Afinal, somos pedreiros ou cavaleiros andantes?

Dom Quixote - Resumo, Autor e Análise - Arena Marcas e Patentes

Sr. e Ir.,

Estou envergonhado que sua gentil carta tenha ficado tanto tempo sem resposta, mas espero que você me desculpe quando eu lhe asseguro que não foi devido a negligência ou desrespeito, mas a falta de oportunidade para me satisfazer em alguns pontos, relacionados com a variedade de Maçonaria, que você menciona sob o nome de Maçonaria Escocesa.

Eu estava determinado a consultar nossos Irmãos na Escócia, particularmente nosso Irmão, Lord Aberdour, que é filho e herdeiro do Conde de Morton, e um excelente maçom; como tal, ele ocupou a presidência na Escócia, e sua senhoria agora foi eleito Grão-Mestre na Inglaterra, com a renúncia do Marquês de Carnarvan.

Lord Aberdour e todos os maçons escoceses (ou melhor, cavalheiros escoceses que são maçons) com os quais conversei, e fiz questão de consultar muitos, não conhecem nada sobre as formas e títulos que você menciona, e que você chama justamente a fraude de Maçonaria. Entre alguns dos nossos irmãos de mais baixo extrato, eu encontrei, e muitas vezes ouvi falar de irregularidades; como eu as chamo justamente, porque se desviam tanto de nossas cerimônias usuais, e são tão cheias de inovações, que no processo do Tempo, os antigos Landmarks serão destruídos pelo fértil gênio de Irmãos que melhorarão ou alterarão, se apenas para dar espécie às suas habilidades, e consequência imaginária; de modo que, em poucos anos, será tão difícil entender a Maçonaria, quanto distinguir os pontos ou acentos da língua hebraica ou grega, agora quase obscurecidos pela indústria de críticos e comentaristas.

Três cavalheiros estrangeiros e maçons visitaram recentemente a loja à qual pertenço, e foram apresentados por mim à Grande Loja e à Grande Festa; ao discorrer com esses cavalheiros, eu descubro que em alguns lugares da Alemanha, Holanda e Suíça, existem Ordens de Maçons desconhecidas para nós, a saber, Cavaleiros da Espada, da Águia, da Terra Santa com uma longa série de et caeteras; certamente esses pontos de Maçonaria devem ser maravilhosos; estou certo de que são muito novos; além disso, estas dignas e distintas ordens, eu descubro, têm sinais, toques, etc., peculiares às suas respectivas Dignidades, e enfeitam-se com diferentes fitas coloridas.

Eu ficarei feliz com sua assistência e a ajuda dos Irmãos na Holanda, para resolver estes intrincados e confusos pontos, e gostaria de saber (especialmente dos Irmãos que se distinguem pela denominação de Maçons Escoceses) de onde receberam sua constituição, o Grão-Mestre da Escócia, que eu presumo que eles reconheçam o chefe de sua sociedade, não conhecendo inteiramente a Ordem deles: A Lord Aberdour e vários outros nobres escoceses e cavalheiros que são bons maçons, comuniquei sua carta, e também a informação que recebi desses Irmãos estrangeiros, um dos quais era um oficial no serviço holandês; mas, considerando as mais rigorosas pesquisas que pude fazer, só posso dizer que eles exercitaram sua genialidade com esforços para tornar a Maçonaria ininteligível e inútil.

Essas inovações são de anos muito antigos, e acredito que os Irmãos encontrarão dificuldade para produzir um Maçom familiarizado com tais formas há vinte ou até mesmo dez anos atrás. Meu próprio pai tem sido um maçom nestes últimos cinquenta anos e esteve em Lojas na Holanda, na França e na Inglaterra. Ele não conhece nenhuma dessas cerimônias: Elas são estranhas para o Grão-Mestre Payn, que sucedeu ao Sr. Christopher Wren, bem como também para um velho Irmão de noventa anos, com quem conversei ultimamente; este Irmão me assegura que ele foi iniciado maçom na sua juventude e frequentemente frequentou Lojas até se tornar incapaz por sua idade avançada, e ele nunca ouviu ou conheceu quaisquer outras cerimônias ou palavras, diferentes das que usamos em geral entre nós; tais formas foram entregues a ele, e aquelas ele reteve. Quanto aos Cavaleiros da Espada, Águia, etc., o conhecimento deles nunca alcançou seus ouvidos, até que eu o informasse. As únicas ordens que conhecemos são três, Mestres, Companheiros e Aprendizes, e nenhuma delas chegou à honra de cavalaria pela Maçonaria; e eu acredito que você mal pode imaginar que, em tempos antigos, a dignidade da Cavalaria florescesse entre os Maçons; cujas lojas até agora consistiram de maçons operativos e não maçons especulativos. Cavaleiros da Águia, Cavaleiros da Espada, eu li em romances, o próprio grande Dom Quixote foi feito Cavaleiro do Capacete de Bronze, quando ele venceu o barbeiro. Cavaleiros da Terra Santa, São João de Jerusalém, Templários, etc., existiram, e acredito que agora existem os Cavaleiros de Malta, mas o que é isso para a Maçonaria? Nunca ouvi dizer que essas Ordens ou Honras foram obtidas por habilidade em Maçonaria, ou que elas pertenceram à Fraternidade dos Maçons, embora eu não duvide que pertençam agora, e existem muitos maçons membros dignos de suas Ordens & Honras, mas imagino que eles não pensam que obtiveram tais títulos apenas na Maçonaria.

Benevolência universal, amor fraternal, amizade e Verdade, agir pelo esquadro e viver dentro do compasso, são ou deveriam ser, os princípios da Maçonaria, a Regra & Guia de nossas ações. Sejamos bons maçons, podemos olhar com desprezo para outras Honras ou Títulos, está em todo o tempo em nosso poder ser bons maçons, e eu acho que devemos nos contentar e não procurar os campos aéreos de romance para títulos adicionais. Usar nosso maior esforço, caro Irmão, para evitar que uma sociedade realmente valiosa degenere e se perca em obscuridade, visando títulos, aos quais a própria natureza de nossa sociedade não pode nos dar um direito.

A única distinção de Fitas ou Joias, que fazemos em nossas Lojas, você encontrará em nosso Livro de Constituições, a saber, Grandes Oficiais usam suas joias douradas, pendentes em fitas azuis, e seus aventais revestidos de azul; aqueles Irmãos que serviram no cargo de Mordomo em nossa Grande Festa (dentre os quais devem ser eleitos todos Grandes Oficiais, exceto o Grão-Mestre) usam suas Joias de Prata sobre fitas vermelhas, e revestem seus aventais com vermelho; todos os outros irmãos usam aventais brancos e seus pingentes de joias em fitas brancas, e não devem usar outras joias além do esquadro o nível e o prumo, o Compasso pertencendo apenas ao Grão-Mestre.

Se o Mestre da Loja está ausente, o Mestre Instalado (Past-Master), ou o Primeiro Vigilante da Loja, o substituem, assim como os Regulamentos privados dessa Loja determinem.

Nossos brindes em loja são, primeiro ao Rei e à Maçonaria, com 3 vezes 3. O segundo ao Grão-Mestre, com 3 vezes 3, ao G.M.A. e GG. VV. com 3; seguir bebemos ao Ex-G.M., Irmãos estrangeiros de Distinção por Nome, tais como o Imperador, Rei da Prússia, etc., depois disso, o Brinde Geral da Maçonaria.

O Marquês de Carnarvon renunciou à Presidência em favor de Lord Aberdour, que agora é o G.M., e nosso digno Ir. Revis, G. M. A., mas tenho permissão para assinar esta Carta como G.M.A., e se você nos favorecer com uma Linha, siga o mesmo método usado antes pelo secretário do Sr. Hopp, que transmitirá suas ordens a mim, e cuidarei para que elas sejam devidamente cumpridas.

O antigo e o presente G.M. desejam seus Respeitos a nossos Irmãos por favor, aceite também os Respeitos do Dr. Sr. e Ir.

Seu mais afetuoso Ir. e obediente humilde servo

T. Manningham, G.M.A.

Jermyn Street, 12 de Julho de 1757.

Carta do Grão-Mestre Adjunto da Grande Loja de Londres, Dr. Manningham ao Irmão Sauer em Haia, respondendo a uma consulta sobre a Maçonaria Escocesa, que era uma novidade no Continente.

Tradução: José Filardo

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Investigando a visita de Desaguliers a Loja Mary’s Chapel Nº1

Mary's Chapel - a loja maçónica mais antiga do mundo - Freemason.pt

Considerado o Pai da Maçonaria Especulativa Moderna, um dos fundadores e terceiro Grão-Mestre da Grande Loja de Londres, John Theophilus Desaguliers, fez uma viagem a Edimburgo em 1721, onde foi recebido como irmão em uma loja Escocesa. Desde então, rios de tinta foram utilizados para tentar explicar as razões para tal visita.

1 – Desaguliers foi um cientista e engenheiro. Ele foi contratado para inspecionar e melhorar o sistema de abastecimento de água de Edimburgo. A viagem foi apenas para isso?

2 – Ele foi recebido na Loja Mary´s Chapel e aceito como um irmão Maçom. Então, a Maçonaria Inglesa e a Escocesa compartilhavam as formas de reconhecimento?

3 – Ele participou da incorporação de funcionários do governo da cidade que o havia contratado. Foi por causa de sua influência?

4 – O terceiro grau, de mestre maçom, ainda não existia ou era uma criação recente. Ele viajou para a Escócia afim de promovê-lo?

Todas estas questões ainda não foram esclarecidas, mas vamos analisar as informações que temos conhecimento.

A situação na Escócia no início do século 18

Antes de falarmos sobre o dia 24 de agosto de 1721, vamos entender como estava a Escócia naquele momento.

Habitada por cerca de um milhão de habitantes contra 5 milhões da Inglaterra, seu rendimento nacional era da ordem de 1/38 da Inglaterra, com uma população predominantemente rural. Edimburgo, a maior cidade da Escócia tinha cerca de 30 mil habitantes, que era o nível de muitas cidades do interior da Inglaterra. Glasgow, a segunda maior cidade do país, não tinha mais do que 15 mil habitantes e Aberdeen, Dundee, Perth e St. Andrews eram apenas aldeias de 4 a 5 mil habitantes.

A situação econômica da Escócia era catastrófica. Os anos de 1692 a 1699, chamados de “os sete anos malditos do Rei Guillermo”, foram dramáticos:

Os invernos rigorosos se sucediam com muita chuva e dando lugar a fome.

“…Pode se ver homens e mulheres caírem de fome ao longo de estradas e caminhos, crianças que morrem por esgotamento do leite de suas mães. A morte está presente, principalmente entre os pobres (…)”

A higiene era deplorável. Somente uma rua de Edimburgo era pavimentada e epidemias não paravam de castigar a população.

Consequência imediata desta fome foi a imigração para os Estados Unidos, a maior influência sobre a demografia. Estima-se em 100 mil o número total de escoceses expatriados no curso do século 17.

As importações oriundas da Inglaterra eram quase inexistentes. E os escoceses não tinham acesso aos mercados administrados por colônias inglesas. Esse bloqueio, se não o isolamento, os incentivou a embarcar na aventura da colonização.

William Patterson, nascido em 1658, era rico. Ele fez uma fortuna na América e na Índia. Voltou para a Escócia e anunciou um projeto de colonização no Istmo de Darien, o que corresponde hoje ao Panamá.

A ideia do projeto era fazer comércio terrestre entre mercados marítimos do Atlântico e do Pacífico. Ele criou em Edimburgo a “Company of Scotland Trading to Africa and the Indies” (Companhia de Comércio Escocês para a África e as Índias) e vendo isso como uma tentativa de competir com a Companhia das Índias Orientais (East India Company), os escoceses o financiaram, afim de forçar os holandeses a se retirarem.

Patterson criou tanto entusiasmo, que milhares de escoceses participaram para financiar o projeto, somando um total de 400.000 libras, que era estimativamente, a metade do capital nacional da Escócia. Então, em 12 de julho de 1698, cerca de 1.200 voluntários deixaram o porto.

Em 02 de novembro de 1698, desembarcaram em um lugar que eles batizaram como Nova Caledônia. Mas eles não encontraram nada mais do que uma terra inóspita, formada principalmente de pântanos e terra estéril. Ao mesmo tempo, um segundo contingente de cerca de 1.300 colonos partia da Escócia. Sob pressão dos espanhóis, os colonos decidiram deixar o Istmo de Darien. Dos 16 navios que partiram, só restava 1. Mais de 2000 escoceses morreram na aventura e muitos mais foram arruinados.

Assim, nesta situação econômica, demográfica e social, catastrófica, o Parlamento ratificou em 16 de janeiro de 1701, o Ato de União com a Inglaterra por 110 votos a 69.

Este ato estava longe de contar com a unanimidade. Robert Burns disse sobre os deputados escoceses:

“Eles são comprados e vendidos em ouro Inglês”.

A população começou a promover tumultos e protestos, por uma maioria que estava contra a união, “contra a natureza”, depois de tantos anos.

E nesse clima tenso (como sempre), novamente entre a Inglaterra e a Escócia, é que a viagem de John Theophilus Desaguliers acontece.

Não sabemos quase nada da Grande Loja de Londres em 1721, e se deve principalmente à queima dos arquivos em 1722. De 1717 a 1722, portanto, não existem arquivos ou certezas.

Sabe-se que deste tempo, James Anderson reescreveu, a partir de sua memória, as atas dos primeiros cinco anos da Grande Loja de Londres. Mas podemos atribuir crédito?

James Anderson diz, por exemplo, que na formação de 1717, Anthony Sayer foi eleito, afim de esperar por um nobre para ocupar este cargo.

Foi real o que ele disse e decidiu ou apenas um elogio para o Duque de Montagu, eleito em 1721 ou para o Duque de Wharton em 1722?

Em 1722, John Theophilus Desaguliers deixou seu cargo de Grão-Mestre. E foi Grão-Mestre Adjunto em 1723. Qual foi o seu papel, a sua ação dentro da Grande Loja?

Sabemos que ele encomendou a James Anderson, cuja principal ocupação era criar genealogias, escrever a história do ofício.

Sabemos também que muitas personalidades, notáveis do mundo científico e da aristocracia, entraram na Maçonaria neste período.

Devemos lembrar que das quatro lojas que compuseram a Grande Loja de Londres, presume-se que três foram criadas para a ocasião. Em 1722 já haviam 24 lojas, demonstrando o crescimento significativo da Grande Loja em suas origens.

É atribuído a John Theophilus Desaguliers um papel muito importante no recrutamento desta época e, em especial, o Duque de Montagu. É verdade que Desaguliers tinha muitas relações com pessoas importantes.

É evidente que, quando não estava ocupando um posto importante na Grande Loja, Desaguliers continuava bem ativo.

A situação da loja Mary’s Chapel

A situação da loja Mary’s Chapel era muito diferente. Em primeiro lugar ela enfrentava uma nova “concorrência”.

Vamos ler o que Stevenson disse:

“… justamente no final do século 17, havia na área urbana uma única loja sob o controle da cidade de Edimburgo, embora os maçons de Canongate pertencessem a outra loja, a de Aitchison Haven.” (Canongate é um distrito de Edimburgo)

Na segunda década do século 18, haviam cerca de quatro lojas na área, duas das três novas, tinham sido fundadas para desafiar a Mary´s Chapel.

Em 1667, os maçons de Canongate, onde a jurisdição da Mary´s Chapel não era aplicável, fundaram a sua própria loja, e em 1688 os maçons de Leith os imitaram. Em 1708, houve um grave conflito dentro da Loja Mary´s Chapel, que levou inúmeros companheiros a saírem da loja e fundarem sua própria organização, que se tornou uma loja separada.

Longe de ser a “Primeira loja” da Escócia, no sentido de exercer alguma autoridade sobre outras lojas no país, como William Schaw tinha planejado um século antes, a Loja de Edimburgo não poderia impor sua vontade ou suas próprias portas!

O outro ponto importante da situação da Loja Mary´s Chapel, é o momento da visita de John Theophilus Desaguliers, sobre o recrutamento dos não operativos.

Entre 1630 e 1674, ele tinha começado lentamente um trabalho com os não operativos que eram iniciados.

E assim, por vinte e cinco anos, cerca de 1700, mas especialmente em 1706, aparecem entre os outros como admitidos, Samuel Mc Clellan (Lorde Maior de Edimburgo) e reitor da Guilda. Em 1710 se vê uma grande admissão de não-operativos, cirurgiões, arquitetos, reitores de guildas, e etc. Dois carpinteiros também foram admitidos em 1711. Entre 1700 e 1710 a Loja Mary´s Chapel claramente transformou a “Aceitação”, fato que antes não havia nenhum interesse.

A estadia em Edimburgo

Nós não conseguimos encontrar qualquer vestígio da partida de Desaguliers de Londres para Edimburgo. No entanto, as “Atas do Conselho da Cidade” de Edimburgo dizem que Desaguliers foi recebido como um burguês da cidade, “Irmão de Guilda” na forma mais ampla e livre, pelo reitor da Guilda de Edimburgo, em 18 de janeiro 1721.

Isto levanta a seguinte questão: John Theophilus Desaguliers voltou a Londres para assistir à instalação do Duque de Montagu em 24 de junho 1721 e voltou para Edimburgo depois?

O que é certo, é que ele foi chamado pela cidade para resolver um problema de canalização de água do aqueduto de Comiston. Um aqueduto com o comprimento de três milhas, que alimentava o reservatório de água por gravidade natural, ligado a cinco fontes situadas na cidade.

Como o fluxo de água parou, Desaguliers se viu com verdadeiro problema: as bolsas de ar que bloqueavam a circulação da água. A história oficial diz que Desaguliers resolveu o problema colocando uma válvula que permitia a evacuação do ar de forma manual e em 1726 criou um tipo de êmbolo que funcionava automaticamente.

24 de agosto de 1721

O que Desaguliers fez durante esse mês em Edimburgo, ninguém sabe. Só que em 24 de agosto de 1721, está escrito na ata da Mary´s Chapel:

“James Wattson, Diácono dos maçons de Edimburgo, presidiu. O dito Dr. John Theophilus Desaguliers, Companheiro da Royal Society e Capelão ordinário da Sua Graça, James Duque de Chandois, o último Mestre Geral das Lojas Maçônicas na Inglaterra, estando na cidade e desejoso de realizar uma reunião com o Diácono, o Vigilante e os Mestres Maçons de Edimburgo, o que lhe foi autorizado e ele se encontrando devidamente qualificado em todos os pontos da Maçonaria, foi recebido como um Irmão da Sociedade”.

Muitas observações vêm à mente com a leitura desta ata. 

O primeiro ponto diz respeito ao título que é dado a John Theophilus Desaguliers. Um Companheiro da Royal Society em primeiro lugar, por isso, o mais prestigioso.

Em seguida, o título que garante sua renda constante: Capelão para o Duque de Chandois. E no final o título de “Último Mestre Geral da Lojas Maçônicas da Inglaterra” (Grão-Mestre dos Maçons) até junho de 1721.

Mas o secretário de Mary´s Chapel não o chamou de Grão-Mestre, mas de Mestre Geral da Lojas Maçônicas da Inglaterra, o que não é o mesmo.

Alguns viram nisso uma vontade escocesa de não vai reconhecer a Grande Loja de Londres e, portanto, como um sinal de desconfiança, pelo menos.

Mas olhando bem, o título dado a John Theophilus Desaguliers foi ainda de mais prestígio, pois conferiu-lhe autoridade sobre todas as lojas maçônicas da Inglaterra.

Podemos propor as seguintes perguntas:

  • De onde veio tal título?
  • É uma certa desconfiança em relação à Grande Loja de Londres?
  • É, pelo contrário, um reconhecimento lisonjeiro por parte dos membros da Mary´s Chapel?
  • Será o título que Desaguliers dava a si mesmo?
  • Ou poderia ser que ele apresentou a Grande Loja de Londres como a organização que reagrupou e tomou autoridade sobre todas as lojas maçônicas inglesas?

O segundo ponto diz respeito a frase “desejoso de realizar uma reunião”.

A frase é clara: Desaguliers pediu para se encontrar com membros da Mary´s Chapel e é de se notar que não estava pedindo para ser admitido na loja. Ele só queria uma reunião. Vamos voltar mais tarde a este assunto.

O terceiro ponto diz respeito à passagem: “ele se encontrando devidamente qualificado em todos os pontos da Maçonaria”. Sabemos que essa expressão é tipicamente escocesa, mas não sabemos a que isso se refere. Em outras palavras, quais são os pontos da Maçonaria? É a Palavra do Maçom? É o conhecimento da abertura e fechamento da loja? É o conhecimento dos rituais de cerimônias de iniciação e passagem para o grau de “Companheiro”?

A expressão contém seus mistérios. De todo modo, ela está presente na ata da Mary´s Chapel.

De fato, a única razão plausível para Desaguliers ter respondido corretamente o telhamento dos membros da Mary´s Chapel, é que os rituais praticados em Edimburgo e em Londres, eram muito semelhantes. Qualquer outra explicação não refletirá a realidade do que aconteceu.

Mesmo atualmente, nossas atas contém expressões tradicionais que não correspondem em absoluto com o que é a realidade.

Um exame mais detalhado da ata da Mary´s Chapel, demonstraria se a expressão era utilizada toda vez que um visitante era telhado.

Quarto e último ponto: “foi recebido como um Irmão da Sociedade”. Essa passagem levou a numerosas interpretações devido à ambiguidade do texto. De fato, como no francês, o verbo “receber” poderia ser usado tanto para indicar a recepção em uma reunião, assim como ser recebido como membro da loja também.

Lembre-se que Desaguliers tinha pedido uma reunião, mas não ser recebido em loja.

A ata da loja relacionada com as suas reuniões oficiais, diz que Desaguliers foi recebido como um irmão.

Stevenson e Murray Lyon consideravam que Desaguliers se tornou um membro da Loja Mary´s Chapel. Pode até ser, mas nenhuma expressão indica este fato. Contudo pode-se pensar que ao ser telhado, ele foi considerado um maçom, e, consequentemente, um irmão, mas não um membro da loja.

Há um elemento que parece dar razão a Stevenson e Murray Lyon. De fato, podemos constatar nas atas posteriores da Mary´s Chapel que os visitantes são chamados assim, mas não os irmãos da loja. Além disso, o telhamento não é mencionado, e parece que, por ocasião da visita do Desaguliers, o que foi feito foi algo extraordinário em todos os sentidos do termo.

O 25 e 28 de agosto de 1721

Continuando a leitura das atas da Mary´s Chapel, com os acontecimentos após o dia 24 de agosto de 1721:

“… no dia 25 deste mês, Diáconos, Vigilante, Mestres e muitos outros membros da Sociedade, reuniram-se com o dito Dr. Desaguliers que estava na Mary´s Chapel, onde um pedido foi apresentado por John Campbell, Lorde Maior de Edimburgo; George Preston e Hugo Hathom, oficiais de justiça; James Nemo, tesoureiro; William Livingston, Reitor Secretário de Negócios; e George Irving, Secretário do Reitor do Tribunal da Guilda; e desejando forte e humildemente serem admitidos para a referida Sociedade; e sendo considerado por eles, nesse sentido, responderam favoravelmente ao seu desejo e essas pessoas honrosas foram admitidas e recebidos Aprendizes Ingressados e Companheiro do Ofício”.

Na ata seguinte, de 28 de agosto 1721, apenas três dias depois:

“Ainda assim, no dia 28 do mesmo mês e por uma reivindicação feita por Sir Duncan Campbell de Loghnell, Barão; Monsieur Robert Wightman, atual Reitor da Guilda de Edimburgo; Monsieur Gorge Drummond, último Tesoureiro da mesma; Archibald Mac Aulay, último Conselheiro municipal e Patrick Lindsay, comerciante; desejando o mesmo favor, que lhes foi aceito e foram recebidos como membros da Sociedade, como as outras pessoas mencionadas. No mesmo dia, James Key e Thomas Aikman, servidores de James Wattson, Diácono dos maçons, foram admitidos e recebidos Aprendizes Ingressados, pagando a James Mack os direitos comuns”.

Vamos analisar este texto. Primeiro de tudo, a presença de John Theophilus Desaguliers não é expressamente atestada assim como em 25 agosto de 1721, durante sua primeira visita.

Embora em 28 de agosto se estipule o que aconteceu assim como em 24 de agosto, isso não inclui a presença de Desaguliers.

A questão de saber o porque ele estava presente no dia 24 de agosto e não no dia 28, me parece conveniente, estudar que eram as pessoas iniciadas naqueles dias.

Nota-se que em 24 de agosto de 1721 foram iniciados o Lorde Maior (prefeito), o Tesoureiro da cidade, 2 Oficiais de justiça, um representante dos comerciantes, todos da cidade. Em suma, os empregadores de John Theophilus Desaguliers em Edimburgo, que haviam lhe encomendado o trabalho e pago por eles.

Então, é bastante natural que Desaguliers estivesse presente nas suas iniciações. Em vez disso, no dia 28 agosto de 1721, eram essencialmente pessoas da Guilda, que foram recebidos. Não se pode dizer que a ausência de John Theophilus Desaguliers tivera sentido em 28 de agosto, no entanto em 24 de agosto, sim, tinha sentido.

Só mais uma observação: dois servidores foram iniciados em 28 de agosto de 1721, o que poderíamos supor que havia um desejo de expansão social dos membros da loja.

No entanto, estes dois servidores não serviam ninguém menos que o Diácono dos maçons, que poderia ser um membro da Loja. Deste modo, uma revisão cuidadosa das atas da Mary´s Chapel, poderia nos dizer algo.

Podemos notar que foram iniciados, mas não se tornaram Companheiros do Ofício e ainda foram os únicos que pagaram por seus direitos. Esse ponto parece revelar um detalhe da sociedade da época.

