A Proclamação da República e a Maçonaria

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Nesse dia 15 de novembro, o blog O Ponto Dentro do Círculo convida seus seguidores a lerem dois excepcionais artigos sobre as relações entre o movimento republicano e os fatos que cercaram a maçonaria brasileira no final do século XIX e inicio do século XX.

O primeiro artigo, intitulado A Proclamação da República e a Maçonaria, dividido em duas partes, é de autoria de Márcio dos Santos Gomes, Mestre Maçom, membro da Academia Mineira Maçônica de Letras e grande pesquisador sobre os temas que envolvem a Sublime Ordem.

O segundo, que tem como título Os Maçons e o Movimento Republicano (1870-1910), e está dividido em três partes, é de autoria do professor Alexandre Mansur Barata, pesquisador do Núcleo de Estudos em História Social da Política (NEHSP) e do CEO/PRONEX/CNPQ-Faperj, que traz em seu currículo outros excelentes artigos e livros que abordam temas relacionados à história da Arte Real no Brasil.

Para acessar os textos basta clicar no link abaixo:

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A maçonaria brasileira e a defesa do ensino laico (século XIX)

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Na segunda metade do século XIX, a maçonaria foi a principal porta-voz dos setores sociais defensores de posicionamentos anticlericais. O anticlericalismo maçônico era compatível com a defesa genérica do ideário liberal e cientificista da maior parte da ilustração brasileira no período. Inimigos desde meados do século XVIII, maçonaria e Igreja Católica protagonizaram um embate que cresceu ainda mais no século XIX.

Os maçons utilizaram-se da imprensa, da política parlamentar, das associações e clubes literários ou filantrópicos sob sua influência para combater os privilégios do catolicismo no País. Outro espaço privilegiado da atuação maçônica na sua luta contra a Igreja e os jesuítas foi no campo educacional. Assim, quando se tratava de educação, defendia o ensino laico em contraposição à obrigatoriedade do ensino religioso; quando tratava-se da ausência de registro civil, de nascimento e casamento, acusava-se a Igreja Católica de manipular esse monopólio, desrespeitando as liberdades individuais de crença[1].

O anticlericalismo maçônico foi o fio condutor da maior parte das iniciativas e projetos maçônicos durante o século XIX no Brasil (as repercussões desse conflito estenderam-se até pelo menos os anos de 1920. Cabe ressaltar, que ser anticlerical não era uma exclusividade maçônica. A maior parte da elite política e intelectual bebia na mesma fonte que os maçons. O pensamento liberal e cientificista encontrou um campo fértil e prosperou em diversos segmentos da sociedade brasileira. Assim, quando a maçonaria procurou atrair os setores sociais mais ilustrados em defesa da secularização da sociedade, encontrou muitos adeptos.

Secularização pretendida por esses grupos, levaria, em última instância, à separação entre Estado e Igreja. A subordinação do segundo ao primeiro sempre merecera ataques de ambos os lados. Mesmo assim, o clero católico beneficiava-se da condição de ser religião oficial (confirmada na Constituição de 1824). O salário dos padre, as reformas nas igrejas, a administração nos cemitérios, são apenas alguns dos favorecimentos aos católicos.

O episódio conhecido como a questão religiosa foi um momento privilegiado do embate e da polêmica maçônico-católica[2]. O clero brasileiro se opôs à crescente influência da maçonaria no campo das ideias e da cultura política, utilizando-se da legislação papal para realizar uma verdadeira caça às bruxas entre seus próprios membros. Além disso, os bispos que de maneira mais violenta atacaram a instituição naquele contexto procuraram demarcar a sua posição antiliberal, portanto, contrária ao processo de secularização da sociedade brasileira.

Dois projetos diferentes no campo das ideias evidenciava-se: o primeiro consubstanciado pela influência das correntes de pensamento liberal e cientificista no Brasil e que transpunha para a esfera da política e da cultura a defesa de noções, como racionalismo, progresso, modernidade; o segundo, uma reação do catolicismo mundial frente aos avanços do liberalismo, que, no Brasil, reuniu os defensores do pensamento católico-conservador.

Para a maçonaria, a educação e o ensino era um instrumento fundamental na difusão do ideário liberal e racionalista. Para ela, a igreja Católica exercia uma influência negativa, pois mantinha as crianças e os jovens no universo do obscurantismo e da superstição. Para fazer frente a essa situação, a maçonaria mobilizou-se. Objetivava, com isso, uma identificação do modelo educacional com o “espírito das luzes, libertadora da consciência dos homens e fiéis escudeiras no combate às trevas representadas pelo fanatismo da Igreja Católica”[3].

A realidade educacional no Brasil do século XIX era gravíssima. O descaso do governo e dos políticos no século XIX, principalmente durante o período imperial, deixou o ensino primário, secundário e profissional num abandono quase , completo, quadro que iria ser alterado, lentamente, no período republicano. Até então, a rede escolar primária era precária, o corpo docente leigo e incompetente; a escola secundária, frequentada por parcelas minoritárias e ricas da população, onde ministravam-se um ensino literário; o ensino superior era ainda mais frágil e desvinculado da realidade nacionais[4].

A imprensa maçônica publicou frequentemente, suas preocupações e seus posicionamentos em relação ao tema. Em primeiro lugar, defendia firmemente a obrigatoriedade do ensino aos jovens pois, “não basta esperar que o homem mande seu filho para a escola, que é a universidade do ensino primário; convém impor-lhe essa obrigação e aliás com aquele lógico rigor de que serve a lei[5].

Saldanha Marinho, líder maçônico de maior expressão nas décadas de 1870 e 1880, dedicou uma parte dos seus ataques ao catolicismo ultramontano. Na sua avaliação, a Igreja Católica pretendia se assenhorear do ensino público e, consequentemente, dominar o povo. Para o líder maçom, o governo imperial só admitia proteção aos seus ultramontanos e:

E para isso quer afugentar das escolas públicas os hereges, os condenados, os réprobos, segundo a qualificação da cúria romana; porque s. ex., prefere estar de acordo com a Santa Sé, a curar com zelo dos legítimos interesses do pais! [6]

A maçonaria, na sua luta contra a Igreja ultramontana, elegeu os integrantes da Companhia de Jesus como seus maiores inimigos. Esse enfrentamento durou desde a década de 1870 até pelo menos os anos de 1920. O retorno dos jesuítas ao Brasil e a inserção crescente destes no campo educacional em várias partes do Brasil constituía-se numa ameaça aos livres-pensadores. Os maçons criticavam a doutrinação existente em seus colégios e a completa ausência das doutrinas do espírito moderno.

O texto que segue é revelador do posicionamento maçom em relação a influência jesuítica no ensino:

Os jesuítas, é sabido, usam dos seus colégios para fazer prosélitos. Dominar a instrução da mocidade é o seu constante empenho e, como eles sabem captar a confiança dos pais, di-lo o sucesso que sempre alcançam, vencendo os escrúpulos até de seus adversários que lhes confiam os filhos. [7]

Foi também a partir de 1870 que surgiram as primeiras propostas de lojas maçônicas visando a iniciação de professores na maçonaria. A maior parte desses profissionais não podiam fazer parte da ordem já que, na sua maioria, não dispunham dos recursos financeiros suficientes para pagar as despesas exigidas de filiação; apenas aqueles profissionais liberais ou homens de alguma fortuna que também exerciam a função de professores eram o alvo principal da maçonaria, pois, por questão de origem social, eram sempre bem-vindos os cultos e letrados.

O ingresso de professores na maçonaria, especialmente os que atuavam na instrução pública, passou a ser visto como um dos meios mais eficientes para que a ordem buscasse ter acesso e influenciar na formação laica dos setores populares. A primeira iniciativa importante nesse sentido foi localizada em Porto Alegre, onde a loja Zur Eintracht aprovou uma resolução, na sessão de 14 de junho de 1876, que previa:

“Aqueles professores que pela sua vida e costumes são dignos de pertencerem a ordem dos Franco-maçons e são propostos nesta Loja com as formalidades do rito, podem ser aceitos e iniciados, independente do pagamento de joia e mensalidades.” [8]

Os professores, merecedores de convite para ingresso na maçonaria, deveriam ser propostos na forma de costume por um irmão maçom. Este serviria de fiador e a Loja, além das sindicâncias de costume, nomearia uma comissão especial para relatar, em sessão, sobre a vida e os costumes e as habilitações profissionais do indivíduo. Esta disposição não se estenderia aos professores que, notoriamente, tivessem meios necessários para realizarem as contribuições pecuniárias, sem grande ônus para si ou para sua família[9].

As qualidades individuais exigidas para a iniciação de um profano na maçonaria seriam as mesmas daquelas impostas aos professores que não tinham os recursos materiais indispensáveis à vida maçônica. O seu caráter elitista, então, esteve condicionado às próprias necessidades de penetração social da maçonaria em determinadas circunstâncias. Mesmo que não tenhamos localizado muitas iniciativas como essa, a constatação de que houve um crescente número de professores sendo iniciados em oficinas[10] confirma essa diretriz maçônica. pois “é inegável a conveniência que há em chamar-se ao grêmio da nossa Sublime Ordem o maior número possível de instrutores da mocidade”[11].

Além da defesa do ensino obrigatório, outra estratégia maçônica importante apareceu a partir do decênio de 1870. Frente a ineficiência do ensino público e da influência católica no ensino privado, iniciou-se uma campanha, no interior da maçonaria, para a criação de colégios maçônicos. As primeiras notícias veiculadas na imprensa maçônica, sugeriam que já era tempo de existirem colégios maçônicos, sendo “inexplicável que ainda não existam”[12].

O estudo de Alexandre Barata, confirma as inúmeras iniciativas maçônicas de criação de escolas. O autor informa que ainda em 1872 foi fundada, no Rio de Janeiro, uma escola maçônica com o nome de Vesper, cuja finalidade era difundir a instrução nas classes populares[13]. Entretanto, essas iniciativas mantiveram-se inexpressivas até praticamente o final do século XIX. As dificuldades de manutenção financeira contribuíram para as frustradas tentativas.

As dificuldades de implementação de projetos educacionais/escolares próprios não impediu a ordem maçônica de buscar alternativas frente a inoperância do Estado e a influência católica. Na ausência de escolas próprias, a maçonaria, por meio dos seus órgãos de imprensa, orientava os seus filiados para que matriculassem os filhos em escolas particulares, cujos proprietários, via de regra, eram homens identificados com o anticlericalismo e com as ideias liberais. A garantia de uma linha de ensino cientificista e laica era condição de aprovação maçônica.

O contexto em que as iniciativas de criação de escolas maçônicas expandiram-se foi justamente a partir da proclamação e consolidação do Brasil republicano. Durante praticamente 30 anos, na maioria das cidades em que existiam lojas instaladas, funcionavam também escolas. A existência de escolas não significava a garantia de seu bom funcionamento e clientela expressiva. Ao contrário, a maioria das iniciativas foram frustradas e, a estratégia de luta anticlerical no campo educacional pode ser considerada uma derrota para a maçonaria.

Mesmo assim, ainda em 1922, o Grande Oriente do Brasil, através do decreto n. 513, reafirmava a necessidade de manutenção dos projetos escolares maçons. No artigo 2º, aparece: “Em todos os Orientes onde não houver escolas gratuitas mantidas pelo governo do pais, ou por associação leiga de qualquer natureza, as Lojas e os maçons aí residentes, são obrigados a suprir essa falta, e a essa missão de preferência dedicar todos os sacrifícios de que forem suscetíveis, coletiva e pessoalmente”. No mesmo ano desse decreto, existiam no Brasil 128 escolas em funcionamento[14].

Importante salientar que as escolas maçônicas, a partir do final do século XIX, caracterizaram- se por priorizar o ensino noturno e dirigido às classes trabalhadoras ou populares. Naquele contexto, a perspectiva filantrópica da maçonaria dirigiu tais iniciativas no sentido da ampliação de sua influência nesses segmentos da sociedade. Outra característica foi a curta duração da maioria dessas iniciativas, já que as escolas, de forma geral, funcionaram em média apenas dois ou três anos. cumprindo, então, as orientações e diretrizes do período, ficava sempre explícito o objetivo a ser atingido com a criação de determinada escola.

As transformações significativas, principalmente com a separação Estado/Igreja, confirmaram a vitória dos liberais e defensores da secularização da sociedade. No que concerne à educação e ao ensino, ocorreu a confirmação da sua secularização, cuja vitória parecia vir por meio da eliminação do ensino religioso nos currículos escolares. Frente à situação, a Igreja Católica se posicionou contrariamente à medida; contudo, apesar das pressões, não conseguiu revertê-Ia antes de 1931.

A atuação da maçonaria, por meio das ações filantrópicas e beneficentes, da preocupação com o acesso ao ensino por parte dos jovens e pobres, deixou uma contribuição positiva na história brasileira. Os maçons foram formadores de uma cultura política de elite, ocupando espaços importantes para o caminho da secularização da sociedade brasileira, confirmada, em parte, pelo advento da República em 1889.

A secularização tinha como objetivo, para a maioria dos maçons, pôr fim ao obscurantismo e às superstições, os quais, estavam incorporados na presença do catolicismo como religião oficial do Estado brasileiro e, sobretudo, na crescente influência jesuítica no ensino.

Autora: Eliane Lucia Colussi

Fonte: Revista História Ensino

*Eliane Colussi é Professora do PPGH da Universidade de Passo Fundo (RS). Doutora em História do Brasil.

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Notas

[1] – COLUSSI, Eliane Lucia. A maçonaria gaúcha no século XIX. Passo Fundo: Ediupf, 1998. p. 139-143.

[2] – Durante o pontificado de Pio IX, entre 1846 a 1879, houve um acirramento das relações entre maçonaria e Igreja Católica, A Igreja elegeu, naquele contexto, a maçonaria como a sua maior inimiga. Segundo Ferrer Benimeli, houve 28 documentos pontifícios de condenação à maçonaria e a outras sociedades secretas, unificados na constituição pontifícia Apostolícae Sedis, de 12 de dezembro de 1869. FERRER BENIMELI, Jose Antonio. La masonería actual. Sandanyola (Barcelona): Editora AHR, 1977. p. 47-48.

[3] – BARATA, Alexandre Mansur. Luzes e sombras: a ação dos pedreiros-livres brasileiros (1870-1910). Niterói. UFF, 1992. (Dissertação de Mestrado). p.165.

[4] – WEREBE, Maria José Garcia. A educação. In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. (Org.). História geral da civilização brasileira. São Paulo: Ditei, 1985. v. 6, p. 382.

[5]Boletim do Grande Oriente do Brasil. Ano 2, n. 12, dezembro de 1873. p. 892.

[6] – MARINHO, Saldanha. A Igreja e o Estado. In: A Acácia – folha maçônica. 1876, ano 1, n. 50. p. 1.

[7] – Boletim do Grande Oriente do Rio Grande do Sul. Ano 8, n. 6, outubro de 1899, p, 56-57.

[8] – Uma resolução importante, A Acácia-folha maçônica, 1876, ano 1, n, 24. p. 3.

[9] – Idem.

[10] – Oficina é um termo genérico que serve para designar todo e qualquer agrupamento maçônico; loja, capítulo, conselho filosófico. Na linguagem corrente, a palavra tornou-se sinônimo do termo loja. MELLOR, Alec. Dicionário da franco­ maçonaria e dos franco-maçons. São Paulo: Martins Fontes, 1989. p. 196.

[11]A Acácia-folha maçônica. 1876, ano 1, n. 24. p. 3.

[12] – Colégio Maçônico. In: Boletim do Grande Oriente do Brasil. 1876, ano 5, n. p. 382.

[13] – BARATA, Alexandre Mansur. Luzes e Sombras… Op. cil. p. 166.

[14] – ALBUQUERQUE, Arei Tenório de. O que é maçonaria. Rio de Janeiro: Aurora, s/d. p.180-181.

Bibliografia

ALBUQUERQUE, Arci Tenório de. O que é maçonaria. Rio de Janeiro: Aurora, s/d. BARATA, Alexandre Mansur. Luzes e sombras: a ação dos pedreiros-livres brasileiros (1870-1910). Niterói. UFF, 1992. (Dissertação de Mestrado).COLUSSI, Eliane Lucia. A maçonaria gaúcha no século XIX. Passo Fundo: Ediupf, 1998. FERRE R BENIMELI, Jose Antonio. La masonería actual, José Antônio. La masonería actual. Sandanyola (Barcelona): Editora AHR, 1977. MARINHO, Saldanha. A Igreja e o Estado. In: A Acácia – folha maçônica. 1876, ano 1, n. 50. p. 1. .. MELLOR, Alec. Dicionário da franco-maçonaria e dos francomaçons. São Paulo: Martins Fontes, 1989. WEREBE, Maria José Garcia. A educação. In: HOLANDA, , Sérgio Buarque de, (Org.). História geral da civilização brasileira. São Paulo: Difel, 1985. V. 6, p. 382.

Fontes primárias

A Acácia -folha maçônica. Porto Alegre (1876-1877). Boletim do Grande Oriente do Brasil. Rio de Janeiro (1871-1900), Boletim do Grande Oriente do Rio Grande do Sul. Porto Alegre (1899).

O que aconteceu na maçonaria brasileira em 1927?

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A Grande Cisão de 1927, ou a criação das Grandes Lojas

Enquanto o ambiente político nacional estava agitado, no início da década de 20, diante da nova eleição presidencial e dos episódios que, supostamente, envolviam o candidato Arthur Bernardes, a situação do Grande Oriente do Brasil também não era tranquila, pois iniciava a década com uma nova cisão, provocada por uma eleição fraudulenta.

Com a morte, a 28 de janeiro de 1921, do Grão-Mestre Adjunto Irmão Luiz Soares Horta Barbosa, realizaram-se novas eleições, a 25 de abril daquele ano, para o preenchimento do cargo vago, quando se apresentaram duas candidaturas: a de Mário Marinho de Carvalho Behring e a do general José Maria Moreira Guimarães. Com o apoio de São Paulo, o general Moreira Guimarães obteve a maioria dos votos (2.770 contra 2.124 dados a Behring). Manipulando, todavia, os dados, a junta apuradora anulou votos de ambos os lados, mas principalmente os do general, de tal maneira que Mário Behring acabaria sendo eleito com 1.410 votos.

Isso acabaria provocando a reação do Grande Oriente de São Paulo, dirigido, desde 1920, pelo jurista e político José Adriano Marrey Júnior. No dia 29 de julho de 1921 atendendo uma convocação do Grão-Mestre Irmão Marrey Júnior, representantes de 51 (cinquenta e uma) Lojas participaram de uma reunião, na qual se tratou do desligamento desse Grande Oriente do Poder Central, sob a alegação de não terem sido computados os votos de São Paulo nas eleições suplementares para Grão-Mestre Adjunto do Gr.’. Or.’. do Brasil.

