Simbolismo e a Ciência Sagrada – Parte II

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Conjunção de Opostos 

Um símbolo que é muito claro, e que está diretamente aparentado com o da Roda, por sua própria forma e natureza, é o conhecido Yang–Yin da Tradição Extremo Oriental, símbolo da analogia e portanto, como o selo salomônico, expressão da própria ciência simbólica em si.

Como se sabe o taoismo considera que o equilíbrio cosmogônico se deve à ação permanente de duas forças opostas, o Yang (positiva) e o Yin (negativa), que conjugam uma harmonia, a qual é o próprio universo, e que estas energias, figuradas por uma dupla espiral, se acham presentes em qualquer coisa, ser ou fenômeno e configuram todo processo criativo.

Este processo ao qual nos referimos, permanente e mágico – que por um lado contém um poder vinculado com o passivo, o frio, o inerte e o quadrado (Yin) e outro relacionado com o ativo, o vital, o calor e o círculo (Yang), alternando-se e equilibrando-se constantemente – configura um só indestrutível, já que está claro que as forças não poderiam existir uma sem a outra[1]. Ou seja, que há em uma algo da outra, uma afinidade, sem a qual não poderiam se opor. Na realidade são dois focos polarizados de uma própria força. Essa oposição, no vasto Plano Universal é uma complementação, posto que a dialética é parte da harmonia e do discurso do Mundo. Por isso o taoismo, como qualquer outra tradição, não exclui o mal, a destruição, etc. de sua cosmogonia, e, pelo contrário, o incorpora como um componente da realidade, tal qual o símbolo de seu dragão, ou monstro aquático–ígneo, que representa tanto a energia tônica como a urânica. Ou seja: não exclui os contrários, mas os complementa.

Enumerar os opostos seria impossível já que são intermináveis, embora seja muito importante fazer pessoalmente uma lista deles, pois não há melhor exercício para conhecer os temas da simbólica, metafísica, cosmogonia e do esoterismo em geral, que conjugá-los permanentemente. Nada há bom ou mau em si: o que é bom para uns pode ser mau para outros, o que ontem foi desejável é atroz hoje, ou vice-versa. O que é sumamente inconveniente é ter opiniões inabaláveis sobre diversos temas, que além de ser fixadas por usos e costumes, não são pessoais, como se pensa, mas sim extraídas do leque de possibilidades do meio, muitas vezes de maneira casual; isso sem mencionar a quantidade de fobias, manias e os condicionamentos que elas geram, com os quais o sujeito se identifica, a ponto de ser capaz de matar, tomando-as como realidades verdadeiras em um mundo que não é senão uma representação teatral, uma caixa de luzes e sombras em perpétuo vir a ser.

O taoismo não fala muito sobre o Tao, por sua própria incompreensibilidade. Porém alguns textos como o Tao-Te-King mencionam um Tao da terra, um Tao do homem, um Tao do céu e um Tao de Taos ou Tao Inominável. Geralmente se costuma entender que o Tao é o aro invisível que contém os poderes yin–yang. Nesse caso, da Unidade perfeita e indiferenciada do Tao, um andrógino ou hermafrodita[2], se produz um par de opostos que constantemente se complementam, gerando todos os planos, constituindo com o próprio “corpo” do Tao uma Trindade indissolúvel. Por isso é que o texto taoista também afirma que da combinação dos três primeiros números procedem todos os outros.

O taoismo, não obstante, nos fala de outra tríade: céu–terra–homem, sendo este último o intermediário entre os primeiros termos. Na simbólica da roda poder-se-ia atribuir o ponto central ao céu, a periferia à terra, e o raio que os une ao homem. Na simbólica cristã poderiam ser correlacionados com espírito–alma–corpo, e em alquimia com a manifestação aformal, sutil e grosseira ou enxofre, mercúrio e sal, e também em termos de Platão com a Essência conjugando o Mesmo e o Outro, ainda que estes dois últimos exemplos sejam melhor simbolizados graficamente com um triângulo equilátero cujo vértice superior se polariza na base. Também esta interpenetração de energias que o símbolo yin–yang representa, esta dupla helicoide, poderia ser equiparada simbolicamente ao movimento ascendente–descendente do modelo da roda, e, como este, se subdivide formando um quaternário, já que o símbolo do yin e yang dá lugar a uma nova partição, posto que em cada yin há de haver uma potência do yang, e em todo yang a presença do yin.

Imediatamente este quaternário é gerado pelo mistério do Tao, ou do ponto imóvel, por sua emanação que se expressa por meio de sua própria dialética, e que encontra seu sentido na complementaridade dos opostos. Este último é simbolizado pelo número cinco, no qual a civilização chinesa baseou toda sua cultura, da mesma forma que as pré-colombianas, que fundamentaram sua vida em um quadrângulo, símbolo da tensão alternada de opostos e de um ponto central, lugar de repouso, equilíbrio e não-contradição, espaço sagrado e axial, onde se pudesse estabelecer a conexão com outras realidades, ou seres chamados espíritos, anjos ou deuses. Este eixo é denominado Tien–Tao na Tradição chinesa.

A conjunção de opostos é pois um dos temas centrais do esoterismo e da simbólica à qual também se costuma representar com duas colunas – por exemplo os pilares J e B na Maçonaria, ou as de misericórdia e rigor do diagrama do Árvore de Vida cabalística. Esta representação, em verdade, corresponde igualmente ao símbolo da porta, símbolo de passagem por excelência, já que ela separa – e une – dois espaços não similares, dois mundos diferentes, e estabelece um limite, o que fica claríssimo quando o referimos à entrada de um templo religioso, onde esta linha atua como divisória entre o profano e o sagrado. Neste caso, conjugar opostos permitiria o ingresso a espaços ou mundos novos e distintos.

Considerações Finais

Tratamos brevemente de alguns temas relacionados com a Simbólica e a Cosmogonia Perene. Utilizamos o símbolo da Roda, presente em diferentes tradições, como o fizemos outras vezes, convencidos de seu valor didático, para não dizer de seu poder de transmissão sagrada, mágica e transformadora[3]. Devemos ainda esclarecer alguns pontos de conexão com a Cosmogonia Perene.

ROD10Michel Maier, Symbola aurea mensae, 1617.

A descrição do mundo, a cosmovisão essencial, foi revelada por todas as tradições conhecidas, quer tenham sido povos “primitivos” ou grandes civilizações[4]. Isso se deve, antes de tudo, ao fato de que a cosmogonia é só uma e é a mesma para todo tempo e lugar; portanto a descrição que dela se faz há de ser idêntica, posto que corresponde a um só  Conhecimento; o que se costuma esquecer é que é nesse cosmos que nós vivemos e que a compreensão de sua descrição não só é válida para hoje, mas atuante ao promover na psiquê uma revolução de imagens, sugeridas pelos símbolos, até a mudança completa, ou conversão da própria psiquê.

Porque a substituição das concepções rasas, pequenas, asfixiantes ou históricas com que nos alimentou o mundo moderno provocará em nós, e portanto em nosso pensar–atuar, uma verdadeira transmutação, caso se tenha vivenciado de forma concentrada os símbolos da Cosmogonia Perene e se os tenha absorvido no coração. Nesse caso, o modelo do universo se constituiu em um mandala multidimensional que abarca a totalidade do ser e o suporte mais indicado para a construção do homem novo, da ontologia, como passo prévio à metafísica; se poderia dizer que o ser que edifica sua vida de acordo com os Universais, ou Arquétipos, se inicia no Conhecimento da realidade, como foi o caso de todos aqueles que construíram as culturas das quais somos herdeiros.

