Os símbolos na Maçonaria: o ensinar e o aprender

ARTE REAL - TRABALHOS MAÇÔNICOS: SIMBOLOGIA MAÇÔNICA

É conhecido que a maçonaria recorre extensivamente a símbolos como forma de transmissão do conhecimento. É evidente que esses símbolos terão algum significado. O que, todavia, é menos evidente, é que não há significados universalmente aceitos ou impostos para os símbolos maçônicos. O que um interpreta de um modo, outro pode interpretar de modo diverso. Assim sendo, de que serve a simbologia na maçonaria? A que aproveita essa “plasticidade” nos significados dos símbolos? E como é que se pode usar os símbolos como meios de comunicação do seu significado subjacente, se esse significado pode variar de pessoa para pessoa?

Para o entendermos, temos que recuar no tempo. Bem antes da maçonaria especulativa ter surgido – o que sucedeu, oficialmente, em 1717 – já os maçons operativos se socorriam de símbolos para se recordarem dos ensinamentos que os seus mestres lhes haviam transmitido. De fato, muitos dos trabalhadores da pedra não sabiam ler nem escrever, pelo que se socorriam de pictogramas e representações de objetos para o efeito. Os símbolos não eram propriamente secretos; o seu significado – as técnicas a que os mesmos se referiam – é que era apenas revelado a alguns. A maçonaria especulativa veio a adotar esse método de transmissão de conhecimento. Assim, hoje como outrora, os símbolos são auxiliares de memória, instrumentos de suporte ao conhecimento, verdadeiras mnemónicas- diríamos hoje: são cábulas – que nos permitem recordar, evocar e especular.

Mas se o seu significado pode ser individualizado, como é que o conhecimento passa sem se perder, sem se desvanecer, sem se espraiar numa mar de semânticas? De forma muito simples: para tudo há um início, e o método consiste, precisamente, em dar a cada um os pontos de partida, sem estabelecer qualquer ponto de chegada… Assim, a um Aprendiz é, desde logo, ensinado o significado comum de vários símbolos: o esquadro, o prumo, o nível, o mosaico bicolor do chão dos templos, a pedra bruta, a pedra polida, entre outros. É das poucas ocasiões que, em maçonaria, alguma coisa é verdadeiramente ensinada, e mesmo aí os significados gerais são dados com parcimônia de explicações e de forma sucinta e concisa. A cada um é dito, então, que deverá procurar interpretar cada símbolo de forma pessoal, podendo quer aplicar o significado original, quer levá-lo até onde o deseje. E é esse o trabalho do Aprendiz: estudar os símbolos, construir um significado em torno dos mesmos, e aplicá-lo a si mesmo.

E como se mantém um denominador comum? Quando um maçom se refere ao prumo, os demais sabem que se refere à retidão moral, à integridade, à verticalidade de caráter – aquilo que ouviu quando, ainda Aprendiz, lhe “apresentaram” os símbolos. Contudo, mais tarde cada um irá interiorizar a seu jeito o que estas palavras significam. O que será sinal de caráter para um poderá ser duvidoso para outro; a nenhum, porém, é imposto qualquer significado universal. E porquê? Porque, se a maçonaria se destina a tornar cada homem num homem melhor, deve fazê-lo dentro do absoluto respeito pela sua liberdade. Por isso se diz que em maçonaria tudo se aprende e nada se ensina, no sentido de que cada um deve procurar os seus próprios ensinamentos sem esperar que lhos facultem. Cada um deverá poder procurar, no mais íntimo de si, o que quer fazer dos princípios que lhe são transmitidos: se quer segui-los ou ignorá-los, quais aqueles a que vai dar maior preponderância, e até onde vai levar esse ânimo de se superar. E é por tudo isto que, sendo essa luta de cada homem consigo mesmo algo de mais único do que uma impressão digital, a liberdade individual de interpretação se impõe sobre qualquer eventual tentativa de normalização do significado dos símbolos.

Autor: Paulo M.

Fonte: A Partir Pedra

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Origem e evolução dos Cargos em loja da Maçonaria e dignidades maçônicas na Grã-Bretanha do século XVII até nossos dias – Parte II

EXPERTOS - ARLS:. Universitária Professor José de Souza Herdy

II – Evolução dos cargos em loja nos “Modernos” e nos “Antigos” até a união de 1813

Vimos que a estrutura da maçonaria inglesa da década de 1720 deriva globalmente das estruturas da maçonaria escocesa do século XVII. No entanto, não sabemos onde, quando, como e por quem essa transmissão foi feita[1]. Por outro lado, sabemos que houve, durante a transmissão, uma série de mudanças, das quais as mais significativas são o fato de que a Presidência da loja não é mais confiada a um “Warden” ou a um “Deacon”, mas a um “Master of lodge” (Mestre de loja), e que este presidente é ajudado não por um, mas por dois assessores, os “Wardens” (Vigilantes). Sabemos, também, que esta nova estrutura (isto é, um Venerável Mestre e dois Vigilantes) vai se impor. Aliás, na década de 1740, é a única conhecida, e é aquela da Grande Loja de Londres. É então que aparece um novo sistema, importado pelos irmãos vindos da Irlanda que tinham, provavelmente, costumes, práticas e tradições próprias. Em 1751 e depois em 1753, esses maçons constituem uma nova obediência, a “Grande Loja da Inglaterra segundo as Antigas Instituições”.

Como sabemos, esses maçons se auto denominavam “Antigos”, porque alegavam ter uma tradição mais antiga que a da Grande Loja de Londres, e atribuíam aos membros desta última, entretanto mais antiga que eles, o adjetivo pejorativo de “Modernos”. Esta “Grande Loja dos Modernos” é hoje chamada “Primeira Grande Loja”. Em 1772, os “Antigos” elaboraram uma lista de pontos de desacordo com os “Modernos”, em que levantaremos duas questões que são relevantes para o nosso tema:

O Venerável Mestre

Os “Antigos” reprovavam nos “Modernos” ignorar a instalação secreta do Venerável Mestre, considerada fundamental pelos irlandeses. Isto, na prática, permite o acesso ao grau do Arco Real, um grau que é considerado pela tradição irlandesa como a cúpula da Maçonaria. Esta instalação secreta de que não há praticamente nenhum testemunho antes de 1760 em solo britânico, transmite uma palavra, um sinal, um toque e é de fato uma espécie de super grau de Mestre. Assim, junto aos “Antigos”, o cargo de Venerável Mestre está relacionado com uma cerimônia que tem a estrutura de um grau: a Instalação. Isso rapidamente se imporá aos “Modernos”.

Os Diáconos

Os “Antigos” culpavam os “Modernos” por ignorar o cargo de Diácono. Lembremo-nos que os “Diáconos” existiam na Escócia, no século XVII nas corporações de ofício, mas não os encontramos na Inglaterra em 1723. São os irlandeses que implantarão o cargo de Diácono na Inglaterra e isso não é surpreendente uma vez que este cargo é claramente atestado em uma loja na Irlanda desde 1733 e, em 1743, durante uma procissão maçônica onde os diáconos desfilaram com uma espécie de bastão ou cana dourada. O cargo de diácono torna-se assim, em 1753, junto aos “Antigos”, um cargo da loja colocado imediatamente na hierarquia de cargos abaixo dos Vigilantes[2].

No entanto, a origem desses Diáconos vindos da Irlanda permanece um mistério. De fato, parece não haver realmente nenhuma relação entre o Diácono Escocês (que é único e que dirige a Corporação) e os Diáconos irlandeses (que são dois oficiais secundários da loja), apesar da homonímia aparente[3].

Assim é que este cargo, desconhecido dos “Modernos”, vai gradualmente se estabelecer em suas lojas. As divulgações impressas da década de 1760, principalmente originários da tradição dos “Antigos”, certamente contribuíram, de modo que, antes da União de 1813, em 1810 e 1812, já se encontram Diáconos nas lojas dos “Modernos”[4]. Estes Diáconos carregam um bastão negro com joias prateadas.

O Telhador (Cobridor Externo)

Originalmente, este cargo (como outros cargos talvez) era provavelmente uma dignidade específica da Grande Loja. Só então, e provavelmente por mimetismo, ele se tornou um cargo nas lojas. O Telhador[5] exerce, além da função de guarda externo da instalação secreta, a da ordem das palavras sagradas.

Na loja tem por função enviar as convocações aos irmãos, em mãos. Ele deve também traçar o painel da loja[6]. O cargo do Telhador evoluirá gradualmente para se tornar uma espécie de zelador da loja mediante uma pequena remuneração, que é sempre o caso na Inglaterra. Ao lado do Telhador apareceu depois de 1813 um Cobridor, tradução mais extensa que “Guarda Interno” ou guarda do interior, cargo que resulta simplesmente da divisão do cargo de Telhador[7].

A estrutura da loja depois da União de 1813, emprestou a maioria de suas formas dos “Antigos”. Seja quanto ao vocabulário utilizado, a presença de Diáconos, no lugar dos três oficiais principais[8], os “Antigos” impuseram seus usos aos “Modernos”[9] que, de fato, já os tinham amplamente adotados antes da União. Então, foi nessa época que foi fixado, e até nossos dias, o sistema de cargos e dignidades de loja na Inglaterra.

Continua….

Autores: Roger Dachez e Thierry Boudignon

Tradução: José Filardo

Fonte: Bibliot3ca Fernando Pessoa

Notas

[1] – O sistema escocês ainda está presente no manuscrito Keavan (1714), enquanto que o sistema Inglês é certamente atestado a partir de 1723.

[2] – Uma parte do papel dos vigilantes na tradição dos “Modernos” foi transferida para os diáconos que se tornam, de algum modo, seus adjuntos. Por exemplo, são os diáconos, e não os vigilantes como na tradição dos “Modernos” que orientam o candidato nas viagens.

[3] – Recordemos uma vez mais que o diácono escocês é uma espécie de delegado geral, enquanto o diácono irlandês, como o diácono da igreja católica, tem uma função subordinada.

[4] – Na época da União, em 1813, será reconhecido que o ofício de diácono não é apenas útil, mas necessário.

[5] – A palavra “Tyler” (Cobridor externo) aparece pela primeira vez na ata da Grande Loja em 1732.

[6] – Estas funções são encontradas na França, cf. O segredo dos maçons do Abade Perau.

[7] – O cargo de cobridor é estranho à tradição dos “Modernos”. Por exemplo, no Rito Escocês Retificado, cuja estrutura empresta muita coisa dos “Modernos”, vemos que é o Mestre de Cerimônias que exerce as funções de cobridor.

[8] – Nos “Modernos”, os dois vigilantes estão no ocidente, enquanto que nos “Antigos”, há um no ocidente e outro ao sul.

[9] – Pode-se acrescentar a isto, a questão da instalação secreta e a da ordem das Palavras sagradas.

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Origem e evolução dos Cargos em loja da Maçonaria e dignidades maçônicas na Grã-Bretanha do século XVII até nossos dias – Parte I

Trois gravures encadrées. Représentant des scènes maçonniques, gravures dites[...]

I – Os oficiais da Loja, da Escócia de William Shaw à primeira Grande Loja inglesa até 1750

Qual é a origem dos oficiais de uma loja maçônica? Responder a esta pergunta é necessariamente relacioná-la com o sistema primitivo de graus maçônicos e procurar essa origem primeiro na Escócia ao final do século XVII e depois na Inglaterra no início do século XVIII.

Lembremo-nos que na Escócia, no século XVII, o sistema de graus consistia em duas etapas: Aprendiz (isto é, um Aprendiz que fez suas provas durante 7 anos em média como Aprendiz registrado) e o Companheiro ou Mestre este último chegando raramente a ser alcançado em virtude de seu custo. Além disso, existiam dois tipos de estrutura nessa Maçonaria Escocesa: uma estrutura civil, administrativa e pública, a corporação ou Guilda de Mestres que governava a cidade e o emprego, e uma estrutura “secreta” específica do ofício, a loja. Estas estruturas, em princípio independentes eram, de fato, complementares, o que causava rivalidades e conflitos. De qualquer forma, a corporação consiste de Mestres, mestres que tinham na loja o “grau” mais alto que se podia conferir, o de Companheiro de Ofício, categoria na qual são recrutados os futuros mestres da corporação. Fica assim claro que o título de “Mestre” não era um grau da loja, mas uma dignidade civil, que era adquirido através de herança, casamento ou até mesmo compra.

No início do século XVIII, na Inglaterra, na década de 1720, um novo grau apareceria, o grau de Mestre. É certamente atestado em 1730, na forma em que o conhecemos e a composição desse grau, puramente Inglês, aparentemente, era o resultado da adição de uma lenda ao segundo grau, de Companheiro, de origem escocesa.

O novo segundo grau inglês, o de Companheiro “novo estilo” em um sistema agora de três graus, resultou de uma divisão do antigo primeiro grau escocês. Assim, no sistema inglês, o título de “Mestre” tornou-se um grau de loja. Este sistema tem, portanto, a seguinte composição: Aprendiz, Companheiro e Mestre Maçom. Mas o termo “Mestre” vai se tornar rapidamente ambíguo, uma vez que designará tanto um grau, “Mestre Maçom” quanto um cargo, o Mestre da Loja (cargo que sabemos ser também um grau)…

Os cargos da loja no século XVII

Em uma loja de maçons “operativos” na Escócia, no século XVII, havia um presidente que se chamava “Warden”, etimologicamente “o Guarda” (a tradução como Vigilante impôs-se somente no início do século XVIII). Esse termo, “Warden” ou Guarda é encontrado nas organizações tradicionais do ofício. Na Inglaterra também, embora as organizações de ofício (as “Companhias de Londres”, as guildas londrinas, incluindo a Companhia dos Maçons de Londres, “London Masons Company”) não tinham, naquela época, a importância das suas contrapartidas escocesas, no entanto, elas elegiam um presidente que trazia e ainda traz o título de “Warden”. Ao contrário, nas corporações escocesas, o presidente se chamava “Deacon”, ou Diácono (o enviado) ou, no vocabulário contemporâneo, “delegado geral”. As rivalidades entre a corporação e a loja explicam que, em alguns casos, há também “diáconos” nas lojas. Além dos cargos de “Vigilantes” na loja e o “Diácono” na corporação, não se conhecem outros oficiais na Escócia, embora seja provável que houvesse algum tipo de secretário-tesoureiro o “funcionário”, fora da profissão, mas cuja função era essencial a vida da loja.

Os cargos da loja no século XVIII (1717-1723)

Quando, onde e como o sistema escocês foi transmitido na Inglaterra até o aparecimento das lojas, depois de uma grande loja, com seus próprios oficiais? Isso ainda é, em parte, um mistério.