Dos cinquenta e um representantes, somente o Venerável da Loja “Piratininga” votou contra e justificou o seu voto, por não se ter recorrido primeiro ás leis existentes para esse fim. Em Sessão da Loja, a 1º. de agosto, o Venerável Mestre expôs a ocorrência e recebeu a aprovação unânime dos obreiros tendo, tal resolução sido ratificada em Sessão especial realizada no dia 15 de agosto. O Grande Oriente do Brasil, reagindo a essa brusca separação, declara extinto o Grande Oriente Estadual de São Paulo, pelo decreto no. 694, de 27 de outubro de 1921, criando, posteriormente, a Grande Loja Simbólica de São Paulo. Esses acontecimentos iriam acabar matando um ideal que surgira, em 1921, com a fundação da Respeitável Loja de Perfeição “Segredo”, no Oriente do Poder Central, no Rio de Janeiro, por Maçons da estirpe de um Everardo Dias (da Loja “Ordem e Progresso”, de São Paulo). e de um Otaviano Bastos. A Loja foi Instalada com o fim exclusivo de difundir, em todas as Lojas da Federação, através de uma doutrinação continuada e persistente, os conhecimentos indispensáveis a cada Maçom, tais como regularidade, Ritos, usos e costumes, jurisprudência, simbologia e liturgia, alicerces e princípios imutáveis para se forjar um Maçom integral. Foi a iniciativa pioneira no terreno cultural, mas seus trabalhos foram impedidos pelas dissensões surgidas, tendo, Otaviano Bastos, estratificado o programa da Loja em sua obra “Pequena Enciclopédia Maçônica”.

Ao final da gestão do Grão-Mestre Irmão General Thomaz Cavalcanti, Nilo Peçanha – que já fora Grão-Mestre, de 1917 a 1919 – era indicado, mais uma vez, para o cargo. Os acontecimentos políticos do país, nesse agitado período, todavia, acabariam por tornar inoportuna a sua candidatura – ele fora, inclusive, ilegalmente preso, apesar de suas imunidades como senador da República – fazendo com que elementos ambiciosos saíssem da sombra, iniciando o trabalho de intriga, visando galgar os altos postos do Grande Oriente. Isso já fizera com que o Grão-Mestre entrasse em licença, afastando-se, desgostoso com as ingratidões e com a oposição encarniçada que lhe moviam na Soberana Assembleia.

Os elementos que ambicionavam o Grão-Mestrado, estavam ligados ao Ministério da Justiça, então ocupado pelo Maçom, Irmão João Luiz Alves, partidário da soma de forças maçônicas, pelo menos aparentemente, em torno do novo Presidente da República, cujo governo se iniciava. Numa antiga biografia do Maçom Irmão Everardo Dias – jornalista, escritor e líder de movimentos operários em São Paulo, nas décadas de 10 e 20 – o autor (desconhecido) e testemunha da História, afirma:

“Foi, então, elevado ao Grão-Mestrado Geral da Ordem, o Irmão, Mário Behring, figura medíocre na Ordem, mas insinuante em conquistar posições, substituindo o general Cavalcante: Sendo amanuense da Biblioteca Nacional, conseguiu com o ministro João Luiz Alves, a aposentadoria do diretor da Biblioteca e sua nomeação, pelo presidente, para esse cargo importante e bem remunerado, prejudicando outros funcionários mais antigos e capacitados”.

A 20 de maio de 1922, Mário Behring seria eleito Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil, sendo empossado a 28 de junho e tendo, como Adjunto, o Irmão Bernardino de Almeida Senna Campos. Logo no início de seu mandato, a 22 de dezembro de 1922, pelo decreto n° 746, seria criado um imposto individual, denominado “taxa de capitação”, ou, simplesmente, “capitação”, a ser cobrada de todos os Maçons. As taxas, que, anteriormente, atingiam apenas as Lojas, passaram a ser cobradas “per capita”, ou seja, por cabeça.

Tendo ocorrido, nesse mesmo ano, o centenário do Grande Oriente do Brasil, precedendo, de pouco, o centenário da independência, não houve, estranhamente, nenhuma festividade – houve, apenas, cunhagem de medalhas – embora já tivesse sido nomeada, em 1916, uma “comissão de festejos” do centenário e embora, para esse fim, tivesse sido aumentada a capacidade do Templo Nobre do Lavradio, com a construção de duas galerias laterais, que proporcionavam lugar a mais cento e vinte pessoas.

No início de 1923, é criada a Grande Loja Simbólica de São Paulo e, pelo decreto N° 753, de 24 de abril do mesmo ano, é marcada a sua regularização para o dia 30 de maio; a partir de então, todas as Lojas paulistas obedientes ao Grande Oriente do Brasil – cerca de vinte – ficariam subordinadas a essa Grande Loja que seria instalada no prédio da Loja “Piratininga”, na Rua Marechal Deodoro, N° 10.

No ano de 1924, o Grão-Mestre Irmão Mário Behring comprometia o patrimônio do Grande Oriente do Brasil, ao hipotecar o Palácio do Lavradio, para obter um empréstimo de 300:000$000 (trezentos contos de réis), com que pretendia construir um orfanato Maçônico em terreno no Méier, no Rio de Janeiro, pertencente à Associação Mantenedora do Asilo Henrique Valadares, constituída a 9 de janeiro de 1904, sob os auspícios do Grande Oriente e aprovada pela Assembleia Geral do GOB, a 22 de setembro de 1904. Embora o Grande Oriente do Brasil não fosse dono do terreno, o Grão-Mestre lançou a pedra fundamental do orfanato a 16 de março do 1924; por desentendimentos com o construtor, com a obra quase pronta, em junho de 1925, o projeto inicial acabou sendo abandonado e o edifício teve diversas destinações, principalmente não maçônicas, convertendo-se numa dor de cabeça constante – pela irregularidade inicial – a qual duraria muitos anos, até à sua desapropriação, cerca de cinquenta anos depois de construído. Inicialmente, contudo, o imóvel abrigou as Oficinas Gráficas da Escola Profissional Maçônica José Bonifácio, que, além de ensinar a arte gráfica aos meninos interessados em aprendê-la, executava qualquer trabalho tipográfico, com preços módicos para os Maçons e as Lojas.

A 17 de junho de 1925, quase no fim da gestão, pelo Decreto N° 814, era extinta a Grande Loja Simbólica do Estado de São Paulo e criada uma Delegacia do Grande Oriente do Brasil no Estado. Behring estava licenciado desde 21 de maio, mas reassumiu a 21 de junho, diante da celeuma provocada em torno da eleição para o Grão-Mestrado, ocorrida a 20 de maio. Ocorre que Behring venceu Pedro Cunha, mas houve fraude, pois, das 315 Lojas, só 176 participaram da eleição e só 16 mostraram mapas eleitorais corretos assim, a Assembleia Geral, em Sessão extraordinária de 5 de junho admitia a vitória de Pedro Cunha. Diante do impasse, em nova Sessão, no dia 8 de junho, os três candidatos propõem, à Soberana Assembleia, a anulação do ato e a convocação de nova eleição. Behring, vendo sua reeleição em perigo, retornou, então, no dia 23, dissolvendo o Cons.’. Geral da Ordem. No dia 13 de julho, perante a Soberana Assembleia, ele renunciava ao cargo, diante das provas contundentes de manipulação da eleição. Assumiria, então, como Grão-Mestre Interino, o Adjunto Irmão Bernardino de Almeida Senna Campos, amigo e seguidor de Behring.

Em Sessão especial da Assembleia Geral, a 21 de dezembro de 1925, para apuração da nova eleição das Grandes Dignidades, realizada de 31 de agosto e 6 de setembro, nos termos do decreto nº° 815, de 9 de junho, eram proclamados e reconhecidos os mais votados Irmãos Vicente Saraiva de Carvalho Neiva, para o cargo de Grão-Mestre e João Severiano da Fonseca Hermes para o cargo de Adjunto. O Irmão Carvalho Neiva recebera 3.179 votos, enquanto o Irmão Behring recebia apenas 117, num real julgamento plebiscitário. Apesar de renunciar ao cargo de Grão-Mestre, Behring manteve o de Soberano Grande Comendador do Supremo Conselho, contrariando o disposto na lei maior do Grande Oriente, o qual previa a ocupação dos dois cargos pelo Grão-Mestre, já que a Obediência era mista fato que fora totalmente aceita nos Congressos Internacionais de 1907, 1912 e 1922, sem implicar qualquer dúvida em torno da regularidade de Grande Oriente do Brasil. Isso foi feito com a total conivência de Senna Campos.

Nessa ocasião, Behring já começava a tramar a cisão que viria a ocorrer em 1927, pois tratara, a 11 de novembro de 1925, de registrar os estatutos do Supremo Conselho embora já houvesse um registro do Grande Oriente – como Obediência mista – englobando o Supremo Conselho, feito por ocasião da promulgação da Constituição de 1907. Esse registro de 1925, portanto, era totalmente nulo, mas serviria, posteriormente aos desígnios de Behring.

A 18 de fevereiro de 1926, falecia o Grão-Mestre Irmão Vicente Neiva, assumindo o Adjunto Irmão Fonseca Hermes, com quem Behring assinaria um tratado, a 17 de junho de 1926, estabelecendo que no Rito Escocês Antigo e Aceito, os Graus Simbólicos ficariam com o Grande Oriente, enquanto os Altos Graus ficariam com o Supremo Conselho. A assinatura do tratado, por parte do Irmão Fonseca Hermes fora arbitrária, pois usara poderes que a Assembleia Geral concedera ao Irmão Vicente Neiva. Por isso, a Assembleia revogou o tratado e insistiu com o Irmão Fonseca Hermes, no sentido de que este o anulasse. Não concordando com a exigência e não suportando as pressões, o Irmão Hermes licenciou-se do cargo, a 6 de junho de 1927, assumindo, então, o Adjunto, Irmão Octavio Kelly, que fora eleito para o cargo e empossado a 21 de março do mesmo ano. Ainda durante a sua gestão, o Irmão Hermes, pelo decreto nº 848, de 30 de setembro de 1926, anuindo a inúmeros pedidos de Lojas do Estado de São Paulo, havia restabelecido, ali, o Grande Oriente Estadual, que fora extinto em 1921. A primeira iniciativa do Irmão Octavio Kelly, no sentido de sanar a irregularidade, aconteceu através do decreto nº 859, de 21 de junho de 1927, que revogava, para todos os efeitos, o decreto nº 858, que o Irmão Fonseca Hermes assinara a 23 de fevereiro, no sentido de transformar a Assembleia Geral em Constituinte, a ser Instalada a 24 de junho, para colocar a Constituição do Grande Oriente do Brasil de acordo com o tratado celebrado com o Supremo Conselho O Irmão Behring, todavia, sabendo, antecipadamente, o que iria ocorrer, promoveu, no dia 17 de junho de 1927, fora do Lavradio – e, portanto, às escondidas – na Rua da Quitanda, nº 32, uma reunião extraordinária do Supremo Conselho, que contou com a presença de apenas treze membros efetivos e declarou a sua separação do Grande Oriente, sem ter esquecido, antes, de subtrair todos os papéis e documentos dos arquivos do Supremo Conselho, no Lavradio, transportando-os para a Rua da Constituição, nº 38, num flagrante delito maçônico, pois os papéis não lhe pertenciam.

Graças a isso, não foi tranquila a reunião do Conselho Geral da Ordem, no dia 20 de junho, quando o Irmão Behring e os seus seguidores desligaram-se do GOB. Nessa Sessão, os seguidores do Irmão Behring foram renunciando a seus cargos: Irmãos Amaro Albuquerque, ao de Grande Secretário Geral do Grande Oriente; Moreira Sampaio, ao de Grande Tesoureiro do Grande Oriente; Hugo Martins, ao de 2º. Grande Vigilante do Conselho; Monteiro Chaves, ao de membro efetivo do Conselho; Senna Campos, ao de membro efetivo do Conselho. Defendendo a posição do Grão-Mestre, o Irmão Mário Bulhões diz que a situação era corolário de tudo o que vinha se passando desde 1921 e, principalmente, a partir de 1925, quando o Irmão Behring renunciou ao Grão-Mestrado, mas permaneceu como Grande Comendador, a despeito da Constituição, em seu artigo 25, parágrafo 2°, dispor que o Grão-Mestre era o Soberano Grande Comendador. Outros Conselheiros também defenderam a integridade do Grande Oriente, porém, sem sucesso pois a coisa já estava consumada.  

O Irmão Behring, pedindo a palavra, refere-se ás eleições procedidas no Supremo Conselho desde 1921 e que se tornou necessário votar o tratado entre o Supremo Conselho e o Grande Oriente; e, considerando que vinha pedindo a reforma da Constituição, sem êxito, o Supremo Conselho deliberara, por unanimidade – unanimidade de apenas 13 dos 33 membros? – denunciar, à Confederação Internacional do Rito, a situação, e, consequentemente, o tratado de 1926. E termina por anunciar que se desliga do Conselho Geral.

O Irmão Senna Campos, sempre manobrado pelo Irmão Behring, declara segui-lo, não, porém, com um adeus ao Grande Oriente mas, sim, com um até amanhã, pois, no dia da união, da Maçonaria brasileira, voltará. Palavras bonitas! Mas que se usam apenas em solenidades, da boca para fora, sem qualquer convicção. Por seu lado, o Grão-Mestre em exercício, dirigindo a Sessão, ainda elogiou o Irmão Behring e apelou por uma união bem próxima, sem saber que o golpe mortal sobre o Grande Oriente já havia sido, veladamente, desferido. Na realidade, as palavras do Grão-Mestre dão a entender que ele previa apenas uma separação entre as duas Obediências – tornando independente o Supremo Conselho – e que julgava que ela seria efémera, terminando assim que a Constituição do Grande Oriente fosse revista, não prevendo uma cisão que envolvesse o corpo simbólico. O Irmão Behring, entretanto, já havia programado essa cisão, criando um substrato simbólico para o seu Supremo Conselho na figura de Grandes Lojas Estaduais. A primeira delas, a da Bahia, já havia sido fundada a 22 de maio de 1927, recebendo, do Supremo Conselho a Carta Constitutiva nº 21; outras duas, fundadas logo depois de declarada a cisão, foram: a do Rio de Janeiro e a de São Paulo. Esta, fundada a 18 de junho de 1927 (carta N° 3 do Conselho) e que se transformaria na maior delas, foi formada, inicialmente, por 23 Lojas, das quais só uma, a “Prudente de Moraes”, lhe permaneceria fiel.

Em sessão de 24 de junho, da Assembleia Geral, o Grão-Mestre Irmão Fonseca Hermes, que se licenciara do cargo, a 6 de junho, renuncia a ele, entregando o comando, definitivamente, ao Irmão Octavio Kelly. Este, numa inflamada mensagem, aplaudida, longamente, expunha a sua posição e a situação em que os dissidentes haviam deixado o Grande Oriente do Brasil. Por ser um documento histórico, que mostra os motivos da crise, ele merece uma transcrição integral:

“Digníssimos llrm.’. Representantes do Povo Maçônico na Sob.’. Assembleia Geral.

Em obediência ao exposto no art. 39, nº 12 da Constituição em vigor, cumpro o dever de dar-vos noticia, em breve relato, da minha curta gestão administrativa e dos assuntos que, durante ela, merecem exame e atenção.

Não o farei, porém, sem precede-la das homenagens que desejo fiquem assinaladas pela feliz escolha dos vossos nomes para a composição do Legislativo Maçônico e das afirmações da minha segura esperança de que novos horizontes se hão de abrir às atividades da nossa Ordem, sob o influxo das vossas luzes e experiências e ao calor do entusiasmo de acendrado amor à finalidade dos ideais de tolerância, justiça e liberdade.

Eleito, pelo sufrágio do povo maçônico, Grão-Mestre Adjunto da Ordem, quis o destino que a precariedade do estado de saúde do nosso venerando chefe me levasse a substituí-lo em suas pequenas interinidades, na última das quais ainda me encontro. Aos primeiros contatos com os velhos companheiros, de cujo convívio me desabituara pelo afastamento em que me mantive do vosso meio e da vossa atuação, senti, desde logo, que a força das nossas instituições, posto que vigorosa e promissora de vastas conquistas e de solidares realizações, sofria os efeitos de perturbações merecedoras de pronta e decisiva terapêutica e que a política de adiamento e de contemporizações se me afigurava de todo imprópria para resolvê-las.

O germe da dissociação minava, fundo, o nosso organismo, de norte a sul e, mesmo no Poder Central, graves divergências mantinham em hostilidade e suspeita figuras de brilhante representação na Ordem, esquecidas dos nossos mais próximos interesses, na hora em que as paixões lhes acerbavam os espíritos. A difícil situação financeira, agravada pelo enfraquecimento das rendas do Grande Oriente, dia a dia ferido na sua grandeza de outrora, pela separação de Oficinas que adotavam os exageros de estranha e errônea concepção de um radicalismo impenitente, ou se insurgiam contra as exigências de sua aplicação imoderada e áspera, comprometida pelos fortes encargos que pesam sobre o nosso quase falido patrimônio, esgotado e sujeito a obrigações que sobem de trezentos e cinquenta contos de réis (se referia ao débito contraído por Behring com a aventura do Orfanato Maçônico), favorecera se não estimulara, a criação de dissídios a que, de começo, me referi, para conjugar-se numa marcha macabra, com aspectos dissolventes da nossa antiga unidade e dos nossos velhos propósitos de harmonia e solidariedade, de progresso e de paz.

Ao lado de tão grandes desditas, senti, após ligeiros estudos da situação jurídica, em que nos encontrávamos, que há muito carecia de atenção e observância da lei constitucional. Espírito formado num ambiente de respeito às normas adotadas para o governo dos povos, experimentei desde logo, os estremecimentos de que pisávamos em terreno incerto, em seguida a um golpe de vista sobre os atos maçônicos de alguns anos atrás. Não compreendo que, fora da lei medrem organizações de completa estrutura como se me afigura a do Grande Oriente, e que, postergados os seus princípios, possam ter projeção os raios de sua visão encantadora. Daí a minha resolução, sincera e franca, de buscar, na restauração do império da Constituição, a primeira alavanca para suportar a derrocada, que se desenhava aos meus olhos, e conter a dissolução para a qual concorriam o capricho de uns e o desalento de outros.

