Jerônimo Borges foi para o Oriente Eterno

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Estimados irmãos,

É com muito pesar que comunico que nosso querido irmão Jerônimo Borges fez ontem sua passagem ao Oriente Eterno.

Jerônimo foi editor do JB News, publicação que diariamente, durante muitos anos, trouxe a todos nós excelentes artigos, de diversos autores, relacionados à Arte Real.

Com o fim das publicações diárias do JB News, nosso irmão Jerônimo nos brindou com o ACML News, uma publicação semanal da Academia Catarinense Maçônica de Letras.

Tanto o JB News, quanto o ACML News, foram compartilhados pelo O Ponto Dentro do Círculo.

Jerônimo foi um exemplo de maçom dedicado ao aprimoramento do Homem através do Conhecimento.

Obrigado por tudo que nos ofereceu, meu querido irmão Jerônimo.

Fraternalmente,

Luiz Marcelo Viegas

Quem foi Jean Théophile Desaguliers?

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Introdução

Visa-­se aqui dar uma ideia acerca da vida e da obra de Jean Théophile Desaguliers, mais conhecido na Inglaterra como John Theophilus. Desaguliers ocupa uma posição impar quando da fundação da Grande Loja de Londres, por não se identificar com alguns nobres empoados de então nem com os supersticiosos maçons plebeus dos primórdios que confundiam superstição com esoterismo e misticismo, fato tão comum no Brasil de hoje.

Desaguliers, além de possuir uma sólida formação científica, como se verá a seguir, era um homem também pragmático, preocupado em resolver os problemas concretos de seu tempo, extrapolando na preocupação com questões metafísicas. Homem de escol, é considerado um dos Pais Fundadores da moderna maçonaria.

A Saga Huguenote de La Rochelle

O nosso personagem é proveniente de uma família huguenote. Como se sabe, huguenotes são protestantes franceses que se desenvolveram durante a Reforma do século XVI. Sofreram penosas perseguições já que a fé que os guiava, durante muitos anos, esteve baseada nas ideias de Calvino. Esses protestantes fundaram em 1559 uma igreja na França que grassou como um rastilho de pólvora. Emergiram vitoriosos sobre as forças católicas durante as Guerras Religiosas (1562-98) e, pelo Edito de Nantes, receberam uma certa liberdade religiosa e política.

Desaguliers nasceu em 12 de março de 1683 em Aytré, um subúrbio de La Rochelle na França. Era filho do pastor huguenote Jean Desaguliers da comunidade protestante de La Rochelle.

Os huguenotes franceses viviam por esta época momentos difíceis. Desde o começo do século XVI, La Rochelle era uma cidade muito próspera que lucrava com o comércio, principalmente com o da América. Tornou-­se um centro calvinista extremamente ativo. Em 1571, houve um importante sínodo protestante que adotou, sobre a inspiração de Théodore de Bèze, a Confissão de La Rochelle. Em 1573, Henrique III, ainda como duque de Anjou, cercou a cidade por mais de seis meses. Os protestantes franceses formavam então um formidável grupo de pressão econômica, política e militar, sustentados pelos ingleses, alemães, holandeses e genebrinos. Não eram camponeses, mas sim citadinos nobres e burgueses.

Na segunda metade do século XVI, os ataques católicos aos protestantes fazem-­se cada vez mais virulentos, culminando com o massacre de São Bartolomeu, em 24 de agosto de 1572, no qual foram mortos mais de 30.000 pessoas. Os católicos franceses, reagrupados no partido da Santa Liga, entre 1576 e 1584, não cessaram de fustigar os protestantes e os reis considerados muito hesitantes. Na esperança de legalizar na França a existência de uma igreja reformada e de apaziguar os ânimos, o rei Henrique IV (1553­-1610), soberano então protestante, convertido ao catolicismo uma semana antes do massacre de São Bartolomeu e reconvertido ao protestantismo em 1576, assina em 13 de abril o Edito de Nantes.

O Edito de Nanates fazia aos protestantes concessões consideráveis, notadamente a liberdade de consciência; a liberdade de culto nos domicílios senhoriais, em todas as cidades onde o culto reformado existisse de fato; uma anistia geral para todos os “crimes” cometidos no passado e a outorga de 150 lugares de refúgio, 66 cidades ou castelos onde a guarnição era mantida pelo rei. São exemplos significativos as cidades de Montauban e La Rochelle que pertenciam então aos protestantes desde a primeira guerra de religião de 1562. La Rochelle tornou-se a mais forte praça de guerra cedida aos protestantes pelo Edito de Nantes.

O Edito de Nantes era mais uma constituição que um edito, pois, efetivamente, era a constituição político-­religiosa de uma minoria tornada independente dentro do país, ou seja, um Estado dentro do Estado. Tal situação não iria durar muito, já que os ódios represados logo explodiriam. Em 1627, o cardeal Richelieu, a propósito do pacto entre La Rochelle e a Inglaterra, que já declarara guerra à França, iniciou a destruição daquela praça de guerra protestante em solo francês. O cardeal conduziu pessoalmente o cerco à cidade rebelde, construindo em terra firme, 12 km de linhas contínuas de fortificações e, no mar, a construção de um dique destinado a impedir a chegada de suprimentos aos sitiados pela frota inglesa. Os rochelenses, comandados pelo almirante Jean Guitton, prefeito da cidade, resistiram durante quinze meses até que a fome forçou-os à rendição em 28 de outubro de 1628. As fortificações da cidade foram arrasadas e as franquias municipais suprimidas. A partir de então, La Rochelle entrou em declínio sensível.

Luiz XIV, persuadido pelo fato de que os protestantes, desde então, haviam desaparecido do solo francês, seja pela fuga, pela conversão ou pelo massacre, resolveu abolir o Edito de Nantes pela sua inutilidade e falta de objetivo. Pensou ter criado, assim, a ferro e fogo, a unidade religiosa do país. Em 18 de outubro de 1685, outorgou o Edito de Fontainebleau que revogou o Edito de Nantes. Por tal edito, os protestantes perderam ipso facto toda liberdade de culto e toda garantia de segurança, ou seja, seria extirpado seu “status” legal. Tornaram-se, portanto, foras-­da-lei; suas propriedades foram confiscadas e privados de todos os seus direitos pessoais. A guerra civil irrompeu como guerra clandestina, com a fuga para os países protestantes de centenas de clérigos, que se auto­-exilaram, pois foi-lhes dado um prazo de 14 dias para deixar a França, caso contrário sofreriam a pena de morte. Suas igrejas destruídas, foram deixadas em ruínas. Tiveram, por conseguinte, que abandonar ex abrupto não somente seus bens, mas também seus filhos, sendo-­lhes proibido levá-­los para fora da França, para que se se reeducassem na fé romana. Mais de 400.000 huguenotes se refugiaram principalmente na Holanda e na Prússia, países que se gratificaram em receber tais recursos humanos estratégicos, em sua imensa maioria comerciantes, empresários e letrados. A América inglesa recebeu também um contingente respeitável de tais quadros que desfalcaram a elite francesa.

O Exílio Londrino e a Vida Acadêmica

O pai do nosso Desaguliers, o pastor Jean, foge para Guernsey por causa da Revogação, levando consigo o pequeno Jean Théophile, com dois anos, escondido dentro de um tonel. Nove anos depois se estabeleceram em Londres. Convém aqui especular sobre como tais fatos trágicos, vividos pelos huguenotes, e pela família Desaguliers em particular, marcaram a mente do nosso personagem, influenciando-o na busca da paz e da fraternidade e na sede por conhecimento científico e tecnológico que o perseguiram durante toda sua vida. Nunca confundiu esoterismo com superstição, como é tão comum no Brasil.

Instalado em Londres, Jean Desaguliers pai integrou-se rapidamente ao clero anglicano e tornou-­se pastor numa igreja na Swallow Street (rua da Andorinha), templo favorito dos imigrados franceses. Criou, concomitantemente, uma escola em Islington, frecuentada pelos filhos de outros refugiados, dentre eles vários nobres. Foi aí que o jovem Jean Théophile, educado pelo seu pai até os 16 anos, matriculou-­se e recebeu um estudo de elite que o tornou apto a ingressar na mais prestigiosa universidade inglesa: o Christ Church de Oxford. Ali estudou com o Dr. John Keill, professor de astronomia já célebre pelas suas teorias de filosofia experimental, premissas das ciências modernas, e autor de duas obras: An Introductio ad veram physicam seu lectiones physicae habitae in schola naturalis philosophiae Academia Oxoniensis (Uma Introdução à Filosofia Natural ou Conferências Filosóficas lidas na Universidade de Oxford) e An Introductio ad veram astronomiam seu lectiones astronomicae habitae in schola astronomiae Academia Oxoniensis (Uma Introdução à verdadeira astronomia ou Conferências de Astronomia lidas na Escola de Astronomia da Universidade de Oxford).

Jean T. Desaguliers bacharelou-se em 1709 e recebeu o diaconado do bispo de Londres em 7 de junho de 1710. Neste mesmo ano, diplomou-se, tendo, em seguida, obtido um mestrado em filosofia e letras em 1712, sucedendo ao Dr. Keill na cadeira de filosofia experimental no Hert Hall de Oxford. Neste meio tempo, em Shadwell, casou-se com Joanna, a filha de William Pudsley e um ano mais tarde mudou-se para Westminster onde se tornou-se o primeiro mestre de conferências em ciências. Vem desta época a sua amizade com Sir Isaac Newton (1642­-1727) que veio a ser padrinho de um de seus dois filhos. Em 16 de março de 1718 obtém o título de Doutor em Direito Civil por Oxford, tendo, antes, recebido as ordens sacerdotais em 8 de dezembro de 1717 do bispo de Ely, sendo presenteado, pelo Lorde Chanceler, com a cúria de Bridgeham no Norfolk, que dirigiu até março de 1726 quando a trocou para viver em Little Warley no Essex.

No século XVIII, não era usual para um clérigo operar em dois lugares simultaneamente. Assim, em 28 de agosto de 1719, tornou-se capelão do duque de Chandos que lhe ofereceu a paróquia de Whitchurch no Middlesex. Nesse ínterim, conservou sua residência em Londres onde deu aulas até a sua morte em 1744.

Paralelamente às suas pesquisas em física, traduziu para o inglês uma obra de Nicolas Gauger intitulada Mécanique du feu, que trata da concepção e da construção das chaminés. Tal obra teve como título em inglês: Treatise on the Construction of Chimneys, publicada em 1716. Tornou-se também um especialista em ventilação, chegando mesmo a superintender a construção de um sistema de ventilação na Câmara dos Comuns. Neste mesmo ano publica seus estudos de física experimental sob o título de Lectures of Experimental Philosophy (Lições de Filosofia Experimental) reeditadas posteriormente em 1719. Vêm, desta época, seus estudos sobre a máquina a vapor: aplicou a válvula de segurança, inventada pelo huguenote Dennis Papin, que tinha estudado em Paris com o holandês Christiann Huygens, à máquina inventada pelo mecânico inglês Thomas Savery que utilizava a tensão do vapor d’água como força motriz para bombear água nas minas de carvão. Tal máquina foi melhorada por James Watt tornando-se a primeira máquina a vapor, fator propulsor da Revolução Industrial. Revela-se aqui que Desaguliers não só participou ativamente da corrente científica do seu tempo mas também comungou da ideia de que a tecnologia deveria servir à humanidade, libertando-a do trabalho braçal escravizante.

Sua crescente reputação de sábio facultou-lhe o ingresso em diversas sociedades científicas. Em 29 de julho de 1714, ingressou como Fellow, na Royal Society de Londres, fundada em 1660, chegando mesmo a se tornar Demonstrador e Curador da referida Sociedade. Participou também da Gentlemen’s Society em Spalding no Lincolnshire em 1724, uma sociedade literária e de antiquários. Era ainda Membro Correspondente da Academia Francesa de Ciências. Desaguliers consagrou-se, então com Newton, do qual se tornou assistente, a diversas pesquisas no terreno da física experimental, notadamente aquela que consistiu em se deixar cair, do topo da Catedral de São Paulo, globos de vidro a uma altura de 105,72 m, fato que lhe permitiu escrever um artigo intitulado: An Account of some experiments made in the 27 th. Day of April, 1719, to find how much the resistence of the air retards falling bodies (Relatório sobre diversas experiências tentadas no dia 27 de abril de 1719 com o propósito de avaliar em que medida a resistência do ar retarda a queda dos corpos), publicado nos Philosophical Transactions da Royal Society. Desaguliers ajudou ainda Isaac Newton na redação dos Corrigenda e dos Addenda, acrescida por ele ao Livro I de seus Philosophiae naturalis principia mathematica (Princípios matemáticos de filosofia natural) já editados em 1687.

De 1730 a 1732, viajou frequentemente aos Países-Baixos, dando inúmeras conferências pagas a 30 shillings por cabeça, um preço alto para a época. Retornando à Inglaterra entre 1733­-1734, uma controvérsia o opõe a Jacques Cassini, considerado o inventor da cartografia topográfica e diretor do Observatório de Paris, sobre o maior problema científico do século XVIII: a determinação da longitude. Como se sabe, a determinação da latitude nunca foi problema desde priscas eras, mas a longitude só foi resolvida no século XVIII por um relojoeiro, contra todos os pareceres dos cartógrafos e astrônomos da época, conforme bem elucidado no opúsculo sobre a matéria de Dava Sobel. O Brasil possui esta dimensão continental pela incapacidade dos nossos antepassados coloniais em determinar com precisão a longitude, fossem eles espanhóis ou portugueses. Cassini sustentava que a determinação do meridiano de Paris poderia ser encontrada, traçando-se uma perpendicular indo de Saint­-Malo a Estrasburgo. Tudo isto estava no contexto da polêmica opositora entre os membros da Royal Society, conjuntamente aos integrantes do Observatório de Greenwich, fundado em 1675, contra os membros da Academia Real de Ciências de Paris, criada em 1666 e os do Observatório de Paris, fundado em 1667, sobre o melhor meio de determinar-se o exato comprimento e a localização dos arcos do meridiano, dados vitais para a navegação da época.

