica documento assinado pelo Papa em Abu Dhabi como traição do passado e da doutrina.

Na última terça-feira, 5 de fevereiro, o Papa Francisco concluiu uma visita oficial aos Emirados Árabes Unidos. A viagem representou um marco nas relações inter-religiosas em todo o mundo: foi a primeira vez que um chefe da Igreja visitou um país da Península Arábica. Durante a visita, o Papa se reuniu com 150 líderes religiosos e assinou o Documento sobre a fraternidade humana em prol da paz mundial e da convivência comum, com Ahmad el-Tayeb, Grande Imame da Mesquita Al-Azhar do Egito.

A aproximação tem sido celebrada na maior parte do mundo. Católicos tradicionalistas – incluindo teólogos e historiadores -, no entanto, acreditam que as declarações do Papa Francisco feitas durante o evento derrubam a doutrina do Evangelho. Em outras palavras, que o Papa é um herege.

Documento sobre a Fraternidade convida “todas as pessoas que têm fé em Deus e fé na fraternidade humana a unirem-se e trabalharem juntas para que sirvam de guia às futuras gerações para promover uma cultura de respeito mútuo na consciência da grande graça divina”.

Comentando sobre a Arca de Noé, o Papa afirmou: “De acordo com o relato bíblico, a fim de preservar a humanidade da destruição, Deus pediu a Noé que entrasse na arca junto com sua família. Nós também em nome de Deus, a fim de salvaguardar a paz, precisamos entrar juntos como uma família numa arca que pode navegar pelos mares tempestuosos do mundo: a arca da fraternidade ”.

Para o historiador e católico tradicionalista Roberto de Mattei, o documento e as recentes declarações do Papa Francisco estão em descontinuidade com os ensinamentos dos papas Gregório XVI a Pio XI e o Quarto Concílio de Latrão, convocado pelo Papa Inocêncio III em 1213.

“Se os homens, de fato, em nome da fraternidade, são obrigados a viver juntos sem um fim que dê sentido ao seu sentido de pertencimento, a Arca se torna uma prisão, e a fraternidade – imposta em palavras – é destinada à fragmentação e ao caos”.

Além disso, segundo de Mattei, a ideia de fraternidade, nova palavra de ordem do atual pontificado, se alinha aos ideais da Maçonaria, condenada pela Igreja. A Maçonaria é ecumênica, exigindo apenas o reconhecimento do Grande Arquiteto do Universo – a religião da pessoa sendo livre (inclusive nenhuma, se acreditando em Deus dessa forma geral).

“Na realidade, a Maçonaria continua a ser condenada pela Igreja, mesmo que os homens da Igreja, nos mais altos níveis, pareçam abraçar suas ideias. Mas o ensinamento do divino Mestre continua a ressoar em corações fiéis: lá o amor pelo próximo só pode ser baseado no amor a Deus. E sem referência ao Deus verdadeiro, que só pode ser amado dentro da Arca da Salvação da Igreja, a fraternidade é apenas uma palavra vazia que esconde o ódio de Deus e do próximo.”

Segundo Chad Pecknold, professor de teologia da Universidade Católica da América, as declarações são controversas, mas devem ser interpretadas dentro de seu contexto. “A ideia de que Deus deseja a diversidade de cor, sexo, raça e idioma é facilmente compreendida, mas alguns podem achar intrigante ouvir o Vigário de Cristo falar sobre Deus querer a diversidade das religiões”.

Com informações de LifeSite Ne

Letícia Yazbek

Fonte: Aventuras na História

El Vaticano y los masones

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Las pésimas relaciones existentes entre la masonería y la Iglesia católica tienen sus orígenes en los años de la unificación italiana, cuando sociedades secretas de distinto tipo combatieron el poder temporal del papado y concretamente los Estados Pontificios. La masonería ha mantenido históricamente buenas relaciones, incluso de coincidencia, con otras confesiones cristianas. El Código de Derecho Canónico, en cambio, ha mantenido hasta 1983 la pena de excomunión para los católicos afiliados a la masonería. La reforma de este código coincidió con una declaración del cardenal Ratzinger en la que se apuntaba ya la línea de involución que ahora se expresa en un reciente artículo de L’Osservatore Romano, en el que se postula la incompatibilidad “entre la fe cristiana y la masonería”. En contra de esta opinión, el autor de este artículo piensa que la masonería es una sociedad laica, con una finalidad filantrópico-cultural y humanístico-filosófica, que tiene un ideario de fraternidad universal y perfeccionamiento del hombre lo suficientemente amplio y ambiguo en sus formulaciones para que tengan en ella cabida hombres de diferentes creencias y opiniones políticas… Esta misma posición es la que adoptaron Juan XXIII y Pablo VI, así como el antecesor del cardenal Ratzinger en su mismo puesto, el cardenal Seper, quien ya en 1972 propició la posibilidad de la presencia de los católicos dentro de la masonería.

El viernes 22 de febrero de 1985 la televisión italiana daba la noticia de que la Iglesia mantenía la incompatibilidad entre ser católico y masón. Al día siguiente, l’Osservatore Romano publicaba en primera página, a tres columnas, un artículo anónimo – aunque, evidentemente, reflejo oficial del antiguo Santo Oficio romano – bajo el título: Reflexiones a un año de la declaración de la Congregación para la Doctrina de la Fe. Inconciliabilidad entre la fe cristiana y la masonería. Artículo que ha suscitado toda una serie de comentarios sobre la política vaticana que van más allá del mero problema masónico.

Oportunismo político

Sobre la oportunidad o coyuntura del momento elegido caben múltiples especulaciones, que fundamentalmente giran en torno, no tanto de la próxima discusión parlamentaria del informe elaborado por la comisión que se ha ocupado de la famosa logia P-2, sino más bien de los contactos políticos que en estos días están teniendo lugar en Roma con vistas a la búsqueda de un sucesor de Pertini en las ya cercanas elecciones presidenciales. Algunos han querido ver otras connotaciones en el hecho de que dicho artículo comparta la titularidad de primera página con otro que lleva por título: Estados Unidos ayudará a los ‘contras’ en Nicaragua.

Pero, al margen de especulaciones más o menos sugestivas, es evidente que el intentar justificar las reflexiones vaticanas como aclaración a un breve documento aparecido en el mismo periódico, no hace un año, sino 15 meses (26 de noviembre de 1983), resulta tanto más llamativo por cuanto dichas reflexiones no consiguen su objetivo.

En primer lugar, ya el título no es excesivamente acertado. Hubiera sido más correcto haber hablado de fe católica, pues ciertamente no existe incompatibilidad entre fe cristiana y masonería, desde el momento que son muchos los obispos anglicanos, ortodoxos y luteranos que hoy día son masones sin problemas de fe cristiana, como en su día lo fueron el primado de la Iglesia anglicana, el doctor Fisher, y el patriarca Atenágoras, de la Iglesia ortodoxa, con quienes Juan XXIII, lejos de todo triunfalismo personalista, inició, con su sencillez y humildad características, una apertura de diálogo ecuménico en tina atmósfera de comprensión fraternal.

