As contenções da liberdade. A Maçonaria e a Internunciatura Apostólica no Brasil do século XIX (Parte III)

A IMPORTÂNCIA DA GESTÃO DE CONFLITOS PARA O SUCESSO DE UM NEGÓCIO - DVF

A instrução da Internunciatura

Há que se considerar que o conflito católico-maçônico no Brasil, que deu origem a instrução da internunciatura, estava situado no conflito que era universal, mas que reflete as especificidades das relações dos segmentos em conflito a partir da questão religiosa. Preocupava, sobretudo, a experiência Europeia em função das associações da maçonaria com governos que restringiam a presença da igreja. Além disso, havia evidente intenção de reforçar a autoridade simbólica do catolicismo junto à sociedade brasileira, e como decorrência reforçar também a autoridade das ações do clero no enfrentamento. A especificidade da experiência brasileira também deve levar em conta a manifesta hostilidade interna dos setores liberais e do governo, e a perplexidade geral resultante do encarceramento dos bispos católicos na crise da Questão religiosa.

Do ponto de vista estratégico o documento pelo seu agente emissor, marcava posição junto ao Estado brasileiro, transformava a questão doméstica em questão diplomática, por causa da procedência do texto, a Santa Sé, a diplomacia vaticana, e a internuciatura. Além disso, inibia as ações da igreja no Brasil, para aproximação com a maçonaria, a defesa que muitos faziam dela, com a tese de não ter ela a índole anticlerical que se verificava em outras partes do mundo. Ao mesmo tempo, o documento mantinha a igreja como interlocutora nas questões em debate no Império.

Do ponto de vista social o documento tem um caráter marcadamente segregador, na medida em que distingue os “afiliados” da maçonaria, como objeto de tratamento específico, restritivo, e também simbólico em relação aos fieis católicos que recebiam elogio implícito da sua fidelidade, ao contrário dos que eram objeto de sanções eclesiásticas. O discurso pressupunha a prerrogativa da igreja como portadora de autoridade que o catolicismo possuía para julgar a Maçonaria

Se o discurso atrai, o documento procurava reforçar sua força autoritativa por ser um discurso que historicamente a igreja reeditava. Além disso, a proximidade temporal com a Questão Religiosa sugeria que a igreja mantinha sua posição mesmo em face do rigor com que foi tratado sob a lei durante a crise, e fazia repercutir sua palavra junto aos setores envolvidos, que incluía proeminentes intelectuais e juristas que tomaram posição a favor da igreja, além de congregar em torno da autoridade eclesiástica os fiéis católicos, e mandar uma mensagem implícita para os protestantes, envolvendo todos os setores que estiveram nos embates da Questão Religiosa: o poder público, os fiéis católicos, e os protestantes como beneficiários indiretos. [42]

Uma vez que o embate se dava também no plano institucional, deve-se ter em conta que as instituições operam como um conjunto das formas ou estruturas fundamentais da organização social, tal como são estabelecidas pela lei ou costume nas diversas sociedades, é esta concepção que realça o papel dos conflitos políticos e a atribuição do caráter propriamente político assumido por determinadas instituições sociais, como no caso, a igreja católica e a maçonaria. A pergunta a ser colocada é se a influência política das instituições lhes é própria ou se revela somente a incidência de fatores externos.

A fórmula que sustentaria a estratégia era a recorrência à doutrina católica, especificamente no que refere à maçonaria, mais ainda a questão sacramental que se expressava “… num conjunto coerência relativa de representações, valores e crenças”. Valores e crenças operando como ideologia

Diz respeito ao mundo no qual os homens vivem suas relações com a natureza, a sociedade, os outros homens e sua própria atividade sócio-política. Faz-se presente em todas as atividades dos membros de uma sociedade de tal forma que ela (a ideologia religiosa) é indiscernível de sua experiência vivida”. [43]

Lembremos que todo ato de comunicação constitui-se um processo, no qual a ação percorre uma trajetória, com vista a tornar comuns os elementos de comportamento, experiências, sentimentos, ou modos de vida. Sua efetivação promove um sentido de unidade entre ideias e aspirações. Este o processo de comunicar reveste-se de função social, porque ao prover a identidade de aspirações, por exemplo, remete a normas que estruturam a ação comum dos sujeitos que estão envolvidos nesse processo, e que resulta em forma organizativa dos agrupamentos sociais. Sabe-se que nessa função social o processo se propõe a prover a estrutura ideológica para a vida dos seus destinatários através de recursos semiológicos, psicológicos, semânticos, etc.

No caso aqui referido se reconhece episcopado de um lado, clero, fieis e público geral, de outro, tendo a instrução pastoral como instrumento de mediação. A teoria comunicativa informa a necessidade de um “campo comum” entre emissor e retor, e que quanto maior a interação entre estes, melhor se realiza o processo comunicativo. O emissor pretende sempre que sua mensagem possua o poder modificador e leva em conta a situação histórica e a disposição dos destinatários.

Como lembra José Carlos Araújo, este projeto corresponderá ao “estado de espírito ideológico” mannheimiano no qual “as ideias são estranhas a realidade e transcendem a existência social”, ainda quando tais ideias, situacionalmente transcendentes permanecem “no nível da realização e na manutenção da ordem de coisa existentes”. [44]

Neste contexto o depositário das ideias ideológicas é o grupo religioso, institucionalmente denominado igreja católica, pois, possui um sistema intelectual, racional e ético, que porta e veicula uma interpretação doe sobreo mundo abarcando a vida ante e pós morte. [45]

Tal caráter ideológico do discurso produzido pela igreja católica é inevitável na medida em que sempre operou como representante de uma determinada ordem e pretendeu exercer o controle das ideias e interesses remissos a transcendência, impossíveis de serem efetivados no quadro de uma ordem autônoma, e porque pretendeu manter as coisas, ou seja, a posição da igreja foi de assegurar seu lugar social historicamente instituído.

Como demonstra Mannheim, sempre o grupo dominante que esteja em pleno acordo com a ordem existente irá determinar o que se deve considerar utópico, ao passo que o grupo ascendente em conflito com as coisas como estão, determinará o que deve ser considerado ideológico. [46]

A perspectiva da igreja católica era acordar-se com a ordem existente, pois não lhe convinham mudanças. Por esta razão ela caracterizará, por oposição, as utopias em relação aos grupos ascendentes a direção política que carrega consigo uma visão emancipada do mundo e do homem, a modernidade. O poder político ambiguamente representava a visão dominante e o conflito com outra ordem que abalaria o status quo.

Embora o senso comum repute negatividade ao conflito, a sociologia já demonstrou que ele é um dos mecanismos básicos da interação social. De fato, o conflito fixa fronteiras entre os grupos internos de uma mesma sociedade, robustecendo a consciência dos grupos, uma vez que a distinção favorece a afirmação de identidades. Quando grupos sociais se repulsam reciprocamente forjam no sistema social total um equilíbrio, ainda quando reclamam delimitação entre eles, e o meio ambiente social.

O documento em estudo Instrução aos Revmos. Ordinários do Brasil[…] é sugestivo a partir da sua construção enunciativa. Dentro da estrutura do direito canônico, a modulações de linguagem oferecem sugestões que não correspondem literalmente ao que a forma sugere. Evidentemente que o caráter do pronunciamento não tinha mero conteúdo de instrução, mas era um instrumento normativo, que fixava padrões de “como proceder”, bem como, embora aparente impor mecanismo para a contenção de uma dupla militância de católicos que se ligassem a maçonaria, o documento oferecia recursos para enfrentamento ideológico com a maçonaria, em seguida anunciada como “seita maçônica”, o que lhe atribuía à condição de grupo religioso, diretamente, e com o poder civil, indiretamente.

O texto refere-se “a seita maçônica que tantos danos tem causado a religião nesse país..”. o que apresenta a justificativa para o combate contra a maçonaria de forma tríplice: sua condição de seita, os males a religião, e os danos aos país. Apela-se a ação do clero, tomando-se como óbvio os danos, uma vez que não se enumera nem caracteriza tais males, mas se afirma de forma implícita, que a omissão do clero corresponde à perpetuação dos danos a religião e ao país. Mas não havia como não saber os comprometimentos do clero com ideologias alheias a ortodoxia romana. Não se cogita, portanto, um diálogo pacificador, mas “forte repressão” que não será resultado de ações isoladas ou resultados de improvisos, mas que demanda escrupuloso rigor na sua implementação.

Obviamente, uma crise de legitimidade no sistema social, como a ambígua separação de poderes em um estado confessional, como o Brasil imperial, impõe aos grupos com posições de influência objetivamente similares que, por meio do conflito, constituam-se grupos autoconscientes, com interesses próprios a defender, e a própria estrutura social estabelece o grau de conflito admissível, e seu limite é que não provoque a anomia social, como evidenciado na Questão Religiosa.

Considerando que toda identidade é política, compreende-se que no texto incide um enunciado sobre a construção das identidades, que sempre são politicamente ativas, e sua afirmação ou o surgimento se dá num espaço ocupado por outras pretensões de identidade e porque a referida afirmação consiste em traçar uma fronteira de alteridade que separa oque se é do que não se é. Ao mesmo tempo, não se ignora que toda identidade é contingente e remete a condições históricas, sociais, culturais e políticas, contingência que desautoriza suas pretensões de detenção da verdade, de legitimação universal ou de superioridade natural.

Segundo a perspectiva de Rubem Alves (1982), uma vez que o sagrado e a verdade não habitam as instituições, mas invadem o nosso mundo através da consciência, e que os sistemas religiosos são organizações simbólicas do mundo, cuja linguagem não é facilmente distinguida dos outros instrumentos linguísticos, é neste lócus que se acentuam as múltiplas formas do conflito, muitas vezes já esgotadas nas formas institucionais, mas mantidos em seus aparatos simbólicos.

Segundo o mesmo autor, “a combinatória de todos os conceitos de uma linguagem é o limite do que pode ser pensado com ela[…] Nenhuma linguagem pode assimilar os conceitos estranhos a si mesma, sem com isso condenar-se a destruição”[47], como sugere o texto da Instrução remetendo a norma da doutrina católica acerca da maneira de tratar os maçons, principalmente no que diz respeito aos sacramentos e aos outros bens espirituais, de cuja comunhão eles deveriam ser inteiramente privados, no caso, em forma de antítese de dois princípios: a norma da doutrina católica, e a maneira de tratar os maçons.

Ainda segundo Alves, “a aceitação de um discurso como verdadeiro e ortodoxo, e a rejeição de outro como falso e heterodoxo se dá ao nível do poder político dos sujeitos que o enunciam e sustentam tais discursos. O que importa é quem tem a última palavra” (Id., p. 38). No mesmo sentido Maurice Durverger (1961) indica que política é enfrentamento, onde os grupos que exercem o poder lutam contra os que lhes ameaçam o que se dá com vistas à preservação do bem ou resistência ao mal, concebida a partir do status social dos oponentes, objetivando a preservação de determinada ordem ou sua subversão. Afirma o autor:

toda a contestação da ordem social existente é a imagem e projeto de uma ordem superior, mais autêntica. Toda luta é portadora de um sonho de integração, e constitui um esforço para o encarnar. Para muitos, luta e integração não são duas faces opostas, mas sim um único e mesmo processo de conjunto gerando a luta naturalmente a integração, tendendo a antagonismos, pelo seu próprio desenvolvimento para a supressão e para o advento de uma Cidade harmoniosa. [48]

Estas formas de embate político têm como background o poder exercido sempre em proveito de algum grupo, nível onde conflituam os interesses dos diversos segmentos sociais. O fato é que as instituições políticas determinam o quadro interior no qual se desenrolam os combates políticos, e assimilam em sua arena de luta as instituições “para-políticas”, aquelas que não instituídas como organizações políticas, mas que exercem efetivamente este papel na sociedade, como a igreja. O ambiente onde se desenvolvem os antagonismos pode polarizar os blocos em disputa em uma oposição máxima.

A instituição é um mecanismo social que estabelece os parâmetros comportamentais dos indivíduos de forma especializada, de sorte que eles reproduzem os objetos predeterminados pela Instituição, assim, força os indivíduos a produzirem segundo o modelo pré-estabelecido, como, por exemplo, a dimensão excludente entre ser católico e maçom que se considerava intolerável.

Na formação social brasileira, ainda no século XIX, o sacerdote operava como referência societária e comunitária, desta forma, se parte do clero se tornava membro da maçonaria, isto podia ser tomado como consentimento ou legitimidade para a participação de leigos católicos na maçonaria, o que representava uma “dissidência” e consequentemente um enfraquecimento do próprio catolicismo.

O empenho da igreja em manter seu status e papel social reflete o fato que as instituições, enquanto respostas aos problemas concretamente vividos na organização da vida social, somente se justificam na medida em que preservam sua eficácia prática, e que em sua institucionalidade o passado tem sempre prioridade sobre o presente, onde aquele funciona como modelo desses, daí a remissão ao enfrentamento com a maçonaria como experiência de longa data na trajetória da igreja, como sendo certo e mais que certo, que a maçonaria deveria ser considerada entre as sociedades condenadas pelas Constituições Apostólicas.

Na medida em que as instituições são eficazes, ninguém precisa alterá-las, e a funcionalidade é confundida com verdade, o discurso sobre outras instituições toma forma de justificação ideológica, e passa-se a usar a descrição das realidades institucionais, como base para os imperativos éticos, que no documento em estudo se nomeia como bens espirituais, conformidade a “norma da doutrina católica[…]”; “sacramentos e aos outros bens espirituais, as bênçãos e […]” “cerimônias eclesiásticas”; “poderão ser absolvidos da excomunhão em que incorreram e para este fim Sua Santidade benignamente concede[…];” reconciliado com Deus e com a Igreja pela absolvição.

Ainda segundo Durverger o combate político insere-se nas práticas sociais onde os sujeitos refletem as categorias sociais em conflito, e se subordinam a situações conjunturais e históricas do próprio ambiente societário no qual se situam, assim, compreende-se o apelo ao clero “contra os males a religião e ao país”.

