Luz, Paz e Bem

Frases do pequeno príncipe

Vivemos tempos de crise. A essência cede lugar à aparência. Tudo parece repelir a convivência pacífica de opostos. A simples manifestação de uma opinião – sobre qualquer assunto – enseja ataques gratuitos, especialmente no Tribunal das Redes Sociais. Intolerância geral. “Enquanto os homens exercem seus podres poderes” (Caetano Veloso), a felicidade parece estar cada vez mais distante.

Mas esta época pode ser muito boa, se soubermos o que fazer com ela.

“Somos feitos para a felicidade, para a interação, para a bondade, enfim para facilitarmos a existência uns dos outros” (Ana Jácomo).

“Gente simples, fazendo pequenas coisas, em lugares não muito importantes, consegue mudanças extraordinárias (Provérbio africano)”.

Esta não é uma situação passageira. Há uma mudança de eixo na nossa forma de viver. O grande desafio é encontrar a melhor maneira. E é neste cenário que novamente se apresenta singular oportunidade de a Maçonaria reafirmar sua missão.

O filósofo Epicuro observou que os grandes navegadores devem sua boa reputação às tempestades. Paz não é a ausência de conflito, mas a constante e corajosa luta contra a injustiça.

“A coragem é um meio termo entre o medo e a confiança” (Aristóteles).

“A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.” (Guimarães Rosa).

Por outro lado, é sabedoria deixar de lutar por algo que não proporciona paz. A própria Maçonaria precisa superar suas dificuldades e conflitos. Precisa se manter no caminho reto, que historicamente trilhou. Ser a Sublime Instituição que prometemos aos neófitos. Ficar imune ou em contraste com os desencontros do mundo profano.

Para tanto, cada obreiro deve honrar, contínua e permanentemente, o seu juramento da Iniciação. Um ensinamento indígena diz que quando não se cumpre a promessa, os fios da ação ficam soltos ao nosso lado, enrolam-se nos pés e impedem a livre caminhada. Por isso, os nativos têm o costume de “colocar as palavras para andar”, ou seja, agir de acordo com o que se fala, o que conduz ao caminho da beleza, em que há harmonia e prosperidade naturais.

Todos nós, eternos aprendizes, juramos cultivar a paz, a concórdia e o respeito, além de defender a liberdade de consciência, comprometidos com a indagação responsável, a informação segura, a meditação serena, a ação benfazeja. A começar na própria Loja, nosso comportamento social deve ser reflexo lógico do que se faz no particular, mais do que somente imagem para consumo externo. Coincidência entre discurso e prática. Em suma, coerência!

Assim, em equilíbrio e harmonizados, estaremos aptos a contribuir na construção social, cujo pressuposto básico é a vida humana em grupos, que, sem dividir, impor ou segregar, devem ter um mínimo de homogeneidade para poder evoluir, renovar e construir. A vida em sociedade precisa de palavras bonitas e menos cara feia. Mais respeito e pouco julgamento. Mãos dadas, menos individualidade. Discernimento para quando se negue a verdade e se idolatre a mentira. Menos regulamentos e melhores relacionamentos.

A propósito de harmonia, a Constituição de Anderson já determinava que os artesãos deveriam se abster de toda prática profana prejudicial à caridade fraterna ou às boas relações. Dirigir-se sempre uns aos outros pelo tratamento de Irmão, agindo com cortesia, dentro e fora de Loja. Evitar comitês particulares, conversações paralelas, linguagem imprópria, falas inconvenientes, ou comportamento jocoso, porque a Loja somente se envolve com o que é sério e solene. Facultava o regozijo, com alegria, mas evitando todo excesso gravoso, sob a pena de frustrar louváveis esforços. Recomendava abrandar temperamentos, evitar pendências cotidianas e querelas sobre temas polêmicos, porque somos de todas as origens, e temos o direito de livre pensar, mas fundamentalmente há obrigação de respeitar o outro.

Todos nós, Maçons, somos iguais em direitos e deveres gradativamente conquistados e cumpridos. Somos credores de respeito e lealdade, mas também devemos fidalguia e amabilidade.

Nesta linha de ideias, haveremos de ter muito cuidado com as disputas e as divergências, com o julgamento descuidado e a condenação precipitada das palavras, do silêncio, da presença e da ausência; do que se pensa, do que se faz e do que não é feito.

