Liberdade e desigualdade no Brasil – Uma reflexão maçônica durante a pandemia

Como os super-ricos aprofundam a desigualdade social no mundo ...

“Aqueles que abrem mão da liberdade essencial por um pouco de segurança temporária não merecem nem liberdade nem segurança” (Benjamin Franklin)

A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, fruto do Iluminismo e aprovada pela Assembleia Nacional Constituinte da França revolucionária em 1789, resume no primeiro artigo que “os homens nascem e são livres e iguais em direito”. A crítica que se faz é que a liberdade e igualdade ali referenciadas eram restritas às pessoas do sexo masculino, cidadãos possuidores de interesses, ficando de fora os pobres, os empregados, os escravos e as mulheres.

Em dezembro de 1948 foi promulgada “A Declaração Universal dos Direitos Humanos”, que delineia os direitos humanos básicos, adotada pela Organização das Nações Unidas, como uma norma comum a ser alcançada por todos os povos e nações. O que poucos sabem é que a influência da maçonaria é que permitiu a sua codificação.

Desde a primeira Declaração permanece em moda a discussão sobre o que é ser livre e ser igual. As sociedades que souberam trabalhar melhor e equilibrar esses conceitos são consideradas as mais prósperas.

O Brasil carrega uma dívida decorrente da Lei Áurea de 1888 que libertou juridicamente os escravos, mas não lhes proporcionou as condições de liberdade de consciência e de ter uma vida verdadeiramente livre, com o exercício da cidadania plena, que permita às pessoas exercerem todas as suas potencialidades legítimas. Na Constituição de 1891 foi negado o direito de voto aos analfabetos. Daí a se concluir que a chave da liberdade se dá com a melhoria da qualidade da educação, que emancipa, forma pensamento crítico, proporciona esperanças e é a mais efetiva via de acesso ao desenvolvimento de uma nação. É a educação que prepara o ser humano para o exercício consciente da cidadania.

Promulgada em 1988, um ano antes da queda do muro de Berlim, quando ainda imperava a crença de que o socialismo seria a solução para superar a pobreza e a desigualdade, e com um viés estatizante e quase anticapitalista, a atual Constituição Federal ampliou direitos ao permitir o acesso dos mais pobres aos serviços públicos. O Capítulo II, artigos 6º e 7º, definem com muita clareza os Direitos Sociais, com o destaque do art. 6º:

“São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância e a assistência ao desamparado.”

Representam conquistas do povo, mas é preciso vigilância, pois aquilo que se conquista pode também se perder ou nem chegar a ser implantado.

Políticas como o Bolsa Família, as cotas sociais nas universidades, o salário mínimo, as ações do SUS e fundos constitucionais (Fundef/Fundeb), produziram seus resultados. O Fundeb corre o risco de ser extinto em 2021, caso não seja prorrogado. Essa rede de assistência social criada ao longo dos anos pós-Constituição é que permite ao Estado amenizar o sofrimento das classes menos favorecidas. Mas, poucos são os assistidos e a qualidade deixa a desejar, em especial quanto ao ensino nas escolas públicas e as dificuldades de marcação de consultas, exames e atendimentos hospitalares. Isso para não falar nos problemas ligados a segurança, transporte público, habitação, violência e acesso à cultura.

No campo dos direitos civis, ações como o Estatuto da Criança e do Adolescente, o Código de Defesa do Consumidor e o Estatuto do Idoso se constituíram em grandes conquistas. Quanto aos direitos políticos, os avanços se deram a partir da permissão do voto do analfabeto e maiores de 16 anos, atendimento a demandas da população indígena, dos movimentos negro, feminista, LGBT e demais grupos minoritários.

