Platão e o Ritual Maçônico – Capítulo Final (2ª Parte)

Qual era a aparência da Atlântida?

Conforme indicamos anteriormente, ela era um continente-ilha maior em tamanho que a África e a Ásia combinados, situado no Oceano Atlântico logo depois do estreito de Gibraltar. Era uma ilha rica em minerais (particularmente um metal precioso conhecido como oreichalkos – “que agora é apenas um nome para nós … (mas) … na época só tinha menos valor que o ouro”. A ilha em si foi um “Éden auto-sustentável”, plantas aromáticas, pastagens, uma variedade de cereais e madeira era abundante assim como outros habitats para sustentar uma ampla diversidade de vida animal (incluindo elefantes).

A peculiaridade mais evidente sobre a ilha era sua excentricidade visual. Ela era composta por três anéis circulares de terra, dividido por três canais circulares de água, com pontes que ligavam cada anel da ilha ao próximo. Uma muralha interior e outra exterior rodeavam cada anel de terra. Isto significa que no total eram cinco muralhas, e cada uma era feita de pedra escavada especificamente para a sua cor característica. A partir da mais distante muralha externa e movendo-se para dentro, suas cores eram branco, em seguida preto, e então vermelho. A quarta muralha era revestida de um verniz de bronze, enquanto que a quinta e mais interna muralha (em torno da Acrópole, as fontes de Água quente e fria e o Palácio) eram fundidas em latão. A própria Acrópole era coberta de oreichalkos que “brilhava como fogo dardejante”.

Para dizer o mínimo, esta é uma descrição muito fantasiosa de uma cidade. Na verdade, caso encontrássemos essa descrição nos escritos de Jules Verne ou de Robert Heinlein, dificilmente pareceria fora de lugar. Ela aparece, por seu valor nominal, ser uma descrição de uma cidade que é o produto orgulhoso da imaginação humana.

Sabemos que a verdade é mais estranha que a ficção. Demonstramos como Platão usou Heródoto para fornecer uma estrutura esquelética para a vitória ateniense contra Atlântida. Também vimos como Platão adaptou a preocupação de Heródoto, que os feitos dos homens e mulheres que viveram no período das guerras persas seriam apagados pelos efeitos do tempo, a menos que eles fossem gravados. Para Platão, este tornou-se o argumento que ele usou para explicar por que nenhum ateniense estava familiarizado com a história da derrota de Atlântida por Atenas. Mas, por mais importantes que elas sejam, não são as únicas influências que Platão deve a Heródoto. A principal influência literária que Platão deve a Heródoto é o uso de sua descrição da capital mediana de Ecbátana como modelo para Atlântida.

Em Histórias l.98, Heródoto descreve a majestosa cidade de Ecbátana com uma semelhança notável por sua excentricidade visual. Por uma questão de conveniência, relacionei suas principais características:

  • Uma fortaleza inexpugnável de círculos concêntricos de muralhas defensivas;
  • Havia sete muralhas que rodeavam a cidade;
  • As paredes mais internas abrigavam o palácio e os tesouros;
  • As cinco primeiras paredes eram pintadas em cores específicas sendo – branco, em seguida preto, vermelho, azul e laranja;
  • As duas muralhas mais internas eram cobertas de prata e a última de ouro.

Por mais intrigantes que sejam essas correspondências, há uma última peça no quebra-cabeça que ajuda a argumentação. Ela é encontrada em uma obra conhecida como Epigramas. Por tradição, a obra é atribuída a Platão. Se cada um destes curtos epigramas foi composto pelo próprio Platão é duvidoso, mas, no contexto do que já discutimos, não podemos descartar o Epigrama XIII como sendo totalmente falso. Se assumirmos, por enquanto, que ele veio diretamente da pena de Platão, então este epigrama tem funções como o tecido conjuntivo, no âmbito do argumento anterior. O epigrama diz:

Certa vez, deixamos as sonoras ondas do mar Egeu para ficar aqui no meio das planícies de Ecbátana. Adeus a ti, conhecida Eretria, nosso antigo país. Adeus a ti, Atenas, vizinha Euboeais. Adeus a ti, querido mar.

Embora existam semelhanças suficientes entre as descrições da Ecbátana de Heródoto com o relato da Atlântida de Platão, a questão central a partir da perspectiva do argumento proposto neste livro, é o desenho da conexão entre o ritual maçônico moderno e a prática da filosofia grega antiga – em particular – da filosofia de Platão. Se Atlântida nunca existiu na realidade ou apenas como uma ideia, é algo que, espero, continuará a ser uma busca para cientistas e historiadores, para os séculos vindouros.