Uma vez que não se cogita o diálogo pacificador, se reafirma que “será tanto mais fortemente reprimida”, quanto mais “escrupulosamente for observada pelo clero a norma da doutrina católica acerca da maneira de tratar os maçons”, a fórmula que sustentaria a estratégia era, portanto, a recorrência à doutrina católica, no que refere à maçonaria, mais especificamente a questão sacramental, explicitamente no que diz respeito aos sacramentos e aos outros “bens espirituais”, de cuja comunhão eles devem ser inteiramente privados até que abjurem da “ímpia seita”.

Não se ignora que o conflito com outros grupos torna mais nítido as fronteiras de cada grupo, ao contrário das tensões intramuros que ameaça derrubar as fronteiras já estabelecidas do grupo, o que explica a insistência que o texto revela nas informações chegadas a Roma, apontando a lassidão com que o problema de admissão dos maçons nas práticas religiosas acarretava, quando afirma textualmente que: “a S. Sé esteja bem informada de que a praxe seguida pelos párocos desse império difere muito nesse ponto a Sagrada Congregação”, com a aprovação do Santo Padre.

Nesta seção o quadro ganha nova gravidade porque se aponta para a cumplicidade ou omissão do clero. O clero, não era infenso as relações que marcavam a vida social dos Oitocentos, e muitos deles, adotavam a maçonaria como espaço pra expressão de suas convicções políticas liberais. Por isso, se apela ao princípio de autoridade porque a matéria estava agora no âmbito da Sé romana, e se estabelece velada ameaça, apontando que a questão não estava cativa da dimensão administrativa, mas jurídica, porque sob os olhares do órgão sensor, a Sagrada Congregação da Santa Inquisição. Ambas, a Cúria e a Congregação estavam sob o aval do próprio pontífice.

É conhecido como os sistemas religiosos tendem a absorver a personalidade inteira dos seus fiéis. Porque a união entre os membros é muito mais forte do que naquelas onde prevalecem relações do tipo fragmentário. Assim, os credos tendem a reprimir os antagonismos internos e os desvios de conduta, sobretudo, entre as lideranças e aqueles investidos de autoridade, como já indicamos, com a adesão de clérigos e fiéis a maçonaria.

Na verdade, a reação pode ser mais forte nestas condições porque o inimigo de dentro põe em contradição os valores e interesses do grupo e ameaça a unidade. A quebra da norma, ou transigir com o erro, significa e simboliza uma deserção daqueles princípios que o grupo considera vital para seu bem estar, e para sua sobrevivência. O religioso que transige contribui para a fortaleza do grupo oposto ao transferir para este a sua lealdade, primeiro porque sugere possível a dupla militância, segundo porque esta lealdade pode ser mais forte, principalmente pelo fato que transfere maior convicção a sua causa nova

A estes teve por bem “relembrar as coisas seguintes, que todos deverão cumprir fielmente”. Outra vez o expediente discursivo aparece de forma sutil, porque se tratava não de novo regramento, mas de “relembrar” o que já era dever do clero, porém, esta “lembrança” exigia que as obrigações fossem “cumpridas fielmente”. E o documento insiste: “e falando primeiramente do sacramento do matrimônio, não se pode de modo algum tolerar o que sucede em algumas dioceses, segundo consta, a saber, que sejam celebrados os matrimônios dos maçons com toda solenidade do rito católico”.

Neste ponto importa pensar porque as dioceses casavam os mações, contra a regra católica. Num ambiente em que não somente os estratos médios e subalternos da sociedade aderiam à maçonaria, mas de fato, predominava entre membros da elite intelectual e política, não convinha ao clero se indispor com estas elites, por isso, as autoridades diocesanas tendiam a contemporanizar com tais práticas, preterindo o rigor. De resto, senão na hierarquia, mas no clero graduado no governo diocesano a percepção sobre a maçonaria não se fazia sobre os documentos eclesiásticos, mas sobre o contexto social do Brasil imperial.

O objetivo no documento era colocar os maçons numa condição de pária social, subtraindo a legitimidade das suas relações sociais, notadamente, familiares, num contexto que o status civil do casamento fixado em lei brasileira era novo e não gozava de plena efetividade enquanto norma jurídica. Esta estratégia não significava apenas uma hostilidade aos maçons, e sim um mecanismo de demarcação dos espaços de poder dentro da ordem política imperial, com o enfraquecimento da maçonaria, através de uma contrapropaganda que subtraísse sua possibilidade de ampliar a inserção sobre segmentos sociais tradicionalmente menos infensos a influência do catolicismo, ou seja, catalisar novos membros para a maçonaria entre os católicos. Mas fica a pergunta até que ponto sansões eclesiásticas inibiam a adesão à maçonaria?

Havia irmandades católicas com membros e dirigentes maçons, tanto que foram objeto de sansões eclesiásticas pelo bispo de Pernambuco na Questão Religiosa, e também livres pensadores, profissionais liberais e acadêmicos, além de membros do governo em todas as instâncias, já filiados as diversas lojas pelo país.

Se percebermos a comunidade como a realidade social dentro da própria instituição social, no sentido em que ambas afirmam os mesmos símbolos, uma vez que os símbolos que a comunidade usa foram mediados pela instituição, se entende mais precisamente o que era a sansão eclesiástica num ambiente social e culturalmente católico.

Se por um lado a hermenêutica da instituição é uma em que a significação dos símbolos já foi esgotada pelo passado, cabendo-nos agora simplesmente explicitá-los com maior clareza e aprofundá-los, a comunidade, por sua vez, possui uma compreensão que os símbolos não se encontram apenas no significado herdado do passado, mas precisa ser ressignificados no presente vivido.

O documento afirma que antes, se algum maçom, sendo conhecido como tal, desejar contrair matrimônio, o pároco é obrigado a procurar com todas as forças, “que ele deixe a maçonaria”. Ora, em todas as relações de conflito, as disposições hostis agressivas acumuladas, podem não só descarregar sobre o objeto primordial da hostilidade, mas também sobre os objetos substitutivos. Neste caso, exemplarmente, a hostilidade contra “a seita maçônica” volta-se contra o maçom católico, pretenso beneficiário dos bens espirituais. É evidente que a privação da vivência religiosa dos indivíduos particulares não poria fim a “seita maçônica que tantos males tem feito a religião e ao país”. Portanto, o conflito direto com funções primárias de oposição não esgota a experiência conflitual, pois, ela pode derivar para objetos substitutivos ou obter satisfação alternativa mediante uma simples liberação da tensão, como as restrições às práticas religiosas para atingir a maçonaria, coagindo alguns a deixá-la, sob pressão social ou familiar.

A literatura sobre a situação religiosa da América Latina sob influência católica, explica a substituição do foco sob o maçom anelante por casar-se, para a família da nubente, na recomendação que “caso não queira [abjurar da maçonaria], o pároco se esforce seriamente em afastar com oportunas admoestações a esposa e seus pais de semelhante consórcio”, pois segundo anotado no jornal mexicano El abogado cristiano ilustrado: “a igreja tem em seu poder as mães, esposas, filhas, irmãs, toda a família, enfim, que satisfazem todos os seus gastos e gestos”[49], favorecendo a submissão da consciência [50].

E o documento insiste que:

Quando, porém, o pároco não puder de modo algum impedir a realização do matrimônio, e prudentemente recear que, negando sua assistência, resultará escândalo ou dano grave, então leve o fato ao conhecimento do ordinário, o qual, em virtude da faculdade competente que agora lhe é outorgada, depois de examinadas e pesadas todas as circunstâncias do caso, poderá permitir que o pároco assista o matrimônio passivamente, isto é, sem as bênçãos e sem as outras cerimônias eclesiásticas, apenas como testemunha autorizável, e neste caso.

A resposta a violência, com a exclusão do hostil assegura a sobrevivência do grupo e elimina a acumulação de disposições hostis, permitindo a manutenção interativa das relações, uma vez que o conflito modifica os termos tradicionais do relacionamento, pois, a simples hostilidade não produz necessariamente estes efeitos e até pode preservá-los. Nesse caso, a admissibilidade tinha objetivos precisos: impedir que se retorne aos níveis de tensão com o Estado como na Questão Religiosa. Evitar tensões com Estado que tendia a favorecer a maçonaria, afinal, a doutrina não previa este expediente de tolerância a que a igreja, contra sua vontade, se submetia para minimizar consequências do enfrentamento.

A Instrução determinava ainda:

devem ser tomadas previamente as precauções e providências necessárias para a educação de toda a prole, e observadas as demais condições de estilo. A referida faculdade poderá ser delegada em reservado aos párocos, sempre que o ordinário achar necessário. Quanto, porém, ao matrimônio entre uma parte católica e outra que afastou da fé para professar alguma religião falsa, ou seita herética, é preciso requerer a costumada e necessária dispensa com as prescrições e cláusulas conhecidas e de estilo. [51]

Como dissemos, é menos perigoso para um grupo se quem se separa se passa para o inimigo do que se, como faz o dissidente, forma seu próprio grupo rival dentro da instituição. Além disso, professando repartir valores do grupo, o dissidente cria confusão e, portanto, suas ações se consideram como uma tentativa de derrubar fronteiras. Pelo contrário, a percepção de perigo interno pelo conjunto do grupo faz com que se robusteçam suas fileiras, aumentando a discussão interna e a participação na vida grupal, ou seja, mobiliza as defesas do grupo.

Além disso, a exigência que os Ordinários, “em nome da S. Sé, recomendem aos confessores, que admoestem severamente aos seus penitentes, para que não se associem a maçonaria”, aponta para um catolicismo como o único espaço de objeção a maçonaria e a adesão progressiva de católicos, sobretudo, clérigos, que abria a mencionada faixa de vulnerabilidade que enfraqueceria ainda mais a condição do catolicismo no Brasil, já vitimado pela Questão Religiosa, o regalismo e o protestantismo que se estabelecia.

Segundo Vieira o núncio temia o protestantismo, pois, a igreja católica mantinha o desejo de possessão, subjugação inclusive de aniquilamento do inimigo, tendendo a se satisfazer mediante combinações e sucessos separados da luta. Quando o conflito é simplesmente um instrumento determinado por um objetivo mais amplo, não há razão para restringi-lo ou inclusive, evitá-lo, sempre que possa ser reimplementado por outras medidas que ofereçam possibilidade de êxito.

O documento procura criar uma rede sem escapatória insistindo que a ruptura quanto à maçonaria devia incluir outras sociedades secretas semelhantes a estas, nem tão pouco “tomem parte em suas reuniões, nem lhe prestem apoio ou proteção”, e os mesmos confessores “neguem absolvição sacramental aos que se mostrem pertinazes”.

Quanto, porém, “aos que se arrependerem sinceramente”, prossegue o documento, estes “poderão ser absolvidos da excomunhão em que incorreram” e para este fim Sua Santidade benignamente concede aos Ordinários as faculdades necessárias e oportunas pelo espaço de dez anos.

Demais, saibam os Confessores que os afiliados a sociedade denominada pedreiros livres, embora estejam arrependidos de terem prestado o juramento, não se pode dar a absolvição sacramental, senão depois que eles de uma vez para sempre, tiverem deixado de um modo absoluto e positivo a dita sociedade, ou ao menos prometerem deveras que o farão o quanto antes.

Ainda mais, deve-se proibir absolutamente que os maçons notórios sejam padrinhos de abismos ou de crisma, visto como eles, enquanto aderirem à uma seita condenada pela Igreja, são incapazes de promover a educação cristã de seus filhos espirituais quando se torne preciso.

Ainda na questão simbólica, foi dada a ênfase a questão dos enterramentos. Neste particular Pernambuco tinha um caso emblemático, com a negação de sepultura ao general Abreu e Lima por haver defendido a legitimidade das bíblias protestantes. A regra impunha que

Resta que se observe com exatidão as prescrições da Igreja relativas a sepultura e exéquias de maçons. Ei-las: não se pode dar sepultura eclesiástica aos maçons notórios, senão depois que eles, feita a devida retratação, se tiverem se reconciliado com Deus e com a Igreja pela absolvição. Se, porém, a morte lhes vier inesperadamente, de modo que não tenham podido fazer a retratação de estilo, e, não obstante, tiverem mostrado desejo e dado sinal de arrependimento, neste caso poderão ter sepultura eclesiástica, mas sem exéquias pomposas e solenes. Também devem ser privado da sepultura eclesiástica aqueles que, depois de recebido os sacramentos, pedir para ser sepultado com as insígnias maçônicas, exceto o caso de tenha demonstrado essa vontade. Quando, porém, por perversidade de outrem, contra o desejo do finado, forem colocado no féretro emblemas maçônicos, a menos que se tenha conhecimento disso, se faça retirá-las inteiramente de junto do cadáver. É, pois, manifesto do que fica exposto, que não é de modo algum permitido o que ali se costuma praticar em alguns lugares segundo esta Sagrada Congregação está informada, que os cadáveres sejam sepultados segundo o costume maçônico com acompanhamento e presença do clero.

Nas diversas formulas em que se instituem os conflitos sociais, a irracionalidade constitui-se apenas em uma das variantes do processo e representa o esforço por alcançar metas culturalmente prescritas através de meios socialmente proibidos, e em regra referem-se mais aos instrumentos do que a expressão. Todavia, outros tipos de desvio podem servir para liberar a tensão. A ação não serve como meio para obter um resultado específico.

A conclusão do documento guarda o caráter incisivo que permeia todo o texto:

Quando aos casos em que se deve negar a sepultura eclesiástica se houver receio de grave perturbação, os Ordinários, para procederem com mais segurança em negócio de tanta monta, observem a resposta da Sagrada Penitência. Convém a saber: todas as vezes em que se exigir com graves ameaças exéquias e sepultura eclesiástica para um defunto que tenha sido excomungado notório deve ser inteiramente privado das mesmas segundo os Sagrados Cânones e disposições de Direito, a sagrada Penitência em 10 de dezembro de 1860 prescrevem que se proceda do seguinte modo: “Se procure fazer tudo de conformidade com os sagrados cânones, quando porém não se possa fazer assim sem perigo de perturbações o escândalo, o pároco não preste de modo algum, nem por si, nem por outro Sacerdote o seu concurso para as exéquias e sepulturas”.

