Corda com nós, laços de amor, borlas com franjas e a orla dentada: decoração ou símbolo?

A corda de 81 nós - Freemason.pt

Em alguns painéis de graus simbólicos do Rito Escocês Antigo e Aceito, bem como no Rito Francês e Rito Moderno, há uma corda com nós que termina em borlas com franjas, que, às vezes, estão também localizadas nas paredes do interior da loja.

Esta corda com nós, em francês é chamada de “houppe dentelée” que, em uma tradução literal para o português, não é uma corda com nós, mas sim “borla dentada”.

Borla dentada??? Isso mesmo, não é corda, não é orla dentada, não é borla com franjas, é uma borla dentada?

Será que tal confusão surgiu de um erro de tradução de alguma antiga Divulgação?

Reproduzimos aqui uma obra do pesquisador belga, Jean Van Win, que, com base no simbolismo heráldico, apresenta uma explicação muito possível.

A leitura do trabalho abaixo, deve ser feita, levando-se em conta que seu escritor é um maçom europeu, que tem uma visão diferente, de nós brasileiros, sobre decoração interna da loja e seus símbolos, o que poderá ser notado em uma crítica feita neste texto.

Será também possível observar que, de um símbolo (corda com nós), acabaram surgindo outros (orla dentada e borla com franjas), que atualmente estão presentes na maioria das lojas brasileiras e fazem parte de instruções de graus simbólicos, mas nem sempre foi assim.


Desde que entrei na Ordem Maçônica, sempre me intriguei com um dos símbolos mais familiares: o “houppe dentelée” (a corda com nós).

Como todo Maçom, eu li as descrições imaginativas de Boucher, Plantagenet, Bayard, bem como Wirth, agora atualizado por Mainguy.

É assim, que uma primeira explicação de inspiração operativa, consistia em ver naquela corda, a “corda de nós” dos construtores de catedrais, instrumentos que permitiam que os Mestres de Obra, marcassem uma distância e utilizassem estas proporções sem recorrer a matemática ou geometria.

Na prática, tal utilização realmente permite fazer um ângulo reto com uma simples corda com nós.

Mas, se a intenção fosse reproduzir a ferramenta desses gênios analfabetos de mãos calosas, não seriam utilizados nós bem apertados, em vez dos suaves laços do amor e suas borlas com franjas?

Eu não fiquei convencido com essa interpretação.

Tampouco me convencem estas explicações vagas sobre “o símbolo do infinito” ou a do “número oito deitado” que alguns acreditam, como laços de amor. Muito menos a necessidade de traçar três laços de amor no grau de aprendiz, e nos outros graus de acordo com a idade do maçom naquele grau.

Há outra vertente que nega veemente essa necessidade e que dita que os laços devam ser doze, em homenagem ao zodíaco, que tem doze signos e até mesmo em memória aos doze apóstolos … uma iconografia abundante tão incoerente que a diversidade de teorias que pretendem explicar, mostra apenas a infinita capacidade imaginativa de nossos irmãos.

Finalmente, eu me pergunto qual seria o problema se o universo místico tão querido por muitos de nós, fosse abandonado e o símbolo fosse visualizado a partir de um ângulo puramente histórico e baseado em fatos.

De onde vem? O que este símbolo expressa?

Se trata de uma corda com uma série de nós, de dois a pelo menos doze, (no Brasil utilizamos até 81 nós) terminada em cada extremidade por uma borla.

Na Bélgica, uma borla é descrita como uma “franja”, como a que decora os chapéus da polícia e dos soldados antes da guerra de 1940, onde cada regimento utilizava sua cor.

Na Maçonaria, esta corda delimita os lados norte, leste e sul dos painéis das lojas francesas, pois os ingleses ignoram essa corda, que foi espalhada, a partir da França, pelos painéis utilizados em toda a Europa.

A borla (houppe no século 18) é então o fim da corda e não a corda na sua totalidade.

Ela foi considerada como um todo, mas a “borla” francesa, na sua origem era totalmente equivalente a “franja” belga!

Mas, porque na Maçonaria francesa essa borla é chamada de “dentada”?

Em um dicionário encontramos a seguinte definição:

“Dentada: Tecido ornamentado com desenhos, que normalmente apresenta uma borda irregular.”

O que não esclareceu nada.

O que tem a ver essas decorações dentadas em um painel de loja, mesmo que acompanhem uma borla?

Vamos mais longe.

“Dentada: que apresenta pontas e buracos. Vide lâmina dentada.”

O que tem a ver com nossos painéis, que são conhecidos por representar o Templo de Salomão, algo dentado com franjas, pontas e buracos?

Em francês, não tem um significado preciso e não tem a menor relação com a construção.

Então, onde surgiu a primeira aparição da expressão “houppe dentelée” (borla dentada) e qual poderia ter sido o seu significado original?

Provavelmente surgiu através do famoso Louis Travenol (chamado de Leonard Gabanon) que, em 1744, publicou pela primeira vez na França uma representação da loja, contida em uma divulgação intitulada “Le Catechism des Francs-Maçons”. Três outras divulgações a precederam: “La Réception d’un Fre maçon” em 1735, “La Reception Mysterieuse” de 1738 e “Le Secret des Francs-Maçons” em 1742.

Aqui reproduzimos o primeiro painel de loja onde aparece uma corda e a referência a uma borla dentada:

Como sempre, para investigar os mistérios das fontes francesas da Maçonaria, voltemos às primeiras práticas maçônicas inglesas que foram expandidas em Paris, a fim de encontrar, eventualmente, uma versão intacta de uma prática mal compreendida ou mal traduzida entre nós.

E este é o caso agora!

Em 1742, o abade Pérau publicou “Le Secret des Franc Maçons”, com base no texto em inglês de uma divulgação famosa e importante: “Maçonaria Dissecada”, publicada na Inglaterra em 1730 por Samuel Prichard.

Mas o conhecimento linguístico do bom abade era muito limitado e suas traduções, aproximativas.

Por exemplo, a partir de sua caneta, saiu isso:

  • Mosaic Pavement (Pavimento Mosaico) tornou-se “Palácio Mosaico”.
  • Blazing Star (Estrela Flamejante) passou a ser “Baldaquino cheio de estrelas”.
  • Intended Tarsel tornou-se “Borla Dentada”.

Tarsel é uma palavra que não existe em dicionários contemporâneos. O erro de Pérau vem, talvez, de uma leitura errônea e da confusão cometida com a palavra tassel, que significa borla e taselled é adornado com borlas.

Vamos ver o que o texto original (em inglês) de Prichard diz em 1730:

  • Q : Have you any furniture in your lodge ?
  • A : Yes.
  • Q : What is it ?
  • A : Mosaic pavement, Blazing Star and Indented Tarsel.
  • Q : What are they ?
  • A : Mosaic Pavement, the ground Floor of the Lodge; Blazing Star, the Center; Indented Tarsel, the Border round about it.

Assim, o pavimento em mosaico constituía o piso da loja; a estrela flamejante é o centro; o “Intended Tarsel” seria a borda “ao seu redor”.

Como se sabe, as bordas dos painéis das lojas inglesas sempre tiveram um friso composto por triângulos alternados em preto e branco ou em quadrados preto e branco dispostos diagonalmente, como se fossem dentes, ou seja, “dentados”.

Os painéis de lojas francesas da mesma época, que adotaram esse uso inglês, são extremamente raros.

Atualmente, pode-se observar uma sobrevivência inalterada no tapete das lojas francesas do Rito Escocês Retificado, que preservaram seus usos intactos desde 1778.

Os franceses, provavelmente desde Pérau, chamam indevidamente de “La Houppe dentellee” (a borla dentada) a representação de uma corda com muitos nós, terminada em duas “franjas” ou duas borlas com franjas!

Numerosas divulgações posteriores, gravuras e rituais, assumem a mesma expressão que, apesar da falta de lógica e sua absoluta incorreção, constituirá com o passar do tempo, um uso estabelecido, que já é batizado como “tradição”.

Este não é um caso isolado, podemos citar o ato de tirar as luvas brancas para formar a cadeia de união, o que é, na minha opinião, outro desvio ocultista sustentado por muitos racionalistas!

Por que os primeiros maçons franceses substituíram a “borda serrilhada” das pinturas inglesas por uma corda que foi batizada como “borla dentada” da maneira mais estranha?

Na França, em 1744, a “houppe dentelee” constituiu um ornamento presente nos painéis da loja, se comparado aos painéis ingleses contemporâneos. Os ingleses ignoram a borla atual como sempre fizeram.

Inquestionavelmente, se trata de um dos elementos originários e constitutivos do “estilo” francês, do “espírito” ou da “especificidade” da França, bem como do hábito de manter o porte da espada na loja, o chapéu ou a imitação da fita ou cordão azul da Ordem do Espírito Santo, usos comuns na boa sociedade que frequentava os salões.

No entanto, uma pista aparece com o famoso Luis Travenol, alias Leonard Gabanon, que na segunda de suas divulgações, publicou em 1747: “La Desolation des Entepreneurs Modernos du Templo de Jerusalem” (A expulsão de comerciantes modernos do Templo de Jerusalém), descrevendo o “houppe” como “uma espécie de Corda de Viúva que envolve todo o desenho”.

É surpreendente que Travenol seja o único autor francês da época que considerou esta explicação de uma característica heráldica.

Esta interessante descrição coincide cronologicamente com outra expressão que aparece nos rituais de 1745 em relação ao recente grau de Mestre Maçom (1725, Londres) e qualifica os Maçons como “Filhos da Viúva” por referência a Hiram, pois a Bíblia nos diz (1 Reis 7:14) que ele era “filho de uma mulher viúva, da tribo de Naftali, e fora seu pai um homem de Tiro”.

Este ornamento, que aparece em numerosas lápides, mas também acompanha certas armaduras civis ou eclesiásticas, encoraja-nos a entrar em um domínio cheio de simbolismo: a arte heráldica. E essa invasão nos dará, com grande simplicidade, a chave para esse pequeno problema.

Decoração que em heráldica denota uma Viúva

Em seu notável “Dictionaire Héraldique”, que apareceu em 1974, Georges de Crayencour descreve dois tipos de brasões que nos ilustraram:

O primeiro é o das viúvas e nos diz:

“As viúvas têm dois brasões: um de armas de seu marido e um seu; as duas coladas (muito próximas) e cercadas, a partir do século XVI, em uma corda entrelaçada ou com um cordão de seda trançado, em prata e areia… (prata e preto). A corda tem nós em intervalos em uma espécie de laços de amor… Se distingue pela presença de três nós apertados, postos um no centro e dois nos flancos …”.

Aqui está uma primeira explicação considerada da arte heráldica.

Existe uma segunda, proveniente da mesma fonte, mas ainda mais surpreendente, uma vez que se refere, não mais a arte heráldica para as viúvas, mas refere-se à igreja, como também de ambos os sexos.

A correspondência entre os laços de amor de príncipes e princesas da Igreja e os maçons, é muito sugestiva e ainda hoje pode ser visto nos frontões (fachada) de muitas abadias e palácios episcopais, sobre as lápides, inúmeras nas igrejas barrocas das Ilhas de Malta e Gozo, onde podem ser vistos em composições de mármore multicoloridos, assim como em diversos outros lugares.

Georges de Crayencour nos ensina que

“o chapéu com o escudo e seu cordão com nós (ou laços) e acabados com borlas dispostas em um triângulo que o cercam…. Sobre o significado dos nós e borlas, as opiniões são compartilhadas.”

Não precisamos dizer que isso foi compartilhado fraternalmente entre os nobres e os maçons!

Brasões de uma Viúva, de um Bispo e de um Abade

Atualmente, a maioria dos painéis de loja da Europa continental, deriva da maçonaria francesa, e têm uma “borla dentada”. Será que esse ornamento é apenas estético? Será que ele terá algum outro significado que foi perdido?

Será o resultado de um simples erro de tradução, muito bizarro, apesar da frequência de utilização na maçonaria francesa?

Essa bela borla veio da simples fantasia de um artista maçônico que queria “ser legal”?

Seria um caso único na iconografia maçônica, que faria uma referência de modo geral a algum significado oculto decifrado por poucos?

Uma lamentável prática, na minha opinião, é que certas oficinas localizam a corda na parte superior das paredes norte e sul da loja (que se tornou um templo!) sob o teto.

Isso é mais que lamentável se também estiver associado a um conjunto zodiacal, para mim totalmente incongruente e que é dito ser “operativo”. Isso mostra bem até que ponto uma “tradição” pode ser evolutiva … Essa composição simboliza – eles dizem – a união universal dos maçons!

Veja como uma pobre viúva poderia fazer uma prolífica descendência, graças à imaginação de seus “filhos”.

A confusão entre a fina borla dentada heráldica e a espessa corda de nós dos construtores está, com todas as evidências, em sua máxima expressão.

Essa corda com nós é outra coisa e podemos demonstrar a construção de um ângulo reto, graças a uma simples corda de doze nós, usando o quadrado da hipotenusa com 3, 4 e 5 nós, mas esse instrumento operativo nada, absolutamente nada, tem a ver com o debate sobre a borla!