Todas as cosmogonias conhecidas – ou projeções da cosmogonia primordial, que conduzem ao conhecimento íntimo da realidade, levam imediatamente (por oposição à ilusão e ao engano dos sentidos em um mundo de aparências) ao reconhecimento imediato de outra possibilidade sempre presente, cuja manifestação misteriosa é a totalidade do cosmos, que não constitui senão a sombra dessa presença, sem a qual esse mesmo cosmos não poderia ser de nenhuma maneira.

Para a descrição cosmogônica conhecida, talvez a mais antiga, a egípcia, o Mundo tem sentido como reflexo da Vida Eterna. A navegação do Nilo (fonte de vida) adquire validade porque é uma reprodução de um paradigma: a navegação do Nilo celeste, o percurso da alma depois da morte, representada e presidida por Osíris, seu deus mais importante. Este fato é, na verdade, o fundamental em todas as tradições e o fim último das cosmogonias e das simbólicas; costuma-se representá-lo no plano humano como uma peregrinação, arremedo da peregrinação final da alma, e todas as tradições conheceram este rito, efetuado pelos egípcios à cidade de Abidos (Tês) situada na margem ocidental do Nilo, na ribeira pertencente aos mortos, lugar de culto do deus dos defuntos e sua corte. Por isso, e já que o Conhecimento da realidade do cosmos se funde com o Conhecimento da Criação de um Criador, esta ascese pode ser alcançada, posto que foi revelada a homens inspirados, os que a transmitiram no meio social através de conhecimentos e energias sutis presentes nos símbolos, mitos e ritos.

Isso é, precisamente, a Iniciação, que se apresenta unanimemente nas culturas tradicionais, e que consiste de ensinamentos recebidos através dos meios acima citados e cujo fim último é a Realização total. Por isso, este processo de sacrifício e conhecimento da realidade cosmogônica, estes ensinamentos encarnados, que caracterizam a Iniciação, promovem no adepto o acesso a outro grau de Conhecimento e experiência de novos planos da Realidade, como se disse, o que inclui uma morte para as suas velhas concepções e um renascer para um outro mundo, onde lhe espera novamente uma longa viagem de assombros. Como se vê, a Iniciação é nesta vida uma imagem da viagem da alma ao país dos mortos e a representa efetivamente até nos menores detalhes, de acordo com as leis da analogia.

Não podemos nos estender mais sobre o tema da Iniciação. Porém repetiremos que há nelas vários níveis, correspondendo a graus de consciência ou Conhecimento. Deveríamos mencionar distintos tipos de Iniciação: as sapienciais, as guerreiras, as artesanais; é interessante estudar as diferentes estruturas em que se manifestam tanto em diversos povos arcaicos como em grandes civilizações. Não obstante, no essencial, estes ritos seguem sendo “primitivos” em sua forma, ainda hoje em dia, por mais sofisticados que pareçam em determinadas religiões, muitas das quais os conservam sem ter quase nenhuma ideia de seu valor; por exemplo: os sacramentos cristãos do Batismo, a Confirmação e a Ordem Sagrada, correspondentes na Maçonaria aos graus de Aprendiz, Companheiro e Mestre.

Além disso, os diversos tipos de iniciações não têm por que se contrapor, e assim temos o exemplo de inumeráveis sábios que foram ao mesmo tempo guerreiros e artistas.

Queremos também destacar que o mito, bem observado, sempre apresenta características circulares. Em primeiro lugar isso se dá porque nele geralmente se narra uma história cíclica, que inclui o tema da morte e ressurreição, princípio e fim, ou diferentes transformações, ou mudanças de estado; nos casos em que se conservou distintas e várias histórias arquetípicas, estas se entrelaçam, constituindo a estrutura circular do mitológico, onde umas narrações encadeiam com outras de modo indefinido – às vezes mediante laços familiares – sem solução de continuidade. Inclusive em uma mesma tradição pode se dar o caso de uma história que se repete várias vezes, adornada com distintas roupagens, determinadas por razões originadas em causas cíclicas, porém que essencialmente manifesta o mesmo.

Em termos gerais a cosmogonia arquetípica poderia ser descrita como a planta de um templo ou de uma cidade sagrada que a representa no mundo. Um ponto ou eixo central governa toda a construção e a conecta com outros planos da realidade vertical. A base é quadrada (ou seu equivalente circular) e se abre ao exterior por meio das (duas) colunas de uma porta. Através dela se tem acesso ao templo no qual há diferentes espaços (três ou quatro) até chegar ao Sanctum–Sanctorum. Estas salas no templo egípcio vão da maior para a menor, diminuindo a luminosidade de cada uma delas até chegar à penumbra da última. Esses espaços são equivalentes e prévios aos invisíveis e verticais, que se articulam através do eixo e alcançam a abóbada, ou o teto, imagens do céu. Existem nas abóbadas de alguns templos aberturas marcando a saída ao supra-cósmico, como no Panteão de Roma; em outros essa saída está implícita no mesmo firmamento que se acha pintado na parte mais alta, como é o caso do templo egípcio (o de Dendera, por exemplo) e também o da loja maçônica.

A numerologia e a geometria expressam as “medidas”, os módulos reguladores da harmonia universal, as “proporções”; esse jogo de tensões em permanente desequilíbrio–equilíbrio que forma a totalidade do criado e adota a onda de emanações da qual o homem é o sujeito. Por isso mesmo, através da conjunção de todos os opostos e da fundamental contradição de suas duas naturezas, este não só pode encontrar seu Ser e seu papel nesse cosmos como parte ativa, mas supostamente transcendê-lo, para passar a viver aqui em vida e depois de sua morte, outros graus não-manifestados do Ser Universal.

ROD11Michel Maier, Tripus aureus, 1618.

Se o símbolo é manifestação e se no mais fundo de qualquer expressão se acha escondida uma significação oculta, uma outra realidade, é lógico pensar que a arte cumpre uma função extraordinária como sistema de comunicação, e sobretudo de coesão no mundo, e graças a ela (à concentração que lhe deu origem e a que por sua vez origina), não se perderam determinados valores universais que ele fixou em distintos lugares e tempos, testemunhando dessa maneira a vontade de ser, e assinalando (mais ou menos conscientemente) os caminhos da liberdade através da repetição de um ato criativo primogênito.

A arte é símbolo em ação, e portanto rito; e não há rito mais perfeito que a cosmogonia, o funcionamento complexo e sutil da máquina do mundo, uma entidade orgânica que constantemente vive o desdobramento de suas possibilidades até seus próprios limites, configurando a mais bela, profunda e inteligente obra de arte, diante da qual todas as outras são reflexos, ainda que as melhores delas se encontrem carregadas, cosmizadas, pelas vibrações da própria estrutura viva da manifestação Universal, figurada por uma dupla espiral de energias que se reciclam perpetuamente.

O mundo, como o mais preciso objeto de desenho inclui a criatura e o Criador amalgamados em um contínuo onde a expiração de um constitui a inspiração de outro e vice-versa. Este fato é um milagre repetido e configura a identidade do ser e do Ser Único, a Suprema Identidade, a que não admite nenhum duo pois é toda a realidade.