A Configuração para o Mito de Atlântida

Quando se abre o diálogo em Timeu, Sócrates reúne-se com Timeu, Crítias e Hermócrates. Timeu é um homem rico de Locris, no sul da Itália – uma área conhecida como a terra da Escola Pitagórica de Filosofia. A personagem conhecida como Crítias é na realidade o tio de Platão, enquanto a quarta pessoa neste diálogo é Hermócrates – um sobrevivente rico e educado da Guerra do Peloponeso. Embora aparentemente escrito alguns anos após A República, Timeu começa com Sócrates querendo resumir os pontos principais que pertencem ao tema da sociedade ideal, discutido pela primeira vez em A República. Mais que tudo, ele quer dar-lhe substância, respirar alguma vida nesta visão de seu modelo utópico. Ele quer entender melhor como os seus reis-filósofos governariam tal cidade em tempos de guerra (assim como na paz). O ponto que ele desenvolve aqui é que a personagem do rei-filósofo precisa ser multi-dimensional – capaz de dimensionar o alcance intelectual e emocional entre a sensibilidade emocional profunda para foco, objetivo e dureza mental. Estes são os requisitos mínimos para um líder em tempos de paz como de guerra.

… as almas dos guardiães deveriam ter uma natureza que é ao mesmo tempo alegre e filosófica no mais alto grau, para que eles possam ser adequadamente suaves ou duros conforme seja o caso.

Crítias interrompe aqui e ali e se oferece para contar uma história que pode atingir o objetivo de Sócrates. Ele alega que é uma história que ouviu de seu bisavô – uma pessoa conhecida como Sólon, o legislador, quando o próprio Crítias era apenas uma criança pequena. É a história de uma vitória ateniense épica sobre a maior potência militar já conhecida do homem que ocorrera milhares de anos antes.

Nem Sócrates, nem Timeu ou Hermócrates ouviram esta história antes, e ficaram surpresos ao ouvir que uma história tão grandiosa e épica como Crítias pretende que ela seja não tem qualquer registro histórico que a sustente. Nesse momento, Platão (com inteligência sutil) tece um ponto que Heródoto criou nas primeiras linhas das suas Histórias – a saber, que o triunfo épico é desconhecido para os atenienses porque esses traços dos acontecimentos humanos já tinham sido apagados pelo tempo, muitos e muitos anos atrás:

A história é que nossa cidade (Atenas) realizou grandes e maravilhosos feitos na Antiguidade, que, devido à passagem do tempo e a destruição da vida humana, desapareceram.

…e uma vez mais:

…uma conquista que merece ser conhecida muito melhor do que qualquer outra de suas realizações. Mas, devido à marcha do tempo e o fato de que os homens que a realizaram morreram, a história não sobreviveu até o presente.

Preâmbulo de Crítias – Resumo da Vitória de Atenas sobre a Atlântida

Crítias relata como Sólon, uma vez viajou para a cidade egípcia de Sais no Delta do Nilo e foi recebido pelos sacerdotes que o envolveu em uma série de debates animados sobre uma série de temas – um deles em particular sendo uma tentativa de calcular o tempo decorrido entre a criação do primeiro homem (Foroneu) e o Grande Dilúvio (relacionados no mito grego de Deucalião e Pirra).

Além disso, quanto à sabedoria, eu tenho certeza que você pode ver quanta atenção nosso modo de vida dedicou a ele, desde o início. Em nosso estudo da ordem mundial, rastreamos todas as nossas descobertas … das realidades divinas aos níveis humanos, e adquirimos todas as outras disciplinas relacionadas. Isto é, na verdade, nada menos do que o próprio sistema de ordem social que a deusa (Atena) planejou primeiramente para vocês quando fundou sua cidade …(Timeu, 24b-c ,Trad: Hamilton)

Sólon foi surpreendido pela resposta do sacerdote, rápida, porém irônica. O sacerdote observou que os gregos têm uma clara falta de profundidade histórica. Especificamente, eles exibem uma forma daquilo que podemos chamar de amnésia histórica, porque sempre lhes faltou disciplina para registrar suas histórias. Na falta disso, eles substituíram por mitos para explicar fenômenos naturais. Aqui, o sacerdote explicou algo desconhecido para Sólon. Ele lhe disse que não tinha acontecido uma só grande inundação, mas que tinha havido muitas. A destruição completa, total e absoluta da raça humana tinha ocorrido não apenas uma vez, mas a humanidade foi destruída em intervalos regulares ao longo da história por duas causas principais – o fogo e a água. Cada ciclo de destruição foi acompanhado por uma mudança no curso do sol através do céu – um fenômeno que em linguagem científica seria explicado como uma mudança na polaridade da terra.

