A Câmara de Reflexões

Nicolas Poussin: Sacramento do Batismo, 1642.

I – Uma inspiração

Jesus disse: “Em verdade, em verdade vos digo: quem não nascer de novo não poderá ver o Reino de Deus”.

Nicodemos perguntou-lhe: “Como pode um homem renascer, sendo velho? Porventura pode tornar a entrar no seio de sua mãe e nascer pela segunda vez?”.

Jesus responde: “O que nasceu da carne é carne, e o que nasceu do Espírito é espírito.”

Sagradas Escrituras – Evangelho de São João, Capítulo 3, Versículos 3, 4 e 6.

Pieter Claez: Vanitas, 1625

II – Uma reflexão

A pintura propõe uma reflexão sobre a insignificância da vida terrena, a certeza da morte, a efemeridade das vaidades e a transitoriedade das coisas materiais. Uma tela típica da estética barroca, simbólica, do gênero natureza morta do século XVI. Este gênero é um tipo de arte simbólica chamada de “Vanitas” (vaidades em Latim), feita para impressionar o espectador, incluem símbolos como caveiras, que são lembretes da inevitabilidade da morte; ampulhetas, que são simbolizam a brevidade da vida; e assim por diante, presente na expressão latina “memento mori” que, se traduzido literalmente, significa “lembre-se da morte”.

III – Uma alegoria

Na Alegoria da Caverna, Platão descreve que alguns homens, desde a infância, se encontram aprisionados em uma caverna. Nesse lugar, não conseguem se mover em virtude das correntes que os mantém imobilizados. Virados de costas para a entrada da caverna, veem apenas o seu fundo. Atrás deles há uma parede pequena, onde uma fogueira permanece acesa. Por ali passam homens transportando coisas, mas como a parede oculta o corpo dos homens, apenas as coisas que transportam são projetadas em sombras e vistas pelos prisioneiros. Certo dia, um desses homens que estava acorrentado consegue escapar e é surpreendido com uma nova realidade. Ao olhar a luz da fogueira seus olhos ficam ofuscados, pois ele nunca tinha visto a luminosidade. Ele caminha mais e com dificuldade chega à saída da caverna, deparando-se com uma luz ainda mais intensa: a luz do sol. Assim, a luz representa a sabedoria que liberta dos grilhões da ignorância.

IV – Uma alquimia

Os alquimistas acreditavam que o mundo material era composto por matéria-prima sob várias formas. As primeiras dessas formas eram os quatro elementos (água, fogo, terra e ar). Através da destilação, combustão, aquecimento e evaporação seria possível transformar uma forma ou matéria em outra. As matérias-primas do processo alquímico são, entre outras, o sal, o mercúrio e o enxofre. A Alquimia, deve ser interpretado como uma metamorfose, uma passagem de um plano de realidade para outro e a modificação do sujeito em sua própria natureza. Em outras palavras, à medida que o alquimista se transforma interiormente, ele aumenta sua capacidade de modificar o mundo que o cerca.

V – Uma boa nova

Na tradição cristã é o galo quem anuncia a boa nova, tanto do nascimento de Jesus, cantando à meia-noite, quer saudando, ao nascer da aurora, a Ressurreição de Cristo para a vida eterna. De fato, na simbologia cristã, o Galo simboliza a nova luz. A Missa do Galo, também conhecida por Missa da Meia-Noite, é a missa da luz.

O Galo também simboliza o estado de vigília e vigilância, sobretudo na luta pelo bem e contra a traição e os desvios dos princípios da ética. É o galo que irá anunciar, com o seu canto, a traição de Pedro a Jesus, negando, por três vezes, conhecê-lo:

“Em verdade te digo: Hoje, nesta mesma noite, antes que o galo cante duas vezes, três vezes me terás negado (Marcos 14:30)”.

O galo anuncia que as trevas da noite dão lugar à luz do novo dia, na tradição Cristã, como o Sol, Jesus, com seu nascimento, traz a luz verdadeira para a humanidade.

Autores: Fabiano Fontana Breda; Robson Posnik; Cleverson Veríssimo Zawadski

Orientador: Marco Aurélio Visintin

A.·. R.·. L.·. S.·. Joaquim Gonçalves Ledo No. 3079 – Curitiba/PR.

