Em busca da Apple Tree: uma revisão dos primeiros anos da maçonaria inglesa (Parte III)

John Montagu, 2.º Duque de Montagu

Um acontecimento que constituiu uma tragédia para o estudo da história da Maçonaria foi a “noite da indignação”, que aconteceu na Loja Antiguidade em novembro de 1778, quando os simpatizantes de William Preston, em sua disputa com o Grande Loja, roubaram arquivos e móveis[80]. Na época deste incidente, a loja tinha em sua posse as atas completas entre 1721 e 1778, bem como três volumes com os arquivos dos tesoureiros e dos secretários. Os dois volumes, que continham as atas de 1721 a 1733 foram perdidos e outros volumes tiveram suas páginas rasgadas. A perda desses registros é desastrosa. No entanto, foi preservado um rascunho, marcado com “E”, contendo alguns das primeiras atas. Felizmente, este volume ainda está em sua encadernação original, e tem anexado a ele o cartão de Charles Stokes, “Livreiro em Red-Lyon, perto de Bride-Lane, na Fleet Street”. O cartão está datado de 1716, provavelmente a data em que foi gravado. Stokes era conhecido por comercializar o “famoso tabaco oftálmico, que é fumado suavemente e é agradável de cheirar”, que foi amplamente divulgado a partir de 1720, e a as folhas de tabaco são vistas no cartão[81]. Stokes, “uma pessoa engenhosa que colecionava medalhas, pinturas e outras curiosidades”, faleceu em 10 de junho de 1741[82]. A participação de Stokes na Loja Antiguidade está registrada no Volume “E” e, em 1719, ele foi tutor de geometria, álgebra e assuntos relacionados junto com Jonathan Sisson[83].

Graças à sobrevivência do livro e do cartão de Stokes, sabemos que o livro “E” em arquivo no Loja Antiguidade é anterior às ações de Preston e seus seguidores e que, provavelmente, foi encadernado em princípios década de 1720. Boa parte do livro não foi usada até anos depois de seu aquisição, uma vez que também contém atas de 1759 a 1767 entre as páginas 9v e 85, além da contabilidade da loja da página 148v ao final do volume. Ele também contém várias notas de, por exemplo, a entrega de uma placa para imprimir ingressos, em julho de 1751, ou na página 7v o reembolso das verbas pagas durante uma cerimônia trimestral em abril de 1756. Na página 124v há uma lista negócios inacabados de grandes oficiais, o que é muito interessante porque omite a inclusão de Anderson como o Primeiro Vigilante em 1723. No entanto, esta lista é muito tardia, pois está escrita pela mesma pessoa que escreveu a ata entre 11 de junho e 26 de agosto de 1766. O volume não escapou ileso da “noite da indignação”, uma vez que entre as páginas 125 a 133 existem alguns trechos, escritos em caligrafia do final do século XVIII, que supõe-se sejam do livro de atas de 1721 a 1733 que está perdido. Como o observa Wonnacott[84], eles foram escritos por uma mão que não pode ser anterior a 1765 e muitos traços têm uma semelhança marcante com as notas de rodapé do obras de William Preston, sugerindo que se trata de registros que foram elaborados e corrigidos sob sua direção.

Mas, no início do livro “E”, existem dois documentos que podem ser datados sem dúvida a partir do início dos anos 1720. Após a reprodução de um retrato do Duque de Montagu por John Faber, há uma ata na página 2 que descreve a nomeação do duque em junho de 1721; então, das páginas 4-5, há uma lista de membros da loja, datada de 18 de setembro de 1721. O início desta lista é redigida pela mesma pessoa que redigiu a ata da reunião de Montagu. Adições subsequentes à lista, que deixam um registro de alguns figuras ilustres da loja, como o primeiro conde de Waldegrave e Sir Charles Hotham, representante de de Beverly no Parlamento[85], são primeiro da mão original e depois de uma variedade de mãos que parecem ser, como no caso do artista Benjamin Cole, assinaturas dos próprios membros. As últimas entradas na lista referem-se às iniciações de 15 de março de 1725, o que significa que a lista não pode ser posterior a 1726. A maioria dos membros nomeados na primeira seção aparecem na lista de membros da Loja na taverna Goose and Gridiron. Outros nomes na lista de 1725 aparecem como membros da Loja na taverna Queen’s Arms, que é para onde se mudou a Loja da Goose and Gridiron[86]. Isso nos leva a pensar que a relação entre as duas lojas é mais complexa do que se acreditava anteriormente, provavelmente devido ao papel do Duque de Wharton como Grão-Mestre da Loja Queen’s Arms. No entanto, a lista da loja mostra os membros no início da década de 1720, e foi copiado no livro “E” nessa época. O nome do mestre William Esquire parece, à primeira vista, um erro de redação, porém, possivelmente, se trata de um William Esquire que batizou sua filha Ann em St. Botolph Aldgate em 1710[87]. Nesse caso, ele é o primeiro mestre da Loja da Antiguidade.