O sistema da primeira Grande Loja em 1723, era o seguinte: o Título IV das Constituições distinguia os Mestres, os Vigilantes, os Companheiros e os Aprendizes. Aqui o termo “Mestre” não se refere a um grau, que ainda não existia, mas um cargo, o “Mestre da Loja”. Há também um outro cargo: o Vigilante (“Warden”). A hierarquia ou o currículo maçônico assim se estabelecia: somos primeiro Aprendizes, depois Companheiros, grau que é uma qualificação indispensável para se tornar, eventualmente, Vigilante, depois Mestre da Loja, função superior à do Vigilante. Além disso, previa-se que em caso de incapacidade do Mestre da Loja, o “Senior Warden (Primeiro Vigilante)”, isto é, literalmente, “o guarda mais antigo” que o substituía, se não existisse um “ex” Mestre de Loja, e na falta do “Senior Warden,” chamava-se o “Junior Warden” (Segundo Vigilante) ou “o guarda mais jovem”. Note-se que a tradução para 1º e 2º Vigilantes é, na verdade, falha, embora seja consagrada pelo uso.

Constatamos assim que se distinguia, que se tratava tanto de Mestres quanto de Vigilantes, o mais velho e o mais novo. Assistimos aqui a origem da passagem de um “Warden” único, para dois “Wardens”? A duplicação de Vigilantes seria então o resultado de se levar em conta a antiguidade no exercício da função, exatamente como existe um “Mestre da Loja” e um “Mestre Instalado” (Past Master). Em suma, em 1723, a loja era presidida por um “Mestre” assistido por dois Vigilantes, o “Senior Warden” e o “Junior Warden”.

Mas existiam outros oficiais? O artigo 17 do Regulamento Geral da Grande Loja distingue um Grão-Mestre, um Grão-Mestre Adjunto, Grandes Vigilantes, um tesoureiro e um secretário, os dois últimos cargos parecendo ainda serem exercidos temporariamente.

Em relação ao período inaugural 1717-1723, faltam-nos documentos, pois o registro das atas da Grande Loja começa precisamente em 1723, e não foi senão em 1738 que Anderson reconstruiu as atas anteriores. Convém, portanto, manusear esses textos com prudência. De acordo com Anderson, havia em 1717, um Grande Mestre, Anthony Sayer, investido pelos mais antigos Mestres de Loja presentes. Havia também dois Grandes Vigilantes. Esta prática, um Venerável e dois Vigilantes, parece vir das quatro lojas fundadoras da Primeira Grande Loja, e se conservou.

Depois de 1730 e do aparecimento do grau de Mestre, foi necessário modificar o conteúdo do Título IV das Constituições. O currículo maçônico torna-se então o seguinte: Aprendiz, Companheiro e Mestre Maçom. Os Vigilantes são escolhidos entre os Mestres Maçons e para se tornar Mestre da Loja, deve-se ter sido Vigilante. A palavra “Mestre”, portanto, designa ao mesmo tempo um grau e um cargo.

Os Diáconos

Não há nenhuma menção dos Diáconos antes de década de 1740, isto é, num momento em que os irlandeses começam a se manifestar. Na obra Maçonaria Dissecada de 1730, bem como no manuscrito Wilkinson (circa 1727), não são os Diáconos que recebem o candidato, como na maçonaria inglesa contemporânea, mas o 2o Vigilante. Esta tradição passará então à França e permanecerá no Rito Escocês Retificado. Assim, constata-se que se o cargo de “Warden”, um cargo da loja escocesa, é facilmente implantado na Inglaterra, por outro lado o cargo de “Deacon” ou “Diácono”, um cargo da Corporação levará mais tempo, provavelmente por ser estranho às organizações de ofício inglesas. Assim, através dos Irlandeses e da Grande Loja dos “Antigos” este cargo tomará pé mais tarde na Inglaterra. Mas existe uma relação entre os cargos escoceses e irlandeses?

O Telhador ou Cobridor Externo

Desde 1723, na Inglaterra, Anderson, nas Constituições refere-se a um irmão encarregado de guardar a porta da Grande Loja, mas se ele designa a função, ele não a nomeia, o que será feito apenas na década de 1730. No entanto, não é certo que este cargo de Grande Loja já existisse nas lojas. Parece, mais, que o cargo de Cobridor, como talvez outros cargos, seria o produto de uma inovação da Grande Loja que, então, se espalhou pelas lojas querendo imitar a Grande Loja. Este fenômeno também foi observado na França. Neste contexto, a palavra e o cargo de “Tuileur (Cobridor)” aplicados a uma loja são atestados nas primeiras divulgações dos anos 1740, e seu papel na estrutura da loja é bem especificado ali.

No entanto, a Grande Loja de Londres começou a se interessar pela estruturação do sistema de cargos nas lojas, pois desde 24 de junho de 1727, ela decidiu, pela primeira vez, que o Mestre e os Vigilantes de todas as lojas, deveriam usar as joias da Maçonaria penduradas em uma fita branca. Em 17 de março de 1731, afirma-se que os aventais de couro bordados com seda branca serão reservados para o Venerável Mestre e os Vigilantes, enquanto a cor dos colares e da seda bordando os aventais dos Grandes Oficiais seria azul, sem especificar a natureza exata deste azul.

A partir de 1750, a Maçonaria Inglesa, no entanto, vai conhecer uma situação radicalmente nova.

Continua….

Autores: Roger Dachez e Thierry Boudignon

Tradução: José Filardo

Fonte: Bibliot3ca Fernando Pessoa

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A importância do Ritual

The Ritual

Meus Irmãos, saúdo-vos fraternalmente, em todos os vossos graus e qualidades.

A suspensão dos trabalhos presenciais por virtude da pandemia em curso, revelou-nos a falta que o Ritual, a execução do Ritual, nos faz. É essa a natureza humana: muitas vezes só nos damos conta do que é importante quando o não temos. Mas não é sob esta perspectiva que escolhi expor a Importância do Ritual. Vou procurar incidir a nossa atenção sobre a razão por que o Ritual é importante, porque só tendo-se essa noção é que nos apercebemos completamente da importância do mesmo.

Começo por fazer uma afirmação que aparentemente não tem nada a ver com o tema e que é – como todas! – discutível, mas cujo mérito vos peço que julgueis apenas no final desta nossa conversa: a Maçonaria não se ensina, aprende-se!

Não quero com esta afirmação dizer que os mais experientes não devem partilhar com os mais novos o que aprenderam, o que sabem. Com esta frase, enfatizo que, em Maçonaria, o que é importante não é o que se transmite mas, antes, o que se apreende. Porque a experiência, a vivência, a personalidade do que transmite são diferentes das do que recebe. Assim, o que verdadeiramente interessa não é o que se ensina, se partilha, se transmite. O que importa é o que se aprende e, mais do que isso, o que se apreende, o que se interioriza. E aquelas e estas não são necessariamente – atrevo-me mesmo a dizer que raramente são – a mesma coisa. E, bem vistas as coisas, é inevitável que assim seja, pois, como já há pouco referi, o que transmite e o que recebe têm personalidades, vivências, capacidades, características diferentes. Assim, o que transmite tem necessariamente uma noção diversa do que aquele que recebe. Este, daquilo que é transmitido, receberá o que, na ocasião, estiver apto e pronto a receber, será tocado pelo que, no momento, o sensibilize. Em suma, o que ficará é o que ele aprende e apreende, não o que o que transmitiu julga que ensinou…

Não tenho, portanto, a pretensão de ensinar nada! Tenho apenas a esperança de que, da maçada a que agora vos submeto, cada um de vós retenha algo de útil.

Em meu entender, para uma correta abordagem da importância do ritual impõe-se que previamente distingamos entre Conhecimento e Sabedoria. O Conhecimento é tudo aquilo que aprendemos e estamos aptos a utilizar, quando necessitamos. A Sabedoria é algo mais profundo. Baseia-se, é um fato, nos conhecimentos que adquirimos. Mas reside na intuição, na capacidade adquirida de, relacionando tudo o que conhecemos, daí selecionar o que efetivamente importa, o que é adequado para um momento específico, uma situação concreta. Nem sempre aquele que tem mais conhecimentos é o que tem a sabedoria necessária para escolher a via justa, a palavra indicada, o gesto preciso, a atitude certa perante uma dada situação concreta. Numa muito grosseira aproximação, poderíamos dizer que a sabedoria resulta do conhecimento sublimado pela experiência. É através dos êxitos e fracassos na nossa escolha na utilização dos nossos conhecimentos que sublimamos o nosso Conhecimento em Sabedoria, que passamos do Conhecer ao Saber.

Memoriza-se e utiliza-se o que se conhece; desenvolve-se e internaliza-se o que se sabe.

O meio privilegiado para rápida aquisição de Conhecimento é o Estudo. Para se chegar à Sabedoria é preciso tempo e vivência. Mas há um meio para acelerar esse percurso, para induzir a Sabedoria: a utilização, execução e prática do Ritual. Se o Estudo é um meio de aquisição de Conhecimento, o Ritual é indutor de Sabedoria.

Com efeito, o Estudo estimula, faz funcionar, desenvolve a Inteligência Racional. Mas o Ritual, a sua prática, esse, estimula e desenvolve a Inteligência Emocional. E esta é bem mais profunda do que aquela, pois combina o conhecimento, o raciocínio, com a Intuição. O que estudamos pode não nos tocar e dar-nos apenas, pela memorização, a ferramenta necessária para agir. Mas só o que nos toca, nos emociona, efetivamente guardamos para saber como utilizar a ferramenta. A ferramenta é útil, mas saber utilizá-la pela melhor forma é indispensável…

Para entendermos porque e como o Ritual e o seu exercício estimulam a nossa Inteligência Emocional e, logo, induzem a obtenção de Sabedoria, devemos ter presente que, nos primórdios da Humanidade, quando ainda não tinha sido inventada a escrita – e muitas e muitas gerações de humanos viveram sem que houvesse escrita… -, a aquisição de conhecimentos e o acesso à Sabedoria processavam-se através da Tradição Oral. Era exclusivamente por essa via que os mais velhos e os mais experientes transmitiam o que sabiam aos mais novos e sem experiência.

Não havia então propriamente aulas, nem escolas. Os mais velhos e experientes diziam o que tinham aprendido, executavam perante os mais novos os gestos que era necessário fazer, repetiam, uma e outra vez, e faziam repetir muitas e muitas vezes, as palavras, os gestos, os atos de que dependiam, tantas vezes, a alimentação, a segurança e a sobrevivência, não só individuais como do grupo.

Ora, repetir uma e outra vez as mesmas palavras, para transmitir as mesmas noções, executar muitas e muitas vezes os gestos e as ações adequados para a obtenção dos resultados pretendidos mais não é do que… executar um ritual! Um Ritual é um conjunto de palavras, gestos e atos proferidas e executados sempre da forma similar.

Então, nos primórdios da Humanidade, aprendia-se e vinha-se a saber através da repetida execução de rituais. Era pelo que se via, pelo que se ouvia, pelo que se executava, pelo que exaustivamente se repetia, que se entranhava em cada um o que fazer e como fazer para obter alimento, para garantir segurança, para melhorar e curar maleitas, para adquirir o conforto possível.

Os rituais aprendidos e executados propiciavam, assim, a sabedoria necessária para sobreviver e viver o melhor possível.

O cérebro humano foi portanto, desde muito cedo, formatado em primeiro lugar para reagir aos estímulos visuais e auditivos.

Só mais tarde, muito mais tarde, o cérebro humano adquiriu a capacidade e habilidade de decifrar o código da escrita. A criação da escrita foi um avanço civilizacional imenso. Permitiu registar o que se tinha por importante, aquilo que anteriormente tinha de ser adquirido e mantido à custa de repetições. A escrita e a habilidade de a utilizar permitiram à Humanidade um meio mais fácil de registar e dar acesso ao Conhecimento. O cérebro humano naturalmente adquiriu, assim, também a capacidade de adquirir Conhecimento através da escrita, da leitura, do estudo.

Mas tenhamos presente que a camada mais profunda do nosso cérebro é, desde sempre, estimulada auditiva e visualmente e por execuções ritualizadas do que se pretende transmitir. A aquisição de Conhecimento através da escrita, da leitura, do estudo é uma habilidade mais recentemente adquirida, logo, mais superficial no nosso cérebro.

Não nos enganemos: o estudo, a aquisição de Conhecimento pelo estudo, dá trabalho. Esse trabalho é recompensado pelo desenvolvimento da nossa Inteligência Racional, pela habilidade de memorizar, de relacionar, de aplicar. Mas é apenas a Razão que é aplicada e fortalecida.

Para se desenvolver, para se utilizar a Inteligência Emocional, a que nos permite, quantas vezes sem sabermos como, intuitivamente, dizer a palavra certa, executar o gesto adequado, efetuar a ação necessária sem termos de longamente pesar os prós e os contras, sem necessitarmos de fazer exaustivas análises e cálculos, para isso temos de recorrer às camadas mais profundas do nosso cérebro – e essas desde o início dos tempos foram estimuladas pelo que se via e ouvia, pelo que se repetia uma e outra e muitas vezes, pelo que se ritualizava.

Por isso afirmo que o Ritual é o indutor de mais rápida passagem do Conhecimento à Sabedoria, acelerando o que só a Experiência, a Vida vivida, os erros cometidos e as vitórias alcançadas nos permitiria atingir, não fora ele.

Meus Irmãos: até agora tenho sempre falado de Ritual, sem adjetivar e, sobretudo, sem utilizar o adjetivo maçônico.

Porque o ritual, penso tê-lo demonstrado, existe desde sempre e desde sempre aumenta a capacidade humana de discernir, em suma, de saber. E não há “o “ ritual, há muitos rituais, respeitando a muitos momentos, ocasiões e atividades. Existem, bem o sabemos, rituais religiosos. Mas também de outra natureza, uns mais solenes e utilizados em ambiente de Poder ou de significado social, outros mais simples, íntimos até. Atrevo-me a dizer, por exemplo, que todos os casais com algum tempo de ligação criam os seus rituais próprios, indutores de segurança, conforto e manutenção da relação afetiva. 

Uma categoria de rituais que merece referência é o ritual que podemos denominar de grupal, o que marca, define e corporiza a integração de alguém num determinado grupo. Aí não está em causa a aquisição ou consolidação de conhecimentos ou o acesso a sabedoria, mas simplesmente o estabelecimento de uma união grupal, a que o neófito passa a aceder.

Todo o ritual é importante, precisamente porque correspondendo à mais antiga e natural forma de a Humanidade processar a aquisição de conhecimentos, ganhar e manter confiança, obter conforto e segurança. Não é assim porque queremos que seja, assim é porque a nossa evolução como espécie o determinou. Talvez algo grandiloquentemente, pode-se afirmar que a Civilização se alicerça em rituais. 

Mas os Rituais Maçônicos, esses, partilhando com os demais a mesma natureza de meios indutores de aquisição de Sabedoria, têm ainda uma valência própria, quiçá não exclusiva, mas seguramente que identitária.

