Caritas est

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Introdução

“A caridade é a principal virtude social e a característica distintiva dos maçons.” William Preston (1742 – 1818)

Há um momento em que o candidato a fazer parte de nossos Augustos Mistérios é questionado sobre o que é a virtude para, logo após ouvida sua resposta, ser-lhe dito que “a virtude é uma disposição da alma que nos induz à prática do Bem”.

Nas instruções ministradas em Loja após a iniciação são abordadas as sete virtudes, quatro cardeais e três teologais, e sua prática comentada, incentivada, exaltada. Mas, afora aquela ocasião citada acima, são poucas as oportunidades em vimos o significado do que é virtude ser explanado.

Immanuel Kant (1724-1804) disse que a virtude não é aquilo que nos torna mais felizes, mas sim algo que nos torna dignos de ser felizes. Também afirmou que não existe virtude se suas ações são realizadas apenas porque estão na lei. Para Santo Tomás de Aquino (1225-1274) virtudes humanas são hábitos. E aqui encontramos a palavra-chave para compreendermos o que é virtude: hábitos.

Se o que fazemos o fazemos não porque a lei manda, mas porque temos o hábito de fazê-lo, sendo este uma verdadeira inclinação que nos induz para o Bem, então praticamos a virtude.

As sete virtudes e suas relações

Uma vez que a Temperança consiste em controlar os apetites do corpo; a Prudência é capacidade de ponderar sobre os meios para se atingir um fim; a Fortaleza é uma vitória sobre o medo, constituindo-se na capacidade de enfrentar os perigos, os males e a morte; e a Justiça significa retribuir a alguém aquilo que lhe foi tirado, o professor Rodrigo Peñalosa, em aula em que aborda o significado das sete virtudes, coloca as virtudes cardeais como próprias das relações humanas. Segundo o professor isso se dá porque:

  • Não há Temperança para com Deus, pois Ele não é um apetite sensitivo; ​
  • ​Não se admite ao homem ser prudente com Deus, pois Deus não é um meio; ​
  • ​Não há necessidade da Fortaleza para com Deus, uma vez que Ele não é um mal; ​
  • ​Não se exerce a Justiça para com Deus, pois Deus não erra e nem carece de justiça. ​

Por outro lado, de acordo com Peñalosa, as Virtudes Teologais dizem respeito às relações do Homem com a Divindade, uma vez que:

  • Fé é a certeza íntima da existência do Criador, para além da razão. Todo homem traz em si o sentimento inato de que há uma Causa Primeira​; ​
  • Se temos a fé em Deus e reconhecemos a imortalidade da alma, é racional que esperemos a felicidade futura. A Esperança é, portanto, uma emoção relativa ao homem e a Deus. É inata justamente porque sem fé não pode haver esperança; ​

Já a Caridade é a bondade suprema para consigo mesmo, para com os outros e para com o Ser Infinito.

A maior das virtudes

Tomás de Aquino definiu a caridade como “mais excelente que a fé e a esperança e, por conseguinte, que todas as outras virtudes”.

William Shaw (c. 1550-1602), em seus estatutos de 1598, determinava que os maçons devem “viver juntos caridosamente como convém a irmãos e companheiros jurados do Ofício”.

Na sua obra Esclarecimentos sobre maçonaria (1772), William Preston escreve que a caridade “além de incluir um grau supremo de amor ao grande Criador e Governante do universo é um afeto ilimitado pelos seres de sua criação, de todos os tipos e de toda denominação”. (grifo nosso).

Apesar de discursos inflamados e de cobranças a nossos aprendizes e companheiros, é notório como tal virtude tem faltado em diversos segmentos da sociedade, inclusive entre “entre irmãos e companheiros jurados de Ofício”.