Desaguliers publicou em seguida, diversas obras: em 1734, A Course of Experimental Philosophy (Curso de Filosofia Experimental) em dois volumes e, em 1735, uma edição dos Elements of Catoptrics and Dioptrics (Elementos de Catóptrica e Dióptrica) de David Gregory. Por último, traduz do latim para o inglês, os Mathematical Elements of Natural Philosophy (Elementos Matemáticos de Filosofia Natural) de Gravesandes. Em 1742, recebeu a Medalha de Ouro Copley da Royal Society, em reconhecimento pelos seus diversos experimentos científicos e tecnológicos, e sua Dissertation of Electricity, publicada no mesmo ano, ganhou o prêmio da Academia de Bordéus. Seu profundo conhecimento científico, apoiado numa intensa mente pragmática, tornou-o, também, um inventor e um consultor de engenharia em diversos projetos. Tanto assim, que deu consultoria em questões de engenharia na reconstrução da ponte de Westminster nos anos que se seguiram a 1738.

Em todos os debates, Desaguliers mostrou-­se provido de um grande talento para a vulgarização científica, falando das coisas mais complexas em termos simples e compreensíveis, tanto para os especialistas como para os leigos.

Desaguliers tornou-se mais conhecido pela sua contribuição à evolução da ciência do que por suas obras religiosas como ministro do culto. Sua obra religiosa reduziu-se à publicação de um sermão sobre o arrependimento. Se sua obra religiosa era o ponto fraco de sua vida intelectual, o mesmo não se pode dizer de sua produção, tanto universitária onde mereceu, como vimos, o respeito e a amizade dos homens de ciências e dos grandes de seu tempo, como maçônica, onde se distinguiu de maneira ainda mais marcante.

A Vida Maçônica

A data de Iniciação de Desaguliers não pode ser precisada[1], mas deve-se situar antes da primeira assembleia da Grande Loja de Londres em 24 de junho de 1717. Como é notório, este dia inicia o período obediencial, sendo um marco relevante na história da maçonaria universal. Pode-se afirmar, contudo, que Desaguliers foi, conjuntamente a Anderson, membro da Loja Nº 2 que se reunia na Taverna Horn. Existem registros de que teria sido também Venerável da French Lodge do Templo de Salomão, em Hemmings Row. Aparece também como Venerável da Lodge of Antiquity, então Loja Nº 1, em 1723. Em 1731, na Lista das Lojas, aparece tanto como membro da Loja Bear & Harrow (atualmente Loja São Jorge & Corner Stone nº 5) quanto como integrante da Loja University nº 74 que abateu colunas em 1736.

Desaguliers apresentou sua candidatura ao Grão-­Mestrado em 1717, mas somente foi eleito para este posto em 24 de junho de 1719 numa loja reunida na Taberna do Ganso e da Grelha, conforme foi descrito por Anderson na segunda edição (1738) de suas Constituições[2]. É o terceiro Grão-Mestre da ordem e o último plebeu a ocupar tal posição. Após a administração de Desaguliers, a função de Grão-Mestre torna-­se apanágio de membros da família real inglesa ou da nobreza, apresentando-­se, desde então, como essencialmente honorífica. Vale aqui recordar a cronologia da sucessão do Grão-­Mestrado:

  • Anthony Sayer (1717­-1718);
  • George Payne (1718­-1719);
  • o nosso Desaguliers (1719­-1720);
  • a reeleição de George Payne (1720­-1721);
  • o primeiro nobre: John, duque de Montangu (1721­-1722); e
  • Philip, duque de Wharton, um nobre lascivo cuja biografia os nossos Irmãos ingleses comentam pouco.

Quando aqui chegarem informações acerca da sua notória participação no Hells Fire Club, escandalizar-se-ão 98% dos maçons brasileiros. Os ingleses morrem de vergonha da atuação do duque de Wharton e escondem com unhas e dentes as informações sobre o Hells Fire Club. Como o referido duque de Wharton era um doidivanas, seria tarefa do Grão-Mestre Adjunto dirigir os trabalhos da ordem e o nosso Desaguliers, ainda bem, foi nomeado três vezes para tal posto: em 1722, pelo femeeiro Wharton; em 1724, pelo conde de Dalkeith; e em 1725, por Lorde Paisley.

Os maçons ingleses daquele tempo eram como os brasileiros de hoje: demonstravam pouco apreço para com os documentos e arquivos da ordem. Deve-­se a Desaguliers a conservação, depois de 1723, da maior parte dos documentos históricos da obediência, notadamente as atas das reuniões dos primórdios da ordem. Ainda como campeão da ordem, da regularidade e do protocolo, introduziu inúmeras regras concernentes aos seguintes aspectos: traje maçônico, alfaias, jóias, festas na ordem, hierarquia dos brindes nos banquetes e outros costumes que vieram a fazer parte integrante da nova maçonaria
especulativa que estava em gestação. Sob sua administração, numerosos antigos discípulos, que tinham negligenciado seus deveres maçônicos, retomaram seus trabalhos em loja e muitos nobres são iniciados. Importante é salientar que, no período em que Desaguliers exerceu o Grão-Mestrado, seja como titular ou adjunto, vários irmãos eram também membros da Royal Society, ou seja eram homens de escol não só pela sua posição social como também pela intelectual.

Desaguliers sentiu na própria pele o significado da intolerância, pautou, pois, a sua atuação na ordem então nascente para direcioná-­la no sentido da tolerância e da fraternidade universais. Criou assim a caixa de auxílio mútuo maçônico e os fundos de beneficência da Grande Loja da Londres. A ideia de tolerância, cuja primeira definição sistematizada se encontra no Tratado Teológico-­político (1670) de Spinoza, funda a noção de igualdade entre indivíduos no seio de uma sociedade pluralista sobre o plano religioso. Foi, mais tarde, estendida por John Locke que, nas suas Cartas sobre a Tolerância e sobretudo no Segundo Tratado sobre o Governo, propõe o sistema parlamentar representativo de governo como meio de barrar o arbítrio do poder do Príncipe, outorgando direitos aos indivíduos, legitimando assim a consecução dos interesses individuais. Antes de Locke na Inglaterra, quando um grupo político-dinástico vencia outro, matava, exilava, confiscava os bens dos adversários, numa selvageria digna de uma cubata africana. A elite inglesa tomou consciência de que tal procedimento político gerava insegurança, transformando o mundo político numa arena hobbesiana (a luta de todos contra todos) extremamente instável e perigosa. Locke então propõe carrear todo o conflito político para um caldeirão, chamado parlamento, onde os que detivessem a maioria, formariam o governo e os minoritários cuidariam da oposição. Com o correr do tempo, o governo sofreria a erosão natural do poder, cabendo a vez à oposição formar o novo governo. Ao invés da morte e do confisco dos bens, haveria a queda do gabinete, favorecendo assim a rotação de elites no poder. Mecanismo institucional muito mais civilizado e inteligente do que resolver o conflito político na base da peixeira na barriga do oponente.

Após 1723, Desaguliers orienta Anderson na redação das famosas Constituições que se tornaram o farol básico da maçonaria simbólica. Anderson faz uma síntese dos antigos deveres misturando-os com outros tirados das diversas tradições, especialmente os documentos góticos, queimando o resto, fato que escandalizou as velhas lojas-­mães de Londres, York e Westminster. As Constituições de Anderson de 1723 são o divisor de águas entre os maçons operativos e especulativos. No mesmo ano, sobre a inspiração de Desaguliers, a Bíblia, qualificada daí por diante, de Livro da Lei, substitui as Antigas Obrigações sobre as quais os juramentos eram prestados. É ainda atribuído a Desaguliers, a redação do livro Charges of a Free-­Mason (Obrigações de um Maçom) e que tem permanecido substancialmente o mesmo desde a edição de 1723.

No ofício de Grão-Mestre adjunto, Desaguliers contribui ativamente para a redação dos primeiros rituais. Introduziu nestes a ideia de que os maçons operativos faziam do trabalho, como um ato nobre, um dom de Deus, e não, como se pensava até então, como uma maldição, um castigo devido à expulsão do paraíso, como está no Gênesis (4:17­-19). Por falar em Deus, a expressão GADU, apesar de ter sido introduzida por Anderson, tem também o dedo de Desaguliers, pois o referido conceito – GADU – facilita a introdução do deísmo na maçonaria nascente, substituindo o teísmo católico, tão bem professado pelos maçons operativos, reforçando assim o anglicanismo que era um pouco mais aberto à tolerância do que a religião de Roma. Convém ainda salientar que o deísmo é mais professado entre os cientistas crentes do que o teísmo, o Deus de Leibniz, de Spinoza, de Einstein, dos cientistas enfim, não é o mesmo Deus de Abraão, Isaac e Jacó. E Desaguliers como cientista…

A partir de 1670, muitos rabinos de origem polonesa estabeleceram-­se em Londres e Desaguliers manteve contato com eles ou com seus sucessores para que se juntassem à então maçonaria nascente. No dizer de Robert Ambelain[3], foi devido a esses rabinos que Desaguliers hauriu a história de um novo personagem maçônico: o mito de Hiram. Inspirados pela cabala prática, ou seja, pela magia, a história de um novo personagem, Hiram – arquiteto do templo de Salomão – adentra ao ritual maçônico do terceiro grau[4]. Hiram acossado por três maus companheiros que desejavam roubar seus segredos, é morto, enterrado, encontrado e depois ressuscitado. A interpretação simbólica desta morte em loja, aplicada ao sentido moral e espiritual, enquanto o candidato toma o lugar de Hiram, faz definitivamente a ordem sair do domínio operativo e ingressar compulsoriamente no domínio especulativo. Esse ritual, oposto ao ensino bíblico e à interdição de tocar os cadáveres, extremamente surpreendente para os maçons do século XVIII, encontra de fato sua justificação pela envergadura do espírito de Desaguliers, que desejava assim legar à maçonaria uma dimensão que ultrapassasse um cristianismo tacanho e etnocêntrico da sua época. É preciso ver aqui um símbolo: as profundas mudanças que Desaguliers aporta ao relato da cabala dão a este ritual uma profundidade que supera a tristeza e o macabro. Desde então, para os maçons, a morte não é mais um fim terrível, mas somente uma passagem, e a iniciação, que é de fato este ritual de passagem, termina necessariamente por uma regenerescência do indivíduo. Por este ritual, Desaguliers oferece aos maçons que se iniciam, uma mensagem de esperança: pela força do trabalho e da virtude, o maçom ganha sua própria purificação.

Desaguliers sempre foi um viajor contumaz. Convidado a ir à Escócia como homem de ciências e engenheiro, aproveita a ocasião para explicar o novo ritual simbólico aos membros da Loja St. Mary’s Chapel. Faz uma demonstração prática iniciando o lorde prefeito de Edimburgo e todos os membros do seu conselho. A maçonaria escocesa, então operativa, ansiava por tornar-se verdadeiramente especulativa nesta ocasião[NB]. De volta à Inglaterra em 1726, inicia a Lorde Kingsdale na loja que se reunia no Swan & Rummer, na presença do Grão­-Mestre, conde de Inchquin. Em 1731, viajando pelos Países Baixos, preside, como Venerável Mestre de uma Loja de Ocasião, nos salões do embaixador inglês em Haia ­ Lorde Philip Chesterfield – uma sessão no curso da qual inicia Francisco, duque de Lorena, futuro duque de Toscana, imperador do Santo Império Germânico e esposo de Maria Teresa, imperatriz da Áustria. Pode-­se afirmar que o nosso personagem introduziu a maçonaria nos Países Baixos. Voltando, em seguida à Inglaterra, é julgado o mais apto a iniciar o príncipe de Gales, ­ Frederik Lewis[5], ­ tendo sido o primeiro de uma longa linhagem de príncipes da Casa Real de Hanover que se tornaram maçons ­ e o faz, no curso de uma sessão organizada no Palácio de Kew em 1732. Ainda sobre sua estreita relação com a realeza, foi nomeado Capelão para o mesmo príncipe de Gales, dava conferências para a família do rei George II e era um dos favoritos da rainha Carolina. Entre 1734 e 36, voltamos a encontrá-­lo em Paris, onde pronunciou diversas conferências científicas, sempre ao lado de lorde Chesterfield. Inicia, na loja De Bussy, a Luiz Phélipeaux, conde de Saint­-Florentin e duque de Lavrillière. Ajuda a fundar, ainda em Paris em 1735, a famosa loja Louis d’Argent. Em 1738 foi nomeado capelão do Regimento de Dragões Bowles.

Desaguliers, como muito outros homens, tinha uma dupla personalidade. Reservado e austero em público, ele se transformava no interior das reuniões maçônicas. No interior de uma loja, quando as portas ficavam bem guardadas, liberava seu espírito, tornava-se gozador, cantarolava com vivacidade os hinos maçônicos e, até mesmo, apreciava uma alegre libação que muitas vezes, acentuava a sua famosa gota, forçando-o a andar de bengala. Dizia-­se mesmo que despendia bastante dinheiro nas suas mini-farras com os irmãos, o que provavelmente era verdadeiro, pois viajava muito, como vimos acima, e suas numerosas atividades deviam render-­lhe somas apreciáveis.

As atas da Grande Loja demonstram cabalmente que até quase o final de sua vida participou ativamente das suas deliberações. Sua última presença em loja ocorreu em 8 de fevereiro de 1742. Faleceu em 29 de fevereiro de 1744, com 61 anos e está enterrado na Capela Real do célebre Hotel Savoy de Londres. Seu filho primogênito, Alexander, tornou-­se, como ele, ministro do culto. Thomas, seu segundo filho, seguiu a carreira militar, chegando ao posto de coronel, além de ser escudeiro do rei George III da Inglaterra. Atualmente contam-­se como seus descendentes os troncos dos Cartwrights e dos Shuttleworths.

Feller, autor de uma Biografia Universal, declara que os últimos dias de Desaguliers foram passados na tristeza e na miséria; teria perdido a razão e se fantasiava, algumas vezes, de arlequim e palhaço. Cawthorn, num poema intitulado The Vanity of Human Enjoyments (Vaidade das Humanas Alegrias), afirma que Desaguliers estava quase indigente no momento de seu passamento.

Albert Mackey sustenta, pelo contrário, que estas descrições apócrifas da morte de Desaguliers são francamente exageradas. Nichols, autor das Literary Anecdotes (Anedotas Literárias), que conhecia Desaguliers pessoalmente, traça-­lhe um retrato mais lisonjeiro, declarando, no volume nono de sua obra, que ele morreu no Bedford Coffee House e foi enterrado no Savoy.

­ Conclusão

Não importam tanto estes fatos finais. O que está gravado no mármore da história é que Jean Théophile Desaguliers, doutor em direito, cientista, tecnólogo, ministro do culto e membro da Sociedade Real, a par de seus conhecimentos, de sua situação social, de sua forte personalidade e de suas contribuições ao espírito e às estruturas da maçonaria, enriqueceu tanto esta instituição que carreou para ela um número crescente de pessoas de estatura intelectual e social semelhantes às suas. Apesar de sofrer de forte miopia foi um dos mais argutos maçons de sua época. Sob sua liderança intelectual, a então nascente Grande Loja da Londres se espalhou para todo o mundo, tornando a maçonaria uma das maiores instituições universais e, no acertado dizer de Mackey, fez de Desaguliers o Pai da Maçonaria Especulativa Moderna.