A conduta está relacionada a um campo social, e o conflito, como fenômeno social, somente pode ser compreendido dentro de um quadro de ação recíproca, como infere Montenegro

Religião é a própria concepção da monarquia apoiada num mito, cuja condição de representação mental primitiva embasa a religiosidade do povo, valorizando o paternalismo no campo social e político, traduzido na linguagem religiosa como providencialismo, mesmo porque “a coroa tem da religião uma imagem utilitária, já imbuída do racionalismo e valendo-se da união com a igreja, num momento histórico alheio a suas causas, não mais subsistentes, para investir contra ela, e reduzindo-a a impotência, assomar como força soberana única e incontestável, a ponto de tê-la submissa, mercê da política regalista. Neste quadro sintomática a incapacidade política da Cúria, do episcopado e do clero brasileiros aferrados aos dispositivos do direito canônico e da legislação civil, incapazes de promoverem uma revisão ou reforma no Estatuto Eclesiástico, na metodologia pastoral e de retificarem posições axiológicas sediças, mesmo sobre as violentas pressões do tempo. Muito ao contrario apegam-se ferrenhamente a privilégios temporais injustificáveis fomentando a onda de anticlericalismo e ceticismo religioso que assolou o Império. [52]

Finalmente, conclui o documento

sendo certo e mais que certo, que a maçonaria deve ser considerada entre as sociedades condenadas por Constituição Apostólica, de maneira alguma se pode permitir que os maçons assistam o Santo Sacrifício da Missa, e outras funções eclesiásticas de caráter oficial, isto é, com representantes da seita. Se deve igualmente proibir que o clero por convite ou mandado dos maçons celebrem missa ou funções eclesiásticas, como encomendadas ou mandadas pelos maçons, ou publicadas como tais em convites ou folhas públicas.

Considerações finais

Observando a imprensa secular, os jurisconsultos, os debates parlamentares, as reações populares, percebe-se nitidamente que a questão não se restringia a um desentendimento de duas agências políticas, antes, envolvia toda sociedade brasileira. Tradicionalmente católica, com sua própria compreensão da fé, amplos setores não percebiam contradição entre ser católico e maçon.

Mas o problema não se esgota como expediente doutrinário, a crise era política, do catolicismo historicamente atrelado ao estado, que, sentindo-se traído por este no apoio a maçonaria, acena com a ruptura das relações de compromisso, consequentemente, com a quebra da ordem.

Sentindo que sua condição no combate era desfavorável, o catolicismo substitui a estratégia, abandona o embate direto da igreja no Brasil com o Estado, e deixa que a questão seja reelaborada como expediente diplomático, pressionando o Estado a restaurar suas relações internacionais, e obrigando a igreja do Brasil a se conformar as diretrizes da igreja universal.

O documento da inernunciatura evidencia a tese citada de Rui Barbosa, que a questão não era forânea, circunstancial, o pessoal pelo temperamento voluntarioso do bispo. O documento deixa entrever que a igreja em Roma continuava com as mesmas demandas que sempre tivera em relação ao catolicismo brasileiro, e entendia que o governo imperial estava fadado a direcionar os interesses dos Estado na conformidade com a religião oficial e da tradição brasileira.

Finis

Autores: João Marcos Leitão Santos e Elza Silva Cardoso Soffiatti

Fonte: REHMLAC

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Notas

[42] – João Marcos Leitão Santos. A inserção do protestantismo em Pernambuco 1860-1891. (Tese de Doutorado em História Social, Universidade de São Paulo/USP, São Paulo, 2008). João Marcos Leitão Santos. “Protestantismo e tradicionalismo católico em Pernambuco no século XIX”. In: História das religiões no Brasil, Sylvana Brandão; Luiz Carlos Luz Marques, & Newton D. de Andrade Cabral (Recife: Bargaço, 2012), v. VI.

[43] – João Carlos Libâneo, apud José Carlos S Araújo, A Igreja católica no Brasil Um estudo de mentalidade ideológica (São Paulo: Paulinas, 1986),27.

[44] – José Carlos S. Araujo, A Igreja católica no Brasil, 42.

[45] – Riolando Azzi, O altar unido ao trono (São Paulo: Edições Paulinas l993).(História do Pensamento Católico no Brasil –V. III).

[46] – Karl Mannheim, Ideologia e utopia (Rio de Janeiro: Guanabara, 1983), 227.

[47] – Rubem A. Alves, Dogmatismo e Tolerância (São Paulo, Paulinas, 1982), 35-36.

[48] – Maurice Durverger, Introdução à política (Lisboa: Estudios Cor, 1961),17.

[49] – EL ABOGADO CRISTIANO 13.6.1901.

[50] – Maria Luiza Marcílio, Família, mulher, sexualidade e Igreja na história do Brasil (São Paulo: Loyola, 1993).

[51] – Sobre esta questão de casamentos com membros de uma religião falsa ver João Marcos Leitão Santos. “Religião e Direitos Civis. Direito acatólico em Pernambuco no século XIX”, Revista da Faculdade de Direito de Olinda (2005): 121-139. Ítalo Domingos Santirocchi.“O matrimônio no Império do Brasil: uma questão de Estado”. Revista Brasileira de História das Religiões 12 (2012): 81-122.

[52] – João Alfredo Montenegro, Evolução do Catolicismo Brasileiro (Rio de Janeiro: Vozes, l979).

Fontes

A Província. A Esperança. A União. A Verdade. Imprensa Evangélica. Diário de Pernambuco. Família Universal. O Metodista Católico. O Apóstolo. O Liberal. O Catholico, 1869-1872.Instruções aos revmº Ordinários do Brasil, sobre o modo como devem proceder com os afiliados à maçonaria. Chancelaria Suprema e Sacra Congregação Romana e Inquisição Universal. Roma, 1878. Carta Pastoral do bispo de Olinda premunindo seus diocesanos contra as ciladas e maquinações da maçonaria. Recife, 1873. D. frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira. Carta Pastoral do bispo de Olinda saudando seus diocesanos depois da sua sagração. São Paulo, 1872. D. frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira. Costa, Antonio de Macedo. Representação à Assembleia geral Legislativa. Rio de janeiro: Lamounier, 1864.

Bibliografia

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Resposta a um maçom desiludido (II) 

O que é e o que faz a Maçonaria? | São Carlos em Rede

O artigo anterior [1] foi a expansão de uma resposta que dei privativamente a um irmão que comentou outra matéria, para compor o texto sobre a desilusão ou quebra de expectativa, algo que, em minha opinião, representa um dos maiores, se não o maior problema da Maçonaria em nível mundial.

Esse irmão replicou ao meu comentário ainda com algumas noções equivocadas sobre a Ordem Maçônica. Volto a publicar minha resposta à sua réplica.

A instituição Maçonaria (especulativa), conforme a conhecemos, foi inventada em 1717 e é essa à qual pertencemos. Basta ler o Artigo 1 da Constituição de Anderson para ver que os inventores dela pretendiam somente que a loja fosse “um centro de união para reunir homens que de outra forma nunca se conheceriam”. Eles não falaram em sociedade iniciática ou coisa parecida.

“Artigo 1 – Um maçom é obrigado por seu mandato a obedecer à lei moral e, se compreende bem a arte, nunca será um ateu estúpido nem um libertino irreligioso. Embora nos tempos antigos os maçons fossem obrigados em cada país a praticar a religião daquele país, qualquer que fosse ela, agora é considerado mais conveniente apenas obrigá-los a seguir a religião com a qual todos os homens concordam, isto é, ser homens bons e verdadeiros, ou homens de honra e probidade, quaisquer que sejam as denominações ou confissões que ajudam a diferenciá-los, de forma que a Maçonaria se torne o centro de união e o meio para estabelecer uma amizade sincera entre homens que de outra forma permaneceriam separados para sempre.”

O “ritual” operativo era simples, chamava-se “Palavra de Maçom” e o maçom era (ainda é) “feito” e não “iniciado”. O Aprendiz não era bem um membro da loja. Ele estava vinculado diretamente ao Mestre da Loja a quem devia obediência. Terminado o seu período de treinamento, geralmente de sete anos, ele era apresentado à Loja para receber sua obrigação, o toque de maçom e a(s) palavra(s) de passe. Nesse momento, liam para ele a História do Ofício (algo como aquela introdução das Constituições de Anderson – que não era exatamente igual à dos Operativos, já que Anderson inventou uma mitologia própria dessa nova invenção de 1717) e suas Obrigações (Old Charges) que ele jurava cumprir. Passava então a ser Companheiro. O grau de Mestre só viria a ser inventado vinte anos depois.

Esse ritual foi adotado pelas lojas da Maçonaria de 1717. Toda a filosofia adicional foi gradativamente sendo introduzida e deformando a instituição original, transformando-a em outra coisa totalmente diferente. Isso aconteceu principalmente no Continente europeu, quando a Franco-Maçonaria foi transplantada para o ambiente latino. Foi também quando Rosacruzes e outros hermetistas descobriram as lojas maçônicas que lhes ofereciam a estrutura ideal para estudar suas matérias. E assim foi, um pendura uma coisa aqui, outro pendura algo acolá, e aquela pequena construção que abrigaria os homens sérios e de bons costumes foi se transformado em uma catedral barroca parecida com a Sagrada Família de Barcelona.

Quanto aos operativos, eles eram efetivamente rudes e analfabetos, com exceção talvez do Mestre da loja (proprietário da empreiteira) que detinha um conhecimento um pouco mais ampliado, provavelmente conseguindo ler as plantas traçadas pelo Arquiteto (que quase nunca era um maçom, e na maior parte das vezes era um eclesiástico). Se puder ler em inglês, leia as constituições manuscritas dos operativos (publiquei na Amazon um livro “Old Charges of the British Freemasons” que dá uma visão mais clara do mundo deles.

As catedrais eram concebidas por eclesiásticos ou nobres que eram os arquitetos. Veja-se o caso da Catedral de St. Paul em Londres, em que o arquiteto foi o Mestre de Loja (Operativa) Sir Christopher Wren e as lojas operativas irlandesas, escocesas e inglesas a construíram.

Os maçons eram apenas uma das guildas que construíam aquelas obras, havia guildas de pedreiros, de ferreiros, de vidreiros, de carpinteiros, de escultores, etc. Cada uma delas especializada em uma parte da obra. Essa noção de que só os maçons pedreiros construíram as catedrais é parte da plêiade de desinformação publicada por “achistas” que não pesquisam e que ousam publicar suas ideias sem base. A Madras aceita tudo.

Mas, conforme dissemos no artigo anterior, a Maçonaria pura e simples se reduz ao cultivo da fraternidade, ao aperfeiçoamento pessoal e sua projeção no meio e dentro desse aperfeiçoamento pessoal, existem os “Altos Graus” ou Graus Filosóficos. Ninguém é menos maçom se não for além do terceiro grau. E um maçom de grau 33 (ou de grau 99 como no rito Memphis Misraïm) não é mais importante que um maçom de grau 3.

Agora uma confissão. Eu mordo a língua e me penitencio de público nesse momento. Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa

Eu costumava fazer blague de algumas lojas que eu chamava de R.E.A.A. – Ritual E Ata e Ágape. Minha crítica era que aquelas lojas não exercitavam um aspecto tradicionalmente desenvolvido na Maçonaria brasileira: a participação na política de sua comunidade. É claro que não me referia ao Rito Escocês, e também eu dizia isso sobre as lojas das grandes cidades que geralmente não têm ação política porque os centros de poder são muito descentralizados, o que não ocorre em pequenas e médias cidades, onde a Maçonaria pode exercitar sua tradicional influência sobre as instituições da sociedade, em linha com nossos fundadores de 1822.

A Maçonaria brasileira, tanto reconhecida quanto não reconhecida, não tem consciência de que têm o DNA francês e que o intervencionismo é uma de suas características. Pretende seguir a orientação de Londres de “não discutir política nem religião”, mas na prática cada candidato que ingressa na Ordem tem no seu inconsciente a imagem da maçonaria “francesa” que foi a Maçonaria brasileira até início do século XX. E muitas vezes se frustra ao descobrir que isso é coisa do passado e que hoje muitas lojas são apenas e tão somente redutos conservadores.

Mas, Oh meu Zeus! como estava enganado. A velhice trouxe-me o aumento do entendimento, juntamente com o gosto pelo estudo da história, e acabei descobrindo que o “ágape”, ou “copo d’água” e a loja de mesa são a tradição mais cara e mais importante da Maçonaria, herdada, isso sim, do Mitraísmo, com seus jantares ritualísticos, através da Maçonaria Operativa reunida em tabernas pois, é à mesa, em torno de um bom prato e uma cerveja, que se formam os vínculos mais estreitos.

Na Maçonaria cabem todas as personalidades – para isso existem diferentes ritos que atendem a diferentes tendências – mas que têm um núcleo comum que no fundo é o rito “Palavra de Maçom” original, acrescido de mil penduricalhos e adereços “descobertos” e agregados pelos “achistas” de plantão, descontentes com aquela simplicidade clássica.

Nela há lugar para todo mundo, desde os mais simples até verdadeiros gênios inquietos que se perguntam: “Mas é só isso?” e insatisfeitos partem para uma busca mais profunda de um significado que lhe satisfaça. Todos são importantes e, apesar de seus graus, sempre serão Mestres Maçons e serão melhores maçons na medida em que exercitarem, não os seus altos conhecimentos, mas a simples fraternidade.

Autor: José Filardo.

Fonte: Biblioteca Fernando Pessoa

Nota

[1] – Clique AQUI para ler o artigo anterior.

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A Pedra Bruta e a Pedra Cúbica

Portal Maçônico Orvalho do Hermon: DESBASTANDO A PEDRA BRUTA

Entre os símbolos apresentados, escolhi para o atual trabalho o símbolo da pedra.