Pode ser que as personalidades recebidas na Mary´s Chapel, o haviam sido por agradecimento (por exemplo, por ter contratado John Theophilus Desaguliers) ou porque era uma honra para a Loja, ter celebridades. Também pode-se dizer que a cortesia mais elementar, exigia que nunca falassem sobre questões monetárias com pessoas de posição, mas você poderia fazer quando se tratava de servidores.

Seguindo Murray Lyon, vamos conhecer quem foram os 13 personagens iniciados em 25 e 28 de agosto de 1721:

John Campbell, iniciado em 25 de agosto de 1721, foi o Lorde Mayor (Prefeito) de Edimburgo entre 1715 e 1720 e novamente entre 1723 e 1724. Campbell era conhecido por sua ação dentro da cidade, pois permaneceu leal ao governo durante a rebelião de 1715.

Archibald Mac Aulay, iniciado em 28 de agosto de 1721, também foi Lorde Mayor (Prefeito) de Edimburgo entre 1727 e 1749. Mais tarde, ele se tornou Lorde Conservador dos privilégios escoceses em Cámpvere. Lorde Conservador tem a função de gerenciar uma área pública do País, proteger os direitos dos plebeus e conservar a beleza natural da sua área.

Campvere, que antes chamava Veere, é uma cidade dos Países Baixos. Pelo casamento do Lorde de Veere com a filha de James I da Escócia, em 1444, a cidade recebeu como um privilégio, ser a única cidade onde poderiam ser recolhidos produtos escoceses para ser vendidos a outras regiões. Escoceses que viviam em Veere foram sujeitos apenas à lei do “Conservador da nação escocesa”. Tal privilégio foi removido em 1847.

Patrick Lindsay, iniciado em 28 de agosto de 1721, era um comerciante muito conhecido, foi eleito quatro vezes como Prefeito de Edimburgo e representou a cidade no parlamento, entre 1734 a 1741. Foi também governador de Isle of Man, uma ilha localizada entre a Irlanda e a Grã-Bretanha.

Sir Duncan Campbell, iniciado em 28 de agosto de 1721, foi o descendente direto do terceiro Conde de Argyll, mas, sobretudo, um amigo pessoal e conselheiro da rainha Anne. No funeral de seu pai, em 10 de janeiro de 1714, foi uma ocasião de uma manifestação importante, a favor dos Stuarts exilados. Diz-se que este enterro foi realizado na presença de 2.500 homens armados. Sir Duncan Campbell tornou-se capitão de um dos seis regimentos independentes, formados pelo governo em 1729. Esses regimentos foram apelidados de “Os sentinelas negros”. O primeiro coronel dos “Sentinelas Negros” foi John, Conde de Crawford e membro da Loja Mary´s Chapel.

Portanto temos, um nobre, amigo pessoal e conselheiro da rainha Anne, três prefeitos da cidade de Edimburgo, três oficiais de justiça, o tesoureiro da cidade, o Reitor da guilda, o secretário do ex-Reitor e do Reitor do Tribunal da Guilda, o responsável pelos negócios. E todos se tornaram membros da loja Mary´s Chapel em quatro dias.

Difícil fazer melhor, não? E tudo isso durante a visita de John Theophilus Desaguliers; a coincidência é pelo menos motivo de estudo.

Resumo

Tendo visto o contexto geral e estudado da forma mais objetiva possível ata da Loja Mary´s Chapel para os dias 24,25 e 28 de agosto de 1721, é hora de tentar sintetizar o que sabemos ou podemos supor, de tais fatos, e as consequências da visita de Desaguliers a esta Loja Escocesa.

Com os elementos reunidos, que estão em nossa posse, a maioria das suposições são plausíveis e, em todo caso, não se contradizem com os textos da época.

Por exemplo, não sabemos o real propósito da viagem de Desaguliers para Edimburgo. Se era puramente profissional ou puramente maçônico. Se foi para lucro ou prazer. Não sabemos mais nada de sua presença em Edimburgo. De acordo com AQC (Ars Quatuor Coronatorum), ele estava lá, em janeiro de 1721, para uma reunião com o prefeito de Edimburgo. É razoável pensar que era por razões profissionais, para o problema hidráulico, mas parece que durante o verão, ele fez várias visitas a Edimburgo.

Mas será que ele não estava presente na instalação do Duque de Montagu, na Grande Loja de Londres, em 24 de junho?

Será que viajou de volta, mesmo sabendo que levaria quatro ou cinco dias para ir de Londres a Edimburgo?

Que contatos ele fez em Edimburgo, antes de 24 de agosto de 1721?

É difícil imaginar que Desaguliers apareceu na porta da Mary´s Chapel, anunciando que 11 membros eminentes da cidade queriam ser iniciados na Maçonaria. É mais provável que os contatos haviam ocorrido muito antes disso.

É certo que Desaguliers conheceu seus empregadores antes de agosto de 1721. É também provável que ele também manteve contatos anteriores com membros da guilda ou da Loja.

O fato é que Desaguliers pediu uma reunião oficial com membros da Mary´s Chapel. Na verdade, é nesse momento que Desaguliers pediu a James Anderson para reescrever a história do Craft, que os maçons da época não sabiam quase nada, de modo que qualquer informação sobre as origens escocesas era importante. Será que a escolha de Anderson foi porque seu pai tinha sido um membro da Loja Aberdeen, na Escócia?

Alguns historiadores argumentam que John Theophilus Desaguliers veio com rituais puramente ingleses para que as lojas escocesas os adotassem, em um tipo de demonstração, que teria ocorrido em 02 de agosto de 1721.

Esta tese não é de forma unânime e mostra aqui que durante os primeiros três anos, a Maçonaria Escocesa pode ter influenciado a Inglesa, pelo menos no início. O mais provável é que John Theophilus Desaguliers não viajou com o propósito de iniciar personalidades importantes.

Desaguliers tinha conhecimento dos membros importantes do Conselho, os contatos com as cortes aristocráticas poderiam ser de interesse da Loja Mary´s Chapel. Foi sem interesse que Desaguliers apresentou estes candidatos a Loja? Ou era, uma troca de favores?

Outra hipótese da coincidência: Desaguliers iria visitar os membros da Mary´s Chapel e relatou que seus empregadores queriam ser iniciados.

Eles querem se juntar a nós? …. Então temos que verificar se Sois Maçom… (O que foi verificado, de acordo com a ata).

Conclusão

Muitas das perguntas realizadas durante a confecção deste texto, não foram elucidadas. Nós propomos desde a introdução, tentar responder à questão da visita de Desaguliers a Edimburgo: Viajou para contribuir com algo ou para levar algo a esta loja?

Na primeira parte da questão, parece muito provável que Desaguliers beneficiou a Loja Mary´s Chapel com suas relações, ajudando o ingresso de personalidades, coisa que durante anos a loja tentou fazer.

Quanto à possibilidade de que Desaguliers pudesse ter introduzido o terceiro grau na Escócia durante a sua visita, não parece ter lógica, pois a história nos diz que esse grau não foi praticado na Mary´s Chapel, antes de 1738, ou seja, 17 anos após a visita de Desaguliers e dois anos após a criação da Grande Loja da Escócia.

Como naquele tempo, Desaguliers estava escrevendo a história da Maçonaria, e para dar crédito a Grande Loja de Londres, qualquer informação que pudesse enriquecê-lo, certamente interessaria Desaguliers. Por exemplo, a semelhança entre os rituais escoceses e ingleses da época.

O assunto é complexo e exige não apenas conhecimento histórico e maçônico. Acredito que um estudo mais apurado sobre as condições da criação da Grande Loja da Escócia em 1736, nos trará luz sobre as ações de John Theophilus Desaguliers.

Autor: Luciano R. Rodrigues

Fonte: O Prumo de Hiram

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Referências

R. Dachez – Renaissance Traditionnelle, n°83, 1990.

W. Ferguson – Scotland, 1689 to the present.

M. Duchein – Histoire de l’Ecosse.

D. Stevenson – Les premiers Francs-Maçons.

City Council Minutes (Transactions of Quator Coronati Lodge, vol 111 & 112).

A.W. Skempton – A biographical dictionary of civil engineers in Great Britain and Ireland.

David Murray Lyon – History of the Lodge of Edinburgh, Mary’s Chapel n°1.

The Builder Magazine, vol 14, 1928.

Texto de François Delaporte – Loge d’études et de recherches William Preston – 2008

Maçonaria moderna: o legado escocês – Parte II

The Freemasons Hall, home of The United Grand Lodge of England: Uncovering  a few hidden treasures | Masonic lodge, Masonic, Freemason

Segundo Stevenson (2009), referindo-se à maçonaria na Escócia, “já em meados do século XVII, podem ser detectados nas Lojas ideais semelhantes, em muitos aspectos, aos da maçonaria moderna, além de um significativo número de homens que não eram pedreiros sendo admitidos nelas”. Estendendo-se até século XVIII, afirma que “uma das funções básicas de muitas Lojas era regulamentar a vida profissional dos pedreiros livres”.

Vale destacar que, já em 1600, registrou-se o ingresso de Sir John Boswell, iniciado na Loja Capela de Santa Maria em Edimburgo na Escócia, considerado um dos primeiros maçons “não operativos” ou “aceitos” conhecidos. Registre-se que, até o Tratado da União de 1707, que criou o Reino da Grã-Bretanha, a Escócia era um país considerado inimigo da Inglaterra. Outro renomado iniciado foi Elias Ashmole (1617-1692), antiquário, político, oficial de armas, estudante de astrologia e alquimia britânico, recebido em uma confraria dos obreiros maçons em 1646, em Warrington (condado de Lancashire/Inglaterra), pertencente ao grupo de cientistas e livres pensadores que mais tarde fizeram parte da Sociedade Real de Londres (Royal Society), que nenhuma relação tinha com a Maçonaria.

Destaca Benimeli (2007), jesuíta e historiador não maçônico, que na Escócia, “em 1670, na Loja de Aberdeen, três quartos de seus 40 afiliados eram advogados, médicos e comerciantes. Exatamente nessa Loja já existia a distinção entre os construtores de edifícios e aqueles que se de dedicavam às especulações sobre geometria”.

O período de transição entre a Maçonaria Operativa e Especulativa teve mais consistência entre 1660 e 1716, segundo o historiador alemão Findel (citado por Benimeli, 2007), época de distúrbios civis. Transcorridos 117 anos desde a afluência dos “aceitos”, não mais atuava a força operativa que dera origem àquelas organizações, passando os associados à condição de especulativos, com os encargos das atividades operativas deixadas aos cuidados dos sindicatos e partidos políticos.

Por sua vez, Stevenson (2009), argumenta que evidências do século XVII relacionadas ao desenvolvimento da Maçonaria são abundantes na Escócia e quase inexistentes na Inglaterra. Afirma que em Lojas na Inglaterra, desde a década de 1640, é registrada a iniciação de cavalheiros, mas o processo é mais obscuro.

“O elo com os pedreiros e suas organizações era fraco, e os segredos possuídos pelos maçons ingleses e suas organizações em Lojas parece ter vindo da Escócia, sugerindo que, enquanto lá a maçonaria surgira das verdadeiras práticas de pedreiros trabalhadores, na Inglaterra ela fora, pelo menos em parte, importada da Escócia, em Lojas sendo criadas por cavalheiros e para os cavalheiros.” (grifo nosso).

Pesquisas indicam que nos registros ingleses no ano de 1600, o sistema de guildas já estava enfraquecido, não podendo ser comprovada a existência de Lojas Operativas. É nesse contexto que reside o busílis, dando respaldo para os críticos de uma transição não documentada, evidenciando-se o surgimento de lojas maçônicas na Inglaterra com caráter puramente especulativo, que Stevenson (2009) denomina de “artificiais”. Remanesce, portanto, a dúvida quanto à condição dos não operativos, se seriam ou não efetivamente especulativos ou, ainda, se poderiam ser equiparados à condição de membros honorários, como se conhece atualmente.

Provisoriamente, o que se sabe, é que tudo isso desaguou em 1717, no dia 24 de junho, quando três lojas londrinas e uma loja de Westminster, cujos membros eram então exclusivamente especulativos, numa tacada de mestre, formaram a Grande Loja de Londres e Westminster, marco histórico que introduziu o sistema Obediencial, incorporando cerimônias e regras tradicionais das antigas Lojas de obreiros-aceitos, tipo copia e cola avant la lettre do modelo escocês, com a eleição de um Grão-Mestre (Anthony Sayer) e outros oficiais.

Com isso, personalidades como James Anderson e J. T. Désaguliers, seguidores de Lutero, passaram elaborar a maior parte do material então adotado. Anderson (1679-1739), escocês de Aberdeen, ordenado ministro presbiteriano da Igreja da Escócia em 1707, e profundo conhecedor da evolução das Lojas em seu país de origem, é considerado o autor do documento de fundação da moderna Maçonaria Especulativa, publicado em 1723, no qual faz referência à célebre reunião da noite de São João do ano 1717 como data de fundação da primeira Grande Loja (vide Nota 1).

Na elaboração de sua Constituição, onde produziu uma apologia sobre os antecedentes históricos da “entidade então restaurada”, Anderson buscou subsídios nos antigos manuscritos, estatutos e regulamentos da Maçonaria Operativa da Escócia, Inglaterra e Itália. Conforme afirma Anatalino (2007), Anderson estipulou que nenhum irmão poderia ser supervisor (entenda-se Vigilante), sem antes ter passado pelo grau de Companheiro; nem Mestre (entenda-se Venerável) antes de ter exercido as funções de supervisor (Vigilante).

A admissão de novos membros ficou então condicionada ao atendimento do pré-requisito de crença em um Ser Supremo, admitindo-se homens de todas as religiões e tendo como tema central o comportamento moral, o auto aperfeiçoamento constante e a dedicação à caridade. A Maçonaria foi acusada de descristianização em 1723, com a permissão de entrada de adeptos de outros credos que não o catolicismo.

Essa “transição” da Maçonaria dos Aceitos, desde 1600 na Escócia, para a condição de Especulativa por excelência ou Maçonaria Moderna, como se afirma desde então, exigiu adaptação dos títulos maçônicos para fins de adequação a uma estrutura que funcionaria nos moldes de uma escola, com a escolha de alguns Mestres entre os Companheiros para administrar e conduzir os trabalhos. Não há indícios de que, na época, os ingleses pensassem numa confederação que se estendesse além de Londres e de Westminster. Pouco a pouco, outras Lojas Maçônicas, a maioria em torno de Londres, uniram-se à nova Grande Loja.

Segundo Stevenson (2009), a partir do século XVIII, os ingleses começaram a inovar e adaptar o movimento e assumindo a liderança no desenvolvimento da Maçonaria originária na Escócia, afirma, com alguns dos valores associados ao Iluminismo sendo incorporados. “À medida que a Idade da Razão alvorecia, a maçonaria – nascida da Renascença – era adaptada para acomodar-se ao novo clima”. Segundo o irmão Alex Davidson, “a maçonaria ‘especulativa’ pode ter-se desenvolvido a partir da influência de William Schaw na Escócia e posteriormente disseminada para Inglaterra, mas a essência da maçonaria iluminista é caracteristicamente inglesa, e o que foi reexportado para a Escócia no início do século XVIII era algo novo. A ênfase em constituições, leis e governança originou-se em Londres”.

Stevenson (2009) ressalta ainda que, “começando na Grã-Bretanha, a maçonaria se espalhou pela Europa em meados do século XVIII, de uma maneira assombrosa”. Contrapondo-se à corrente inglesa, comenta que a criação da Grande Loja de Londres em 1717 “é quase irrelevante no longo processo de avanço do movimento, pois embora a Grande Loja Inglesa tenha tido um importante papel na organização da maçonaria, quando fundada ela apenas reuniu quatro Lojas de Londres”. Porém, aduz que “o fato de a Inglaterra ter dado o primeiro passo em direção à organização nacional e de tal gesto ser imitado subsequentemente na Irlanda (c.1725) e na Escócia (1736), levou muitos historiadores maçônicos ingleses a concluir levianamente que a maçonaria se originou na Inglaterra, que depois teria passado para o resto do mundo”.

As lojas maçônicas passaram a ser consideradas como centro de influência inglesa e, portanto, contrárias aos interesses das famílias dinásticas europeias, de orientação católica. Provocaram incômodo nos poderes dominantes de cada país, despertando o receio de conspirações para derrubada e tomada do poder pelo grande afluxo de nobres e aristocratas aos seus quadros. Não podemos olvidar que, desde o rompimento com a Igreja Católica e a criação da Igreja Anglicana, em 1534, a Inglaterra ignorava a autoridade do Sumo Pontífice. O rei Henrique VIII se autoproclamara único protetor e chefe supremo da Igreja e do clero da Inglaterra e confiscou, à época, todos os bens da Igreja Católica e aboliu o celibato dos padres.

A primeira objeção formal ao conceito de Grande Loja veio em 1725 pela Loja Maçônica de York, localizada na cidade inglesa de mesmo nome, frente à assumida superioridade e antiguidade dos londrinos. No ano de 1737, teve início uma explosão da Maçonaria na França, dando “início à proliferação de novas ordens maçônicas e à criação de novas lendas e fantasias que confundem qualquer tentativa séria de compreender a maçonaria moderna, mesmo nos Estados Unidos”, conforme registra o historiador não maçônico John Robinson (2014).

Na antiga Maçonaria Operativa não existia o grau de Mestre, apenas os de Companheiro (Fellow) e Aprendizes. O titulo de Mestre era dado apenas ao presidente da Loja, eleito entre os Companheiros ou adquirido por herança. O Grau de Mestre Maçom somente seria implantado a partir de 1738, apesar de criado em 1725, quando a Maçonaria passou a ser iniciática. Até 1725 não havia “Iniciação” e sim uma “Recepção” de um novo membro ou sócio, que consistia de um compromisso prestado sobre o Livro de Registro da Confraria e, tempos mais tarde, sobre o Evangelho de São João (Carvalho, 1997). Outras fontes registram a criação deste grau em 1723 e efetiva implantação em 1738.

A confusão com caráter religioso deu-se com o formato das cerimônias no recinto das Lojas, que levaram a Maçonaria britânica das tabernas para salas e edifícios construídos especialmente para isso, introduzindo-se música de órgão e a composição de hinos a ser cantados pelos irmãos. Funerais maçônicos, preparados com os emblemas da Ordem, ocorriam em Igrejas Protestantes, onde, após o ministro terminar seu serviço, os maçons tomavam a vez com os próprios ritos, dando a entender ao público de que a Maçonaria era uma Ordem “religiosa” à parte.

Um famoso personagem, iniciado em 1730, motivo de controvérsias e considerado responsável pelo prestígio da Maçonaria, foi o também escocês Michel Andrew Ramsay (1686-1743), “profundo conhecedor da história antiga e moderna, doutor pela Universidade de Oxford e membro da Sociedade Real de Londres, como muito outros maçons proeminentes da época” (Figueiredo, 2016). A ele é atribuído um polêmico discurso, “não pronunciado”, segundo consta, publicado em 1738, que ligaria a Maçonaria aos nobres das Cruzadas, argumento considerado uma invencionice, sem comprovação histórica, mas que promoveu uma efervescência à época, inclusive influenciando na elaboração e desenvolvimento dos altos graus maçônicos entre 1740 e 1780. Nesse discurso é dado um ar de aristocracia à Maçonaria. Os detratores do Cavaleiro Ramsay argumentam que ele não aceitava a verdadeira origem humilde dos maçons construtores e analfabetos, tendo então inventado essa narrativa.

A Maçonaria despertou mais inimizades do que qualquer outra organização secular na história mundial. Difamadores ganharam força ao longo do tempo em face da tradição da Maçonaria em não responder aos ataques, beneficiando-se do conceito de “confissão de silêncio”, mesmo atualmente com a sociedade dominada pela mídia. Por isso, “os Maçons podem estar destinados a permanecer controversos, embora a legião de críticos sejam facilmente desafiadas pelas legiões de notáveis que escolheram ser membros dela” (Robinson, 2014).

Com a expansão da Maçonaria a partir da fundação da Grande Loja da Inglaterra e Westminster e os novos pensamentos elaborados pela dupla Anderson & Désaguliers, passou-se a exigir que as demais Lojas europeias lhe rendessem obediência. Mas, isso causou repercussões no âmbito da Igreja Católica, então Senhora do Mundo, que entendeu não ter reconhecido tal direito às quatro Lojas de Londres, pois cabia a Roma a competência para delegar poderes e concedê-los absolutos dentro dos comportamentos humanísticos, coroando reis e dando forma jurídica às nações.

A Maçonaria passou, então, a ser vista pela Igreja Católica como uma “seita” vinculada à dissidente religião Anglicana. Por isso, nos séculos seguintes, “a maçonaria foi alvo de mais bulas e encíclicas papais odientas do que qualquer outra organização secular na história cristã” (Robinson, 2014). (Sugerimos a leitura do artigo “Maçonaria e Igreja Católica, reconciliação improvável” – Partes I, II, II e IV, em:  https://opontodentrocirculo.com/2018/10/08/maconaria-e-igreja-catolica-reconciliacao-improvavel/).

A Maçonaria inglesa passou ainda por ajustes, tendo em vista a formação de uma Potência rival em 1751, a Grande Loja da Inglaterra, que se apresentou como depositária das Antigas Instituições. Lawrence Dermott (1720-1791), irlandês, eleito segundo Grande Secretário em 1752, escreveu em 1756 o “Ahiman Rezon”, adotado como Constituição para suas Lojas jurisdicionadas. Dermott combatia a narrativa lendária da Maçonaria criada por James Anderson, a quem denominava de “Modernos”. Em 1813, as duas se uniram, formando a Grande Loja Unida da Inglaterra (GLUI).

O primeiro Templo Maçônico inglês fixo foi construído entre 1772 e 1776, o conhecido “Freemason Hall”. O Grande Oriente da França (GOF), nascido em 1728, como Primeira Grande Loja da França, tendo tomado a sua forma e atual nome em 1773, conseguiu, no ano de 1788, o seu primeiro Templo, proibindo a reunião em tabernas, a partir de então. Entretanto, por divergências de práticas, o GOF não tem tratado de reconhecimento junto à Maçonaria inglesa. Somente a Grande Loja Nacional Francesa (GLNF), fundada em 1913, a partir do GOF, tem reconhecimento junto à GLUI. Enfim, no que se refere aos Protocolos e práticas litúrgicas e ritualísticas adotadas pelas diversas Potências, são marcantes as influências anglo-saxônica (teísta) e francesa/latina (deísta), sobre a estrutura do simbolismo do REAA, em especial, considerando-se que cada país preserva sua autonomia para defini-los.

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

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Referências

ANATALINO, João. Conhecendo a Arte Real. São Paulo: Madras, 2007;

ASLAN, Nicola.  A Maçonaria Operativa Escocesa. Disponível em https://www.revistaartereal.com.br/wp-content/uploads/2014/02/A-MACONARIA-OPERATIVA-ESCOCESA-Nicola-Aslan.pdf

CARVALHO, Assis. A Descristianização da Maçonaria. Londrina: Ed. “A Trolha”, 1997;

DAVIDSON, Alex. O Conceito Maçônico de Liberdade – Maçonaria e o Iluminismo. Artigo em: https://bibliot3ca.com/o-conceito-maconico-de-liberdade-maconaria-e-o-iluminismo/

FERRER-BENIMELI, José Antônio. Arquivos secretos do vaticano e a franco-maçonaria. São Paulo: Madras, 2007;

FIGUEIREDO, Joaquim Gervásio. Dicionário de Maçonaria: seus mistérios, ritos, filosofia, história. São Paulo: Pensamento, 2016;

MELLOR, Alec. Os Grandes Problemas da Atual Franco-Maçonaria – Os novos rumos da Franco-Maçonaria. São Paulo, Pensamento, 1976;

OLIVEIRA FILHO, Denizart Silveira. Da Iniciação Rumo à Elevação. Londrina: Editora Maçônica “A Trolha”, 2012;

___________________________. Da Elevação Rumo à Exaltação. Londrina: Editora Maçônica “A Trolha”, 2013;

ROBINSON, John J. Nascidos do Sangue. São Paulo: Madras, 2014;

STEVENSON, David. As Origens da Maçonaria: O Século da Escócia (1590 – 1710). São Paulo: Madras, 2009;

VICENTINO, Cláudio. História Geral. São Paulo: Editora Scipione, 1992;

XAVIER, Arnaldo. Saiba o que são Maçonarias. Belo Horizonte: Label Artes Gráficas, 2010;

Blog do Pedro Juk, em: http://pedro-juk.blogspot.com/

Blog “Freemason”, em: http://www.freemasons-freemasonry.com/regius.html

______________, em http://maconico.com.br/a-carta-de-bolonha-1248-o-mais-antigo-documento-maconico-freemason-pt/

Blog “No Esquadro”, em:  https://www.noesquadro.com.br

Blog “O Ponto Dentro do Círculo”, em: https://opontodentrocirculo.com/2019/10/08/a-maconaria-inventada/

_________________________, em: https://opontodentrocirculo.com/2018/06/03/o-manuscrito-cooke/ _________________________, em https://opontodentrocirculo.com/2021/02/06/consideracoes-sobre-o-poema-regius-do-seculo-xiv/

Maçonaria moderna: o legado escocês – Parte I

20 curiosidades sobre a Escócia - Viagens à Solta

A moderna Maçonaria, que tem como referência o ano de 1717[1] (ou 1721 para os puristas), não surgiu repentinamente como um raio em céu azul, como tentam argumentar alguns empoderados críticos internos da Ordem. Sem querer induzir ou convencer, vejamos os fatos históricos.

Entre os séculos X e XV, a Europa passou por diversas transformações sociais, políticas, econômicas e científicas, sobretudo, com o declínio do sistema feudal e o crescimento comercial e urbano, intensificado pelas Cruzadas e a expansão das rotas marítimas comerciais. A terra e o trabalho camponês perderam seu papel como única fonte de riqueza.