Os rituais maçônicos têm uma tríade de caraterísticas, duas delas já referidas e uma terceira que podemos considerar própria. Os rituais maçônicos assumem a natureza de indutores de Sabedoria, são também, particularmente nos rituais de Iniciação e de Aumento de Salário, rituais grupais, mas também assumem a natureza de explanação e aprofundamento de Princípios e Valores.

Esta uma especificidade não negligenciável. Os vários rituais dos diferentes ritos maçônicos apresentam-nos e definem-nos Valores e Princípios a que os maçons devem corresponder. Não estão aqui em causa conhecimentos a interiorizar. Estão, diretamente, aspectos e referências morais a seguir, a cumprir, a divulgar.

Os rituais maçônicos, ao promoverem Princípios e Valores, apelam diretamente às caraterísticas básicas do cérebro humano. Os princípios e Valores expostos, facultados, não se destinam a ser meramente apreendidos pela Inteligência Racional, através do estudo e da aquisição de conhecimentos. Procura-se atingir a Inteligência emocional, o âmago da personalidade de cada um e aí efetuar as modificações inerentes a esses Princípios e Valores.

Busca-se a aceleração do processo. Em vez da mera aquisição pela Inteligência Racional e posterior enraizamento através da experiência, busca-se a inserção direta e eficaz na mente do maçom, atingindo o que o Ritual, desde os primórdios da Humanidade toca: a Inteligência Emocional, logo as profundezas do ser que cada um de nós é. Não se semeia, para que porventura nasça e cresça. Planta-se para que, no mais curto espaço de tempo, haja frutos. 

Os rituais maçônicos destinam-se assim, para além da integração de indivíduos em grupos, a propiciar a modificação de cada um, através da interiorização de Princípios e Valores morais, que devem nortear a conduta de cada um,

Expostos de forma ritualizada, muitas vezes repetida, encenada e praticada, tais Princípios e Valores entranham-se diretamente no âmago essencial de cada um, assim propiciando o seu aperfeiçoamento.

Este processo de aperfeiçoamento não é imediato. É demorado, é evolutivo, depende de patamares.

É por isso que é um erro pensar-se que, sabido o ritual, aprendido a executar o mesmo com perfeição, o nosso trabalho está terminado.

Posso garantir-vos, com base na minha experiência de mais de 30 anos de maçom, que não é assim que funciona.

Decorar o ritual, executá-lo na perfeição, são ainda tarefas do Intelecto, da Inteligência Racional. O que importa é senti-lo, vivenciá-lo, apreender aqui e ali algo de novo, algo que nos chama agora a atenção e em que não reparamos antes. Porque esse é o processo de entranhamento das noções transmitidas pelo ritual, esse é o processo de passagem do Conhecimento à Sabedoria.

Se há algo que verdadeiramente aprendi com os nossos rituais é que se está sempre a aprender algo de novo com os mesmos. Em mais de trinta anos de Maçonaria, já repeti, já executei, já vi serem repetidos, já vi serem executados, os nossos rituais centenas de vezes. Nunca me incomodei com a repetição. Nunca deixei de me concentrar na sua execução. E, trinta anos passados, ainda me sucede que subitamente encontro algo de novo, apesar de ser o mesmo ritual que pratico e a que assisto ao longo deste tempo.

Tal sucede por uma simples razão: encontro numa ocasião aquilo que então estou preparado para encontrar. As palavras, os gestos, os atos, são os mesmos desde o princípio. Mas antes eu não compreendera aquele particular significado, porque ainda não estava preparado para tal. Porque tive de seguir uma evolução, compreendendo aqui algo que mais tarde me permitiu perceber aquilo, que me modificou e levou a entrever aqueloutro pormenor, num processo evolutivo permanente.

É para isso que serve o nosso ritual. Porque o ritual maçônico não é um simples ritual igual a todos os outros que a Humanidade segue. O ritual maçônico é um meio de Construção e Aperfeiçoamento de Nós.

É esta a sua importância!

Autor: Rui Bandeira

Fonte : A Partir da Pedra

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A Escola Autêntica e o simbolismo da Maçonaria

O que é e como surgiu a maçonaria? | Super

O sentimento que animou a fundação da Quatuor Coronati Lodge n.º 2076em 1884-6, fez com que ocorresse uma reviravolta na Maçonaria. Até aquele momento, a pesquisa sobre a nossa história era bastante rudimentar, geralmente baseada em ilações sem apoio algum, a não ser a própria imaginação dos nossos Irmãos[2]. Por isso, podemos dizer que: a Escola Autêntica surgiu per contra Escola Romântica da Maçonaria, i.e.: o atual pensamento dominante na pesquisa maçônica resulta da insatisfação e insurgência dos nossos Irmãos com os métodos utilizados nos estudos históricos da Maçonaria da época.

Escola Autêntica se caracteriza por utilizar os métodos acadêmicos para lastrear suas pesquisas. Para eles, os Maçons são descendentes dos pedreiros medievais.

Os adeptos da Escola Romântica defendem diversas teorias sobre a origem da Maçonaria: os Cavaleiros Templários, o Antigo Egito, a construção da Torre de Babel, etc.[3].

Os exemplos de pesquisadores românticos são tão amplos e diversos que é difícil nomeá-los: Robert LomasJorge AdoumPaul Naudon, Michael Baigent Richard Leigh [4] são alguns dos exemplos mais notáveis.

Embora a definição mais comum da Escola Autêntica diga respeito a métodos científicos para investigação histórica da Maçonaria, existe a partir dela, ao que nos parece, um desdobramento incidental sobre a interpretação dos nossos símbolos.

O Ir.’. Harry Carr sintetizou o método interpretativo da Escola Autêntica na Introdução da sua obra O Ofício do Maçom:

Em geral, acredito que uma abordagem histórica é a mais compensatória, i.e., investigando o item em questão, desde o aparecimento mais antigo, seguindo seu desenvolvimento e mudanças, até quando nosso ritual e procedimentos foram mais ou menos padronizados no início dos anos de 1800. [5]

A citação é assaz precisa ao expor o método interpretativo. Contudo, nas suas entrelinhas é possível ler algo que foi consignado por outros Maçons da Escola Autêntica: a correta compreensão de um símbolo depende do contexto no qual ele está inserido. Essa é a regra cardeal para o intérprete[6].

Uma interpretação responsável dos nossos símbolos depende do conhecimento das fontes disponíveis, usadas pelos criadores dos nossos Rituais. Albert Pike, por exemplo, desenvolveu a mais coerente e completa teoria sobre a Palavra Perdida ao descobrir que os primeiros Maçons Especulativos derivaram seu conhecimento sobre o Nome Inefável, IHVH, do livro de Christian Knorr Von RosenrothA Qabalah Revelada[7].

Frontispício da primeira edição da obra Kabbala Denudata (Qabalah Revelada), de Christian Knorr Von  Rosenroth.

Publicada no Século XVII, ela foi a fonte histórica que orientou a criação de um dos nossos símbolos mais famosos: a Palavra Perdida.

É assim que, muitas vezes, fatos não relacionados diretamente ao Ofício[8] servem como vetor interpretativo dos nossos símbolos[9].

Por isso, é necessário que o intérprete tenha consciência das fontes primárias de onde nosso simbolismo dimana. É bem verdade que a Maçonaria tomou emprestado dos pedreiros medievais grande parte dos seus instrumentos de trabalho, conferindo-lhes significados para seus propósitos. Assim, o maço, o cinzel, o prumo, o esquadro, o compasso, e tantos outros instrumentos, foram associados a diversas virtudes, encerrando lições de moralidade.

Isso não obstante, não encontramos entre os nossos ancestrais operativos muitos dos nossos símbolos atuais, como sejam, o sol e a lua, as constelações, a estrela flamejante, o túmulo e o ramo de acácia[10].

Essa pluralidade de fontes se reúne em documentos oficiais da instituição e reside em fatos incidentais à Maçonaria. Assim, para o exercício interpretativo é imprescindível o conhecimento da história da Maçonaria, suas Antigas Obrigações, Inconfidências e Rituais. Os símbolos do Ofício podem assumir significados diversos e contraditórios do que aqueles comumente conhecidos pelo público ou, até mesmo, entre os diversos graus da Fraternidade. Portanto, nossa admoestação não é gratuita.

É preciso resistir à tentação de exportar, entre os diversos graus e Ritos, o significado conferido aos símbolos, sob pena de prejudicar a compreensão dada pelo contexto no qual o glifo está posto. É nesse esteio, por exemplo, que as colunas vestibulares do Templo representam, a princípio, as senhas dos graus de Aprendiz e Companheiro, e se transformam no cerne mais profundo do Real Segredo do Rito Escocês no seu 32.º grau.

A Maçonaria é um “sistema de moralidade, velado por alegorias e ilustrado por símbolos”; por definição, portanto, nossos símbolos são veículos de conhecimento, que cingem as mais altas instruções morais e filosóficos. Pike foi taxativo: grandes verdades, esotéricas e divinas, residem veladas no simbolismo da Maçonaria[11].

Há símbolos, cujos significados e ensinamentos são intuitivos, prescindindo maiores elucubrações. Outros, entretanto, exigem “contemplação, explanação, ou o benefício da maturidade e/ou experiência de vida”[12]. As lições destes serão mal interpretadas e mal executadas, se nos faltarem as ferramentas intelectuais adequadas para apreendê-las. Enquanto Maçons é nosso dever buscar a luz, que representa o conhecimento, ainda que ela esteja oculta sob o véu do Mistério. A interpretação é o primeiro dos nossos esforços para aplicar, na vida, os ensinamentos da Arte Real.

GLORIA DEI EST CELARE VERBUM.

Autor: Pablo Guedes

Fonte: Ritos & Rituais

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Notas

[1] – O Ir.’. Pablo Roar Justino Guedes é membro da A.’.R.’.L.’.S.’. José Rodovalho de Alencar n.º 2.912, Cajazeiras-PB, jurisdicionada ao Grande Oriente do Brasil-Paraíba. Atualmente é o M.’. Ilust.’. Grande Secretário Geral do Grande Colégio de Ritos do Brasil. Também é Master Craftsman do Supremo Conselho Mãe do Mundo do R.’.E.’.A.’.A.’., membro da Academia Maçônica de Artes, Ciências e Letras do Estado da Paraíba, do Círculo de Correspondência da Quatuor Coronati e um Companheiro da Scottish Rite Research Society.

[2] – Cf. PIKE, Albert, Morals and dogma of the ancient & accepted scottish rite: annotated edition by Arturo de Hoyos, Supreme Council, 33º, S.J., U.S.A., 2016, p. 21.

[3] – Cf. DE HOYOS, Arturo, Scottish rite ritual monitor and guide, Supreme Council, 33º, S.J., U.S.A., 2010, p. 77. Também recomendamos a leitura da obra de David StevensonAs Origens da Maçonaria, publicado pela Madras Editora.

[4] – Na obra destes dois últimos, O Templo e a Loja, eles defendem que a Maçonaria se originou a partir da Ordem do Templo. Por isso nós os qualificamos como pesquisadores românticos. Em nome da clareza, entretanto, enfatizamos: a obra possui grande valor, máxime no que concerne à história da fundação da Grande Loja de Londres (1717), depois Unida da Inglaterra (1813).

[5] – Cf. CARR, Harry, O ofício do maçom: o guia definitivo para o trabalho maçônico, Madras, 2012, p. 21.

[6] – Cf. DE HOYOS, Arturo, Scottish rite ritual monitor and guide, Supreme Council, 33º, S.J., U.S.A., 2010, p. 143.

[7] – Cf. DE HOYOS, Arturo, Albert Pike’s Esoterika: The symbolism of the blue degrees of freemasonryScottish Rite Research Society, U.S.A., 2008, p. 144. Tb. para saber mais sobre o tema, recomendamos a obra Da Fórmula dos Deuses Mortos, que explica a teoria da Palavra Perdida desenvolvida por Pike.

[8] – Recomendamos a leitura do seminal, embora propedêutico, Desmistificando a Maçonaria, do Ir.’. Kennyo Ismail. Nele, temos um exemplo de um autor nacional que interpreta os símbolos de nossa ordem com base em dados históricos. Nesse sentido, v.g., O Pavimento Mosaico e a Orla Dentada (cf. ISMAIL, Kennyo, Desmistificando a Maçonaria, Universo dos Livros, 2012, pp. 31-34).

[9] – Um dos exemplos mais notáveis para qualquer pesquisador é a obra do Ir.’. Harry Carr, O Ofício do Maçom. Nela, é possível reconhecer esse método à medida que o autor segue respondendo a diversos questionamentos, sempre recorrendo a fontes históricas para nortear sua intepretação.

[10] – Cf. DE HOYOS, Arturo, Albert Pike’s Esoterika: The symbolism of the blue degrees of freemasonryScottish Rite Research Society, U.S.A., 2008, pp. l-li.

[11] – Cf. DE HOYOS, Arturo, Albert Pike’s Esoterika: The symbolism of the blue degrees of freemasonryScottish Rite Research Society, U.S.A., 2008, p. xxv.

[12] – Cf. DE HOYOS, Arturo, Scottish rite ritual monitor and guide, Supreme Council, 33º, S.J., U.S.A., 2010, p. 77.

A ignorância da diversidade

Os efeitos positivos da diversidade no franchising | Mercado&Consumo

Uma reflexão sobre uma ignorância que ganhou relevo com a globalização, a ignorância da diversidade. Muniz Sodré mostra como um determinado pensamento abstrato e teórico sobre a diversidade acaba desviando a atenção sobre a fundamental importância da existência da diversidade. Para ele, somente na diversidade e nas relações que se criam a partir dela, é que podemos montar as redes de afeição e relacionamentos que precisamos para a nova realidade mundial. Muniz também faz um breve resumo da importância dos negros para a nossa cultura e para a criação da diversidade brasileira.

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Τετρακτυς: a tétrada pitagórica

Rosicrucian Tradition - The Papers of Thomas D. Worrel

Onde quer que um símbolo esteja relacionado a um número, aí há, quase sempre, uma referência a Pitágoras. O que dele sabemos vem de comentários de outros pensadores e, no que concerne às interpretações pitagóricas dos números, a influência de pensadores tardios é imensa, principalmente do médio-platonismo e do período renascentista, de modo que não há como saber se realmente as interpretações correspondiam ao verdadeiro pensamento do Mestre ou se eram apenas divagações com apenas algum fragmento de verdade.

Um dos símbolos mais marcantes é a Tetraktýs ou Tétrada, simbolizada pela disposição dos números 1, 2, 3 e 4 em um triângulo equilátero. Para os pitagóricos, a Tetraktýs era sagrada e até se jurava sobre ela. As fontes hermenêuticas são Jâmblico e Nicômaco de Gerasa.