Na minha vida secular, toquei, trabalhei, mudei e, finalmente, dei-lhe uma função útil. Sem afrouxar qualquer simbolismo possível de meus atos ou no próprio material. Com um pouco de retrospectiva, a pedra bruta recebe uma redução de suas dimensões, mas tanto ela quanto a pedra cúbica são apenas símbolos.

O trabalho da Pedra é um trabalho longo, meticuloso e preciso, é emocionante porque requer análise e reflexão constantes sobre o assunto. Assim como o homem, ao ser trabalhado a pedra evolui. E a dificuldade reside em ser capaz de criar o elemento perfeito, sem destruir sua própria natureza.

Assim como na vida profana, na vida maçônica as ferramentas serão a chave para este trabalho e serão diferentes dependendo dos estágios. O martelo deixará espaço para o malho, mais preciso e menos pesado. Isso permite um trabalho mais refinado, direcionado, mas ainda assim relaxante.

E, assim como na vida, tudo passa por um aprendizado, mas um aprendizado real: a transmissão de conhecimento de maneira quase tácita, sem influência fundamental, para não distorcer o espírito e levar ao progresso por si mesmo.

É como um artesão que inicia a construção de seu templo interior. Mas deixo pergunta interessante: é possível impor uma única orientação a um artista sem frustrá-lo? Eu acho que não. No entanto, ele sempre precisará progredir em sua arte para dominar ferramentas mais precisas e, especialmente, novas fontes de inspiração.

A coluna norte, a coluna dos aprendizes, vive nas sombras, sob a lua. Governada pelo irmão 2º Vigilante (na França), tem essa inspiração para o incentivo à reflexão e o progresso, para que nosso trabalho possa um dia produzir obras de arte.

Talvez seja por isso que a linha de prumo esteja associada a ela?

O 2º Vigilante orienta a construção em vários níveis no trabalho da Pedra:

– Define o fruto a ser dado às obras para que não corram o risco de colapso prematuramente, mas também remove as asperezas muito pronunciadas que desnaturam o ser, para que o aprendiz entenda que ele ainda pode melhorar seu trabalho e progresso.

– O trabalho dos aprendizes será permitido quando a linha de prumo florescer com as pedras sem a toque em toda a altura do trabalho.

A Pedra Bruta talvez seja o espelho do homem. Escondendo inúmeras qualidades naturais, que apenas um trabalho profundo poderia ressurgir. Ele não está ciente disso. Até ver a luz. Segue uma longa jornada, cada pedra é diferente e terá uma função que será transparente para o maçom; de acordo com suas predisposições inatas, e todas são úteis!

Qualquer pedra, todo homem é dotado de certas predisposições que o levarão a ter um papel específico no que ele pode servir e explorar, melhorar suas habilidades para si e para os outros.

A pedra tem uma “veia” que é favorável ao tamanho do ângulo e terá sua função adquirida dentro da grande obra, assim todo aquele com uma veia diferente terá seu papel diferente, mas igualmente importante. Todo homem tem seu lugar favorável na sociedade.

Mas a Pedra Bruta é modificada por necessidade, porque escolhemos torná-la uma atriz de uma peça de teatro muito maior, tornando-a útil. Assim como o homem tem que trabalhar em si mesmo para ser útil à sociedade e à humanidade.

Mas pergunto-lhes: a pedra muda por si mesma ou é modificada por outros? Ambos podem ser?

O homem nasce, cresce, mas uma vez que se torna útil, ele tem que resistir a elementos externos. O vento, a chuva, as provações da vida que lhe darão a experiência, mesmo assim ele ainda precisa encontrar seu lugar final perto das outras pedras.

É difícil estar ciente de ser uma pedra bruta, estar ciente de suas muitas falhas e perceber que é possível melhorar, em uma sociedade onde frequentemente somos tentados a nos fazer acreditar que é fácil encontrar nosso lugar, já que somos todos parecidos e perfeitos.

Sem pedras, mas blocos de fábrica. Entendo apenas que a Pedra sofre inúmeros golpes antes de revelar sua verdadeira beleza e seu uso final, o bloco geralmente é oco e se quebra se você tentar esculpir. Além disso, é de alguma forma falsa ou egoísta, pois é revestida, pintada e decorada para sempre esconder sua verdadeira natureza na realidade sem alma.

Pela minha parte, escolhi ser um aprendiz de maçom e desbastar minha pedra porque me recuso a ser ator de uma construção que teria sido imposta. Porque descubro que, de alguma forma, podemos nos livrar do trabalho se é bem dirigido e não escravizado.

Se o trabalho da pedra bruta é obra do homem, achei interessante para tentar vincular nossos princípios humanos a esse símbolo:

Princípio de Liberdade: Se o homem é a pedra, seu trabalho pode ser eterno e ele decidirá seu próprio limite no resultado.

Princípio da Igualdade: Se o homem é a pedra, “cortada”, “educada”, ele precisará estar ciente de que a pedra britada, queimada, que não pode ser usada na fachada, é hoje o elemento permitindo que seja de uso duradouro (quer dizer, tão importante quanto, com seu lugar próprio).

Princípio da Fraternidade: Se o homem é a única pedra, ele é limitado em suas possibilidades. Mas ligado a outras que, como ele, asseguram suas funções distintas e naturais com o mesmo objetivo de progresso. A empresa se torna possível.

Princípio da Solidariedade: pelo todo útil e perfeito que constitui as pedras de um edifício sustentável é o resultado da ligação de elementos totalmente diferentes que se apoiam mutuamente um ao outro.

Alcançar a Pedra Cúbica será fruto de uma obra de paciência. Trabalho cuidadoso, preciso, algo que o homem decidirá interromper ou não sozinho, já que uma pedra poderia de fato, ser trabalhada até o infinito.

Redimensionada. Polida. Renovada. Até ficar perfeita em todos os aspectos. Mas a perfeição de um elemento por si só não é igual à força de um todo útil. O homem não pode ser realmente perfeito, mas ele faz o seu melhor desenvolvendo suas capacidades para contribuir para uma evolução positiva.

Aprendendo a dominar novas ferramentas para realizar um projeto pessoal na medida do possível, ele talvez possa estar em perfeita harmonia consigo mesmo e com os outros com sinceridade e durabilidade.

A pedra bruta pode tornar-se cúbica por força de trabalho, mas e o homem? Pode ele se tornar perfeito? E quais seriam esses critérios de perfeição?

Eu acredito no resultado do trabalho do homem em si mesmo, não existe perfeição. Mas cabe ao homem perseverar em sua empresa para que o fruto de seu trabalho seja de certa forma uma consciência profundamente benéfica para si mesmo, seus entes queridos e a humanidade.

Finalmente, ao perceber o quão difícil o trabalho do homem em si mesmo poderia ser longo, mas tão emocionante e benéfico, eu diria que ele é gratificante. Provavelmente é mais fácil viver uma vida de cinzas de fábrica, mesmo que menos gratificante.

Tradução e adaptação: Rodrigo de Oliveira Menezes

O presente texto é uma adaptação de dois textos franceses, recebidos sem o nome dos autores. Foi realizado sua tradução e adaptação respeitando algumas instruções transmitidas na França, principalmente quanto à função dos Vigilantes que difere bastante da instrução comum ministrada por aqui.

Fonte: Ritos & Rituais

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Homo homini lupus

Lectures Bureau | ” Homo homini lupus”, man is a wolf to another man (A.  SCHOPENHAUER)

A organização social das alcateias tem vindo a ser extensivamente estudada desde os anos 60 do século passado por L. David Mech, que começou pela observação do comportamento de várias alcateias que se haviam constituído em cativeiro a partir de indivíduos dispersos – reproduzindo o entendimento que se tinha, de que estes se reuniriam para, juntos, fazerem frente aos desafios trazidos pelo Inverno. 

A hipótese inicial a que as observações levaram este cientista foi a de que os lobos se organizariam em torno de um “macho alfa”, mais forte, que exigia acesso preferencial à comida e às fêmeas, por exemplo, mas também a locais de abrigo ou certos papéis nas atividades do grupo. Esta hipótese do “macho alfa” explicava o comportamento verificado, de constantes lutas entre machos no sentido da dominância de uns indivíduos sobre os demais.

Mais de trinta anos depois, Mech apercebeu-se de um erro que derrubava impiedosamente as suas conclusões: o que tomara por alcateias típicas não passava de agregados disfuncionais de indivíduos não relacionados entre si, o que raramente se encontrava na natureza. As verdadeiras alcateias eram constituídas por um casal reprodutor e pelos filhos mais novos – das ninhadas dos dois ou três anos anteriores. Nestes grupos não havia lutas pelo poder, e reinava a paz e a harmonia. Após confirmação do erro, Mech rejeitou oficialmente as suas conclusões anteriores.

Uma loja maçônica é uma alcateia de indivíduos dispersos, reunidos para fazer frente aos desafios que a vida levanta. Como em qualquer grupo, especialmente quando exclusivamente constituído por machos, a tendência natural é de confrontação e de medição de forças. É precisamente o domínio de si mesmo, no sentido de não deixar prevalecer os aspetos mais vis da natureza humana, que se procura incentivar.

Não é fruto do acaso o fato de os maçons se tratarem uns aos outros por “meu irmão”. O estabelecimento deste “laço familiar” voluntário transforma a nossa visão do outro, trazendo-o de uma esfera em que é um estranho, um outsider, um potencial inimigo, para outra em que é “um dos nossos”.

Não é arbitrária a imposição de que, no momento próprio de cada sessão, cada um possa intervir apenas uma vez sobre determinado assunto; esta limitação impede, na prática, a discussão do tema, sem impedir a exposição da posição de cada um.

Por fim, não é fortuita a rotação dos papéis que cada um vai desempenhando ao longo dos anos, e a recordação constante de que o papel que se desempenha é, acima de tudo, um serviço que se presta,  e nunca um exercício de poder absoluto.

O aforismo segundo o qual “o homem é o lobo do homem” – homo homini lupus – remete-nos para as atrocidades de que o Homem é capaz – e tem demonstrado sê-lo ao longo da História. O potencial destruidor de um homem que se sinta acossado é virtualmente ilimitado.

O propósito último da maçonaria consiste, precisamente, em incentivar-nos a contrariar esta faceta da nossa natureza. O estabelecimento de laços de “fraternidade voluntária” é instrumental nesse sentido. De fato, mesmo correndo o risco de abuso, tratar aqueles que nos rodeiam como se fossem elementos do nosso núcleo familiar é um dos mais eficazes caminhos para a paz desta grande alcateia na qual todos fomos lançados.

Autor: Paulo M.

Fonte: Blog A Partir Pedra

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Recomeçar

Blog do Castorp: Sobre a Calçada

Não importa onde você parou…
em que momento da vida você cansou…
o que importa é que sempre é possível e
necessário “Recomeçar”.

Recomeçar é dar uma nova chance a si mesmo…
é renovar as esperanças na vida e o mais importante…
acreditar em você de novo.

Sofreu muito nesse período?
foi aprendizado…

Chorou muito?
foi limpeza da alma…

Ficou com raiva das pessoas?
foi para perdoá-las um dia…

Sentiu-se só por diversas vezes?
é porque fechaste a porta até para os anjos…

Acreditou que tudo estava perdido?
era o início da tua melhora…

Pois é…agora é hora de reiniciar…de pensar na luz…
de encontrar prazer nas coisas simples de novo.

Que tal
Um corte de cabelo arrojado…diferente?
Um novo curso…ou aquele velho desejo de aprender a
pintar…desenhar…dominar o computador…
ou qualquer outra coisa…

Olha quanto desafio…quanta coisa nova nesse mundão de meu Deus te
esperando.

Tá se sentindo sozinho?
besteira…tem tanta gente que você afastou com o
seu “período de isolamento”…
tem tanta gente esperando apenas um sorriso teu
para “chegar” perto de você.

Quando nos trancamos na tristeza…
nem nós mesmos nos suportamos…
ficamos horríveis…
o mal humor vai comendo nosso fígado…
até a boca fica amarga.

Recomeçar…hoje é um bom dia para começar novos desafios.

Onde você quer chegar? ir alto…sonhe alto… queira o
melhor do melhor… queira coisas boas para a vida… pensando assim
trazemos pra nós aquilo que desejamos… se pensamos pequeno…
coisas pequenas teremos…
já se desejarmos fortemente o melhor e principalmente
lutarmos pelo melhor…
o melhor vai se instalar na nossa vida.

E é hoje o dia da faxina mental…
joga fora tudo que te prende ao passado… ao mundinho
de coisas tristes…
fotos…peças de roupa, papel de bala…ingressos de
cinema, bilhetes de viagens… e toda aquela tranqueira que guardamos
quando nos julgamos apaixonados… jogue tudo fora… mas principalmente… esvazie seu coração… fique pronto para a vida… para um novo amor…
Lembre-se somos apaixonáveis… somos sempre capazes de amar muitas e muitas vezes… afinal de contas…
Nós somos o “Amor”…

Porque sou do tamanho daquilo que vejo, e não do tamanho da minha altura.

Autor: Carlos Drummond de Andrade

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Simbolatria – Veneração excessiva por símbolos

Há muitos anos, grande parte dos escritores maçônicos afirma que o simbolismo maçônico constitui um meio privilegiado para alcançar as “mais altas verdades da ordem”. Esta crença leva alguns Irmãos a buscarem significados mais profundos para os nossos símbolos, em áreas frequentemente não relacionadas à Maçonaria. E isso se torna o principal assunto nos trabalhos apresentados em loja. O resultado disso é o desenvolvimento de um simbolismo tal que os símbolos são reverenciados por si só, o que parece estabelecer um novo culto, a “simbolatria” ou veneração excessiva aos símbolos maçônicos.

A ideia de um “conhecimento de ordem maior”, inacessível pelos meios habituais disponíveis para o homem, mas que pode ser alcançado através do uso de símbolos, estava em voga desde a origem da Maçonaria, sendo uma das principais preocupações dos primeiros maçons. Este conceito foi potencializado por alguns autores, como Oswald Wirth, Jules Boucher, René Guénon, Jean-Pierre Bayard, entre outros…

Boucher, por exemplo, escreveu: “A Maçonaria abre o caminho para a iniciação, ou seja, o conhecimento, e seus símbolos permitem o acesso a isto”.

