Lobo em pele de bode

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“Cuidado com os falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores.” (Mateus 7:15).

A família “Bovidae” é pródiga em lendas e simbolismos. A ela pertencem animais domésticos como ovelha, cabra, boi e selvagens como os antílopes e bisontes. Nosso foco se deterá na subfamília “Caprinae”: carneiros e bodes, que por serem mais dóceis foram domesticados e têm registros marcantes na jornada humana.

O carneiro é o macho da ovelha e juntos geram os cordeiros (ovinos). Eles têm os pelos mais ondulados (lã) e cornos geralmente enrolados, sem barbela. O bode é o macho da cabra e o filhote deles é chamado cabrito (caprinos). Comumente o pelo tem um aspecto liso, possuem cornos quase direitos (direcionados para fora) e costumam ter uma barbela (“barba”). Culturalmente considerados símbolo de fertilidade, libido e força vital.

Segundo o épico bíblico, ao serem expulsos do Jardim do Éden Adão e Eva receberam a sentença de trabalho pesado, passando os infortúnios do vaso de Pandora a afligir a humanidade. Dos dois primeiros filhos, Caim se dedicou à agricultura e Abel ao pastoreio, já se consolidando como o tradicional inimigo do estado agrário. Ao ver sua oferenda recusada pelo Criador e a de Abel ser aceita, Caim inaugurou a era da violência.

Inicialmente, pastores nômades se dedicavam à criação de ovelhas e cabras, que representavam parte importante do patrimônio, consistindo em tema fartamente mencionado nas Escrituras. Depois se tornaram sedentários e organizaram uma sociedade patriarcal baseada na economia pastoril, com a criação de ovinos e caprinos, e cultivando cerais, quando o monoteísmo começou a ganhar forma.

Festas eram realizadas na época da tosquia dos animais, com presença de parentes, amigos e convidados, e em alguns casos com a participação dos pobres da comunidade. Da produção, o leite e a carne eram usados como alimentos e a lã destinada à confecção de tecidos. A pele desses animais era preparada para nelas se escrever, os pergaminhos, que sucederam os papiros, utilizados na antiguidade ocidental, em especial na Idade Média, até a descoberta e consequente difusão do papel.

O pastoreio sempre foi considerado uma atividade pesada dada a atenção requerida durante as 24 horas do dia, com sol ou chuva, contando com o auxílio de cães para evitar dispersões, além da proteção do rebanho contra as constantes ameaças dos lobos, dotados de inteligência, resistência física e furor guerreiro.

Assim, toda essa atividade deu origem a uma infinidade de fábulas e lendas envolvendo pastores e os temidos lobos, concorrentes do homem e símbolo de crueldade, onde estes predadores desenvolveram técnicas mirabolantes de se disfarçarem em ovelhas para em seguida invadirem o aprisco e atacá-las. Nessas narrativas os lobos saiam perdendo, literalmente “dava bode” para eles. Evidente, que em outras culturas, o lobo goza de farta participação na mitologia, ocupando posição de destaque como animal de símbolo benéfico.

Existe uma variedade de versões de fábulas que dão significado moral para a popular frase “lobo em pele de cordeiro”, todas ensejando mensagens ligadas a hipocrisia, enganos, desonestidade, disfarces, falsas aparências, fingimento, objetivos egoístas e/ou escusos, discursos contraditórios.

Na Parábola Jesus, o Bom Pastor (João, 10, 1-19), os personagens do pastor, do lobo, das ovelhas e do mercenário são emblemáticos. Seguindo as metáforas utilizadas por Jesus com os elementos presentes no quotidiano das comunidades à época, o Bom Pastor é aquele que cuidava de suas ovelhas. O pastor conhecia suas ovelhas e estas conheciam a sua voz. Os pastores enfrentavam lobos e ladrões, com risco à própria vida e, por vezes, costumavam se associar para a construção de um redil comum, feito com palhas, madeiras e pedras, para proteção do rebanho. Como armas portavam um cajado. Os falsos mestres, ou mercenários, eram aqueles que cuidavam do rebanho visando apenas a seus próprios interesses e em situações de perigo fugiam.

Pessoas com algumas dessas características de lobos ou falsos mestres, investidos de falsa plenitude, convivem harmoniosamente em nosso meio, mostram-se simpáticas e de boa índole, por vezes com atitudes colaborativas, mas escondendo os verdadeiros objetivos de levar vantagem em alguma situação ou envenenar as relações para tirar proveito dos conflitos. Nunca andam sozinhos, articulam-se em duplas ou em grupos. Como discípulos de Bakunin semeiam cizânia, são estrategistas, muito sagazes e despertam fascínio. Já os pastores são sábios, humildes e focados na sua missão.

Essa situação traz à mente outra conhecida frase do filósofo inglês Thomas Hobbes, introduzida na obra “Leviatã”, de 1651, atribuída ao dramaturgo romano Platus : “o homem é o lobo do homem”. Desta feita, existe uma constatação de que o homem é o seu próprio inimigo, sendo capaz de causar grandes males contra sua própria espécie, na defesa de seus interesses pessoais.

Quando identificado em um grupo recebe o atributo de “ovelha negra”, tanto pela má reputação como pelo estranhamento e desvio em relação aos demais. Em outra vertente, pode ter também o sentido de uma pessoa que é diferente dos demais e não se enquadra em algum quesito ou valores compartilhados. Em outros contextos pode ensejar avaliação positiva, demonstrando que toda moeda tem duas faces.

Porém, quando a situação compromete um indivíduo sobre o qual recai culpa alheia, pesando a acusação de algum delito para o qual não tenha contribuído e não consegue provar a sua inocência, recebe o atributo de “bode expiatório”, que pode ser vítima e réu ao mesmo tempo. Segundo um adágio popular, “quem menos pode é quem paga o bode”. Por outro lado, sonhar com bode enseja vários enigmas que desafiam quem ousa interpretar o oráculo da noite.

Os relatos contam que no antigo Israel o sumo sacerdote levava dois bodes ao Templo de Jerusalém no Dia das Expiações (Yom Kippur). Um era sacrificado para expiar os pecados da comunidade e o outro recebia, pela imposição das mãos, a transferência das más ações das pessoas e era despachado para fora da cidade, levando a culpas para bem longe. A confissão a um bode, símbolo do silencio absoluto, era certeza de que não iria transmitir os pecados confessados para mais ninguém. No Cristianismo, o sacrifício do cordeiro da páscoa representa a expiação de Jesus, o Cordeiro de Deus, que pagou os pecados e resgatou a humanidade.

A figura do bode pertence às mais velhas tradições e crenças pagãs. Foi usado para representar diversos deuses do panteão egípcio, entre eles Set, Rá e Amón. Nos mistérios de Dionisius, os gregos utilizavam a máscara e a pele de bode nas cerimônias. Nos cultos celtas e dos etruscos era parte dos rituais. O carro da divindade do trovão (Thor) era puxado por bodes. Na idade média, o bode emprestou sua forma para o diabo e era associado à prática de bruxarias. As mulheres associadas a tal prática utilizariam os bodes como montarias por adorarem a divindade Pã, metade homem, metade bode. Curiosamente acreditava-se que o bode parecia saber muito mais do que aparentava. No zodíaco o carneiro representa o signo de Áries e o bode o de Capricórnio, signo este sob o qual teria nascido a maçonaria moderna.

Por tudo isso e mais, o bode, em especial, é considerado um animal enigmático, e acabou firmando-se no folclore maçônico. No passado, os maçons foram acusados de reunirem-se clandestinamente para realizar cerimônia ritualística de sacrifício de um bode, evocando uma visão equivocada de sua identificação com seres da escuridão, fruto de acusação de detratores em obras antimaçônicas que incriminavam a maçonaria por suposto culto a um bode preto e da associação com a figura de Baphomet,  Bode de Mendés ou ainda Bode do Sabbath, da qual os Templários e outros grupos eram acusados de prestar adoração. Como a ignorância é pródiga em abençoar, tal interpretação não tem nenhum vínculo com a realidade histórica, comprovando-se que fake news e imaginação pra lá de criativa não é privilégio dos novos tempos. A narrativa do escritor maçom José Castellani (1937-2004) é a mais divulgada.

Transformando o limão em limonada, a “gozação” caiu no gosto dos maçons e o desvirtuamento virou grife, no sentido de trabalhar em silêncio e de ser guardador de segredos, que no fundo virou uma boa propaganda. Na região nordeste do Brasil diz-se que a boca do bode fecha-se tão certinha, de forma a não deixar nenhum dente à mostra, por isso a expressão “mais certo que boca de bode!”.

Mas, a preocupação continua sendo em relação aos lobos em pelo de bode que vicejam por aí. Como na fábula “O Escorpião e o Sapo”, os lobos não mudam a sua natureza. É o joio que precisa ser arrancado, mesmo que seja tarde. Sepulcros caiados, que por fora realmente parecem justos e perfeitos diante dos outros, com discursos fundamentados, posando de intelectuais experientes, ora afáveis e acolhedores, ora fazendo os tipos melindrosos e nervosões, com vozes empostadas e cheios de razão, mas por dentro plenos de hipocrisia e injustiça. Os bravateadores de sempre. Como diz a sabedoria popular, vai dar bode, esses lobos que se cuidem, pois ao fim e ao cabo todo espertalhão escorrega na própria esperteza ou é vítima da intriga que semeou.

Enfim, ainda existem aqueles que sabiamente recomendam aos desencantados que “peçam para sair”. Mas, se levarmos essa orientação ao pé da letra estaremos “jogando a toalha” e reconhecendo a vitória da alcateia. É o mesmo que jogar o sapo n’água. Procuremos, pois, despertar em nós aquela criança inocente do conto do dinamarquês Hans Christian Andersen para quem o vaidoso rei estava realmente nu, não nos deixando passar por “pessoas parvas, tolas e estúpidas”. O lobo está nu, esse bode é fake!

“Eis que vos envio como cordeiros para o meio de lobos.” (Lc 10,3).

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

Virtudes e Vícios

The Choice of a Boy between Virtue and Vice – Paolo Veronese (1528–1588)

“Vencer minhas paixões
levantando Templos à Virtude e
cavando masmorras ao vício,
eis o que viemos aqui fazer”.

“Do Caos à Ordem; Da Obscuridade à Luz.”

Seria tarefa simples falar de virtude e vício em sentido literal, bastaria para isso dar o sentido filológico; mas falar de virtude e vício em sentido filosófico e maçônico já se torna uma tarefa nada fácil.

A Maçonaria não é uma religião, nem um partido, nem uma igreja; todavia ela põe no caminho, ela desperta. Não oferece a nós, membros, uma verdade definitiva, imutável, dogmática, fazendo representar o livre exercício da tolerância. Assim, aprendemos a nos interrogar, recolocarmo-nos em questão. Graças a esse fator de progresso descobrimos não só o caminho do conhecimento, mas também da ordem que deve reinar, tanto no domínio material como espiritual, facilitando assim, com que o homem desenvolva suas virtudes. E é por meio dos processos (rituais; contatos humanos, conhecimento, disciplina, etc.) que o homem adquire sua real personalidade.

A virtude é uma passagem da paixão para ação e meditação, uma externa e a outra interna, onde o homem se revela a si mesmo, ultrapassando seus próprios limites, seu eu. O ser interno, nossos sentimentos, atos e pensamentos. 