Talvez tal fato ocorra por não sabermos lidar com o pensamento contrário, com as alteridades, com as escolhas, com o outro. Muitos são os que se acham os donos da razão, modelos a serem seguidos, como se apenas o seu modo de ver seja o correto, o que lhe dá então um suposto direito de atacar o próximo, alguns se valendo do anonimato das redes sociais, se esquecendo que “a verdade ainda está lá fora”.

Palavras distintas, amores diferentes

Na Antiguidade Clássica, os gregos empregavam palavras distintas para os diversos tipos de amor. Por exemplo:

  • Éros (ἔρος) representava a ideia de paixão sexual e desejo. Era visto como uma forma perigosa, ardente e irracional de amor que poderia dominar e possuir você. Envolvia uma perda de controle que assustava os Gregos. (INDIVIDUAL)​;
  • Storgí (στοργή) se referia ao mais benéfico dos afetos. Acontece especialmente com a família e entre seus membros, normalmente afeição (carinho) de pais aos filhos. (NÚCLEO FAMILIAR);
  • Filía (Φιλία) abrangia a amizade camarada profunda que se desenvolvia entre irmãos em armas que haviam lutado lado a lado no campo de batalha. Tinha a ver com demonstrar lealdade aos seus amigos, sacrificando-se por eles. (SOCIEDADE)​;
  • Por fim, agápi (ἀγάπη) era relacionada a ágape ou amor abnegado. É a transcendência total. O amor incondicional. É a bondade amorosa universal. Esse amor satisfaz porque é compartilhado e tem resposta entre todos aqueles que se reúnem para formar uma fraternidade de homens, mulheres e crianças. Agápi foi traduzida para o latim como caritas, que é a origem de nossa palavra “caridade”​.

O Amor

Agora que sabemos o conceito da palavra agápi, podemos desfrutar da riqueza do seu significado no que para nós foi apresentado como “amor” em alguns textos, como por exemplo  na 1ª Epístola de Paulo aos Coríntios, 13: 1-13:

1 Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. 2 E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria. 3 E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.​ 4 O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece, 5 não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; 6 não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; 7 tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. 8 O amor nunca falha; mas, havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá; 9 porque, em parte, conhecemos e, em parte, profetizamos.​ 10 Mas, quando vier o que é perfeito, então, o que o é em parte será aniquilado. 11 Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino. 12 Porque, agora, vemos por espelho em enigma; mas, então, veremos face a face; agora, conheço em parte, mas, então, conhecerei como também sou conhecido. ​13 Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; mas o maior destes é o amor.​ (grifo nosso).

Conclusão

Entendemos assim que caridade é diferente de filantropia. Caridade não é benemerência. Caridade é amor; amor incondicional e puro. Caridade é o respeito ao direito do outro ter uma opinião diferente e mesmo assim eu saber respeitá-lo.

Me valho das palavras do professor Rodrigo Peñalosa quando ele diz que “muitos são os que se vangloriam da filantropia que fazem, mas se esquecem da Caridade que está lá no alto”. Sendo a virtude, segundo Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.), a disposição adquirida voluntária, em relação a nós, na medida, definida pela razão em conformidade com a conduta de um homem ponderado, é hora de mudarmos esse comportamento e praticarmos a caridade em sua essência.

Autor: Luiz Marcelo Viegas
ARLS Pioneiros de Ibirité, 273 – GLMMG

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Referência

Este texto é baseado na aula 5 do professor Rodrigo Peñalosa na disciplina A Filosofia Maçônica: Valores, Virtudes e Verdades do curso de pós-graduação Maçonologia: História e Filosofia ofertada pela Uninter.

Outras referências

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco​

PRESTON, William. Esclarecimentos sobre maçonaria​

Bíblia Sagrada​

Ritual de Aprendiz – REAA – GLMMG​

As Virtudes Teologais: Fé, Esperança e Caridade. Disponível em: http://brasilfranciscano.blogspot.com/2014/08/as-virtudes-teologais-fe-esperanca-e.html​  Acesso em 12  de out. 18.

