Vícios e Virtudes

O título desta Prancha decorreu de conversas com o meu Irmão padrinho, no trajeto de todas as quartas-feiras para a nossa Oficina, sobre a escolha de um tema complementar aos trabalhos que eu havia apresentado anteriormente a respeito da Terceira Instrução do Segundo Grau.

Repercutindo os temas complexos daquele trabalho, e aprofundando aspectos da filosofia iniciática, disse-lhe que havia me defrontado de uma forma embaraçosa com os questionamentos iniciais provocadores sobre “O que é a vida? Para que ela serve? Qual o seu fim?”, os quais lançam desafios ao livre pensador na direção da busca da “Verdade” e da necessidade de “Meditação” sobre a temática.

No processo de discussão, relatei-lhe que sempre retornava à minha mente aquelas perguntas do ritual de iniciação sobre o entendimento da Virtude e o que pensava ser o Vício, pois somente se pode trabalhar no sentido do aperfeiçoamento daquele e na desconstrução deste com o perfeito e justo entendimento dos respectivos limites de cada conceito e seus reflexos em nossa vida. Afinal, para isso eu entendia que meditar sobre a finalidade da vida seria um passo importante para começo de um plano de ação mais efetivo no sentido de dar concretude ao levantar templos à virtude e cavar masmorras ao vício, de forma a vencer paixões e submeter vontades, para o esperado aprimoramento espiritual.

Assim, recebi a sugestão do prezado Irmão para aprofundar o tema envolvendo Vícios e Virtudes.

Daí, deparei-me, na busca de literatura a respeito, com um texto anônimo, baixado da internet, sobre a “Finalidade da Vida”, que no processo de aquecimento preliminar apresentei no “Quarto-de-Hora de Estudos” do dia 09.06.10. No referido texto se afirma que ”a finalidade da vida terrena é o aprimoramento espiritual”. Prossegue o texto dizendo: “Tudo aqui na Terra são meios de se aprimorar espiritualmente. O estudo, o trabalho, o casamento, o lazer, etc., são meios de a pessoa evoluir”.

Não se pode olvidar que esse processo de evolução tem um ritmo diferenciado para cada indivíduo e, fazendo uma analogia com a mãe natureza, a profundidade das raízes que cultivamos, fortalecidas nos problemas enfrentados, nas penas e nas quedas, aí envolvida a construção dos nossos valores mais sagrados, nos dá forças necessárias para enfrentar a caminhada desafiadora de superação lançada pelo Grande Arquiteto do Universo, que sempre nos disponibiliza a inteligência como arma necessária para vencer as vicissitudes e romper as barreiras da ignorância.

Entretanto, esse aprimoramento espiritual passa por reflexões sobre o conhecimento que temos de nós mesmos, da consciência da nossa ignorância, que nos remete à inscrição do “conhece-te a ti mesmo” insculpida no Templo de Delfos, inspirada em Sócrates (470 ou 469 a.C.), onde se lembrava aos homens que eles não passavam de meros mortais e que nenhum homem pode fugir ao seu destino. Este lema Socrático estimula a consciência racional de si mesmo em cada ser humano, para organizar a própria existência, pois não somos o mesmo em todas as situações de nossa vida atribulada, “por isso chamamos o correto reconhecimento de si próprio de a essência da Sabedoria humana, pois o homem não cessa e não deve cessar nunca de aprender, de se formar e de evoluir”.

Ainda segundo Ubyrajara, “a psicologia nos ensina que quando uma pessoa amadurecida investe em se conhecer, liberta-se de certas restrições psicológicas arbitrárias impostas por sua educação e pela sociedade… o homem ignorante (Pedra Bruta) é uma presa fácil aos preconceitos… o conhece-te a ti mesmo é um chamamento ao homem para o despertar de suas Virtudes”.

Na sequência de seu raciocínio, aduz que “no contexto filosófico, a Maçonaria, através do convite para que o iniciado ‘visite o seu interior‘, procura despertar no Aprendiz o seu pensar em sua própria existência, alertá- lo de seus deveres morais para consigo mesmo; quando o homem se escraviza a dogmas, quando o homem se esquece de si próprio , está a negar-se como SER. O Aprendiz ainda muito próximo do mundo material deve começar a investir no “conhecimento de si mesmo‘ e através de uma transformação individual evoluir como SER”.

Essa evolução pressupõe o entendimento que o único bem a ser conquistado é a Virtude e esta consiste unicamente na coragem do homem de praticá-la, isto é, extirpar de si tudo que não for o bem. E para isso a primeira coisa é aprender a pensar, que demanda o saber ouvir com atenção. “Aprender a pensar é aprender a conhecer, é aprender a discernir, é aprender a concatenar os pensamentos, a aprender a falar”.

Pensar a Virtude é se conscientizar de todos os hábitos constantes que levam o homem para o bem, quer como indivíduo, quer como espécie, quer pessoalmente, quer coletivamente. Para Sócrates a Virtude é o fim da atividade humana e se identifica com o bem que convém à natureza humana. Platão (429-347 a. C.), que desenvolve a doutrina de Sócrates, apresenta a Virtude como meio para atingir a bem-aventurança. Aristóteles (384-322 a. C.) interpreta-a como qualidade ou disposição permanente do ânimo para o bem. Para ele, Virtude é um hábito bom. Santo Agostinho diz que “a virtude é uma boa qualidade da mente, por meio da qual vivemos retamente“. Santo Tomás de Aquino diz que “a virtude é um hábito do bem, ao contrário do hábito para o mal ou o vício“.

Esse aprendizado é estimulado no Aprendiz logo no ritual de iniciação quando o mesmo é instado a extinguir paixões, vícios e os preconceitos mundanos que possui, para viver com Virtude, Honra e Sabedoria. É-lhe ensinado que a Virtude é uma disposição da alma que induz à prática do bem e o Vício tudo aquilo que avilta o ser humano, o hábito desgraçado que arrasta para o mal. Esse processo de aperfeiçoamento é penoso e somente pode ser alcançado com muito trabalho para adaptar nosso espírito e regular nossos costumes pelos eternos princípios da moral, para darmos à nossa alma o equilíbrio de forças e de sensibilidade que constitui a “Ciência da Vida”.

Essa busca deve começar no fundo do coração e pode aparentar-se inicialmente muito fácil. Para isso vale trazer para reflexão a Lenda do Deus Brahma (criador da trindade Hindu), também conhecida como a Lenda dos Devas.

Conta a lenda que, após criar nosso Universo, preparando-o para toda forma de vida que surgiria em seu devido tempo, o deus Brahma deparou-se com grande problema: onde esconder o segredo da chama da criação divina? Pergunta aos demais deuses e recebe de imediato a resposta: – Esconda-o no mais alto dos céus. Brahma pensa e responde: – Não! Haverá de surgir seres inteligentes, que chamarão a si mesmos de humanos, e estes irão construir pássaros maiores dos que criei e descobrirão o segredo. O grupo medita e fala: – Esconda-o no mais profundo dos oceanos. Brahma, novamente, pensa e propõe: – Não! Um dia esse mesmo ser construirá peixes que em pouco tempo encontrarão o segredo. O grupo faz mais uma tentativa e, depois de longa introspecção, sugere: – Esconda-o nas profundezas da Terra. Brahma, responde de imediato: – Também não adiantará! Eles chegarão lá em pouco tempo e terão o segredo em suas mentes. Finalmente Brahma diz ao grupo: – O segredo da chama divina da criação deverá ficar escondido dentro do coração de cada um destes seres que estão por vir. Nada entendendo, perguntam do por que da escolha deste lugar tão fácil de ser achado, a que Brahma responde: – Estes seres que estão por vir jamais procurarão nada no fundo de seus próprios corações.