Autor: William Almeida de Carvalho

William Carvalho foi diretor da Biblioteca do Grande Oriente do Brasil e Secretário de Educação e Cultura do GODF-GOB. Autor de diversos livros sobre a Maçonaria no Brasil. Membro do Círculo de Correspondentes da Loja de Pesquisas Quatuor Coronati de Londres, da Scottish Rite Research Society. Presidente da Academia Maçônica de Letras do DF. Tesoureiro da Academia Maçônica do Brasil e da Academia Maçônica de Letras da Paraíba. Doutor em Ciência Política pela Panthéon-Sorbonne.

Fonte: Pietre-Stones – Review of Freemasonry

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Notas

[1] – Alguns autores afirmam que teria sido iniciado em 1712, mas inexistem provas documentais.

[2] – ASSEMBLY and Feast at the Said Place, 24 June 1719, Brother Payne having gather’d the Votes, after dinner proclaim’d aloud our Reverend Brother John Theophilus Desaguliers, LLD, FRS, Grand Master of Masons, and being duly invested, install’d, congratulated and homaged, forthwith reviv’d the old regular and peculiar Toasts or Healths of the Free Masons. Now several old Brothers, that had neglected the Craft, visited the Lodges; some Noblemen were made Brothers, and more new Lodges were constituted. In Lamoine, Georges, Les Constitutions d’Anderson, GLNF, Grande Loge de la
Province d’Occitanie, ed. SNES, Toulouse, 1995, pg. 188.

[3] – Ambelain, Roberto, La Franc-Maçonnerie Oubliée 1352-1688-1720, Ed. Robert Laffond, Paris, 1985, pp. 119-120.

[4] – Desnecessário assinalar que na primeira edição das Constituições de Anderson em 1723 não se fazia menção ao grau de mestre, somente na segunda edição de 1738 é que se menciona explicitamente o terceiro grau.

[5] – Pai de George III, rei da Inglaterra-

[NB] – Nesse ponto da história nos permitimos discordar de nosso irmão William Carvalho. Em sua viagem à Escócia Desaguliers é apresentado à maçonaria escocesa, sendo esta mais evoluída e organizada que a inglesa. Na Loja de Edimburgo, a Desaguliers, após ser reconhecido como maçom, são mostrados Estatutos de Shaw e as atas da loja, datadas desde 1598. Desaguiliers aplica os conhecimentos adquiridos em sua viagem à Escócia na estruturação por ele promovida na Grande Loja de Londres, inclusive servindo de base para as Constituições de Anderson. Para entender melhor o que era a maçonaria na Escócia e a sua importância para a maçonaria moderna indicamos a leitura do livro As Origens da Maçonaria – O Século da Escócia (1590 – 1710), de David Stevenson.

Bibliografia

­ ENCYCLOPAEDIA BRITANNICA, 30 vols., University of Chicago, USA, 1982. Jean Théophile Desaguliers, trabalho da Loja Jean­Théophile­Desaguliers nº 138, filiada à Grande Loja do Quebec, Canadá. MACKEY, Albert G., Encyclopedia of Freemasonry, vols. I e II, Kessinger Reprints, Kessinger Publishing, LLC, Kila, MT, USA, s/d. NEWTON, Edward, Brethren Who Made Masonic History, The Prestonian Lecture for 1965, in The Collected Prestonian Lectures, vol. II, 1961­1974, Lewis Masonic, London, 1983, pg. 46. SINGH, Simon, O Último Teorema de Fermat (A História do Enigma que Confundiu as Maiores Mentes do Mundo Durante 358 Anos), ed. Record, Rio de Janeiro, 1998. SOBEL, Dava, Longitude – A Verdadeira História de um Gênio Solitário que Resolveu o Maior Problema Científico do Século XVIII, Ediouro, Rio de Janeiro, 1996. STOKES, John, Life of John Theophilus Desaguliers, in Ars Quatuor Coronatorum, vol. 38, Anais da Quatuor Coronati Lodge Nº 2076, London, 1925, p. 285.

Quem foi André Michel de Ramsay?

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“André Michel de Ramsay, escocês de Ayr, plebeu com fumaças de aristocracia, aportou na França depois de alijado da Maçonaria de sua pátria, por insistir em criar graus cavalheirescos. Na França, satisfez a sua ânsia de nobreza, ao ser recebido como cavaleiro da Ordem de São Lázaro (Chévalier de Saint Lazare). E tão agradecido ficou que produziu em 1737, um discurso onde pretendia aristocratizar a Maçonaria, ligando-a aos nobres das Cruzadas, o que é pura lenda. Ele foi proibido de pronunciar o discurso, por ordem do cardeal Fleury (Andre Hercule de Fleury), ministro de Luis XV e dono do poder da época na França, como ocorreu com outros cardeais (Richelieu, Mazzarino): mas o texto acabou sendo publicado no ano seguinte e influenciaria as tentativas posteriores de criação de Altos Graus. Para alguns autores, o discurso foi de tendência a uma profunda reforma institucional na Maçonaria, o ponto de partida para a adoção do sistema dos Altos Graus, além de ser uma verdadeira carta a um código geral de pensamento. Outros discordam não lhe reconhecendo nenhuma influência importante, e não vendo nele mais do que um apelo a lendas, uma paixão pelos títulos nobiliárquicos e uma pretensa origem dos franco-maçons nos cruzados.” (Trecho do artigo “O Primeiro Supremo Conselho do Mundo” de autoria do Irmão José Castellani)

Introdução

Lendas e invencionices sobre o passado da Maçonaria, ainda que, em grande parte vêm sendo desmitificadas pelos pesquisadores seriamente comprometidos com a verdade, ainda atraem incautos, e que, indiretamente se encarregam de propagá-las. O fato é que muitas das invenções circulam na Internet, e sendo assim, o perigo de se multiplicarem é muito maior que outro meio qualquer, por fatores que agora não vêm ao caso.

Quando se fala sobre o Templo de Salomão e sobre os Templários na sua relação com a Maçonaria, e aqui estes assuntos são tomados como exemplos aleatórios, (embora existam aqueles que encontrem conexões), já que há outros, parece que abundam teorias, e algumas das mais fantasiosas possíveis. A verdade é que não é nem um pouco fácil “separar o joio do trigo”, separar o que é lenda, o que é invenção, o que é enxerto ou o que é “achismo”, como dizia o Irmão Castellani, e ficar com a história, pois, mesmo entre Maçons há aqueles que não simpatizam muito com a última opção. Há uma relutância, quem sabe até um descaso, há um desdém por parte de alguns, para lidar com fatos, com verdades históricas. Pode residir aí a simples falta do gostar de estudar, pode ser que determinadas versões sejam mais bonitas, mais interessantes… Ou ainda, há aqueles que preferem o “sempre foi assim”, e os que um dia ouviram algo do tipo “as origens da Maçonaria se perdem nas brumas do passado”, aceitando isso como o que há de melhor.

É de L. P. Hartley a seguinte citação: “O passado é uma terra estrangeira”. É de Voltaire a frase: “Todo o nosso passado nada mais é que ficção aceita.”

Alguns personagens também estão expostos ao mesmo processo: os seus erros são minimizados, as suas qualidades exaltadas ao extremo, o que daria no mesmo dizer que, em essência, parte da sua vida é ficção aceita também.

Não sei se estou me fazendo entender, mas com o intuito de ilustrar da melhor forma possível para o leitor o que seria a minha linha de raciocínio, recorro a uma história interessante, que faz parte do livro “Os Judeus e as Palavras”, de Amóz Oz e Fania Oz-Salzberger, e que acredito, possa por si só, trazer este entendimento pretendido e fundamental para o que virá depois. Eis o trecho:

“Desnecessário dizer que não podemos saber – especialmente em relação aos tempos antigos – quem foi ‘figura histórica’ e quem foi mito. Não podemos saber quem ‘realmente’ fez ou escreveu o que se alega que tenha feito ou escrito. Temos curiosidade a respeito, mas não importa realmente. Verdade histórica não é verdade arqueológica, disse Ahad Há’am. A história pode transportar uma verdade genuína por meio de figuras ficcionais, alegorias e mitos. E um talmudista do século IV disse que o Jó bíblico nunca existiu, que foi uma fábula. Outros sábios argumentaram contra ele, mas a teoria do Jó ficcional foi devidamente incluída no Talmude. Por que não foi varrida da lousa como blasfema ou indigna? Porque – ou assim gostaríamos de pensar – o Talmude antecipava e aceitava o nosso ponto: fábulas podem contar uma verdade. Ficção não é um gracejo. Jó existiu, tenha ou não existido ‘de verdade’. Ele existe nas mentes de incontáveis leitores, que o discutiram e debateram sobre ele por milênios. Jó, como Macbeth e Ivan Karamazov, existe como verdade textual.” 

O personagem que escolhi para contar aqui a sua história, a partir de agora, chama-se Andrew Michael Ramsay, ou o “Cavaleiro de Ramsay”, como é considerado por muitos, personagem um tanto quanto polêmico, principalmente no concernente às suas argumentações defendidas em seu famoso discurso. Alvo de severas críticas, o que não impede de que o achemos fascinante em alguns momentos da sua trajetória, algumas biografias o enaltecem, outras nem tanto, e além do mais, sem dúvida, ele imprimiu um novo rumo à Maçonaria. Pelas palavras de Lantoine, ao descrevê-lo, já podemos ter uma noção: “o mais nebuloso ou o mais iluminado preceptor… que se possa imaginar.” (Girardi, pág. 528, 2008)

Comentários

Para a feitura do presente trabalho, vários fragmentos da biografia de Ramsay irão sendo expostos concomitantemente, pois, são produtos da lavra de diversos autores, assim como suas opiniões, sejam elas com as tendências prós ou contras, para que o leitor possa pesar e sopesar. Eu vou contar com a bondade dos Irmãos que me leem, para que independente do fato de ser simpático a uma ou outra corrente, até o final, pelo menos, leiam com total imparcialidade as opiniões dos autores citados. Leiam como quem absorveu integralmente as lições contidas no texto brilhante de Amós Oz, leiam com a paciência de Jó, tenha esse personagem bíblico, existido ou não, e depois sim, tirem suas conclusões sobre o Cavaleiro de Ramsay.

Ramsay: uma biografia

Escolhi a biografia de Ramsay que está inserida no “Dicionário Maçônico”, do Irmão Joaquim Gervásio de Figueiredo, pois, ela reúne três pontos fundamentais para o entendimento melhor do biografado, assim como, no que concerne as suas afirmações mais impactantes, todas presentes nesta biografia, e o que nem todas as biografias do mesmo conseguem reunir: a sua teoria sobre as origens da maçonaria (os cruzados e a afinidade com os Antigos Mistérios), a introdução da lenda do 3º Grau e a introdução dos Altos Graus. Como já foi aventado, tudo o que tem se atribuído a Ramsay, por incrível que pareça, é motivo de polêmica para uns, mas, de pleno aceite para outros. Também, não me sentiria muito à vontade sem transcrevê-la do citado clássico, na íntegra, portanto, vamos ao verbete e ao seu texto: (As partes do trecho que estão assinaladas em negrito, além de julgá-las fundamentais às finalidades deste trabalho, irão facilitar também para quando se julgue necessário a introdução de um comentário, ou opiniões de outros autores, estas serão intercaladas entre um item e outro, o que é o mesmo que dizer ao final de cada trecho onde houver as partes em negrito, além de que, isso vai concentrar o máximo de cada assunto.) Desnecessário dizer que o Irmão Joaquim Gervásio de Figueiredo já faz uma biografia comentada, o que auxilia bastante.

RAMSAY, Miguel André (1686-1743). 1º – Cavaleiro baronete na Escócia e Cavaleiro de São Lázaro na França. Nascido em Ayr, perto de Kilwinning (Escócia), parece não ter tido ligação com a antiga Loja desse nome. Foi convertido em 1709 ao catolicismo pelo arcebispo Fenélon, com quem conviveu até a morte deste, em 1715, e de quem escreveu uma biografia. Tornou-se tutor do duque de Château-Thierry e depois do príncipe de Tirenne, e mais tarde (1724), preceptor dos dois filhos do rei Jacques III, pretendente ao trono da Inglaterra. Foi sem dúvida um homem erudito, profundo conhecedor da história antiga e moderna, doutor pela Universidade de Oxford e membro da Sociedade Real de Londres, como muito outros maçons proeminentes da época. 

Comentários e notas complementares

Da biografia “Andrew Michael Ramsay (Chevalier Ramsay)”, publicada no JB NEWS, na coluna “Maçons Célebres”, pelo Irmão Paulo Roberto Pinto, é possível retirarmos informações mais detalhadas sobre com quem Ramsay mantinha contatos na época:

1º – “Pode-se dizer que a carreira de Ramsay foi um tanto tumultuada e até curiosa: filho de um padeiro, com pai calvinista e mãe anglicana, escocês de origem, e que a monarquia francesa enobreceu. Essa sua origem foi esclarecida num panfleto intitulado ‘La Ramsayade’, atribuído ao filósofo Voltaire, entretanto, não reconhecido por ele. Enfim, o que o enobreceu foi o título de Cavaleiro de São Lázaro (Chevalier Du Saint Lazare), que lhe foi outorgado pelo Regente da França. Apesar disso tudo, Ramsay ingressaria, posteriormente, na Royal Society de Londres, assim como, na Universidade de Oxford, o que demonstra que apesar de católico stuartista, ele mantinha ligações com o anglicanismo inglês.

Viveu a maior parte da sua vida adulta na França, como jacobita exilado. Estudou teologia nas Universidades de Glasgow e Edimburgo, tendo se graduado em 1707. Em 1708, foi viver em Londres, tendo-se relacionado com Isaac Newton, Jean (ou John) Desaguliers e David Hume. Em 1710, estudou sob a orientação do filósofo místico François Fénelon, tendo, por influência deste, se convertido ao catolicismo.” 

Podemos deduzir que, embora sendo de origem simples, alcançou uma posição invejável depois. Com certeza, pelo fato das suas origens humildes, isso nunca foi lhe perdoado por seus detratores. Também, considerando a época em que viveu, a boa formação que conquistou, a sua posição como membro da Royal Society, o seu ingresso na Maçonaria, etc., foi um homem verdadeiramente esclarecido.

