Além do avental

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O que te faz maçom além do avental que usas?

Discussões dantescas a respeito de quando nos tornamos especulativos e deixamos de ser operativos são travadas por celebrados escritores. Nas origens e etimologia da palavra “pedreiro”, em grego “tekton”[1], é aquele profissional que se empenhava na transformação de materiais em construções diversas com variados materiais, veja bem, não se limitando a pedra.

Chamo a atenção pelo motivo de que às vezes nos achamos pensadores especulativos e na verdade deveríamos estar trabalhando em algo. Em quê?

A filosofia já cuida da mente. A ordem criada por Baden-Powell, das medalhas que usa sobre vosso peito que me lembram mais escoteiros que qualquer outra coisa. Os Clubes de serviço, da caridade. A política dos cursos das nações. O que resta a você como maçom?

O quê foi construído desde que iniciaste, além da evolução oriunda de qualquer ser humano que tem consciência cívica de melhorar a cada dia?

Os ritos e rituais em seu cerne almejavam ser o método do obreiro. E hoje se resumem a ser discutidos em termos e posições geográficas ou disposição de artefatos, perdendo-se a essência e finalidade de sua existência. Ou você acredita que foram criados para serem manuais de procedimentos simplistas?

O ritual é uma parte do laço místico. Como ou por que o homem deve fazer rituais e aprendê-los, amá-los, preservá-los, é tão misterioso quanto qualquer coisa na vida – mas sempre foi assim. Há algo profundo dentro de nós que exige uma forma definida de expressão: podemos dizer o pensamento de mil maneiras, mas nós o dizemos em uníssono e de uma maneira especial. E isto é verdade seja a Maçonaria, a Igreja ou a vida cotidiana que é preenchida com um ritual.[2]

A pedra somos nós mesmos. Mas tendemos a cinzelar a pedra alheia. Isso é demagogia se você não trabalha em sua própria pedra. Mudar de grau não é evoluir, não passando de procedimento administrativo se não foi trabalhada a lição que o traz, por mais pomposo e ornado que sejas o avental quer agora usas.

Recentemente, em um grupo de comunicação Maçônica e DeMolay, soltei um texto que tirava da zona de conforto e indagava a todos sobre seus deveres. Resultado? Silêncio por horas. Quando o assunto é o dever, o trabalho, todos tendem a fingir que não é consigo mesmo, quando pensamos assim, de fato é conosco mesmo o problema.

O filósofo Marcuse, em seu livro “Eros e civilização”, retrata essa gana da atual sociedade em satisfazer seus desejos às vezes maquiados em boas intenções”. “O que você faz quando ninguém te vê fazendo ou o que faria se ninguém pudesse te ver” diz uma música. Maquiavel é ridiculamente estudado e utilizado como manual por jovens que creem aprender politica com práticas traiçoeiras e vis.

O que a mão esquerda faz a direita não fique sabendo é ignorado por publicidade desmedida. O que te faz Maçom além do avental, são os “nãos” que você tem firmeza pra dizer aos seus próprios impulsos e não o avental ou joia que usa.

Uma vez me foi dito: rasgue a “procuração” de quem faz mal. Indaguei sobre a indisposição criada. E me foi dito: se não tem vergonha de fazer o mal será você a ter por dizer?

Infelizmente constatamos que, atualmente, adaptada aos novos tempos, a Ordem é uma sociedade iniciática, mas social/recreativa/religiosa congregando seres humanos comuns que se ajudam mutuamente. Concluindo esta reflexão, inquirimos se, modernamente, em nossas Lojas: Realmente erguemos templos as virtudes?![3]

Uma máxima em engenharia diz que não controlamos o quê não medimos. Além de suposições, qual o método que usas para te nortear na mudança de si mesmo? Ter consciência dos defeitos e falhas não passa mera reflexão feita por qualquer profano. Renascer para uma nova realidade por si só já é conceito do batismo de varias religiões em variadas culturas.

Um método interessante de trabalharmos em nossa própria pedra, a cada semana escrevemos uma virtude em nossas anotações, que queremos melhorar e intensificar, e ao findar o dia relatamos como nos saímos, e o que dificultou de praticarmos a tal virtude. Isso é um exercício fantástico, e nos estimula a ficarmos vigilantes como pregam nossos rituais. Alguns vão dizer, já faço isso de cabeça. Será?

E você meu irmão qual método utiliza?

A corrupção não esta em Brasília no planalto, mas nos nossos espíritos corrompidos que se calam…, o cantor Renato Russo disse, “vivemos entre monstros de nossa própria criação”, mas não temos medo da escuridão. O maçom, hoje, teme a própria luz, por conta da aceitação social. Discutir maçonaria é falar sobre as dificuldades da prática de alguma virtude e por aí se aprofundar, e não erros de gráficas, datas de fundação ou algum fator que qualquer historiador não iniciado poderia fazer e já fazem. Não que não seja importante, mas isso é demasiadamente simplório se comparado ao que realmente é a Arte Real.

Aos outros, a tolerância de serem como quiserem. A nós, a obrigação de sermos cada dia melhores.

Autor: Bruno Oliveira
ARLS Amizade, Trabalho e Justiça, Nº36 GOP-Paraná

Fonte: Ritos & Rituais

Notas

[1] – http://journal.eahn.org/articles/10.5334/ah.239/

[2] – http://www.lodge76.co.uk/lectures/index.html

[3] – https://maxorokegra.blogspot.com.br

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Vícios e Virtudes na visão maçônica

Introdução

Durante o ritual de Iniciação, o Venerável Mestre pergunta ao iniciando:

“Senhor, que entendeis por Virtude?“

“Senhor, que pensais ser o Vício?” 

Após, dadas as devidas respostas e definições, o Venerável Mestre deixa a decisão e escolha ao livre arbítrio do profano ao lhe perguntar:

“Senhor, preferis seguir o caminho da Virtude ou do Vício?”

Meus Irmãos, se aqui estamos todos, é porque escolhemos o caminho da Virtude e renegamos o caminho dos Vícios.

Mas, o que, mais profundamente, são vícios e são virtudes? Como eles afetam as nossas vidas e nossos relacionamentos? Por que eles existem? Como eles aparecem e se manifestam?

Procurando buscar estas respostas e entender o mecanismo de aparecimento desses vícios e virtudes em nossas vidas, é que pensamos em elaborar este trabalho que é sintético, visto que a complexidade do assunto requereria mais tempo de pesquisa, consulta aos especialistas e mais tempo de exposição. Para tal, buscamos respaldo na Filosofia, Teologia e na Psicologia para melhor entender estes mecanismos.

História / Filosofia

Somos seres relacionais, estamos sempre relacionando com os outros. Este ato relacional sempre foi motivo de preocupação e estudos de legisladores e pesquisadores, uma vez que ele estabelece a harmonia e o equilíbrio do grupo e da sociedade. E nós, meus Irmãos, sabemos muito bem que para a construção deste ser social é necessário desbastarmos as asperezas e arestas representados pelos nossos vícios e aspirarmos às virtudes, caminho que escolhemos para esta construção social.

O estudo das virtudes se iniciou com Sócrates, na Grécia antiga… Para ele, a virtude é o fim, o objetivo da atividade humana e se identifica com o bem que convém à natureza humana.

Platão, também na Grécia antiga, desenvolveu a doutrina de Sócrates e apresentou a virtude como o meio para atingir as bem-aventuranças. Foi ele que descreveu as quatro virtudes Cardeais: a Sabedoria, a Fortaleza, a Temperança e a Justiça.

Aristóteles, sempre na antiga Grécia, ensinou que as virtudes não são hábitos do intelecto, mas sim, da vontade. Para ele, não existem virtudes inatas, mas todas se adquirem pela repetição dos atos, que gera o costume (mos ou more) gerando o nome virtude moral. O homem atormentado pelo vício perde de vista seu fim moral.

A filosofia de Aristóteles é a que melhor trabalha a questão dos vícios e virtudes, pois ele sustenta que todos os atos do homem têm consequências e essas consequências têm que ser pensadas. Conforme ele, no tocante à ética, toda ação humana tende a um fim, que é fazer o bem. O homem deve aperfeiçoar-se naquilo que o distingue de todas as outras criaturas: a razão. Para Aristóteles, a virtude deve ser o ponto de partida das ações para se fazer o bem. Ele reforça a virtude moral como sendo aquela que guia nosso comportamento e nossos relacionamentos, sendo, portanto, uma virtude relacional.