Virtude. Disponível em: https://sites.google.com/site/filosofiapopular/virtude-filosofia​ Acesso em 11  de out. 18.

SCHERER, Berta Rieg. A concepção de virtude em Kant. Disponível em: http://www.portaldeperiodicos.unisul.br/index.php/Poiesis/article/view/642/600​ Acesso em 10  de out. 18.

Erevoktonos blogspot. Disponível em: http://erevoktonos.blogspot.com/ssearch?q=Φιλανθρωπία​ Acesso em 12  de out. 18.

A suprema excelência do amor. Disponível em: https://www.biblegateway.com/passage/?search=1+Cor%C3%ADntios+13&version=ARC​ Acesso em 12  de out. 18.

Você já experimentou as seis variedades de amor? Disponível em: https://www.melhorconsciencia.com.br/2014/01/voce-ja-experimentou-as-seis-variedades-de-amor/​  Acesso em 10  de out. 18.

O amor em seus quatros aspectos: Eros, Filos, Storgé e Ágape. Disponível em: http://vstorge.blogspot.com/p/blog-page_24.html​ Acesso em 11  de out. 18.

Virtudes e Vícios

The Choice of a Boy between Virtue and Vice – Paolo Veronese (1528–1588)

“Vencer minhas paixões
levantando Templos à Virtude e
cavando masmorras ao vício,
eis o que viemos aqui fazer”.

“Do Caos à Ordem; Da Obscuridade à Luz.”

Seria tarefa simples falar de virtude e vício em sentido literal, bastaria para isso dar o sentido filológico; mas falar de virtude e vício em sentido filosófico e maçônico já se torna uma tarefa nada fácil.

A Maçonaria não é uma religião, nem um partido, nem uma igreja; todavia ela põe no caminho, ela desperta. Não oferece a nós, membros, uma verdade definitiva, imutável, dogmática, fazendo representar o livre exercício da tolerância. Assim, aprendemos a nos interrogar, recolocarmo-nos em questão. Graças a esse fator de progresso descobrimos não só o caminho do conhecimento, mas também da ordem que deve reinar, tanto no domínio material como espiritual, facilitando assim, com que o homem desenvolva suas virtudes. E é por meio dos processos (rituais; contatos humanos, conhecimento, disciplina, etc.) que o homem adquire sua real personalidade.

A virtude é uma passagem da paixão para ação e meditação, uma externa e a outra interna, onde o homem se revela a si mesmo, ultrapassando seus próprios limites, seu eu. O ser interno, nossos sentimentos, atos e pensamentos. 

Capacidade ou potência própria do homem de desenvolver suas qualidades naturais. Entendo que virtude é uma característica de valoração positiva do indivíduo, uma disposição geral e constante da prática do bem, isto não quer dizer que um homem de virtudes seja altruísta ou filantropo, embora tenha uma tendência de o ser. Um homem de virtudes tem o hábito de cumprir as leis e obedecer aos costumes da sociedade em que vive; ser socialmente correto, honesto, justo, paciente, sincero, compreensivo, generoso, prudente, possuir coragem e perseverança.

Portanto, Maçonaria para mim é uma escola, pois permite-nos controlar nossas paixões, fazendo com que tenhamos o domínio do nosso “EU” e respeitemos o próximo.

Toda virtude tem seu mérito próprio, porque todas indicam progresso na senda do bem. Mas não basta falarmos, temos que experimentá-la. Os mais variados tipos de virtude têm que ser experimentados, vividos… compreendidos, pelo menos intelectualmente. Assim como Spinoza, “não creio haver utilidade em denunciar os vícios, o mal. Para que acusar? Isso é a moral dos tristes e uma triste moral.” A primeira e fundamental parte da virtude é a verdade, como dizia Montaigne, “A verdade condiciona todas as outras e não é condicionada, em seu princípio, por nenhuma.”.