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Referências

http://pedro-juk.blogspot.com/2018/07/camara-de-reflexao-ii.html

http://cidademaconica.blogspot.com/2007/07/reflexes-sobre-cmara-de-reflexes.html

https://focoartereal.blogspot.com/2016/04/camara-de-reflexoes.html

https://www.freemason.pt/secmaconaria/simbolismo/a-camara-de-reflexao/amp/

https://bibliot3ca.com/os-simbolos-sal-enxofre-e-mercurio-da-camara-de-reflexoes-e-a-sua-genese-e-interpretacao-no-reaa/https://www.freemason.pt/macons/o-macon/o-meu-testamento-maconico/

O simbolismo da Câmara de Reflexões

Funerárias aconselham funerais sem velórios | Notícias de Coimbra

Origens

Muitos maçons perguntam qual a origem da Câmara de Reflexões pois, todos eles, queiram ou não, entram em contato com ela no dia de sua iniciação. Sua origem remonta à lenda dos três assassinos do Mestre Hiram Abiff que, após cometerem o crime, refugiaram-se em uma caverna para evitar serem descobertos e posteriormente presos pelos emissários do Rei Salomão. Naquele momento, eles refletiram sobre o crime que cometeram e sobre suas condições humanas.

Contato

Quando da iniciação, o profano tem sua primeira experiência e contato com nossos mistérios, contato esse real, através da Câmara de Reflexões, local sagrado, onde o candidato se concentra, medita, reflete sobre a importância de sua vida, sobre como nós somos pequenos e frágeis diante da providência divina e do mundo,  fazendo-o conduzi-lo  a meditação permitindo o acesso a seu interior. É no mais profundo silencio que ele se prepara para nascer de novo, para tornar-se um novo homem e reflita sobre o passo que irá dar. Neste sagrado momento, ele se interioriza em seu Deus Interior. Neste isolamento ele é confronta-se com o silêncio, o esmero, a inércia e a obscuridade. Ele encontra-se num local fechado de meditação, todo pintado de negro, que simboliza não sua a morte física, mas uma morte do seu ser. Este momento de meditação permite que ele faça um balanço de sua vida passada, Sentido uma morte simbólica virtual que será uma passagem para uma nova vida.

Ela tem suas paredes negras e ali não deve penetrar qualquer luz do exterior, sendo que ela é composta de um banco e uma mesinha. Sobre a mesa, um pedaço de pão e uma moringa de água, um recipiente com enxofre e outro com sal. Ainda ali, caneta e tinta. Próximo ao pão e à água, um crânio escaveirado. Uma ampulheta completa os utensílios que se encontram sobre a mesa. Nas paredes, pintados, símbolos de morte: esqueletos, ossadas e uma foice segadeira. Na parede fronteira à mesa, há a figura de um galo e as palavras “Vigilância e Perseverança”. Em letras maiúsculas a palavra VITRIOL. Nas outras paredes, frases de advertência como tais: “Se a curiosidade aqui te conduz retira-te, entre outras frases (página 18 de nosso ritual).

Símbolos

 O Galo – A figura de um galo, é o símbolo da audácia e vigilância. Indicando que um novo dia se aproxima trazendo ao neófito o futuro que está por chegar, libertando-se da escuridão a que está submetido. O Galo anuncia um novo dia, anunciando que o futuro irmão está para receber a Luz. Ele simboliza ainda a esperança da ressurreição, o alvorecer de uma nova era, visto que o neófito vai morrer para a vida profana e renascer na vida maçônica, sendo que o maçom deve estar  sempre vigilante no seu dia a dia.

A Foice –Sugere ao neófito que todos os seus vícios e todas as suas imperfeições deverão ser cortados e extirpados, para que possa assim estar apto para conhecer a verdadeira Luz.

Crânio e o Esqueleto – Ambos simbolizam que nossa vida aqui é passageira,  e a morte corporal inevitável, sendo o prelúdio do renascimento de uma nova vida.  Símbolo da morte física, onde o homem velho se extingue para transformar-se, representam não uma morte, definitiva, mas, sim, uma morte dinâmica, que  anuncia uma novo momento de vida. Significando, em uma única palavra, Transformação.