Tornamos-nos justos praticando atos justos e para a prática destes atos justos, Aristóteles nos indica o caminho da “moderação”, sinônimo de “prudência ” e mesmo de “sabedoria”, a primeira das quatro virtudes cardeais. Moderação, porque, toda virtude, toda ação, todo sentimento ou conduta que praticamos, sendo deficiente (falta) ou excessiva (excesso) pode tornar-se um vício. Há vícios por falta e vícios por excesso. Também sentimentos e paixões tendem à falta (deficiência) ou ao excesso. A virtude é a moderação. Entre os extremos, situa-se a virtude num justo meio.

A questão levantada por Aristóteles é: qual é este justo meio? Por isto a Prudência tem um papel importante. Há uma relação de algumas virtudes e seus vícios decorrentes das deficiências (falta) ou excessos. Por exemplo:

 VÍCIOS POR DEFICIÊNCIA VIRTUDES VÍCIOS POR EXCESSO
covardia coragem temeridade
insensibilidade temperança libertinagem
avareza liberalidade esbanjamento
modéstia respeito próprio vaidade
desavergonhado modéstia timidez
moleza prudência covardia
rusticidade agudez de espírito zombaria

Aristóteles preconizava a Prudência como qualidade que devem ter todos os chefes de família e todos os homens de Estado. Para ele, a Prudência é uma qualidade que, quando guiada pela verdade e pela razão determina nossa conduta sobre as coisas que podem ser boas para o homem.

Teologia

São Tomaz de Aquino, em sua Suma Teológica, reafirma a colocação de Aristóteles, ao dizer que a Prudência é uma virtude especial, distinta das demais, regendo todas as outras virtudes. Enquanto para Aristóteles as quatro virtudes cardeais são frutos do esforço humano, a elas os teólogos acrescentaram outra três virtudes, ditas teologais, que não originam do homem, mas são concedidas a ele como dom de Deus. Vamos rapidamente repassar estas virtudes, seus significados e suas representações nas artes.

Virtudes Cardeais

  • Prudência (Sabedoria): dispõe a razão para discernir em todas as circunstâncias o verdadeiro bem e escolher os justos meios para o atingir. Todas as outras virtudes devem ser reguladas por ela. É representada pela imagem refletida no espelho, simbolizando o homem prudente que pondera e reflete antes de agir. Modernamente tem significado “cautela”;
  • Fortaleza: assegura a firmeza de superar adversidades e de não retroceder, bem como a constância na procura do bem. Por isto, “a Paciência”, é uma virtude subordinada à Fortaleza e consiste na capacidade constante de suportar adversidades. É representada pelo Leão;
  • Temperança: virtude que consiste no constante aperfeiçoar da potencialidade sensitiva de modo a conseguir equilibrar, colocar sob limites, moderar a atração dos prazeres, assegurando o domínio da razão sobre os instintos e propiciar o equilíbrio no uso dos bens. Serve, por exemplo, para controlar a gula;
  • Justiça: consiste na atribuição, na equidade, no considerar e respeitar o direito e o valor que são devidos a alguém ou alguma coisa. É a constante e firme vontade de dar ao outro o que lhe é devido. É representada por uma estátua de Sofia, a Sabedoria, com os olhos vendados, representando a imparcialidade, e a espada, símbolo do poder que dispõe para exercê-la. Nalgumas representações há também uma balança, representando o equilíbrio, e a ponderação entre partes em litígio.

Virtudes Teologais

  • : é o consentimento do intelecto que crê, com constância e clareza, em alguma coisa. Não se geste a fé dentro de si. Ou a tem, ou não. A fé é uma crença acompanhada de ações que dão testemunho de suas convicções. É representada pela cor branca;
  • Esperança: é a expectativa, a espera de algo superior e perfeito. Não é um produto de nossas vontades, mas sim de uma espontaneidade que se manifesta nos corações daqueles que têm fé. É representada pela cor verde;
  • Caridade: é a mãe de todas as virtudes. É a raiz de todas as virtudes, pois ela a bondade suprema para consigo mesmo e para com os outros. A caridade supera nossa natureza, pois graças a ela o homem avança além de si mesmo, além de suas exigências biológicas. A caridade é representada pela cor roxa.
  • “Qual a mais meritória de todas as virtudes?”

Perguntam a Allan Kardec. E ele responde:

“É aquela que se baseia na caridade mais desinteressada”.

O apóstolo Paulo, ao descrever o arco-íris do Amor, nos adverte: “permanecem a fé, a esperança e a caridade. Destas, no entanto, a caridade é a maior.

Da mesma forma que os teólogos estudaram as virtudes, eles também se ocuparam de catalogar os vícios. Um monge da Idade Média, preocupado com as tentações da alma humana, catalogou os vícios em número de oito. O Papa Gregório Magno as reclassificou em número de sete, para que pudessem ser a contraposição das sete virtudes, e as chamou de “sete pecados capitais”, assim chamados, pois geram outros vícios. Estes pecados ou vícios são, portanto, uma interpretação dos cristãos da Idade Média feita a partir da Bíblia, já que não fazem parte das Sagradas Escrituras e sim, da tradição e doutrina cristã. Contudo em Provérbios, há um texto que diz:

“Seis coisas detesta Javé e sete lhe são abominação: olhos altivos, língua mentirosa,mãos que derramam o sangue inocente, coração que maquina planos malvados, pés que correm para a maldade, testemunha falsa que profere mentiras, e o que semeia discórdia entre irmãos.”

Como citado acima, estes vícios ou pecados eram as tentações que afligiam a alma humana. Procurou-se descrevê-los e mesmo catalogá-los, sem, contudo, entender suas causas e os mecanismos que os desencadeia. Hoje, com o avanço da ciência, da Psicologia e da Psiquiatria, estes mecanismos podem ser melhores conhecidos e suas causas trabalhadas e debeladas. Afinal sobre Freud se escreveu que ele “lançou seu bisturi nos horrores da alma”.

Psicologia

Para algumas vertentes da Psicologia, esses pecados capitais ou vícios, servem de base e referência para quem busca trilhar o caminho do autoconhecimento. Para enfrentá-los, é preciso conhecê-los e seus mecanismos de formação.

Inveja: É uma das emoções mais primitivas do homem, geralmente negada por todos. Este mecanismo, responsável pelos nossos ressentimentos é o mecanismo da comparação. Nunca haverá inveja sem que antes tenha havido uma comparação. É um sentimento de inferioridade, fruto desta comparação que se faz com o outro, em algum aspecto específico, como bens materiais, sucesso na vida, beleza, e diversas outras qualidades. É um sentimento que mistura raiva e tristeza. E também pode se manifestar em um forte desejo que o outro se dê mal. Ao se sentirem menores que o os outros, geralmente as pessoas tendem a se aumentar, vangloriar, se enaltecer, como um mecanismo de defesa, para tentar evitar o mal-estar deste desequilíbrio na comparação. Também quando se critica em demasia, diminui ou se fala mal de alguém, provavelmente se está sentindo inferior a ela. “Olho gordo” também é sinônimo de inveja.

A inveja é a incapacidade de se ver a luz das outras pessoas, porque na verdade não nos percebemos com esta mesma luz. O que há de negativo na inveja é a rejeição, em algum momento, de seu próprio tamanho e sua incapacidade de acreditar ser capaz de também conseguir. Por isto, se a pessoa possui autodomínio, autoconhecimento, ela vai usar esta situação como motivação, alavancagem, para ações transformadoras em sua vida.

Ira: A ira é a indignação descontrolada da cólera, raiva e desejo de vingança. São emoções destrutivas tanto para quem a sente quanto para quem se torna objeto delas. Ao longo de sua existência, o homem conseguiu controlar sua agressividade através da razão. A agressividade gerada pela ira demonstra a incapacidade de raciocinar. Pode estar associada a fatores inconscientes, como traumas de infância, falta de amor ou mesmo incapacidade de amar. O que os psicólogos aconselham para extravasar e aliviar as crises de ira: surrar colchões ou travesseiros, imaginar que a outra pessoa está a sua frente e lhe dizer tudo que sente, entre outras coisas. Quanto mais se busca o autoconhecimento, melhor se domina as crises de ira. Não deixe que o outro determine seu nível de humor, seja dono de você mesmo.

Gula: Pode ser entendida como uma forma de fuga de problemas, dificuldades e sentimentos, bem como, forma de compensação para se proteger, por exemplo, de excesso de sexualidade no caso de algumas mulheres que se reprimem. A ansiedade também pode provocar a busca compulsiva por comida. Ao se devorar compulsivamente a comida, tenta-se, inconscientemente, destruir o problema. Pode se formar um círculo vicioso: come-se em excesso, para fugir do que se sente; depois se culpa por isto, se pune, comendo ainda mais. Hoje em dia se fala muito em bulimia, que são transtornos alimentares caracterizados por compulsões alimentares, seguidos de comportamentos compensatórios inadequados como o vômito. Então está claro que o que se queria colocar para dentro não era a comida, senão não precisaria de se livrar dela. O mais recomendado para evitar os excessos que a gula pode gerar, é descobrir o que está levando a pessoa àquela situação e lidar com ela com a consciência de que as suas necessidades estão muito além de comer, beber, ter poder: sua maior necessidade é ter amor por si mesmo.