O artista é então o ser capaz de condensar por sua mediação as forças cósmicas, é o oficiante do rito da criação; e sua arte mais elevada: o constituir-se no objeto de sua obra.

ROD12Cestaria dos índios Pima-Papago – E.U.A.

Anotaremos finalmente que no Processo de Conhecimento (gnose) ou experiência direta da Cosmogonia Perene, não há nada comparável com a deidade chamada Inteligência, a grande Mãe ou Mãe Eterna (Binah na cabala hebraica, Nârâyâni no tantrismo hindu), energia capaz de selecionar os valores e pô-los em seu lugar criando uma ordem mental em oposição ao caos da ignorância[5]. Daí a importância do modelo do Universo e de sua Ordem Arquetípica, posto que é capaz de ativar e gerar o auxílio desta deidade, que sempre se manifesta no microcosmos como a compreensão imediata, efetivada no coração.

Esta energia, por sua própria virtude, rechaça os pretensiosos paradigmas culturais que  condicionam a nós, homens atuais, em particular aqueles referentes a falsas ideias de progresso e evolução, ou seja, os da ciência oficial contemporânea[6], e permite assim a abertura de um espaço onde as coisas, os seres e os fenômenos, poderiam ser completamente distintos da visão Ocidental, horizontal, pessoal e empastada, herdada apenas dos últimos séculos; e mais ainda: fomentaria a possibilidade de perceber e atualizar o que os sentidos muitas vezes negam, e rechaçar a ilusão geral e profana.

Pode-se afirmar que, por sua própria universalidade, ninguém deixou de ser convocado para este rito da Inteligência, nome divino que pode ser rechaçado ou aceito, de acordo com os níveis do ser individual, e decida, segundo este, ser cúmplice de um engano hipócrita ou opte pela lucidez como estado permanente.

“Tua esposa será como jarra fecunda no segredo de tua casa.” (Salmo 128, 3, Bíblia de Jerusalém).

Autor: Federico González
Tradução: S. K. Jerez

Notas

[1] – A famosa harmonia ou equilíbrio grego foi também obtida a partir de conjugar o apolíneo com o dionisíaco; uma vez que se compreendeu que entre estas duas energias as contradições são aparentes.

[2] – Como é sabido este símbolo era visto por Platão como as duas metades idênticas de uma esfera.

[3] – O “jogo” do Tarot, cujo nome é a inversão da palavra “Rota” = roda, combinado com o esquema da Árvore da Vida cabalística e com o auxílio das artes liberais, constitui um excelente meio introdutório muito propício para as iniciações herméticas modernas.

[4] – As chamadas “altas civilizações” foram também sociedades “primitivas”, e de sua “época mitológica” é que extraiu o cérebro de sua cultura. Para elas era essa sua Tradição, recebida de modo completo e não incipiente ou defeituoso. Isso explica a aparição aparentemente repentina de grandes monumentos e cidades e a irrupção na história de sistemas consumados de pensamento, comunicação, linguagem, etc.

[5] – O rio Ganges é o esperma de Shiva, e essa semente contém potencialmente a energia da Inteligência (associada igualmente às letras do alfabeto sagrado do mundo, ou a um som primordial – AUM) ou Mãe Eterna, Nârâyâni, energia ordenadora e formadora, imanente na manifestação, inteligência cósmica e sensível semelhante indistintamente a Pârvatî (Shakti de Shiva) eLakshmî (Shakti de Vishnu).

[6] – Com a exceção da ciência mais moderna.

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Simbolismo e a Ciência Sagrada – Parte I

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 A Iniciação

Consideramos a Roda como símbolo do movimento e do cíclico, na sua forma temporal, e também como centro e como eixo, na forma espacial. Neste último caso, todos os povos tradicionais situaram suas cidades, seus templos, inclusive suas casas, em pontos significativos da paisagem amorfa, ou seja: do caos e do vir a ser. Esses pontos são centros específicos de geração e irradiação de uma cultura por considerar-se que conectam precisamente com outros planos da realidade, de forma vertical, e se manifestam nesse omphalos. Desse modo igualmente se expandem de maneira horizontal os conhecimentos obtidos por inspiração dos deuses.

O que é válido para o círculo também o é para o quadrângulo; a figura do quadrado, por ser a de uma contração, ou solidificação do círculo, se presta especialmente para a arquitetura, e seu simbolismo é o de fixar um espaço significativo no transcorrer do tempo. Afirma Mircea Eliade que: “A criação do mundo se converte no arquétipo de todo gesto humano criador, qualquer que seja seu plano de referência. Vimos que a instalação em um território reitera a cosmogonia. Depois de se ter deduzido o valor cosmogônico do Centro, se compreende melhor agora por que todo estabelecimento humano repete a Criação do Mundo a partir de um ponto central (o “umbigo”). À imagem do Universo que se desenvolve a partir de um centro e se estende para os quatro pontos cardeais, a cidade se constitui a partir de uma encruzilhada”. E também: “O verdadeiro Mundo se encontra sempre no “meio”, no “centro”, pois ali se dá uma ruptura de nível, uma comunicação entre as duas zonas cósmicas”. Já citamos alguns casos de símbolos do eixo, ou do pólo, ainda que em princípio tudo aquilo que denote verticalidade está associado a ele; no plano estaria representado particularmente pela cruz svastika, – segundo opinião de autores qualificados – símbolo tradicional, ao qual coube ser um exemplo típico da degradação da mentalidade simbólica contemporânea. A árvore é assemelhada à verticalidade, ou seja, à ruptura de nível, e também à irrupção da vida, à geração e frutificação no plano horizontal. Esta Árvore da Vida foi conhecida unanimemente – ou seus equivalentes poste ritual, obelisco,  coluna, menir – presente tanto na Cabala Hebraica – cujo Modelo do Universo, constituído pelas sephirot (= numerações), se denomina precisamente assim – como na civilização maia, cuja árvore sagrada era a ceiba, que ainda hoje está plantada em meio à praça central dos povos dessa área; também para egípcios, gregos, romanos, celtas, e aborígenes norte-americanos, africanos e australianos.

ROD6Heinrich Khunrath de Leipzig, Amphitheatrum sapientiae aeternae, 1602.

O simbolismo da árvore admite três níveis: raízes, tronco e copa, relacionados com os mundos subterrâneo, intermediário e celeste; nas culturas que tomam o próprio ser humano como símbolo vertical, os níveis são terra, homem e céu. Ambas as versões nos falam da ideia de um Universo hierarquizado em distintos mundos, que também estão presentes no homem, configurando distintos planos da realidade.

A isso se refere também o simbolismo da montanha, e sua réplica humana: a pirâmide (ou o zigurat), cuja ascensão há de se realizar de maneira escalonada. Igualmente, o simbolismo da própria escada não significa outra coisa, e há que se recordar aqui o tão citado episódio bíblico do sonho de Jacó, no qual ele vê anjos subindo e descendo por uma escada, assegurando assim a comunicação entre céu e terra.

Estes níveis se estabelecem no símbolo da Roda, como círculos concêntricos, que se encontram mais ou menos distanciados do ponto central, equivalente ao eixo vertical. Na tradição hindu, um eixo invisível, um fio, o sushumnâ atravessa todos os mundos; no homem o eixo está representado pela coluna vertebral, em cuja base jaz adormecida a serpente kundalinî, e onde se articulam os diferentes chakras, discos ou rodas, energias que ela ativará ao despertar, e que estão intimamente vinculadas ao processo do Conhecimento e sua ritualização: a Iniciação[1].