Subversión y naturalismo

Tampoco resulta excesivamente acertado el planteamiento inicial del artículo, en el que se dice que el juicio negativo de la Iglesia contra la masonería ha sido inspirado por múltiples razones prácticas y doctrinales. Entre las prácticas cita “la actividad subversiva” de la masonería contra la Iglesia. Entre las doctrinales, que la masonería tiene ideas filosóficas y concepciones morales opuestas a la doctrina católica, que llevan “a un naturalismo racionalista, inspirador de su actividad contra la Iglesia”. El traer como pruebas dos documentos de León XIII, la Humanum Genus, de 1884, y una carta al pueblo italiano de 1892, da la sensación de cierta pobreza y parcialidad histórica, no ya porque la Iglesia a la que se refiere León XIII no es la de hoy, ni los problemas políticos de la reunificación italiana tienen por qué seguir afectando todavía hoy a la Iglesia universal, sino porque la masonería actual tampoco tiene nada que ver con la del siglo XIX ni con una cuestión política concreta, pasada o presente.

Recordemos que solamente Pío IX y León XIII, en sus documentos y alocuciones, hablaron más de 400 veces contra la masonería, identificada en muchos casos con la carbonería (lo que es insostenible desde el punto de vista histórico) y siempre con las sociedades patrióticas y secretas que en aquellos años lucharon por la unificación italiana, en contra de los intereses temporales del Papa, que se oponía a la pérdida de sus territorios pontificios. El acento político de aquellos ataques quedó reflejado en el leit motiv que en todos ellos sintetizaba el pensamiento pontificio y que no era otro que el que la masonería y las sociedades secretas atacaban “los derechos del poder sagrado y de la autoridad civil”, que “conspiraban contra la Iglesia y el poder civil”, que “atacaban a la Iglesia y los poderes legítimos”. El propio León XIII, en la Humanum Genus, alude a las prohibiciones de la masonería por parte de ciertos Gobiernos y recalca que “el último y principal de los intentos” de la masonería era “el destruir hasta sus fundamentos todo el orden religioso y civil establecido por el cristianismo, levantando a su manera otro nuevo con fundamentos y leyes sacadas de las entrañas del naturalismo”. Y como prueba del proceder de la “secta masónica” y de su “empeño en llevar a cabo las teorías de los naturalistas”, añade que la masonería “mucho tiempo ha que trabaja tenazmente para anular en la sociedad toda injerencia del magisterio y autoridad de la Iglesia y a este fin pregona y contiende deberse separar la Iglesia y el Estado, excluyendo así de las leyes y administración de la cosa pública el muy saludable influjo de la religión católica”.

Es claro que hoy el Vaticano II propugna esa separación entre Iglesia y Estado, sin incurrir por ello en ideas naturalistas. Pero es igualmente importante constatar que la propia Iglesia, cuando poco después de morir León XIII (1903) promulgó el Código de Derecho Canónico (27 de mayo de 1917) que ha estado en vigor hasta el 28 de noviembre de 1983, sintetizó todas las normas doctrinales y prácticas habidas contra la masonería en el canon 2.335, en el que se decía que “los que dan su nombre a la secta masónica o a otras asociaciones del mismo género que maquinan contra la Iglesia o contra las potestades civiles legítimas, incurren ipso facto en excomunión simplemente reservada a la Sede Apostólica”.

Poder terrenal

Esta identificación de masonería como una sociedad que “maquina contra la Iglesia o contra las potestades civiles legítimas” sólo se puede comprender desde la óptica de la problemática planteada en Italia por la famosa “cuestión romana” o pérdida de los Estados pontificios, donde estaban simbolizados los dos poderes, el civil y el eclesiástico, el trono y el altar, o si se prefiere, la Iglesia católica y el poder legítimo gubernamental, coincidentes ambos en una misma persona, el Papa, en cuanto rey de Roma y jefe de la Iglesia católica.

En el nuevo Código de Derecho Canónico, el canon 2.335 ha sido sustituido por el 1.374, en el que se dice textualmente: “Quien se inscribe en una asociación que maquina contra la Iglesia debe ser castigado con una pena justa; quien promueve o dirige esa asociación ha de ser castigado con entredicho”.

Es decir, que ha desaparecido toda referencia a la masonería, a la excomunión y a los que maquinan contra las potestades civiles legítimas, tres de los aspectos básicos que sólo tenían razón de ser en el contexto histórico de un problema concreto italiano del siglo XIX, que, evidentemente, al no existir hoy resultaba anacrónico mantener. Y así lo entendieron los expertos que durante más de 20 años trabajaron en la redacción del nuevo Código de Derecho Canónico, a pesar de las presiones que a última hora se ejercieron, especialmente desde ciertos sectores fundamentalistas de la Iglesia, para que se mantuviera la excomunión contra los masones.

Golpe involucionista

Sin embargo -y en parte fruto de estas presiones-, el cardenal Ratzinger, prefecto de la Congregación para la Doctrina de la Fe, sorprendía el 27 de noviembre de 1983, es decir, la víspera de entrar en vigor el nuevo Código de Derecho Canónico, con un hecho sin precedentes en la historia de la Iglesia, publicando una “declaración sobre las asociaciones masónicas”, por la que, antes de ser nombrada y constituida la comisión pontificia de interpretación del código, se adelantaba en sentido restrictivo, por no decir negativo, haciendo decir al código lo que en modo alguno se recoge en él, echando por tierra uno de los pequeños avances que en los últimos años se había conseguido en la clarificación de las relaciones entre la Iglesia y la masonería.

En dicha nota se decía, en síntesis, que “permanecía inmutable el juicio negativo de la Iglesia respecto a las asociaciones masónicas porque sus principios siempre habían sido considerados inconciliables con la doctrina de la Iglesia, por lo que la inscripción en ellas permanecía, prohibida”, a pesar de que en el nuevo Código de Derecho Canónico no se mencionara expresamente a la masonería. Y añadía que “los fieles que pertenecieran a las asociaciones masónicas estaban en estado de pecado grave y no podían acceder a la santa comunión”. Finalmente, concluía diciendo que “no competía a las autoridades eclesiásticas locales pronunciarse sobre la naturaleza de las asociaciones masónicas”.

Ante la reacción de no pocas conferencias episcopales contra esta nota, que suponía una contradicción con lo practicado por la Iglesia desde el Vaticano II y por la propia Congregación para la Doctrina de la Fe, que había autorizado hacía ya 10 años, pública y oficialmente, la pertenencia de los católicos a ciertas masonerías, l’Osservatore Romano se ha visto obligado a hacer el reciente comentario, más desafortunado, si cabe, que la nota precedente y que supone una vuelta a la época inquisitorial. Y lo más grave es que tanto la declaración de 1983 como las reflexiones de 1985 están inspiradas en un documento tan reaccionario y erróneo como la declaración que los obispos alemanes hicieron el 28 de abril de 1980 contra la masonería.