Então, se podemos facilitar, por que complicar? Para todo veneno temos um antídoto. Numa visão dualista, se o vício “é o oposto da virtude e sendo algo inato ao homem ele deverá ser combatido com o desenvolvimento da virtude através do autoconhecimento”. “O triunfo da virtude é a vitória do homem sobre suas paixões, conquistando a harmonia interior, quando se torna senhor de si”. Quando o homem compreender que o vício é incompatível com sua própria felicidade e até mesmo com sua própria segurança mais ele sentirá a necessidade de combatê-lo e será levado a agir assim por seu próprio interesse na busca da felicidade”.

Para ajudar a humanidade não afeita aos estudos filosóficos e meditações transcendentais, as religiões e assemelhados sempre ocuparam esse espaço procurando definir os contornos dos conceitos de vícios ou pecados a serem evitados e das virtudes necessárias a uma boa orientação para a vida em coletividade.

Os nossos conhecidos sete pecados capitais são quase tão antigos quanto o cristianismo. Mas eles só foram formalizados no século VI, quando o papa Gregório Magno, tomando por base as Epístolas de São Paulo, definiu como sendo sete os principais vícios de conduta: gula, luxúria, avareza, ira, soberba, preguiça e inveja. Mas a lista só se tornou “oficial” na Igreja Católica no século XIII, com a Suma Teológica, documento publicado pelo teólogo são Tomás de Aquino (1227-1274). No documento, ele explica o que os tais sete pecados têm o que os outros não têm. O termo “capital” deriva do latim caput, que significa cabeça, líder ou chefe, o que quer dizer que as sete infrações são as “líderes” de todas as outras.

E, do ponto de vista teológico, o pecado mais grave é a soberba, afinal é nesta categoria que se enquadra o pecado original: Adão e Eva aceitaram o fruto proibido da árvore do conhecimento, querendo igualar-se a Deus. A Igreja até tentou oferecer soluções para os pecados capitais, criando uma lista de sete virtudes fundamentais – humildade, disciplina, caridade, castidade, paciência, generosidade e temperança -, mas os pecados acabaram ficando mais famosos. Afinal, notícia boa não repercute.

Outras religiões, como o judaísmo e o protestantismo, também têm o conceito de pecado em suas doutrinas, mas os sete pecados capitais são exclusivos do catolicismo.

Assim, se conclui que ”desde que o homem começou a ter as primeiras noções de moral, vem-lhe sendo repetido que deve ser bom, que deve elevar sua vida e ser melhor. Entretanto, foi-lhe ensinado positivamente como fazer para alcançar semelhante desiderato?”. Respondendo a este questionamento, González Pecotche afirma que não foi ensinado ao homem como ser melhor, por falta de conhecimento daqueles que pretenderam fazê-lo, ao inculcar no semelhante, desde a mais tenra idade, pensamentos e sugestões incompatíveis com sua razão e sensibilidade. Prossegue, afirmando que sempre se buscou o fácil, o ilusório e sedutor, a fim de conquistar adeptos para uma ou outra seita religiosa ou tendência filosófica.

Na concepção daquele educador, o caminho passa pelo conhecimento, pelo bloqueio e na ação de debilitar e anular todas as deficiências psicológicas que afetam a criatura humana. Ressalta que “é preferível conhecer que inimigos temos dentro, para combatê-los com lucidez mental, a ignorá-los, enquanto ficamos à mercê de sua influência despótica, suportando docilmente a maioria dos desgostos e depressões que diariamente nos acarretam”. Com isso, assegura Pecotche, aquela citação de que “pau que nasce torto morre torto” torna-se inconsistente, pois que, ao modificar as causas que determinam a defeituosa configuração psicológica do indivíduo, modifica-lhe também a vida na totalidade de seu conteúdo.

No aspecto prático da sua doutrina Pecotche chama de deficiência ao pensamento negativo (dominante ou obsessivo) que, enquistado na mente, exerce forte pressão sobre a vontade do indivíduo, induzindo-o de modo contínuo a satisfazer seu insaciável apetite psíquico. Ilustra o autor que essas deficiências, em alguns casos, têm tanta influência na vida do ser humano e se evidenciam de tal maneira, que este é apelidado pelas suas características, tais como: vaidoso, rancoroso, egoísta, teimoso, intolerante e, em outros casos, de presunçoso, hipócrita, fátuo (vaidoso, pretensioso), intrometido, obstinado, néscio, etc. Nesse sentido, é trabalhoso descobri-las e convencer-se de sua realidade e enfrentar a tarefa de erradicá-las da nossa vida.

Para corrigir essas deficiências ou vícios, Pecotche criou a figura da “antideficiência”, que seria a virtude em ação ou forma de pensamento específico para opor-se a elas, para anular o despotismo que o pensamento-deficiência exerce sobre o mecanismo mental, sensível e espiritual do homem, vigiando, repreendendo e paralisando o vício.

Nesse desiderato, o trabalho de localizar e compreender cada deficiência demanda perseverança na vigilância sobre ela. Nessa senda, é indispensável manter-se firme no propósito de superação e adaptação à “antideficiência”. Para ilustrar essa necessidade de perseverar e cuidar, Pecotche traz a metáfora do fazendeiro que tem suas terras invadidas por feras, as quais, após assolar seus campos e sedentas de sangue, se lançam contra sua vivenda, com o objetivo de acabar com ele. Nesta imagem, alguém faz chegar ao fazendeiro armas de fogo para a defesa de sua vida e de seus bens, mas ele não sabe como usá-las. No início as feras se assustam com os estampidos, mas quando não vêm os resultados e se acostumam a eles voltam a atacar.

Nesse contexto, Pecotche afirma que as deficiências ou vícios são feras mentais que destroem os pensamentos e projetos úteis, como acontece com o pessimismo, a obstinação, o descuido, a irritabilidade, a veemência, etc. Essas deficiências afetam a vida psíquica, tal como fazem as enfermidades em relação ao corpo. Ainda segundo ele, não devemos nos iludir acreditando que uma deficiência, por leve ou inofensiva que pareça, possa permanecer em nossa mente sem prejudicar-nos. Para ilustrar novamente, cita o caso do camponês que levou dois filhotes de tigre para criar, presumindo que cresceriam mansos e inofensivos ao seu lado. Certo dia, já crescidos, esqueceu-se de levar-lhes alimento e os mesmos, impelidos pela fome, atiraram-se sobre ele e o devoraram. Vícios, como feras, enquanto não eliminados, serão sempre risco latente.

Portanto, devemos estar alertas e operantes no sentido de vencer as deficiências generalizadas no ser humano, dentre aquelas mais conhecidas e que retirei do rol apresentado por Pecotche, quais sejam: vaidade, falsa humildade, soberba, presunção, impaciência, egoísmo, cobiça, verborragia, rancor, intolerância, teimosia, hipocrisia, negligência, rigidez, petulância, etc. Assim, para quem se propõe a superar essas deficiências deve substituí-las por uma eficiência como objetivo a ser alcançado, onde deverá ser colocado o máximo de empenho. Portanto, na seqüência acima, teríamos a modéstia, sinceridade, humildade, paciência inteligente, desprendimento, honestidade, concisão, bondade, tolerância, docilidade, veracidade, diligência, flexibilidade, cordura (ser cordato), etc.

Além dessas e de outras deficiências e “antideficiências”que enumera, Pecotche destaca ainda uma série de pensamentos negativos que se manifestam esporadicamente e exercem pressão sobre a vontade e promovem um relaxamento circunstancial do juízo, denominados propensões. Estas devem ser também enfrentadas com a firme determinação de vencê-las, tais como as propensões a: adular, prometer, dissimular, iludir, isolamento, exagero, desalento, desespero, desatenção, confiar no acaso, pessimismo, licenciosidade, descuido, etc.