Nesse período houve um grande crescimento das atividades comerciais, oriundas dos trabalhadores que viviam numa sociedade agrária e estamental (que não permitia ou dificultava a ascensão social e antecedeu a Sociedade Industrial), os feudos, e passaram a comercializar os excedentes nos arredores das cidades, quando se deu o renascimento comercial e urbano.

Com o deslocamento de muitos trabalhadores para os burgos (antigas cidades medievais amuralhadas), o sistema feudal e agrário logo foi substituído por um capitalismo primitivo e urbano, fortalecido pelo surgimento da burguesia, formada por comerciantes, artesãos, alfaiates, sapateiros, ferreiros, carpinteiros, tanoeiros, marceneiros, artistas, mercadores, produtores têxteis etc.

Assim, com a necessidade de organizar e regulamentar determinadas profissões originou-se uma espécie de associações sindicais com o intuito de proteger interesses, de forma a melhorar o desenvolvimento da atividade laboral desde a distribuição dos produtos, garantir a qualidade e preços, bem como lidar com o mercado e seus concorrentes externos. Famílias mercadoras reuniram-se em guildas e assumiram a autoridade em muitas cidades, munidas de alvarás, como corporações municipais.

Nas cidades medievais, as instituições econômicas básicas eram as corporações de mercadores e as corporações de ofício com uma estrutura civil e administrativa, formada por pessoas de uma mesma profissão, de uma mesma orientação religiosa e que mantinham uma relação de proteção mútua. Por sua vez, o poder pessoal e universal dos senhores feudais foi gradativamente sendo substituído pelo poder centralizador dos soberanos, dando origem às monarquias nacionais centralizadas.

Por volta dos séculos XI, sob o manto da Igreja Católica, nasceu a Maçonaria Operativa ou de Ofício, que dominava a arte de construir, por intermédio das corporações ou confrarias dos mestres construtores de catedrais, abadias e mosteiros, que recebiam instrução e evangelização dos frades e protegiam os ensinamentos secretos da arquitetura e os interesses corporativos. Atribui-se o impulso das edificações de catedrais em louvor a Deus em virtude da não concretização da previsão apocalíptica dos fins dos tempos na virada do ano 1000.

A arquitetura medieval teve nas Igrejas a sua maior representatividade, com o desenvolvimento dos estilos românico e o gótico.  O românico, fruto da criação das comunidades rurais dos monges, típicas da Alta Idade Média (século V ao X) assinalou o seu apogeu no século XI, aparecendo em mosteiros, castelos e igrejas, com uma construção maciça, pesada, de linhas retas, com traços predominantemente horizontais e interiores sombrios. O florescimento do gótico, originário da região de Paris, esteve ligado à prosperidade da economia urbana e ao desenvolvimento do conhecimento, concebendo nas catedrais a obra da cidade e dos artífices das corporações de ofício, refletindo a mentalidade da Baixa Idade Média (século XI ao XV).

As catedrais góticas, banhadas de luz e calor, decoradas com pinturas e esculturas, significavam mais do que um templo de orações, eram utilizadas também como escolas, bibliotecas, galerias de arte, além de ponto de encontro de uma próspera sociedade. A burguesia também nelas se reunia em suas confrarias para realizar assembleias civis, funcionando como uma casa do povo e do poder da igreja.

Com as corporações ou confrarias surgiram os regulamentos na forma de cartas e constituições, descrevendo os compromissos dos membros, bem assim os conhecimentos e instruções morais e religiosas, de conteúdo explicitamente cristão, formando os “Antigos Deveres”, “Antigas Constituições” ou “Manuscritos”, delineando um sentido espiritual e material aplicáveis aos obreiros construtores, inspiradores da Moderna Maçonaria. O Museu Britânico e a biblioteca maçônica de West Yorkshire guardam vários desses documentos, que formam a base das constituições maçônicas.

Como não existia um organismo central que tomasse decisões para a totalidade das guildas de ofício, cada uma conservava sua autonomia e usava um manuscrito dos “Antigos Deveres” que melhor lhes aprouvesse e sobre os quais os juramentos eram prestados. Os mais famosos são o “Poema Regius” ou “Manuscrito Halliwell”, provavelmente de 1390, o mais antigo documento inglês sobre a Maçonaria, e o “Manuscrito de Cook”, estimado de 1450.

Alguns autores advogam a precedência da Carta de Bolonha, de 1248, como o primeiro documento maçônico operativo conhecido. Também referenciado como os “Estatutos de Bolonha”, sob os auspícios da Igreja Católica, o documento estabelecia a existência jurídica de uma associação no qual constavam a denominação e forma de eleição dos constituintes, com o objetivo de “proteger o ofício tanto no plano financeiro quanto no ético moral”. A proteção aos associados, tanto profissional quanto assistencial, incluía até as viúvas. O referido documento já fazia menção a “não operativos”, cuja lista de matrícula, datada em 1272 e ligada à “Carta de Bolonha”, consta “371 nomes de Mestres Maçons (Maestri Muratori), dos quais 2 são escrivães públicos, outros 2 são freis e 6 são nobres”, conforme registros no Arquivo de Estado da Bolonha.

Esta situação prevaleceu por 142 anos, até 1390, quando surgiu o “Poema Regius”, oportunidade em que foi introduzida a história de como Euclides de Alexandria simulou a geometria e traçadas normas de conduta ética e moral, alertando que a Maçonaria e o Maçom não devem ter um comportamento hipócrita (Hic incipiunt constituciones artis gemetriae secundum Eucyldem – Art. XV). O Manuscrito de Cook (1450), escrito em prosa, continha repetições dos anteriores, e, após uma prece de ação de graças de abertura, o texto enumera as Sete Artes Liberais (Gramática, Retórica, Lógica, Aritmética, Geometria, Música e Astronomia), dando prioridade à geometria, a qual é equiparada à Maçonaria.

Passados mais 208 anos do Poema Regius, em 1598, até então sob a proteção da Igreja, apenas com modificações administrativas, alteração significativa foi aquela introduzida na Escócia por William Schaw (1550-1602), Mestre das Obras da Coroa e Vigilante Geral dos Pedreiros, na área de construção de castelos e palácios, com larga experiência adquirida em cargos ocupados no reinado de Jaime VI. Segundo Nicola Aslan, “a maçonaria escocesa não possuiu ‘Old Charges’ como a sua congênere inglesa”, mas, do período operativo, afirma, destacam-se outros documentos como as Cartas de Saint-Clair (uma de 1601 e outra de 1628) e, principalmente, os Estatutos Schaw, que nenhum outro supera.

William Schaw mantinha estreitos laços com personalidades da elite do império, além de filósofos, políticos e livres pensadores. Reorganizou a profissão de pedreiro ao incluir alterações estruturais nas Lojas, entre elas as de fundo cultural e histórico, com manutenção de arquivos com registros de todos os acontecimentos relevantes e envolvendo a maçonaria do passado e perspectivas para os tempos vindouros.

Tais medidas abriram caminhos para que “não operativos”, pertencentes ao círculo de influência de William Schaw, então se constituindo em um novo protetor da Maçonaria (especulativa de transição), pudessem ser atraídos, não apenas para introduzir conhecimento humanístico e sim para inserir as Lojas nos meios políticos. Os dois regulamentos promulgados (1598 e 1599) definiam a organização territorial das lojas por cidades e por regiões, impondo a eleição anual dos Oficiais. Por ter lançado as condições que mais tarde se transformariam, no território escocês, na Maçonaria Especulativa, Schaw é considerado por muitos como o inventor da Maçonaria Moderna.

A mudança significativa, mal compreendida e criticada pelos puristas e chamada de teoria de transição, à míngua de documentação comprobatória, teria ocorrido no final do século XVI, em vista do declínio das antigas corporações medievais de construtores, quando, em número cada vez maior, os denominados “Maçons Livres e Aceitos”, homens que não eram pedreiros, substituíram os trabalhadores, transformando-se em sociedade de auxílio mútuo e num espaço para a livre manifestação do pensamento, com seleção dos membros “entre os homens conhecidos pelos seus dotes culturais, pelo seu talento e pela sua condição aristocrática, que poderiam dar projeção a elas, submetendo-se, todavia, aos seus regulamentos” (Castellani, 2007).

Em análise de David Stevenson (2009), historiador não maçônico, a evolução da Maçonaria na Escócia no século XVII surgiu em muitos sentidos da Renascença, mas sua evolução também foi profundamente influenciada pela Reforma, podendo ser vista como uma reação contra algumas das mudanças que o advento do Protestantismo trouxe ao país, envolvendo não apenas uma mudança em crenças religiosas, mas em todo o conceito do que era religião, antes vista como um método ritual de viver e não um conjunto de dogmas. “Com a vinda do Protestantismo, a ênfase mudou do comportamento e das ações para as crenças abstratas e a fé individual”. A reforma promovida pelos calvinistas liderados por John Knox (conhecidos como presbiterianos na Escócia), que aboliu o catolicismo romano em 1560, significou a completa abolição do lado religioso da fraternidade-guilda, levando ao desaparecimento daquelas organizações que funcionavam apenas como fraternidade. Restaram elementos de ritual e cerimônia em ocasiões como a admissão novos membros.

As medidas introduzidas por William Schaw, com a organização das lojas, ensejou um sistema no qual os rituais poderiam desenvolver-se, avalia Stevenson (2009), suprindo um vácuo deixado pela Reforma, como uma possível explicação por que tantos indivíduos de fora quiserem entrar para as lojas no século XVII, possivelmente de forma que fossem atendidos desejos de satisfazer o anseio humano por ritual, que a igreja reformada da Escócia ignorava.

Continua…

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

Nota


[1] Para melhor entendimento, recomenda-se a leitura do artigo “1717? 1721? Por enquanto, ainda 1717…”, no Blog “O Ponto Dentro do Círculo”, em https://opontodentrocirculo.com/2016/09/22/1717-1721-por-enquanto-ainda-1717/

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O DNA da Maçonaria – Por que?

O cavaleiro Ramsay e a origem da Maçonaria - Freemason.pt

O que teria levado os ingleses a criar uma sociedade que se caracterizava por permitir a reunião, sigilo e vínculos de fidelidade garantidos por juramentos?

A maioria dos maçons gosta de acreditar em motivações de cunho moral, de pessoas interessadas em especular sobre os mistérios da vida e da morte e outras motivações tão nobres quanto falaciosas.

A razão pode ser algo bem mais grave, objetivo e, a meu ver, mais edificante do que sonha nossa vã filosofia.

Vejamos o que ocorria naquele momento histórico.

Os Jacobitas e a União

A União de 1707 entre a Escócia e a Inglaterra era altamente impopular junto à grande maioria da população, na Escócia. Diversos artigos do acordo da Lei da União eram economicamente favoráveis aos proprietários de terras na Escócia, mas não conseguiam oferecer quaisquer vantagens econômicas à maioria da população por mais de 30 anos. O descontentamento era geral e tumultos motivados por alimentos ocorreram nos burgos da costa leste à medida que os efeitos da fome eram agravados pelos impostos da união. Embora a situação induzisse a resistência à união econômica, ela não se traduzia em apoio universal à causa jacobita de manter os Stuarts no trono, em Londres. Muitos, na Escócia, agora associavam os Stuarts ao catolicismo e à supressão da Igreja protestante. A União estava decidia a pôr fim às esperanças dos Jacobitas de uma restauração Stuart, garantindo que a dinastia alemã de Hanover sucedesse a Rainha Anne após a sua morte. Mas, os Stuarts ainda comandavam grande parte da lealdade na Escócia, França e Inglaterra – a União Britânica inevitavelmente reacendeu a causa jacobita.

Em 1708, o pretendente jacobita ao trono, o suposto James VIII, e seus aliados franceses haviam tentado desembarcar na Escócia para incitar um levante, mas foram frustrados pelas condições climáticas adversas e vencidos pela Marinha Real. Seis anos mais tarde, uma moção na Câmara dos Lordes para desmantelar a União falhou por apenas quatro votos. Em seguida, no mesmo ano, a rainha Ana morreu e foi sucedida por Jorge I de Hanover. A questão controversa da sucessão se intensificou e no ano seguinte, muitos nobres e conservadores, descontentes com a sua parte dentro da união, levantaram-se em favor de uma monarquia Stuart.

O Levante Jacobita de 1715

O levante de 1715 foi liderado por John Erskine, Conde de Mar – um homem que tinha votado a favor da União inicialmente e que fora secretário de Estado até 1714. Ele tinha a maioria de seu apoio ao norte do rio Tay, no Planalto Nodeste e nas terras altas da Escócia – áreas onde os latifundiários não se beneficiavam muito com a União e onde o Episcopalianismo (que via os Stuarts como chefes de sua igreja) era dominante.

Mas, o conde de Mar, não se provou um grande líder militar. Ele travou uma batalha muito mal comandada em Sherriffmuir, onde os jacobitas superavam as forças Hanoverianas sob o Duque de Argyll em dois para um, mas falhou em conseguir uma vitória decisiva. Nem mesmo a chegada e coroação de James Stuart como o rei James VIII conseguiu reverter a sorte Jacobita. Eventualmente, o levante fracassou quando 6.000 soldados holandeses desembarcaram em apoio ao governo de Hanover, e as forças do rei James se dispersaram sob a pressão de má liderança e falta de ajuda externa.

Em consequência deste estado de coisas, o governo reagiu prontamente com a votação e decreto do Riot Act (Lei da Rebelião), em 1714, lei esta que entrou em vigor em 1715 que continha o seguinte:

Cap V

Considerando que nos últimos tempos muitos motins rebeldes e tumultos têm ocorrido em diversas partes do reino, para a perturbação da paz publica, e o perigo para a pessoa de Sua Majestade e do governo, o mesmo ainda continua sendo fomentado por pessoas descontentes com Sua Majestade, presumindo assim fazer, para que as punições previstas pela legislação atual não sendo adequada para tais crimes hediondos; Sua Majestade e seu governo tendo sido de forma mal intencionadamente interpretada por tais rebeldes com a intenção de aumentar as divisões, e alienar a afeição do povo de Sua Majestade, por conseguinte, para a prevenção e repressão de distúrbios e tumultos como estes, e para a mais célere e efetiva punição dos infratores nelas envolvidos, seja promulgada por sua mais excelente majestade o Rei, por e com o conselho e consentimento dos lordes espirituais e temporais e dos comuns, neste atual Parlamento reunido, e pela autoridade do mesmo;

Que se qualquer pessoa até o número de doze ou mais, sendo ilegal, rebelde e desordenadamente reunidos, em perturbação do sossego público, em qualquer momento após o último dia do mês de Julho no ano de nosso Senhor, 1715, e sendo requisitado ou ordenado por qualquer uma juiz ou juízes, ou pelo xerife do condado, ou o seu sub-xerife, ou pelo prefeito, oficial ou oficiais de justiça, ou outro chefe ou juiz de paz de qualquer capital ou cidade, onde tal assembleia se reúna, por decreto a ser feito em nome do rei, sob a forma doravante ordenada, a dispersar-se, e afastar-se em paz para suas habitações, ou aos seus negócios lícitos, devem, o tal número de doze ou mais (não obstante tal proclamação feita) de forma ilegal, desenfreada e desordenada permanecer ou continuar juntos pelo espaço de uma hora após o comando ou solicitação feita pela proclamação, então, tal permanência do número de doze ou mais ou feita tal proclamação, será julgado crime sem o benefício do clero, e os infratores serão condenados como criminosos, e sofrerão a morte como no caso de crime, sem o benefício do clero. (Grifos do Tradutor)

Teria sido uma mera coincidência que dois anos depois disso surgisse uma organização cuja principal característica é a reunião de pessoas?

Isso altera, e muito, a visão que se tem da maçonaria especulativa. Estamos acostumados a achar que a vida nesta época era um mar de rosas, mas a realidade era de uma ditadura sufocante e a Maçonaria surgiu pela primeira vez como um porto seguro para os lutadores da liberdade, que viria a se repetir nos Estados Unidos em 1776, na França em 1789 e no Brasil em 1822.

Ou os homens livres e de bons costumes de uma nascente burguesia desejosa de participar dos destinos da nação se sentiram oprimidos e buscaram uma saída que lhes garantisse a impunidade diante de tal lei draconiana? E levaram dois anos para “aparelhar” a maçonaria operativa?

A verdade é que o Establishment inglês, ou a Coroa, encarregou os pastores Desagulliers e Anderson de desativar a bomba relógio criada com o Riot Act. E eles se sairam muito bem, pelo menos no que diz respeito à Inglaterra.

Mas, eles não faziam ideia do monstro que haviam criado. Quando a nascente instituição foi transplantada para o Continente, ela assumiu o mesmo formato de controle social, sendo via de regra dirigida pelo monarca como Grão-Mestre e as lojas utilizadas para enquadrar a parcela pensante da população.  Foi assim na Alemanha e em outros centros monarquicos.

Uma parcela pensante da sociedade francesa aderiu à maçonaria, que se transformou em vibrantes centros de discussão. A maçonaria, mesmo não sendo a responsável direta pela queda da Bastilha, transformou-se em uma ameaça entre os aristocratas da época. Posteriormente à revolução francesa, a Maçonaria Francesa assumiu uma postura progressista, ligada diretamente à Carta de 1717, adotando o princípio da isenção religiosa que a caracteriza até os dias atuais.

Mas, na América ela teve enorme influência nos movimentos de libertação, desde os Estados Unidos em 1776, até o Brasil em 1822, passando pelas colônias espanholas onde maçons como San Martin e Bolivar tiveram uma atuação crucial.

Atualmente, a maçonaria só tem uma atuação progressista na França, por meio do Grande Oriente de França, defendendo causas e participando ativamente da vida social. Também em Portugal, o ramo originário do Grande Oriente de França tem uma atuação proativa e progressiva.

No restante do mundo, continua a ser um instrumento de controle social e tem uma imagem de instituição retrógrada e conservadora.

Nas grandes capitais, devido à composição heterogênea das lojas, a atuação da Ordem é bastante limitada, ao passo que no interior tem grande influência e participa da vida da sociedade, mesmo em suas versões retrogradas e religiosas do rito escocês, adoniramita  e brasileiro.

Autor: José Filardo

Fonte: Bibliot3ca Fernando Pessoa

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Origem e evolução dos Cargos em loja da Maçonaria e dignidades maçônicas na Grã-Bretanha do século XVII até nossos dias – Parte I

Trois gravures encadrées. Représentant des scènes maçonniques, gravures dites[...]

I – Os oficiais da Loja, da Escócia de William Shaw à primeira Grande Loja inglesa até 1750

Qual é a origem dos oficiais de uma loja maçônica? Responder a esta pergunta é necessariamente relacioná-la com o sistema primitivo de graus maçônicos e procurar essa origem primeiro na Escócia ao final do século XVII e depois na Inglaterra no início do século XVIII.

Lembremo-nos que na Escócia, no século XVII, o sistema de graus consistia em duas etapas: Aprendiz (isto é, um Aprendiz que fez suas provas durante 7 anos em média como Aprendiz registrado) e o Companheiro ou Mestre este último chegando raramente a ser alcançado em virtude de seu custo. Além disso, existiam dois tipos de estrutura nessa Maçonaria Escocesa: uma estrutura civil, administrativa e pública, a corporação ou Guilda de Mestres que governava a cidade e o emprego, e uma estrutura “secreta” específica do ofício, a loja. Estas estruturas, em princípio independentes eram, de fato, complementares, o que causava rivalidades e conflitos. De qualquer forma, a corporação consiste de Mestres, mestres que tinham na loja o “grau” mais alto que se podia conferir, o de Companheiro de Ofício, categoria na qual são recrutados os futuros mestres da corporação. Fica assim claro que o título de “Mestre” não era um grau da loja, mas uma dignidade civil, que era adquirido através de herança, casamento ou até mesmo compra.

No início do século XVIII, na Inglaterra, na década de 1720, um novo grau apareceria, o grau de Mestre. É certamente atestado em 1730, na forma em que o conhecemos e a composição desse grau, puramente Inglês, aparentemente, era o resultado da adição de uma lenda ao segundo grau, de Companheiro, de origem escocesa.

O novo segundo grau inglês, o de Companheiro “novo estilo” em um sistema agora de três graus, resultou de uma divisão do antigo primeiro grau escocês. Assim, no sistema inglês, o título de “Mestre” tornou-se um grau de loja. Este sistema tem, portanto, a seguinte composição: Aprendiz, Companheiro e Mestre Maçom. Mas o termo “Mestre” vai se tornar rapidamente ambíguo, uma vez que designará tanto um grau, “Mestre Maçom” quanto um cargo, o Mestre da Loja (cargo que sabemos ser também um grau)…

Os cargos da loja no século XVII

Em uma loja de maçons “operativos” na Escócia, no século XVII, havia um presidente que se chamava “Warden”, etimologicamente “o Guarda” (a tradução como Vigilante impôs-se somente no início do século XVIII). Esse termo, “Warden” ou Guarda é encontrado nas organizações tradicionais do ofício. Na Inglaterra também, embora as organizações de ofício (as “Companhias de Londres”, as guildas londrinas, incluindo a Companhia dos Maçons de Londres, “London Masons Company”) não tinham, naquela época, a importância das suas contrapartidas escocesas, no entanto, elas elegiam um presidente que trazia e ainda traz o título de “Warden”. Ao contrário, nas corporações escocesas, o presidente se chamava “Deacon”, ou Diácono (o enviado) ou, no vocabulário contemporâneo, “delegado geral”. As rivalidades entre a corporação e a loja explicam que, em alguns casos, há também “diáconos” nas lojas. Além dos cargos de “Vigilantes” na loja e o “Diácono” na corporação, não se conhecem outros oficiais na Escócia, embora seja provável que houvesse algum tipo de secretário-tesoureiro o “funcionário”, fora da profissão, mas cuja função era essencial a vida da loja.

Os cargos da loja no século XVIII (1717-1723)

Quando, onde e como o sistema escocês foi transmitido na Inglaterra até o aparecimento das lojas, depois de uma grande loja, com seus próprios oficiais? Isso ainda é, em parte, um mistério.

O sistema da primeira Grande Loja em 1723, era o seguinte: o Título IV das Constituições distinguia os Mestres, os Vigilantes, os Companheiros e os Aprendizes. Aqui o termo “Mestre” não se refere a um grau, que ainda não existia, mas um cargo, o “Mestre da Loja”. Há também um outro cargo: o Vigilante (“Warden”). A hierarquia ou o currículo maçônico assim se estabelecia: somos primeiro Aprendizes, depois Companheiros, grau que é uma qualificação indispensável para se tornar, eventualmente, Vigilante, depois Mestre da Loja, função superior à do Vigilante. Além disso, previa-se que em caso de incapacidade do Mestre da Loja, o “Senior Warden (Primeiro Vigilante)”, isto é, literalmente, “o guarda mais antigo” que o substituía, se não existisse um “ex” Mestre de Loja, e na falta do “Senior Warden,” chamava-se o “Junior Warden” (Segundo Vigilante) ou “o guarda mais jovem”. Note-se que a tradução para 1º e 2º Vigilantes é, na verdade, falha, embora seja consagrada pelo uso.

Constatamos assim que se distinguia, que se tratava tanto de Mestres quanto de Vigilantes, o mais velho e o mais novo. Assistimos aqui a origem da passagem de um “Warden” único, para dois “Wardens”? A duplicação de Vigilantes seria então o resultado de se levar em conta a antiguidade no exercício da função, exatamente como existe um “Mestre da Loja” e um “Mestre Instalado” (Past Master). Em suma, em 1723, a loja era presidida por um “Mestre” assistido por dois Vigilantes, o “Senior Warden” e o “Junior Warden”.

Mas existiam outros oficiais? O artigo 17 do Regulamento Geral da Grande Loja distingue um Grão-Mestre, um Grão-Mestre Adjunto, Grandes Vigilantes, um tesoureiro e um secretário, os dois últimos cargos parecendo ainda serem exercidos temporariamente.

Em relação ao período inaugural 1717-1723, faltam-nos documentos, pois o registro das atas da Grande Loja começa precisamente em 1723, e não foi senão em 1738 que Anderson reconstruiu as atas anteriores. Convém, portanto, manusear esses textos com prudência. De acordo com Anderson, havia em 1717, um Grande Mestre, Anthony Sayer, investido pelos mais antigos Mestres de Loja presentes. Havia também dois Grandes Vigilantes. Esta prática, um Venerável e dois Vigilantes, parece vir das quatro lojas fundadoras da Primeira Grande Loja, e se conservou.

Depois de 1730 e do aparecimento do grau de Mestre, foi necessário modificar o conteúdo do Título IV das Constituições. O currículo maçônico torna-se então o seguinte: Aprendiz, Companheiro e Mestre Maçom. Os Vigilantes são escolhidos entre os Mestres Maçons e para se tornar Mestre da Loja, deve-se ter sido Vigilante. A palavra “Mestre”, portanto, designa ao mesmo tempo um grau e um cargo.

Os Diáconos

Não há nenhuma menção dos Diáconos antes de década de 1740, isto é, num momento em que os irlandeses começam a se manifestar. Na obra Maçonaria Dissecada de 1730, bem como no manuscrito Wilkinson (circa 1727), não são os Diáconos que recebem o candidato, como na maçonaria inglesa contemporânea, mas o 2o Vigilante. Esta tradição passará então à França e permanecerá no Rito Escocês Retificado. Assim, constata-se que se o cargo de “Warden”, um cargo da loja escocesa, é facilmente implantado na Inglaterra, por outro lado o cargo de “Deacon” ou “Diácono”, um cargo da Corporação levará mais tempo, provavelmente por ser estranho às organizações de ofício inglesas. Assim, através dos Irlandeses e da Grande Loja dos “Antigos” este cargo tomará pé mais tarde na Inglaterra. Mas existe uma relação entre os cargos escoceses e irlandeses?