Ritos y religión

Pues las reflexiones vaticanas del 23 de febrero de 1985 no son otra cosa que una glosa de dicha declaración alemana, a la que sigue en sus puntos fundamentales, como el relativismo, el concepto de la verdad en la masonería, las acciones rituales, la visión que los masones tienen del mundo, etcétera. El paralelismo es tanto más llamativo cuanto falso el planteamiento de la declaración alemana. Pues ya el punto de partida es gravemente erróneo al considerar a la masonería como una religión o pseudorreligión y a los rituales masónicos como si tuvieran un carácter sacramental.

Pues la masonería no es, ni ha sido nunca, una religión. Es una sociedad laica, con una finalidad filantrópico-cultural y humanístico-filosófica, que tiene un ideario de fraternidad universal y perfeccionamiento del hombre, lo suficientemente amplio y ambiguo en sus formulaciones para que tengan en ella cabida hombres de diferentes creencias y opiniones políticas, sin que esto suponga indiferentismo ni sincretismo, sino simplemente tolerancia y respeto con relación a la libertad de pensamiento y creencias de los demás, en una asociación en la que tienen cabida todos los creyentes -es decir, no ateos-, sean éstos cristianos, católicos, musulmanes, hebreos, budistas…

Y esto lo comprendieron muy bien Juan XXIII y Pablo VI, así como el antecesor del cardenal Ratzinger en su mismo puesto, el cardenal Seper, quien ya en 1972 propició la posibilidad de la presencia de los católicos dentro de la masonería. En concreto, intervino, tanto en Francia como en el Reino Unido e Italia, un representante del Vaticano, en la persona del entonces secretario de la Comisión Pontificia para los no Creyentes y consultor de la Sagrada Congregación para la Doctrina de la Fe, don V. Miano, encargado de estudiar los problemas que planteaba el canon 2.335 y de exponer viva voce que podía ser aceptada la interpretación de dicho canon según la cual se restringía la excomunicón sólo a los miembros de aquellas asociaciones “que se dedicaban a complós contra la Iglesia y los poderes civiles legítimos”. Posteriormente, el 19 de julio de 1974, el cardenal Seper hacía ya público un documento en este mismo sentido. Criterio que fue renovado el 12 de marzo de 1975, en respuesta a la Conferencia Episcopal Brasileña.

El Vaticano se contradice

De acuerdo con esta pauta, diferentes conferencias episcopales, como la inglesa, norteamericana,canadiense, francesa, escandinava, dominicana, etcétera, fueron adoptando medidas que resolvíanlos problemas pastorales y de conciencia planteados a tantos católicos que no veían motivos de incompatibilidad con su pertenencia a la masonería.

Ante el radical cambio de actitud que supuso el documento de Ratzinger del 26 de noviembre de 1983, varias conferencias episcopales pidieron aclaraciones a Roma en el sentido de saber quién tenía razón en todo este problema, si Ratzinger o su antecesor, Seper; preguntas que hasta ahora habían quedado sin respuesta. Finalmente, ha llegado una respuesta, indirecta en su formulación, con la que se pretende eludir la cuestión fundamental de la hostilidad de la masonería contra la Iglesia, que era el único motivo jurídico de incompatibilidad que existía en el código antiguo y se intenta volver a cuestiones doctrinales y de principios, basadas no en documentos masónicos actuales, sino en los testimonios y doctrina de León XIII. Cuando precisamente hoy día se sabe tanto del entorno histórico de aquella época y del confusionismo ideológico entonces existente, al menos en lo que a la masonería se refiere.

En síntesis, el documento que nos ocupa es una clara marcha atrás en la trayectoria seguida por la propia Congregación para la Doctrina de la Fe durante estos últimos años, y más concretamente desde el Vaticano II. Pues del reconocimiento explícito de que hoy día podían existir -y de hecho existen- masonerías que ya no maquinan contra la Iglesia, la conclusión lógica hubiera sido que, por tanto, los principios ideológicos y morales que inspiraban a dichas masonerías no eran opuestos a la Igleisa católica. Y para ello hubiera bastado la lectura y análisis de las constituciones y prácticas de dichas masonerías actuales, sin necesidad de remontarse a León XIII. Sin embargo, la conclusión ha sido precisamente la contraria. La masonería ya no máquina contra la Iglesia, pero sus principios doctrinales no han cambiado, y por tanto, los católicos que se inscriben en la masonería -realizando un simple juego de palabras- ya no están excomulgados, aunque “su inscripción constituye objetivamente un pecado grave”, y, por tanto, “no pueden acceder a la santa comunión”. Y de paso se desautoriza a las conferencias episcopales y autoridades eclesiásticas locales que en los últimos años se habían pronunciado de una manera más o menos abierta y favorable a la entrada y permanencia de los católicos en la masonería. En adelante se centraliza en Roma el juicio de valor sobre la naturaleza de cualquier logia del mundo -uno más de los absurdos del reciente documento-, aunque muy en la línea involucionista y de recorte de prerrogativas impuesta por la política actual vaticana.

Autor: José A. Ferrer Benimeli

*Benimeli é sacerdote jesuíta, profesor de Historia Contemporánea da universidade de Zaragoza e presidente do Centro de Estudios Históricos de la Masonería Española. Autor, entre otras obras, de Masonería e Iglesia católica, El contubernio judeo-masónico comunista y Masonería, Iglesia e Ilustración.

Fonte: El País

Este artigo foi publicado na edição impressa de 10 de março de 1985.

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O Discurso Ultramontano Antimaçônico

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Uma série de condenações por parte da Igreja Católica garantiram a consolidação do imaginário coletivo da Maçonaria que ficaria identificada com o perigo e a subversão. A primeira data de 1738, na carta apostólica In eminenti, de Clemente XII. Em 1751, se repetiria na constituição apostólica Providas, e desde então sucederam-se ininterruptamente: Pio VII – Ecclesiam a Jesu Christo (1821); Leão XII – Quo graviora (1825); Pio IX – Qui pluribus (1846), e entre outras a encíclica Quanta cura (1864); e depois Leão XI11 – Humanutn Genus (1884)[1].

O auge das condenações ocorreram entre os papados de Pio IX e Leão XIII, em um momento histórico adverso para o Papado, quando acontecia a unificação da Itália e o fim dos Estados Pontifícios. Durante os 25 anos do Papado de Leão XIII saíram cerca de 226 documentos para condenar e pôr em guarda o mundo a respeito da Maçonaria[2]. Trazendo embutido na Humanun Genus a crítica ao socialismo e ao naturalismo, nenhum outro Papa manifestou tanto a crença no complô quanto ele, e em como o segredo concorria para fazer com que ideias e instituições se equiparassem em um mesmo patamar de ameaça a sociedade.