É preciso, pois, acabar com tais deficiências e pensamentos antes que eles acabem conosco, perseverando e assumindo uma condução consciente da vida, tornando-nos seres humanos mais plenos, persistentes no caminho do bem, não postergando a necessária e inadiável evolução interna nesta jornada material do aprimoramento do espírito, efetiva finalidade da vida, conforme avocado no início deste trabalho. Enfim, para uma reflexão mais profunda, vale o alerta do educador, escritor e naturalista norte-americano David Starr Jordan, “sabedoria é saber o que fazer, virtude é fazer”.

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

Fontes de pesquisa

Ritual e Instrução Grau 2 – R∴E∴A∴A∴ e Manual de Instruções – Grau 1-  R∴E∴A∴A∴

Souza Filho, Ubyrajara. Cognições e Evolução dos Rituais Maçônicos, Londrina (PR): Editora “A Trolha”, maio 2010

González Pecotche, Carlos Eduardo. Deficiências e Propensões do Ser Humano. São Paulo: Logosófica, 11ª Ed, 2005.

Revista Mundo Estranho – site: http://mundoestranho.abril.com.br/religiao/pergunta_287783.shtml

O comportamento do Maçom dentro e fora do Templo

Introdução

O tema “O Comportamento do Maçom dentro e fora do Templo” está intrinsecamente relacionado aos princípios de nossa Sublime Ordem que propaga ser uma escola formadora de líderes. Como sabemos, o exercício da liderança representa um ônus elevado pois, além da responsabilidade inerente, o comportamento é fundamental pelo exemplo que sua imagem passa aos seus seguidores.

Ao ingressarmos em nossa instituição, juramos o respeito aos seus estatutos, regulamentos e acatamento às resoluções da maioria, tomadas de acordo com os princípios que a regem, bem como, o amor à Pátria, crença no GADU, respeito aos governos legalmente constituídos e acatamento às leis do nosso país.

Por esta razão, espera-se que o maçom reitere seu juramento com sua presença nas reuniões maçônicas e se dedique, de corpo e alma, à prática da moral, da igualdade, da solidariedade humana e da justiça, em toda a sua plenitude.

Destacamos, resumidamente, como essenciais à formação do templo interior de cada maçom, os ensinamentos a seguir que recebemos através dos estudos desenvolvidos nos vários graus maçônicos.

Sabedoria

O somatório dos conhecimentos adquiridos durante nossa existência pela experiência própria ou através dos ensinamentos recebidos devem nos orientar no sentido que, antes de tomarmos uma decisão, precisamos avaliar o quanto conhecemos do fato, se é a verdade e se irá trazer algum benefício, ou seja, devemos usar o princípio das “peneiras da sabedoria”.

O único meio eficaz para se combater a ignorância, os preconceitos, a superstição e os vícios é o saber, pela simples razão do próprio significado de cada um desses conceitos, ou seja:

  • Ignorância significa o desconhecimento ou falta de instrução, falta de saber;
  • Preconceito significa o conceito ou opinião formados antes de ter os conhecimentos adequados;
  • Superstição significa o sentimento religioso excessivo ou errôneo que, muitas vezes, arrasta as pessoas ignorantes à prática de atos indevidos e absurdos, ou ainda, a falsa ideia a respeito do sobrenatural;
  • Vício significa o defeito que torna uma coisa ou um ato impróprios para o fim a que se destinam. É a tendência habitual para o mal, oposto da virtude.

Podemos pressupor que todos os maçons tenham o domínio sobre o saber necessário para se comportarem de forma digna em todos os momentos, sejam eles profanos ou maçônicos, mas precisam lembrarem-se, sempre, que em Números 30:2 encontramos:

Moisés disse aos chefes das tribos dos israelitas o seguinte: – O que o Deus Eterno ordenou é isto: Quando alguém prometer dar alguma coisa ao Eterno ou jurar que fará ou deixará de fazer qualquer coisa, deverá cumprir a palavra e fazer tudo o que tiver prometido.

Tolerância

É, das virtudes maçônicas, a mais enfatizada, pois significa a tendência de admitir modos de pensar, agir e sentir que diferem entre indivíduos ou grupos políticos ou religiosos.

Muitas vezes confundimos tolerância com conivência. Tolerância é a habilidade de conviver, com respeito e liberdade, com valores, conceitos ou situações que, nem sempre, concordamos, portanto, há convivência mas, não há, obrigatoriamente, concordância. Conivência é a convivência em que, mesmo não concordando com certos valores, conceitos e situações, deixamos de expressar nosso parecer desfavorável, não refutamos mesmo que só em pensamento e, não reprovando, estamos tacitamente autorizando, aceitando, gerando cumplicidade.

Deus é tolerante com o pecador, não com o pecado. Se Deus fosse tolerante com o pecado, seria pecador também, o que é uma blasfêmia. Pode-se viver com pecadores e ser tolerante, sem ser conivente.

Devemos ser tolerantes com nossos filhos quando eles erram, não podemos ser omissos e coniventes com o erro, devemos expressar nosso descontentamento e corrigir o desvio. É dever e responsabilidade de todo o pai.

É preciso praticar a tolerância com a família, amigos, no trabalho, bem como na sociedade em geral pois, um dos postulados em que a Maçonaria se fundamenta é dado inclusive como exigência: “Exigir a tolerância com toda e qualquer forma de manifestação de consciência, religião ou de filosofia, cujos objetivos sejam de conquistar a verdadeira moral, a paz e o bem-­estar social.”

A tolerância também esta ligada à democracia, pois a tolerância nos faz admitir, que nosso voto seja vencido, acabando-se os argumentos, feita a votação; o resultado tem que ser respeitado e apoiado para o bem da causa maior, isso nos parece que seja um sentimento, ou melhor dizendo, uma atitude tolerante.

Mahatma Gandhi afirmou:

”Desconfie das pessoas que vendem ferramentas, mas que nunca as usam, ou seja, como pregamos tolerância se dela não fazemos uso. Portanto a prática da tolerância é indispensável para todo aquele que a exige.

Dentro da Maçonaria não é diferente, entendemos que a tolerância está ligada, como ponto de partida às concessões feitas para preservar as engrenagens da Ordem, que admite e respeita as opiniões contrárias.

Shakespeare disse “não importa o quão boa seja uma pessoa, ela vai feri-­lo de vez em quando e você precisa perdoá-la por isso”. Devemos ser tolerantes com atos destemperados e isolados de irmãos, tolerantes com o desconforto causado por quem você jurou proteger e defender, sendo bondoso ao extremo em não tomar partido até que tudo seja esclarecido, pois o fato de não fazermos juízo precipitado é uma das faces da tolerância.

Em síntese, precisamos ser tolerantes com a intolerância do outro, para que ele reflita e passe a seguir o seu exemplo. A tolerância está na Sabedoria e faz se sentir na Força e na Beleza, através dos ensinamentos, no respeito à individualidade e ao direito do outro.

Ética

Por definição, ética é um conjunto de princípios e valores que guiam e orientam as relações humanas. O primeiro código de ética de que se tem notícia, principalmente para quem tem formação cristã, são os “DEZ MANDAMENTOS”, onde regras como, amar ao próximo como a si mesmo, não matarás e não roubarás, são apresentadas como propostas fundamentais da civilização ocidental e cristã.

A ética é ampla, geral e universal. Ela é uma espécie de cimento na construção da sociedade, de tal forma que se existe um sentimento ético profundo, a sociedade se mantém bem estruturada, organizada, e quando esse sentimento se rompe, ela começa a entrar em uma crise auto destrutiva.