O sacerdote então continua a explicar que, embora os gregos pareçam considerar a civilização egípcia como mais antiga que a deles, Atenas é, na verdade, a civilização mais antiga. Como justificativa, ele afirma que os egípcios têm documentos históricos que remontam a 8.000 anos. O sacerdote explica que, quando ambas as civilizações, egípcia e ateniense, foram fundadas, cada uma delas tinha o mesmo sistema social. Durante todo esse tempo, o sistema social ateniense tem estado em decadência, enquanto que os egípcios o mantiveram em seu estado original.

O curioso sobre este sistema social é que, no modelo egípcio, as pessoas mantiveram competências especializadas e estavam proibidas de se envolver, obter formação ou educação em áreas em que o seu próprio comércio ou profissão não estava relacionado.

Primeiro, você descobrirá que a classe de sacerdotes é demarcada e separada das outras classes. Em seguida, no caso da classe operária, você verá que cada grupo – os pastores, os caçadores e os agricultores – trabalha de forma independente, sem se misturar com os outros.

O próximo ponto exposto pelo sacerdote é que a lei egípcia sublinha a importância de todas as disciplinas do conhecimento – um ponto que Platão elaborou no currículo educacional que ele criou para reis-filósofos da República – algo que entendemos como as artes liberais e ciências.

Se dermos um pequeno passo para trás, podemos apreciar as habilidades que Platão demonstrou como propagandista e marqueteiro de suas próprias teorias. Aqui está um sacerdote egípcio falando de uma ordem mundial ideal (ou a estrutura social), onde o conhecimento é usado para nos levar a realidade divina ou ao próprio trono de Deus. Usando o artifício artístico de um terceiro expressando a mesma coisa que Platão estava promovendo, ele dá ao seu argumento uma vantagem extra de credibilidade, bem como uma justificação histórica convincente.

Podemos ver os primórdios das origens ideológica real de uma super-raça – por exemplo – Atenas sobre Esparta – tomando sua forma, nas próximas palavras ditas pelo sacerdote:

…ela (Athena) tinha escolhido a região em que seu povo tinha nascido (Atenas) e percebido que o clima temperado ao longo das estações produziria homens de sabedoria insuperável. E, sendo um amante tanto da guerra quanto da sabedoria, a deusa escolheu a região que mais provavelmente produziria homens com ela mesma, e a fundou primeiro … na verdade, suas leis melhoraram ainda mais, de modo que você veio a superar todas as outras pessoas em toda a excelência, como se poderia esperar daqueles cuja geração e nutrição eram divinos.

A Vitória de Atenas sobre Atlântida

Combinando as narrativas dadas em Timeu e Crítias, a história de Atlântida segue…

Crítias explica que os eventos da guerra entre Atenas e Atlântida ocorreram 9.000 anos antes de seu tempo (em outras palavras por volta de 9400 a.C.). Ele descreve Atlântida como uma ilha situada no Oceano Atlântico, em frente as Colunas de Hércules (Estreito de Gibraltar). Era uma ilha “maior que a Líbia e a Ásia juntas” (Líbia era o nome dado à área da África explorada na época). Seu império se estendia por toda a África até as fronteiras do Egito, e por toda a Europa até a Itália. Atlântida, então, decidiu expandir o seu império ainda mais para incorporar a Grécia e o Egito e o que é hoje é a Espanha. Atenas, então, mostrou sua força e coragem a comandar uma ofensiva que consistiu em “… uma aliança entre os gregos” contra as legiões de Atlântida. Mesmo quando foi abandonada pelos membros desta aliança grega, Atenas resistiu à agressão atlante sozinha e conseguiu o triunfo incontestável para depois liberar todos os países que haviam sido subjugados sob a tirania dos Atlantis.

É fácil ver hoje como Platão adaptou os seis pontos que ele escolheu cuidadosamente nas Histórias de Heródoto para construir um mito da Atlântida, que serviu para atingir um fim (e somente um) – apoiar sua visão do rei-filósofo.

A conclusão do conto é o melhor em matéria de narração de histórias. Platão relata através de Crítias que no meio dessa euforia da vitória e dentro de somente um período de 24 horas, terremotos e enchentes de intensidade sem precedentes engoliram não apenas todo o continente-ilha de Atlântida, mas também todas as legiões de Atenas.