Expondo aos que me inquiriam das providencias inadiáveis e medindo a extensão da minha responsabilidade, entendi, então, deveria francamente responder-lhes com a bandeira do respeito à Constituição. Se, dentro dela, a ordem não poderia alcançar sua finalidade e seus altos desígnios, a solução seria não lhe desobedecer, mas corrigi-la, infiltrando-lhe nos textos os meios de remover as dificuldades prementes. Enquanto tal se não fizesse, o dever elementar de todos os corpos, sujeitos à superintendência da sua autoridade e dos seus poderes .expressos, seria o de segui-la sob a fé dos seus juramentos e a de respeitá-la, para honra de seus compromissos.

Nesse impasse tormentoso, de queda em queda, como se um cataclismo pudesse envolver-nos a nós todos, o ambiente exigiu do espirito altamente conciliador do nosso II.’. e Pod.’. Gr.’. Mestre uma solução provisória da contenção ao movimento inicial que tinha por alvo o reconhecimento da independência do Supremo Conselho do Rito Escocês e, com o vosso referendum, firmou-se o tratado de 22 de outubro de 1926 – convenção de que não cogita a Constituição de 1907 – e que com esta colidia, subtraindo esse Alto Corpo Litúrgico aos deveres de subordinação administrativa ao Grande Oriente do Brasil

Não discuto a conveniência da inovação, em face das Constituições do Rito, mas conheço a sua inoportunidade e inoperância diante da nossa Constituição escrita. Por isso lancei mão de esforços que visassem reintegrar os poderes e corpos da Ordem na posição que lhes asseguram os nossos estatutos. E volvendo o olhar para a possibilidade de emendar a Magna Lei, verifiquei que para isso havíeis sido convocados como constituintes na Assembleia que, hoje, se instala. Os meus zelos e responsabilidades profissionais no mundo profano, que, para mim, não merecem mais que os da vida maçônica, impuseram-me averiguar, desde logo, a irregularidade dessa convocação, dada a falta de um projeto adotado previamente pelo Corpo Legislativo ordinário e sujeito ao exame e sugestões das oficinas, com o prazo de seis meses (Const.’. art. 75). E aí, o Decr.’. 859, de 21 do corrente mês, revogando o de n° 853, de 23 de fevereiro último, e a esperança que tenho de que, durante os nossos trabalhos, seja examinada essa aspiração da corrente revisionista existente em nossa Maçonaria, em ordem a melhor consultar as tendencias de maior autonomia das LLoj.’. e os anseios legítimos de uma influência mais decisiva na solução das necessidades e questões regionais. Devo, ainda, informar-vos que, em Sessão de 20 do corrente mês, tendo alguns PPod.’. membros do Supr.’. Cons.’. do Rito Esc.’., também componentes do Cons.’. Ger.’. da Ord.’. declarado que aquele Alto Corpo Litúrgico deixava de pertencer à Confederação Maçônica que tinha como órgão diretor o Gr.’. Or.’. do Brasil, e, por isso, renunciado a seus cargos, nomeei, usando da atribuição conferida pelo art. 53 do Reg.’. Ger.’. da Ord.’., para substituí-los, os PPod.’. e incansáveis Obreiros Drs. Francisco Prado e Agenor Augusto da Silva Moreira, para exercerem, interinamente, os cargos de Gr.’. Sec.’. e Gr.’. Tes.’. da Ord.’., e os dedicados IIrm.’. Drs. Pedro da Cunha, Didono Agapito Fernandes da Veiga, Abel Waldeck, Carlos Castrioro Pinheiro e Anibal Medina Coeli Ribeiro, para completarem as vagas deixadas no Cons.’. Ger.’. pelos resignatários.

A esse tempo já havia preenchido, em comissão e sem vencimentos, o cargo de Diretor Geral da Grande Secretaria, vago pelo pedido de demissão do Il.’. Irm.’. Dr. Velho Monteiro, recaindo a escolha no prezado Irm.’. Dr. Luís Augusto Drummond Alves, de cuja inteligência e tenacidade muito deve esperar a nossa instituição.

Nesse propósito e para cumprir as leis maçônicas, aqui me encontrareis, IIrm.’. RRepres.’., sem tibieza nem tergiversações, sereno e decidido, disposto a dar à Ordem o máximo das minhas energias e a mais abundante messe dos meus esforços. No relatório apresentado pelo nosso prezado amigo e Pod.’. Irm.’.

Grão-Mestre efetivo encontrareis os dados complementares da exposição que ora vos faço.

Unamo-nos todos, numa frente comum, pelo reerguimento da Maçonaria, não para guardar-lhe somente os despojos de suas glórias passadas, mas, e principalmente, para empunhar as bandeiras que ainda teremos de desfraldar nas grandes campanhas de solidariedade humana.

Transpondo uma idade em que as ilusões falharam, não deixei, todavia, murchassem as esperanças que nutro no destino dos povos, que tem a enfibratura dos cruzados e sabem segui-los e imitá-los na constância e no desprendimento, no amor e no sacrifício, pelos ideais comuns.

Sois dessa têmpera e, por isso, confio nas vossas luzes, na lealdade de vossas oficinas, no vosso concurso eficiente, no honesto empenho de ajudar-me nesse empreendimento, para que o Gr.’. Or.’. do Brasil continue a ser o pálio a cuja sombra terão que viver todos os Ritos da Maçonaria Universal, conjugados, fundidos e irmanados no desejo sincero de cultuar a Virtude ao serviço da Família, da Pátria e da Humanidade.

Octávio Kelly 33.’.

Gr.’. Mestr.’. em exercício.

A 2 de julho, pelo decreto nº 860, Kelly, considerando que, para a prática dos atos lesivos ao Grande Oriente, se invocava a autorização concedida pela Soberana Assembleia, a 22 de dezembro de 1925, revogava os poderes contidos no letra “d” da resolução, tornando, assim, nulos todos os atos praticados em virtude da aludida autorização. No mesmo dia, pelo decreto nº 861, era revogado o decreto nº 851, de 27 de outubro de 1926 e, consequentemente, o tratado assinado entre o Grande Oriente e o Supremo Conselho. E, finalmente, o decreto nº 862, também de 2 de julho, restituía, às Lojas escocesas da Federação, a plenitude de sua eficácia, já que os seus direitos haviam sido postergados pelo mesmo decreto de 27 de outubro de 1926, que sancionara o tratado.

Sem os documentas básicos do Supremo Conselho, subtraídos por Behring, só a muito custo Octávio Kelly conseguiu reerguê-lo, no início de agosto de 1927. Para isso, a 18 de julho, pelo decreto nº 866 A, isentava do pagamento dos metais devida os Obreiros que eram Elevados ao 33° Grau, para a reconstituição do Supremo Conselho, diante das defecções havidas; isentava, também, os que fossem eleitos para funções que exigissem a colação nos mais Altos Graus dos diversos Ritos. No mesmo dia 18 de julho, ocorria uma Assembleia Ordinária do Supremo Conselho, com a presença dos Membros Efetivos Dr. Octavio Kelly, Dr. Virgílio Antonino de Carvalho, Dr. João Severiano da Fonseca Hermes, General Ticiano Corregio Doemon, Coronel Cantidiano Gomes da Rosa e o Emérito João de Sousa Laurindo; nessa ocasião, Octavio Kelly explica o motivo da reunião: a reconstituição do Supremo Conselho. A presença desses membros efetivos mostra que não houve defecção unânime e que, portanto, o legitimo Supremo Conselho permaneceu, nas pessoas desses membros. A 1º. de agosto, com a eleição de novos membros efetivos, para os lugares deixados vagos pelos dissidentes, era reconstituído o Supremo Conselho.

Todavia, em 1929, Mario Behring se adiantaria e conseguiria que a 4ª. Conferência Internacional de Supremos Conselhos, em Paris, impusesse, internacionalmente, a regularidade de seu Supremo Conselho dissidente.

A 3 de agosto, o Supremo Conselho de Behring lançava um Manifesto às Oficinas Escocesas do Brasil e o Decreto n°7 – que se tornaria famoso pela inusitada pretensão – que declarava, oficialmente, o Grande Oriente do Brasil como Potência irregular no seio da Maçonaria Universal. O inusitado, no caso, é uma Obediência de Altos Graus de um Rito declarar irregular uma Obediência Simbólica. Apesar disso, Behring e seus seguidores não deixaram de cortejar a Grande Loja Unida da Inglaterra, no sentido de obter, dela, o reconhecimento para as suas Grandes Lojas, vendo, todavia, frustrados os seus intentos, em 1935, quando a Potência-Mater assinou tratado de Aliança Fraternal com o Grande Oriente do Brasil, o que é, na Maçonaria atual, o maior atestado de regularidade, pois afirma representar “uma intima e indissolúvel aliança entre as duas Potencias.” O termo empregado é mesmo “INDISSOLUBLE”, que quer dizer: não separável, que existe sempre junto com outro.

A 6 de agosto de 1927, o Grão-Mestre Kelly, considerando que uma parte das Lojas de São Paulo, subordinadas ao Grande Oriente Estadual, entendeu de se desligar do Grande Oriente do Brasil e constituir uma Grande Loja Simbólica, revogava, pelo decreto nº 869, o decreto nº 848, de 30 de setembro de 1926, que restabelecera o Grande Oriente Estadual, determinando, ao mesmo tempo, que as Lojas fiéis ao Grande Oriente do Brasil passassem a se corresponder com a Grande Secretaria Geral através da Delegacia do Grão-Mestrado no Estado. Diante disso, em setembro, as Lojas paulistas recebiam uma circular, comunicando que fora criado o Grande Oriente e Supremo Conselho Paulista Independente, o qual não se desenvolveu por falta de apoio das Lojas. Finalmente, por ato de nº 864, de 13 de agosto de 1927, o Grão-Mestre suspendia os direitos maçônicos de Mário Behring, Amaro Arthur Albuquerque e Amélio Dias de Moraes”.

Há dois detalhes que impressionam, nesse episódio da cisão: a cisão do Supremo Conselho, operado por Mário Behring, se deu no dia 17 de junho. Não foi, porém, realizado em SESSÃO regular no edifício do Lavradio e sim em uma REUNIÃO extraordinária, diz a ATA, realizada fora da sede do Lavradio, num escritório particular, presentes, com Mário Behring, 13 (treze!) Soberanos Grandes Inspetores Gerais (é bom lembrar que um Supremo Conselho se compõe de 33 membros). Outro detalhe: na sessão de 03 de agosto, os mesmos treze e na sessão de eleição para os cargos do Sacro Colégio e Comissões, em 01 de setembro, Mário Behring só reuniu, contando com ele, 15 (quinze) membros. Sempre um grupo reduzido. Assim, o que houve, de fato, em 17 de junho de 1927, foi uma cisão do tradicional Conselho do Rito Escocês fundado por Montezuma em 1832, que funcionava no Palácio Maçônico do Lavradio desde 1842 (quando o Grande Oriente inaugurou o imóvel) e que formalizara em 1864 uma união com a Potência Simbólica, criando-se uma Potência Mista, como ocorria então em vários países.

Operada a cisão desse Supremo Conselho em 1927, o caso, conforme as leis do Rito, tinha que ir, OBRIGATORIAMENTE, ao Tribunal do Escocismo. Realmente.

O art. 8º. Das Resoluções do Congresso de Lausanne de 1875 determina EXPRESSAMENTE que, no caso de cisão de um Supremo Conselho, em que cada um pretende ser o Supremo Conselho preexistente ou seu sucessor legítimo, a questão é levada à decisão inicial de um Tribunal de Membros ativos de cinco Supremos Conselhos Confederados e, depois, ao plenário da Confederação, na próxima assembleia. No IV Congresso de Paris, em 1929, de Supremos Conselhos, a recusa de plano em receber a Delegação do Lavradio feriu frontalmente a Lei e a Justiça, porque no Lavradio permaneceu a fração do legítimo Supremo Conselho, em sua sede centenária, enquanto Mário Behring e seus companheiros de dissidência completaram seu Colégio de Grandes Inspetores Gerais em um sobrado do Carmo.

Quando o Irão Raymond René, presidente do IV Congresso, disse, de plano, a Moreira Guimarães, que chefiava a Delegação do Lavradio: ”Vous êtes les dissidents”, falava com a verdade pelo avesso, porque os que dissentiram foram os que saíram do Lavradio. Ao mesmo tempo, porém, Raymond reconhecia a cisão e, por isso, tinha que obedecer a lei escocesa (art. 8º. das Resoluções de 1875) e jamais agasalhar no próprio plenário do Congresso a representação adversa.

Hoje no Brasil, consequente à injusta decisão de Paris, de 1929, há dois Supremos Conselhos: o Supremo Conselho de Mansur, que é o dissidente, detém a legalidade – mas o Supremo Conselho de Vulcano, que é o preexistente, tem a legitimidade, isto é, a autenticidade”. (AP)

Aos poucos, o Grande Oriente voltava à sua normalidade administrativa. A 19 de outubro de 1927, por exemplo, o Grão-Mestre em exercício, pelo decreto 878, criava o Grande Oriente do Estado do Paraná. A 3 de novembro, pelo decreto 881, o Grão-Mestre ficava autorizado, pela Soberana Assembleia, a assinar a escritura de novação da hipoteca que gravava o edifício do Grande Oriente do Brasil, à rua do Lavradio n° 97. Essa novação consistia na prorrogação de prazo por mais dez anos e era, ainda, eco da aventura de Mário Behring, com o fracassado Orfanato Maçônico. A 26 de junho de 1928, o Grão-Mestre interino, Octavio Kelly, era eleito Grão-Mestre, tendo, como Adjunto, Pedro Cunha, que havia sido empossado a 26 de junho de 1927, depois de Kelly ter assumido, interinamente, o Grão-Mestrado. Em novembro de 1928, é feito um acordo entre o Grande Oriente do Brasil, representado por Octavio Kelly, e o Grande Oriente de São Pauto, representado por Marrey Junior, referente à fusão. A 11 de maio de 1929, o Grande Oriente de São Paulo era reincorporado ao Grande Oriente do Brasil e, pelo decreto nº 963, de setembro de 1930, era extinta a Delegacia do GOB em São Paulo, passando, as Lojas, a se corresponderem com o Poder Central através do Grande Oriente Estadual”.

A Maçonaria Paulista hoje se encontra muito mais coesa e fortalecida pelo Tratado de Garante de Amizade, entre o Grande Oriente do Brasil e as Grandes Lojas Maçônicas do Estado de São Paulo, assinado em 15 de outubro de 1999 pelos respectivos Grão-mestres, Irmãos Francisco Murilo Pinto e Salim Zugaib.

A Maçonaria, como nos ensina Álvaro Palmeira, é universal.

“A Maçonaria por seus genéricos sustentáculos ideológicos, não é yankee em Washington, inglesa em Londres, prussiana em Berlim, francesa em Paris, turca em Istambul, brasileira no Rio de Janeiro. No mundo maçônico não há antagonismo ou desvinculação e, sim, meios comuns de reconhecimento. A universalidade maçônica assenta em fundamentos gerais, observado por toda Potência Maçônica. Esse denominador comum é o geral caráter substantivo da Instituição, mas cada Potência tem, em seu País, uma atuação e uma projeção, que a individualizam e distinguem entre as coirmãs; é o caráter adjetivo de cada Corpo. No mundo maçônico a base é comum, mas a ação exterior das Potências é diversificada. É a velha distinção escolástica entre substância e acidente, entre fundo e forma”.

A Maçonaria não pode ficar parada no tempo, nem nas Constituições nem nos Rituais de Heredom. Há que coaptar a Tradição com a Evolução, para ser a companheira da Humanidade. A Maçonaria não se pode manter no status quo, alheia à dinâmica do tempo e defasada no relógio da História. A Maçonaria tem que ser, simultaneamente, contemplativa (Tradição) e afirmativa (Evolução).

Há urgência de se abrir o IV Período da História Maçônica. A Maçonaria tem que ser ambígena, para não ficar alienada no tempo, à margem da Vida. Para o Maçom, o tempo presente e o tempo passado são ambos tempo futuro.

É evidente que a Maçonaria não sai à rua, de bandeira desfraldada, para combater o bom combate: são os Maçons, que ela conscientizou dentro dos Templos, sobre os problemas do Homem e do Mundo, são eles que atuam, onde quer que estejam, semeando a boa semente, no serviço do Bem e da Justiça.

Essa é a Maçonaria “Novae Sed Antiquae”, que é a Maçonaria latina e é o lema sesquicentenário do Grande Oriente do Brasil, “antiga, porém nova”. Absolutamente não é aquela Maçonaria circunscrita em Anderson ou estacionária em Heredom, há dois séculos e meio, imobilizada, “sem acrescentar uma virgula, nem tão pouco tirar”. Renovar, sem inovar.

Autor: Heitor Genta

Fonte: Bibliot3ca Fernando Pessoa

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Nota

O Grande Oriente do Brasil foi fundado no Rito Adoniramita em 17.06.1822, admitiu o Rito Moderno em 1831 e o Rito Escocês Antigo e Aceito em 1832. Adiante reconheceu os Ritos Schroeder ou Rosa-Cruz Retificado em 1864, o York em 1872 e o Brasileiro em 1914, pois o Especial Rito Brasileiro de 1878, fundado em Pernambuco não procurou reconhecimento e extinguiu-se.

Referências

  • Artigos e Obras do Ir.’. José Castellani.
  • A universalidade da Maçonaria e o Caráter Nacional  de cada Povo – Álvaro Palmeira.
  • O Tratado de 1935 – Como se instituiu o Tratado entre a Grande Loja Unida da Inglaterra e o Grande Oriente do Brasil.
  • A Maçonaria – Capitão Salvador de Moya – Doctos. Loj.’. América. -Tratado entre o GOB e a GLESP celebrado em 15/10/1999.

A ignorância da diversidade

Os efeitos positivos da diversidade no franchising | Mercado&Consumo

Uma reflexão sobre uma ignorância que ganhou relevo com a globalização, a ignorância da diversidade. Muniz Sodré mostra como um determinado pensamento abstrato e teórico sobre a diversidade acaba desviando a atenção sobre a fundamental importância da existência da diversidade. Para ele, somente na diversidade e nas relações que se criam a partir dela, é que podemos montar as redes de afeição e relacionamentos que precisamos para a nova realidade mundial. Muniz também faz um breve resumo da importância dos negros para a nossa cultura e para a criação da diversidade brasileira.

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Liberdade e desigualdade no Brasil – Uma reflexão maçônica durante a pandemia

Como os super-ricos aprofundam a desigualdade social no mundo ...

“Aqueles que abrem mão da liberdade essencial por um pouco de segurança temporária não merecem nem liberdade nem segurança” (Benjamin Franklin)

A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, fruto do Iluminismo e aprovada pela Assembleia Nacional Constituinte da França revolucionária em 1789, resume no primeiro artigo que “os homens nascem e são livres e iguais em direito”. A crítica que se faz é que a liberdade e igualdade ali referenciadas eram restritas às pessoas do sexo masculino, cidadãos possuidores de interesses, ficando de fora os pobres, os empregados, os escravos e as mulheres.

