O Simbolismo da Roda – Capítulo 4 (2ª Parte)

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O conhecimento de “outro tempo” na verdade está incluído na ordenação ou iniciação hermética, que supõe a vivência direta de uma cosmogonia e a iniciação em seus mistérios. E só o quis trazer aqui para mostrar o influxo espiritual da tradição hermética, sob distintas formas, até nossos dias, no Ocidente. Inclusive o cristianismo oferece uma iniciação virtual por intermédio do sacramento do batismo, ou regeneração pelas águas, motivo pelo qual as pessoas interessadas neste tipo de temas aos quais estamos nos referindo, não têm necessidade de ir a tradições estranhas a sua, embora de maneira nenhuma devam desprezá-las, face à dificuldade que, algumas vezes, se tem de se identificar com elas[64]. A obra hermética se produz na interioridade do athanor (analogicamente, do templo do homem). O certo é que esta tradição propõe o conhecimento mediante o estudo da cosmogonia. Estudar as leis cosmogônicas não supõe a erudição literal, ou o cômputo de detalhes banais, que para estas disciplinas são coisas secundárias, se não às vezes entorpecedoras. Conhecer a cosmogonia supõe ser uno com ela. Estar vivo ou ter nascido no verdadeiro estado humano. Este fato assombroso inclui uma perda e um achado de identidade, uma morte e uma ressurreição, que se realizam inumeráveis vezes em vários anos, no athanor do alquimista, sua interioridade. E lhe dá também a matéria com o que seguir trabalhando neste processo alquímico, chamado também de iniciação no caminho do conhecimento e da vida real.

O alquimista e o astrólogo trabalham sozinhos. Assim se os pode ver em numerosas gravuras da iconografia hermética. Ou estudando, meditando ou orando, quando não absortos na contemplação de seus achados[65].

Conhecer uma cosmogonia significa viver a mandala tridimensional do cosmos. Compreender a revelação de um universo e suas leis, absolutamente diferente do que foi ensinado. Onde os valores são tão outros, que unicamente podem ser recebidos por meio de uma total conversão psicológica. Este processo necessita de uma ordem e de um trabalho. Não só tem enormes riscos de separação de muitos tipos (os quais, geralmente, são parte do processo), mas sim pode resultar quase impossível de realizar, por indefinidos motivos. Diz-se que é difícil, mas não impossível. No caminho podem ficar, entre outras coisas, a saúde, a fama e a honra, quer dizer, toda segurança. Mas a recompensa é a identidade, o conhecimento, o ser. O aprendiz de alquimista está disposto à realização espiritual, que inclui o conhecimento vivo das leis do cosmos, em definitivo, o conhecimento de si mesmo, e da realidade, da ordem, da vida. Receberá, pois, o que desejou, sempre que seu trabalho for paciente e sacrificado[66] e passe pelas provas dos heróis mitológicos. Deve levar seu trabalho hermético a todo nível em sua vida e sua cotidianidade, pois se trata da recuperação da luz – a lucidez -, utilizando o emotivo fogo do sangue. O estudo das disciplinas herméticas e dos textos mágicos, alternar-se-á com a constante meditação e o trabalho interno, sagrado, e se surpreenderá então de ver-se cada vez mais estrangeiro no mundo das causas e efeitos[67]. Esse espaço interno poderá albergar as estruturas com as quais construir um novo cosmos, ou melhor, descobri-las-á em si mesmo e manifestando-se em qualquer parte. Poderá então viver de manhã até a noite – e em suas próprias horas de repouso – um novo mundo, cada vez mais assombroso, cuja característica é a riqueza e também o esplendor. Sendo tanto o que tem nas mãos, tem que tomar consciência então de sua responsabilidade com respeito a si, e advertir que não foi por seu mérito, nem um descobrimento próprio, o obtido, senão que simplesmente isso é assim, e que, além disso, não lhe pertence. E, mais ainda, reconhecerá que sua personalidade, tal qual imaginava, não existe. Deve então procurar dirigir-se com as estratégias próprias das artes marciais e equilibrar constantemente o percurso de seu caminho, o manejo de seu veículo. Esta arte requer uma manipulação delicada e é provável que se aprenda à força; ao menos se trata de uma ciência de fortes contrastes. Mas, perseverando até o fim, conseguirá viver em uma mandala viva, espelho do cosmos, onde toda coisa tem significado, nas tensões e matizes próprios da harmonia e da ordem do criado, e de seu sustento invisível e arquetípico. Terá conhecido a cosmogonia e, assim, o batismo lunar de João, de água (da ciência do esquadro), e terá recebido o batismo solar de Jesus, de fogo (da ciência do compasso), e quando tiver culminado este último processo, então se poderá dizer que compreendeu a essência da terra e do céu, o que é simultâneo com sua chegada ao centro e equivale a estar já preparado para começar sua ascensão vertical, pois finalizou com os mistérios menores.

Trata-se, pois, de um caminho mágico, onde os próprios veículos são reveladores[68]. E quando nos referimos ao termo magia, não estamos falando de nada de menor grau, onde os sempre mesquinhos interesses pessoais estão em jogo e a mera individualização fenomênica é valorizada de acordo a patrões modernos e materializados. Referimo-nos a algo muitíssimo mais sutil e poderoso: a autêntica estrutura invisível do espaço e do tempo, intuída diretamente, que não é já algo exterior ou alheio a nós mesmos e ao todo. Entre outras razões, diz-se que o pensamento analógico é mágico, porque as associações e correspondências que ele provoca nos ensinam a pensar, fazem-nos saber do que se trata a obscura lembrança do conhecimento. E nos transforma em verdadeiros seres inteligentes, ao nos fazer partícipes da natureza de nossa identidade. Esta transformação psicológica, e a fenomenologia que lhe corresponde, é mágico-teúrgica. Por outra parte, existem sistemas iniciáticos especialmente desenhados para transmitir estas verdades do pensamento analógico. Estes métodos estão carregados com o influxo espiritual de quem os tem trazido à luz e com a energia de todos aqueles que meditaram neles. Para isso foram construídos – assim como qualquer texto revelador ou sagrado, que sem este fim não teria sido escrito – e se confia em seu poder simbólico e sintético, que nos manifesta a cosmogonia através de uma mandala – ou jogo de estruturas – para nos fazer partícipes dela, utilizando códigos e símbolos como a árvore da vida sefirótica ou o jogo do Tarot.

Desta maneira, transmite-se a energia espiritual da revelação, e a pessoa que está em condições de compreender poderá ouvir as vozes e o chamado da Tradição e efetivar sua iniciação, quer dizer, começar o caminho do conhecimento. Para esse, então, certamente a maioria dos candidatos conheceram bastante o mundo que os rodeia, e de uma ou outra maneira, desiludiram-se dele; hão aprofundado com relação ao que a sociedade atual pode lhes oferecer como atrativo, sobretudo no que toca o plano da realização do autêntico ser. Ou seja, que efetuaram um trabalho de depuração e seleção com respeito a si mesmos, e essa busca os trouxe para os temas da tradição hermética, que quase nunca se encontram de forma casual. A partir de um momento determinado – para o qual terá que estar preparado internamente – produz-se o começo efetivo do processo de conhecimento. As provas iniciáticas são posteriores a esse ponto e as assimila ao passar pelo labirinto. As dificuldades que cada aspirante tenha encontrado até o momento da iniciação, devem ser tomadas apenas como circunstâncias preparatórias, por graves ou significativas que sejam.

Assim, articula-se um processo que, transposto ao plano do temporal, tem que ser visto necessariamente como sucessivo e gradual, e que compreende o conhecimento de sete, nove, ou mais estágios[69], segundo as diferentes tradições, e que se simbolizam em forma de pirâmide no espaço, ou, no plano, com a espiral – ou a dupla espiral – ou com um jogo de círculos concêntricos (uns dentro dos outros), que podem sintetizar-se em três grandes círculos ou níveis, correspondentes aos graus de aprendiz, companheiro e mestre, e aos subgraus que houver entre um e outro destes estágios.

Estas coisas são bem singelas de compreender, embora nem tanto de experimentar honestamente, motivo pelo qual [grande] quantidade de pessoas não têm feito senão confundir-se e confundir a respeito, amparando-se na ignorância de outros, constituindo-se em verdadeiros impedimentos da iniciação dos puros[70], fazendo-se desta maneira cúmplices de forças muito obscuras, que não nos atrevemos a qualificar, mas que podem formar parte deste processo e também truncá-lo definitivamente. Referimo-nos expressamente àqueles que negam a possibilidade da encarnação do conhecimento, através de um desenvolvimento, e repudiam desse modo a divindade do Cristo interno, contra a unânime opinião das tradições. São essas mesmas pessoas as que, ao não se sentirem qualificadas para essa empresa, permitem-se julgar os outros de acordo ao achatamento e mediocridade de seus padrões, motivo pelo qual se condenam a suas próprias limitações, sem que por isso seu desejo de danificar, e de fazer o mal, seja menos notório. Coisa curiosa, este tipo de seres é moralista e certas vezes pretende conhecer algo do processo iniciático. São inimigos tão embuçados como pueris, que pensam que a iniciação é uma cerimônia física, onde um extraterrestre impõe as mãos sobre um pobre ignorante e este se transforma imediatamente em superman. A iniciação seria, para estas pessoas, um diploma devidamente certificado e garantido por uma religião oficial, um prêmio por boa conduta e pontualidade, uma gratificação outorgada ao mérito. Tenhamos muito cuidado com os que “sabem” a respeito da doutrina, o mistério e a iniciação, falsos doutores da lei que condenam o processo de amor e paixão cristã. Esta gente está acostumada ser a mesma que aqueles outros obscuros sacristões de vocação, que pretendem ser “bons” e “piedosos”, pela bondade e a piedade mesm0[71] fazendo verdadeiras competições para medir quem é o melhor e o maior dentre eles, enchendo-se todos de uma satisfação soberba, úmida e perigosa. Estes personagens, insignificantes em si, podem fazer grave dano, repeti-lo-emos, legalizando-se depois de uma ortodoxia mentida e uma localização e um conhecimento falsos; e o aspirante deve saber que são inimigos de sua evolução espiritual, aos quais tem necessariamente que vencer, no plano das ideias, porque é provável que sejam parte das provas de seu percurso e não só pessoas inocentes e equivocadas.

Do mesmo modo, há outra espécie que pode encontrar-se com o passar do processo e que, junto com a anterior, constitui um bloco muito marcado, que tem em comum com ela o fingimento, embora o aprendiz tem que saber que inumeráveis perigos lhe aguardam em forma de muitos personagens, que não são senão a projeção externa e social de seus egos internos. Trata-se, neste caso, daqueles que entendem que dominar as paixões é as ocultar[72]. Além disso, sempre com segunda intenção, intimamente associada com o poder. E não se permitem a menor demonstração de suas emoções, procedendo com a “habilidade” dos jogadores de pôquer, de gente com “guelra”, que atuam com “sangue-frio”[73].

Com muitos conceitos acontece o mesmo que com estes personagens, ou egos, e são autênticos riscos. Sem ir mais longe, com toda a terminologia atualmente em uso, que corresponde a uma leitura literal e materializada das palavras e dos termos, com respeito ao sentido com que foram concebidos. Esta confusão, este impedimento, não é um fato isolado, mas sim, pelo contrário, constitui uma amostra da degradação cultural geral da sociedade moderna, cujo chefe, é necessário nomeá-lo, é o príncipe deste mundo, que, como tão bem já se disse, não só é um monstro do mal e da falsidade, mas também, por sobre todas as coisas, é um autêntico estúpido e um mentiroso. Personagem que todos levamos dentro e que nos faz nos vender constantemente por um prato de lentilhas.

Portanto, nada tem de irregular um processo iniciático que se realiza por meio dos ensinos, instrutores e mestres da tradição hermética – como tampouco outro que se efetue pela judaica, cristã, ou islâmica – e que se desenvolve de forma normal, face às dificuldades, insipidezes e paradoxos de todo tipo, próprias desta via mágico-teúrgica – em que se trabalha quase sempre solitariamente -, embora sua realização se produza em um meio tão irregular como o mundo moderno. E é necessário advertir as pessoas a quem lhes começa a acontecer certos fatos referentes à abertura de sua consciência e lhes dá vontade de compartilhá-los, que devem tomar cuidado, porque estas coisas são perigosas. Mas também, poderão sentir-se suficientemente seguras para vivê-los com outros, ou outro, entre os quais se encontrará o Espírito, conforme se diz nos evangelhos. Igualmente, afirma-se que: “procurem e encontrarão”, e, do mesmo modo, um adágio hermético assegura que: “quando o discípulo está pronto, o mestre aparece”. Este último, se a atitude é adequada, surgirá de todas maneiras. É conveniente esclarecer, por um lado, que ninguém pode adicionar um só côvado a sua estatura, motivo pelo qual tem que chegar até onde pode e deve, no percurso da vida e o conhecimento. Por outro, que ao aspirante, apesar de seus múltiplos méritos, tudo lhe foi ou lhe será ensinado. Que nenhum homem pode nem poderá conhecer estes segredos, nem os descobrir por si mesmo, se não for por revelação e por sua participação em uma cadeia iniciática, com a qual se enlace. A via que aqui se propõe é a simbólica da tradição hermética e sua relação com a simbólica e com a mitologia universal. Onde um símbolo ou mito não resulta claro, em tal ou qual contexto, busca-se a analogia correspondente nesta ou naquela tradição. As transposições e relações que se efetuam com os símbolos constituem grande parte do trabalho hermético. Um símbolo chinês, ou pré-colombiano, pode iluminar imediatamente um símbolo europeu e desta maneira constituir-se em parte integrante de um jogo de relações, de ideias, que se não fosse por sua participação, não poderiam se efetuar. Deve se recordar, uma vez mais, a energia-força atribuída aos símbolos em geral e aos da tradição hermética – neste caso em particular – e a sua irradiação mágico-teúrgica. Também deve se prestar atenção completa aos textos dos sábios, hierofantes e magos, que atuam de uma maneira especial, entre quem é capaz de recebê-los, e os conduzem ao jardim do paraíso, ou estado adâmico, restituindo-os ao andrógino original. Em todo caso, devemos assinalar, para finalizar, que certamente é muito benéfico o transitar especificamente uma tradição religiosa determinada, e praticar o rito esotérico correspondente. Mas de maneira nenhuma é imprescindível, pois os mistérios da tradição hermética – que não é religiosa – e a iniciação nos mesmos, não só constituem o patrimônio vivo do Ocidente, mas também, acaso, sua razão de ser, como um gesto, ou uma cor, no espectro da história humana.

Autor: Federico González
Tradução: Igor Silva

Notas

[64] – Atualmente não é difícil conectar-se com membros ou representantes de tradições orientais, seja viajando para eles ou assistindo a cursos e ritos em distintas cidades europeias ou americanas. Especialmente mestres taoistas e zen budistas, assim como lamas do budismo mahayana. Igualmente existem no Ocidente tarîqahs islâmicas, entre as que podemos citar, em cidades de língua castelhana, a de Granada (Espanha) e Buenos Aires (Argentina) A tradição hindu é, desgraçadamente, a vítima mais notória de todo tipo de fraudes. Onde isto é mais evidente, é na própria a Índia, e até em cidades sagradas como Varanasi, Rischikesh e Harivard. Estes mesmos perigos existem dentro da Tradição Pré-colombiana, ou melhor, entre alguns que pretendem conhecê-la ou até representá-la, o que não é o caso, é obvio, de seus autênticos chefes, mestres, ou de seus curandeiros [NT: original “medicine men“].

[65] – A contemplação pode-se vincular, em maior grau, com a energia celeste, enquanto que a ação pode-se conectar, mais diretamente, com o terrestre.

[66] – No sentido de sacrum-facere.

[67] – Interessa destacar a força energética da oração, seu poder de concentração imediato, a necessidade da invocação incessante dos nomes divinos, sua repetida lembrança, sua memória trazida constantemente ao sempre Presente.

[68] – Recordar os numerosos cavalos mágicos, ou que falam, das distintas tradições e folclores.

[69] – Na tradição hermética soem tomar-se às vezes como dez a estes graus, sendo os sete primeiros os de construção do ser ou templo interno, o oitavo de passagem, o nono de conclusão da Obra, e o décimo, o de coroação da mesma ou virtual saída do cosmos ou da perspectiva espaço-temporal simplesmente humana, que se foi modificando pouco a pouco com o passar do processo.

[70] – Os puros, os não compostos nem duplos. Os valentes e generosos aspirantes ao conhecimento. Nenhuma relação com as piedosas “filhas da Maria”.

[71] – Como os que desejam ser ascéticos ou estoicos, pela ascética e o estoicismo como fins, e não como simples veículos ou meios, que aparecem no caminho. Uma vez mais se faz de algo relativo, algo absoluto.

[72] – Em lugar de utilizar esse fogo e domesticá-lo, de tal maneira que facilite a transmutação.

[73] – São os meninos maus do passeio, ou aqueles que já “sabem” ou que confundem sua megalomania com a verdade. Seu esporte é a constante manipulação.

O Simbolismo da Roda – Capítulo 4 (1ª Parte)

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A Tradição Hermética

A tradição hermética deriva de seu nome, nada menos que de Hermes, deus grego, o Mercúrio romano, e sobretudo do mítico Hermes Trismegisto, todos eles instrutores e educadores dos homens, mensageiros dos deuses, personagem que aparece em quase todas as tradições sob distintas formas, como emissário ou intermediário entre céu e terra, sempre vinculado com o que voa, por isso costuma-se representá-lo com atributos alados. Deste modo se o relaciona com audições, recepções e transmissões de mensagens. Quer dizer, com doutrina[54], ciência, sabedoria e revelação. A palavra tradição deve significar, de certa forma, o mesmo que o anterior[55], por isso a expressão “tradição hermética” possa parecer uma redundância, se não se quisesse destacar, pelo aditamento desta última palavra, uma nítida origem revelada -como também assinalar uma circunstância histórico-cultural referente, de modo específico, ao ocidente e às origens de sua civilização. Por outra parte, o termo que nos ocupa é também claro assim que indica uma via de conhecimento determinada, relacionada com os mistérios menores, chamados também mundo ou plano intermediário, no caminho iniciático, expressando, além disso, a ideia da escuridão e silêncio, inerentes a este caminho, referindo-se igualmente a sua natureza misteriosa.