Voltando ao assunto: disposta sobre o painel da loja, formando originalmente dois laços de amor, que se amaram ao ponto de terem sido convertidos para doze, o que poderia simbolizar os elegantes entrelaçados aos olhos meditativos de nossos irmãos contemporâneos?

Pode se ver muito mais do que um simples ornamento heráldico, que, por outro lado, nunca esteve na Maçonaria.

E nessa última hipótese, seria o único elemento que não teria nenhuma função estética, o que constituiria um caso incomparável entre os elementos constitutivos do painel da loja.

Mas então, tal interpretação seria inviável e, na minha opinião, deveria ser rejeitada.

A escolha deliberada deste cordão lembra ao Maçom que o painel da loja sintetiza, assim como um brasão, um conjunto de elementos simbólicos quanto ao grau praticado. No entanto, um elemento maior em relação ao grau de Mestre já está presente no painel do grau do Aprendiz.

Na verdade, tal antecipação é talvez o caso de passar de um grau inicial a outro, onde não será explicado o que se encontra no germe desse grau. Por exemplo, no século XVIII, o painel da loja do Rito Francês do grau de aprendiz já contém uma estrela flamejante, mas isso não é explicado.

E quanto à “corda da viúva”, ela lembra ao Mestre Maçom, que Hiram vive eternamente em todos nós, todos somos “filhos da Viúva”.

Isso foi imediatamente perceptível em uma sociedade de classe, como a do século 18, onde a heráldica é amplamente disseminada e familiar para todos e serve como meio de identificação; que a arte era comumente praticada de forma banal com os sentidos de identificação que todos conheciam.

Os símbolos são autofalantes, mesmo que sua linguagem pareça ter um duplo sentido que precisa de criptografia; o sentido, no entanto, se perde quando a sociedade evolui e sua composição sociológica se modifica, como ocorreu com a democratização e o estabelecimento do Império.

Os maçons dos séculos XIX, XX e XXI estão cada vez menos familiarizados com a arte heráldica, exceto talvez na Alemanha, Espanha, Áustria ou Suíça, onde permanece vivaz e popular. Não há município ou cidade nestes países que não exibam orgulhosamente os seus brasões.

A minha interpretação do “Cordão da Viúva”, me parece mais enriquecedora no plano simbólico do que as dissertações “esotéricas” sobre os temas de universalidade, do número oito deitado (sic!), do infinito, do zodíaco, dos pedreiros medievais “que conservaram os segredos que vieram das pirâmides” (sic), dos filhos de Isis, dos druidas e isso sem contar os templários, os rosa-cruzes e os alquimistas!

Esta conclusão, obviamente que não é a verdade. Se assim fosse, deixaríamos o marco de uma filosofia interpretativa para entrar na ciência do emblemático, da alegoria, do símbolo, do pensamento único.

Onde estaria o prazer da descoberta e, acima de tudo, o que é ainda mais emocionante, o prazer da investigação, ou essa verdadeira “caçada do sentido oculto”, tornando-se inevitável a dupla natureza do maçom?

“A cada uma de suas Verdades”, é dito em uma peça famosa. Aquela que Pôncio Pilatos responde do fundo de sua Judéia. “A Verdade, qual Verdade?”… antes de lavar as mãos, um gesto altamente simbólico!

Autor: Jean Van Win
Traduzido por: Luciano R. Rodrigues

Extraído de uma obra do Círculo de Estudios del Rito Francés Roëttiers de Montaleau

Fonte: O Prumo de Hiram

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Alquimia

Alquimia: conceito, origem e história - Toda Matéria

O filósofo, santo e cientista Alberto o Grande louvou 8 Virtudes nos Alquimistas: eles são discretos e silenciosos; moram bem longe dos homens; escolhem o tempo do seu trabalho; são pacientes, assíduos e perseverantes; executam segundo as regras herméticas a trituração a fixação, a destilação e a coagulação; trazem cadinhos, vasos de vidro e potes de louça bem iluminados. Mas há os que as degradaram a começar pela essencial: evitar pessoas de temperamento sórdido. Para alguns, a falta de rigor empírico, o flerte com a magia, a busca do poder mundano pela transmutação de vis metais em ouro fazem da Alquimia a história de uma quimera senão uma fraude. Para outros é o supremo dom divino, a arte de integrar o mundo natural ao espiritual pela reflexão, ação e criação de um coração puro.

Do Egito, à China, à Índia até o mundo islâmico e a cristandade, a epopeia mais fabulosa da história das ciências mescla romance, superstição, medicina, piedade, tecnologia, trapaça, tragédia, poesia, humor. Forjados na fé do deus três vezes grande Hermes de que o que está no alto está em baixo, o grande no pequeno, o dentro fora, o Um em Todos e Todos no Um, ora cortejando Sofia a Divina Sabedoria ora barganhando com o Demônio como Fausto, para cada imperador ou papa que baniu a alquimia há um imperador ou papa alquimista. Estimada por filósofos como Maimônides ou Tomás de Aquino, praticada por pais da ciência como Boyle e Newton, tão cobiçada quanto ridicularizada por suas panaceias, a Pedra Filosofal ou o Elixir da Vida, quem dirá que a alquimia não tocou a volátil quintessência do pó, do poder e da felicidade?

Há milênios comungamos fermentados como cerveja ou vinho em rituais familiares e religiosos com amigos, mortos e deuses, mas só dos alambiques alquimistas veio a prata e o ouro líquidos dos destilados. Ela inspirou Monteverdi se instilando na forja da mais espetacular das artes, a ópera, e foi o crisol do cinema: um alquimista árabe inventou a câmara escura e um francês pode ter fixado imagens fotográficas em 1750, cem anos antes de Daguerre. Paracelsus foi precursor da homeopatia e da alopatia. Buscando ouro na urina, um alquimista de Nuremberg descobriu o fósforo que queima em nossos palitos e queimou nas bombas que aniquilaram Nuremberg. Rutherford, um pai da física nuclear, se dizia um “alquimista moderno”. Jung viu nos laboratórios alquímicos os elementos de sua psicologia profunda. Paulo Coelho forjou o chumbo de sua “Lenda Pessoal” pregando a “Mão que Tudo Escreveu” e a transmutou em ouro literário e literal na aventura do seu Alquimista na qual uma massa de leitores viveu seu sonho de descobrir o tesouro secreto que sempre possuiu no deserto de suas vidas.

A física hoje persegue o enigma da integração do macromundo da relatividade geral e do microuniverso quântico, afirma a mutação da matéria pela observação, e a interconexão de fenômenos distantes como o voo de uma borboleta e um maremoto ou uma partícula no Sol, outra na Lua e outra na Terra, e dá a qualquer um a chave para transmutar chumbo em ouro, basta bombardeá-lo num acelerador de partículas a custos astronômicos em troca de quantidades microscópicas. Em nossos tempos de fé dogmática na ciência, de nostalgia delirante por uma medicina holística e de profecias transumanistas, terão os alquimistas desaparecido para sempre ou estão chegando?

Nesse episódio do excelente podcast O Estado da Arte, Marcelo Consentino tem a companhia de Ana Maria Alfonso-Goldfarb, professora de história da ciência da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; Márcia Ferraz, professora de história da ciência da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; e, Paulo Porto, professor do Instituto de Química da Universidade de São Paulo, para, fundamentados no conhecimento acadêmico, apresentarem a história da Alquimia: o que era, o que buscava, suas ideias, etc.

Ouvir o que os professores nos trazem é de vital importância para que os iniciados possam compreender o simbolismo da Câmara de Reflexões e o porquê da presença de alguns itens naquele espaço. Sem achismos, invencionices ou ideias pirotécnicas.

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A interpretação e significado dos símbolos maçônicos

El Observatorio Cuyano

Hermann Rorschach foi um psiquiatra suíço que viveu entre 1884 e 1922, e que ficou conhecido pelo seu trabalho sobre o significado psicológico de interpretações dadas a manchas de tinta, tendo desenvolvido para isso uma técnica que tomou seu nome: o teste de Rorschach. Este teste baseia-se na chamada “hipótese projetiva”, de acordo com a qual a pessoa a ser testada, ao procurar organizar uma informação ambígua (ou seja, sem um significado claro, como as pranchas do teste de Rorschach), projeta aspectos da sua própria personalidade. O intérprete (ou seja, o psicólogo que aplica o teste) teria assim a possibilidade de reconstruir os aspectos da personalidade que teriam levado às respostas dadas. Dito de outro modo: confrontado com um objeto sem um significado previamente estabelecido, o sujeito atribui-lhe uma conotação, uma semântica, um sentido que decorre, essencialmente, de si mesmo, não tendo que ser – e frequentemente não sendo – uniformes e invariáveis os significados atribuídos de um sujeito para outro.

Algo de semelhante sucede na maçonaria com os símbolos. Há símbolos a que se atribui significados convencionados – como o esquadro que, servindo para traçar ângulos retos, evoca a retidão de caráter – o que não impede que lhes sejam atribuídos outros significados. Outros símbolos traduzem uma maior diversidade de sentidos – como o G que a maçonaria regular coloca entre o esquadro e o compasso. Símbolos mais obscuros, menos frequentes e de menor universalidade, são por vezes encontrados num contexto maçônico, mas poderão ser  apenas perceptíveis e utilizados num determinado contexto cultural, no âmbito de certo rito, ou confinados a um perímetro geográfico específico. Contrariamente ao teste de Rorschach, todavia, o recurso à simbologia pela maçonaria não tem o fim de constituir qualquer análise psicológica ou psiquiátrica por um terceiro, mas apenas de cada um por si mesmo.

A simbologia maçônica – que tem como tema dominante a maçonaria operativa medieval, a que hoje chamaríamos arquitetura ou engenharia civil – tem o triplo propósito de estabelecer uma estrutura e um  contexto cultural para os arquétipos universais que identificam a maçonaria, uma forma sintética de comunicação de conceitos, e uma cultura de heterogeneidade e tolerância. Cada símbolo maçónico – normalmente coisas tão banais como uma pedra ou uma colher de pedreiro – evoca um ou mais significados que, no seu conjunto, constituem uma matriz semântica que dota a Ordem de um contexto cultural que, por sua vez, enquadra e dá corpo aos conceitos e princípios que a maçonaria pretende transmitir, propagar e perpetuar. Fica assim estabelecida, em torno dos símbolos, uma linguagem que, de forma sintética, permite a rápida e eficaz evocação, relacionamento e comunicação de conceitos, bastando por vezes uma simples palavra para transmitir um conceito complexo no seu contexto adequado. Por fim, ao não fazer corresponder de forma imposta, rígida e imutável os símbolos aos conceitos, a simbologia maçônica permite que cada maçom atinja as sua próprias respostas às importantes questões filosóficas que a vida coloca.

Contudo – e isto é a minha interpretação pessoal, que vale o que vale – a maior virtude do recurso à simbologia e à alegoria consiste no distanciamento que estabelece entre os princípios e a sua aplicação. Este distanciamento possibilita que a interiorização dos conceitos decorra da sua aplicação a um sujeito abstrato (e, mesmo, claramente do foro do mítico e do imaginário), e que só uma vez absorvida a sua essência e apercebidas as consequências da sua incorporação no edifício ético e moral individual – o que pode levar mais ou menos tempo, ou nunca suceder de todo – cada um aplique então a si mesmo o significado pessoal e personalizado que atribuiu ao símbolo, interiorizando-o e consolidando-o da forma que entende ser a que mais se adequa à sua própria realidade e, por fim – porque, em maçonaria, nada se ensina mas tudo se aprende – tire partido da lição que deu a si mesmo.

Autor: Paulo M.

Fonte: A Partir Pedra

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A liberdade na interpretação da simbologia maçônica

Параноидально-критический метод. Дали и Магритт как рационалисты

Magritte pintou, entre 1928 e 1929, um célebre quadro em que representa um cachimbo sob o qual escreveu “Ceci n’est pas une pipe.” ou, em português,  “Isto não é um cachimbo”. De facto, a pintura não é um cachimbo, mas a imagem de um cachimbo – e transmitir essa ideia era o intuito de Magritte. “O famoso cachimbo”, viria ele a confessar, 

“Quanto me censuraram por causa dele! E porém, alguém poderia encher o meu cachimbo? Não, pois é só uma representação, não é verdade? Por isso, tivesse eu escrito no meu quadro «Isto é um cachimbo», estaria a mentir.”

Um símbolo – do grego σύμβολον (sýmbolon) – pode ser um objeto, uma imagem, uma palavra, um som ou uma marca particular que represente algo diferente por associação, semelhança ou conceção. Deste modo, pode substituir-se um conceito complexo por um símbolo simples. O significante é evidente – constitui o símbolo em si mesmo; contudo, o seu significado pode ser obtuso, ou mesmo variável com o tempo, pois reside naquele que o descodifica, e cada um acaba por fazê-lo de forma pelo menos ligeiramente diferente dos demais. Por isto, é quase certo que, uma vez estabelecidos, os símbolos “adquiram vida própria”, alterando-se o seu significado com o passar do tempo. Por exemplo, a Estrela de David é um símbolo que começando por constituir – de acordo com a tradição judaica – uma marca aposta nos escudos com que os guerreiros do rei David se protegiam, adquiriu, a partir de certa altura, um caráter místico, passando a ser gravado como amuleto ou proteção, e acabando por ser adotada como símbolo do Estado de Israel.