Mas, privilégios em determinadas áreas ainda são mantidos. Esses direitos não deveriam ser bandeiras de grupos de pressão ou de partidos políticos, mas uma missão do Estado brasileiro. O País continua desigual porque o orçamento público sempre destina recursos aos grupos mais influentes, à elite burocrática e a quem efetivamente não precisa. Pequena parcela chega aos mais vulneráveis, como o Bolsa Família e a renda mínima aos maiores de 65 anos (Benefício de Prestação Continuada criado pela Lei Orgânica da Assistência Social – LOAS – de 1993). A solução passaria por uma reforma profunda do Estado.

As grandes dimensões territoriais do Brasil representam um fator dificultador, com desigualdades regionais, de renda e de elevado nível de violência. Essas desigualdades sociais e a injustiça persistem e são dolorosas. Mesmo entre os mais pobres existe diferença entre graus de pobreza. Como agravante, destacam-se o saneamento escasso e falta de urbanização em comunidades carentes, a precariedade da rede de proteção social, as diferenças entre os sistemas público e privado de saúde, com estimados 40% dos trabalhadores na informalidade, além de milhões de desempregados e pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza.

O surgimento do coronavírus, que atinge com sua força destrutiva indistintamente ricos e pobres, evidenciou o fosso social brasileiro, demonstrando que a desigualdade deixa claros seus efeitos em catástrofes naturais ou em pandemias, ensejando a urgente necessidade de socorro à população mais vulnerável e de um novo pacto social, com políticas públicas e econômicas mais progressistas. Especialistas afirmam que essa crise é a maior enfrentada pelo mundo desde o desastre econômico gerado pela Grande Depressão dos anos 30 e pós Segunda Guerra Mundial, sabendo-se ainda muito pouco de seus efeitos na sociedade e no corpo humano, em particular. A corrida armamentista da biologia está no seu auge.

As autoridades brasileiras durante a crise deixaram claro que são competentes para lidar com os incluídos, aqueles que pagam impostos e são, portanto, visíveis, mas extremamente ineficaz quando tem de lidar com os excluídos, aqueles não integrantes da sociedade de consumo, em especial os que não têm endereço fixo, os “desbancarizados” (sem conta em banco), sem telefone celular e acesso à internet, não detentores de um CPF ou com os mesmos bloqueados. O governo não sabe onde estão e quem são eles. Como falar em isolamento social em comunidades com famílias amontoadas em becos, muitas sem água encanada em casa, em uma convivência confusa entre as pessoas? São, portanto, invisíveis e muitos vivem ou sobrevivem em condições desumanas.

A classe carente e esquecida sempre esteve presente na cena diária, como os moradores de rua, os catadores de lixo, os mendigos, os vendedores e acrobatas de cruzamentos, dentre outros. Acrescentem-se os que vivem na informalidade e de biscates, sem garantias trabalhistas, os autônomos, os trabalhadores sem registro, que não têm poupança e precisam de rendimentos diários para sustentar suas famílias e dos poucos assistidos do programa Bolsa Família. E, por derradeiro, ainda sofrem com o menosprezo de autoridades de relevo em face das perdas com mortes de entes queridos vitimas da pandemia.

Assim como foi desafiadora a libertação dos escravos no século XIX, assim o é a superação da miséria nos tempos atuais. Os devastadores impactos da crise planetária da Covid-19 lançaram luzes nesse campo, e o Brasil se viu diante de um número gigantesco de desassistidos à míngua de uma renda mínima que garanta a sobrevivência, tendo o governo que adotar um auxílio emergencial para superar o grave momento vivido, que inicialmente tem a previsão de 3 meses, mas podendo ser vislumbrada a possibilidade de tornar-se perene. E sabe-se que esses recursos voltam imediatamente para a economia sob a forma de consumo. É sangue direto na veia.

O tamanho e a complexidade do País dificultam a escolha de um caminho ideológico para solução das desigualdades, ainda historicamente restrito ao grupo de centro-esquerda. Aqueles posicionados na centro-direita apostam na competição e enfatizam os valores da concorrência como condição para a promoção do desenvolvimento, para que o setor privado gere prosperidade, mas adota ações sociais focadas para o combate da pobreza e desigualdade, quando as contas públicas o permitem.