O Telhador ou Cobridor Externo

Desde 1723, na Inglaterra, Anderson, nas Constituições refere-se a um irmão encarregado de guardar a porta da Grande Loja, mas se ele designa a função, ele não a nomeia, o que será feito apenas na década de 1730. No entanto, não é certo que este cargo de Grande Loja já existisse nas lojas. Parece, mais, que o cargo de Cobridor, como talvez outros cargos, seria o produto de uma inovação da Grande Loja que, então, se espalhou pelas lojas querendo imitar a Grande Loja. Este fenômeno também foi observado na França. Neste contexto, a palavra e o cargo de “Tuileur (Cobridor)” aplicados a uma loja são atestados nas primeiras divulgações dos anos 1740, e seu papel na estrutura da loja é bem especificado ali.

No entanto, a Grande Loja de Londres começou a se interessar pela estruturação do sistema de cargos nas lojas, pois desde 24 de junho de 1727, ela decidiu, pela primeira vez, que o Mestre e os Vigilantes de todas as lojas, deveriam usar as joias da Maçonaria penduradas em uma fita branca. Em 17 de março de 1731, afirma-se que os aventais de couro bordados com seda branca serão reservados para o Venerável Mestre e os Vigilantes, enquanto a cor dos colares e da seda bordando os aventais dos Grandes Oficiais seria azul, sem especificar a natureza exata deste azul.

A partir de 1750, a Maçonaria Inglesa, no entanto, vai conhecer uma situação radicalmente nova.

Continua….

Autores: Roger Dachez e Thierry Boudignon

Tradução: José Filardo

Fonte: Bibliot3ca Fernando Pessoa

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Os Stuarts e a Maçonaria, história ou lenda?

James II da Escócia

A associação dos Stuarts com a Maçonaria continua a ser uma das grandes figuras da imaginação maçônica do século XVIII. Muitos rituais ou correspondência explicam que, desde tempos imemoriais, os Stuarts eram os protetores e chefes secretos da Ordem, alguns até mesmo adicionam que um propósito oculto das Lojas era então restaurar a infeliz dinastia escocesa em seu trono legítimo. O que é realmente isso; história ou lenda?

Talvez não haja fumaça sem fogo, mas ainda hoje os historiadores não conseguem encontrar provas documentais sobre o envolvimento real dos últimos representantes da grande dinastia com a Maçonaria escocesa. Elementos raros emergem como existência comprovada de uma oficina “jacobita” na comitiva de James III no exílio em Roma, ou a de algumas lojas stuartistas claramente identificadas em Paris na década de 1730 por Pierre Chevallier. Mas, por outro lado, todas as patentes ou cartas constitutivas supostamente concedidas assinadas ou promulgadas pelos Stuarts revelaram-se falsas.

Desde 1653, a Loja de Perth exibe um pergaminho dizendo que James VI da Escócia foi iniciado como Aprendiz em seu seio em 15 de abril de 1601. Os rumores em torno da existência de uma Loja no exílio de Saint-Germain-en-Laye em 1688 ocupam os maçons de Paris desde 1737. Em 1749, o ritual da Sublime Ordem dos Cavaleiros Eleitos afirma que os Templários perseguidos foram acolhidos e protegidos pelos reis Stuart na Escócia, onde eles se esconderam nas Lojas dos maçons. A lenda tornou-se ainda mais viva que a personalidade, a epopeia e o trágico destino de Charles Edward Stuart, conhecido como Bonnie Prince Charlie – chamado de “jovem pretendente” (1720-1788) – lhe conferem uma forte dimensão romântica. Sua reconquista inaudita da Escócia por alguns meses em 1745 e, em seguida, a fuga para as montanhas depois da derrota fatal de Culloden apaixonaram então toda a Europa.

Seja por cálculo, como a crítica moderna o acusou, ou mais ou menos de boa fé como pensamos, o Barão de Hund conservou essa genealogia Templária e stuartista quando começou a desenvolver a “Estrita Observância” Templária na Alemanha a partir de 1750. Ele alegava ter sido recebido em Paris, na década de 1740, na Ordem do Templo restaurada no seio de uma loja reunindo membros ingleses e escoceses seguidores de Charles Edward Stuart. Fizeram-no supor que Charles Edward era o Grão-Mestre secreto dos Maçons sob o nome de “Eques a sole Aureo”. A Maçonaria, que dissimulava a continuação secreta da Ordem do Templo, era na realidade dirigida por chefes que ninguém conhecia, os “Superiores Desconhecidos”.

O grande sucesso da Estrita Observância Templária popularizou mais o suposto papel do Stuarts nas Lojas. Após a morte de Hund, o novo Grão-Mestre, o príncipe Ferdinand de Brunswick quis saber onde se colocar. Em 1777, ele então envia um Maçom muito ativo, o Barão de Waechter junto ao “jovem pretendente”, que não o é de fato, para interrogá-lo “oficialmente” – finalmente! – sobre as ligações reais dos Stuarts com a Maçonaria. Este dá uma resposta confusa, mas da qual finalmente fica claro que nem seu pai nem ele eram maçons. Mas o lado evasivo da resposta e a reputação de dissimulação ligada a Charles Édward não resolvem a questão, e os dignitários maçônicos alemães e suecos voltam à carga. Abordado diversas vezes, ele acaba por insinuar que se as lojas desejassem ele estava pronto para assumir os deveres do seu cargo! Pressionado por todos os lados – e à procura de reconhecimento e … dinheiro! – em 1783, ele finalmente dará uma Patente “verdadeira-falsa” ao rei Gustavo III da Suécia, reconhecendo-o como seu legítimo sucessor como chefe da Ordem dos Cavaleiros de São João do Templo, isto é, da Ordem Maçônica Templária.

Desde tempos imemoriais à pergunta “S. M.?” as instruções maçônicas mandam responder: “M. I…..” Se é quase certo que ele nunca foi iniciado em boa e devida forma, Charles Edward era reconhecido desde longa data “como tal” por muitos maçons do século XVIII. No crepúsculo de sua vida, ele finalmente aceitou esta coroa que todos lhe queriam colocar.

A única que ele jamais colocaria em sua cabeça.

Autor: Pierre Mollier

Tradução: José Filardo

Fonte: Revista BIBLIOT3CA

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Os (“Altos”) Graus escoceses iniciais tiveram origem na França?

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Para que se tenha a chance de entender por que algo inesperado aconteceu em um local específico, em um horário específico, parece lógico investigar o que aconteceu ali antes e durante esse período em outras partes do mundo e, em seguida, tentar descobrir se pode haver existido algum tipo de relação entre eventos que a princípio não pareciam relacionados entre si. Um médico não faria um diagnóstico antes de investigar o passado de um paciente (anamnese) e um tribunal não passaria uma sentença antes de investigar o passado de qualquer pessoa acusada de um crime grave.

Embora essa abordagem pareça razoável, muitos historiadores maçônicos seguem outra. Começam com uma opinião preconcebida, consideram um fato do qual tiram conclusões e misturam o resultado com algumas frases selecionadas de seus antecessores que usaram o mesmo método, dificilmente mencionando o que quer que tenham tomado emprestado. Tendo preparado assim um coquetel próprio, eles escrevem, chamam de trabalho de pesquisa ou de livro novo e colocam sua assinatura.

Os (altos) graus escoceses foram originários da França? A maioria dos autores maçônicos responde a essa pergunta com um enfático sim, mas estou longe de ter certeza de que eles estão certos. A afirmação parece ter se originado assim: escritores antimaçônicos seguidos por historiadores românticos franceses atribuíram uma origem francesa aos altos graus. Sua afirmação foi repetida de um livro para o outro sem controle. Então, em 1877, o Grande Oriente francês foi excluído da comunidade maçônica por razões bem conhecidas. Em uma situação que opunha uma Maçonaria deviacionista, de língua francesa, a uma respeitadora dos Landmarks, de língua inglesa, mais um pecado não importava muito. Pelo contrário, desde que “a Maçonaria pura e antiga” foi definida como composta apenas por três graus, incluindo o Arco Real, não era inconveniente adotar a opinião de que desde o início – desde a primeira metade do século XVIII – a Maçonaria francesa se desviou da linha pura e antiga.

Por volta da mesma época, nasceu a escola autêntica de pesquisa inglesa. Não se poderia esperar que membros da Loja Quatuor Coronati admitissem uma teoria não comprovada. No entanto, eles fizeram isso desde o início em outros domínios da pesquisa maçônica fundamental, como o das origens da Maçonaria:

Os fundadores da Loja cunharam a frase “escola autêntica ou científica” de pesquisa maçônica, que depois de cem anos levanta a questão de saber se eles cumpriram aquilo a que se propunham. Em seu apetite voraz por procurar evidências, a resposta é sim. No tratamento dessas evidências, penso que a resposta só pode ser um sim muito moderado, particularmente no que tange ao seu trabalho sobre as origens da Maçonaria. Eles examinaram, acharam falta e rejeitaram muitas das teorias mais estranhas de nossa existência e trataram da mesma forma as evidências fornecidas por Anderson. No entanto, eles não examinaram a premissa básica de Anderson de que a Maçonaria se desenvolveu diretamente a partir da maçonaria operativa. Isso eles parecem ter aceitado sem questionar e, como Darwin, passaram muito tempo procurando elos perdidos entre a maçonaria operativa e as evidências que vinham trazendo à luz sobre a maçonaria não operativa. Nisso, eles estavam se comportando de maneira não científica, buscando evidências para provar sua teoria, em vez de buscar evidências e analisá-las para ver o que poderia ser deduzido delas. (John Hamill, AQC 99, 1986, p. 4)

Buscar evidências para provar uma teoria equivale a escolher fatos e resulta em isolar eventos de seu contexto, o que a escola autêntica fez[1] e continua fazendo.

A Maçonaria do século XVIII não era a organização centralizada nacionalmente em que viria a se tornar. Ela se desenvolveu e mudou através da influência de irmãos que viajavam de um país para o outro, de uma parte do mundo para outra, trazendo consigo costumes e inovações de onde vieram e comunicando-os onde quer que chegassem. As Grandes Lojas Nacionais – nenhum Conselho Supremo ou órgão semelhante existia na época – tiveram pouca influência real nas ações individuais de seus membros. As regras do jogo eram diferentes.

Analisar os desenvolvimentos históricos e os rituais maçônicos fora desse contexto internacional, abordando-os com nossas regras atuais em mente, é provavelmente uma das razões pelas quais os historiadores do século XVIII maçônico são confrontados – e confrontam seus leitores – com situações inexplicadas ​​e inexplicáveis; pois tal técnica não faz sentido.

Pior ainda. Por mais de cem anos, os graus simbólicos e os graus adicionais são estudados em livros separados – ou em capítulos distintos de livros maçônicos – como se pertencessem a universos separados do mundo, sem feedback mútuo[2]. Esse não foi o caso ao longo do século XVIII, por exemplo, na Irlanda. Os historiadores irlandeses enfatizam o fato de que as Licenças emitidas por sua Grande Loja

forneceram às Lojas da jurisdição irlandesa certos poderes pelos quais elas julgavam ter plena autoridade para trabalhar qualquer grau maçônico sob seu mandado – um poder que exerciam a partir do momento em que eram criadas. O único limite para a prática exigia a presença de algum irmão competente para realizar as cerimônias […]. Consequentemente, os irlandeses garantiam que as Lojas, domésticas e no exterior, conferissem qualquer grau que desejassem, com pleno conhecimento e aprovação da G.L.[3][…] É difícil perceber que todos os graus já foram dados sob a única sanção e autoridade de uma Licença Simbólica. Antes da formação do Grande Capítulo e do Supremo Grande Acampamento, nos anos 1830, nenhuma outra Licença era conhecida. E assim, em nossos antigos Livros de Atas, encontramos os Graus mais altos e outros Graus secundários há muito esquecidos, conferidos aos Irmãos geralmente à taxa modesta de 5/5d. irlandeses ou 5/– ingleses. Cada Loja tinha chancelas separadas para estes graus[4].

No entanto, dois passos, ambos dados na Inglaterra, levaram à atual separação entre os Graus Simbólicos e outros graus. Em primeiro lugar, a redação do Artigo II dos Artigos da União ratificada por ambas as Grandes Lojas inglesas em 1813

É declarado e pronunciado que a Maçonaria Antiga pura consiste em três graus, e não mais; a saber: os de Aprendiz, Companheiro e de Mestre Maçom, incluindo a Ordem Suprema do Santo Arco Real. […]“

Segundo, o quinto dos Princípios Básicos, aceito pela Grande Loja Unida da Inglaterra, em 4 de setembro de 1929. O primeiro documento pôs fim às consequências negativas de uma situação maçônica estritamente inglesa, a saber, a existência de duas Grandes Lojas rivais na Inglaterra e suas colônias nos sessenta anos anteriores. O último expressou a avaliação inglesa da situação maçônica europeia entre as duas guerras mundiais.[5]

Algumas observações sobre a morte de Hiram

Antes de considerar se os graus Escoceses se originaram na França, vamos dar uma olhada na velha questão dos graus originais e de seus temas, uma vez que o conteúdo de um grau costuma ser mais revelador do que o nome ou o número atribuído a ele.

Historiadores da Maçonaria de língua inglesa admitem uma falta de manuscritos ou evidências impressas mostrando a evolução dos graus na Inglaterra entre 1730 (Maçonaria Dissecada) e 1760 (Três batidas distintas), uma falta pela qual Harry Carr cunhou a expressão ‘a lacuna de trinta anos’. Eles enfrentam a seguinte situação desconfortável:

  • uma primeira série de ‘catecismos’ e exposições emitidos entre 1723 e 1730, considerados incompletos porque “ não contém […] referência a uma oração ou a uma cobrança feita a irmãos recém-admitidos” (Knoop , Jones e Hamer , Catecismos Maçônicos Antigos , 1947, 2ª ed. [1963], p. 21 – Mesma ideia em Carr, AQC 94, 1981, p. 117);
  • o ‘intervalo de trinta anos’, de 1730 a 1760, durante o qual “um certo desenvolvimento [ocorreu]”, é um discreto eufemismo de John Hamill (The Craft , 1986, p. 65);
  • uma segunda série de exposições em inglês, começando com o Three Distinct Knocks (1760) e Jachin e Boaz (1762).[6]

No entanto, analisando, em 1980, as duas primeiras exposições em inglês da segunda série, Harry Carr fez uma pergunta que parece um pouco estranha em vista do exposto: “Por que ele [o autor de Jachin e Boaz usou a seção narrativa de abertura contendo práticas que eram estranhos para aos procedimentos ingleses?[7]. Em outras palavras: Carr admite a falta de elementos que permitam acompanhar a evolução do ritual inglês depois de 1730, mas não hesita em declarar certas práticas rituais de 1762 como procedimentos estranhos ao inglês[8].Bastante ilógico, não é?[9]

O porquê dos graus Escoceses ou os primeiros ‘altos’ graus terem sido inventados e trabalhados pode muito bem estar relacionado a duas perguntas:

– Quando a lenda envolvida em nosso atual terceiro grau se tornou parte da Maçonaria Simbólica?

– Qual foi a evolução da lenda em diferentes partes do mundo?

Uma evidência bem conhecida é que o assassinato do arquiteto fez sua primeira aparição impressa na Maçonaria Dissecada de Prichard, publicada em Londres, em outubro de 1730. Outra é que três graus distintos – ignoramos sua substância temática – foram trabalhados em Londres em maio de 1725:

Charles Cotton foi “feito maçom” em 22 de dezembro de 1724; algum tempo depois “Uma Loja foi realizada com Mestres suficientes para esse fim “a fim de passar Charles Cotton, Esc Mr. Papillon Ball and Mr. Thomas Marshall Companheiros.”; em 12 de maio de 1725, “Irmão Charles Cotton Esc | Irmão Papillon Ball foram regularmente passados a Mestres”).[10] 

Uma pista adicional foi aparentemente até agora ignorada. Está incluída em Um Diálogo Entre Simão e Felipe.

a) Um diálogo entre Simão e Felipe 

Por volta de 1943, a transcrição de um documento sem data – o manuscrito original foi considerado perdido – intitulado A Dialogue Between Simon, A Town Mason, & Philip, A Traveling Mason, foi trazida à atenção de Douglas Knoop, que a publicou na primeira edição (1943) de Catecismos Maçônicos Antigos (EMC). Naquele momento, Knoop, Jones e Hamer atribuíram a data de c.1740 ao documento. Depois que o Diálogo foi submetido e discutido na Quatuor Coronati Lodge, em 7 de janeiro de 1944, Knoop mudou de ideia e admitiu que poderia ter sido escrito já em c.1725. Felizmente, em 1945, um conjunto de fotografias que reproduzem o manuscrito original foi descoberto na Grand Lodge Library, em Londres (AQC 57, 1946, p. 21). A segunda edição (1963) da EMC, no entanto, não menciona nem a mudança sugerida de datação (pelo contrário, seu prefácio repete o c.1740) nem algumas diferenças entre a transcrição e o documento original, que incluiu dois esboços essenciais com as seguintes legendas:  “Esta é a forma das antigas Lojas” e “Esta Loja é a nova Loja sob o Regulamento Desaguliers”.[11]

Diálogo inclui as seguintes palavras:

E o Aprendiz Junior pega você pela mão e bate três vezes na porta. O Mestre pergunta: quem está lá. E o Aprendiz responde: Aquele que deseja ser feito maçom. A resposta do Mestre: Traga-o.

Nota: A razão para esses três golpes não é conhecida pelos Aprendizes, mas pelo Mestre, que é de HIRAM, o Grão-Mestre no TEMPLO DE SALOMÃO. Sendo assassinado por seus três Aprendizes e despachado pelo terceiro golpe que o último Aprendiz deu nele e isso porque ele não desvendaria os segredos para eles.[12]

Dizer que Hiram foi assassinado por seus três Aprendizes dá, eu acho, uma pista interessante para uma tentativa de datar o Diálogo, bem como para avaliar o estágio de desenvolvimento do sistema de graus no momento em que foi colocado no papel. Sugere as seguintes possibilidades:

  • Um ‘sistema’ composto apenas por dois graus: o grau de ‘Aprendiz’ seguido de um grau que incluía o assassinato de Hiram. Nesse caso, a datação pode ser anterior ao ano ( 1725) sugerido por Knoop numa segunda avaliação;
  • Um sistema de três graus no qual a lenda do nosso terceiro grau atual pertencia ao segundo grau, sendo o tema do terceiro desconhecido, mas possivelmente incluindo elementos conhecidos posteriormente como integrantes do Arco Real. Essa possibilidade foi exposta por Philip Crossle, um excelente estudioso irlandês, catorze anos antes da redescoberta do Diálogo.

b) Rito irlandês de Philip Crossle

Em 1927, Philip Crossle descreveu aquilo que o conteúdo temático do sistema nativo de três graus poderia ter incluído desde o início na Irlanda.

Primeiro Período. […]

Possivelmente a mesma prática, descrita por Pennell (1730):

  1. Aprendiz ou Irmão
  2. Companheiro
  3. Parte do Mestrado (M.M.), não restrito ao Presidente.

[…]

Segundo período.

Na medida em que se deu a conversão para o Arquismo Real, cuja data exata é impossível de ser definida, os três graus acima foram mantidos; mas os nomes foram mudados. […]

  1. Aprendiz Iniciante e Companheiro de Ofício (um grau), mais frequentemente chamado de ”Iniciante e Oficiando”.
  2. Mestre Maçom.
  3. Arco Real.

Aqui temos um sistema de apenas três graus. O número 1, o “aprendiz” de Pennell, ficou conhecido por um nome composto. Seu “Companheiro de Ofício”, tendo perdido seu significado anterior, deixou de representar um grau específico. O nome, apenas, foi unido ao primeiro grau, apenas para preservá-lo da extinção. O número 2, o “Companheiro de Ofício” de Pennell, foi rebatizado de “Mestre Maçom”. É importante manter isso em mente. O número 3, a “parte do Mestre” (M.M.) de Pennell, foi rebatizada de “Arco Real”. […] O significado do grau que nós, na Irlanda, chamamos agora de “Mestre Instalado” deve ter sido apenas uma parte da parte do Mestre de Pennell e parece ter sido fundido nas cerimônias conhecidas pelo nome geral de “Arco Real” do Segundo Período[13].[…] O Segundo Período nos apresenta as palavras “Arco Real”. Na minha opinião, nossa concepção do grau que leva esse nome não foi uma invenção – era a “parte do Mestre” (M.M.) de Pennell, revestida de um novo nome[14].

c) Algumas ideias de Robert J. Meekren[15]

J. Meekren seguiu uma trilha mais conservadora. Entretanto, sua experiência com vários rituais em diferentes partes do mundo permitiu que ele estudasse o ritual de M.M. com a abordagem comparativa recomendada por Douglas Knoop (The Genesis of Freemasonry, p.16). As citações, a seguir, de artigos que Meekren escreveu e de comentários que ele fez sobre trabalhos de outros estudiosos abrem perspectivas interessantes.

Aliás, há um grande mistério que é, ou parece ser, insolúvel por pura falta de evidência ou mesmo sugestão a respeito; e foi quando, e como, o motivo Elu foi incluído no terceiro grau tal como este é tratado nos países de língua inglesa. Não há nenhum vestígio disso em qualquer forma do grau de M.M. na Europa Continental. Isso deve ter ocorrido antes de 1760 e (como parece) depois de 1730. (AQC 68, 1956, p. 109)

Não há nada em Prichard ou em Le Secret sobre procurar a Palavra no túmulo de H.A.B.; por outro lado, é dito em Prichard que a Palavra foi perdida, e também é dito que “agora é encontrada”. Nas versões atuais na França – e que quase certamente refletem as formas então favorecidas nos círculos da Grande Loja na Inglaterra – a Palavra não está perdida. Aqueles que foram enviados para procurar o H.A.B. sabiam qual ela era, mas concordaram em alterá-la pelas razões apresentadas. A única forma da lenda hirâmica na qual se diz que a Palavra é procurada é a do rito de York na América, que descende do ritual dos “Antigos”. Neste, os pesquisadores são cobrados a “observar se palavra-chave do Mestre ou uma chave para ela deveria ser encontrada no corpo ou sobre ele”. Isso me parece o resquício de uma tradição ainda mais antiga, como indicaria o relato de Prichard, porque nada é feito dela, nem é mencionada de novo. Eu acho que a versão francesa pode muito bem ter sido uma das coisas que os “Antigos” objetaram no ritual dos autodenominados “Modernos”. (AQC 72, 1960, p. 50)

No Rito de York, que é quase universal nos Estados Unidos e que é o ritual dos “Antigos” um pouco elaborado, a ideia bastante fantástica de que aqueles Companheiros que descobriram o corpo do Mestre desaparecido tornaram-se automaticamente Mestres Maçons através de sua exclamação diante do túmulo é completamente evitada. A essência da história é que os dois reis e Hiram Abif formaram a primeira Loja de Mestres, e os Artesãos haviam prometido que, quando o Templo estivesse concluído, eles (ou seja, todos os que fossem julgados fiéis e, suponho, competentes) receberiam os segredos do Mestre como recompensa. Como os três concordaram ou se obrigaram a não comunicar esses segredos que haviam adotado, exceto quando os três estivessem presentes, o combinado era que, quando um deles estivesse ausente, isso não poderia ser feito. A mesma situação aparece no manuscrito Graham com os dois irmãos do rei Alboyne. Assim, embora os dois reis soubessem quais eram os segredos originais, eles não poderiam comunicá-los e, portanto, ficariam perdidos para aqueles que esperavam recebê-los. Consequentemente, o rei Salomão, que comparece ao túmulo quando o corpo de Hiram é levantado, anuncia que, embora os sinais e palavras adotados primitivamente pelos três Mestres originais (chamados Grandes Mestres) estejam efetivamente perdidos, ele os substituirá por outros, para que os dignos artesãos recebam o status de Mestres, embora não com a palavra pretendida originalmente. A palavra é especialmente enfatizada, embora os sinais também sejam mencionados.

Obviamente, o efeito da versão inglesa é praticamente o mesmo. Mas na França a história é radicalmente diferente. Não havia um acordo como o relatado nas versões inglesa e americana da história e, evidentemente havia mais de três Mestres, pois os descobridores do corpo, em muitos casos, são considerados Mestres, nove deles em uma versão que, temendo que os três assassinos possam ter obtido a palavra (evidentemente considerada apenas uma senha), concordam em alterá-la e, ao relatar isso, aquela que deveria ter sido a palavra original é abertamente contada ao candidato. Houve substituição, mas não houve perda – foi o Mestre que se perdeu. E enquanto nos modernos rituais franceses e outros europeus essa ideia evoluiu um pouco, ela permaneceu essencialmente a mesma desde o início, pois ela aparece, como ressalta que o irmão Ward, nos primeiros documentos franceses. (AQC 75, 1962, p. 172)

Para permitir que os leitores percebam as implicações das observações de R. J. Meekren, alguns textos relevantes são transcritos nos Apêndices 2 – 4 deste artigo. Eles incluem:

  • Partes do testemunho de John Coustos (vide anexo 3) feitas perante a Inquisição Portuguesa, em Lisboa, em março de 1743, sob a ameaça de tortura[16]. Em 1982, o padre José A. Ferrer Benimeli, s.j., transcreveu e emitiu a ata original da Inquisição e outros documentos referentes à prisão de Coustos[17]. Uma frase, “Ele disse ainda que ele, o prisioneiro, aprendeu todo o assunto acima exposto no Reino da Inglaterra”, é do maior interesse em relação a um elemento ritual mencionado por Coustos: “quando ocorreu a destruição do famoso templo de Salomão, foi encontrada, embaixo da primeira pedra, uma tábua de bronze sobre a qual estava gravada a seguinte palavra, Jeová, que significa Deus”.
  • Trechos de duas exposições francesas, Catechisme des Franc-Masons (1744) (vide anexo 4) e L’Ordre des Francs-Maçons Trahi et le Secret of Mopses Revelé (1745), onde aparecem em palavras quase idênticas.
  • Trechos paralelos da Parte do Mestre incluídos em Três Batidas Distintas (1760) (vide anexo 5) e em Jachin e Boaz (1762). Em ambos, os três assassinos são condenados e executados.

d) Comentários do Dr. Pott

Em um notável artigo traduzido do holandês que apareceu em Le Symbolisme (maio-junho de 1964, nº 365), o Dr. P. H. Pott resumiu as consequências do mito da morte de Hiram e sua possível influência nos temas dos graus Escoceses.