Não pode falar-se de simbolismo maçónico sem citar a velha definição de maçonaria: “É um sistema de moral velado por alegorias e ilustrado por símbolos”. De facto, a maioria dos símbolos usados em maçonaria é evocativa dos princípios morais com que a maçonaria se identifica. O importante são os princípios; os símbolos são apenas os meios usados para que não os esqueçamos. E, uma vez que cada um recorda de forma diferente, e interioriza o princípio de forma única e pessoal – pois que único, individual e irrepetível é cada indivíduo e a sua experiência de vida – seria um exercício de futilidade tentar-se exigir que o significado dos símbolos fosse sempre o mesmo para todos. De facto, nem tal seria proveitoso.

Uma das frequentes utilizações dos símbolos é como oportunidade e meio de autoanálise – e também por isso se diz da maçonaria ser especulativa – que permita a cada um determinar as suas próprias “asperezas” no sentido de as “polir”. Sendo as “rugosidades do espírito” diferentes de pessoa para pessoa – apesar da universalidade dos princípios, que podem aplicar-se a todos – cada um vê, sente e aplica o princípio a si mesmo de forma distinta da de todos os demais. Cada um pode, então, especulando, dar ao símbolo os significados que entenda, pois o símbolo é meramente instrumental – não tem nada de sagrado ou de “conspurcável” com este processo – para além de que atribuir novos significados a um símbolo não implica a perda dos significados mais convencionais, pelo que o diálogo sobre os mesmos continua a ser possível.

Dou-vos um exemplo que se passou comigo. Diz-se das lojas maçónicas serem “Lojas de S. João”. Mas de qual? A resposta convencional é dizer-se que de dois: de João Batista – conhecido pela sua retidão e verticalidade, implacável consigo mesmo e com os outros, a ponto de fazer com que lhe cortassem a cabeça – e de João Evangelista – apóstolo do amor, cultor da fraternidade, e promotor da tolerância. Ambos se celebram por volta dos solstícios – João Evangelista no de Verão, João Batista no de Inverno. Isto são as premissas. Os princípios a transmitir são os que foram expostos: o da retidão e verticalidade de espírito por um lado, e o do amor fraterno pelo outro. Estes significados são mais ou menos universais na maçonaria. Há quem refira, ainda, que os raios de sol no solstício de Verão estão no seu ponto mais próximo da vertical, e no solstício de Inverno no seu ponto mais próximo da horizontal. Partindo desta pista, ávido de explorar estes símbolos e de fazer boa figura ao apresentar a respetiva prancha, o aprendiz que eu era então não se ficou por aqui; procurou especular mais ainda. Notou que João Batista – o da Verticalidade – era celebrado por entre uma Luz predominantemente horizontal, e que João Evangelista – o do amor fraterno entre pares – o era quando a Luz Solar era mais vertical. Conclusão? “Devemos ser equilibrados e equilibrantes: retos e justos quando à nossa volta todos falem de fraternidade e tolerância, e tolerantes e fraternos quando insistam na aplicação dos princípios de forma implacável.”

São um significado e uma conclusão com alguma lógica? São – pelo menos, do meu ponto de vista. É um significado universalmente reconhecido? Não. E está certo? Ou está errado? Bom… para mim, parece-me certo, na medida em que foi instrumental para que aplicasse a mim mesmo os princípios referidos de forma mais eficaz. Para outros não resultará. Os símbolos são isso mesmo: instrumentos, meios, meras ferramentas coadjuvantes na prossecução de um objetivo maior. Aqui posso dizer: se da “adulteração” do significado “puro” e “convencional” do símbolo resultou  a melhor aplicação do princípio à minha vida tornando-me numa pessoa melhor, então – porque a ninguém prejudica o meu entendimento peculiar deste símbolo – o exercício foi profícuo. Se, para além disso, a alguém aproveitou para além de mim, então dou-me por muito satisfeito…

Autor: Paulo M.

Fonte: A Partir Pedra

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O coração e o seu simbolismo esotérico

Simbolismo do Coração - Alquimia Operativa

Movimento fundado no século XVIII no espírito das luzes, mas na penumbra dos seus templos, a Maçonaria afirma, desde a sua criação, uma originalidade sem paralelo na procura espiritual e no seu modo de funcionamento. Enquanto ordem universal, filosófica e progressiva, foi e é um conservatório de tradições. Ela é rica em iconografia (selos, brasões, logotipos, cartas, diplomas, etc.). Quando se olha para a iconografia maçónica, não se pode ficar indiferente com o número importante de Lojas que adotaram emblemas com a imagem de um coração inflamado, como símbolo distintivo. Com este artigo pretende-se refletir sobre o simbolismo do coração na Maçonaria.

Introdução

De uma forma metafórica, entregamos o coração a uma pessoa que se ama, significando que lhe confiamos a vida. É também um símbolo corrente utilizado para representar o centro da atividade emocional, espiritual, moral ou intelectual. Mais amplamente, a palavra “coração” designa que se encontra ao centro. Para além da questão física (órgão muscular), na linguagem comum ele representa o amor, a generosidade, a franqueza, a coragem, etc. Os egípcios acreditavam que era no coração que se encontrava a essência do homem, e compreende a vida sobrenatural. Os hebreus faziam dele o lugar de todas as faculdades da alma e da sua inteligência, na sua expressão mais pura. Os índios da América viam no coração o santuário, no qual habitava o “grande espírito”, isto é, Deus. Num dos provérbios chineses, é dito que “o fundo do coração é mais longe do que o fim do mundo”. Para eles, é, portanto, o coração e não a cabeça que está na origem do pensamento. Nas religiões atuais, o coração reveste igualmente de uma grande importância. No judaísmo utiliza-se a expressão “falar com o seu coração” (Ouaknin, 2004). Os muçulmanos dizem o coração é o local onde a Divindade habita: “a minha terra e o meu céu não me contêm, mas eu estou contido no coração do meu fiel servidor”, declarou Alá pela boca do profeta (Dassa & Dassa, 2004). Na mística cristã do oriente, do século IV ao XVII, o coração assume um lugar fundamental (La CroixHaute, 2002; Losky, 2002, Schnetzler, 2002, Deseille, 2004, Rousse-Lacordère, 2007). Os teólogos Isaac de Nínive (morte no século VI d.C.) e Angelus Silésius (1624-1677) referiram que o coração não pertencia ao corpo, à alma ou ao espírito, mas que ele se situava a um nível superior que integrava a totalidade do ser (Khaitzine, 2001; Labouré, 2009).

Segundo Mollier (2014), a Maçonaria, enquanto ordem universal, filosófica e progressiva, foi e é um conservatório de tradições. Selos, cartas, diplomas, certificados, patentes, e a sua rica iconografia[1], podem ser, atualmente, curiosos(as), e anacrónicos(as), aos olhos dos usos do mundo profano (não iniciados). A sua utilização foi generalizada nas sociedades tradicionais. “Desde o século XVIII existe uma tradição heráldica maçónica”, sustenta Mollier (2014, p.131). Quando se olha para a iconografia maçónica, não se pode ficar indiferente com o número importante de Lojas[2] Maçónicas que adotaram emblemas com a imagem de um coração inflamado, como símbolo distintivo.

Com este artigo, que se pretende qualitativo e interpretativo, procuramos refletir sobre o coração e o seu simbolismo esotérico na tradição iniciática maçónica.

1 – A iconografia das Lojas em França

Quando olhamos para a iconografia[3] maçónica, não podemos ficar indiferentes e até mesmo surpreendidos com o número importante de Lojas, nomeadamente francesas, que no século XVIII e seguintes adotaram o emblema/brasão com a imagem de um coração inflamado, como símbolo distintivo. As figuras desses corações, muitas vezes colocados em duplicado ou triplicado, inscrevem-se diretamente numa longa tradição iconográfica cristã. A pesquisa efetuada em Portugal sobre emblemas com a representação do coração, das Respeitáveis Lojas portuguesas, de diversas Obediências (Grande Oriente Lusitano, Grande Loja Soberana de Portugal e Grande Loja Simbólica de Portugal), foi infrutífera. Destacamos, então, alguns exemplos das Lojas francesas:

A Loja “Le tendre accueil d’Angers” (fundada em 1779)[4] mostrava um coração inflamado numa estrela com seis ponta.

Une approche ésotérique du cœur
Figura 1: Brasão da Loja Maçónica Francesa “Le tendre accueil d’Angers”
Fonte: Laurant (2003)

A Loja “Les coeurs unis de Paris” (fundada em 1820) apresentava dois corações inflamados em cima de uma coluna (ou entre o esquadro e o compasso) (cf. Figuras 2 e 3).

Une approche ésotérique du cœur
Figuras 2 e 3: Brasão da Loja Maçónica Francesa “Les coeurs unis de Paris”
Fonte: Laurant (2003)

De sublinhar aqui uma pequena curiosidade: num leilão realizado em Cannes, em 2019, esteve à venda um medalhão (oval, que finaliza com uma mão, em latão dourado, do início do século XIX, com as dimensões de 5 cm x 4 cm, com o preço de licitação de 80/100 €) desta Loja (cf. Figura 4).

Figura 4: Medalhão da Loja Maçónica “Les coeurs unis de Paris”
Fonte: http://www.cannes-encheres.com (consultado em 26/01/2020)

A Loja “La parfaite unité des coeurs”, igualmente em Paris, dispunha de três pequenos corações num triângulo (esquadro e compasso) (cf. Figura 5).

Figura 5: Brasão da Loja Maçónica Francesa “La parfaite unité des coeurs”
Fonte: Laurant (2003)

A “L’ancienne cauchoise de Caudebec”, na Normandia, inscrevia os dois corações numa estela flamejante (resplandecente)

Esta Loja foi fundada em 1786, numa cidade onde o protestantismo ganhava terreno. Dotada de um Capítulo, a Union Cauchoise contava com oito eclesiásticos entre os doze fundadores. A Loja “Ardente Amitié”, a Oriente de Rouen, também adotou no seu emblema o coração (cf. Figura 6).

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Figura 6: Brasão da Loja Maçónica Francesa “Ardente Amitié”
Fonte: https://www.cgb.fr/franc-maconnerie-rouen-lardente-amitie-ttb,fjt_527704,a.html (consultado em
26/01/2021)

A Loja “Les coeurs sincères” seguiu semelhante caminho (cf. Figura 7).

Figura 7: Brasão da Loja Maçónica Francesa “Les coeurs sincères”
Fonte: Laurant (2003)

Também interessantes são os emblemas/brasões de duas Lojas de Avignon: “Les amis à l’épreuve”[5] e “Les amis sincères” mostram dois corações trespassados por um prego e outro com três corações inflamados, mas atravessados por uma flecha. Existe aqui também uma associação com o número 4, a forma chave que alimenta inúmeras especulações esotéricas nas marcas de algumas casas de impressão nos séculos XVI e XVII, assim como em diversos maçons (Subrini, 2012). Elas testemunham igualmente um enraizamento deste símbolo na cultura cristã nos meios intelectuais, onde floresce, nessa época, uma reflexão esotérica[6].

As Constituições do Grande Oriente de França (GODF) foram seladas por três corações unidos.

Encontrámos também a representação do coração, no caso particular trespassado por uma espada, na iconografia da III Ordem de Sabedoria do Rito Francês (cf. Figura 8).

Figura 8: Iconografia com a representação do coração, III Ordem de Sabedoria do Rito Francês
Fonte: Mainguy (2003)

Uma posição particular assume na figura do pelicano que bica o seu próprio peito para alimentar os seus filhos com o sangue (figura que se vê no Grau 18, do Rito Escocês Antigo e Aceito – REAA). Esta alegoria, ausente da Bíblia, estava, no entanto, omnipresente nos manuscritos medievais e conhecem um sucesso contínuo tanto na iconografia cristã, como na Maçonaria escocesa (REAA e Regime Escocês Retificado – RER). Pode-se também associar o coração não visível ao gesto do São João, o Apóstolo amado, com a cabeça no peito do seu mestre, como que à escuta de um segredo (Laurant, 2003).

LE PELICAN de Jean-Pierre - la Franc Maçonnerie au Coeur
Figura 9: Le Pelican

2 – O cristianismo latim: uma religião do coração
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Depois do fim da Idade Média, a experiência mística associava o tema da entrada no coração de Cristo a uma nova devoção, visando o acesso direto, pessoal, e sem a mediação sacerdotal, no absoluto divino. Depois da Reforma, o Jean Eudes (1601-1680), presbítero francês, canonizado pela Igreja católica em 1925, colocou as bases do que viria a tornar-se o culto do sagrado-coração e símbolo da “Reparação” da “grande transgressão” da Revolução Francesa para terminar, em 1956, com a elaboração teológica da Encíclica Haurietis Aqua Aquas (é uma encíclica de referência do Papa Pio XII sobre devoção ao Sagrado Coração, escrita em 15 de maio de 1956).