Um tema recorrente entre esses grupos é o combate à corrupção (sempre atribuída ao outro lado) como agenda prioritária, tema esse bastante explorado pelos meios de comunicação de massa, que acaba ocultando a questão da desigualdade. Ambas as correntes chegam aos extremos do espectro, com discursos bem polarizados e desviam o foco do essencial. O que se espera é que não haja retrocessos em função dessa polarização, com perda do que foi até aqui conquistado, e que as lideranças políticas do país sirvam a todos indistintamente, e não apenas ao seu grupo de iguais.

O dilema é ainda maior quando se fala em igualdade em um cenário de milhões de empregos a serem extintos pelo uso da inteligência artificial. Não se pode olvidar a nova tendência do “home office”, que se tornou alternativa viável durante a pandemia do coronavírus, acelerando mudanças de comportamento, vislumbrando-se um caminho sem volta, pois as empresas reduzem custos e os profissionais conciliam tempo e outros afazeres, além dos ganhos dos grandes centros em termos de movimentação de pessoas e veículos e melhoria do clima, com o destaque para as operações “on-line” que afetam a formatação das lojas físicas.

Mesmo não nos deixando influenciar pelo sentimento de angústia quanto ao futuro, difícil não pensar em um mundo mais desigual decorrente desta crise sanitária, com as implicações negativas em todas as áreas, como a econômica, política e, sobretudo, a social. Já se especula que essa pandemia possa ter as mesmas consequências para o Liberalismo do que representou a queda do “Muro de Berlim” para o Comunismo. Chegou a hora da verdade: é pagar para ver? Como ensina a sabedoria popular, o imprevisível é realmente muito difícil de prever.

O cenário da evolução tecnológica e o pós-crise ensejam novas preocupações na medida em que grande parte da força de trabalho desatualizada enfrenta concorrência das máquinas inteligentes com o aumento das condições de desigualdade. Mais uma vez, a solução está na educação e em políticas que protejam os direitos dos trabalhadores e apoio às empresas que geram empregos.

Entretanto, no momento, a única certeza é a de que as consequências da atual crise terão reflexos em políticas protecionistas e nas cadeias produtivas globais e serão absorvidas exclusivamente pelas empresas do setor privado, com quebras já no horizonte e o desemprego. O Brasil como um todo certamente sairá mais pobre, com déficit e dívida pública agravada e coesão social comprometida. Segundo os economistas, a solução passa pelo crescimento do Produto Interno Bruto, que dará suporte aos gastos públicos e à geração de empregos.

No contexto pré-crise, parte significativa do contingente de desempregados já não estava preparada para ocupar espaço na economia do futuro, por falta de mão de obra qualificada e carência de profissionais, inclusive para enfrentar os dias atuais. Muito tempo foi perdido com lorotas e populismo. E a sociedade assiste a tudo apenas dizendo-se esperançosa e confiante. Em quê ou em quem? Então, a solução passa por um alinhamento de todas as instituições agindo em uma só direção, com as diferenças colocadas de lado em nome do bem comum. Difícil de acreditar quando já se fala em sucessão no governo e grupos políticos reiniciam os tradicionais conchavos.

Mais difícil ainda reconhecer a ideologia social de que somos todos iguais e de que não existem seres piores ou melhores. Nosso País precisa desenvolver políticas públicas visando ao fortalecimento das instituições democráticas e superação da desigualdade e da violência. Por ser um dos mais injustos do mundo, o Brasil é um dos países mais desiguais do mundo. E justiça pressupõe dar a cada um o mínimo que lhe cabe, evitando privilégios e exclusões sociais. Sem justiça não há paz.

Por sua vez, a liberdade é motor do empreendedorismo e de transformações tecnológicas, que decorrem de projetos e sonhos. A área da Economia demanda um Estado bem organizado e uma sociedade consciente e mobilizada. Compete ao Estado criar as condições que viabilizem o desenvolvimento sustentado, em especial nos setores de saúde, educação, meio ambiente e ciência e tecnologia.