ROD7Roda hindu

Estes graus de conhecimento vão do mais denso ao mais sutil, da base do monte ou pirâmide, a seu ponto mais alto; do chakra inferior da coluna vertebral (mûlâdhâra) ao superior, o do cocoruto (sahasrâra); expresso em termos cabalísticos, ao espaço, ao “percurso” que separa Malkhuth de Kether, ou seja, à manifestação universal de seu Princípio; logicamente, no símbolo da Roda os círculos concêntricos se acham hierarquizados em virtude de sua proximidade com o ponto central onde os raios cada vez se aproximam mais de um modo íntimo d’Ele. Da mesma forma podemos associar estes graus de conhecimento com níveis da consciência humana, ou planos de leitura da totalidade da manifestação, e não só com uma de suas partes, ou componentes. Basicamente queremos assinalar quatro planos de leitura da realidade, que em muitas tradições são três já que se fundem os dois associados ao plano intermediário[2]. Estes níveis de leitura são os mesmos que estão associados a qualquer texto ou livro sagrado, começando pela Bíblia, e são próprios de todas as tradições, em especial as chamadas do “livro” (judaica, cristã, islâmica), já que elas simbolizam com este “livro” a manifestação original da palavra, a revelação, uma teofania permanente (sobretudo no Islã), ou seja, o eixo central que permitirá a ascensão ordenada pela hierarquia dos mundos[3].

Leitura metafísica          Atsiluth

Leitura cosmogônica       Beriah

Leitura alegórica           Yetsirah

Leitura literal               Malkhuth

A Iniciação é conhecida unanimemente pelos povos arcaicos e tradicionais; em realidade só  a época moderna a desconhece, ainda que continue a estar presente no seio de nossa sociedade por seu caráter arquetípico; este é o caso do Ocidente, onde o Cristianismo e a Maçonaria, através de seus símbolos e ritos oferecem aos interessados uma via de realização sempre e quando puderem penetrar nos arcanos, na essência de seu ser, o que não estará isento de todo tipo de dificuldades, dado o grau de distanciamento de suas origens em que se encontram as religiões e as instituições; isso é também válido para o judaísmo; daí a importância que adquire a gnose da Via Simbólica e a Tradição Hermética como veículo de realização espiritual.

Igualmente, subsistem certas iniciações entre os povos “primitivos” o que é contatado pela antropologia; em geral ainda permanecem as cerimônias chamadas “sociais” pelos antropólogos, como os ritos de puberdade, ou seja, da passagem do adolescente a homem ou mulher e isso se deve ao fato de que nestas iniciações participa toda a comunidade, em oposição àqueles ritos chamados “sapienciais” –ainda que neles não seja necessário saber ler ou escrever –, realizados só para os indivíduos chamados ao Conhecimento. Não obstante, que maior experiência de sabedoria, na prática, senão a de enfrentar uma nova posição na vida, fazendo-se assim o novo homem responsável por si mesmo e de sua ação no mundo? Não seria, por acaso, um nível de conhecimento vital assumir uma postura ordenada no cosmos participando inteligentemente dele, sendo esta, além disso, uma atitude perante si mesmo e os outros? As iniciações em todos os lugares e tempos foram obtidas como decorrência de provas e sacrifícios (sacrifício, de sacrum facere, fazer sagrado) que se expressam simbolicamente pelo sangue, elemento essencial; é sabido que o processo psicológico que supõe o sacrifício é a melhor preparação para o Conhecimento.

Neste sentido, não são poucas as provas que diariamente deve enfrentar o estudante da simbólica e da alquimia (chamado familiarmente “misto”): não só deve lutar contra si mesmo, contra as concepções estreitas e aprendidas do meio, mas também contra o próprio meio que se opõe a que qualquer um possa atrever-se a não pensar de uma maneira literal e “oficial”. Nos tempos que correm não há um espaço ideal – ou às vezes concreto – onde as iniciações possam ocorrer. Tampouco há um tempo especificamente definido, pois o tempo tem a virtude de regenerar-se perpetuamente; sempre é agora para trabalhar, e desde logo há uma estreita relação entre a Simbólica e a realização espiritual, expressa pelo que se convencionou chamar a via Simbólica, um de cujos meios, a oração do coração, ou oração concentrada, é uma repetição circular e constante da invocação. Esperar o tempo e lugar oportuno para a iniciação pode ser uma causa de distanciamento definitivo.

Na realidade a Iniciação ritualiza o processo de Conhecimento, e por isso, o que interessa em definitivo é este, já que é o verdadeiro, o real; muitas pessoas podem participar às vezes de ritos iniciáticos tradicionais sem sequer se dar conta do que significa o Conhecimento, e ao contrário, um indivíduo que não houvesse participado de nenhum ritual poderia coroar seu processo de Conhecimento, de realização, que é, em definitivo, o que a Iniciação simboliza. Isso de nenhuma maneira significa que aqueles que têm a oportunidade de iniciar-se em alguma forma tradicional não o façam por considerar que se produziu neles o Conhecimento. Ao contrário, toda Tradição autêntica possui os meios espirituais e os ritos exotéricos necessários para ajudá-lo em seu percurso, e ainda contém a possibilidade de “regularizar” sua situação e integrar-se em uma corrente espiritual que lhe aportará sua energia e à qual ele brindará seu esforço; em muitos casos o estudante opta por alguma forma diferente das do Ocidente. Devemos recordar que o ritual tradicional exemplifica a história arquetípica da encarnação, o mito do deus–homem e do homem–deus.

Continua…

Autor: Federico González
Tradução: S. K. Jerez

Notas

[1] – A tradução do termo chakra é literalmente roda.

[2] – Na cabala hebraica os mundos intermediários de Yetsirah Beriah, estão formados pelas sephirot chamadas de “construção”.

[3] – No Islã este Conhecimento, esta Gnosis, é assemelhada a Ilmut Tauhyd (ciência da unidade), da qual derivam todas as ciências. Igualmente há três graus de Conhecimento: islam, imán, efibsán, correspondentes a três categorias de crentes, muslimúnmu’minún e Muhsinún.

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Simbolismo e Cosmogonia – Parte III

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Símbolo, Mito, Rito

O simbolismo do “centro do mundo” poderia ser transposto ao do “eixo do mundo” e relacionar-se então com tudo aquilo que significa este eixo. Em particular com os símbolos da árvore (Árvore da Vida) e da montanha, e todos os indicadores de pontos de conjuntura na geografia e na história sagrada, que se manifestaram ao longo do tempo e em distintos lugares. Estes lugares ou seres especiais, que são símbolos por suas próprias características mágico–teúrgicas, promovem uma ruptura de nível que permite comunicar-se com outros mundos, ou estados de consciência diferentes, com zonas vedadas do universo e de nós mesmos. No ser humano esse Centro do qual falamos está alojado no coração, como o atestam todas as tradições.

A montanha e a árvore são, além disso, dois símbolos de ascensão, igual ao da escada, e supõem a ideia de saída de um plano ou mundo, e o ingresso em outro superior. Geometricamente esta possibilidade está marcada pela figura da espiral, que é capaz de sair do plano e da reincidência rotineira, e projetar um novo movimento circular, desta vez em um plano distinto. Costuma-se também representar a espiral em forma dupla, formando na tridimensionalidade uma espécie de trompa, onde uma das espirais é “evolutiva” e a outra “involutiva”, complementando-se perenemente.