Em dezembro de 1948 foi promulgada “A Declaração Universal dos Direitos Humanos”, que delineia os direitos humanos básicos, adotada pela Organização das Nações Unidas, como uma norma comum a ser alcançada por todos os povos e nações. O que poucos sabem é que a influência da maçonaria é que permitiu a sua codificação.

Desde a primeira Declaração permanece em moda a discussão sobre o que é ser livre e ser igual. As sociedades que souberam trabalhar melhor e equilibrar esses conceitos são consideradas as mais prósperas.

O Brasil carrega uma dívida decorrente da Lei Áurea de 1888 que libertou juridicamente os escravos, mas não lhes proporcionou as condições de liberdade de consciência e de ter uma vida verdadeiramente livre, com o exercício da cidadania plena, que permita às pessoas exercerem todas as suas potencialidades legítimas. Na Constituição de 1891 foi negado o direito de voto aos analfabetos. Daí a se concluir que a chave da liberdade se dá com a melhoria da qualidade da educação, que emancipa, forma pensamento crítico, proporciona esperanças e é a mais efetiva via de acesso ao desenvolvimento de uma nação. É a educação que prepara o ser humano para o exercício consciente da cidadania.

Promulgada em 1988, um ano antes da queda do muro de Berlim, quando ainda imperava a crença de que o socialismo seria a solução para superar a pobreza e a desigualdade, e com um viés estatizante e quase anticapitalista, a atual Constituição Federal ampliou direitos ao permitir o acesso dos mais pobres aos serviços públicos. O Capítulo II, artigos 6º e 7º, definem com muita clareza os Direitos Sociais, com o destaque do art. 6º:

“São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância e a assistência ao desamparado.”

Representam conquistas do povo, mas é preciso vigilância, pois aquilo que se conquista pode também se perder ou nem chegar a ser implantado.

Políticas como o Bolsa Família, as cotas sociais nas universidades, o salário mínimo, as ações do SUS e fundos constitucionais (Fundef/Fundeb), produziram seus resultados. O Fundeb corre o risco de ser extinto em 2021, caso não seja prorrogado. Essa rede de assistência social criada ao longo dos anos pós-Constituição é que permite ao Estado amenizar o sofrimento das classes menos favorecidas. Mas, poucos são os assistidos e a qualidade deixa a desejar, em especial quanto ao ensino nas escolas públicas e as dificuldades de marcação de consultas, exames e atendimentos hospitalares. Isso para não falar nos problemas ligados a segurança, transporte público, habitação, violência e acesso à cultura.

No campo dos direitos civis, ações como o Estatuto da Criança e do Adolescente, o Código de Defesa do Consumidor e o Estatuto do Idoso se constituíram em grandes conquistas. Quanto aos direitos políticos, os avanços se deram a partir da permissão do voto do analfabeto e maiores de 16 anos, atendimento a demandas da população indígena, dos movimentos negro, feminista, LGBT e demais grupos minoritários.

Mas, privilégios em determinadas áreas ainda são mantidos. Esses direitos não deveriam ser bandeiras de grupos de pressão ou de partidos políticos, mas uma missão do Estado brasileiro. O País continua desigual porque o orçamento público sempre destina recursos aos grupos mais influentes, à elite burocrática e a quem efetivamente não precisa. Pequena parcela chega aos mais vulneráveis, como o Bolsa Família e a renda mínima aos maiores de 65 anos (Benefício de Prestação Continuada criado pela Lei Orgânica da Assistência Social – LOAS – de 1993). A solução passaria por uma reforma profunda do Estado.

As grandes dimensões territoriais do Brasil representam um fator dificultador, com desigualdades regionais, de renda e de elevado nível de violência. Essas desigualdades sociais e a injustiça persistem e são dolorosas. Mesmo entre os mais pobres existe diferença entre graus de pobreza. Como agravante, destacam-se o saneamento escasso e falta de urbanização em comunidades carentes, a precariedade da rede de proteção social, as diferenças entre os sistemas público e privado de saúde, com estimados 40% dos trabalhadores na informalidade, além de milhões de desempregados e pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza.

O surgimento do coronavírus, que atinge com sua força destrutiva indistintamente ricos e pobres, evidenciou o fosso social brasileiro, demonstrando que a desigualdade deixa claros seus efeitos em catástrofes naturais ou em pandemias, ensejando a urgente necessidade de socorro à população mais vulnerável e de um novo pacto social, com políticas públicas e econômicas mais progressistas. Especialistas afirmam que essa crise é a maior enfrentada pelo mundo desde o desastre econômico gerado pela Grande Depressão dos anos 30 e pós Segunda Guerra Mundial, sabendo-se ainda muito pouco de seus efeitos na sociedade e no corpo humano, em particular. A corrida armamentista da biologia está no seu auge.

As autoridades brasileiras durante a crise deixaram claro que são competentes para lidar com os incluídos, aqueles que pagam impostos e são, portanto, visíveis, mas extremamente ineficaz quando tem de lidar com os excluídos, aqueles não integrantes da sociedade de consumo, em especial os que não têm endereço fixo, os “desbancarizados” (sem conta em banco), sem telefone celular e acesso à internet, não detentores de um CPF ou com os mesmos bloqueados. O governo não sabe onde estão e quem são eles. Como falar em isolamento social em comunidades com famílias amontoadas em becos, muitas sem água encanada em casa, em uma convivência confusa entre as pessoas? São, portanto, invisíveis e muitos vivem ou sobrevivem em condições desumanas.

A classe carente e esquecida sempre esteve presente na cena diária, como os moradores de rua, os catadores de lixo, os mendigos, os vendedores e acrobatas de cruzamentos, dentre outros. Acrescentem-se os que vivem na informalidade e de biscates, sem garantias trabalhistas, os autônomos, os trabalhadores sem registro, que não têm poupança e precisam de rendimentos diários para sustentar suas famílias e dos poucos assistidos do programa Bolsa Família. E, por derradeiro, ainda sofrem com o menosprezo de autoridades de relevo em face das perdas com mortes de entes queridos vitimas da pandemia.

Assim como foi desafiadora a libertação dos escravos no século XIX, assim o é a superação da miséria nos tempos atuais. Os devastadores impactos da crise planetária da Covid-19 lançaram luzes nesse campo, e o Brasil se viu diante de um número gigantesco de desassistidos à míngua de uma renda mínima que garanta a sobrevivência, tendo o governo que adotar um auxílio emergencial para superar o grave momento vivido, que inicialmente tem a previsão de 3 meses, mas podendo ser vislumbrada a possibilidade de tornar-se perene. E sabe-se que esses recursos voltam imediatamente para a economia sob a forma de consumo. É sangue direto na veia.

O tamanho e a complexidade do País dificultam a escolha de um caminho ideológico para solução das desigualdades, ainda historicamente restrito ao grupo de centro-esquerda. Aqueles posicionados na centro-direita apostam na competição e enfatizam os valores da concorrência como condição para a promoção do desenvolvimento, para que o setor privado gere prosperidade, mas adota ações sociais focadas para o combate da pobreza e desigualdade, quando as contas públicas o permitem.

Um tema recorrente entre esses grupos é o combate à corrupção (sempre atribuída ao outro lado) como agenda prioritária, tema esse bastante explorado pelos meios de comunicação de massa, que acaba ocultando a questão da desigualdade. Ambas as correntes chegam aos extremos do espectro, com discursos bem polarizados e desviam o foco do essencial. O que se espera é que não haja retrocessos em função dessa polarização, com perda do que foi até aqui conquistado, e que as lideranças políticas do país sirvam a todos indistintamente, e não apenas ao seu grupo de iguais.

O dilema é ainda maior quando se fala em igualdade em um cenário de milhões de empregos a serem extintos pelo uso da inteligência artificial. Não se pode olvidar a nova tendência do “home office”, que se tornou alternativa viável durante a pandemia do coronavírus, acelerando mudanças de comportamento, vislumbrando-se um caminho sem volta, pois as empresas reduzem custos e os profissionais conciliam tempo e outros afazeres, além dos ganhos dos grandes centros em termos de movimentação de pessoas e veículos e melhoria do clima, com o destaque para as operações “on-line” que afetam a formatação das lojas físicas.

Mesmo não nos deixando influenciar pelo sentimento de angústia quanto ao futuro, difícil não pensar em um mundo mais desigual decorrente desta crise sanitária, com as implicações negativas em todas as áreas, como a econômica, política e, sobretudo, a social. Já se especula que essa pandemia possa ter as mesmas consequências para o Liberalismo do que representou a queda do “Muro de Berlim” para o Comunismo. Chegou a hora da verdade: é pagar para ver? Como ensina a sabedoria popular, o imprevisível é realmente muito difícil de prever.

O cenário da evolução tecnológica e o pós-crise ensejam novas preocupações na medida em que grande parte da força de trabalho desatualizada enfrenta concorrência das máquinas inteligentes com o aumento das condições de desigualdade. Mais uma vez, a solução está na educação e em políticas que protejam os direitos dos trabalhadores e apoio às empresas que geram empregos.

Entretanto, no momento, a única certeza é a de que as consequências da atual crise terão reflexos em políticas protecionistas e nas cadeias produtivas globais e serão absorvidas exclusivamente pelas empresas do setor privado, com quebras já no horizonte e o desemprego. O Brasil como um todo certamente sairá mais pobre, com déficit e dívida pública agravada e coesão social comprometida. Segundo os economistas, a solução passa pelo crescimento do Produto Interno Bruto, que dará suporte aos gastos públicos e à geração de empregos.

No contexto pré-crise, parte significativa do contingente de desempregados já não estava preparada para ocupar espaço na economia do futuro, por falta de mão de obra qualificada e carência de profissionais, inclusive para enfrentar os dias atuais. Muito tempo foi perdido com lorotas e populismo. E a sociedade assiste a tudo apenas dizendo-se esperançosa e confiante. Em quê ou em quem? Então, a solução passa por um alinhamento de todas as instituições agindo em uma só direção, com as diferenças colocadas de lado em nome do bem comum. Difícil de acreditar quando já se fala em sucessão no governo e grupos políticos reiniciam os tradicionais conchavos.

Mais difícil ainda reconhecer a ideologia social de que somos todos iguais e de que não existem seres piores ou melhores. Nosso País precisa desenvolver políticas públicas visando ao fortalecimento das instituições democráticas e superação da desigualdade e da violência. Por ser um dos mais injustos do mundo, o Brasil é um dos países mais desiguais do mundo. E justiça pressupõe dar a cada um o mínimo que lhe cabe, evitando privilégios e exclusões sociais. Sem justiça não há paz.

Por sua vez, a liberdade é motor do empreendedorismo e de transformações tecnológicas, que decorrem de projetos e sonhos. A área da Economia demanda um Estado bem organizado e uma sociedade consciente e mobilizada. Compete ao Estado criar as condições que viabilizem o desenvolvimento sustentado, em especial nos setores de saúde, educação, meio ambiente e ciência e tecnologia.

Segundo o artigo de Karen Franklin (CESCON, Paulo; Nodari, César. Filosofia, ética e educação: por uma cultura da paz. São Paulo: Paulinas, 2011),

“Toda sociedade democrática necessita de cidadãos comprometidos com o respeito aos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. Contudo, a conquista desse comprometimento não é natural e espontânea, ela precisa ser forjada no interior dos sujeitos e da sociedade, enfim, ela necessita ser educada.”

Mas, há uma corrente que vê isso como uma ameaça, dado que a formação de massa crítica e a consciência cidadã incomodam alguns dirigentes políticos que perdem espaço de dominação.

A discussão sobre a liberdade evoca um dilema repisado por vários analistas:

“devemos aceitar uma ditadura, com restrição às liberdades individuais, em troca de um contrato social de melhoria coletiva do padrão de vida?”

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso teve uma fala citada na Revista VEJA (Edição 2682, ano 52 – nº 16, de 15.04.2020, p. 26), prevendo a ascensão dos países orientais, menos presos às ideias de liberdade, após a pandemia da Covid-19:

“O povo não quer nem saber o que é liberdade e individualismo. Quer saber se tem emprego, tem comida, tem transporte, tem saúde. E, se eles derem isso, vão nos dar um banho.”

Esse posicionamento conflita com o pensamento contido na abertura desta prancha e merece reflexão.

No mesmo diapasão sente-se que a liberdade de expressão não é mais um valor cultuado ao se constatar que não se pode mais pensar de forma diferente sem sofrer a condenação de tribunais virtuais e ver ameaçadas as relações sociais e até mesmo o sagrado convívio no lar. Tempos muito estranhos!

Ainda sobre o direito à privacidade, uma nova ferramenta gerada pela revolução tecnológica passou a ser motivo de questionamentos, como ficou evidenciado na pandemia do coronavírus, com a possibilidade de rastreamento de pessoas doentes por intermédio dos telefones celulares. Essa estratégia poderia ser utilizada também por governos autoritários para controlar seus habitantes. O que precisa ser definido é como aplicar essas ferramentas sem desrespeitar as liberdades individuais.

A geração atual ainda não tinha passado pela experiência de confinamento social, com restrições de liberdades. Ainda não é possível avaliar as consequências de como as pessoas se portarão com a continuidade da quarentena e das perdas percebidas em cada situação, em especial na saúde mental, e notadamente quando iniciarem-se o relaxamento por setores da economia e houver um sentimento de tratamento desigual. Certamente teremos uma referência no tempo deste segundo decênio como o real marco do início do século XXI, antes da Covid e depois da Covid (a.c e d.c – com todo o respeito, com o “c” minúsculo).

No que tange à igualdade é imprescindível que criemos consciência de que dependemos um do outro para vivermos, não havendo espaço para o egoísmo que submete as pessoas ao nosso redor em situação de fragilidade. E, como cidadãos, devemos manter o respeito ao coletivo, dando tratamento igual e digno a todos, o que se constrói por meio do espírito de solidariedade e da garantia de uma sobrevivência com a instituição de uma modalidade de seguro social que garanta renda mínima para todos, nos moldes já mundialmente defendidos desde a crise econômica global de 2008, como a proposta de uma Renda Básica Universal (RBU), de forma que não haja famílias desassistidas. Isso é apenas o começo.

Enfim, a Maçonaria brasileira não pode apenas divulgar manifestos de repúdio e deixar de agir, ficando à margem dessas discussões, notadamente por sua histórica característica progressista, o que a colocou sempre envolvida nos grandes temas de interesse da sociedade em geral, sem partidarismos e apegos a personalidades da hora e a ideologias que não a sua missão de tornar feliz a humanidade. Repúdio sem ação é mera insatisfação!

Com as luzes do G∴A∴D∴U∴, que essa pandemia nos ajude a desconectar do egoísmo e do ódio e a focar em ações mais construtivas.

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

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Maçonaria e Antimaçonaria: Uma análise da “História secreta do Brasil” de Gustavo Barroso – Parte VIII

Integralismo – O Sentinela

3.3 – Ecos do anti-semitismo e o discurso integralista de Barroso

É justamente o que explica o antagonismo entre o povo judeu e a civilização nascida do cristianismo. No meio dum mundo transformado e adoçado, continua o homem de há três mil anos, ávido e hostil, encerrado na sua religião nacional, eternamente preocupado em escravizar todas as nações a Israel, como lhe foi anunciado de século em século pela sinagoga… Não se trata de odiar os judeus e ainda menos de desprezá-los. Não se despreza um povo que arrastou os séculos, a dispersão, a decadência moral e material, conseguindo manter-se intacto. Mas é natural que seja temido e que se pense em proteger contra suas agressões ao patrimônio moral e material das nações cristãs.[304]

Contemporaneamente, a primeira onda de violência contra os judeus ocorreu em 1933 com a ascensão de Hitler ao poder. A agressão organizada contra os judeus alemães, a legislação anti-semita e a discriminação social que passou a fazer parte da vida cotidiana
induziram milhares de famílias judias a abandonar definitivamente a Alemanha. Neste mesmo ano, o cônsul brasileiro em Colônia, Ildefonso Falcão relatou a seu chanceler sobre o grande interesse dos inúmeros judeus pelo consulado brasileiro. Segundo Milgram, Ildefonso Falcão demonstrava certa simpatia pelos comerciantes judeus que trariam consigo fortuna ao país acolhedor. Porém, na visão do ministro de Trabalho, Indústria e Comércio, Joaquim Pedro Salgado Filho, responsável pela imigração, o Brasil deveria privilegiar os imigrantes trabalhadores agrícolas, únicos capazes de se radicarem ao solo. Na perspectiva de Milgram a realidade se processava por vertentes assimétricas. O Brasil que se recuperava da crise e se inclinava pela via do desenvolvimento industrial tinha dificuldades para modificar sua autoimagem de país agrário. E os judeus europeus, que poderiam contribuir com a expansão econômica brasileira eram vistos como “elementos indesejáveis”, uma vez que poderiam inchar os centros urbanos[305].

Conforme ressaltou Maria Luiza Tucci Carneiro, apenas os técnicos e agricultores católicos tinham condições de contribuir para o projeto de modernidade idealizado pelo governo Vargas. Algumas exceções se faziam aos judeus capitalistas e, assim mesmo, mediante criteriosa seleção. No entanto, a possibilidade de termos entre nos judeus capitalistas também incomodava, visto ser corrente nos anos de 1930 a ideia de que estes
representavam um “perigo internacional”. Aliás, este era um slogan reverenciado pelo clássico livro anti-semita de Henry Ford, O Judeu Internacional traduzido no Brasil em 1933. Nesta linha de raciocínio estavam os diplomatas brasileiros sediados no exterior, principalmente aqueles que se encontravam radicados na Alemanha, Áustria, Polônia, Hungria e Romênia[306].

Deste modo, vários ensaios sobre as causas da proliferação do anti-semitismo na Europa foram desenvolvidos por emissários brasileiros que tentavam, através de seus relatos, alertarem o governo para uma futura onda de refugiados judeus. Por exemplo, em 2 de julho de 1931, Luiz de Lima e Silva, da Embaixada do Brasil em Viena, chamava a atenção de Afrânio de Mello Franco, ministro de Estado das Relações Exteriores, para os movimentos anti-semitas que se faziam “moeda corrente” nos países da Europa Central. Segundo Carneiro, Luiz de Lima e Silva, relatou ao ministro uma série de boatos e escândalos envolvendo estabelecimentos bancários e personalidades judaicas na Áustria. Para o embaixador os escândalos envolvendo o Banco Auspitz e o Credit-Anstalt, ambos amparados por abastadas famílias judias, foram apontados como um dos pivôs dos protestos anti-semitas em Viena[307].

A família judaica Rothschild, acionista majoritária do Credit-Anstalt, havia se transformado no principal alvo das contestações e Gustavo Barroso não deixaria de explorar de maneira oportuna esses acontecimentos.