A Ampulheta – É o instrumento para medir o tempo, mediante uma porção de areia dentro dela. Simboliza a passagem do tempo, indicando ao Maçom que ele deve aproveitar o seu tempo, com coisas  úteis e proveitosas para si próprio e também para a humanidade., não devendo dedicar sua vida, somente ao  acúmulo de riquezas e ao gozo dos prazeres mundanos, desperdiçando sua vida.

O Pão e a Água – O Pão é,  um  símbolo do alimento essencial ao ser humano, O Pão ainda simboliza o laço que deve unir os Maçons fraternalmente, já  a Água representa  a fonte de vida; da  purificação, indispensável para o ser humano, sendo o símbolo da Mãe Natureza, que gera  de vida material, mas, também, a vida espiritual. São ambos indispensáveis a vida.

O Sal –  É uma representação da vida, da pureza e da sabedoria; preceitos que devem orientar os passos do candidato em sua nova jornada dentro da ordem maçônica .O Sal é símbolo ainda  da palavra empenhada ao fazer seu juramento, porque a palavra do Maçom, como o  sal,  deve ser  indestrutível.

O Mercúrio – O mercúrio é o símbolo alquímico universal e do princípio feminino passivo, sendo considerado  como o princípio da Inteligência e Sabedoria. Na mitologia grego-romana, ele é o mensageiro dos deuses, sendo o agente harmonizador dos contrários, que procura colocar a ordem no caos, pois ele representa algo que é instável em cada um de nós.

O Enxofre –  É o símbolo do espírito e por isso simboliza as nossas paixões, nossos desejos excessivos, o que nós temos de mais sinistro. Ele corresponde ao fogo, sendo que Mercúrio à água. É o princípio gerador masculino (yang). É um símbolo de culpa e punição, de forças destruidoras, do desastre,

“A pedra Filosofal é um Sal perfeitamente purificado, que coagula o Mercúrio a fim de fixá-lo em um Enxofre extremamente ativo. Esta fórmula sintética resume a Grande Obra em três Operações que são: a purificação do Sal, a coagulação do Mercúrio e a fixação do Enxofre”. (In “O Simbolismo Hermético” de Oswald Wirth)

O Testamento – É um documento jurídico utilizado na vida profana, para deixar ao futuro falecido suas últimas vontades.  Mas na Maçonaria é considerado como um testamento “filosófico”, e iniciático sendo uma preparação para a nova vida que ele irá começar. Através dele, os Irmãos terão um real conhecimento  dos verdadeiros sentimentos e intenções do Profano.

A Vela – A Câmara de Reflexões é iluminada apenas pela luz de uma vela, sendo que há várias interpretações sobre este símbolo. Entre elas indica que o profano recebe sua primeira Luz na Maçonaria, sendo ela, o reflexo de Deus no plano terrestre. Simboliza também a luz da razão, que ilumina a Câmara e que deve iluminar a mente do profano, dando-lhe assim a esperança de um mundo totalmente novo e diferente, que se deslumbra  a sua frente,

 Conclusão

Em resumo, a Câmara de Reflexões nada mais é do que a transição de uma vida para outra, ou seja da vida profana para a vida Maçônica, que usa de seus elementos e símbolos para preparar o futuro irmão e para essa nova vida.

Autor: Dermivaldo Collinetti

Dermivaldo é Mestre Maçom da ARLS Rui Barbosa, Nº 46 – GLMMG – Oriente de São Lourenço e, para nossa alegria, um colaborador do blog.

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Referências bibliográficas

Comentários ao Ritual de Aprendiz – Volume I – Nicola Aslan

O Templo Maçônico – Dario Velozzo

Ritual de Aprendiz Maçom – REAA

Pesquisa de vários autores – Internet

A Morte Iniciática: símbolo ou realidade?

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Os maçons referem-se à iniciação como um segundo nascimento, como um renascimento após uma morte indispensável que qualificam de simbólica. Mas, o que significa “morte e renascimento”? É uma ideia poética que nada tem a ver com a realidade ou um ato concreto? O que deve morrer e renascer?