2º – Parece nunca haver tomado interesse pela Maçonaria, embora, em 1737, houvesse escrito ao cardeal Fleury, primeiro-ministro da França, pedindo proteção para os franco-maçons, alegando que seus ideais eram bastante elevados e utilíssimos para a religião, a literatura e o país. Mas o discurso por ele proferido em 1717 na Grande Loja Provincial da Inglaterra em Paris, de que era Grão–Chanceler e Orador, exerceu profunda influência sobre a Maçonaria francesa. Foi um discurso toleravelmente bom, porém nada contendo de muito extraordinário.

3º – Proclamou que o ideal da Maçonaria era a Fraternidade Universal dos homens cultos, um Império Espiritual que transformaria o mundo. Referiu-se aos três graus, a que denomina Aprendizes, Irmãos Companheiros ou Professos, Mestres ou Irmãos Perfeitos, títulos que talvez correspondam a uma diferença na corrente da tradição. Neles se requer, respectivamente, a prática das virtudes morais, virtudes heroicas e virtudes cristãs.

4º – Declarou que a Maçonaria fora fundada em remota antiguidade e restaurada na Terra Santa, ao tempo das Cruzadas. Que ela tem afinidades com os antigos Mistérios, especialmente com os de Ceres em Elêusis, Ísis no Egito e outros. Que os Cruzados adotaram uma série de ‘antigos sinais e palavras simbólicos, extraídos da fonte da religião’, com o intuito de distinguir os Cruzados dos sarracenos, e eram guardados sob estritos juramentos de sigilo. Que da íntima união entre os Maçons Cruzados e os Cavaleiros de S. João de Jerusalém resultou serem os Graus Azuis a Maçonaria de S. João. Que, em seu regresso, os Cruzados trouxeram as Lojas maçônicas para a Europa, e dali foram introduzidas na Escócia, onde ‘Jaques, Lorde Mordomo da Escócia, foi Grão-Mestre de uma Loja estabelecida em 1286 em Kilwinning, a oeste da Escócia, pouco depois da morte de seu rei, Alexandre III, e um ano antes da ascensão de João Baliol ao trono’. Que por toda a parte haviam sido gradativamente negligenciados nossos ritos e Lojas, os quais, todavia, tinham sido preservados em toda sua integridade entre os escoceses a quem os reis da França haviam confiado durante muitos séculos a guarda de suas reais pessoas. Que a ‘Grã-Bretanha se tornara a sede de nossa Ordem, a conservadora de nossas leis e a depositária de nossos segredos’.”

Comentários e notas complementares

Com relação aos antigos Mistérios, no “Grande Dicionário…” do Irmão Nicola Aslan, podemos ler na pág. 835 do mesmo que uma grande parte do Cerimonial das Iniciações maçônicas tem sua origem nos mistérios da antiguidade. No entanto, que esse Cerimonial maçônico foi moldado às circunstâncias e exigências da Modernidade.

É citado Ramsay no seu Discurso, quando disse:

Sim, Senhores, as famosas festas de Ceres em Elêusis, de Ísis no Egito, de Minerva em Atenas, de Urânia entre os Fenícios, e de Diana da Cítia, tinham relação com as nossas. Lá se celebravam mistérios, nos quais havia vestígios da antiga religião de Noé e dos Patriarcas.

O que a partir daí, teria feito com que os escritores passassem a reproduzir isso tudo, e o que Alec Mellor classificou como “enormidades”.

Com relação à suposta origem nos Cruzados, é importante que usemos de passagens do brilhante trabalho do Irmão Luiz Vitório Cichoski, intitulado “Origens da Maçonaria – Reflexões Históricas e Bibliográficas”:

“No texto de Ramsay, o mais antigo a propor este vínculo há, pelo menos, três menções aos Cruzados, a saber (ressaltados neste texto):

A – “Nossos antepassados, os Cruzados, juntando todas as facções da Cristandade na Terra Santa, quiseram reunir, numa só fraternidade, os súditos de todas as Nações. Quantas obrigações nós devemos a esses homens superiores… Como uma filosofia triste, selvagem e misantrópica, desvia os homens da virtude, nossos Ancestrais, os Cruzados…”

B – “Nossa Ordem, portanto, não deve ser considerada como uma renovação das Bacanais, mas como uma Ordem moral, baseada em toda antiguidade e renovada na Terra Santa, por nossos antepassados, os Cruzados…”

C – “Os Reis, os Príncipes e os Senhores, ao voltarem da Palestina, para seus Estados, ali fundaram diversas Lojas… Depois dos deploráveis reveses das Cruzadas… o grande príncipe Eduardo… declara-se Protetor de nossa Ordem, concilia os novos privilégios e, então, os membros dessa Confraria tomam o nome de Franco-maçons, a exemplo de seus antepassados.”

E prossegue o Irmão Luiz Vitório Cichoski, com o seguinte comentário:

“Todos sabemos que o Cavaleiro de Ramsay tinha por objetivo para esse seu discurso, apresentar uma origem nobre para a Franco-Maçonaria, origem essa que possibilitaria o ingresso da nobreza francesa no seio da Fraternidade Maçônica, então, não mais uma Corporação de Pedreiros, mas uma agremiação com o sangue aristocrático dos Cruzados! Novamente aqui não se faz referência aos elementos comprobatórios.”

5º – Finalmente, que muitos de nossos ritos e costumes contrários aos preconceitos dos Reformadores, foram mudados, disfarçados ou suprimidos, e assim muitos irmãos lhes esqueceram o espírito e lhes retiveram apenas a casca externa, porém, no futuro a Maçonaria seria restaurada em sua prístina glória.

Ainda, sobre as origens lá nas Cruzadas, escreveu o Irmão José Castellani:

“Nada tem, todavia, os nobres das Cruzadas a ver com as organizações profissionais de homens ligados à construção, pois elas só iriam começar a admitir nobres bem mais adiante, no início do século XVII, quando começavam a entrar em decadência. Os moldes mais definitivos da Maçonaria operativa iriam ser estabelecidos exatamente quando as Cruzadas já estavam em franco declínio. (…) E considere-se acima de tudo, que, entre as influências dos cruzados, na Europa, depois dos movimentos no Oriente, não está a arquitetura, mas, sim, o aperfeiçoamento comercial, industrial, agrícola, cultural e político.”

6º – Por sua cultura, posição social e prestígio maçônico, é apontado, e criticado como tendo sido o introdutor dos altos graus na Maçonaria, de parceria com os jesuítas, pois data de sua época a proliferação de novos sistemas e altos graus maçônicos na Europa, principalmente na França, durante a segunda metade do século XVIII. Mas seu maior trabalho conhecido, nesse sentido, foi o seu discurso de 1737, mais como um efeito do que como a causa da generalizada aspiração, na época, por uma maior ampliação dos graus, para possibilitar a harmonização e unificação das numerosas tradições e tendências maçônicas então reinantes. Só esta interpretação pode explicar a facilidade com que foram aceitas e concretizadas as suas ideias renovadoras. Mas é bem possível que nisso tenha também havido injunção e até cooperação dos jesuítas, segundo alguns tratadistas.

Comentários e notas complementares

O Irmão Carlos Dienstbach em seu artigo intitulado “A Importância dos Altos Graus no Rito Escocês Antigo e Aceito”, publicou o que segue:

“Maurice Colinon, autor da obra ‘A Igreja frente à Franco-Maçonaria’ escreveu que Ramsay foi o lançador da ideia dos altos Graus da Maçonaria e que em seus pronunciamentos sempre ligava os Graus aos velhos ideais de Cavalaria. Por isto é que temos em quase todos os Graus a palavra ‘Cavaleiro’ e a partir de 1754 com a criação do Capítulo de Clermont dá-se o início aos Altos Graus, para logo depois aparecerem os dos Cavaleiros dos Imperadores do Oriente e Ocidente e dos Soberanos Príncipes Maçons.”

O Irmão Frederico José Móttola em artigo da sua autoria, publicado na revista “O Prumo”, e intitulado “As Origens do Rito Escocês II” começa o mesmo citando a posição de José Castellani, sobre a introdução dos altos graus na Maçonaria por Ramsay:

André Michel Ramsay, como escreveu José Castellani, não foi o criador dos altos graus que deram origem ao Rito Escocês, mas foi seu famoso discurso, que não foi pronunciado, mas, sim, publicado em 1738, pregando uma reforma institucional na Maçonaria, o ponto de partida para a adoção do sistema de graus, posteriormente chamados de ‘filosóficos.”(grifo nosso)

Por outro lado, vejamos os comentários dos autores Frédéric Lenoir e Marie–France Etchegoin que escreveram em conjunto o livro “La Saga De Los Masones”, no trecho em que comentam os desdobramentos do Discurso de Ramsay no meio maçônico da época:

“Inspirados por Ramsay, los altos grados caballerescos (Caballero de Oriente, Caballero de Occidente, etc.) proliferan. Es uma época sedienta de títulos y blasones. “La masonería se moldea en una sociedad de orden, desigual, superficial. Pierde su simplicidad original.”

Ainda sobre o que está registrado no 6º item, quando é mencionada a ajuda dos jesuítas na introdução dos altos graus, o “Grande Dicionário Enciclopédico…” do Irmão Nicola Aslan traz a seguinte informação, à pág. 1144:

A fábula de os Graus Templários serem obra dos jesuítas, cujo servidor teria sido Ramsay, foi inventada no século XVIII pelo cavaleiro de Bonneville. Reeditada, no século XIX, por Thory, Bezuchet, Clavel, Laurie, Oliviers e Kloss, na França, Inglaterra e Alemanha, diz R. L Forestier (OFMR, p.199), foi destruída pelas investigações imparciais e documentadas de Gould e de Begemann. A obra de quase todos os escritores do século XIX, inclusive o Dicionário de Lorenzo Frau Abrines, é baseada na crença a essas fábulas, lendas e invencionices desmoralizadas pela crítica histórica moderna.” (grifo nosso)

7º – Também se tem atribuído a Ramsay a autoria da introdução da lenda do 3º grau na Maçonaria, e o consequente clamor por vingança, como rememoração da tragédia da decapitação de Carlos II, amigo dos Maçons, e consumação da vindita pelo restabelecimento de Carlos II no trono inglês. A primeira parte não é exata, pois os 3 graus simbólicos foram instituídos em 1648/9 pelo Rosa-Cruz Elias Ashmole. Tal assertiva só poderia ter sido concebida antes do século XIX, e por profanos incultos, pois então era muito restrito o âmbito cultural, mas não da segunda metade desse século em diante, quando se desenvolveu em grande escala o estudo comparativo da arqueologia, mitologia, mistérios, filosofias e religiões, de origem pré-histórica. Por esse estudo se evidencia que a lenda do 3º grau remonte aos Antigos Mistérios, em que se convencionava e revivia o sacrifício, morte e ressurreição gloriosa de Osíris no Egito, de Thammuz na Assíria, e de Adônis a Baco na Grécia. Se tem sido às vezes identificada com algum personagem histórico, o foi, ou por ignorância, ou mais comumente, para ocultar o seu verdadeiro sentido, que primitivamente só podia ser explicado oralmente, em criptas de Lojas e sob juramento de sigilo.”

Comentários e notas complementares

Sobre a lenda do 3º Grau, o Irmão Joaquim Gervásio de Figueiredo já tece comentários esclarecedores. De qualquer forma, acrescento a informação de Jules Boucher, em seu clássico “A Simbólica Maçônica”, que registrou o seguinte:

“A lenda de Hiram é semelhante as que se encontram nos mistérios da antiguidade e, sob esse ponto de vista, é de um interesse indiscutível. Pretende-se que essa lenda tenha sido ‘inventada’ em 1725 porque nenhum documento a menciona anteriormente sob a forma em que a conhecemos. Mas trata-se não de um símbolo mas, antes, de um rito, talvez adaptado, mas, sem dúvida alguma, iniciático.” 

Ramsay: opiniões de vários autoreis

Na “Enciclopédia Maçônica”, que é uma compilação do Irmão David Caparelli, temos:

“Ramsay, Miguel André – Um dos maçons mais ilustres e renomados por ter sido o primeiro que rompeu a tradicional unidade do primitivo simbolismo, criando o sistema maçônico dos Graus superiores. (…) Em 1728, tentou implantar em Londres a reforma maçônica, colocando os membros da Grande loja para que substituíssem os três Graus Simbólicos, únicos reconhecidos e que se praticavam naquela época, pelos três novos de seu sistema, intitulado Escocês, o Noviço e Cavaleiro do Templo. Mas a Grande Loja recusou aceitar a reforma, pelo que Ramsay se mudou para a França, onde obteve sucesso considerável, sendo seus Graus muito bem recebidos, como também outros que foram somados. (…) Apesar de tudo, este sistema não se propagou nem teve a verdadeira importância até alguns anos depois da morte de Ramsay. Ele escreveu grande número de trabalhos sobre questões históricas, filosóficas, políticas e literárias.”

Ainda no livro “La Saga De Los Masones”, de Frédéric Lenoir e Marie-France Etchgoin, encontrei exatamente o que queria encontrar, ou seja, a ideia de que os Maçons, além do próprio Ramsay, ficaram “encantados y halagados”, o que traduzindo significa dizer que ficaram contentíssimos, felizes, satisfeitos (encantados) e agradados, deliciados (halagados) com a atribuição de uma origem tão nobre. Vejamos, nas palavras dos autores:

“André Michel de Ramsay (llamado también de caballero de Ramsay). Ese escritor y filósofo de origen escocés, convertido en uno de los amigos de Fenelón, es uno de los teóricos más importantes de la masonería que está gestándose aún en el hexágono. En su célebre perorata (para los masones al menos!), relacionará la Fraternidad con las ordenes caballerescas y las cruzadas… Una descendencia puramente imaginaria pero que encanta a los hermanos, halagados al ver como les atribuyen tan dignos antepasados.”