Com efeito, há nelas espécies de mistérios que a sua constituição proíbe com o maior cuidado serem divulgados não somente às pessoas de fora, porém mesmo a bom número de seus adeptos. A esta categoria pertencem os Conselhos íntimos e supremos, os nomes dos chefes principais, certas reuniões mais ocultas e interiores, bem como as decisões tomadas, com os meios e os agentes de execução. Para esta lei do segredo concorrem maravilhosamente: a divisão, feita entre os associados, dos direitos, ofícios e cargos; a distinção hierárquica, sabiamente organizada, das ordens e graus; e a disciplina severa a  que todos estão sujeitos. [3]

Em 1917, foi promulgado o primeiro Código de Direito Canónico. Nele, mantém-se a proibição da filiação de católicos à Maçonaria, com a mesma motivação tradicional que remontava a Leão XIII, advinda do cânone 2335 “os que dão seu nome à seita maçônica ou a outras associações, que maquinam contra a Igreja ou contra os legítimos poderes civis, incorrem, pelo próprio Jato, em excomunhão simplesmente reservada à Sé Apostólica”, o Código estabelecia uma presunção de direito: a ação conspiratória (machinatio) contra a Igreja e o Estado seria algo intrínseco à Maçonaria e que não precisaria ser comprovado na prática[4].

No Brasil, a concepção de uma Maçonaria conspiradora dá-se no discurso oficial da Igreja, nas Constituições para as Províncias Eclesiásticas Meridionaes do Brasil, age no sentido de uma determinação aos párocos das leis da Igreja e suas aplicações. Publicada durante o período da Primeira Guerra, em 1915, incorpora em seu espirito a lógica já traçada na Humanun Genus e prescreve as condutas aplicáveis aos maçons individualmente[5].

Os perigos aos quais está sujeita a fé na modernidade reservam para a Maçonaria e para as sociedades secretas um lugar particular na lei eclesiástica; se a pena é inevitavelmente a excomunhão, é significativo observar as outras categorias de pecadores que acompanhariam o maçom em sua expiação, veja-se: “…das sociedades secretas, perversas e proibidas pela Egreja, das más companhias, das familiaridades com os ímpios e hereges,…”[6]

Para a não realização do casamento: “Quando os nubentes forem dados á embriaguez, quando for um impio, maçon, ou por outro vicio incapaz de cumprir as obrigações conjugaes…”[7]. Tratando-se de casamentos de impios e maçons, observe-se…”[8].

E, em se tratando da educação: “…nos tempos modernos, os impios e as seitas nefandas apregoem…”[9].

Os ímpios, portanto não possuidores de quaisquer freios morais e blasfemos, os hereges, que trabalhariam para corromper a sagrada doutrina cristã de sua pureza e aqueles que como os viciados em álcool, não possuem controle sobre suas próprias ações, estão ininterruptamente condenados à exclusão ou à dissuasão para os caminhos da Igreja. Ajusta-se aos maçons à imagem da maquinação e a ausência de entendimento sobre as razões de sua própria conduta que a hierarquia e o segredo alimentavam.

As interdições sacramentais aos maçons, se explicam facilmente, já que, por princípio, o maçom estaria colocado à margem da lei da Igreja, pela excomunhão. A explicitação de condutas quanto ao batismo, à confissão e ao casamento se destinariam a uma forma de controle social e põe restrições, no caso do batismo, ao padrinho, quando esse for reconhecido como maçom. Na confissão espera-se a rendição:

“Tratando-se de maçons e outros filiados a seitas e sociedades secretas, os confessores auctorizados, antes de absolve-los, deverão exigir que os mesmos tenham abandonado absoluta e positivamente, para sempre, a seita condemnada.” [10]

E quanto ao casamento a exortação vai no sentido da não realização:

“Procurem os Rvds. Parochos, quanto possível, impedir casamentos que prevêm terão mau resultado. Quando os nubentes forem dados á embriaguez, quando for um impio, maçon, ou por outro vicio incapaz de cumprir as obrigações conjugaes, é por obra de caridade abrir os olhos da outra parte; pois está na consciência de todos os males que resultam de taes casamentos, são quasi sempre sem remédio.” [11]

Essas restrições vão ao encontro do rastreamento social, à medida em que estas recomendações atinjam não somente de forma individual o maçom, mas nas possibilidades de trocas sociais em que ele se envolveria, como: o batismo, o casamento e os apadrinhamentos. Envolvendo mais pessoas o controle não ficaria somente a cargo dos párocos, mas de toda a sociedade. Nesse aspecto as preocupações com a educação transformam-na em lugar estratégico, que exige uma ação enérgica, já que abarca uma parcela considerável da sociedade que estaria aberta a penetração dos maçons. As palavras do Papa Leão XIII, transcritas literalmente na pastoral, traduzem uma visão dos combatidos:

A educação única que agrada os maçons, e que elles pretendem se deve dar a mocidade, é a que chamam civica, desenvolta e livre, isto é, aquella em que não se diga nenhuma palavra da religião. … Onde essa educação começou a se desenvolver e campear mais livremente, excluindo todo ensino christão, ahi bem depressa foram desaparecendo a probidade e integridade dos costumes, cresceram os erros mais abominaveis, e pulularam os crimes mais audaciosos e horrendos. [12]

Onde a imagem do complô secreto e seus participantes faria mais dano a Igreja senão na educação? Veiculando a noção de um perigo iminente para a sociedade que acabaria sucumbindo sob o signo daquilo que pulula e é horrendo, que se projeta da sombra com seus vícios contra a fé cristã. Segundo a Igreja, a educação laica inevitavelmente arrastaria consigo todo aquele que não delatasse tais crimes secretos à autoridade eclesiástica.

Saibam emfim todos os fiéis que incorrem em excomunhão latae sententiae, reservada ao Summo Pontífice, os que dão seu nome á seita maçônica ou carbonária, ou á outra do mesmo genero, que aberta ou clandestinamente machinam contra Egreja e os legitimos poderes, assim como os que prestam ás mesmas qualquer favor, os que não denunciam seus corrypheus e chefes occultos, até que tenham cumprido o dever da denunciação. CPLA n 169 – Const. Apostolicae Sedis, 12 Oct. 1869. [13]

Individualmente e na coletividade, o maçom nas falas oficiais da Igreja estará sempre em pecado e a sociedade haverá sempre que redimi-lo ou combatê-lo.

No início do século XX, segundo Marchette, Curitiba foi palco de um movimento anticlerical que seria denotado pela estratégia ultramontana e romanizadora da Igreja. A autora alerta para a metáfora da luz e das trevas, na reatualização dessa batalha durante a clericalização da sociedade brasileira. A maçonaria, na ótica do clero de então, se relacionava intimamente ao movimento anticlerical e a ela se referia com termos como ‘antros tenebrosos’, ‘ritos grotescos’ e ‘práticas ridículas’. Isso porque Euclides Bandeira, Dario Vellozo, Nilo Cairo, Sebastião Paraná e outros livre pensadores e anticlericais pertenciam à ordem maçônica[14].