A palavra Tétrada é uma tradução do termo grego Τετρακτυς, cuja pronúncia é /tetraktýs/, com tônica na última sílaba e com o y tendo o mesmo som do u francês ou do ü alemão. Doravante, toda expressão escrita da pronúncia de um termo grego ou latino virá entre barras, /…/. A Tétrada, como disse, refere-se à coleção dos quatro primeiros números, 1, 2, 3 e 4. Para eles, tudo podia ser explicado a partir dela.

Para entender o porquê, é necessário compreender que esses quatro primeiros números simbolizavam princípios fundamentais norteadores da reflexão filosófica sobre o mundo. Em primeiro lugar, eles se referiam, respectiva e equivalentemente, às noções de Mônada, Binário, Ternário e Quaternário. A totalidade das coisas era simbolizada pela Década, ou seja, pelo número 10, pois a soma aritmética 1+2+3+4=10 era uma representação da totalidade abrangida pelos princípios fundamentais.

A chave para a compreensão da Tétrada, segundo opino – e entendo não ser definitiva ou consensual -, está na antiga questão platônica do Uno e do Múltiplo. Olhemos em redor. Percebemos a existência de diversos seres e vemos que estamos imersos no mundo do Múltiplo. O próprio fato de que nos percebemos como uma identidade psíquica separada dos demais seres nos faz ver que vivemos sob o império do Múltiplo. O mundo, em sua totalidade, é o reino do Múltiplo. Surge aí a questão que intrigou Platão em seu diálogo Parmênides. A leitura do Parmênides, de Platão, deveria ser acompanhada pelos comentários de Proclo. A edição de Carlos Steel dos Procli In Platonis Parmenidem Commentaria, pela Oxford University Press, é magnífica. Se o Uno é absoluto, se é infinito, se com seu pensamento abarca absolutamente a totalidade das coisas com inteligência infinita, como é que podemos intuir que a totalidade das coisas não se confunde com o Uno? Posto de outra forma, Deus é a causa primeira das coisas do mundo, mas como é que Deus e o Mundo não são o mesmo? Como é que podemos conceber a ideia de Deus ser Absoluto e, no entanto, não ser o Mundo, sem cair no panteísmo? A essa separação entre o Uno e o Múltiplo se dava o nome de diferenciação.

Antes de continuar, convém que esclareçamos o conceito de número. Para os antigos, a série dos números começava no 3. Número vem do latim numerus /númerus/, que, por sua vez, é correlacionado com o grego νόμος, /nómos/, que significa norma com caráter de lei. Seu correspondente grego é a palavra ἀριθμός, /arithmós/, que, além de significar número, também significa ordemdisposiçãoarranjo. Ela vem de ῥυθμός, /rhythmós/, isto é, ritmo, cuja raiz é a mesma do verbo ῥέιν, /rhéin/, que significa fluir. Assim, o fluxo do mundo implica o número. Portanto, o conceito pitagórico de número não é o quantitativo, não é o número do cálculo. O número é a ordem, a coerência que subjaz a relação entre um todo e suas partes. O número é processo, ritmo e fluxo, é o produto das relações entre os opostos. Oposição não tem o sentido de confronto. Vem do verbo opponēre, /opponêre/, formado pelo prefixo ob adjunto a ponere, /ponêre/, ou seja, significa “pôr diante de”. A relação que surge da oposição é definida por sua proporcionalidade intrínseca. O número é, assim, a forma dessa proporcionalidade intrínseca, é a harmonia que resulta do ajustamento dos opostos. Esse produto munido de harmonia interna é representado pelo 3. Se recordarmos que ἀριθμός, /arithmós/ significa ordem, disposição ou ajustamento, fica claro o conceito de número e porque, para os pitagóricos, o 1 não era um número. Segundo Pitágoras, o ἀριθμός /arithmós/ é a série móvel que flui da Mônada, simbolizada pelo número 1. Toda criatura finita é número e possui número. Com efeito, todo ser finito é composto e, portanto, as suas partes constituintes relacionam-se conforme proporções específicas. O único ser absolutamente simples é o Ser Supremo, a Mônada. No Uno, o entendimento é absoluto, é direto, não requer a mediação de outras verdades representadas por proposições, pois o Uno é a própria Verdade. Dessa forma, o 1 não podia ser número, pois não se caracterizava por uma relação com um terceiro. Similarmente, o 2 não podia ser número, pois embora indicasse a multiplicidade do duplo, um oposto ao outro, não subsumia a relação entre esses opostos e, por conseguinte, nada dizia da relação entre os eles.

O Múltiplo é o universo, a totalidade das coisas. Há dois princípios básicos no universo e esses princípios são separados: Espírito e Matéria.

O Espírito é simbolizado pelo número 3. Por quê? Porque 3 é símbolo da Razão. Com efeito, razão, que vem do latim ratio, /rátio/, é aquela relação entre duas coisas distintas. Na Matemática, a razão aparece quando dizemos que A está para B assim como B está para C. A relação entre A e C é mediada por B. Na Ontologia, a razão aparece quando um ente A mantém com B uma relação específica. Essa relação também pode ser expressa pela Lógica, como no silogismo, em que a premissa menor se conecta à conclusão pela premissa maior. O Eu só se percebe como unidade completa porque está imerso na multiplicidade. A percepção da multiplicidade é a percepção do Não-Eu, do que é oposto (oppositum, isto é, ob-positum, /ob-pósitum/) ao Eu, posto diante do Eu. O Eu, em sua unidade, só se dá conta da dualidade porque a diferença é sempre uma diferença relativamente a algo que está idealmente no ato gnosiológico. O Ternário é o símbolo do Espírito, que participa simultaneamente da Unidade e da Dualidade, mediante a categoria da relação, ou seja, pela Razão. Por isso é o número do Grau 1 em certas ordens inicáticas. O homem criado é ainda puro trabalho, porém, como a relação implica ratio /rátio/ ou razão, o iniciado é o homem racional na etapa inicial de sua ascensão. Jâmblico considerava o 3 o primeiro número, justamente por que ἀριθμός /arithmós/ ou numerus /númerus/ pressupõem disposição, arranjo, relação e harmonia.

O número 4 é símbolo das coisas temporais e das coisas corpóreas. Por isso, pode ser visto como um símbolo da materialidade, já que Matéria, tempo e espaço são correlacionados. A associação do 4 à Matéria pode ser decorrência histórica da associação que os antigos faziam entre o mundo material e as quatro direções cardeais. A Matéria em si mesma é caótica, não tem forma nem ordenação. Ela precisa da Vontade criadora do Espírito para obter uma forma ordenada. Assim, o Universo, entendido como o reino do Múltiplo, é representado pelos números 3 e 4, ou seja, Espírito e Matéria, os seus dois princípios básicos. Obviamente, acima desses dois princípios está Deus.

Finalmente, o Binário ou Díada. O 2 simboliza o processo de diferenciação entre o Uno e o Múltiplo. Como se dá essa diferenciação? Esse processo é incompreensível para nós. Está além de nossa capacidade racional e intuitiva. De fato, se encontrássemos uma explicação racional de como se dá a diferenciação, estaríamos usando a Razão, o 3, para explicar algo que ontologicamente a antecede. Assim, como falamos do Uno com termos tais como Absoluto, Infinito etc., isto é, dele falamos sem que verdadeiramente compreendamos o que seja a experiência do Absoluto e do Infinito, assim também falamos da diferenciação sem, contudo, poder compreender intrinsecamente o que seja. A inescapabilidade com relação à multiplicidade é uma limitação da mente finita do homem. A Mente Absoluta de Deus abrange todas as coisas em um único Pensamento. A ideia de oposição é uma necessidade da mente humana que surge exatamente da sua finitude. A dualidade como símbolo da oposição não é, assim, uma emanação do Sumo Bem, pois, se assim fosse, seria forçoso admitir um princípio oposto ao do Sumo Bem, ou seja, um princípio do mal, o que é impossível. No Uno, a Vontade não se diferencia do Ato. O lapso entre a vontade e o ato é algo da mente finita, da mente humana, não da Mente Infinita. Embora não possamos “vivenciar” essa unidade, podemos pressupô-la. Na Mônada, vontade e ação são idênticas. Assim, o construto pitagórico da Díada é um artifício da mente humana para dar uma racionalidade ao problema da Totalidade Absoluta de Deus e Sua independência relativamente ao Múltiplo. As cosmogonias e psicogonias, inclusive a própria ideia de criação do mundo, são mecanismos mentais de supressão do vácuo intelectivo inerente à questão da diferenciação. Falamos em Criação justamente como forma de suprir de intelecção aquilo que é ininteligível.

Uma curiosidade surge. Gershom Scholem é enfático ao mostrar as origens neopitagóricas e neoplatônicas da Cabala medieval. Para explicar a emanação, os cabalistas medievais da Catalunha conceberam a ideia de tzim-tzum, um pontinho no Uno do qual se inicia a emanação até se chegar a Malchut, a Matéria, a décima sephirah. Essa ideia é uma representação simbólica do processo de diferenciação entre o Uno e o Múltiplo. É evidente, porém, que são tentativas de explicação para algo que é essencialmente incompreensível. A diferenciação é incompreensível. Simplesmente não temos como responder à pergunta “Porque o universo é em vez de não ser?” Note que aí já se admite que o Uno é superior ao Ser, além do Ser, super esse, como diziam neoplatônicos com Pseudo-Dionísio Areopagita.

Se considerarmos a totalidade dos números abrangidos pela Tétrada, os números de 1 a 10, o que devemos ter em mente é que cada um deles possui uma interpretação metafísica. Para os quatro primeiros números já demos nossa interpretação. O que mais nos chama a atenção, entretanto, é a incompreensibilidade quanto ao número 7.

Em geral, os comentários sobre o número 7 se restringem a listar uma série de coisas que têm sete. Nem expoentes da Renascença como Marsilio Ficino e Pico della Mirandola escapam a essa sina irritante. Por exemplo, o 7 é dito sagrado porque simboliza os sete planetas, os sete dias da semana etc. e uma porção de outros exemplos que, na verdade, não explicam coisa alguma.

Mais uma vez, a solução está na Tétrada e na questão do Uno e do Múltiplo. Devemos ter como referência a ideia de que Deus é uno, absoluto, que não está sujeito nem à divisibilidade nem à multiplicidade. Ora, nós somos espíritos e, portanto, cada um de nós é indivisível, uno. Mas somos muitos, portanto a ideia de espírito está sujeita à multiplicidade, justamente por estarmos falando do espírito criado, não do Espírito Criador. A não-Multiplicidade do Criador refere-se ao Absoluto, à unidade absoluta, total, infinita. Nós, diferentemente, somos unidades finitas no reino do Múltiplo.

Continuemos. Todos os números pares são divisíveis. Por exemplo, o número 6 pode ser dividido em um par de Ternários, sendo que 3 é um número dentro da Década. Em outras palavras, os números pares estão sujeitos à divisibilidade, que é uma característica de imperfeição.

Resta considerar os ímpares. O números 1, 3 e 5 são indivisíveis, mas estão multiplamente dentro da Década. Por exemplo, 3 é indivisível, mas cabe três vezes dentro da Década. Assim também o 5, que cabe duplamente. Restam apenas 7 e 9. O número 9 só cabe uma vez dentro da Década e, portanto, não está sujeito à multiplicidade, mas pode ser dividido em três Ternários, estando, por conseguinte, sujeito à divisibilidade. Finalmente, o número 7 é indivisível, não estando sujeito à divisibilidade. Além disso, ele só cabe uma única vez dentro da Década e, por isso, também não está sujeito à multiplicidade.

Em outras palavras, de todos os números da Década, apenas o 7 é capaz de simbolizar a Divindade em seu caráter uno, indivisível e absoluto. Dessa forma, o 7 é símbolo do Divino em seu aspecto indivisível, infinito e absoluto. Ele é o único número dentro da Década que é não só indivisível como também não sujeito à multiplicidade e, portanto, é símbolo do Uno, pois compartilha com o Uno dessas características. É por isso que o 7 é considerado um número divino.

Vejamos algumas consequências para a prática simbólica. Em primeiro lugar, considere a Escada de Jacó, à qual são associadas as sete virtudes. Se a Escada é símbolo de ascensão espiritual, então o 7 nos diz que essa ascensão é infinita, que é divina. A Escada dos Mistérios Mitraicos tem sete metais, a Escada do sonho de Buda tem sete cores. No Apocalipse, João é chamado a escrever num livro o que estava prestes a ver e a enviá-lo às sete Igrejas. Isso quer dizer que a mensagem deveria ser universal, não às sete igrejas específicas, como a de Éfeso e outras. A ideia dos sete pecados e das sete virtudes é a forma simbólica de dizer que os pecados e virtudes são infinitos. São tantos setes! Toda vez que virmos 7 num símbolo, associemos a ele o infinito e o absoluto divinos e vejamos o que daí decorre. A similitude da plausibilidade dessa interpretação do 7 em tantos mitos e símbolos de diversas culturas apenas nos mostra algo arquetípico da mente humana. Mircea Eliade dá vários outros exemplo e eu particularmente penso ser esse arquétipo uma realidade cultural entre os povos.

Assim como o 1 simboliza o Uno e a origem de todas as coisas abrangidas pela Década e, portanto, a imanência, o 10 simboliza a transcendência. Se a formação do Microcosmo, pela ação inteligente do Espírito sobre a Matéria, se inicia no 3, entre o início e o fim, bem no meio do caminho, está o 5, símbolo do Homem completo, representado pelo Homem Vitruviano. Nessa etapa, o intelecto é sua principal característica A partir do 5 começa o caminho da transcendência rumo ao Infinito, ao 10. Aqui já tenho em mente o pensamento cabalístico medieval de natureza pitagórica. Tão longo, tão infinito e absoluto é esse caminho que a ele poderíamos associar o número 7 ou mais.

A razão da carência de interpretações satisfatórias repousa precisamente na incapacidade de introspecção simbólica a que estamos acostumados em razão da descrença implícita que temos de que a simbologia seja algo útil e fundamental para nossas vidas. Enquanto o homem apenas aceitar a reflexão simbólica superficialmente e não na profundidade de sua alma, jamais será capaz de compreender os magníficos ensinamentos dos símbolos.

A simbologia dos números, iniciada há dois milênios e meio pelos pitagóricos, continuou sua evolução ainda por vários séculos a fio até hoje. Não é uma evolução linear, obviamente. A cada etapa sofreu adaptações a diferenças culturais e aos interesses específicos dos intérpretes. Mas o que me surpreende é como o princípio geral contido na Tetraktýs perpassou todas essas idiossincrasias culturais e temporais.