Avareza: A palavra vem do latim “avere”, ter. Avareza é o excessivo e sórdido apego ao dinheiro, falta de generosidade e mesquinhez. A avareza geralmente gera outras atitudes negativas: falsidades, mentiras, fraudes, sempre na tentativa de enganar os outros para lucrar mais. Gera também a desumanidade derivada do excesso de apego e a inquietude e preocupação em sempre ganhar mais, isto é, aniquila qualquer paz de espírito. Ela está relacionada ao medo de faltar, à carência. Geralmente tem origem na infância, principalmente quando se passou privações, principalmente alimentares, ou se a criança associou dos pais ou dos adultos que o dinheiro compra tudo, dinheiro traz felicidade. A avareza é o produto de uma necessidade que se encontra na “psiquê”, na mente humana. Ela tenta disfarçar o conflito com a busca de bens, mas nunca consegue suprir a sensação de carência, fazendo com a pessoa sinta uma insatisfação constante. Na realidade, a avareza é a falta de contato com nosso próprio mundo interior, buscando incessantemente o que é exterior, tentando compensar o vazio que tem dentro de si. Jung, um dos pais da psiquiatria, relata que para este problema a solução é buscar um sentido para a vida. Somente quando o homem tomar conhecimento de seu próprio mundo interior, poderá deixar a doentia preocupação com o exterior. E um bom sentido para a vida pode ser o socorro às necessidades dos mais carentes, através de gestos concretos de caridade.

Luxúria: Luxúria representa o desejo desordenado pelos prazeres sexuais. Apesar de ocorrer também em mulheres, é mais uma característica dos homens. Procura-se compulsivamente satisfazer as próprias necessidades sexuais, não se importando com a satisfação da parceira. Sua origem pode estar na infância, quando os pais reprimem a criança de todo e qualquer impulso sexual. Estes pais geram, através da repressão, muita culpa e criam, assim, adultos reprimidos sexualmente ou liberados excessivamente. Do ponto de vista psíquico, a mulher dá mais valor ao amor e à intimidade do que ao sexo, ao contrário do homem que valoriza mais este último, fugindo do amor e da intimidade. E isto é uma das principais fontes de conflitos entre casais. Vivemos hoje a cultura da beleza, da aparência, da estética, do prazer. A mídia mostra isto o tempo todo. O apelo sexual entra em nossos lares, sem a nossa permissão, pela televisão, tornando-se um padrão de referência para nossos filhos…

Ora, se a vontade e a razão obedecem apenas ao prazer, a pessoa passa a buscar somente o que lhe dá prazer. E se vicia no prazer. Perde os valores espirituais e muitas vezes também os valores morais. O autoconhecimento, e, em conseqüência o crescimento emocional podem retomar o equilíbrio e restabelecer a capacidade de amar ao outro.

Preguiça: É a pouca ou falta de disposição ou aversão ao trabalho, demora ou lentidão para fazer qualquer coisa. É um sentimento que faz com que as pessoas desqualifiquem os problemas e as possibilidades de solução. Não é somente física, mas também mental; preguiça de pensar, de analisar e ponderar. Geralmente o preguiçoso usa o bordão: “deixa para depois”. São pessoas que não conseguem administrar o tempo, adiam compromissos, decisões e até mesmo simples afazeres rotineiros, comprometendo o resultado esperado. Na verdade ocultam uma insegurança exagerada sobre sua própria capacidade de agir, isto é, falta-lhes a autoconfiança. Utilizam-se do desânimo e do esquecimento como estratégia para fugir da necessidade de enfrentar a tarefa que lhes cabe. É como se estivessem imobilizados perante a vida. Somente com a pressão de outros e um trabalho profundo de conscientização, é que poderão sair deste estado de letargia.

Soberba: É o desejo destorcido de grandeza. A soberba leva o homem a desprezar os superiores e desobedecer as leis. Tem ligação com ambição desmedida, que é a cobiça, com a vanglória, a hipocrisia, a ostentação, a presunção, a arrogância, a vaidade, o orgulho excessivo, um conceito exagerado de si mesmo e, por fim, com a sede de poder. A soberba acarreta muitos conflitos nas relações pessoais, pois o soberbo, busca manter o controle, criticando, manipulando e dominando o outro com forma de poder. Ele precisa fazer com que o outro se sinta diminuído para que ele se sinta superior. Geralmente as pessoas acometidas pela soberba usam disto como uma máscara para compensar a falta de autoconfiança, falta de amor próprio, vazio interno, sensação de desamparo, provavelmente adquiridos na infância quando não encontraram este amparo nos adultos com quem conviviam. A soberba está muito distante da humildade, característica básica de quem possui autoconhecimento. Infelizmente algumas pessoas só percebem esse comportamento no fim de suas vidas, muitas vezes num leito de hospital, quando pouco ou nada se pode fazer para reconstruir o que destruíram nos outros e em si mesmo.

Para teólogos de várias religiões, a soberba é um pecado específico, uma forma básica de pecado. Os demais pecados podem encontrar uma explicação biológica ou psicológica, pois podem ser movidos pelo instinto de sobrevivência do homem, e mesmo dos animais. Mas soberba não encontra uma explicação nem biológica, nem instintiva. Ela não é percebida no comportamento do animal, por exemplo. Só o homem desenvolve a vaidade e a soberba. Ela foi, por exemplo, o pecado de Adão, que teve a ambição de se tornar Deus.

É preciso desenvolver a consciência de que seu valor como pessoa independe da posição que ocupa ou dos bens que possui e que somos seres humanos em constante processo de evolução.

Perguntaram a Allan Kardec qual era o vício mais radical e ele respondeu:

“O egoísmo. Dele deriva todo o mal. No fundo, em todos os vícios existe o egoísmo. Nele se encontra a verdadeira chaga da sociedade”.

Conclusão

A Maçonaria conclama todos os Irmãos a desempenhar o glorioso papel de construtor social. Somos recebidos Pedras Brutas, para que, em nosso ser moral, desbastemos as arestas e asperezas e nos tornemos elementos úteis à construção deste edifício social que a ela compete erigir. Estas arestas, asperezas, são os vícios que atrapalham esta convivência relacional, e impedem a construção desta sociedade moral. Algumas destas asperezas são de difícil desbaste, mas as virtudes da Fortaleza e da Paciência por certo as removerão. Por isto nos reunimos em Loja, para levantar templos à Virtude e cavar masmorras ao Vício. A Maçonaria nos conclama a praticar a virtude, a pautar nossas ações pelas virtudes. Por isto, conhecendo nossa condição humana, nos adverte a não abusarmos de nossas próprias fraquezas e muito menos do enlevo de nossas vaidades, pois o mal e a tentação estão por todas as partes. Mas por todas as partes também está o bem e estão os bem-aventurados homens de boa-vontade. Portanto, direcionemos todas as nossas ações para o bem.

Hoje em dia outro tipo sorrateiro de vício toma conta da sociedade, invadindo os nossos lares fazendo de nossos filhos, seus reféns. São os chamados “vícios sociais”, causados pela dependência química do álcool, do fumo e das drogas. A droga é hoje o câncer que corrói a nossa sociedade. Basta vermos nos meios de comunicação, diariamente, o quanto ela destrói vidas, destrói lares e mobiliza todo um aparato policial para tentar contê-la. Por isso que é oportuna e louvável a campanha da Grande Loja Maçônica de Minas Gerais, conclamando a todos nós a engajarmos nesta luta.

Estas reflexões sobre virtudes e vícios visaram conhecermos melhor nossos instintos mais primitivos, nossas sombras, o lado escuro que todos nós temos, mas que é possível, através da conscientização e do autoconhecimento, colocarmos luz onde só era escuridão.

Afinal, meus Irmãos “não somos nós que deixamos os vícios; são eles que, desprovidos de nossa atração, nos deixam”.

Autor: Sílvio Maria de Abreu
ARLS Obreiros da Verdade nº 52- GLMMG

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Bibliografia

Vícios e virtudes em Aristóteles e São Tomaz de Aquino – Cláudio Henrique da Silva

A virtude e as virtudes – Sérgio Biagi Gregório

Vícios e virtudes – Newton Freitas

Sete pecados capitais – Rosemeire Zago

Ritual do Grau 1 do REAA Ritual e Instrução do Grau 2 do REAA

O Simbolismo Maçônico – Parte II

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O Símbolo e o Rito

Vamos ver, pois, alguns desses símbolos que constituem, junto aos ritos, o patrimônio vivo e o verdadeiro tesouro da Tradição Maçônica. Em altares de uma maior claridade, podemos classificá-los da seguinte maneira: em símbolos geométricos e visuais; em símbolos sonoros e vocais; e por último em símbolos em movimento, que não são outros que os ritos.