A atuação dos maçons no Brasil até 1910, orientou-se no combate às ‘trevas’, que metaforicamente seriam o jesuitismo na Igreja, por meio da divulgação das ‘luzes’ advindas do iluminismo e da ilustração. Ao contrário da Igreja que iniciou um processo de alianças com os setores oligárquicos, a maçonaria orientou sua ação no sentido da instalação de escolas, voltadas para a alfabetização dos setores populares. Tal estratégia visava a ampliar seus quadros e romper com o senso comum que associava sua atuação com a noção da conspiração, tão difundida pela Igreja Católica[15].

A diabolização caricatural da maçonaria pela Igreja Católica, jamais ultrapassara a Humanuni Genus, embora houvesse associações em que o Grão-Mestre seria o próprio satanás, a maioria dos católicos modera a tese satanista[16].

O Vaticano apesar do desdobramentos do século XX, mantém a sua posição dos primeiros tempos, apoia-se nas posições expressas pelo Papa Leão XIII, e vê na maçonaria um instrumento privilegiado de Satanás e poderoso fator de heresia e de paganismo[17]. Os anticlericais no Paraná, até 1940, funcionaram para a Igreja como a ponta visível de um campo oposto. Segundo Balhana, os bens de salvação estavam sendo disputados na sociedade por meio da imprensa curitibana da época[18].

A paróquia de União da Vitória durante as décadas de 1930 e 40, pertencia à diocese de Ponta Grossa, tendo por Bispo D. Antonio Mazaroto, que escassamente à visitava. Do lado Catarinense a visita dos Bispos também é deficiente[19], e normalmente os ofícios religiosos ficam a cargo dos párocos. Frequentemente se vê entre a documentação, falas realizadas no sermão da missa alertando os fiéis para a ação maçônica, e ainda ocorriam troca de farpas por ocasião dos enterros de maçons.

União da Vitória, 5 de outubro de 1945.
Excelentíssimo senhor Presidente e demais membros da Loja Maçônica de Porto União – União da Vitória.
Na qualidade de principal representante, nesta cidade, da familia do extinto engenheiro EZEQUIEL PRIETO, sinto-me na obrigação de esclarecer a Vossas Excelencias que as considerações feitas pelo senhor vigário da Matriz desta localidade sobre a maçonaria, tomando, como oportunidade, a presença, na Igreja em apreço, dos restos mortais daquele senhor, não decorrem, diretamente ou indiretamente, da iniciativa da família de que se trata ou mesmo de pessoas de suas relações, mas sim daquele sacerdote que, em meu entender, conduziu a prática religiosa, à sua vontade.
A vista do que ora informo a Vossas Excelencias e do que já conhecem do caráter e convicção do falecido meu sogro, poderão, em verdade, concluir sobre as versões relacionadas ao presente assunto.
Pela atenção dispensada, sou mui grato a Vossas Excelencias e aproveito a oportunidade para reiterar os protestos de elevada estima e distinta consideração.
João Paes Filho [20]

Essa correspondência fora lida em Loja, segundo a ata da página 130, e não somente tida também fora transcrita na íntegra e comentada por Antonio Domit, que falou sobre o caso do falecimento desse maçom, recomendando conversarem com o padre. Cita ele o caso de uma parente, a qual o padre se negou a permitir a ida do corpo a Igreja, relaciona também várias casas em que os padres atrapalham e atacam os maçons, “Falou sobre o fanatismo das mulheres em favor dos padres, citando várias outras casas. Falou sobre os irmãos que se acham doentes e que deviam ou …, para evitar dissabores futuros, pois esteve doente e ninguém o visitou[21].

Este trecho mostra vivamente como a rede de solidariedade maçônica poderia ser requisitada e conferia ao cotidiano uma densidade incrivelmente real, ainda que não houvesse qualquer traço de anticlericalismo nas condutas desta Loja. O imaginário social coletivo parecia apontar como um todo para a mesma direção.

Ecos do anticlericalismo literário puderam ser percebidos na Loja União III, mas não uma proposta de ação efetiva, que se delineasse a partir daí, nem na imprensa, nem social. Se a força do movimento não arrebanhou adeptos, a força do estereótipo do maçom como o homem do segredo, ao que se viu proliferou.

Ainda que o discurso de ataque da Igreja não chegasse uniformemente a todas as paróquias, não se pode negar sua existência, mais das vezes é provável que atitudes antimaçônicas se deram devido muito mais às leituras que o integralismo proporcionava, do que ao conteúdo da pastoral propriamente dito.

Autor: Jefferson William Gohl

Nota do Blog

O texto acima é parte da dissertação apresentada como requisito à obtenção o grau de Mestre em História, Curso Pós – Graduação em História, setor de Ciências Humanas, Universidade Federal do Paraná, intitulada O Real e o Imaginário: A Experiência da Maçonaria na Loja União III em Porto União da Vitória – 1936 a 1950.

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Notas

[1] – BENIMELI, José F. Maçonaria e Igreja Católica.2 ed. São Paulo: Paulinas, 1983. p. 23

[2] – Ibidem, p. 40

[3] – LEÃO XIII. Sôbre a Maçonaria. In: Encíclica Humanuni Genus. Documentos Pontifiícios. Petrópolis, RJ: Editora Vozes. 1960. p. 08

[4] – HORTAl, Jesus. Maçonaria e Igreja: conciliáveis ou inconciliáveis. São Paulo: Edições Paulinas, 1993 (Estudos da CNBB,66). p. 42

[5] – Pastoral Conectiva dos Senhores Accrbispos e Bispos das PROVINCIAS ECCLESISAT1CAS de S. Sebastião do Rio de Janeiro, Marianna, S. Paulo, Cuyabá e Porto Alegre. Rio de Janeiro: Typ. Martins de Araújo, 1915.

[6] – Ibidem p. 14

[7] – Ibidem p. 94

[8] – Ibidem p. 117

[9] – Ibidem p. 377

[10] – Ibidem p. 73

[11] – Ibidem p. 94

[12] – Ibidem p. 377

[13] – Ibidem p. 22

[14] – MARCHETTE, Tatiana Dantas. Corvos nos Galhos das Acácias. Curitiba: Aos Quatro Ventos, 1999. p. 40

[15] – BARATA, Alexandre Mansur. Luzes e Sombras. A Ação da Maçonaria Brasileira. Campinas: Editora da Unicamp, 1999. p. 149

[16] – LACORDAIRE, Jérôme Rousse. Antimaçonismo. Lisboa: Hugin, 1999. p.44

[17] – Ibidem p. 48

[18] – BALHANA, Carlos A. de Freitas. Ideias em confronto. Curitiba: Grafipar, 1981.