Em sua coluna “Verbete da Semana” no JB NEWS, onde o Irmão João Ivo Girardi publica seus artigos com base nos verbetes da sua obra “Vade-Mécum Maçônico”, e intitulado “A Maçonaria e as Cruzadas”, destacamos um trecho em que ele compilou o seguinte sobre Ramsay:

“Em 1737, como Grande Orador da ordem, Ramsay escreveu e proferiu perante uma assembleia de maçons, a célebre peça de oratória na recepção a grande número de Irmãos na Grande Loja da França. Naquele dia Andrew Ramsay profere inflamado discurso fazendo uma ligação entre a Maçonaria e as Cruzadas. Sua fala é o fato que maior efeito teve nos eventos ligados à Ordem Maçônica. Sabe-se hoje que nada do que ele disse corresponde à realidade histórica, e o próprio Ramsay sabia que a Maçonaria nada tinha a ver com os Templários nem com as Cruzadas. Vaidoso ao extremo, não aceitava a verdadeira origem dos maçons construtores que eram humildes e analfabetos, então inventou essa balela das cruzadas e templários. Conseguiu por baixo do pano o título de Baronete, o mais baixo título de nobreza hereditário britânico. Tudo o que ele disse foi apenas um arroubo de oratória para cativar a assembleia presente e impressionar os recém iniciados. Desde então acreditando na farsa, os maçons de todo mundo passaram a aceitar a ligação templários, cruzadas e Maçonaria, esquecendo que maçom significa pedreiros antigos construtores de catedrais, não guerreiros, como os membros da Quarta Cruzada que assaltaram e pilharam Constantinopla, a capital da cristandade oriental, numa empreitada militar de vilania e traição cometida contra os próprios cristãos.”

Num outro trabalho publicado no JB NEWS, na coluna “Maçons Célebres” cujo título era “Andrew Michael Ramsay (Chevalier Ramsay)” de autoria do Irmão Paulo Roberto Pinto, há um trecho que diz:

“Sendo o grande entusiasta das ideias de Fénelon, ele trouxe o pensamento católico para a Maçonaria escocesa stuartista, inclusive através do seu célebre Discurso não pronunciado. Para Paul Naudon, o trabalho mais vultoso que Ramsay prestou à Maçonaria escocesa foi o de lhe haver atribuído, com o seu mais do que célebre ‘Discurso’ uma verdadeira missiva e um código geral de pensamento, coisa com que não concordam outros autores, que não lhe reconhecem influência tão importante, não observando, em seu Discurso mais do que um apelo a lendas, uma paixão pelos títulos nobiliárquicos e uma pretensa ancestralidade dos cruzados em relação aos Franco-Maçons. Em março de 1737, ele, Grande Orador e após, Grande Chanceler da Ordem, tentou pronunciar, perante uma assembleia de nobres, o seu célebre Discursos durante uma recessão da Ordem. Entretanto, mais uma interdição do cardeal Fleury impediu que isso acontecesse; não impedindo, contudo, que o referido texto fosse publicado em 1738. Não ter na época, podido pronunciar o referido Discurso, deve ter sido, na realidade, um dos maiores desgostos de sua vida, pois, feito Cavaleiro da Ordem de São Lázaro e no auge de sua felicidade de ser um nobre, não sabia como exprimir seu orgulho e gratidão. A causa dos Stuarts lhe deu oportunidade de fazer essa demonstração, de acordo com suas ideias aristocráticas, entretanto o referido cardeal acabou por tolher as suas pretensões.

Logo, Ramsay, do ponto de vista maçônico, foi, verdadeiramente, na afirmação de variados autores – como Chérel, por exemplo – uma mediocridade, que teve a sua hora de ação eficaz. Quando para outros, todavia, sua ação foi mais abrangente, até com a criação de Graus cavalheirescos, o que tem se confirmado ser puramente lendário.”

Sobre os documentos considerados como base do REAA

O Irmão Raimundo Rodrigues, no seu livro intitulado ”Cartilha do Rito Escocês” enumera vários documentos que são considerados os pilares do REAA, mas, tece algumas considerações sobre aceitar ou não o Discurso de Ramsay como um deles. Vejamos as argumentações do sábio Irmão Raimundo Rodrigues:

“Alguns autores colocam na relação dos documentos básicos do Rito Escocês Antigo e Aceito o discurso de André Miguel Ramsay, escrito em 1737 e publicado no ano seguinte. Por mais que desejemos aceitar tal ideia, não vemos naquele discurso, cujos temas versavam sobre a obrigação dos Maçons de serem amigos da humanidade, da moral, do sigilo, além do gosto das Belas Artes, nada que exerça alguma influência que possua força de regulamentação do Rito. Ao que sabemos, alguns autores argumentam que Ramsay teria, pelo menos, exercido influência na criação dos Altos Graus. Também, aí, não reside a força da verdade. Ramsay criou Três graus e os reuniu aos Três graus simbólicos já existentes, isto em 1728, na França, criando o chamado Grau de Ramsay que teve curta duração.”

Um esclarecimento necessário: Cruzados e não Templários

Importante nos remetermos ainda ao excelente trabalho do Irmão Paulo Roberto Pinto, quando ele esclarece o seguinte:

“Ramsay ligou a Maçonaria aos Cruzados, designadamente ingleses. Mas, ao contrário do que é correntemente afirmado, não é exato que tenha feito qualquer referência aos Templários. Este mito sobre um mito (grifo meu) nasceu de um erro de Mackey, que tal afirmou na entrada dedicada à ‘Origem Templária da Maçonaria’, na sua Enciclopédia da Maçonaria. Os grandes também se enganam, mas os erros dos grandes acabam por ser divulgados como verdades…”

Conclusão

Parece que o Cavaleiro Ramsey não precisou repetir uma mentira mil vezes para ela virar verdade, mas, outros se encarregaram de fazer isso.

Indiretamente, parece que deu uma sacudida muito grande no sistema, ou se quisermos um impulso, o que levou com o tempo a vários acontecimentos. O estopim foi mesmo o seu Discurso.

Pudemos acompanhar várias das opiniões sobre a sua pessoa, sobre o seu discurso, e sobre o que manifestou ou argumentou com relação às origens da Maçonaria. Todos os comentários, as considerações que os estudiosos teceram, distribuídas ao longo do trabalho levam a inferirmos em primeira instância que não existe até o momento, nenhum suporte verdadeiramente histórico para a sua teoria sobre a ligação Maçonaria-Cruzados.

O Irmão João Ivo Girardi em “A Chave Escocesa – 1ª Parte” no JB NEWS, nº 954, escreveu:

“O Discurso de Ramsay sobreviveu por séculos e vai permanecer na mente das pessoas por muitos anos, mas a história que contou existiu apenas em sua imaginação. Jamais foram encontradas quaisquer provas de uma ligação com os Cavaleiros Templários.”

Por outro lado é de concordarmos que o seu Discurso promoveu uma efervescência no que se refere à criação de graus, sendo que muitos deles tiveram curta duração, e que ao final das contas, o REAA acabou sim, ganhando um desdobramento no seu sistema de graus como resultado disso tudo.

Le Forestier disse: “Ramsay foi provavelmente o padrinho da Maçonaria escocesa; pode ser considerado como o pai espiritual dos Graus Superiores, embora não tenha ele próprio concebido nem proposto grau superior aos três graus simbólicos da Maçonaria Azul.”

Autor: José Ronaldo Viega Alves
Mestre Maçom – ARLS Saldanha Marinho, “A Fraterna”
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Consultas Bibliográficas:

Internet:

JB NEWS, nº 954, 14/04/2014 – “A Chave Escocesa – Uma Investigação sobre a Origem da Maçonaria – 1ª Parte” – Artigo do Irmão João Ivo Girardi.JB NEWS, nº 1013, 12/06/2013 – “Andrew Michael Ramsay (Chevalier Ramsay) – Artigo do Irmão Paulo Roberto Pinto

Revistas:

O PRUMO, nº 74, 1990 – “As Origens do Rito Escocês II” – Artigo do Irmão Frederico Renato Móttola O PRUMO, nº 135, Jan./Fev. de 2001 – “O Primeiro Supremo Conselho do Mundo” – Artigo de autoria do Irmão José Castellani O PRUMO, nº 201, Jan./Fev. de 2012 – “ORIGENS DA MAÇONARIA – Reflexões Históricas e Bibliográficas” – Artigo do Irmão Luiz Vitório Cichoski

Livros:

A TROLHA – COLETÂNEA 3 – “a Importância dos Altos Graus no Rito Escocês Antigo e Aceito” – Trabalho do Irmão Carlos Dienstbach – Editora Maçônica “A Trolha” Ltda. 1ª Edição – 1997 ASLAN, Nicola. “Grande Dicionário Enciclopédico de Maçonaria e Simbologia” – Editora Maçônica “A Trolha” Ltda. 3ª Edição – 2012 BOUCHER, Jules. “A Simbólica Maçônica” – Editora Pensamento CAPARELLI, David. “Enciclopédia Maçônica” – Madras Editora Ltda. – 2008 CASTELLANI, José. “Manias e Crendices Em Nome da Maçonaria”- Editora Maçônica “A Trolha” Ltda. 1ª Edição – 2002 FIGUEIREDO, JOAQUIM Gervásio de. “Dicionário de Maçonaria” – Editora Pensamento. GIRARDI, João Ivo. “Do Meio-Dia à Meia-Noite” – Nova Letra Gráfica e Editora Ltda. – 2ª Edição – 2008 LENOIR, Frédéric & ECHTEGOIN Marie-France. “La Saga de los Masones” – Ediciones B – 1ª Edición – 2010 – Barcelona – España OZ, Amós & OZ-SALZBERGER, Fania. “Os Judeus e as Palavras” – Editora Companhia das Letras 1ª Edição – 2015 RODRIGUES, Raimundo. “Cartilha do Rito Escocês” – Editora Maçônica “A Trolha” Ltda. – 1ª Edição – 2010

Quem foi Hipólito da Costa?

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Filho do militar alferes Félix José da Costa Furtado de Mendonça e de Ana Josefa Pereira, Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça nasceu no dia 13 de agosto de 1774, em Colônia do Sacramento. Na época, o povoado estava sob o domínio da Coroa Portuguesa mas, tempos depois, passou a pertencer à Espanha e atualmente é uma cidade do Uruguai.

Hipólito era o primogênito da família e teve dois irmãos: Felício Joaquim, um padre brilhante, e José Saturnino, senador do império. Passou a infância entre criadores e lavradores nos campos do sul, onde teve seus primeiros ensinamentos, inclusive noções de latim ensinadas pelo tio, o Padre Pedro Pereira Fernandes de Mesquita.

Sempre consciente da importância do estudo na vida do filho, Félix José enviou Hipólito para estudar em Portugal onde o jovem se inscreveu em três cursos superiores na Universidade de Coimbra. Ele se formou em Filosofia aos 22 anos, em Direito aos 23 e em Letras aos 24 anos. Em Coimbra, Hipólito recebeu o impacto da profunda reforma universitária, realizada pelo Marquês de Pombal e por Verney. Após três meses de formado, em pleno reinado de D. Maria I, foi nomeado por D. Rodrigo de Souza Coutinho, Conde de Linhares e Ministro da Rainha, para uma missão nos Estados Unidos.

Hipólito chegou à Filadélfia, após 59 dias de viagem de navio, em 13 de dezembro de 1798. Viveria durante dois anos num país completamente diferente do seu, recebendo em cheio o impacto das ideias maçônicas provenientes da França e da Inglaterra, nos recém-libertos Estados Unidos. Frequentou os meios profanos e maçônicos da Filadélfia. Segundo consta, foi iniciado maçom no dia 12 de março de 1799 na loja George Washington nº 59, aos 25 anos de idade.

A missão de Hipólito nos Estados Unidos tinha algo de secreto, pois foi enviado por Portugal para observar as novas técnicas implantadas pela nova república nas Américas e conseguir, no México, o inseto cochonilha para levá-lo a Portugal. Já naquela época, a cochonilha era utilizada na fabricação de corante alimentício e  têxtil, com alto valor agregado. Hipólito iria burlar a vigilância da alfândega espanhola que proibia, terminantemente, a exportação de tais itens.

Quanto aos Estados Unidos, Hipólito teria que apresentar relatórios sobre os seguintes assuntos: o cultivo de tabaco, arroz, cana de açúcar, como também a produção de minérios, a pesca da baleia e outras indústrias ou projetos de engenharia, especialmente os de hidráulica, navegação dos rios e de máquinas desconhecidas na Europa e que pudessem ser utilizados na economia portuguesa.

Em 1º de janeiro de 1799, Hipólito foi apresentado ao Presidente John Adams, apreciando a simplicidade com que esse tratava as pessoas, tão diferente da etiqueta da monarquia portuguesa. Um diplomata espanhol também apresentou Hipólito a Thomas Jefferson, tendo, inclusive, jantado ambos na casa deste, na Filadélfia.  O seu círculo de relações políticas incluíam, ainda, as relações oficiais com Timothy Pickering, secretário de Estado; Oliver Walcott, que sucedeu Alexander Hamilton, como secretário do Tesouro americano. Relacionou-se também, com vários emigrados franceses, pois existiam mais de 2.500 naquela época na Filadélfia, fugidos primeiramente do Terror e posteriormente de Napoleão Bonaparte, entre os quais um Colbert, descendente de Jean-Baptiste Colbert, ministro de Luís XIV; com Lefébure de Cheverus, futuro bispo de Boston e mais Olive e Mourque. Mecenas Dourado, um dos biógrafos de Hipólito, chega a afirmar que esse último francês teria apresentado Hipólito à Arte Real em Filadélfia, pois Mourque era filho da Viúva.

Hipólito escreveu um diário durante sua estada na América do Norte, extremamente minucioso, porém, jamais tocou no assunto sobre sua iniciação em 12 de março de 1799 na Loja George Washington. Teve, talvez, receio da Inquisição que perseguia os pedreiros-livres em Portugal e que haveria de ter, no futuro, consequências funestas sobre sua vida. Hipólito José da Costa teria pedido demissão da respectiva Loja pouco tempo depois. Os arquivos referentes ao ano de 1799 daquela Loja não mais podem ser consultados pois, lamentavelmente, um incêndio os destruiu em 1819. Os relatos de Hipólito e Coustos são peças clássicas da maçonaria universal no tocante à perseguição da Inquisição sobre os maçons nos primórdios do século XIX. Abundam, contudo, diversas citações sobre a “Framaçonaria”, como Hipólito a chamava. Em uma de suas citações, ele relata:

“A 1º de agosto, conversei com um português da Ilha da Madeira que, perseguido por ser framaçom, fugiu para a América, aí se estabelecendo. Quando chegou ao porto de Nova Iorque, onde não conhecia ninguém e a precipitação com que fugira, não lhe deu lugar nem a trazer uma carta de recomendação, arvorou uma bandeira branca com estas letras azuis – Azilum querimus -, pelo que quase todos os pedreiros-livres de Nova Iorque foram a seu bordo, recebendo-o depois e tratando-o com aquela hospitalidade que caracteriza esta sociedade”.

Numa outra, relata:

“… em 11 de setembro, visitei Bunker Hill, onde se deu a primeira batalha na Revolução da América e aí achei uma pirâmide com as armas dos pedreiros-livres em cima, e com a inscrição que devia ser erigida pela loje dos pedreiros-livres, em memória do general Dr. Joseph Warren”.