No coração admirável da sagrada mãe de Deus, Jean Eudes desenvolveu a figura dos corações associados a Maria e ao seu filho divino, imagem que é duplicada no plano da reincarnação entre os dois polos: celeste e terrestre, e depois articulada com a questão da alma. O coração espiritual de Maria é o coração de Jesus. Esta argumentação vai alimentar ricas especulações que ultrapassam o quadro teológico para integrar o campo esotérico através das noções como o “centro do plano divino”, o coração que ganha à cabeça e ao intelecto, ou às relações masculino e feminino.

Não nos vamos alongar aqui sobre a interpretação cardiocêntrica, mas podemos apontar Clemente de Alexandria (150 d.C.-215 d.C.), escritor, teólogo, nascido em Atenas, que estabeleceu nos Stromate V (o terceiro trabalho na trilogia de Clemente sobre a vida cristã) uma série de correspondências entre a função particular do coração na cultura grega, nas religiões e nos mistérios e na tradição judaico-cristã. Invocava que a primeira permitia o conhecimento de Deus que dá a vida eterna e a segunda evidenciava a relação com a iniciação aos mistérios pitagóricos. Para os pitagóricos, os números mantinham uma relação direta com a matéria, considerando o número 1 como um ponto, o 2 como uma reta, o 3 como uma superfície e o 4 como um sólido. As sequências dos pontos nas quatro fileiras formam a representação geométrica do quarto número triangular. Assumindo que 1 + 2 + 3 + 4 = 10, o número “dez” era visto como uma espécie de conjunto de 4 elementos (terra, ar, água, fogo), o “alicerce” das coisas do mundo[7]. Willermoz destaca que

Os números, por si próprios, não têm uma virtude particular. Eles são os signos representativos da natureza dos seres e das coisas. Eles são uma espécie de linguagem intelectual, mais específica do que a linguagem normal para exprimir e para tornar sensível à inteligência humana o valor das forças, das faculdades e das propriedades dos seres e das coisas, assim como a ação particular que cada classe dos seres espirituais é chamada a operar na ordem providencial ou sabedoria e a vontade que o Criador lhes colocou, e que poderá ser modificado pela mesma Vontade (Subrini, 2012, p.44).

De referir aqui que Roger Dachez, médico, historiador, presidente do Instituto Maçónico de França, referiu que no início da Maçonaria (1717) não havia nada de hermetismo nos rituais[8]. Só surge mais tarde no século XIX. Inicialmente havia a referência à água e ao fogo. O primeiro seria pregado por São João Baptista. O segundo seria a obra purificadora de Jesus Cristo. Mesmo o grau de Rosa-Cruz (grau 18.º do REAA, ritual datado de 1765) não fazia referência inicialmente aos 4 elementos. Isso foi acrescentado mais tarde, o que não deixa de ser “uma grande acrobacia”, referiu Dachez num testemunho que se pode encontrar num vídeo divulgado na Internet[9].

3 – Um outro século XIX

Numa mistura de várias correntes, e de várias especulações sobre o coração no centro divino do plano humano, surge num manuscrito maçónico, datado de 1812, destinado à instrução dos Irmãos, e que foi publicado na revista Renaissance Traditionnelle (criada por René Guilly, que fundou a Loja maçónica Du Devoir et la Raison, em 1955, Paris): “A geometria do maçom”, reenviando para os números do Santo Agostinho. As figuras apresentadas remetem para o coração, como verdadeiro suporte de meditação. Remete para referências escriturísticas (da sagrada escritura) e comentários teológicos. Fazem alusão ao puro amor e à oração cordial que podem ser revelados.

Na esteira teológica, é de referir o Martinismo, como via cardíaca. O Martinismo é uma via altamente iniciática que remonta ao século XVIII (Ambelain, 1946, 1948, 1985; Vivenza, 2012). Amadou (1946, 2011) considera que a palavra “martinista” abrange significados diversos. Em primeiro lugar, ele designa o sistema de teosofia constituído por Louis-Claude de Saint-Martin (1743-1803), iniciado na “L’Ordre des Chevaliers Maçons Elus Coëns de l’Univers” em 1768 (Vivenza, 2003). “Martinista” é, assim, aquela ou aquela que estuda este sistema e o coloca em prática. “Martinista” designa também a doutrina e o sistema de Martinès de Pasqually (1727-1774), que foi o mestre de Saint-Martin, na Ordem dos Elus Coëns (sacerdotes, na palavra hebraica) (Nahon, 2011; Caillet, 2011). Os martinistas são assim os Eleitos Coëns. O “martinismo” é ainda o Regime Escocês Retificado de Jean-Baptiste de Willermoz. Por fim, o “Martinismo” designa a Ordem Martinista de Gérard Encausse (1865-1916), médico, mais conhecido por Papus, na “Belle Époque”, e por Augustin Chaboseau (1868-1946), no século XIX. Estes homens e mulheres incarnam movimentos tradicionais, mas seguem a doutrina da Reintegração, que os liga à tradição judaico-cristã (Amadou, 2016).

Segundo Amadou (1946), as teorias de Martinès e de Saint-Martin eram as mesmas, mas uma profunda diferença separava as duas. A de Martinès procurava situar-se na Maçonaria superior e a de Saint-Martin dirigia-se aos profanos, isto é, aos não iniciados. A segunda afastava as práticas e as cerimónias, que para a primeira eram de uma importância capital. O Martinismo é “um ambiente, um estado de espírito, um ‘espírito’” (Amadou, 1946, p.15). Assim sendo, apelam a uma via interior que permite realizar a comunhão com Deus (seja ele qual for) a partir do coração do ser humano. Esta doutrina é considerada uma via cardíaca (designação de Papus), a via do amor que conduz ao abrasamento do coração do homem pelo Divino. “Nessa senda, não é a cabeça que devemos abrir, mas o coração”, afirma Saint-Martin nas suas obras. Segundo a tradição Martinista, o universo e o homem não estão mais no estado original, pois a harmonia que caracterizava a Criação nas suas origens foi rompida. Isso está patente na doutrina do RER, misturado com a parte mais visível da Estrita Observância (Templária), que Jean-Baptiste de Willermoz (1730-1824) fundiu.

4 – O coração e o conhecimento

É do nosso conhecimento que desde 1717, vários sistemas (ritos) surgem abordando diversas temáticas, e que são construídas a partir da dramaturgia de hiramita (Adonhiram, o arquiteto do templo do Rei Salomão), ou de assuntos da bíblia revisitados, de récitos cavaleirescos, de referências herméticas ou templárias. Nos rituais da Maçonaria a palavra “coração” surge imensas vezes. No caso da II Ordem do Rito Francês, é possível constatar várias alusões a ele. Eis alguns exemplos:

… pondo a mão direita sobre o coração, em sinal de fidelidade…
… Um coração puro…
… pela Aclamação (mão no coração)…
… O Gr∴ Exp∴ pega no punhal e coloca a sua ponta sobre o coração do recipiendário.
… Se tens ressentimentos fechados no teu coração contra os Irmãos, consentes em deixá-los
aqui?
… Ela necessita duma vontade permanente a fim de eliminar do teu coração, em cada
instante, todos os sentimentos de inimizade.
…. Tira as luvas, coloca a tua mão direita sobre a espada, e a mão esquerda, em compasso,
sobre o teu coração.
… O P∴M ∴ [Perfeito Mestre] passa a trolha frente ao coração do candidato, e diz… … pela Bateria da Segunda Ordem (3, 5, 7, 9), e pela Aclamação (mão no coração)
… Um coração puro, zeloso e amante da virtude e da verdade.

O coração puro é, na verdade, uma abstração e uma questão filosófica. Para Arnault (1996), o templo maçónico representa o coração humano (cf. Figura 10). Símbolo da construção maçónica por excelência, da paz profunda para que tendem todos os maçons, o coração puro remete para as questões da justiça e da vingança como no ritual da I Ordem das Ordens de Sabedoria.

Figura 10: Símbolos maçónicos, com o coração no centro

Outra questão a salientar é que o coração não é uma força duvidosa, nomeadamente na sua dimensão afetiva. Ele não trabalha contra a força da razão. O coração revela a faculdade de conhecimento, nomeadamente para as verdades da Segunda Ordem, ou seja, as verdades geométricas. A síntese desta Ordem consta do Grande Capítulo Geral[10] de 18 de dezembro de 1784. É o exemplo típico da fusão de vários graus operados, nomeadamente o Perfeito Mestre Inglês (cordeiro de ouro) e o Verdadeiro (ou Perfeito) Mestre Escocês, no século das Luzes. Na época chama-se “Écossais de la Voûte”. Completa a mestria depois do desaparecimento dos assassínios de Hiram, o mestre de construção do templo do Rei Salomão (esta personagem alegórica de Hiram Abiff constrói-se com a prática do III Grau, Mestre, que as Lojas de Londres vão adotar e adaptar progressivamente a partir de 1725, o que explica que o nome de Hiram não tem nenhum destaque alegórico nas Constituições de Anderson de 1723. Anderson tem em conta esta figura com o Grau de Mestre na versão de 1738. Aparentemente terá sido Samuel Prichard que, na “Masonary Dissected”, em 1730, faz alusão à morte de Hiram). É o coroamento do tema essencial desta Ordem, que é a purificação e o sacrifício, a descoberta do Delta e do tetragrama, símbolo da palavra do mestre. Todos os caminhos simbólicos levam ao coração. Não é por isso estranho que as interpretações se tenham cruzado ao mesmo ritmo que os homens e passou do campo da fé ao da especulação esotérica e o inverso.

Mainguy (2003) observa que a primeira parte da II Ordem do Rito Francês consiste nas purificações, fumigações, unções, manducações. Quanto à segunda parte da cerimónia, tudo leva a crer que é uma versão francesa de um Arco Real arcaico de origem britânica, mas tem dúvidas se inglês, irlandês ou escocês. Mainguy (2003) refere também que de escocês, esta Ordem apenas tem o nome. Independentemente da origem, o recipiendário encontrará referências familiares. Um judeu encontrará lembranças do Shabbat (é o dia de descanso do judaísmo, sábado), um cristão uma evocação de comunhão, um muçulmano as abluções rituais (ablução, do latim ablutio, “lavagem”, rito de purificação). De facto, o esoterismo é uma via espiritual que se apoia legitimamente em formas exteriores e interiores. Ele designa um padrão geral, que engloba variadíssimos movimentos religiosos e espirituais – diversas e até contraditórias “vias”.

Para Faivre (2019 [1992]), o termo “esoterismo” é usado para definir um “padrão de pensamento” que engloba diversos movimentos (vias) espirituais. Os elementos são encontrados aqui expurgados dos seus aspetos morais e dogmáticos. Mainguy (2003) cita um manuscrito dos Escoceses Perfeitos, referindo que este grau não pretende ser uma religião que não seja a natural, isto é, a de reconhecer primeiro um Ser Supremo (o conhecimento do Ser Supremo é difícil de demonstrar, a menos que falemos ao coração do neófito e que se evite, com cuidado, o dogmatismo), de amar e de socorrer os seus Irmãos nas suas necessidades. Este grau é muito próximo da versão inicial do 14.º grau do REAA. Os Eleitos Escocês são convidados a tomar consciência que eles estão ligados ao Universo e que o seu comportamento no quotidiano não pode deixar de ser de benevolência relativamente ao seu próximo, porque tudo é Um e o Um é tudo. E isso está no coração.

Bédarride (2013) realça que quando um homem consegue enraizar no seu coração o amor do Ideal maçónico, isto é a prossecução da mais alta cultura moral, a noção do prazer e da felicidade são completamente diferentes das que podemos conceber na vida profana e mundana.

5 – Conclusão

A Maçonaria é uma Ordem universal, progressista, filosófica e filantrópica. Ela procura o aperfeiçoamento moral e espiritual dos seus membros e a defesa da moral universal. Compreende um extenso acervo de sinais, toques, palavras, símbolos e elementos decorativos com riqueza alegórica. Quando se olha para a iconografia maçónica, notamos o número importante de Lojas que adotaram emblemas com a imagem de um coração inflamado, como símbolo distintivo.

O simbolismo do coração, enquanto significação espiritual e esotérica, assume um papel importante e convergente, enquanto ponte de união entre o Homem e a crença em Deus. Na tradição iniciática maçónica, o simbolismo do coração está presente, como vimos pelos brasões/logotipos das Lojas. Enquanto símbolo, ele pode ser interpretado de diferentes formas. A argumentação a seu respeito alimenta especulações, que ultrapassam o quadro teológico para integrar o campo esotérico.

Autor: Vitor Rosa

Fonte: Revista Ad Aeternum

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Notas

[1] – Iconografia é uma forma de linguagem visual que usa imagens para representar algum tema.

[2] – Loja maçónica (também designadas por Oficinas) é o local onde os maçons se reúnem periodicamente para trabalhar de forma ritualística.

[3] – Do grego “eykon” (imagem), e “grafia” (escrita), a iconografia é uma forma de linguagem visual que usa imagens para representar algum tema (Sanchez, 2016).

[4] – A Biblioteca Nacional de França (BnF) tem diversa documentação sobre esta Loja. Blanvillain (1985) refere que, em 1774, havia 22 membros. Outros autores datam de 1776 a sua fundação: https://www.hiram.be/journees-du-patrimoine-a-angers/ (consultado em 28/10/2020).