[19] – CLETO DA SILVA, José Julio. Apontamentos históricos de União da Vitória (1768-1933) Curitiba: IHGEP, s/d. p. 169 e 206

[20] – Arquivo Particular Loja União III. Arquivo de correspondências. Pasta 1945, fl. 50

[21] – Arquivo Particular da Loja União III – Livro de Atas, p 130 A recusa em se aceitar a entrada do corpo na Igreja foi confirmada através do Livro Tombo da Igreja Matriz de Porto União.

Deísmo

Deísmo é um sistema filosófico ou atitude dos que aceitam a existência de um Deus destituído de atributos morais e intelectuais e que poderá ou não haver influído na criação do Universo. O deísta crê em Deus, mas não aceita religião nem culto, rejeitando toda espécie de revelação divina e, pois, a autoridade de qualquer Igreja.

Em maçonaria os sistemas ritualísticos podem ser divididos em ritos deístas, teístas e adogmáticos. Determina essa diferenciação o texto do ritual relativo à qualidade de consciência da presença de Deus nos trabalhos maçônicos e a interpretação dos Princípios morais simbolizados na lenda da cerimônia e no ornamento da Loja. Exemplo de rito deísta, o Rito Schröder foi concebido desde sua origem com um conjunto de símbolos e cerimônias que guardam equidistância de religiões. Seus praticantes têm autonomia de opção pessoal a partir da crença em Deus. O Rito Schröder selecionou da ritualística inglesa dos chamados “modernos” algumas referências à construção do Templo de Jerusalém, por Salomão, sem, contudo, ultrapassar os limites das  analogias pontuais.

O sistema ritualístico inglês caracteriza, hoje, o conteúdo teísta. Em 1717, a ritualística da primeira Grande Loja foi deísta, quando abriu as portas das Lojas para variadas opções religiosas pessoais dos seus filiados, sem especificar uma a ser obedecida. Em 1815, após o surgimento da Grande Loja Unida da Inglaterra, a primitiva Constituição de Anderson foi alterada, tornando-se dogmática e impositiva, atendendo preferência dos representantes da segunda Grande Loja de Londres, auto-proclamados “antigos”.

O Rito Moderno representa o segmento ritualístico adogmático. Foi um rito teísta a partir da sua estruturação com sete graus e assim permaneceu durante 91 anos. Em 1877, decidiu em convenção, a supressão da afirmação dogmática da existência de Deus e da imortalidade da alma. Adotou o princípio do respeito absoluto à liberdade de consciência da fé.

O Rito Escocês Antigo e Aceito começou teísta, na afirmação documental de Albert Pike, em nome do Supremo Conselho jurisdição Sul dos Estados Unidos. No entanto, em 1875, Supremos Conselhos sediados em países católicos, reagindo às fortes ações antimaçônicas, planejaram levar à Convenção de Lausanne, prevista para 1878, a proposição de tornar as definições do Grande Arquiteto do Universo não exclusivamente teístas, abertas a outras aproximações da espiritualidade dentro do respeito da liberdade de consciência individual. A proposição foi aprovada e incluída na Declaração de Princípios do rito. Com essa decisão o REAA tornou-se deísta durante poucos dias. Em seguida ao encerramento da Convenção de Lausanne, o Supremo Conselho – Sul dos Estados Unidos contestou a Convenção e, apoiado pelos Supremos Conselhos da Escócia e da Grécia, recomendou aos Corpos irmãos do mundo a reformulação da Declaração de Princípios a respeito da consciência livre sobre a compreensão do Grande Arquiteto do Universo. Fixou o sentido teísta, impondo as crenças em um Deus pessoal e no dogma cristão da imortalidade da alma. A divisão no REAA persiste até o presente, alimentada pelo antagonismo dualista entre Supremos Conselhos teístas personalistas e deístas não personalistas.

Nota do blog:

Desconhecemos quem é o autor do texto.

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A Igreja e a Maçonaria

Tolerância é a palavra chave sobre IGREJA e MAÇONARIA. Primeiramente devo apresentar alguns verbetes para que cada Irmão compreenda bem os limites desse artigo:

DOUTRINA: conjunto de princípios que servem de base a um sistema religioso, político ou filosófico;
DOGMA: ponto fundamental de uma doutrina;
RELIGIÃO: conjunto de práticas e princípios que regem as relações entre o homem e a divindade;
IGREJA: templo ou comunidade dos cristãos;
CRISTÃO: o que segue a religião de Cristo; 
FÉ: crença, confiança;
TOLERÂNCIA: admissão e respeito quanto a opiniões contrárias à sua. 

Isto posto, trabalharemos sobre a situação entre a Sublime Ordem Maçônica e a Igreja Católica Apostólica Romana.

Lá pelos idos da Idade Média Tardia, a Instituição Maçônica e a Instituição Religiosa andavam de “braços dados”, era época das construções das grandes catedrais. Com a transformação da Maçonaria Operativa em Maçonaria Especulativa, por conseguinte a iniciação de “mentes críticas” que se insurgiram contra dogmas políticos (origem divina do poder dos reis) e também religiosos (venda de indulgência), começaram as acusações que até hoje nos atingem. 

A preocupação da Instituição Igreja era a perda do poder temporal sobre o povo; nossos Irmãos não questionavam aspectos da fé cristã, até mesmo porque isto contrairia o princípio maçônico da liberdade religiosa. Como no sentido puro de religião não havia nada que condenasse os Maçons, porém, as autoridades eclesiásticas criaram regras que justificariam nossa execração, ou seja, por ordem dos homens foi acrescida à doutrina da Santa Igreja a incompatibilidade de ser cristão e maçom ao mesmo tempo. 

O primeiro documento publicado pela Igreja Católica contra a Maçonaria é datado de 1738 assinado pelo Papa Clemente XII, seguido de vários outros documentos, mas também houve grandes períodos de tempo em que a Igreja foi tolerante para com nossas atividades e vários Papas não se manifestaram. Na atualidade vivemos uma situação antagônica entre o que está escrito e o que é praticado.

Alguém acredita que nos dias de hoje um Padre vai deixar de ministrar os sacramentos a um Maçom? Se algum Irmão me perguntar se os homens que compõem a Santa Igreja Católica estão errados quanto ao posicionamento da doutrina, eu direi que não. Toda Instituição tem leis e no caso da Igreja Católica é o Código de Direito Canônico, que deve ser cumprido pelos seus membros. PORÉM, o problema não está na Lei, esta sim na manifestação/interpretação que algumas autoridades fazem da Lei.

No Código anterior (1917) havia a citação explícita da Maçonaria, abaixo o texto integral disponibilizado pelo Vaticano, apenas destaquei algumas palavras: 

Los que dan su nombre a la secta masónica o a otras asociaciones del mismo género, que maquinan contra la Iglesia o contra las potestades civiles legítimas, incurren ipso facto en excomunión simplemente reservada a la Sede Apostólica” (http://www.vatican.va/) .