Hipólito retornou a Portugal no final de 1800. Lá, D. Rodrigo de Souza, que era ligado ao partido inglês, tinha fundado a Casa Literária do Arco do Cego, uma tipografia que, suprimida em 7 de dezembro de 1801, foi incorporada à Imprensa Régia. Hipólito, como diretor literário nomeado da Imprensa Régia, decidia o que seria publicado, revisava os textos e publicava artigos diversos.

Em abril de 1802, D. Rodrigo, então ministro da Marinha e Ultramar, mandou-o a Londres para comprar livros destinados à Biblioteca Pública e máquinas para a Imprensa Régia. A ida a Londres também possuía outro objetivo: estabelecer contato e reconhecimento da Maçonaria inglesa no tocante à sua congênere portuguesa.

Dos contatos com os principais próceres da Maçonaria portuguesa e sendo um homem acatado pela suas posição e cultura, Hipólito apareceu, em 12 de maio de 1802, às portas da Premier Grande Loja e foi recebido como plenipotenciário de quatro lojas portuguesas que desejavam erigir uma Grande Loja Nacional em perfeita amizade com a Grande Loja dos Modernos.

Sabe-se que os contatos de Hipólito lograram êxito, sendo o fato confirmado por William Preston, seu contemporâneo, colega de loja e autor da obra clássica “Ilustrações da Maçonaria” (Illustrations of Masonry, 1812). As intrigas em Portugal, por causa de sua viagem a Londres, campeavam soltas. Avisado de que seria preso se regressasse a Portugal, Hipólito fez ouvidos moucos. Assim aconteceu no final de junho de 1802, ao regressar a Lisboa. Prendeu-o José Anastácio Lopes Cardoso, corregedor de crime da Corte, o qual tinha instruções de Pina Manique, chefe de polícia, no sentido de procurar insígnias ou papéis que comprometessem o brasileiro. Colocado em segredo na cadeia do Limoeiro, nela permaneceu seis meses, sendo, depois, transferido para os cárceres da inquisição, de onde seria arrancado, depois de três anos, pela Maçonaria, com a compra de guardas e a intervenção dos Irmãos José Liberato e Ferrão.

Ao sair da prisão, Hipólito refugiou-se na casa do Irmão Barradas e no convento de São Vicente de Fora, para ser, depois, entregue aos cuidados dos Irmãos Rodrigo Pinto Guedes e José Aleixo Falcão. Somente depois de um ano, em 1805, é que conseguiria escapar para o Alentejo, como criado do Irmão desembargador Fillipe Ferreira. Posteriormente alcançou a Espanha, dirigindo-se, depois, à Inglaterra, onde viveu 18 anos até a sua morte, em 1823. Lá radicado, exerceu as funções de professor, tradutor, jornalista, impressor, além de ativista político e maçônico.

Em Londres, participou de várias lojas maçônicas. Tanto assim que em 1807 foi membro da Loja das Nove Musas e, em março de 1808, ingressou na Loja Antiquity, cujo Venerável Mestre era o Duque de Sussex. Chegou a ser Mestre Adjunto (Deputy Master) em 1812/1813 quando o duque era Venerável, ou seja, na ausência do duque presidia as sessões. Consta, ainda, ter sido um dos fundadores da Loja Royal Invernes, em 1814.

Foi muito chegado ao Duque de Leicester e amicíssimo de Augustus Frederick, Duque de Sussex, um dos filhos de Jorge III, primeiro Grão-Mestre da Grande Loja Unida da Inglaterra, desde sua criação em 1813 até 1843, quando veio a falecer. O duque, que conhecera Hipólito nas primeiras andanças maçônicas dele por Londres, passou uma temporada em Lisboa, já que por ali andou semi-exilado para esquecer os seus casamentos morganáticos. O duque de Sussex, quando retornou à Inglaterra em 1813, foi nomeado Grão-Mestre Adjunto dos Modernos, sucedendo seu irmão – o Príncipe de Gales – como Grão-Mestre dos Modernos. Por ocasião da fusão, tornou-se como Grão-Mestre da Grande Loja Unida da Inglaterra, tendo seu irmão – o Duque de Kent, grão-mestre dos Antigos – como Grão-Mestre Adjunto.

Após a derrota de Napoleão, a monarquia inglesa unificou sua maçonaria para melhor dominar o mundo de então. O duque de Sussex exerceu imensa influência sobre os destinos da maçonaria em seu tempo de grão-mestrado e teve, como seu secretário particular, o ‘nosso’ Hipólito que também participou ativamente, até a sua morte em 1823, de todos os mais íntimos segredos da fusão maçônica de 1813. Foi, também, membro da Loja de Promulgação (dos novos rituais) em 1809/1811, da Loja de Reconciliação 1813/1816, do Corpo de Mestres Instalados que existia na Grande Loja dos Antigos, mas inexistente nos Modernos. As mais recentes pesquisas maçônicas inglesas descobriram manuscritos de Hipólito sobre a elaboração dos novos rituais que resultaram na união das duas Grandes Lojas rivais.

Hipólito era tão íntimo do Duque de Sussex que chegou a ser nomeado por ele, Secretário para Assuntos Estrangeiros da Freemanson’s Hall, Presidente do Conselho de Finanças da Grande Loja de 1813 até a sua morte em 1823 e Grão-Mestre Provincial de Ruthland, apesar da inexistência de lojas nessa província. O duque foi padrinho de seu casamento em 1817 e liderou uma petição para a construção de um monumento em sua homenagem a ser construído na Igreja de Hurley, em Maidenhead. Hipólito era membro ativo do Royal Arch e acredita-se que tenha sido exaltado numa loja ligada aos Antigos. Assim, quando o duque foi instalado como First Grand Principal em 1810, Hipólito era um dos dois nomeados para examiná-lo no Royal Arch. Em 1819, o Supremo Conselho de França para o REAA conferiu, por patente, o grau 33 para ele e o duque.

John Hammil chega a dizer que

“H.J. da Costa, um homem de grande importância na história da Independência e da cultura do Brasil, e como se descobriu recentemente, de não menos importância no desenvolvimento de nossos rituais imediatamente antes e depois da União de 1813.” (AQC, 92:50).

Seu exílio em Londres não o fez esquecer o Brasil e a luta pela Independência, antes pelo contrário, acirrou o seu fervor de luta, tanto assim que a sua mais importante obra, todavia, foi a criação, em 1808, do CORREIO BRASILIENSE, ou ARMAZÉM LITERÁRIO, cuja publicação só seria interrompida em 1823 e que chegou a ter uma tiragem de 1000 exemplares em média. Este jornal não foi, apenas, o primeiro órgão da imprensa brasileira, ainda que publicado no Exterior, mas, principalmente, o mais completo veículo de informação e análise da situação política e social de Portugal e do Brasil, naquela época, com a preconização de uma verdadeira reforma de base para o nosso país. Bateu-se pela necessidade da construção de uma rede de estradas, pela utilização de matérias primas na fabricação de manufaturas – proporcionando formação e expansão do mercado interno – pela abolição da escravatura, pela transferência da Capital do país para o interior, perto de onde hoje se situa Brasília, e pela adoção de uma política imigratória, que aproveitasse, de preferência, artesãos e técnicos, ao invés da mão-de-obra não qualificada.

No Correio Braziliense, vergastava não só os erros e abusos da administração portuguesa na sua maior colônia como também em Portugal. Atacava com veemência a corrupção que grassava entre aqueles que dirigiam o Império Português, com exceção de uma só pessoa: D. João VI. Essa exceção e a carta que o Duque de Sussex mandou ao monarca português serviram para criar uma aura de simpatia do Rei para com seu súdito no exílio.

Apesar disso, o Correio Braziliense teve uma fase em que entrava no Brasil como se fosse contrabando, e era vendido na loja do comerciante inglês J. J. Dodsworth, um dos ascendentes de Henrique Dodsworth, prefeito do Rio de Janeiro em 1945.       Graças à saga do Correio Braziliense, Hipólito passou à História como “O PATRIARCA DA IMPRENSA BRASILEIRA” e habita a memória nacional como uma de suas mais luzentes figuras.

As três obras maçônicas raríssimas de Hipólito da Costa – “Cartas sobre a Framaçonaria”, “Narrativa da Perseguição de Hippolyto Joseph da Costa Pereira Furtado de Mendonça, Natural da Colônia de Sacramento, no Rio da Prata, prezo e processado em Lisboa pelo pretenso crime de Framaçon ou Pedreiro-Livre” e “Esboço para a História dos Artífices Dionisíacos” – foram traduzidas por João Nery Guimarães e serão editadas brevemente pelo Grande Oriente do Brasil numa edição comemorativa sobre o grande brasileiro.

Hipólito da Costa morreu em 1823, depois de ser convidado para ser cônsul do Império Brasileiro em Londres. Só em meados do século XX foi reconhecido como o primeiro jornalista brasileiro.

Em 1955, Gastão Nothmann, a pedido do biógrafo de Hipólito, Carlos Rizzini, descobriu o túmulo de Hipólito na Igreja de St. Mary, na paróquia de Hurley, Berkshire, perto de Londres e onde existem duas lápides. Uma com os seguintes dizeres da autoria do duque de Sussex e mandada colocar pelo próprio:

“À sagrada memória do Comendador Hipólito José da Costa que faleceu no dia 11 de setembro de 1823 com a idade de 46 anos. Um homem distinto pelo vigor de sua inteligência e seu conhecimento na ciência e na literatura quanto pela integridade de suas maneiras e caráter. Descendia de uma nobre família no Brasil, e neste país residiu nos últimos 18 anos, durante os quais produziu numerosos e valiosos escritos que difundiu entre os habitantes desse vasto Império pelo gosto de úteis conhecimentos, com amor pelas artes que embelezam a vida e amor pelas liberdades constitucionais fundadas na obediência às leis salutares e nos princípios de mútua benevolência e boa vontade. Um amigo que conhecia e admirava suas virtudes e que as registra para o bem da posteridade.”

A outra, dos familiares:

“Sob esta lápide estão depositados os restos do corpo do Comendador Hipólito José da Costa, Encarregado dos Negócios do Imperador do Brasil, que faleceu no dia 11 de setembro de 1823, com a idade de 46 anos.”

Em 2001, seus restos mortais foram transladados para o Brasil e, hoje, se encontram no Museu da Imprensa, em Brasília.

Autor:Danilo Nunes Martins do Nascimento
Aprendiz Maçom
ARLS¨Vigilantes de Taubaté¨ – Nº 3056 – GOSP/GOB

Nota do Blog:

Quero aqui agradecer ao irmão Danilo por ter entrado em contato comigo e oferecido essa prancha de arquitetura para ser publicada no blog, compartilhando assim sua pesquisa com todos aqueles acessam nossas postagens todos os dias.

Se mais irmãos desejarem compartilhar seu trabalho, basta enviá-lo para o e-mail opontodentrodocirculo@gmail.com. Após verificação do conteúdo ele poderá também ser publicado no Ponto Dentro do Círculo.

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Visita à casa de Mozart em Viena

Mozart pertencia à Maçonaria, e escreveu várias peças maçónicas. Em setembro de 1784 nasceu seu segundo filho, Carl Thomas, e em dezembro ingressou na Maçonaria, escrevendo música para rituais maçônicos.

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Quem foi Albert Mackey?

Alguns autores e obras são citados constantemente na maioria dos livros pela sua importância cronológica e, mais ainda, pela contribuição imprescindível que deram na organização de nossa instituição. Poderíamos mencionar os trabalhos eternos de Joseph Paul Oswald Wirth, Robert Freke Gould, George Kloss, William Hutchinson, René Guénon, Wilhelm Begemann, Eliphas Levy, Alec Mellor e tantos outros não menos importantes. Trataremos aqui, de maneira breve, da obra de Albert Gallatin Mackey, possivelmente, o mais citado de todos os autores, fato este que se deve a especificamente um de seus legados.

O americano Albert Gallatin Mackey talvez tenha sido o mais importante historiador e jurista maçônico que aquela nação já produziu. Segundo seus próprios compatriotas, até hoje não se avaliou adequadamente as consequências que seus trabalhos tiveram sobre a maçonaria, não só americana, mas também de todo o mundo.

Dos Irmãos Americanos que conquistaram fama internacional no mundo maçônico, vários foram escritores cujos trabalhos ajudaram na formação e na extensão da luz maçônica, dentre estes nenhum escreveu tão volumosamente como o fez Mackey.

Nascido em 12 de março de 1807 na cidade de Charleston no estado americano da Carolina do Sul, Albert Mackey graduou-se com honras na faculdade de medicina daquela cidade em 1834. Praticou sua profissão por vinte anos, após o que dedicou quase que completamente sua vida à obra maçônica.

Recebeu o grau 33, o último grau do Rito Escocês Antigo e Aceito, e tornou-se membro do Supremo Conselho onde serviu como Secretario-Geral durante anos. Foi nesta época que ele manteve uma estreita associação com outro famoso maçom a americano, Albert Pike.

Participou como membro ativo de muitas lojas, inclusive a legendária “Solomon’s Lodge No. 1,(http://www.solomonslodge.org/main.htm), fundada em 1734, que é, ainda hoje, a mais famosa e mais antiga loja operando continuamente na América do Norte. Ocupou inúmeros cargos de destaque nos mais altos postos da hierarquia maçônica de seu país.

Pessoalmente o Dr. Mackey foi considerado encantador por um círculo grande de amigos íntimos. Seu comportamento representava bem o que, entre os americanos, é chamado de cortesia sulista. Sempre que se interessava por um assunto era muito animado em sua discussão, até mesmo eloquente. Generoso, honesto, leal, sincero, ele mereceu bem os elogios e qualificações que recebeu de inúmeros maçons de destaque.

Um revisor da obra de Mackey disse que, como autor de literatura e ciência maçônica, ele trabalhou mais que qualquer outro na América ou na Europa. Em 1845 ele publicou seu primeiro trabalho, intitulado Um Léxico de Maçonaria, depois disto seguiram-se:

“The True Mystic Tie” 1851; The Ahiman Rezon of South Carolina,1852; Principles of Masonic Law, 1856; Book of the Chapter, 1858; Text-Book of Masonic Jurisprudence, 1859; History of Freemasonry in South Carolina, 1861; Manuel of the Lodge, 1862; Cryptic Masonry, 1867; Symbolism of Freemasonry, and Masonic Ritual, 1869; Encyclopedia of Freemasonry, 1874; and Masonic Parliamentary Law 1875.