A tradição hermética é, pois, uma forma da tradição unânime, universal e primitiva -adequada à roupagem histórica e à mentalidade de certos povos e certos seres- que se manifestou aqui e ali, conformando e organizando a cultura e a civilização. O deus Hermes é solidário com o Toth egípcio[56],posto que, como ele, representa sabedoria e interpretação hermenêutica, e virtudes de profecia, atribuídas também a Enoch e a Elias artista -patrono da alquimia-, arrebatados ambos ao céu em um carro de fogo (veículo francamente solar) e dos quais se diz que não estão mortos, mas sim vivos, como outros personagens análogos de distintas tradições, dos quais se aguarda sua segunda aparição ao fim dos tempos, assim como os cristãos esperam a parusia do mestre Jesus, rei dos judeus, Cristo Rei, que encarna em forma humana, para nos revelar a verdadeira vida: transmissão que o converte em salvador e redentor. Historicamente não é muito difícil de advertir que os mitos e símbolos esotéricos egípcios, judeus, greco-romanos, cristãos, árabes e mediterrâneos em geral conformam um conjunto que se pode relacionar diretamente com os povos ocidentais; e que esta influência espiritual, embora não tome formas religiosas, é indiscutivelmente válida pela pureza de sua origem, e pelo desenvolvimento concatenado de transmissão, protagonizado por sábios, profetas, guerreiros e “artistas”. Isto não exclui que o conjunto de ensinos ao que nos referimos seja perfeitamente solidário com outros de distintas épocas e latitudes, e até idêntico a eles, além dos disfarces formais. No caso particular que nos ocupa -o do emissário divino que reúne em si a possibilidade unificada do que repta e do que voa, da terra e do ar, que devem ser separados para complementar-se adequadamente através da paixão e do amor-, este fato é claro e probatório da unidade arquetípica de todas as tradições, já que esta oposição-conjunção acha-se manifestada em toda parte. O que nos interessa agora é destacar que as ciências e artes que foram chamadas de “tradição hermética” têm uma origem comum, que se manifestam historicamente ao longo da vida do Ocidente, e que se expressam por intermédio de uma série de disciplinas e trabalhos, mitos e símbolos, que constituem um código coerente, suscetível de ser transposto a todos os códigos e sistemas tradicionais, pois na verdade elas expressam e se propõem o mesmo: revelar um conhecimento oculto, permitindo desta maneira a conquista do verdadeiro estado humano, o ser original, que todo homem perdeu pela queda, e que o coloca em uma situação infra-humana com respeito a si mesmo, motivo pelo que tem que restaurar seu verdadeiro Eu, que se acha oculto em seu interior, tão somente vivo em forma potencial, e que deve atualizar, pela memória de si e a lembrança do arquétipo original, com fé e amor, graças à doutrina tradicional, conhecida neste caso com o nome de hermetismo. Que lhe permite RE-nascer[57] ao estado autenticamente humano, frente ao qual os estados inferiores[58] aparecem como sonhos, ou ensaios, ou projetos ilusórios, ou mera tolice, por não dizer estúpida vaidade.

Estas disciplinas, ou veículos, levam o aprendiz através do mundo intermediário e o colocam defronte ao tabernáculo, no coração do templo, no eixo, que igualmente comunica com a cripta ou caverna, o país subterrâneo dos mortos, ou melhor, no interior do sacrário, de onde poderá iniciar sua ascensão vertical, para a cúpula ou a sumidade, que simbolizam a saída do templo ou do corpo, o supracósmico ou o supra-humano. Faz tempo que recebeu as águas batismais. Inclusive já se liberou das provas do labirinto das formações. Convertido agora, pela comunhão solar, no Rei do Mundo, o aspirante poderá então ser absorvido inteiramente na função sacerdotal e escapar da cosmogonia, que lhe revelou, utilizando sua identificação com ela como um suporte vivo de transmutação inefável. Ofício de guerreiros e cavaleiros, também o é de sábios e artistas, quer dizer, de astrólogos e alquimistas, e inclui a mestria no conhecimento. Não pouco é este conhecimento, no caso da astrologia e da alquimia, disciplinas que conformam o hermetismo ou a tradição hermética -os mistérios menores da Antiguidade-, pois se referem respectivamente ao conhecimento do céu e da terra, constituindo ambas o saber da cosmogonia completa, a ciência dos ciclos e a ciência das transmutações: a “arquitetura” experimentada em forma direta[59].

Historicamente se pode detectar em numerosos pontos da cultura ocidental a aparição de correntes de ideias, crenças, sistemas e pontos de vista herméticos, quer dizer, esotéricos, dentro do exoterismo de tal ou qual período determinado. Se nos ativermos à cronologia cristã, estes acontecimentos ideológicos aparecem não só em determinados momentos históricos -conformando períodos inteiros, como na Idade Média europeia-, mas também constituem os antecedentes de certos personagens e fatos científicos, filosóficos, históricos, literários, e até a origem de todo um código, como no caso da astronomia e da matemática. Convém, pois, situar-se em algum segmento mais ou menos claro e computado do devir temporal e avaliar uma amostragem de acontecimentos culturais-históricos, a fim de ilustrar esta exposição, que não pretende ser um estudo histórico ou sociológico.

Podemos nos localizar então na Alexandria do século III de nossa era e observar a multidão de ideias, concepções e personagens, tradições e culturas -inclusive a hindu e a budista-, que confluem ali, constituindo uma verdadeira encruzilhada de caminhos, um ponto de concentração de uma série de energias análogas, vindas de várias e diferentes direções, as quais têm que conformar posteriormente as diversas facetas de nossa cultura. Naquelas datas e lugar podemos encontrar o cristianismo dos primeiros padres convivendo com o gnosticismo, ambos de origem oriental. [Podemos encontrar] o pensamento grego, em particular o neoplatonismo -que surge como uma constante ao longo da história do Ocidente- misturado com a tradição hebraica, e com os fragmentos de civilizações como a caldaica, a egípcia, as do Irã, e outras, algumas delas perdidas ou esquecidas por nós. Não tentaremos, tampouco, neste ensaio, dar uma visão mais ou menos clara destes fatos, nem sequer brindar com um panorama. Remetemos o leitor à numerosa bibliografia a respeito, obra de autênticos especialistas. Desde nosso ponto de vista, destacamos estas coordenadas espaço-temporais, como lugar de reunião e posterior expansão das ideias da Tradição Unânime, da filosofia perene e universal, da doutrina, que chegaram a nós com o nome de tradição hermética. É também muito interessante sublinhar que estas ideias, através dos séculos, mantiveram-se vivas até nossos dias. E não só sobreviveram simplesmente, mas também constituíram, e ainda constituem, a trama invisível de certos acontecimentos revivificadores da história do homem ocidental, sem a qual esta história, e este homem, teriam desaparecido já há muito tempo.

O andaime de ideias ao qual estamos nos referindo, há de permanecer mais ou menos incólume e ser considerado como a sabedoria sempre oculta e esquiva, mas presente na vida pública da cidade e do povo -como uma herança cultural imperecível-, até aproximadamente o século XVII. E seguirá constituindo a medula cultural da Europa. Mas, a partir de então os valores mais profundos, postos em crise pelo mal chamado “humanismo”, degradar-se-ão até a negação de toda possibilidade de tradição e doutrina, o desconhecimento de qualquer esoterismo, e a ignorância total referente ao que se entende por iniciação[60]. Passou-se, então, à profanação do sagrado e à dessacralização da vida e da realidade, por isso tudo começa a ser empírico e insignificante[61].

Não que não tenha ocorrido anteriormente -ou, inversamente, que na escuridão atual não exista a luz-, mas estamos nos referindo agora ao tom particular de um determinado ciclo. Este ciclo que tratamos, é, em termos gerais, o da cultura chamada ocidental. E está, como todo ciclo, encadeado a outro, que a sua vez o está a um terceiro, e assim sucessivamente. Mas isto não é tudo: cada ciclo é um fragmento de outro maior e cada uma de suas partes pode ser um ciclo completo em si, com seus sistemas de subciclos, e deste modo indefinidamente. Tudo são ciclos dentro de ciclos, e a história exemplifica -de maneira alarmante às vezes- esta complexidade tão sutil como emaranhada. Mas a doutrina aparece em cada um deles, de uma ou outra maneira, por momentos brilhando intensamente, em outros declinando, ou escondida na escuridão, no coração de uns poucos. A tradição hermética esteve presente no Ocidente desde suas origens históricas e ideológicas, manifestando-se através de distintos grupos, pessoas ou instituições. Não nos referimos exclusivamente à filosofia grega, Pitágoras e Platão[62], Plotino e Porfírio, Proclo, nem à soteriologia dos romanos (Virgílio, Apuleio), tampouco aos verdadeiros gnósticos, nem aos primeiros pais da Igreja, mas sim queremos destacar o enorme amontoado de hermetistas ocidentais cristãos e esoteristas judeus e islâmicos, que tanta influência tiveram sobre os construtores da Idade Média e entre alquimistas, rosa-cruzes e algumas ordens cavalheirescas de diferentes tipos, das quais deriva a Maçonaria, organização iniciática nascida historicamente no século XVIII, embora de origens muito mais antigas -inclusive míticas-, que felizmente permaneceu até a data, embora desgraçadamente seja quase desconhecida, até para os próprios integrantes de seus quadros, em razão da degradação cultural cíclica, que se dá em todas as ordens e lugares, cada vez mais progressiva e veloz, e que tem feito à verdade tão mais misteriosa e secreta, como se se tivesse retirado realmente ao interior de si mesma e se tivesse que procurá-la, ou tirarmo-nos os véus psicológicos que nos ocultam isso de nós mesmos. Entretanto, a Maçonaria segue outorgando a iniciação em suas lojas maçônicas e esta é perfeitamente válida, dado que se trata da transmissão regular de uma influência espiritual. São muitas as lojas maçônicas que na Europa e América estão trabalhando muito seriamente e são muitos os adeptos que revitalizam os valores originários.

Com respeito ao ocidente moderno, podemos aceitar que as tradições religiosas que atualmente o conformam e que estão presentes em maior grau em sua cultura, são a judaica, a cristã e a islâmica, ou seja, denominadas as “do Livro”. O judaísmo tem em sua religião sua própria tradição e certos rabinos se dedicam à cabala, às relações entre letras, palavras e números, ao estudo, ao rito e à meditação. Quanto ao Islã, sua parte exotérica e seu esoterismo estão muito pouco diferenciados. Religião do deserto, é vivenciada de forma individual, e suas práticas, totalmente interiores, não precisam de imagens e nem de ritos complicados. O sufismo, é sabido, é a expressão do esoterismo islâmico. Quanto ao cristianismo, e mais especificamente ao catolicismo, diremos que muitos de seus membros pertenceram em diferentes épocas a ordens herméticas de esoterismo cristão. Papas, arcebispos, bispos, cardeais, singelos abades, ou párocos, ou humildes monges, encarnaram o conhecimento. E não só entre os doutores e os sábios da Igreja, mas também entre seu Santos e seus mártires, começando pelos apóstolos. Só nos bastará mencionar alguns nomes, dentro do esoterismo cristão, que provam a continuidade e a importância deste, não só quanto à Igreja como instituição e ao catolicismo como religião se refere, senão assim que representa historicamente as raízes mesmas do pensamento ocidental. Assim, por exemplo, deveríamos começar por Orígenes e os primeiros pais da Igreja, para continuar com o cristianismo ortodoxo do Oriente[63], falar do monaquismo na Irlanda, de São Bento e a constituição das diversas ordens de monges religiosos, para passar a São Bernardo, ao Císter e à cavalaria, mencionando nada menos que a Dionísio Areopagita no século V, e também a Santo Agostinho, para chegar a Alberto Magno, São Tomás de Aquino, e ao Mestre Eckhart. Neste ponto, é importante a aparição de um ambiente iniciático, o dos místicos de Munique, que foi para o Eckhart o mesmo que a ordem dos Fedeli d’Amore para Dante. Do mesmo modo, deveríamos nos recordar dos artistas medievais (Nicolas Flamel, Basílio Valentino, Bernardo Trevisano) e do hermetismo cabalístico cristão: Raimundo Llull, Nicolas de Cusa, Marsílio Ficino e Pico de la Mirandola. Também de Jacob Boehme, Cornelio Agripa, Francesco Zorzi; e dos magos elisabetanos, até Robert Fludd e os mencionados rosa-cruzes.

Desta maneira poderíamos percorrer os ciclos das histórias particulares -inscritos em outros mais amplos- e estabelecer as legítimas vinculações e as relações insuspeitadas de todo tipo, entre diversos acontecimentos sem conexão aparente, que nos fariam ver e conhecer outra história. E esse é o valor que na verdade tem a história dos personagens e dos povos, o de poder ser tomada como um código de sinais significativos ou significantes, como um discurso salpicado aqui e acolá de detalhes reveladores. Uma linguagem criptográfica, que poderia nos dar uma espécie de espectro ou panorama -de enquadramento no tempo-, no qual lêssemos como em um livro aberto, o livro da vida, cuja leitura tem que nos levar à imortalidade através do conhecimento dos ciclos universais, análogos aos ciclos dos homens.

Continua…

Autor: Federico González
Tradução: Igor Silva

Notas

[54] – Não confundir com a estreiteza e com o fanatismo do dogmático.

[55] – Do latim tradere: transmitir.

[56] – A quem miticamente costuma-se atribuir a paternidade do código do Tarot. A ave Íbis é um de seus símbolos.

[57] – CO-nhecer = CO-nascer [NT: conforme o original espanhol “CO-necer = CO-nacer”]. Em francês é mais evidente: CO-naitre

[58]Infernus

[59] – Pensamos que não deve associar os mistérios menores com o budismo hinayana e os maiores com o mahayana. O hinayana designa o pequeno veículo e significa a via que o adepto, ou o monge, efetua por si e para si. O mahayana ou grande senda, é a realização que não se produz “até que a última erva seja redimida”, quer dizer, a que se alcançaria conjuntamente com todos os seres sencientes. Esta diferença não cabe entre os mistérios menores e os maiores. Tampouco os mistérios menores correspondem ao que se convencionou chamar “a via úmida” e os maiores, à “via seca”. Nem que os primeiros sejam lunares e os segundos solares. Os mistérios menores correspondem à totalidade da obra alquímica e à astrologia e, portanto, à via lunar; e a solar, à obra em branco e à obra em vermelho, às pequenas e às grandes viagens. Nos mistérios maiores, a ideia da viagem, e ainda a de movimento, carecem de sentido.

[60] – Alguns tomam especificamente o ano 1492 como encruzilhada deste fenômeno histórico. Efetivamente, nessa época se unifica a Espanha católica, descobre-se a América e são expulsos os mouros e os judeus (e inclusive os ciganos) da península Ibérica. Este tema exigiria um longo desenvolvimento, que em alguma oportunidade tentaremos.

[61] – Além do mais deve-se dizer que esta degradação também afeta à Tradição Hermética, que em muitos casos se degenerou em paródias e instituições pseudo-espiritualistas, ocultistas, teosóficas e em toda espécie de fraternidades e confrarias que usurparam determinados conhecimentos, rebaixando-os à trivialidade de sua leitura literal. O mesmo acontece com os nomes e terminologias da autêntica tradição, com os quais se comercializa em forma descarada, quando não “filantrópica”.

[62] – “Quem é Platão?”, perguntamo-nos várias gerações de leitores.

[63] – Ainda existe o esoterismo dentro desta forma tradicional, e não exclusivamente localizado no monte Athos.

O Simbolismo da Roda – Capítulo 3 (3ª Parte)

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Quase resulta desnecessário assinalar que por trás de qualquer manifestação há algo prévio que a conformou e que a essa energia deve sua razão de ser, mesmo que se tenha essa manifestação como fenômeno ou expressão de qualquer tipo. Os exemplos mais belos deste fato são a espontaneidade, o gesto puro, a verdadeira intuição intelectual e o ato gratuito. A vida, a natureza, e o cosmos, seriam ilustrações admiráveis deste singelo e magno acontecimento permanente. Eles se expressam no enquadramento espaço-temporal em que se plasma qualquer manifestação, estando por certo o homem incluído como parte integrante desta. Seriam, pois, todas estas revelações simultâneas dos seres e das coisas, coetâneas com o tempo em uma moldura espacial determinada; e, portanto, as expressões possíveis, sujeitas a estas dimensões espaço-temporais – onde se produz a existência humana –, que coalham em formas cristalizadas, têm que ter uma estrutura prévia, respondendo a certas coordenadas – modelos ou ideias arquetípicas –, para que possam ser elas mesmas as coisas ou os seres que constituem o universo. Na verdade, estes entes a que estamos nos referindo não são, senão, símbolos ou energias-força que representam – cada qual da sua forma ou maneira substancial – a ideia que eles encarnam, dando lugar dessa maneira ao cosmos inteiro, ao qual configuram. No simbolismo do tecido, é fácil advertir que a face brilhante e luminosa do visível, do desenho exotérico, é a expressão do laborioso, oculto, escuro e ordenado trabalho da trama e da urdidura. A ideia de uma estrutura “anterior”, ou prévia, a um fenômeno, ou expressão qualquer, não é só óbvia para o filósofo, para o arquiteto, para o artesão ou profissional – ou para um operário de qualquer índole –, senão para todos os que tenham pensado alguma vez na linguagem ou simplesmente em qualquer morfologia. A imagem visível é, pois, a projeção ou o reflexo do pensamento, da ideia, ou da intuição intelectual, mediante a qual se manifestam as coisas ou se as pretende expressar. Por isso que estes símbolos ou jogos de símbolos – que estabelecem entre si diversas relações de distinto tipo –, configuram códigos ou linguagens diferentes, que ao serem expostos a um nível de compreensão menos sutil, necessariamente têm que obscurecer seu conteúdo, ou ocultá-lo, do ponto de vista de um nível mais denso ou rarefeito de leitura. Eis o motivo da função mediadora dos símbolos, como emissários, pontes ou portas de passagem de um plano da realidade a outro, que está sempre além deste[50]. Sobretudo em um mundo que supomos achatado e igualitário, quando na verdade se trata de um universo diferenciado e hierarquizado. Prova disto nos dão as distintas espécies que o povoam, assim como os diversos espaços que o constituem, e os diferentes tempos que acontecem nele. Por isso é que todo símbolo é significativo, ou significante, qualquer que este seja, e em particular aqueles em que as distintas tradições da antiguidade verteram sua experiência, como testemunho de seu conhecimento a respeito do simbolizado. Porque para estes povos os símbolos não são arbitrários, ou convencionais, ou “metafóricos”, mas sim figuram os próprios princípios, com os quais guardam uma unidade analógica tão viva, quanto real. Isso é o que permite o símbolo passar da ordem fenomênica ao transcendente. Ou seja: que facilita a revelação sintética ou a compreensão de uma linguagem universal e eterna, da qual o próprio símbolo é apenas um suporte, para acessar uma ordem distinta, que se acha em outro nível, com relação à visão literal ou alegórica que estamos acostumados a ter dos fatos e das coisas.