Essa catástrofe natural, Ele enfatizou, foi a terceira antes do Grande Dilúvio.

Por que Atenas foi capaz de derrotar Atlântida?

A resposta a esta pergunta é a base da ligação filosófica entre a história de Atlântida e a Maçonaria moderna.

Proeminente entre todas as outras em nobreza de seu espírito e na sua utilização de todas as artes da guerra, ela (Atenas) subiu primeiro à liderança da causa grega. Mais tarde, obrigada a ficar sozinha, abandonada por seus aliados, ela chegou a um ponto de extremo perigo. No entanto, ela venceu os invasores … (e) impediu a escravização daqueles ainda não escravizados e, generosamente, libertou todo o resto de nós que viviam dentro dos limites das Colunas de Hércules.(Timeu, 25 b-c ,Trad: Lee)

Crítias (relatando ainda mais a história do sacerdote egípcio) argumenta que o deus Hephaestos e sua irmã Atena receberam o controle da Grécia e a impregnaram com o selo do seu caráter – com conhecimento e habilidade, tornando a Grécia o berço natural de excelência e sabedoria. Os sobreviventes da catástrofe natural que envolveu Atlântida foram “um povo de montanha analfabeto” a quem faltavam os dons intelectuais para apreciar e transmitir os valores e virtudes praticados pelos atenienses. Além disso – os sobreviventes que escaparam tiveram que enfrentar a tarefa de domar um ambiente hostil – uma ocupação que não contribuiu para a gravação de eventos históricos:

É no trem do lazer que a Mitologia e a Investigação sobre o passado chega às cidades, uma vez … que as necessidades da vida tenham sido garantidas, mas não antes.

Ele, então, descreve as virtudes que levaram a uma vitória ateniense. Em primeiro lugar, eles praticavam todas as normas estabelecidas em A República. É importante ressaltar que seguiram uma das restrições mais importantes aplicáveis ​​a reis-filósofos – que é a primeira lição ensinada a um Iniciado durante o Discurso no Canto Nordeste:

Eles não faziam uso de ouro ou prata… . mas seguiam na média entre a ostentação e servilismo…

O argumento que Platão levanta, com uma habilidade artística e floreio filosófico, foi que na prática dos princípios preconizados em A República, (que de acordo com o sacerdote de Sais eram de origem divina), Atenas foi capaz de derrotar Atlântida:

… Eles eram os guardiões de seus próprios cidadãos e líderes do resto do mundo grego .. . tal era o caráter deste povo … pois eles dirigiam a vida de sua cidade e da Grécia com justiça. Sua fama pela beleza de seus corpos e a variedade e diversidade das suas qualidades mentais e espirituais espalharam-se por toda a Ásia e toda a Europa. E as considerações em que eram tido e sua fama eram a maior de todas as nações da época.

O Triunfo de Reis-Filósofos

O que importa para você e eu, enquanto maçons, é que o mito da derrota de Atlântida por Atenas ocorreu porque eles seguiram os princípios dos reis-filósofos.

Em sua própria maneira, é um modelo que devemos ter em mente quando circunstâncias aparentemente intransponíveis golpeiam nossas vidas. Nesses momentos, podemos optar por usar um equilíbrio entre o intelecto e emoção, cuidadosa e sabiamente direcionar nossa vida através de mares tempestuosos da vida, mantendo a nossa própria credibilidade de caráter.

Você pode encontrá-los de qualquer falha, então, em uma profissão como esta, que para ser praticada com competência exige as seguintes propriedades inerentes a uma pessoa: boa memória, rapidez na aprendizagem, abrangência de elegância, visão e amor e filiação à verdade, à moral, à coragem e à auto-disciplina? (Platão: República, 487a, Trad. Robin Waterfield)

Nosso objetivo ao fazer isso é alcançar um triunfo. É atingir o mais alto nível de excelência humana que a nossa própria natureza individual alguma vez possa alcançar.

… E esse é o propósito da filosofia por trás da Maçonaria.

Finis

Autor: Stephen Michalak
Tradução: José Filardo

Fonte: REVISTA BIBLIOT3CA

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Platão e o Ritual Maçônico – Capítulo Final (1ª Parte)

A conexão da Atlântida com a Maçonaria

Foi muito bem definida a minha escolha de deixar este capítulo como um pós escrito. Meu motivo é simples. Sem ter esgotado as discussões anteriores, que precederam este capítulo, receio que seria muito fácil simplesmente verificar o título do capítulo e rejeitar seu conteúdo como um disparate facilmente. No entanto, a seu próprio modo, minha intenção é que este capítulo realmente junte os fios do argumento que defendi e desenvolvi nos capítulos anteriores, em uma conclusão adequada.