Segundo o artigo de Karen Franklin (CESCON, Paulo; Nodari, César. Filosofia, ética e educação: por uma cultura da paz. São Paulo: Paulinas, 2011),

“Toda sociedade democrática necessita de cidadãos comprometidos com o respeito aos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. Contudo, a conquista desse comprometimento não é natural e espontânea, ela precisa ser forjada no interior dos sujeitos e da sociedade, enfim, ela necessita ser educada.”

Mas, há uma corrente que vê isso como uma ameaça, dado que a formação de massa crítica e a consciência cidadã incomodam alguns dirigentes políticos que perdem espaço de dominação.

A discussão sobre a liberdade evoca um dilema repisado por vários analistas:

“devemos aceitar uma ditadura, com restrição às liberdades individuais, em troca de um contrato social de melhoria coletiva do padrão de vida?”

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso teve uma fala citada na Revista VEJA (Edição 2682, ano 52 – nº 16, de 15.04.2020, p. 26), prevendo a ascensão dos países orientais, menos presos às ideias de liberdade, após a pandemia da Covid-19:

“O povo não quer nem saber o que é liberdade e individualismo. Quer saber se tem emprego, tem comida, tem transporte, tem saúde. E, se eles derem isso, vão nos dar um banho.”

Esse posicionamento conflita com o pensamento contido na abertura desta prancha e merece reflexão.

No mesmo diapasão sente-se que a liberdade de expressão não é mais um valor cultuado ao se constatar que não se pode mais pensar de forma diferente sem sofrer a condenação de tribunais virtuais e ver ameaçadas as relações sociais e até mesmo o sagrado convívio no lar. Tempos muito estranhos!

Ainda sobre o direito à privacidade, uma nova ferramenta gerada pela revolução tecnológica passou a ser motivo de questionamentos, como ficou evidenciado na pandemia do coronavírus, com a possibilidade de rastreamento de pessoas doentes por intermédio dos telefones celulares. Essa estratégia poderia ser utilizada também por governos autoritários para controlar seus habitantes. O que precisa ser definido é como aplicar essas ferramentas sem desrespeitar as liberdades individuais.

A geração atual ainda não tinha passado pela experiência de confinamento social, com restrições de liberdades. Ainda não é possível avaliar as consequências de como as pessoas se portarão com a continuidade da quarentena e das perdas percebidas em cada situação, em especial na saúde mental, e notadamente quando iniciarem-se o relaxamento por setores da economia e houver um sentimento de tratamento desigual. Certamente teremos uma referência no tempo deste segundo decênio como o real marco do início do século XXI, antes da Covid e depois da Covid (a.c e d.c – com todo o respeito, com o “c” minúsculo).

No que tange à igualdade é imprescindível que criemos consciência de que dependemos um do outro para vivermos, não havendo espaço para o egoísmo que submete as pessoas ao nosso redor em situação de fragilidade. E, como cidadãos, devemos manter o respeito ao coletivo, dando tratamento igual e digno a todos, o que se constrói por meio do espírito de solidariedade e da garantia de uma sobrevivência com a instituição de uma modalidade de seguro social que garanta renda mínima para todos, nos moldes já mundialmente defendidos desde a crise econômica global de 2008, como a proposta de uma Renda Básica Universal (RBU), de forma que não haja famílias desassistidas. Isso é apenas o começo.

Enfim, a Maçonaria brasileira não pode apenas divulgar manifestos de repúdio e deixar de agir, ficando à margem dessas discussões, notadamente por sua histórica característica progressista, o que a colocou sempre envolvida nos grandes temas de interesse da sociedade em geral, sem partidarismos e apegos a personalidades da hora e a ideologias que não a sua missão de tornar feliz a humanidade. Repúdio sem ação é mera insatisfação!