Por outro lado, o símbolo – geralmente numérico ou geométrico – se oculta do olhar ordinário sob o ouropel do decorativo ou do funcional, porque essa é a maneira em que se cumpre a ordem natural das coisas manifestadas. Isto é particularmente destacável no simbolismo construtivo, em especial no que se refere ao centro ou ao eixo. Tal é o caso do centro invisível de qualquer espaço, no qual são extremamente notórios os muros e as paredes, ou o marco que o circunda [espaço]. O mesmo acontece com o simbolismo do arco arquitetônico, onde as evidentes colunas foram levantadas simetricamente a partir de um centro, no plano horizontal, que não é mais que a projeção do eixo vertical. O qual, por outra parte, permanece perfeitamente oculto e imperturbável, enquanto estamos acostumados a admirar os luxuosos e pesados cortinados exteriores e os agregados mais ou menos tardios[51]. O símbolo passou despercebido e devemos realizar um trabalho conosco mesmos, interno, para poder resgatar os valores simbólicos. Por outra parte, já se sabe que esta linguagem foi utilizada unanimemente pelos mestres e artistas de todas as civilizações tradicionais. Devemos começar então por criar em nosso interior as possibilidades da compreensão, necessárias para interpretar e vivenciar estes “segredos” da arte e do símbolo. Pois entre eles e nós só se acha uma muralha psicológica, que se pode transpor face a uma imensa dificuldade atribuível ao esquecimento e, mais ainda, à inversão total dos valores atuais sobre o mundo e sobre o próprio homem, que, entretanto, hoje como ontem, nasceu para o conhecimento. E embora o símbolo, o mito e o rito possam ser tratados de forma conjunta, possivelmente seja necessário estabelecer alguma diferenciação dentre eles.

O símbolo iconográfico está mais relacionado com o espaço e de fato – como é notório nos yantrams hindus e nos ícones do cristianismo oriental – trata de induzir, ou criar, um espaço distinto na consciência de quem o contempla. O mito, pelo contrário, poderia vincular-se em maior grau com o tempo e na verdade nos conecta com um tempo diferente do cotidiano. No templo se combinam estas duas características e o espaço sagrado pretende “capturar” o tempo dos heróis e dos deuses. O rito, por sua parte, dramatiza (ou psicodramatiza, para falar em termos modernos) a cerimônia, e reitera, através da voz, o gesto e o movimento, o tempo e o espaço primigênios[52]. Resgata-os na sua virgindade e pureza original, outorgando à ordem interna e ao pensamento, seu autêntico valor, sua intrínseca harmonia[53]. E aqui devemos recordar que toda arte reconhece origens sagradas (não necessariamente religiosas). Tal é o caso da dança, da música, da poesia (vates, por isso “Vaticano”), etc. Por outra parte a arte não se propôs a outra coisa como meta ao longo dos tempos, assim que ela foi uma permanente busca do conhecimento, ou melhor, do reconhecimento. Agora, ao existirem ideias arquetípicas, ou jogos prototípicos estruturais anteriores a toda manifestação e que, ao expressá-la, conformam-na, é lógico inferir que essas coordenadas constituem um modelo universal exato, preciso e concreto.

Por certo que tal modelo não seria rígido, maquinal ou um artefato de relojoaria, caso pudéssemos imaginá-lo com nossa programação industrial. E menos ainda um computador infernal ou uma gigantesca gravação [N.T.: orig. “cassette”] indefinida, que finalizaria, junto com nossas vidas e a do mundo, em uma constante relação de causa-efeito. Mas bem se trataria de um organismo vivo, tal como o homem e a natureza e, portanto, um mistério cheio de pontos de junção, impossíveis de ser computados por seu próprio comportamento supralógico e metaquantitativo. Em suma, uma poética. Uma obra de arte. Nesse sentido, o cosmos e a projeção [N.T.: orig. “plan”] ou plano em que se conformou, configuram a mais gigantesca possibilidade de expressão e concepção artística imaginável, já que deste modelo, e sua manifestação, derivam todas as formas possíveis e secundárias de realização, tenham estas um sentido qualquer, o inverso, ou estejam neutralizadas entre ambos. Posto que a desarmonia constante das partes é a que produz necessariamente a harmonia e o equilíbrio do conjunto. Isto é tão válido para o modelo cósmico universal, como para o homem em sua integralidade, que não é mais que uma miniatura daquele. De um lado o homem verdadeiro como ponto interior ou coração do cosmos, de outro, opostamente, o universo como uma projeção do ser.

A forma mais simples está em todas as formas, o que equivale a dizer que tudo está em tudo e que tudo está em nós mesmos. E é curioso observar que estas singelas verdades, que de algum jeito conhecemos – e que por certo todos experimentamos –, estão hoje como cobertas por um véu de vergonhosa autocensura, porque talvez sintamos temor de que nos retrotraiam à infância, ou à adolescência, e nos façam, acaso, perder a bagagem “intelectual”, às vezes tão árdua e esforçadamente conquistada. Para alguns seria de um gosto duvidoso afirmar que a vida – ou a natureza, como ilustração dela – nunca se equivoca. Ou que sua pele tem todo tipo de texturas e que troca a roupagem todas as estações. Também assegurar que cresce, desenvolve-se, envelhece e morre. Que a manifestação universal – simbolizada pela dança de Shiva – é a perfeição, o equilíbrio e a harmonia; que no percurso e decurso do mundo, ou do cosmos, toma todas as formas possíveis e não há aroma nem som que não esteja incluído nela. Igualmente, se assegurarmos que esta manifestação é a única coisa que não deixou que ser novidadeira, ou surpreendente, sempre um homem ou uma mulher poderá contemplá-la pela primeira vez. Ou que pôde superar o pessimismo e o otimismo de seus projetos, pois estes são suas realidades de todos os dias. Que entre seus símbolos e ela mesma não há nenhuma diferença. E que através da contemplação de sua simbólica transcendemos a dualidade do cárcere da mente, pois contemplar é recriar a obra de arte permanente. E que, do mesmo modo, somos regenerados cada vez que se cumpre um novo ciclo e se nos abre uma porta de acesso a outras realidades tão mais efetivas quanto menos ilusórias.

O símbolo e a arte – transmissores e receptores de energias – nos brindam com a possibilidade de uma saída, de uma escala, de um caminho a ser percorrido muito mais facilmente do que se imagina. Às vezes os caminhos se perdem no labirinto. Talvez essa seja a única forma, para alguns, de sair dele. No caso da arte e do artista, são particularmente válidas as palavras de William Blake: “pelo caminho do excesso também se chega ao palácio da sabedoria”. Além disso, havendo um modelo cósmico universal, a obra de arte já está feita; foi simbolizada; e tem um plano e uma ordem. Todo nosso trabalho consiste em resgatar e unir os nossos próprios fragmentos, para a síntese definitiva. O mais singelo está sempre ao alcance da mão e na interioridade de cada um. Realizar nosso trabalho com a soma de nossas possibilidades, participando da grande obra universal mediante pauta e métodos concretos; o primeiro dos quais, já se sabe, é a entrega ao trabalho: uma forma de amor. E compreendendo que não estamos excluídos da vida e da manifestação, senão que, melhor, tudo se espera de nós, de acordo com as nossas particularidades, quaisquer que estas sejam, sem estabelecer comparações nem julgamentos, tão relativos, quanto arbitrários.

Diz-se que cada um é símbolo. Que a verdadeira obra de arte é o que se pode fazer cada qual consigo mesmo no fundo de seu coração. As produções são secundárias, e chegam por acréscimo. O realmente válido se situa na zona mais misteriosa e desconhecida. E por certo ninguém poderá julgar sem equivocar-se, pois, a liberdade interior é inqualificável. Muito menos pelo próprio interessado. Já que ela não necessita de nada, pois sendo apenas a virtualidade de um ponto, um espaço vazio, é simplesmente o que é, gostemos ou não: nós, ou os “amigos”, ou “inimigos”, ou nossa ilusória superestrutura mental, que certas vezes nos aplaude a para que inchemos os nossos peitos como perus, e outras nos deprime muitíssimo para que nos percamos no mais próximo sumidouro.

Autor: Federico González
Tradução: Igor Silva

Notas

[50] – Toda mensagem ou mensageiro é a expressão de uma realidade mais vasta e superior, da qual ele só é o representante.

[51] – O mesmo é válido para qualquer figura geométrica ou “estrutura primária” relacionadas com a numerologia e, em especial, com a série de 1 a 9.

[52] – O templo reúne espaço e tempo, como o movimento –ritual da roda– os conjuga e efetiva. Templus é um diminutivo de tempus. Um microespaço e um microtempo simbolizam todo o espaço e todo o tempo postos em ação pela “roda da vida”.

[53] – Afortunada ou desgraçadamente, não se pode compreender o ritual, o símbolo ou a criação inteira, se não for em posse das chaves que essas expressões levam implícitas, no enquadramento no qual se manifestaram. Se a obra de arte corresponder a uma ideia, ou ao menos a uma forma de pensamento, devemos retroagir à origem dessa ideia ou à identificação com esse modo de pensamento, para poder realmente compreendê-la. Por isso a necessidade de um ensino e a gradual aprendizagem na realização do conhecimento. Quer dizer, o caminho iniciático através da via simbólica ou mítica ou poética. Porque estas proporcionam, de fato, um meio especialmente adequado, um andaime que permite a encarnação, em relação com a abertura da consciência e que, por certo, não só modifica nossa mentalidade, mas também nossa vida. Pois se formos capazes de ouvir as vozes reveladoras que se acham em nosso interior, mediante um trabalho paciente e delicado, uma arte, chegaremos à convicção de que essas vozes correspondem aos ensinos que nos foram dados e que, por outra parte, são o que constituem esse símbolo ou mito que começamos a compreender e que se efetiva ou vivifica em forma ritual no interior da consciência, que dessa maneira adquire categoria universal.

O Simbolismo da Roda – Capítulo 3 (2ª Parte)

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Perspectivas da Arte

A esta altura do discurso parece evidente que o que hoje em dia é considerado como arte, o que se entende por isso, pouco ou nenhuma relação tem com as concepções expressas anteriormente. Não se tratará aqui de fazer uma crítica exaustiva das hipóteses ou controvérsias estéticas atuais – nem do mercado e da profissão de artista –, e tampouco das circunstâncias cíclicas, histórico-sócio-culturais econômicas, que engendraram estes tremendos equívocos e diminuições, ainda que se queira destacar certos detalhes ou enganos exemplificadores.

Um deles consiste em tomar por arte uma série de trabalhos escolhidos mais ou menos arbitrariamente, condicionados por circunstâncias temporais que se canalizam por meio das modas, usos e costumes, e lhes atribuir uma categoria “artística”. Outro, o de se outorgar à arte uma natureza objetiva, como se se tratasse de uma realidade tangível que se pudesse transpor a tal ou qual artefato. “As obras estão feitas com arte, não são arte”, adverte-nos lucidamente A. Coomaraswamy. Poder-se-ia objetar que todas as coisas são arte, mas sempre que se visse nelas um símbolo expresso da ideia, quer dizer, uma possibilidade de encarnar esta. Mas, se a visão fosse literal, entender-se-ia uma vez mais o símbolo não como mediador, mas sim de maneira objetal, separando-o de seu contexto, convertendo-o em uma deidade idolátrica, um fetiche ou um tabu. Um equívoco mais seria tomar a arte como algo mais ou menos intranscedente ou prazenteiro, mas quase necessário, algo que “espiritualiza” ou faz mais agradável o ambiente geral. Como uma experiência lúdica, uma técnica inteligente – quase primorosa – de evasão, fornecedora de uma alta dose de conforto e status. Ou inversamente, dramatizar as circunstâncias criativas, adjudicando-lhes uma importância absoluta, tratando de fazer transcendentes as vivências psicofísicas ou a matéria com a qual se trabalha, que por definição não são transcendentes. Outro mais: a divisão entre o que é belo ou simbólico e o que é útil, ignorando que o que é belo ou simbólico, tem por si mesmo o máximo da utilidade. Mesmo assim, reduz-se a arte ao gosto, que, como o ego, constantemente passa, e hoje é uma coisa e amanhã outra. Igualmente, a atitude daqueles que pretendem utilizá-la como um meio de propagação ideológica ou de influência psíquica, qualquer que esta seja, pelo mesmo [motivo] destacado anteriormente.

A arte tomada como expressão da personalidade é uma falácia, posto que essa personalidade, tal qual hoje a visualiza, é inexistente. Foi extraída do meio que a condicionou. E não é mais que a reprodução ou mera imitação de gestos, quando não a cópia decidida de estilos, atitudes, modas, maneiras, “Ideias”; em suma: de uma série de historietas tão falsas como as nossas, tendo em vista que os modelos que, conscientemente ou não, copiamos, desembocaram em situações análogas às quais nos tocaram e procederam de igual forma, disfarçando-se da melhor maneira possível, no baile de fantasia progressista no qual estamos. E assim, as máscaras vão trocando com o passar do tempo, com a constante de que em cada caso acreditam ser “nós” essa mesma máscara. Isto é, a identificação com o embuste do momento[44], com a qual estamos vinculados emocionalmente, a maior parte das vezes por um acontecimento fortuito, por um fato casual de um ou outro sentido, ante o qual reagimos de tal ou qual maneira. Situações que extraímos do ambiente e que ficam impressas em nossa psique como algo próprio e pessoal e muito importante, quando na realidade são inteiramente inventadas pela ilusão de outros que compartilham nossa ignorância.

É necessário advertir que estamos completamente programados, e aquilo pelo que estamos dispostos a morrer, vale dizer nossa identidade pessoal, não é mais que algo imposto pelas circunstâncias contingentes (socioeconômicas, histórico-geográficas e familiares) que nos coube viver. Que homem realmente poderia se identificar, sendo universal, com o número de seu documento de identidade ou com sua impressão digital ou com suas obsessões, fobias e manias?

Já se disse que a vida é sonho, e também que a sociedade moderna, que afirma enfaticamente suas suposições indiscutíveis, e que nos molda “positiva” e “materialmente” neles, é uma farsa. Em todo caso é evidente que nós internamente não somos essa ilusão, esse engano compartilhado que vemos mudar ante nossos olhos de maneira evidente em suas formas políticas, históricas, sociais, científicas, afirmando com a mesma segurança, solidez e desenvoltura, anteontem uma coisa, ontem outra, hoje ainda outra diferente – completamente opostas e contraditórias –, atitude que seguirão mantendo até o fim, como o vêm fazendo, justificando-se sempre. E o que é mais paradoxal: tomando este estado de total confusão e de reincidência de enganos filosóficos e desvios que vêm assinalados, desde a antiguidade, como progresso e evolução. Se nos negarmos a ser esse produto social, cabe perguntar-se: o que somos? E encontrar uma saída. Que seria o mesmo que reconhecer a própria identidade, o ser, o verdadeiro eu. Está-se no meio de uma roda e não se pode fugir. Apanhados, tudo se repete outra e outra vez, e não conseguimos escapar de nossos padrões, que se reciclam em um perpétuo retorno, já que estamos aprisionados no cárcere do princípio e do fim, da dualidade da causa e do efeito, que obriga a nossa psique a repetir indefinidamente suas condutas em perfeito acordo com o tempo, que se reitera de tal maneira, que cada dia que passa é um aproximar do prazo da velhice, da enfermidade e da morte.

Acontece que, homens deste século, não recordamos que o ser humano aprende tudo. Ensinam-nos a comer, a caminhar, a falar, e daí por diante a série. Nada seria o homem do que pretende se não o tivesse aprendido. Somos o que sabemos, e isso sempre nos é ensinado. E surpreendentemente acreditamos, e damos como algo natural – como consubstancial com o ser humano – um saber infuso comum a uma espécie privilegiada, proprietária e reitora da terra, quando certamente não fazemos senão imitar imitações que nos conformam. Isto é válido não somente para os conhecimentos racionais ou conscientes, mas sim deste modo o é para o “sentimento” e até para o “instinto” – ambos aprendidos –, que na época atual são a maior garantia de certeza.

Por isso, trate-se de abandonar a confusão da ideia de tempo, tal qual hoje nos oferece, para conhecer e viver o atemporal, a eterna beleza, através do suporte da obra criativa, e acessar o estado onde a causalidade não existe. Sem lugar a dúvidas, a arte é uma atividade contemplativa, pois promove o conhecimento através da identificação do sujeito e do objeto, por mediação da beleza. Mas o “esteta”, o personagem oficial que se ocupa destes assuntos, ignora-o, já que é um apaixonado apenas pela superfície das coisas[45]. A arte é a evocação da ideia arquetípica, invocada no rito da criação. É a irrupção do invisível e inaudível, que mediante a forma e o pensamento se expressará a si mesmo, reconhecendo-se no gesto e na palavra, que configuram toda manifestação – até a cósmica –, o que é equivalente à cunhagem de uma linguagem ou código, que vai do universal ao particular, e deste retorna ao universal, pela atração do perfeito da obra – à qual nada há que se adicionar nem se tirar –, que simboliza a perfeição de seu criador, pelas correspondências estabelecidas entre eles.

Partidas de xadrez do século XVIII, XIX ou XX, têm estilos tão diferentes entre si, como o têm as artes visuais, a literatura, a música e toda moda ou atividade, em íntima relação com as ideias filosóficas, as ciências e as mentalidades desses períodos. O gosto muda, é relativo e perecível como a apreciação “estética”. Mas se as obras tiverem sido executadas retamente, isto é, de acordo à arte, e como expressão da natureza universal, da vida, do conhecimento, da compreensão das pautas do modelo cósmico, ou em concordância com a ciência dos ritmos – o que equivale a dizer perfeitas em seu gênero –, têm que refletir necessariamente a beleza completa daquilo que as inspirou.

Mas hoje em dia se substitui ao significado pela anedota, esquecendo que é o conteúdo das imagens mentais de quem realiza a obra, o que efetiva o rito da criação. Que sem elas e seu sentido, tudo seria uma mera reprodução ou paródia (muito hábil, espetacular ou rotineira), sem nenhum objeto nem significado, salvo o da multiplicação quantitativa, a adulação momentânea da vaidade, a degustação de um pequeno poder ou o cumprir com a “consciência” moral (ou imoral), satisfazendo-a com a mera ação, a que se atribuem assim características mágico-sacro-religiosas, dentro de um contexto social, material e profano. Desde estes pontos de vista, a atividade artística é um negócio como qualquer outro, acaso uma profissão especializada ou um trabalho que alguém quer cumprir. De acordo com o padrão social vigente, é o marchand quem tira o maior proveito rentável, posto que ele cria e dirige o mercado em relação com seus gostos, ideologias e interesses particulares, em companhia ou contra outros pessoais análogos, com o qual se repartem o poder da “tirania” cultural e sua tradução monetária. A arte não é algo superficial, nitidamente esnobe e classista, relacionada com o triunfo na vida e com o êxito. Uma atividade para “preparados”, que por motivo de certas facilidades, se sobrevalorizam sem se recordar que, por outra parte, qualquer [um] tem estas disposições naturais num ou noutro campo, nem todos hoje considerados como “artísticos”[46].