Capacidade ou potência própria do homem de desenvolver suas qualidades naturais. Entendo que virtude é uma característica de valoração positiva do indivíduo, uma disposição geral e constante da prática do bem, isto não quer dizer que um homem de virtudes seja altruísta ou filantropo, embora tenha uma tendência de o ser. Um homem de virtudes tem o hábito de cumprir as leis e obedecer aos costumes da sociedade em que vive; ser socialmente correto, honesto, justo, paciente, sincero, compreensivo, generoso, prudente, possuir coragem e perseverança.

Portanto, Maçonaria para mim é uma escola, pois permite-nos controlar nossas paixões, fazendo com que tenhamos o domínio do nosso “EU” e respeitemos o próximo.

Toda virtude tem seu mérito próprio, porque todas indicam progresso na senda do bem. Mas não basta falarmos, temos que experimentá-la. Os mais variados tipos de virtude têm que ser experimentados, vividos… compreendidos, pelo menos intelectualmente. Assim como Spinoza, “não creio haver utilidade em denunciar os vícios, o mal. Para que acusar? Isso é a moral dos tristes e uma triste moral.” A primeira e fundamental parte da virtude é a verdade, como dizia Montaigne, “A verdade condiciona todas as outras e não é condicionada, em seu princípio, por nenhuma.”.

A virtude não precisa ser generosa, suscetível de amor ou justa para ser verdadeira, nem para valer, nem para ser devida, ao passo que amor, generosidade ou justiça só são virtudes se antes de tudo forem verdadeiras. Aqui surge uma outra virtude, a boa-fé, que como fato é a conformidade dos atos e palavras com a vida interior, ou desta consigo mesma. É o respeito à verdade. Virtude sem boa-fé é má-fé não é virtude. A boa-fé como todas as virtudes é o contrário do narcisismo, do egoísmo cego, da submissão de si a si mesmo.

Não devemos confundir dever com virtude. O dever é uma coerção, a virtude, uma liberdade, ambas necessárias. O que fazemos por amor, não fazemos por coerção nem, portanto, por dever. Quando o amor e o desejo existem, para que o dever? Não amamos o que queremos, mas o que desejamos. O amor não se comanda e não poderia, em consequência, ser um dever.

Nietzsche dizia: “O que fazemos por amor sempre se consuma além do bem e do mal”.

A virtude não é um bem, mas é a força para ser e agir na prática do bem.

Autor: Wagner Veneziani Costa

Fonte: Teoria da Conspiração

O Irmão Rabugento

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Nem todo velho é bom só por ser velho. Ao contrário, se não acumularmos bom humor, autocrítica, certa generosidade e cultivo de afetos vários, seremos velhos rabugentos que afastam família e amigos” (Lya Luft)

O termo “rabugento” logo traz à mente a fisionomia de uma pessoa que reclama de tudo, vive se queixando e implicando com tudo e com todos, e não se restringe a idade ou gênero específicos. Nos dicionários colhemos ainda: ranzinza, ranheta, briguento, birrento, mal-humorado, impaciente etc. Com certeza, a associação com “rabujo”, que significa fedor, sarna ou mau cheiro, e provoca um afastamento estratégico, permite-nos entender o simbolismo envolvido.

Seguramente, um número bem reduzido, excetuando-se os praticantes do socrático “conhece-te a ti mesmo”, se dá conta da situação e, como sempre, os outros é que nos “reconhecem como tal”, pois identificar uma pessoa com essas características é relativamente fácil.  Nesse cenário, inconcebível não vir à mente a citação bíblica sobre ficar olhando o cisco no olho do irmão e não prestar atenção na trave que há em nosso próprio olho.

Antes de prosseguir informamos, cautelarmente, que os comentários e exemplos abaixo, pertencentes à esfera da ficção, que qualquer semelhança com a realidade de nossas lojas é mera coincidência. Trata-se de “causos” capturados durante peregrinações com a Escola Maçônica. Poder-se-ia até supor que a narrativa calhasse em Oriente longínquo, preferentemente de outra Potência, quiçá “irregular”. Mas, a caricatura pode ser proveitosa como um sobreaviso para que não nos deixemos sucumbir frente às garras da rabugice.

Deparamo-nos, eventualmente, com situações em que obreiros atravessam a ritualística e quebram a harmonia dos trabalhos com comentários paralelos, julgando-se senhores do certo e do errado. Outros apontam deslizes de forma abrupta, como se donos fossem, com ar professoral e recorrendo à condição de “fundadores”, usurpando função dos titulares responsáveis, quando não reclamam de uma determinada circunstância, falando fora de hora e invocando “questão de ordem”, desconcentrando os demais. Esses críticos contumazes, em várias oportunidades, ao executarem uma função, cometem erros similares aos que apontam ou ainda costumam desempenhar o ofício de forma apática, desobrigando-se a observar as regras.

Poucos, quando não cochilam, resmungam por nada e o tempo todo, “pensam alto”, reclamam de demora da reunião ou do tempo de estudos – “o trabalho ficou grande, poderia ter feito um resuminho…se desse uma boa enxugada ficaria melhor…poderia ter diminuído a falação…perdemos o primeiro tempo do jogo… ou … o ágape já começou, sabia?!”. Nas oportunidades em que recebem uma cópia de trabalho, desdenham e o “esquecem” sobre o assento ao se retirarem.

Ainda não foram confirmadas ocorrências da espécie, mas já se especula sobre a possibilidade de rabugentos e seguidores evoluírem no sentido de se colocarem contra proposições da direção da Loja apenas e tão-somente para obstaculizar a operacionalização de sugestões, ao impor derrotas e não dar créditos para os proponentes, com demonstrações de mentalidades tacanhas ou vingativas. Dir-se-ia, talvez, que se pode ouvir nos átrios comentários do tipo “eu faria diferente…”, típico dos “engenheiros de obras feitas” ou a “fácil sabedoria ex-post”. Esperamos que fique apenas no campo da imaginação, mas é importante manter a vigilância.

Nossos rabugentos favoritos, se não estão carrancudos, fazem caras e bocas e agitam-se o tempo todo. Ao argumentarem ou questionarem sobre algum episódio, e mesmo com razão, exprimem nervosismo e esticam mais do que podem a fala. Nas sessões magnas pedem a palavra, se inflamam ao tecer arrastadas loas individualmente aos diversos contemporâneos ocupantes de cadeiras cativas no Oriente, com o uso de frases elaboradas, expressões emotivas, gestos enfáticos, narrativas de experiências alhures compartilhadas e nada sobre o ato que acaba de ser realizado, apenas para desejar um bom fim de semana a todos e a cada um em particular.

Não são raros os casos em que esses amados irmãos durões se melindram com a mais cortês crítica, dizendo – “já cansei de falar sobre isso e ninguém me leva a sério, minhas palavras foram levadas pelo vento. Doravante não falo mais nada”. Na sequência, atravessam um pedido de desculpa geral e auto impõem-se um obsequioso silêncio. Durante um bom período se fecham em copas, mostrando-se reticentes em fazer qualquer comentário. Mas, graças às luzes do Grande Arquiteto do Universo suplicadas na exortação de abertura dos trabalhos, e depois de alguns afagos, voltam a se manifestar e a compartilhar os inexauríveis conhecimentos de que são detentores.

Há ainda os que se julgam os únicos a enfrentar adversidades, sempre se vitimizam e não revelam serenidade para ouvir os demais quando em uso da palavra. Ai daquele obreiro mais inspirado que ousa ilustrar uma explanação com um recurso filosófico ou poético, provocando a ira dos rabugentos a sussurrarem que maçonaria é “coisa de macho”, instigando sorrisos sarcásticos de concordância por parte de títeres que não refletem criticamente.

Os mais estrategistas não falam diretamente nos momentos apropriados, mas enviam recados por intermédio dos mais simpáticos e acolhedores, com grande movimentação dos Mestres de Cerimônias, que já estão habituados a ouvir o som do estalar de dedos ou a chamada com um gesto do indicador. E tem aquele que nos faz lembrar a letra da música “Sabiá” de Dominguinhos – “A todo mundo eu dou psiu – Psiu, Psiu, Psiu”. Ex-Veneráveis mais modernos às vezes são persuadidos a levar mensagens dos rabugentos (diga ao seu Venerável isso, isso e isso…..). Perdoemos, por ora, os renitentes produtores de efeitos sonoros com copinhos descartáveis e papeis de balas, que mesmo alertados persistem, lembrando-nos o crepitar de uma fogueira de São João – nosso Patrono.

Nestes tempos de redes sociais palpitantes e funcionando as 24 horas do dia, com as caixas de entrada de e-mails superlotadas, aplicativos repletos de mensagens e vídeos repetitivos, longos, cansativos e fora de contexto, enviados por impulso e sem nenhuma avaliação prévia, não podemos deixar de falar dos melindrosos, que por uma opinião divergente, saem do grupo de WhatsApp –  “espírito obsessor”, segundo os que rejeitam e torcem para que essa tecnologia se exploda – da Loja, por qualquer motivo, retornam por algum tempo, quando não são bloqueados provisoriamente pelos administradores para dar uma esfriada nos ânimos, mesmo sendo portadores da mais alta estima e consideração. Tudo por amor e em nome da harmonia e da fraternidade.

Se o irmão teve perseverança para ler até aqui e não se reconheceu em nenhuma das descrições acima (Glória a Deus!), compreenda que dentro de um rabugento bate um coração afável e incomensurável. Nesse contexto, vislumbra-se emblemática a mensagem do poema “Amor é Síntese” de Myrtes Mathias (atribuído a Mário Quintana em determinados sites), que permitimo-nos propor, com a devida vênia por um oportuno e sutil ajuste em destaque:

Por favor, não me analise.

Não fique procurando cada ponto fraco meu.

Se ninguém resiste a uma análise profunda, quanto mais eu…

Ciumento, exigente, inseguro, carente, todo cheio de marcas que a vida deixou.

Vejo em cada grito de exigência, um pedido de carência, um pedido de amor.

Amor é síntese, é uma integração de dados.

Não há que tirar nem pôr.

Não me corte em fatias, ninguém consegue abraçar um pedaço.

     Me envolva [fraternalmente] em seus braços e eu serei o perfeito [irmão].

Por tudo isso e mais, a Loja é uma escola onde somos instigados a praticar a tolerância, a aceitar as diferenças e a exercitar o verdadeiro amor fraterno, valorizando o respeito mútuo, desafiando-nos constantemente a estar vigilantes quanto aos nossos vícios e focados na prática das virtudes. Não necessariamente precisamos ter juízo sobre tudo e querer sempre estar certos, alentando o individualismo e o ego. Como diz a sabedoria popular, às vezes é melhor ser feliz, ter uma relação boa com a vida, do que ter razão. A oração de São Francisco é inspiradora (Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz…).

Enfim, torna-se de bom alvitre refletir sobre o criativo ensinamento do Professor Mário Sérgio Cortella: “A regra beneditina que eu mais gosto é a regra 34: É PROIBIDO RESMUNGAR! Não é proibido discordar, reclamar, debater. Resmungar é aquele que ao invés de acender a vela fica amaldiçoando a escuridão. É uma questão de decisão, de atitude. Decidir acender a vela, procurar a vela e acendê-la. Por isso, vamos falar como São Bento: é proibido resmungar. Vai e faça, levante e faça”. Exerçamos, portanto, a Plenitude Maçônica[1].

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, um colaborador do blog.

Nota

[1] – Clique AQUI para ler o artigo sobre a Plenitude Maçônica

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O Visitante Desaforado

It's all about Him: The Prideful Spirit

“Quem bate esquece, quem apanha, lembra.” (Popular)

O desaforo enseja várias interpretações, mas a que ocorre de imediato é a imprudência na prática de um ato desrespeitoso, indelicado e que cause constrangimentos. E tal situação torna-se mais sutil quando o comportamento parte de um visitante ilustre que é acolhido com consideração e entusiasmo.