Essa exploração entregue aos Rothschild perdura até hoje. Em 1933, depondo perante a comissão de inquérito do Senado norte-americano, o sr. Hayward, representante dos banqueiros judeus Dillon, Read & Cia., declarava que os empréstimos feitos pela sua casa para o Brasil se realizavam em colaboração conjunta com Rothschild, porque o governo do Brasil não poderia pensar em fazer um empréstimo sem primeiro discuti-lo com Rothschild! [308]

As principais matérias publicadas na imprensa sobre a questão judaica nos territórios do Reich eram cuidadosamente recortadas e enviadas ao ministro das Relações Exteriores com o propósito de mantê-lo atualizado sobre a recrudescência do anti-semitismo e, assim orientá-lo no procedimento a ser tomado diante daquela massa de refugiados judeus que começavam a buscar refúgio em terras brasileiras[309].

É importante que se diga que a questão judaica no Brasil não era similar àquela da Argentina ou da Europa, onde corria sem restrições o anti-semitismo popular e oficial. Nestes casos, o anti-semitismo era baseado em imagens distorcidas de judeus reais com os quais a população não-judia tinha contato regular. Na perspectiva de Jeffrey Lesser, o anti-semitismo no Brasil manifestou-se da seguinte forma: indivíduos influentes atacavam imagens de judeus imaginários que presumidamente eram ao mesmo tempo comunistas e capitalistas, e cujos estilos de vida degenerados se formaram em pútridos e miseráveis enclaves étnicos europeus. Os severos e irreais julgamentos eram modelados de acordo com uma leitura ingênua do anti-semitismo e o ódio aos judeus europeus, aplicado a uma imprecisa imagem da vida judaica fora do Brasil. O que é mais surpreendente em tudo isso é que os judeus reais que viviam no Brasil, fossem eles cidadãos ou refugiados, enfrentavam poucos empecilhos cotidianos ou estruturais para a conquista de objetivos econômicos ou sociais[310].

Assim, para Lesser a questão judaica brasileira era na verdade um esforço dos líderes do Brasil em encaixar imagens intolerantes dos judeus, filtradas da Europa, com a realidade de que a esmagadora maioria dos imigrantes judeus não era nem muito rica nem muito pobre, era raramente ativa politicamente, e rapidamente aculturou-se à sociedade brasileira[311]. Mesmo relativizando o anti-semitismo brasileiro como fez Lesser, não podemos deixar de observar a admiração, mal disfarçada, de alguns diplomatas com as iniciativas anti-semitas empreendidas por Adolf Hitler. Conforme demonstrou Carneiro, Araújo Jorge, da Legação do Brasil em Berlim, é um exemplo deste comportamento, pois muitos de seus relatórios traziam elogios às medidas legais tomadas pelo governo nacional-socialista para eliminar a influência judaica no país[312].

De maneira parecida as elites católicas correspondiam ao sentimento expresso pelos diplomatas. Na análise de Graciela Ben-Dror existia no Brasil dos anos 1920 e 1930 um racismo camuflado, apoiado em uma retórica legitimadora dos atos de exclusão e de violência. Do mesmo modo, a identificação entre os termos “católico” e “brasileiro” como sinônimos da identidade nacional era corrente no clero desde os anos 1920 o que contribuiu para rotular o judeu como inimigo do cristianismo. Para a autora parte da elite católica que ocupava os quadros da Ação Integralista Brasileira, não divulgavam o racismo por razões da doutrina cristã, mas mesmo assim, afirmavam que existia uma intima ligação entre judaísmo e comunismo, e por isso estavam a favor da aplicação de uma política de discriminação para os judeus no Brasil. Daí que o anti-racismo no Brasil caminhasse ao lado do anti-semitismo, sem que uma atitude fosse excludente da outra [313].

A Ordem dos franciscanos no Brasil, por exemplo, também seguiu por esta linha, afirmando existir um nexo entre judeus e comunistas, pois segundo alguns intelectuais católicos, os dirigentes comunistas Marx e Trotski eram judeus, e o era também todo o estado-maior soviético. A posição dos franciscanos era que não há que desprezar o povo judeu enquanto raça posto que no final dos tempos se converteriam ao cristianismo, mas em contrapartida os católicos deveriam estar sempre em alerta, pois esse povo possuía uma “obsessão destrutiva”, que projetava-se sobre o mundo cristão. Por este raciocínio, defendido pelos franciscanos, não foi sem motivos que na Idade Média, por exemplo, a Igreja isolou os judeus em lugar determinado, o gueto, e com isso evitou a difusão de seu espírito negativo. Não obstante, o anti-sionismo transformou-se em um dos componentes do anti-semitismo da época, várias críticas surgiram à ideia de “Terra de Israel”. Para os franciscanos o movimento “Sionista” converteu-se em sinônimo de “desejo de impor-se no mundo”. Tratava-se do desenvolvimento de um “messianismo imperialista”, extremamente perigoso, ao defender a constituição de um “império invisível dos judeus sobre toda a terra”[314].

A revista A Ordem, que havia sido fundada em 1921 pelo intelectual católico conservador, Jackson de Figueiredo, que, um ano depois, criou o Centro Dom Vital, também se transformou num dos veículos de propaganda do anti-semitismo. Jackson Figueiredo combatia, através da revista, o protestantismo, a Maçonaria e os judeus. Todos vistos como inimigos ao cristianismo. O Centro Dom Vital conseguiu reunir um grupo de intelectuais católicos antiliberais e conservadores, no qual se destacava o padre Leonel França, cujos livros, publicados nesses anos, tornaram-se textos centrais para a geração católica do pós-guerra. Em 1937, eram vinte centros deste tipo que havia se convertido na expressão intelectual mais importante do catolicismo brasileiro. Suas explicações espirituais e morais das mudanças ocorridas no país se impuseram a outras interpretações de tipo materialista e configuraram a linha central do pensamento católico do país[315].

Com uma visão de mundo totalizadora, a intelectualidade católica acreditava que era possível conduzir o Brasil pelo rumo correto da Doutrina Social da Igreja. Amoroso e Lima, por exemplo, defendia a introdução da educação religiosa nas escolas públicas, de acordo com a Constituição de 1934. Advertia contra as ameaças do judaísmo, dos maçons, do espiritualismo, do comunismo e do protestantismo naquele campo. Como bem salientou Gracieli, a crítica aos judeus combinava argumentos tradicionais com outros tomados do anti-semitismo moderno. Por exemplo, nos argumentos de Plínio Correa de Oliveira, o “problema judaico” provinha de haver sido o povo judeu “o povo deicida, que há dois mil anos está espalhando pelo mundo como castigo divino”. “Por razão, são nômades e não se misturam com raça alguma”. Suas capacidades intelectuais são notáveis, e “possuem especial talento comercial, graças ao qual acumularam um enorme capital, por meio do qual influenciam em todos os processos relacionados com os negócios”[316].

O argumento de Correa Oliveira era de que os comunistas foram reprimidos após a rebelião de 1935 e se encontravam continuamente vigiados pela forças de segurança. Daí que desde então a atenção dos católicos devia dirigir-se aos judeus, que não estavam sob violência alguma e eram “inimigos da ordem social e muito mais perigosos”. Suas conclusões são que por trás do comunismo se encontram os maçons franceses, cujos representantes ocupavam todos os cargos importantes do país. Por outro lado, destacava a influência dos judeus, que respaldavam o comunismo em todo o mundo. Em sua opinião, com base no que tinha sido escrito por Coty, o que ocorrera na França deveria constituir uma advertência para o Brasil, a fim de que a luta contra esses inimigos culminasse em vitória[317].

Na opinião de Marco Chor Maio, o anti-semitismo pode ser dividido em dois modelos de interpretação. O primeiro modelo remete-nos a “ideia de continuidade”. Segundo os autores que defendem este posicionamento, a relação entre judeus e não-judeus ao longo da história do mundo ocidental seria marcada por uma coleção invariável de tensões, conflitos, perseguições e massacres, que resultaria num elevado custo para a sobrevivência do povo judeu. Segundo Maio, um bom exemplo desse “modelo de continuidade” é o livro A Conspiração Mundial dos judeus: Mito ou Realidade, do historiador Norman Cohn. Para Maio, neste viés interpretativo, o anti-semitismo moderno é apresentado como mera atualização do passado. Esta vertente historiográfica elegeu o anti-semitismo como fonte explicativa da trajetória do povo judeu, o anti-semitismo é entendido, na sua essência, como invariante e atemporal[318].

O segundo modelo refere-se a “ideia de ruptura” muito bem representado pelos estudos de Hannah Arendt. Na análise da filósofa, o genocídio nazista foi um crime sem precedentes na história da humanidade e, justamente, por isso deve-se a singularidade do anti-semitismo moderno. Diante dos limites do “modelo da continuidade”, resumidamente entendido pela indiferença entre o moderno anti-semitismo e o antigo ódio religioso judaico, a autora propõe uma análise dialética, centrada no processo de interação entre judeus e não-judeus, ou seja, na longa e tortuosa história destas relações que prevaleceram desde a primeira diáspora judaica[319].

Segundo Maio, o modelo da “ruptura”, defendido por Arendt, contemplou ao mesmo tempo os dois padrões de anti-semitismo qualitativamente diferentes: o tradicional e o moderno. O padrão tradicional caracteriza-se pela existência de conteúdos religiosos e econômicos, indicando as formas de inserção dos judeus na sociedade. Primeiro, esta inserção se daria em terreno religioso, os judeus são vistos pelos católicos como a verdade viva do cristianismo. Segundo, na economia, como embrião monetário de uma economia pré-capitalista. Para Maio, o povo de Israel marginalizado, mantinha-se num equilíbrio precário com certa autonomia, dentro de uma sociedade não-judaica, oscilava entre a exclusão e a tolerância. Desta maneira, o anti-semitismo tradicional exercia três formas de poder: converter (batismo), isolar (Guetos) e expulsar (última decisão)[320].

De outro modo, o anti-semitismo moderno, operaria mudanças radicais, conferindo um conteúdo essencialmente político e destoando das notas religiosas e econômicas que em outrora caracterizavam o anti-semitismo tradicional. Segundo Maio, a tese de Tocqueville para explicar o ódio feroz do povo francês à nobreza após a Revolução Francesa, serviria também para explicar o anti-semitismo moderno. Este conflito teria surgido quando a perda de poder dos aristocratas não correspondeu ao declínio de suas riquezas, assim sem qualquer função pública, mas preservando sua riqueza, a nobreza tornou-se alvo do ódio popular. Algo semelhante teria acontecido com os judeus. O auge do anti-semitismo moderno corresponderia ao período em que os judeus perderam a influência e funções públicas, embora preservassem seus recursos. Os judeus adentraram o mundo moderno envoltos pelas imagens preconceituosas do passado. Ao entrar pela porta da frente da sociedade, os judeus não estavam despojados de seu passado de tensões com os cristãos, nem do perfil de comunidade à parte e intimamente ligada ao Estado através da economia[321].

Em outras palavras, o anti-semitismo moderno, ao evocar a responsabilidade judaica pela destruição dos valores da tradição, indicava como a única solução para este problema o trinômio, suspeita, vigilância e eliminação. Devido a impossibilidade de dissolução das características singulares e malignas deste povo, só restaria a eliminação da fonte de todos estes males[322].

Dito isto, veremos a seguir que a singularidade do discurso integralista de Barroso na AIB deve-se exatamente à sua identificação com o anti-semitismo e com o antimaçonismo. Entretanto, conforme o levantamento de Rodrigo Oliveira, apesar de perpassar a organização, tais bandeiras nunca adquiriram a centralidade na ideologia integralista. Em sua pesquisa realizada com o jornal integralista A Offensiva (Rio de Janeiro), o autor destacou o reduzido número de matérias que se dedicavam à temática antimaçônica e anti-judaicas representando, respectivamente, 0,32 % e 5,76% do total. Mesmo assim, é importante salientar que Barroso só posicionou-se a favor do anti-semitismo após ingressar na AIB. Dois fatores contribuíram para delinear o seu perfil anti-semita. O primeiro, refere-se a sua condição de Chefe de Milícias, em consoante contato com as bases integralistas, onde o anti-semitismo ajudava a sedimentar as novas crenças. O segundo, refere-se à competição com Plínio Salgado pela liderança do movimento. O discurso anti-semita era utilizado como elemento aglutinador e mobilizador representando assim um instrumento de pressão dentro do movimento[323].

De qualquer forma, o discurso anti-semita de Barroso fez vários adeptos não somente nos núcleos integralistas das capitais como também pelo interior dos estados. Segundo Ivair Augusto Ribeiro, ao analisar o jornal integralista Cidade de Olympia, publicado naquela cidade localizada no interior do estado de São Paulo, muitas das ideias de Hitler, contidas no livro Minha Luta, acerca dos judeus podem ser detectadas nos artigos de integralistas publicados no referido jornal. A aproximação judaica dos operários para angariar sua confiança, o suposto domínio da Maçonaria e o envolvimento dos judeus com o comunismo são alguns exemplos. O judeu era visto como quem contaminava as nações, aquele que inoculava o vírus da Maçonaria e do comunismo, com o propósito de desestabilizar os governos e completar seu plano de domínio universal. Outro imaginário, que teve sua origem na Idade Media, foi a ligação do judaísmo ao demônio, pois os judeus, também representavam o anticristo, a encarnação do mal[324].

Como já foi visto, para muitos integralistas, o combate ao judaísmo se justificava como forma de preservar a civilização cristã, alvo principal da imaginada conspiração judaico-maçônica. Os camisas-verdes criaram a imagem da eterna luta do “espírito das trevas” contra o “espírito da luz”. A presença do maligno torna-se mais evidente na medida em que o judaísmo vem associado a dois outros “males” que reforçam o ódio anti-semita: a Maçonaria e o comunismo. Não é por acaso que comumente em livros e artigos anti-semitas existe um cordão umbilical unindo judaísmo, Maçonaria e comunismo, os quais formariam um arcabouço com a pretensão de dominar o mundo e eliminar a civilização cristã. A luta contra o inimigo semita reforçava as idéias nacionalistas dos anos de 1930, pois proporcionava um elemento a mais para agregar o povo em torno da defesa dos interesses da nação e, consequentemente, atrair adeptos às ideologias nacionalistas de direita, como o nazismo e o integralismo[325].

Segundo Ribeiro, a existência de um inimigo “quase invisível”, que seria responsável pelas mazelas da economia a da sociedade brasileira, como o endividamento externo do país, foi muito bem explorado no livro Brasil – Colônia de Banqueiros (1934) de Barroso. A figura do inimigo estrangeiro nas manifestações nacionalistas servia para excitar a fé patriótica do povo e, ao mesmo tempo, fortalecia o movimento integralista, na medida em que este preconizava uma ideologia autóctone, voltada aos interesses nacionais e avessa à influência de doutrinas forasteiras. Desta forma, o nacionalismo de direita estabelecia os inimigos a serem combatidos: o comunismo, o liberalismo, a maçonaria, o capitalismo e em particular o judaísmo, que estaria por trás dessas ideologias “nefastas” aos interesses da pátria[326].

Nas palavras de Barroso, o Brasil após se libertar do julgo português em 1822 amarrou-se no “carro triunfante de Israel” como escravo. A dependência externa do país impunha aos brasileiros um trágico destino, ou ser servo do judaísmo capitalista dos Rotschilds ou, então, escravos submissos do judaísmo comunista de Trotski, pontos extremos da oscilação do pêndulo judaico no mundo. A cura desta mazela estaria, na opinião de Barroso, numa “Revolução Integralista”, a única com o poder de promover as mudanças de pensamento, de instituições e de rumo, repelir o liberalismo, o comunismo e o judaísmo capitalista e, assim, salvar a pátria espiritual e materialmente. O Chefe das Milícias propunha encontrar no fundo da alma nacional aquele espírito imortal dos catequizadores, dos descobridores, dos bandeirantes e dos guerreiros, para livrar a pátria do apocalipse. Deste modo, o primeiro passo era a “eliminação completa do inimigo”, somente com uma medida drástica o governo poderia livrar-se dessa doença crônica que prostravam o organismo brasileiro. Barroso buscava transmitir uma imagem fundamentalista incitando os “camisas-verdes” a lutar até a morte[327].

Barroso entendia que o motor da história envolveria um conflito incessante entre duas concepções de mundo radicalmente opostas: o espiritualismo cristão e o materialismo judaico. Em seu livro o Quarto Império, o autor desenvolveu melhor essa tese, demonstrando que nos últimos séculos, os judeus levaram a melhor sobre os cristãos, não só impediram a realização da “utopia cristã medieval” como também abriram caminho para a criação do mundo moderno, regido pelo “Império de Capricórnio[328].

Nas afirmações de Barroso, os judeus derrotaram o “Estado Cristão Totalitário” às claras, mas desde o século XVIII agiam encobertos pela clandestinidade maçônica. Para o autor, o judaísmo teria se infiltrado, primeiramente, na Ordem dos Templários, transformando aquela tradicional corporação medieval na Maçonaria. Aqui justifica-se, mais uma vez, o ódio do autor pela Ordem maçônica, pois ele acreditava que a instituição trabalhava, disfarçadamente, para desestabilizar a ordem social. Além disso, assegurava com impressionante convicção que o materialismo, criação da ideologia judaica, através dos preceitos maçônicos liberais, foi o responsável por criar as condições necessárias para a exploração da classe trabalhadora levando-a ao desespero. Por conseguinte, os judeus, mentores intelectuais desta guerra social, inventariam o comunismo por meio do marxismo, (Marx era judeu) com o objetivo aparente de atender aos anseios da classe trabalhadora. Nesta perspectiva, a Revolução bolchevique de 1917 é retratada como a confirmação do complô judaico-maçônico, para Barroso graças àquele evento revolucionário o judaísmo conseguiu edificar o chamado “Império de Capricórnio”[329].

Em suma, Barroso propunha uma revolução interior que fundaria o “Império de Carneiro”, a síntese perfeita entre a economia, a política e a espiritualidade. Esta revolução cristã integral propunha substituir o determinismo racial pelo domínio da religião. Em outras palavras, a competição entre raças seria dissolvida na unidade espiritual. Por isso o judeu deveria ser eliminado, pois esse era um povo incapaz de renunciar a sua condição material em beneficio de um projeto cristão totalitário. Ao recusarem o convite à diluição sugerida pela totalização cristã impediriam a realização da mesma, impondo assim a necessidade da dita “solução final”. Para Barroso não é por ódio, desdém ou desprezo que se deve fazer uma campanha sistemática contra a judiaria e sim por instinto de auto-conservação. Antes da completa eliminação do elemento judaico os povos não se curarão de suas enfermidades. O modelo revolucionário de Barroso baseava-se na fé e nas instituições, que são passiveis de ser alteradas. A revolução espiritual, que criaria o homem novo, também seria a base para a fundação de novas instituições[330].