Com as luzes do G∴A∴D∴U∴, que essa pandemia nos ajude a desconectar do egoísmo e do ódio e a focar em ações mais construtivas.

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

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Ética e Maçonaria

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O presente artigo tem por objetivo trazer à luz da Maçonaria o debate sobre a Ética, levantando questões pertinentes ao dia-a-dia do maçom em seu ambiente maçônico, familiar e profissional. Definindo ética, ética e maçonaria, seus limites. Apontando valores sociais a serem cultivados e estratégias para uma conduta ética.

“Depois de falarmos das virtudes, das formas de amizade e das várias espécies de prazer, resta-nos discutir em linhas gerais a natureza da felicidade, já que afirmamos que ela é o fim da natureza humana.” – Aristóteles, em Ética a Nicômaco.

Não é minha pretensão apresentar respostas sobre a ética e a maçonaria, mas sim abrir uma linha de estudo e debate para que possamos encontrar um caminho na presente ordem mundial e diante das necessidades que exigem que nos adequemos a um mundo que não tem mais ‘fronteiras’, que está sempre perguntando quem somos nós e qual o nosso papel e participação nesta nova ordem.

O presente texto é o resultado de minhas leituras sobre ética numa perspectiva atual, através dos paradigmas de um mundo globalizado, que exige nos adequarmos a ele se quisermos contribuir para a construção de um mundo melhor.

A Maçonaria, Ordem espalhada no mundo seguindo leis e costumes tradicionais sobrevive, assim, obedecendo aos limites de suas Normas, Constituições, Regulamentos, Regimentos, Landmarks. O mais importante é que estes limites estipulam legalmente o que é e o que não é Maçonaria. Qualquer coisa fora desses postulados descaracteriza a Ordem. Dessa forma, cresce sem governo central ou mundial, mas pura e limpa. Não obstante, pelas questões da supremacia do domínio, existem correntes que se proclamam provedoras únicas de patentes concessoras do direito de existir, conceder e reconhecer existências. Criam-se os blocos e cercam-se em si num obscuro relacionamento reservado e exclusivista. Mas, o que tem a ver a ética com isso? Como a ética pode ser trabalhada na maçonaria? A maçonaria é uma instituição ética? Como a maçonaria pode influenciar os cidadãos para a construção de uma sociedade mais justa e ética?

Estaríamos cumprindo com nosso papel de combater as tiranias cavando masmorras aos vícios e promovendo a ética e a moral? Como estamos lidando com as vicissitudes deste novo milênio, onde a eletrônica, a genética, a clonagem e o uso de novas tecnologias estão dando início a intensos debates sobre o ‘usá-los ou não’? E, por fim, o que nós, maçons, podemos fazer para darmos nossa contribuição para a construção de um mundo melhor para os nossos descendentes? Agora, neste momento, a principal questão a ser respondida é: “Afinal, o que é ética?” Muitos a definem como um conjunto de ‘valores construídos pela sociedade humana em toda a sua história e que norteiam o seu coexistir, ou seja, definem como o homem deve se comportar diante de se mesmo. Condutas familiares, trabalhistas, profissionais, grupais, corporativos etc., são exemplos de valores éticos positivos ou negativos presentes na história da humanidade conduzindo-a em direção ao porvir. O certo é que estes valores influenciam a qualidade de vida, o desenvolvimento cultural e a preservação da própria cultura.

No seu significado em nossa língua, ética e moral têm o mesmo significado antigo. Referem- se ao conjunto de costumes tradicionais de uma sociedade: valores e obrigações para a conduta de seus membros.

O dicionário Mini Aurélio Século XXI dá os seguintes significados:

  • ÉTICA – refere-se ao “estudo dos juízos de apreciação referentes à conduta humana suscetível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal”.
  • MORAL – refere-se ao “conjunto de regras de conduta ou hábitos julgados válidos, quer de modo absoluto, quer para o grupo ou pessoa determinada”.