A Maçonaria ‘Azul’ dos graus simbólicos tem sua origem em determinados elementos relacionados à construção do Templo do rei Salomão. Nos graus de Apr. e Comp., eles são apresentados sob um aspecto extremamente indiferenciado, isto é, como um resumo geral preocupado com a construção de um templo, considerado de um ponto de vista simbólico. No grau de M. M., no entanto, tais elementos tornam-se mais precisamente delineados através do mito. O ponto não é mais, abstratamente, aquele da construção em geral, mas diz respeito a um evento trágico que ocorre dentro da aparência simbólica de um edifício considerado como um todo.

[…]

Indo além, pode-se dizer que o evento que ocorre no grau do M.M. acarreta consequências específicas que permanecem incompletas:

a) o assassinato de H.A. perturba a ordem das coisas: implica pôr fim a uma situação anormal e, consequentemente, prender e punir os culpados por seu crime, ou seja, exercer uma vingança justificada sobre eles;

b) a morte de H.A. resulta em uma interrupção dos trabalhos. Consequentemente, torna-se necessário encontrar um novo arquiteto, o mais competente possível, capaz de prosseguir com as obras e concluir o edifício da melhor maneira possível;

c) por causa do assassinato de H.A., a Palavra-Mestre se perdeu e todos os esforços devem ser feitos para recuperá-la.

A partir do momento em que alguém se sente instigado a dar uma sequência aos graus do Ofício, pode encontrar uma oportunidade numa das consequências mencionadas acima. E foi isso que de fato aconteceu.

Primeira evidência do Écossais, ‘Escocês’ ou dos ‘Altos Graus’

Vamos agora considerar as evidências sobre as primeiras aparições do Écossais, “escocês” ou “altos” graus em diferentes partes da Europa.

1 – A Loja irlandesa de Lisboa – agosto de 1738

Philip Crossle, cujas ideias sobre o Rito Irlandês foram mencionadas acima, ficaria interessado em ler uma declaração feita perante a Inquisição, em Lisboa, em 1º de agosto de 1738, por Hugo O’Kelly, então Mestre de uma Loja local, que, por volta de 1733, começou a trabalhar, e era então composta principalmente por Irmãos irlandeses. Provavelmente é a Loja N ° 135, licenciada em 17 de abril de 1735 pela primeira Grande Loja da Inglaterra, e que foi fundada por um matemático escocês chamado George Gordon[18].

A primeira bula papal contra os maçons, In Eminenti, foi lançada em 28 de abril de 1738, promulgada em Portugal em junho, e seu texto foi afixado nas portas das igrejas em Lisboa logo depois. Chamado como testemunha, O’Kelly declarou

que, assim que soube que o Santo Padre […] proibira tais reuniões, escreveu imediatamente a todos os membros de sua Loja [e] deu ordens para que não houvesse mais reuniões desse tipo […]”.

No decurso de seu testemunho – ao contrário de Coustos, cinco anos depois, ele não foi ameaçado de tortura e fez seu depoimento por vontade própria – Hugo O’Kelly disse que tornou-se Maçom na Irlanda, antes de chegar a Portugal, por volta de 1734-1735. Ele descreveu os sinais feitos “com a mão direita”, que pertenciam às três classes de maçons, e acrescentou:

e há mais duas classes que eles chamam de Excelentes Maçons, e de Grande Maçom, que estão acima de todas as outras e superiores às que ele, a testemunha, exercitou”.[19]

2 – Inglaterra

Durante os últimos cem anos, a autêntica escola inglesa descobriu muitos fatos que não se encaixavam na teoria do nascimento francês dos graus Ecossais, mas seus membros estavam tão convencidos de sua verdade que nem parecem ter considerado “uma reavaliação dolorosa” da evidência. Nenhuma tentativa foi feita para investigar se esses fatos faziam parte de uma situação geral na Inglaterra. Nada aparentemente sobreviveu em termos de ritual ou conteúdo dos graus mencionados a seguir.

a) Listas antigas de Lojas, 1733 e 1734

Na lista de manuscritos de Rawlinson do ano de 1733, a Loja n°115 se reuniu na Devil Tavern, Temple Bar, Londres, e foi descrita como “uma Loja de Maçons Escoceses”. Na lista gravada de Pine, de 1734, a mesma Loja aparecia como uma “Scott’s Masons Lodge”. Em junho de 1888, depois de ter mencionado as duas listas e citado Gould (“Os graus escoceses parecem ter surgido, por volta de 1740, em todas as partes da França”), John Lane fez uma pergunta sensata:  

Agora, se os graus “escoceses”, ou Lojas “escocesas” se originaram primeiro na França, e não até 1740, duas questões surgem naturalmente. (1) Onde nossos irmãos ingleses obtiveram a denominação distinta de um “Scotch” ou “Scott’s Masons Lodge”? e, (2) o que constituía sua peculiaridade em 1733? Respostas satisfatórias a essas perguntas seriam muito aceitáveis, mas não posso fornecê-las.[20]

b) A Loja existente em Bear, Bath, 1735

“Em 28 de outubro de 1735 A Loja se reuniu Extraordinária quando o nosso Valoroso Irmão Dr. Kinneir foi admitido e tornado Maçom. […] Na mesma data Loja de Mestres reuniu-se Extraordinária e nossos seguintes Valorosos Irms foram tornados e admitidos Mestres Maçons Escoceses (Scots Mastr Masons). [ dez nomes]. Presente. Hugh Kennedy S.M., David Threipland S.S.W.[21], David Dappe S.J.W. ”

Edward Armitage transcreveu o texto acima do Livro de Atas da Loja e comentou:

Desses três, só Hugh Kennedy pertencia à Loja da qual ele era Mestre quando as atas começaram a ser lavradas, em dezembro de 1732, e quando a Loja foi constituída como Loja regular, em 18 de maio de 1733, saindo em 27 de dezembro de 1733. Encontrei o nome de David Threipland como membro da Loja em Bear and Harrow, na Butcher Row, em 1730. Dos que receberam grau, os quatro últimos não eram membros da Loja; Dr. Toy era D.M. do País de Gales enquanto Wm. Nisbett, Esc., e Henry Balfour, Esc. tiveram o grau de Mestre conferido a eles naquele dia, aparentemente, para permitir que eles passassem para o Grau de Mestre Escocês. Na reunião seguinte da Loja, em 17 de novembro de 1735, Hugh Kennedy, John Morris, B. Ford e David Threipland têm as letras S.M. após seus nomes.[22]

c) Old Lodge Nº.1, Londres, 1740

“17 de junho de 1740. | Os seguintes membros desta Loja | Esta noite foram feitos Mestres Maçons Escoceses pelo Irm. Humphry’s do Mourning Bush Aldersgte. | [seguem nove nomes]”

Harry Rylands transcreveu o texto acima do Livro de Atas C da Old Lodge nº 1, que em 1717 se reuniu no Goose and Gridiron em Londres, e escreveu:

Na ata acima, a palavra “Mestre” é escrita sobre a palavra “Maçons”; evidentemente, ele pretendia inicialmente escrever que os membros foram feitos “Maçons Escoceses” e fizeram a correção para “Mestres Maçons Escoceses”. Vale notar que apenas dois dos presentes na reunião de auditoria não foram nomeados maçons escoceses: Richard Wotton e Richard Reddall, e, a menos que se possa supor que eles já possuíam o grau e ajudaram Humphreys, deve-se concluir que os membros da Loja foram, como afirmam as Atas, “feitos Mestres Maçons Escoceses pelo Irm. Humphry’s” sozinho. Também pela forma do registro e pelo fato de que vários, se não todos, daqueles cujos nomes foram fornecidos já eram Mestres Maçons, o grau de Mestre Escocês deve ter sido algo diferente do grau que já haviam recebido na Maçonaria Inglesa. Sou inclinado a pensar que o grau dado na Loja por Humphreys não era o grau estrangeiro de mesmo nome, mas o mesmo que era dado nas Lojas de Scott’s [Master] Masons’ [17] de 1733-34.[23]

d) Lodge at the Rummer, Bristol, 1740

18 de julho de 1740: “Orden’do & acordado Que Irm. Tomson & Irm. Watts [1º Vig e 2º Vig p.t. ] e qualquer outro membro desta L. que já seja Mestre Maçom pode se tornar Mestre Escocês…”. 15 de agosto de 1740: “Ordenado – Irm. Byndloss seja na próxima noite pass’do f.c. e que os Mestres Maçons sejam feitos Mestres Escoceses e esta L. para se encontrar às 5 horas para esse fim”. 07 novembro de 1740: “segundo a ordem de [sic] 18 jul 1740 Ir. Watts & Ir. Noble & Ir. Ramsay e Horwood & Morgan foram elevados a Mestres Escoceses e, ao mesmo tempo, Ir. Wickham e Ir. Pirkins foram elevados a Mestres”.[24]

e) O H-d-m Escocês, ou Antiga e Honorável Ordem de K-n-g (1743 [ 1741?] – 1750)

Em 26 de novembro de 1743, o seguinte anúncio apareceu em um jornal de Londres:

Os Irmãos do H —— d—— m Escocês, ou Antiga e Honorável Ordem de K—— n—— g, desejam encontrar o Grão-Mestre da referida Ordem, e o resto de seus Grandes Oficiais, no sinal do Cisne na Great Portland-street, perto de Oxford-Market, na próxima quarta-feira, exatamente às três horas da tarde, para celebrar o Dia. Por ordem do Grão-Mestre, E.W., Grand Sec.[25]

Duas semanas depois, em 11 de dezembro de 1743, um Capítulo da Ordem foi formado na Golden Horseshoe, Cannon Street, em Southwark, um bairro de Londres. Foi o quinto capítulo pertencente à Ordem, mas o primeiro mostra quando foi formado, uma vez que os quatro anteriores que afirmavam ser de Tempo Imemorial. Outros anúncios relacionados à Ordem apareceram em 1 de agosto de 1750 (reunião da Grande Loja e Grande Capítulo, assinada “Por Comando do P.G.M., N.B.L.T.Y.  Grande Secretário”) e em 17 de novembro de 1753 (reunião do Grande Capítulo da Ordem H.R.D.M., assinado como acima).

Em 1750, um certo William Mitchell, de Haia, recebeu vários documentos da Ordem em Londres, entre os quais uma patente nomeando-o

Grão-Mestre Provincial da Ordem do H.R.D.M. em todas as Sete Províncias Unidas”. No corpo da patente, é feita referência ao “o Justo Honável e Justo Venável Príncipe e Supremo Governante e Governador do Grande S.N.H.D.R.M. e Grão-Mestre do H.R.D.M. de K.L.W.N.N.G.”. A patente foi entregue a Mitchell pelo “SIR ROBERT R.L.F. Cavaleiro da Ordem do R.Y.C.S., Guarda da Torre do R.F.S.M.N.T., Presedente dos Juízes e Conselheiro do Grande S.N.H.D.R.M. e Grão-Mestre Provincial do H.R.D.M. de K.L.W.N.N.G. no S.B.” e datado assim: “Dado sob minha mão e o | Selo do meu Escritório em Londres | neste vigésimo segundo dia de julho | A.D. 1750, A.M.H. 5753 e em | o Nono Ano do meu Provincial | Grão Mestrado”.[26]

De acordo com as últimas palavras, a Ordem deve ter existido em Londres pelo menos desde 1741. Pode ter existido mais cedo caso Sir Robert R.L.Fnão tenha sido seu primeiro Grão-Mestre Provincial de Londres.

3 – Prússia – novembro de 1742

A sexta edição (1903) da história da Grande Loja-Mãe Nacional dos Três Globos, em Berlim, inclui o seguinte:

Em 30 de novembro, dia de Sto. André, 1742, os irmãos Fabris, Roman, Fromery, Finster, Perard e Robleau, membros da Loja aux trois Globes, foram autorizados por ela a estabelecer uma Loja Escocesa sob o nome de l’Union “para deixar seus irmãos mais novos aspirarem à mais elevada ou assim chamada Maçonaria Escocesa”. Essa Loja Escocesa, composta por membros da Loja de São João, existia além dela, sem exercer nenhum tipo de autoridade sobre ela nem interferir de alguma forma com sua administração, e possuía seu próprio caixa.[27]

Jacopo ou Jacobus Fabris era ser eleito Mestre da Loja Três Globos de Berlim, em 30 de Outubro de 1744. Pintor, nascido por volta de 1689, em Veneza, e falecido em 1771 em Copenhague (Dinamarca), ele foi tornado Maçom na Union Lodge, Londres[28]. Philipp Friedrich Steinheil, fundador e primeiro Mestre da Union Lodge de Frankfurt am Main, em 1742, havia sido membro da mesma Loja em Londres junto com Fabris[29]. Nenhum dos nomes existe nas primeiras listas de membros, incluídas nos dois primeiros livros de atas da primeira grande Loja da Inglaterra, transcritos em Quatuor Coronatorum Antigrapha, vol. X (1913).

Quando Eric Ward mencionou a Berlin Union Lodge antes da Quatuor Coronati Lodge, em 1962, ele comentou:

o fato de as Lojas ‘escocesas’ (scots) terem sido montadas em 1742 em Berlim, em 1744 em Hamburgo e em 1747 em Leipzig, todas de origem francesa [?], parece provável [!] que o conhecimento do grau em sua forma primitiva em Londres e Bath em 1735 fosse, similarmente, derivado da França”.[30]

Para apoiar a origem francesa reivindicada para essas Lojas, Ward referiu-se em uma nota de rodapé a uma tradução, para o inglês, de Findel, originalmente escrita em 1866! Findel citou Lachmann, que afirmava que “o grau escocês de Ramsay chegou cedo na Alemanha, provavelmente através de Graf Schmettow”[31]. Lachmann acreditava na existência do mítico grau escocês de Ramsay e ignorava que dois maçons distintos se chamavam Schmettow. Não há evidências de que o barão Gottfried-Heinrich (1710-1762), tornado maçom na Três Globos, em 13 de setembro de 1740, alguma vez tenha tido algo a ver com os graus escoceses de Berlim. Seu primo, Graf Woldemar (Dresden, 1719 – Copenhague, 1785), fundou a primeira Loja Escocesa (Scotch Lodge) em Hamburgo, em 1744. Após 1746, sua carreira militar e maçônica transcorreu na Dinamarca[32].

4 – França – dezembro de 1743

Até onde sei, a primeira referência documental aos graus Écossais na França está incluída em um conjunto de regulamentos gerais adotados pela Grande Loja, reunida em Paris, em 11 de dezembro de 1743, no dia em que o conde de Clermont foi eleito Grão-Mestre, dois dias após a morte de seu antecessor, o duque de Antin. Seu vigésimo e último artigo diz:

Como parece que recentemente (depuis peu) alguns irmãos se anunciam como Scots Masters (maîtres Ecossais), reclamando prerrogativas em Lojas particulares e afirmando privilégios dos quais nenhum vestígio pode ser encontrado nos antigos arquivos e usos das Lojas espalhadas pelo globo, a Grande Loja, a fim de consolidar a unidade e a harmonia que deve reinar entre os maçons, decretou que esses Mestres Escoceses, a menos que sejam Oficiais da Grande Loja ou de uma Loja particular, não deverão ser tratados com mais consideração pelos irmãos do que os demais aprendizes e companheiros, e não devem exibir quaisquer sinais de distinção.[33]

A data de 11 de dezembro, 1743 em conjunto com as palavras depuis peu (recentemente) deveria ser mantida em mente ao se afirmar que os ‘altos’ graus se originaram na França.

Gould, membro do comitê designado pela Grande Loja Unida da Inglaterra, em 5 de dezembro de 1877, para considerar a recente ação do Grande Oriente da França, viu no artigo acima um sinal das “primeiras inovações no ritual” na França (History of Freemasonry, vol. III, 1886, p. 141). Eric Ward, embora familiarizado com a maioria das evidências inglesas acima citadas, chamou em seu socorro um trabalho escrito em 1797, por John Robison, um dos primeiros autores antimaçônicos, para justificar a opinião que expressou em seu artigo de 1962, assim:

A riqueza de referências a Mestres Escoceses (Scots Masters) na literatura do continente, em comparação com a escassez na Inglaterra (e a total ausência na Escócia), leva inevitavelmente [sic] à visão de que isso era de origem francesa. John Robison continua […] dizendo: “Aconteceu que a Maçonaria simples, importada da Inglaterra, foi totalmente alterada em todos os países da Europa, seja pela impressionante ascensão de irmãos franceses… ou pela importação de doutrinas e cerimônias das Lojas parisienses. Até a Inglaterra, local de nascimento da Maçonaria, experimentou as inovações francesas; e todas as repetidas injunções, advertências e repreensões das antigas Lojas não podem impedir que pessoas de diferentes partes do Reino aceitem as novidades francesas… (Provas de uma conspiração, p. 9).[34]

3 – Conclusão

Depois de colocar minhas informações à disposição do leitor, cabe agora a ele decidir se os graus Écossais (antes “altos”) se originaram na França ou em outro lugar… por exemplo, na Irlanda ou na Inglaterra.

Se ainda houver dúvidas em sua mente, devo lembrá-lo de uma observação feita por Henry Sadler, historiador inglês cujo bom senso e senso de humor eu admiro muito: Isso pode ser verdade ou não, você deve aceitar pelo que vale; de minha parte, direi digo francamente a você que não engulo tudo o que leio nas Enciclopédias, maçônicas ou não” (AQC 23, 1910, p. 327), palavras que, presumivelmente, também podem ser aplicadas a muitos livros maçônicos.

Autor: Alain Bernheim
Tradução: S.K.Jerez

Fonte: BIBLIOT3CA

Publicado originalmente em: Pietre-Stones Review of Freemasonry

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Notas

[1] – “A escola autêntica […] estava inclinada a considerar isoladamente os desenvolvimentos maçônicos em cada país“ (Douglas Knoop e GP Jones The Genesis of Freemasonry , 1947, p. 16).

[2] – A ideia parece inicialmente ser apoiada pela circular aprovada pelo Conselho Supremo dos Estados Unidos em Charleston, em 4 de dezembro de 1802 (Walgren Nr. 15, Heredom vol. 3, p. 69). Incluía um relatório escrito por três membros do Conselho, Frederick Dalcho , Isaac Auld e Emanuel De La Motta, que afirmavam: “Embora muitos dos graus sublimes sejam, de fato, uma continuação dos graus azuis, ainda não há interferência entre os dois corpos“. Quando a Circular foi reimpressa, alguns meses depois, em Charleston (Oration, 21 de março de 1803, por Frederick Dalcho, na sublime Grande Loja da Carolina do Sul, Charleston. Charleston [1803]. Walgren Nr. 22, ibid., P. 72), o parágrafo que inclui as palavras acima tornou-se uma nota de rodapé esclarecedora (Apêndice, p. 64) que Emanuel De La Motta achou importante o suficiente para reproduzir em sua ‘Réplica’, publicada em Nova York, em 5 de setembro de 1814, em nome de seu Supremo Conselho: “Embora os Sublimes Maçons, neste país, não tenham iniciado ninguém nos graus Azuis, ainda assim seus conselhos possuem o direito irrevogável de conceder mandados para esse fim. É comum no continente europeu e pode ser o caso aqui, caso as circunstâncias tornem necessário o exercício desse poder. A legalidade desse direito deriva da mais alta autoridade maçônica do mundo e pode ser demonstrada para a perfeita satisfação de todos os órgãos maçônicos, judiciais ou legislativos. […] “ A ‘Réplica’ de La Motta ou resposta à Réplica de Cerneau (Walgren Nr. 36, ibid. , P. 80-81) é reproduzida na íntegra em alguns livros relativamente escassos: Joseph M’Cosh , Documents on Sublime Free-Masonry in the United States of America, Charleston 1823 (Walgren Nr. 55, ibid., P. 90), citação acima, p. 62; Robert B. Folger, The Ancient and Accepted Scottish Rite, in Thirty-three degrees, […] Nova York 1862, citação acima no Apêndice, p. 155; [Charles S. Lobingier ], The Supreme Council, 33 ° , Louisville, Ky., 1931, citação acima, p. 112.

[3] – William Jenkinson , Two Hundred Years of Masonry in the City of Armagh’, The Lodge of Research, No CC, Ireland. Transactions for the Year 1925 (impresso em 1933) , p. 107 Jenkinson tornou-se membro da Quatuor Coronati Lodge em 1934. Morreu em 1956.

[4] – Jenkinson , ‘In the Days of our Forefathers: Old Customs of the Irish Craft’, The Lodge of Research, No CC, Ireland. Transactions for the Years 1939-46 (impresso em 1948), pp. 35-36.

[5] – O momento em que os Princípios Básicos foram adotados foi infeliz. Isso resultou em apoiar dois anos mais tarde as Grandes Lojas Alemãs, que tentaram lidar com Hitler e, eventualmente, expressaram sua concordância com ele, e se recusaram a reconhecer a nova Grande Loja Simbólica da Alemanha, fundada em 1930, que se opôs a Hitler desde o início.

[6] – A autenticidade do ritual impresso em Jachin e Boaz foi estabelecida sem dúvida por Paul Tunbridge em seu artigo sobre Emanuel Zimmermann (AQC 79, 1966).

[7] – Três batidas distintas e Jachin e Boaz , com uma introdução e comentários de Harry Carr , The Masonic Book Club, vol. 12, 1981, p. [181].

[8] – Ver Henri Amblaine [= Alain Bernheim ] , ‘Masonic Catechisms and Exposures’, AQC 106, 1993, pp. 150-151.

[9] – Ser ilógico é descrito como uma característica britânica comum por Knoop e Jones: “Para o bem ou o mal, a maçonaria de Londres e Westminster na época de Walpole mostrou as quesão consideradas como características britânicas comuns. Primeiro, pode-se notar uma relutância ou incapacidade de seguir um argumento até o fim, e uma disposição a se satisfazer com uma posição um tanto ilógica“(AQC 56 , 1943 , p. 48).

[10] – Atas da Philo Musicæ e Architecturæ Societas Apollini , citadas por Gould, AQC 16, 1903, pp. 113-114.

[11] – Fac-símiles de ambos os esboços são reproduzidos em AQC 57, 1946, entre as pp. 10 e 11.

[12] – AQC 57, 1946, p. 9. Texto corrigido por JH Lepper após as fotografias do manuscrito original (ibid., Nota de rodapé 1, p. 7).

[13] – Philip Crossle , ‘The Irish Rite’, Dirigido à The Manchester Association for Masonic Research, 31 de março de 1927. Reproduzido em The Lodge of Research, No CC, Irlanda. Transactions for the Year 1923 (impresso em 1929), pp. 155-275. Citação atual: pp. 160-161.

[14] – Crossle, ibid., p. 193. Richard E. Parkinson, no segundo volume de The History of the Grand Lodge of Free and Accepted Masons of Ireland (1957) , observou, p. 321: “A massa de evidências que ele [Philip Crossle ] apresentou é sólida, mas deve-se admitir que sua teoria, por mais atraente que seja, ainda não obteve o apoio de estudiosos maçônicos fora da Irlanda“.

[15] – Robert James Meekren (Londres, 1876 – 1963) passou a maior parte de sua vida no Canadá. Foi editor do The Builder de 1925 a 1930 (de acordo com Wallace McLeod, citado por Art deHoyos ) e tornou-se membro da Quatuor Coronati Lodge em 1949.

[16] – Coustos nasceu em 1702 ou 1703, em Berna (Suíça), e seus pais foram para a Inglaterra. Seu nome é listado em 1730 como membro da reunião da Loja no Rainbow Coffee House, em Londres. Então ele pertenceu a uma nova Loja em Londres, licenciada em 17 de agosto de 1732 sob o nº 98, que se reunia reunida na Prince Eugene’s Coffee House, e que iria tomar o nome de Union French Lodge, em 1739. Ele se mudou para a França por volta de 1736 e era o Mestre de uma Loja em Paris, cujas atas existentes vão de 18 de dezembro de 1736 a 17 de julho de 1737. Coustos deixou a França por Portugal em 1741 e fundou uma Loja em Lisboa. Foi preso pela Inquisição em 14 de março de 1743 e permaneceu na prisão por quinze meses, durante os quais foi interrogado várias vezes e torturado três vezes. Os registros dos interrogatórios, traduzidos para o inglês, foram publicados na AQC 66 (1956) e 81 (1968). Eles fornecem informações altamente interessantes sobre a prática ritual maçônica. Wallace McLeod dedicou dois artigos a Coustos e suas Lojas (AQC 92 e 95, 1979 e 1982) e escreveu a Introdução da reimpressão de Os Sofrimentos de John Coustos, anunciada para venda em Londres, em 31 de janeiro de 1746 (vol. 10 do The Masonic Book Club, Bloomington, 1979).

[17] – José A. Ferrer Benimeli , Masoneria , Iglesia e Illustracion , Madri 1982, vol. II., Pp. 440-468, apêndices n ° 45 A – 45 X.

[18] – Ver atas da Premier Grand Lodge, de 17 de abril de 1735, Quatuor Coronatorum Antigrapha, vol. X (1913), p. 254.

[19] – Vatcher , ‘A Lodge of Irishmen at Lisbon, 1738’, AQC 84, 1971, p. 88. Atas originais da Declaración de Hugo O’Kelly, Ferrer Benimeli , op. cit., vol. I, apêndice N ° 40 C, pp. 304-305: “[…] e há mais duas a que chamao mas apenas Chamao Massones Excelentes e e há mais duas a que chamao Massones excelentes, e Masson grande, que he sobretodos, e mais superioir a qual elle testemunha exercitava”.