Esta declaração nos informa que os símbolos maçônicos são o meio de ascender a um certo conhecimento. Na verdade, a simbolatria é um desvio desta declaração, um exagero dessa teoria, que tem pelo menos quatro características: ausência de método, exacerbação interpretativa, a teoria da livre interpretação de símbolos e a perda do senso comum mais básico.

Descrevendo estas características

1 – Ausência de método ou afirmações sem provas.

Guénon escreve, por exemplo: “o simbolismo é o melhor meio para ensinar as verdades de ordem superior” (Símbolos da Ciência Sagrada).

Bayard continua: “Essa linguagem silenciosa (símbolo), refletindo a tradição e a ordem cósmica, pode desvendar a essência das coisas” e também “o simbolismo é um pouco de todas as ciências e sua síntese” (Periódico Francês, Chaîne d’união, 1948-1949).

Bem, esses textos nunca são acompanhados por instruções que permitiriam um Símbolo passar conhecimento. Não há exposição sistemática de alguma forma de acesso ao conhecimento através de símbolos maçônicos. Para a falta de método, como olhar para uma coisa e encontrar outra, catalogar símbolos maçônicos serve como uma solução alternativa para a pesquisa científica, que desprende tempo, dinheiro e muitas horas de reflexão para um entendimento plausível.

2 – A exacerbação interpretativa

A interpretação moral dos símbolos é geralmente considerada trivial, inadequada e indigna da “verdadeira” Maçonaria, e, portanto, é quase que rejeitada.

Boucher escreve: “Quando se fala de símbolos somente como dissertações morais, pode-se ter certeza de que este nem sequer recebeu a inteligência básica dos símbolos.”

Graças aos nossos antepassados, “nossos antigos Mestres”, a inserção da maioria dos símbolos na maçonaria foi justamente pelo ensinamento moral contido neles, ou nas suas interpretações. Mas alguns autores preferem aulas de explicações sobre ciências ocultas, numerologia, astrologia, cartas de tarô, magia, alquimia ou cabala e assim constituem as suas fontes interpretativas.

Boucher, que era um adepto da magia, escreve, por exemplo, sobre o irmão guarda do templo: “a ele é fornecido com uma espada mágica destinada a dissolver os conglomerados fluídicos. O guarda do templo requer uma qualificação mágica.”

Wirth gosta de cartas de tarô, outros são dedicados a numerologia, muitos autores são inclinados para a Cabala, sem saber ao menos uma palavra hebraica.

Infelizmente, todos estes simbolistas foram copiando interpretações uns dos outros, e se esforçaram para propor novas interpretações, cada vez mais excessivas, e como às vezes os autores não conhecem o assunto tratado, em vez de ler, passaram a “copiar e colar” obras de segunda ou terceira mão, o que leva a desastres.

3 – A livre interpretação de símbolos

Alguns defendem a ideia de que todos podem interpretar livremente um símbolo, o que dá margem para uma frase como esta: “o símbolo que não significa uma realidade, evoca necessariamente, tudo e o seu contrário, ou vice-versa, é claro”. Este é um claro exemplo de que a livre interpretação sem considerar fatos concretos, dá margem para qualquer tipo de invenção, o que acredito não ser a finalidade do ensino maçônico.

4 – Perda de sentido crítico

Acrescente à característica anterior, a perda de sentido crítico que atinge os maçons quando falam de simbolismo. Não quero aqui travar o livre pensador que cada um de nós deve desenvolver. Mas, quando se trata de falar de símbolos e simbolismo, eu acho que há uma abolição total desta qualidade, e vemos que alguns sofrem de uma cegueira mental e estão dispostos a engolir todos os erros e absurdos que lhe são apresentados. Basta participar de qualquer grupo de debates, seja por aplicativos de comunicação, grupos de e-mail ou fóruns, que se observa claramente a disseminação de informações errôneas, sem qualquer investigação prévia, o que acaba incutindo na mente dos participantes barbaridades no ponto de vista do real pesquisador. Aí está o risco de cairmos na máxima de Joseph Goebbels, propagandista de Adolf Hitler: “Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”.

Esta preocupação de estarmos especulando demasiadamente sobre a simbologia maçônica já foi observada por alguns pesquisadores, conforme alguns exemplos de declarações que seguem abaixo:

J.R. Rylands – Quatuor Coronati Lodge

“A Maçonaria tem pouco risco de sofrer ataques de inimigos de fora das suas fileiras, mas poderia sofrer das atividades dos seus membros entusiasmados e equivocados. É difícil avaliar a extensão dos danos na amizade calorosa à Ordem, e o que pode haver no futuro pela atividade do que poderia ser chamado de escola pseudomística […]. No entanto, existe sem dúvida, uma rejeição a qualquer princípio verdadeiro de estudo histórico real e desprezo pelo método científico. Em sua facilidade extravagante para inventar, substituindo a fraternidade pelo individualismo, os esforços desta escola são absolutamente opostos aos objetivos desta loja […].

Como poderia haver um espírito de investigação crítica se você considera a Ordem como uma seita pseudomística? […] Reconhecemos que na Maçonaria há espaço para todas as categorias de escolas filosóficas, mas com certos limites […]. Mas eu sugiro que devemos sempre olhar com preocupação o surgimento de um dogmatismo onde prevalece a liberdade de interpretação, como agora […]. E, no entanto, não se pode negar que o dogma tem o seu lugar em diferentes explicações na Maçonaria praticada hoje.

Com muitas partes de cena filosófica que nos diz que a Maçonaria é isto ou aquilo, nós somos convidados a aceitar uma série de significados mais profundos e simbolismo oculto.”

F.R. Worts – Aviso para os estudiosos da maçonaria (1923)

“A Ordem moderna é essencialmente especulativa e cada maçom deve necessariamente ser especulativo, de uma certa maneira, em suas atitudes frente aos seus princípios, mas há uma tendência muito grande em superar os limites da verdadeira pesquisa especulativa e exagerar nos valores simbólicos. Esta tendência já estava fortemente desenvolvida no final do século XVIII, e nos tempos modernos evoluiu para uma questão perigosa, tanto para a ordem, como para a correta compreensão de suas exigências morais e seus ensinamentos.

Infelizmente este simbolismo extremamente exagerado foi ensinado por maçons famosos e verdadeiros como Oliver, Fort Newton e Wilmshurst, que exerceram uma grande influência em seu tempo. Tais interpretações especulativas extremas são inaceitáveis ​​[…].

As explicações simbólicas que estão nos rituais modernos, são claras, simples e totalmente satisfatórias. É direito incontestável de cada maçom, investigar as interpretações que ocupam suas aspirações espirituais, mas deve levar em conta as linhas de Tennyson sobre a “falsidade dos extremos” e não se inclinar rapidamente para aceitar as explicações mais comuns até que você possa fazer com plena convicção.”

E. Ward – Conferencias Prestonianas (1970)

“As palavras são símbolos para transmitir ideias para o espírito humano, e se deduz que durante longos períodos mudaram o significado que eles tinham, e sem dúvidas são temas que temos que considerar. Nos primeiros dias da Maçonaria muitas das palavras transmitidas por nossos antecessores tinham um sentido muito diferente do que comumente aceitamos hoje.”

H. Ward em “resumos” da Loja Quatuor Coronati (1969)

“Descobrir sua própria interpretação dos nossos símbolos é o melhor tipo de exercício maçônico; o único perigo é que isso poderia te levar muito longe das explicações simples que são normalmente prestadas. Muitos de nós já vimos exemplos maravilhosos, que não têm nenhuma relação com a Maçonaria e que jamais existiu na mente de quem trouxe as palavras e os procedimentos que usamos hoje. A simbolatria (veneração excessiva de símbolos) volta o simbolismo para o complexo e obscuro.

Gera um desperdício inútil de mero simbolismo adotado para uma melhor compreensão dos conceitos morais. A Maçonaria não define o significado dos símbolos. Ela convida os seus membros a especular sobre o seu significado. Esta liberdade de interpretação é boa, mas quando levada ao extremo pode não dar nenhum benefício, e ser perigoso para aqueles que não têm uma cultura maçônica suficiente.

Os símbolos são utilizados para uma melhor compreensão dos conceitos que sustentam. Eles não devem ser venerados com o objetivo de terminar a investigação daqueles que procuram ter uma interpretação que os satisfaça mais emocional do que intelectualmente.”

Conclusão

Como reflexão final sobre o assunto em pauta, entendendo a importância de se investigar, avaliar e pesquisar sobre como e porquê a simbologia maçônica foi formada ou formatada pelos nossos antecessores, sendo assim deixo a seguinte expressão, para nossa reflexão: “NÃO A SIMBOLATRIA, SIM AO SIMBOLISMO”.

Autor: Luciano Rodrigues

Fonte: O Prumo de Hiram

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A “velha” versus a “nova” maçonaria: os desafios da Irmandade na pós-modernidade

O CONFLITO ENTRE O NOVO E O VELHO – Comunidade Bíblica Regenerada

Na teoria sociológica, as questões voltadas às concepções de identidade estão sendo amplamente discutidas. Discute-se o termo identidade para designar características específicas de um sujeito, isto é, aquilo que o diferencia das demais pessoas. Este princípio de identificação não está preso somente às discussões da sociologia. É algo que ultrapassa as fileiras acadêmicas e atinge pessoas nas diversas relações sociais estabelecidas no cotidiano. O objetivo deste trabalho é problematizar a noção de identidade nos dias de hoje e indagar: a maçonaria parou no tempo, como muitos dizem, ou ela não se adequou ao novo estilo de vida pós-moderno?

Stuart Hall (2006) argumenta que existem três concepções de sujeito: o sujeito do iluminismo (aquele centrado, unificado, voltado essencialmente para a razão); o sujeito sociológico (produto das reflexões complexas do mundo moderno, não autônomo e formado nas relações com as outras pessoas); e o sujeito pós-moderno (que celebra o móvel, que assume diferentes identidades em diferentes momentos, uma “multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis”).

Estas três definições dadas por Hall demonstram um panorama da concepção de identidade do sujeito ao longo dos séculos. Lá, no sujeito do iluminismo, a maçonaria especulativa ganhava força, estruturando os ritos e rituais, organizando os templos e abandonando sua fase operativa – fruto do medieval – e iniciando a fase especulativa, na qual a moral, os bons costumes e o estilo de vida do profano valem mais do que o trabalho concreto na pedra bruta. Pelos ensinamentos morais, o maçom aprende a vencer as paixões, submeter suas vontades e alcançar novos progressos na maçonaria, atravessando por três grandes viagens simbólicas: o aprendizado, o companheirismo e o mestrado maçônico. Nesta fase que experimentamos até hoje, o maçom cuida de sua moral e, costumeiramente, ouvimos dizer que “estamos em constante processo de aprendizagem, construindo nosso templo interior”.

A maçonaria enquanto instituição assistiu e assiste a estas alterações de identidade colocadas por Hall. Convivemos bem com a égide iluminista – afinal, nascemos na era das luzes e fatalmente muitos autores desta linha ideológica sustentam a moral maçônica. Convivemos com a identidade sociológica, uma vez que o maçom é um ser social, se reúne em loja com maçons de diversas profissões e, consequentemente, há o estímulo fraternal da instituição. Para além dos templos, fazemos campanhas beneficentes, socorremos as viúvas necessitadas e auxiliamos as áreas da filantropia e do civismo, às vezes até confundindo atos políticos como legítimos da maçonaria…

Mas, a maçonaria está preparada para viver a pós-modernidade? Ela sabe lidar com as identidades flexíveis, mutáveis, indefinidas? Com o advento da tecnologia, os rituais já não são mais secretos; os sinais, toques e palavras estão disponíveis na internet; a compra de aventais está fácil; e esta própria mobilidade faz com que os irmãos muitas vezes não permaneçam nos ágapes, tenham diversos compromissos em suas agendas e o espírito fraternal se perca pouco a pouco.

Não proponho que retornemos ao passado imbuído de um pensamento nostálgico. A maçonaria não pode viver do passado: ela deve analisar o presente e intervir, no sentido de oferecer à sociedade melhores condições de vida no futuro, agindo em torno das lojas ou dos próprios irmãos em seus lares e locais de trabalho, enfim, no dia-a-dia.

A maçonaria deve permanecer com os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. Mas tem que se preparar para o futuro. Já encaramos pranchas e convites on-line, dispensamos os boletins impressos e uma carta enviada às coirmãs pelo correio não é mais algo de praxe. Precisamos refletir que o sujeito pós-moderno (ou que vive da modernidade tardia, como alguns autores dizem) é participativo, mutante, irônico, indeterminado, flexível, comprime as relações espaço-tempo, desconstruidor e anárquico. Todas estas características levam à criatividade própria das pessoas de hoje, que se engajam em manifestações via internet, que trabalham por projetos sem estarem presas a horários e regras e que prezam pela segurança financeira aliada a novos desafios.

O argumento deste artigo é que a ação da maçonaria precisa ser repensada. As relações sociais mudaram, as pessoas mudaram, a sociedade mudou, o modo de vida mudou e a maçonaria continua lá, intacta. É claro que não é necessário revolucionar a maçonaria, até porque os princípios gerais da ordem devem ser mantidos. Mas precisamos repensar a escolha dos irmãos, pois alguns postulados antigos caíram por terra. É preciso repensar as ações para além das paredes de nossos templos, pois ajudar financeiramente quem precisa (quando isso ocorre…), contribuir com rifas e promoções ou votar em candidatos irmãos não basta.

Sugiro que a maçonaria passe a refletir os caminhos que a pós-modernidade nos tem levado. Trabalhar por projetos, envolver os irmãos e explorar a criatividade são tarefas básicas. Agiremos, dessa maneira, como uma elite estratégica, colocada em postos fundamentais e que faz a diferença nas profissões, nos projetos que nos engajamos, nas empreitadas que topamos. Quando isso ocorrer, aproveitaremos nossa união, reforçando os laços de amizade e prosperidade entre os irmãos e, por conseguinte, pensando em uma nova atitude maçônica, totalmente condizente com a geração do novo século que já estamos vivenciando.