A Maçonaria é uma instituição fundamentalmente ética, onde a reflexão filosófica sobre a moralidade, regras e códigos morais que orientam a conduta humana são parte da filosofia que tem, por objetivo, a elaboração de um sistema de valores e o estabelecimento de princípios normativos da conduta humana, impondo ao Maçom um comportamento ético e, exigindo-­lhe que mantenha sempre uma postura compatível com a de um homem de bem, um exemplo como bom cidadão e um chefe de família exemplar.

Sendo a Maçonaria, por definição, uma organização ética, são rígidos os códigos de moral e alto o sistema de valores que orientam a conduta entre maçons e também com as obediências que os acolhem, principalmente nas referências a estas, ou aos seus dirigentes.

O forte sentimento de fraternidade designa o parentesco de irmão; do amor ao próximo; da harmonia; da boa amizade e, da união ou convivência como de irmãos, de tal forma a prevalecer à harmonia e reinar a paz.

No mundo profano, a maior necessidade é a de homens lato senso, homens que não podem ser comprados nem vendidos, homens honestos no mais íntimo de seus corações, homens que não temem chamar o pecado pelo nome, homens cuja consciência é tão fiel ao dever como a agulha magnética do pólo, homens que fiquem com o direito, embora o céu caia.

O objetivo de uma instituição maçônica é o de criar tais homens.

Caridade

Estamos vivendo uma época em que há uma falta aguda de um valor fundamental em todo mundo: a caridade. Pensa-­se demais no progresso da humanidade através da ciência, da tecnologia, da educação, da inteligência, do sistema jurídico, social, político e econômico e, no final das contas nada disso terá nenhum valor se as pessoas não estiverem determinadas a usar isso tudo para o bem. A caridade é definida no dicionário como: “Amor que move a vontade à busca efetiva do bem de outrem”.

Para os cristãos é, também, uma das três virtudes teologais, quer dizer, um dos misteriosos poderes que fazem a alma alcançar seu destino final, que é DEUS (as outras virtudes teologais são: fé e esperança). Se a caridade é uma virtude cristã, ela não deve estar somente na esmola, porque há caridade em pensamento, em palavras e em atos, ela deve ser indulgente para com as faltas de seu próximo, não dizer nada que possa prejudicar o outro e atender aos que necessitam na medida de suas forças.

O homem que a pratica, no seu dia-a-dia, estará sempre em paz; assegurando sua felicidade neste mundo.

Não se deixem se levar pela vaidade, pela auto­-condescendência, pelas aparências e pela superficialidade. Não se deixem arrastar pela âncora da comodidade que, certo como um novo dia, carregará seus corpos, mentes e corações para o fundo de um mar de futilidades. Não tolerem a falsidade, a hipocrisia, a desonestidade, a ambiguidade; que o seu sim seja sim e o seu não seja não!

Ao ver uma injustiça, não se calem! Diante da traição, não sejam covardes! Não se tornem cegos guiados por cegos em direção a um grande nada. E se sua espada estiver pesada, e sua vontade estiver fraca, e o que é certo e justo não lhe parecer claro, mesmo assim, acima de tudo e sempre, tenha caridade!

Ninguém precisa de nada a não ser seu próprio coração para saber o que machuca os outros. Jamais subestime o sofrimento alheio. Seu julgamento poderá lhe falhar, seu conhecimento, sua experiência, sua inteligência, sua força poderão ser todos inúteis diante do mal, que distorcerá fatos e palavras e aparências até fazer o branco parecer preto e o preto parecer branco; decida com caridade, porém, e toda essa farsa se dissipará sob o brilho de uma alma íntegra.

A caridade é uma entrega absoluta por amor ao próximo.

Justiça

Para escrevermos sobre a justiça, primeiro temos que saber o que significa a palavra justiça, definida no dicionário como:

Conformidade com o direito; a virtude de dar a cada um aquilo que é seu. A faculdade de julgar segundo o direito e melhor consciência.

Assim, para definirmos a justiça na Maçonaria, seria melhor recorrermos mais uma vez ao dicionário, e, logo acima da palavra justiça encontraremos a palavra Justeza, que significa:

“Qualidade daquilo que é justo; exatidão, precisão, certeza. Propriedade de uma balança analítica que permanece equilibrada quando pesos iguais são colocados em seus pratos.”

Contudo, para termos um rumo e sentido do que seria a definição de justiça na Maçonaria, temos que entender como é a organização do Estado, como é dividido, para que cada cidadão possa ter o seu direito respeitado, e, por conseguinte, a justiça dar a cada um aquilo que é seu.

Para falarmos na construção do Estado, temos que falar de Montesquieu (1689/1755) e do seu livro o Espírito das Leis, sua principal obra, na qual procurava explicar as leis que regem os costumes e as relações entre os homens a partir da análise dos fatos sociais, excluindo qualquer perspectiva religiosa ou moral.

Segundo Montesquieu, as leis revelam a racionalidade de um governo, devendo estar submetido a elas, inclusive a liberdade, que afirmava ser “o direito de fazer tudo quanto as leis permitem”. Para se evitar o despotismo, o arbítrio, e manter a liberdade política, é necessário separar as funções principais do governo: legislar, executar e julgar. Montesquieu mostrava que, na Inglaterra, a divisão dos poderes impedia que o rei se tornasse um déspota.

Tudo estaria perdido se o mesmo homem ou a mesma corporação dos príncipes, dos nobres ou do povo exercesse três poderes: o de fazer as leis, e de executar as resoluções públicas e o de julgar os crimes ou as desavenças particulares.

Como se percebe, para podermos viver em sociedade ou mesmo só, temos que ter regras para serem respeitadas e leis para serem cumpridas. Quem vive em sociedade, por óbvio tem maior compromisso com as leis, pois envolve mais pessoas no processo de interação social. Assim, mesmo o que vive isolado na mata ou em uma ilha, ou outro lugar que seja, tem que respeitar leis da natureza ou dos homens.

Nas sociedades atuais os benefícios florescem sob a premissa de que aqueles que mais realizam mais merecem receber – a chamada Meritocracia. No entanto, esse sistema de justiça deixa a desejar e de ser aceito quando ignora que aqueles que mais precisam também devem ter suas necessidades assistidas. Esse é o paradoxo da Justiça, cega por definição e por princípio.

A Maçonaria é uma sociedade que pugna pelo Direito, pela Liberdade e pela Justiça e, dentro dessa perspectiva, cada maçom deveria ser, sobretudo, um defensor incansável da Justiça. Um dos preceitos elementares é o da igualdade de direitos, consagrados na declaração Universal dos Direitos do Homem. Todavia, a própria existência desse preceito dá margem a que a Justiça se veja diante de um paradoxo, raramente discutido e talvez não completamente entendido.

O homem, principalmente o Maçom deve ser senhor dos seus hábitos, dispor de autodomínio em relação aos seus ímpetos, saber distinguir com imparcialidade o real do irreal, desprezando as doutrinas exóticas, conceitos dúbios e principalmente os princípios que não coadunam com o Amor e a Fraternidade, e muito particularmente, os vícios tidos como normas Sociais, mas que, inadvertidamente corrompem, aviltam e envelhecem.

Dessa forma, a Maçonaria no maçom é a bondade no lar, a honestidade nos negócios, a cortesia na sociedade, o prazer no trabalho, a piedade e a sincera preocupação para com os desvalidos da fortuna, o socorro aos mais fracos, o perdão para o penitente, o amor ao próximo e, sobretudo a reverência a Deus.