Moral, assim, pode ser definida como o conjunto de valores que toda cultura e cada sociedade institui para todos os seus membros. Desta forma este conjunto de valores se constitui, basicamente, no que deve valorar como o bom ou mau; como se deve distinguir o bem e o mal; e, por fim, o comportamento necessário, aconselhável, o permitido e o proibido.

Sobre a origem da moral alguns pensadores reúnem-se em dois grupos ou correntes: o primeiro, diz que a moral tem sua origem em princípios metafísicos e, como tal, é superior ao homem; seria ela de “inspiração divina”; o outro, afirma ser ela de origem puramente humana. Uma tem uma essência eterna e imutável e como produto do homem, deve ser adaptada às suas necessidades. Ou seja, é decorrente do tempo histórico e da evolução das relações sociais.

Mesmo assim, é certo que a moralidade é a obediência ao costume de tal forma que onde não há nenhum costume certo, nenhum modo tradicional de agir e de avaliar, não há moralidade, prevalecendo, desta forma, o ‘amoral’.

Entendida como um estudo racional da moral, a ética tem data de nascimento e origem. Ela nasce na Grécia do século V a.C. e com a atitude de reação aos sofistas por parte de Sócrates. Esta problemática relação situa-se no âmago do agir comunicativo.

A ética é a vida pensada (filosofia), enquanto que a moral é o conjunto de regras concretas (leis). A ética é o pensar as leis, compreende-las, criticá-las. A moral e a ética são temporais, ou seja, evoluem com o decorrer do tempo, criando novos conceitos e regras. A moral não pensa em ‘liberdade’ ou na ‘dignidade’ do individuo, a ética sim. Neste aspecto, a maçonaria nos induz a pensar sobre como devemos nos comportar em relação aos outros e a nós mesmos. A luta e o trabalho pela conquista e pela posse determinam um ambiente de competição, onde a vitória de um resulta na derrota do outro. Assim, durante o processo de sua evolução o homem foi desenvolvendo um sistema de regras que passaram a orientar o que é certo ou errado, o bem e mal, o liberado e o proibido, conduzindo-nos a um comportamento ‘adequado’ e ‘aceitável’ pelo grupo social de nosso convívio. Desta forma surge a moral. E ela é fruto dos costumes, da cultura. Já a ética é o que vem do nosso interior, é o que ‘mora’ dentro da gente, o que advêm das nossas relações sociais, das conversas, do consenso. Das nossas abstrações sobre o ‘ser’ ou ‘não ser’ corretos. Ela é para muitos intuitiva e busca direcionar as relações entre os seres humanos e seu modo de ser, de pensar, de agir de acordo com as circunstâncias. Assim, podemos afirmar que uma de nossas principais características – a conduta racional – é a base da ética. Desta forma, podemos definir a ética como o resultado das reações humanas às ações e estímulos provocados pela sociedade.

A ética pode ser destrutiva (negativa) quando comportamento dissociado, atitude preconceituosa, desconfiança, descrença no valor humano, discurso diferente da práxis tornam-se presentes na sociedade. Ela é positiva (construtiva) quando o comportamento harmonioso, atitude aberta, inteira confiança, crença no valor do ser humano, discurso coerente com a práxis são elementos norteadores da sociedade.

A questão que nos cabe levantar neste momento é: “A maçonaria está cumprindo com suas obrigações de lutar pela harmonia das sociedades, pela justiça e combatendo as desigualdades?”

E mais: Será que seu papel social está de acordo com os novos tempos? Seus pressupostos morais estão servindo de base para a construção de uma ética voltada para os novos tempos? Estamos construindo uma ética maçônica positiva ou negativa?