Não é incomum recebermos em nossas Lojas, Clubes de Serviços ou entidades vinculadas a trabalhos voluntários, convidados para trazer mensagens, apresentar uma palestra ou ministrar instruções que venham ampliar o conhecimento e promover debates tendentes a contribuir para revisão de modos de agir e incentivar o incremento de atividades.

O cenário tende a se alterar quando o procedimento desse convidado agride a cultura local e a conotação farisaica de sua mensagem se acentue e a abordagem dos temas ganhe contornos de críticas ácidas, com atitudes raivosas e uso de linguagem imprópria, em flagrante desrespeito a um legado construído com grandes sacrifícios e paixão por parte de valorosas pessoas (valorosas, sim!) que plantaram as sementes e dedicaram uma vida para manter de pé as colunas que sustentam a boa obra.

A crônica é repleta de narrativas envolvendo autoridades debutantes que se julgam os doutores da lei e se arvoram no conhecimento de todos os mistérios, de todas as ciências e na titularidade do dom da profecia, e desconhecem a famosa carta de Paulo aos Coríntios sobre o amor (1Cor, 13), evidenciando pouco brilho interior, quase nada acrescentam ou perdem uma rica oportunidade de guardar silêncio. Inevitável não vir logo à mente uma frase que foi destaque no final de 2007, em Santiago do Chile, durante a XVII Conferência Ibero-Americana: “¿Por qué no te callas?”.

Boa parte dos que carregam essas características julga-se acima do bem e do mal, como se certas regras comportamentais não dissessem respeito a eles e agem como os fariseus na disputa por posições de proeminência nas mesas principais, com posturas preconceituosas e linguajar destoante, pelo simples prazer em impressionar e de serem tratados pelos títulos, notados e admirados pelas conquistas, mormente em busca de holofotes, homenagens, distintivos e diplomas para exposição nas redes sociais. Olvidam que tudo isso passa e o caráter e o exemplo são para sempre.

É discurso comum que críticas e sugestões são bem-vindas e que as equipes estão abertas para rediscutir formalidades e reavaliar projetos e ações. Até aí tudo bem, há espaço para todos. Mas o que deve ser observada é mais a forma como a mensagem é entregue do que propriamente o seu conteúdo, que por melhor e mais verdadeira que possa se insinuar, venha a desaguar e fazer o bolo solar e não se mostrar apetitoso aos comensais.

Quando essa conduta vem de um ocupante de posição relevante na entidade, que se atribui conhecimento e autoridade para falar o que melhor lhe aprouver, somente por portar currículo lustroso, o ambiente fica nebuloso e o clima tenso. Muitos desses “eruditos” se admiram quando alguém “ousa” questioná-los para maior compreensão de determinado assunto, mesmo de maneira cortês e educada, e por isso estes desavisados manifestantes são por vezes qualificados como atrevidos e resistentes a mudanças.

Como fora profetizado em uma recente reunião por um desses distintos convidados desaforados, não muito jovem, dinâmico e sem travas na língua, considerando-se inoxidável e revestido de teflon, com ar triunfante, coração de granito e invocando o manto da franqueza: “que contribuição pode dar uma pessoa de 70 anos ao nosso movimento?”. Perplexos, os presentes com idade média de 65 anos entreolharam-se constrangidos. Os que já tinham ultrapassado essa marca esboçaram um sorriso amarelo. Ressalte-se apenas esse exemplo, para não delongarmos sobre outras barbaridades proferidas.

É evidente que cada indivíduo tem seus limites, sendo alguns mais aquinhoados com doses de extrema boa vontade, compreensão, maturidade e resistência para aceitar grosserias e ataques, relevando toda a sorte de impropérios, com capacidade imensa de resiliência e de perdão e a consciência de que no voluntariado “é importante ser comedido na crítica e generoso nos elogios: sempre construir e não destruir”. Estes, portanto, já apararam as arestas da pedra bruta da personalidade.

Outros por sua vez, para não dizer um ou dois em cada grupo, ainda em fase de lapidação, porém certos de que paciência tem limites e não se obrigando a suportar tudo com passividade apenas para demonstrar gentileza ou agradar a quem quer que seja, acreditando que toda ação produz uma reação, tomam as dores e partem em defesa do seu time de coração, no mais das vezes sem descurar das formalidades e das normas de etiqueta, para também não constranger o convidado por colocações indevidas. Mas, como sói acontecer, culpando as vítimas pelo ataque, os cascas grossas não se tocam nem se redimem “e la nave va”.

Desnecessário aprofundarmos no detalhamento quanto aos quesitos relativos a cortesia e boas maneiras, exercício do tato e da habilidade nas relações interpessoais tão decantados pela  bibliografia disponível em milhares de livros e artigos de autoajuda. E se considerarmos a vigilância que deve ser mantida em nossos pensamentos e nas atitudes que possam criar situações e ambientes indesejáveis em nossa comunidade, no sentido de aprendermos a controlar sentimentos e impulsos, ainda é pouco se olharmos para os lados com olhos bem atentos e percebermos quem são os fariseus de hoje e como se multiplicam.

Por sua vez, não se pode descurar em qualquer planejamento, quando se imponha a necessidade de receber um convidado, que se avalie de antemão o conceito do mesmo e os tópicos a serem tratados, bem como eventuais providências preparatórias, sutilezas protocolares, objetivos e duração da apresentação, minimizando, assim, possíveis impactos que possam incentivar dissidências e baixas em nossas já desfalcadas fileiras de voluntários que amam servir ao próximo.

Enfim, quando a situação se impuser, vislumbra-se imprescindível saber lidar com a arrogância do poder ao exigirem-se processos transparentes em qualquer contexto em que dirigentes exerçam um mandato em nome de uma coletividade, e que tenham uma liturgia moral do cargo ou função a observar, ou se situem em patamar de “Notáveis”, de modo a não prevalecer um sentimento que possa gerar a sensação de que estão invisíveis e inacessíveis a qualquer forma de punição e não sejamos por derradeiro desafiados ou afrontados com a vetusta carteirada: “Você sabe com quem está falando?” ou a quase socrática: “Quem você pensa que é?” e o não menos conhecido enquadramento temporal: “Ainda não chegou sua hora de saber e/ou de se manifestar!“.

Quase todos podemos suportar a adversidade, mas se quereis provar o caráter de um homem, dai-lhe poder “(Abraham Lincoln)

Autor: Márcio dos Santos Gomes

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O mercado de abertura de oficinas no Brasil

Aplique resinado , esquadro e compasso dourado - Loja 3 Pontos

O que se faz necessário para a abertura de uma nova loja?

A resposta está na ponta da língua da maioria dos IIr∴. Mas quando perguntamos por que querem abrir uma nova loja é que a conversa fica sem nexo. Muitos responderão que a abertura de uma nova loja está ligada à dissidência de outra loja já constituída.

Mas o que acontece? Essa dissidência se dá por conta de “divergências” de opiniões? Então, eu não concordo com algo e resolvo que eu serei o melhor exemplo fundando a minha própria loja? E o princípio da tolerância, do respeito a pluralidade dos pontos de vistas que encontramos diariamente em nossas sessões? Aí não servem mais como referência?

Já outros dirão que é puro ego. Somente para se tornar aquilo que demoraria anos, ou até décadas para acontecer naturalmente, esperando a maturação, o conhecimento necessário para se tornar um V∴M∴ em sua oficina. Neste aspecto, há de lembrar, que as constituições das obediências maçônicas exigem que um dos M∴M∴ seja um M∴I∴, o que descartaria esta hipótese para quem almeja o principal cargo da oficina. Entretanto, nada o impede que nessa nova formação, comece ocupando cargos nas luzes.

Bom, se “cargos” não deveriam ser o motivo principal para dissidências que levam a aberturas de novas oficinas, o que mais poderia ser? Quando o número mínimo de M∴M∴ resolve sair ao mesmo tempo para a abertura de uma nova oficina, o que acontece com esta oficina?

São diversas as oficinas que muitas das vezes aguardam ansiosamente a chegada de IIr∴ para poderem abrir seus trabalhos em número mínimo, conforme orienta a constituição maçônica. Imagine agora, saindo mais da metade de seu quadro? Seria um ato digno de um verdadeiro maçom? Algumas oficinas ainda sobrevivem na base de “convide” IIr∴ de outras oficinas para terem o número mínimo exigido para uma abertura de sessão. Outras, fecham suas portas. Abatem Colunas.

Com a escassez de templos e o número elevado de novas oficinas, não é de se admirar que ao sair de seu quadro, você ainda irá utilizar o mesmo templo que o da sua antiga oficina.

Em um breve parecer, abrir novas oficinas não é lá um grande negócio. Perder parte do quadro de seus IIr∴, pode também não ser saudável para que se tenha uma vida longa como loja regular em sua potência e, quando falo em regular, digo, se manter financeiramente com as suas obrigações perante a sua potência. Sem dizer, é claro, do aluguel do templo, do condomínio, da luz, enfim, despesas que deverão ser rateados por um número menor de IIr∴ ativos.

O que acontece então com essas oficinas que ficam com seus números reduzidos?

A maioria acaba devendo para a sua potência, já que preferem pagar as despesas fixas da oficina. O que prejudica a oficina nessa decisão? Em nada, a potência irá parcelar essa dívida, mais cedo ou mais tarde. E o maçom? Bom, aí, já é um pouco diferente. Deixando de pagar o pecúlio, sua família não recebe o seu seguro.

Agora imagine, 20 anos ativo em uma oficina, seus IIr∴, por “divergência”, resolvem sair e abrir a sua própria oficina e você fica sem seus direitos. É óbvio que ninguém está aqui pelo incentivo do pecúlio mas, para algumas famílias, como pude presenciar, trouxe um pouco de tranquilidade até poderem se organizar com a partida do Ir∴.

A pior parte, e aí começo a entender, mas não concordar, a técnica da “iniciação em massa”. As taxas de iniciação variam muito entre as oficinas. Cada uma estipula o valor que acha “adequado” para aceitar um novo candidato. Aí chegamos em um ponto delicadíssimo.

Sustentar a oficina com iniciações, ou até mesmo, com o intuito de pagar dívidas com a potência, é a degradação dos pilares da maçonaria. As entrevistas são fracas, há um baixo nível de critério para indicações.

Quem dera, a taxa de iniciação fosse usada com fins hospitaleiros.

Mas então, por que ainda se abrem tantas oficinas no Brasil? Fortalece a imagem da potência dizer que tem algumas centenas de oficinas? Mesmo que a maioria esteja em situação de “bater colunas”?

Como fortalecer as colunas de uma oficina? Com regras justas, claras e não tendo uma potência que contribua em demasia para abertura de novas oficinas, que acabam prejudicando outras existentes, ficaria mais fácil preservar suas oficinas em saúde financeira e na composição de quadro.

A maioria dos templos está ocupado quase que diariamente, funcionando com diversas oficinas com números reduzidos em seus quadros. Nossa sugestão é que o processo de pedido de quites, devam obedecer um critério de “aviso prévio”, para que a loja possa se organizar com a previsão de saída do IIr∴, com exceção de casos específicos apresentados aos dirigentes.

Enquanto no endereço de seu templo houver oficinas com o quadro inferior a 50% da ocupação, não deve-se conceder a abertura de uma nova oficina neste mesmo endereço, aplicando-se a regra à todos os endereços que tiverem uma oficina desta potência.