Sobre a importância dos símbolos geométricos e visuais na Maçonaria basta recordar que antigamente se identificava esta com a própria Geometria, o que é perfeitamente lógico pois esta última encontra sua aplicação natural na arquitetura. Efetivamente, a palavra geometria deriva de Geo (terra) e metron (medida), quer dizer “medida da terra”, o que certamente tem muito que ver com o ofício de construtor assim que este delimita um espaço com o fim de realizar sua obra.

Por outro lado, o simbolismo geométrico é, assim como o numérico, uma das heranças mais importantes que a Maçonaria recebeu da tradição pitagórica. Temos que recordar que as confrarias medievais de construtores procediam diretamente dos colégios artesanais da antiga Roma, e que estes tinham recebido grande parte de seus conhecimentos sobre geometria diretamente dos pitagóricos. O certo é que, nas lendas maçônicas, Pitágoras figura, junto ao deus Hermes, como um dos fundadores míticos da Ordem. Efetivamente, nessas lendas tanto Pitágoras como Hermes são os que encontram as duas colunas (assimiladas posteriormente às colunas J. e B. do templo maçônico) onde se gravou todo o saber que remontava às próprias origens da humanidade, e entre as que se encontravam as artes e ciências da Cosmogonia. Como diz a este respeito Federico González no artigo Tradição Hermética e Maçonaria, publicadono mesmo Nº 13-14 da Revista SYMBOLOS, essas duas colunas “configuram os dois grandes afluentes sapienciais que nutrirão a Ordem: o hermetismo que assegurará o amparo do deus através da Filosofia, quer dizer, do Conhecimento, e o pitagorismo que dará os elementos aritméticos e geométricos necessários que reclama o simbolismo construtivo; deve-se considerar que ambas as correntes são direta ou indiretamente de origem egípcia. Igualmente que essas duas colunas são as pernas da Mãe Loja maçônica, pelas quais é parido o Neófito, quer dizer, pela sabedoria de Hermes, o grande iniciador, e por Pitágoras, o instrutor gnóstico.” Poderíamos então dizer que a Maçonaria é a confluência natural dessas duas correntes constitutivas da Tradição Unânime, e que nela são só uma, conformando sua identidade e seu ser.

Voltando para simbolismo geométrico, devemos considerar dentro deste às próprias ferramentas ou utensílios. Concretamente falamos do nível, do prumo, do esquadro e do compasso. Todas elas estão relacionadas diretamente com as formas geométricas fundamentais. Por exemplo, o prumo é claramente um símbolo da vertical, e o nível da horizontal. No simbolismo construtivo ambas são indissociáveis e se necessitam mutuamente, pois a verticalidade do edifício, quer dizer, sua perpendicularidade, vem sendo dada pelo perfeito nivelamento do mesmo. E por sua vez esse nivelamento é a resultante de um equilíbrio que se consegue obrigado à presença constante de um eixo vertical, que assinala o “justo meio” que impede qualquer desnivelamento. O prumo e o nível representam então os dois eixos de coordenadas que tornam possível o levantamento harmonioso de toda a construção.

O mesmo ocorre com o esquadro, que se forma pela união de uma vertical e uma horizontal. Com esta ferramenta também construímos a figura do quadrado, e igualmente a cruz se unirmos dois esquadros por seus vértices respectivos. Ambas as figuras são inseparáveis da ideia de quaternário; assim: os quatro elementos, os quatro pontos cardeais, as quatro estações, os quatro períodos cíclicos da humanidade, as quatro fases da lua, os quatro períodos da vida humana, etc., quer dizer tudo que é relacionado com a terra e o terrestre. Em realidade o esquadro é um ângulo reto, e ele está destinado a “esquadrar” a pedra durante seu processo de polimento, depois de ter sido trabalhada pelo maço e pelo cinzel. Recordemos, enfim, que em latim esquadro se diz “norma”, indicando assim a ideia de ordem, ou de “enquadramento” que faz possível a ordem, especialmente a do pensamento, que se faz una com a Inteligência que reflete, que está simbolizada pelo compasso.

Quanto a esta última, é óbvia sua relação com o círculo e com todas as figuras que tendem à circularidade. Mas as formas circulares sempre são geradas a partir de um centro prévio, que é precisamente o que assinala um dos dois braços do compasso, aquele que permanece imóvel enquanto o outro gira a seu redor. O centro da circunferência seria, pois, uma imagem simbólica do Princípio, e a circunferência mesma, uma imagem por sua vez da multiplicidade, da manifestação, surgida ou gerada pela irradiação desse princípio, que permanece não obstante imutável enquanto tudo gira, troca e muda a seu redor. Por isso o compasso é um dos símbolos que se associam diretamente com a atividade criadora do Grande Arquiteto, como o testemunham numerosas gravuras onde lhe representa com um compasso na mão riscando o plano de sua obra, quer dizer do cosmo.

Outras duas figuras geométricas importantes são o Delta Luminoso (de forma triangular) e a Estrela de cinco pontas ou Estrela flamejante, símbolos respectivos do Grande Arquiteto e do homem plenamente regenerado que retornou ao centro de si mesmo. Dá-se a circunstância de que tanto o Delta como a Estrela flamejante são de origem pitagórica, pois estão intimamente relacionados com a Tetraktys (que tem também forma triangular), e com o Pentalfa ou Estrela pentagramática respectivamente, signo distintivo, este último, da confraria pitagórica.

Entre o segundo grupo de símbolos, os sonoros e vocais, encontramos as “palavras sagradas” e as “palavras de passe”, assim como as lendas relatadas nos distintos graus. Tudo isto forma parte do ensino oral da Maçonaria, que se complementa perfeitamente com o ensino visual próprio do simbolismo geométrico. As “palavras sagradas” se denominam assim porque representam diferentes nomes do Grande Arquiteto. Cada grau maçônico está simbolizado e tem sua própria palavra sagrada. O significado dessa palavra dá sentido e orienta os trabalhos rituais e simbólicos que se desenvolvem em cada um desses graus. Por isso é tão importante para o maçom conhecer esse significado, pois para ele será um ponto de referência axial constante e permanente que lhe guiará ao longo de todo seu processo iniciático.

Não menos importantes são as “palavras de passe”, assim chamadas porque elas permitem “passar” de um grau a outro, o que as relaciona diretamente com a simbólica de passagem ou de trânsito, comum a todas as tradições iniciáticas. A expressão “estar em posse da palavra de passe” quer dizer que o maçom culminou uma etapa dentro de seu processo de Conhecimento, que progrediu nas “vias que lhe foram riscadas” desde tempos antigos por sua tradição, e que portanto está preparado interiormente para receber o “aumento de seu salário”.

E por último estão os símbolos em movimento, que como dissemos não são outros que os ritos. O rito põe em prática a ideia que o símbolo expressa. Representa o desenvolvimento e a vivência dessa ideia, quer dizer, de fazê-la efetiva mediante sua permanente reiteração. De nada serviria compreender o que o símbolo manifesta se depois essa compreensão não se viver como uma realidade verdadeiramente transformadora. Por isso mesmo é tão importante o rito dentro da Maçonaria, pois sem essa constante vivificação dos símbolos os trabalhos que se fazem na loja maçônica careceriam de toda “força e vigor”, convertendo-se em meras alegorias quando não em atos puramente mecânicos. Neste sentido a meditação, a concentração e o trabalho sobre os símbolos constituem também uma forma do rito, pois o fim último deste é gerar um estado apto para a compreensão das realidades superiores veiculadas pelos símbolos. Diria-se, pois, que o rito, realizado nestas condições, é uma “meditação em ação”, e isto pode fazer-se tanto no interior da Loja maçônica, como no mundo, que é a loja universal.

Poderíamos então dizer que a Maçonaria é ela mesma um rito, daí que também se denomine “a Ordem”, como sinônimo da própria ordem cósmica. Por isso mesmo, na Loja maçônica  (imagem simbólica dessa ordem) tudo se cumpre segundo o rito, e todos os gestos e signos rituais realizados no interior da mesma têm que ser considerados como o que são: veículos transmissores do ensino simbólico e de sua influência regeneradora. Verdadeiramente não há maior rito que a busca do Conhecimento, pois nela o homem encontra o próprio fundamento de sua existência. Essa busca é um “ato consciente”, e tudo o que a partir de então é realizado, experimentado e vivido durante seu desenvolvimento passa a ser significativo, a ter um sentido que nos “orienta” no labirinto deste mundo perecível e nos impulsiona para o encontro de nosso verdadeiro ser e origem.