Autor: Tiago Valenciano

Fonte: Pavimento Mosaico

Referências bibliográficas

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP & A, 2006.

HARVEY, David. A condição pós-moderna. São Paulo: Edições Loyola, 2012. 22. Ed.

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“Os filhos da viúva” sob a ótica da suspeição (Parte I)

Congregados marianos, intelectuais católicos, repressão e estratégias de reorganização maçônica nos meandros da burocracia do estado (1937-1945)

Aventuras na História · Na mão de Getúlio Vargas, o Congresso ficou fechado  por nove anos

No dia 15 de dezembro de 1938, mais de um ano após a ordenação de fechamento das lojas maçônicas em Pernambuco, a oficina maçônica Barão do Rio Branco, localizada, na cidade de Rio Branco, interior de Pernambuco (atual Arcoverde), teve suas portas reabertas, com a presença dos seus membros. Porém, a reunião que aconteceria nas suas dependências na Rua Cardeal Arcoverde, no centro da cidade, não se revestia de nenhum caráter administrativo, ritualístico ou festivo, o objetivo principal da reunião, era cumprir a nova determinação expedida pelo Dr. Etelvino Lins[1], Secretário de Segurança Pública do Estado, que, através do ofício nº 2570, enviado no dia 22 de outubro de 1938, recomendava o encerramento definitivo e a extinção das lojas maçônicas no Estado. (ATA, 1938 ).

Segundo o relato do Delegado de Polícia Política local, o Sargento do 3º Batalhão, Paulo Ferreira Dantas, após entrar em entendimento com os membros da loja e a formação de uma comissão com cidadãos de Rio Branco que não possuíam vínculos com a oficina maçônica local, ficou resolvido que a comissão de cidadãos, usufruiria da permissão de decidir qual seria o destino do patrimônio da Loja Barão do Rio Branco. Diante destas tratativas foi autorizada a abertura da sede da oficina maçônica, para a realização de uma reunião, que possuía as seguintes finalidades:

PRIMEIRO: desligar a referida Loja da obediência do Grande Oriente e Supremo Conselho do Brazil, tornando-se uma organização independente; SEGUNDO: nomear uma comissão de cidadãos idoneos, residentes nesta cidade com poderes bastante geraes que lhes ficam outorgado desde já vender todos os haveres, bens moveis e imóveis da referida loja, assim como assinar documentos dar quitação, pagar seus débitos e se saldo houver fazer doação ao mesmo a quem julgar conveniente: TERCEIRO: extinguir para sempre a loja maçonica Barão do Rio Branco. (ATA, 1938)

Através da passagem destacada é possível observar que as exigências e recomendações enviadas à Secretaria de Segurança Pública de Pernambuco, que deveriam ser cumpridas, endureceriam ainda mais com relação aos setores maçônicos no estado; propondo inclusive, como ficou assinalada no terceiro tópico, a da eliminação da loja maçônica local, podemos, então, verificar na maneira como o terceiro ponto foi redigido, a utilização de uma postura e argumento com forte teor autoritário e baseado na justificativa e possibilidade de eliminação do outro, posição comum em governos que se orientam por posições ditatoriais. O ponto em questão atrelado às outras duas determinações foi colocado em votação e aprovado pela assembleia formada por maçons e não maçons, constituindo-se em exemplos que passaram a orientar a postura oficial com relação aos segmentos maçônicos assumidos pelo regime do Estado Novo em Pernambuco de 1937 a 1945.

Muito do desejo pelo silenciamento dos maçons locais, principalmente, com o advento do Estado Novo, devia-se ao fato de que, parte do secretariado de Agamenon foi formada do ponto de vista intelectual, tanto dentro de uma forte cultura anticomunista, quanto de um gritante antimaçonismo, que, na visão desses setores, nada mais era do que um desdobramento daquele ideário político, patrocinado em grande parte pelo judaísmo internacional. (GIRARDET, 1987; ALMEIRA, 2001; SILVA, 2010).

Sob tal aspecto, esta visão tinha um lastro ambientado no forte sentimento antissemita, introjetado em muitos dos líderes intelectuais e políticos pernambucanos, que ganhavam espaço no governo Agamenon[2]. Concepções que foram forjadas na militância que alguns destes membros tiveram em associações juvenis católicas a exemplo da congregação mariana vinculada ao colégio Nobrega do Recife, uma das associações mais dinâmicas e reconhecidas pelo seu conservadorismo, sob a supervisão espiritual e intelectual do padre Fernandes.

Segundo Silvia Cortez Silva (2010), o staff do Estado Novo, sob a intervenção de Agamenon, era, em grande parte, formada por figuras que se encontravam vinculada aos setores intelectuais ligados ao ideário católico e que eram remanescentes da Congregação Mariana do Colégio Nóbrega, sendo neste sentido, como apontamos “filhos intelectuais” do Padre Antônio Fernandes, o principal mentor dos congregados, personagem que nos “Tempos de Agamenon”, usufruiria de livre circulação nos espaços de poder. (CABRAL; LIMA, 2011).

Um dos mais importantes colaboradores do governo Agamenon e Secretário de Segurança Pública, Etelvino Lins, que assumiu a pasta em dezembro do ano de 1937, militou e formou o seu caráter e intelectualidade, neste centro de sociabilidade católica e conservadora. Tal ideário assumiu gradativamente mais espaço no interior do campo político e intelectual pernambucano e nacional no pós-1930 e de maneira intensa ao longo do Estado Novo, a partir da estratégia de reaproximação entre Igreja Católica e o Estado, fomentando assim, um ideário de fortalecimento e restauração dos valores e visões de mundo católico desfrutando de espaços cada vez mais no campo burocrático do estado pernambucano. (ATAÍDE, 2001; DIAS, 1996; MOURA, 2012).

No caso de Pernambuco, através de Agamenon Magalhães[3], procurou–se construir a cópia fiel e aproximada, do modelo de governo do Estado Novo idealizado por Getúlio Vargas. Dentre os seus colaboradores mais diletos, o interventor pernambucano assumia papel de destaque. Diante dessa configuração de poder político, é possível observar, que, os congregados estariam, tanto no primeiro, quanto nos demais escalões da administração do Estado, usufruindo assim, de uma rede de sociabilidades e solidariedades, que não deixariam de influenciar e efetivar de alguma maneira as estratégias de ação do novo regime, principalmente, com relação a determinados segmentos. Animados por este “espírito novo”, emanado pelo regime político que se instaurava, seriam abertas várias cruzadas contravalores e práticas compreendidas como contrárias à visão que moldava o Estado Novo. (PIRES, 2008; SILVA, 2010).

Neste sentido, os maçons, o carnaval de rua, as religiões de matriz africana, as doutrinas espiritas e protestantes, nada passava incólume aos olhos do Estado, que desempenhava uma postura vigilante, comportamento próprio de um regime autoritário e de força, como o instaurado pelo Estado Novo. Dentro de tal lógica, todo e qualquer segmento que não se enquadrasse dentro da visão de mundo da Igreja Católica, passou então a ser julgado pelo signo da desconfiança, sendo alvo do poder fiscalizador e investigativo do Estado. (CAMPOS, 2009).

As aproximações dos representantes da intelectualidade católica conservadora, via congregação mariana, dos órgãos de segurança e repressão, passaram a constituir-se uma rotina. Um dos intelectuais pernambucanos, que presenciou a instalação desta lógica, entremeada de intolerância, violência e perseguições, foi o escritor Paulo Cavalcanti (1985). No seu livro de memórias, esse autor remontou o cenário de espionagem e perseguição instaurado pela força policial do Estado Novo, traçando as suas ligações com a intelectualidade e com o laicato católico, que tinha nos congregados marianos o seu modelo mais elaborado.

Este espírito no qual os órgãos de vigilância, que haviam se constituído de maneira inicial, no inicio da Era Vargas, apresentavam-se como instrumentos de observação e monitoramento, marcaria a lógica da suspeição destacada por Giselda Brito Silva (2002), tal perspectiva construiu procedimentos de força que reforçava a vigilância dos supostos adversários políticos e intelectuais, através da imprensa que reforçava a construção de estereótipos e estigmatização não apenas para os supostos adversários políticos, como os comunistas, principalmente no pós-1935, quando ocorre uma intensificação, mas também para grupos que estariam no mesmo campo político, no caso os integralistas. Os maçons que não se constituiriam como partido organizado, mas que devido, a um conjunto de pautas que podem ser relacionadas à defesa do ideário liberal, passaram a ser compreendidos como “suspeitos”, principalmente a partir de 1937 e no caso de Pernambuco a força do ideário católico-conservador, que se apresentava em vários espaços da burocracia estatal, constituía-se num incremento a mais desta lógica de suspeição.

Relembrando aquele contexto, Paulo Cavalcanti apresentou este momento político de Pernambuco, destacando o posicionamento de forte viés de autoritarismo, que marcou os “Tempos de Agamenon”, desconstruindo assim, a versão que o governo pretendia construir, como uma verdade a ser imposta à memória pernambucana:

A polícia de Agamenon Magalhães sob a influencia dos congregados marianos e do seu líder, o Padre Jesuíta Antônio Fernandes, se arrogava o direito de espionar as atividades dos “nova-seitas”, dos “catimbozeiros”, dos “venerandos-irmãos” e dos espiritas, tratando-os sob a vala comum dos excomungados da Igreja ou dos perseguidos políticos da ditadura do Estado Novo. (1985, p. 21).

Os “venerandos-irmãos” era o termo utilizado pelos intelectuais do segmento católico, de forma irônica, para se reportar aos maçons. Como podemos observar no testemunho elaborado por Paulo Cavalcanti, apresentava a perspectiva de que os segmentos, indivíduos ou grupos eram considerados suspeitos, sendo desta forma, encarados e reduzidos à lógica da suspeição implantada pelo aparato policial varguista e intensificado nos tempos do Estado Novo, construindo de maneira racional uma confusão entre diferentes personagens como maçons, protestantes, espiritas e praticantes das religiões de matriz africana. Tal estratégia justificava-se, pelo fato de estabelecer no campo discursivo um processo de homogeneização, que tinha como centro difusor do discurso as autoridades policiais e intelectuais de matriz católica-conservadora, na operação deste discurso. Dimensão que fortalecia a postura vigilante, de suspeição e a repressão de todos estes segmentos que eram tratados como iguais. (SILVA, 2002).

Outra figura que, junto com Cavalcanti, testemunhou o poder usufruído pelos Congregados Marianos na equipe de Agamenon, foi o jornalista e político pernambucano, Andrade Lima Filho[4], no seu livro China Gordo: Agamenon e sua época (1976). Obra que mescla dados autobiográficos, com a percepção do autor sobre a realidade política, tanto da fase em que Agamenon foi interventor quanto do momento em que o político voltou ao governo de Pernambuco na década de 1950, este último momento de forma democrática.

Esse autor destacou a influência e o poder de Agamenon na elaboração de uma bem urdida trama política, tendo como espaço privilegiado de sua atuação política as diversas regiões e setores do estado. Andrade Lima destacou ainda, o prestígio e a influência que a Congregação Mariana desfrutava no interior e espaços de poder do Estado Novo, aspecto que podia ser vislumbrado, a partir dos vários cargos administrativos de relevância ou até mesmo do 2º escalão do governo, que, a partir de dezembro de 1937, muitos dos seus “antigos” filiados desempenharam na interventoria do “China Gordo”.

Sob tal aspecto Andrade Lima observou: Oriundos todos da então poderosa Congregação Mariana, à época dirigida pelo famoso jesuíta hindu padre Antonio Fernandes, compunham eles a “inteligentzia” totalitária de Agamenon. Lá estavam: na Segurança, Etelvino Lins, seu Pina Manique; na Fazenda, Manuel Lubambo, o maurrasiano do grupo monarquista de Fronteiras; na Justiça, com a saída de Moura, Arnóbio Tenório, antes ocupante da secretaria do Governo; e, na Agricultura, Apolônio Sales, fazendo estágio para o Ministério, onde alternaria, depois, a criação de perus de raça com a pratica dos exercícios espirituais, acumulando, assim, as vitualhas do corpo e as provisões da alma. Mas havia outros “infantes”: Nilo Pereira, por exemplo, colocado, à inglesa, no seu “rigth place”, isto é, o setor da Educação, ainda departamento, ou José Maria Albuquerque Melo, que substituiu Tenório na secretária do Governo e a quem incumbia, entre outras coisas, encaminhar, depois de datilografado e revisto, o artigo de Agamenon para a Folha da Manhã. (FILHO, 1976, p. 43).

Diante desse quadro de profissionais que, além do rigor técnico, ainda se destacavam como exímios católicos militantes, ocupando locais e funções de direcionamento e implantação de políticas para o Estado, não podemos deixar de considerar a força que tiveram, no sentido de impedir qualquer projeto ou ação de setores que não estivessem alinhados com a visão de mundo católico. Tais aspectos, como podem observar a partir das memórias tanto de Paulo Cavalcanti, quanto de Andrade Lima, acabou voltando-se para vários segmentos sociais e políticos, a exemplo, no caso específico do nosso texto, dos maçons.

É bem provável, como observaremos nas páginas seguintes, que a dificuldade em reorganizar a vida maçônica em Pernambuco no pós-1937, deu-se em grande medida devido à pressão que os congregados realizavam para barrar qualquer possibilidade de retorno ao cenário pernambucano das atividades maçônicas. Assim, enquanto, no Rio de Janeiro as atividades maçônicas voltaram à normalidade, a partir de janeiro de 1938, em Pernambuco, estas atividades permaneceram suspensas até 1945, quando as colunas do Estado Novo, começaram a ruir.

Continua…

Autor: Augusto César Acioly Paz Silva

Fonte: Revista de História – USP

*Augusto é Doutor em História pela Universidade Federal de Pernambuco – UFPE. Professor do Departamento de História do Centro de Ensino Superior de Arcoverde, instituição ligada à Autarquia de Ensino Superior de Arcoverde, cidade de Arcoverde, Pernambuco.