Autor: Rodrigo Peñaloza

Fonte: Medium

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À sombra dos mitos – Sinais de reconhecimento, segredo, fraternidade…

Brother H. A. | Maçonaria, Pedreiros

A Maçonaria, cuja originalidade consiste em misturar ritual e reflexão, tradição e modernidade, simbolismo e solidariedade, não escapou do mito. Ela tem uma dúzia de histórias ou referências míticas que ela emprestou do fundo cultural judaico-cristão e que lhe permitiu desenvolver uma visão particular do mundo.

Em relação à mitologia clássica, ela selecionou seus temas preferidos: ela não destaca Édipo, Sísifo ou Eros, Zeus ou os Titãs, Orfeu e o submundo, belas deusas e ninfas imprevisíveis, heróis metamorfoseados, monstros fabulosos ou histórias de amor e incesto. Mas encontramos o crime (assassinato de Hiram), tantas vezes presente nas relações entre os deuses pagãos; encontramos a questão da transmissão do conhecimento (as duas colunas) colocada por Prometeu ou Hermes; encontramos a culpa do homem envolvendo a vingança de Deus (o Dilúvio e a Torre de Babel).

Basta dizer que a mitologia maçônica, apesar de dimensões restritas, não pertence menos à mitologia universal. Ela pode se articular em torno de três eixos: primeiro, a construção do Templo, imagem fantasista do templo de Salomão. Este edifício é tanto o próprio templo interior de cada maçom que deve dominar sua natureza, e o templo exterior representado pela Cidade ideal; em todos os casos, assume-se que permanece inacabado. Em segundo lugar, a lenda de Hiram, transposição de múltiplos arquétipos, retomada parcial do mito de Ísis e Osíris, símbolo da transcendência diante da finitude humana, realização de um destino e esperança de uma ressurreição. Finalmente, o mito de cavalaria que não só penetrou o ritual desde o grau de aprendiz (cerimônia de iniciação), mas também promove os valores tradicionais atribuídos a esta instituição: honra, coragem, lealdade, generosidade, altruísmo. Tal como o conjunto da sociedade, o fascínio cavalheiresco também permeia a Maçonaria.

Esses mitos – com a exceção da cavalaria – aparecem nas Antigas Obrigações que, entre 1390 e 1720 são os textos de referência dos maçons operativos que serviram de corpus para o desenvolvimento da Maçonaria moderna. Estes manuscritos (cerca de cento e trinta cópias) geralmente incluem uma história lendária da profissão do construtor e uma lista dos deveres morais e profissionais dos pedreiros. Existem ali também muitas ocorrências religiosas: invocações a Deus ou os santos, à Virgem Maria ou à igreja, busca da salvação da alma, referências e histórias bíblicas, orações. Uma interpretação espiritualista deduzida ali, instalada no corpus maçônico no início do século XVIII: entre 1710 e 1750 escolhas ideológicas decisivas relacionadas aos mitos foram feitas: apagamento de Euclides e eliminação de Noé em favor de Hiram e Salomão, uso sistemático de elementos bíblicos, a promoção do Deus único. Esta concepção é hoje dominante no espaço reflexivo maçônico.

Uma releitura secular e racional dos mitos maçônicas foi necessária; ela desafia muitas concepções tradicionais, mas esta nova visão alternativa não é destrutiva: ele não tem a pretensão de se livrar de Deus nem de outros atributos do modelo dominante, mas ela prefere a geometria, fonte de outras Ciência e local de raciocínio dedutivo. Para ela, o mito comporta tanto a imaginação quanto a razão: é claro que a razão produz mitos e os mitos mais irracionais têm uma razão.

Mas o maçom, na busca incessante do sentido que lhe sugere a presença de seus mitos, deve reabilitar aqueles que lhe atribuem uma finalidade de compreensão lógica da razão do mundo. Por esta inteligibilidade adogmática distante dos abusos espiritualistas de discurso meloso, e sem negligenciar uma certa consciência mítica, ele cumprirá totalmente sua missão: compreender, aprender, construir e transmitir.

Dois personagens míticos eliminados: culpa de Hiram?

Euclides, a fonte racionalista esquecida

O Manuscrito Regius (1390), o mais antigo texto das Antigas Obrigações, começa com uma fórmula claramente significativa:

“Aqui começam os estatutos da arte da geometria segundo Euclides.”

Não só Euclides é o padrinho do Regius, mas lhe é creditado ser o criador das sete ciências; em todas as ações atribuídas a ele, Euclides sempre age de acordo com os princípios da razão geométrica, tornando-se um homem providencial. Ele é também – embora este ponto seja totalmente omitido pelos espiritualistas e historiadores maçons – aquele que pela primeira vez formaliza as regras de organização e funcionamento do ofício.

Ele é, assim, o autor de quatro “obrigações” decisivas:

  • A obrigação de transmissão recíproca: aquele que é mais avançado na arte da geometria deve instruir os menos dotados, a fim de aperfeiçoar e esta instrução deve ser recíproca;
  • O dever de fraternidade: os homens que praticam a arte devem “amar a todos como irmãos e irmãs”;
  • A designação de um mestre: o mais avançado na arte deve ser chamado de “mestre” para homenageá-lo particularmente;
  • O respeito mútuo: os maçons, para o bem da unidade, devem se chamar companheiros entre si, qualquer que seja o seu nível profissional.

Outro texto das Antigas Obrigações, o Manuscrito Dumfries no. 4 (C 1710) apresenta Euclides como aquele que cria quatro novas medidas verdadeiramente constitutivas da Maçonaria especulativa: a criação em forma de Ordem, o sinal de reconhecimento, o segredo e a regularidade do trabalho em loja.

Apesar desse papel essencial, Euclides não foi mantido como um mito da Maçonaria moderna: Anderson o cita pouco e os rituais desenvolvidos no decorrer do século XVIII, lhe atribuem apenas algumas evocações em alguns graus do Rito Escocês Antigo e Aceito.

Noé, um destino maçônico contrariado

Noé, mito universal e um dos mais antigos da humanidade, tanto como resultado do dilúvio quanto da arca, representa na Bíblia o fundador da nova ordem mundial. Deus, vendo-o como o único justo e o único homem de integridade, conclui com ele a sua primeira aliança depois do dilúvio. Os termos dela são simples: Deus diz a Noé que ele nunca mais o amaldiçoará e, portanto, não destruirá os seres vivos como acabou de fazer. Ele, então, determina a Noé e a seus filhos uma missão de quatro pontos: eles devem ser fecundos e prolíficos; eles dominarão a natureza; eles poderão se alimentar de tudo o que há na terra, exceto o sangue; e eles deverão velar pela vida de seus irmãos, ou seja, não matar. O arco-íris será o sinal dessa aliança. Trata-se de uma nova filosofia equilibrando direitos e deveres: possibilidade para o homem dominar a natureza, mas obrigação de respeitar a vida dos outros.

Nos textos maçônicos do século XVIII, Noé é valorizado: Anderson o apresenta em 1738 como o pai da Maçonaria, cada maçom sendo um “verdadeiro filho de Noé” e Ramsay como o restaurador da raça humana e o primeiro Grande Mestre da Ordem. O Noaquismo é assim, a religião primitiva anterior a todo dogma, uma espécie de religião natural global em que todos os homens podem se reconhecer. Noé deveria ter sido o mítico fundador da Maçonaria especulativa. No entanto, ele desaparece muito rapidamente das referências maçônicas: ele já não é mencionado na edição das Constituições de 1756 e não reaparece no novo texto da Constituição Maçônica Inglesa de 1813. Ele não é mais encontrado hoje, senão no grau 21 do REAA chamado Noaquita ou Cavaleiro Prussiano e no Grau de Royal Ark Mariner, novamente praticado na França há vários anos. Como Euclides, ele foi deposto por Hiram.

Um novo rosto para Hiram: uma apresentação de sacrifício à luta de classes

O mito de Hiram é a narrativa fundamental da Maçonaria especulativa; aparecido na década de 1730, ele coloca em cena Hiram, Mestre Maçom do canteiro de obras do Templo de Salomão, que foi assassinado por três maus companheiros a quem ele não quis revelar o segredo dos mestres. Existem cerca de cinquenta versões do mito hirâmico. Mas, Hiram continua a ser o mestre perfeito, dotado de todas as virtudes humanas e de todas as competências técnicas possíveis; ao invés de revelar um segredo, ele se sacrificou e morreu: senso de Dever, recusa a ceder à fraude, ele representa no imaginário dos maçons um modelo de coragem e de vida, ao mesmo tempo um herói e um santo, o mito maçônico absoluto.

Esta lenda é incompleta porque um episódio crítico foi omitido pelos redatores maçônicos do século XVIII.

O documento sobre o qual repousa o mito, o Manuscrito Graham (1726), relata que um conflito profissional eclodiu no canteiro de obras: é uma disputa entre os trabalhadores e os pedreiros sobre salários. Hiram ocupa o cargo de vigilante de todo o canteiro de obra, mas é o próprio rei Salomão quem intervém para se chegar a um acordo: ele explica para acalmar as recriminações que todos os trabalhadores serão pagos da mesma forma, mas ele dá aos pedreiros um sinal que os trabalhadores não conheciam:

“E aquele que podia fazer o sinal onde os salários eram pagos eram pagos como pedreiros; os trabalhadores não o conheciam e eram pagos como antes.”

Embora a calma tenha voltado, Hiram se torna, portanto, cúmplice de uma torpeza de Salomão, de uma manipulação e uma mentira, apagada do texto maçônico, ostensivamente para dar a Hiram um papel idealizado.

Hiram é, portanto, o tipo de executivo dividido entre os objetivos do cliente e as queixas dos trabalhadores, defendendo até a morte os interesses da classe dominante.

As duas colunas antediluvianas, um mito negligenciado

Este mito é amplamente destacado por vários textos das Antigas Obrigações e retomado por Anderson. Ele encontra sua origem nas Antiguidades Judaicas do historiador Flavius Josephus (37-100). Ele indica que homens que tiveram a presciência de um cataclismo universal querido por Deus e que arriscava destruir a humanidade por água e fogo decidiram construir dois pilares sobre os quais todo o conhecimento seria inscrito, com o objetivo explícito de o preservar e transmitir às gerações futuras.

Pelo efeito de uma mudança de significado, uma confusão com as duas colunas do Templo de Salomão ele foi gradualmente instalado na mitologia maçônica; hoje, apenas no grau 13 do Rito Escocês o tema se mantém intacto.

Alguns aspectos são dignos de nota:

  • De acordo com as versões, passamos de quatro construtores (os filhos de Seth, terceiro filho de Adão e Eva) a um único construtor: Enoque, o patriarca antediluviano que foi levado vivo para o céu. Da mesma forma, os materiais de construção variam de pedra ao mármore, de tijolos ao latão.
  • A intenção inicial é motivada pelo medo de perder as invenções humanas; estas dizem respeito principalmente à astrologia, depois a geometria e a maçonaria. Finalmente, é Hermes que redescobrirá uma única coluna, permitindo o sucesso da operação.

Muitos historiadores maçons integram este mito no Noaquismo; essa assimilação é injustificada. Noé e as duas colunas não têm ligação alguma entre si. Noé é um personagem bíblico, enquanto que o episódio das duas colunas, invenção profana está ausente do texto bíblico; Noé é uma personagem que faz a ligação com Deus, enquanto a decisão de construir as duas colunas é puramente humana, sem um relacionamento anterior com Deus. Pode-se até argumentar que esta decisão é a marca de um desafio a Deus, os homens assumindo que arriscam perder permanentemente o que eles ganharam.

É preciso lembrar a natureza Prometeana de um projeto perfeitamente racional.

O duplo mito salomônico, ambiguidade da natureza humana

A Maçonaria é permeada pelo mito Salomoniano em dois aspectos: primeiro, a construção do Templo como o canteiro ideal e por outro lado, a pessoa do próprio rei Salomão, cujo papel é importante, especialmente nos graus escoceses. Sejam quais forem os textos, o Templo é a expressão da perfeição; ele representa o cosmos e para muitos maçons é a expressão simbólica do Templo Maçônico. Salomão é apresentado em todos os atributos da soberania: construtor, justiceiro, concedendo recompensas, presidindo todas as assembleias; na plenitude de sua glória, ele é, especialmente no REAA, o fiador simbólico da maestria sem defeito.

De acordo com a visão bíblica, Salomão é um homem sábio, possuidor do dom do discernimento na origem de sua equidade e sua tolerância proverbial, conhecimentos científicos e uma abordagem filosófica.

Esta visão é em grande parte distorcida e inequívoca. O templo não é apenas um santuário religioso, mas também ao mesmo tempo um lugar político. Sua construção interrompe o nomadismo da religião judaica e, simultaneamente funda a identidade nacional do povo judeu. Os caprichos da história fizeram dele um lugar de rivalidade e crimes, tanto religiosos quanto políticos. Salomão, por sua vez, mandou assassinar seu irmão e vários dignitários ou rivais para consolidar seu poder; depois de uma primeira parte do glorioso reino, ele se tornou infiel a seu Deus, entregando-se ao politeísmo e à poligamia, aumentando os impostos de seus súditos, usando escravos e não respeitando seus compromissos comerciais com seus vizinhos. Com sua morte, as tribos do norte se revoltaram e o país se dividiu em dois reinos.

Por que os maçons valorizam um lugar simbolicamente tão questionável e uma figura criminosa? Esquecendo-se o lado escuro dos homens e sua história, a Maçonaria quer mostrar a imperfeição da natureza humana?

A Torre de Babel, um mito amaldiçoado que se tornou benéfico

A Maçonaria propõe três grandes interpretações do mito da Torre de Babel:

  • A visão tradicionalista: construindo a Torre, os homens deram prova de orgulho e vaidade insuportáveis para Deus; a ira divina é, assim, natural, a confusão de idiomas é um castigo merecido, assim como a maldição do homem sobre a terra. Esta concepção moralizante e culpabilizante baseada na Bíblia está presente especialmente no Manuscrito Regius (1390), no Manuscrito Graham (1726) e quase totalmente no grau 21 do REAA.
  • A interpretação construtivista: ela tem sua origem no Manuscrito Cooke (c. 1400) que apresenta este mito como a capitalização da experiência adquirida pela “ciência da geometria”, que levou a uma mestria da arte de construir. Nada é dito sobre a intenção original dos homens nem sobre a vingança divina. A torre não é mais o símbolo da vaidade humana, mas torna-se o lugar da transmissão do conhecimento técnico. Estamos aqui na origem de uma visão amplamente positiva do mito.
  • A síntese Andersoniana: As Constituições de Anderson (1723 e 1738) ultrapassam as duas correntes anteriores, emprestando-lhes vários elementos. A construção da torre não tem a intenção de desafiar a Deus, este ponto não sendo mais que uma consequência; a sanção é a mesma para os homens, a da confusão de idiomas e a dispersão; mas os homens adquiriram por meio dela, uma competência excepcional que servirá ao desenvolvimento da arte de construir.