A virtude não precisa ser generosa, suscetível de amor ou justa para ser verdadeira, nem para valer, nem para ser devida, ao passo que amor, generosidade ou justiça só são virtudes se antes de tudo forem verdadeiras. Aqui surge uma outra virtude, a boa-fé, que como fato é a conformidade dos atos e palavras com a vida interior, ou desta consigo mesma. É o respeito à verdade. Virtude sem boa-fé é má-fé não é virtude. A boa-fé como todas as virtudes é o contrário do narcisismo, do egoísmo cego, da submissão de si a si mesmo.

Não devemos confundir dever com virtude. O dever é uma coerção, a virtude, uma liberdade, ambas necessárias. O que fazemos por amor, não fazemos por coerção nem, portanto, por dever. Quando o amor e o desejo existem, para que o dever? Não amamos o que queremos, mas o que desejamos. O amor não se comanda e não poderia, em consequência, ser um dever.

Nietzsche dizia: “O que fazemos por amor sempre se consuma além do bem e do mal”.

A virtude não é um bem, mas é a força para ser e agir na prática do bem.

Autor: Wagner Veneziani Costa

Fonte: Teoria da Conspiração

O amor filosófico e o puro prazer

Filosofia - E.E. "João XXIII": O amor filosófico e o puro prazer

Segundo Platão, o amor é a busca da beleza, da elevação em todos os níveis, o que não exclui a dimensão do corpo. No entanto, será que essa concepção ainda faz sentido em tempos de exagerado culto à coisificação do prazer?

Parece estranho e contraditório falar do amor filosófico em uma época desapaixonada, como esta em que vivemos. Na verdade, esta nossa época carece tanto de sentimento quanto de razão, pois ela pretende ser apenas a encarnação de um tempo hedonista, extravagante, dominado pelos sentidos.

Conforme Platão (427 a.C. – 347 a.C.), o amor é a busca da beleza. Embora tenha início da realidade física, deve alcançar a sua forma universal, não permanecendo prisioneiro da matéria. É lugar comum confundir o amor platônico com o amor não correspondido ou desprovido de interesse sexual. Na realidade, o filósofo não exclui o amor carnal, porém o vê como um primeiro degrau que pode levar a outros mais elevados.

As várias faces de Eros revelam-se nos discursos que ilustram O Banquete, obra-prima da literatura ocidental. O livro narra um encontro na casa do poeta Agáton[1], do qual tomam parte Sócrates, Fedro, Alcebíades e outras figuras atenienses. O encontro tem como objetivo comemorar a premiação de uma peça teatral do anfitrião, e os presentes escolheram Eros como tema inspirador dos discursos da noite.

No prólogo do livro, utilizando-se de um artifício literário, o narrador esclarece que não tomou parte, propriamente, daqueles acontecimentos, mas ouviu detalhes da sua história em colóquio com outro personagem. Após os convivas concordarem que deviam beber com moderação, pois haviam se excedido na noite anterior, dá-se então início aos discursos sobre o amor.

No relato de Pausânias aparecem duas formas de amor, geradas por Afrodite, deusa grega da fecundidade e da beleza. Afrodite tem dupla face, ou, de acordo com os estudiosos da mitologia, são duas Afrodites: a Celestial, filha de Urano; e a Popular, filha de Zeus e Dione.

Aristófanes[2], personagem conhecido entre os atenienses pela sua dramaturgia, defende que o amor é a busca da outra metade que se perdeu por castigo dos deuses. Havia no mundo três tipos de seres humanos: um formado só de duplos elementos masculinos, outro só de duplos femininos e por último um misto de elementos masculino e feminino. Esta era uma figura andrógina. Os seres duplos transgrediram a ordenação dos deuses e foram divididos ao meio. Por isso, o amor é a busca da outra metade que se perdera, o que revela a incompletude humana.