FINIS

Autor: Luiz Mário Ferreira Costa

Fonte: Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2009.

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Notas

[304] – BARROSO, Gustavo. História secreta do Brasil: da abdicação de D. Pedro I á maioridade de D. Pedro II. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1938.

[305] – MILGRAM, Avraham. O Itamaraty e os Judeus. In: CARNEIRO, Maria Luiza Tucci (org). O anti-semitismo nas Américas: Memória e História. São Paulo: EDUSP-Fapesp, 2007. p. 383 .

[306] – CARNEIRO. Maria Luiza Tucci. Metáforas de uma Civilização. In: — (org). O anti-semitismo nas Américas: Memória e História. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo- Fapesp, 2007. p.293.

[307] – Idem, p. 301.

[308] – BARROSO, Gustavo. História secreta do Brasil: do descobrimento á abdicação de D. Pedro I. (op. cit), p. 282.

[309] – CARNEIRO. Maria Luiza Tucci. Metáforas de uma Civilização. (op. cit), p. 301.

[310] – LESSER, Jeffrey. Semitismo em Negociação: O Brasil e a Questão Judaica (1930 – 1945). In: CARNEIRO, Maria Luiza Tucci (org). O anti-semitismo nas Américas: Memória e História. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo-Fapesp, 2007.

[311] – Idem, p. 275.

[312] – CARNEIRO. Maria Luiza Tucci. Metáforas de uma Civilização. (op. cit), p. 305.

[313] – 3 BEN-DROR, Graciela. As Elites Católicas do Brasil e sua Atitude em Relação aos Judeus (1933-1939). In: CARNEIRO, Maria Luiza Tucci (org). O anti-semitismo nas Américas: Memória e História. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo-Fapesp, 2007. p. 224.

[314] – Idem, p. 230-231.

[315] – Idem, p. 231.

[316] – Idem, p. 234.

[317] – Idem, p. 234.

[318] – MAIO, Marco Chor. Nem Rotschild nem Trotsky. O pensamento Anti-semita de Gustavo Barroso. Rio de Janeiro: Editora Imago, 1992.. p. 230.

[319] – ARENDT, Hannah. As Origens do Totalitarismo: Anti-semitismo, Instrumento de poder. Rio de Janeiro: Ed. Documentário, 1975.

[320] – MAIO, Marco Chor. O pensamento anti-semita moderno no Brasil: o caso Gustavo Barroso (op. cit), p. 231.

[321] – Idem, p. 233.

[322] – Idem, p. 235.

[323] – OLIVEIRA, Rodrigo Santos de. Perante o tribunal da história: o anti-semitismo da ação integralista brasileira. Dissertação de Mestrado. Porto Alegre, 2004. p. 121 On-line. Disponível em http://www.qprocura.com.br/dp/16310/Perante-o-tribunal-da-historia-:-o-anticomunismo-da-acaointegralista-brasileira.html. Acesso em 10 de março de 2009.

[324] – RIBEIRO, Ivair Augusto. (op. cit), p. 353.

[325] – Idem, p. 359.

[326] – Idem, p. 360.

[327] – BARROSO, Gustavo. Brasil – Colônia de Banqueiros. 5.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1936.

[328] – 8 BARROSO, Gustavo. O Quarto Império. Rio de Janeiro: José Olimpio, 1935.

[329] – Idem, p. 130.

[330] – BARROSO, Gustavo. Integralismo e Catolicismo. Rio de Janeiro: Editora ABC Limitada, 1937.

Maçonaria e Antimaçonaria: Uma análise da “História secreta do Brasil” de Gustavo Barroso – Parte VII

NOTAS SOBRE "OS PROTOCOLOS DOS SÁBIOS DE SIÃO" - Loryel Rocha ...

3.2 – A entrada em cena da Maçonaria

A Maçonaria surge na narrativa no capítulo dez, aproximadamente metade do livro, a partir da ligação entre judeus e maçons, introduzida pelo autor por meio da obra de Dario Vellozo, O Templo Maçônico. Segundo Barroso, foram os ocultistas Rosa-Cruzes que inseriram a cabala judaica na poderosa corporação dos Pedreiros Livres, que durante a Idade Média gozavam do monopólio da construção de edifícios públicos e das catedrais góticas. Iniciava-se ali uma nova fase na história da Maçonaria, que deixava de ser exclusivamente “operativa” para se tornar uma associação “moderna e filosófica”[281]. Deste modo, a cabala viveu sempre no mais profundo seio dos mistérios da Maçonaria, destinada a propagação de seus ensinamentos. Barroso afirmou, parafraseando Michelet, que a doutrina maçônica nada mais era do que o judaísmo cabalista, que daí por diante espalhou-se por toda a Europa.

Na Inglaterra, destinada a ser, no século XVIII, a mãe da maçonaria, a infiltração nos pedreiros-livres ocorreu em 1703. A maçonaria surgiu em França no reinado de Luiz XV, em 1737, com grande aceitação dos fidalgos fúteis e cortesãos. Relata um cronista coévo que mantinha “inviolável segredo” quanto ás suas “assembleias ocultas e perigosas para o Estado”. Vinha importada da Inglaterra e o cardeal de Fleury, primeiro ministro, mandou fecha-la manu militari. Imputavam-lhe, como se vê, o mesmo propósito dos Templários: destruir a Religião e o Trono, destruindo o Estado). Iniciava a preparação do terremoto social de 1793. Porque nenhuma revolução, confessa o maior dos técnicos revolucionários modernos, pode triunfar sem antes haver destruído os fundamentos do Estado.[282]

Tempos depois o marquês de Pombal inaugurou em Portugal a “era dos maçons”, que não passavam de cristãos novos. Conforme informou Barroso, as duas palavras eram sinônimos e, no campo, Pedreiro Livre significava judeu. Por seu turno, no Brasil, as lojas
maçônicas remontariam ao século XVIII.

Precederam de um quarto de século a translação da corte. Umas foram instaladas sob os auspícios do Grande Oriente português, algumas sob os do de França; outras, independentes deles. Todas do rito adonhiramita. Fundaram-se no Rio de Janeiro, na Bahia e em Pernambuco. Embora não tendo à mão o documento maçônico de que extraímos estes dados, o consciencioso historiador Joaquim Felício dos Santos declara não saber, ao certo, como se introduziu a maçonaria no nosso país; mas afirma, com razão, que, no meado do século XVIII, “já funcionava na Bahia o Grande Oriente”, começando seu “trabalho lento, oculto, persistente, para a nossa independência. Essa independência dos países sul-americanos, na opinião dum dos homens que melhor estudarem a questão nas suas causas e efeitos, não era propriamente um fim para a maçonaria, porem um meio de enfraquecer Espanha e Portugal, isto é, os dois maiores inimigos do judaísmo: latinidade e catolicidade.[283]

Para o autor o verdadeiro papel da Ordem maçônica era estudar, investigar e dar curso ás ordens recebidas pelo poder “Oculto de Israel”. Ao atrair adeptos e realizar a propaganda de seus ideais, a Maçonaria preparava o terreno para que os judeus pudessem agir sobre a grande massa do povo.

Para isso, o envenenam com ideias de aparência liberal e filantrópica, verdadeiras utopias na maior parte dos casos, todas, sem exceção, destruidores dos lineamentos da ordem social e geradoras de ódios. Com tais ideologias, o Governo Oculto de Israel pretende dominar o mundo. Os que servem à maçonaria ignoram que, atingido esse desideratum, eles, meros instrumentos e intermediários do judaísmo, desaparecerão na voragem. Assim, aconteceu na Rússia bolchevista, onde a maçonaria foi terminantemente proibida após o triunfo judaico, somente sendo permitida a abertura das lojas recentemente, em virtude da pressão de novas necessidades políticas.[284]

A Maçonaria seria o “agente preparatório” que, passando despercebido do comum dos mortais, dava prosseguimento à dominação judaica. Através do segredo maçônico, o “Poder Oculto Internacional” provocava em todos os organismos governamentais as divisões intestinais das quais resultaria a fraqueza do Estado e, consequentemente, a sua destruição.

A conspiração judaica contra o mundo inteiro é antiquíssima e permanente. Desde o cativeiro de Babilônia até o nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, durante cinco centenários, os judeus viveram numa “conspiração contínua”. Contra os persas, contra os egípcios, contra os sírios, contra os romanos.[285]

Nas palavras de Barroso se temia mais os inimigos internos do que os externos, a começar pelos jovens brasileiros que iam estudar na Europa, sobretudo nas universidades de Montpellier e Paris, e ao regressarem vinham cheios de entusiasmo pela grandeza da terra brasileira comparada com a exiguidade européia e cheios de maior entusiasmo ainda pelo exemplo norte-americano e pela figura do maçom Benjamim Franklin.

Em França, começava a lavrar pelas forças ocultas, prenunciadora da Grande Revolução, a qual ia incendiando os nossos patrícios em contato com a juventude revolta das escolas francesas. Levados por essas idéias e entusiasmos, houve estudantes brasileiros em França que procuravam entabolar negociações para a nossa independência com potencias estrangeiras, como José Joaquim da Maia, Domingos Vidal Barbosa, José Mariano Leal e José Pereira Ribeiro. Maia, de nome certamente herdado dos forasteiros de 1709, escreveu, em 1786, a respeito de seus propósitos libertadores, a Thomas Jefferson, embaixador dos Estados Unidos, o qual lhe concedeu uma entrevista romântica nas arenas de Arles.[286]

Outro aspecto importante a ser ressaltado é a “gravidade” que as “conspirações maçônicas” ganharam na explicação da história do Brasil. Para isso Barroso vira de ponta cabeça os mitos maçônicos e os re-significa. Como já vimos, um exemplo foi a Inconfidência de Minas, de 1789, que na lógica da História secreta do Brasil, foi dirigida pela Maçonaria.

Com o fim visível e retumbante da libertação dos brasileiros das garras da metrópole, mas com o fim mudo e latente do esfacelamento do império colonial português, o mesmo fim da conquista flamenga, e do esfacelamento do novo império que, decerto, com o tempo, se constituiria na América latina.[287]

Segundo Barroso, avolumavam-se os boatos do levante por ocasião da derrama. Foi quando entrou na história, o coronel Joaquim Silvério dos Reis, um dos delatores da Conjuração. “O cognome dos Reis era comum entre os marranos portugueses”. Além disso, o autor acrescentou que todo o seu “procedimento foi judaico” em contraposição com o do “infeliz Tiradentes, que morreu cristãmente no cadafalso, levando a sua humilhação ao ponto de oscular o verdugo. O descendente de Judas recebeu os trinta dinheiros de traição”[288].

Na noite de 17 para 18 de maio, um vulto misterioso, teria percorrido as ruas escuras de Vila Rica, e “batendo á porta dos conjurados, os preveniu que tudo estava descoberto, decerto para que pusessem a bom recato e queimassem documentos comprometedores”. Na opinião de Barroso era o “poder oculto” que procurava salvar o segredo do movimento, “nunca se conseguiu saber que vulto foi esse, quem o mandou e de onde veio”. No dia 22, os conspiradores foram presos em Minas e só voltariam à cena no século XIX[289].

Os argumentos de Barroso apoiavam-se, sobretudo, numa literatura estrangeira que incitava as ditas “teorias conspirativas”. Os autores Léon de Poncins e Emmanuel Malynski a todo o momento são referenciados no livro. Mas foi talvez a proximidade que Barroso mantivera até 1938 com clássicos anti-semitas sua maior fonte de inspiração. O autor acreditava que por traz da história contada publicamente existia uma muito mais importante e, por isso mesmo, escondida do resto da sociedade.

Na perspectiva de Maria Luiza Tucci Carneiro, os conceitos e valores anti-semitas sustentados por Barroso foram alimentados através de seus freqüentes contatos com a Alemanha, o que lhe rendeu um conhecimento aprofundado da literatura nazi-fascista. Além disso, a autora salienta que, apesar da temática polêmica, suas obras foram reeditadas sucessivamente, o que nos permite afirmar que existia um público no Brasil e no exterior, consumidor e apreciador das suas idéias. Alguns de seus trabalhos foram publicados em outros países, como, Roosevelt é Judeu traduzido para o castelhano por Mario Buzatto na Argentina, em 1938, nos Cuadernos Antijudios. Para Carneiro, Barroso não estava completamente isolado em sua postura, pois intelectuais do Sigma, em vários momentos, pronunciaram conferências sobre o racismo alemão, não escondendo sua admiração pelo Reich e pelo Führer, pela nova Itália e por Mussolini[290].

A principal fonte de inspiração de Barroso foi o livro anti-semita intitulado Os Protocolos dos Sábios de Sião. Em sintonia com a análise de Tucci Carneiro, a historiadora Maria das Graças Ataíde de Almeida defende a necessidade da análise dos Protocolos para a compreensão do discurso fundador do anti-semitismo no Brasil. A autora chama a atenção para a instrumentalidade e adaptação do uso do mito dos Protocolos. Se para os historiadores a obra é fonte testemunhal do discurso anti-semita, para a comunidade judaica é um elemento de tensão. Segundo a autora, é aqui que está o perigo do mito, exatamente por conta de sua imortalidade, atualidade e capacidade de multiplicação adaptando-se às novas tecnologias[291].

Como sabemos, os Protocolos são reconhecidamente um dos maiores best-sellers do mundo. Vários pesquisadores já despenderam enormes esforços, a fim de esmiuçar o conteúdo deste polêmico clássico. Alguns estudiosos acreditam que na classificação mundial dos best-sellers, a obra apareça em segundo lugar, logo depois da Bíblia. Trata-se provavelmente de um exagero, mas o que é certo, é que novas edições dos Protocolos apareceram nos quatro cantos do mundo[292]. Conforme sugeriu o historiador italiano Carlo Ginzburg, o clássico foi inspirado num texto de 1864, intitulado Dialogue aux Enfers entre Maquiavel e Montesquieu, de autoria do jornalista francês Maurice Joly. Deste modo, os Protocolos seriam a fortuna póstuma do referido texto. A obra, publicada pela primeira vez na Rússia em 1903, teria como autor um membro da polícia secreta do Czar Nicolau II. O texto, apresentado em forma de ata, foi supostamente redigido num Congresso realizado em Basileia no ano de 1807, onde sábios maçons, judeus, bolcheviques, rosacruzes, enfim, todas as elites das sociedades secretas, estavam reunidas em torno de um único ideal, a destruição do cristianismo. Com a Revolução Bolchevique de 1917, ocorreu definitivamente a materialização deste mal. Para as forças reacionárias, esse episódio fora revelado pelos Protocolos, alguns anos antes[293].

Por volta de 1919, apareceu na Alemanha a primeira tradução do livro, vários comentários e notas foram anexados ao documento, dando ênfase especial à “Conspiração Sionista” que ameaçava as monarquias e as igrejas cristãs. Foi a partir desta versão, nitidamente direcionada, que os Protocolos chegaram à Inglaterra, Espanha, França, Portugal… espalhando-se incrivelmente pelo globo. Na análise de Ginzburg, esta foi a obra que melhor ilustrou a versão moderna do anti-semitismo, pois todas as indicações de cunho religioso e econômico, características da cultura judaica, são organizadas no texto, como mecanismos de atuação política[294].

Em 1936, o livro foi traduzido e comentado por Barroso. A obra lhe foi apresentada logo que ingressou na AIB em 1933. Até então o autor dizia-se um leigo no assunto e não tinha escrito nada com relação ao anti-semitismo.

Quando entrei para o Integralismo, era já um escritor mais ou menos conhecido, com algumas dezenas de obras publicadas. O meu publico poderia estar que eu nunca escrevera uma palavra contra os judeus. Sabia alguma coisa a respeito da questão, mas não o bastante para me imprimir uma atitude espiritual. Foi o Integralismo que me tornou anti-judaico. A primeira pessoa que comigo conversou profundamente sob o judaísmo foi o chefe nacional Plínio Salgado. A segunda, o companheiro Madeira de Freitas, que me emprestou para ler a edição francesa dos Protocolos dos Sábios de Sião, obra que eu não conhecia. Os estudos para a feitura do livro Brasil: Colônia de banqueiros desvendaram-se os últimos mistérios da organização secreta do judaísmo. Passei então, a dar-lhe combate, baseado na doutrina e palavra de Plínio.[295]

Os comentários acrescentados por Barroso ao longo dos 24 capítulos em que se constituem o livro, na perspectiva de Jefferson William Gohl, atribuem uma importância
maior a Maçonaria na ordem do complô. Ou seja, a apropriação dos originais dos Protocolos por Barroso e suas notas explicativas emprestou um segundo plano de leitura que conferiu à Maçonaria um poder até mais significativo que teria nos originais[296]. O livro obteve uma boa receptividade, prova disso é que ainda em 1936, mais uma edição foi lançada, e em 1937 a obra já estava em sua terceira edição. Igualmente ao que ocorreu na Rússia, quando o livro só ficou famoso após a Revolução de 1917, no Brasil os Protocolos também só atingiram respaldo depois da chamada “Intentona Comunista” de 1935.

O ideólogo integralista sabia perfeitamente como explorar esse mecanismo de efeito moral. Com argumentos retirados dos Protocolos incitava a juventude militante integralista.

Vede esses animais embriagados com aguardente, imbecilizados pelo álcool, a quem o direito de beber sem limites foi dado ao mesmo tempo que a liberdade. Não podemos permitir que os nossos se degradem a esse ponto… Os povos cristãos estão sendo embrutecidos pelas bebidas alcoólicas ; sua juventude está embrutecida pelos estudos clássicos e pela devassidão precoce a que a impelem nossos agentes, professores, criados, governantes de casas ricas, caixeiros, mulheres públicas nos lugares onde os cristãos se divertem (…) A violência deve ser um princípio ; a astúcia e a hipocrisia, uma regra para os governos que não queiram entregar sua coroa aos agentes de uma nova força. Esse mal é o único meio de chegar ao fim, o bem. Por isso não nos devemos deter diante da corrupção, da velhacada e da traição, todas as vezes que possam servir as nossas finalidades. Em política, é preciso saber tomar a propriedade de outrem sem hesitar, se por esse meio temos de alcançar o poder.[297]

Nos comentários acrescidos por Barroso, a Maçonaria além de controlar as agências de informações internacionais, manipulando e disseminando as notícias de acordo com as “necessidades do judaísmo”, estaria comandando também os vários levantes extremistas. As acusações eram no sentido de demonstrar que atualmente o Kahal, ou poder secreto judeu, trabalhava na articulação da Revolução comunista que se queria impor ao Brasil. Esta “ameaça” crescia à medida que se aproximavam as eleições de 1938, por isso desqualificar os oponentes rotulando-os como maçons e/ou comunistas foi uma tática muito bem empregada pelo Chefe das Milícias integralistas.