Visto que a lista de membros da Loja Antiguidade contida no livro “E” data do início dos anos 1720, pode-se presumir que o relato da nomeação do duque de Montagu, escrito pela mesma pessoa, foi elaborado não muito depois de 1721 e portanto, pode ser considerada uma fonte contemporânea. Esta ata amplia consideravelmente a lista de nobres e senhores ilustres que compareceram ao evento. Concorda com a menção de Stukeley sobre a presença de Lord Herbert e Sir Andrew Fountaine, bem como Lord Hinchingbrooke[88], que mais tarde visitaria Stukeley na Loja Fountain. Também nos diz que Lord Hillsborough, um amigo próximo do Duque de Wharton[89], esteve presente. A ata não diz explicitamente que Lord Stanhope esteve presente, mas a entrada “P. Stanhope” pode se referir a ele. O William Stanhope, que aparece, é possivelmente o irmão mais novo de Lord Stanhope. No texto um bom número de baronetes e cavaleiros também são mencionados, como Sir William Leman, terceiro Baronete, Sir George Oxenden, quinto Baronete, parlamentar do Partido whig por Sandwich[90]; Sir Robert Rich, quarto baronete, que na época era parlamentar por Dunwich e apoiador de Walpole[91], Sackville Tufton, mais tarde sétimo Conde de Thanet e Coronel John Cope, parlamentar por Queenborough e também apoiador de Walpole[92]. A ata também menciona Christopher Wren Jr., que mais tarde se tornaria mestre da loja Antiguidade, bem como membros das lojas Goose and Gridiron e Queen’s Arms, incluindo Richard Boult, Charles Hedges e William Western, membro da Royal Society.

O documento da Loja Antiguidade mostra-nos que, entre os presentes na iniciação de Montagu estavam representantes da mais alta classe da sociedade. O mais surpreendente é a notícia de que o duque de Wharton também compareceu. Isso não era inerentemente improvável, mas, uma reportagem na imprensa, publicada em 5 de agosto de 1721, afirmava que Wharton começou na Maçonaria na Loja na taverna Queen’s Arms apenas no final de julho do mesmo ano[93]. Isso nos leva a questionar a sequência exata dos eventos sobre a iniciação de Wharton, embora não desacredite o relato da Loja Antiguidade[94]. A reunião é descrita como “uma assembleia geral de um grande número de maçons”, a ata declara que o duque de Montagu foi eleito Grão-Mestre, e jurou sobre a bíblia, “observar e manter inviolável no futuro, todas as franquias e liberdades dos maçons da Inglaterra e todos arquivos da antiguidade sob a custódia da antiga loja de São Paulo em Londres”.

Embora esse ata fosse claramente destinada a reforçar as reivindicações da loja, estas estavam baseadas na posse dos arquivos das Old Charges. Neste contexto, quando Payne apresentou um documento muitos mais velho realmente complicou a coisa toda. Isso adicionou importância à segunda parte do juramento de Montagu: “Firmemente observar e nunca permitir qualquer interferência nos Landmarks das antigas lojas da Inglaterra, o que da mesma forma será feito por seus sucessores, que estarão obrigados por juramento a fazer o mesmo”.

Em reciprocidade, as antigas lojas concordaram em renunciar aos seus privilégios em favor deste novo órgão, que era a Grande Loja:

Neste dia, os maçons de Londres, em seu próprio nome e em nome do restante de seus irmãos da Inglaterra, concedem seus reservados e distintos direitos e poderes de reunir-se em capítulos, etc., presentes nas antigas lojas de Londres, em favor do que hoje foi publicamente reconhecido e notificado aos irmãos reunidos na Grande Loja.
Os senhores das antigas lojas aceitaram e confiaram em nome de suas lojas e tudo foi juramentado de forma pertinente

Assim, a descrição contemporânea mais completa e detalhada mostra-nos que a nomeação do Duque de Montagu e o ato de transferência dos privilégios das antigas lojas de Londres para o Grão-Mestre e a nova Grande Loja foi realizada, não na Loja da taverna Goose and Gridiron em 1717, mas na reunião no Stationers ‘Hall em 1721.