Em primeiro lugar – ligação da Maçonaria com a Atlântida ocorre através de uma discussão filosófica, não histórica. Antes de irmos mais longe, deixe-me enfatizar que eu pessoalmente não acredito que o continente insular da Atlântida jamais tenha existido fora da mente de Platão.

Sim! Para aqueles que podem não saber, Platão foi a primeira pessoa a fazer uma descrição detalhada dessa ilha-continente lendária. Estudiosos ao longo dos séculos têm argumentado (às vezes de forma convincente e em outras menos convincente) a favor e contra a existência da ilha-continente perdida de Atlântida. Na verdade, ele escreveu dois diálogos que tratam da Atlântida.

O primeiro deles é conhecido como Timeu. Se você olhar atentamente para o quadro A Escola de Atenas, de Rafael verá que Platão está carregando em suas mãos uma cópia de Timeu. O segundo trabalho é realmente só um diálogo fragmentado de menos de 20 páginas que é conhecido como Crítias.

A interpretação moderna de uma velha história…

Orfeu parecia ler sua mente.

“Por exemplo, eu tenho um pressentimento forte sobre este lugar. Algumas vezes, talvez centenas de anos a partir de agora, os homens de longe desembarcarão aqui – de navios de metal – para serem cortados, como talos de grama por uma foice. Mas eu não posso dizer quando exatamente. Eu nem mesmo sei o nome dos estreitos por onde estamos navegando agora”.

Jasão deu de ombros. “Eu posso dizer-lhe que … Nós estamos no Dardanelos. Ali existe um lugar que eles chamam de Galipoli. Mas Orfeu, fala sério – navios de aço – você não está brincando?

Nigel Spivey, “Jasão e os Argonautas” de Canções de Bronze: Os mitos gregos tornados realidade (2005)

Vamos agora abordar duas questões que ficam frequentemente esquecidas em qualquer discussão sobre Atlântida. O primeiro ponto é que sempre que Platão discute sua utópica civilização de Atlântida, seu objetivo é sutilmente trabalhar no desenvolvimento de seu conceito do filósofo-rei. No contexto destes dois diálogos apenas, a história de Atlântida não tem sentido sem vinculá-la à sua própria criação do rei-filósofo. Ele nos apresentou ao rei-filósofo em A República e em Sétima e Oitava Cartas, finalmente repensando a sua aplicação original do conceito em As Leis.

A meu ver, em ambos, Timeu e Crítias, Platão estava usando suas habilidades criativas como dramaturgo, aproveitando ao máximo as pitorescas Histórias que Heródoto tinha escrito alguns anos antes e depois apresentou uma história que falava com entusiasmo motivador a uma audiência ateniense que estava sofrendo por uma derrota esmagadora nas mãos de Esparta. Este era o ambiente cultural no qual Platão teceu sua história de Atlântida.

Outro ponto que vale a pena ressaltar neste momento é que Platão inventou três civilizações utópicas das quais Atlântida é apenas uma delas. Em A República, (onde pela primeira vez, discutiu o conceito do filósofo-governantes), esses filósofos-governantes eram um componente fundamental de um experimento mental que ele nos convidou a dividir com ele – um experimento mental funcionando em uma cidade a que ele deu o nome de Kallipolis – uma palavra grega que significa cidade bela e nobre. Como um aparte, (aos leitores da Austrália e Nova Zelândia, em particular) o nome Kallipolis deve ter um significado especial. Kallipolis era o nome dado a uma cidade situada no Dardanelos, que foi palco de um assalto a cabeça de praia pelo corpo de exército de ambas as nações, na manhã de 25 de abril de 1915. Como o nome era difícil de pronunciar foi reduzido para Gallipoli.

Em seu maior trabalho (inacabado) – As Leis, Platão descreveu ainda outra cidade utópica que ele chamou de Magnésia. Estas cidades platônicas representaram estágios no desenvolvimento de seu próprio pensamento ao longo de sua vida. Sempre que nos referimos a uma cidade como “utópica”, estamos geralmente nos referindo a ela como uma cidade “ideal” (e mais comumente a partir de uma perspectiva sociológica ou política). A palavra utopia é uma palavra grega que significa “lugar nenhum”. Aliás, Samuel Butler, em sua obra de 1871, Erewhon, fez uma brincadeira com a palavra utopia em seu significado em Inglês em seu título. (Erewhon é a palavra “nowhere” – nenhum lugar -, soletrada ao contrário)! Feitas estas observações preparatórias, vamos começar a trabalhar nosso caminho através da discussão filosófica ligando a Maçonaria moderna a uma ilha-continente que existiu (segundo Platão), cerca de 9.000 anos antes de seu tempo e que era chamada Atlântida.