O atual código (1983) no Cânnon 1374 diz:

Quien se inscribe en una asociación que maquina contra la Iglesia debe ser castigado con una pena justa; quien promueve o dirige esa asociación, ha de ser castigado con entredicho.” (http://www.vatican.va/ archive/ESL0020/__P51.HTM)

Compreenderam? É justa esta posição! Imagine se dentro de sua Loja houvesse um “Irmão” que pertencesse a uma associação que trabalhasse (maquinasse) contra a Maçonaria, ele não seria expulso (“excomungado”)? Não tenham dúvida que daqui a alguns anos a Instituição Igreja verá a Instituição Maçônica como uma organização de homens de bons propósitos. Por causa da estrutura secular e do respeito aos mandatários antecessores, a atualização de posicionamento é muito lenta.

Lembram que em 1611 o Santo Oficio quería mandar para a fogueira Galileu Galilei por ele ter dito que a Terra girava em torno do Sol e não o contrario? Ele negou suas teorias e escapou da atrocidade, a Santa Igreja só reconheceu que ele estava certo em 1983, ou seja, 372 anos depois, portanto continuemos nossos trabalhos e tenhamos tolerância. 


Autor: Sérgio Quirino Guimarães
ARLS Presidente Roosevelt, Nº 25 – GLMMG



Nota do Blog;

Para uma melhor compreensão do tema e entendimento dos reais motivos que levaram à publicação da Bula “In Eminenti“, pelo Papa Clemente XII, e seus desdobramentos sugerimos a leitura dos livros Maçonaria e Igreja Católica e Arquivos Secretos do Vaticano e a Franco-Maçonaria, ambos de autoria do Padre Jesuíta José A. Ferrer Benimeli.

As Religiões e a Maçonaria

“A devoção não está no joelho que se dobra, mas no coração, que não se vê dobrar” (Matias Aires)
 
Desde a antiguidade, por religião entende-se a relação do homem para com Deus ou com o divino. A religião assenta na diferença essencial que existe entre o homem e o animal, pois os animais não têm nenhuma religião. A diferença entre o homem e o animal consiste na consciência, na qual o homem tem por objeto de sua reflexão sua própria essência, sua própria espécie. Essa consciência pode converter em objeto outra realidade, outras coisas, de modo especial, seu próprio ser. Sinal disso é o pensamento, a linguagem e o amor humanos. Essa diferença entre o homem e o animal não só fundamenta a religião, mas também seu próprio ser infinito. Nisso está sua verdade. 
 
Por outro lado, a falsidade da religião está em o homem tornar independente de si mesmo ou seu próprio ser infinito, separando-o e apondo-­o como diferente de si, produzindo a bipolaridade Deus e Homem. 
 
O medo do desconhecido e a necessidade de dar sentido ao mundo que o cerca levaram o homem a fundar diversos sistemas de crenças, cerimônias e cultos – muitas vezes centrados na figura de um ente supremo – que o ajuda a compreender o significado último de sua própria natureza.
 
O ser humano é uma criatura instintivamente religiosa. 
 
Deus é o nosso mais forte arquétipo. As religiões com seus princípios e orientações para a busca do superior, do divino, de Deus e de suas leis, auxiliam extraordinariamente o campo íntimo das criaturas que as aceitam. Mas será sempre necessário praticar e exemplificar os ensinos edificantes e não somente frequentar os templos e executar as cerimônias exteriores dos cultos religiosos. 
 
A primeira missão das religiões é provar que existe um Deus que nos criou e que, se o nosso corpo físico é perecível, a nossa alma é eterna. Provar também que Deus, pela sua imensidade, está em tudo que existe. E sobre o respeito que devemos ter por Deus e a reverência que a Ele devemos consagrar. As religiões foram sempre um conjunto de práticas pelas quais os homens simples procuram alcançar a amizade de Deus, os bens supremos da saúde, da força, da paz, da riqueza.
 
Há a que se aplica especialmente em purificar a ideia de Deus e em afirmar a indestrutibilidade do espírito humano; outra em mostrar a existência de uma Ordem Universal realizando-se por Leis; outra ainda, em exaltar o sentimento do dever ou amor ao próximo e a compaixão por todas as criaturas. 
 
Os valores religiosos verdadeiros, quando não deturpados em sua essência, constituem-­se em poderosos incentivos para o crescimento e iluminação das almas, por sugerir-­lhes, através da fé e da esperança, melhores condições no pensamento e nas ações. 
 
A Maçonaria proclama, desde a sua origem, a existência de um PRINCÍPIO CRIADOR, ao qual, em respeito a todas as religiões, denomina Grande Arquiteto do Universo. 
 
Em si própria a Maçonaria não é uma religião. Mas por isso mesmo que se abre a todos os homens, sem distinção de crenças religiosas. Coloca-­se imparcial entre todas as crenças religiosas e teorias filosóficas, e acima de todas as suas controvérsias, para fazer da liberdade de pensamento o seu fundamento. Cada um tem o direito de enaltecer o que cada Religião produziu de melhor
 
O pensamento essencial de nossa liturgia é utilizar todas essas criações do passado, ou pelos menos, uma parte de suas lendas, de seus símbolos, de suas cerimônias, para delas tirar os elementos de um sistema destinado a pôr em evidência as qualidades e as virtudes mais necessárias ao homem: a prática da solidariedade, a justificação da tolerância, a apologia do dever e do trabalho, o recurso incessante às luzes da razão e da consciência, a fé na liberdade e no progresso, a convicção de que, antes de tudo, convém caminhar de acordo com o poder que guia o mundo pela harmonia e para a retidão. 
 
A Maçonaria deixa livre a cada um dos seus membros adotar e seguir a religião de sua eleição, sem que os outros nada tenham a censurar-­lhes. 
 
O maçom deve ser fiel e serviçal entre todos os homens, sejam eles cristãos, budistas, muçulmanos, judeus, espíritas ou livres pensadores. 
 
Àquele que é conduzido entre as colunas de seus templos, a maçonaria diz: “Aqui ninguém te interpelará pela tua crença, nem te injuriará”. 
 
Nossa Instituição coloca, em primeiro plano, a prática da tolerância ou da solidariedade, visando mais particularmente ou a glorificação do trabalho ou o culto da vontade ou da Justiça. O iniciado pode assim contemplar alternativamente diversas fases do ideal a que aspira, aprendendo aos poucos, que deve procurar mais longe, e mais alto ainda, a plenitude da vida superior que deseja atingir subindo a escala das Iniciações Maçônicas.
 
Diz-se que a Maçonaria não deve pronunciar-se entre as filosofias, nem entre as Religiões. É exato. Entretanto, ela não pode se desinteressar das conclusões gerais que comportam o movimento do espírito. Ficando inteiramente alheia às disputas das Escolas e das Seitas. Deve, se quiser, exercer influência moral sobre seus adeptos, orientá-­los no domínio do intelectual para um fim conforme as necessidades e as aspirações de seu tempo
 
A Maçonaria, sempre ávida pela verdade, sempre pronta a aceitar as mais ousadas descobertas das ciências, não impondo limite ao livre exame, fica, na esfera do dever, profundamente idealista e soberanamente intransigente. Nisso reside a doutrina de que se pode prevalecer, sem faltar a seus princípios de tolerância e de universalidade. 
 