Assistimos durante quarenta anos uma inversão axiológica: seguindo-se a evolução geral da opinião a diversidade é agora uma bênção e o múltiplo é a ordem natural do mundo. Babel permanece a metáfora da desordem extrema e do excesso, mas a maioria dos maçons de nossos dias compartilha a ideia de que a diversidade é uma riqueza em nome do princípio de que é preciso “reunir o que está espalhado”. A reinterpretação regular desse mito mostra que ele não se fossiliza, Babel tendo se tornado ao longo do tempo o paradigma da unidade e da diversidade humana.

O mito no coração do homem

Todas as culturas o utilizam. É uma história que tem uma ou mais histórias; elas retratam deuses ou seres sobrenaturais ou heróis divinizados que adquiriram status divino; esses deuses têm relações entre si e com os homens. Eles muitas vezes se comportam de forma imoral, mas isso é para mostrar aos homens em contraponto aos valores morais que eles devem respeitar. Para muitos – especialistas ou simples seguidores – a natureza religiosa do mito é evidente, porque a intrigas na maior parte das vezes se refere à origem dos deuses, do mundo, do mal, da morte. Todas as religiões estabeleceram ligações com os mitos, porque eles são portadores de uma visão sagrada. Portanto, a questão dos mitos fundadores é essencial porque participa da crença coletiva em uma criação antiga, se não arcaica, expressando uma verdade reconhecida como certa e que se tornou atemporal.

Autor: François Cavaignac
Tradução: José Filardo

Fonte: REVISTA BIBLIOT3CA

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A Maçonaria Simbólica e a Filosofia

É a Filosofia, estúpido!" - Carta Maior

Introdução

O que se entende por Filosofia Maçônica? Como ela exercita seus postulados, normas, constituições, regulamentos e regimentos maçônicos? É esclarecido ou informado ao profano que ele vai fazer parte de uma Instituição Filosófica, ou simplesmente exigimos dele uma boa conduta “moral”? Será o suficiente para o que pretende a Instituição que tem a filosofia do “ser livre e de bons costumes” como seu postulado? Ao Aprendiz são apresentadas as diretrizes para que ele possa exercitar a arte do pensar, procurando, primeiro, “conhecer a si mesmo” e, depois, praticar a caridade, que é peculiar a todos aqueles que, mergulhados em seu “EU”, encontram respostas para os seus questionamentos e, posteriormente, exercitar esse aprendizado? O que dizer, então, do Companheiro e do Mestre Maçom?

Para ser admitido na Maçonaria, todo homem deve possuir um caráter ilibado, ser livre e de bons costumes. Mas isso não é tudo, não é estanque. Espera-se, ainda, que todo Maçom, além desses pré-requisitos, seja um pensador, uma fonte inquietante em busca do saber. Entretanto, nas Lojas, em reuniões, pouco se tem enfatizado essa premissa. Não há nenhum ensinamento prático filosófico na arte de desbastar a Pedra Bruta. A instrução limita-se aos símbolos como se ali estivesse contida toda a sabedoria maçônica, situação que vem se arrastando através dos tempos, fazendo parte da conduta histórica da Instituição.

Daí se conclui que vem ocorrendo uma inversão de valores, ocasionando uma constante evasão nos quadros de obreiros das Lojas. O principal motivo é que as reuniões estão limitadas às leituras dos rituais e ao bater dos malhetes. Desse modo, quando o obreiro chega a Mestre, tem uma visão equivocada de que não há mais nada a fazer ou aprender, muito menos a ensinar aos neófitos sobre o que pretende a Maçonaria, por desconhecimento da sua base filosófica ou por simples acomodação. É o retrocesso… O conhecimento, que se arrasta durante séculos, aos poucos, vai ficando no ostracismo.

O que permanecem são os sinais, toques, palavras e a marcha, como instrução para cada grau, e que, muitas vezes, são ensinados equivocadamente. Basta verificar nas Lojas o que se ensina quando há uma Iniciação, Elevação ou Exaltação. No Terceiro Grau é uma miscelânea de informações; as instruções nesse sentido são desencontradas, principalmente no toque do grau.

A Maçonaria está perdendo o norte que orienta os seus membros à prática do filosofar; por que não dizer, perdendo a essência dos significados maçônicos, esquecendo de praticar a Arte Real, debruçando-se sobre trabalhos que nada acrescentam à Instituição; quando não, colocando irmãos em situação constrangedora, diante de uma assembleia despreparada e alheia ao que se propõe a Maçonaria Universal. Ao final da apresentação, parabeniza-se o obreiro com uma breve salva de palmas pelo excelente trabalho, o que chega a ser lamentável para a Instituição.

Não se pretende com o assunto ora abordado dar soluções às questões apresentadas, mas alertar todos os Maçons que venham a ter acesso ao conteúdo aqui escrito, para uma reflexão inconteste da sua conduta, enquanto Maçom que preza a Instituição. Não é justo que todo o aprendizado filosófico construído pelos grandes pensadores que engrossaram as colunas da Maçonaria, durante séculos, se perca em tão pouco tempo, sem nenhuma reflexão, sem nenhuma compreensão dos significados que atravessaram centenas de anos até os nossos dias, aos quais, hoje, não se tem dado a devida importância, por pura acomodação, ou simplesmente por desconhecimento do que realmente é a Maçonaria e a que ela se propõe.

Filosofia

“A filosofia é a totalidade do conhecimento.” Aristóteles

A palavra Filosofia, “Philosophia”, é derivada de duas palavras gregas: Philo, que ainda se deriva de Philia, que significa amizade, amor fraterno, respeito entre os iguais; e Sophia, que quer dizer sabedoria, a qual é derivada da palavra Sophos, sábio ou alguém que admira e busca a sabedoria.

Segundo o dicionário Aurélio, filosofia é o estudo que se caracteriza pela incessante intenção de ampliar a compreensão da realidade, no sentido de apreendê-la na sua totalidade, quer pela busca da realidade capaz de abranger todas as outras, o Ser (ora realidade suprema, ora causa primeira, ora fim último, ora absoluto, espírito, matéria etc.), quer pela definição do instrumento capaz de apreender a realidade, o pensamento, tornando-se o homem tema inevitável de consideração. Também, no Aurélio, se descreve a filosofia como um conjunto de estudos ou de considerações que tendem a reunir uma ordem determinada de conhecimentos, limitando o seu campo de pesquisa à natureza, ou à sociedade, ou à história, ou a relações numéricas, em um número reduzido de princípios que lhe servem de fundamento e lhe restringem o alcance.

O filósofo Pitágoras de Samos foi quem usou pela primeira vez esse termo Filosofia, por volta do século V a.C, ao responder a um de seus discípulos que ele não era um “Sábio”, mas apenas alguém que amava a Sabedoria.

Como campo de conhecimento, a filosofia ocidental surgiu na Grécia Antiga com a figura de Tales de Mileto, sendo ele o primeiro a buscar uma explicação para os fenômenos da natureza, usando a Razão e não os Mitos, como era de costume, na época.

Portanto, aquele que ama a sabedoria, tem amizade pelo saber e deseja saber, é um filósofo. Assim, a Filosofia indica um estado de espírito da pessoa que ama, isto é, daquela que deseja o conhecimento, que o estima, o procura e o respeita.

Pode-se interpretar, também, que Filosofia é o estudo da vida; pode ser ciência, fé, religião ou simplesmente a mente ou a razão em pleno funcionamento. Toda a arte e toda ciência têm partes filosóficas. Quando a mente dedica-se a decifrar os enigmas da vida, estará filosofando.

Consta que Pitágoras de Samos teria afirmado:

“A sabedoria plena e completa pertence aos deuses, mas que os homens podem desejá-la ou amá-la, tornando-se filósofos.”

Deve-se, aqui também, distinguir os significados de filosofar e filosofia. Para tanto, os aspectos fundamentais da Interpretação, Compreensão e a Realidade estão intrinsecamente contidos na conceituação do “FILOSOFAR” e “FILOSOFIA”.

Compreender a realidade, elucidando as suas interpretações é o que se entende por filosofar. Assim, a Filosofia se caracteriza pela intenção de ampliar a compreensão da realidade em questão.

Historicamente, a Filosofia envereda pelas teorias que procuram encontrar algum tipo de compreensão, sabedoria ou conhecimento sobre as questões fundamentais, como por exemplo, a realidade, o significado, o valor, o ser e a verdade.

Em Filosofia o fazer é uma constante na arte de construir conhecimento, portanto, se faz necessário levar em consideração toda a ideia filosófica dos pensadores do passado. Ao debruçar-se sobre uma questão filosófica, o pensador ou filósofo rende tributos aos seus antecessores sobre o assunto em questão, podendo ratificar as ideias já formuladas, contrapô-las, esclarecê-las ou até mesmo melhorá-las. Assim sendo, a busca pelo conhecimento torna-se infinita, mesmo que já exista algo sobre o assunto abordado. É na inquietação da busca pelo conhecimento, que o homem se torna um ser puramente pensante, na compreensão da realidade, na interpretação das coisas como um todo.

A Filosofia moderna (1453 a 1789) postula que todo homem deve ser livre das alienações dogmáticas religiosas. Livre dessas correntes, também é livre para exercitar o pensamento, passando a ter outro conceito sobre si mesmo ao interpretar o mundo e a vida. Entende-se que todo ser humano é um ser pensante na busca de novas interpretações do mundo que o cerca, não descartando, com isso, a sua religiosidade. O grande marco das Escolas Modernas era, portanto, a liberação da consciência humana, tornando o homem livre para pensar, investigar e interpretar.

O filósofo busca, interpreta e procura compreender as coisas através de sua observação, sem se embasar em doutrinas, quer sejam religiosas ou não, para explicar o inexplicável. Ele abandona os pensamentos escravizadores e passa a ser um indivíduo pensante que contribui com a coletividade para a construção do saber, do conhecimento. É romper as amarras institucionalizadas, é a libertação da individualidade na arte de pensar, contrapondo-se à uniformidade do pensamento medieval e às nacionalidades, animadas por uma vida nova, expressando sua peculiaridade, em suas respectivas filosofias.

Conclui-se que a Filosofia permeia pelo mundo abstrato e interpretativo, questionando os porquês do objeto investigatório até a conclusão dos significados. Para tanto, é necessário o filósofo ser possuidor de uma profunda amizade, amor e respeito pelo saber. Com base nessa premissa, o filósofo é, então, aquele que mergulha no desconhecido, na busca pelo conhecimento conclusivo, último e primordial, a sabedoria total.

Filosofia maçônica

A Maçonaria não possui uma Escola essencialmente filosófica. Não possui uma filosofia própria ou adota, exclusivamente, essa ou aquela Escola como base fundamental para os seus estudos. Ao contrário, a Maçonaria é uma Escola de filosofar e a filosofia das grandes Escolas filosóficas é que lhes servem como fonte inspiradora.

Caso ela se restringisse a uma Escola ou a um sistema, seus membros não teriam a liberdade de pensamento, que lhes é peculiar. Eles seriam obrigados a caminharem em uma só direção. Se assim se conduzisse, ela seria uma Instituição, provavelmente, dogmática e limitada; não mais existiria por estar presa nos limites da interpretação, da compreensão e da realidade das coisas. Antes de qualquer ensinamento maçônico, deve-se compreender que a sua filosofia está alicerçada na Liberdade, Igualdade e na Fraternidade.

Filosoficamente, a Maçonaria procura mostrar ao homem que ele é um ser em processo contínuo de lapidação interior, visando à compreensão do seu próprio “EU”, comprometido com o seu pensar, com a sua própria existência. Ela proporciona aos seus
membros os meios necessários para adquirirem o saber, descobrirem que o saber humano é, em especial, um saber filosófico, mas muitos não se apercebem disso.

A liberdade de pensamento é o ponto fundamental para todo Maçom que anseia a “luz”. É o livre pensar que faz o Aprendiz refletir sobre “si” mesmo, compreender os enigmas e significados da vida, na viagem pelo seu interior até descobrir o brilho de sua alma. É um lapidar constante da Pedra Bruta, para daí brotar um sentimento de solidariedade sincera entre os irmãos; e, dessa forma, não mais havendo diferenças, mas uma igualdade própria do Companheiro, solidificar os sentimentos de fraternidade.

Com os conhecimentos adquiridos quando Aprendiz, o Companheiro passa a exercitar todo o seu aprendizado, praticamente, em atividade construtiva social, alicerçada na tolerância e na justiça. Entende-se, então, que ele depende sempre da capacidade de interpretação dos elementos fundamentais do simbolismo; só assim, poderá caminhar até alcançar a Câmara do Meio. Na sua constante ação de aperfeiçoamento, trabalha na prática da moral e na observância da ciência, com a missão de aprofundar o seu intelecto na Pedra Cúbica.

Por sua vez, cabe ao Mestre todo o trabalho espiritual, já que a pedra, agora, está polida. É missão dele é unir o que está disperso, irradiando a luz, fortalecendo a fraternidade entre os homens. Ao Mestre é consagrada a firmeza de caráter, a moral; fazer a humanidade mais feliz e virtuosa, através dos seus exemplos como um Mestre Maçom. Cabe a ele investigar, tornar-se um pesquisador incansável na busca da Palavra Perdida, chave para todas as questões humanas.

Todo o ensinamento filosófico está voltado para o interior do homem, orientando-o primeiramente, a conhecer a si mesmo, aniquilando as paixões e os vícios que o deixam na ignorância.

Enquanto o homem for áspero, insensato, intolerante e não exercitar a humildade, ele não poderá ser um agente transformador da humanidade. É combatendo esses instintos que a Maçonaria trabalha o homem para a construção de um mundo melhor. É sepultando as paixões mundanas que o Maçom se torna um homem digno e de caráter ilibado para com a Família, à Pátria e a Humanidade.

A Maçonaria é uma Escola da Moral, que caminha pela Filosofia Social, fazendo com que todos os seus membros sejam fieis cumpridores dos seus deveres como cidadãos, para com a família e a pátria. Ela possui estágios de conhecimentos divididos em graus, que através de sucessivas iniciações, mostra ao homem o seu interior, o brilho da luz espiritual e divina, necessária para a sua dignidade, tornando-o livre, porém de bons costumes.

A Maçonaria, pelo exposto acima, não se resume aos rituais, aos ritos ou a três pontos. Ela é uma fonte de sabedoria dos significados humanos, é uma busca constante, é um desbastar a Pedra Bruta até a sua completa polidez. Para alcançar tal estágio, é necessário que os seus membros entendam que tudo passa pela compreensão e pelo exercício da virtude, numa luta incessante para vencer as paixões, cavar masmorras aos vícios, libertar-se das ilusões mundanas, para daí renascer um novo homem, no estado de inocência, no amor que fortalece a justiça e a verdade, que unem a todos como verdadeiros irmãos.