Na maçonaria, a ética é ligada diretamente ao princípio da busca da Verdade, tendo sua origem nas tradições gregas, onde seus pensadores afirmam que a busca da verdade não esta dissociada da prática do bem. A verdade e a virtude são os dois pólos de uma única busca que caracteriza a ética iniciática, a ética maçônica. Consideramos a ética como sendo de caráter universal e que pertence à historia do ser humano. Desta forma, o maçom deve considerar a ética como principio que não pode ser colocado em dúvida e que deve ser o ponto de partida para as suas ações. A conduta ética maçônica tem dois aspectos: um, o maçom deve viver não só segundo os seus princípios (íntimos) e perseguir a prática da virtude; e o outro, a construção de atitudes que sejam voltadas para compreender a ética e a sua adequação às continuas mudanças na coletividade humana.

O certo da ética é lutar pela autonomia, liberdade de expressão, delegação e divisão de responsabilidades; por outro lado, o seu lado negativo é dominação, autoritarismo, centralização e dependência. Tudo isto redunda apenas na necessidade do poder. Mas afinal, se isto acontecer na Maçonaria, o que poderíamos fazer para mudar? Sendo a ética maçônica fundamentada na íntima relação entre a virtude e a verdade, é um sistema de princípios aberto, ao qual todo maçom oferece a sua contribuição, de modo a adequá-los ao bem pessoal e social. O bem individual do maçom é o bem de todos os maçons. E o bem desta fraternidade é o bem de toda a sociedade, pois se depreende daí que a maçonaria não pode caminhar separada do restante da sociedade, sendo suas vitórias ou derrotas decorrentes da labuta diária de todos nós. Assim, o conceito de irmandade passa a ser aplicado a toda a humanidade quando a maçonaria se volta, de forma progressiva, para o bem comum. Desta forma, torna-se necessário que no mundo os fins sejam alcançados em estrita obediência aos princípios da virtude, da razão, da moral e da ética, sem os quais não haverá processo evolutivo.

Sabemos que ser ético é agir de acordo com os valores morais que uma sociedade construiu como sendo os justos e perfeitos. Os princípios da Maçonaria reforçam a particularidade e o culto da ética pelo Maçom. Os princípios norteadores da Maçonaria estabelecem-se como regras jurídicas e isto a têm mantido viva através dos tempos. O que ocorre é que maçons que estiverem quebrando alguns princípios jurídicos podem esbarrar, inclusive, nas leis que regem a convivência em sociedade e sofrerem ações comuns da lei profana por pura falta de ética. No entanto, cabe-nos perguntar: nós estamos dando o devido encaminhamento ético de acordo com nossos costumes e códigos que nos regem e que nos mantiveram ativos até hoje? Os nossos IIr∴ que cometem abusos de poder político e econômico, crimes contra a sociedade, contra a família etc., estão recebendo as punições previstas em nossas leis maçônicas?

A ética maçônica é pautada nas normas que consiste em seu fim, visando o comportamento moral do indivíduo ou de todos os membros da Ordem. Na vida real, o maçom, como qualquer outro indivíduo, ao defrontar-se com os problemas recorre às normas reconhecidamente profanas, cumpre suas normas e formula seus juízos de valores e argumentos para justificar suas atitudes e decisões com base na vida profana e, muitas vezes, em total desacordo com sua vida maçônica. A ética maçônica não deve ser mera transcrição de um discurso irracionalmente ordenado das razões normativas presentes nas sessões ou na comunidade maçônica. A ética maçônica não é hermeticamente fechada em um círculo. Ela é dinâmica e faz parte da evolução humana. Ou melhor, ela é a evolução humana.

Seria bom observar alguns milenares valores fundamentais, individuais – válidos até hoje e que estamos sempre nos dispondo a defendê-los:

  • ser honesto em qualquer situação;
  • ter coragem para assumir as decisões;
  • ser tolerante e flexível;
  • ser íntegro;
  • ser humilde.

Os valores acima são condensados na filosofia maçônica. Alguém se importa? Estes valores não podem, não devem ser apenas objetos do discurso, de pesquisas e estudo. Ou tudo não passa de mera retórica?