Enfim, e para não seguir abundando em detalhes e em críticas arquiconhecidas para aqueles que se interessam nestes assuntos, e voltando para nossos temas específicos, se não fosse um excesso, diríamos que o símbolo, por definição, é indefinível, já que é algo significante, distinto de si mesmo, em razão do qual ele é tal. Entretanto não devemos confundir seu significado com sua função significante ou significativa. De fato, o significado dos signa (ou milagres) é o da revelação do sobrenatural. Nunca o efeito destes signa ocorrem no meio [social][47]. Esta “definição” enquadra a criação artística – símbolo por excelência – e do mesmo modo o homem, que é o símbolo mais alto da obra criacional. Se considerarmos o modelo da roda e o transpormos ao ser deste homem, diremos que o ponto central corresponde a seu Eu, a sua interioridade, a sua identidade, a seu espírito, e a periferia a seus egos pessoais, a sua exterioridade, a suas circunstâncias e a seu corpo. Logicamente, se o ponto central representar o espírito e a circunferência o corpo, é fácil inferir que o que vai do ponto virtual ao limite do plano, a zona intermediária, que é quase a superfície inteira da figura do círculo – vale dizer os indefinidos rádios ou raios que comunicam o mais interno, profundo e misterioso, com o mais externo, superficial e manifesto –, corresponderá à função da alma, anima ou psique, verdadeiro veículo da arte.

Tomando em devida conta que esta mediação tem uma parte mais alta, a mais próxima ao espírito (onde convergem as irradiações no ponto central e estão mais próximas a ele), e outra mais baixa, a mais próxima ao corpo (aonde os raios se foram separando, afastando do centro). Esta é a antiga distinção entre a Vênus Urania e a Vênus Pandemos, e entre Diana e Hécate, e também entre a verdadeira arte relacionada com a cognição e a beleza e a arte de adulação, ou festiva, vinculada com o gosto e com a superficialidade. Na verdade, estes extremos não se excluem, salvo na mentalidade dos que tomaram partido por um, negando e menosprezando o outro –tendo optado certamente pelo mais baixo–, e nos ensinaram como única e boa essa escolha, tentando nos complicar em suas manobras.

Não nos resta, então, mais remédio senão negar a negação e afirmar então os princípios, ou seja, o imóvel e eterno (sagrado), para poder complementá-lo com seu oposto incessante, o que se move e muda (profano) e compreender assim o tempo e seu sentido simbólico, tal como o da manifestação, sabendo que na imanifestação primitiva, na imutabilidade, têm que se achar seu complemento e sua origem. Já que o sensível é o reflexo do inteligível, ou como já se disse: “o invisível deixa-se ver à inteligência por suas obras”[48].

Tomemos cuidado de certas pessoas[49], que têm feito de seu conformismo ou sua rebeldia um credo, as quais, por um imperativo lógico e histórico de sua estrutura interna, não podem superar a periferia, a ilusão, a literalidade, o consumo psicológico e ideológico, a má fé congênita e, sobretudo, a ignorância, que já faz uns séculos está na última moda.

Continua

Autor: Federico González
Tradução: Igor Silva

Notas

[44] – As máscaras teatrais gregas deram lugar, por meio do latim, à palavra “pessoa”.

[45] – “Guias cegos, que coam o mosquito e tragam o camelo!” (Mateus, XXIII, 24).

[46] – Na cozinha, na jardinagem, na medicina, na caça, nos jogos de mãos, no cálculo aritmético, etc.

[47] – Cf. cap. II nota 12.

[48] – Romanos, 1, 20.

[49] – Essas pessoas também somos nós ou muitos de nossos egos.

Nota do Blog

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O Simbolismo da Roda – Capítulo 3 (1ª Parte)

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Perspectivas da Arte

Geralmente, ao falar de arte hoje em dia, referimo-nos vagamente a história desta, ou vagamente a um fato cultural de certo “status” intelectual e socioeconômico, que a pintura (a mais injustamente afortunada dentre as artes) exemplifica. Também estamos acostumados a nos referir a ela como a um inventário musicológico de obras acabadas e datadas em tal ou qual tempo e localizadas neste ou naquele lugar. Do ponto de vista em que nos situamos, não nos interessam tanto estas perspectivas, que por certo não negamos, mas preferimos ver a arte como uma atitude especificamente humana, não localizada em nenhum esquema classificatório ou histórico-geográfico, mas sim perfeitamente viva, atualizada pelo homem de todos os tempos e refletida em seus símbolos culturais e sagrados, que embora reconheçam uma origem que lhes precede, são a matéria a partir da qual se produz a [RE]generação cíclica das civilizações, do mesmo modo que no firmamento a atividade solar recria permanentemente as diversas condições ou formas de vida de seu sistema. Nesse sentido, sempre nos interessou a arte como forma de conhecimento, ou melhor, a atitude do artista como uma maneira de entrar em determinadas dimensões do mundo linear de seu entorno –embora ele mesmo seja pouco consciente disso–, mediante uma concentração de suas possibilidades, seja através de um trabalho ordenado e paciente ou da síntese catártica totalizante; ou de ambas, posto que, por certo, não há o porquê de se excluir uma à outra, tendo em vista que se complementam onde a descoberta ou contemplação da beleza produz uma espécie de emoção relacionada com um sentimento de plenitude, ausência ou vazio, onde todos os seres e as coisas não são senão eles mesmos, em sua pura realidade despojada, o que equivale a vivenciar a ideia arquetípica de harmonia, até na desarmonia, e de equilíbrio e justiça, até nos conceitos que dialeticamente se lhes opõem.

Esta emoção intelectiva é um modo de conhecer. Uma maneira, uma atitude por certo imprecisa, não lógica, de aproximar-se do objeto do conhecimento pelo sujeito que conhece e que, chegando a seu clímax, funde o sujeito que conhece com o objeto conhecido, produzindo o conhecimento, que deixa então de ser consecutivo, inclusive espacial, para passar a ser algo diferente ao produzir uma transformação –qualquer que esta seja–, sempre apreendida através da experiência direta, embora o suporte simbólico utilizado seja qualquer coisa ou ser manifestado. Pode-se ver aqui uma estreita vinculação com o amor, posto que ambas as possibilidades emotivas unem ou religam, ou atuam como prolongamentos da identidade do si mesmo em todas as coisas. Interessa-nos, além de resgatar um elemento de incerteza, ou de aventura, inerente aos riscos da arte e do amor, duas maneiras de observar, de cima, o processo do conhecimento, que se acha na origem e na identidade do próprio ser. E esse risco, essa paixão, esse fogo, está sempre presente em tudo o que implique a busca e a realização da beleza e da sabedoria, quer dizer, a unidade no amor, o que constitui a arte na vida.

Assim, referimo-nos à arte como uma “poética” comprometida com o conhecer do homem, ao qual consideramos parte imprescindível deste processo perene de inter-relação e expressão, onde a inteligência universal, que ele mesmo reflete – manifestando-se como uma arte de indefinidas possibilidades, brinda-lhe a opção de ser tudo o que ele conhece. Esta “poética” inclui todas as artes[38]: arquitetura e construção, artesanatos, técnicas e ciências, ofícios (cerâmica, vidro, jardinagem, metalurgia, roupa e calçado, joalheria, carpintaria, etc.), as artes chamadas marciais e a dança, escultura, música, teatro e poesia, geometria, gramática, alquimia, etc., ou seja, as artes liberais e o homem integral.

E como nada deixa de ser simbólico na ordem microcósmica, esta “poética”, referente ao homem e sua atividade criadora, pode se transpor à ordem macrocósmica, onde a natureza, a vida e o universo não são senão um conjunto análogo de seres e funções, unidos no amor. E então a terra e o homem podem ser considerados como obras de arte, ou objetos de desenho, frutos de uma poética geral, cuja origem é um som chamado verbo ou Logos, que não é senão a manifestação surgida do maior grau de concentração possível[39].

É óbvio afirmar que sem homem não há arte, embora não seja demais efetuar esta elucidação em uma sociedade que, por uma espécie de mania empírica, separa as coisas de seu contexto e lhes outorga uma categoria diferente, como se tivessem vida ou realidade por si mesmas, classificando-as no fichário imaginário correspondente, neste caso sob o nome de “arte”, conferindo-lhes uma série de características perfeitamente arbitrárias ou ilusórias, tendentes a nos fazer acreditar – de maneira quase publicitária –, que aquilo é uma verdade objetiva, quase científica, sempre algo concreto, tangível, disposto a ser analisado e catalogado. O homem é o sujeito-objeto da verdadeira arte, e através dele se materializa a possibilidade da obra criativa, reflexo de uma obra mais vasta, na qual o homem está incluído. O mago – que tira coisas da substância informe, e ao realizá-las, atualiza as possibilidades que esta tem em si, tal qual às que leva nele mesmo interiormente –, localizando-se no centro de seu círculo ritualístico, é o criador do espaço onde se dão todas suas possibilidades e as de sua obra. Este é seu cosmos, simbolizado pelo círculo, que cumpre também funções limitadoras, além de protetoras. E sua imagem vertical, localizada espacialmente no centro ou eixo da figura, é a mediação entre céu e terra; quer dizer, a de um veículo entre o mundo invisível das ideias e a manifestação horizontal e material destas, através de uma gestação ou encarnação das potencialidades do ser, que têm que se refletir no ato criativo.

Este homem é o artista[40], indivíduo de ofício ou de conhecimento, que recria o mundo através de sua atividade redentora, ao vivificar as potencialidades que todo homem leva em si mesmo em forma latente, e toda substância de maneira imanente. Conecta-se assim com o ritmo de todas as coisas, o ritmo universal[41], e sua obra constitui a passagem entre o incriado e o criado, como uma síntese que manifesta a unidade, para imediatamente plasmá-la na multiplicidade das formas. O que equivale a assimilá-las analogamente a um duplo movimento de concentração-expansão, de expressão energética centrípeta-centrífuga, yin-yang, solve-coagula, sempre presente em todas as coisas, e que faz vibrar o artista como um diapasão harmônico em sua conexão vertical, que necessariamente deve irradiar no plano horizontal.

E esta conversão de energia estática em dinâmica, que vai do um ao múltiplo, tem sua réplica instantânea na ação inversa, a da reciclagem do múltiplo ao um, já que a obra de arte concebida e executada se transforma, por sua vez, em objeto estático, e é contemplada por outro homem, que a partir dela, como coisa criada, remonta-se ao ato criativo e à revelação da ideia – ou arquétipo – inspiradora, que originou todo o processo. Nesse trabalho transmissor, onde o ser humano como sujeito dinâmico – neste caso o artista – recebe, emite e dá lugar ao objeto ou símbolo revelador, que por sua vez retransmite a energia originária, convertendo-se assim em um suporte, em um veículo apto para a compreensão, reside o mistério da arte; em suma, o mistério do homem, ou de toda a criação – já que este processo é válido para qualquer manifestação –, que se expressa sempre em forma rotativa ou cíclica.

Queremos recordar aqui a ideia da fecundação pela palavra, e a já mencionada do verbo, ou logos, como origem da manifestação. E também a de Purusha como princípio ativo, e Prakriti como princípio passivo ou substancial da criação universal. O artista, mago, xamã ou demiurgo é também o rei ou imperador de um espaço onde ele é o eixo ou centro[42]. E estando tudo concatenado na vida universal, havendo sempre algo pré-existente e, de maneira análoga, também pré-existente para outros que abrirão os olhos depois de nós, cada gesto ou atitude moverá energias indefinidas, algumas delas visíveis ou de um historicismo evidente, mas a maior parte serão invisíveis, nem sequer conhecidas por aqueles que participam delas.

A lei de correspondência sempre atua, como não poderia deixar de ser, já que se trata de uma lei universal; e a vontade de ser cria um novo espaço onde a obra criativa ou o reino florescem, pois onde não havia senão um amorfo, ou um vazio, a substância universal virgem para ser fecundada pela energia positiva, agora se engendrou um mundo, que já estava contido nessa substância de um modo passivo. E assim, o que era passivo será agora ativo; e a energia ativa, que funcionou como um detonador, converter-se-á em um símbolo, ou objeto estático criado, que levará implícito nele a energia ativa original, sintetizada em forma passiva ou potencial, disposta a ser vivificada, para poder adquirir, assim, uma nova configuração espaço-temporal, entre a bipolaridade do eixo de uma esfera, ou o ponto original e a circunferência de um círculo, ou o centro e a periferia móvel de uma roda. O homem seria então um mediador, um intermediário, o criador de um plano de expansão entre a ideia arquetípica e sua cristalização final no mundo, entre a unidade original primitiva e a individualidade da obra criada na diversidade de um gênero, já que qualquer ponto da circunferência é um reflexo – e como tal invertido – do ponto original, e leva dentro de si mesmo, como aquele, a possibilidade de engendrar um campo, ou cosmos, ou seja, uma obra ou criação. Esta é a razão de ser da arte, e por certo da magia, e também do símbolo e do rito.

Deste modo, o homem, ao se identificar através da arte com o ponto virtual, ou unidade sintética, escapa da relação espaço-temporal, pois o imóvel, absoluto ou infinito, não tem fim nem fins. E assim é como extrai da ideia arquetípica a manifestação criativa, que sempre nasceu e sempre nasce. Isto se deve a que a unidade, desdobrando-se no ritmo da dualidade, mediante suas emanações ou intermediações, gera a multiplicidade dos seres -ou os estados do ser universal -, ou as coisas criadas, pontos individuais na circunferência espaço-temporal, sementes que, levando em si mesmos a possibilidade de criar – ou seja, de imitar[43] a unidade arquetípica – fazem com que esta reflua incessantemente com o movimento de uma roda, imagem e modelo do cosmos. Assim, a inspiração artística, sua expressão, e o retorno à ideia original através da síntese que fez possível a concreção da obra ou objeto artístico, é o que constitui um esquema simbólico sempre presente em qualquer manifestação.

Continua

Autor: Federico González
Tradução: Igor Silva

Notas

[38] – Uma poética não é só uma metafórica nem uma confusa fantasia ou um vago “sentimento cósmico” –como o símbolo não é só alegoria–, senão uma forma de ser, uma maneira de viver, sempre relacionada com a busca da verdade –e neste sentido é heroica–, a sede de conhecimento e, portanto, a reintegração ao si mesmo.

[39] – Ver mais adiante a teoria cabalística do Tsim-Tsum.

[40] – Nome com o que os alquimistas também gostavam de se autodenominar.

[41] – A expressão ritmada, ou rima, é própria da poética, assim como da música e da dança.

[42] – O pontífice deriva seu nome de “ponte”. O que equivale a dizer: de um veículo mediador entre duas bordas ou pontos, que são o céu e a terra, os dois polos da criação.

[43] – No sentido em que Platão, em Timeu, diz que “o tempo é uma imagem móvel da eternidade; imita a eternidade”.

Nota do Blog

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O Simbolismo da Roda – Capítulo 2 (2ª Parte)

Outras Modalidades do Símbolo da Roda

Com nossa ótica cultural contemporânea, estamos acostumados a visualizar o espaço e o tempo como homogêneos, sem fissuras. A antiguidade não pensava o mesmo. E estabelecia em distintos lugares geográficos, especialmente escolhidos, e em datas calendáricas precisas, seus espaços e tempos rituais. E esses são precisamente, na trama invisível da vida, os pontos de junção (ensamble, nós ou ligaduras), ou de interconexão com outros planos ou mundos[15].

Nesse sentido, é interessante destacar a simbologia dos povos peregrinos, que em uma viagem através dos anos (tempo) e dos distintos lugares (espaço), encontram seu ser ao se solidificarem, concentrarem ou cristalizarem como um povo, ou nação, em determinada circunstância temporal e espacial[16]. Ressaltada esta circunstância pelos sacerdotes, os sábios e os chefes, o povo se assenta nessa paragem e nesse tempo, e cria dessa maneira uma cultura. A vida nova de um grupo. Um plano, ou meio que, por irradiação de um centro, como no modelo da roda cósmica, tem que estruturar as concepções, emoções, sentimentos, de uma comunidade. Ou o que é o mesmo, sua razão de ser como tal.

Assistimos a uma RE-criação do mundo, à instauração de uma cosmogonia, que faz possível a vida desse grupo, e que o mesmo povo conforma ao atuá-la. Essa “cosmificação” de um ponto espaço-temporal da circunferência – ou periferia da roda – seria um raio da roda, um reflexo da unidade central, e um verdadeiro centro para os adstritos a ela [cultura]. Nesse sentido, devemos recordar uma vez mais, que à energia centrífuga ou de expansão, corresponde a energia centrípeta ou de contração. E que ambas conjuntamente realizam o rito da vida e da morte, dessa ou de qualquer outra comunidade, assim como de qualquer coisa criada, que está sujeita a determinante causa-efeito, como tudo o [que está] incluído no mundo manifestado. Assim, ao instaurar um espaço e um tempo significativo, na massa do amorfo e indeterminado[17], este é sacralizado[18] e realçado por sua qualidade intrínseca, em detrimento do menos significativo ou profano, nitidamente vinculado com o relativo, com o o múltiplo e com o artificial.

Desta maneira, mediante este rito, nasce um povo que começa a contar seu tempo, sua história, desse momento em diante. Sendo suas origens, desta perspectiva, míticas ou não temporais. Igualmente toma consciência de si, de seu ser, e se visualiza como protagonista, “centro do mundo”, ou “povo eleito”. O que é o mesmo que dizer que tem um nome[19].

Esse mesmo nome, ou cor, ou número, ou particularização químico-genética, ou impressão digital, é absolutamente pessoal. E se expressa mediante uma marca ou signo, que outorga ao ser sua individualidade dentro de um conjunto de seres. E que –paradoxalmente – é ao mesmo tempo o anúncio de sua própria morte, na limitação (causa-efeito) de qualquer plano de existência. Já que é claro que aquilo que nos dá a vida, por esse mesmo expediente, está nos assinalando com a morte.

Vimos então, como o nascimento de um ser – por exemplo, uma cultura – cria simultaneamente um novo espaço e um novo tempo, onde se desenvolve esse ser; e que tal desenvolvimento não é senão esse próprio ser. Ou dito de outra maneira: que toda criação renova as possibilidades espaço-temporais, arquetípicas, da criação original, e não é mais que uma modalidade dessa mesma criação, ao atualizar as possibilidades daquilo que no universo manifestado deu lugar às coordenadas espaço-temporais. Para uma civilização tradicional, as festas sagradas são pontos significativos na circunferência do ciclo calendárico, que garantem a comunicação com a energia invisível do centro, reflexo da verticalidade[20]. O mesmo acontece com o vasto espaço que, como o ano, apresenta pontos e situações de junção, de comunicação de energia através de distintos planos ou níveis[21]. Elas estão dadas em circunstâncias geográficas precisas, nos lugares onde se estabelecem as cidades, fundam-se os templos, ou se instala a casa habitação[22].

Estes pontos significativos (sagrados), estão claramente hierarquizados com relação aos insignificantes (profanos), embora intimamente relacionados com eles, já que não poderiam existir uns sem os outros[23].