À medida, então, que as organizações societárias, dentre as quais se insere a Maçonaria, caminharem para se transformarem realmente em verdadeiros locais de trabalho/serviço e aprendizagem, estarão se abrindo imensas possibilidades de transformações na própria cultura universal e em seus próprios conceitos sobre os direitos e a Justiça.

Liderança

Liderar, é influenciar positivamente as pessoas para que elas atinjam resultados que atendam as necessidades, tanto individuais quanto coletivas e, ainda, se responsabilizar pelo desenvolvimento de novos lideres.

Um dos componentes de formação de um maçom é o de aprimorar ou desenvolver, caso não tenha, um potencial e forjá-lo, para que se transforme em um líder.

O líder para descrever suas realizações, utiliza o seguinte formato: O Problema, a Ação e finalmente o Resultado.

Os líderes, diariamente, se envolvem em situações de conflito, seja no âmbito pessoal, quanto no profissional. O modo como reagem a essas situações, pode ser o fator determinante do sucesso no resultado através de 5 posições: Evitar, Acomodar, Competir, Comprometer e Colaborar.

Inserida firmemente no conceito de liderança está a INTEGRIDADE, a honestidade do líder, sua credibilidade e coerência para por valores em ação. Os líderes têm uma responsabilidade indeclinável de estabelecer altos padrões éticos para guiar o comportamento dos seguidores.

Preocupado com o que acha ser uma falta de ímpeto na vida organizacional, John Gardner fala sobre os ASPECTOS MORAIS da liderança. Os líderes, de acordo com Gardner, têm a obrigação moral de fornecer as centelhas necessárias para despertar o potencial de cada indivíduo, para impelir cada pessoa a tomar a iniciativa do desempenho das ações de liderança.

Ele destaca que as altas expectativas tendem a gerar altos desempenhos. A função do líder é remover obstáculos ao funcionamento eficaz, ajudar indivíduos a ver e perseguir propósitos compartilhados.

O termo liderança descreve alguém que usa carisma e qualidades relacionadas para gerar aspirações e mudar pessoas e sistemas organizacionais para novos padrões de desempenho. É a liderança inspiradora que influencia seguidores para alcançar desempenho extraordinário em um contexto de inovações e mudanças de larga escala. As qualidades especiais dos líderes incluem:

  • Visão: ter ideias e um senso claro de direção, comunicá-­las aos outros, desenvolver excitação sobre a realização de sonhos compartilhados;
  • Carisma: gerar nos outros entusiasmo, fé, lealdade, orgulho e confiança em si mesmos através do poder do respeito pessoal e de apelos à emoção;
  • Simbolismo: identificar heróis, oferecer recompensas especiais e promover solenidades espontâneas e planejadas para comemorar a excelência e a alta realização;
  • Delegação de Poder: ajudar os outros a se desenvolver, eliminando obstáculos ao desempenho, compartilhando responsabilidades e delegando trabalhos verdadeiramente desafiadores;
  • Estimulação Intelectual: ganhar o engajamento dos outros criando consciência dos problemas e guiando a imaginação deles para criar soluções de alta qualidade;
  • Integridade: ser honesto e confiável, agindo coerentemente com suas convicções pessoais e realizando compromissos, concluindo-­os.

Perseverança

A maior empreitada do homem é sua própria vida e não tem nenhuma garantia que será bem sucedido, entretanto, pelo acúmulo de conhecimentos, muitos de experiências frustradas, ele sabe que a alternativa é prosseguir, lutando contras as adversidades e incertezas, fazendo aliados, acreditando no Supremo Arquiteto dos Mundos e persistindo no rumo do seu objetivo.

A perseverança é uma qualidade pois significa a firmeza, a constância com que devemos nos empenhar em nossas atividades, porém atentos e sempre atualizados porque tudo muda e precisamos mudar nossas atitudes e nosso comportamento para não persistirmos em erro.

Precisamos interagir com os indivíduos da sociedade para concretização dos processos de mudança. Devemos criar sempre o estado de dúvida sobre as efetivas possibilidades de sucesso porque mexemos com um conjunto de informações e vagas lembranças misturadas, às vezes, com preconceitos e frustrações.

Para a interação com as pessoas é necessário que exista, entre elas, um relacionamento que proporcione um mínimo de confiança mútua. Havendo este ambiente de confiança, pode-­se mostrar o bem maior a ser desfrutado pela mudança. Assim, a força da empatia ajuda na percepção da maior satisfação individual e em equipe.

Concluindo, precisamos persistir. A perseverança exige um processo de mudança, reavaliando nossos conceitos, objetivos e ideais e é assim que começa a nascer o novo comportamento no pensar e agir, sabendo que a obra de nosso templo interior poderá nos exigir, algumas vezes, uma árdua reconstrução. É um processo permanente onde estamos educando e sendo educados (Educare – Latim, significa sair de dentro da pessoa).

É bom lembrar que os valores individuais têm origem nos grupos e na cultura e, sem a certeza de quais sejam esses valores fundamentais, poderemos ser um alvo fácil para as falsas verdades. Usar espontaneamente os dons que temos, sem constranger ou prejudicar o próximo, leva-­nos à verdade e a luz.

Conclusão

O Maçom é livre, de bons costumes e sensível ao bem e, pelos ensinamentos da Maçonaria, busca seu engrandecimento como ser humano atuante e culto, combatendo a ignorância. A ignorância é o vício que mais aproxima o homem do irracional.

Assim sendo e por ser Maçom, deve ele conduzir-­se com absoluta isenção e a máxima honestidade de propósitos, coerente com os princípios maçônicos, para ser um obreiro útil a serviço de nossa Ordem e da humanidade.

Não se aprende tudo de uma só vez. O saber é o acúmulo da experiência e dos conhecimentos que se tem acesso, mas, a ação construtiva da Maçonaria deve ser exercida de forma permanente em todas as suas celebrações, trabalhos em Loja e no convívio social, através da difusão de conhecimentos que podem conduzir o homem à uma existência melhor pelos caminhos da Justiça e da Tolerância.

O Maçom deve ter e manter elevada Moral, tanto na vida privada como na social, impondo-se pelo respeito, procedimento impecável e realizando sempre o Bem. É pelo valor moral que podemos cumprir sempre nossos deveres como elementos da Sociedade Humana e, particularmente, como membros da Sociedade Maçônica.

O Maçom busca o Bem pelo cultivo das virtudes e pelo abandono dos vícios. Tenta polir constantemente a sua pedra bruta reforçando a sua virtuosidade e reprimindo conscientemente os seus defeitos. Pela auto­-disciplina, livremente imposta a si mesmo, torna-­se também exemplo para seus pares, colaborando para o progresso moral daqueles que com ele interagem.

Autor: Milton Antonio Sonvezzo

Nota do Autor

A ARLS Graal do Ocidente, Nº 1692 – GOB, juntamente com mais três, formam o Templo Ocidente e, uma vez ao ano, promovem um evento denominado “SEMTO” que significa Seminário dos Mestres do Templo Ocidente. Este trabalho foi apresentado no evento realizado em 01 de Setembro de 2003.

Contribuiram para este trabalho os irmãos Antonio Carlos Cardoso, Antonio José Ferreira Garcia, Daniel Vieira Damaia, Eugênio Morganti, João Manoel da Silva Neto, Maurício Stainoff, Milton Antonio Sonvezzo, Oswaldo Chagas do Nascimento, Renato Kleber Mareze, Vanderlei dos Santos, Vanderlei Venceslau Faria e Walter Benegra.