Estar imunes à Santa Inquisição dos Passos Perdidos, tão comum no mundo profano, em que muitos, para tirar atenção de si próprios, medem supostas falhas alheias com uma régua que eles mesmos inventaram. Distinguir entre obsequiosos, altercadores, e aduladores, pois a simulação da bondade é a mais perigosa das maldades. Respeitadas as possibilidades e a capacidade de cada obreiro, observar os que se omitem, reclamam muito, mas pouco ou nada fazem; e quem acha que tudo pode ou faz; ou quem se faz de modesto; além dos que se apropriam de feitos alheios. Resistir e neutralizar eventuais máculas contra a reputação de quaisquer Irmãos; em especial os ausentes.

Por outro lado, as sinceras manifestações dos Irmãos, em Loja, devem ser respeitadas, pelo que realmente significam, e não por interesses ou ideias contrárias. Importante assumir o que se diz, mas não se sentir responsável pelo que o outro entende.

A Arte Real também engloba saber ouvir ou falar, com lealdade. O tom do que é dito depende do jeito de ouvir, e vice-versa. Não se há de melindrar com ideias e pensamentos lançados em abstrato, para aprendizado de todos. E se algum confrade for prejudicado de qualquer modo, a fraternidade deve prover ou viabilizar sua defesa, e restabelecer a verdade e a justiça.

As decisões coletivas e legítimas sempre devem ser acatadas. Diálogo e respeito são imperativos, especialmente aos que pensam diferentemente, não havendo por que impor opiniões e condenar as contrárias. Conforme José Saramago,

“O trabalho de convencer é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro.”

É básico e lapidar que somente deve portar avental o Irmão em perfeita harmonia com os demais obreiros. Empatia é saber enxergar a alma alheia. É compreender que nem sempre o fácil para um também será para outro. Não ferir a ninguém, viver honestamente e dar a cada um o que é seu, antes de ser uma regra moral e a pedra angular da Justiça, é um imperativo de sobrevivência, corolário da Ética, para além das religiões, mitos e filosofias.

Tal como foi fatal para Sócrates, é um perigo julgar tudo e todos, impor e condenar precipitadamente, sem se importar com as consequências. Antes disto, caberia perguntar: – “e se fosse comigo?” Às vezes, silenciosamente, as pessoas se afastam para refletir. Outras vezes, porque já refletiram.

“O sábio não diz tudo o que pensa, mas pensa tudo o que diz” (Aristóteles).

O homem é escravo do que fala e dono do que cala.

“O perfeito é desumano, porque o humano é imperfeito” (Fernando Pessoa).

Então, que nossas palavras sejam para abençoar, bendizer, somar e unir; que a diferença de ideias aproxime e faça crescer; e que quando nos reunirmos, a primeira pergunta seja: “-Vamos falar bem de quem?” A música de Frejat ensina:

“Eu te desejo não parar tão cedo, pois toda idade tem prazer e medo. E com os que erram feio e bastante, que você consiga ser tolerante”.

Por isso, embora sejam importantes os tratados de amizade e a intervisitação intensa, antes, há que ter harmonia com os Irmãos mais próximos. O momento é de esquecimento, de perdão, de desapego aos conceitos, atitudes e preconceitos que segregam, dividem e afastam. Para reconciliar, é preciso resiliência, mente flexível, otimismo, capacidade de se recuperar de situações de crise e aprender com ela. Não há razão de dividir para governar, e a unificação de potências, o bom relacionamento, ideal do projeto impessoal de entendimento, é um objetivo final, que passará pela pacificação geral e pelo ecumenismo.

Assim, a Ordem manterá suas tradições, atuará na vanguarda da evolução, e continuará sendo o Luzeiro da Humanidade. A liberdade é o mais precioso dos direitos. Ser livre não é só questão de leis (Platão). Somente é livre aquele que reconhece a ordem divina dentro de si, o verdadeiro nível pelo qual o homem pode se governar. É preciso manter vivos e aprimorar os atributos que fizeram com que o Mestre apoiador tivesse despertado o seu olhar para nos convidar à iniciação.

A nós, seres imperfeitos, cabe unicamente fazer o bem, não para ganhar o céu, mas para tornar suportável a vida na Terra.

São nossas atitudes e não nossas crenças que nos fazem melhores. Há leis universais implacáveis: a do retorno, a da verdade, e a do mérito. Os princípios estão acima e antes das pessoas.

Estudar e melhorar a si mesmo é a arte mais difícil, é missão árdua, e requer dominar instintos, aprimorar virtudes. Compete a cada um de nós decidir pela sincera reforma íntima, em busca do estado de ataraxia, quietude absoluta da alma, o ideal do sábio (epicurismo). Tirando os bens materiais, o dinheiro, a aparência, o estudo, os títulos e cargos, as realizações, o que resta é o que a gente é. Então, o que nós somos, em essência?!