[20] – John Lane, AQC 1, 1886-1888, pp. 167 e 173. Também ver John Lane, A Handy Book…, 1889, pp. 24-25, e W. J. Hughan , The Engraved List of Regular Lodges from A.D. 1734 , 1889, p. 26.

[21] – W. R. S.  Bathurst (AQC 75, 1962, p. 168) sugere que David Threipland era o 2º Baronete do Castelo de Fingask , perto de Dundee, que ingressou na Earl of Mar em 1715 e morreu em 1746, ou um dos os filhos dele.

[22] – Edward Armitage, AQC 32, 1919, pp. 40-41. Em 8 de janeiro de 1746, dois irmãos “hoje foram feitos Mestres Escoceses“. Cinco “foram feitos maçons escoceses“ em 27 de novembro de 1754. Em 17 de fevereiro de 1756, dois irmãos “foram devidamente elevados a Mestres Maçons Escoceses. Ao mesmo tempo, Thomas Miller, o Desenhador da the Bear Inn, e John Morris, o Telhador, ambos Servos desta Loja, foram, para a conveniência dos negócios desta Loja, também elevados a Mestres Maçons Escoceses“. Em 14 de abril de 1758, “a Loja achou extra’ para elevar [nove nomes] Maçons Escoceses“ (Atas da Loja, citado por Eric Ward, AQC 75, 1962, pp. 132-133).

[23] – Records of the Lodge Original, No. 1. Now the Lodge of Antiquity, No. 2. Editado por W. Harry Rylands , impresso em particular em 1911, pp. 105-106.

[24] – A Loja foi autorizada sob o nº 137, 12 de novembro de 1735. Seu primeiro livro de Atas foi comprado de particulares em 1924 (Cecil Powell, AQC 49, 1939, p. 160). Acima extratos desse livro de atas, citado por Eric Ward, AQC 75, 1962, pp. 131-132.

[25] – F. W. Levander , ‘The Collectanea of the Rev. Daniel Lysons , FRS, FSA ‘, AQC 29, 1916, p. 26. Ver R. S. Lindsay (editado por A. J. B. Milborne ), The Royal Order of Scotland , 1972, p. 26.

[26] – Citações da patente de Mitchell, de Lindsay, op. cit., pp. 40-41. Lindsay declarou: “a Ordem é especulativa e, um estágio além da Maçonaria Simbólica, […] a Ordem foi fundada entre 1725 e 1741 como um protesto contra a eliminação de elementos cristãos dos três graus de Maçonaria Simbólica. (Op. Cit., P. 25-26).

[27] – “Am 30. November, dem St. Andreastage , 1742, stifteten die Brr. Fabris , Roman, Fromery , Finster , Perard e Robleau der Loge aux trois Globes mit deren Genehmigung “ fur das Emporstreben ihrer jungeren Brr. zur höhere oder sogenannten schottischen Maurerei “ eine Schottische Lodge unter dem Namen de União , welche Dann neben der Johannisloge und aus Mitgliedern derselben Fortbestand , ohne irgend eine Hoheit uber diese auszuuben , sich auch em Deren Verwaltung nicht einmischte , vielmehr ihre eigene Kasse hatte “. Geschichte der Grossen National- Mutterloge in den Preussichen Staaten genannt zu den drei Weltkugeln , 6a ed., Berlim 1903, pp. 14-15.

[28] – K. L. Bugge , Det Danske Frimureries Historie indtil Aar 1765 , vol. 1, Kj¢benhavn 1910, p. 47.

[29] – Georg Kloss , Annalen der Loge zur Einigkeit , 1842, p. 9. Alain Bernheim, Les Débuts de la Franc-Maçonnerie à Genève et en Suisse,  1994, pp. 67-68.

[30] – Eric Ward, AQC 75, 1962, p. 160.

[31] – Dr. Heinrich Lachmann , Geschichte und Gebräuche der maurerischen Hochgrade und Hochgrad-Systeme , Braunschweig 1866, p. 4.

[32] – Matthias G., Graf von Schmettow , Schmettau und Schmettow , Geschichte eines Geschlechts aus Schlesien [ Schmettau e Schmettow, Story of a family from Silesia], Buderich bei Dusseldorf, 1961. Bugge , op. cit., p. 47. Bernheim , op. cit., p. 67.

[33] – O 200 artigo  foi conhecido por Daruty (Recherches sur le Rite Ecossais Ancien Accepté, 1879, p. 97) e por Gould (History of Freemasonry, vol. III, pp. 141-2). Ambos o retraduziram de uma tradução alemã reproduzida em Findel (3d German ed., 1870, p. 285), originalmente publicada em ‘Zeitschrift fur Freimaurerei‘ (Altenburg, 1836). Após a Segunda Guerra Mundial, o texto original do Regulamento Geral de 1743 foi considerado perdido pelos historiadores maçônicos franceses. Redescobri-o Library of the Grand East of the Netherlands, anunciando a descoberta em 1969, no Annales Historiques de la Révolution Française, e publicando-a em 1974 (Travaux de Villard de Honnecourt , Volume X).

[34] – Ver nota 30.

Uma abordagem ao percurso inicial da Maçonaria especulativa

Notícias Filhos do Arquiteto ✡: MAÇONARIA - OS 33 GRAUS DO RITO ...

Preâmbulo

As notas que vos apresento tiveram a sua gênese nas dúvidas que nos foram surgindo no que respeita quer à eventual “passagem de testemunho” da maçonaria operativa para a especulativa, quer aos reais motivos que terão estado por trás da constituição da Grande Loja de Londres em 1717, considerada como o marco fundacional da moderna maçonaria especulativa.

À medida que ia consultando diferente documentação, uma leitura mais atenta de alguns estudos e livros referidos na Bibliografia, foi importante para obter uma nova perspectiva de um dos capítulos mais interessantes da historiografia maçônica, alvo de diversas interpretações históricas de consistência variável, consoante os círculos maçônicos e os objetivos e tendências que perseguem.

Ficou mais claro para nós que a moderna maçonaria tem inequívocas raízes escocesas, que a partir do Norte influenciaram a Inglaterra e a Irlanda, sendo que os ingleses, através da criação da Grande Loja de Londres, vieram a recolher os louros da sua gênese. No entanto, a constituição da GLL traduziu também a intensa luta entre os blocos católico/stuartista e protestante/hanoveriano, que no fundo apoiavam duas concepções distintas da Maçonaria. As Lojas maçônicas foram utilizadas durante essa época para veículo dessa disputa, que se estendeu às terras francesas, iniciando a difusão da Maçonaria especulativa pelo continente europeu, com o exílio dos Stuarts.

Introdução

O fato de se questionar a eventual ausência de ligação direta entre a Maçonaria operativa e a especulativa, sendo uma “heresia” face às fontes tradicionais, não deixa de ser simultaneamente desafiador e estimulante. No entanto e independentemente da teoria seguida, restam poucas dúvidas de que a Maçonaria Especulativa se constituiu na Grã-Bretanha, no decurso do século XVII, em condições ainda incertas e historicamente muito pouco documentadas. No entanto quando procuramos evidências relativamente ao seu desenvolvimento, verificamos que são abundantes na Escócia e quase totalmente ausentes em Inglaterra.

Uma das primeiras abordagens diferenciadas das correntes tradicionalistas de grande parte dos historiadores ingleses do final do século XIX (Gould, Hughan e outros), é dada pelo trabalho de dois grandes historiadores ingleses da Maçonaria, Douglas Knoop (professor de Economia na Universidade de Sheffield e maçom) G. P. Jones (professor de História Econômica também em Sheffield, mas não maçom) nos finais dos anos trinta do século passado.

Contudo somente a partir de meados dos anos 70 começou a ser dada a devida atenção aos seus estudos e pesquisas. No prólogo da primeira edição da sua obra principal “The Genesis of Freemasonry”, salientam que:

“Embora tenha sido até agora habitual pensar a história da Maçonaria como uma questão totalmente à parte da história, justificando um tratamento especial, pensamos que se trata dum ramo da história social, do estudo de uma instituição social particular e das ideias que estruturam esta instituição, que se deve abordar e escrever exatamente da mesma forma que a história das outras instituições sociais.”

Esta abordagem tem vindo a ser seguida por alguns dos atuais historiadores e estudiosos maçônicos, como por exemplo R. Dachez e David Steveson, entre outros, que salientam que esta escolha incontornável está longe de ser unanimemente partilhada por numerosos autores que se “adaptam” às ocasiões da história maçônica, da mesma forma que a história de certas religiões e igrejas, tratada com objetividade, implica a contestação de alguns fiéis, que se recusam a olhar a sua história. Do mesmo modo, o que designa por “história laica da maçonaria” não alcança o espírito de todos os maçons, sendo um escolho que todo o historiador maçônico deverá estar consciente.

Esta corrente preconiza o caminho da aproximação “científica” (ou “autêntica”), segundo a qual uma teoria deve ser fundada a partir de fatos ou de documentos que a sustentem, por contraponto à aproximação “não autêntica” que se esforça por colocar a Maçonaria na tradição do Mistério, procurando, por um lado ligações entre os ensinamentos, as alegorias e o simbolismo e, por outro, as diversas tradições esotéricas (vide John Hamill – bibliotecário da Grande Loja Unida de Inglaterra, durante vários anos, na sua obra “The Craft. A history of English Freemasonry”).

Relativamente à gênese da maçonaria especulativa, a tese mais vulgarizada e partilhada quer pela esmagadora maioria da documentação maçônica, quer entre os Maçons, é a chamada teoria da “transição“, que preconiza a passagem gradual das Lojas operativas a especulativas, devido às transformações econômicas que levaram ao declínio das grandes construções, a partir dos finais do Renascimento.

Deste modo, indivíduos estranhos ao ofício, provenientes da nobreza ou com importantes cargos civis ou intelectuais de prestígio, movidos por interesses especulativos de base neo-platônica, alquimista ou Rosa-Cruz, teriam efetuado uma entrada progressiva nas lojas operativas em estado pré-moribundo, aproveitando as estruturas criadas e os rituais praticados, para desenvolverem os seus objetivos e tomarem o respectivo controle.

Quanto à constituição da Grande Loja de Londres, aprovada numa assembleia constituinte por 4 lojas existentes na cidade, em 24 de Junho (dia de S. João) de 1717, não terá sido provavelmente um ato criativo “espontâneo”, mas justificado por perspectivas politicas e sociais específicas, já que sempre nos pareceu de difícil sustentação histórica e social a teoria da espontaneidade, de per si.

As Lojas “antigas” da Escócia

Na sua obra principal The-Origins-of-Freemasonry-Scotland-s-Century-1590-1710, David Steveson, conclui que a contribuição medieval e renascentista, para a organização e história da Ordem, propiciou alguns dos ingredientes essenciais à formação da Maçonaria, mas o processo de combinação desses com outros ingredientes só ocorreu por volta de 1600 e teve lugar na Escócia .

É geralmente aceito pelos historiadores que os “Estatutos de Shaw”, no reino da Escócia, são o primeiro documento conhecido onde são lançadas as bases organizativas do sistema de Lojas da Maçonaria operativa, que veio posteriormente a servir de modelo à estrutura das Lojas especulativas.

Este documento resultou da reunião realizada em Edimburgo, em 28 dezembro de 1598, convocada e dirigida por William Shaw, Supervisor Geral dos Maçons e intendente das edificações do rei da Escócia, durante o reinado de James VI (James I da Inglaterra). Foi completado em 1599 por uma segunda série de regulamentos para dar solução à reivindicação da presença da Loja de Kilwinning. Estes estatutos consagravam a organização territorial das lojas por cidades e por regiões, impondo a eleição anual dos Oficiais.

São essencialmente regras práticas estabelecidas pelos mestres da corporação sediados em Edimburgo, tornadas mandatórias para todos os membros. Os dois primeiros artigos instruem e regulam a obediência, antecipando a iniciação maçônica, relativamente à qual não são dados detalhes, mencionando unicamente o juramento (“taking of the oath”) e a transmissão da “palavra de maçom” (“mason word”). O manuscrito conhecido como “Edinburgh Register House”, datado de 1695 explicita que o juramento é efetuado sobre a Bíblia e o candidato “jura por Deus”, S. João, o esquadro e o compasso.

Segundo P. Naudon, os estatutos de 1599, definem também a jurisdição da Loja e estabelecem as taxas mandatórias. O Mestre, aqui entendido como grau sobretudo honorífico, ou guardião (“Warden”) tem o poder de verificar as qualidades e aptidões dos companheiros, bem como a capacidade de expulsar os não cumpridores do juramento, podendo também nomear um secretário. Estes estatutos utilizam os termos, aprendiz ( “journey man” / mais tarde “entered apprentice”) e Companheiro (“Fellow-Craft”), o que prova a existência de pelo menos dois graus na Maçonaria operativa escocesa da época (século XVII).

A Maçonaria emergiu pois na Escócia no século XVII baseada em Lojas, organizações secretas ou semi-secretas/discretas de iniciados, combinando sociabilidade e fraternidade com segredos elaborados e esforçando-se genericamente em trabalhar para regular a entrada de artífices da pedra (“stonemasons“) e regulamentar as respectivas práticas de trabalho. Efetuavam rituais de iniciação e identificação descritos nos catecismos.

No decurso desse século XVII, alguns homens de níveis sociais distintos, começaram a ficar intrigados e simultaneamente curiosos com os segredos dos “stonemasons” e o reconhecimento de que a sua Ordem tinha um estatuto intelectual único, tendo alguns desses “outsiders” sido iniciados em lojas. Existem evidências de que certas personalidades próximas das correntes iluministas e Rosa-Cruzes da época, entre os quais Robert Moray, passaram e/ou debruçaram-se sobre estas organizações. A organização discreta/secreta e a existência de certos ritos despertaram-lhes interesse, mesmo que a sua passagem por elas, durante todo o século, tenha sido extremamente rara, esporádica ou efêmera.

Entre os fatos que evidenciam fortemente que tenha sido a Escócia preponderante no aparecimento da moderna Maçonaria, desde o final do século XVI e sobretudo no século XVII, apontam-se a existência dos registos mais antigos de:

  • utilização do termo “Loja” no sentido moderno do termo e evidência de que estas instituições existiam permanentemente;
  • Organização de lojas em âmbito nacional;
  • Registos oficiais e atas de reuniões efetivas;
  • Exemplos de “não-operativos” (“no working stonemasons”) que se juntaram às lojas;
  • referências à “palavra do Maçom” / “mason word“;
  • catecismos maçônicos expondo a “palavra do Maçom” e descrevendo iniciações maçônicas;
  • Evidências ligando o que era realizado pela loja com ideais éticos específicos, expostos pela utilização de símbolos;
  • Utilização de dois graus ou níveis na maçonaria;
  • Utilização dos termos “entered apprentice” e “fellow-craft” nesses graus;
  • Evidência da emergência dum terceiro grau (loja de Edimburgo), pela utilização de “masted’ como estatuto no mínimo diferente de “fellow-craft
  • Começo da percepção, por alguns, da maçonaria como “sinistra” ou “conspirativa”.

Ainda segundo Steveson, as reuniões nas Lojas ocorriam em média uma a duas vezes por ano, tendo a de Edimburgo, entre 1601 e 1710, reunido em média duas a três vezes por ano, o que representa um excelente registro, visto tratar-se duma importante loja urbana.

Percorrendo os registos do século XVII, imediatamente anteriores ao da criação da Grande Loja de Londres, Steveson e Naudon, comprovaram que a maçonaria escocesa possuía já um grau de organização e expansão nacional muito mais consistente do que acontecia em Inglaterra na mesma época.

Existe evidência de que em 1710 estavam ativas 25 lojas na Escócia, tendo mais algumas sido referenciadas ao longo do século, mas estando inativas ou extintas nessa data. Destas 25, 20 continuaram ativas e destas últimas, atualmente 80% ainda existem, o que constitui um registo assinalável.

Há contudo dois aspectos fundamentais, face à moderna maçonaria, que não existiam na Escócia no século XVII:

  • Não existia nenhuma autoridade central de supervisão, como uma Grande Loja (apesar de Schaw e alguns dos sucessores o tentarem criar esse figura, numa forma mais estatutária que efetiva), embora existisse uma rede de lojas
  • Inexistência de lojas compostas unicamente por não-operativos.

Em 20 de maio de 1641, alguns membros da loja de Edimburgo que estavam na época em Newcastle com o exército “conjurado” escocês (na guerra com a Inglaterra), admitiram como “maçom aceito” o honorável Robert Moray (juntamente com Alexander Hamilton, também general revoltoso), quartel-mestre geral do exército escocês, figura notável à época, considerado um dos “pais” da maçonaria especulativa e um dos grandes impulsionadores da Royal Society. Esta prática manteve-se ao longo do tempo, propiciando a formação de lojas nos regimentos escoceses e irlandeses. Mais tarde referiremos o seu importante papel no estabelecimento da moderna maçonaria no continente europeu, em especial na França.

A liberdade e independência das Lojas propiciaram a formação de algumas constituídas somente por membros não operativos. Segundo Naudon, por volta de 1670, mais de três quartos dos membros da Loja de Aberdeen não eram maçons profissionais. Os Estatutos de Shaw especificavam que estes membros estavam isentos da caixa de coleta, da marca, do banquete e do “pint” de vinho.

A dificuldade de generalizar o comportamento das Lojas, já que diferem consideravelmente em tamanho e composição, aplica-se também aos seus membros.

Os “não operativos ou “gentleman-masons” tinham como atrativo nas Lojas um ideal de amizade, uma mistura social informal (embora dentro duma instituição formal) e o banquete anual podendo adicionalmente compreender traços do antigo, do secreto, do misterioso e do ritualístico.

Parece ter sido esta a causa, mas podemos questionar o real motivo do aparecimento destas lojas pré- especulativas, sendo que está comprovado que a Escócia foi um dos países em que a maçonaria operativa mais persistiu de forma organizada, o que comprovadamente não aconteceu na Inglaterra.

É curiosa a análise do percurso de duas das figuras mais notáveis da época, relativamente às quais existem provas da sua iniciação, sem que no entanto existam dados continuados da sua presença em lojas. Quando Robert Moray, como referimos atrás, foi admitido na Loja Mary’s Chapel de Edimburgo, consta nos arquivos da Loja a seguinte minuta:

“Em Newcastle, a 20 de maio 1641. Neste dia, um certo número de mestres e outros estando regularmente reunidos, admitem o muito distinto Robert Moray, Mestre General de Quartel do exército da Escócia, o que foi aprovado por todos os mestres maçons da loja de Edimburgo que colocaram as suas assinaturas ou as suas marcas”.

Quanto a Elias Ashmole (antigo capitão da artilharia real e fervoroso stuartista), foi iniciado cinco anos depois de Moray, em Warrington (também a norte da Inglaterra), numa loja com mais características de se tratar de uma loja escocesa deslocalizada do que uma loja inglesa. Verifica-se pois que duas das principais figuras precursoras da nova maçonaria eram ambos fervorosos partidários dos Stuarts. Poderá isto ter algum significado? Provavelmente terá.

Steveson mostrou inequivocamente que esta organização profundamente inovadora, era estritamente específica da Escócia, sem que nenhum sistema idêntico tenha existido anteriormente. Como refere Dachez, contrariamente às versões clássicas, o aspecto mais importante deste trabalho foi evidenciar que a característica da “aceitação”, expressão tipicamente inglesa, utilizada para justificar a penetração dos especulativos nos operativos, jamais foi utilizada na Escócia durante o século XVII.

A partir deste trabalho, por consulta dos registos disponíveis das lojas, é possível identificar e estudar os 139 membros não operativos recebidos nas Lojas escocesas entre 1637 e 1717. É no mínimo curioso observar que o pastor Anderson, escocês, filho do secretário da Loja escocesa de Aberdeen, ignora por completo estes escoceses não-operativos. Será que o motivo principal terá sido o de constituírem, na sua maioria, fervorosos stuartistas?

Durante o reinado de Carlos I, uma dúzia de membros “gentleman” admitidos na Loja Mary’s Chapel de Edimburgo pertenciam à corte do Rei. Destes, só Robert Moray voltou à loja em 1647. O panorama das lojas escocesas majoritariamente operativas irá mudar consideravelmente a partir da morte de Carlos II. O quantitativo de personalidades não operativas recebidas nessas lojas, desde a ascensão ao trono de James II em 1685, eleva-se a mais de uma centena até 1717, aproximadamente o quíntuplo dos recebidos na totalidade do reinado de Carlos II, num período de tempo sensivelmente equivalente.

Na loja de Dunblane em 1696, por exemplo, dos 13 membros nomeados em ata de reunião, somente 4 são operativos, sendo a maioria constituída por nobres, quase todos ligados à causa stuartista. Steveson aponta que os membros dessa loja muito seletiva eram relativamente assíduos, mas não se preocupavam muito com o “ofício”, até finais de 1710, quando o predomínio passou para os operativos. Teria a ver com o final das “esperanças” dos stuartistas em reconquistarem o trono, como sugere Louis Trébuchet?

A prática comprovada, mas excepcional, das Lojas receberem a titulo honorário pessoas exteriores à profissão, que raramente lá voltavam, terá produzido, segundo Dachez, um conjunto de “maçons livres” com a possibilidade de transmitir uma Maçonaria que foram transformando em função dos seus próprios objetivos e preocupações intelectuais. Tinham descoberto algo que lhes interessou vivamente, um ritual e uma tradição.

Assim a “fronteira do Norte” terá sido permeável à expansão até ao Sul da Inglaterra destes maçons “não- operativos” que a Maçonaria operativa nunca integrou internamente, justificando plenamente que a maçonaria inglesa do século XVII tenha sido, desde a origem, puramente especulativa.

Parece não existir outra explicação plausível para a admissão de elementos não operativos nas Lojas Escocesas já que, por volta de 1717, ainda possuíam um importante papel na área da construção e, contrariamente ao que se passava na Inglaterra, não se reuniam em tabernas ou em locais esporádicos, mas em edifícios ou locais que lhes pertenciam.

As Lojas “antigas” da Inglaterra

Na Inglaterra a iniciação de cavalheiros (“gentlemen”) em Lojas é registada desde 1640, mas aqui o processo é muito mais obscuro.

Sendo fato praticamente inequívoco que a maçonaria especulativa, tal como a entendemos, surgiu na Inglaterra, não existem contudo documentos suficientemente esclarecedores de que pessoas estranhas ao oficio fossem admitidos em lojas operativas inglesas. E, mesmo relativamente a estas últimas e ao seu funcionamento como estrutura permanente em todo o território, não existem quaisquer dados.

Para os que defendem a primazia da Inglaterra no aparecimento da moderna Maçonaria, sobretudo no século XVII, apontam-se os seguintes fatos:

  • cópias mais antigas das “Old Charges” (não são conhecidas cópias escocesas anteriores a meados do século XVII);
  • utilização generalizada do termo “freemason” e utilização do termo “maçom aceito”(“accepted mason”);
  • Lojas compostas unicamente por “não operativos” (que se pode interpretar como indicando que a “maçonaria” inglesa era, muito mais que a escocesa, uma criação sem, ou com reduzida, sustentação profissional);
  • criação da primeira Grande Loja.

A única certeza que existe é de que as poucas lojas operativas que tardiamente surgem, permanecem operativas até à sua extinção, como a loja de Chester. A famosa loja de Acception, de Londres (século XVII), abusivamente citada como exemplo da transição especulativa é indevidamente classificada como Loja, uma vez que este termo não aparece nunca em suas respectivas atas, não se sabendo quem a fundou e por que motivo, deixando historicamente apenas dois leves traços documentais, em 1610 e em 1686, relacionados com Elias Ashmole.

Nas primeiras lojas inglesas, contrariamente à Escócia, não se detectam ligações aos operativos, o que sugere que a maçonaria foi aqui uma criação “artificial”, no sentido de ter sido originada por pessoas sem contato direto com a profissão, muitas vezes influenciados provavelmente pelo que “acontecia” ou então podem ter sido “importadas” a partir da Escócia. Não existe atualmente nenhuma loja na Inglaterra a que se possa ser feita referência continuada antes de 1716-17, quando a Grande Loja foi criada. As lojas inglesas só tinham inicialmente um grau, o que implicava substanciais diferenças nos rituais comparativamente à Escócia, onde existiam dois graus.

A teoria clássica da “transição”, foi posta contestada também por outros historiadores (finais da década de setenta), nomeadamente Eric Ward, que defendem que na Inglaterra, contrariamente à Escócia, não teria havido transição da maçonaria operativa para a especulativa e que as lojas dos primeiros se foram progressivamente extinguindo, sem deixar rastro, face às características sócio-econômicas da época. A crítica de Ward fundamenta-se sobretudo na interpretação do significado clássico atribuído a certas palavras-chave (origens de “freemason” e de “Free-Mason” ou “Free-Masons”) utilizadas indistintamente pela teoria da “transição”).

Também para Knoop e Jones, os únicos fatos mais ou menos incontestados, comprovam que desde a sua origem, as lojas maçônicas inglesas são puramente especulativas, contando-se como exceção, como vimos, a loja de Chester. Nesse período existiu também a Companhia dos Maçons de Londres, restrita à área da capital, e a única guilda conhecida na Inglaterra para a profissão de maçom, não se conhecendo mais nenhuma estrutura comparável. Esta corporação procurou o suporte de vários patronos de famílias nobres e comerciantes, com a figura de membros honorários, para ajudarem a assegurar o fundo financeiro de apoio aos associados.

Lembre-se que a Escócia era, no início do século XVII, um país estrangeiro e inimigo, havendo poucas relações entre ambos, motivo pelo qual a existência de Lojas operativas organizadas por toda a Escócia não poderia, por si só, impulsionar ou servir de catalisador do surgimento de uma Maçonaria especulativa, na mesma época, no sul da Inglaterra.