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Notas

[1] – Filho do escritor e político Ulisses Lins e Rosa Bezerra Lins de Albuquerque, nasceu em 20 de novembro de 1908, no município de Alagoa de Baixo, atual Sertânia em Pernambuco. Descendentes da elite agrária e política local. Bacharelou-se em Direito na Faculdade de Direito do Recife no ano de 1930, assumiu muitos postos da administração pública do Estado, dentre os quais promotor de Goiana, segundo e primeiro delegado auxiliar, com a implantação do Estado Novo, em 1937, foi convidado a exercer a função de Secretário de Segurança de Pernambuco até 1945, quando através da articulação do interventor Agamenon Magalhães, foi nomeado interventor de Pernambuco permanecendo nesta função até as eleições de 1945, preparando o processo de transição para a redemocratização do período pós Estado Novo, ao longo do século XX, assumiu vários postos políticos de representação do Estado, foi sempre um aliado de primeira hora de Agamenon Magalhães. IN: Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro pós 1930. 2ª ed. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2001.

[2] – O governo de Agamenon Magalhães, que ocorreu no período de 1938 a 1945, foi reconhecidamente um dos modelos de interventoria que materializaram de forma destacada o ideário estadonovista. No caso do seu staff, tivemos a participação de muitos personagens forjados dentro de uma cultura política e intelectual, referenciados por sociabilidades nos quais segmentos da Igreja Católica local possuíram destacado papel na formação destes indivíduos, o que no leva a compreender porque os entraves ao funcionamento das atividades maçônicas permaneceram interditados aqui em Pernambuco, mesmo quando foram retomadas em outros estados da federação como Rio de Janeiro e São Paulo, antes mesmo do final do Estado Novo.

[3] – Natural da Vila Bela, atual Serra Talhada no estado de Pernambuco, nasceu no ano de 1893, estudou na Faculdade de Direito do Recife (1912-1916) assumiu no ano de 1918, o cargo de promotor público na cidade de São Lourenço da Mata, foi eleito no ano de 1918 como deputado estadual, iniciando a sua carreira política, pela legenda do Partido Republicano Democrata, com o apoio de Manuel Borba, iniciou a sua colaboração na imprensa, através dos jornais A Ordem e A Província, foi um dos entusiastas da candidatura de Nilo Peçanha, e apoio o movimento de 1930 em Pernambuco. Ao longo da década de 1930, desempenhou várias funções políticas foi um aliado de primeira hora de Getúlio Vargas, com a instalação do Estado Novo, tornou-se interventor no período de 1938-45, saindo deste cargo para assumir a pasta de trabalho e articular a transição para a redemocratização. Elegeu-se governador de Pernambuco em 1950 e faleceu de um ataque cardíaco em 1952. IN: Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro pós 1930. 2ª. Ed. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2001.

[4] – Antonio de Andrade Lima Filho nasceu em 1910, na cidade de Goiana/PE, formou-se em Direito pela Faculdade de Direito do Recife e Ciências Econômicas, na juventude militou na AIB, desempenhou atividades ligadas ao jornalismo, advocacia e ao ensino, foi deputado federal nas legislaturas de 1959-1967, faleceu no ano de 1983 na cidade do Recife.

O profano e o maçom

Dia do Maçom | Câmara Municipal

Exerce a Maçonaria influência sobre os seus membros, melhorando a sua atuação na Sociedade?

São os Maçons elementos moralmente capazes de, pelo exemplo, influir beneficamente sobre os profanos no meio em que vivem?

Estas são as questões que pretendemos responder hoje, dentro dos limites intelectuais que nos proíbem remígios mais altos na seara ampla e fértil da filosofia maçônica.

Achamos que a nenhum homem, normalmente dotado de sensibilidade, pode ser estranha a influência da Maçonaria quando, tendo transposto os degraus iniciais, é admitido nesta Câmara, porque não é possível deixar-se ficar indiferente, depois de vislumbrar os três aspectos – simbólico, filosófico e moral – com que a nossa Sublime Instituição avulta através dos séculos para vencer as trevas em que jaz o espírito humano.

Nenhum homem, dentro da precária perfectibilidade da espécie, pode jactar-se de ter ingressado na Maçonaria e permanecido tal qual havia sido até aquele evento.

Se existe esse homem, se existe quem dentro da Maçonaria não encontrou meios de aperfeiçoar-se moral, mental e espiritualmente, certamente deve tratar-se de uma aberração incorrigível, incapaz de captar as irradiações da Sabedoria, de sentir o magnetismo da força e de compreender os benefícios da serena contemplação da Beleza.

O mundo está todo inteiro na Maçonaria, configurado nos símbolos imortais e o homem, quando se torna Maçom, adquire o roteiro certo por onde dirigir os passos a fim de atingir o domínio de si mesmo e integrar-se conscientemente no Universo. Por isso compreende que, no ciclo evolutivo em que se encontra, não é senão pedra: Pedra Bruta que o Tempo, o Sofrimento e o Trabalho tornam Polida e Cúbica, através do refinamento espiritual da Civilização e da Ciência.

O Maçom sabe que deve corrigir-se, pois o anseio do Espírito é alcançar a perfeição.

“Sede perfeitos como meu Pai é perfeito”, não é mera advertência, mas, como tudo que nos vem do Cristo Deus, uma diretriz que bem representa o objetivo da passagem do Homem pela Terra.

Contrariamente ao que parece aos moralistas e céticos, o Homem não caminha do nascimento para a morte, mas da ignorância para o conhecimento, sabido é que o Grande Arquiteto do Universo não cria apenas para destruir.

O Maçom não é subserviente; não é hipócrita; não é dúbio; não é saliente; não é prepotente; não é usurpador.

É, isto sim, vertical nas atitudes para com o semelhante e horizontal na posição que ocupa na ganga social em que opera. É vertical como o seu esqueleto e horizontal como a superfície em que se apoia. Vertical como o Prumo e horizontal como o Nível – Homem e Terra formando o Esquadro, inflexível e correto.

O Maçom não é mesquinho nem misantropo. É generoso e magnânimo porque com o Compasso exprime a justa medida dos seus sentimentos, cujo esquema se obtém observando a abertura e fechamento das hastes.

Temos, assim, no Esquadro e no Compasso, a fórmula necessária à vitória moral no mundo profano. Fórmula de que só o Maçom é conhecedor e cumpre-lhe aplicá-la em todas as circunstâncias da vida.

A estabilidade das realizações humanas no plano físico exige a aplicação dos instrumentos de correção que indicam o grau de inclinação sobre o ponto de apoio. Se a perpendicular não estiver dentro dos índices tradicionais a obra terá a sua durabilidade ameaçada. Os princípios invioláveis que regem a técnica das construções não diferem daqueles em cuja bitola repousam as atividades do pano moral.

Assim, o Prumo e o Nível, o Esquadro e o Compasso, não são úteis apenas quando se constroem casas e pontes, mas também quando é necessário decidir e aquilatar da conduta humana. Se, pelas qualidades morais, pelo caráter imarcescível, pela prática da Fraternidade, pelo estudo honesto e investigação insuspeita, pelo desprezo ao preconceito, pelo desapego aos bens perecíveis, podemos emoldurar a personalidade de alguém com a expressão daqueles símbolos, teremos o Maçom em potencial, bastando apenas iniciá-lo nos sagrados mistérios da nossa Ordem, Se, pelo contrário, existissem iniciados que devêssemos afastar do nosso convívio em face de corrupção de caráter ou intransigência de princípio egoísticos que teimassem em impor a seus irmãos, nunca os encontraríamos iluminados por aquelas Luzes, porque por mais que se esforçassem em demonstrá-lo, não seriam reconhecidos Maçons.

O Maçom é virtuoso, e não é corruptível nem corrompe; é altivo e não é humilhante; é confiante e correspondente; é honrado e não desonra.

O Maçom é positivo pela maneira como age e os reflexos de sua ação mais insignificante atingem a periferia longínqua do seu meio ambiente.

O Maçom não se distingue pelo que tem, nem pelo que pode, nem pelo que sabe, mas pelo modo como vive entre os ditos profanos.

Diante do mosaico de raças, religiões, credos políticos e escolas filosóficas que formam a babel humana, é o Maçom a personificação da compreensão universal, catalisador das divergências sociais que dividem e infelicitam os homens. Condena os abusos dos déspotas tanto como os desatinos dos que se rebelam. Anima aquele que confia e honesta e diligentemente investiga a verdade, mas desmascara o impostor, combate e persegue o charlatão como inimigos falazes da espécie. Sabe que não há neutralidade entre o Vício e a Virtude, mas não castiga aquele que erra sem antes estudar as circunstâncias que o levaram ao erro e não louva o que vive na Virtude, para não despertar a vaidade, que condena.

O Maçom abomina a falsidade porque sabe que “nada há oculto que não seja descoberto”, segundo o Livro Sagrado da Lei.

Haverá sempre um ramo de Acácia, a indicar o lugar dos despojos; sempre soprará, leve como a brisa, persistente como as ondas, eloquente e inevitável como a eternidade, o som percuciente da voz interna que repete inconscientemente o mea culpa, denunciando o autor do delito.

A Palavra é a principal conquista do Espírito, que por seu intermédio, transmite às gerações nascentes o conhecimento adquirido ou conquistado; o Sentimento é a baliza que determina o aperfeiçoamento atingido e o Pensamento é a chama que resulta do choque entre a revelação da divindade e a ideia embrionária.

Sabe o Maçom que a Palavra é essencial ao progresso e nunca exercerá o seu poder para cerceá-la, se não for portadora de difamação e não atentar contra a moral: que o Sentimento deve ser desenvolvido e aprimorado, para que cesse a mútua incompreensão dos homens; que o Pensamento deve ser livremente difundido para que jorrem permanentemente sobre a humanidade as Luzes que lhe dão segurança e estabilidade. Entre os que fecham a boca do povo, matam o sentimento das massas e sufocam o pensamento que forceja por expandir-se, nunca estarão Maçons.

Os Maçons são livres e vivem na Verdade. Conheceram a Luz que, partindo do Grande Arquiteto do Universo, ilumina como Estrela Flamígera o Espírito e a Matéria e faz projetar ao solo a sombra dos maus e dos bons, para que todos conheçam os vícios de uns e a virtude dos ouros. Vícios e virtudes que se desprendem dos ossos e da carne do indivíduo físico, mas permanecem na composição do indivíduo moral dando-lhe o cunho que o classifica entre os congêneres.

É relevante a influência que a Maçonaria exerce sobre os seus Membros e a nenhum deles é lícito negá-la, porque a retransmitem beneficamente aos seus coevos.

Desde o início remoto das idades até o atual esplendor da Civilização, dentro dos escalões do progresso coletivo, coexistem os tarados e os santos, os estúpidos e os sábios, os gênios e os dementes, porém, desta amálgama amorfa, sempre foi possível distinguir o Maçom do profano, porque o Maçom é aquele que vive em constante luta contra os seus próprios defeitos.

Autor: Carlos Faria

*Texto lido durante o Tempo de Instrução na Loja Fraternidade, Oriente de Santos – SP, em dezembro de 1953.

Fonte: JB News

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Jurar ou prometer?

Juramento e compromisso maçónicos - Freemason.pt

I. Introdução

Atualmente, juramento e promessa a nível prático e jurídico não são diferentes e implicam a mesma coisa, uma vez que tanto uma promessa como um juramento significam que se assume a responsabilidade e o compromisso ético de dizer a verdade. O RAE indica que uma promessa é equivalente a um juramento, sem uma fórmula religiosa envolvida. Em outras palavras, poderíamos dizer que jurar para o homem de hoje é garantir o cumprimento de um compromisso e de uma verdade, colocando como testemunho um poder divino, humano ou institucional, enquanto prometer implica adquirir um compromisso pessoal, de si mesmo e de fora. não colocando nada, nem ninguém como testemunha.

Em certo sentido, poderíamos afirmar que a promessa é a “secularização” do juramento, embora em certas ocasiões o juramento indique a afirmação decisiva de uma promessa. Este último revela que ambos os termos às vezes são realidades não tão delimitadas como se poderia pensar a priori .

II. Em busca de uma definição

Jurar ou juramentar vem do lat dex jurare, de jus “lei, jurisdição”. Cícero diz que o palavrão é uma afirmação religiosa, ou seja, uma afirmação com sanção religiosa (De Officcis, 3,29). Por sua vez, este termo vem do termo grego horkhos, equivalente a herkos, que significa “cerca, fechada”, que constrange uma pessoa, daí “juramento”.

O juramento no mundo cristão foi um apelo solene a Deus como testemunha de uma aliança ou para confirmar a verdade de um dito e sua violação foi uma grande ofensa ao próprio Deus. Essa concepção era a mesma que existia nas civilizações do Antigo Oriente; Leis e documentos mesopotâmicos indicam que o juramento era frequentemente prestado em atos públicos e privados. Os funcionários reais eram obrigados a prestar juramento de fidelidade; em processos judiciais, o juramento era exigido não apenas das testemunhas, mas também das partes envolvidas. Era um ato sagrado, geralmente pronunciado diante de uma imagem divina e, no caso dos hebreus, diante de certos objetos sagrados que erguiam a mão a Deus, o que constituía um apelo ao Deus que habitava no céu.

No catolicismo, o juramento é entendido como:

O segundo mandamento proíbe juramentos falsos. Fazer um juramento ou juramento é tomar Deus como testemunha do que é afirmado. É invocar a veracidade divina como garantia da própria veracidade. O juramento compromete o nome do Senhor. “Você vai temer o Senhor, teu Deus, você vai servi-lo, você vai jurar por seu nome” (Dt 6:13).

A reprovação do falso juramento é um dever para com Deus. Como Criador e Senhor, Deus é o padrão de toda a verdade. A palavra humana concorda ou se opõe a Deus, que é a própria Verdade. O juramento, quando verdadeiro e legítimo, destaca a relação da palavra humana com a verdade de Deus. O falso juramento invoca Deus como testemunha de uma mentira.