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A Tolerância

Tolerância | Oi Diário

Dentro daquilo que a Maçonaria preconiza como ideal, a mente do maçom equilibrado não tolera tudo. É incentivado a ser inimigo figadal dos que tolhem a liberdade das massas e tentam agrilhoar a ele ou seus irmãos. Recebe treinamento para repudiar emoções desenfreadas que induzem à tirania e conduzem ao despotismo. É intransigente com a intolerância desenfreada que conduz a perseguição ou a ignorância das massas conduzidas qual manada por homens inescrupulosos. Sua tolerância deve ser tal que não fique posando o como ingênuo que confunde tolerância com licenciosidade.

A Maçonaria promove a autoeducação àqueles que são iniciados em seus segredos. Tem por alvo construir um povo desenvolvido que não possa ser escravizado. Parte da premissa onde um povo ignorante não pode ser libertado. Daí provoca o maçom a obter o Conhecimento natural da Física para obter liberdade. Assim, ele desenvolve tolerância para com o pensamento do próximo, para que todos os envolvidos no método cresçam. O maçom é o estudioso prático, um intelectual que age. Está ciente que sem estudo o progresso é impossível, e sem discussão e exercício do pensar não existe evolução. Assim, o maçom torna-se livre pensador.

A história da Maçonaria tem em torno de dois séculos. Afirmar que seja mais velha é apenas vaidade de uns poucos que acreditam que, quanto mais no passado estiver a origem de uma organização, maior é sua credibilidade e grandeza. E neste espaço de tempo ela angariou miríades de inimigos implacáveis e vingativos, sempre movidos pela intolerância, ignorância e escravidão mental e espiritual. No Brasil, um grande exemplo de intolerância com a escravidão física, mental e espiritual proveio do maçom Deodoro da Fonseca. São de sua iniciativa: institucionalizar o casamento civil, tornar sem efeito jurídico o matrimônio religioso; instituir o registro civil; proibir o ensino de religião em escolas públicas; tirar os cemitérios do domínio das igrejas, secularizando-os; promulgar o Código Penal que extinguiu a pena de morte em tempo de paz no Brasil; e outros. Mesmo que tenha dirigido o país por curto tempo com ditadura, ele é exemplo de maçom que atuou em defesa das liberdades constitucionais e dos direitos inerentes ao povo. Usava da tolerância e da intolerância com equilíbrio.

É treinando os adeptos que a Maçonaria combate intolerância, tirania, fanatismo, brutalidade e ignorância. O fato de desenvolver a tolerância, não significa que ela seja subserviente e sucumba diante da posição de homens mal orientados, mas bem intencionados, pois se assim fosse, ela já teria caído no esquecimento há bastante tempo. No exercício da tolerância e em seu treinamento a Maçonaria define que tolerância, assim como praticado pelo irmão Deodoro da Fonseca, exige a definição de limites.

Quando o maçom filosofa, ele faz exercícios na arte de pensar. Especula e teoriza dentre as mais variadas linhas de pensamento, aí ele exercita a tolerância. Respeita e defende o que o outro maçom diz e pensa, a tal ponto que afirma ser capaz até de morrer para defender o pensamento de seu irmão. É como pretende da Física alcançar intuições que o levem a entender a sua herança cósmica, de onde seus elementos básicos foram retirados.

Ao maçom entende que o filosofar é pensar sem provas. Isto exige tolerância! Perseverar num erro é para ele uma falta que deve ser combatida. É a intolerância disparada pela ultrapassagem a limites estabelecidos: o limite do que é tolerável! Parte do princípio que ao intolerante imoral falta mesmo é inteligência! É desprovido de liberdade e não quer, por isso, dar liberdade aos outros. Para o maçom a liberdade de espírito vem da experiência e da razão exercida com tolerância limitada, pois só assim ela é efetiva. Entretanto, os pensamentos além da Física são desejados e podem ir ao infinito porque não há necessidade de provar o que se pensa, desde que apoiado na Lógica.

E como a necessidade de tolerância surge apenas em questões de opinião, então, em suas discussões e estudos, normalmente é de praxe ao maçom sábio fazer exercícios de dicotomia: apresenta as mais diversas linhas de pensamento para qualquer verdade que defenda, deixando para o ouvinte tirar suas próprias conclusões daquilo que postula em seu filosofar.

O maçom é condicionado na prática a combater a tolerância absoluta porque sabe que uma tolerância universal é moralmente condenável exatamente porque se esqueceria das vítimas em casos intoleráveis de violência e abuso dos tiranos. Isto é, existem situações em que a tolerância em excesso perpetuaria o martírio das vítimas. Dentro dos limites ditados pela moral, tolerar seria aceitar o que poderia ser condenado, seria deixar fazer o que se poderia impedir ou combater. Nesta linha podem-se tolerar os caprichos de uma criança ou as posições de um adversário, mas em nenhuma circunstancia o despotismo alienante de pessoa ou instituição.

Com humildade aceita que não há tolerância quando nada se tem a perder, haja vista que tolerar é responsabilizar-se: tolerância que responsabiliza o outro não é tolerância. Tolerar o sofrimento dos outros, a injustiça de que outros são vítimas, o horror que o poupa, já não é mais tolerância: é indiferença, egoísmo ou algo pior. Antes ódio, fúria, violência que passividade diante do horror, aceitação vergonhosa do pior! Pela imposição de limites o maçom se impõe em resultado de seu treinamento. Tolerância universal seria tolerância do atroz. Quando levada a extremos a tolerância acabaria por negar a si mesma.

A tolerância só vale dentro de certos limites, que são os da sua própria salvaguarda e da preservação de suas condições e possibilidades. Se o maçom enveredasse numa tolerância absoluta, mesmo para com os intolerantes, se não defendesse a sociedade tolerante contra seus assaltos, os tolerantes seriam aniquilados, e com eles acabaria também a própria tolerância. O treinamento maçônico revela que uma sociedade em que tolerância universal fosse possível, já não seria humana. As conclusões da Ordem Maçônica levam os adeptos a verificar que a tolerância é essencialmente limitada, pois uma tolerância infinita seria a fim da própria tolerância. Daí não se tolerar tudo, pois destinaria a tolerância à sua perda. Também não se deve renunciar a toda e qualquer tolerância para com aqueles que não a respeitam. Aquele que só é justo com os justos, generoso com os generosos, misericordioso com os misericordiosos, não é nem justo nem generoso nem misericordioso.  Tampouco é tolerante aquele que só o é com os tolerantes. A tolerância como virtude depende do ponto de vista daqueles que não a têm. O justo é guiado pelos princípios da Justiça e não pelo fato do injusto não poder se queixar.

Democracia não é fraqueza. Tolerância não é passividade. Moralmente condenável e politicamente condenada, a tolerância universal não seria nem virtuosa nem viável. A tolerância como força prática, como virtude, tem os seus fundamentos alicerçados no fato de que a fraqueza humana resulta de sua incapacidade de alcançar o absoluto.

A prática das oficinas maçônicas, naquelas onde permanentemente é exercitada a capacidade de pensar, discutir, debater, ouvir e calar revela que a evidência é qualidade relativa. Mesmo que algo pareça exato, verdade, correto, pode, no decurso de um debate mostrar que não é absoluto, daí nunca admitir-se que uma verdade seja absoluta e final. As discussões, longe de afastar um irmão do outro, aproxima-os quando praticam dentro dos limites impostos pela tolerância que todos os seres humanos, indistintamente, são constituídos de fraquezas e cometem erros. Com isto em vista, o maçom desperto e ativo perdoa as tolices que o outro diz e aguarda que aquele irmão de pensamento equivocado acorde de sua inconsciência, dando cumprimento para com a primeira lei da sua natureza, a falibilidade.