A Maçonaria e a Filosofia

Nos idos do século XVIII, dominava a Europa o pensamento filosófico denominado Ilustração, conhecido também por Iluminismo ou Enciclopedismo. É no auge desse movimento que acontece a fundação da Grande Loja de Londres, aos 24 de junho de 1717. O Iluminismo se estendeu pelos séculos XVII e XVIII, de cujo movimento provavelmente os Maçons da época tenham sofrido influência.

Durante séculos, o homem vinha padecendo forte pressão psicológica para não fazer qualquer questionamento a respeito da religião. Era obrigado a aceitar os dogmas impostos e ensinamentos religiosos como verdades absolutas; caso contrário seria provavelmente excomungado, sofrendo a ação da Inquisição.

Apesar de toda opressão, a história registra que as Escolas filosóficas modernas vinham lutando contra o absolutismo do pensamento religioso da época. Com a transformação da Maçonaria Operativa em Maçonaria Especulativa, a Arte Real toma outro sentido. As suas fileiras, agora, não são exclusivas de pedreiros na arte de traçar linhas arquitetônicas destinadas principalmente à construção de templos religiosos. A arte do saber, do pensar toma vulto entre os obreiros. Sua identificação fica mais clara ainda, quase que em sua totalidade, junto às Escolas Filosóficas Modernas: Renascimento, Racionalismo e Iluminismo, cujo objetivo era a libertação da consciência humana.

Com o Renascimento, os filósofos do Iluminismo se entusiasmam e projetam dois caminhos a serem percorridos: o laicismo e o da luta em busca de melhores condições de vida para o homem. A Maçonaria Especulativa, por sua vez, adota uma vertente de pensamento, que se constitui em observar os princípios morais do homem, aplicando-os no bom relacionamento humano, na confiança, na sinceridade e na lealdade. É através dessa observação que o Maçom tenta compreender a interação humana e construir uma harmoniosa e perfeita fraternidade entre seus membros.

Como a Maçonaria abraçara o pensamento dos movimentos filosóficos expurgados pela Igreja, (que vê no Renascimento o estímulo para uma cultura exclusivamente terrena, emponderando em demasia a dignidade do homem, com grandes prejuízos para a vida espiritual), passou a ser perseguida. Perseguida por pregar a liberdade de pensamento e, sobretudo, a liberdade de consciência. Perseguida porque proporciona ao homem o direito de conviver com os outros homens que professem qualquer religião ou fé. Perseguida porque o seu lema maior é “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”. Perseguida porque dá ao homem o direito de ser livre, inteira e intensamente livre.

No teor do pensamento renascentista, alguns frades, na Idade Moderna, passaram a pregar que o Humanismo restringia o homem ao puramente humano, reprimindo, sobretudo os fatores espirituais. Diziam eles:

“Nosso humanismo, por natureza, difere sensivelmente da atitude espiritual dos demais humanismo: difere da atitude humanista renascentista, da de Herder ou de Goethe, que apenas pretendem elevar-se acima do puramente material; difere dos atuais humanismo no domínio econômico, social-ético, marcial e político; difere ainda do humanitarismo dos pseudocristãos, da Maçonaria, do Deísmo e dos Livres Pensadores.” [1]

É nesse contexto que a Maçonaria abre suas portas para o pensamento filosófico, procurando se libertar dos dogmas, das superstições que escravizam o homem, e passa a questionar a sua existência, através da investigação científica, até reconhecer os valores e direitos individuais de cada ser humano.

Alicerçada no amor fraternal, passa a dar ênfase ao amor ao próximo, a Deus, à pátria e à família; os seus membros se reconhecem como verdadeiros irmãos. A livre investigação da verdade, simbolicamente, é a busca constante da Palavra Perdida que nunca será encontrada e, se encontrada, não será decifrada, por ser a chave dos mistérios da vida; se assim o fosse, perderia a razão da sua existência por conhecer toda a verdade, algo inalcançável para qualquer Maçom.

A Liberdade de pensamento, a Igualdade entre os homens de qualquer credo e a Fraternidade universal constituem o tripé que faz da Maçonaria uma Escola de pensamento filosófico, em busca da felicidade interior, do bem-estar social, anulando toda e qualquer aspereza que asfixia o homem, no exercício do amor ao próximo. Ela tem como grande objetivo a razão e a justiça para que o mundo alcance a felicidade geral e a paz universal.

Para tanto, é necessário que o Maçom seja um pesquisador na arte de filosofar, procurando encontrar a paz interior, a tolerância, a humildade, o lapidar da Pedra Bruta para daí, então, deixar fluir todo o conhecimento adquirido, durante anos de aprendizado e pesquisa, iluminando a todos com o seu exemplo, como cidadão diferenciado no mundo profano.

Sem adotar uma linha unilateral de pensamento filosófico, a Maçonaria torna-se fundamentalmente filosófica, trabalhando com justiça, no sentido de promover a solidariedade e a paz entre os homens.

O irmão Moisés Mussa Battal, da Grande Loja Maçônica do Chile, assim se expressa:

“A tarefa essencial da filosofia maçônica é irradiar a luz de nossos princípios e de nossos hábitos para melhorar a condição humana. Mais que monovalente, ou seja, de uma só linha, de uma só raiz, ela é polivalente. Tem vertentes, então, que a alimentam e ela se reparte como um delta no mundo profano. É tradicionalista e às vezes progressista; isto parece um paradoxo, mas não o é; tradição é conservar o melhor do passado para utilizá-lo em compreender mais o presente e preparar um porvir melhor que o presente. Ela não é o ensinamento de um conjunto de normas e princípios; nem um pensar exclusivo e excludente; é uma reflexão da vida e para a vida.” [2]

Ele ainda afirma:

“Diremos que nossa filosofia se identifica com esta Idade Moderna; sua identidade é quase total. Esta identidade é quase uma coerência, tratando-se do movimento filosófico chamado Ilustração.” [3]

Observe-se, agora, o que está escrito no Vade Mecum Maçônico da Grande Loja Maçônica do Estado da Paraíba, com relação à definição e princípios da ordem:

“A Maçonaria é uma Ordem Universal formada de homens de todas as raças, credos e nacionalidades, acolhidos por iniciação e congregados em Loja, nas quais, por métodos ou meios racionais, auxiliados por símbolos e alegorias, estudam e trabalham para a construção da Sociedade Humana, fundada no Amor Fraternal na esperança de que com Amor a Deus, à Pátria, à Família e ao Próximo, com tolerância, virtude e sabedoria, com a constante livre investigação da verdade, com o progresso do conhecimento humano, das ciências e das artes, sob a tríade – Liberdade, Igualdade e Fraternidade -, dentro dos princípios da Razão e da Justiça, o mundo alcance a felicidade e a paz universal.” [4]

Fazendo-se uma análise dessa definição, verifica-se que a Arte de Filosofar está implícita nos princípios da Ordem. Cabe ao Maçom entender qual a sua real missão, qual o seu compromisso para com a Instituição e com os irmãos na construção de uma sociedade, alicerçada no amor fraternal. Para tanto é preciso que ele seja um homem tolerante, virtuoso e um sábio pesquisador. O diagnóstico na Arte do Filosofar está na proposta da investigação da verdade. Todo processo investigatório passa pela arte do pensar, do deduzir, do saber, do compreender, para então chegar à conclusão através do conhecimento. Além disso, não se deve esquecer que todo homem na senda do saber não pode se excluir da fraternidade universal, nem se isolar no seu próprio mundo, o que o impedirá de entender toda a riqueza que o processo investigatório lhe propõe. Totalmente introspectivo, ele será incapaz de conhecer o progresso da razão humana, das ciências e das artes, porque não as compreenderá em sua essência. Ele será um cego, um limitado e egoísta pensador inconcluso. A energia que o alimenta, dando-lhe força para alcançar o seu objetivo visando à construção de um mundo melhor é o amor fraternal entre os irmãos, à família e a Deus.

Como Escola na arte de filosofar, a Maçonaria não se limita a uma vertente da Filosofia. Ela busca, através dos seus postulados, incentivar seus membros a compreenderem o seu “EU”, com vistas à construção de uma sociedade mais fraterna. Para isso, têm o livre arbítrio que lhes permite estudar e pesquisar o que lhe convém, com a sabedoria que lhes deve ser peculiar, daí serem livres pensadores. Para realizar esse sonho quase “utópico”, o Maçom deve, portanto, se libertar do egoísmo, das vaidades humanas para se tornar um homem de bons costumes, humilde, justo, fraternal, livre, feliz e perfeito, para então ser a Pedra Polida na construção de uma perfeita sociedade humana.

Observe-se o que consta na Constituição do Grande Oriente do Brasil:

“Art. 1º – A Maçonaria é uma instituição essencialmente iniciática, filosófica, filantrópica, progressista e evolucionária, cujos fins supremos são: Liberdade, Igualdade e Fraternidade.” [5]

Do mesmo modo, a Constituição da Grande Loja do Paraná, que estabelece:

“A Maçonaria é, antes de tudo, uma instituição filosófica; sua finalidade é a propagação de sua filosofia. Todas as suas atividades, sociais ou políticas, não são mais que aplicações dessa filosofia ao campo político-social.” [6]

A partir da análise feita no tocante à definição e os princípios da Grande Loja Maçônica do Estado da Paraíba, cabe agora, com base nas Constituições do Grande Oriente do Brasil, em seu art. 1º, bem como considerando o que estabelece a Grande Loja do Paraná, como Instituição Filosófica, que não é muito diferente da Grande Loja da Paraíba, questionar: os maçons praticam filosofia? Sob o aspecto constitucional, a Maçonaria se diz filosófica. Porém questionemos mais uma vez: Ela o é efetivamente?

Poder-se-ia responder a essas indagações ora formuladas com uma resposta simplória. Entretanto o simplório, ao tempo que satisfaz, também induz à acomodação e à ignorância, porque leva as pessoas a pensarem que já sabem tudo, quando na verdade estão longe do saber, do conhecer. Assim, cabe aos Maçons compreenderem que a prática da filosofia implica em esclarecer as questões que a realidade lhes impõe com a intenção de melhor elucidá-la. No ritual de Aprendiz, há uma orientação inicial para a compreensão do seu “interior”, quando se afirma que todo homem é uma Pedra Bruta e que pode se tornar uma Pedra Polida.

É na interpretação do V∴I∴T∴R∴I∴O∴L∴, onde estão subentendidos os primeiros passos na arte de filosofar. Para compreender melhor a realidade, primeiro deve-se, através da investigação, elucidar todos os questionamentos interiores, com o espírito de desbastar a Pedra Bruta. Esclarecendo essas questões, que impedem de ver o real sentido da vida, encontra-se o brilho necessário e transformador para construir uma sociedade harmoniosa e feliz.

É nesse processo alomórfico e construtivo que a Maçonaria utiliza os instrumentos de trabalho da arquitetura e das construções, como símbolos filosóficos para o aprendizado dos seus membros

O prumo é o exemplo de sua dignidade, da altivez e da imparcialidade como homem justo. Tomando-o como exemplo, o maçom passa a ser o apaziguador, aniquilando as diferenças entre os irmãos.

O nível indica ao maçom a igualdade social entre os irmãos embasada na justiça e na tolerância, sem levar em consideração a classe social a que ele pertença no mundo profano.

Com o compasso e o esquadro, as obras arquitetônicas possuem a justa medida, como símbolo. Esses instrumentos lembram ao Maçom que todas as suas ações devem estar pautadas na justiça e na retidão, atos que regem um verdadeiro obreiro da Arte Real.

Quando Aprendiz, o Maçom utiliza o esquadro como instrumento de trabalho juntamente com o maço e o cinzel, por serem úteis no desbastar da Pedra Bruta. Com o esquadro nas mãos, ele corta as pedras, deixando-as estritamente retangulares para se ajustarem com exatidão entre si. Entende-se, portanto, que o esquadro simboliza que a perfeição está para o indivíduo, assim como a justiça se coloca para a sociedade.

O malho, ou maço, e o cinzel são instrumentos preciosos que o Aprendiz usa para transformar a Pedra Bruta em Pedra Cúbica. Ele trabalha pacientemente deixando aflorar a sua arte. Simbolicamente esses instrumentos mostram-lhe como deve corrigir os seus defeitos, tomando decisões sábias (o cinzel), com determinação enérgica (o malho).

Enquanto a Pedra estiver Bruta, não se pode utilizar o compasso, pois é um instrumento usado pelo Mestre, quando a pedra estiver polida, esquadrejada e perfeitamente acabada.

A régua permite traçar linhas retas que podem ser prolongadas até o infinito. Para o Maçom, ela simboliza o direito inflexível e a lei moral, no entanto as realizações desse trabalho podem ser limitadas; antes, porém, deve-se traçar um programa que direcione passo a passo os caminhos a seguir, que vão além da ideia do “abstrato” (Régua), enquanto o compasso simboliza a “realidade concreta” com a qual se vivencia.

Filosoficamente, ser Maçom significa ser um pedreiro no processo construtivo da virtude, ser um obreiro incansável dessa obra interminável, ser perseverante no uso da trolha com prudência e perspicácia, pacientemente, quebrando as asperezas ainda existentes em seu interior. Para se construir uma sociedade mais justa e fraterna, o Maçom precisa primeiro se tornar uma pessoa melhor e exercitar com excelência a fraternidade.

A Filosofia nos graus simbólicos

A Maçonaria, como Instituição filosófica e iniciática, procura despertar no homem o senso de justiça e a perfeição. Para tanto, faz-se necessário, inicialmente, que ele mergulhe em seus pensamentos, buscando a fonte da razão de sua existência. Só assim será capaz de decifrar os enigmas interiores, quebrando as arestas que o separam da “verdadeira luz”, polindo a sua alma e tornando-se um homem capaz de trabalhar a Pedra Bruta que o simboliza em seus estágios evolutivos na investigação, interpretação e compreensão do seu próprio “EU”. Nesse sentido, interpreta-se ao iniciado o mundo maçônico, no qual a Loja é o símbolo do macrocosmo, o Universo; e do microcosmo, o homem.

É missão do Aprendiz trabalhar a sua interioridade no controle de “si”, buscando compreensão através dos ensinamentos a ele transferidos: os significados do desbastar a Pedra Bruta. Vencer as paixões mundanas deve ser a sua primeira reflexão; num estágio seguinte, ele trabalha desbastando as asperezas que o deixam cego, enquanto profano, impedindo-o de enxergar o “diamante” que é o homem. Agora, o Aprendiz, enquanto neófito, é instruído a trabalhar no sentido de quebrar as arestas que encobrem todo o brilho da essência humana, para, então, quando Companheiro, trabalhar na Pedra Cúbica. É no mestrado que esse conhecimento filosófico adquire corpo sólido. Assim sendo, é de fundamental importância que o Maçom deva instruir-se a respeito dessa parte filosófica, porque a vida em si é o exercício da filosofia.