Nesta perspectiva, o centro do modelo simbólico da roda corresponderia à origem. E seu desdobramento manifestado ao samsara (para empregar um termo hinduísta-budista), do qual, e graças a uma concentração de energias, retornar-se-ia à unidade nirvânica simultânea dos seres e das coisas, da qual estes não saíram jamais, senão em forma ilusória e sucessiva, de acordo com os padrões dialéticos da mente dual. Por outra parte, terá que se destacar que esta divisão hierárquica entre o nirvânico e o samsárico, e deste modo entre o sagrado e o profano, o simultâneo e o sucessivo, é por certo relativa. E válida só do ponto de vista do samsárico, do profano e do sucessivo. Quer dizer, do discursivo, que trata de expressar um só fato e uma só realidade, que em si mesma compreende a gama indefinida de todas as possibilidades de manifestação, sejam estas o que forem. Da periferia ao centro se estabelecem essas hierarquias, sendo o centro mesmo a máxima hierarquização, como símbolo no plano da unidade original vertical, que produz por graus todas as coisas, e à qual necessariamente elas retornam de forma sucessiva. Se uma gota d’água cai em um lago, forma um campo de irradiação que chega a seus próprios limites. Do ponto de vista de um ser situado nesse limite, e portanto, um ser sucessivo, o retorno a sua fonte original se realizaria através da ruptura dos diversos círculos concêntricos, que lhe apresentariam como imagens de mundos ou estados espaço-temporais diferentes, como escalonados, os quais impedem deste modo sua fusão com o centro. Ou envolvem e ocultam essa gota original, essa semente primitiva, que se vislumbra como anterior no tempo.

A figura simbólica de um círculo[24] que contém outros círculos internos, considerada do ponto de vista de sua expansão (ad-extra), é a sucessão de degraus intermédios que tornam possível a existência de qualquer criação[25]. Tomada do ponto de vista da periferia, é a viagem hierarquizada (ad-intra), ou a escala sucessiva que se percorre ao se pretender a fusão com o centro primitivo[26]. Assim, no modelo de uma cidade tradicional (ou civilização), os limites da mesma emolduram um espaço significativo. Fora desta ordem, tudo é incerteza, confusão, barbárie ou selvageria. Mas esta cidade se acha hierarquizada. Em sua periferia vive a grande massa[27]. Um grau adentro (ou mais alto), acha-se um número menor de pessoas que se dedicam a atividades mais específicas. Outro grau ou passo mais adentro ou acima, encontra-se um grupo ainda menor, a nobreza, e acima dela, sozinho, o imperador, como encarnação do poder real e, sobretudo, do conhecimento ou sabedoria sacerdotal[28]. Esta é a verdadeira ideia de aristocracia, sempre ligada à hierarquia espiritual, e ao conhecimento que ela entranha, sem ponto em comum com as versões às quais estamos geralmente habituados – degradação e inversão – próprias “deste mundo”.

No simbolismo construtivo, a arquitetura do templo se levanta do plano quadrangular da base (terra), até a semiesfera da cúpula (céu), escalonada hierarquicamente em planos ou níveis sobrepostos. Este templo, em sua planta, ou plano horizontal, reproduzirá as mesmas Hierarquias verticais de sua estrutura, e a passagem árdua e hierarquizada através delas. A rua representaria o mundo do confuso e do aleatório. A ela se abre a porta (símbolo de passagem de um espaço a outro espaço, ou de um estado a outro estado) do templo, que estabelece propriamente o limite entre o sagrado e o profano. Ao transpô-la, e em seguida da passagem pela área onde se acha a pia batismal (símbolo da regeneração pela água, ou novo nascimento), penetra-se no recinto propriamente dito: e se percorre o caminho[29] que leva ao centro do templo[30]  onde se encontra o altar, como projeção, no plano, da verticalidade da cúpula. E sobre a pedra de sacrifício, relacionada com o fogo, o sacrário[31], um recinto ou recipiente vazio capaz de recolher os eflúvios celestes, que se derramam sobre este ponto como emanações, e que bem poderia ser chamado o “coração” do templo.

Dali em diante, as hierarquias são verticais, e para as perceber terá que morrer novamente, e ressuscitar ou regenerar-se no fogo. Enquanto as águas batismais estão relacionadas com os nascidos de ventre de mãe (embora façam jejuns, penitências, sejam ascetas, ou pratiquem a castidade como João Batista), o batismo de fogo está relacionado com a pedra de sacrifício, o sangue e o vinho cerimonial; com Cristo, e os que já virtualmente não têm nenhum condicionamento humano, nem mesmo o impreciso sinal da determinação do nascimento, por isso não se encontram identificados com sua pessoa, nem inclusive com seus mesmos atos relativos. Quer dizer, os que já conhecem por intuição direta os estados supra-individuais do ser, dos quais se diz já não perceberem exclusivamente pelos sentidos, e se acham em condições de empreender então uma nova viagem, desta vez vertical. Esta mesma significação (dos círculos contidos uns nos outros, hierarquizados com respeito a sua aproximação a um centro ou eixo) dão-na os hebreus, quando dizem que Sião é a terra escolhida, que dentro dela se acha a cidade sagrada de Jerusalém, no interior desta, seu templo, e oculto no coração deste último, o Sancto Sanctorum.

Se o templo for um modelo do cosmos, os eflúvios divinos têm que se encontrar de forma imanente no mais oculto dele mesmo. Se o corpo humano for também um templo e um modelo, ou miniatura do cosmos, estes eflúvios também se têm que encontrar em forma virtual, ou em potência, no fundo do coração. No modelo cósmico da roda se achará o ponto central (invisível), que articula suas irradiações ou vibrações graduais de energia, até chegar a seus próprios limites, ou suas formas superficiais. Mas: a) o templo não é a soma de seus tijolos, nem o inventário quantitativo que se poderia fazer em qualquer direção de seu conjunto, ou de suas partes; b) deste modo o homem não é a soma de suas células, nem o catálogo de seus inumeráveis componentes; e, c) por outra parte, no modelo simbólico que estamos estudando: “trinta raios convergem para o cubo da roda, mas é o vazio do centro o que faz útil à roda”[32]. Na realidade, o que verdadeiramente interessa, é o espaço interno e suas qualidades diferentes, significativas, sagradas, e não a sucessão quantitativa de janelas e colunas do templo, ou músculos e poros do homem, ou lugares indefinidos por onde passa, tenha passado ou passará a roda. Na verdade, esse lugar interno, é a morada do silêncio, ou do mistério. O coração é a clave (chave) do ser. Pois nele se acha a possibilidade da ascensão vertical. A salvação messiânica, ou a saída definitiva do samsara ao nirvana, ou estado de “iluminação”[33].

Esta liberação, obtém-se através de um caminho gradual, por estações, que no caso da tradição extremo oriental, enumeram-se da periferia ao centro, como Tao do homem, Tao da terra, Tao do céu, e o Tao de Taos, ou Tao abstrato. Na tradição judaica (e também da periferia ao centro), como Olam ha’asiyah, ou mundo da realidade materializada, Olam hayetsirah, ou mundo das formações cósmicas, Olam haberiyah, ou plano da criação e Olam ha’atsiluth, mundo das emanações. Este caminho espiral ascendente, que vai do mais baixo ao mais alto[34], do mais grosso ao mais sutil, do múltiplo ao sintético, e vincula vários planos entre si, de maneira sucessiva, é o que descreve Dante na Divina Comédia. E é bem sabido que essa via é chamada de iniciação nos mistérios. O que equivale à transmutação da consciência do aprendiz ou aluno, a ampliação de todas suas possibilidades latentes ou adormecidas, o qual [o aprendiz], através de um processo arquetípico, realiza uma “viagem”, ou caminho sucessivo; a aventura do conhecimento, que finalmente termina na obtenção do buscado. Este achado é chamado licor de imortalidade, elixir de longa vida, paraíso, tesouro, vida eterna, ou Santo Graal.

No centro arquetípico, ou no eixo vertical, está esse lugar que todos os seres desejam, até sem sabê-lo. E ali é onde o encontram os homens da ciência, ou filósofos, ou artistas, como se denomina os alquimistas medievais. É por outra parte, nesse lugar invisível, apenas virtual, onde os sábios de todos os povos e de todas as tradições o acharam unanimemente. Pois conhecem que o que é maior em um sentido, é menor em outro, e vice-versa. Assim, o que é maior em uma ordem elevada (céu), é quase imperceptível em uma ordem baixa (terra). E o que é maior em uma ordem baixa (terra), é menor em uma ordem alta (céu). Estes personagens procuram então o pequeno, o imperceptível, o invisível, o sutil, porque sabem que ali se acha em potência toda a possibilidade do poder. E não o buscam para em seguida utilizá-lo com ânimo prático. Nem tampouco manipulam este conhecimento como uma “fórmula” literal. Mas sim, experimentando em si mesmos, reconhecem ou encarnam a verdade destas asserções, nitidamente invertidas com relação à educação ilusória recebida no mundo profano, que faz do quantitativo e do maior o mais poderoso, quando a realidade é precisamente o contrário, pois qualquer ato está incluído em sua potência.

Em todo caso, esse “caminho”, ou “viagem”, é análogo ao da criação de um mundo ou cosmos. É também a reintegração da alma a seus planos superiores, tanto depois da morte física, como da morte iniciática. E em ambos os casos, a alma que detém seu andar na “viagem” divina do ser, deve necessariamente descer e reencarnar novamente, se se tratar da morte física, e de limitar-se a um nível do caminho fixado por suas próprias convicções ou condicionamentos, se nos referirmos à iniciação. Não terá conseguido, então, ser reabsorvida na sua origem, e se verá impelida a errar, uma vez mais, através de inumeráveis estados do ser universal, tendo perdido a oportunidade que representava o estado humano, sem que isto implique a condenação definitiva[35], senão a dificuldade da realização espiritual, e as “provas” necessárias para o “polimento da pedra”, ou seja: a infeliz passagem de um estado a outro estado (morte-ressurreição, desatar-atar), até a imobilidade do princípio sempre presente.

Neste sentido, devemos anotar que o homem “progressista”, “vitorioso” e “de ciência”, conforme é concebido pela sociedade moderna contemporânea – quer dizer, por nós ao sermos filhos da programação condicionada que nos coube –, não chegou ainda, aos olhos de uma sociedade tradicional, a ser homem. Segundo esta concepção, existimos ordinariamente em um estado infra-humano, e devemos atualizar, mediante um intenso trabalho, nossas potencialidades latentes ou adormecidas, até chegar ao estado edênico, virginal ou primordial[36], que em nosso modelo da roda é o ponto central, original, o tabernáculo do templo, o coração do ser, espaço vazio no qual podemos ser fecundados pelo espírito. Dar-se-ia, então, a possibilidade do nascimento do Cristo interno – anunciado por João e Elias[37] – que, por sua vez, através de sua paixão e morte, pudesse finalmente identificar-se com o Pai, em forma direta, o que lhe permite a ressurreição e a vida eterna. Neste último caso, chegar-se-ia à fusão com a deidade – sem confusão –, à união no eixo vertical representado pela árvore da cruz. Quer dizer, aos estados supra-humanos, ou supra cósmicos, e à possibilidade da transcendência absoluta, que nenhuma linguagem ou código poderá jamais expressar, mas que pode ser vivenciada pelo verdadeiro homem, em seu caráter intermediário.

Autor: Federico González
Tradução: Igor Silva

Notas

[15] – A série numérica e a escala musical são dois códigos descontínuos, e seus componentes não são homogêneos. Daí vem os paradoxos aritméticos e os semitons musicais.

[16] – No caso dos astecas, logo depois de uma peregrinação de um número preciso (mágico) de anos, estes acham seu momento ou a maturação necessária ou a cisão temporal adequada, que se corresponde com um fato espacial: o descobrimento de uma ilha entre as águas, símbolo tradicional do centro; e de uma pedra, miniatura da montanha, que junto com a árvore –neste caso um nopal– é emblema do eixo.

[17] – Por exemplo, o esquema circular ou quadrangular de uma cidade (ou civilização), em meio da confusão das selvas ou dos campos selvagens. Por outra parte, os templos ou locais de culto de forma circular são próprios dos povos nômades, enquanto que os de base quadrangular correspondem aos sedentários.

[18] – O sagrado não tem relação com o “religioso” tal qual hoje é entendido vulgarmente.

[19] – Recordar a potestade criativa e intermediária que possui o homem, outorgada a Adão no paraíso: a de nomear todas as coisas. Por outra parte, os nomes não são senão as formas simbólicas do inominável. E já se sabe que o nome expressa a essência da “coisa”.

[20] – Ou raios, no modelo da roda do cosmos. Estes “raios”, cuja relação com o celeste resulta óbvia, são emissários que unem a terra com o céu. No caso do círculo são os “raios” que vinculam o centro à circunferência.

[21] – Como já se indicou, cada um dos indefinidos pontos da periferia constitui uma “individualização” e uma imagem refletida do ponto arquetípico; desta forma, esta [individualização] corresponderá a uma sociedade ou a um ser humano.

[22] – Estes termos são equivalentes e intercambiáveis. O altar da casa é o lar, opater familias é o sacerdote. Nos povos nômades se leva um poste ritual, símbolo do eixo, que se assenta no lugar onde deve acampar esse povo. Outros peregrinos levam esse mesmo centro dentro de si.

[23] – Na vida (ciclo) de um homem, esses pontos significativos, nos quais se estabelece comunicação direta ou vertical, com outros tempos ou espaços, ou melhor, onde se atualizam outras leituras ou vivências, das coordenadas espaço-temporais nas quais estamos enquadrados (crucificados), podem ser visualizados como estados especiais da consciência e muitos deles se recordam como significativos ou como evocações ou “recordações”, no sentido que Platão atribuía a esse termo.

[24] – Ou seu equivalente quadrangular.

[25] – Jacó, andando pelo deserto, deita-se em um lugar determinado e com uma pedra, símbolo do eixo (miniatura da montanha), como travesseiro, “sonha” com “anjos”, que “descem” e “sobem” por uma escada, do céu à terra e da terra ao céu. Esta irrupção do vertical no horizontal, é equivalente à irradiação do centro ou ao raio de uma roda, que comunica o movimento à periferia, como já vimos.

[26] – Assim, Dionisio Areopagita, falando das linhas retas que convergem ao centro, diz-nos que na medida em que elas estão mais próximas deste, a união é mais íntima. E, pelo contrário, quanto mais afastadas estão dele, maior é a separação.

[27] – O que poderíamos dizer, a base, se damos tridimensionalidade ou relevo a este modelo plano da cidade. De fato, círculos ou quadrados sucessivos, uns dentro dos outros, dão-nos a ideia, no plano, do que é a pirâmide ou o zigurat, no espaço. Que vai da base numerosa, à culminação do ponto único final.

[28] – Observe-se que a série expansiva (ad-extra) poderia ser expressa assim: 1 + 2 + 3 + 4 = 10 (número de totalidade). Enquanto a série contrativa (ad-intra) seria: 10 = 4 + 3 + 2 + 1, conforme a conhecida tetraktys pitagórica.

[29] – Neste percurso se encontra o “labirinto” (como em Chartres e em outras catedrais e templos), símbolo da peregrinação na busca do conhecimento e do perigo de “perder-se”, do qual se terá que encontrar, arduamente, a saída, para a própria salvação.

[30] – Em algumas igrejas, em especial nas catedrais góticas, este centro não se acha no “meio” da forma arquitetônica, mas sim no centro da cruz, que é o esquema do plano construtivo. Como se sabe, a cruz cristã não tem os braços iguais.

[31] – O santuário ou arca da aliança é, por sua vez, outra miniatura do cosmos.

[32] – Lao Tsé: Tao Te King 11.

[33] – É curioso destacar que muitas pessoas pensam que a iluminação é algo que se produz com coros sentimentais de violinos e harpas ou com uma música grave e solene, em um mundo cinematográfico autocompassivo e pomposo. Outros acreditam que chega de casualidade ou como algo fulminante. Em ambas as versões, deve notar-se que esta “iluminação” vem de fora e ilumina o sujeito em questão. Ou seja, que há um sujeito que ilumina e um objeto iluminado. Bem pelo contrário, a iluminação se refere a um estado de consciência, onde as coisas e nós somos uma só identidade, sem confusão de nenhuma espécie. E onde uma iluminação distinta abrange todos os objetos, que simultaneamente brilham à nova luz de um estado, que se acaba de descobrir, e que se traduz nesse conhecimento.

[34] – Apesar de que suas primeiras e longas etapas sejam descritas, muitas vezes, como um descida aos infernos, uma viagem ao inframundo, ao interior da terra.

[35] – Por um ato de arrependimento do presente, ou seja, uma reatualização, apagam-se os “pecados” do passado. O eixo da roda se mantém imutável, enquanto é próprio da mobilidade a mudança permanente.

[36] – Saber que não somos nada, que nada devemos saber, destituirmos o vão orgulho da ignorância oficializada e nossa falsa segurança.

[37] –  Este seria, propriamente, o estado humano. E corresponderia, então, à função mediadora do homem entre céu e terra. A título adicional, diremos que é bem conhecida a identificação entre Adão e Cristo. Esta situação central é chamada tifereth na cabala hebraica e corresponde ao centro de onde o sol extrai sua energia, que manifesta, repitamo-lo, através de seus raios ou os raios da roda.

O Simbolismo da Roda – Capítulo 2 (1ª Parte)

Alguns Aspectos do Simbolismo da Roda

Dos numerosos símbolos que aparecem em uma ou outra tradição, ou civilização, afastadas no espaço (geográfico) ou no tempo (histórico) e que são idênticos, merece especial atenção o símbolo da roda. Não só porque este se dá em todas as culturas das quais temos notícia, mas também pelas inumeráveis possibilidades que brinda, a diversidade de campos que abrange, e a ação concentradora que exerce no estudo e no ordenamento indispensável em qualquer investigação séria.

Por outra parte, as relações de todo tipo a que se presta este símbolo parecem indefinidas, assim como suas conexões com outros pantáculos igualmente tradicionais[1]. De fato, sendo o símbolo da roda a expressão do movimento e da multiplicidade, também o é da imobilidade original e da síntese. É, do mesmo modo, a expressão simbólica da expansão e da concentração. Da energia centrífuga, que parte do centro à periferia, e da energia centrípeta, que retorna a seu centro, eixo ou fonte. Para voltar a se estender uma vez mais, seguindo uma lei universal à qual obedecem as marés (fluxo e vazante) e a terra (condensação, dilatação). Assim como a diástole e a sístole, a aspiração e a expiração do homem ou do universo, quer dizer, tanto do microcósmico, quanto do macrocósmico.