A grande salvaguarda do maçom quando se contrapõe aos tiranos é o conhecimento de que aquele, mesmo que possua em suas mãos o poder absoluto, não tem condições de impô-lo a ninguém, porque não poderia forçar um indivíduo a pensar diferente do que pensa, nem a crer verdadeiro o que lhe pareça falso. Esta a razão de a Maçonaria ter sido hostilizada e proibida desde quando foi criada na França e Holanda, países onde foi proscrita logo no início de sua expansão. É no pensamento que o maçom é livre de forma absoluta, pois não há liberdade nem sociedade próspera sem inteligência.

Tolerância é tema fundamental da Maçonaria, inclusive sua existência é devida a ela, pois nasceu em decorrência da intolerância entre facções políticas e religiosas. É tolerância calcada na definição de limites claros. Se alguma ação ultrapassa o limite definido pelas leis em vigor em sua linha de tempo, não tem comiseração, a lei deve ser aplicada com rigor ou toda a sociedade fenece.

Cada maçom é estimulado de forma diferente pelo ensinamento da Maçonaria. O lastro que carrega mostra que o principal aspecto da Ordem Maçônica é o desenvolvimento de princípios morais calcados na espiritualidade. Simbologia, ritualística e toda a filosofia envolvida, sempre em seu centro destaca a espiritualidade. O meio para desenvolver em espírito, apesar de ressaltado, não fica tão evidente. Apenas os mais sensíveis e aplicados a desenvolvem. Existem homens Maçons já bem antigos na ordem maçônica que sequer sabem de fato o que alguns símbolos representam. Um exemplo é o símbolo composto formado pelo esquadro, compasso e o livro da lei, onde o olho perspicaz visualiza um homem circunscrito por uma estrela de cinco pontas, significando a criatura religada ao Grande Arquiteto do Universo por laços de carne, pela espiritualidade encarnada. E disto se deduz a união com o Grande Arquiteto do Universo, sua religação com a divindade.

A tolerância é o que permite aos maçons viverem em harmonia. Onde esta não existir, certamente não há tolerância com limites. Em consequência não existe amor, a única solução de todos os problemas da Humanidade. E onde não existe amor também não se manifesta o Grande Arquiteto do Universo, aquele Deus pessoal ou aquilo que cada um venera a sua maneira, pois esta energia da Natureza, da Física a caminho da Metafísica, só se manifesta onde as pessoas se tratam como irmãos, demonstram e praticam o mais profundo amor entre si.

Autor: Charles Evaldo Boller

Fonte: Informativo Chico da Botica – Nª 64 – ano 8 (2012)

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Referências Bibliográficas

1. BAYARD, Jean-Pierre, A Espiritualidade na Maçonaria, Da Ordem Iniciática Tradicional às Obediências, tradução: Julia Vidili, ISBN 85-7374-790-0, primeira edição, Madras Editora Ltda., 368 páginas, São Paulo, 2004;
2. BENNETT, William John, O Livro das Virtudes, Antologia, título original: A Tresaury of Great Moral Stories, ISBN 85-209-0672-9, primeira edição, Editora Nova Fronteira S/A, 534 páginas, Rio de Janeiro, 1993;
3. CAPRA, Fritjof, A Teia da Vida, Uma Nova Compreensão Científica dos Sistemas Vivos, título original: The Web of Life, a New Scientific Understandding Ofliving Systems, tradução: Newton Roberval Eichemberg, ISBN 85-316-0556-3, primeira edição, Editora Pensamento Cultrix Ltda., 256 páginas, São Paulo, 1996;
4. COMTE-SPONVILLE, André, O Espírito do Ateísmo, título original: L’esprit de L’théisme, tradução: Eduardo Brandão, ISBN 978-85-60156-66-5, primeira edição, Livraria Martins Fontes Editora Ltda., 192 páginas, São Paulo, 2007;
5. COMTE-SPONVILLE, André, Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, tradução: Eduardo Brandão, ISBN 85-336-0444-0, primeira edição, Livraria Martins Fontes Editora Ltda., 392 páginas, São Paulo, 1995;
6. GREGÓRIO, Fernando César, Chaves da Espiritualidade Maçônica, ISBN 978-85-7252-236-6, primeira edição, Editora Maçônica a Trolha Ltda., 184 páginas, Londrina, 2007;
7. ROHDEN, Humberto, Educação do Homem Integral, primeira edição, Martin Claret, 140 páginas, São Paulo, 2007;
8. SOUTO, Élcio, O Iniciado, Drama Cósmico Maçônico, ISBN 85-7374-331-X, primeira edição, Madras Editora Ltda., 106 páginas, São Paulo, 2001.

A Disciplina

Segundo o Dicionário KOOGAN LAROUSSE:

DISCIPLINA s. f . O conjunto dos regulamentos destinados a manter a boa ordem em qualquer assembléia ou corporação; a boa ordem resultante da observância desses regulamentos: a disciplina militar. / Submissão ou respeito a um regulamento. / Cada uma das matérias ensinadas nas escolas.

No Dicionário AURÉLIO:

DISCIPLINA s.f. 1. Regime de ordem imposta ou mesmo consentida. 2. Ordem que convém ao bom funcionamento de uma organização. 3. Relações de subordinação do aluno ao mestre. 4. Submissão a um regulamento. 5. Qualquer ramo do conhecimento. 6. Matéria de ensino.

É uma palavra que tem a mesma etimologia da palavra “DISCÍPULO”, que significa aquele que segue. Em filosofia significa conjunto de conhecimentos metódicos ou regra de conduta (a disciplina dos costumes) e é aplicada às organizações e às pessoas. Na Maçonaria significa uma rigorosa e irrestrita observância às normas, às Constituições, aos Landmarks, aos regulamentos, às obediências e às autoridades.

Sem disciplina, nenhuma organização ou entidade domina seus interesses, porque a indisciplina gera um grave mal, a exemplo da anarquia, a qual combatemos, por produzir o caos. A indisciplina anda em voga no meio político: “quanto pior melhor”.

A disciplina é irmã gêmea da liberdade quando a usamos como direito, ou seja, o direito agindo para que a manifestação de liberdade seja garantia de todos. Porém essa afirmativa produz efeito quando se consegue respeitar os direitos alheios, que é diferente da liberdade pessoal, conseguida pela consideração espontânea das normas previamente estabelecidas e da obediência às autoridades constituídas.

O cidadão que pretende viver em sociedade leva para seu convívio um dos deveres essenciais: a disciplina, sinalizada por juramentos, estudos, posturas, segurança nas determinações e ações, sob pena de, não o fazendo, gerar no grupo, dissabores, desentendimentos, egoísmo, divisões e não conseguir transmitir a paz nem a harmonia, tornando-se assim, um cidadão que não inspira segurança a seus companheiros.

Tomemos para nossas vidas, um exemplo de autodisciplina, a do artista. Sua arte se expressa pelo rígido método de disciplina, que espontaneamente impõe a si próprio, dentre outros; o de dormir, de meditar, de buscar inspiração e no tratar com a natureza , completado pelos instrumentos que utiliza: o pincel, a caneta, as chuteiras e os dedos, pois, sem este cuidado disciplinar ele nunca passará de um artista mediano, de um péssimo sonhador.

Na sociedade em geral, quando aceitamos o convite para ser iniciado na Ordem Maçônica, imaginamos uma gama de normas próprias, a que seremos submetidos a cumprir e, quando aceitos, prometemos obedecer, através de juramentos e preceitos outros que formarão o caráter e a moral do cidadão/Irmão. Portanto, sem a disciplina maçônica, a busca da perfeição correrá por caminhos difíceis de alcançar.

A Maçonaria praticada nos dias atuais não estabelece atração por conhecimento além dos nossos rituais, deixando, então, uma lacuna para o desenvolvimento da desmotivação, que geram, às vezes, na consciência dos Irmãos, a vontade latente de deixar a Ordem, por não ver mais, sólidos compromissos, morais e éticos (ensinamentos que norteiam a nossa Instituição).