A tese de Colin Dyer (a teoria do “empréstimo”/“emprunt” em francês), seguida por outros autores ingleses contemporâneos, aponta para que o movimento que dá origem à maçonaria especulativa tenha tido origem e motivações claramente religiosas. O estudo comparado das “Old Charges” (“Antigos Deveres”) estabelece claramente que este movimento, aparentemente secreto, o que à luz da história da época se torna compreensível, não teve qualquer ligação com a maçonaria operativa. Teria sido estabelecido por altura de 1560 ou 1580, época em que os conflitos religiosos atingiram grande intensidade (atestam por exemplo que o Manuscrito da “Grande Loja, n°1” não teve nada a ver com o de “Cooke”, sendo um documento totalmente novo, já que a ortografia utilizada segue a das Bíblias publicadas em Inglaterra após a Reforma, ou seja a partir de 1540, cerca de 180 anos após este).

Os trabalhos de David Steveson trouxeram, contudo, uma nova interpretação da controversa questão das fontes da maçonaria especulativa. O fenômeno da “aceitação” utilizava uma expressão puramente inglesa, nunca adotada na Escócia, o que comprovou pela análise cuidadosa das listas dos membros das diversas Lojas, e da sua história durante vários decênios.

Detectou contudo, um novo ponto muito importante, a curiosidade e o interesse com que, desde a origem, algumas personalidades, entre as quais o famoso Sir Robert Moray, demonstraram sobre estas Lojas escocesas. A prática excepcional, mas comprovada, de receber com o título de membros honorários, pessoas estranhas ao ofício, teria permitido constituir uma população de “maçons livres”, que embora numericamente fraca, era legítima e ativa, possibilitando-lhes transmitir uma Maçonaria que lhes foi possível transformar em ordem às suas preocupações intelectuais e filosóficas.

Poderiam as lutas religiosas de 1640 a 1660/80 e depois entre stuartistas e hanoverianos, estar na origem da falta de documentação relativa às Lojas Inglesas?

Na Inglaterra, o papel de loja mãe foi durante muito tempo assegurado pela velha loja de York. Este teria sido o motivo da recua da “Old Lodge of York” em reconhecer a autoridade da Grande Loja de Londres, quando esta foi instituída em 1717. Segundo P. Naudon, somente após a reunião da Assembleia Maçônica de York, em 27 de dezembro de 1663, quando a Maçonaria já se tinha tornado especulativa, o título de grão-mestre foi aprovado, embora não conferisse autoridade administrativa a quem fosse designado. De fato, o escolhido poderia ser somente um “protetor”, garantindo o patrocínio à corporação. Os poderes do grão-mestre só foram criados a partir de 1717, com a Grande Loja de Londres.

Segundo Knoop e Jones, a hipótese duma rede desconhecida de lojas (iniciáticas e secretas), cuja existência e ensinamentos tenham escapado à análise do historiador, é insustentável, pelo menos se pretendermos permanecer no campo da história, tal como o entendemos.

Há, contudo, uma data a que devemos prestar atenção e que não é muitas vezes referida, que é 1707. Neste ano realizou-se o “Ato de União”, transformando a Escócia e a Inglaterra num único reino. As duas nações que tinham estado até aqui de costas voltadas e muitas vezes em guerra, iniciaram finalmente uma lenta, mas real , aproximação, sem que contudo, a desconfiança de um país face ao outro se tivesse automaticamente atenuado.

Da Royal Society à Grande Loja de Londres

Considerando as diferenças e eventuais interseções entre maçonaria operativa e especulativa, sobretudo na Escócia do século XVII e início do XVIII, nada permite fundamentar, face à sequência temporal e histórica, que a maçonaria especulativa tenha nascido em 1717. De fato, esta data é quase irrelevante no longo processo de desenvolvimento do movimento. Segundo Knoop e Jones,

“naquela altura, a formação da Grande Loja foi uma ocorrência de menor importância no desenvolvimento da Maçonaria, e não faz sentido constituir um marco na historia maçônica”.

No entanto a nova forma de organização instituída pela Grande Loja de Londres constitui uma inovação, face à organização predominante até ao momento, de raiz escocesa, centrada sobretudo nas Lojas.

P. Naudon salienta que não se conhecem as razões oficiais da criação da referida Grande Loja, francamente modesta na concepção, sendo a ênfase dada possivelmente à necessidade de um poder regulador sobre as lojas, o que fará sentido, como veremos.

Somos pois levados a concordar com a afirmação de J. Marty:

“O fato das mais influentes lojas maçônicas na Inglaterra, na Escócia e na Irlanda terem uma fortíssima influência stuartista, a outra família real que disputava o trono, impôs aos novos ocupantes do trono inglês o desenvolvimento de esforços imediatos para contrariar essa influência no mesmo terreno, como uma das formas de manterem o poder adquirido.”

Não é pois sustentável diluir historicamente a criação da Grande Loja de Londres (que no século seguinte evoluiria para a Grande Loja Unida da Inglaterra), como não deixando de corresponder a um plano político organizado pela nova família real inglesa, a dinastia Orange ou hanoveriana, para combater a influência stuartista.

Recuando de novo à questão do nascimento da Maçonaria Especulativa, é necessário correlacioná-la e ter também presente a criação da Royal Society, em 28 de novembro 1660, no Gresham College, em Londres e em que tiveram destacado papel alguns maçons ou Rosacruzes da época, nomeadamente Robert Moray, Elias Ashmole, Christopher Wren, e outros.

Robert Moray foi elemento preponderante na liderança que constituiu a Royal Society, e foi virtualmente o seu presidente durante 1661 e a primeira metade de 1662, apesar do titulo não ter sido formalmente utilizado por ninguém, até a carta patente receber o selo real, onde foi personagem decisivo. O aparecimento desta instituição mostrou claramente o crescente interesse na investigação científica e na experimentação, e o prestigio crescente destas atividades.

Antes da constituição da Royal Society, a ciência estava completamente dominada pela religião e amarrada a argumentos teológicos. Qualquer investigador que desafiasse a visão dos inquisidores era considerado herege e punido enquanto tal, pagando muitas vezes o preço da própria vida.

Mais do que um conjunto de ideias estabelecidas, os princípios de estudo da natureza propostos pela Royal Society representavam uma atitude e uma maneira inovadoras de pensar a realidade, resultantes do desejo de reexaminar e pôr em questão as ideias e os valores recebidos, mas com enfoques bem diferentes.

A esta grande mudança no desenvolvimento científico, levando uma comunidade a rejeitar uma teoria pseudo-científica anteriormente seguida, em favor de uma outra com ela incompatível, traduz uma mudança de paradigma, no sentido “kuhniano” do termo. A esta mudança não foram alheios os ideais da verdade, da tolerância, do respeito pelo trabalho realizado, da retidão e da fraternidade dos Maçons que estiveram associados à fundação e direção inicial da Royal Society, da qual que Isaac Newton veio a ser um dos mais notáveis presidentes (já no início do século XVIII).

Em resposta à interpretação de Eric Ward, Frederic Seal-Coon respondeu no ano seguinte (1979) com uma teoria mais política, que estabelecia a correspondência cronológica entre o nascimento da maçonaria especulativa e as relações tumultuosas da dinastia escocesa dos Stuarts com o trono da Inglaterra, ocupando grande parte do século XVII e a primeira metade do século XVIII, em que tentou recuperar o trono, após o exílio na França.

Na Grã-Bretanha, tanto os stuartistas, quanto os hanoverianos, foram atraídos para alianças maçônicas rivais. O sistema das lojas, combinado com o secretismo, ideais de lealdade e modos secretos de reconhecimento, originou uma estrutura ideal de organização, na qual os membros puderam colocar os seus próprios valores, podendo adaptá-los para utilização própria.

Da análise dos sermões do Rev. Anderson de 1712 e 1715, Steveson concluiu que era evidente uma tonalidade “whigh” (protestantes, partidários da casa de Hannover) radical e determinante, já que descreve o país como

“benzido com um bom protestante como soberano e uma feliz Constituição, depois de libertado das garras e da escravatura papista, pela revolução…”

Aliando estas interrogações ao fato das Constituições elaboradas pretensamente pelo Rev. Anderson (que era pastor presbiteriano escocês), elaboradas em 1723, seis anos depois da criação da Grande Loja de Londres, terem efetuado uma “limpeza criativa e radical” (continuada pelo duque de Montagu) de toda a documentação conhecida anteriormente existente, contribuiu para reforçar um conjunto de interrogações, cujo esclarecimento tentamos aprofundar.

Somos, pois, levados a concordar de novo com J. Marty, em que

“a história oficial que foi criada e difundida, constituiu parte de um programa de cultura imperial global muito ativo no último quadrante do século XVIII e no século XIX, por parte da potência dominadora a nível mundial nesse período, a Grã- Bretanha.”

Também não se encontra antes de 1723 nenhum texto proibindo as lojas escocesas, e mais tarde as lojas temporárias inglesas, de serem criadas sem terem a autorização superior de alguém com poderes para tal, mas a partir daquele ano, só puderam ser criadas novas lojas na Inglaterra com a obtenção prévia da carta patente, firmada pelo Grão-Mestre da Grande Loja de Londres.

O primeiro Grão-Mestre de origem nobre da Grande Loja de Londres foi, em 1721, o Duque de Montagu, “whigh” convicto, condecorado em 1718 por George I com a distinta Ordem da Jarreteira, responsável pela criação em 1745, de um regimento de cavalaria para combater o príncipe Carlos Eduardo Stuart, quando da última tentativa deste para recuperar o trono.

Os dados parecem pois apontar para que tenha existido uma tomada de poder dentro da fraternidade maçônica pela facção “whigh”, então minoritária, numa época em que a ascensão ao trono de George I de Hanover, três anos atrás, estava longe de ser unânime, quer na Inglaterra, mas sobretudo na Escócia.

A reação stuartista/jacobita não se fez esperar e o duque de Wharton, de regresso da Europa depois de convertido à causa stuartista, conquistou o grão-mestrado num golpe interno. Foi destituído no ano seguinte, mas a luta de influencias, perdida no território inglês, continuará agora na França.

As “lojas escocesas” na França

Desde que se deu a confrontação entre os Stuarts e o Parlamento, e mais tarde entre os Stuarts e a casa de Hannover, cada uma duas partes procurou trazer a Ordem para o seu lado. A ligação desta aos Stuarts era manifesta desde a Escócia, em virtude das origens escocesas comuns, pelo que não lhes foi difícil utilizá-la como aliada e veículo dos seus objetivos restauracionistas.

O papel desempenhado pela Maçonaria Escocesa na França é confirmado pelo cavaleiro Ramsay, no seu famoso “discurso” de 1737, sendo a presença de lojas escocesas mais evidente a partir do exílio forçado dos Stuarts.

A Maçonaria stuartista chegou na França em 1688 através das primeiras lojas militares que se formaram nos regimentos que acompanharam James II, no exílio em Saint Germain de Laye. Existem provas de que a fuga para França intensificou a criação de Lojas maçônicas nos regimentos stuartistas. Por volta de 1689, os regimentos escoceses e irlandeses sediados na França possuíam “staffs” maçônicos, constituindo muitas vezes, a autoridade administrativa, sendo os militares a executiva.

É possível que a primeira loja na França tenha sido a que mais tarde se designou por “La Parfaite Égalité” (inicialmente “Irish Guard Lodge”), loja militar real irlandesa do coronel Walsh, do regimento de guarda pessoal de James II. Quatro anos depois da sua fundação , o Grande Oriente de França reconhece, em 1777, que essa loja foi constituída em 25 de março de 1688.

A primeira loja francesa, indiscutivelmente conhecida, foi fundada em 1725 por Charles Radcliffe de Derwenwater e outros fervorosos stuartistas. Sensivelmente por volta de 1728, as lojas escocesas na França, reconheceram como Grão-Mestre o duque de Wharton, anterior Grão-Mestre da Grande Loja de Londres e apoiador dos Stuarts. Após a sua morte, em 1731, Lord Derwentwater assumiu o grão-mestrado, seguido por Hector MacLean (baronete escocês) de 1733 a 1735 e de novo Lord Derwentwater, a partir de 1736.

A concorrência “whigh”/hanoveriana, não se fez esperar muito, deslocando-se também a partir de 1734 para o solo francês, com a criação em Paris de uma loja rival à de Derwentwater, em que a Grande Loja de Londres se faz representar pelo duque de Richmond e Jean T. Desaguiliers. O conflito provocado pela existência de duas categorias de lojas rivais – escocesas e inglesas, transpôs-se e desenvolveu-se também na França, até à criação da Grande Loja de França e da nomeação do duque de Antin, como Grão-Mestre (ad vitam), em 24 de junho de 1738.

Foi o duque de Montagu, que sucedeu, desde 1721, ao pastor J. T. Desaguiliers, que se comprometeu a introduzir na França a Maçonaria especulativa (tendência “inglesa”). Do desenvolvimento dos ritos da época, a par das teorias filosóficas que sustentaram o aparecimento da Real Society, acabaria por surgir o Rito Francês. Mais tarde, e embora apresente maior parentesco com a matriz escocesa, acabaria por surgir o Rito Escocês Antigo e Aceito, assim designado apesar do berço francês.

Notas finais

Julgamos poder concluir, no essencial, que a moderna maçonaria teve origem escocesa, em vez de inglesa. A evidência escocesa pode ser fielmente comprovada durante o século XVII, através dos documentos oficiais de várias lojas, que foram conservados, graças aos Estatutos de Schaw. Contrariamente, na Inglaterra somente parcos registos em papel, que possam ter pertencido a Lojas, sobrevivem.

O termo “aceito” continuou a ser aplicado na Inglaterra aos Mmaçons iniciados, e a Grande Loja de Londres, fundada cerca de 40 anos depois, passou a chamar-lhes “maçons livres e aceitos“. Nos anos do rápido desenvolvimento da maçonaria inglesa depois de 1700, os rituais que surgiram eram baseados na “mason word” e as práticas descritas no catecismos mais antigos têm, sem dúvida, origem na Escócia.

A primeira referência a uma loja inglesa caracterizada por um corpo permanente e não por uma reunião ocasional, é a de Chester, também no norte do país. A primeira loja na Inglaterra cujas atas sobreviveram, a loja de Alnwick, fica a 20 milhas da fronteira com a Escócia. A loja mais antiga descrita na Inglaterra refere-se a Warrington, no Lancashire, também no Norte.

Tudo isto sugere claramente que as lojas maçônicas, na sua moderna configuração, nascem da instituição escocesa que se espalhou pela Inglaterra no decurso do século XVII. A maçonaria na qual os primeiros “gentlemen” não operativos foram iniciados foi também muito influenciada pelas práticas escocesas.

No entanto, e esta é uma diferença essencial, desde o início os ingleses preferiram encontrar-se informal e irregularmente, apelidando por vezes estes encontros ocasionais de “reuniões de loja”. No entanto, a institucionalização da estrutura, originada por Schaw, foi reconhecida e as lojas ocasionais foram dando progressivamente origem a instituições permanentes.

Doze dos Grão-Mestres da Inglaterra no século XVIII eram escoceses e, quando os maçons franceses inventaram inúmeros altos graus e rituais, sentiram que a melhor maneira de lhes dar legitimidade era designá-los por “Rito Escocês”. Também estes fatos parecem admitir tacitamente que a maçonaria escocesa tem um papel especial na história da Ordem….

O objetivo subjacente à elaboração das Constituições de Anderson, o papel desempenhado por Desaguiliers, a Grande Loja de Londres e os conflitos que se arrastaram por quase 100 anos entre “Antigos” e “Modernos”, podem dar lugar a diversas interpretações, mas certo é que por trás destes conflitos estavam dois conceitos distintos da Maçonaria, que foram utilizados na disputa do trono real britânico pelos blocos stuartista e hanoveriano.

Parece não existir dúvidas, face aos historiadores e obras que temos referido, que as Lojas maçônicas escocesas, irlandesas e inglesas foram palco da intensa luta entre estes dois blocos, que no fundo apoiavam duas concepções religiosas distintas, a católica e protestante. Também pode não ter sido ocasional que o Papado só tenha apresentado a sua primeira Bula contra a Maçonaria (“In Eminenti Apostolatus Specula”), quando já era evidente que a luta entre os dois blocos pendia para os protestantes (hanoverianos) e a derrota definitiva dos Stuarts se resumia a uma questão de tempo. Todavia, este assunto é por demais vasto, exigindo elevada preparação e estudo, para que possa ser tratado nestas breves e humildes notas.

Pelas análises dos historiadores que citamos, nomeadamente Steveson e Eric Ward, a teoria da “transição” parece não ter suporte documental fidedigno, pelo menos analisando historicamente os dois países onde mais se enraizava, a Inglaterra e a Escócia.

Parece também não existirem dúvidas de que as Constituições de Anderson traduziam uma versão mais universalista e agregadora da Maçonaria, rompendo com as versões mais tradicionalistas, que eram a base da Maçonaria católica stuartista.

Em reação a esta visão mais progressista (à época) organizaram-se mais tarde os “Antigos”. Esta polêmica entre “Antigos” e “Modernos” durou cerca de 100 anos, mas o enfraquecimento progressivo da Grande Loja de Londres e a pressão do establishment real acabaria, também por pressão adicional da revolução francesa e dos receios por ela provocados na monarquia britânica, de proporcionar a fusão das duas, originando a Grande Loja Unida de Inglaterra, com predominância inequívoca dos valores dos “antigos”.

O estudo das origens é fundamental para uma melhor compreensão da Ordem. No entanto a sua análise, contribuindo para a nossa progressão individual a caminho do conhecimento e da Luz, só alcançará o seu sentido último se alavancar o nosso trabalho no mundo profano.

Termino citando Jean Mourges:

“Independente da interpretação das origens, a Augusta Ordem deverá conservar dois princípios, sem os quais não será Maçonaria:

      • Os Maçons são construtores. Creem na possibilidade de estabelecer uma Ordem Social ou em todo o caso de contribuir para a estabelecer”; e,
      • Escolher os construtores que, entre eles, saibam elevar-se acima das querelas das Escolas, já que a perfeição da ordem Coletiva repousa na qualidade dos homens chamados a construí-la.”

Autor: Salvador Allende – R∴ L∴ Ocidente

Fonte: Freemason

Revisão e adaptação ao português brasileiro: Luiz Marcelo Viegas

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Bibliografia

“The-Origins-of-Freemasonry-Scotland-s-Century-1590-1710” – David Stevenson – Cambridge University Press, 1988.

“A Maçonaria e o Nascimento da Ciência Moderna -O Colégio Invisível” – Lomas, R. – Madras Editora Lda, 2007.

“The-Secret-History-of-Freemasonry-Its-Origins-and-Connection-to-the-Knights-Templar” – Paul Naudon – 2005.

“Les Origines de la Maçonnerie Spéculative” – Roger Dachez, revista “Renaissance”.

“The Genesis of Freemasonry” – Douglas Knoop e G.P. Jones” – Manchester University Press – 1947.

“Maçonaria Especulativa e Sir Robert Moray” – José Marti.

Blog + Sites da Loja Ocidente – http://a2ocidente.blogspot.pt.

“El Nacimiento del Escocismo” – Louis Trébuchet (www.masoniclib.com).

“Isaac Newton and the Scientific Revolution, Christianson, G. Oxford University Press.

“Sir-Robert-Moray-Freemason” – Robert Lomas.

“El Rito Francês Moderno” – Guillermo Fuchslocher.

Los Oficios y Los Oficiales de La Logia” – Daniel Berésniak.

“La Masoneria” – Armando Hurtado.

“La Pensée Maçonnique -Une Sagesse pour Occident” – Jean Mourges – Éditions P.U.F. – 1998.

História da Maçonaria Inglesa

Porque é que a maçonaria inspira tantas teorias da conspiração ...

Quando, por que e onde se originou a Maçonaria?

Somente existe uma resposta a essas três perguntas: não sabemos. Isso, apesar de todo o papel e tinta que foram usados no seu estudo. De fato, estas questões fundamentais foram bastante obscurecidas por vários historiadores maçônicos muito bem intencionados, mas mal informados. Faz pouco mais de um século que os historiadores maçônicos britânicos começaram a examinar com visão crítica a história tradicional do Ofício[1], que havia sido escrita por seus predecessores durante os 150 anos anteriores.

Ao considerar dita “história” pouco satisfatória, começaram a buscar provas documentais diretas da Maçonaria Especulativa anterior à formação da primeira Grande Loja da Inglaterra em 1717. Suas investigações e seus escritos não detiveram, entretanto, a permanente aparição de obras pertencentes ao que se podia denominar de escola de historiadores maçônicos mística ou romântica (no sentido autêntico da palavra), o que gerou ainda maior confusão.

Existem, portanto, dois enfoques principais da história da Maçonaria: o autêntico ou científico, que constrói e desenvolve sua teoria a partir fatos verificáveis e de documentação de origem comprovada e o enfoque não-autêntico no qual se busca colocar a Maçonaria dentro do contexto da tradição dos Mistérios, correlacionando os ensinamentos, a alegoria e o simbolismo da Ordem com seus homólogos pertencentes às diferentes tradições esotéricas. Para complicar ainda mais as coisas, existem opiniões divididas dentro das duas escolas principais que acabamos de citar.

O Maçom comum tira do próprio ritual suas primeiras noções da história do Ofício. À medida que vai progredindo em seu conhecimento das cerimônias, aprende que durante a construção do Templo de Jerusalém, os construtores qualificados (pedreiros ou Maçons), se dividiam em duas classes: Aprendizes e Companheiros. Todos trabalhavam sob as ordens de três Grão-Mestres (o Rei Salomão, Hiram, Rei de Tiro e Hiram Abiff), os quais compartilhavam certos segredos apenas por eles conhecidos. Aprende também que esses segredos foram perdidos com o assassinato de Hiram Abiff – assassinato que ocorreu devido à sua negativa de revelar tais segredos – e que se adotaram certos segredos em substituição dos primeiros, “até que o tempo ou as circunstâncias restaurem os segredos originais”.

Do ritual se deduz imediatamente que a Maçonaria já existia e estava estabelecida à época do Rei Salomão e que permaneceu desde então como uma sistema intacto. O candidato compreende logo que o ritual não contém uma verdade histórica ou literal, senão uma alegoria dramática mediante a qual se transmitem os princípios e axiomas fundamentais do Ofício. A primeira história do Ofício apareceu, com sanção oficial, como parte das primeiras Constituições[2], compiladas e publicadas em nome da primeira Grande Loja pelo Reverendo Doutor James Anderson, em 1723. A obra de Anderson consiste principalmente na história legendária do Ofício dos Construtores, desde Adão, no Jardim do Éden, até a formação da primeira Grande Loja em 1717.

Anderson não faz distinção alguma entre Maçonaria Operativa e Maçonaria Especulativa, com o que ficou implícito que uma era continuação da outra. Anderson foi criticado com frequência por sua história, mas essas críticas não são justas com ele. Ele não pretendia escrever uma história no sentido em que a entendemos atualmente, mas se propunha produzir uma apologia que estabelecesse uma filiação honrada para uma instituição relativamente nova.

Ele nem sequer afirmou ter escrito uma obra original, senão, como explicou na segunda edição das Constituições (1738), simplesmente resumiu as antigas Constituições góticas[3]. Foi delas que ele retomou as tradições segundo as quais as Lojas de Maçons existiram desde os tempos antigos. Igualmente retomou dali a ideia de que várias personalidades bíblicas históricas, e outras puramente lendárias, haviam sido patronos, promotores ou Grão-Mestres do Ofício, como um certo Príncipe Edwin, que havia convocado uma grande assembleia de Maçons no ano de 926 da era cristã[4].

Durante dita assembleia teria lhes outorgado uma Constituição e lhes teria ordenado que se reunissem trimestralmente para governar suas Lojas. É dada a impressão de que a Grande Loja ou Assembleia seguiu existindo de forma ininterrupta desde essa data até 1717. Por não haver Anderson produzido uma versão revisada e consideravelmente aumentada de sua história para a segunda edição das Constituições, a versão de 1723 foi aceita pelo que na realidade era: uma apologia construída a partir da lenda, do folclore, da tradição.

Na edição de 1738, Anderson parece haver dado, desafortunadamente, rédeas soltas à sua imaginação, pois construiu uma “história” detalhada da Maçonaria inglesa desde a suposta Assembleia de York até a ressurreição da Grande Loja em 1717 e a continuou inclusive até 1738. Para Anderson, os termos Geometria, Arquitetura e Maçonaria eram sinônimos. Todo monarca inglês ou personalidade histórica que, de qualquer maneira, tivesse patrocinado arquitetos ou Maçons, foi colocado em sua lista, seja como Grão-Mestre, ou, pelo menos, como Grande Vigilante da Maçonaria.

Com o fito de “comprovar” a antiga e ininterrupta linhagem da Instituição, Anderson assegurou que a união das quatro Lojas de Londres para formar uma Grande Loja em 1717 não havia representado a criação de uma nova organização, mas sim que tinha havido a “restauração”[5] de uma antiga organização que havia caído em decomposição devido à negligência de seu Grão-Mestre Christopher Wren.

Trata-se de uma assertiva surpreendente, a favor da qual não existe prova, especialmente porque na versão de 1723 não se menciona nenhuma restauração e o nome de Wren apenas figura em nota de pé de página como arquiteto do Teatro Sheldoniano de Oxford. Curiosamente, Wren ainda vivia quando apareceu a versão de 1723, mas já tinha falecido quando Anderson empreendeu suas revisões, de modo que o interessado não teve oportunidade de objetar.