Por outro lado o círculo é análogo ao quadrado. Poder-se-ia dizer que este último é uma solidificação daquele, marcada pela agressividade rígida das arestas em comparação com a brandura e suavidade da forma circular; isto também é válido para o cubo e a esfera. Não obstante ambas as figuras têm 360 graus, já que essa é a superfície do círculo, também configurada pelos quatro ângulos retos de 90 graus do quadrângulo. Tradicionalmente se tomou a figura da esfera, ou do círculo, como mais perfeita que a do cubo ou do quadrado. Uma das razões já foi mencionada: os raios que unem à periferia da esfera com o centro são de igual distância, enquanto que no cubo ou quadrado não ocorre o mesmo. Em geral se relacionou o círculo com o céu (uma semiesfera) e o quadrado com a terra. Entre ambos constitui-se o cosmos, como se pode observar no simbolismo arquitetônico, em especial o do templo, pois este constitui uma imagem do universo[1]. Como decorrência, a associação do círculo com o quadrado (e com o quaternário e a cruz) resulta naturalmente das próprias características inerentes a estes símbolos, os quais se entrelaçam de modo espontâneo tal qual as ideias e arquétipos que eles representam.

Voltaremos mais adiante a discorrer sobre estes temas. Façamos porém agora algumas considerações sobre os símbolos e também sobre os mitos e ritos. Em primeiro lugar assinalaremos que os símbolos não são, para a Simbólica, o que costuma entender hoje o homem contemporâneo. Ou seja, simples alegorias ou convenções impostas pelo ser humano. Repitamos: estas versões, em realidade, não são senão graus de leitura do que é o símbolo em si, nas quais se faz “pé firme” só por seu aspecto psicológico, ou simplesmente por seu valor prático, e sofrem o enorme perigo de reduzir o símbolo só a isso, com o que não se faz outra coisa além de negá-lo, ao tergiversar seu sentido. O símbolo é muito  mais amplo e não se reduz a estas duas leituras. Pelo contrário, seu caráter é essencialmente metafísico e ontológico (na medida em que se refere ao ser e é transformador) e portanto arquetípico. Este é o símbolo, cuja função a qualquer nível de leitura que se observe, não é mais que a de levar do conhecido ao desconhecido por sua mediação.

Aquele que teve a oportunidade de estudar as culturas tradicionais pôde observar a importância transcendental que o símbolo sempre possui nelas. Isso se deve ao fato de que para elas o símbolo em si está carregado de uma energia especial, de uma força mágica –por manifestar verdades desconhecidas de segredos implícitos no mundo, e desse modo revelá-los – que é objeto de veneração e reverência, como o atestam as sociedades arcaicas, que tomam estes símbolos (ou objetos-símbolos) como autênticos representantes de outros mundos verticais; das energias do além, capazes de transmitir o conhecimento de outras realidades, ou melhor, de outros planos, que igualmente, constituem o total da realidade.

Quanto ao mito, presente em todas as culturas antigas, além de revelar verdades cosmogônicas e propor um modelo exemplar de vida e realização, é o fator aglutinante que deu coesão à existência dos inumeráveis povos, possibilitando assim sua organização social. O mito é um símbolo que se transmite de maneira oral; de outro lado o rito dramatiza o mito e perpetuamente o atualiza, simbolizando-o; consequentemente, símbolo, mito e rito formam um só conjunto, como já se assinalou em outros lugares, e deve-se por subentendido que quando falamos de símbolo, também estamos nos referindo a mito e rito.

Voltando ao termo metafísica, uma vez feita a ressalva de que se refere àquilo que está além da física, devemos esclarecer que com ele não só se identifica o que excede à matéria, mas também o que está além do psicológico, por ser arquetípico. E ainda mais que isso, pois o sentido associado à palavra metafísica na simbólica quer expressar aquilo que está além do ser, o supra-cósmico e supra-humano.

O símbolo é o veículo que liga duas realidades, ou melhor, dois planos de uma mesma realidade. Participa, pois, de ambas: daí sua pluralidade de significados. Para a antiguidade, o símbolo era o representante de uma energia–força que permitia pela ruptura de nível o acesso a outros mundos, ou o acesso ao conhecimento de diferentes planos deste mesmo mundo, caracterizados por distintos graus de consciência. O símbolo era e é, consequentemente, o meio de comunicação entre os deuses e os homens, objeto sagrado por excelência, já que ele conta a história verdadeira, a eficaz, e não a sempre mutante, de múltiplas falsas aparências. Descreve então a realidade tal qual é e não permite assim o engano dos sentidos, os desvios e enredos a que é tão propensa nossa personalidade. Se crê portanto nele e se reconhece os valores de que é portador, sem cair no equívoco grosseiro de tomar o símbolo pelo simbolizado, o veículo pela meta da viagem.

O termo grego symbolon se referia a duas metades de algo, que se juntavam, que coincidiam, e conformavam um sinal de reconhecimento; pode concluir-se imediatamente que estas duas metades são análogas, o que caracteriza a simbólica, pois nada nem ninguém pode expressar ou transmitir algo se não o faz mediante uma correspondência entre o que quer manifestar e a forma através da qual o manifesta. Como decorrência, a representação simbólica há de expressar a ideia metafísica, descrevendo e repetindo a cosmogonia arquetípica, participando desse modo no processo de criação. Como estamos vendo, o símbolo está intimamente relacionado com as leis de analogia e correspondência presentes no Modelo do Universo, na Cosmogonia Perene.

A rigor qualquer coisa pode ser um símbolo, pois ela expressa de modo particular a sua origem e a mão de seu criador, o mistério que ela oculta dentro de si. Toda expressão é simbólica pois conserva implícito um gesto original. Não obstante, há que se distinguir entre os símbolos revelados especificamente para o conhecimento de uma realidade, e os símbolos espontâneos da psique individual que, por essa razão, não é capaz de ultrapassar esse nível de consciência. Enquanto os primeiros se supõem não humanos, os segundos não podem exceder o nível psicológico ligado em simbologia com o lunar e sublunar. Os primeiros expressam uma realidade transcendente, os outros não conseguem manifestar além do poder do imanente e denotam a garra do demiurgo.

Também deve-se distinguir o símbolo do emblema, e sobretudo, como já se notou, da alegoria, que põe um espaço entre o símbolo e o simbolizado, e se apresenta também como uma versão a nível psicológico, como inexistente ou sonhada, diferente da realidade e exatidão daquilo que os símbolos expressam.