[5] – O Arquivo Departamental de Vaucluse tem vários documentos relativos a esta Loja. A Maçonaria terá surgido em Avignon em 1737 (Mesliand, 1969). Para Mesliand (1969), é preciso esperar até 1774 para se ter testemunhos seguros sobre a atividade maçónica nesta cidade.

[6] – Ao longo do século XVIII, os maçons franceses, como os seus homólogos ingleses, consideravam a crença em Deus como natural. Os britânicos só introduziram explicitamente a crença no Grande Arquiteto do Universo em 1813, a favor da união dos Antigos e dos Modernos, afastando-se da visão muito tolerante das Constituições de Anderson de 1723. Os franceses, quanto a eles, viveram felizes sem o GADLU até 1848, quando foi introduzido nas suas Constituições. Quando um vento de liberalismo sopra, convém dizer depois da Comuna de Paris, o pastor Frédéric Desmons consegue convencer os seus Irmãos, depois de várias tentativas falhadas, de suprimir das constituições do GODF a obrigação de crer na existência de Deus e a imortalidade da alma. E quando o GODF toma esta decisão histórica, a Grande Loja Unida da Inglaterra rompe as ligações diplomáticas com esta Maçonaria. E passa-se a falar de irregulares e regulares.

[7] – O número 4 encontra-se nos símbolos do grau do Mestre Perfeito, do REAA. O 4 é o primeiro dos números quadrados e o primeiro dos números perfeitos. É definido como perfeito para os Pitagóricos. E diz-se que é perfeito quando ele é igual à soma e ao produto dos seus fatores. O número 4 marca a estabilidade e a durabilidade da obra a levar a cabo. É o número da terra. Este número par, simboliza a solidez, a organização e a universalidade representadas nos 4 elementos da tradição ocidental, as quatro direções do espaço, os quatro pontos cardinais, à cruz de 4 pontas. Para o Pitagóricos, o 4 organiza a estrutura fundamental do cosmo. Nas famosas Les Leçons de Lyon aux Elus Cohen, Louis-Claude de Saint Martin, Jean-Jacques du Roy d’Hauterive e Jean-Baptiste de Willermoz durante dois anos (1774-1776) escreveram muito sobre os números, instruindo os seus irmãos (Amadou, 2011).

[8] – Para os historiadores dos graus e dos rituais, parece claro que, na história da Maçonaria francesa, que, de certa forma, impulsionou a Maçonaria europeia, há duas épocas: uma época que se pode qualificar de fundadora, onde se construiu, se inventou e se estruturou os graus dos diferentes sistemas que deram origem a rituais como os que conhecemos; e depois uma época, que podemos dizer de estabilização, ou de adaptação, onde finalmente há uma espécie de generosidade, de fecundação criadora do século XVIII. A bem dizer, não se inventou nada de novo, mas ensaiou-se de fazer viver o que tinha sido criado.

[9] – Cf. https://www.youtube.com/watch?v=uagBZzy19yk (consultado em 3/11/2020) e
https://www.youtube.com/watch?v=d5zTybiYL9o (consultado em 02/11/2020).

[10] – Em Maçonaria, os Capítulos são Lojas superiores ao grau de Mestre. São os designados “Altos Graus”, ou “Ordens de Sabedoria”. O Grande Capítulo Geral do GODF é a jurisdição suprema das Ordens de Sabedoria, depois do grau de Mestre. Administra a continuidade do Rito Francês. Ele é o depositário e o guardião da tradição maçónica deste Rito, nas suas diferentes codificações reconhecidas pelo GODF. Mantém esta tradição no seu espírito, pelo método de aperfeiçoamento intelectual, moral e filosófico praticado nos Soberanos Capítulos.

Referências

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O zodíaco surrealista de Johfra

Pin en johfra bosschart

O pintor holandês Johfra Bosschart criou entre 1974 e 1975 uma obra-prima do surrealismo: a série de doze quadros retratando os signos zodiacais, cuja representação revela um profundo conhecimento de mitologia, simbolismo e das tradições do hermetismo europeu.

Johannes Franciscus Gijsbertus van den Berg, ou mais simplesmente Johfra Bosschart, foi um artista plástico holandês nascido em 1919 e falecido em 1998, às vésperas de completar 79 anos. Em sessenta anos de trabalho profícuo, deixou uma obra única, que ele mesmo descreve como “surrealismo baseado em estudos de psicologia, religião, referências bíblicas, astrologia, antiguidade, magia, feitiçaria, mitologia e ocultismo”.

O momento de amadurecimento da produção artística de Johfra parece ter ocorrido por volta de 1962, quando, aos 44 anos, o pintor inicia seu segundo casamento e muda-se para a França, deixando para trás a Holanda natal. Nesta fase, o interesse em Astrologia e Mitologia tornar-se-á cada vez mais evidente, culminando com uma série de pinturas, produzidas entre 1974 e 1975, que retratam os doze signos num estilo semelhante ao das cartas de tarô: imagens complexas, sugestivas, com forte conteúdo simbólico e uso intencional da cor e das referências míticas para sintetizar cada um dos arquétipos zodiacais.

A maioria das análises das pinturas de Johfra privilegia a perspectiva espiritualista, vendo as doze telas sobre o zodíaco como expressões das etapas de um processo de iniciação e ascensão espiritual. Evidentemente, esta leitura não pode ser descartada, até mesmo em função dos vínculos do pintor com a Ordem Rosacruz (mais detalhes na análise da carta natal de Johfra). Por outro lado, o artista tinha suficiente conhecimento de Astrologia para inserir em cada tela elementos para a elaboração de um perfil psicológico do signo retratado. Esta é a linha de análise que adotamos neste artigo.

Áries

Áries - Johfra

A impetuosidade é a tônica desta tela, presente tanto no carneiro que investe de cabeça baixa quanto no guerreiro que carrega a tocha. A vitalidade dessa representação é reiterada pelos tons vermelhos da paisagem e pelos vulcões ativos ao fundo. Tudo parece em ebulição, numa imagem que evoca um tempo de começos ou recomeços, onde tudo ainda está por fazer. As montanhas distantes, assim como as próprias colunas metálicas que enquadram a composição, são ricas em ângulos, pontas, espinhos, lâminas, em consonância com a agressividade do signo e com a necessidade de estabelecer um vetor de força. A paisagem nua lembra despojamento. É tempo de atividade, o repouso ainda terá de esperar.

Muito discretas, outras três figuras completam o conjunto de imagens arianas: a salamandra, nas pedras em primeiro plano, e, ao fundo, o casal que representa a magia e a justiça. A salamandra é a personificação mítica do fogo, sendo-lhe atribuída, na tradição medieval, o poder de manipular este elemento e também o de transmutar as emoções. O mago de capa vermelha, no canto esquerdo do plano de fundo, reitera valores arianos, num nível distinto daqueles em que atuam o guerreiro e o carneiro: o mago é aquele que manipula energias para iniciar processos. Já a mulher de olhos vendados, que simboliza a justiça, expressa aqui a contraparte de Áries: Libra, seu signo oposto.

Touro

Touro

Das doze representações zodiacais, a que mais se assemelha a uma celebração da vida natural é exatamente esta. Em primeiro plano, um guerreiro em repouso abre mão das armas, enquanto crianças brincam com seu capacete; dominando o centro da imagem, uma mulher de formas voluptuosas apoia-se sobre o touro, símbolo de fartura. Temos aí a própria deusa Vênus numa representação de notável complexidade simbólica: a mão esquerda da deusa repousa sobre o dorso do animal, enquanto a direita sustenta uma lamparina cuja luz brilha na altura da cabeça. Temos aí ao mesmo tempo uma referência à sensualidade, ao contato prazeroso com a matéria (o Touro) e às escolhas determinadas pela razão (a lamparina simbolizando aqui a luz da consciência).

O touro é branco – cor de pureza e elevação – e ao fundo veem-se outras figuras que podem ser associadas a Vênus: as pombas, o anjo, o azul do céu. Os delicados tons de verde, marron e azul falam da harmonia entre o céu e os reinos vegetal e mineral. Todos os elementos dizem respeito à vida rural, evocando um mundo arcaico e pacífico. A moldura que cerca a composição é feita de cobre delicadamente decorado, em meio à vegetação. O cobre, que também constitui a matéria-prima da rosa em primeiro plano – é o metal venusiano por definição, maleável e sempre presente na confecção de artefatos decorativos. Aqui e ali vemos raízes de árvores e partes da folhagem – formas vivas, orgânicas e estáveis capazes de dar sustentação a todo o conjunto. Neste mundo calmo, a vida triunfa em todos os sentidos, garantindo a continuidade.

Gêmeos

Gêmeos Johfra

Em Gêmeos, todos os elementos são duplicados. Em primeiro plano, o macaco (animal regido por este signo) segura o globo terrestre, exprimindo curiosidade. O mesmo casal jovem que ocupa a parte central do quadro, empunhando o caduceu, reaparece mais acima, fundido numa figura andrógina. O caduceu, aliás, é considerado o emblema de Hermes (Mercúrio), sendo, portanto, um símbolo geminiano: trata-se de um bastão em torno do qual entrelaçam-se duas serpentes (duas – de novo a dualidade) e que é adornado com asas em sua parte superior (asas, lembrando o elemento Ar). A referência ao caduceu aparece duplicada ao fundo nas duas colunas, que sustentam o Sol e a Lua e em torna das quais dragões apoiados em nuvens enrodilham suas caudas.

No quadro de Johfra, todos os seres representados têm as mãos ocupadas, segurando algo ou apontando para algo. É a dimensão geminiana da habilidade manual e da comunicação. Outro detalhe digno de nota é que, dos doze signos, os únicos cujas representações não estão totalmente enquadradas dentro de uma moldura são Gêmeos e Sagitário. Trata-se de dois signos que expressam trocas e movimento, sendo portanto, avessos a qualquer tipo de limitação.

Câncer

Câncer Johfra

As tenazes do caranguejo e sua analogia com as mãos que guardam e protegem, eis a analogia visual que Johfra estabelece para o signo de Câncer. O caranguejo (ou lagosta) parece sair de dentro de uma grande concha: ostras são animais que também podem simbolizar este signo. Tal como o comportamento de Câncer, que esconde e protege alguns de seus melhores sentimentos, a ostra se reveste de uma carapaça dentro da qual se esconde a pérola. Mais ao fundo, na areia da praia, vemos algumas tartarugas, mais um exemplo de animal que se protege sob um grosso casco. As sugestões de coisa protegida e de esconderijos se espalham aqui e ali no quadro, repetindo-se na arca cheia de tesouros, quase enterrada na areia, e no castelo à beira-mar, que vislumbramos à direita. A própria moldura que enquadra a composição lembra madeira antiga, cheia de musgo e umidade, e guarda segredos em suas múltiplas reentrâncias. Johfra enfatiza aqui o lado feminino e aquático de Câncer, signo das águas protegidas, do lodo insondável e cheio de vida, e da mutabilidade emocional que tanto pode ser associada às marés quanto às fases da Lua, que paira na figura sobre as águas tranquilas de uma baía.

Leão

Leão Johfra

Johfra vai direto ao ponto ao representar Leão como um signo associado à ideia de centralidade e de poder. Ao contrário dos quadros que retratam outros signos, aqui a figura dominante – o Leão-Sol – está nitidamente destacada, sem qualquer diálogo ou contraponto. Tudo remete à energia solar, nobre, real e generosa. “Eis como todos os grandes líderes deveriam ser”, parece querer dizer o artista (ele próprio, aliás, nascido sob uma conjunção Netuno-Júpiter neste signo). As referências solares estão presentes por toda parte: na incrível luz dourada que cobre a tela inteira, nos girassóis, na altivez das palmeiras, no coração que, do alto, se sobrepõe ao próprio sol, num símbolo muito claro da prevalência da luz espiritual sobre a energia radiosa do sol. A luz que desce do coração, ao alto, se espalha pelo peito do leão celeste e se concentra fortemente na região do baço – a mesma área que os espiritualistas chamam de plexo solar, para daí irradiar-se para toda a paisagem. Abaixo, vemos um vale verdejantes e um rio de águas limpas, enquanto o castelo de torres altas domina a paisagem. Temos aí a imagem idealizada do poder civilizador de Leão, que agrega forças em torno da autoridade e impõe o domínio que permitirá o progresso de todos.

Virgem

Virgem Johfra

Ao fundo, tal como no quadro de Touro, vemos a paisagem verde, que lembra que Virgem também é um signo terráqueo. Contudo, ao contrário de Touro, aqui já se afirmam os elementos da civilização. Não é mais a natureza intocada, e sim o campo cultivado. Em primeiro plano, no canto inferior direito, estão livros e pergaminhos, como para lembrar que Virgem é um signo de cultura e repasse sistematizado da experiência.