Enquanto muitos se apegam ao que julgam ser a verdade conquistada, o Maçom persiste em prosseguir certo de que ela existe em alguma parte e que está prestes a ser acolhida de onde quer que venha. 
 
A Maçonaria tem seus objetivos em comum com a religião porque o objetivo de ambas é a verdade, no sentido mais alto da palavra, isto é, enquanto Deus, e somente Deus, é a verdade. 
 
A verdade é o todo; é o absoluto; e este é Deus. Como todo, só e pensável e atingível pela mente humana. 
 
A Maçonaria não é adversária da religião, mas antes, é a sua melhor cooperadora. Porém, condena o fanatismo, a obsessão religiosa, a carolice. Não tolera a hipocrisia. 
 
Resumindo, o principal dever do maçom em matéria de religião é o da prática da tolerância absoluta em relação às crenças alheias, no elevado intuito de, a despeito dos seus antagonismos, aproximar todos os homens de boa vontade, sob a bandeira da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade. 
 
 
Autor: Valdemar Sansão 
ARLS  Arnaldo Alexandre Pereira – GLESP
Membro da Academia Brasileira Maçônica de Ciências, Artes e Letras 

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Influências Cristãs na Maçonaria



Além da lenda que norteia nossos trabalhos, as religiões judaico-cristãs exerceram e pode até parecer estranho, ainda exercem influências em alguns Ritos. 


No Brasil o Rito mais praticado é o Escocês Antigo e Aceito e percebemos nos diversos graus que o constituem, citações explicitamente católicas (nome de santos por exemplo), porém não há dogmatismo religioso, mas em outros ritos temos situações muito interessantes: O Escocês Retificado tem seus princípios baseados e fundamentados na fidelidade à religião cristã, principalmente fé na Santíssima Trindade. E não pensem que é um rito antigo, ou em desuso, etc e tal, e se eu citar o Rito Sueco? Certamente alguém responderá: – Nunca ouvi falar! Pois é, a Maçonaria chegou na Suécia há 275 anos e a Svenska Frimurare Orden (Grande Loja da Suécia) tem em seu Quadro de Obreiros algo em torno de 16.000 membros e uma das prerrogativas para ser admitido é ser praticante da Fé Cristã; os rituais e graus são fundamentados não só na doutrina como na prática da liturgia católica. 

Mas, como fica a Igreja de Roma com suas Bulas Papais perante à Maçonaria Sueca? Fica o dito pelo não dito, afinal os Reis da Suécia sempre estiveram a frente da Grande Loja e um embate poderia gerar um problema de política internacional. 
Mas, no nosso caso devemos compreender muito bem que existem diferenças muito grandes entre “baseado” e “influenciado”. 


Apesar da formatação dos trabalhos da Sublime Ordem estar ligada ao Velho Testamento não devemos esquecer que também estão presentes em nossos labores, entre outros, o zoroastrismo, a astronomia, as ciências matemáticas e valores da cavalaria medieval. Em resumo, desde que houve a transformação da Maçonaria Operativa para a Maçonaria Especulativa foram codificados em SS.’.TT.’.PP.’. e Instruções, valores das mais variadas origens com o propósito de transformarem profanos em homens justos e de bons costumes.

Portanto, nada mais natural que também tenhamos VALORES CRISTÃOS e esta é a “chave”: não sendo uma religião a Maçonaria não cultua o Cristo, mas recolhe em sua missão, instruções (valores) que devem ser observados. Esta é a tônica da maioria dos Ritos Maçônicos, pois o enlevo moral e ético está sempre em sintonia com valores espirituais. 


A Maçonaria usa símbolos cristãos, pois eles automaticamente nos remetem a significados que antes mesmo de sermos iniciados já conhecíamos. Por exemplo no ocidente uma cruz é símbolo de Fé e o que encontramos na Escada de Jacó? Ou mesmo a própria menção da Escada! Em nosso meio devemos tomar muito cuidado para não trazermos a religiosidade aos nossos trabalhos; a utilização de valores/símbolos religiosos/místicos/esotéricos destina-se exclusivamente ao aprimoramento do ser humano como cidadão, como pai, como filho, como profissional, como esposo e principalmente a prática material/profana do grande princípio cristão: “Ame a teu próximo como a ti mesmo e não faça aos outros o que não quer que façam contigo.” 


Observem que há uma congruência entre o grande mandamento e as diretrizes maçônicas. A história do nascimento de Jesus, da estrela guia, os três reis MAGOS, os três presentes e a possibilidade de todos nós virmos no exemplo do mais “poderoso” servir como o mais “humilde”, nos remete às nossas iniciações. Mais do que nos tratarmos como Irmãos, precisamos reconhecer no outro o genótipo de “Filho do Pai”. Trinta e três anos passam muito rápido e é preciso muito comprometimento para erguer Templos e cavar Masmorras, pois há sempre aqueles que calam as vozes cortando gargantas ou pregando na cruz os arautos da Boa Nova. 


Veja no exemplo do menino que nasceu no dia 25 de dezembro, o ideário maçônico: ao seu redor criou-se uma instituição universal, essencialmente filantrópica e filosófica; ele levou a verdade, criou um estatuto moral pela prática da solidariedade e trabalhou para o bem da Humanidade. Ensinou-nos os princípios da tolerância mútua, do respeito aos outros e de si mesmo e a liberdade absoluta de consciência. Ele foi o primeiro a ensinar que as concepções metafísicas são de domínio exclusivo da apreciação individual das pessoas e assim recusar toda a afirmação dogmática. Considerava o trabalho como um dos deveres primordiais do homem, honrando igualmente o trabalho manual e o intelectual. Juntou um grupo e os mandou a todos os recantos afim de que todos compartilhassem os laços fraternais que unem todos os homens sobre a superfície da Terra, os quais se devem auxiliar, esclarecer e proteger, mesmo com risco da própria vida. Recomendou aos seus discípulos que fosse o melhor exemplo daquilo que acreditavam e que tivessem determinação para que o direito prevalecesse sobre os caprichos humanos e sobre a força. 


Esse mesmo menino viverá sempre tendo por divisa a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade, pela honra e glória de seu Pai e de seus Irmãos. Por conta disso nós Maçons devemos respeito a este grande exemplo de vida. A palavra natal já foi natalis no latim, derivada do verbo nascor (nasceris, nasceris, nasci, natus sum) que tem sentido de NASCER. Que seja também nossa vida seja baseada na JUSTIÇA, na VERDADE, na HONRA e no PROGRESSO
Autor: Sérgio Quirino Guimarães