Continua…

Autor: Francisco Ariza

Fonte: Revista Symbolos

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O Simbolismo Maçônico – Parte I

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A Maçonaria é uma instituição iniciática e esotérica que revela seu ensino através de determinados códigos baseados fundamentalmente no simbolismo construtivo. Isto é devido a Maçonaria atual ser em grande parte herdeira dos antigos grêmios de construtores, e embora hoje em dia os maçons já não construam edifícios, entretanto esse simbolismo segue estando vigente, entre outras razões porque é consubstancial à Ordem Maçônica e constitui seus gestos de identidade e sua razão mesma de ser, como veremos a seguir.

Acima de tudo os símbolos maçônicos se referem a um conjunto de ideias relacionadas diretamente com o conhecimento da Cosmogonia, e portanto do homem, pois este é um cosmos em miniatura, um microcosmos, por dizê-lo em linguagem hermética. Precisamente os antigos construtores consideravam o Cosmos como seu modelo simbólico por excelência, e para levantar seus edifícios imitavam as estruturas desse modelo, reveladas sobretudo através das formas geométricas, entre as que destacam o círculo e o quadrado, símbolos respectivos do céu e a terra. Essas formas e estruturas simbólicas sempre respondem a uns arquétipos universais, a uns princípios que são coetâneos com qualquer tempo ou circunstância histórica ou pessoal.

Não importa, como dizíamos, que os maçons de hoje não levantem edifícios. O realmente importante é que esses mesmos princípios ou ideias os podemos conhecer através dos símbolos que decoram nossos templos, o mais importante dos quais é justamente o que se refere a quem é verdadeiramente o Autor de cujo Pensamento surge a Grande Obra da Criação, conhecido na Maçonaria com o nome de Grande Arquiteto do Universo, e em outras tradições, como por exemplo a hindu, como o “Espírito da Construção Universal”. O Grande Arquiteto do Universo é o Princípio Supremo, a verdadeira chave da abóbada ou pedra angular do Templo maçônico. É sob a influência d’Esse princípio que os maçons realizam seus trabalhos dentro da Loja maçônica, trabalhos em que junto ao estudo dos símbolos está a prática do rito, tornando a própria Loja maçônica um espaço significativo análogo à mesma estrutura do Cosmos. Como mais tarde veremos, o simbolismo da Loja maçônica também é um dos temas de meditação aos que nossa Ordem concede uma importância muito relevante.

E já que falamos do Grande Arquiteto, acreditamos que é conveniente assinalar que na Maçonaria este não tem nenhum tipo de conotação religiosa. E não pode tê-la porque a Maçonaria não é uma religião, como pode ser a católica ou qualquer outra, mas sim uma organização iniciática que entrega ao homem os meios e os conhecimentos necessários para seu aperfeiçoamento como ser humano. Não esqueçamos que a Maçonaria é uma Ciência e uma Arte, e seu Princípio Supremo se manifesta como a Inteligência que organiza o Cosmos, o Templo Universal, de acordo ao plano ideal concebido em sua Sabedoria, que como está escrito no Livro da Lei Sagrada “tudo o fez em número, peso e medida”. Não se trata de “acreditar” no símbolo, mas sim de compreendê-lo, pois na medida em que o compreendemos e nos penetramos de seu significado profundo seremos um com a ideia que o conforma. O maçom toma ao símbolo como veículo de Conhecimento e não como um objeto de “culto”, pois sabe que não terá que confundir o símbolo com o que este simboliza.

Mas o fato da Maçonaria não ser uma religião não impede que existam maçons que em sua vida privada, e no exercício de sua liberdade, pratiquem um credo religioso determinado, ou que não pratiquem nenhum. Isto à Maçonaria não tem que se lhe importar, pois essas crenças, sejam religiosas ou de qualquer outro tipo (filosóficas, científicas, políticas, etc.) têm que deixar-se, junto com os metais, na porta do Templo. Como diz o próprio Guénon em outro artigo titulado “A Gnose e a Franco-Maçonaria”, esta “deve ser pura e simplesmente a Maçonaria. Cada um de seus membros ao entrar no Templo, deve despojar-se de sua personalidade profana e fazer abstração de quanto seja estranho aos princípios fundamentais da Maçonaria, princípios ao redor dos quais todos deveriam unir-se para trabalhar em comum na Grande Obra da Construção universal”.

Por dizê-lo de algum jeito, o único que a Maçonaria “exige” de seus membros é uma vontade firme no “desbastado” e “polimento” da pedra bruta, que como dizem alguns rituais “é um produto grosseiro da Natureza, que a Arte da Maçonaria deve polir e transformar”. Esse desbastado e polimento é justamente o símbolo do trabalho do maçom consigo mesmo, o qual leva a cabo com as primeiras ferramentas que a Ordem lhe oferece depois de receber o influxo espiritual no rito de iniciação: o maço e o cinzel, símbolos respectivos da vontade e a reta intenção. A obra de regeneração não pode levar-se a cabo sem uma vontade firme e perseverante que a deseje, quer dizer, sem uma força interior que influa e transmita seu poder criativo à “matéria relatório” da psique desordenada e caótica, simbolizada pela pedra bruta. Mas essa força interior precisa ser dirigida e orientada pela inteligência, ou melhor, pelo “rigor intelectual”, que “distingue” aquilo que no ser é conforme à realidade essencial de sua natureza (o que esse ser é em si mesmo), pelo que são apenas seus adornos supérfluos e ilusórios. Assim, como o cinzel da inteligência, impulsionado pelo maço da vontade, o aprendiz vai limando e corrigindo as arestas e asperezas de sua pedra bruta, separando o “espesso do sutil”, o “caos” do “ordem”, o “profano” do “sagrado”, operação alquímica que tem que converter-se em um rito cotidiano, em um exercício de cada momento, pois tal separação constitui a premissa fundamental a cumprir nas primeiras etapas do processo iniciático, até que com paciência e perseverança alcance esse aperfeiçoamento de que falávamos anteriormente, exemplificado na pedra cúbica e esculpida.

A iniciação, ou via no Conhecimento, desperta no homem suas qualidades inatas, que permanecem “adormecidas” ou “quietas” em seu estado ordinário, semelhante por isso ao “sonho” e ao potencial. A influência da iniciação não acrescenta nada que o homem não possua já e não forme parte de sua própria essência. Neste sentido, estamos totalmente de acordo com Arturo Reghini quando diz que esse aperfeiçoamento “está ligado ao conhecimento e ao reconhecimento da natureza humana e suas possibilidades inerentes. É necessário realizar o antigo preceito do oráculo de Delfos: “conhece-te a ti mesmo”. É necessário procurar em si mesmo o mistério do ser, considerar a vida humana, suas funções, seus limites e a possibilidade de ultrapassá-los, de intervir ativamente em seu curso, não abandoná-lo à deriva, em descobrir e em despertar os germens latentes, os sentidos e os poderes ainda desconhecidos, adormecidos e ocultos. É necessário, enfim, realizar uma obra de edificação espiritual, uma transmutação, alcançar a virtude e o conhecimento para que o miserável verme que repta pela terra se transforme em gloriosa mariposa voando livremente para a justiça”. Para obter esse fim, o mesmo Reghini nos diz que não existe outro meio que “o trabalho maçônico baseado e sustentado pela iniciação simbólica, quer dizer, conferida e obtida através da inteligência dos símbolos maçônicos familiares, a imagem da obra de arte que se realiza com os instrumentos do ofício”.

A expressão “conhece-te ti mesmo” deveria figurar também no frontispício dos templos maçônicos. Na verdade, nada há mais importante para o homem que conhecer sua verdadeira identidade, saber quem há detrás dessa máscara à que chamamos “personalidade”, e que a Maçonaria identifica com os metais do homem velho, “submerso, como dizem os rituais, nas mais profundas trevas”.

Como estamos vendo, a ideia de transmutação tem muito que ver com o processo alquímico, e de fato a “Arte Real” maçônica, desenvolvida através dos três graus de aprendiz, companheiro e mestre, é idêntica à “Grande Obra” da Alquimia, pelo que pode fazer uma transposição totalmente coerente entre o simbolismo alquímico e o simbolismo construtivo e arquitetônico. A pedra bruta da Maçonaria é, neste sentido, quão mesmo a “matéria prima” da Alquimia: tanto em uma como em outra estão contidas de maneira potencial ou virtual todas as possibilidades que conduzem ao homem para sua regeneração, possibilidades que, no caso do aprendiz maçom, começarão a desenvolver-se e a crescer abrigadas à influência espiritual ou intelectual (pois ambos os conceitos expressam o mesmo) transmitida através dos símbolos e ritos da Ordem.