A guerra entre Atenas e a Atlântida: sua relação com a guerra entre Atenas e Esparta

Nos ajudará a compreender o contexto em que Platão elaborou a história de Atlântida se pararmos por um instante para pensar que em alguns aspectos, a época em que Platão viveu, compartilhava muitas semelhanças com nosso próprio tempo nestes primeiros anos do século XXI.

As primeiras décadas do século V a.C. tinham visto reviravoltas tumultuadas de eventos nas arenas política, sociológica, religiosa e intelectual. Atenas (uma cidade-estado relativamente pequena) tinha liderado uma coligação de cidades-estados vizinhos para repelir as forças do Império Persa – o maior que o mundo já conhecera até aquele ponto no tempo. Atenas conseguira derrotar os persas não em uma, mas em duas tentativas de invadir o que hoje conhecemos como o continente grego. A primeira invasão foi liderada por Dario I em 490 a.C., enquanto a segunda invasão persa ocorreu dez anos mais tarde, sob Xerxes em 480-479 a.C. A primeira invasão persa terminou com a derrota dos persas na Batalha de Maratona. Esta batalha é memorável devido à história que a maioria das pessoas já escutou – a história de como um jovem chamado Pheidippides (antes dos dias da telefonia) correu a distância de Maratona a Atenas para confirmar a derrota da Pérsia, morrendo poucos momentos depois de anunciar a notícia. O evento olímpico moderno chamado maratona presta homenagem a esse acontecimento histórico.

O ponto decisivo para a derrota da Pérsia em sua segunda tentativa de invasão foi a batalha naval ao largo da costa de Salamina. Heródoto registra que as forças de Xerxes na Segunda Invasão persa atingiram uma massa crítica de 5.283.220 soldados – uma força de invasão como o mundo nunca tinha visto antes. Diante desses números, nunca se esperou que Atenas tivesse qualquer esperança de derrotar os persas. Gerenciando uma aliança frouxa entre cidades-estados gregas, isso não era fácil. Muitos realmente desertaram para o lado persa acreditando que a coalizão liderada por Atenas só terminaria em desastre. Essas defecções alteraram não só as alianças militares mas também as alianças comerciais necessárias para Atenas marcar uma vitória decisiva. O fato de que Atenas alcançou realmente a vitória diante de todas essas chances só aumentou seu auto-orgulho e inchou sua confiança na capacidade de expandir seus próprios interesses coloniais. O próximo passo de Atenas foi mandar tropas para restaurar a liberdade de outras cidades jônicas localizada na Turquia moderna que estavam sujeitas à tirania persa. Atenas compartilhava as mesmas origens étnicas e culturais daquelas cidades jônicas,– algo que já discutimos anteriormente.

De 460-429 a.C., o estadista Péricles (ca. 495-429 a.C.) conduziu Atenas enquanto embarcava em uma série de programas de obras ambiciosas (incluindo a construção do Partenon na Acrópole). Péricles era um líder astuto. Estas obras de construção revitalizaram a economia de Atenas, melhoraram sua taxa de emprego e fortaleceram a confiança da comunidade ateniense na sua base de poder, bem como em seus planos de expansão. Em muitos aspectos, esse período vibra com o mesmo ânimo econômico e político confiante desfrutado pelos EUA após a Segunda Guerra Mundial (1939-45). A outra “super-potência” que tinha ajudado Atenas em suas campanhas contra a Pérsia tinha sido Esparta. Após a derrota da Pérsia, Esparta observou com crescente alarme os indícios de campanhas imperialistas agressivas e intrusivas de Atenas. Uma “guerra fria” entre os dois se desenvolveu em um paralelo com a época que se seguiu à Segunda Guerra Mundial até que a República Soviética foi dissolvida em 1991. As tensões entre Atenas e Esparta continuaram a crescer até que as duas potências chegaram a um acordo em 446 a.C., com a assinatura de um tratado que ficou conhecido como Paz dos Trinta Anos. No entanto, o tratado de paz não durou mais de 15 anos – terminando abruptamente em 431 a.C., com hostilidades em escala total irrompendo entre Atenas e Esparta.