Ou seja, fortalece as CCol∴ de sua oficina e em contrapartida, se tem um melhor controle para uma correta avaliação de novas indicações.

Autor: Ewerton Moraes Sarmento

Fonte: Estação Hospitaleiro

 

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Porque a vaidade é um vício

OBRA DE ARTE DA SEMANA: 'Narciso' de Caravaggio – Artrianon

Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades! Tudo é vaidade.” (Eclesiastes)

Procurando algo na internet dia desses, deparei-me com postagens sobre contos de Machado de Assis e comecei a lê-los, um seguido do outro. Escrevi certa vez que um livro é clássico quando pode ser lido em qualquer época e continua absolutamente atual. Bem, não preciso nem dizer que Machado de Assis é um dos mais clássicos dos clássicos.

O conto O Espelho me levou a pensar na questão da aparência versus mundo interno, ou seja, o “eu” que os outros veem e o “eu verdadeiro”, aquele que está dentro de mim. O conto é curto e genial. Assim, minha sugestão é: leia. Leia logo, o quanto antes. Ele é de Domínio Público, podendo ser lido gratuitamente.

O conto fala sobre um homem que acreditava que somos feitos de duas almas, “uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro…”. A alma que olha de dentro para fora seria nosso “eu interior” e a que olha de fora para dentro seria a forma como os outros nos veem, o personagem que criamos, a imagem – o perfil nas redes sociais, talvez…

No conto, o homem era pobre e quando foi nomeado alferes da Guarda Nacional, muita coisa mudou para ele. O posto militar lhe trouxe um reconhecimento externo, um status, que ele não tinha antes. Ele passou a ser visto pelos outros como alferes. E eis que as duas almas que ele considerava como duas metades da mesma laranja tornam-se apenas uma.

“O alferes eliminou o homem. Durante alguns dias as duas naturezas equilibraram-se; mas não tardou que a primitiva cedesse à outra; ficou-me uma parte mínima de humanidade. Aconteceu então que a alma exterior, que era dantes o sol, o ar, o campo, os olhos das moças, mudou de natureza, e passou a ser a cortesia e os rapapés da casa, tudo o que me falava do posto, nada do que me falava do homem. A única parte do cidadão que ficou comigo foi aquela que entendia com o exercício da patente; a outra dispersou-se no ar e no passado”.

Fico imaginando que “a cortesia e os rapapés da casa” hoje em dia se traduzem em curtidas, compartilhamentos, comentários e visualizações nos nossos perfis em redes sociais; ou em reconhecimentos públicos, entrevistas, alguma aparição na mídia ou momentos de fama instantânea; ou ainda privilégios que essa carcaça externa que vestimos muitas vezes nos proporciona, como tratamento diferenciado por se apresentar como médico, por exemplo.

E a “parte mínima de humanidade” acaba absolutamente sombreada e raquítica por trás dessa nossa “patente”, dessa nossa máscara, dessa nossa imagem, dessa nossa “alma exterior” que depende totalmente dos olhos dos outros.

No entanto, o conto continua. Devido justamente a esse novo status alcançado, foi convidado por uma tia a passar uns dias em sua fazenda e foi presenteado com um espelho por ela. Por motivos que não vou contar aqui, para não estragar a leitura do conto, ele se vê totalmente sozinho na fazenda por uns dias e perde completamente sua identidade. Ao se olhar no tal espelho, não consegue mais ver sua imagem nítida. Ele via apenas um borrão. O problema somente se resolve quando ele decide vestir a farda novamente. Com a farda, ele volta a se reconhecer no espelho; voltara a ser o alferes.

O conto termina assim e nós ficamos com aquela sensação incômoda no estômago.

O psiquiatra Flávio Gikovate chamaria essa tal alma exterior de Machado de Assis de vaidade, e a alma interior de autoestima. Ele escreveu certa vez um livro que classificava a vaidade como “o vício dos vícios”. Segundo comentário feito por ele mesmo certa vez, o livro foi um dos que teve pior resultado em vendas. Tanto que está disponível para download gratuito em seu site (mais um livro gratuito recomendado).

As pessoas não se interessaram em ler sobre vaidade, provavelmente porque esse é, realmente, um dos vícios mais humanos, demasiado humanos, de todos. A vaidade é mãe da inveja. Gikovate classificava a vaidade como um prazer erótico que sentimos ao perceber que nos destacamos de alguma maneira do restante do grupo, seja por questões materiais, intelectuais, físicas.

Gikovate dizia que todos nós sentimos um certo incômodo, um certo vazio, uma angústia, que está relacionado a inúmeras dúvidas que temos a respeito de nós mesmos, bem como à constatação de nossa insignificância. “A sensação de abandono e de insignificância que resta é, em certo sentido, insuportável”.

Assim, usamos diversos subterfúgios para amenizar esses vazios que sentimos diante da crueza da vida humana e de suas inúmeras tragédias e a vaidade é um deles. Sabemos que somos insignificantes no Universo e, dessa forma, a busca por um destaque individual dentro do grupo social nos gera esse prazer.

No entanto, ele classificou a vaidade como vício porque

o prazer que sentimos é sempre de natureza efêmera; precisamos de novas coisas para que a sensação se repita. Precisamos de cada vez mais coisas para sentirmos a mesma emoção; é como se fosse um vício no qual vamos nos afundando cada vez mais.”

Dessa forma, quando perdemos o “status” – que, no caso do livro, era o de alferes, mas pode ser status de médico, advogado ou ator, muito dinheiro, muita beleza, muita inteligência, uma família perfeita, ou até mesmo uma aparente ausência de vaidade, que também é uma maneira de se destacar, já que o ‘despojado’ quer parecer assim e isso lhe causa igual prazer – “perdemos ‘importância’ e isto nos remete à insignificância”, que ele diz que evitamos a todo momento de pensar;

Podemos dizer que se o atenuador do desconforto psíquico for apenas um paliativo e de duração temporária, nossa dor voltará a surgir de uma hora para outra e de forma cada vez mais intensa”, disse o Gikovate.

Ele, no entanto, afirma que não há como nos livrarmos da vaidade, que é uma condição humana. O que temos que fazer é nos esforçar para nos livrar da vaidade como vício, percebendo como ela funciona e tentando sempre atuar no caminho do bom senso, o que “não é nada fácil, especialmente para nós que não fomos treinados para esta tarefa; fomos educados para valorizarmos os exageros, os extremos, confundidos com a noção de destaques, de sucesso.”

Não é fácil, mas é o caminho. Exige esforço e um certo desapego de nossa parte, mas traz como recompensa um espelho nítido, mais fiel à nossa “alma interna” e bem menos dependente dos olhos, aplausos e curtidas dos outros.

Autora: Juliana Santin

Fonte: Genialmente Louco

Notas

[1] – A imagem que ilustra o texto é uma cena de O Espelho de Machado de Assis em HQ. Editora Mercuryo, 2012. Arte: João Pinheiro.

[2] – Para ler o conto O Espelho clique AQUI

[3] – Para ler o livro de Flávio Gikovate vá até a página da biblioteca do blog clicando AQUI

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Vaidade… “Vanitas vanitatum et omnia Vanitas”

São Jerônimo (que traduziu a bíblia do hebraico e aramaico para o grego e o latim) por Caravaggio (1605-6)
Galleria Borghese, Roma

“A vaidade é um princípio de corrupção”. Machado de Assis

A todo o momento, morrem pessoas. Na mitologia grega, foi dessa justificativa que se valeu o soberano do Olimpo, Zeus, imbuído de convencer seu irmão, Hades, a aceitar presidir o reino dos mortos: “Governarás sobre um reino no qual, a todo instante, não cessará de chegar novos súditos”.

Morrer é inevitável. E é justamente essa consciência da finitude o que nos define. Temos, uns mais, outros menos, uma espécie de prazo de validade aqui no mundo. Isto posto, como nos pautarmos por valores que garantam uma vida feliz, bem sucedida? O que podemos legar ao futuro quando a inevitável nos arrebatar?

Ponderar sobre a morte é, paradoxalmente, ponderar sobre a vida e nas “tentações” que se apresentam a nos iludir, nos desviando do caminho mais virtuoso e edificante. Um desses engodos está na vaidade: “humano, demasiado humano”, como diria o filósofo alemão Friedrich Nietzsche. E é sobre uma lição acerca da vaidade, representada num movimento artístico específico, que iremos versar. Esse movimento chama-se “Vanitas”.

Harmen Steenwijk – 1640

O tempo muda, e com ele, emergem novos conceitos, que respaldados pelo “zeitgeist” (Espírito do tempo) vigente impõe-se como modismo. Alguns modismos, como os “Vanitas”, tornam-se “clássicos”.

Em tempos d’outrora, distintivo (“chique”) mesmo era pendurar um enigmático “Vanitas” na parede da biblioteca (ocupada hoje pelo home-teather) e ter assim, assunto para se encetar uma boa prosa filosófica (vida, morte e tempo), enquanto se finalizava o agradável jantar saboreando um licor.

Pieter Gerritsz – 1630

Mas, o que é um “Vanitas”? Um “Vanitas” (do latim, vacuidade, futilidade, algo vão, sem valor) é a representação dramática de um gênero singular de natureza morta surgida no norte da Europa e países baixos, especialmente no século XVII, com forte conteúdo simbólico de cunho moralizante que busca chamar a atenção para o quão efêmera é a vida, fugidios seus prazeres, vãs suas glórias e para a irreversibilidade dessa condição que nos distingue do Criador: mortais.

Com o enaltecimento dos “Vanitas”, o gênero “natureza-morta” – o patinho feio da pintura –, tão apreciado pelos holandeses, foi alçado a patamar de honra.

Hendrik Andriessen – 1650

A morte era uma realidade muito próxima e os pregadores calvinistas eram fascinados pelos interditos do Livro de Eclesiastes, no Velho Testamento. Do ponto de vista filosófico, arrisco dizer que o gênero é “Existencialista”.

Uma obra dessa natureza, que é um imperativo chamado para reflexão sobre valores, expressava que a alma do detentor estava consciente da insignificância da vaidade humana. O paradoxo é que se pagava muito caro por tamanha insígnia de sapiência: ostentar um “Vanitas” era caríssimo, acessível somente às pessoas de posses.

Pieter Claesz – 1625

Nesse tipo de obra, explicitando perecividade e finitude, observamos a presença de figuras que aludem e contrapõe: 1) vida terrestre espiritual e contemplativa e, 2) vida terrestre hedonista, luxuriosa e sensual.

São recorrentes, então, insígnias de poder (colunas clássicas, coroas, tiaras, mitras, medalhas, elmos, escudos, emblemas heráldicos, espadas e outros adereços que remetam à honra), símbolos de fortuna e riqueza (moedas de ouro ou prata, tecidos requintados, sedas, veludos, bordados e brocados, pedras preciosas, pérolas, conchas e outros objetos preciosos), referências aos prazeres libidinais e luxuriosos (espelhos, cartas de baralho, vinhos, instrumentos musicais tais como flautas e charamelas), alusões à perecividade (flores frescas ou já murchando, frutas suculentas ou apodrecidas, relógios, ampulhetas, bolhas de sabão, borboletas, fio de vela já se apagando), além dos emblemas de imortalidade (livro) e de finitude (o crânio humano), impondo o inexorável destino comum a todos nós, que é morrer.