Este relato é convincente não apenas porque é mais contemporâneo do que o de Anderson, mas também porque está de acordo com o histórico de Stukeley e as evidências encontradas nos jornais. Aparentemente, foi George Payne, com a ajuda de Desaguliers e talvez do próprio Stukeley, que concebeu um esquema para levar a Maçonaria a um novo nível social e cultural nos meses anteriores, além conseguir levar para suas fileiras personagens ilustres como o duque de Montagu e talvez também o duque de Wharton. Payne foi, sem dúvida, quem orquestrou toda a operação, preparou o regulamento da nova organização e talvez tenha sido nomeado Grão-Mestre durante esse processo. Mas o significado das atas da Loja Antiguidade é muito claro: a Grande Loja não foi fundada na taverna Goose and Gridiron em 24 de junho de 1717, mas sim quatro anos depois, quando as lojas de Londres fizeram a transferência formal de seus privilégios para o nova organização, em 24 de junho de 1721 no Stationers ‘Hall. Portanto, a contagem de Anderson do que aconteceu entre 1717 e 1721 deveria ser desconsiderada.

Continua…

Autores: Andrew Prescot e Susan Mitchell Sommers
Traduzido por: Luiz Marcelo Viegas

Fonte: REHMLAC

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Notas

[80] – W. H. Rylands y C. Firebrace, Records of the Lodge Original, No. 1, now the Lodge of Antiquity, No. 2 (Londres: Harrison, 1911-26), vol. I, 1-14; Colin Dyer, William Preston and his Work (Shepperton: Lewis Masonic, 1987), 67

[81] -Por ejemplo, en el Applebee’s Weekly Journal del 6 de agosto de 1720. Véase Francis Doherty, A Study in Eighteenth-Century Advertising Methods: The Anodyne Necklace (Lampeter: Edwin Mellen Press, 1992), 349-50.

[82] – London Daily Post and General Advertiser, 11 de junio de 1741

[83] – Evening Post, 9-11 de julio de 1719. Jonathan Sisson fue un fabricante de instrumentos para astronomía, navegación e ingeniería, inventó el teodolito moderno (N. Del T.).

[84] – W. Wonnacott, ‘The Lodge at the Goose and Gridiron’, AQC 25 (1912), 168.

[85] – Sobre Waldegrave, véase Berman, Foundations, 148-150; sobre Hotham, véase E. Cruickshanks e I. McGrath, “Hotham, Sir Charles, 4th Bt”, en The History of Parliament: the House of Commons 1690-1715, eds. Eveline Cruickshanks, Stuart Handley y D. W. Hayton (Londres: History of Parliament Trust, 2002 [citado el 2 de agosto de 2016]): disponible en http://www.historyofparliamentonline.org/volume/1690- 1715/member/hotham-sir-charles-1663-1723

[86] –La logia en Queen’s Arms fue famosa posteriormente por el patronazgo del Dr. Johnson, de Boswell y de Garrick. En la década de 1720 también se le conocía como King’s Arms, pero por cuestiones de consistencia aquí usaremos el nombre más usual y conocido de Queen’s Arms.

[87] – “England Births and Christenings, 1538-1975”. Genealogical Society of Utah, Salt Lake City, FHL microfilm 370933.

[88] – Sobre Hinchingbroke, véase E. Cruickshanks y S. Handley, “Montagu, Edward Richard, Visct. Hinchingbrooke”, en The History of Parliament [citado el 5 de mayo de 2017]: disponible en http://www.historyofparliamentonline.org/volume/1690-1715/member/montagu-edward-richard-1692-1722; Berman, Foundations, 135.

[89] – Berman, Foundations, 143.

[90] – R. Sedgwick, “Oxenden, Sir George, 5th Bt”, en The History of Parliament [citado el 5 de mayo de 2017]: disponible en http://www.historyofparliamentonline.org/volume/1715-1754/member/oxenden-sirgeorge-1694-1775

[91] – S. Matthews, “Rich, Sir Robert, 4th Bt”, en The History of Parliament [citado el 5 de mayo de 2017]: disponible en http://www.historyofparliamentonline.org/volume/1715-1754/member/rich-sir-robert-1685-1768; Sommers, “Dunwich: the Acquisition and Maintenance of a Borough”, en Proceedings of the Suffolk Institute of Archaeology and History 38 (1995): 317-318; Berman, Foundations, 127-128.

[92] – A. Newman, “Cope, John”, en The History of Parliament [citado el 5 de mayo de 2017]: disponible en
http://www.historyofparliamentonline.org/volume/1715-1754/member/cope-john-1690-1760

[93] – Robbins, “Earliest Years”, 68.

[94] – Wonnacott, “Goose and Gridiron”, 171. Es probable que no haya habido rituales durante la cena del 24 de junio de 1721, por lo que tal vez ni Wharton ni nadie más haya sido iniciado en esa fecha

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