O líder comunista João Mangabeira tem toda a razão quando afirma no seu Manifesto que o Sr. Jose Américo de Almeida é espiritualmente da esquerda. O antigo ministro da Viação nega ser maçom e diz-se católico: mas quem conhece a sua obra de escritor realista e freudiano não pode acreditar nessa afirmação dos dentes para fora. O que ele mostra ser no que escreve é um espírito anti-religioso, anti-clerical, maçônico e imoralista, virtualmente demolidor, que nada respeita e que tem o prazer masochista das causas imorais… Vamos documentar o que estamos dizendo, serenamente, com os próprios escritos do candidato à presidência da Republica.[298]

Ainda era muito recente na memória de Barroso a influência da Maçonaria na política brasileira. Afinal, o intelectual sabia que o movimento de proclamação da República, em 1889, apesar de não contar com a completa adesão do GOB, teve a participação de vários maçons, sejam eles civis ou militares. Ilustrativo dessa forte presença da Maçonaria, no cenário político, foi o fato de que assim que o Governo Provisório assumiu o poder, o então presidente o marechal Deodoro da Fonseca organizou um ministério composto somente por maçons, foram eles: Quintino Bocaiúva (ministro dos Transportes), Aristides Lobo (ministro do Interior), Benjamin Constant (ministro da Guerra), Rui Barbosa (ministro da Fazenda), Campos Sales (ministro da Justiça), Eduardo Wandenkolk (ministro da Marinha) e Demetrio Ribeiro (ministro da Agricultura). Na opinião de Morel, é importante perceber que os membros desse primeiro ministério não foram escolhidos por pertencerem à Maçonaria, mas por serem eles, com exceção de Rui Barbosa, republicanos históricos, que compartilhavam da sociabilidade maçônica[299].

De modo que, segundo Morel, passado o 15 de novembro, a Maçonaria brasileira, até então dividida quanto à forma de governo a ser adotada, parecia não ter mais pudor em si auto proclamar como o “baluarte do republicanismo”. Tornou-se comum dentro das Lojas maçônicas vangloriar os feitos dos irmãos maçons, no sentido de instaurar o novo regime, entendida como uma “grande evolução social” que colocaria definitivamente o Brasil no rumo do progresso. Esse otimismo explica-se, em grande parte, pelo fato de que o modelo republicano concretizou um dos mais importantes projetos defendidos pela Maçonaria, ao longo do século XIX, qual seja a implantação do Estado laico e secular[300].

Barroso vivenciou esta “incomoda” presença de maçons nos quadros do governo brasileiro, que ao longo da Primeira República elegeu 8 dos 12 presidentes, sendo eles, Deodoro da Fonseca, Prudente de Morais, Campos Salles, Rodrigo Alves, Nilo Peçanha, Hermes da Fonseca, Wenceslau Brás e Washington Luiz. Desses presidentes maçons, Deodoro da Fonseca e Nilo Peçanha chegaram ao cargo de Grão-mestre geral da Maçonaria. Além disso, o autor sabia que muitos maçons aproveitaram do prestigio políticos de seus irmãos na busca de favores especiais. A ajuda mútua entre os maçons foi um dos principais motivos que levou Barroso a condenar a Maçonaria.

Conforme demonstrou Colussi, no período republicano, quando da separação definitiva Estado/Igreja, a Maçonaria manteve o mesmo discurso anticlerical, desenvolvendo campanhas e iniciativas que concorriam com as promovidas pelos seus principais inimigos, especialmente os jesuítas. A filantropia e a educação se acentuaram como práticas prioritárias da Maçonaria no embate contra o fortalecimento eminente do catolicismo. Deste modo, as ações filantrópicas sistemáticas, a construção de casas de saúde e de asilos e orfanatos, as campanhas de caridade em períodos de epidemias e de secas ou enchentes, bem como alguma inserção no campo do ensino popular foram as estratégias mais importantes. Como seus porta-vozes eram, em sua maioria, ateus ou agnósticos, o que poderia chocar diversos grupos, a instituição valia-se da caridade como mediadora de sua ação; também não dirigia seus ataques à religião, nem mesmo à católica, mas à Igreja institucionalizada e hierarquizada, especificamente ao papado[301].

Não obstante, a primeira Constituição republicana, em 24 de janeiro de 1891, não foi declarada em nome de Deus, pois pela carta constitucional a liberdade de culto tornara-se uma realidade e a fé, questão de foro privado. Deste modo, somente os casamentos civis ficaram oficialmente reconhecidos, os cemitérios foram secularizados, assim como os registros de nascimento, casamento e óbito. A educação pública também foi laicizada e a religião eliminada do currículo escolar[302]. Depois de quatrocentos anos, a Igreja Católica viu sua influencia diminuir consideravelmente, esta situação foi muito bem explorada por Barroso que demonstrava através de seus textos que aquela situação foi cuidadosamente elaborada pela Maçonaria desde o final do século XVIII. Barroso se valia, basicamente das acusações inauguradas pelos Protocolos, para decifrar os segredos escondidos nos bastidores da história brasileira, deste modo, instigava seus leitores a “conhecer melhor os judeus”, aquela “raça maldita”, que segundo a Bíblia, teria condenado Jesus Cristo a morte.

Na perspectiva de Barroso o nexo de união entre judeus e maçons, naquilo que ele chamou de complô “judaico-cabalista-maçônico”, era o ódio comum pela religião católica. Na argumentação do teórico integralista, o plano judaico de dominação do mundo, só não tinha sido ainda estabelecido devido a “vigilância e energia” dos governos cristãos, que impediam que se realizasse este programa. Com estas revelações, Barroso acreditava ter encontrado o fio da meada podendo desvendar um dos primeiros grandes segredos da história, o fato de que no passado os judeus agiram escondidos nas antigas corporações dos Pedreiros Livres, mas, que atualmente, eles se concentravam, sobretudo nas agremiações judaicas-comunistas, criadas no Brasil desde a década de 1920. Para o autor, era “farinha do mesmo saco judaísmo e comunismo” que juntos lutavam contra a civilização cristã e a atual ordem social.

Depois de abandonarem os Inconfidentes á forca e ao degredo, prosseguiam infatigáveis no desenvolvimento de seus planos, mascarando-se com rótulos literários, como os comunistas e maçons de hoje ainda se escondem em bibliotecas populares, sociedades de cultura e centros estudantis ou comitês anti-guerreiros e anti-fascistas… Essa gente, se tivesse um pouco mais de imaginação, mudaria de tática…[303]

Continua…

Autor: Luiz Mário Ferreira Costa

Fonte: Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2009.

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Notas

[281] – Idem, p. 233.

[282] – Idem, p. 155.

[283] – Idem, p. 156.

[284] – Idem, p. 152.

[285] – Idem, p. 153.

[286] – Idem, p. 158.

[287] – Idem, p. 157.

[288] – Idem, p. 169.

[289] – Idem, p. 170.

[290] – CARNEIRO, Maria Luiza Tucci. Sob a máscara do nacionalismo. Autoritarismo e anti-semitismo na Era Vargas. (1930-1945). On-line. Disponível em: http://www.tau.ac.il/eial/I_1/carneiro.htm. Acesso 10 de março de 2009.

[291] – ALMEIDA, Maria das Graças Ataíde de. Leituras Anti-semitas: Periodismo disfarçado de Catequese (1924 – 1940). In. CARNEIRO, Maria Luiza Tucci. (org). O anti-semitismo nas Américas: Memória e História. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo-Fapesp, 2007.

[292] – GINZBURG, Carlo. O fio e os rastros: verdadeiro, falso, fictício. Trad. de Rosa Freire d´Aguiar e Eduardo Brandão. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 201.

[293] – Idem, p. 201.

[294] – Idem, p. 202.

[295] – BARROSO, Gustavo. Reflexões de um Bode. Rio de Janeiro: Gráfica Educadora, 1937. p. 161- 162.

[296] – GOHL, Jefferson William. O real e o Imaginário: A Experiência da Maçonaria na Loja União III em Porto União da Vitória – 1936 a 1950. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal do Paraná, 2003. p. 60.

[297] – BARROSO, Gustavo. Os Protocolos dos Sábios de Sião. São Paulo: Editora Minerva. 1936.

[298] – BARROSO, Gustavo. Reflexões de um Bode. Rio de Janeiro: Gráfica Educadora, 1937. p. 2.

[299] – MOREL, Marco & SOUZA, Françoise Jean de Oliveira. O poder da Maçonaria: a história de uma sociedade secreta no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008. p. 180

[300] – Idem, p. 179.

[301] – Segundo Colussi, a filantropia maçônica possuía dois vetores: um, estava voltado para o mundo profano e outro, para os filiados da instituição. No primeiro caso, a filantropia externa servia de ligação entre os maçons e a sociedade, especialmente os menos favorecidos. Ver: COLUSSI, Eliane Lúcia. A Maçonaria Gaúcha no Século XIX. 2.ed. Passo Fundo: Editora UPF. 2000. p. 429

[302] – MOREL, Marco & SOUZA, Françoise Jean de Oliveira. (op. cit), p. 192.

[303] – BARROSO, Gustavo. História secreta do Brasil: do descobrimento á abdicação de D. Pedro I. (op. cit), p. 175

Maçonaria e Antimaçonaria: Uma análise da “História secreta do Brasil” de Gustavo Barroso – Parte VI

Historia Secreta do Brasil - Gustavo Barroso

3 – Os protocolos secretos da história do Brasil

Até hoje se têm escrito histórias políticas do Brasil. Empreendo, neste ensaio, a história da ação deletéria e dissolvente dessas forças ocultas. Até hoje se escreveu a história do que se via a olho nu, sem esforço. Esta será a história daquilo que somente se descobre com certos instrumentos de ótica e não pequeno esforço. É a primeira tentativa no gênero e, oxalá possa servir de ensinamento à gente moça, a quem pertence o futuro.[251]

Introdução

Para termos uma melhor compreensão sobre o desdobramento do processo de construção das narrativas antimaçônicas na primeira metade do século XX, é preciso atentar para dois fenômenos especiais que marcaram profundamente o contexto sócio-político daquela época. O primeiro fenômeno foi o crescimento do discurso anti-semita no Brasil na década de 1930. O segundo foi a concretização da “ameaça comunista”, confirmando a “profecia” de Karl Marx e colocando, definitivamente, alguns setores da sociedade em guarda contra o chamado “inimigo vermelho”.[252]

No decorrer deste capítulo, demonstraremos como o anti-semitismo e o anticomunismo contribuíram com recursos imagéticos no fomento de uma “nova” narrativa antimaçônica, inaugurando, deste modo, no cenário político brasileiro, aquilo que Gustavo Barroso chamou de “maçonismo anti-brasileiro”.[253]

Para darmos conta de nosso objetivo, trataremos de especificar os contextos de produção e circulação do livro História Secreta do Brasil e sua correlação com o best-seller anti-semita, Os Protocolos dos Sábios de Sião. Será analisado também o alcance da ideologia anti-semita. Sua forma tradicional e seus aspectos modernos serão destacados na medida em que percebemos que o ódio aos judeus se transformou num dos principais recursos das ações propagandísticas de Gustavo Barroso. Além disso, aprofundaremos o estudo acerca das diferentes apropriações do discurso anticomunista no Brasil, tendo como foco as manifestações de repúdio da Igreja Católica expressas fundamentalmente no discurso político-partidário de Barroso.

Assim sendo, o “novo formato” da narrativa antimaçônica brasileira, sobretudo, após a publicação do primeiro volume da História Secreta do Brasil receberá, nesta parte final da dissertação, um tratamento especial. Pois entendemos que as “revelações” guardadas na obra coincidiram, não por acaso, a um período especial da história nacional, marcado pela radicalização ideológica em detrimento das liberdades individuais. O fato é que o anticomunismo e o anti-semitismo tornaram-se forças decisivas nas lutas políticas do mundo contemporâneo. E no Brasil isso não foi diferente, haja vista, os episódios da chamada “Intentona Comunista” e do “Plano Cohen”.

3.1 – Segredos e Revelações da “História secreta do Brasil”

A História secreta do Brasil, de autoria de Gustavo Barroso, foi com certeza a obra que melhor sintetizou a narrativa, textual e imagética, contrária à Maçonaria. A obra pretendia ser um grandioso projeto de pesquisa englobando toda a história do Brasil, do descobrimento em 1500 até a década de 1930. Para esta empreitada, Barroso decidiu dividir o livro em quatro partes: A primeira, publicada pela Companhia Editora Nacional em 1936, abarcava Do descobrimento á abdicação de D. Pedro I. A segunda e a terceira partes, ambas editadas pela Civilização Brasileira S/A, representavam, respectivamente, os períodos Da abdicação de D. Pedro I à maioridade de D. Pedro II (1937) e Da maioridade de D. Pedro II à proclamação da República (1938). A quarta e última parte deveria englobar o período Da proclamação da República à Revolução de 1930. Entretanto, por questões não muito claras, este volume não chegou a ser publicado.

Apesar de não termos os números exatos da tiragem do livro, podemos supor que pelo menos o primeiro volume da História secreta do Brasil obteve uma boa receptividade dos leitores, sendo reeditado duas vezes em 1937 e outra em 1939, todas edições pela série Brasiliana da Biblioteca Pedagógica Brasileira da Editora Companhia Nacional. A Brasiliana era uma coleção que reunia ensaios sobre a formação histórica e social do Brasil, estudos de figuras nacionais e de problemas brasileiros (históricos, econômicos, geográficos, etnológicos, políticos…), além de reedições de obras raras e de obras estrangeiras. Deste modo, o objetivo da editora era a sistematização e coordenação de estudos e de pesquisas sobre temas nacionais, o que definia desde já o caráter cientifico esperado na publicação da História secreta do Brasil. Em nota, o editor deixa claro que Gustavo Barroso propunha uma sondagem profunda em busca de um saber científico, de uma verdade histórica ou de uma “história subterrânea dos acontecimentos”, como afirmava o próprio autor.

Terá o ilustre escritor encontrado o fio da meada? Terá o mergulhador conseguido trazer de suas sondagens, a perola da verdade histórica ou uma parcela da verdade? Nos dramas, representados por personagens conhecidos, nos largos cenários das agitações publicas, ou nos palcos dos teatros políticos, terá o seu olhar penetrado os bastidores? A todas essas perguntas que se reduzem, afinal, a uma só, responderão os seus leitores, que serão muitos e os seus críticos que serão bastante competentes para julgar da imparcialidade, segurança e penetração do historiador brasileiro.[254]

Mesmo colocando em questão alguns objetivos do escritor, a editora não deixa de reconhecer o grande esforço de pesquisa e a abundante documentação utilizada por Gustavo Barroso, trazendo luz sobre as “zonas de mistério de nossa história”. Um artigo publicado no jornal A Offensiva, na cidade do Rio de Janeiro, elucida de maneira apropriada aquilo que pretendia ser o principal atrativo da História secreta do Brasil. Segundo o jornal, o livro de Gustavo Barroso era uma obra de grande vulto e até então inédita no Brasil, pois representava um “compêndio de finalidades educativas” revelando aos leitores a “verdadeira história do Brasil”, dos primórdios da colonização até os dias atuais.

[A obra] Encerra o resultado de uma investigação meticulosa e profunda, a que se dedicou Gustavo Barroso na irriquieta atividade que vem exercendo no estudo do judaísmo, da maçonaria e sociedades secretas, cujos assuntos conhece sobejamente. É um trabalho de grande mérito, mostra a quem ler, como se prepararam os grandes acontecimentos da nossa Pátria, e quais os objetivos que êles, em verdade visaram.[255]

Um exemplo da difusão nacional da primeira parte da História secreta do Brasil pode ser observado no artigo publicado pelo jornal o Diário da Tarde, da cidade de Manaus. Segundo o jornal, Gustavo Barroso não precisaria de referências especiais, uma vez que esse intelectual possuía um nome consagrado, destacando-se entre os grandes “trabalhadores da imprensa no Brasil”.

É um dos mais interessantes conhecedores da história brasileira, tendo manifestado a sua curiosidade erudita em diversos ramos do conhecimento. O volume de agora é um pouco sectarista. Mas, por isso mesmo, fazendo-o a margem dos fatos históricos, deu a esses acontecimentos uma interpretação que na nossa literatura, não tem precursores.[256]

Mais uma vez o caráter científico do livro era exaltado, despontando como um grande resumo da história pátria, amparado por uma vasta documentação. Segundo o editorial, Gustavo Barroso com “inteligência e sentido critico”, de acordo com os princípios atuais da ciência histórica, realizou algo inteiramente novo, comparado à importância do trabalho de Manoel Bomfim.

Assim como o extraordinário Manoel Bomfim deu á historia a tradução nacionalista dos seus principais característicos, o sr. Gustavo Barroso aliou-se a essa versão uma outra, procurando a sua causa determinante em influencias até então despidas de elucidações completas. Trata-se, aliás, de um trabalho em serie, da qual este é o primeiro volume publicado. Êle viu nos fatores econômicos a origem de quase todas as transformações políticas e, nesses fatores, a determinação dos interesses ocultos. Começando pelo monopólio do pau de tinta, viu o caso do açúcar, do trafico de negro, a tragédia do ouro, o drama dos diamantes, a inconfidência mineira e as outras de igual natureza, que se fizeram sentir na época colonial e no primeiro império.[257]

É importante verificar que apesar do radicalismo ideológico de Barroso, seu prestígio intelectual permanecia em alta, fazendo com que editoras de tendências esquerdistas, como é o caso da Civilização Brasileira S/A, aceitassem publicar alguns de seus livros. Talvez essa atitude da editora estivesse atrelada a interesses comerciais apostando no potencial de vendagem dos livros de Barroso. De qualquer forma, em 1938, na publicação da terceira parte da História secreta do Brasil, a editora tentou demonstrar imparcialidade com a temática do livro, declarando enfaticamente que não era de sua alçada intervir nos pontos de vistas defendido pelo autor.

O que importa á Civilização Brasileira S/A, verificar no exame dos originais, é o valor intrínseco da obra, quanto á forma e ao fundo, é a responsabilidade e a probidade intelectual dos autores aceitos ou chamados a colaborar no progresso e no desenvolvimento da cultura brasileira, pelo debate amplo e livre de questões literárias, históricas e cientificas e dos grandes problemas nacionais. Foi este o critério que seguiu ao resolver tomar ao seu cargo a publicação deste 3 ° volume, que lhe apresentou o sr. Gustavo Barroso, da Academia Brasileira.[258]

Com esta nota a Civilização Brasileira pretendia livrar-se da responsabilidade de ter publicado um livro anti-semita, antimaçônico e anticomunista deixando o debate para os
chamados “especialistas no domínio dos estudos históricos”.