Em forma gráfica e nas artes plásticas e monumentos se conservam os símbolos visuais das culturas antigas; de forma oral se tem transmitido seus mitos e suas canções rítmicas rituais, repetitivas e cíclicas e muitos desses se encontram registrados por escrito; antropólogos, arqueólogos, historiadores e outros especialistas, nos comunicam novos achados que confirmam a total importância que os povos tradicionais atribuíam a seus símbolos, já que, conhecedores da Cosmogonia Arquetípica, repetiam seus gestos simbólicos, que eram ensinados e aprendidos, pois o conhecimento do significado do símbolo não se pode obter de outra maneira. Hoje em dia é não faz parte da mentalidade oficial a ideia de um Modelo do Universo (conhecida por todos os povos tradicionais), um plano arquetípico e invariável que supõe a presença de um Arquiteto e que é válido para todo tempo e lugar, na escala humana, e que, de fato, também está transcorrendo agora. Igualmente se ignora a existência da Filosofia Perene, ou seja de uma mesma filosofia, idêntica nos princípios, em todas as tradições do mundo. Esta Cosmogonia e Filosofia perenes se ocultam dentro dos símbolos tradicionais, de origem revelada, que podem ser encarnados por aqueles que consigam obtê-los, pois os conhecimentos, energias e experiências que os símbolos contém, de caráter arquetípico e cosmogônico, podem ser vivenciados no constante agora, sempre que os interessados sejam pacientes para concretizar uma nova forma de aprendizagem e ser favorecidos por tamanha graça; em todo caso esta é uma experiência estranha e às vezes se vê como muito rara e muito difícil de assumir, segundo o atesta a tropa alquímica[2].

A roda, como símbolo do ciclo, está sujeita a um invariável retorno que, não obstante, tem determinados pontos que a limitam. Estes pontos estão magnificamente exemplificados pelo caminho do sol no ano, a “roda sór“, que se caracteriza por ter dois momentos máximos em seu percurso, nos quais o sol parece deter seu rodar; nos referimos aos solstícios de inverno e verão. Eles bem podem situar-se nos extremos da roda, ou do círculo, e marcar esses momentos. Há também outros momentos importantes no percurso do “carro sór“, os equinócios, e eles se encontram perfeitamente equidistantes dos solstícios marcando assim um círculo dividido em quatro partes exatamente iguais.

Entretanto, o quaternário como divisão normal do ciclo não só é reconhecido no percurso anual do sol, mas no diário (aparente), o qual é dividido também quadripartitamente em meia-noite (0 hs.), amanhecer (6 hs.), meio-dia (12 hs.) e entardecer (18 hs.)[3].

Igualmente pode-se encontrá-lo em qualquer ciclo ou manifestação, pois o quaternário é o signo do criado: também na divisão espacial se fixa os quatro pontos cardeais em relação à linha do horizonte[4].

Se pode também identificar outros exemplos desta lei do quaternário; as distintas idades de um homem: infância, juventude, maturidade, velhice. Igualmente, as idades do mundo caracterizadas de maneira descendente pelo ouro, a prata, o bronze, e esta última que estamos vivendo, o ferro. O mesmo as estações do ano: inverno, primavera, verão e outono; as fases da lua, e igualmente os elementos, ou princípios constitutivos da matéria: Fogo, Ar, Água e Terra, aos quais as diferentes tradições associaram cores, como sinais qualitativos.

Voltamos a ligar assim estreitamente a figura do círculo e do quadrado através do quaternário. O ciclo, ou seja o símbolo da roda em movimento, funde indissoluvelmente estas figuras entre si em estreita vinculação com a simbólica atribuída a espaço e tempo, relacionando-se o círculo com este último e o quadrado (o quaternário) com o primeiro.

A roda de seis raios tem uma particularidade mágica: o tamanho do raio divide sempre o aro em seis partes iguais.

A roda zodiacal divide o ano em doze períodos, chamados signos, os quais também em ciclos maiores estão equiparados a eras; subdivisões todas da figura partida pelo binário e quaternário como já vimos. Acrescentaremos que o termo “zodíaco”, de origem grega, se traduz por “roda da vida”.

Os distintos números de raios das rodas não são arbitrários e se referem à partição do círculo nestes ou naqueles segmentos, assinalados por diferentes números, dependendo de como se encara a figura, em que contexto, e para que fins; tudo isso ligado com os atributos próprios de cada número e suas correspondências geométricas. Na Tradição Hermética, onde se produz uma amálgama entre os nomes rosa e rota ( = roda), a flor é a imagem do circular, como bem se pode perceber nos mandalas que são certas “rosetas” das catedrais europeias. Tudo isso faz particularmente significativas as diferentes modalidades do símbolo em geral, relacionando-o com aspectos diferentes da realidade, ou melhor, com várias referências acerca de como encará-la, todas elas complementares.

Assim como o ponto se corresponde com a unidade aritmética e o quadrângulo com o quatro, o ciclo se expressa pelo número nove. Este número é irredutível e como se sabe todos seus múltiplos (e submúltiplos) regressam indefectivelmente a ele, por exemplo: 9 x 2 = 18 = 1 + 8 = 9 ; 9 x 3 = 27 = 2 + 7 = 9 ; 9 x 4 = 36 = 3 + 6 = 9 , etc. Por outro lado divide a circunferência em quatro partes, e introduz a circularidade nas cifras com as quais se conecta, coisa que efetuam também seus múltiplos, relacionando assim qualquer número com a figura do círculo; devemos recordar que esta última se forma com o valor 9 da circunferência, mais o valor 1 do ponto central. O mesmo sucede com o quadrângulo que igualmente se constrói a partir de um ponto central cruzado por duas ortogonais, o que representa uma cruz, cujo meio exato é outro novo ponto, o número cinco, que na alquimia corresponde ao éter, em filosofia à quintessência, e que foi importante em distintas tradições, entre elas a chinesa e as pré-colombianas[5]. Com o número sete acontece o mesmo, já que é considerado o central de uma roda de seis raios. Na realidade, e por outra das transposições entre o símbolo do círculo e do quadrado e do plano ao espacial, o sete é o ponto central do cubo, de seis faces e doze arestas, outro dos símbolos-modelo do universo[6].

O simbolismo dos números, como já destacamos, está estreitamente relacionado com nosso tema. O sistema pitagórico decimal que usamos está formado por nove dígitos chamados naturais, agregados do zero que tem um valor posicional nos distintos níveis em que se expressa: dezenas, centenas, etc.; voltando-se a repetir em qualquer nível os mesmos nove números em sua viagem circular. Para o hermetismo a série numérica tem uma característica especial: a unidade gera todos os números e por adição está presente em todos eles; por isso o número um seria o maior, e os demais, divisões ou fragmentações da unidade primordial. Como se vê, aqui os números não estão expressando simples quantidades, mas qualidades, sendo tomados como módulos harmônicos arquetípicos. A antiguidade tinha primordialmente em conta a ideia que o número tinha significado; quer dizer, utilizava esta escala de modo vertical, que para isso havia sido projetada; embora também a usasse na forma quantitativa e horizontal para outras funções que considerava secundárias ou reflexas. Os conceitos que os números manifestam e suas representações geométricas estão intimamente associados ao metafísico e cosmogônico e correspondem a realidades essenciais do universo e do homem. As combinações entre os distintos números da escala faz possível a coesão universal, já que de fato, os números não são nem mais nem menos que conceitos de relação. O denário é uma chave mágica: com os dez primeiros números se pode nomear qualquer coisa. Na tradição hebraica os mesmos números são representados por letras, pois todo o alfabeto tem um valor numérico; no islamismo é igual. A relação entre letra e letra ou – o que dá no mesmo – entre número e número, produz o discurso do cosmos, a linguagem do universo, já que números e letras formam códigos reveladores do conhecimento do Ser Universal.

Autor: Federico González
Tradução: S. K. Jerez
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Notas

[1] – Na mesquita a cúpula corresponde ao céu e ao Profeta e as quatro “falsas” cúpulas que dela derivam e se projetam na base quadrangular, aos seus quatro descendentes, herdeiros de seu legado nesta terra.