Assim, no ranger da carruagem, quando se falar em Maçonaria, dir-se-á “FOI UMA SOCIEDADE DISCIPLINADA QUE EXISTIU ATÉ OS IDOS DE…”.

Enfim, o que devemos e podemos fazer para estagnar este quadro?

“O indivíduo competente é aquele capaz de transformar conhecimento em soluções para problemas concretos da vida”. (Sandra Garcia)

Autor: José Amâncio de Lima
ARLS Estrela de Davi II, 242 – GLMMG

A Ética e o Valor Moral na Maçonaria

A Ética, denominada de Filosofia Moral ou Ciência Moral, trata da análise e a reflexão sobre as condutas humanas, tanto individuais, quanto coletivas, e as normas morais como princípios dos comportamentos. Sua finalidade é fazer com que o desenvolvimento humano atinja a plenitude, respeitando as diferenças individuais.

Segundo Aristóteles, “a Ética estabelece o que se deve ou se pode fazer, e o que não se deve ou não se pode fazer”.

É evidente que quando se estuda o procedimento do homem no meio social, deve-se levar em conta que o homem é um ser moral, justamente por ser ele um se político. É um ser político porque a isso o obriga a sua natureza humana.

Mais do que nunca o homem tem que se adaptar à vida em comunidade, mormente nos tempos de globalização, quando o mundo virou uma “aldeota”, onde a aviação e os meios de comunicação acabaram com as distâncias.

O homem vive em sociedade e o Estado onde ele vive precisa dele, como ele precisa do Estado. Na sua larga visão, Aristóteles em “A Política” assinala:

…“Está claro que o Estado é produto da natureza e superior ao indivíduo; quem não fosse capaz de viver na comunidade civil ou dela não tivesse necessidade para bastar-se a si mesmo, não se tornaria nenhuma parte do Estado…”.

Tenhamos em mira que a teoria aristotélica da moral é o fundamento dessa corrente do pensamento chamado Ética.

É interessante verificar que a palavra ética, em português, é derivada do vocábulo grego ethos que significa hábito, costume.

Os romanos traduziram o ethos grego por moralis. Cícero diz em uma das suas obras, referindo-se ao vocábulo grego, que “Aquilo que tem a ver com os costumes, que eles (os gregos) chamam ethos, nós, nesta parte da filosofia referente aos hábitos, costumamos chamar de moral”.

O dicionário esclarece que Moral é a parte da filosofia que trata dos costumes ou deveres do homem para com seus semelhantes e para consigo mesmo.

Aristóteles não separa a Ética da Virtude, porque, para ele, toda a virtude se gera e perece dos mesmos atos, e mediante os mesmos atos; e exemplifica dizendo que “de tocar cítara surgem os bons e os maus citaredos”. Isto significa que, pelos atos, se conhece se o indivíduo é virtuoso ou não.

Mais adiante ele enfatiza: “É necessário, pois, atentar para a qualidade dos atos que praticamos, porque consoante a sua diferença resulta a diferença dos hábitos.”

Se o homem considerar que a prática dos deveres para com os outros e para consigo mesmo é o único caminho que leva à perfeita harmonia social, estará, pois, procedendo corretamente e pode considerar-se feliz.

Analisemos o que Aristóteles estabelece de fundamental na sua “Ética”:

“Os atos morais são livres, motivo por que o indivíduo a s s u m e a s u a responsabilidade. Em assim sendo, torna-se, para quem os pratica, causa de mérito ou demérito. A responsabilidade supõe, com certeza, o que d e n o m i n a m o s d e imputabilidade, pelo qual o ato é atribuído a um indivíduo como seu autor”.

“Existem duas espécies de responsabilidade: aquela pela qual o indivíduo responde por seus atos diante da própria consciência, ou seja, a responsabilidade moral, e a responsabilidade social que faz com que o indivíduo responda por seus atos, às vezes, perante a justiça, quando violar as leis civis”.

Aristóteles ensina que “A virtude é um hábito não só diante da reta razão, mas a ela conjunta. E a reta razão nada mais é que sabedoria”.

Resumindo, Virtude é o hábito de praticar o Bem, e vício, o hábito de praticar o mal.

Voltemos a Aristóteles e vejamos o que ele tem para nos ensinar:

“A Virtude, diz ele, se distingue segundo esta diferença: das virtudes, algumas chamo dianoéticas, a sapiência, a inteligência e a prudência; éticas, a liberalidade e a temperança. Quando, de fato, falamos dos costumes de alguém, não dizemos ser sapiente ou inteligente, mas sim, brando de ânimo ou temperante; e louvamos também, referindo-nos ao hábito: que nós chamamos virtudes aqueles hábitos que merecem ser louvados.”

Aristóteles procura estabelecer diferença entre aquilo que ele chama de virtudes dianoéticas e virtudes éticas:

“As primeiras são inatas no homem e podem crescer através do estudo, do ensinamento, razão por que têm necessidade de experiência e de tempo. Já as virtudes éticas são frutos do hábito, o que vale dizer que nenhuma delas se gera no homem por natureza, são as chamadas virtudes adquiridas. Elas não se geram nem por natureza nem contra a natureza, mas nascem em nós que, aptos pela natureza a recebê-las, nos tornamos perfeitos mediante o hábito”.

O estagirita conceitua a natureza humana como sendo equilibrada. Para ele, todo ideal tem base natural e todo natural tem desenvolvimento ideal. Reconhece, e o faz objetivamente, que a meta da vida não é o Bem por si mesmo, mas a felicidade. Assegura que a felicidade aparece como um bem perfeito, sendo a meta de todas as ações.

A Maçonaria é por excelência, uma Entidade de Moral, pois, seus princípios alcançam, em suas ações, os níveis mais elevados da Ética Universal. Sua obra, tanto material quanto espiritual advém de um passado remoto. Educando e disciplinando, prepara seus membros para que participem na busca da verdade, elevando-os em sua dignidade, fazendo com que ajam com justiça, desfrutando da liberdade, praticando a fraternidade e dedicando-se com amor à Humanidade.

Diante da evolução por que passa o mundo é necessário que visualizemos, à luz maçônica, os grandes desafios. O rigor moral e a força da autêntica solidariedade social se fazem necessários para que corrijamos os deslizes individuais, as más instituições políticas, econômicas e sociais, com o intuito de que o relacionamento humano seja mais fraterno.

A resposta não é simples, mas, podemos assegurar que sem ela enveredamos os mais tristes e funestos destinos. A Moral permite o cultivo de todas as virtudes, o que garante uma promissora convivência com nossos pares.

O imoral e o amoral, hoje ou amanhã, pagarão alto preço de uma conduta desmedida, destruindo, assim, suas vidas. “A História, mestra da vida”, testemunha a decadência dos que se distanciam da moral.

Nenhuma nação, nenhum povo e nenhum homem poderão concretizar seus sonhos, se não estiverem embasados nos conceitos da Moral. Seria como construir castelos ao vento, ainda que a aparência pareça estável.

Portanto, a cada um, a concepção do dever, do bem, da justiça, das virtudes e, sobretudo, da verdade, pois aí está a formatação da moral, revelando-nos os valores que norteiam o homem e os povos, prestigiando suas instituições e reafirmando na fé, a verdadeira perfectibilidade humana.

A Maçonaria nos chama ao cultivo da Moral e à sua nobre prática, para que sejamos cada dia, mais virtuosos.

Autor: José Airton de Carvalho

Zé Airton é Mestre Instalado, membro da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, presidente da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, membro da Loja de Pesquisas Quatuor Coronati Pedro Campos de Miranda, e um grande incentivador do blog.