Continua…

Autor: Francisco Ariza

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A que viemos?

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Quantas vezes ficamos a esperar que as outras pessoas façam por nós, aquilo que podemos e devemos fazer em prol de nosso próprio crescimento e das coletividades onde estamos inseridos?

Quantas vezes cobramos das outras pessoas, atitudes que deveriam partir de nós mesmos e que, em função da falta de atitude e da omissão, acabamos que levados ao ostracismo?

O Iniciado, mais do que qualquer outro homem maçom, por princípios fundamentados em um juramento solene e sagrado – revivamos a nossa Iniciação, precisa envolver-se em todas as questões que impactam na vida da sociedade e na de sua família. Precisa também compreender que a Iniciação é um processo que lhe abre a oportunidades de se tornar um Maçom, mas que para tal, precisará de dedicação, estudo, trabalho e, sobretudo, sublimação e discernimento. Fica então uma pergunta: A que viemos?

Como sublimar diante de uma história humana repleta de desencontros? Como não se deixar influenciar pela perspectiva do poder e das honrarias? Como não se deixar levar pela lei do menor esforço e reduzir, por exemplo, a ameaça real de extermínio da vida no planeta que nos foi concedido como morada, e que tem sido a fonte perene de nossa subsistência e sobrevivência. Eis que:

  • Quais os cuidados que as centenas de milhares de gerações humanas têm se dado à natureza?
  • Quais e quantas ações coletivas têm sido implementadas em prol da vida de todos os seres que nos cercam?
  • Quantas nações, povos ou culturas preservaram ou preservam mais do que exploraram ou exploram a natureza?

Meus caros, o Ser Humano é aquele que mais se beneficia da Natureza. No entanto, é o único que não a preserva!

Muitos devem estar questionando acerca do que isso tudo tem a ver comigo ou conosco? Tudo, pois ao tornamo-nos Maçons juramos incondicional defesa de tudo aquilo que diz respeito à vida, em todos os seus aspectos e sentidos. Cada maçom precisa estar atento às questões que afetam o bem-estar de sua coletividade, agindo proativamente ao lado daqueles que o cercam, na busca e consolidação das ações necessárias à conquista do BEM COMUM – É isto que o chama a fazer a Sublime Ordem que o acolheu como Obreiro da Paz e Filho da Luz.

Queridos Irmãos, sejamos conscientes de nossos deveres e compromissados com o progresso e a evolução da Humanidade, buscando a reforma interior e a responsabilidade solidária de nosso livre arbítrio, tão bem fortalecidos pela vivência plena no seio da Maçonaria. Contudo, nobres Iniciados na Arte Real, é necessário que tenhamos vontade, posicionamentos, envolvimento, fé e, mais do que tudo, disposição, liderança e capacidade de planejamento, buscando a construção e a implementação de projetos voltados para o desenvolvimento humano, em todas as suas relações, inclusive no que diz respeito à participação no cenário político deste imenso e rico Brasil, tão marcado pela corrupção e pelos desvios de ordem ética e moral. O que temos feito contra uma enormidade de desvios que por décadas impedem a Ordem e o Progresso do país? Onde estão os nossos posicionamentos e ações concretas contra:

  • A corrupção e a roubalheira desenfreada;
  • A impunidade, em todos os sentidos;
  • A criminalidade crescente;
  • A carga tributária recorde e a falta de investimentos compatíveis com a arrecadação, fazendo com que trabalhadores financiem com o suor de seu trabalho a ineficiência do Estado e a manutenção de uma estrutura perversa que alimenta as mazelas sociais;
  • O sucateamento das políticas públicas, afetando a saúde, a educação, a segurança a infraestrutura de um modo geral e outras áreas tão necessárias ao crescimento social;
  • A degradação do meio ambiente – cito com exemplo, a ocupação irracional e a destruição desenfreada da Amazônia;
  • O assistencialismo eleitoreiro;
  • Os governantes aventureiros, fanfarrões e irresponsáveis que temos nos dias atuais.

Entre tantas outras questões não menos importantes.

Que cada ente de nossa Sublime Ordem reflita acerca da importância dos Princípios Maçônicos em nossas vidas e quer, adotando um comportamento condizente com aquilo que a Maçonaria ensina e espera de um Homem Iniciado, que tenhamos a iniciativa de mudarmos para melhor o ambiente e a sociedade a qual pertencemos. A escolha é somente nossa, como nossa é a responsabilidade por aquilo que plantarmos e colhermos.

Que cada Maçom possa levar idéias e projetos ao seio de suas Lojas e que não fiquem esperando que só o Venerável Mestre ou membros da diretoria o façam. Vamos, de forma responsável, discutir a nossa Ordem e a Sociedade onde ela está inserida – que tenhamos projetos e que possamos acreditar em nossa capacidade em realizá-los.

Alguns vão dizer que estou sendo repetitivo, mas é preciso perseverar sempre e, com sinceridade, ética e disciplina, mostrarmos que sonhos podem e devem ser transformados em realidade. Nesse sentido, urge que mudemos a forma de agir e de pensar. Precisamos despertar o líder que existe dentro da mente e do coração de cada Iniciado na Arte Real, para contribuirmos e construirmos uma sociedade mais equilibrada, justa e harmoniosa e mais, que tenhamos a serenidade para:

  • Descobrirmos os nossos caminhos através da Paciência, da Prudência e da Serenidade;
  • Fortalecermos os nossos corações e os de nossos irmãos, familiares e amigos;
  • Modelarmos os nossos espíritos com a doutrina do Livro da Lei, a sensibilidade do Compasso e a retidão do Esquadro;
  • Alinharmos os nossos rumos através da Fé, da Verdade e da Liberdade de pensamento.

A que viemos meus queridos Irmãos e amigos? Senão para deixarmos as nossas marcas pelo caminho e escrevermos uma história cujo final representa a vontade do Grande Arquiteto do Universo.

Autor: Leonel Ricardo de Andrade
Grão- Mestre ad vitam – GLMMG

Teoria do Conhecimento Maçônico

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Quando iniciado na Maçonaria, muitos são os sonhos de realização, educação e cultura que o neófito espera obter. Imagina-se que terá mestres que lhe ensinarão todos os meandros da Arte Real.

Depois de algum tempo, ele percebe que a Ordem Maçônica apenas fornece local físico, ferramentas e amigos para a caminhada que fará a sua maneira e por seus próprios meios. O estudante maçom anda só na estrada do desenvolvimento, porque lhe cabe descobrir, decorrente da própria vivência, por si e em si próprio, na devida oportunidade, as verdades tão sonhadas.

As descobertas intuídas pelo método maçônico de aprendizagem são diferentes para cada pessoa, dependendo de sua herança cultural[1], porque o método objetiva que cada um desenvolva suas próprias verdades, sem submetê-las a um molde.

Esta liberdade de auto-desenvolvimento tem conexão com a teoria do conhecimento da antiguidade, na qual Heráclito afirmou que tudo no universo muda constantemente, tudo é dinâmico. O método de ensino maçônico transporta esta ideia para as verdades de cada um ao longo do tempo. Cada pessoa tem verdades próprias, que mudam constantemente, dependendo apenas do dinamismo de seu alicerce cultural.

Inicialmente, é bem estranha a forma como cada ferramenta de pedreiro é apresentada, pois sua utilização é universalmente conhecida na arte da construção civil. O processo de conhecimento maçônico processa informações, manipulando símbolos, baseado em regras ritualísticas. O que o neófito não dispõe, são as regras que lhe permite utilizar estes mesmos utensílios do pedreiro de forma simbólica, na construção do próprio homem.

Dentro da teoria do conhecimento maçônico estes símbolos são aplicáveis aos aspectos: moral, ético, social, das saúdes física, mental e espiritual, e no conjunto de cada um. Platão afirmou que os homens comuns se detêm nos primeiros degraus do conhecimento e não ultrapassam o nível da opinião; matemáticos ascendem a um nível intermediário, e só o filósofo tem acesso à ciência suprema.

Para isto, o filósofo usa um processo conhecido por dialética[2]; passando de uma ideia para outra, sendo uma delas o complemento ou alicerce da outra. O filósofo é em essência o dialético.

A Maçonaria usa de suas lendas e símbolos para proporcionar ao estudante um método de progresso do pensamento filosófico; funciona também para obreiros, sem formação acadêmica alguma, poderem tratar processos dialéticos complicados e com isto se humanizarem. Estes exercícios dialéticos compõem a essência da formação do conhecimento maçônico.