Como acontece em outras narrativas platônicas, Sócrates surge como o personagem que realiza a síntese das ideias e sentimentos do autor. N’O banquete ele inspira-se em Diotima de Mantineia[3], sacerdotisa do amor, para ilustrar o seu discurso. Não se sabe ao certo se ela é uma criação de Platão ou personagem da mitologia, mas deste entrelaçamento surgem as mais belas páginas da literatura grega.

Eros é aí descrito como um daimon, intermediário entre os homens e as coisas divinas.

“Ao gênio cabe interpretar e transmitir aos deuses o que vem dos homens, e aos homens o que vem dos deuses; de uns, as súplicas e os sacrifícios, e dos outros as ordens e as recompensas pelos sacrifícios; e como está no meio de ambos, ele os completa, de modo que o todo fica ligado todo ele a si mesmo. (…) E esses gênios, é certo, são muitos e diversos, e um deles é justamente o Amor.”

Rumo ao amor essencial

Na escalada rumo ao amor essencial, outros estágios se fazem necessários. Do amor às formas físicas belas à própria beleza, independente da forma. Há ainda o amor ao conhecimento e às boas práticas, o que pode ser interpretado como uma adesão aos princípios éticos. A sacerdotisa Diotima associa o amor à imortalidade e afirma, no diálogo com Sócrates, que o amor é o “desejo de procriação no belo”.

Apesar da visão fulgurante contida nessa narrativa, o idealismo platônico deprecia o corpo e o mundo real. Ele concebe os seres humanos como se estes fossem anjos caídos em um mundo degradado.

A dívida da Filosofia para com Sócrates/ Platão é enorme. Para Sócrates, especialmente, o diálogo levava ao conhecimento da verdade. Ele contava com um método próprio para analisar os variados assuntos que lhe eram apresentados: a dialética (arte do diálogo), que se juntava a outro artifício intelectual criado por ele, a maiêutica (parto das ideias).

A razão socrática, contudo, é acusada de servir à repressão dos instintos. Nietzsche postulou a questão de uma racionalidade repressiva ao observar que esta está a serviço da ordem e da moral, que representa uma coerção ao indivíduo autônomo. A moral, de acordo com as suas palavras, transforma-se em “instrumento do instinto de rebanho.” Como se pode ver, a razão tornou-se má conselheira, e um veículo da repressão aos instintos mais verdadeiros.

De outra forma, Freud concluiu que o embate do indivíduo com a sociedade é irreconciliável. A isso ele chamou de “mal estar da civilização.” A razão que foi construída a partir dos gregos quer guiar o mundo conflagrado onde habitamos. Este mundo não tem governo. Mas não existe outro onde possamos viver, a não ser o mundo da desrazão. Pode-se argumentar que a razão, seja ela grega ou moderna, é sempre repressora: é da sua natureza, se assim se pode dizer.

O amor e o prazer em nosso tempo

O amor da nossa época pretende ser puro prazer; deve encerrar-se aí onde teve início, no próprio corpo. Ele torna-se dejeto logo após o gozo. Mas, de toda forma, isso não deve ser considerado apenas negativamente, levando-se em conta que se trata de um tempo em que o amor às pessoas foi substituído pelo amor às coisas.

Seria uma tarefa inglória comparar a antiguidade clássica com a modernidade[4]. A própria modernidade já se diferencia de si mesma em diversos aspectos. Apesar disso, a filosofia e o amor platônicos transcendem as barreiras do tempo. Não faltam contestadores da sua filosofia, contudo, todos estão de acordo com uma verdade inequívoca: Platão foi um pensador de gênio.

No Fedro ele mostra que o exagerado apetite dos prazeres corporais e das coisas materiais não levam a bom termo. E, como acontece em outras ocasiões, ele cria ou serve-se da narrativa de um mito para ilustrar o seu pensamento.