[2] – Para destacar a importância do símbolo como linguagem só  queremos recordar que a tradição cristã afirma que Constantino, imperador romano, viu uma enorme cruz no céu e ouviu uma voz que dizia In hoc signo vinces; este fato motivou sua conversão ao cristianismo e a posterior implantação desta religião como oficial no império, o que demonstra que o poder do símbolo foi capaz de mudar – ou orientar – toda a história do Ocidente.

[3] – Nem todos os povos fizeram exatamente esta divisão esquemática. Varias sociedades pré-colombianas aparentemente a contradizem. É de sumo interesse igualmente observar que estes povos que conheciam perfeitamente o ciclo e a circularidade, como o demonstra a perfeição de seus calendários, não utilizaram a roda de maneira técnica por considerá-la “tabu”, ainda que conhecessem sua aplicação prática, presente em numerosos brinquedos encontrados pelos arqueólogos ao longo da América Central.

[4] – A este respeito, não obstante, há que se ter presente que a linha do horizonte sempre se encontra no olho do espectador.

[5] – Para o hermetismo, é além disso o número do microcosmos, ou seja, do homem; também o dos dedos de sua mão.

[6] – Estas doce arestas ocupam um papel preponderante na cosmogonia pré-colombiana já que sua imagem do mundo se apresenta geralmente de modo quadrangular e cúbico; somadas ao centro produzem o número treze, módulo vital em sua visão do universo.

Simbolismo e Cosmogonia – Parte II

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O Símbolo da Roda

Talvez a Roda seja o mais universal dentre os símbolos sacros de todos os povos. Isso se deve, por um lado, ao fato de que este símbolo aparece unanimemente, direta ou indiretamente, em todas as tradições, e parece ser consubstancial ao homem. Por outro lado, a própria universalidade dos significados da roda, e sua conexão direta ou indireta com os demais símbolos sagrados, em especial, números e figuras geométricas, fazem dela uma espécie de modelo simbólico, uma imagem do cosmos. Pois a roda no plano é um círculo, e a circularidade é uma manifestação espontânea de todo o cosmos; portanto essa energia há de provir de um ponto central que a irradia, tal qual o caso de uma roda, símbolo do movimento e também da imobilidade, que pode girar e reiterar seus ciclos, possibilitando a marcha graças a um eixo imóvel. No plano isso se representa como um centro do qual a circunferência extrai sua forma (com cordel ou compasso, é imprescindível ter um ponto fixo para traçar a circunferência) por irradiação, tal qual a energia potencial do eixo se transmite ao aro por mediação dos raios das rodas, análogos ao raio da circunferência[1].

Qualquer pessoa que traça uma circunferência sabe que esta depende do ponto central e não ao contrário. Entre o ponto central e a circunferência se configura o círculo; o valor aritmético associado ao primeiro é a unidade, que é uma representação natural do ponto geométrico, e à segunda o nove, que é o número do ciclo por ser o da circularidade, como mais adiante veremos. A soma de ambos nos dá a dezena (1 + 9 = 10) que é modelo numérico da tetraktys pitagórica, o qual pode ser relacionado com qualquer outra aritmosofia, já que os números – e as figuras geométricas – são módulos harmônicos arquetípicos, válidos em todo o manifestado e, portanto, para qualquer tempo e lugar dentro deste ciclo humano.

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Assim, pois, não devemos estranhar que neste trabalho sejam tratados em conjunto os símbolos da roda e do círculo, o da espiral e o da esfera, pois esta, por exemplo, não é senão o círculo na tridimensionalidade. Igualmente, que se mencionem símbolos estreitamente associados ao da roda como o da cruz, o quadrado, e outros, assim como que se recorra às distintas tradições onde se encontra testemunhado. Não obstante, este símbolo está presente em nossa própria Tradição e se acha ao nosso alcance trabalhar com ele. No próprio dia-a-dia podemos observá-lo constantemente; de fato é evidente na própria vida, pois como observamos, as coisas se produzem com um movimento circular e portanto são cíclicas, o que é um pensamento emitido por todas as doutrinas metafísicas. A figura esquemática da roda no plano foi associada ao sol por numerosos povos e de fato ainda hoje é o símbolo astrológico desse astro; em alquimia representa o ouro, seu equivalente terrestre. Daí a associar o percurso do sol com um carro dourado, ou de fogo, é só um passo. De fato seu alcance é significativamente mais amplo e se corresponde com a ideia arquetípica de Centro: aquilo que é capaz de gerar uma ordem na massa amorfa do caos; o ponto imóvel imprescindível a toda criação, o motor graças ao qual o devir tem um sentido.

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Este ponto central da Roda do Mundo se comunica com a periferia, como já se disse, através de raios, que são portanto intermediários entre ambos; e enquanto a roda gira sobre si mesma simbolizando o movimento e o tempo, o eixo permanece fixo expressando a imobilidade e o eterno[2].

O círculo e a esfera foram tomados por numerosos povos e distintos autores antigos como figuras perfeitas e expressões da totalidade. A roda em particular está associada aos ciclos que repete uma e outra vez e, portanto, ao relativo, ao passageiro, ao contingente, porém sobretudo à recorrência, à reiteração. Como se poderá observar, e assim o continuaremos vendo, este símbolo se presta a inumeráveis transposições ao plano metafísico, ontológico e cósmico e é objeto de conhecimento e especulação.

O que é um ponto central ao círculo, é o eixo com relação à esfera, motivo pelo qual centro e eixo se correspondem exatamente, sendo o primeiro um símbolo plano e o outro símbolo tridimensional do mesmo conceito.

Se o ponto é virtual, não-manifestado e geometricamente não existe, a periferia da roda será visível e representará, na ordem cósmica, a manifestação universal e, no mundo do homem, qualquer expressão, razão pela qual também se pode equiparar o ponto e o círculo, a potência e o ato, e por conseguinte, a contemplação e a ação.

A primeira divisão a que pode dar lugar o símbolo da roda é a bipartição da figura que a representa em duas metades análogas e exatas. Estas representam os dois movimentos, de ascensão e descenso, que realiza a roda no percurso de um ciclo, seja o do sol no ano, ou o do dia, ou o da lua em um mês, ou o da vida de um ser humano; o de princípio e fim com o qual está assinada qualquer criação.

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Princípio e fim têm uma origem e um destino comum, o que dá lugar, além disso, às ideias de reincidência ou repetição, crenças e conceitos de todos os povos arcaicos e tradicionais que viveram sempre um tempo cíclico e não linear e indefinido, tal como o nós concebemos atualmente. Qualquer ponto da periferia – os que são de número indefinido e podem simbolizar, cada um, a vida de um homem na imensidão do criado – é um reflexo do centro e se encontra conectado a ele pelo raio, porém enquanto que no aro todo é sucessivo, do ponto de vista central as coisas são simultâneas. Esta figura também pode ser adaptada obviamente aos conceitos de interior e exterior, de luz e reflexo, e também de realidade e ilusão, posto que a permanência do ponto não se altera diante das formas mutantes e sempre perecíveis do transcorrer periférico.