Mackey esteve até o fim da vida envolvido com a produção de conhecimento maçônico. Além dos livros citados ele contribuiu com freqüência para diversos periódicos e também foi editor de alguns. Por fim, publicou uma monumental “History of Freemasonry”, que possui sete volumes. Um testemunho da importância e popularidade que os livros escritos por Mackey têm é o fato de que muitos deles são editados até hoje e estão à venda em livrarias, inclusive pela Internet. 

Para quem tem habilidade de leitura em inglês, é possível ler um livro inteiro de Mackey disponível na internet. O título “Symbolism of Freemasonry” ou o Simbolismo na Maçonaria, de 364 páginas, que pode ser encontrado no seguinte link: http://www.hti.umich.edu/cgi/t/text/text-idx?c=moa;idno=AHK6822. Dos muitos trabalhos que o Dr. Mackey legou à posteridade, um julgamento quase universal identifica a Encyclopedia of Freemasonry” como a obra de maior importância. Anteriormente a publicação deste livro não havia nenhum de igual teor e extensão em qualquer parte do mundo. Esta obra teve muitas edições e foi revisada várias vezes por outros autores maçônicos.

A contribuição de Mackey para o pensamento e leis maçônicas, produto de sua mente clara e precisa, é tida como de fundamental importância. Praticamente toda a legislação maçônica fundamental é hoje interpretada com base em alguns de seus escritos. É verdade que algumas de suas obras contêm enganos, mas o conjunto é de extremo valor e, em particular, um trabalho tem especial destaque no mundo todo. A compilação feita por ele dos marcos ou referenciais básicos da maçonaria é adotada como fundamento em vários ritos e obediências. Estamos falando aqui dos tão mencionados e conhecidos “Landmarks”.

A primeira vez em que se fez menção à palavra Landmark em Maçonaria foi nos Regulamentos Gerais compilados em 1720 por George Payne, durante o seu segundo mandato como Grão-Mestre da Grande Loja de Londres, e adotados em 1721, como lei orgânica e terceira parte integrante das Constituições dos Maçons Livres, a conhecida Constituição de Anderson, que, em sua prescrição 39, assim, estabelecia:

“XXXIX – Cada Grande Loja anual tem inerente poder e autoridade para modificar este Regulamento ou redigir um novo em benefício desta Fraternidade, contanto que sejam mantidos invariáveis os antigos Landmarks…”

A tradução da palavra Landmark do inglês para o português resulta no substantivo “marco”, que, caso consultemos o dicionário Aurélio, tem o seguinte significado:

Marco [De marca.] S. m. 1. Sinal de demarcação, ordinariamente de pedra ou de granito oblongo, que se põe nos limites territoriais. [Cf. baliza (1).] 2. Coluna, pirâmide, cilindro, etc., de granito ou mármore, para assinalar um local ou acontecimento: o marco da fundação da cidade. 3. Qualquer acidente natural que se aproveita para sinal de demarcação. 4. Fig. Fronteira, limite: os marcos do conhecimento.

Estas definições exemplificam bem o contexto no qual o termo Landmark é utilizado, além de fazer uma referência quase explícita às origens operativas da maçonaria, quem já construiu algo em alvenaria sabe que a fixação dos marcos é um dos primeiros momentos da obra e um passo fundamental para a sua execução. Sem marcos bem estabelecidos fica muito difícil a obra ser bem executada.

Os Landmarks, que podem ser considerados uma “constituição maçônica não escrita”, longe de serem uma questão pacífica, se constituem numa das mais controvertidas demandas da Maçonaria, um problema de difícil solução para a Maçonaria Especulativa. Há grandes divergências entre os estudiosos e pesquisadores maçônicos acerca das definições e nomenclatura dos Landmarks. Existem várias e várias classificações de Landmarks, cada uma com um número variado deles, que vai de 3 até 54. Virgilio A. Lasca, em “Princípios Fundamentales de la Orden e los Verdaderos Landmarks”, menciona uma relação de quinze compilações.

As Potências Maçônicas latino-americanas, via de regra, adotam a classificação de vinte e cinco Landmarks compilada por Albert Gallatin Mackey. Deve-se a isto a frequência com que o Mackey é mencionado também entre nós.

Segundo estudiosos do assunto, a compilação de Mackey teve sucesso por que conseguiu ir ao passado e trazer as tradições e costumes imemoriais à prática maçônica moderna. Este trabalho estabeleceu a ordem em meio ao caos, fornecendo um ponto de partida para os juristas e legisladores maçônicos que o seguiram.

Fato é que o grande trabalho de Mackey em jurisprudência, e mesmo o que se estende além dos Landmarks ou da jurisprudência, sobreviveu ao teste do tempo. Ainda hoje ele é freqüentemente citado como uma autoridade final. Suas contribuições tiveram, e ainda tem, um efeito profundo e permeiam grande parte do pensamento maçônico moderno. Ao criar sua obra, este autor, estava na realidade criando os marcos sobre os quais foi possível edificar grande parte do conhecimento maçônico que se produziu posteriormente.

Albert Gallatin Mackey passou ao oriente eterno em Fortress Monroe, Virgínia, em 20 de junho de 1881, aos 74 anos. Foi enterrado em Washington em 26 de junho, tendo recebido as mais altas honras por parte de diversos Ritos e Ordens. Hoje existe nos Estados Unidos uma condecoração, a “Albert Gallatin Mackey Medal” , que é a mais alta condecoração concedida a alguém que muito tenha contribuído para a causa maçônica.

Fonte: Núcleo de Pesquisas Maçônicas

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Bibliografia

Este trabalho foi elaborado tendo como base a bibliografia listada abaixo, sendo que dela foram retirados as idéias centrais, referências e inclusive transcrições literais.

[1] – Publicação da ARLS São Paulo nº 43. (http://www.lojasaopaulo43.com.br/publicacoes.php)

[2] – Publicação da Grande Loja Maçônica do Estado da Paraíba. (http://www.grandeloja-pb.org.br/legis_landmarks.htm)

[3]The Grand Lodge of Free and Accepted Masons of the State of California (http://www.freemason.org/mased/stb/stbtitle/stb1936/stb-1936-02.txt)

Quem foi James Anderson?

Nada predispunha o Reverendo James Anderson (1679-1739) a se tornar o mais famoso entre os maçons modernos; especialmente não a publicação em 1732 de sua obra-prima: Genealogias reais, ou Tabelas genealógicas de imperadores, reis e príncipes, desde Adão até os dias atuais. Mas  o  acaso quis que ele fosse um dia escrever as “Constituições” de uma associação que, no entanto, tinha muito poucos membros.

Nascido em Aberdeen de um pai vidraceiro (e Maçom aceito na loja operativa local) James Anderson fez os estudos necessária para a ordenação na Igreja da Escócia; mas foi em uma velha paróquia huguenote, em Londres, que ele se tornou, na década de 1710, um pastor presbiteriano. Não está claro até hoje, se em 1717 ele foi um dos maçons aceitos que contribuíram para a formação da Grande Loja de Londres; temos, por vezes, sugerido que ele poderia ter sido iniciado na Escócia, antes de se mudar para Londres.

O caminho para a fama, no entanto, abriu-se para ele em setembro de 1721, quando, durante uma assembleia geral realizada na presença de oficiais e membros de dezesseis lojas “erros foram revelados nas antigas Constituições Góticas”, ele foi convidado a “realizar as correções necessárias em uma nova e melhor apresentação”. Três meses depois, quatorze irmãos “educados” foram nomeados para examinar o manuscrito do irmão Anderson.

Em 25 de marco de 1722, durante uma nova sessão da Grande Loja, a História, os Deveres, os Regulamentos e os Cantos de Mestre foram aprovados com algumas alterações  “ao que a [Grande] Loja pediu ao Grão-Mestre que mandasse imprimir”.

Assim, em 17 de janeiro de 1723, na taverna King’s Arms, dois eventos memoráveis aconteceram: a adesão de Philip, primeiro duque de Wharton ao grão-mestrado de Londres e a apresentação do novo Livro das Constituições.

Nesse dia especial, “A Maçonaria conhecendo a harmonia, a fama e o nome, muitos nobres e cavalheiros de alta linhagem pediram para serem admitidos na Fraternidade, assim como outros homens esclarecidos, comerciantes, membros do clero e trabalhadores, que encontraram na Loja um lugar de relaxamento agradável, longe do estudo, dos negócios e da política”, escreveu Anderson na segunda edição de sua obra, publicada em 1739, ou seja, no mesmo ano em que ocorreu sua morte.

Note-se que neste mesmo 17 de janeiro de 1723, James Anderson, que havia anteriormente ocupado as funções de Mestre de Loja foi nomeado para o ano em curso Grande Vigilante da Grande Loja de Londres.

Muitas vezes, nos é perguntado por que motivo ele tinha sido convidado, e não outro Irmão, a elaborar as novas Constituições da Ordem. David Stevenson, autor de um estudo sobre o homem, apresenta a ideia de que a escolha teria resultado de uma viagem de John Desaguiliers, um membro influente da Maçonaria londrina a Edimburgo e sua descoberta da Maçonaria Operativa escocesa. Anderson sendo de ascendência escocesa e nascido de pai maçom (além disso, antigo Secretário e Mestre de Loja) teria sido considerado mais qualificado do que qualquer outro para ser promovido a historiador e legislador.

A vida maçônica de James Anderson, no entanto, permanece obscura até hoje. Ignora-se quais atividades específicas ele pode implantar, quais lojas ele pode frequentar; registra-se que pertencia em 1723 à Loja do Chifre, e em 1735 da Loja Francesa, e sua presença em algumas assembleias de Grande Loja, mas isso é tudo…

De sua vida secular, conhecemos pouco fatos precisos. Anderson se casou com uma viúva rica de Londres, que lhe deu um filho e uma filha, mas viveu pobremente  devido ao maus negócios ocorridos na década de 1720. Ele fez, como  pastor, alguns sermões que lhe valeram duras críticas, e foi obrigado a mudar de paróquia em 1734, depois de desentendimentos com alguns paroquianos. Em 1731, ele recebeu também do Colégio Marischal, de Aberdeen, um diploma de doutor em teologia.

No ano seguinte, Anderson, cujas primeiras Constituições tinham sido esgotadas, propôs à Grande Loja de Londres, voltando da Inglaterra, uma nova edição, revista e ampliada. Se a primeira consistia de apenas 91 páginas, a segunda teve em sua publicação cerca de  231 – incluindo o nome do autor, acompanhado pelas iniciais D. D. para esclarecer suas credenciais acadêmicas…

Enquanto isso, Anderson tinha dedicado seus talentos literários à elaboração de sua obra sobre as genealogias reais, bem como outros textos como a Unidade na Trindade (1733), Defesa da Maçonaria (1738) – da qual nada há a dizer – Notícias do Eliseu (1739) e História da Casa de Yvery (1742).

James Anderson morreu no final de maio 1739. De acordo com o jormal The Daily Post, datada de 02 de junho:

Ontem à noite, foi enterrado em uma cova anormalmente profunda, o corpo do Dr. Anderson, pastor não conformista. […] Ele foi seguido por uma dúzia de maçons que cercaram a sepultura. […] Os irmãos, exibindo grande tristeza, levantaram as mãos, sinalizaram e golpearam três vezes os seus aventais em honra do falecido.

Assim viveu e morreu o autor do Livro das Constituições, o verdadeiro documento de fundação da Maçonaria especulativa moderna.

Autor: Guy Chassagnard
Tradução: José Filardo

Fonte: REVISTA BIBLIOT3CA

Quem foi William Schaw?

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William Schaw (C. 1550-1602) foi Mestre de Obras de James VI da Escócia para a construção de castelos e palácios, e se reivindica ter sido uma figura importante no desenvolvimento da Maçonaria .
 
Biografia
 
William Schaw era o segundo filho de John Schaw de Broich, e neto de Sir James Schaw de  Sauchie . Broich agora é chamada Arngomery , um lugar em  Kippen , Stirlingshire. A família Schaw tinha ligações com a Corte Real, principalmente por ser guardiães da adega de vinho do Rei. A família Broich esteve envolvida em um escândalo em 1560, quando John Schaw foi acusado de assassinar o servo de outro latifundiário. O pai de William foi denunciado como um rebelde e seus bens confiscados quando ele e sua família não compareceram ao tribunal, mas a família logo foi absolvida. Nesta época, William pode ter sido um pagem na corte de  Maria de Guise , pois uma página com esse nome recebeu uma cobertura de pano preto de luto quando  Maria de Guise  morreu. William, o pagem, teria estado no  Castelo de Edimburgo  com corte do Regente durante o  cerco de Leith, enquanto o Mestre de Obras,  William MacDowall , estava fortalecendo as defesas do castelo. 
 
William aparece pela primeira vez por sua própria conta nos registros em 1580, quando foi listado por um informante inglês na corte real como o “guardião do relógio” entre seguidores de favorito do rei  Esmé Stewart, 1 º Duque de Lennox . Ele assinou a confissão negativa pela qual os cortesãos juravam lealdade à  Reforma. Em 11 de abril 1581, foi-lhe dado um presente valioso de direitos sobre as terras em Kippen pertencentes aos Grahams de Fintry. Em maio de 1583, William Schaw estava em Paris por ocasião da morte do exilado Esmé Stewart e dizia-se que ele trouxe o coração de Esmé de volta para a Escócia. 
 
Grão Mestre de Obras
 
Em 21 de dezembro 1583, James VI nomeou-o principal Mestre de Obras vitalício na Escócia, com a responsabilidade por todos os castelos e palácios reais. Schaw já tinha sido pago a primeira parcela do seu salário de £ 166-13-4 como “Grete Mr of wark in place of Sr Rbt Drummond”, em Novembro. A substituição do titular Robert Drummond de Carnock  por Schaw, conhecido como um  Católico, pode ter sido uma reação à  Ruthven Raid que tinha removido Lennox do poder.  Pelos termos de sua nomeação, Schaw pelo resto de sua vida deveria ser Grit maister of wark of all and sindrie his hienes palaceis, biggingis and reparationis, – and greit oversear, directour and commander of quhatsumevir police devysit or to be devysit for our soverane lordis behuif and plessur.’ em português: ‘Grão mestre de obras de todos e diversos palácios de sua alteza, construindo e reparando edifícios – e grande supervisor, diretor e comandante de quaisquer políticas concebida ou a ser concebida em nome de nosso Senhor e seu prazer.”
Em novembro de 1583, Schaw viajou em uma viagem diplomática à França com Lord Seton  e seu filho  Alexander Seton, um colega católico com um interesse em arquitetura. A família Seton permaneceu fieis partidários de Mary, Rainha da Escócia  que foi exilada na Inglaterra. Schaw voltou no inverno de 1584, e envolveu-se em trabalhos de construção para a família Seton. Em 1585 ele foi um dos três cortesãos que entretiveram os embaixadores dinamarqueses que visitavam a corte escocesa em Dunfermline  e  St. Andrews. Em 1588, Schaw estava entre um grupo de católicos intimados a comparecer diante do Presbitério de Edinburgh, e agentes ingleses o denunciaram como suspeito de ser  Jesuíta, e cultivar visões anti-inglesas durante os anos 1590. Em maio de 1596 um jornal inglês listando motivos para suspeitar de que o próprio James VI seria católico romano, incluiu a nomeação de católicos conhecidos para ofícios domésticos, citando Schaw como “Praefectum Architecturae,” seu amigo Alexander Seton como Presidente do Conselho, e Lord Hume como guarda costas do Rei. Nessa época ele tinha adquirido o baronato de Sauchie.
 