O maçom é um filósofo diferente, porque seus processos cognitivos desenvolvem-se pela materialização da ideia na linguagem simbólica, no uso de símbolos e lendas, que são convertidos em pensamentos abstratos e complexos por métodos de associação e repetição. E isto faz a Maçonaria produzir seres humanos inteiros, equilibrados e destituídos da abordagem mecanicista[3] que, ao fragmentar os processos, acaba por perder a visão do todo. O maçom é treinado para ser a um só tempo nos planos espiritual, psíquico, biológico, histórico-cultural, social, físico, e outros.

A fragmentação transmitida pela educação profana, usando de disciplinas, impossibilita ao homem aprender o que significa ser humano. É nisto que o método de ensino maçônico leva vantagem. A diversidade de ideias, pelo fato de cada um observar os processos a sua maneira, é a aplicação da teoria da complexidade, em semelhança com um universo vivo que evolui da desordem para a ordem em graus de complexidade crescentes.

Quando a Maçonaria migrou da arte de construir para a arte de pensar, no século XVIII, deu partida a um processo educacional que veio até o presente, revolucionando a sociedade em seu caminho por ações daqueles que foram treinados debaixo de sua filosofia. Desde então, e na maioria dos eventos históricos onde se pautou por Liberdade, Igualdade e Fraternidade, a Ordem Maçônica agiu nos bastidores com esta educação do homem por inteiro e que move seus membros à ação.

O homem maçom torna-se mestre de si próprio ao longo de seu auto-desenvolvimento, e procura alcançar o ápice da perfeição com a tomada de atitudes. Sem discutir, o maçom age baseado na moral que desenvolveu ao longo de sua jornada maçônica, e esta ação está pautada no desejo de acertar e promover o bem para si e a coletividade.

Nestas ações, ele pode ser aviltado e até morto, porque não é sem perigo que um homem de ação atua. Entretanto, na maioria das ocasiões ele se beneficia com esta postura, caindo sobre sua pessoa o reconhecimento da sociedade que o rodeia, e principalmente incrementa sua própria satisfação, alegria e felicidade. Nisto, o maçom é semelhante a um planeta que orbita o Sol: ele reflete a luz emanada por intermédio da ação frente ao que ele considera certo[4]. A educação do maçom o leva a conhecer o mal e também o modo de evitá-lo[5]. A máxima em toda a caminhada fundamentada na teoria do conhecimento maçônico é o auto-conhecimento, o “conhece-te a ti mesmo”, de Sócrates, e esta noção, como resultado de um trabalho solitário e autodidata é decorrente de profunda introspecção, de longa meditação.

O interessante é que tudo o que se aprende nos templos maçônicos é baseado em lendas fictícias, porém alicerçados em fatos históricos registrados. Assim como as ferramentas, as lendas são materializações de conceitos abstratos, dentro da linha e em direção de estados de complexidade cada vez maiores. Estas histórias sempre têm mensagens que impulsionam ao desenvolvimento Moral. E como não se usam computadores para educar o homem maçom, ocorre enriquecimento espiritual e aporte de diversidade cultural.

Já que nada pode ser feito para melhorar a sociedade se no fundo do cidadão não existir um cunho de homem espiritualmente desenvolvido e em harmonia com o princípio criador do universo designado como Grande Arquiteto do Universo, o homem maçom considera a si mesmo um templo do Incriado, e tudo fará para não conspurcar aquele lugar sagrado. É templo cujo limite é sua própria pele, cujos portões são sua boca, ouvidos e visão, tudo regido por sua capacidade cognitiva e emocional equilibrados pela sua espiritualidade.

O maçom desenvolve sua espiritualidade para avançar com apoio daquilo que considera a origem de tudo; sem uma elevada Fé ele se perderia nas sendas do mal, à semelhança do que acontece na sociedade humana, na qual o homem-fera prevalece sobre o homem evoluído. E tudo é proporcionado por seu próprio esforço e pelos princípios desenvolvidos com a técnica de aprendizado maçônico. A criatura humana ao longo de sua vida deve se desenvolver de forma equilibrada em todas as suas dimensões, e o que acelera o processo de desenvolvimento é uma potencialidade latente em cada um: a capacidade de crescer em espiritualidade. E cada pessoa desenvolve seus próprios critérios e ideias de divindade, o que para alguns faz sentido e alimenta sua capacidade de evolução espiritual; para outros não faz sentido algum.

A epistemologia genética[6], formulada por Piaget, ocupa-se com a formação do significado do conhecimento e meios usados pela mente humana a sair de um nível de conhecimento inferior para outro superior, mais complexo. Segundo ele, a natureza dos saltos do conhecimento são históricas, psicológicas e biológicas. Ele explica que:

A hipótese fundamental da epistemologia genética é a de que existe paralelismo entre o progresso completo e a organização racional e lógica do conhecimento e os correspondentes processos psicológicos formativos.

Pode-se deduzir que o método maçônico de progresso do conhecimento usa o lastro genético que cada um tem, e de forma livre permite que cada um construa sua própria base sem espremer este dentro de um modelo.

Muitas das lendas contam histórias de personagens movidas à ação, o que lhes trouxe bons e maus resultados. No fundo, o trabalho em mergulhar nos sentidos destas lendas é sempre o de estudar denodadamente para desenvolver o poder de, em conhecendo o mal, saber evitá-lo.

Estes estudos são movidos principalmente pela curiosidade, a mola propulsora do desenvolvimento intelectual. O desejo intenso de ver, ouvir, conhecer, experimentar alguma coisa geralmente nova, original, pouco conhecida ou da qual nada se conhece, faz vencer barreiras, escalar níveis de conhecimento superiores, em níveis de complexidade sempre maiores, contribuindo para fazê-lo possuidor dos segredos do mal, a fim de desviar-se com galhardia de sua ação corrosiva e destruidora. É apenas pelo estudo levado pela curiosidade salutar e edificante que o maçom obtém sucesso em subjugar a natureza e passa a desfrutá-la em sua plenitude.

Em contrapartida, o que também favorece o desenvolvimento pessoal é o controle da indiscrição. O maçom ouve mais e age mais do que fala. Pela curiosidade e longe da bisbilhotice que induz ao perigo, desenvolve a capacidade de manter segredos, a nunca falar de assuntos de outros ou repassá-los sem sua anuência.

A vida em sociedade impõe a necessidade de politização, desenvolvimento do exercício do poder em favor da coletividade. E sendo o humano um ser social por excelência, a sociedade não funcionaria de forma equilibrada sem o exercício do poder de forma equitativa e livre sem a política. Aí o desenvolvimento filosófico maçônico tem sua mola mestra ao impulsionar pessoas a pensarem e agirem mais. Lideranças são forjadas no fogo da convivência em lojas. De nada adianta revelar os segredos maçônicos por meio de livros com objetivo meramente comercial se não se oferecer a oportunidade da pessoa viver a Maçonaria, e não possibilitar que a Maçonaria seja compreendida.

Pela política, o poder é concentrado de forma natural, pelo convencimento com argumentos da razão e pela formação de relacionamentos fortes. Platão detratava o retórico e o considerava mentiroso, pois este usa o poder do convencimento para a adulação e adulteração do verdadeiro, e adicionalmente, o tinha como crédulo e instável. Segundo Platão, poetas e retóricos estão para o filósofo no mesmo nível em que está a realidade para as imitações da verdade.

Por ser uma coletividade diminuta, cada Loja cobra imediatamente resultado da liderança. Não existe espaço para ações evasivas e dissimuladas como é comum observar-se na sociedade. Sentar no Trono de Salomão, antes de ser privilégio que destaca e enaltece, é ato de fé, lição de humildade, exercício de real de política como ela deveria ser executada no mundo externo. O cidadão forjado nestas oficinas filosóficas vai certamente mudar e passa a praticar a política honesta, no exato sentido que Platão e Sócrates deram a tão nobre profissão.O maçom não faz da filosofia a finalidade de sua própria vida, mas usa da filosofia maçônica para especializar sua capacidade cognitiva e emocional no exercício da Política.

A Maçonaria é uma escola de política, pois com sua filosofia e sua organização desenvolve-se a verdadeira política. Foi Platão o primeiro a estabelecer a doutrina da anamnese[7], que é a lembrança de dentro de si mesmo das verdades que já existem a priori, em latência. O conhecimento maçônico, alicerçado em suas simbologias e lendas, é um exercício permanente de anamnese. E fica tão fácil deduzir verdades complexas latentes que não há necessidade alguma de frequentar escola superior, basta viver o dia-a-dia maçônico que estas verdades afloram naturalmente, como se sempre estivessem plantadas na mente e no coração. É aí que nasce o verdadeiro homem politizado. Este não busca um ganha-pão com este conhecimento, mas pela ação busca exercer a verdadeira atitude política, para tornar-se pedra polida dentro da sociedade ideal. Uma pedra cúbica que não rola ao sabor dos fluxos dos manipuladores como se fosse um seixo rolante de fundo de rio, por ter desenvolvida a capacidade de pensar, é um obstáculo para os políticos despóticos e desonestos.