Nos diz René Guénon que: “O centro é, antes de tudo, a origem, o ponto de partida de todas as coisas; é o ponto principal, sem forma nem dimensões, portanto indivisível, e, por conseguinte, a única imagem que se pode dar à Unidade primordial. Dele, por irradiação, são produzidas todas as coisas, assim como a Unidade produz todos os números, sem que por isso sua essência fique modificada ou afetada de qualquer maneira”.

Todos os pontos da circunferência estão a igual distância do centro, lhe são equidistantes, motivo pelo qual as inumeráveis energias do cosmos se neutralizam em seu seio. Geometricamente é o eixo vertical que atravessa distintos planos circulares horizontais, que ele mesmo gera, os que giram como rodas ao seu redor formando a cadeia de mundos, os diferentes estados de um Ser Universal.

A energia da irradiação chegada a seus próprios limites retorna a sua fonte por mediação do mesmo raio que as conecta, para ser reabsorvida no Princípio, que novamente volta a emaná-la para a periferia, constituindo esta inter-relação, ad extra e ad intra, uma espécie de respiração universal selada pelas leis cósmicas da dialética. Por isso é que o Centro, ou o Eixo, é a Origem e o Princípio, e irradiando tudo d’Ele, a Ele tudo retorna.

O centro é pois uma região mítica, uma ideia arquetípica que, não obstante, se manifesta em determinados pontos da circunferência que, desta maneira, passam a ser centros para o sistema que eles geram, sempre e quando sejam autênticos reflexos do ponto original ou, o que é o mesmo, que esse Centro fosse uma teofania, ou uma hierofania, um lugar, pessoa ou objeto que expressasse a unidade de um modo particular, e que igualmente a irradiasse. Nesse caso os distintos centros ou pontos significativos na periferia seriam focos “cosmizados” que estariam estabelecendo contato com o ponto médio, rompendo assim com o movimento homogêneo e reiterativo da Roda. Por este caminho o sábio perfeito, segundo o taoismo, poderia acessar o “ponto central da Roda”, em comunhão com o princípio, em absoluto repouso, imitando “sua ação não atuante”[3].

Continua…

Autor: Federico González
Tradução: S. K. Jerez

Notas

[1] – Ambas derivam da palavra latina radius.

[2] – Este raio é chamado buddhi na tradição hindu e corresponde à inteligência, ou intuição direta.

[3] – O alquimista, matemático e cabalista John Dee, astrólogo da rainha Isabel I da Inglaterra, cujos instrumentos mágicos (espelho, pantáculos, bola de cristal) se conservam expostos no Museu Britânico, escreve no Teorema II de seu Mônada Hieroglífica: “É pois pela virtude do ponto e da mônada que as coisas começaram a ser desde o princípio. E todas as que são afetadas na periferia, por grandes que elas sejam, não podem, de nenhuma maneira, existir sem a ajuda do ponto central”.

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Simbolismo e Cosmogonia – Parte I

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A Cosmogonia Perene 

A cosmogonia é uma ciência cultivada por todos os povos arcaicos e tradicionais e se refere ao conhecimento do homem (pequeno cosmos) e do universo (homem grande). Repete-se de modo unânime e de maneira perene ao longo do tempo (história) e do espaço (geografia), descrevendo uma única realidade, a do cosmos. Esta realidade, por outro lado, é a mesma que nós, os contemporâneos, vivemos e habitamos, pois é essencialmente imutável apesar das mutantes formas em que pode ser expressa ou apreendida, já que se mantém perenemente viva.

Esta ciência é praticamente desconhecida para o ser humano atual, que é produto do racionalismo, do positivismo, do materialismo e da técnica. Foi, no entanto, a estrutura básica, primária, sobre a qual tanto os povos primitivos como as grandes civilizações da antiguidade como, por exemplo, os egípcios, fundaram suas crenças, e a ferramenta com a qual construíram sua vida e cultura, que no caso desse exemplo durou três mil anos; o mesmo poderia ser dito do império chinês, ou melhor, da Tradição extremo–oriental. Esta  ciência, na verdade, é o denominador comum de todas as tradições conhecidas, quer se encontrem vivas ou aparentemente mortas.

O modo normal pelo qual essa Cosmogonia, Universal e Perene, se expressa, é o símbolo, ou um conjunto de símbolos em ação, constituindo códigos e estruturas que se conjugam permanentemente entre si, manifestando e veiculando a realidade, ou seja, toda a possibilidade do discurso universal, que se faz audível e compreensível por seu intermédio. O símbolo é, portanto, a tradução inteligível de uma realidade cosmogônica e, ao mesmo tempo, essa realidade em si, ao nível em que ela se expressa[1].

Para o caso da cosmogonia nos interessam particularmente os símbolos numéricos e geométricos, que, como se sabe, mantém uma perfeita correspondência entre si. Constituem módulos paradigmáticos, presentes em todas as culturas, já que formam a estrutura de qualquer construção, neste caso, da Construção Universal. Não obstante, trataremos aqui não só dos números e figuras geométricas e do simbolismo construtivo em geral, mas, em particular, do símbolo da roda. É importante ressaltar que aquilo que a simbólica manifesta dentro de si, no mais profundo de sua intimidade, não é senão a totalidade do cosmos, atual e constante. Ela própria, a Cosmogonia Perene e Universal – e não só a ciência que trata dela – que é válida para todo tempo e lugar na dimensão do humano, não é nada mais que um símbolo de algo muito  mais amplo que a transcende, já que pode ser concebida e explicada como uma modalidade arquetípica do Ser Universal.

ROD1Roda da Fortuna – Miniatura. Século XII. Arte alsaciana

Pode-se pensar, equivocadamente, que as estruturas simbólicas são meras convenções utilizadas para descrever a realidade. Isso só seria válido na medida em que se aplicasse igualmente a qualquer manifestação, que é sempre uma determinação, uma fixação, começando pela linguagem, pelo verbo. Porém, é óbvio que não há maneira de apreender a realidade senão é por meio do símbolo (linguístico, numérico, geométrico, etc.) e dos códigos que este forma.

O símbolo não é arbitrário, e reflete autenticamente o que expressa, requisito sem o qual seria impossível qualquer relação ou comunicação. Deve-se ter em mente que, por tomar uma forma, constitui uma estrutura na torrente do não-enunciado, na vida larval e caótica do vir a ser. Os antigos conheciam sobejamente esta verdade, e daí o valor criativo que atribuíam à palavra. Ou seja: o sujeito participa de qualquer fato objetivo e portanto o gera; a história de seus ciclos também testemunha esta inter-relação constante. No entanto, a irrealidade do mundo – e do homem – só pode ser observada porque existe, e deve ser, nesse caso, sujeito e objeto de alguma revelação. Os símbolos, como os conceitos ou os seres, são imprescindíveis no plano do Universo, e alguns códigos como o aritmético ou o geométrico, entre outros, não são convenções casuais, mas expressam realidades arquetípicas e formam a base de qualquer estrutura, não só no “exterior” mas também no “interior”. A ponto que de se poder dizer que estas imagens constituem categorias próprias do pensamento, e fazem do homem um autêntico intermediário entre o conhecido e o desconhecido, ou seja: o maior dos símbolos, capaz de unificar por sua mediação a multidão do disperso.

Continua…

Autor: Federico González
Tradução: S. K. Jerez

Fonte: Hermetismo y Masoneria

Notas

[1] – Ver René Guénon: Símbolos Fundamentales de la Ciencia Sagrada, Eudeba, Buenos Aires 1988.

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