Um dia nascemos sem pedir a quem quer que seja. Nos alimentam com leite, depois comida cozida e finalmente com alimentos sólidos para que nosso corpo cresça e passe de bebê a criança e de criança a adulto. Ao mesmo tempo, tentamos, com sucesso variável, alimentarmo-nos intelectualmente enquanto juntamos inconscientemente eventos aleatórios, uma nutrição emocional. Em última análise, tornamo-nos o que somos: homens e mulheres imersos em uma sociedade onde cada um está lutando para não ser conduzido pelas ondas do nada.

Às vezes, percebemos que nossos desejos de mais poder, riqueza e prazer realmente não nos satisfazem e deixam um gosto amargo de ausência, de insatisfação, de descontentamento que nos leva a desejar mais e mais, na esperança, da próxima vez de ser saciados.

Mas nosso egoísmo, mesmo disfarçado de justiça ou ideal, nos empobrece em comportamentos irresponsáveis que renovamos para preencher a lacuna de nossos medos de desaparecer sem afirmar nosso ser ali. Com poucas exceções, ou em algumas raros momentos depois de um surto cheio de promissas, nós fenecemos antes mesmo de florescer.

Tudo o que existe sobre a Terra está condenado a desaparecer. A morte não é uma anomalia. A intrusão da morte do corpo na vida é uma etapa normal, natural e irremediável. Não se trata de um golpe divino, mas de um ciclo natural inevitável. O estado de ser humano-animal nos condena à morte.

Quando morrermos, a Terra nos esquecerá pouco a pouco até a completa extinção das lembranças. Então não existiremos mais em qualquer memória, qualquer coração, qualquer consciência. Esse desaparecimento é característica de minerais, plantas e animais, incluindo o homem que, no entanto, tem a particularidade de saber que vai morrer.

Renascimento

O grande assunto do homem ao longo de sua vida não é morrer, nem mesmo se preparar para morrer, mas viver, viver de forma justa, de acordo com a origem de sua natureza humana em porvir, para deixar a cena sem lamentos, com a alegria de ter realizado sua humanidade.

O oposto da morte não é a vida, mas o nascimento. Morrer faz parte do nosso nascimento. Não podemos razoavelmente aceitar o nascimento de nosso corpo sem aceitar sua morte. A recusa a morrer vem de outro lugar, de outra fonte, de uma outra voz, de nossa profundidade, chama-nos a tender para o aperfeiçoamento infinito como se a única finalidade da vida fosse tornar-se mais humano, de completar o homem no Homem. Essa é nossa liberdade.

A liberdade congênita do homem o torna responsável por suas escolhas de vida: seja de viver de acordo com seu egoísmo natural de animal humano, seja de superar e viver de acordo com as leis do desenvolvimento do universo, do devir mais humano. Mais que a ausência do instinto animal, nossas liberdades nos permitem atingir a maturidade de uma consciência interior puramente humana de um Ser que nos obriga, por sua natureza, a uma ética de amor e respeito. Esse desenvolvimento humano se inicia em nossas determinações diárias de não seguir nossos impulsos automáticos para tornar nossa existência um lugar e um espaço de experimentação, de exercício e de evolução de nossa consciência do outro. Nós decidimos, voluntariamente e livremente a não ser mais escravos de nossos impulsos que influenciam nossos pensamentos, nossas visões, nossos medos, toda a nossa vida.

Os rituais da Maçonaria traçam o caminho a seguir e marcam as etapas. Ao nos aventurarmos no caminho do autoconhecimento, o ser ordinário diminui de tamanho, se imobiliza, sua expressão morre lentamente e deixa espaço livre para o ser essencial. A morte do ser comum não é a aniquilação do ego, ao contrário, com a morte de nossa personalidade egoísta tornamo-nos mais nós mesmos.