Este símbolo é, também, a manifestação daquilo que, sendo apenas virtual (o ponto), gera um espaço ou plano (que delimita a circunferência)[2]. E está obviamente ligado, portanto, com o espaço e com o tempo, e associado ou unido a qualquer ideia de cosmogonia e criação. Neste mesmo sentido, o movimento superficial da roda, ou externo, estaria vinculado com a manifestação, enquanto a virtualidade, a imobilidade do ponto central ou eixo, achar-se-ia conectada com o imanifestado[3]. As modalidades especiais do símbolo da roda surgem pela irradiação, ou pela “atualização”, das “potencialidades” do ponto central, que se faz “presente” no tempo, criando um campo espacial. Vimos que um ponto gera um plano, quer dizer, um espaço. Esse ponto central é um eixo na tridimensionalidade. Portanto, o símbolo da roda está estreitamente ligado com todo símbolo axial e vertical. E deste modo, com todas as projeções da vertical, quer dizer, com a criação de planos ou espaços horizontais, articulados através de um eixo ao qual refletem, sendo um deles o perímetro limitado de nosso mundo, ciclo, ou qualquer campo definido em relação com as coordenadas espaço-temporais.

Entre os símbolos que manifestam a verticalidade, ou o eixo, devem ser destacadas: a árvore (associada, por certo, à vida e à geração cíclica), a montanha (ou a pedra como “Miniatura” daquela) e do mesmo modo o homem. Pelo que concerne a este último –tal qual hoje o encontramos–, extraiu seus conhecimentos, toda sua cultura, de um modelo simbólico revelado, que é a projeção da energia vertical ao criar um plano horizontal (uma civilização, por exemplo), que em seu movimento cíclico, rotativo, é reintegrada a seu não ser primitivo. A cidade, o sistema social, o templo, o lar, os objetos de uso cotidiano, os costumes, a arte, as lendas, os mitos, o artesanato, a agricultura, os trabalhos domésticos, assim como os ritos religiosos, civis ou pessoais, ou as normas de ordenamento, leis e pautas de comportamento atuais, foram aprendidas de civilizações tradicionais anteriores em pleno processo de degradação. Essas estruturas, que constituíram por séculos a forma do ordenamento social e pessoal (hoje completamente desvirtuadas), reconheciam como antecedentes o mito, o supracósmico, supra-individual e divino, destacando suas origens sagradas.

Quanto a outras modalidades deste pantáculo (pequeno todo), ao qual estamos nos referindo, assinalaremos sua identificação com a ideia de ciclo ou de espaço fechado sobre si mesmo; seja o ciclo do sol em um ano, ou seu movimento aparente em um dia, ou represente a vida inteira de um ser humano (desde seu nascimento até sua morte), ou um período histórico nessa existência, ou na existência do mundo em geral (ex.: um século). É interessante neste sentido associá-lo ao estudo do movimento, os calendários, os períodos vinculados com a agricultura, o conhecimento da harmonia dos céus e a terra, e todo o concernente à ciência dos ritmos.

É, pois, o símbolo da roda, um protótipo ou modelo da ideia arquetípica que o cosmos íntegro não faz senão manifestar. E ao ser um modelo do cosmos, bem poderia ser qualificado como universal na acepção mais ampla deste termo. Por isso chama poderosamente a atenção, que sendo de tão singular importância, não se lhe preste a dedicação devida, ainda que apareça como um legado fundamental, em unânimes formas tradicionais.

Isto se deve, em grande parte, ao fato de que a simbologia aparece, aos olhos de nossos contemporâneos, como uma ciência nova, no sentido historicista deste término. Sendo que tanto os antecedentes desta ciência, como sua razão de ser, remontam-se precisamente ao símbolo, ou seja, à possibilidade de toda manifestação –atual ou pretérita–, relacionando-se com as origens não-históricas ou atemporais de qualquer expressão. Já que esta expressão não faz senão modelar a energia essencial através de uma forma substancial. Entretanto, nunca foram mais citados que hoje em dia os autores que se ocuparam, no passado ou no presente, com relação aos temas da simbólica, que entusiasma o investigador atual, e nos quais este vê uma possibilidade nova, ou uma maneira de acessar o conhecimento (não à soma de informação ou ao enciclopedismo estéril) autêntico.

De todas maneiras, não é demais sublinhar o fato de que, ainda entre estes autores, o tema não foi tratado especificamente, mas tão somente foi incluído entre outros estudos e ensinos simbólicos[4]. Tampouco é demais ressaltar certa dificuldade na compreensão da linguagem simbólica por parte do leitor corrente, não familiarizado com o método analógico e com a utilização da síntese e não da análise. É importante, por outro lado, destacar que muitas destas dificuldades se devem às diversas terminologias, ou palavras, que se empregam com distintas acepções, em tal ou qual contexto, em um mesmo ou em diferentes códigos; às vezes com sentidos ou entonações completamente alheias aos originais, quando não invertidos, como é o caso da leitura “literal”, ou “sentimental”, de qualquer texto, símbolo, rito, mito ou lenda. Ou da própria existência, sem ir mais longe.

Em todo caso, diremos que o símbolo é a expressão de uma energia oculta, que se manifesta através da própria estrutura simbólica. A essa energia o símbolo deve sua razão de ser, pois sem ela este nada estaria simbolizando. É, portanto, o recipiente no qual se molda sua própria forma, e o transmissor de uma energia que, ao configurá-lo, expressa a si mesmo. Nesse sentido dissemos que, em termos gerais, qualquer expressão é simbólica. E a manifestação inteira é um símbolo de algo que está por trás, ou além dela. Ou melhor, de algo que é imanente nela, ou daquilo que se acha oculto, ou que é virtual ou potencial em seu ser. Deve haver, pois, uma correlação muito definida e analogias muito precisas (embora sejam invertidas) entre o simbolizado e o símbolo. Assim, estas são tomadas do ponto de vista do simbolizado, como energia atuante que cria o símbolo e se manifesta através dele, ou do ponto de vista do símbolo, como mediador de uma energia-força que o transcende e que ele não faz senão manifestar. Sem esta correlação seria impossível que qualquer símbolo, palavra ou gesto, expressasse algo. Ou se chegaria à confusão de línguas, onde as palavras, os gestos ou os símbolos, carecessem de todo sentido. O caos, a negação da ordem, a torre de Babel.

Nesta desordem, os símbolos[5] teriam perdido sua energia e não atuariam como transmissores da ideia-força, pois teria sido rompida sua conexão com o simbolizado, ao serem isolados de sua fonte de vida e tratados analiticamente ou de maneira literal. Entretanto, em forma potencial, estes símbolos conservam a vibração que os criou, e basta com que sejam atualizados para que recuperem seu vivificante trabalho mediador, e se convertam no veículo, ou na estrutura necessária, que nos vai levar para além de si mesmo, a um plano ou nível diferente de compreensão. Neste ponto, deverão ser dissipados rapidamente alguns equívocos. O primeiro é o de confundir alegoria com símbolo, e dar a este um valor como de algo provável ou possível, na “esfera” do “como se fosse”. Quer dizer, fazendo-o “simbólico”, na versão degradada que hoje em dia temos deste termo. Portanto, negando-lhe toda possibilidade real, didática ou atuante. Ou o que é o mesmo, negando-o simplesmente[6]. O segundo é tratá-lo como algo do passado. Algo já morto e que nada significa. Ou tomar o que este diz como uma coisa “superada”. Todo dia da criação é o primeiro e todo símbolo expressa hoje, a sua maneira, uma ideia arquetípica, universal, simultânea e eterna. O terceiro é o crasso engano de confundir o símbolo com o simbolizado, do qual a idolatria e a literalidade dão bons exemplos.

Do mesmo modo, deve recalcar-se que todas as tradições atribuíram a seus símbolos e códigos simbólicos o caráter de revelações, ou de origem supra-humano; ao qual se deve adicionar a coincidência de que os símbolos fundamentais estão presentes em todas as tradições de maneira manifestamente idêntica, até em suas aplicações secundárias, ou em suas formas derivadas e folclóricas. E assim, estes dois simples fatos: a) a observação da identidade assombrosa entre as simbólicas de todas as tradições (vivas ou mortas); e b) que todas elas atribuíssem a essas simbólicas um caráter não humano e revelado. [Tais fatos] devem ser para nós tanto um tema de meditação, quanto um incentivo para o estudo e a compreensão destas simbologias e tradições, as quais poderemos acessar graças ao veículo simbólico, tomado como a estrutura de uma ideia. Desde esta perspectiva, há que se visualizar o símbolo como um gesto pelo qual se expressa uma ideia-força: ou seja, o arquétipo em ação. Do “fogo aos fogos”, do sintético ao múltiplo. Do mesmo modo, inversamente, trocando o ponto de vista, do múltiplo ao sintético. Dos inumeráveis fogos, ao fogo arquetípico.

No que se refere especificamente ao símbolo tratado nestas páginas, interessa-nos, fique claro, sua relação com duas energias complementares, que chamamos vertical e horizontal, e que também podem ser designadas –fazendo uma transposição analógica– como essencial e substancial. O eixo central (vertical) enlaça uma cadeia de mundos, ou de planos de manifestação (horizontais), um dos quais é nosso mundo ou nossa vida, na variedade indefinida de mundos e vidas. De ciclos dentro de ciclos. Não é necessário dizer que o ponto que gera o plano é invisível, como qualquer ponto no espaço. E que o eixo, que é a razão de ser de qualquer espaço tridimensional (na arquitetura por exemplo), permanece oculto e imperceptível, expressando-se só de forma reflexa, nas inumeráveis manifestações às quais ele dá lugar. Tal como o espaço vazio, com relação às paredes, às colunas, estruturas ou ornamentos, que constituem sua roupagem substancial. O mesmo poderia ser aplicado à arquitetura universal. Também deve dizer-se que este eixo central, que vincula dois ou mais planos entre si, leva implícita a ideia de movimento, como no caso das rodas de um carro, veículo simbólico (como o cavalo), que expressa a possibilidade de uma viagem, o trasladar de um ponto a outro ponto, ou a conexão de um plano com outro plano. A associação óbvia deste símbolo com o movimento, se expressa em distintas tradições pela ideia de um carro solar, ou pela roda calendárica de um tempo cíclico, reiterado por suas próprias limitações (no caso do sol por seus dois solstícios e dois equinócios). Que não são senão as mesmas limitações (enquadramento, ordem) de todo o manifestado.

É assim, então, que o ponto central em um plano horizontal (ou o que é o mesmo, o eixo vertical, no volumétrico), deve-se relacionar com a potência essencial do ilimitado, enquanto que sua expressão manifesta, quer dizer a circunferência, deve-se vincular com a limitação do ato, que forma as superfícies periféricas ou substanciais da figura. Por outra parte, esta inversão que faz do horizontal um reflexo do vertical, e de toda manifestação substancial uma projeção da imanifestação essencial, diz-nos muito a respeito da ilusão de tudo o que se move, do relativo. O que tem princípio e fim, ou está sujeito a causa-efeito. Por isso mesmo nos fala também da realidade daquilo que sendo um (o centro como projeção da vertical), não tem par. Daquilo que permanecendo imóvel (o absoluto), não está subordinado a nenhum processo dialético[7]. Por outra parte, este esquema da roda é o modelo do ciclo. Na vida que nos rodeia, da qual fazemos parte, tudo são ciclos que, existindo simultaneamente, se inter-relacionam, como podem ser o do átomo incluído no [ciclo] maior da molécula, e este no da célula, e a célula no do organismo humano; ou como o ciclo do dia, incluído no [ciclo] da semana, e este no do mês, e o mensal no do ano, etc. Tudo o que reconhece princípio e fim, causa e efeito, nasce e morre em forma indefinida, enquanto o incriado, o não dual, é infinito e eterno.

Há no plano manifestado uma energia (centrífuga) que parte da origem virtual até o limite de suas possibilidades, e que retorna ao mesmo ponto original (centrípeta), para continuar perenemente este percurso. Estes dois aspectos são também os de dilatação ou expansão, e contração ou concentração, simbolizados respectivamente pelo círculo e pelo quadrado. Ambas as figuras –como símbolos de um espaço ou campo limitado– são equivalentes. E tanto o círculo quanto o quadrado representaram para a antiguidade idêntica perspectiva simbólica. Às vezes, uma mesma tradição utilizou com preferência uma dessas formas, em tal ou qual período, ou as duas de maneira conjunta[8]. As tradições do extremo Oriente simbolizam estes dois aspectos[9] com o Yin e o Yang, que atuam como forças permanentes e equilibradoras de todo ciclo ou processo. No caso do ciclo do homem, haveria também uma energia ascendente relacionada com a infância e a juventude, e outra descendente equiparada com a maturidade e a velhice. Em rigor, esta divisão binária do ciclo é muito importante e parte em dois o nosso modelo da roda. Se fosse a porção oriental a ascendente, e a ocidental a descendente, corresponderia, desde este ponto de vista, a primeira ao símbolo do círculo (energia centrífuga), e a segunda ao do quadrado (energia centrípeta).

Mas, antes de seguir, devemos esclarecer que o modelo simbólico da roda é válido não só para um ciclo em particular, qualquer que este seja, mas também é o protótipo de uma ideia arquetípica, e pode ser aplicado a qualquer ciclo, mesmo que se trate de um ciclo de ciclos, etc., em sucessão indeterminável. Neste sentido não é demais recordar que, para a antiguidade, a ideia de cosmos é uma só. Não há vários mundos ou cosmos, mas sim a soma de todos esses mundos ou cosmos, galáxias ou estrelas indefinidas, é a que constitui a ideia de cosmos ou mundo, em sua acepção mais ampla. Não há, portanto, nada “fora” do cosmos. Nem tampouco nada que não esteja sujeito às leis desse cosmos, nem a seu ordenamento cíclico[10]. Isto o souberam todos os povos civilizados do mundo, e de sua concepção do cosmos extraíram toda sua cultura. Ao fixar seus próprios limites espaciais e temporais deram lugar a sua cidade. Ao criá-la, quer dizer, ao solidificá-la ou cristalizá-la, e ao estabelecer as marcas reincidentes dos períodos agrícolas, conseguiram alimento necessário para a satisfação de suas necessidades básicas. No plano horizontal do mundo, tudo está aqui e agora. E todas as evasões das evasões, são também ilusões.

Entretanto –e segundo a feliz frase do Paul Eluard, “há outros mundos, mas estão neste”– nos oferece através do modelo tradicional, a possibilidade de escapar do movimento reiterativo, sempre constante, da “roda cósmica” ou “roda das encarnações”. Pois a solução, ou salvação, está presente em forma imanente, nessa mesma roda, de maneira oculta, como se encontra na semente toda a potencialidade da nova árvore, e no ovo a “origem do ser”[11]. Portanto, o ordenamento cultural, todas as estruturas de uma civilização, não são senão o reflexo de um centro invisível, que se manifesta, ou se revela, através destes. Pois elas não são senão suportes, ou símbolos, de uma realidade muito mais vasta, não sujeita à mudança. E tudo isto que se acaba de dizer, referido à cultura e a suas estruturas, poderia ser aplicado a qualquer ordem. A tal ou qual organismo vivo. Pois assim como qualquer objeto visível tem uma estrutura interna fundamental, graças a qual este se faz reconhecível como tal, também os símbolos, pelos que se manifestam externamente as coisas –que não são senão simbólicas–, têm que ter alguma estrutura interna. Estas estruturas dos símbolos tradicionais[12], não são senão ideias, ou jogos de ideias, que eles mesmos plasmam com suas formas. O que levaria a pensar que o universo tem uma estrutura precisa, e leis, e jogos de módulos prototípicos. Quer dizer, um modelo que se expressa simbolicamente, através de números e formas geométricas, dando lugar às ciências correspondentes.

Na realidade, toda estrutura tem uma forma. No caso da urdidura e trama dos tecidos, da rede de pesca ou caça, ressalte-se quanto ao entrelaçamento do vertical com o horizontal, por meio de interligações ou contexturas, formando um reticulado. Este desenho simbólico de ordem, dado pelo quadriculado de qualquer plano, poderia expressar também a própria ideia de estrutura, seja a da casa-templo, da cidade, da agricultura, ou da cultura. E os limites mesmos desse quadriculado (o enquadramento final sob a mesma forma), a ideia prototípica de um ciclo de ciclos ou, o que é o mesmo, da unidade e da multiplicidade coexistindo de maneira simultânea. O fato de que um número limitado de formas (o quadriculado), seja emoldurado em uma forma prototípica (o quadrado ou tabuleiro de xadrez), permite às definidas peças do jogo (sejam reis ou peões), uma quantidade indefinida de movimentos e jogadas múltiplas. Se o total do tabuleiro simbolizasse o cosmos[13], o quadriculado expressaria uma ordem dentro desse plano ou campo, perfeitamente delimitado, graças ao qual existem as leis (do jogo), que permitem às diferentes peças protagonizar suas próprias jogadas, ou conjuntos de jogadas[14].

Esta estrutura é a expressão de uma ordem ou de uma inteligência universal, que permanecendo secreta e invisível, é o protótipo de tudo o que pode ser chamada ordem ou inteligência. Por outro lado, essas mesmas leis expressas em medidas e pesos quantitativos, e definidas a nível espaço-temporal, referem-nos também a uma estrutura invisível do cosmos. Ou a um equilíbrio e harmonia universal, que configuram uma linguagem articulada, relacionada com outra “visão” do espaço e do tempo.

Autor: Federico González
Tradução: Igor Silva

Notas

[1] – A esfera é na tridimensionalidade o que o círculo é no plano. Sabido é que o símbolo da roda é representado graficamente como um ponto e a circunferência a que dá lugar pela irradiação de suas possibilidades. Enquanto o ponto central (ou eixo da roda) permanece fixo e imutável, a periferia se move e gira ao redor dele.

[2] – É curioso observar que o ponto central e a circunferência, “que juntos conformam a figura do círculo”, constituem o emblema astrológico do sol, que é o pai da vida, a que produz por irradiação de sua energia até seus próprios limites.

[3] – Na nomenclatura alquímica, o ponto e a circunferência e às vezes só um círculo (simbolizado pelo Uróboro, a serpente que morde a própria cauda), são imagens da vida e de sua origem, da sucessão e da simultaneidade. E também do ouro entendido como rei dos metais ou símbolo da perfeição mineral. Recorde-se que a alquimia sustenta que a energia dos astros nos céus cristaliza-se na dos minerais, sendo ambas análogas entre si. Isto é o mesmo que dizer que existe uma reciprocidade entre céu e terra e vice-versa. É desnecessário adicionar que estas relações estão invertidas uma com relação à outra e que a perspectiva ou visão varia conforme se tome um ponto de vista ou o oposto. O mesmo acontece com o ponto central e a circunferência a que dá lugar. Sendo estes termos complementares, estão, entretanto, hierarquizados. O mais alto é o céu, o mais baixo, a terra. O homem acata as leis da terra, a terra acata as leis do céu” (Tao Te King 25). É imprescindível um ponto central ou eixo para que a circunferência ou a roda existam, não o inverso. Há uma inter-relação, mas também uma preeminência com respeito à metade superior (céu) e na metade inferior (terra) de uma esfera.