A questão esta aberta. O ilustre escritor chega a conclusões discutíveis. Que as discutam os competentes na matéria. É desse debate franco, por homens de responsabilidade, que resultará o esclarecimento dos pontos controvertidos de nossa historia.[259]

Como vimos no segundo capítulo, Barroso foi um intelectual ativo, pertencente à geração dos “explicadores”, ou seja aqueles intelectuais preocupados em apontar um “saída” para os dilemas do país[260]. Sua obra contém um conjunto de sugestões para a compreensão dos problemas políticos, econômicos e sociais. É, por um lado, uma interpretação do complexo jogo político e, por outro, a tentativa de construção da identidade nacional com base na “revolução integral”. Vimos também que o anti-semitismo foi abertamente inserido e defendido nos discursos de alguns dos principais integralistas como, Tenório D’Albuquerque, Madeira de Freitas, Ulysses Paranhos e, em especial, Gustavo Barroso. Entretanto, afirmar que o integralismo, como já apontando no segundo capítulo, foi um movimento amplamente anti-semita seria, no mínimo, reducionista mesmo que seja indiscutível a existência de uma forte corrente anti-semítica dentro do movimento influenciada por Barroso.[261]

Na conturbada década de 1930, ideologicamente marcada pela disputa entre fascismo e comunismo, o anti-semitismo se constitui num dos alicerces em que se sustentava a extrema direita na Europa e no Brasil. O judaísmo e a raça semita apareciam nos discursos como os inimigos a serem combatidos, assim como o capitalismo, o liberalismo e o comunismo mesmo porque, a lógica desse discurso político era associar o judaísmo a essas ideologias[262]. Os escritos de Barroso tentavam alardear o integralismo como o antibiótico eficaz para curar as infecções causadas pelos invasores externos, como o judaísmo. Conforme destacou Ribeiro, o integralismo foi um movimento muito amplo, que admitiu desde as classes sociais até os movimentos religiosos, mas evidentemente alguns ou muitos dos integralistas acabaram entrando na onda anti-semita e um dos grandes responsáveis por isso foi o historiador Gustavo Barroso, que apanhou esse veio crítico e desenvolveu uma série de trabalhos em cima deste tema.[263]

Quanto àquilo que se refere ao texto da primeira parte da História secreta do Brasil, pode-se dizer, que o estilo da escrita é norteado por uma linguagem rebuscada e uma noção de história típica dos historiadores do século XIX, em especial Varnhagen. Como foi visto no segundo capítulo, as referências ao historiador oitocentista são constantes na obra de Barroso, principalmente quando se trata da história da Maçonaria no período da Independência do Brasil. As lutas políticas entre Gonçalves Ledo e José Bonifácio, em várias ocasiões, foram analisadas por Barroso a partir de uma perspectiva historiográfica inaugurada pela obra História geral do Brasil.[264]

Além disso, Barroso desejava demonstrar, numa mesma obra, erudição, autoridade intelectual e militância partidária. Ciente deste desafio não se incomodava em afirmar que aquele era um livro dedicado aos assuntos mais “ocultos” da história, realizado graças a sua altíssima “sensibilidade de historiador”. Acreditava que a leitura dos símbolos era um dos principais requisitos para se atingir a verdade histórica[265]. Barroso praticava uma pesquisa semiótica buscando desvendar o significado das bandeiras. O intelectual acreditava que por traz da combinação de elementos enigmáticos, presentes, sobretudo nas flâmulas, escondiam-se verdades que somente os “iniciados” poderiam conhecer. Pois, embora existissem símbolos que são reconhecidos internacionalmente outros só poderiam ser compreendidos dentro de um grupo privilegiado e restrito, no caso os maçons.

A bandeira da Inconfidência Mineira, proposta por Tiradentes, representaria, por exemplo, o “Emblema da Divindade. Em sentido literal – chapéu.” Além disso, o mesmo triângulo poderia ser visto no capitel da coluna J. (Jakin) uma das colunas do Templo de Salomão, reproduzidas nos altares maçônicos.[266]

O triângulo maçônico é o triangulo dos Pentaculos cabalísticos, o Triângulo de Salomão dos ocultistas, o Infinito da altura ligado ás duas pontas do Oriente e do Ocidente, o triângulo visível da razão revelando o triângulo invisível, isto é, o ternário do Verbo, origem do dogma da Trindade para os magistas e cabalistas judaicos, o que justifica maçonicamente a explicação dada por Tiradentes.[267]

Do mesmo modo, o estandarte da “Revolução dos alfaiates” em 1798, guardava os objetivos “socialistas” daquele motim subversivo. A estrela central de ponta para baixo, segundo Barroso, representava a figura de Lúcifer, a imagem caricatural de Baphomet.[268]

A título de exemplo, Barroso resgatou também a figura demoníaca de Eliphas Levi conhecida como Baphomet, a cabra sabática portadora do mesmo pentagrama invertido na testa. A tradição popular que afirmava o culto do bode preto nas Lojas maçônicas seria, portanto, herança da adoração deste ídolo pelos maçons. A palavra cabalística Baphomet é o contrário de TEM-O-H-P-A-B e significaria: TEMPLI-OMNIUM HOMINUM PACI ABBAS, “O Pai do Templo – Paz Universal dos Homens”.[269]

Os símbolos para quem os saiba discernir ensinam mais do que muitas páginas de história, dizia Barroso, parafraseando o maçom Dario Veloso. Segundo o autor maçom, o símbolo era a afirmação discreta das “verdades profundas, maravilhosos segredos,” ensinamentos que só poderiam ser conhecidos pela “iniciação sistemática e progressiva”.[270]

Temos no decorrer desta historia secreta de interpretar constantemente muitos símbolos e alegorias do judaísmo-cabalista-maçónico. Somos por isso obrigados a documentar fartamente o assunto, afim de que não haja suspeita de que inventamos cousas do arco-da-velha.[271]

A narrativa histórica do livro começa no dia 26 de setembro de 1498, quando a frota portuguesa que partiu de Lisboa levava a bordo um “astuto e inescrupuloso judeu polaco”. Seus conhecimentos náuticos e sua experiência no comércio das “coisas das índias” seriam de grande utilidade. Foi batizado pelos portugueses e recebeu o nome de Gaspar da Gama, sendo, vulgarmente, conhecido por Gaspar das índias. Como descreveu Barroso:

Este judeu conversava muitas vezes com El Rei D. Manuel, que folgava de lhe ouvir falar sobre as coisas da Índia, e lhe fez muitas dádivas e mercês. A Vasco da Gama e outros almirantes portugueses, Gaspar das índias prestou inestimáveis serviços. Dois anos depois, vestida de luto, como era de praxe na época, quando as armadas iam em busca de terras desconhecidas, a corte manuelina assistia do eirado da torre de Belém a partida dos navios de Pedro Álvares Cabral. O judeu Gaspar embarcara na nau do capitão-mor como língua e conselheiro, hoje diríamos intérprete e técnico, em coisas e negócios das índias.[272]

Logo que aportou em terras brasileiras, o “esperto judeu” percebeu as possibilidades inesgotáveis de tirar vantagem daquele achado. Para o autor, o oportunismo e a inteligência nos negócios eram características centrais do povo de Israel.

Seus olhos vivos e espertos, olhos de rato fugido dos ghetos da Polônia, viram o nosso Brasil no primeiro dia de seu amanhecer. Ao lado de Pedro Alvares Cabral, “de quem não se apartava”, avistou o vulto azul do Monte Pascoal nos longes do horizonte, contemplou a terra virgem e dadivosa, a indiada nua e emplumada de cocares, assistiu a primeira missa celebrada por frei Henrique de Coimbra e ouviu a leitura da carta de Pero Vaz de Caminha.[273]

Barroso retomava em suas páginas o tradicional discurso religioso anti-semita, informando seus leitores sobre a falta de lealdade e o espírito de traição do judeu.

Por adulação e baixeza, afirmamos diante dos fatos. Batizado por Vasco da Gama, o israelita tomou, de acordo com o costume em má hora instituído por D. Manuel e que estragou, na judiaria, os grandes apelidos da nobreza lusa, o nome de família do seu padrinho; mas, quando a estrela do navegador se foi empanando ante a glória de Dom Francisco de Almeida, o poderoso Vice-Rei do Ultramar, o hebreu mesquinho abandonou o nome de Gama e adotou o de Almeida, sem mais tirte nem guarte…[274]

O primeiro assalto judaico ao Brasil teria ocorrido ainda no período colonial. O governo português influenciado por “conselheiros infiéis”, que o faziam enxergar somente as “maravilhas das índias”, deixou nas mãos dos cristãos novos (israelitas) o comando total do lucrativo “comércio do pau de tinta”. Foi quando, segundo Barroso, Fernando de Noronha e seus sócios arrendaram o Brasil.

O judeu Fernando de Noronha e seus sócios haviam arrendado o Brasil a D. Manuel, que continuava dentro do sortilégio, deslumbrado com as maravilhas da Ásia. Pelo contrato de arrendamento, os judeus deviam mandar todos os anos seis navios ao Brasil, para explorar ou descobrir trezentas léguas de costa para além dos pontos já conhecidos, fincando um forte no extremo em que tocassem. Esses navios poderiam levar qualquer produto para a metrópole sem pagar o menor imposto, tributo ou finta, no primeiro ano; pagando um sexto do valor, no segundo, e um quarto no terceiro. O prazo de arrendamento, como se vê, era de três anos. No dia 24 de janeiro de 1504, D. Manuel fez doação da ilha de S. João ã Fernando de Noronha, a qual foi confirmada por D. João III em 3 de março de 1522.[275]

No texto existe uma forte argumentação no sentido de demonstrar que muito antes de qualquer concessão de sesmarias, os judeus já desfrutavam de domínios e monopólios da, recém descoberta, colônia portuguesa.

Desta sorte, antes de dividindo o Brasil em capitanias hereditárias muito antes das primeiras concessões de sesmarias, origem dos primitivos latifúndios, a coroa portuguesa alienava uma parte do Brasil, dando-a de mão beijada a um judeu traficante do pau-de-tinta, que era a anilina daquele tempo. Terminou o prazo de arrendamento da costa brasileira em 1506. Fernando de Noronha agenciou, na corte, sua renovação ou prorrogação, obtendo-a por dez anos, em troca do pagamento anual de quatro mil ducados, o que deixa ver que os lucros auferidos no comércio da madeira de tinturaria, único no amanhecer da vida brasileira, não tinham sido de desprezar. Além da prorrogação, os judeus obtinham o monopólio do negócio, pois que o rei se obrigava a não permitir mais o “trato do pau-brasil com a Índia”. Era, com efeito, do Oriente que vinha o pau-de-tinta, berzi, ou verzino, segundo Muratori e Marco Polo. O descobrimento do nosso País, em verdade, graças às informações levadas pelo astuto judeu que Vasco da Gama açoitara e conduzira àpia batismal, tivera como resultado a formação, para empregar a linguagem moderna de um TRUST DAS ANILINAS. Naturalmente, que era o monopólio do comércio da madeira tintória, desde que o sapang de Java e Ceilão fora corrido dos mercados europeus, senão isso? Tanto assim que os navios do consórcio Fernando de Noronha carregavam por ano de nossas matas litorâneas a bagatela de “vinte mil quintais da preciosa madeira”.[276]

O escritor procurou enfatizar que, no Brasil, a presença do judeu estava há muito tempo arraigada. A “judiaria” aproveitara da “boa sociedade cristã” para instalar-se no território luso-brasileiro e, em troca, “apunhalava” pelas costas os portugueses, pois os semitas só amavam a Sinagoga e o Kahal, afirmava Barroso.

No palco: a armada de Cabral com as velas pendentes em que o sol empurrava as cruzes heráldicas; a cruz erguida na praia, diante da qual um frade diz a primeira missa; um padrão cravado no solo virgem da terra descoberta em forma de cruz, a cruz nos punhos das espadas linheiras que retiniam de encontro aos coxotes de aço fosco; a cruz nas bandeiras alçadas, os nomes de Vera Cruz e Santa Cruz impostos a toda a nova região americana: o idealismo cristão, o heroísmo cristão, o sentido cristão da vida, a propagação da Fé e a dilatação do Império que a gesta dos Lusíadas cantaria com o ritmo do rolar das ondas. Nos bastidores, manobrando os cenários e arranjando as vestiduras, o judeuzinho de Goa, o cristão-novo Fernando de Noronha, os Cristãos-novos e israelitas do seu consórcio comercial, inspirados pela sinagoga e pelo kahal, realizando o lucro à sombra do idealismo alheio; ganhando o ouro à custa do esforço e do sangue dos outros; apagando o nome da Cruz com o nome do pau-brasil, o que indignou a João de Barros; usando a epopéia da navegação e o poema do descobrimento para a fundação trivial de um monopólio de anilinas…[277]

Uma das características marcantes da História secreta do Brasil é o esforço para evidenciar, perante o “tribunal da história”, que o judaísmo, inescrupulosamente, utilizava-se de todos os meios para apoderar-se da riqueza e da pecúnia no Brasil. Para Barroso, o assalto às fortunas públicas e particulares foi levado a efeito, primeiro através do monopólio do pau-brasil, logo depois, pela especulação sobre o açúcar, seguido do tráfico negreiro, da pirataria, da conquista, das companhias de comércio e navegação, do açambarcamento de gêneros, do estanco de produtos e, finalmente, da expropriação forçada das minas, do contrato dos diamantes e do contrabando.

Possuindo os meios pecuniários, a força do ouro, o judaísmo atacará o segundo sector da força da sua luta, o Estado. Aí já se não apresentará tão a descoberto e se valerá das sociedades secretas, que organizará em compartimentos estanques e superpostos, tornando-as fontes de iniciação nas doutrinas cabalistas-talmúdicas, as quais teem o dom de transformar os cristãos em “traidores da própria pátria e da própria fé, em proveito do judeu cabalista, cuja ambição é conquistar pela astúcia e pela traição o domínio universal ”.[278]

Barroso explicou, com uma impressionante riqueza de detalhes, o surgimento da “maldade do povo judeu”, que infiltrado no seio da Igreja Católica nascente, provocaram várias divisões heréticas, “multiplicando-as num labirinto diabólico”. Segundo ele, toda a gnose dos primeiros séculos do cristianismo tem origem na cabala judaica. Além disso, afirmou que quase todos os grandes heresíarcas foram judeus.

As sociedades secretas gnósticas se espalharam pelo Ocidente e pelo Oriente, sobretudo as sociedades secretas maniquéas a que a bula Humanum genus de S. S. Leão XIII mui acertadamente compara a maçonaria. Catáros, patarinos, brabantinos e albigenses saem em plena idade média dessa fonte manaquéa e cobrem a França com uma rede invisível de sociedades secretas.[279]

Seja por necessidade ou por natureza, na opinião de Barroso, os judeus sempre procuraram, utilizaram e amaram o mistério e, desde o tempo dos romanos, possuem um governo oculto organizado, denominado de Kahal. Não obstante, demonstrou haver uma íntima ligação entre a Ordem dos Templários e o judaísmo.

O fim secreto dessa ordem de cavalaria, fundada na Palestina em 1118, era a reconstituição do templo de Salomão, em Jerusalém, de acordo com o modelo da profecia de Ezequiel; seu exemplo, os maçons guerreiros de Zorobabel; suas tradições, as judaicas do Talmud; sua regra, a cabala dos gnósticos; seu ideal, adquirir influencia pela riqueza, intrigar e se assenhorear do mundo. Tinha duas doutrinas: uma oculta, reservada aos mestres; outra pública, a católica-romana, enganando, dessa sorte, aos adversários que pretendia suplantar. Obedecia a esta palavra de ordem: enriquecer para comprar o mundo. Queria, assim, derrubar a autoridade do Papado e o poder da Realeza. Havia traído São Luiz nas Cruzadas e preparava vasta conspiração em toda a Europa, Filipe o Belo e Clemente V a dissolveram de surpresa. Os sectários de toda a espécie teem, desde muito tempo, acumulado mentiras sobre mentiras, tentando inocentar a Ordem do Templo, destruída pelo Papa e pelo Rei de França. Todavia, quanto mais se aprofunda a questão, mais aparece a culpabilidade dos Templários, que, em toda a cristandade, sofreram condenações infamantes, depois de longos e minuciosos processos, segundo as confissões pormenorizadas, idênticas todas elas nos países os mais diversos.[280]

Continua…

Autor: Luiz Mário Ferreira Costa

Fonte: Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2009.

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Notas

[251] – BARROSO, Gustavo. História secreta do Brasil: do descobrimento á abdicação de D. Pedro I. (op. cit), São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1937.p. 15.

[252] – ENGELS, Friedrich & MARX, Karl. O Manifesto do Partido Comunista. Trad. Marco Aurélio Nogueira e Leandro Konder. 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2000. p. 65.

[253] – 3 BARROSO, Gustavo. História secreta do Brasil: do descobrimento á abdicação de D. Pedro I. (op. cit), p. 301

[254] – Idem, p. 1

[255] – Jornal A Offensiva, Rio de Janeiro 31 de Dezembro de 1936. s/n.

[256] – Jornal Diário da Tarde. Manaus 8 de Fevereiro de 1937 s/n.

[257] – Idem, s/n.

[258] – BARROSO, Gustavo. História secreta do Brasil: da Maioridade á República. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1938. p. 3.

[259] – Idem, p.4.

[260] – PANDOLFI, Dulce (org). Repensando o Estado Novo. Rio de Janeiro: Ed. Fundação Getúlio Vargas, 1999.

[261] – RIBEIRO, Ivair Augusto. O Anti-semitismo no discurso integralista no Sertão de São Paulo: os discípulos de Barroso. In: CARNEIRO, Maria Luiza Tucci (org). O anti-semitismo nas Américas: Memória e História. São Paulo: EDUSP-Fapesp, 2007. p. 354

[262] – Idem, p.355.

[263] – Idem, p. 358 – 359..

[264] – BARROSO, Gustavo. História secreta do Brasil: do descobrimento á abdicação de D. Pedro I. (op. cit), p. 258

[265] – Idem, p. 186 – 187.

[266] – Idem, p. 164.

[267] – Idem, p. 165.

[268] – Idem, p. 186.

[269] – Idem, p. 184.

[270] – Idem, p. 187.

[271] – Idem, p. 187.

[272] – Idem, p. 21.

[273] – Idem, p. 21.

[274] – Idem, p. 22.

[275] – Idem, p. 25.

[276] – Idem, p. 26.

[277] – Idem, p. 27.

[278] – Idem, p. 151.

[279] – Idem, p. 153.

[280] – Idem, p. 154.