Essa morte é chamada simbólica porque não se trata da morte física, mas da morte do ego. A morte se torna uma imagem, uma representação da realidade, porque de fato o próprio ego não morre, ele está sempre lá dentro de nós, pronto para ressurgir à menor fraqueza de atenção. Os mecanismos egoístas não estão mortos, mas silenciados, não são mais eles que dirigem a nossa vida, mas a inteligência do Ser que se impõe diante da inteligência mecânica comum. O homem é sempre um mamífero, um animal, mas não mais uma besta. O nosso Ser se torna o treinador de nossa bestialidade.

Se a morte não é morte, mas o domínio de uma parte de nós mesmos, o renascimento, o segundo nascimento, também não é aquele de nosso corpo nascido de uma vez por todas, mas o nascimento do nosso Ser interior, dessa parte muito especial de nós mesmos, que faz toda a diferença entre um animal-humano e um humano-animal.

A supressão de uma parte de nossa vida, a morte simbólica do sensível, a rejeição de nossas percepções elementares egoístas, o desnudar-se para reencontrar a Luz que conduz a uma outra região da vida que inclui a primeira, exige uma vigilância diária que o ego não tem vontade de sustentar, porque ele sabe que o resultado de tais esforços será sua morte simbólica. É preciso uma vontade rara para escolher a despossessão do homem-animal primitivo em benefício do homem verdadeiro e de sua paz na unidade. Essa vontade não nos pode ser imposta de fora para dentro, mas vir somente de nós mesmos. Essa é a nossa evolução que se trata e somos nós que decidimos contra todas as nossas depravações e aquelas que atribuímos aos outros.

Câmara de Reflexão

Mas, sabendo disso, o problema não é necessariamente resolvido. Não é suficiente intelectualizar nossas vidas, abafar nossos impulsos egoístas, moralizar nossas aparências para perceber nossa humanidade espiritual, para passar de nossa mecanicidade ao nosso Ser. Para voltar à essência, somente conta a ação de retorno na direção oposta àquela do curso normal e habitual de nossos pensamentos, de nossas referências, de nossos desejos. Devemos morrer para nós mesmos, para o que somos, para a imagem que queremos dar a nós mesmos, aos nossos lugares, à nossa sabedoria e ver todo o horror de nossa situação para renunciar a identificar nossa existência unicamente aos nossos movimentos naturais que nos lançam em direção às honras e agitações das coisas da vida. Precisamos de um outro eixo, uma outra atenção a nós mesmos que escute nossos pensamentos e nossas emoções. Precisamos de outras referências diferentes daquelas que aprendemos até agora.

O apego habitual de nossa vida comum aos nossos pensamentos automáticos exclui de nossa consciência a percepção de nossa própria existência enquanto Ser independente possível e nos conduz unicamente à instabilidade do mundo visível colorido por nosso empréstimos passados. Nossas vidas sem futuro natural mais humano perde o seu significado essencial e procuramos incessantemente o ilusório. Mesmo se compreendemos intelectualmente que nossos desejos são frívolos em relação ao sentido da vida, não é evidente os considerar no momento em que surgem e se insinuam em nossa consciência. Para manter a mente clara, precisamos de uma âncora referencial mais sólida que o reflexo da imagem interior devolvido pelas situações exteriores fluidas. É por isso que a iniciação maçônica fala simbolicamente da Câmara de Reflexão, um espaço livre e desconhecido dentro da terra humana, onde deixa-se o iniciando. Ele se encontra ali, fora de si mesmo enquanto ego, uma entidade objetiva, generosa, justa e protetora. Uma entidade que é o que ele aspirava ser, que é sua natureza original em movimento, que é o seu Ser, sua verdadeira humanidade superior ao seu ser mamífero.

Caminho de evolução difícil! São nossas escolhas diárias pela existência do ego e suas aparências ou nossos combates pelo Ser que farão com que seremos somente homens condenados à morte ou iniciados se tornando de uma humanidade real que se abre para a eternidade.

Fora ou dentro de uma ordem iniciática maçônica, depende de nós atingir o Humano que somos conclamados a nos tornarmos por evolução natural. O homem é essa coisa, esse animal, esse ser que pode se compreender, se transcender ele mesmo e, em seguida, perceber, além do conhecimento filosófico as estruturas religiosas e estados psicológicos, a experiência do Ser até a revelação do Espírito original. De morte em morte simbólica, dirigimos pouco a pouco nossas energias para o inexprimível que ressoa dentro de nós.