No mito da “parelha alada”, o cavalo de mau gênio representa a concupiscência – o vício, a cobiça e as práticas sexuais exacerbadas. Na sua corrida indômita, ele desvia-se do caminho reto, levando junto o cocheiro e o outro cavalo. Nessa alegoria, o cocheiro representa o intelecto, que oscila entre os impulsos antagônicos dos dois cavalos: um obediente, que simboliza a coragem; o outro, rebelde, que guia-se pela extravagância dos sentidos.

Na concepção dos gregos antigos, o amor não devia tornar-se prisioneiro do corpo, mas elevar-se gradativamente, até o cimo, onde havia as essências absolutas: a verdade, o belo, o bem.

Essa passagem do corpo ao espírito é a expressão da dialética ascendente de Platão. Na parte inferior havia o mundo das sombras, produtor de ilusões, e os objetos sensíveis. No outro extremo, o mundo inteligível. Todo processo de conhecimento dá-se em uma ascensão do mundo obscuro, das sombras, ao luminoso mundo das ideias.

O corpo paira sobre a moral do seu tempo. Inventa uma nova erótica, elege os seus novos parceiros: as academias que redefinem as suas formas, os sex shops que coisificam o seu prazer, a moda que veste, o marketing que o alimenta com produtos miraculosos

Tudo o que a nossa época deseja é poder celebrar as conquistas pontificadas pela ciência, pelas tecnologias, pelo conhecimento emancipador da modernidade. Evidentemente, as ditas conquistas se fazem acompanhar de uma libertação espiritual e moral sem precedentes. O indivíduo contemporâneo não quer saber de enigmas, ele aspira a uma vida material que preencha todos os mistérios, todas as faltas. E a libertação moral a que chegou serve bem ao seu plano de realização dos desejos, tomando como centro de tudo o próprio corpo. É aí que se dá a encenação do seu teatro.

Até já se imaginou que as coisas se resolvessem em um cenário político, mas as utopias se dissiparam. A política teve a sua fase erótica, motivadora dos desejos revolucionários. A sedução política do corpo deu lugar a uma celebração do puro prazer sem reivindicações. Tudo já se encontra aí, em abundância. Contudo, é o corpo que dita as regras do jogo. Ele diz se está ou não satisfeito. E a presunção de que seria massacrado pela exploração capitalista, felizmente, não chegou a termo, pois, como o próprio capitalismo, ele também sofreu as suas metamorfoses.

O corpo paira sobre a moral do seu tempo. Inventa uma nova erótica, elege os seus novos parceiros: as academias que redefinem as suas formas, os sex shops que coisificam o seu prazer, a moda que veste, o marketing que o alimenta com produtos miraculosos. Não se pode negar a sedução do vestir, mas ele quer desnudar-se.

E tudo então retorna ao templo sagrado do corpo que ama, antes de mais nada, a si mesmo. Venceu o cavalo de mau gênio. É ele que dirige a parelha alada, obcecado pelo prazer, o sexo, o consumo e a matéria.

Na alegoria platônica que ilustra os dias atuais, o cocheiro (intelecto) perdeu o controle do seu carro. O corpo flana em uma fauna de prazeres, enquanto a razão desce as escarpas.

Autor: Márcio Salgado

Fonte: Revista Filosofia

* Marcio Salgado é escritor, pesquisador, doutor em Comunicação pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ).

Notas

[1]Poeta ateniense, Agáton (447 a.C.- 401 a.C.) aparece em obras de Aristóteles (Anteu), Aristófanes (As Convocadas) e Platão (O Banquete).

[2] – Embora tenhamos poucas informações sobre a vida do dramaturgo Aristófanes (448/447 a.C. – 385-380 a.C.), sabe-se que ele foi um grande mestre da comédia antiga, autor de diversas peças com sátiras políticas e sociais, sendo uma de suas mais conhecidas Assembleia de Mulheres.