Tendo em vista que a história escrita por Anderson foi publicada com a sanção da Grande Loja, atribuiu-se a ela o caráter de história sagrada, tanto mais por que seu conteúdo não foi impugnado pelos que tomaram parte nos eventos de 1717. Seu trabalho resultou de tão grande aceitação que continuou sendo publicado repetidamente, sem alterações, simplesmente com atualizações em todas as edições subsequentes, até à última edição, em 1784. Foi inclusive plagiado pelos diversos editores de manuaizinhos publicados no século XVIII, os “Companheiros de Bolso dos Franco-Maçons” (“Freemasons’ Pocket Companions”)[6)] e constituiu a base das “Ilustrações da Maçonaria” (“Illustrations of Freemasonry”), de William Preston, até na décima sétima edição (póstuma), em 1861, editada pelo Reverendo George Oliver.

Houve planos para incorporá-lo nas edições das Constituições da Grande Loja Unida da Inglaterra, datadas de 1825, 1827 e 1827. Foi então anunciado que as partes do livro publicadas constituíam uma segunda parte e que se publicaria em uma primeira parte da história da Maçonaria. Felizmente, a primeira parte em questão jamais foi publicada.

Com a exportação para a América do Norte das Constituições da primeira Grande Loja e as Ilustrações de Preston, bem como suas traduções para o francês e o alemão, a má informação de Anderson recebeu ampla divulgação. Exerceu assim profundo efeito sobre a concepção que se teve sobre a história do Ofício, bem como sobre a atitude diante do tema, atitude que subsistiu até bem entrado o século XIX.

Na verdade, a ausência de uma diferenciação, por parte de Anderson, entre Maçonaria Operativa e Maçonaria Especulativa iria marcar os enfoques da história do Ofício por espaço de muitas gerações e pode-se dizer que deu lugar ao desejo de estabelecer vínculo direto entre ambas tão logo a escola autêntica iniciou sua aproximação crítica à história aceita da Ordem. Ainda que a aproximação dos escritores da escola autêntica apareça como uma investigação científica, os métodos empregados por eles não seriam aceitos atualmente como científicos. Apesar de que eles examinaram cuidadosamente e comprovaram origem de cada fragmento de evidência que apareceu e que suas áreas de investigação se limitaram aos registros e documentos arquitetônicos, de construção e corporativos. De fato, seu trabalho ostenta a aparência de busca de evidências suscetível de encaixar dentro de uma teoria preconcebida.

Dispostos a provar a filiação direta entre a Maçonaria Operativa e a Maçonaria Especulativa através de uma fase de transição, ajuntaram fragmentos de informações procedentes de várias partes das Ilhas Britânicas, fragmentos que pareciam formar escalões em sua cadeia de descendência. Ao proceder desta maneira, com frequência tiraram a evidência de seu contexto e efetuaram suposições para as quais existia apenas uma tênue possibilidade de confirmação.

Em particular, assumiram a existência de uma uniformidade de condições e de atividades na Inglaterra, Irlanda e Escócia e ignoraram assim as circunstâncias particulares sociais, culturais, políticas, legais e religiosas que marcam diferenças cruciais entre esses países. Não levaram em conta, por exemplo, que até à Lei de União de 1707, Inglaterra e Escócia, ainda que unidas através da Coroa desde 1603, eram países separados que somente compartilhavam fronteira comum e que os eventos ocorridos em um país não tinham necessariamente paralelismo nos países vizinhos.

Entretanto, sua teoria era tão persuasiva, tão bem escrita e foi tão divulgada, que sua interpretação acerca da transição da Maçonaria Operativa para a Maçonaria Especulativa esteve perigosamente próxima de ser aceita como fato inquestionável. Necessário é enfatizar novamente que se trata apenas de uma teoria. Na Escócia, encontraram evidência inegável da existência de Lojas Operativas de talhadores de pedra. Tais Lojas se definiam segundo o ponto de vista geográfico (territorial) e constituíam unidades de controle da atividade Operativa com respaldo em leis estatutárias. Também obtiveram evidência indiscutível que as Lojas Operativas escocesas começaram a admitir durante o século XVII membros não-Operativos na qualidade de “Maçons Aceitos” ou “Gentis-homens Maçons” (Accepted or Gentlemen Masons) e que a princípios do século XVIII em algumas Lojas, os Maçons Aceitos haviam passado a predominar.

Estas Lojas, por sua vez, se converteram em Lojas Especulativas, enquanto as outras mantiveram seu caráter puramente Operativo. As Lojas Especulativas eventualmente se uniram para formas a Grande Loja da Escócia em 1736. Investigadores da escola autêntica também descobriram referências claras sobre o uso nessas Lojas, de uma Palavra maçônica[7] e de modos secretos de reconhecimento que permitiam aos Maçons Operativos de boa fé obter trabalho ou sustento quando viajavam ao território de outra Loja. Ao unir esses fatos, os historiadores  românticos pareciam contar com provas de uma transição gradual da Maçonaria Operativa para a Maçonaria Especulativa.

A falha de seu raciocínio consistia em supor que por não serem Operativos, os Maçons Aceitos nas Lojas Operativas escocesas tinham de ser necessariamente Especulativos, ou que, pelo menos deveria existir uma implicação sobre a atividade Especulativa da loja, derivada do próprio fato da aceitação. Até hoje, não apareceu prova alguma que apoie tais suposições. De fato, a evidência encontrada pareceria assinalar os não Operativos como sendo membros honorários das Lojas, adotados do mesmo modo que hoje se adotam eminentes personalidades como membros honorários de clubes, sociedades e instituições com as quais não têm vínculos profissionais ou vocacionais.

Quando a escola autêntica examinou os registros ingleses, seus investigadores não puderam encontrar evidência alguma da existência de Lojas Operativas. Em tempos medievais, a Loja dos Operativos consistia simplesmente de uma choça ou depósito anexo ao lugar de trabalho, no qual guardavam as ferramentas e descansavam. Em torno do ano de 1600, o sistema de guildas se encontrava praticamente moribundo, com a exceção das Companhias de Carroceiros e Transportadores de Londres (“London Livery Companies”).

Tampouco existia evidência de uma “palavra maçônica” inglesa ou de meios secretos de reconhecimento entre os Operativos ingleses. Qualquer evidência encontrada acerca da Maçonaria não Operativa – ou de aceitação – tinha um contexto não Operativo e entre os nomes encontrados e que podiam ser verificados e cruzados com outras evidências, muito poucos tinham sequer a mais tênue relação com a construção ou a arquitetura.

A Maçonaria de aceitação (existem ainda dúvidas se a Maçonaria do século XVII pode ser denominada de Especulativa) simplesmente parece ter surgido na Inglaterra como uma organização nova, sem nenhuma conexão anterior com o ofício Operativo. Apesar desta carência de provas, a escola autêntica misturou conjuntamente os eventos ocorridos na Escócia e Inglaterra e construiu a teoria da transição Operativa – Especulativa sobre as origens da Maçonaria[8], sem ter em conta as diferenças e discrepâncias entre os dois conjuntos de evidências. Antes de tudo, passaram por alto ou ignoraram o fato de que a Maçonaria não Operativa se estava desenvolvendo na Inglaterra quando as Lojas escocesas começaram a aceitar membros não Operativos. Se as Lojas Operativas escocesas constituíram um meio de transição, como poderia existir na Inglaterra a Maçonaria puramente não Operativa?

A busca de um vínculo direto não se confinou às Ilhas Britânicas, nem ao período da denominada “Assembleia de York” Foram feitas tentativas de encontrar para ela um parentesco clássico como descendente dos “Collegia Fabrorum” romanos (as escolas de construtores da época), pois, além disso, a palavra “escola” parecia levar implícita a existência de um culto filosófico ou “misterioso” ligado aos construtores romanos. A lenda dos “Magistri Comacini” (Mestres Comacinos) parecia oferecer fundamento religioso ao Ofício.

Afirmou-se que os hábeis e renomados Maçons da região do lago de Como no norte da Itália, possuíam segredos tão recônditos suscetíveis de serem comunicados a outros Operativos, que foram constituídos mediante uma bula papal (bula inexistente, na realidade). Dizia-se que haviam recebido instruções de viajar pela Europa para partilhar suas habilidades e “mistérios”. É notória a ausência de provas sobre sua existência real.

Foram revisadas diligentemente as tradições e os registros dos “Steinmetzen” alemães e da “Compagnonnage” francesa em busca de rastros de algum elemento Especulativo, mas nada foi encontrado. A evidência nos remete sempre e novamente à aparição da Maçonaria não Operativa na Inglaterra, durante o século XVII. A teoria de uma filiação direta da Maçonaria Operativa segue tendo seus partidários, especialmente o falecido e muito reverenciado Harry Carr, mas alguns investigadores atuais que trabalham na tradição da escola autêntica estão se inclinando a considerar um vínculo direto com os Operativos[9].

Em vez de buscar as provas de filiação direta, estão explorando a possibilidade de que os fundadores da Maçonaria Especulativa tenham se ocultado sob a aparência de uma organização ou guilda para desenvolver atividades e ideias que eram impossível de praticar ou professar na época. O período no qual se crê tenha evoluído a Maçonaria – entre fins do século XVI e durante todo o século XVII – se caracterizou pela estreita relação entre a política e a religião. Durante esses anos, as diferenças de opinião nessas matérias podiam dividir as famílias e eventualmente conduzir a guerras civis.

Particularmente no que concerne à religião, existiam sanções legais contra aqueles que decidiam não seguir os ditames do Estado. Surgem por si mesmas, em consequência, duas ideias possíveis relacionadas com a origem da Maçonaria durante esse período. Primeiro, que os fundadores eram um grupo oposto à intolerância política e religiosa do Estado, que desejavam reunir homens de diferentes concepções políticas e religiosas, que compartilhassem objetivo comum de melhoria social. Como se encontravam em situação em que ditas concepções eram consideradas subversivas, restringiam-se apenas à discussão desses assuntos com os que não eram membros. Estes parecem ter existido desde que se originou a Maçonaria.

Segundo, que os fundadores eram um grupo de religião cristã não conformista, que se opunha ao domínio da religião por parte do Estado. Tal grupo não se propunha depor a religião predominante, mas desejava promover a tolerância e a criação de uma sociedade na qual os homens fossem livres para seguir os ditames de sua consciência em matéria religiosa.

Assim, as reuniões se converteram em Lojas, os oficiais principais passaram a se denominar de Mestre e Vigilantes e as ferramentas de trabalho do talhador de pedras foram utilizadas, tanto por suas funções materiais práticas, como por seu valor simbólico. Recentemente, foi apresentada uma teoria de filiação indireta. Ela associa as origens com os aspectos caritativos, mais do que com as discussões filosóficas[10]. Considera a Maçonaria como produto do crescente movimento de auto-ajuda surgido no século XVII. Por não existir um sistema estatal de proteção e seguridade social, aqueles que ficavam doentes ou que passavam por dificuldades econômicas dependiam da caridade local e das rígidas estipulações da Lei dos Pobres.

Diversos agrupamentos gremiais começaram a organizar seus próprios sistemas. Quando se reuniam a debater amistosamente em tabernas e pousadas, mantinham uma caixa à qual os membros aportavam cotas durante cada reunião e da qual os mesmos membros podiam tomar dinheiro em tempos de necessidade. Em virtude dessa prática, tais agrupamentos receberam o nome de “Clubes de Caixa” (“Box clubs”). A participação nestes clubes estava reservada em princípio aos membros de um grêmio em particular. Existe evidência que nos clubes foram utilizados ritos rudimentares de iniciação.

Parece também que, como as Lojas Operativas escocesas, os Clubes de Caixa começaram a admitir membros que não estavam vinculados diretamente com seu grêmio particular. Evocou-se a possibilidade de que a Maçonaria tenha surgido originalmente tão somente como um Clube de Caixa para Maçons Operativos, os quais posteriormente começaram a admitir membros de outros grêmios.

A possibilidade de que a Maçonaria tivesse sido basicamente uma sociedade de orientação gremial na época da criação da primeira Grande Loja em 1717 foi levantada por Henry Sadler[11]. Sugeriu ele que uma luta pelo controle das Lojas teve lugar em princípios da década de 1720, entre os membros originais de orientação gremial e os que foram levados às Lojas por influência do Dr. John Teophilus Desaguliers e outros e que a Maçonaria autenticamente Especulativa não surgiu senão quando este último grupo ganhou o controle e começou a transformar a Maçonaria de sociedade de benefícios, para “um sistema de moral, velado por alegorias e ilustrado por símbolos”.

Também se buscou em outras organizações a origem da Maçonaria. Uma teoria agora descartada, mas que conservou credibilidade por longo tempo, via na Maçonaria a descendente direta dos Cavaleiros Templários medievais. Afirmou-se que depois da eliminação de Jacques De Molay – seu último Grão-Mestre, em 1314 – um grupo de cavaleiros escapou para a Escócia Uma vez ali, se reuniram no misterioso monte Heredom, perto de Kilwinning e, temerosos de ulteriores perseguições, se transformaram em Maçons convertendo os supostos segredos dos Templários nos segredos da Maçonaria.

Infelizmente para os partidários desta teoria, o misterioso monte de Heredom não existe (ainda que viesse a se constituir em elemento central de numerosos graus adicionais inventados na França do século XVIII). Tampouco é verídico que os Templários tivessem sido perseguidos na Escócia. Formaram, pelo contrário, parte da vida política e religiosa da Escócia até à Reforma, sendo que o Prior de Torpichen (principal Priorado Templário da Escócia), por direito próprio, um dos “Lores” espirituais do governo escocês. Mesmo assim, a lenda escocesa segue exercendo sua atração romântica.

O Reverendo Dr. George Oliver declarou que possuía um manuscrito do século XVIII que se referia ao que ele denominou “Rito de Bouillon”, um ritual dos três graus azuis no qual informava aos recipiendários que eles eram descendentes dos Templários. O manuscrito de Oliver se conhece apenas em cópias que datam do século XIX e um exame de seu conteúdo mostra um ritual altamente desenvolvido para os três graus azuis que incorpora muitas das modificações e adições ritualísticas realizadas depois da união das Grandes Lojas inglesas em 1813.

Alguns buscaram as origens da Maçonaria no Rosacrucianismo, seja como uma manifestação britânica da fraternidade Rosa-cruz, seja como um desvio da corrente principal do Rosacrucianismo[12]. Não é este o lugar para discutir a existência ou não de uma Fraternidade Rosa-cruz. Qualquer que seja a verdade a esse respeito, o certo é que a ideia Rosa-cruz se manteve entretecendo-se no pensamento europeu, desde sua aparição no início do século XVII. Os únicos fatores comuns à Maçonaria e ao Rosacrucianismo são a ideia central de criação de uma sociedade ideal e o simbolismo, para distribuir esse ideal aos seus iniciados.

Até aí chega a similitude. Não existe um acervo comum de simbolismo e ambas se desenvolveram ao longo de caminhos diferentes. Não há evidência que demonstre uma origem comum ou o desenvolvimento de uma a partir da outra. Muito se tratou de utilizar para esses fins o fato de que Elias Ashmole, o primeiro iniciado não Operativo de que se tem notícia certa, também se interessava no Rosacrucianismo. Mas nada se diz dos demais Maçons Aceitos conhecidos, que não tinham relação com a Rosa-Cruz (real ou imaginária), nem sobre os Rosa-Cruzes declarados que não tiveram vínculos com a Maçonaria de Aceitação.

A escola não autêntica possui quatro enfoques principais, os quais poderiam ser classificados como o “esotérico”, o “místico”, o “simbolista” e o “romântico”. As quatro abordagens têm dois fatores em comum: a crença de que a Maçonaria existe “desde tempo imemorial” e uma aparente incapacidade de distinguir entre fato histórico e lenda. As escolas esotéricas e místicas estão de fato interessadas na transmissão das ideias e tradições esotéricas, o que constitui em si uma linha de investigação válida.

Ocorre que, ao se aproximarem de seu objetivo, convertem similitudes entre grupos muito separados no tempo, como prova de uma tradição contínua transmitida de um grupo a outro, em uma espécie de sucessão apostólica esotérica. Os seguidores destas escolas tendem também a professar ideias heterodoxas acerca da natureza e propósito da Maçonaria, atribuindo-lhe implicações místicas, religiosas e inclusive ocultas, que nunca teve.[grifo nosso]

Os partidários da abordagem esotérica tomam os princípios, os rituais, as formas, os símbolos e a linguagem da Maçonaria e buscam similitudes com outros grupos (ignorando o fato de que os princípios e muitos dos símbolos são universais e não particulares da Maçonaria). Supõem que essas similitudes não são fortuitas mas deliberadas e constituem, portanto, prova de uma tradição contínua. Colocam, também, grande ênfase nos graus adicionais, revestindo-os de uma antiguidade espúria e vendo neles conteúdo esotérico e simbolismo muito maiores do que jamais se tentou lhes imprimir.

Ao ver o conjunto das diversas ramificações da Maçonaria um rito iniciático coerente, coisa que não é, a escola esotérica a compara com outros ritos iniciáticos, encontra semelhanças – reais ou impostas – e supõe um parentesco. John Yarker é, provavelmente, o maior expoente dessa escola. Seu “opus magnum”, “As Escolas Arcanas” (Belfast, 1909) é um monumento à erudição mal aplicada. Não apenas revela a amplitude de suas leituras, mas também sua dificuldade para digerir ou, em alguns casos entender, aquilo que havia lido.

À primeira vista pareceria que operava na escola autêntica, já que faz constante uso da “evidência documentária”. Um exame mais atento mostra que ele não efetuava análise crítica de suas fontes, com o que aceitava como fatos as lendas, a tradição e o folclore e chegava a negar fatos reais adequadamente documentados. Yarker estava firmemente convencido que a Maçonaria existiu entre os talhadores de pedra Operativos da Idade Média e que eles já trabalhavam com uma complexa série de graus que abarcava os três graus azuis (o Ofício) e muitos dos graus adicionais. Acreditava também que tal sistema havia declinado e que seu ”ressurgimento” no século XVIII constituía um renascimento, mas de forma distorcida.

Para poder aceitar as teses de Yarker, teríamos que aceitar que ao talhadores de pedra medievais eram homens intelectualmente preclaros, hábeis com o trato de ideias que não ingressaram no acervo da filosofia ocidental senão depois do Renascimento. Yarker viu a Maçonaria como a culminação ou o “summum bonum” de todos os sistemas esotéricos. Ao fracassar na “depuração” do sistema existente, Yarker introduziu, nos Estados Unidos da América, o “Rito Antigo e Primitivo da Maçonaria”. Este Rito combinava e reduzia os noventa e sete graus do Rito de Misraim e os noventa e cinco graus do Rito de Mênfis, convertendo-os em um “pout porri” de egiptologia, gnosticismo, rosacrucianismo, cabala, alquimia, misticismo oriental e cristianismo.

Resume perfeitamente a mente eclética e acrítica de seu principal promotor na Inglaterra. Este Rito a duras penas sobreviveu à morte de Yarker. Talvez os representantes mais característicos da escola mística sejam o Rev. George Oliver e A.E. Waite. Oliver foi um fervoroso fundamentalista pré-darwiniano que acreditava firmemente que a Maçonaria era essencialmente cristã e havia existido, sob uma forma ou outra, desde o começo dos tempos. Em vários sentidos pode ter sido o pai da escola autêntica. Lia com avidez qualquer livro maçônico ao seu alcance e colecionava até as frações de provas mais ínfimas que pudesse encontrar, mas, como Yarker, sua forma de leitura era acrítica e se inclinava para a invenção quando escasseavam as provas.

Waite, como Oliver, acreditava que a Maçonaria era essencialmente cristã, tanto em sua origem, como no seu caráter. Cria que a Maçonaria tinha suas raízes no sistema das guildas, mas que havia sido transformada em sistema místico. Seus rituais, em particular os dos graus adicionais, conteriam o conhecimento secreto dentro da tradição dos Mistérios. Sua desorganizada “Nova Enciclopédia da Maçonaria”, na qual pôs pesada ênfase sobre os graus adicionais, tanto existentes como extintos, foi demolida pela crítica da escola autêntica no momento de sua publicação em 1921.

A escola simbolista busca as origens da Maçonaria mediante a comparação e a correlação do simbolismo e da linguagem ritual e trata de encontrar a filiação direta entre a Maçonaria e várias religiões, cultos, mistérios e sociedades. Da mesma maneira que a escola esotérica, esta linha de investigação tem certa validade, mas como antropologia do simbolismo e não como investigação das origens da Maçonaria. A incidência de certos símbolos, gestos e terminologia conduziram esta escola a comparar a Maçonaria com religiões dos ameríndios, cerimônias maias, rituais mitraicos e aborígines, pinturas de templos egípcios, marcas de castas hindus, etc.

O problema é que os símbolos maçônicos não são exclusivos da Maçonaria, pois são universais. Dentro da escola simbolista se encontra quem foi buscar a origem do ritual maçônico mediante a exegese de obras de escritores bem conhecidos, com o fito de encontrar exemplos de “linguagem maçônica”. O mais excêntrico deles foi provavelmente Alfred Dodd, que se convenceu a si mesmo que Shakespeare (chame-se Shakespeare, Bacom ou Marlowe) compôs o Ritual do Ofício[13].

De uma maneira os seguidores da escola romântica se aproximam da tradição de Anderson, já que implicitamente acreditam na conexão direta entre a Maçonaria Operativa e a Maçonaria Especulativa, mesmo que tal vínculo se remonte a Adão, Salomão ou aos construtores medievais. Diferem da escola autêntica por rechaçarem, ou desconhecerem, as numerosas formas pelas quais a Maçonaria mudou e se desenvolveu durante o período do qual existem registros históricos. Estão dispostos a crer que o ritual tem sido praticado desde tempo imemorial, seja em suas formas fundamentais, seja conservando integralmente seus detalhes.

A carência de conhecimento sobre a origem da Maçonaria e a variedade de abordagens que existem para enfocar esta interrogação explicam, talvez, a intensidade com a qual se a investiga e a persistente atração que exerce. A ausência de dogmas oficiais implica que qualquer membro da Ordem pode dar ao ritual tanto ou tão pouco significado, conforme deseje. Nem sequer na Inglaterra existe um padrão, ou se trate de um ritual controlado de maneira centralizada ou de uma interpretação do ritual que deva ser aceita por todas as Lojas. Quando é que, alguma vez, cheguemos a estar prestes a descobrir as verdadeiras origens da Maçonaria é uma pergunta que permanece em aberto.

Os registros e documentos relacionados com a construção medieval foram revisados na sua totalidade, mas os arquivos religiosos, familiares e locais permanecem praticamente inexplorados. Por outro lado, a ser correta a afirmação de Anderson de que numerosos manuscritos foram queimados deliberadamente em 1720, “por alguns Irmãos preocupados que tais documentos fossem cair em mãos estranhas”, é bem possível que a prova crucial que procuramos já esteja perdida.

Autor: John Hamill*
Tradução: J. C. Miró

*Bibliotecário e Curador da Grande Loja Unida da Inglaterra; Past Master da Loja Quatuor Coronati No. 2.076.

Publicado nos n.º 9 e 10 (Nov. e Dez./2000) da Revista Internacional “Hiram Abif”, Mar del Plata – Argentina.

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Notas

[1]– Seguindo a tradição maçônica inglesa, o autor denomina “O Ofício” (The Craft) ao conjunto dos três graus fundamentais da Maçonaria e de seus membros, Os três graus fundamentais, Aprendiz, Companheiro e Mestre são conhecidos como “Maçonaria Azul”.

[2]– James Anderson, “As constituições dos Franco-Maçons, Com a História, Obrigações, Regulamentos, Etc. Desta Mui Antiga e Venerável Fraternidade”. Londres, 1723.

[3]– As Constituições Góticas (“Gothic Constitutions”) são a recopilação de preceitos corporativos, também conhecida como “Os Antigos Deveres” (“Old Charges”)

[4]– Para uma discussão sobre o tema da lenda de York, ver Begemann AQC 6 (1893); Gould AQC 5 (1892); Oliver AQC 61 (1948); Speth AQC 6 (1893) e Alex Horne “A Lenda de York nos Antigos Deveres” (“The York Legend in the Old Charges”) (Shepperton; A. Lewis, 1978). AQC: Anais da Quatuor Coronati, Loja de estudos históricos pertencente à Grande Loja Unida de Inglaterra.

[5]– Anderson é a única fonte que se pode citar para sustentar a ideia de que os eventos de 1717 constituíram uma restauração.

[6]– Os “Pocket Companions” começaram a aparecer em 1735 e eram uma mistura pouco feliz de plágios das regras e do relato histórico de Anderson, junto com vários deveres e orações.

[7]– Ver Douglas Knoop, “A Palavra Maçônica (“The Mason Word”), AQC 51 (1938).

[8] – O relato mais recente da teoria da transição Operativa-Especulativa é “600 Anos de Ritual do Ofício”, (“600 Years of Craft Ritual”) de Harry Carr, texto que se encontra no livro “O Mundo da Maçonaria”, de Harry Carr, (“Harry Carr’s World of Freemasonry”) publicado em Londres por A. Lewis, 1984.

[9] – Ver C.F.W. Dyer, “Algunas Reflexões Sobre a Origem da Maçonaria Especulativa (“Some Thoughts on the Origin of Speculative Masonry”), AQC 95 (1982).

[10] – Andrew Durr, “A Origem do Ofício” (The Origin of the Craft), AQC 96 (1983).

[11] Henry Sadler, “Fatos e Ficções Maçônicos” (“Masonic Facts and Fictions”), Londres 1887; reimpresso por Wellingborough (Aquarian Press, 1984).

[12] – Ver J. S. M. Ward, “A Maçonaria e os Antigos Deuses” (“Freemasonry and the Ancient Gods”) segunda edição (Londres, 1926). A.E. Waite, “A Tradição Secreta na Maçonaria” (“The Secret Tradition in Freemasonry”), (Londres, 1911).

[13] – Alfred Dodd, “Shakespeare: Criador da Maçonaria (“Shakespeare: Creator of Freemasonry”) (Londres, circa 1935) e “Foi Shakespeare o Criador dos Rituais da Maçonaria?” (“Was Shakespeare the Creator of the Rituals of Freemasonry?”), (Liverpool, sem data).