Ciclo de Vida

No entanto, chegará a hora da morte real do nosso corpo animal. Ela é natural na ordem das coisas. A iniciação final não é mais uma morte simbólica, mas a morte física. É a partir dela que, talvez, saberemos a Verdade sobre o significado do mundo e o sentido de nossas vidas. Fundamentalmente, a morte física não é nem absurdo nem contra a natureza. Ela é parte de um ciclo natural da vida, que vai desde o nascimento até a morte.

Para vegetais e animais, esse ciclo se reproduz inevitavelmente em todas as plantas, todos os insetos ou mamíferos são programados para, durante suas vidas, ou imediatamente antes de morrer, permitir o arranque de um novo ciclo de vida. O símbolo iniciático desse ciclo é o Ouroboros, a cobra enrolada em roda que morde a ponta da cauda.

É o mesmo para a espécie humana que se reproduz de uma geração para outra. Mas o iniciado tem não só uma consciência cíclica própria de toda a natureza, mas também uma consciência assintótica. Os ritos de iniciação maçônicos desenvolvendo o Ser interior- humano durante o ciclo de vida zoológico abre a porta para uma outra vida participante de um ciclo em espiral que expande a consciência de uma visão que se amplia gradualmente à medida que o iniciado se eleva em direção ao cume. Assim, pode ser que o Ser nascido durante a vida terrena, que adquiriu as qualidades e a força necessárias e que não tem nada a ver com a natureza animal, continue sua trajetória em um espaço-tempo eterno.

A vida (primeiro nascimento) permite o nascimento do Ser (segundo nascimento) e permite assim a implantação do nosso renascimento infinito. Nascido no tempo, pelo processo evolutivo de sua energia, o Ser pode retornar de seu exílio terrestre ao seu espaço original, fora do tempo, em seu coração eterno e viver sua permanência. Paradoxalmente, a morte [do corpo físico] abre para a eternidade [do Ser]. Este é, talvez, o objetivo da energia criadora que flui através de cada ser e continua a natureza humana para o seu pleno florescimento na luz.

A iniciação maçônica no Rito Escocês Antigo e Aceito formula essa ideia após os dois primeiros graus preparatórias no mito do assassinato do mestre Hiram (o Ser interior) por maus companheiros (os mecanismos egoístas). Ela propõe exercícios rigorosos que independentemente de qualquer crença, qualquer sistema de pensamento e de qualquer teoria nos lançam progressivamente ao longo de 33 graus, lá onde não sabemos coisa alguma. Estes exercícios nos colocam diante do infinito do Conhecimento supremo. A experiência cara a cara, vivida conscientemente nos fornecer a certeza da Verdade inexprimível, ao mesmo tempo em que protege o espírito crítico, interrogativo e rigoroso condizente com um verdadeiro iniciado.

Autor: Alain Pozarnik
Tradução: José Filardo

Fonte: REVISTA BIBLIOT3CA

A Câmara de Reflexões

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É a lei: todo ser, antes de ver a luz, tem que se formar, enclausurado em ambiente de recolhimento. Só depois de ver a luz é que se inicia a sua aprendizagem e aperfeiçoamento, mercê de um processo contínuo, até que sobrevenha a morte material. Assim uns passam pelo ovo, pelo casulo; outros pela semente, pelo ventre materno. Assim também o Maçom, ainda profano, antes de ser iniciado, passa pela Câmara de Reflexões, o “útero ” de sua Loja mãe.

Mergulhado na escuridão de sua ignorância, o profano vai ali meditar sobre a sua vida, tomando como padrões símbolos existentes naquele gabinete: o pão e a água; o enxofre, o sal e o mercúrio; a bandeirola “Vigilância e Perseverança”; os ossos, a caveira, a foice e a ampulheta; a sigla V.I.T.R.I.O.L.; as perguntas cujas respostas irão compor seu testamento.

Tal simbologia fundamenta-se toda no Hermetismo: trata-se da primeira fase da Grande Obra, a Putrefação, que não ocorre somente no interior do Ovo Filosófico, criação que não é apenas inerente ao homem, mas também e, principalmente, à natureza operante.