[3] – Escreve Zygmunt Bauman no livro Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos (Zahar, 2004, pg. 21): “No Banquete de Platão, a profetisa Diotima de Mantineia ressaltou para Sócrates, com a sincera aprovação deste, que ‘o amor não se dirige ao belo, como você pensa: dirige-se à geração e ao nascimento do belo’. (…) Em outras palavras, não é ansiando por coisas prontas, completas e concluídas que o amor encontra seu significado, mas no estímulo a participar da gênese dessas coisas. O amor é, enfim, à transcendência”.

[4] – O sociólogo britânico Anthony Giddens escreveu uma obra interessante para se pensar o amor, a sexualidade e a intimidade no mundo moderno: A Transformação da Intimidade: Sexualidade, Amor e Erotismo nas Sociedades Modernas (Unesp, 2000)

Referências Bibliográficas

Platão. O Banquete. In: Platão/Diálogos. Tradução e notas: José Cavalcante de Souza. 5ª Edição. São Paulo: Nova Cultural, 1991, p. 32-101 (Os pensadores).
_______. Fedro. Tradução: Alex Marins. São Paulo: Martin Claret, 2007.

Às Mães

– às Mães que apesar das canseiras, dores e trabalhos, sorriem e riem, felizes, com os filhos amados ao peito, ao colo ou em seu redor; e às que choram, doridas e inconsoláveis, a sua perda física, ou os vêem “perder-se” nos perigos inúmeros da sociedade violenta e desumana em que vivemos;

 – às Mães ainda meninas, e às menos jovens, que contra ventos e marés, ultrapassando dificuldades de toda a ordem, têm a valentia de assumir uma gravidez – talvez inoportuna e indesejada – por saberem que a Vida é sempre um Bem Maior e um Dom que não se discute e, muito menos, quando se trata de um filho seu, pequeno ser frágil e indefeso que lhe foi confiado;

 – às Mães que souberam sacrificar uma talvez brilhante carreira profissional, para darem prioridade à maternidade e à educação dos seus filhos e às que, quantas vezes precisamente por amor aos filhos, souberam ser firmes e educadoras, dizendo um “não” oportuno e salvador a muitos dos caprichos dos seus filhos adolescentes;

 – às Mães precocemente envelhecidas, gastas e doentes, tantas vezes esquecidas de si mesmas e que hoje se sentem mais tristes e magoadas, talvez por não terem um filho que se lembre delas, de as abraçar e beijar…;

 – às Mães solitárias, paradas no tempo, não visitadas, não desejadas, e hoje abandonadas num qualquer quarto, num qualquer lar, na cidade ou no campo, e que talvez não tenham hoje, nem uma pessoa amiga que lhes leia ao menos uma carta dum filho…;

 – também às Mães que não tendo dado à luz fisicamente, são Mães pelo coração e pelo espírito, pela generosidade e abnegação, para tantos que por mil razões não tiveram outra Mãe… e finalmente, também às Mães queridíssimas que já partiram deste mundo e que por certo repousam já num céu merecido e conquistado a pulso e sacrifício…

A todas elas, nossas humildes lembranças neste mês que é apenas simbólico, já que o Dia das Mães, é todo aquele em que acordamos, olhamos para a luz e dizemos: “outra vez, outro dia”, porque a cada amanhecer é um renascimento que devemos à Mãe. Por tudo isso, um obrigado seria pouco, portanto, criaram um mês inteiro para que chamássemos de Mês das Mães e um dia para fazermos as reflexões sobre a grandiosidade delas.

A todas as Mães, a todas sem exceção, um Abraço e um Beijo cheios de simpatia e de ternura! E Parabéns, mesmo que ninguém mais vos felicite! E Obrigado, mesmo que ninguém mais vos agradeça! Obrigado por você ser minha mãe. E que o Grande Arquiteto do Universo te ilumine, proteja e guarde.

Texto da Associação Portuguesa de Famílias Numerosas (Lisboa)

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