Até o final do segundo ano da guerra, em 430 a.C., um terrível surto de peste irrompeu em toda Atenas. A principal razão para isto foi atribuída a um inchaço da população de Atenas, devido às incursões de Esparta nas regiões rurais circundantes. Tucídides, um general ateniense que tomara parte na luta contra os espartanos, registrou seus eventos em uma obra conhecida como A História da Guerra do Peloponeso. Além da praga, a cidade também entrou em extremos da anarquia e desordens. Péricles, contaminado pela peste, reuniu o pouco de sua força que restava para fazer um discurso animador aos atenienses, instando-os a mostrar coragem diante destas calamidades.

Em 421 a.C., um segundo tratado de paz (conhecido como a Paz de Nícias) foi assinado entre Esparta e Atenas. Mais uma vez esta paz foi de curta duração. Novos conflitos entre as cidades-estado da Grécia continental que tinham se aliado ao lado dos atenienses ou dos espartanos, levaram a questão a um final conclusivo, com a derrota de Atenas por Esparta em 404 a.C. Atenas – que por um breve meio século, foi uma super-potência de proporções quase míticas estava agora quebrada, humilhada (na arena da política e relações internacionais), um poder de influência insignificante.

As Guerras Persas: sua influência sobre a escrita da história da Atlântida

Tendo coberto rapidamente os principais eventos do século V a.C. que impactaram a escrita de Platão sobre a história de Atlântida, vamos tomar um pequeno desvio e da mesma forma investigar a influência dos escritos do historiador grego chamado Heródoto.

O ponto que vou sublinhar é o seguinte: na criação de seu mito de Atlântida, Platão conscientemente tomou um episódio relatado por Heródoto em suas histórias e o bordou para servir como pano de fundo para o seu princípio dos reis-filósofos.

Por razões de clareza, vou listar cinco itens que resumem a história da vitória grega sobre os persas que Heródoto relatou em suas Histórias:

  • A super potência maior e mais agressiva do mundo (Pérsia) tenta invadir todo o continente grego;
  • Atenas – uma pequena cidade-estado lidera uma coalizão militar com outras cidades-estado da Grécia, em uma luta de morte contra as forças persas;
  • Uma série de cidades-estados gregas que fazem parte da coalizão militar deserta para ajudar os persas. Ao fazer isso, elas traem Atenas;
  • Contra todas as possibilidades imagináveis – a coalizão militar grega (sob a liderança de Atenas ) repele e derrota os persas;
  • Atenas restaura a liberdade para as cidades gregas ao longo da costa turca, que estavam sujeitas ao controle da Pérsia.

Estes foram os acontecimentos que ocorreram nos primeiros anos do século V a.C. na região.

E estes foram os acontecimentos que ajudaram a formar a visão ateniense que, como descendentes dos jônios originais, eram (efetivamente) donos do mundo. E estes foram os acontecimentos que ajudaram os atenienses a acreditar que eram muito superiores aos espartanos – descendentes dos colonos originais dóricos e seus aliados – os corintos, que buscavam o luxo. E estes foram os acontecimentos que tornaram tão humilhante a derrota dos atenienses para os espartanos e corintos ao final da Guerra do Peloponeso.

Tendo isso em mente, podemos moderar nossa “abordagem” de Atlântida incluindo uma diferença sutil, mas poderosa. Precisamos ter em mente o público original para o qual se destinava a história continente perdido inicialmente. Era uma audiência ateniense.

Seus ouvidos e sensibilidades eram rápidos para pegar os pontos que destacamos. Precisamos também lembrar que eles eram um povo orgulhoso, que tinha derrotado a Pérsia e, em seguida, viram-se subjugados por Esparta. Desmotivados e humilhados, quando ouviram a história de Atlântida, eles se lembraram o que tinham realizado apenas duas ou três gerações antes contra a Pérsia. Quando ouviam a história de Atlântida, era algo que agradava seus corações, mentes e sentidos. Quando ouviam a história de Atlântida, ela falava de uma esperança para o futuro. Quando ouviam a história de Atlântida, eles eram inspirados por sua narrativa. Quando eles liam a história de Atlântida, estavam muito próximos dos acontecimentos de seu próprio tempo para entender o conto a não ser como fábula baseada na história das Guerras Persas – as mesmas histórias que Heródoto havia apresentado nos teatros e praças de mercado de Atenas.

Tendo definido o cenário intelectual, Platão agora embelezou o conto com uma dimensão emocional para aceitação de seu conceito do rei-filósofo.