Que nos sirva de estímulo saber que a melhor coisa a se fazer por alguém é ser sua inspiração, pelo exemplo. Com a energia positiva do sincero e fraternal abraço habitualmente trocado entre os Irmãos, que haja saúde, força, sabedoria, beleza e união de todos, para que a Maçonaria se consolide em uma central de energia psíquica e moral, na qual a sociedade encontre os seus líderes quando deles necessite.

E, se nos perguntarem: – Quantos sois vós? Responderemos: – Somos um só!

Autor: Alceu André Hübbe Pacheco

Alceu é Mestre Instalado da ARLS Pedro Cunha, Nº11, jurisdicionada à Grande Loja de Santa Catarina.

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O Irmão carente e o “mala”

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“Um pouco de perfume sempre fica nas mãos de quem oferece flores.” (Provérbio Chinês)

A presente reflexão não tem caráter técnico-científico, não aborda carência de posses, de valores morais, financeiros, como a recorrente e insolucionável falta de dinheiro, bem assim não pretende criticar ou ofender suscetibilidades, baseando-se, apenas e tão somente, em observações e registro de comentários, às vezes bem ou mal humorados, envolvendo a variante afetiva e outras necessidades de ordem material, mesmo inusitada.

Quanto à primeira carência, restringimo-nos àquelas caracterizadas pelos imperativos demonstrados por muitos de nós, em nosso reduto e nas relações com irmãos de oficina, envolvendo uma busca constante por atenção, aprovação e tudo mais que envolva certa dependência que inspire segurança, reconhecimento, consolo e aceitação.

Alguns esboços de demonstração de carecimento são hilários, atualmente proporcionados pelas mídias sociais, notadamente nos nossos grupos de WhatsApp, onde irmãos, para chamar atenção sobre si, não se cansam de postar vídeos, mensagens quilométricas repetidas à exaustão, às vezes sem o cuidado de conferir a veracidade e os registros anteriores e…. toma lá de novo. Foi! E…. foi outra vez! Da mesma forma, em vários grupos. Com o mesmo ardor enviam também como mensagens privadas, sem a mínima autocrítica ou desconfiança de estarem sendo inoportunos ou exagerados. Sem os mínimos cuidados, após uma notícia triste de um irmão, colocam uma piadinha de mau gosto. Isso sem falar nos engraçadinhos que se maravilham em provocar as pessoas.

Aqueles mais inveterados ou deslumbrados pelas tecnologias, movidos quiçá por inspiração etílica, conforme especulações de entendidos, escrevem qualquer patetice, algumas de forma quase criptografada, colocam nas redes sociais ou em grupos específicos, e ficam aguardando e/ou cobrando os “joinhas” ou aprovação ou comentários, como se aquilo fosse marcar ponto de referência inédito na Ordem, tipo antes e depois da minha abalizada opinião de Mestre, do meu post genial, sem observar o respeito e cuidado com a norma escrita e a paciência e disponibilidade de tempo dos destinatários. Para alguns o aplicativo funciona como um big brother ou uma ouvidoria da vida. Importante saber que o WhatsApp disponibiliza o recurso do “Responder em particular”, que alivia o estresse sobre os demais. E por aí, vai. Mas divagamos.

Como a maçonaria é uma família, onde os obreiros tratam-se como irmãos e estão comprometidos em prestar apoio, não são raros os casos que requerem olhar mais afetuoso, ouvido mais paciente e ombro amigo, por uma série de motivos, sejam problemas de saúde, frente a constantes relatos de doenças e sofrimento envolvidos, perdas de entes queridos, conflitos familiares e nos relacionamentos com outros irmãos da Loja, e demandas de ordem geral, cujas experiências sempre trazem ensinos para nossas vidas.

Até aqui, fraternalmente, tudo está amparado pelos fundamentos da Ordem, que se apresenta como uma associação que pugna pela mútua assistência, pela igualdade, pelos laços de recíproca estima, amizade, confiança e prática das virtudes, cabendo a cada um dar um pouco de si, conforme as próprias limitações e boa vontade. Mas, o que chama sempre a atenção são os excessos de demandas, que normalmente recaem sobre aqueles mais receptivos e carinhosos no trato cotidiano, que poderia ser atenuada se prestássemos um pouco mais de atenção ao nosso redor e fôssemos mais condescendentes e prestativos.