Adriaen van Utrecht – 1642

Condenador dos prazeres mundanos, pois erigido sob o solo do discurso de cunho religioso moralizante de apelativo fervor puritano, o melancólico “Vanitas” encontra respaldo na Bíblia judaico-cristã.

De lá para cá, muitas caveiras se passaram e o uso alegórico do crânio ganhou outros significados (que o diga o renomado estilista brasileiro, Alexandre Herchcovitch). E isso porque, a visão que temos da morte passa por “n” perspectivas: temor, reverência, respeito, angústia, perturbação, sarcasmo, cinismo, deboche e até provocação.

Diante dela, difícil é ser indiferente. Independente disso, intensamente expressiva em suas representações, a morte paira a espreita, triunfa sobre as frivolidades mundanas, sejam quais forem e, alheia ao que pensemos que seja, é o que é.

Edwaert Collier – 1693

Ao passar todo esse sermão através das pinceladas, um “Vanitas” pretende repreender a ignorância sobre os falsos valores, advertindo que: “(…) os seus vícios e horrores, as suas paixões desonestas, desvairadas de cegas, funestas, os seus apetites venais insaciáveis, as suas perigosas irracionalidades, as suas pulsões inconfessáveis (…)”, tem um fim. Esse é o drama.

A arte, como alertava o poeta grego Píndaro (518-438 a.C.), lembra ao homem o que ele deve ser. Assim como o desvario da nobreza dos séculos XVII foi sacudido pelos “Vanitas”, a atual sociedade líquida (termo cunhado pelo sociólogo Zygmunt Bauman), voltando a contemplar essas obras e, ponderando sobre esses ensinamentos, se enriquecerá, tornando essa breve passagem, mais digna e honrosa possível.

Philippe de Champaigne – 1671

Autora: Luciene Felix Lamy

Fonte: Blog Conhecimento Sem Fronteiras

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Os Dois Coveiros da Maçonaria – Parte II

PARTE II

O VAIDOSO ARROGANTE

Baixa autoestima e complexo de inferioridade

Nenhum ditador provocou ou vêm provocando tanto dano à Maçonaria quanto o maçom vaidoso, este sapador inveterado, este Cavalo de Troia que a destrói por dentro, sem o emprego de armas, grilhões, ferros, calabouços, e leis de exceção. Ele é indiscutivelmente o maior inimigo da Maçonaria, o mais nefasto dos impostores, o principal destruidor de lojas. Ele é pior do que todos os falsos maçons reunidos porque se iguala a eles em tudo o que não presta e raramente em alguma virtude.

Uma característica marcante que se nota neste tipo de maçom, logo ao primeiro contato, é a sua pose de justiceiro e a insistência com que apregoa virtudes e qualidades morais que não possui. Isso salta logo à vista de qualquer um que comece a comparar seus atos com as palavras que saem da sua boca. O que se vê amiúde é ele demonstrar na prática a negação completa daquilo que fala, sobretudo daquilo que difunde como qualidades exemplares do maçom aos Aprendizes e Companheiros, os quais não demora muito a decepcionar. Vaidoso ao extremo, para ele a Maçonaria não passa de uma vitrine que usa para se exibir, de um carro de luxo o qual sonha um dia pilotar. E, quando tem de fato este afã em mente, não se furta em utilizar os meios mais insidiosos para tentar alcançá-lo, a exemplo do que fazem nossos políticos corruptos.

Narcisismo em um dos extremos, e baixa autoestima no outro, eis as duas principais características dos maçons vaidosos e arrogantes. No crisol da soberba em que vivem imersos, podemos separá-los em dois grupos distintos, porém idênticos na maioria dos pontos: os toscos ignorantes e os letrados pretensiosos.

A trajetória dos primeiros é assaz conhecida:

Por serem desprovidos do talento e dos atributos intelectuais necessários para conquistarem posição de destaque na sociedade, eles ingressam na Maçonaria em busca de títulos e galardões venais, de fácil obtenção, pensando com isso obter algum prestígio. Na vida profana, não conseguem ser nada além de meros serviçais; de mulas obedientes que cedem a todos os tipos de chantagem. Por isso, fazer parte de uma instituição de elite como a Maçonaria (isso mesmo, de elite!)  produz neles a ilusão de serem importantes; ajuda a mitigar um pouco a dor crônica que os espinhos da incompetência e da mediocridade produzem em suas personalidades enfermas.

O segundo em quase tudo se equipara ao primeiro, porém com algumas notáveis exceções:

Capacitado e instruído, em geral ele é uma pessoa bem sucedida na vida. Sofre, porém, desse grave desvio de caráter conhecido pelo nome de “Narcisismo”, que o torna ainda pior do que o seu êmulo sem instrução. Ávido colecionador de medalhas, títulos altissonantes e metais reluzentes, este maçom é uma criatura pedante e intragável, que todos querem ver distante. No fundo ele também é um ser que se sente rejeitado; sua alma é um armário de caveiras e a sua mente um antro habitado por fantasmas imaginários. Julgando-se o centro do Universo, na Maçonaria ele obra para que todas as atenções fiquem voltadas para si, exigindo ser tratado com mais respeito do que os irmãos que atuam em áreas profissionais diferentes da dele. Pobre do irmão mais jovem e mais capacitado que cruzar o seu caminho, que ousar apontar-lhe uma falta, que se atrever a lançar-lhe no rosto uma imperfeição sua ou criticar o seu habitual pedantismo! O seu rancor se acenderá automaticamente e o que estiver ao seu alcance para reprimi-lo e intimidá-lo ele o fará, inclusive lançando mão da famosa frase, própria do selvagem chefe de bando: Sabe com quem está falando!!! Desse modo ele acaba externando outra vil qualidade, que caracteriza a personalidade de todo homem arrogante: a covardia.

O número de irmãos que detesta ou despreza este tipo de maçom é condizente com a quantidade de medalhas que ele acumula na gaveta ou usa no peito. Na vida profana seus amigos não são verdadeiros; são cúmplices, comparsas, associados e gente que dele se acerca na esperança de obter alguma vantagem. E nisso se insere a mulher com a qual vive fraudulentamente. Todos os que o rodeiam, inclusive ela, estão prontos a meter-lhe um merecido chute no traseiro tão logo os laços de interesse que os unem sejam desfeitos. O seu casamento é um teatro de falsidades e o seu lar um armazém de conflitos. Raramente familiares seus são vistos em nossas festas de confraternização. Quando aparecem, em geral contrariados, não conseguem esconder as marcas indeléveis de infelicidade que ele produz em seus rostos.

Em sua marcha incessante em busca de distinções sociais, que supram a sua insaciável necessidade de autoafirmação, é comum vermos este garimpeiro de metais de falso brilho farejando outras organizações de renome, tais como os clubes Lyons e Rotary, e gastando nessas corridas tempo e dinheiro que às vezes fazem falta em seu lar. A Maçonaria, que tem a função de melhorar o homem, a sociedade, o país, e a família, acaba assim se convertendo em uma fonte de problemas para os seus familiares; e ele, em uma fonte de problemas para a Maçonaria.

Um volume inteiro seria insuficiente para catalogar os males que este inimigo da paz e da harmonia pratica, este bacilo em forma humana que destrói nossa instituição por dentro, qual um cancro a roer-lhe as células, de modo que limitar-nos-emos a expor os mais comuns.

Comportamento em loja

Incapaz de polir a Pedra Bruta que carrega chumbada no pescoço desde o dia em que nasceu, de aprimorar-se moral e intelectualmente, de lutar para subtrair-se das trevas da ignorância e dos vícios que corrompem o caráter; de assimilar conhecimentos maçônicos úteis, sadios e enobrecedores, para na qualidade de Mestre poder transmiti-los aos Aprendizes e Companheiros, o que faz o nosso personagem? Simplesmente coloca barreiras em seus caminhos, de modo a lhes retardar o progresso! Ao invés de estudar a Maçonaria, para poder contribuir na formação dos Aprendizes e Companheiros, de que modo ele procede? Veda a discussão sobre assuntos com os quais deveria estar familiarizado, fomentando apenas comentários sobre as vulgaridades supérfluas do seu cotidiano! Ao invés de encorajar o talento dos mesmos, de ressaltar suas virtudes e estimular o seu desenvolvimento, o que faz ele? Procura conservá-los na ignorância de modo a escamotear a própria! Ao invés de defender e ressaltar a importância da liberdade de expressão e da diversidade de opiniões para a evolução da humanidade, como ele age? Censura arbitrariamente aqueles cujas ideias não estejam em harmonia, ou sejam contrárias às suas! Ao invés de fomentar debates sobre temas de importância singular para o bem da loja em particular e da Maçonaria em geral, como age ele? Tenta impedir a sua realização por carecer de atributos intelectuais que o capacitem a participar deles! E, nos que raramente promove, como se comporta? Considera somente as opiniões daqueles que dizem “sim” e “sim senhor” aos seus raramente edificantes projetos!

Tal como o maçom supersticioso, este infeliz em cujo peito bate um coração cheio de inveja e rancor nutre ódio virulento e dissimulado pela liberdade de expressão, que constitui um dos mais sagrados esteios sobre os quais repousam as instituições democráticas do mundo civilizado, uma das bandeiras que a Maçonaria hasteou no passado sobre os cadáveres da intolerância, da escravidão e da arbitrariedade.

Dos atos indecentes mais comumente praticados por este falsário, o que mais repugna é vê-lo pregando “humildade” aos irmãos em loja, em particular aos Aprendizes e Companheiros, coberto da cabeça aos pés de fitões, joias e penduricalhos inúteis, qual uma árvore de natal. Outro é vê-lo arrotando, em alto e bom som, ter “duzentos e tantos anos de Maçonaria” e exibindo o correspondente em estupidez e mediocridade. O terceiro é vê-lo trajando aventais, capas, insígnias, chapéus e colares, decorados com emblemas que lembram tudo, exceto os compromissos que ele assumiu quando ingressou em nossa sublime e veneranda instituição.

Cego, ignorante e vaidoso, nosso personagem não percebe o asco que provoca nas pessoas decentes que o rodeiam.

Como já foi dito, a Maçonaria serve apenas de vitrine para ele. Como não é possível permanecer sozinho dentro dela sem a incômoda presença de outros impostores – os quais não têm poder suficiente para enxotar–, ele luta ferozmente para afastar todo e qualquer novo intruso, imitando alguns animais inferiores aos humanos na escala zoológica, que fixam os limites de seus territórios com os odores de suas secreções e não toleram a presença de estranhos. Qualquer irmão que comece a brilhar ao lado desta criatura rasteira é considerado por ela inimigo. A luz e o progresso do seu semelhante o incomoda, fere o seu ego vaidoso. Por este motivo tenta obstaculizar o trabalho dos que querem atuar para o bem da loja; por isso recusa-se a transmitir conhecimentos maçônicos (quando os possui) aos Aprendizes e Companheiros, sobretudo aos de nível intelectual elevado, ou os ministra em doses pífias, para que futuramente não sejam tomados como exemplos e ofusquem ainda mais a sua mediocridade. Um maçom exemplar, íntegro, que cumpre rigorosamente os compromissos que assumiu quando ingressou em nossa instituição, não raro converte-se em alvo de suas setas, pois seus olhos míopes não conseguem ver honestidade em ninguém; sua mente podre o interpreta como potencial “concorrente”, que nutre interesses recônditos semelhantes aos seus.