A Câmara de Reflexões, dessa forma, faz as vezes de útero, onde se dá a maravilha da criação, imediatamente antes da iniciação, que é o nascimento, o conhecimento da luz. A grandiosidade da Criação Maçônica, que ocorre nessa câmara fechada e quase totalmente escura, é análoga à iniciação dos Essênios, identificando a união de Deus com a alma, como o princípio de toda a vida mística.

Há também a analogia dessa câmara com a Caverna Sagrada dos Templários, onde o ambiente tétrico e sinistro do “Clima do Norte” somavam-se emblemas da morte. E era na dicotomia gerada pelo Norte e o Meio-Dia que os Templários fundamentavam seu esoterismo, incutindo nos iniciados a existência de uma outra vida: “nada se perde, tudo se renova!”.

Na Câmara de Reflexões, além dos símbolos já citados, o profano vê projetadas contra a parede negra as advertências de que a curiosidade não justifica a sua presença ali; de que o sentimento de medo deve fazê-lo retroagir; de que somente a perseverança o conduzirá das trevas para a luz.

O pão e a água são emblemas da simplicidade que há de orientar a trajetória do recipiendário prestes a iniciar-se. Não representam tão somente os alimentos do corpo, como também os do espírito, porquanto o trigo moldado pela água simboliza, segundo muitas crenças a carne do Deus sacrificado. É o alimento indispensável ao feto em desenvolvimento, é a mesma fonte de força que possibilitou Elias galgar o monte Oreb, energia que, da mesma forma, possibilitará ao iniciando vencer as provas a que será submetido é o maná que mobiliza a vontade de transpor o deserto da ignorância.

O enxofre, o sal e o mercúrio sugerem os três princípios herméticos contidos em qualquer corpo: o Espirito; a Sabedoria e a Ciência; a ousadia e a Vigilância, posto que o mercúrio se materializa na figura de um galo. Este ser, intimorato por natureza, anuncia a chegada da Luz, ao mesmo tempo que se faz sentinela e guardião contra a influência profana.

A bandeirola, condutora das duas palavras “Vigilância e Perseverança” , faz saber ao futuro Maçom que, a partir daquele momento, ele deve permanecer atento e concentrar-se nos múltiplos significados sugeridos pelos símbolos, cuja compreensão só será conseguida através da paciência e da vontade.

Os ossos, a caveira, a foice e a ampulheta são referências a Saturno, portanto ao chumbo-metal. Simbolizam a morte do profano transmudado para a vida espiritual a metamorfose do chumbo em ouro; é o despojamento do antigo homem que se prepara para um novo nascimento.

O “V.I.T.R.I.O.L.” que acrescido de um “O” final significa sulfúreo, pedra ácida, pedra oculta e vulcânica do fundo da terra, condensa a frase latina: VISITA INTERIORA TERRAE RECTIFICANDOQUE, INVENIES OCCUNTUM LAPIDEM (Visita o interior da terra e, retificando, encontrarás a Pedra Oculta). É o chamamento ao “eu” profundo, à alma, através do silêncio e da meditação.

Respondendo sobre as obrigações, que deve a Deus. à Humanidade, à sua Pátria, à Família, a seus semelhantes e a si próprio, o profano procede ao testemunho de suas intenções filosóficas, contraindo assim uma prévia obrigação. Tal testemunho passa a ser seu testamento, pois, sabedor de sua morte para a vida profana, o iniciado naturalmente terá que fazer aquele juramento.

É nessa Câmara ou Caverna terrível, solene e escura, que se passa o primeiro momento em que se desvendam os olhos do recipiendário. Ali ele medita solitário sobre o que se vê, seu vigia é a morte, na qual ele deve pensar; não obstante, deve também pensar na nova vida uma vez que lhe são feitas perguntas sobre Deus, sua Nação, sua Família, o resto dos Homens e ele próprio.

Somente depois desta experiência maravilhosa, de vivenciar a primeira morte, o recipiendário estará pronto, para as demais provas.

Autor: Klebber S. Nascimento