Animais de diversa natureza se espalham pelo quadro, como numa síntese dos signos anteriores: ali estão o touro, o leão, o macaco, e ainda serpentes, coelhos, aves e anjos. Contudo, nenhum desses seres tem permissão para circular pelo ambiente humanizado: estão todos devidamente enquadrados na moldura da obra, uma das mais elaboradas e restritivas de todas que o artista pintou nesta série zodiacal. Ao criar uma moldura que inclui vegetais, animais, anjos e até mesmo nuvens, Johfra parece querer ressaltar um ponto essencial do arquétipo virginiano: o princípio utilitário que subordina todas as manifestações espontâneas a um rigoroso senso de ordem. A graciosa figura feminina ao centro, com o ramo de trigo na mão direita, é a vitória da civilização sobre as forças cegas do instinto. Em torno dela, o mundo se organiza, tudo ganha contorno claro e as forças da natureza e do céu se integram harmoniosamente para proporcionar progresso e bem-estar.

Um detalhe esclarecedor desta pintura: é a única, dentre as doze, onde o plano divino (a espiral de luz no alto) aparece visivelmente separado do plano humano. Isso não impede que a luz do céu chegue ao nível da Terra, mas deixa claro que o espaço de atuação da figura alada que representa o signo não é o mundo das abstrações e dos ideais, mas sim o dia a dia do trabalho.

Libra

Libra Johfra

Em absoluto contraste com Áries, a representação de Libra representa a vitória da razão sobre o instinto. Nenhum sinal de impetuosidade. Nada do vermelho sanguíneo e do vigor da tela ariana. O que vemos agora são figuras em pose hierática, em rigorosa simetria, num ambiente onde as referências à natureza – exceto pelas flores – foram quase totalmente substituídas por objetos criados pela capacidade humana.

O piso, em forma de tabuleiro de xadrez, expressa contraste: é o jogo do claro-escuro, do positivo-negativo, em torno do qual Libra vai construindo seu senso de valor e sua compreensão do mundo. No nível inferior, que parece servir de pórtico para outro, de natureza mais celestial, vemos duas esfinges em cores complementares. As esfinges submetem o homem ao desafio intelectual, exigindo maturidade para o alcance de níveis mais elevados. Se alcançá-lo, o homem se defrontará com valores cada vez mais abstratos, simbolizados pela balança que paira nas nuvens: os juízos éticos, morais e filosóficos que lhe permitirão distanciar-se da falta de clareza das questões humanas.

A pintura de Johfra destaca em especial a impessoalidade de Libra, assim como o caráter marcadamente mental deste signo. Basta observar que, das doze telas, apenas três apresentam uma figura central que não se apoia diretamente no chão: Leão, Aquário e Libra.

Johfra inseriu em todas as pinturas desta série símbolos oriundos das várias tradições herméticas conhecidas na Europa, que ele conhecia muito bem. Em nenhuma das telas, porém, essa tendência se manifesta de forma tão evidente quanto nesta, referente a Libra. Não vamos nos deter neste ponto, já que não é objetivo do presente artigo ir além da observação puramente astrológica. Cabe apenas dizer que é possível fazer da tela representativa de Libra ao menos outras duas leituras, uma com base na simbologia do tarô e outra de fundo rosacruz. Para os interessados nessas linhas, Johfra é sem dúvida um prato cheio.

Escorpião

Escorpião Johfra

Não é preciso muito esforço para perceber que esta imagem representativa de Escorpião nos lembra outra: exatamente a de Áries, que abre esta série. Escorpião também é um signo regido por Marte (e modernamente por Plutão), o que explica os tons vermelhos da pintura, a impressão de ressecamento, de calor e de agressividade. Tal como em Áries, as pontas cortantes aqui também estão presentes, mas com aparência ainda mais perigosa: por toda a paisagem, lá estão as lâminas recurvadas, como a cauda venenosa do escorpião. Tudo na cena sugere riscos e dificuldades. Não estamos diante de um espaço de repouso, mas sim de um campo de batalha.

Num nível psicológico, Escorpião simboliza o momento de máxima tensão emocional, em que o indivíduo é obrigado a confrontar-se com seus próprios monstros interiores. As alternativas são extremas: cair nos abismos pessoais mais profundos – representados na figura pelo lago de enxofre sobre o qual o escorpião se debruça – ou transmutar os aspectos mais sombrios da realidade emocional para emergir renovado, num processo de renascimento. Esse processo de resgate é simbolizado de várias formas: na pedra que o escorpião consegue recuperar do lago sulfuroso, na criança brincando com o crânio humano (uma imagem de morte e renascimento) e, principalmente, na figura de São Jorge – uma representação inequivocamente vinculada a Marte – matando o dragão.

A outra dimensão de Escorpião – a águia caçadora – também está presente, pairando sobre a paisagem árida onde vemos também um homem em processo de meditação. Tanto a águia quanto o asceta estão aqui para falar da paz que sobrevém após a vitória sobre si mesmo, meta última deste signo convulsionado.

Sagitário

Sagitário Johfra

Sagitário é o signo onde Johfra tinha o Sol e o Meio do Céu. Portanto, não é de estranhar que ele fosse especialmente sintonizado com o simbolismo jupteriano, que aqui aparece de maneira mais do que evidente. Em primeiro plano vemos a figura de um centauro arqueiro, que mira alguma coisa distante e elevada, fora de nosso alcance. A direção apontada pelo movimento da flecha converge para a trajetória do raio emitido pela figura divina que ocupa a porção superior: Zeus, ou um deus de natureza semelhante, entronizado e poderoso.

Mais abaixo, aos pés da pedra que serve de mirante para o centauro, vemos outra figura mítica ligada a Sagitário: o unicórnio branco, símbolo de pureza e sempre associado, nos tempos antigos e medievais, à virgindade. Talvez Johfra queira nos dizer que somente a pureza de princípios permitirá ao homem vivenciar a metade mais nobre do centauro, aquela capaz de abrir novos horizontes de conhecimento e estabelecer uma ponte de contato com o invisível.

Mais ao fundo, caminhando ao ar livre, mais uma figura sagitariana: o buscador que explora o mundo das formas (como peregrino ou viajante) ou o mundo das ideias (como filósofo) atrás de respostas para as grandes interrogações cósmicas.

Nenhuma das telas transmite, como esta, uma impressão tão forte de amplitude, liberdade e ausência de limites. Esta é a essência de Sagitário.

Capricórnio

Capricórnio

As rochas secas e pontiagudas, a paisagem destituída de qualquer vegetação, estão em ressonância com a figura humana sentada na entrada da caverna, portando a foice. Trata-se do ceifador, uma das representações mais comuns para a morte na cultura ocidental. Contudo, não é exatamente o fim da vida que esta foice representa, mas a distinção entre o que é essencial e acessório. Por isso, não há elementos decorativos na paisagem ressecada: tudo está reduzido ao estritamente essencial, à estrutura última, ao núcleo duro que resiste após o processo de destruição. “A sabedoria é minimalista”, é o que parece dizer Johfra através deste quadro.

A presença da cabra, nobre e orgulhosa no topo da elevação, fala do impulso capricorniano para a ascensão solitária. Aqui e ali, vemos adultos e crianças, que saúdam o líder e brincam entre serpentes e jacarés. O mundo de Capricórnio é feito de perigos e rudezas, mas é possível sobreviver, desde que não se perca tempo com as aparências. E, na cabra e no velho eremita, vemos as duas dimensões deste signo terráqueo: os representantes do poder material, que criam estruturas hierárquicas e se instalam nos postos de comando para garantir a sobrevivência do grupo, e o sábio experiente, que abre mão de qualquer glória mundana para alcançar a paz através da interiorização.

Lembrando que Capricórnio é, no hemisfério Norte, um signo invernal, observamos que o Sol está presente nesta imagem, mas de forma indireta, iluminando e aquecendo fracamente as figuras centrais. Temos aí o contraste: enquanto em Leão vemos o exercício do poder em tempos de abundância, em Capricórnio testemunhamos a administração da escassez, com a afirmação dos valores de economia, parcimônia e planejamento.

Aquário

Aquário

As águas – ou as ondas – do conhecimento vertidas generosamente sobre todos os homens: eis o que Johfra destaca no último dos signos do elemento Ar.

Em todos os quadros da série, o artista lançou mão de alguma forma de moldura ornamental que, além de contribuir para a composição, carrega também elementos simbólicos importantes, que contribuem para a compreensão do signo representado. Já vimos que apenas as telas de dois signos – Gêmeos e Sagitário – não contam com uma moldura que circunscreva totalmente a figura central. Em Aquário, essa moldura está presente, mas ela é feita do mesmo material que flui do cântaro do Aguadeiro: é uma substância fluida como vapor d’água, que interpenetra todos os espaços e se distribui igualmente por todos os elementos da composição. Aí percebemos uma das principais características aquarianas: aquilo que o signo irradia é para todos, sem distinção. É a força das ideias novas que cai como chuva, fecundando as consciências ávidas por mudança (as sete flores na parte inferior da figura) e produzindo o florescimento de concepções mais avançadas de organização social.

Como para lembrar que Aquário é o signo oposto e complementar a Leão, vemos aqui mais uma vez o Sol, desta vez humanizado numa aparência inteligente e benfazeja. Abaixo do Sol, e à esquerda do Aguadeiro, uma caveira serve de portal para o trânsito entre dois planos. A caveira nos lembra que Aquário também é regido por Saturno, como Capricórnio, e o viajante que acaba de cruzar o portal, no rumo da montanha iluminada, ao fundo, carrega elementos tanto do buscador sagitariano quanto do eremita capricorniano, vistos nas telas anteriores.

Peixes

Pisces

O que mais chama a atenção neste quadro é o contraste entre a figura máscula ao centro e a doçura com que protege os dois peixes, os quais, unidos pela boca, tentam nadar em direções divergentes. Talvez o que Johfra tenha tentado destacar nesta representação do signo de Peixes seja a possibilidade (e a necessidade) de chegar a uma síntese de todas as contradições através do caminho do afeto. Aqui a figura central, que talvez seja o próprio deus Netuno, não parece propor uma escolha entre os dois peixes, nem demonstra qualquer preferência. Apenas dá sustentação a ambos e envolve-os com um gesto circular, como se estivesse a indicar que os conflitos se resolvem através do movimento. Protegidos pelos braços que delimitam sem sufocar, os dois peixes logo poderão trocar de posição, e depois outra vez, num fluxo interminável.

Tudo nesta pintura, aliás, remete às noções de circularidade e movimento. A superação dos limites não ocorre aqui pela expansão de horizontes, como em Sagitário, mas pela fluência de conteúdos, que leva os polos complementares (os dois peixes) a uma progressiva fusão.

O lugar onde esta cena se passa é totalmente indeterminado: pode ser o fundo do mar ou um espaço onírico, mas certamente não faz parte da realidade conhecida. Das doze pinturas, esta é a única que não retrata qualquer artefato produzido pelo homem, ou que remeta a uma paisagem “civilizada”.

Autor: Fernando Fernandes

Fonte: Bibliot3ca Fernando Pessoa

Publicado originalmente em: Constelar

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As luvas brancas na Maçonaria

O Maçom e as luvas - Freemason.pt

As luvas brancas têm sido usadas pelos irmãos maçons como marca de distinção e pureza. Porém, percebe-se que a utilização desse símbolo está caindo em desuso entre os maçons.

No Ritual do Grau de Aprendiz Maçom da Grande Loja Maçônica de Minas Gerias em podemos ler:

Obedecendo a uma antiga tradição, ofereço-vos dois pares de luvas.

Uma é para vós; pela sua alvura vos recordará a candura que deve reinar no coração dos Maçons e, ao mesmo tempo, vos avisará de que nunca devereis manchar as vossas mãos nas impurezas do vício e do crime;

O outro será para oferecerdes àquela que mais estimardes e que mais direito tiver ao vosso respeito, a fim de que ela vos recorde constantemente os deveres que acabais de contrair para a Maçonaria …

Embora acolhendo os significados do texto acima -, atrela-se a realidade da homenagem “a virtude de uma mulher” que, mãe, esposa, irmã ou filha, que sempre de corações afetivos, trazem consolações e comodidades nas horas felizes da família, como nas atribulações e nos desfalecimentos da vida e de seu esposo. 

A luva branca que o iniciado recebe, revela por sua brancura, que nunca deveis manchá-las, incólumes as vossas mãos, das águas sujas do vício.

Registros dão conta de que: dos 2 (dois) pares de luvas, um será destinado ao uso pelo irmão em reuniões (específicas). Sendo o outro par entregue àquela que mais direito tiver a vossa estima e ao vosso afeto. Segundo Wirth:

“As luvas brancas, recebidas no dia de sua iniciação, evoca ao maçom a recordação de seus compromissos. A dama que lhes mostrará as luvas se tiver a ponto de fracassar, lhe aparecerá como sua consciência viva, como a guardião de sua honra. Que missão mais elevada poderia ele confiar à dama que mais ele ama?”

A Maçonaria tem as luvas brancas como o símbolo do amor e do carinho para com a mulher.

Conceitos antigos

Possivelmente, sua origem remonta ao século X. Uma crônica relata que, no ano 960, os monges do Monastério de São Albano, em Mogúncia, ofereciam um par de luvas ao bispo, em sua investidura. Na oração, que se pronunciava na cerimônia da investidura, implorava-se a Deus que vestisse, com pureza, as mãos de seu servente.