A influência de Heródoto

Nas páginas iniciais do romance Criação de Gore Vidal, Heródoto está apresentando uma história das Guerras Persas para uma audiência no Odeon em Atenas. O que Vidal captura aqui é a essência do que provavelmente aconteceu nas praças e teatros de Atenas no século V a.C..

Podemos especular que um jovem Platão pode ter estado entre o público ouvindo com intenso interesse o drama de eventos como Heródoto os narrava. Não temos qualquer registro histórico de que Platão estivesse presente em uma apresentação “ao vivo” de Heródoto, mas parece pouco discutível que Platão realmente tenha sido inspirado pelo tema heroico que Heródoto desenvolveu e ao qual tinha acesso para seu trabalho. Mais particularmente, Platão parece ter prestado atenção específica à descrição que Heródoto deu da capital excentricamente visual dos medos – uma cidade conhecida como Ecbátana e descrita por Heródoto no livro I.98 de suas Histórias.

Heródoto nasceu por volta do ano 485 a.C. junto ao porto de Halicarnasso – uma cidade agora conhecida como Bodrum, no sudoeste da Turquia moderna. A época de seu nascimento coincidiu com as primeiras incursões persas em território grego, e podem ter sido a chave para seu interesse em escrever a sua história das Guerras Persas. O consenso geral é que as Histórias de Heródoto foram escritas em 430 a.C. e terminadas em cerca de 425 a.C. – colocando sua composição nos primeiros estágios da Guerra do Peloponeso. Pouco se sabe sobre a data da morte de Heródoto, mas acredita-se comumente que ele tenha morrido por volta de 420 a.C. – bem antes da derrota de Atenas por Esparta. Sua vida, então, transcorreu diretamente no tempo das grandes revoluções intelectuais, políticas e religiosas que varreram Atenas, significando sua proeminência entre as cidades-estado gregas após a vitória sobre os persas.

Lendo suas Histórias, podemos entender o quão bem-viajado ele era. Ele afirma ter viajado para o Egito e descreve com algum pormenor a cultura e as práticas dos egípcios no Livro II. Ele alega também ter viajado à Cítia (grosso modo, a moderna Ucrânia) – mais uma vez explorando a cultura deste povo no Livro IV. A tradição diz que ele eventualmente se estabeleceu (e provavelmente morreu) na colônia grega de Thurii no que é hoje a província da Calábria, Itália.

Embora não fosse filósofo ou teólogo, Heródoto era imbuído de seu trabalho com um tema em que o equilíbrio do mundo é trazido de volta à ordem por um processo de retribuição por injustiças realizadas – algo que observa Robin Waterfield na introdução à sua tradução de As Histórias e similarmente observado por Charles Freeman em seu recente estudo, A Conquista Grega.

Heródoto não descartou as ações dos deuses inteiramente em assuntos humanos (ele acreditava que eles punem aqueles que, como Xerxes, são culpados de orgulho excessivo, para, ao que parece, levar o cosmos a um equilíbrio ordenado)…

Ao longo de As Histórias, Heródoto interpreta os acontecimentos históricos a partir da interação da intervenção humana e divina … uma perspectiva que foi desmentida por seu contemporâneo Tucídides ao escrever a História da Guerra do Peloponeso:

Esta história pode não ser o mais deliciosa de ouvir, pois não há mitologia nela. Mas, aqueles que querem olhar para a verdade do que foi feito no passado, que, dada a condição humana, se repetirão no futuro, na mesma forma ou de forma quase igual – aqueles leitores acharão esta história bastante valiosa…

Em todo caso, Heródoto disse claramente qual foi seu propósito ao escrever As Histórias na segunda frase de seu trabalho – que era “evitar que os traços de acontecimentos humanos sejam apagadas pelo tempo”. O tema heroico de sua obra foi a inspiradora história de sucesso de uma pequena cidade-estado grega contra a maior força de invasão conhecida no mundo naquele momento.

Este tema estava na vanguarda da mente de Platão quando escreveu “Timeu e Crítias”. Aqui ele contou uma história paralela de uma outra vitória ateniense de sucesso – era novamente a maior e mais culta nação que o mundo já conheceu. Era a história de uma guerra contra as políticas expansionistas do continente insular de Atlântida.

Com a nossa compreensão dos eventos das Guerras Persas, podemos agora entrar nos detalhes que Platão deu desta cidade, combinando as descrições encontradas tanto em Timeu quanto em Crítias.

Continua…

Autor: Stephen Michalak
Tradução: José Filardo

Fonte: REVISTA BIBLIOT3CA

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