Para adquirir esses conhecimentos, o Aprendiz tem que evoluir simbolicamente e subir com dificuldade os degraus da escada de Jacó. A cada conhecimento adquirido, ele faz uma reflexão de sua existência; a percepção é individual e intransferível, levando-o com seus estudos e observações a uma interpretação pessoal da vida na compreensão do amor ao próximo, alicerce de toda felicidade humana.

A investigação da verdade é a base da Filosofia Maçônica. A compreensão da Arte Real deve ser interpretada, na Maçonaria Especulativa, como sendo o aperfeiçoamento na arte de pensar, da investigação em busca do significado da existência e da verdade.

Jules Michelet, historiador e escritor francês, afirma:

“É preciso planar sobre o que nós fazemos. É necessário saber muito mais por cima e por baixo, ao lado e de todos os lados, rodear o seu objeto e tornar-se o seu dono.”

Grau de Aprendiz Maçom

O grande filósofo Sócrates ensina ao Aprendiz em filosofia, que a primeira coisa a fazer é aprender a pensar. Ele afirma: “Conhece-te a ti mesmo”. Aprendendo a pensar, aprende-se a conhecer, a discernir, a falar. Foi o que o próprio Sócrates fez. Dessa forma a linguagem que ele usa é sempre a linguagem do conhecimento. Eis aí o primeiro passo do Aprendiz Maçom: aprender a pensar. Como a Filosofia está embasada na busca e na investigação para chegar ao conhecimento, por analogia, o Aprendiz Maçom, mergulhado em seu interior, no seu pensar, procura entender o sentido do seu próprio “EU”, passando a conhecer-se melhor. Dessa forma, morre para o mundo profano, renascendo com outra visão de mundo, buscando outro estilo de vida completamente transformador.

Sócrates afirma também que o homem deve morrer instintivamente, para que as virtudes do seu interior possam aflorar, elevando-o acima das pequenas coisas desse mundo. Sócrates ainda nos fala: “O existir nada mais é que o cotidiano na busca do saber”. Para ele, a virtude só será alcançada quando se adquire a ciência, mas para isso depende do trabalho e da luta constante que o homem pode empregar na busca do conhecimento.

Filosoficamente, sabe-se que a existência humana passa pela questão do “SER”. O Aprendiz Maçom deve ter como objetivo conhecer primeiro a “si” mesmo, desbastando a Pedra Bruta, para daí, então, compreender todo o sentido da lapidação do espírito; não limitar-se ao pensamento primário de que o ser está singularizado no “SER É, O NÃO-SER NÃO É”.

Cabe aqui descrever o que Tomás de Aquino, preceitua:

“O ser não se pode acrescentar nada que lhe seja estranho, porque nada lhe é estranho, com exceção do NÃO-SER, que não pode ser nem forma nem matéria.”

Conhecer, portanto, é descobrir o “SER”; assim, para o Aprendiz Maçom, o conhecimento pode significar o nascimento do seu “SER” interior. Compreendendo a “si” mesmo, ele se diferencia do profano, pois uma nova luz ilumina o seu caminho, uma vez que visualiza as coisas com o olho do pensamento, usando a lente da inteligência, ao passo que o profano olha e não vê. É aí onde reside a diferença entre o olhar e o ver, entre o profano e o Aprendiz Maçom.

Com base no pitagorismo, o Aprendiz mergulha no silêncio, como primeiro fim, para que se possa melhor enxergar, ouvir e meditar.

“Conhece-te a ti mesmo!” Essa assertiva no sentido maçônico leva à conclusão de que, se o Aprendiz Maçom não praticar o conhecimento interior, se não lapidar o seu espírito com a finalidade de evoluir, com a intenção de aperfeiçoar o seu intelecto, não buscar uma conduta condizente com os princípios da moral e da razão, não conseguirá desbastar a Pedra Bruta.

Portanto, o Primeiro Grau ensina que é necessário o conhecimento próprio, para daí se partir para outros conhecimentos. Finalmente, o Aprendiz deve aprender a trabalhar em equipe, com amor, vigilância e dedicação.

Grau de Companheiro Maçom

Uma vez o Aprendiz Maçom conhecendo o seu interior, ele agora está preparado para o passo seguinte, alicerçado no pensamento do filósofo francês René Descartes: “Se duvido, penso, se penso, existo”. É a senda do Companheiro Maçom.

Por estar filosoficamente bem mais elevado, o Grau de Companheiro Maçom, direciona-o
para a verdade científica, anulando definitivamente as superstições. Nesse grau, pode-se fazer uma síntese das filosofias de Pitágoras, de Parmênides, de Sócrates, além de outros.

“O que somos? O que é que existe? De onde vieram as coisas? Para onde iremos?” Esses questionamentos são, na verdade, a primeira grande influência filosófica do Segundo Grau, advindos dos primeiros pensadores pré-socráticos. Eles procuravam compreender e buscar soluções para os princípios das coisas existentes. O ato de pensar era o caminho para chegar a conclusões concretas, visando encontrar uma resposta que se baseasse num ponto de vista lógico para seus questionamentos.

A constante mudança que sucedia na natureza deixava o homem deslumbrado, diante do fenômeno que consistia em as coisas mudarem, desaparecerem e a natureza continuar a mesma. Simbolicamente é o que acontece com o Companheiro: a sua primeira tarefa é fazer uma análise objetiva da realidade física, a fim de que possa chegar a um conhecimento tanto maior da existência. A vida é um enigma e, no Segundo Grau, o tema é abordado filosoficamente: O que sou eu? O que é a vida? Que estou fazendo neste mundo?

Neste ponto, faz-se presente a filosofia de Parmênides de Eleia, talvez o maior entre os pré-socráticos. Em um dos fragmentos, dentre os que chegaram até hoje, ele filosofa:

“Mas há no mundo o que importa mais que o mundo: O ser do mundo.”

Protágoras dizia que o homem é a medida de todas as coisas. Portanto, quando se pensa, esse ato está sempre ligado ao “ser” e acredita-se que se não existisse elo, não existiria o pensar, haveria apenas um simples refletir. Entende-se, assim, que o pensar tem sempre o homem como alvo principal.

Sendo um grande conhecedor do seu “EU”, o Companheiro Maçom, agora, passa a estudar o conhecimento sociológico para melhor entender e ter uma visão mais apurada dos valores sociais e individuais. Ele passa a ser o defensor da vida social e inimigo das tiranias que procuram escravizar e alienar a inteligência e o espírito do homem, pois a Arte Real não admite entraves ao pensamento humano.

Com o exposto, entende-se que o Segundo Grau é essencialmente social. O Companheiro Maçom tem que trabalhar com afinco na prática da filantropia, a serviço da comunidade; ele tem que se despojar em beneficio de seus semelhantes.

Eticamente o Companheiro Maçom deve possuir quatro atributos: ser um sábio, por compreender os significados da ciência, interpretar a Arte Real e, acima de tudo, por conhecer a “si” mesmo; ser forte por vencer as paixões alienadoras que escravizam o homem; ser um moderador nas diferenças e nas indiferenças da vida social; ter senso de justiça por ser um homem virtuoso, reto e íntegro. Atingindo esses objetivos, ele agora está preparado para subir mais um degrau da escada de Jacó.

Grau de Mestre Maçom

O filósofo Arcângelo Buzzi afirma que:

“O estudo da filosofia desenvolve o espírito de fineza. Exercita o pensamento a conhecer a realidade por si próprio, tornando-se ele mesmo esclarecido, portador de luz força de discernimento.”

Por excelência, o Mestre Maçom é um filósofo. Chegando ao Terceiro Grau, ele é muito mais Aprendiz do que quando tinha assento no setentrião, e muito mais Companheiro do que quando ocupava um lugar na coluna do sul. Diante dessa afirmativa, vem a pergunta que deve incomodar: Por que o Mestre é muito mais Aprendiz e muito mais Companheiro? A resposta que deve ser levada em consideração é que a missão do Mestre Maçom é ensinar. A melhor forma de aprender é ensinando, e se aprende muito mais do que estudando. Heidegger nos diz:

“É bem sabido que ensinar é ainda mais difícil que aprender.”

Para ensinar, o Mestre deve ser possuidor de conhecimentos, mas para isso precisa estar aberto ao aprendizado como um eterno Aprendiz. Se for soberbo, ele acaba se fechando e não evolui na arte de filosofar, daí os seus ensinamentos tornam-se falhos. Porém se ele exercitar a humildade e se deixar aprender, os seus conhecimentos se renovam e todos se beneficiam; com essa conduta, há um mútuo enriquecimento entre ele, o Aprendiz e o Companheiro.

Nesse contexto, ele deve aprender a deixar-se aprender. A sua compreensão ultrapassa os discípulos que se limitam a absorver o conhecimento transmitido, porque ele é uma fonte inesgotável de estudo e de pesquisa. Se assim não o faz, só lhe resta inventar e propagar a filosofia do achismo, na qual ele supõe, mas não tem certeza de nada, tudo é fruto de sua imaginação. A Maçonaria não admite invencionices, mas nela existem mestres que, agem dessa forma e, ocasionalmente, falam por pura intuição, sem fundamento no que diz; pura fábula criada pelo seu pensamento.

A constante pesquisa, aliada à perseverança, incentiva o Mestre a alcançar os objetivos desejados. É através da interpretação e compreensão do objeto em estudo que o questionamento é elucidado. É na tolerância que ele exercita a arte de aprender com paciência, como um Aprendiz ao desbastar a Pedra Bruta. Sem a socialização do conhecimento, o Mestre só enxerga a “si” e assume uma conduta isolada, daí o que é filosófico entre os Maçons fica restrito a poucos pensadores. Adotando essa postura, toda a sua filosofia adquire outro significado com deduções ilógicas sobre tudo com que se depara e passa a transmitir suas conclusões aos Aprendizes Maçons como verdade absoluta. Dessa forma, ele não está contribuindo com a Instituição na arte de filosofar.

O Mestre Maçom deve sempre pesquisar, sem se deixar influenciar pelo seu ímpeto, sem nenhuma base de sustentação nas ideias do achismo, sistemas ou doutrinas alienadoras. É bom não confundir postulados maçônicos com dogmas, como se a maçonaria fosse uma seita. Ela não é religião, mas religiosa.

Sócrates, o maior de todos os filósofos gregos, disse:

“Empenho muito mais belo é quando alguém, servindo-se da dialética, tomando uma alma apropriada, pela planta e nela semeia, com ciência, discursos que são capazes de ajudar aos próprios e a quem os plantou, e que não são infrutíferos, mas têm em si germes donde brotarão outros discursos plantados, em outras pessoas, discursos capazes de produzir esses efeitos, sem nunca falhar e de tornar feliz quem possui tal dom, tanto quando o homem isso é possível.”

O Mestre Maçom não deve se prender a ensinar a ritualística referente à Loja a qual pertence. Ele transcende a essa prática, a esse pensamento, a esses ensinamentos. Ele não pode ficar limitado à discussão dos trabalhos em Loja, muito menos falando em vão, externando maledicência, criando um clima de animosidade entre os irmãos, dando mau exemplo aos Aprendizes e Companheiros. Deve-se entender que ele é uma fonte de tolerância, de riqueza para o aprendizado; é exemplo a ser seguido dentro e fora de Loja, pois é um Mestre Maçom.

Conclusão

O Mestre Maçom se caracteriza pela serenidade ao pensar, pela sua humildade ao ouvir, pelo controle de “si” ao agir. Ele é o termômetro entre as colunas, é a harmonia na Câmara do Meio pela meditação na compreensão do significado da morte.

A ordem dos trabalhos requer tolerância e mansidão no uso da palavra, que circula tanto no ocidente como no oriente. Passa pela interpretação do significado da “luz” que emana do oriente, iluminando a todos num clima de união. O Mestre Maçom deve ser possuidor da sabedoria que foi outorgada pelo G∴A∴D∴U∴ ao Rei Salomão, quando ele se torna um Venerável Mestre ou um Sereníssimo Grão-Mestre. É nesse exercício prático que o filosófico se torna concreto no mundo profano, onde o Maçom é o exemplo de homem digno da serenidade que lhe é peculiar.

Compreende-se que o Mestre Maçom é uma fonte inesgotável do pensar, do agir interagindo, do lapidar-se lapidando. É a busca do saber até a luz do conhecer, é a compreensão dos significados que a vida lhe impõe, questionando os porquês, procurando soluções para as coisas imperceptíveis aos olhos do mundo profano, a fim de tornar-se um profundo conhecedor na arte de FILOSOFAR.

A Maçonaria, como Instituição Filosófica, precisa de homens pensadores, filósofos da vida, das experiências adquiridas dentro e fora das Lojas Maçônicas. Nela não há discórdia de pensamentos, pois todos buscam esclarecer o que está obscuro, o inexplicável. A razão de sua existência está na vontade de interpretar e compreender os obstáculos que afastam o homem da paz interior, que o impossibilitam construir a felicidade humana.

Para ser Maçom não é preciso cursar universidade, nem ter título universitário, muito menos ser doutor, principalmente em Filosofia. Nela, compreende-se que todo Maçom deve ser “livre e de bons costumes”; um pensador, um investigador que caminha nas veredas das observações das atitudes humanas, desprezando o que é desprezível, lapidando-se até o brilho do conhecimento. Ser um incansável explorador em busca da Palavra Perdida e Indecifrável, trilhando o caminho da investigação, na compreensão da
verdade até alcançar a luz que o libertará das trevas que o acorrentam até a morte, ressurgindo para uma nova vida.

Nessa compreensão, todo homem com esses pré-requisitos têm condições de adentrar pelo Portal que separa a ignorância da verdade e participar da meditação; filosofar sobre a vida, com a finalidade de encontrar o diamante que brilha em seu interior. É um traspassar pela grade da razão, subindo pela escada de Jacó até alcançar, simbolicamente, toda sabedoria do Rei Salomão.

Autor: Alveriano de Santana Dias

Fonte: Revista O Buscador. Ano I – N° 2, pág. 21– 31 abr/jun – 2016. Uma publicação da Loja Maçônica de Estudos e Pesquisas Renascença nº 1, oriente de Campina Grande- PB.

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Notas

[1] – http://www.samauma.biz/site/portal/conteudo/opiniã o/g00304incidencia.htm

[2] – http://www.lojasaopaulo43.com.br.htm

[3] – http://www.samauma.biz/site/opinião/g00304inciden cia.htm

[4]Vade Mecum Maçônico, 1991, p.21.

[5]Boletim Especial da Constituição – 25/05/2007, p.3.

[6] – Constituição, 1985, p. 5.

Referências bibliográficas

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http://www.vivernatural.com.br/filosofias/mac_prin.htm

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NOVO DICIONÁRIO ELETRÔNICO AURÉLIO

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