O maçom arrogante mal conhece o significado de nossas belas e simples alegorias. Se as conhece, as despreza. Sua mente acha-se preocupada unicamente com o sucesso de suas empreitadas, em encontrar maneiras de estar permanentemente ao lado das pessoas cujos postos ambiciona. Fama e poder são os seus dois únicos objetivos, tanto na vida maçônica, como na profana. As palavras Liberdade, Igualdade e Fraternidade, que compõem a Trilogia Maçônica, não fazem parte do seu vocabulário, e com frequência é visto pisoteando os valores que elas encerram. A história, a filosofia e os objetivos da nossa Veneranda Instituição não lhe despertam o menor interesse, pois é frio, calculista, e não tem sensibilidade nem conhecimento para compreendê-los e assimilá-los. Ele é diametralmente oposto ao que deve ser o maçom exemplar, em todos os pormenores. É a antítese de tudo o que a Maçonaria apregoa e deseja de seus membros: uma criatura vil e rasteira que semeia a discórdia, afugenta bons irmãos, e termina por destruir ou fragmentar a loja (ou lojas), resultado às vezes de anos de trabalho árduo, caso ela teime em não se colocar sob a sua batuta ou se mostre contrária às suas aspirações egoístas.

A insolência desse tipo de maçom – e também o asco que destila–, vai crescendo conforme ele vai “subindo” nos altos graus (ou graus filosóficos), lixo maçônico fabricado por impostores no passado unicamente para explorar a estupidez e a vaidade de homens como ele. Sentindo-se importante por ter sido recebido em determinado grau, com a pompa digna de um rei, ele passa a considerar-se superior aos irmãos de graus “inferiores”, em particular aos Aprendizes e Companheiros, ignorando o que reza o segundo landmark, que estabelece a divisão da Maçonaria Simbólica em apenas três graus. Mas reservar um tempo para dedicar-se à sua loja, um momento para confraternizar com irmãos íntegros e honestos, ler algo de útil que possa servir de instrução a si e aos demais, essas são as suas últimas preocupações. O seu tempo disponível ele o reserva inteiramente às festinhas fúteis, nas quais pode ser notado e lisonjeado, onde pode ajuntar-se a outros maçons falsos e vulgares, prontos para lhes enterrar um punhal nas costas na primeira oportunidade que surgir. Perceba o leitor com que velocidade esse “irmão” deveras atarefado arruma tempo quando é chamado para arengar em um tablado representando a Maçonaria! Note a pontualidade com que chega à passarela onde vai desfilar e ser fotografado com os seus paramentos. Observe como ele fica cheio de si quando é agraciado com uma rodela de lata qualquer ou vê o seu lindo rosto estampado nas páginas de alguma revista maçônica! Perceba como se curva aos pés dos que tem mais prestígio e poder do que ele! Note como ele os bajula!

Este prevaricador vagabundo não trabalha e não deixa os outros trabalhar para não ter de arregaçar as mangas também. Quando se mete a ministrar instruções aos Aprendizes e Companheiros ele o faz de modo precário, sem estar familiarizado com elas. Raramente sabe responder questões que os irmãos lhe dirigem. Tergiversa sempre com a mesma resposta: É preciso pesquisar! Ele não faz nada porque não sabe fazer nada, não quer aprender nada, e no íntimo não gosta da Maçonaria e não ama seus irmãos! Nossas reuniões são para ele um fardo. Nas vezes que comparece em loja, exige ser ouvido e jamais dá atenção ao que falam os demais, obrando para que a sua palavra sempre prevaleça nas decisões a serem tomadas. Quando o seu nome não consta na Ordem do Dia – o que significa que não terá a oportunidade de exibir a sua hipocrisia ou arengar as suas imposturas–, retira-se antes da reunião terminar ou, quando permanece, o faz com o olhar fixo no relógio.

Campeão em faltas e em delitos, quando este falso maçom comparece à loja ele o faz para dar palpites indevidos, censurar tudo e todos, propor projetos mirabolantes e soluções inconsistentes com os problemas que surgem em nossas relações. Jamais faz uso de críticas sadias e construtivas, aquelas que apontam erros e sugerem soluções para os mesmos.

Comportamento na Sociedade

Passemos agora à exposição do comportamento deste detestável impostor na sociedade, outra praia onde adora se exibir, embora poucos o notem.

Ele circula pelas ruas do bairro onde vive de nariz empinado, cheio de empáfia, tentando vender a todos, sobretudo aos mais humildes, a falsa imagem de alguém assaz importante. Ostentando correntes, anéis, gravatas, broches e outros adereços maçônicos – alguns com peso suficiente para curvar o tórax–, tão logo se acerca de uma roda de amigos, ou melhor, de gente com paciência para aturá-lo, ele passa a ensejar conversas maçônicas desnecessárias, fazer alarde de sua condição de maçom e de ser membro de uma poderosa “gangue”, com o único propósito de colocar-se acima deles. Quando, porém, um profano lhe dirige algumas perguntas a respeito de nossa instituição, movido por uma sadia e natural curiosidade, ele responde geralmente o que não sabe, fitando-o de cima para baixo, com desprezo, como se estivesse encastelado sobre um pedestal de ouro.

Como o caracol, este tipo de maçom costuma deixar um rastro visível e brilhante por onde trafega, tornando muito fácil a identificação sua e do seu paradeiro, que é o que ele efetivamente deseja, embora afirme o contrário. Mas, para a sua infelicidade, pouca gente dá importância aos seus recados vaidosos. O automóvel, o lar e o local onde trabalha correspondem ao exoesqueleto deste animal, ao passo que os adereços e os objetos maçônicos que ele usa e espalha por todos os lados à gosma que libera. Impulsos provenientes de regiões recônditas do cérebro onde se alojam o seu complexo de inferioridade e a sua baixa autoestima dizem a ele onde derramá-la.

Do mesmo modo que prostitui nossa instituição, transformando-a em templo da vaidade, ele corrompe também a natureza de muitos objetos inanimados, desvirtuando os propósitos para os quais foram concebidos. Os vidros do automóvel não servem para proteger os passageiros do vento e da chuva, mas para ostentar adesivos maçônicos escandalosos que avisam os transeuntes e os motoristas dos carros que estão na retaguarda que “alguém muito importante” maneja o volante. As paredes da sua casa não servem como divisórias, mas de outdoors para a colagem de diplomas maçônicos que levam o seu nome. O isqueiro ele usa para tentar acender um cigarro que talvez nem fume ou sabendo que ele não funciona mais (o importante é as pessoas notarem o compasso e o esquadro colados nele!). A caneta com compasso encravado na tampa ele usa para mostrar que é maçom àquele que está perto do papel no qual finge estar escrevendo alguma coisa. O relógio da sala não serve para mostrar a hora certa, mas para dizer aos visitantes que o seu dono é maçom. As estantes da sala não servem para acomodar bons livros, mas para armazenar troféus, medalhas, placas comemorativas, mimos e tudo o mais que avise que há um maçom por ali. O mesmo vale para pratos, talheres, lenços, gravatas, bonés, bolsas, bonecos, malas, bengalas e, pasmem, até revólveres e espingardas! (ver fotos) Enfim, qualquer objeto que possa lhe servir de propaganda ele o corrompe.

Prejuízos

O Maçom arrogante sabe muito bem que é um desqualificado moral, que carece das virtudes necessárias para dirigir homens de caráter, mas mesmo assim quer assumir o cargo de Venerável e nele perpetuar-se por tempo indeterminado, se possível. Insolente, julga-se o único com aptidão para empunhar o malhete, menoscabando a capacidade dos demais irmãos. Sempre que pode procura manobrar as eleições para que os cargos em loja sejam preenchidos por integrantes de sua medíocre camarilha, que, uma vez empossada, vai aprovar seus atos malsãos e alimentar a sua vaidade. Dessa maneira ele trava as rodas da loja, impedindo-a de progredir, de desfraldar as suas velas.

Nosso personagem costuma mais faltar do que comparecer às reuniões, como já foi dito. Quando o faz, é quase sempre para tentar colocar-se em destaque, humilhar alguém, violar regulamentos, e fazer prevalecer os seus caprichos pessoais. É claro que ele não age só, pois se assim fosse a sua eliminação seria fácil e sumária. Ele conta com o respaldo de pequenos grupelhos de gente sórdida e submissa, que aprova suas ações, que corrompe e deixa-se corromper. Às vezes conta até com a cumplicidade dissimulada de alguns delegados, que, por motivos políticos ou de ordem pessoal, fazem vista grossa aos seus insidiosos manejos e prevaricam no que constitui uma das mais importantes missões dentro da Maçonaria.

Terminado o período de sua administração como Venerável, este impostor passa a meter o nariz em assuntos que não mais lhe dizem respeito, usurpando funções de outros irmãos da loja, incluindo as do seu sucessor. Quer mandar mais do que os outros, quer ser o dono da loja; quer admitir candidatos sem escrutínio para engrossar a sua camarilha; quer manobrar a todos e violar leis; expõe os Aprendizes e Companheiros a constantes querelas com outros Mestres, quase sempre motivadas pela vaidade e pela sede de poder.

Especialista em apontar erros nos outros, o maçom arrogante jamais admite um seu. Quando, porém, as circunstâncias tornam isso impossível, ele o faz rangendo os dentes e disparando setas em todas as direções, muitas vezes ferindo os poucos irmãos que o querem bem. Além de tudo é um indivíduo vingativo. Caso sofra uma contrariedade qualquer, ou veja descartada uma irracional conjectura sua, ele passa a fomentar intrigas e provocar cismas na loja. Aquele que for investigar as causas que levaram uma determinada oficina a abater colunas notará em seus escombros a marca indelével da sua mão, que muitas vezes deixa impressa com orgulho!

Elemento altamente desestabilizador e perigoso, o maçom vaidoso é o principal responsável pelo enfraquecimento das colunas de uma loja, pela fuga em massa de bons irmãos, e pela decadência da Maçonaria de uma forma geral. Quanto maior for o seu número agindo no corpo da Maçonaria, mais fraca, enferma e suscetível à contração de outros males ela se torna, mais exposta a escândalos e prejuízos ela fica. Sua eliminação é, portanto, condição si ne qua nom para a conservação da saúde da nossa Sublime Instituição.

Fim

Autor: Ricardo Vidal

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Os Dois Coveiros da Maçonaria – Parte I

Meus prezados Irmãos!

Meus amados irmãos Aprendizes e Companheiros!

Mais de uma década de rica experiência na Maçonaria, de convívio com pessoas que pensam e agem das mais diversas maneiras; de observação, pesquisa, investigação e busca incessante da verdade, permitiu-me identificar inúmeros tipos de maçons, dois  dos quais são altamente deletérios à saúde da nossa sublime instituição, fonte de seus principais problemas: o místico supersticioso e o vaidoso arrogante. Conhecer um pouco da personalidade desses dois impostores,  existentes em nosso meio em razoável número, bem como as desordens psicológicas que definem o comportamento  anormal e antimaçônico de ambos, é uma boa maneira de proteger-se deles, em especial em situações em que não é fácil ou possível evitá-los.

Estou certo de que o presente trabalho será de grande valia para os irmãos mais novos, sobretudo para aqueles que ingressaram em nossa instituição com a mente cheia de pensamentos honestos e ideais elevados. Servirão também para fazer corar de vergonha aqueles que se enquadram em nossa análise, persuadidos de que estão a salvo dos olhares atentos de irmãos mais esclarecidos.

PARTE I

O MÍSTICO SUPERSTICIOSO

O paraíso do idiota é o mundo de ilusões por ele criado.