Uma pessoa comete perjúrio, se, sob juramento, faz uma promessa que não tem intenção cumprir, ou, depois de ter prometido sob juramento, não manter o compromisso assumido. O perjúrio constitui uma grave falta de respeito pelo Senhor, dono de cada palavra. Comprometer-se por juramento a fazer uma má obra é contrário à santidade do Nome divino.

Jesus explicou o segundo mandamento no Sermão de Montanha: “Haveis ouvido o que disseram os antepassados: “Você não cometerá perjúrio, mas cumprirá seus juramentos ao Senhor. Mas digo que não jurem de modo algum […] seja qual for o seu idioma. Diga apenas sim, quando é sim; e não, quando é não. O que você disser além disso vem do Maligno” (Mt 5, 33-34,37; cf St 5, 12). Jesus ensina que todo juramento envolve uma referência a Deus e que a presença de Deus e sua verdade devem ser honradas em cada palavra. A discrição de recorrer a Deus ao falar está ligada à atenção respeitosa à sua presença, reconhecida ou menosprezada em cada uma de nossas declarações.

Seguindo São Paulo (cf. 2 Cor 1, 23; Gl 1, 20), a tradição da Igreja entendeu as palavras de Jesus no sentido de que elas não se opõem ao juramento quando este é feito por uma causa grave e justa (por exemplo, em tribunal). “O juramento, isto é, a invocação do Nome de Deus como testemunha da verdade, só pode ser feito com a verdade, com bom senso e com justiça” (CIC cân. 1199, §1).

A santidade do nome divino exige que não se recorra a ele por motivos fúteis e não se faça juramento em circunstâncias que o possam fazer interpretar como aprovação de uma autoridade que o exigiria injustamente. Quando o juramento é exigido por autoridades civis ilegítimas, pode ser recusado. Assim como deve ser quando é imposto para fins contrários à dignidade das pessoas ou à comunhão da Igreja.

Promessa em hebraico é Omer (dizer, promessa) e dabar (palavra, promessa) e em grego epangelía, que é um termo jurídico que denota uma citação, de epa, “em” e Angello “para proclamar, anunciar”. Também significa um compromisso de fazer ou dar algo, uma promessa. Portanto, prometer significava comprometer-se a dar mais tarde. É uma instituição importante para a convivência humana, pois é uma “forma fundamental de assumir compromissos e obrigações perante uma ou mais pessoas que dela tenham conhecimento” (Kramer).

III. Uma primeira conclusão

Pode-se dizer que na promessa e no juramento o homem projeta a si mesmo, seus propósitos e sua atividade no reino do tempo futuro. O valor moral que obviamente sustenta tal projeção e construção de si e dos outros é, sem dúvida, a fidelidade, ou seja, a capacidade do homem de ser fiel ao que promete e jura.

IV. Juramento ou promessa, um problema religioso

Um dos primeiros problemas que enfrentamos ao usar o juramento é a secularização. Numa sociedade secularizada, Deus não é aceito como instância transcendente, que zela com sua vingança pela manutenção da obrigação aceita ou pela veracidade da própria questão. Isso reduziu o valor do próprio juramento.

Outra questão seria de cunho teológico/religioso e nasceu com a chamada reforma radical. De lá, ele mais tarde passou para o calvinismo e o puritanismo. Na maneira que os cristãos reformados entenderam das palavras de Jesus, Cristo proibiu o juramento (cf. Mt 5: 33-37). Para eles, era dificilmente aceitável que Deus estivesse tão misturado nos assuntos frequentemente banais dos homens e por sua vez, parecia-lhes que mesmo o uso do juramento poderia, por um lado, ser a razão do desenvolvimento de uma certa superstição na sociedade e, por outro lado, motivo de muitos perjúrios, dada a desleixo com que poderia ser utilizado. Para eles, o Mestre Jesus proibia absolutamente o uso do juramento. Para compreender isso corretamente, é importante entender o que o juramento significava para um judeu. Quem fez um juramento falso ou desfez um juramento já realizado, infringiu a fé juramentada e isso era classificado como crime de falso testemunho. O perjúrio era estritamente proibido na Lei mosaica como um dos pecados mais hediondos contra Deus e contra o próximo.

V. O juramento maçônico

É evidente que na Maçonaria não há unidade de ritos mas, em geral, todos tiveram e têm juramento. Esta tradição já vem dss Old Charges da Maçonaria Operativa. Nos Antigos Deveres era previsto um juramento, sendo ele o epicentro de toda a cerimônia. Essencialmente, o rito nas Old Charges era um juramento enriquecido com leituras profissionais, históricas, religiosas, etc., mas cujo núcleo é o juramento.

O historiador Harry Carr sintetiza a questão desta forma:

Nos primeiros dias da Maçonaria operativa, a Obrigação era o tema central para admissão no Ofício, conforme pode-se constatar nas Old Charges. Estas Obrigações são muito semelhantes aos juramentos das guildas de artesãos, ou seja, constituíam um juramento ao Rei, ao mestre e aos companheiros e às leis do Ofício. As formas mais antigas das Obrigações não contêm penalidades. O candidato jura “by my holidome ” , isso é “o que considero sagrado”.

Mais tarde, haverá também uma transmissão de segredos, mas a Obrigação não continha qualquer sanção, mas se realizava em uma circunstância solene, como uma “força individual de enquadramento que não deixa de expressar uma meta-política de garantia imprescindível”.

René Desaguliers especifica que pode ser encontrado nas antigas constituições de 1722, publicadas por J. Roberts, um juramento de origem operativa de 1663. Este juramento é feito sobre a Bíblia, em nome de Deus e de São João, mas também sobre ferramentas da Maçonaria. Se o trair, o participante deve responder diante de Deus, no dia do julgamento final. O juramento determina a condição preliminar indispensável para a comunicação de segredos. Na verdade, nada será revelado em qualquer forma, sob pena de castigo corporal abominável. Assim, esse segredo não poderá ser compartilhado, exceto com outros maçons.

Na época, alguns maçons consideravam cruéis e inusitados os termos do juramento de sigilo exigido de quem era recebido na Ordem pois, com efeito, seu conteúdo ameaçava com punições atrozes. Mas, surpreendentemente, tal conteúdo não foi amenizado, mas se espalhou por todas as lojas do continente europeu e americano. Tais ameaças também estavam presentes nos juramentos realizados em graus mais elevados. Tais penalidades físicas eram um legado do direito medieval Inglês criminal e, especificamente, do castigo imposto aos prisioneiros de alta traição ou de atentado contra o rei (laesa maiestatis) que consistia de enforcar, abrir a barriga e estripar o condenado enquanto ele ainda estava vivo. As ordenanças da marinha inglesa afirmavam que “o culpado seria mantido no limite da maré baixa, três vezes, com as mãos e os pés amarrados, a g. c., a l. a. e o c. j. ao mar”.

A questão das penalidades em juramentos foi vista por alguns maçons com alguma suspeita. Isso causou alguns problemas dentro da Grande Loja Unida da Inglaterra, a tal ponto que em 11 de junho de 1986, foi votada a moção para modificar o ritual, as penalidades foram removidas do juramento e atribuídas a outra parte do ritual. Atualmente, eles continuam a ser mantidos na regularidade maçônica espanhola.

Por sua vez, dentro da Igreja Católica, o juramento maçônico feito sobre a Bíblia e sob ameaça de punição em caso de perjúrio, é visto com certa suspeita. A encíclica Providas, de maio de 1751, assinada por Bento XIV e a encíclica Ecclesiam de Pio VII, de setembro de 1821, condenam os termos desse “juramento tão severo”. Mais explicitamente, a constituição apostólica Quo Graviora de Leão XII, datada de março de 1826, declara que: 

“Nós condenamos singularmente e declaramos nulos os juramentos ímpios e culpados pelos quais, aqueles que ingressam nessas sociedades, se comprometem a não a revelar a ninguém o que eles fazem nas seitas e a condenar a morte os membros da sociedade que venham a revelá-lo aos superiores eclesiásticos ou leigos . Não é, de fato, um crime ter um juramento como vínculo obrigatório, isto é, um ato devido em estrita justiça, que conduz ao homicídio, e desprezar a autoridade daqueles que, tendo o peso do poder eclesiástico ou civil, devem saber tudo o que importa para a religião ou a sociedade, e aquilo que pode significar um ataque à tranquilidade?”

VI. Evolução no juramento maçônico

Tanto a cerimônia quanto os juramentos realizados nela estão mudando. A evolução e as mudanças rituais não tiveram como critério o capricho de seus praticantes mas, em sua essência, influenciaram tanto o espírito laico que em cada latitude geográfica invadiu a Maçonaria, quanto as concepções teológico/religiosas que os mantiveram.

Por trás das concepções religiosas, dentro da Maçonaria, as controvérsias centraram-se, como a questão entre o teísmo ou o deísmo do ritual maçônico. Algo que hoje pode parecer um assunto menor para nós foi de vital importância entre os Antigos e os Modernos. Por sua vez, a ideia de jurar na cerimônia maçônica nunca teria sido um problema para alguns cristãos, mas para outros de um ramo mais literalista sim, que, com base nos texto de Tiago e Jesus, interpretam o juramento como algo proibido.

Se olharmos para o texto do ritual inglês resultante da união de 1813, vemos:

  • sinceramente e solenemente prometer e jurar

Se jura e se promete. É a mesma fórmula que vemos hoje em alguns rituais maçônicos.

No Manuscrito Graham lemos:

  • o que você jurou –  para preservar e ocultar nossos segredos [-] /

Um juramento também está incluído.

Mas, diante disso, o mais antigo dos documentos maçônicos, o da Edinburgh Register House, diz assim:

  • Então, depois prometer manter segredo, eles lhe fazem o seguinte juramento: Por Deus e você responderá a Ele quando estiver nu diante Dele no grande dia, não deve você revelar qualquer parte do que ouvir ou ver neste momento.

Ou seja, neste documento de tradição escocesa se promete.

No documento Maçonaria Dissecada , afirma-se que o recipiendário:

  • Jura e promete.

Ou seja, se jurava e se prometia.

No Régulateur, há um ponto de ruptura com o sistema operacional, mas esse legado de modos macabros ainda é mantido neste tom. Promessa feita pelo beneficiário do grau de Aprendiz no Régulateur :

  • Juro e prometo, sobre os Estatutos Gerais da Ordem, e sobre esta espada, símbolo de honra, perante o Grande Arquiteto do Universo, xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx por esta Respeitável Loja, assim como tudo xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx se não tiver recebido xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx indicada. Prometo amar os meus Irmãos, para ajudá-los como me for possível; Prometo ainda cumprir os estatutos e regulamentos desta Respeitável Loja. Eu consinto, se cometer perjúrio, xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx e que xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx maçons! Que o G.A.D.U. me ajude.

Na França, observamos uma transformação significativa no juramento de cumprir “a promessa diante de Deus como testemunha” por uma promessa de caráter mais cidadão: “sobre a fé de um cavalheiro com a ajuda e em nome do Grande Arquiteto do Universo que é Deus”, que também é encontrado em outras referências maçônicas, como Le Sceau Rompu de 1745, ou Le Maçon Demasqué de 1751 ou mesmo em algum outro ritual de 1758 como Element de la maçonnerie.

Willermoz deu outro passo em 1765 com respeito a esta frase “prometo ante o Grande Arquiteto do Universo” que terá alguma fertilidade dentro do Régimen Rectificado, e será adotada, como indica René Guilly, pelo Grande Oriente da França, na edição de seu primeiro ritual o Régulateur du Maçon.

Tal fórmula será pronunciada dentro da Obediência até uma modificação do conteúdo de rituais, realizada em 1877, eliminar esta afirmação.

VII. Algumas considerações sobre a evolução da promessa em solo inglês e em solo francês

Enquanto o juramento estava ligado a penas físicas, a promessa estava ligada à revelação de segredos, no que diz respeito a não “falar ou escrever” os segredos, embora posteriormente algum tipo de punição física fosse incluída.

Nas ilhas britânicas, no chamado serment  ou Obrigação (oath) as penas às quais o destinatário consente no caso de perjúrio é uma reminiscência da palavra do Evangelho (Mateus 18,18 a 19): 

“Tudo o que ligares na terra acontecerá no céu, por ligação, e tudo o que você desligar na terra acontecerá no céu.” 

Por outro lado, na França, e especialmente quando nos aproximamos dos rituais do Grande Oriente da França, perto do século XIX, estes nos remetem mais às sanções previstas no Regulamento, que é uma intenção de se afastar das macabras descrições que aparecem na maioria dos rituais do século XVIII, tentando implementar o conceito de sanção administrativa.

VIII. Conclusões

A questão do juramento e promessa foi evoluindo. Se num primeiro momento foi uma questão teológica, como o secularismo impregnou os rituais na França, tornou-se também uma questão de responsabilidade própria para com os outros, sem recorrer a um elemento superior.

Ou seja, o que em território inglês era um dilema dentro da fé, na França aos poucos tornou-se uma questão humanista. Hoje em dia, na regularidade por exemplo, jura-se e promete sem distinção. Como se quisesse colocar o G.A.D.U. como testemunha da obrigação solene que o candidato adquire e por sua vez, reafirmando a sua própria responsabilidade pessoal. Em outras Ordens, foi decidido eliminar o juramento por promessa. Evitando qualquer referência a uma entidade transcendente.

Hoje, muitos religiosos veem os juramentos maçônicos como uma ameaça à sua fé. Por outro lado, outros podem ver desnecessária em um mundo tão secularizado, essa evocação como parte de um compromisso maior. Contudo, hoje em dia ainda existem defensores do juramento como parte da sacralidade do ato de iniciação.

Por todas essas razões, esta questão de novos ângulos continua a ser totalmente válida para a Maçonaria hoje.

Autor: Rubén Legidos
Traduzido por: Luiz Marcelo Viegas

Fonte: Rito Francês Blogspot

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Bibliografia

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