Servidor da Rainha Anne
 
Em 1589, ele estava entre os cortesãos que acompanharam James VI à Dinamarca para buscar sua nova rainha Anne da Dinamarca. Ele retornou no início de 1590, à frente do restante do grupo para se preparar para seu retorno subsequente. Ele se ocupou reformando o  Palácio de Holyrood  e o Palácio de Dunfermline que tinha sido designado para a rainha. Ele também foi o responsável pela elaborada cerimônia festejando sua chegada a Leith, e ele, posteriormente, tornou-se mestre de cerimônias da corte.
 
Em 1593, ele foi nomeado Camareiro da Senhoria de Dunfermline, que era um oficio doméstico da rainha Anne, onde trabalhou em estreita colaboração com Alexander Seton e  William Fowler. James VI construiu uma nova Capela Real  no castelo de Stirling em 1594, que não tem associação documentada com Schaw, mas provavelmente foi construída sob sua direção. O edifício italianizado foi usado para o batismo do filho de James. A Rainha deu-lhe um distintivo de chapéu em forma de uma salamandra dourada no Ano Novo de 1594-5. O emblema foi fornecido pelo joalheiro Thomas Foulis. Em março de 1598 foi encarregado de proporcionar ao irmão da rainha,  Ulrik, Duque de Holstein uma turnê pela Escócia com o filho de Esmé, Ludovic, Duque de Lennox , levando-o a Fife, Dundee,  Castelo de Stirling  e, em uma viagem até  Bass Rock
 
Em 8 de julho de 1601, James VI enviou William para consultar o Mestre John Gordon sobre a construção de um monumento ao resgate do rei da conspiração de Gowrie House  no ano anterior. James VI escreveu a Gordon que William iria “conferre with yow thairanent, that ye maye agree upon the forme, devyse, and superscrptionis”. 
 
Família e rivalidade
 
Sua sobrinha casou-se com Robert Mowbray, neto do  tesoureiro  Robert Barton, e depois de sua morte, ela se casou com  James Colville de East Wemyss  em 1601, o que causou uma briga de família entre Francis Mowbray, irmão de Robert, e Schaw e Colville. Mowbray, um antigo agente inglês, feriu Schaw com um florete em uma briga e foi posteriormente preso por conspirar contra o rei, e morreu após uma tentativa de fuga do Castelo de Edimburgo. Outra sobrinha, Elizabeth Schaw de Broich, casou-se com John Murray de  Lochmaben  que se tornou Conde de Annandale.
 
Schaw morreu em 1602. Ele foi sucedido como Mestre de Obras do Rei por David Cunninghame of Robertland. Seu túmulo na Abadia de Dunfermline foi construído à custa de seu amigo Alexander Seton e da Rainha Anne, e sobrevive com uma longa inscrição em latim recordando as habilidades e realizações intelectuais de Schaw. A inscrição no túmulo continua a ser a mais valiosa fonte de informações biográficas, e foi composta por Alexander Seton. Traduzida lê-se:
 
Esta estrutura de pedras humilde cobre um homem de excelente habilidade, probidade notável, integridade singular de vida, adornada com a maior das virtudes – William Schaw, Mestre de Obras do Rei, Presidente das cerimônias sagradas, e Camareiro da Rainha. Ele morreu em 18 de abril de 1602.
 
Entre os vivos ele habitou por cinquenta e dois anos; viajou na França e em muitos outros Reinos, para o aperfeiçoamento de sua mente; não lhe faltava nenhuma formação liberal; era muito hábil em arquitetura; foi cedo recomendado a grandes pessoas pelos dons singulares de sua mente; e não só era incansável e infatigável no trabalho e negócios, mas constantemente ativo e vigoroso, e foi mais caro a cada homem bom que o conheceu. Ele nasceu para fazer boas obras, e, assim, ganhar os corações dos homens; agora vive eternamente com Deus.
 
A Rainha Anne ordenou este monumento fosse erigido à memória deste mais excelente e mais reto homem, para que as suas virtudes, dignas de louvor eterno, não desaparecessem com a morte de seu corpo. ”

Quem foi Mário Behring?

Mário Behring foi o fundador do sistema de Grandes Lojas no Brasil.

Ao tentarmos dizer alguma coisa sobre a figura exponencial de MÁRIO BEHRING, fazemos com o maior respeito e admiração. Entendemos que nunca devemos negar os justos aplausos aos que, conscientes da verdade dos fatos e do direito, dispõem-se a colocar sobre os próprios ombros, o julgamento da história. Já temos aprendido, sobejamente, que errar é humano; permanecer no erro é obstinação.

Os adversários do nosso Ilustre Irmão MÁRIO BEHRING, costumam apontar-lhe erros e omissões com o fim precípuo de desmerecer o seu caráter ou ofuscar o brilho de suas idéias e o ímpeto de sua coragem.

Certamente, não é fácil lutar contra os “poderosos”, mas não é difícil, estamos convencidos, usar o bom senso para bem esclarecer os que na defesa dos próprios interesses ou de grupos, preferem perpetuar-se desfilando, propositadamente, nos caminhos perigosos da incerteza e da insegurança.

MÁRIO MARINHO DE CARVALHO BEHRING, mineiro de nascimento, nascido aos 27 dias do mês de janeiro do ano de 1876, isto é, a pouco mais de um século, no alvorecer de sua maioridade, isto é, aos 22 anos, transpôs o pórtico da Loja Maçônica “UNIÃO COSMOPOLITA”, lá mesmo em Minas Gerais, onde, mais tarde, sem muito se demorar, veio a empunhar o Primeiro Malhete de sua Oficina.

Ponderado em suas palavras, porém desassombrado em suas atitudes MÁRIO BEHRING, conforme a filosofia dos seus tempos, logo iniciou uma luta sem quartel em favor da liberdade de pensamento e contra os radicalismos de todas as espécies, principalmente, o religioso.

No início do século passado, ou seja, em 1901, transferiu-se para a cidade do Rio de Janeiro, então capital da República, onde pelo seu comprovado gosto pelos estudos sobre os assuntos Maçônicos, veio a ser nomeado Membro da Comissão de Redação do Boletim Oficial do Grande Oriente do Brasil, então única Potência Maçônicas existente no Brasil, originário da Loja “Comércio e Artes” que, subdividindo-se em três, isto é , da mesma “Comércio e Artes”, “União e Tranqüilidade” e “Esperança de Niterói”, fundou o GOB em 17 de Junho de 1822, conforme consta de seus registros.

É bem de ver que, tão logo MÁRIO BEHRING começou a comparar os resultados dos seus estudos sobre a ORDEM com as estruturas do GOB, passou a querer influenciar na reformulação dos procedimentos do mesmo, principalmente, quando renunciou a sua eleição, em 1903 para Membro efetivo do Gr:. Capítulo do Rito Francês ou Moderno, numa irrecusável demonstração aos menos avisados de que, embora combatesse, febrilmente, o sectarismo e intolerância religiosas, cultivava a sua crença no G.A.D.U. e na imortalidade da alma, postulados não aceitos pelo referido Rito, apesar de nele haver inicialmente orientado os seus primeiros passos.

Continuou MÁRIO BEHRING Membro da Comissão de Redação do Boletim Oficial desde 1902 até 1905, tendo sido eleito em 1906, Grande Secretário Adjunto, quando, mais uma vez, usando de seus conhecimentos, elaborou, em 1907, o projeto da Constituição do GOB que pela conotação liberalista emprestado aos seus dispositivos, tenderia, fatalmente, à regularidade, não somente de suas origens, mas, sobretudo, dos seus trabalhos, não fosse o desvirtuamento que lhe deu uma Comissão de 18 Membros encarregados de sua redação final, para proteger os interesses contrariados pelo trabalho de MÁRIO BEHRING.

Apesar de toda sua luta e influência, MÁRIO BEHRING não conseguiu ver vitoriosos os seus pontos de vista que, em última análise, era uma tomada de posição em consonância com o desenvolvimento da Maçonaria Universal.

Mais esclarecido na investigação da verdade e desejando prosseguir, sob os eflúvios do G.A.D.U., no seu empreendimento, MÁRIO BEHRING aceitou a sua eleição, em 1907 para Membro Efetivo do então Supremo Conselho do Grau 33 para os Estados Unidos do Brasil de onde poderia melhor combater os desmandos a que era submetida a nossa Ordem no Brasil, pelos excessos de poder e apaixonada vaidade dos que se aproveitavam da Ordem ao seu bel-prazer, ainda que esse comportamento pudesse redundar em prejuízo para os verdadeiros objetivos de nossa Instituição.

Sem dúvida, entre os que se opuseram às idéias de MÁRIO BEHRING encontravam-se homens que, apenas por erro de observação ou possível desconhecimento da universal regularidade então buscada, permaneceram na arraigada defesa das suas posições.

Todavia, pelo entusiasmo de suas palavras e pela seriedade de seus propósitos, MÁRIO BEHRING começava a encontrar apoio dos que viam nele um líder eficiente e capaz de tomar uma posição em favor da regularidade da nossa ORDEM no Brasil, ainda que isso lhe custasse, presumivelmente, muito suor e muitas lágrimas.

A interinidade do seu Grão-Mestrado de 10/08/20 a 19/11/20 e de 25/12/20 e 22/04/21, valeu-lhe a experiência da efetividade do seu mandato no período de 28/06/22 a 13/07/25 vez que, lutando em todas as frentes, por nossa regularidade, inclusive junta ao Congresso Internacional de Lausanne, em 1921, reconhecia, com maior força de argumentos, a necessidade de não confundir as administrações do Simbolismo com o Filosofismo.

Terminado o seu mandato de Grão-Mestre, MÁRIO BEHRING, passou o Malhete ao seu sucessor Venâncio Neiva, o qual, procurando coonestar o movimento encabeçado por MÁRIO BEHRING, elaborou um Tratado a ser firmado entre os Graus Simbólicos e os Graus Filosóficos. Infelizmente, por ter, se passado para o Oriente Eterno aquele irmão não pode firmá-lo, cabendo ao seu sucessor Fonseca Hermes, a responsabilidade de fazê-lo.

Dava-se ao Tratado a significação de vida não dependente, porém, harmônica entre as duas administrações.

Isso, entretanto, não vingou por muito tempo, eis que forças e interesses se levantaram a ponto de levar o Grão-Mestre Fonseca Hermes à renúncia, instalando-se em seu lugar Octavio Kelly, o qual, desrespeitando todo esforço anteriormente feito e a legislação Maçônica Internacional, passou a exercer, de modo hostil, os cargos de Grão-Mestre e Soberano Grande Comendador, mesmo não tendo sido eleito para este último cargo.

Com essa atitude o Grão-Mestre Octavio Kelly proclamando-se, também, Soberano Grande Comendador, rompeu o Tratado assinado em outubro de 1926 e deu lugar a que MÁRIO BEHRING, em 20/06/27, vendo-se espoliado na legitimidade e regularidade do seu cargo, e, sentindo a responsabilidade dos compromissos assumidos no exterior, uma vez que somente avocando o DEC, de 01/06/21, que dava ao Supremo Conselho do Brasil, personalidade jurídica distinta do GOB é que foi admitido no Congresso de Lausanne e confiando nos que haviam de defender, a qualquer custo, os postulados que ensejaram o reconhecimento da Maçonaria Brasileira entre seus Irmãos do Universo, retirou-se do Grande Oriente do Brasil e estimulou a fundação das Grandes Lojas Brasileiras.

MÁRIO BEHRING era um engenheiro e não um advogado como muitos pensam ter sido, pelo ardor de sua luta e pela firmeza dos seus argumentos diante dos mais renomados jurisconsultos seus opositores. O seu desmedido interesse pela leitura dos assuntos maçônicos e o desejo de projetar a nossa ORDEM no concerto Universal, impulsionaram-no a fundar as Grandes Lojas Brasileiras há 80 anos passados.

Sem embargo, podemos afirmar com SALVADOR MOSCOSO, em seu trabalho publicado na Revista “ASTRÉA” de dezembro de 1966; “o homem maçom que volver os OLHOS para a história e a experiência de Mário Behring, não escreveria um livro, mas faria um exame de consciência”.

Mário Behring, quis legar os vindouros, através de páginas expressivas na história Maçônica Brasileira, algo da própria respiração, fazendo dele documento animado de personalidade. Foi tão fiel o retrato de suas ações que o oferecem aos seus Irmãos como valioso presente, narração dos movimentos avulsos da sua sensibilidade nas várias emergências da vida.

Nunca se observou o cansaço, havendo, em todos os excertos, a corajosa decisão de quem se propôs inventariar como Maçom e por isso com serenidade, os passos das transatas caminhadas.

O futuro há de saborear, avidamente, a sua história porque nela se guarda o Maçom insigne que a escreveu. Nela ficará, fielmente o retrato, e para todo o sempre, Mário Behring com aquela emoção, educada e sutil, de quem sempre desprezou as falsas pompas.

Aí estão, em rápidas pinceladas sem retoques, alguns traços da marcante e exemplar personalidade do Paladino da Regularidade Maçônica Brasileira que, ao seu tempo, soube honrar os juramentos feitos e os compromissos assumidos perante o G.A.D.U., e a sua consciência. MÁRIO BEHRING soube respeitar a dignidade dos seus semelhantes, sem ostentação ou falsa modéstia.

Em 14 de Junho de 1933 quando viajou para o Oriente Eterno, deixou-nos, tal qual um vigoroso cometa, um rastro de intensa claridade a nos guiar pelos caminhos do equilíbrio, da moral e da razão.

Transcrito de Nós e a X Conferência da CMI.

Fonte: Site da GLP