Antes de iniciarmos a análise desse tipo de maçom, seria interessante passarmos os olhos em alguns princípios fundamentais da Maçonaria que ele contraria ou ignora, total ou parcialmente:

  • A Maçonaria não impõe limites á livre INVESTIGAÇÃO DA VERDADE e exige de todos a maior TOLERÂNCIA;
  • A Maçonaria é acessível a homens de todas as CLASSES, CRENÇAS RELIGIOSAS E OPINIÕES POLÍTICAS, excetuando-se aquelas que privem o homem da liberdade de consciência, restrinjam os direitos e a dignidade da pessoa humana, ou que exijam submissão incondicional aos seus chefes, ou, ainda, PRIVEM O HOMEM DA LIBERDADE DE MANIFESTAÇÃO DO PENSAMENTO;
  • O objetivo da Maçonaria é COMBATER A IGNORÂNCIA em todas as suas modalidades;
  • E o FANATISMO e as paixões que acarretam o OBSCURANTISMO (*).

Intolerância e mediocridade

Violador contumaz dos regulamentos acima, e de dezenas de outros que disciplinam as nossas relações, incluindo os landmarks, o maçom supersticioso é inimigo da verdade e amante da mentira. A facilidade com que se entrega aos encantos de certas imposturas – algumas fabricadas por bárbaros e alucinados que viveram na Idade do Bronze –, chega, em alguns casos,  a ser revoltante. Preguiçoso mental por excelência – característica notória de todo indivíduo supersticioso –, ele nunca se dá ao trabalho de investigar o que lhe apregoam ou as falsidades que instila deliberadamente na própria cabeça, permanentemente cheia de minhocas e voltada para o mundo das coisas extravagantes. Ele absorve dogmas, fábulas e teorias mirabolantes sem jamais submetê-las ao crivo da razão. Quanto mais fantástico e absurdo é o mito que lhe apregoam, mais fácil e avidamente ele o devora. Para ele as coisas irreais valem mais  do que as reais; as invisíveis, mais do que as visíveis. Runas, mantras, chacras, cristais, sefirotes, bruxedos, pentagramas e amuletos valem mais do que pontes, pomares, diques, vacinas, adubos, medicamentos, escolas, asilos, Filosofia, Matemática, Medicina etc. A Ciência não é objeto de suas preocupações, a Filosofia o aborrece e da realidade ele foge como a barata das cerdas de uma vassoura. São coisas incompatíveis com o seu cérebro indolente e obscuro, porque a Ciência requer investigação, a Filosofia  exige estudo e reflexão e a realidade não combina com a covardia. No seu tosco entendimento, esses assuntos maçantes devem ser deixados a cargo dos desprezíveis materialistas,  indivíduos afastados de Deus.

O maçom supersticioso não vê com bons olhos o progresso da Ciência e raro é o que têm respeito pelos irmãos que só aceitam o que ela ensina e a experiência confirma. Nesses costuma lançar a pecha de ateus, ímpios, descrentes e outros termos rebaixados, cujas etimologias muitas vezes nem conhece.  Autênticas e dignas de louvor são para ele apenas a confissão religiosa que professa, as quimeras que fermentam em seu cérebro, e as divindades nas quais crê. Tudo o mais ele rechaça como coisa vil e falsa.

Quais são os ídolos do maçom supersticioso? Os irmãos Francisco Miranda, George Washington, Simon Bolívar, San Martin e Gonçalves Ledo, que sacudiram o jugo do colonialismo e libertaram o continente americano de seus opressores europeus? Não, são os impostores Cagliostro e Saint-Germain, dois assíduos frequentadores de cadeias que perambulavam pela Europa no séc. XVIII, aplicando golpes por onde passavam! Por esses nutre um amor todo especial, ainda que em suas respectivas folhas de serviço não conste o registro de um único ato comprovado praticado em prol da humanidade.

Em quem se espelha esse tipo de maçom? Nos irmãos Tomas Jefferson, Tomas Paine e Lafayette, que fundaram a nação mais poderosa e próspera do planeta, os Estados Unidos da América? Talvez ele nem saiba quem foram esses três gigantes! Sua preferência é por gente ignota, paspalha e sem biografia, tais como Martinez de Pasqually e o Barão de Tschouldy, dois impostores que inundaram a coreografia maçônica de graus fraudulentos!

Quais são os “líderes espirituais” do nosso maçom? Algum filósofo que contribuiu para içar a humanidade das trevas da ignorância, abrindo-lhe as alamedas do progresso, tais como os irmãos Montesquieu e Voltaire? Não, são os visionários Emmanuel Swedemborg e Luís Claude de Saint-Martin, que em seus livros descreveram os mistérios da criação com a mesma autoridade que algumas doses de aguardente confere a um bêbado, que fala o que lhe vem na cabeça quando fica fora de si!

Nas palavras de quem nosso personagem dá crédito? Nas que se acham nas páginas monumentais deixadas pelos cientistas maçons Alexander von Humboldt e Samuel Hahnemann? Não, interessam-se mais pelas depravações saídas da pena de libertinos como Charles Leadbeater e Aleister Crowley, dois notórios maníacos!

Quais são os poetas preferidos do maçom em exame? Os imortais e insignes irmãos Pushkin, Lessing e Goethe?  Não, conhece-os apenas pelo nome, quando os conhece! Em compensação, tem na ponta da língua cada parágrafo escrito pelos impostores e visionários Eliphas Levi, Papus, Madame Blavastky e Anne Besant, que poluíram a Maçonaria com suas teorias absurdas!

Quais são as preferências musicais desse nosso irmão sonhador? Alguma sinfonia composta pelos irmãos Haydn, Liszt ou Mozart? Não, prefere ouvir ruídos eletrônicos conhecidos no mercado como música New Age, ou, opcionalmente, compassos repetitivos e distorcidos produzidos pela cítara de algum faquir esquelético!

Que livros figuram na estante do maçom supersticioso? Algum escrito pelos luminares maçons Franklin, D´Alembert e Knigge? Não, prefere orná-la com engendros sensacionalistas e inúteis do tipo Conceito Rosacruz do Cosmos (Max Heindel), O Casamento Alquímico de Christian Rozencreutz (autor desconhecido), A Força Oculta (Helena P. Blavatsky),  Dogma e Ritual da Alta Magia (Eliphas Levi), Eram os Deuses Astronautas (Erich von Daniken), O Despertar dos Mágicos (Jacques Bergier e Louis Pauwels) e outros lixos congêneres que usa para adubar diariamente o jardim do mundo de ilusões em que vive!

O que é comum encontrarmos na cabeceira da cama onde se deita o nosso maçom, quando ele nos convida a conhecer a sua residência?  Algum livro útil que fortaleça as funções do cérebro? Alguma obra que aperfeiçoe e aguce o raciocínio? Algum material útil à sociedade e ao progresso do país? Não,  mais fácil é acharmos amuletos de toda a natureza ou, como eu mesmo já tive oportunidade de presenciar, copos contendo pedaços de cristais imersos em água, cuja função é, segundo ele, atrair “vibrações positivas” e as “forças cósmicas do Universo”. (**)

Inconsciente de sua própria pequenez, incapaz de enxergar um palmo na frente dos olhos embotados pelo véu da ignorância, ao discorrer sobre os enigmas da criação o maçom supersticioso acaba se revelando uma criança atrevida, quando não um perfeito idiota. Ele fala da criação dos mundos com uma fluência tal que torna difícil conter o riso. Da maneira como descreve o Grande Arquiteto do Universo, chega a passar a impressão de ser o próprio, ou pelo menos alguém com quem diariamente toma um trago no bar da esquina. No íntimo, ele não crê nem aplica os pontos das doutrinas quiméricas que apregoa, sobretudo aqueles que versam sobre a prestação de ajuda aos pobres. Raro é o que não se omite nesse particular. Ele costuma deixar a máscara cair quando um irmão necessitado solicita a sua ajuda ou uma criança pobre aparece-lhe na frente mendigando algo para comer ou para se vestir.

Lixeiros e Mercadores de Ilusões

O maçom supersticioso age como lixeiro na Maçonaria, só que de maneira inversa ao do valoroso funcionário do serviço público de limpeza, que cuida do asseio de nossas ruas. Toda a porcaria que consegue catar no esterco místico da sociedade ele traz para dentro da sua loja para fortalecer suas arengas,  conquistar sequazes, e gente com quem compartilhar suas  fantasias excêntricas. Se a loja dispõe de uma biblioteca, ele logo a transforma em depósito de lixo, em uma réplica quase idêntica da que possui em casa, entulhando-a com títulos iguais ou semelhantes aos citados lá atrás.

Por fanatismo, inocência, ou mesmo princípio de loucura, nosso personagem assim age porque julga ser uma criatura especial,  um verdadeiro “iniciado”, um iluminado com missão divina na Terra, quando na verdade não passa de um desequilibrado emocional, de um visionário movido por “delírios de poder”,  de um infeliz que nutre certo desprezo pela vida na Terra. Seu  comportamento proselitista, contrário ao regulamento que proíbe toda e qualquer discussão de caráter político ou religioso em loja, compromete o maior tesouro que a Maçonaria “ainda”  possui, único no planeta, que é o de poder reunir, sob um mesmo teto, irmãos de todas as nacionalidades, etnias e religiões.

Ao lado desse irmão não poderia faltar, é claro, o onipresente  mercador de ilusões, o maçom falsário que vive com ele em permanente estado de simbiose, que lucra com a sua credulidade. Este embusteiro começa a sua carreira na Maçonaria construindo pacientemente uma auréola mística em torno de si, deixando transparecer aos desavisados ser um homem sábio e virtuoso, de ser o “conhecedor da verdadeira Maçonaria”.  Sua única intenção é mais tarde colocar à venda no mercado as porcarias que vai  escrever com a sua pena fraudulenta, a partir de concepções  quiméricas geradas nos antros obscuros do seu cérebro ou de  material sensacionalista publicado dentro e fora do país.   Mais do que lixeiro, o mercador de ilusões atua na Maçonaria da mesma forma que o proxeneta na zona do baixo meretrício. Não há nada que fique a salvo de suas prostituições: nossa filosofia maçônica de vida, nossos símbolos, nossas reuniões, nossas alegorias, nossas comemorações, nossos banquetes e, lamentavelmente, nossos irmãos Aprendizes e Companheiros. Esses são as suas maiores vítimas, pois enquanto não adquirem resistência intelectual e conhecimentos maçônicos suficientes  para rechaçarem as suas imposturas (alguns não adquirem  nunca!), eles as assumem como verdades sublimes e, o que é pior, passam a apregoá-las por toda parte como tais, inclusive  no mundo profano, expondo nossa instituição ao ridículo. Em tudo esse defraudador põe o seu dedo ruinoso para corromper e mistificar, jamais se lembrando, porém, de usá-lo para ressaltar o real, simples, mas magnânimo propósito de nossas alegorias, QUE É O DE FAZER COM QUE O MAÇOM (pedreiro por definição) JAMAIS SE ESQUEÇA DO SEU PAPEL DE CONSTRUTOR SOCIAL. Com o tempo, a palavra dele vai adquirindo ares de autoridade e os erros que dissemina nas  calamidades que escreve passam a triunfar sobre a verdade.

Comportamento e atuação como Mestre Maçom

Como Mestre esse tipo de maçom desencoraja a livre  e sadia investigação dos fatos, de modo a fazer com que os Aprendizes e Companheiros assumam como verdadeiras suas ridículas superstições. Por ser um zero intelectual, costuma tratá-los como crianças, apregoando-lhes pseudociências, anedotas místicas pueris, e bobagens de fácil assimilação. Só recebem o seu aplauso os trabalhos que estiverem floreados com as quimeras com as quais está de acordo. Ao mesmo tempo opõe-se aos Mestres que se esforçam para ministrar-lhes ensinamentos  maçônicos úteis.