Na Idade Média, os dignitários eclesiásticos como o Papa, cardeais e bispos, usavam luvas para os atos litúrgicos.

A maçonaria chamada operativa, utilizava as luvas para proteger as mãos dos seus pedreiros nos campos de trabalhos ou construções. Ação que se distende até os dias de hoje – trazendo consigo um lema “Como representação simbólica de proteção das mãos contra as impurezas morais”.

Durandus de Mende (1237-1206 a. C) interpretava as luvas como símbolo de modéstia, já que as boas obras executadas com humildade devem ser mantidas em segredo. Na investidura dos reis da França, estes recebiam um par de luvas, tal como os bispos. As mãos ungidas e consagradas do rei, assim como as de um bispo, não deviam ter contato com coisas impuras. Depois da cerimônia, o Hospitalário queimava-as, para impedir que pudessem ser utilizadas para usos profanos.

No ano 1322, em Ely (cidade inglesa, onde se levanta uma grande catedral), o Sacristão comprou luvas para os maçons ocupados na “nova obra”; em 1456, no Colégio Eton, destaca-se que cinco pares de luvas foram entregues aos pedreiros que edificavam os muros, “como é obrigação por costume”.

Também, há um documento que precisa que, no Colégio Canterbury, em Oxford, o Mordomo anotou, em suas contas, que se deram vinte pence como “glove Money” (dinheiro de luva) a todos os maçons ocupados na reconstrução do Colégio”. Em 1423, em York (Inglaterra) dez pares de luvas foram subministrados aos pedreiros setters, com um custo total de dezoito pence. Também na Inglaterra, nas épocas isabelina e jacobina (1558-1625), as luvas tinham um prestígio difícil de compreender na atualidade. Tratava-se de um artigo de luxo, possuidor de muito simbolismo, e constituíam um presente apreciado. A luva significava, então, um profundo e recíproco vínculo entre quem a dava e quem a recebia.

Marco de uso na Maçonaria

As luvas lembram proteção –, no passado serviam para proteger as mãos contra o frio, o fogo, as impurezas e no trabalho.

Antigamente a nossa Ordem eram compostas por pedreiros “Maçons Operativos” que eram (Construtores de Catedrais, Castelos e Mausoléus etc.) que as transformava em belas peças de arquiteturas.

A construção destes eram traçados e planejados pelos maçons Operativos em reuniões e o resultado dos projetos definidos era mantido em sigilos.

No entanto, com advento da tecnologia, os maçons (antigos) foram paulatinamente integrados à Maçonaria especulativa passando o talhar da pedra vencida. Baliza que o Edifício que se constrói (hoje) é simbolicamente o Edifício (social, moral e ético), através do exemplo de ação, que simboliza o crescimento da humanidade, edificando conceitos de liberdade, igualdade e fraternidade, com o aprimoramento do caráter.

Na familiaridade com a mulher

O irmão Jaime Balbino, no seu trabalho diz:

“Que a mulher esposa tem por sua vez os direitos sustentados desde os dias do chamado PONTIFICADO ROMANO.”

Um provérbio persa diz: “Não firas a mulher nem com a pétala de uma rosa”.

A maçonaria reforça este aforismo ainda mais: Nunca firas a mulher com um lampejo de pensamento. Seja ela moça ou idosa, formosa ou feia, má ou bondosa, delicada ou áspera, sabe ser sempre o segredo do GADU∴.

Como usar a luva branca?

Não existe uma forma padronizada e recomendada pela Maçonaria. Porém, popularizou-se o costume de orientar a “Cunhada” a ter sempre consigo o seu par de luvas, pois em momentos de dificuldades, discretamente deixa a luva em exibição, não se preocupando com a configuração da apresentação.

Autor: José Amâncio de Lima

Amâncio é Mestre Instalado da ARLS Estrela de Davi II – 242 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Academia Mineira Maçônica de Letras, delegado da 1ª Inspetoria Litúrgica do REAA de Minas Gerais e, para nossa alegria, também um colaborador do blog.

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Referências

FIGUEIREDO, Joaquim Gervásio de. Dicionário de Maçonaria. 4ª edição. Editora Pensamento. São Paulo. Páginas 550.

GLMMG (BH). Ritual do Grau de Aprendiz Maçom. Página 136.

HOUAISS, Antônio. Koogan Larousse. Editora Larousse Brasil. Rio de Janeiro. Páginas 1635.

RAIMUNDO, (trabalho) Luvas Brancas para o Palácio em Power Point.

ZELDIS, León. (trabalho) – Publicado no Correio Filosófico [GOPB], Nº 56 maio 2013.

Os símbolos na Maçonaria: o ensinar e o aprender

ARTE REAL - TRABALHOS MAÇÔNICOS: SIMBOLOGIA MAÇÔNICA

É conhecido que a maçonaria recorre extensivamente a símbolos como forma de transmissão do conhecimento. É evidente que esses símbolos terão algum significado. O que, todavia, é menos evidente, é que não há significados universalmente aceitos ou impostos para os símbolos maçônicos. O que um interpreta de um modo, outro pode interpretar de modo diverso. Assim sendo, de que serve a simbologia na maçonaria? A que aproveita essa “plasticidade” nos significados dos símbolos? E como é que se pode usar os símbolos como meios de comunicação do seu significado subjacente, se esse significado pode variar de pessoa para pessoa?

Para o entendermos, temos que recuar no tempo. Bem antes da maçonaria especulativa ter surgido – o que sucedeu, oficialmente, em 1717 – já os maçons operativos se socorriam de símbolos para se recordarem dos ensinamentos que os seus mestres lhes haviam transmitido. De fato, muitos dos trabalhadores da pedra não sabiam ler nem escrever, pelo que se socorriam de pictogramas e representações de objetos para o efeito. Os símbolos não eram propriamente secretos; o seu significado – as técnicas a que os mesmos se referiam – é que era apenas revelado a alguns. A maçonaria especulativa veio a adotar esse método de transmissão de conhecimento. Assim, hoje como outrora, os símbolos são auxiliares de memória, instrumentos de suporte ao conhecimento, verdadeiras mnemónicas- diríamos hoje: são cábulas – que nos permitem recordar, evocar e especular.

Mas se o seu significado pode ser individualizado, como é que o conhecimento passa sem se perder, sem se desvanecer, sem se espraiar numa mar de semânticas? De forma muito simples: para tudo há um início, e o método consiste, precisamente, em dar a cada um os pontos de partida, sem estabelecer qualquer ponto de chegada… Assim, a um Aprendiz é, desde logo, ensinado o significado comum de vários símbolos: o esquadro, o prumo, o nível, o mosaico bicolor do chão dos templos, a pedra bruta, a pedra polida, entre outros. É das poucas ocasiões que, em maçonaria, alguma coisa é verdadeiramente ensinada, e mesmo aí os significados gerais são dados com parcimônia de explicações e de forma sucinta e concisa. A cada um é dito, então, que deverá procurar interpretar cada símbolo de forma pessoal, podendo quer aplicar o significado original, quer levá-lo até onde o deseje. E é esse o trabalho do Aprendiz: estudar os símbolos, construir um significado em torno dos mesmos, e aplicá-lo a si mesmo.

E como se mantém um denominador comum? Quando um maçom se refere ao prumo, os demais sabem que se refere à retidão moral, à integridade, à verticalidade de caráter – aquilo que ouviu quando, ainda Aprendiz, lhe “apresentaram” os símbolos. Contudo, mais tarde cada um irá interiorizar a seu jeito o que estas palavras significam. O que será sinal de caráter para um poderá ser duvidoso para outro; a nenhum, porém, é imposto qualquer significado universal. E porquê? Porque, se a maçonaria se destina a tornar cada homem num homem melhor, deve fazê-lo dentro do absoluto respeito pela sua liberdade. Por isso se diz que em maçonaria tudo se aprende e nada se ensina, no sentido de que cada um deve procurar os seus próprios ensinamentos sem esperar que lhos facultem. Cada um deverá poder procurar, no mais íntimo de si, o que quer fazer dos princípios que lhe são transmitidos: se quer segui-los ou ignorá-los, quais aqueles a que vai dar maior preponderância, e até onde vai levar esse ânimo de se superar. E é por tudo isto que, sendo essa luta de cada homem consigo mesmo algo de mais único do que uma impressão digital, a liberdade individual de interpretação se impõe sobre qualquer eventual tentativa de normalização do significado dos símbolos.

Autor: Paulo M.

Fonte: A Partir Pedra

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No dia 20 de março tivemos o equinócio de outono, marcando o início dessa estação. A data era largamente celebrada na Antiguidade: na Anatólia honra a Cibele; na Grécia e outras regiões eram realizados os mistérios de Elêusis em honra a Deméter e Perséfone; em Roma era comemorado o festival de Ceres, deusa dos grãos e da agricultura; na Escócia, o último feixe de grãos era ceifado de formas ritualísticas e amarrado em uma figura de palha que seria chamada de “Rainha da Colheita” e estaria repleta de poder fertilizador.

O outono é a estação que representa a maturidade, tanto da natureza quanto do Homem. Reflitamos sobre nossas atitudes durante o último ano; analisemos a nossa “colheita”, os frutos advindos dos caminhos pelos quais optamos por trilhar nesses 12 meses que se passaram. É o momento de pausa, reflexão. Nesse sentido, vale lembrarmos o que escreveu Plotino (205 – 270):

“Volta-te para dentro de ti e olha: se ainda não vês a beleza em ti, faze como o escultor de uma estátua, que deve tornar-se bela: ele, ora, tira um fragmento, ora aplica o cinzel, ora pule, ora limpa o pó, a fim de extrair um belo vulto do mármore. Como ele, tira o supérfluo, endireita o que está torto, clareia o que é fosco, até torná-lo brilhante, e não cesses de esculpir a tua própria estátua, até que a centelha divina da virtude se manifeste e vejas a temperança sentar-se num trono sagrado.” (Eneadas, I, 6, 9).

O movimento cíclico das estações, do dia, das horas e da programação da TV, não precisa se aplicar a nós. O livre-arbítrio, que nos foi dado pelo Grande Arquiteto do Universo, permite quebrar o paradigma do eterno retorno e não sermos escravos de erros que porventura tenhamos cometido. Equinócios e solstícios são marcos de mudança na natureza, e podemos enxergar essas datas como oportunidades, caso necessário, para mudarmos nossas atitudes.

Ser homens livres e de bons costumes é claro motivo de orgulho, porém, atentemo-nos para as forças que tentam nos transformar no que o filósofo árabe Al-Farabi (872 – 950) definiu como “servos por natureza”.

O que nos move é o juramento de trabalharmos para a felicidade da humanidade. É imperioso que quando todos são colocados à prova, nesses tempos em que a escuridão paira sobre nossa sociedade, lembremos que a luz da maçonaria, através da inteligência e capacidade de discernimento de seus membros, pode iluminar o caminho e impedir que o fundo do precipício seja o destino. Ainda dá tempo. Olhemos, nesse outono de 2021, para o resultado de nossas decisões, com prudência, equilíbrio e ponderação, características tão próprias da estação, e façamos escolhas que possam vir a premiar todos nós com exuberantes feixes de grãos na colheita de 2022.

Autor: Luiz Marcelo Viegas

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A corda de 81 nós – Parte 3

A corda de 81 nós - Freemason.pt

4 – A corda de 81 nós

Quando adentramos o templo, percebemos uma corda que circunda suas paredes, com nós ao longo do seu traçado, terminando em borlas, próximo à entrada. Muito se fala sobre os seus significados e origens dentro da maçonaria. Visível também dentro do painel da loja evidenciando a sua importância dentro da sociedade.

O Manual de Aprendiz Maçom, Instrução Grau 1, REAA, p.34, leciona:

Pendentes da corda de 81 Nós nos cantos da loja ou representadas nos quatros cantos do Pavimento Mosaico, vemos quatro BORLAS, colocadas nos pontos extremos da mesma para lembrar as quatro virtudes cardeais: TEMPERANÇA, JUSTIÇA, CORAGEM E PRUDÊNCIA, que -diz nossa tradição – sempre foram praticadas por nossos antigos irmãos

A corda é composta por 6 componentes simbólicos tais como os nós, o elo entre todos os maçons, a abertura voltada para o pórtico, as duas pontas pendentes em cada lado da Porta, o número padronizado de 81 (3 x 3 x 3 x 3) nós obedecidos por toda a face da Terra, a localizado dono central sobre o Trono do Venerável. Mestre.

Segundo Tito Campos, em Instrucional Maçônico, Grau de Aprendiz, os nós representam os irmão maçons espalhados pela Terra, onde os elos são a essência que nos une no plano espiritual mostrando que todos somos um. Afirma ainda que a corda no pórtico se trata de uma abertura para expansão intelectual e social com a entrada de novos membros pela porta do templo. Contudo, para a maioria dos pesquisadores, essa abertura significa que a Ordem Maçônica é dinâmica e progressista, estando, portanto sempre aberta a novas ideias, que possam contribuir para a evolução do homem e para o progresso racional da Humanidade, pois não pode ser maçom aquele que rejeita novas ideias em beneficio de um conservadorismo rançoso, dogmático e altamente deletério.