[4] – Depois de haver-se publicado estes artigos o autor conheceu o excelente trabalho de Maryvonne Perrot, Le Symbolisme de la Roue que trata extensamente do tema, embora de uma perspectiva distinta –e convergente– a estes textos.

[5] – Quando se fala aqui de símbolos leia-se também mitos e ritos, lendas e textos sagrados.

[6] – O mesmo acontece com o mito ou a lenda. Na linguagem corrente passaram a ser sinônimo de “contos”.

[7] –  A expressão natural do conceito que o ponto geométrico manifesta no plano, é a unidade aritmética, geradora de toda a série ou código ou campo ou mundo numérico. Terá que se esclarecer também que a unidade aritmética é só uma imagem da não dualidade metafísica. Ao ser o primeiro número é também a primeira determinação. O mesmo ocorre com o ser, com referência ao não-ser, e ambos com respeito à não dualidade. Nesse sentido, o ponto central “criador” do espaço, ou o que é o mesmo, o “ser” desse espaço horizontal, é por sua vez o reflexo do não-ser, ou da imanifestação vertical, e ambas da “não dualidade”.

[8] – Ressalte-se que o círculo tem 360º e que a soma dos 4 ângulos retos do quadrângulo (90º x 4 = 360º) é a mesma. Além disso, 360 = 3 + 6 + 0 = 9. O 9 (número cujos múltiplos sempre se reduzem a ele mesmo), é o número do ciclo. Também o é da circunferência, que somada à unidade central (9 + 1 = 10), dá-nos a totalidade das possibilidades do ciclo numérico e da tetraktys pitagórica. Também, a do retorno à origem (10 = 1 + 0 = 1).

[9] – O movimento centrífugo ou o que vai do centro à periferia, tem relação, como se já se disse, com a expansão. Este movimento deve ser transposto no plano circular do ciclo, situando-o ao norte, originando a circunferência e correspondendo esta energia na metade ascendente da roda do dia, quer dizer, a que partindo do Norte, identificada com a zero hora, chega ao Sul ou meio-dia. A porção descendente do ciclo (que vai do Sul ao Norte, quer dizer, que retorna a seu ponto original) está então relacionada com a contração ou concentração centrípeta ou entardecer e noite. Algumas culturas, em distintos lugares e épocas, dividiram o ciclo de forma aparentemente diferente, o que está em relação direta com a razão de ser dessas civilizações. Assim, não se localiza o Norte sempre acima nem o Sul obrigatoriamente abaixo. Tampouco o movimento é visto, necessariamente, da esquerda à direita –quer dizer, no sentido dos ponteiros do relógio–, mas sim o considera em forma retrógrada. Estes dois exemplos podem encontrar-se nas culturas pré-colombianas e extremo orientais.

[10] – E um dos enganos contemporâneos mais comuns é o de conceber um infinito finito. A soma indefinida de finitos (ou ciclos) não pode constituir o infinito. Este, por definição, é o que não é finito. Ou seja, o que não está sujeito a finitude. É o mesmo que fazer de um relativo, ou da soma de inumeráveis relativos (ou circunstâncias), algo absoluto.

[11] – A tradução da palavra sânscrita chakra é precisamente roda ou disco. A “abertura” dos chakras ou sua expansão geradora, estaria vinculada com a ampliação do plano da consciência, simbolizada pela flor de lótus (que se abre à manhã e se fecha de noite). No Ocidente, esta flor seria a rosa. Em particular aROSA MUNDI, idêntica à ROTA MUNDI.

[12] – Talvez fosse oportuno estabelecer aqui, uma diferença entre significado e signo. O significado é a essência ou ideia universal que o signo cria (ou encarna), que deve ser como a forma ou a roupagem do significado, adequado à relatividade espaço-temporal. O significado de um signo é o que este significa não seu rol significante. O simbolizado é aquilo que o símbolo expressa verdadeiramente, sua razão de ser, não sua capacidade transmissora. O mito é realmente a ideia expressa no personagem mítico, e através dele, não as andanças e aventuras computáveis dos heróis e dos deuses. O rito não é só uma cerimônia comemorativa de sentido social, mas sim a correspondência de energias entre um plano de realidade –ou de consciência– e outro desconhecido. Ao outorgar-se os a estes termos uma leitura linear, os degrada fazendo-os incompreensíveis. As acepções dadas às palavras e às coisas em certos lugares ou durante determinadas épocas, não só nos ilustram sobre a mentalidade dessas sociedades, mas também muitas vezes constituem exemplos evidentes de inversão. Desgraçadamente na atualidade se toma o significado do símbolo como se este significado fosse sua função significante. O significado dos antigos sinais (ou milagres) era o da revelação sobrenatural; jamais o efeito que esses sinais produziam na população. Por outra parte, haveria uma distinção entre símbolos naturais e símbolos tradicionais (iniciáticos) precisos, desenhados especialmente para produzir uma comunicação direta com o princípio. Estes últimos teriam uma função “didática”, obviamente relacionada com o ensino e o com conhecimento.

[13] – Conhecido é que o jogo de xadrez tem origens astrológicas.

[14] – A ideia de desenrolar dos céus, quer dizer, a de criar o cosmos, ou o que é o mesmo, o plano ou tabuleiro onde este se manifesta, está em estreita relação com o símbolo do pano de fundo, que se abre na caixa (cubo) de cena [N.T.: palco.] e onde se começa a representar uma obra ilusória, com papéis e róis [N.T.: textos, falas.]. Especialmente o teatro de bonecos. E também o cinematógrafo, que mediante uma inversão da visão óptica, projeta na tela ou plano, indefinidas imagens, episódios ou “histórias”.

O Simbolismo da Roda – Capítulo 1 (2ª Parte)

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Reiterando o ato criativo, que nasce da pureza indiferenciada, sem mescla, do qual não é nem um polo nem outro, mas sim o que é em si mesmo, regeneramo-nos e ao universo, constituindo o homem no símbolo central, do único, que é o mesmo que dizer do ser, do amor, ou do conhecimento.

Compreendendo a identidade entre o ser universal, o todo e o si mesmo, a total manifestação dos princípios nos apresenta como uma revelação. Chega-se então a conhecer a unidade do ser, que é igual ao si mesmo, sem divisão nem extensão de nenhum tipo, motivo pelo que não pode ter par. Entretanto, essa realidade que a nível cósmico é a mais alta, não é mais que um ponto afirmado nas possibilidades infinitas do não ser. Por isso o ser é um ponto na infinitude do não ser (ou do supracósmico, ou do supra-ser ou do hipertheos realmente incondicionado) e inversamente o não ser é um ponto presente em tudo o que é. A unidade atua como símbolo e conecta à unidade aritmética (que será geradora da série numérica) com a unidade metafísica, que também pode ser sinalizada com o zero aritmético.

Isto, caso se considere o símbolo como o que realmente é, ou seja aquilo que possibilita qualquer manifestação, até levando-a a sua instância mais alta, quer dizer, a de considerar simbólica à própria triunidade de princípios universais que constituem o ser. Pois tanto o ser como o símbolo expressam-se primeiro como princípios e, em seguida, em três níveis no discurso da manifestação. O mesmo acontece com a unidade, que pode ser conhecida em três graus, e também em seu princípio.

Outra coisa é o que acontece na sociedade atual, que considera o símbolo, no melhor dos casos, a nível de alegoria. Ainda que, às vezes, nem sequer leve em conta sua forma literal, mas a desconsidere de plano pelo próprio fato de ser “simbólica”, tendo em vista que entenda ser este fato tal como uma fraude, como a substituição daquilo realmente é e que, por isso, não pode ser [real]. E, portanto, esse signo ou símbolo tem que ser uma falsificação e uma suposição arbitrária. Ou pelo menos uma invenção, quando não uma fábula. Com o mito acontece o mesmo, até o extremo de que, ao se chamar alguém mitômano, seria uma forma educada de lhe dizer que é um mentiroso.

É claro que esta confusão e esta ignorância, por razões cíclicas, são próprias do homem contemporâneo, que é o expoente mais nítido da estultícia generalizada, que vem incubando-se desde muito tempo atrás. Vale um exemplo: no universo tudo é sexuado. Esta verdade, evidente por si mesma, entretanto, é apresentada ao contemporâneo como uma extraordinária novidade no pensamento humano, um grande descobrimento moderno, fruto das investigações científicas dos sexólogos, intérpretes e analistas, e uma conquista dos movimentos sexuais de distintas vertentes. O uso “correto”, ou “livre”, do sexo, parece ser um dos postulados axiomáticos desta sociedade progressista. Visualiza-se o sexo como algo que o homem não conhecia a respeito de si mesmo ou do mundo. Um tema no qual não havia reparado completamente até nossos dias. Como se não tivéssemos estado sempre nus debaixo de nossas roupas, ou como se a natureza tivesse ocultado este fato de alguma forma. O mais ridículo neste caso é que, além disso, esta “descoberta” não se refere ao cosmos em sua totalidade, todo ele sexuado –ou diferenciado em um par de opostos que se atraem ou se repelem– mas considera que só o ser humano “conquistou” este direito. Pois supõe que os próprios animais fazem apenas um uso limitado da genitalidade, enquanto que os vegetais virtualmente não a possuem e no reino mineral é nula. Tudo isto referido só ao plano mais estritamente material, pois é óbvio que se ignora a presença real dos mundos sutis, e não se tem nem ideia da existência dos arquétipos. Esta visão antropomórfica do sexo, como atributo pessoal do ser humano, que as demais criaturas pareceriam ter apenas, além disso[3], se vê agravada pelo fato de que o sexuado, para a mentalidade progressista, não excede o erótico-genital. E seu desconhecimento a respeito é tal, que se acredita que a realização sexual é em si mesmo um fim, tão avançado e moderno como a moda. Uma panaceia universal aprovada com certificado, inventada recentemente pela ciência, para a tranquilidade e o conforto psíquico dos cidadãos.[4]

Portanto, quando dizemos que o universo é sexuado, com segurança que estamos nos referindo a outra coisa do que vulgarmente se entende por isso. Estamos afirmando, como o têm feito todas as tradições, que na criação, na vida, há sempre pressente duas correntes cósmicas de energia. E que cada uma delas representa um sexo, uma polaridade, que a genitalidade humana também manifesta em inumeráveis seres e coisas. Unanimemente, a antiguidade outorgou à sexualidade e seus mistérios uma importância fundamental. A tal ponto, que se considera a energia sexual não só como geradora, mas também como regeneradora. Como o suporte e o impulso que permite a realização e o conhecimento. Posto que utilizando sua polaridade –que é a mesma dualidade de todas as coisas– se pretende a união (onde a oposição não existe), compreendendo-a como um meio de realização, de transmutação, que vai do mais grosseiro ao mais sutil, empregando-se muitas formas “práticas” para se chegar a este objetivo. Por outra parte, e voltando ao tema, diremos que é impossível definir o símbolo, pois ele e a criação perene não toleram limites conhecidos em seu desenvolvimento linear e quantitativo. Sendo o símbolo o suporte do Conhecimento, suas possibilidades são ilimitadas. Ele é em si mesmo sua própria definição, posto que sua função é seu ser. É sempre idêntico a si, e mutável com as mudanças dos seres individualizados, das formas e dos estilos que o refletem. O acha presente em todas as tradições, porque se encontra na trama da vida, da manifestação e do homem. Este último é muito mais e muito menos do que ele atualmente imagina. Muito mais em profundidade, no sentido vertical do não formal, muito menos quanto a suas indefinidas possibilidades horizontais de mutação que ele e as formas personalizam.[5] E o mesmo acontece com sua concepção da vida, sua visão do mundo, e sua compreensão do símbolo.

Dissemos que o símbolo é o ponto de conexão entre uma vertical e uma horizontal de energia, como a figura do esquadro, ou da letra grega gama, e participa de ambas as naturezas. Nós também afirmamos que o poder vertical é ao mesmo tempo descendente e ascendente, porque ele vai do simbolizado ao símbolo e deste ao simbolizado, como um moto-perpétuo. Além disso, que a energia horizontal se difunde e se irradia indefinidamente gerando seu próprio plano, ou campo de ação. Devemos acrescentar que o sentido ascendente ou descendente que damos a esta energia, não só se manifesta em função do caminho de ida ou vinda vertical que percorre, como também é “benéfica” ou “maléfica” – por assim dizer. Benéfica enquanto o símbolo é tal, e como tal é compreendido, ou seja, quando normalmente desempenha a sua mediação; maléfica se ele é considerado apenas como uma convenção arbitrária, ou uma mera invenção humana, e por isso é levado, motivo pelo qual não é revelador de nenhum outro nível que não seja o psiquismo do homem. Neste último caso, a degradação do símbolo seria um evento muito perturbador, que só a compreensão e a vivificação do simbolismo podem equilibrar. Isto também estaria representado pela figura da cruz, em que os braços horizontais formam o campo ou plano de manifestação do símbolo, e os braços superior e inferior estariam expressando sua energia ascendente-descendente, ou benéfica-maléfica, respectivamente.

No símbolo específico da roda cósmica, imagem e modelo da criação, um eixo fixo constitui um centro que irradia sua energia para o exterior, difundindo-se em proporção direta ao quadrado das distâncias. Na concentração, ou retorno ao centro interior da periferia, a energia percorre inversamente esse quadrado das distâncias. Uma e outra energia são exatamente proporcionais entre si e ambas coexistem permanentemente. A primeira expressa a vontade da expansão indefinida, e a outra, a contração necessária a toda manifestação. Se a primeira fosse o fluir das emanações até seu próprio limite, esse limite estaria imposto pela contração da segunda e sua atração para o centro arquetípico.[6] Estas duas energias seriam representadas geometricamente por duas espirais, uma evolutiva e a outra involutiva. Tem-se em conta que são simultâneas, e que constituem a estrutura do ovo do mundo, sendo elas a expressão simbólica dos princípios dos quais este ovo primitivo deriva.

Convém deste modo fazer uma distinção entre os símbolos naturais e os símbolos específicos da Ciência Sagrada, ou tão somente Ciência. Estes últimos são os portadores sintéticos, conscientes e didáticos, de um conhecimento ou verdade, e nos foram transmitidos através do próprio homem.[7]

Isto posto, estivemos vendo que toda expressão ou manifestação é por si mesma simbólica. Sem que isto deixe de ser certo em nenhum momento, convém esclarecer que há determinados jogos de símbolos, mitos e ritos –que por outra parte se dão em distintas formas em todas as tradições– que foram especificamente cunhados como veículos do conhecimento pelos sábios e os inspirados dos inumeráveis povos. Estes gestos rituais, revelados pelos deuses aos mortais, incluem o ensino de uma cosmogonia e a possibilidade de compreender novos mundos, ou novos estados do ser, que constituem a verdadeira realidade do que é o homem e o universo. Esta possibilidade sempre é ensinada; o ser humano em seu estado ordinário não a conhece, nem pode realizá-la por si só, ainda que o queira, e necessita sempre de um espelho onde se olhar e se reconhecer, e da palavra que o resgate do mundo dos mortos, ou dos ignorantes, e lhe insufle a possibilidade de uma nova vida, de encarnar o homem novo. Esse espelho é, em primeira instância, o exercício da simbólica, que têm que ser aprendida e ensinada, para se obter um imprescindível estado de virgindade. Posteriormente, essa mesma simbólica é ordenadora, e quem a transmite também a conhece porque, outrossim, a ensinou. Esta cadeia iniciática tradicional nos faz remontar à origem, tanto a histórica quanto a atemporal, ao final do que nos encontramos sempre com a mesma pergunta: quem?[8] Quem os revelou aos sábios e aos homens? Segundo a tradição, sua origem é não humana, por ser supracósmica. De fato, todos os povos coincidem na fonte mítica, produzida na noite da história, além do tempo. Ademais é unânime a ideia de um deus civilizador e ordenador, ou a de um herói liberador e instrutor. Os símbolos precisam ser ensinados, para que haja uma compreensão real das forças que concentram. A energia que permanece oculta no símbolo em estado potencial, requer ser ativada. Mediante o rito da aprendizagem, do estudo e da meditação, se desperta para o símbolo e este opera. A relação é mútua. A energia-força que este expressa vem a nós, e nós a projetamos sobre ele, estimulando sua própria essência. Evoca-se então, além disso, a energia de todos os que conheceram, compreenderam e irradiaram o símbolo. E essa mesma entidade, ou estrutura arquetípica, atualiza os princípios universais, fazendo com que estes vertam-se em nós e nós participemos deles, graças à identificação com o símbolo e à mediação simbólica, reativada por uma exegese ritualística, que é aquela que com o passar do fio da história manteve viva a possibilidade da regeneração ou, o que dá no mesmo, a que faz factível que tudo sempre seja novo e verdadeiro.

Temos que ver agora as relações entre símbolo, mito e rito, e devemos então afirmar que esses vocábulos designam de distinta maneira uma coisa em três formas operativas. Diz-nos Mircea Eliade que: “O mito é a explicação e a justificação da irrealidade da existência”. Ele constitui um eixo fixo que articula o que constantemente acontece, o perecível, o ilusório. É uma verdade tangível, um “modelo exemplar”, periodicamente encarnado pela comunidade, ou por alguns de seus membros, e possibilita a regeneração coletiva estabilizando a ordem necessária para o desenvolvimento. Ele expressa as origens e a renovação da vida, harmonizando e assegurando a continuidade dos povos. Os mitos da criação do universo e os trabalhos dos heróis são o testemunho revelado de uma possibilidade diferente, da realidade do além, ao nível da compreensão do homem. São eles os que, ao transmitir este conhecimento, outorgam à vida um sentido coerente e a enriquecem com a opção salvadora da realização espiritual. O mito é necessário. É um motor vivo e constante na vida das sociedades. Ele nucleia as tradições orais e consagra os valores do coletivo e do individual. Promove as ações e educa os homens ao lhes ensinar o que não poderiam saber se não fosse por seu intermédio. Os mitos são para esses homens toda a realidade e toda a verdade, e a dura existência cotidiana ocupa frente a eles um lugar secundário ou derivado, como as sombras com respeito à luz.

Deve-se também sublinhar a carga emotiva do mito e a ressonância imediata que encontra no homem. Do mesmo modo, não tem que passar-se por alto sua função mnemotécnica, pois a “lembrança” é uma força constitutiva da vida e sempre a antiguidade considerou a memória como uma deidade. Em uma concepção onde o universo é um conjunto de partes solidárias, indissolúveis e inter-relacionadas, o cosmos também tem mente e memória. Os períodos de “sono” no universo, correspondem aos momentos de esquecimento dos povos, na sua desintegração. O mito faz com que estes despertem e se produza a reintegração e a “lembrança”. No homem acontece o mesmo, e graças ao mito, liberamo-nos do tempo relativo e ordinário, e retornamos a outro tempo, onde tudo é verdade, a um momento sem duração cronológica, a um estado “mítico” original, perfeitamente experimentável, no qual as coisas e as concepções cotidianas passam a ser completamente outras coisas e outras concepções, pois o ângulo de visão foi alterado pelo conhecimento do supra-histórico e do sobre-humano.