E não se pode imaginar que essa realidade seja restrita àqueles mais abertos e que procuram ajuda. Há casos de irmãos mais travados, ausentes das trocas de mensagens, que se fecham em copas e, não fora certa sensibilidade para os sinais emitidos, consequências mais gravosas podem surpreender. Por isso, em momentos de maior vulnerabilidade, como nos afastamentos do convívio em Loja, a ajuda pode ser expressa com um simples telefonema, ou mesmo uma visita, levando o tradicional e tão festejado fraternal abraço, descartadas, neste contexto, os contatos apenas virtuais, muito mais fáceis, mas que não colhem resultados mais sensíveis e reveladores.

Testemunhamos, em várias oportunidades, irmãos que se levantam emocionados em Loja para agradecer o apoio recebido dos demais por ocasião de uma enfermidade, com relatos de surpresas de parentes e amigos que se manifestaram encantados pela forma como concretamente a fraternidade se expressou nos seus momentos de maiores dificuldades.

Há, ainda, os casos de carências emergenciais em que irmãos, os quais não conhecemos pessoalmente, se socorrem dos meios de intercâmbio de mensagens via e-mail, como o Grupo MMAALLAA (abreviatura de “Maçons Antigos Livres e Aceitos), moderado pelo valoroso e abnegado irmão José Airton Carvalho (GLMMG).

Referido Grupo conta com mais de 2.700 participantes de Minas Gerais e está integrado a mais de 70.000 maçons, espalhados pelo Brasil e América Latina, por intermédio de vários grupos maçônicos, e que não apenas se restringe à divulgação da cultura maçônica, como do Blog “O Ponto Dentro do Círculo”, coordenado pelo dinâmico irmão Luiz Marcelo Viegas, de repercussão internacional, mas presta serviços de utilidade pública, assistência social, orientação aos irmãos em trânsito pelo País e divulgação de oportunidade de empregos à família maçônica e a todo irmão que carecer de algum tipo de orientação.

Nos relatos de socorro concernentes ao MMAALLAA, por vezes incompreendido e criticado por quem ainda não careceu de auxilio, registram-se situações de apoios prestados em regiões mais longínquas, pelas Lojas da jurisdição, onde irmãos em viagens a trabalho ou com a família deparam-se com acidentes, demandas por atendimento médico ou direcionamento para uma emergência qualquer, até casos envolvendo o desaparecimento de um familiar, bastando apenas a transmissão de uma mensagem com o relato da situação, para que uma solução seja encaminhada. A restrição é que no Grupo não são permitidas discussões de assuntos jocosos, piadas de baixo calão, sincretismo, sectarismo ou proselitismos. Os desatentos recebem um cartão amarelo. Os reincidentes são discretamente banidos. Fácil de entender!

Para que esse instrumento não de desgaste, precisamos ficar atentos quando ao conteúdo e direcionamento das providências. A situação mais combatida por vários usuários, motivo de reclamações constantes, é no sentido de que, uma vez encontrada uma forma de solucionamento, os entendimentos se façam de forma privativa, sem entulhar as caixas de entrada dos e-mails com conversas que não mais interessam aos demais participantes do Grupo MMAALLAA, evitando-se, assim os indesejáveis pedidos de exclusão, tipo “me tire disso aí” ou “essas mensagens estão atrapalhando minha concentração no trabalho”, “não aguento mais”, dentre outras formas menos acolhedoras. Os mais antenados e incomodados, quando percebem que a condição é de “mala-sem-alça”, sabem que a forma de se excluir automaticamente é simples, dispensando-se chiliques ou tremeliques, e permanece fixada no final de todas as mensagens. Basta prestar atenção: ler.

Por isso, na convivência com os nossos irmãos, de forma extensiva aos nossos lares, é importante que reconheçamos, de uma forma ou de outra, que todos temos nossas insuficiências, eventuais demandas, incômodos, prioridades e motivos de discordâncias, mesmo que nos recusemos a aceitar essas possíveis “fraquezas”, aplicando-se o dever de vigilância permanente para a qualidade de nossas vidas afetivas no âmbito de nossas Lojas, para que não tomemos atitudes das quais possamos nos arrepender mais tarde. Da mesma forma, como família maçônica, não podemos deixar de refletir e inspirar-nos nos tão decantados sentimentos de amor fraternal, fundamentados sobre a virtude da solidariedade que tanto valorizamos.

“Somos todos carentes fingindo o contrário!” (anônimo!)

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.