O Nó no Oriente vem representar o absoluto polarizando o equilíbrio dinâmico da evolução universal.

Segundo FILHO (2012, p.222):

“…há uma corda em que se contam 81 nós, chamados “laços do amor”. É a Cadeia de União”, cujas pontas terminam em borlas próxima das colunas “B” e “J”. “Esta corda é formada por um aglomerado de fios frágeis que representam os Maçons de todo o Mundo, unidos, tal como os fios, que formam a corda, constituindo assim um conjunto inquebrantável na afirmação do aforismo que ensina “A União faz a Força”“.

Prudência ou moderação, muito embora existam Templos na França que apresentam cordas com 12 “nós” representando os signos do Zodíaco.

O Ir.’. Aprendiz Alex Prosdocimi, em seu trabalho sobre O PAINEL DA LOJA DE APRENDIZ MAÇON, 2017, p. 24, apresenta outra fonte com um complemento da explicação simbólica das borlas presente nas cordas e aberturas dos templos.

Na Bíblia Sagrada, especificamente no Livro Números (Nm 15: 37-41), Deus determina a Moisés, que o povo faça no canto de suas vestes borlas, franjas (adorno pendente de fios de lã) e presas com um cordão azul.

Tal ordem destinava a lembrar a este povo que a Deus pertencia, bem como lembra-los de seus mandamentos e praticá-los. Na época a tinta azul era cara, difícil de achar, pois era tirada de um molusco. Desta forma, o Criador Supremo demonstrou a todos o quão precioso era aquele povo.

Na época dessa passagem Bíblica, quem usava as borlas eram reis, era um sinal de nobreza. Deus usou um símbolo para que todos contemplassem que cada filho de Israel era seu próprio filho, o filho de todos os Reis.

Uma das possíveis origens da “corda de 81 nós”, ocorre quando em 23 de agosto de 1773, por ocasião da palavra semestral em cadeia da união na casa “Folie-Titon” em Paris, tomava posse Louis Phillipe Orleans, como Grão mestre da ordem Maçônica, na França, onde estavam presentes 81 irmãos em união fraterna e a decoração da abóboda celeste apresentava 81 estrelas.

Entretanto, conhecemos hoje, a herança da “corda” que era desenhada no chão com giz ou carvão, fazendo parte alegoricamente de um Painel representativo dos instrumentos utilizados pelos Pedreiros livres. Agora nas reuniões maçônicas, seguindo o ritual, é pedido ao Irmão Guarda do Templo que verifique se o Templo está “Coberto” em sua parte externa, das indiscrições profanas, somente iniciando os trabalhos após sua confirmação. Seguindo a isto a protetora Corda Maçônica saiu do chão e elevou-se aos tetos dos Templos, significando a elevação espiritual dos Irmãos, que deixaram de trabalhar no chão com o cimento e passaram a trabalhar no plano superior com o cimento místico que é a argamassa da Espiritualidade. Esta corda é que oferece-nos proteção através da irradiação de energias pela “Emanação Fluídica” que abriga e sustenta a “Egrégora” (corpo místico) formada durante os trabalhos em Templo através da concentração mental dos Irmãos, evitando que ondas de energia negativa desçam sobre os presentes na reunião. As borlas separadas na entrada do Templo funcionam como captores da energia pesada dos Irmãos que entram, devolvendo-Ihes esta energia sob forma leve e sutil quando de sua saída. A estrutura dos “nós” (melhor denominados “laços”) representa o símbolo do infinito -∞- e a da perpetuação da espécie, simbolizando na penetração macho/fêmea, determinando que a obra da renovação seja duradoura e infinita.

Este é um dos motivos pelos quais os laços são chamados “Laços de Amor”, por demonstrar a dinâmica Universal do Amor na continuidade da vida. Os átomos detêm toda a sabedoria do Mundo, porque ele gera e cria novas propostas para a evolução humana. A Corda de 81 laços representa a laçada como um “8” deitado, lembrando ao Maçom que é preciso tomar muito cuidado para não puxá-la transformando-a em nó o que significaria a interrupção e o estrangulamento da fraternidade que deve existir entre os Irmãos. Os 81 laços são apresentados nos Templos Escoceses do Brasil e Paraguai.

Não menos importante se faz necessário à análise consoante ao número 81, representado através dos laços equidistantes, senão vejamos: Esotericamente, a “Corda de oitenta e um laços” simboliza a união fraternal e espiritual, que deve existir, entre todos os Maçons do mundo; representa, também, a comunhão de ideias e objetivos da Maçonaria, que evidentemente, devem ser os mesmos, em qualquer parte do planeta.

Para que um símbolo se torne de fato um símbolo são necessárias várias interpretações, justificativas e significados. Nesse contexto, inicialmente abstrairemos o laço central que é a representação do G∴A∴D∴U∴ entre seu passado e o seu futuro, representa o número um, a unidade indivisível, o símbolo de Deus, principio e fundamento do Universo.

O número um, desta maneira, é considerado um número sagrado. Destarte passemos às laterais com 40 laços, e lembramos que este número marca a realização de um ciclo que leva a mudanças radicais. A Quaresma dura 40 dias. Ainda hoje temos o hábito medicinal de colocar pessoas ou locais sob “quarentena” como se nela estivesse a purificação dos males antes existentes. Jesus levou 40 dias em jejum e tentações. Os Hebreus vagaram 40 anos no deserto. Quarenta foram os dias que durou o dilúvio (Gênese, 7-4). Quarenta dias passou Moisés no monte Horeb, no Sinai (Êxodo, 34-28). Os 40 laços representam os 40 dias que Jesus usou para preparar-se para a morte terrestre e os 40 dias que ficou entre nós após a ressurreição, preparando-se para a Eternidade.

Ato contínuo, analisemos as justificativas simbólicas no próprio número 81 que segue os princípios místicos da Cabala, senão vejamos: o número 81 é o quadrado de 9, que, por sua vez, é o quadrado de 3, número Perfeito, bastante estudado em Escolas Esotéricas e de alto valor místico, para todas as antigas civilizações; Três eram os filhos de Noé; Três os varões que apareceram a Abraão; Três os dias de jejum dos judeus desterrados; Três as negações de Pedro; Três as virtudes teolegais (Fé; Esperança e Amor). Além disso, as tríades divinas sempre existiram, em todas as religiões: Shamash, Sin e lchtar, dos Sumérios – Osíris, Isis, Hórus, dos Egípcios – Brahma, Vishnu e Siva, dos Hindus – Yang, Ying e Tao, do Taoísmo – Pai; Filho e Espirito Santo, da Trindade Cristã. Também não poderíamos deixar de citar a tríplice argamassa das oficinas Liberdade, lgualdade e Fraternidade.

O maçom J. Fabrício Machado, em seu artigo “A corda de 81 nós”, apresenta outras possíveis explicações, na tentativa de elucidar os conceitos da Corda e os 81 nós:

“Dentro da numerologia, os comportamentos humanos têm valores numéricos, de acordo com as letras de seus nomes. As letras são divididas em três grupos de 9 letras, cada letra com 3 chaves, a saber: o valor numérico que lhe é próprio; o som numérico que lhe é próprio; e a figura que a caracteriza. Como temos nove variações comportamentais segundo a psicologia, teremos 81 variações de comportamento. Podemos então dizer em estudo livre, que esta corda mostra também os 81 comportamentos que uma pessoa pode ter em uma existência, sendo então a representação do individuo e suas mudanças humorais.

A Cosmogonia dos Druídas, resumidas nas Tríades dos Bardos antigos, eram em número de 81 (as Tríiades) e os três círculos fundamentais de que trata esta doutrina, tem como valor numérico o 9, o 27 e o 81, todos múltiplos de Ragon, em seu livro “A Maçonaria Hermética”, no rodapé da página 37, diz em uma nota, que segundo o Escocês Trinitário, o 81 é o número misterioso de adoração dos anjos. Assim, segundo Oswaldo Ortega, da Loja Guartimozim de São Paulo, à luz do Esoterismo, ele cita que os 81 laços que estão no teto, portanto, próximos do céu, tem ligação com os 81 anjos que visitam diariamente a Terra, com mostram as Clavículas de Salomão, e se baseiam nos 72 pontos existenciais (os 72 nomes de Deus), da Cabala Hebraica modificados. A cada 20 minutos, um anjo desce à Terra e dá sua mensagem aos homens. São 72 visitas no curso do dia, se levarmos em conta que a cada hora teremos 3 anjos, em 24 horas, teremos 72 anjos. Agora, somando 72 anjos aos nove planetas que nos influenciam diariamente chegamos ao número 81. Sabemos que estes anjos podem nos ajudar se os chamarmos pelos nomes no espaço de tempo que nos visitam. E eles estão representados no teto do
Templo, através dos 81 laços.

Ponto finalizando encontramos ainda outra denominação à “corda”, ou seja, “Borda Dentada'”, traduzida pela corda de nos (laços de amor) que rodeia o “Quadro de Aprendiz” (3 ou 7 laços), assim como o “Quadro de Companheiro (5 ou 9 laços) terminada com uma borla em cada extremidade e que per si mereceria um estudo próprio. Não obstante ao explicitado, a lição primordial que nos resta é que a corda é a imagem da união fraterna que liga, por uma cadeia indissolúvel, todos os Maçons, simbolizando o segredo que deve rodear nossos augustos mistérios, assim como representa a Cadeia de União permanente pela busca da proclamada Fraternidade, tão bem explicitada no Salmo 133.”

5 – Considerações finais

Quando do aprofundamento dos estudos dentro da Maçonaria, é perceptível o universo de informações e conceitos que compõem os temas presentes dentro da sua respectiva filosofia. Dentro da numerologia, da historia, da Cabala, dos mitos, das crenças e vivências os conceitos vão se fundindo e se transformando em explicações mais sólidas e presentes nos nossos cotidianos dentro da sociedade maçônica ou no mundo profano. Torna-se convicto que esses conceitos e as diversas fontes e interpretações não são uma particularidade apenas da “Corda de 81 nós”, sendo uma realidade que vem construindo a Maçonaria e seus preceitos ao longo da sua existência. Salvo que as fontes sejam sempre de referências segura e reconhecidas dentro das verdadeiras Maçonarias para que isso se torne uma realidade.

Do ponto de vista de aprendiz, na mais humilde e inicial jornada, entendo que o mais importante é o que se aprende, vive e transmite com atos e comportamentos ao mundo profano para a melhoria da sociedade e sua lapidação pessoal.

A corda de 81 nós, tendo ou não sua origem nos trabalhos feitos com demarcações no chão, nos anjos presentes, nos nomes diversos do G∴A∴D∴U∴, nas numerologias, nos misticismos e referências associativas bíblicas, não deixam sucumbir o principal ponto de sua interpretação que levo como verdade. A união dos irmãos em todas as partes do mundo, os laços de amor entre todos, estando sempre abertas a novas ideias, entradas dos irmãos e, por que não, a limpeza das energias quando adentramos o templo e os deixamos para continuidade das nossas jornadas e trabalhos no mundo profano.

Sendo tão pouco abordada nas referências bibliográficas disponíveis e, muitas vezes, despercebida entre os irmãos iniciados me sinto privilegiado em abordar um tema tão presente no nosso dia a dia e que se faz cada vez mais necessário a sua aplicabilidade no mundo profano: a união, igualdade e laços de amor.

Autor: Marcelo Marcus Martins Costa

Marcelo é Aprendiz Maçom na ARLS Jacques DeMolay, nº22, do oriente de Belo Horizonte e jurisdicionada à GLMMG.

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Referências

CAMPOS, Tito Alves. Instrucional Maçônico, Grau de Aprendiz. Londrina, PR. Editora Maçônica FILHO, Denizart Silveira de Oliveira. Da Iniciação Rumo a Elevação – Comentários às Instruções do Ritual do Aprendiz Maçom do rito Escocês Antigo e Aceito. Londrina, PR. Editora Maçônica “A TROLHA” Ltda., 4ª edição, 2012. OLSEN, Oddvar (org.). Templários, As sociedades secretas e o mistério do Santo Graal. Rio de Janeiro, RJ. Editora Best Seller Ltda.2011. COUTO, Sérgio Pereira. Sociedades Secretas. São Paulo, SP. Editora Universo dos Livros, 2009. O’CONNELL Mark, AIREY Raje. Almanaque ilustrado SÍMBOLOS. São Paulo, SP. Editora Escala. 1ª Edição, 2010. MANSON, Mark. A sutil arte de Ligar o foda-se. Rio de Janeiro, RJ. Editora Intrínseca, 2017. MM.’.AA.’.LL.’. & AA.’. – Aprendiz Maçom Instrução Grau 1 – REAA, Leitura exclusiva para Maçons 2012 E∴V∴ PROSDOCIMI, Alex A da Silva, O Painel da Loja de Aprendiz Maçom. 2017 MACHADO, J. Fabrício, em seu artigo “A corda de 81 nós”. A∴R∴L∴S∴ Aurora Lemense O SIMBOLISMO DA CORDA DE 81 NÓS. Santa Catarina, São Joaquim. 2019. Disponível em: https://www.fraternidadeserrana.com.br.Acesso em 20 de maio de 2019.