O aspecto emocional deve ser alimentado com frequentes distrações, para permitir à mente descansar e se refazer para novas investidas na arte de pensar. Durante os períodos de devaneio pode ser desenvolvido o ócio criativo; usar o tempo de folga para criar e desenvolver ideias ou coisas apenas para o deleite emocional, mas que também propiciem crescimento.

Russell propôs que o ócio poderia ser acessível a toda a população se modernos métodos de produção fossem aplicados. Para ele, o trabalho, tal como o conhecemos, não é o real objetivo da vida. De Masi diz que a sociedade industrial permitiu que milhões de pessoas atuassem apenas com os corpos e não lhes deu liberdade de se expressarem com a mente.

O que se faz nos templos maçônicos é exatamente esta retomada da capacidade de pensar que o mundo pós-industrial impôs. Só que na Maçonaria ninguém é compelido só a pensar, mas também de sentir e interpretar toda a mensagem maçônica dentro de seu nível de entendimento. Interagem diversão, trabalho, sentimentos e misticismo. Mesmo após as sessões, nos ágapes o processo de construção continua, é quando se discutem livremente todos e quaisquer temas da vida. As emoções fazem parte do homem, principalmente aquelas que disparam o gatilho da racionalidade. É em momentos de lazer que a maioria das ideias são forjadas, haja vista que elas parecem já existir a priori e nos saltos para níveis superiores de conhecimento, para níveis de complexidade maiores, são então apenas “lembradas”.

Muitas vezes o pensador passa dias em profunda meditação para buscar solução a um problema de forma intensa e sem descanso; basta-lhe um momento de descontração, e o cérebro expele a solução para aquilo que jazia incógnito e insolúvel até então. Outras vezes o pensamento é inédito, não existe registro de haver sido pensado anteriormente, na maioria das vezes ele é despertado em momentos de descontração por um símbolo, por uma estória ou lenda; de repente a ideia está ali, num estalo. A mola da teoria de conhecimento maçônico é seu paradigma da complexidade, a curiosidade salutar em avançar cada vez mais nos conhecimentos de trabalhar a Arte Real em benefício da humanidade, sempre com frequentes intervalos de lazer entre cada investida.

É devido a este conjunto harmônico da metodologia maçônica que ela tem sucesso em lapidar com um mínimo de esforço os seres humanos de uma pedra bruta e tosca em pedra polida e cúbica, onde cada um ocupa seu espaço na sociedade humana de forma esplendorosa nas colunas e paredes do grande templo da humanidade para honra e à glória do Grande Arquiteto do Universo.

Autor: Charles Evaldo Boller

Notas

[1]Conjunto de conhecimentos, informações, saberes adquiridos e que ilustram o indivíduo, segundo uma perspectiva evolutiva.

[2] – Método que investiga a natureza da verdade mediante a análise crítica de conceitos e hipóteses. Esse termo adquire relevância fundamental no pensamento de Platão, Aristóteles, Friedrich Hegel e Karl Marx.

[3]Mecanicismo, em filosofia ocidental, termo que designa qualquer conceito segundo o qual o Universo é mecanicamente explicável. Nesse sentido, é equivalente ao Materialismo. Também se usa a palavra mecanicismo como sinônimo de Naturalismo (filosófico). Devida a René Descartes. O método desdobra processos complexos em menores e mais simples de entender, para então tentar entender como funciona o conjunto. O problema é que, ao analisar o detalhe, na maioria das vezes o analista acaba perdendo a capacidade de observar o conjunto, de formar juízo do conjunto dos processos. Como exemplo seria analisar uma árvore como ser vivo. O técnico formado por nossas instituições acadêmicas a dividiria em raízes, tronco, galhos e folhas. Depois passa a analisar suas raízes nos mais diversos aspectos, e ao formar conhecimento das raízes esquece de considerar os outros detalhes que a tornam um ser vivente inteiro, e mais, esquece que uma árvore é parte de um sistema ainda muito mais complexo de interação com o meio ambiente, sendo esta árvore local de abrigo de pássaros, de animais, de insetos, de fertilidade do solo e outros. Agora transfira isto quando for analisar uma criatura humana. O método da Maçonaria analisa o ser humano em todos os seus aspectos, da forma mais completa possível, sem desconsiderar nenhum detalhe. E isto só é possível com o uso de uma linguagem simbólica, onde cada um enxerga um objeto de uma forma diferente toda vez que olhar para ele na linha de tempo. Isto porque a aculturação é um processo dinâmico no tempo e as verdades sofrem mudanças na corrente do tempo e em função das mudanças que ocorrem na psique das pessoas, sejam elas explicitas ou subliminares.

[4]Só emitimos nossa luz quando a recebemos de outra fonte. Pode-se refletir a luz do sol, da tocha, da vela, mas principalmente de nossas ações, quando estas estão em equilíbrio com a natureza e consigo mesmo. Como não somos vaga-lumes, necessitamos que a luz venha de fora para que a possamos refletir, assim acontece com a filosofia maçom, há necessidade que venha um estimulo externo para provocar a iluminação interna necessária à evolução como ser humano.

[5]Conhecer o mal não significa praticá-lo. É decorrente da vontade do maçom de fazer frente ao mal com atitudes e ações que visem traduzir todo o mal em bem. Isto porque o homem maçom deve ser manso e calmo como a ovelha para fazer o bem, mas astuto e ardiloso como a cobra para escapar do mal.

[6]Reflexão geral em torno da natureza, etapas e limites do conhecimento humano, especialmente nas relações que se estabelecem entre o sujeito indagativo e o objeto inerte, as duas polaridades tradicionais do processo cognitivo; teoria do conhecimento. Estudo dos postulados, conclusões e métodos dos diferentes ramos do saber científico, ou das teorias e práticas em geral, avaliadas em sua validade cognitiva, ou descritas em suas trajetórias evolutivas, seus paradigmas estruturais ou suas relações com a sociedade e a história; teoria da ciência.

[7]Lembrança pouco precisa; reminiscência, recordação. Na filosofia platônica, rememoração gradativa através da qual o filósofo redescobre dentro de si as verdades essenciais e latentes que remontam a um tempo anterior ao de sua existência empírica.

Biografias

  • Bertrand Russell ou Bertrand Arthur William Russell, filósofo, matemático e sociólogo inglês. Também conhecido por Terceiro Conde Russell. Nasceu em Ravenscroft em 18 de maio de 1872. Faleceu em Perto de Penrhyndeudraeth, País de Gales, em 2 de fevereiro de 1970. É o mais representativo e influente pensador inglês do século XX;
  • Domenico de Masi, antropólogo, consultor, escritor, filósofo, professor e sociólogo italiano. Nasceu em Rotello, Província de Campobasso, Itália em 1 de fevereiro de 1938, com 70 anos de idade. Consultor de Administração;
  • Heráclito ou Heráclito de Éfeso, filósofo grego. Nasceu em Éfeso, Jônia em 540 a.C. Faleceu em Éfeso, Jônia, em 470 a.C. Afirmava que tudo era feito de fogo. Filósofo pré-socrático, recebeu o cognome de pai da dialética;
  • Piaget ou Jean Piaget, experimentador, filósofo, lógico, psicólogo e teorista suíço. Nasceu em Neuchâtel em 9 de agosto de 1896. Faleceu em Genebra, em 16 de setembro de 1980, com 84 anos de idade. Pesquisador e estudioso do desenvolvimento intelectual. Conhecido por seus trabalhos pioneiros sobre o desenvolvimento da inteligência infantil. Seus estudos tiveram grande impacto no campo da psicologia infantil e da educação, revolucionando os métodos de aprendizagem. Piaget observou que a criança cria, e recria, a realidade. Em seus trabalhos, distinguiu quatro etapas no desenvolvimento intelectual da criança: sensório-motor (até os 2 anos), pré-operacional (de 2 a 7 anos), operacional concreto (até os 12 anos) e operacional formal (até os 15 anos). Entre suas obras destacam-se: A linguagem e o pensamento na criança (1923) e Psicologia e Pedagogia (1970). Piaget é doutor honoris causa da Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro, título que recebeu quando visitou o Rio, então capital da República, em 1949;
  • Platão ou Platão de Atenas, filósofo grego. Também conhecido por Aristócles Platão de Atenas. Nasceu em Atenas em 428 a.C. Faleceu em Atenas, em 347 a.C. Considerado um dos mais importantes filósofos de todos os tempos;
  • Sócrates ou Sócrates de Atenas, filósofo grego. Nasceu em Atenas em 468 a.C. Faleceu, em 399 a.C. Um dos mais importantes pensadores de todos os tempos.

 

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