É importante destacar que a forma normal de transmitir um mito é através da poesia[9] e sua recitação rítmica reiterativa, a que junto com o gesto e com o movimento configura e encena a estrutura do rito. Trata-se de dar expressão aos grandes ritmos cósmicos e naturais que se transferem aos acontecimentos e aos personagens no tempo de uma história, em um estado particular. Esta cosmogonia repete magicamente a situação original, tornando o presente efetivo, atual e renovador, por obra do poder concentrado da energia do mito e sua ritualização.

A etimologia da palavra “rito” provém do latim ritus, que significa cerimônia religiosa. Deriva da raiz sânscrita rt, que conforma o nome ritli: ida, marcha, encaminhar-se, adiantar ou progredir, uso, etc., e também a voz Rita: ordem. Tratar-se-ia, pois, de um uso ou andar ordenado, tal qual a marcha dos dias, e especialmente das cerimônias no tempo circular do calendário ritual, e sua cristalização ou atualização no espaço do templo, ou casa cultual.

Devemos deixar bem estabelecido que quando nos referimos aqui às cerimônias religiosas, fazemo-lo no sentido mais amplo do termo. Por um lado, estas cerimônias jamais foram “religiosas” no sentido que se atribui hoje em dia ao termo, e tampouco “cerimônias”, como as que vulgarmente conhecemos. Os ritos de fecundação, de regeneração e de iniciação, não têm nenhuma relação com o devoto-ortodoxo, piedoso-sentimental, moral-justo, ou com a solenidade afetada, características que são próprias da sociedade contemporânea e que constituem um derivado disforme das virtudes do sagrado, do heroico e do metafísico. Por outra parte insistimos em que a compreensão moderna do que é uma cerimônia, acha-se vinculada a ideias assépticas relativas ao laicismo, à comemoração, ou à pompa exterior, quando não são atividades supostamente mágico-fenomênicas, que não excedem o nível literal. Toma a forma cerimoniosa como um fim em si mesmo, ou como uma comédia antiquada, ou um fato mecânico-institucional de corte digno.

Se o cosmos for a fixação de um gesto, ou a solidificação da inflexão de um som, ou a dança de um bailarino supracósmico, é, portanto, um rito primitivo que se acha implícito em todo o manifestado. A reiteração deste rito é uma perene atualização desse fato efetuada a nível sensível. Exige por isso o conhecimento do evento cosmogônico original para que seja “verdadeira”, no sentido de que obtenha adequadamente seus propósitos. Ou se precisa para isto, ao menos, uma disposição tal de ânimo, que torne possível paulatinamente esse conhecimento e sua complementar realização efetiva. O rito é liberador; ao imitar conscientemente e com a devida disposição harmônica o ritmo da estrutura cósmica, permite-nos sair dela por seu intermédio, encontrando assim a possibilidade de transcendê-la ao vivenciá-la, e compreendê-la no coração. Esta liberação não é nenhum “milagre”, pois verdadeiramente a estrutura cósmica é nada mais –e nada menos– que um suporte do incriado, e o homem um simples estrangeiro, como exilado nesta terra. Este é um fato normal, tal qual o retorno a nossa autêntica casa, ou a nossas origens não humanas. E o rito iniciático, uma via ordenada para efetuá-lo.[10]

Na realidade, a vida mesma é o maior dos ritos. Uma cerimônia permanente, o rito por excelência, onde a perfeição finita de cada símbolo ou gesto esconde e contém uma perfeição infinita. Neste enquadramento, a vida é uma simbólica, e seu conhecimento constitui a ciência dos ritmos e dos símbolos. E é através da ciência dos símbolos, quer dizer, por meio do conhecimento da simbólica, que se realiza a passagem do cósmico ao supracósmico, do criado ao incriado, do humano ao não humano.

Continua…

Autor: Federico González
Tradução: Igor Silva

Notas

[3] – A sociedade moderna não só tem uma visão antropomórfica a respeito deste tema, mas também o derrama sobre todas as coisas. Começando por sua concepção de Deus. Tudo o “humaniza”, e projeta em tudo sua psicologia, supondo ainda que o homem universal, é como ele um progressista ocidental do século XX, um hipotético homem “científico”. A concepção do mundo contemporânea é antropomórfica e psicologista e, para terminar, presume ser objetiva.

[4] – A supervalorização do erótico-genital impede de ver no comportamento humano as inumeráveis formas de penetração e recepção.

[5] – Às quais a tradição bramânica e a budista designam com o nome de roda das reencarnações.

[6] –  No mundo do homem, que depende da atmosfera, esse papel lhe corresponde à gravitação –graças à qual o sangue não escapa pelos poros– que comprime e solidifica o criado.

[7] – Fazendo a ressalva de que este não os inventou, e que não se trata de uma simples convenção, como seria o caso das modernas técnicas da comunicação, notação ou sinalização, ou o uso que faz delas a publicidade, a ciência, e também sua utilização pelas políticas a qualquer nível de sugestão que seja ou com qualquer finalidade.

[8] – Esta é também a última pergunta da cabala hebraica: mi?

[9] – Hoje mesmo em dia, os mitos profanos se propagam através da canção.

[10] – Para dar só um exemplo dos indefinidos possíveis, diremos que o rito da dança –no qual as coreografias cosmogônicas circulares são unânimes– assegura um meio de transformação e transfiguração espiritual, para aquele que compreendeu seu significado e sua natureza, em relação com o conhecimento de si mesmo e do universo.

O Simbolismo da Roda – Capítulo 1 (1ª Parte)

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Dos Símbolos e da Simbólica

Todos os seres e coisas expressam uma realidade oculta neles mesmos, que pertence a uma ordem superior, à qual manifestam, e são o símbolo de um mundo mais amplo, mais realmente universal, que qualquer enfoque particular ou literal, por mais rico que este seja. Na verdade, a vida inteira não é mais que a manifestação de um gesto, a solidificação de uma Palavra, que contemporaneamente cristalizou um código simbólico. Esse é o livro da vida e do universo, no qual está escrito nosso nome e o de todos os seres e coisas, e os distintos planos em que convivem e se expressam, comunicando-se perpetuamente, inter-relacionando-se através de gestos e símbolos. A trama inteira do cosmos é, na verdade, um símbolo em que cada uma de suas partes se expressa à sua maneira.

E se toda a manifestação é simbólica e o universo uma linguagem, um código de signos, nós somos também símbolos e conhecemos e nos relacionamos através deles. Tudo passa então a ser significativo e cada coisa está representando outra de ordem misteriosa e superior à qual deve a vida, sua razão de ser[1]. Então os símbolos estão vivos e emitem suas mensagens, e interagindo uns com os outros também recebem e retransmitem inumeráveis sinais e constituem grupos, conjuntos, sinais ou estruturas dos quais são partes. Os indefinidos códigos simbólicos estão manifestando um só modelo universal, a arquitetura da terra e do céu, enquadrada nos limites do espaço e do tempo.

Os símbolos são, pois, inevitáveis, consubstanciais ao ser humano. E eles, como os gestos, geram os limites em que nos encontramos, promovendo todas as ações, não só as que aconteceram e as futuras, mas também as do presente, as do agora. Se com a linguagem se podem nomear todas as coisas, todas as coisas estão implícitas na linguagem. Se o numerável tiver signo, nesses signos está toda a possibilidade do numerável. Graças ao símbolo revelamos a nós mesmos, pois em virtude deste se forma a inteligência, cria-se nosso discernimento e se ordena a conduta. Pode-se dizer que ele é a cristalização de uma forma mental, de uma ideia arquetípica, de uma imagem. E ao mesmo tempo seu limite; o que possibilita o retorno ao ilimitado através do corpo simbólico, que permite assim as correspondentes transposições analógicas entre um plano de realidade e outro, facultando o conhecimento do ser universal nos distintos campos ou mundos de sua manifestação, já que expressa o desconhecido por sua aparência sensível e conhecida.

O símbolo configura continuamente o preexistente, estabelece uma perpétua conexão conosco e uma vinculação constante com o cosmos, do qual é solidário. O gesto simbólico, ou o rito cósmico, é a permanente possibilidade da reciclagem do ser e da cadeia dos mundos. É revelador, sempre dá a conhecer algo. Tem também poderes transformadores. Por seu intermédio algo abstrato se concretiza, e inversamente algo concreto se abstrai. É ambivalente, pois é aquilo que ele expressa e simultaneamente o expresso. Sua função mediadora constitui um ponto de conexão onde se produz a transição entre duas realidades, participando de ambas: como sujeito dinâmico, ou como objeto estático.

Sua função intermediária como sujeito, poderia ser representada geometricamente com a vertical, que percorre duas direções: ascendente-descendente-ascendente. E a sua função como um objeto estático poderia ser ilustrada com a horizontal, que é um reflexo da força vertical no plano da realidade sensível na qual aquela se expressa. E onde também sua ambivalência ocorre, gerando assim as leis da simetria, a esquerda e a direita no cosmos.

Esta polarização está presente em tudo o que é assinalado pelo espaço e pelo tempo, e se refere ao passado e ao futuro, ao passivo e ao ativo, à concentração e à expansão, à atração e à repulsão, e à toda dualidade complementar de opostos que possibilita a ordem e o equilíbrio cósmico, e que o símbolo testemunha sem fazer exclusões.

A simpatia, ou a sintonização de uma onda ou vibração rítmica comum, faz com que duas coisas se correspondam, pois o similar atrai o similar e se une a ele. A atração produz a complementaridade e a fecundação, a divisão adota a ruptura e a expulsão. Para que duas coisas se atraiam mutuamente é necessário que haja em uma parte da outra, e nesta algo daquela.

Estas situações se dão em distintos níveis de profundidade e planos de relação. E é necessário que exista afinidade para que a harmonia rítmica se produza. Deste modo se requer que a disposição ou a forma dos entes associados se corresponda para que se dê a conjunção harmônica. Isto quer dizer que estejam “desenhados” de tal ou qual maneira para que o acoplamento seja possível; que estejam invertidos uns quanto aos outros. Tal o passivo e o ativo (a taça e o líquido que a enche), o côncavo e o convexo (a matriz e aquilo que se plasma nela).

A analogia é a relação entre um objeto e outro objeto, entre um plano e outro plano, que vibram na mesma frequência. Tem-se dito que a analogia é correspondência rítmica. E o símbolo é a unidade analógica entre um plano e outro plano, ou entre um objeto e outro. Também pode-se dizer que ele é o mensageiro de uma energia-força, que lhe dá forma, e que atua magicamente através dele.

De fato, todas as formas se reduzem a escassas estruturas primárias, que estão na base prototípica de qualquer manifestação. Este conjunto de módulos e imagens se acha também simbolizado ordenadamente pelas representações geométricas em correlação com o denário numeral, as quais, conjuntamente, tornam possíveis todas as construções matemáticas[2]. No código da linguagem alfabética-fonética, as letras e as sílabas têm essa mesma função sintetizadora-geradora, seja olhando do ponto de vista da manifestação verbal para suas origens, ou contrariamente, desde sua fonte original para sua solidificação ou concreção em palavras ou orações. O símbolo, ao sintetizar em si todas as possibilidades expressivas, está manifestando em nossa ordem sensível e sucessiva a simultaneidade do conhecimento, que se traduz na pluralidade de seus significados. A analogia é uma lógica fundamentada nos mecanismos de associação. O universo é uma malha de estruturas interdependentes, incessantemente relacionadas umas com as outras. Estímulos e respostas que, por sua vez, têm que gerar novas respostas.

Também os povos em sua história realizam esta constante esquemática comunicando-se pelo intercâmbio e pela guerra. E este fluxo e refluxo forma parte da estrutura do mundo. Duas correntes, telúrica e cósmica, que são a própria tessitura do universo, que ao se atraírem, unem-se, e ao se expelirem, rechaçam-se, opondo-se, para voltar a juntar-se em uma associação que materializa a possibilidade e a continuidade da vida, assegurando sua difusão; já que estas correntes se buscam simultaneamente, pois cada uma delas tem em sua constituição duas partes que, ao se oporem, complementam e, inversamente, um núcleo que ao se refletir, polariza.

É graças à cadência inefável da linguagem simbólica, e sua reiteração ritual, que se geram os códigos e se repete o modelo cósmico presente em cada uma de suas partes constitutivas, pois elas pertencem ao corpo simbólico e reiteram o arquétipo de que têm que derivar todos os modelos possíveis. Da arquitetura do cosmos às arquiteturas particulares e, contrariamente, das arquiteturas particulares à arquitetura cósmica. Esta é a maneira viva e permanente do que, expressando-se a si mesmo, manifesta a lei em que se criam, transformam e conservam os seres e as coisas. Em uma metamorfose constante, que não vai nem vem, pois constitui um circuito perpétuo, um todo contínuo, que se regenera conjuntamente com o nascimento diário do sol, e que se revela corretamente com o tempo.

Mas é necessário, para que esta ordem horizontal indefinida de multiplicação, morte e retorno, tenha sentido, que exista alguma inter-relação em profundidade volumétrica, a qual se representa no plano horizontal pela vertical, como símbolo de outro plano ou mundo, o que chega a constituir um sistema de coordenadas que nos dá conta do alto e do baixo –para equilibrar desta forma a imagem fugaz do devir, fazendo-a significativa e hierarquizando-a, completando assim o enquadramento onde as coisas se buscam a si mesmas, em seus distintos planos de existência e modos de realidade e onde se conjugam com outras que a sua vez imitam a mesma estrutura. É esta interação a que dá lugar ao espaço tridimensional, que se apresenta como um sólido, produto das tensões e dos ritmos internos, do entrecruzamento multidimensional das coordenadas, que criam um sistema coerente, uma rede ou um quadriculado, que é a base a partir da qual se possibilitam as formas e a substância em que elas aparecem manifestadas. Esta ordem é um delicado equilíbrio permanentemente instável, que se refere uma e outra vez a si mesma, sendo sua identidade a afirmação de seu ser na temática “vida, morte, ressurreição”, configurando um ciclo ou roda, que volta para suas origens depois de realizar um percurso completo. Constitui, pois, um entrecruzamento vertical-horizontal de dois planos ou energias simultâneas, que se reciclam indefinidamente, como uma roda dentro de outra roda, ou como o símbolo plano da cruz de braços iguais inscrita em uma circunferência. Mas para que este projeto ficasse assegurado era indispensável que uma coisa fosse o símbolo e outra o simbolizado. Que o valor de um e de outro fosse determinado não só por sua correspondência harmônica, mas também pela situação de primazia que faz com que um simbolize o outro, e não o contrário, apesar da analogia que os faz solidários, mas invertidos, enquanto que um reflete a energia do outro, reconvertendo-a, e a difunde fazendo-a inteligível.

No simbolismo, o de ordem menor está simbolizando o maior, e não o inverso. A roda simboliza o movimento universal, e não este movimento se encontra simbolizando a uma roda específica, individualizada. Uma imagem ou um modelo do cosmos, simbolizam ao universo e não é este universo o símbolo de um modelo ou imagem particular; assim, quer se trate do modelo da roda, ou o da cruz tridimensional, ou o da árvore da vida sefirótica. O mesmo quando se diz que uma pessoa nascida sob o influxo zodiacal de Leão está relacionada com o sol, não se diz que Leão, e menos o sol, são os símbolos de tal ou qual pessoa concreta. Sem esta condição, o símbolo nada simbolizaria e não teria razão de ser, e a simbólica seria uma mera constatação de formas aparentadas. É a revelação de um alto segredo cognitivo, manifestado por uma forma inteligível, o que caracteriza uma transmissão de energias ordenadora, que faz possível, por outra parte, o fluir de seu discurso existencial.

A regeneração é a possibilidade de que tudo seja sempre novo e agora, de que a existência seja real e não um vago teatro de sombras indetermináveis e flutuantes. O símbolo é o ponto de contato entre a realidade que ele cristaliza e a roupagem formal com o que se veste para fazê-lo. Esta vestimenta tem que ser agradável e correlativa com a ideia que expressa, para que esta possa ser compreendida na verdade. Então manifestará cabalmente a energia-força que o conformou e poderá transmiti-la no contexto adequado, que ele mesmo condicionará, pela atualização de sua potência. Inversamente se pode dizer que esta energia inteligente transcende ao símbolo considerado como mero objeto estático, ou suporte de conhecimento. E sendo assim, ele nos permite passar por seu intermédio de um plano de consciência a outro, constituindo-nos em protagonistas do conhecimento, vale dizer, do ser, já que existe uma identidade entre o que se é e o que se conhece. Atualizam-se, então, as potências imanentes do símbolo, e a ideia-força do simbolizado se compreende em todo seu esplendor, já que foi manifestada adequadamente. Através da identificação com o símbolo e com o conhecimento paulatino nascido da reiteração ritual e revivificante de sua energia acontece o simbolizado, que esteve oculto na estrutura simbólica, e que esta não deixou nunca de expressar. Toda linguagem inclui uma metalinguagem, e na verdade não haveria linguagem sem metalinguagem ou translinguagem. A translinguagem metafísica se expressa pelo modelo do universo, ou plano da criação. Quer dizer, a níveis inteligíveis e sensíveis, em razão de que a linguagem e o físico existem para este fim, constituindo códigos simbólicos de manifestação e revelação.

Conhecer é apreender aquilo que se conhece. É realizar uma síntese, de tal forma que a união do sujeito e o objeto do conhecimento seja o conhecer. Que o que conhece, seja idêntico à coisa conhecida. Trata-se então de uma conjunção de opostos, graças à qual se produz o conhecimento. Esta união complementar é a mesma que se obtém em e pelo amor, produzida também pela atração de oposições que se conjugam e que dessa forma recriam a unidade originária –qualquer seja o nível em que aconteça–, estabilizando o equilíbrio geral, além do particular. É por meio da unidade e sua irradiação que se atualiza perenemente o ato criativo. Isso se pode ver em qualquer código, série, agrupamento ou estrutura. Repete-se um esquema no qual estão implícitas suas modalidades de desenvolvimento e conservação, e também seu próprio fim através da multiplicação de suas possibilidades. Até que estas se sintetizem novamente no essencial, para então voltar a difundir-se, e passar novo hálito ao ritmo vital. A unidade é o símbolo mais alto de todos, o símbolo por excelência, porque leva em si a potencialidade do simbolizável. O princípio ontológico é a razão de ser do símbolo; e a unidade, sua manifestação simbólica. O Ser, Ele mesmo, mesmo sendo incriado, é a origem da emanação que dará lugar à concreção material.

Continua…

Autor: Federico González
Tradução: Igor Silva

Notas

[1] – Deve haver, portanto, um parentesco, uma relação mútua entre estas duas coisas para que uma possa simbolizar a outra. Sobretudo quando se tem em conta que a de ordem menor deve sua forma à de ordem secreta, à qual expressa.

[2] – Nas civilizações que utilizavam o 5, 10 ou 20 como base de sua numerologia.