Sua estupidez ele a demonstra quando é questionado a respeito das doutrinas que tenta propagar em loja. Quando não as ignora por completo, como é de praxe, conhece-as muito superficialmente, limitando-se apenas a repetir chavões surrados assoprados em seu ouvido por outros visionários tão ou mais ingênuos do que ele. Com frequência, e às vezes sem se dar conta do desrespeito com que o faz, o maçom supersticioso costuma inserir seus irmãos no âmbito de suas fantasias místicas particulares, negando esse mesmo direito aos outros quando está em seu poder fazê-lo. Como orador, ou mesmo quando pede a palavra nas reuniões, é quase sempre para arengar uma impostura que absorveu sem exame ou uma frase feita colhida em algum dos “livros” que enumeramos há pouco. Como Venerável, recorre com frequência ao expediente arbitrário da censura para defender da destruição uma fábula qualquer que cultiva no cérebro, ou mesmo para silenciar um irmão que tente incinerá-la com a tocha da razão.

Por fim, o maçom supersticioso tem carinho especial pelas “verdades reveladas” que, a rigor, nada mais são do que anedotas destituídas de sentido impressas em papel pintado, transmitidas em sonho por criaturas do além a um número seleto e reduzido de bárbaros que supostamente viveram nos pródromos da civilização. Esse amor é de certa forma compreensível porque, primeiro, essas “verdades” são brechas que facilitam o enxerto de imposturas (de fabricação própria ou de terceiros) em nossas alegorias e manuais de instrução; segundo porque os rituais de alguns “altos graus”, que ele assume como maçônicos, acham-se repletos delas, de forma velada ou explícita, o que pode encorajar o seu “instinto reformador” a torná-los ainda mais fraudulentos do que já são, se estiver em seu poder fazê-lo, tal como muitas vezes ocorreu no passado; terceiro porque elas permitem-no transformar a Maçonaria – pelo menos em sua imaginação –,  em uma espécie de local de culto particular, em apêndice de alguma religião que o frustra ou frustrou. Quando se compara os rituais modernos com os originais – ou mesmo os atuais em circulação –, nota-se de imediato a enorme quantidade de invencionices grosseiras que foram sendo introduzidas ao longo dos anos por impostores como Cagliostro, Saint-Martin, Fessler, Willermoz e outros, de modo a adequá-los às suas personalidades excêntricas.

Não é demais sublinhar aqui que essas “verdades reveladas”,  que se esfarelam facilmente quando recebem o bafejo de um raciocínio bem aplicado, durante séculos foram empregadas para atrasar a marcha da Ciência, cobrir o planeta de místicos e monges inúteis; escravizar a humanidade; derramar rios de sangue e lágrimas; encher o mundo de órfãos e viúvas, inventar instrumentos de tortura e dor; destruir civilizações inteiras, acender as chamas da perseguição; encarcerar cientistas, investigadores, poetas e filósofos honestos (muitos maçons); promover guerras; atiçar levantes sangrentos; semear o ódio e fazer milhares de vítimas por toda parte.

Prejuízos à Maçonaria

Essa fé que ordena-nos crer cegamente no que nos dizem, que não permite o emprego da razão, é a fé do ignorante; ou do estúpido que se converte em fácil instrumento dos demais. O homem que não estuda o que não compreende, que aceita sem exame o que lhe dizem, degenera sua condição, igualando-se ao bruto. (Ritual do Grau 18 – Cavaleiro Rosa Cruz – Rito Escocês Antigo e Aceito)

A fé no desconhecido é patrimônio da ignorância. (Ritual do Grau 19 – Grande Pontífice – Rito Escocês Antigo e Aceito)

O maçom supersticioso difere-se do obscurantista religioso apenas na arte da dissimulação e no que diz respeito aos seus objetos de culto. Ambos são inimigos da liberdade de expressão e amigos da censura e da arbitrariedade: o primeiro no íntimo e  o segundo de forma manifesta. No resto, são iguais em quase tudo.

Julgando-se acima da lei, nosso personagem não compreende que para que a “Fraternidade dos Maçons Livres e Aceitos” continue merecendo assim ser denominada e funcionando, é mister que seus membros guardem para si suas fantasias e crenças particulares, bem como respeitem outras formas de fé e maneiras de pensar, tal como mandam os nossos regulamentos.  Teimoso, intolerante e insolente, ele chega às vezes ao extremo de agir como um velho decrépito, não importando a sua idade e o ridículo que o seu comportamento suscita. Em qualquer esfera da vida, ante um fato novo e incontestável, uma descoberta científica que lança por terra uma  quimera que fermenta em seu cérebro, ele passa a odiar o fato e,  sobretudo quem o descobriu. Na Maçonaria, procede de modo idêntico: mesmo estando demonstrada a incompatibilidade de suas concepções com a realidade,  com a história e filosofia maçônicas, continua a defendê-las com unhas e dentes, caso creia nelas. De maneira alguma se curva às evidências e aos fatos, que falam mais alto do que qualquer opinião.

Os Landmarks 19, 20 e 21, que estabelecem, respectivamente, a obrigatoriedade do maçom crer em um “princípio criador”, crer em uma vida futura, e crer nas verdades reveladas em algum “Livro da Lei”, parecem ser os únicos regulamentos que o nosso maçom costuma obedecer, ou melhor, supõe-se que o faça, pois não há como saber no quê ele realmente crê na intimidade, sobretudo se for um hipócrita. E hipocrisia é o que não falta no meio religioso. (***)  Além do mais, como são bastante vagos nesses três pontos, esses landmarks obsoletos – que por estarem em frontal contradição com a liberdade de pensamento há muito tempo já deveriam ter sido suprimidos –, podem ser  interpretados de inúmeras maneiras e, por isso mesmo, serem empregados para impor o arbítrio a um irmão que professa uma crença incomum (ou nenhuma), censurar concepções a respeito da vida além-túmulo diferentes das que estão na moda, criticar o que alguns entendem como “revelação” e, ainda, anatematizar grupos religiosos minoritários que manifestem suas crenças particulares, ainda que de maneira honesta. Tente o leitor afirmar, por exemplo, que crê em um deus diferente do judaico-cristão e observe o semblante de desaprovação do maçom em exame! Melhor ainda, diga com ar de seriedade que crê nos deuses indianos (Brahma, Ganesha, Xiva etc.) e veja o como o seu rosto se retorce! Teste a tolerância que ele diz praticar rejeitando a Bíblia como “Livro da Lei” e exigindo a sua substituição pelo Alcorão! Questione os dogmas e os sofismas que ele apregoa em loja dirigindo-lhe uma pergunta bem simples: com que autoridade você afirma isso? Peça pelas credenciais dos impostores cujas doutrinas abraçou e observe o seu tartamudear!

Com raras exceções e em inúmeros particulares, todo maçom supersticioso é um ser nocivo à Maçonaria, não importando que seja um cidadão de boa índole e honesto. Sua mentalidade irracional, sua intolerância, sua mediocridade, seu desprezo pela Filosofia, seus incontroláveis impulsos proselitistas, terminam por afugentar irmãos sóbrios e esclarecidos, causando um prejuízo incalculável à nossa instituição.  Por serem incapazes de conviver em harmonia com a diversidade, estes maçons buscam a companhia somente daqueles que creem nos mesmos devaneios místicos; que padecem dos mesmos preconceitos e desordens psicológicas. Com o tempo passam a constituir grupelhos de gente hipócrita e insuportável, excluindo de suas relações irmãos que cultivam valores com os quais não estão habituados, sobretudo aqueles que utilizam a Razão como guia e a Filosofia como farol nos caminhos da vida. Depois, fundam lojas não para trabalharem em prol da sociedade, da nação, da família, e de si mesmos, mas para entupirem-se de crendices e falsidades, prostituírem os objetivos da nossa Veneranda Instituição, e imbecilizarem-se mutuamente.

Continua…

Autor: Ricardo Vidal

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Notas

(*) Ritual do Simbolismo do Aprendiz Maçom do Rito Escocês Antigo e Aceito, págs.1-2. (Grande Loja Maçônica do Estado de São Paulo-GLESP).

(**) E também fêmeas de insetos e mosquitos transmissores de pragas e doenças contagiosas.

(***) É mais fácil fazermos passar um camelo pelo buraco de uma agulha do que encontrarmos um crente que já se deu o trabalho de estudar o livro sagrado do credo que abraçou (ou que lhe foi imposto), usado geralmente como enfeite em prateleiras.

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Vaidade e Orgulho

A palavra VAIDADE tem uma origem curiosíssima. Ela remonta muito a uma ideia da vida em vão. Então, claro, quando é que vivemos bem? Quando conseguimos viver dentro daquilo que nos é mais favorável, onde somos mais talentosos, mais competentes e assim por diante. Quem se conhece acaba conseguindo se encaixar melhor, levará uma vida mais feliz, melhor e mais harmônica com o resto. O VAIDOSO é um ignorante em si mesmo, alguém que por não entender o seu lugar, não conhece suas próprias competências e habilidades e acaba pretendendo viver em um lugar que não lhe é devido. Por isso é um vício, um equívoco existencial. Muito importante nesse momento diferenciar a vaidade do orgulho.

O ORGULHO é um afeto altamente positivo na existência por que no final das contas o orgulhoso é aquele que consegue identificar em si mesmo causas de alegria e isso, claro, é patrocinador de uma vida boa, por que quando você consegue identificar causas de alegria em si mesmo uma consequência imediata é identificar as próprias fragilidades. O Orgulhoso é sempre alguém que tem mais de si em si mesmo e portanto é necessariamente algo positivo. O vaidoso, na verdade, é um orgulho equivocado, é um orgulhoso que não se conheceu direito, um orgulhoso que não soube flagrar em si mesmo as reais causas de sua alegria.

A VAIDADE é uma tendência muito explicável por que os encontros com o mundo são potencialmente entristecedores e de certa maneira, na hora que você considera que o mundo que você encontra é o que é, inexorável, o que que poderia ser diferente para você não se entristecer. E aí, você conclui: VOCÊ MESMO! Então claro, o vaidoso é invariavelmente aquele que deseja demais não ser quem é justamente por que supõe que não sendo quem é evitará as tristezas e angústias que são concretamente as suas. Todo valor, seja um valor adequado a uma competência como no caso do Orgulho, seja um valor “transbordoso” e desalinhado como no caso da vaidade. Todo valor é uma construção social, resulta de um processo de socialização. É uma questão cultural e aí é que está o grande conflito que a filosofia clássica aponta. De um lado um apreço pela natureza que é a sua, em outras palavras é o que “Nietsche” chamava de amor fati [1]. É você se reconciliar com o mundo como ele é, e aceitar-se como sendo como é, de certa maneira.

Doutro lado você tem uma sociedade, uma convivência e uma vida social que de certa maneira espera de você performances, espera de você a ocupação de postos, espera de você competências que nem sempre estão alinhadas com as tuas verdadeiras e naturais inclinações. No final das coisas pode-se imaginar o VAIDOSO como alguém “for ent” em sua aparência, mas no fundo é alguém que, ignorante de si mesmo, está disposto a VENDER-SE A SI MESMO EM NOME DOS ENQUADRAMENTOS SOCIAIS .

Autor: Clovis de Barros Filho

Nota

[1] – amor a algo.

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