As organizações profanas se convencem cada vez mais que para sobreviver terão que agir com muito mais atenção em relação á ética, pois qualquer reflexo produz história boa ou má. E o julgamento é certo.

Como dissemos, não podemos ser inocentes e pensar na Maçonaria, enquanto Loja, Potência e/ou Confederação como apenas, e unicamente, entidades jurídicas. Nós existimos como seres sociais e construtores da história, são muitos os exemplos a serem citados. Será que hoje estamos dando nossa contribuição para a construção de uma história moralmente ética e que será julgada positivamente no futuro? Será que a maçonaria do futuro poderá se orgulhar de nossa participação no desenvolvimento humano? As nossas atitudes hoje, por menores que sejam, trarão grandes reflexos no futuro. É o ‘efeito borboleta’ da Teoria do Caos. O mundo profano olha para nós e espera uma resposta que diga a eles que não somos representantes do mal, que estamos aqui para contribuir positivamente e com ética construtiva para o futuro da humanidade. Se acertamos ou erramos, isto faz parte da busca e da luta pela ‘verdade’ e isto nós fazemos com o G∴A∴D∴U∴ nos guiando e nos iluminando, afinal, estamos todos juntos num “barco chamado Terra” e, perante Ele e o Universo, estamos com a mão no “timão” da nossa história.

Sabemos, porém, que nem tudo é sempre simples e claro quando se fala em ética e nas relações sociais. Ela gera questões extremamente delicadas e, na maioria das vezes, de foro íntimo. Temos os nossos limites, impostos por nossas crenças e leis, e devemos nos conduzir individualmente ou coletivamente dentro deste espaço limitado e definido por nós mesmo. Assim, podemos estabelecer algumas estratégias a serem seguidas por nós, maçons, ou por qualquer outra pessoa:

  • Saiba exatamente quais são os seus limites éticos;
  • Avalie detalhadamente os valores da Instituição a qual você pertence;
  • Trabalhe sempre com base em fatos;
  • Avalie principalmente os riscos de sua decisão;
  • Saiba que, mesmo ao optar pela solução mais ética, poderá se envolver em situações delicadas;
  • Ser ético, muitas vezes, significa perder status, benefícios etc.

A ética é também ‘intuição’. Mesmo que afirmem que a intuição não tem nada de racional, as nossas reflexões intuitivas sobre ética são palpáveis e independe de conhecimento intelectual adquirido. Certamente, quem tem conhecimento adquirido e pode usá-lo para analisar a relação com a sociedade e com o mundo tem sua responsabilidade ampliada por este conhecimento.

Sócrates afirmava que o ser humano só se realiza como pessoa quando se volta para seu interior – conhece-te a ti mesmo – pois o ‘teu mundo’ é um retrato do teu interior. Preparar o indivíduo para a cidadania é o objetivo da pedagogia iluminista. Viver bem com o irmão é o princípio da filosofia maçônica e sua pedagogia é desenvolver e propagar a Igualdade, a Liberdade e a Fraternidade para construirmos um mundo Justo e Perfeito ̧ enterrando-se os vícios e promovendo as virtudes.

Os maçons que fazem a Maçonaria Brasileira, de qualquer Potência legitimada pela tradição dos Landmarks e Antigas Constituições de Anderson, devem atentar para o seguinte: agir eticamente dentro (ou fora) da Loja, Potência e ou Confederação, sempre foi e será uma decisão pessoal. É claro que sempre estamos sujeitos a deslizes e equívocos. Nunca se esqueçam, porém, de que esse costuma ser um caminho sem volta. Para o bem ou para o mal. Cuidado!

Não podemos transformar em mentiras tudo o que nossos antecessores construíram. Temos uma conduta moral e ética a seguir. A trilhemos de verdade ou a retórica nos jogará na inexorável lixeira da história e nos levará ao esquecimento e, inequivocamente, à nossa destruição como homens e, principalmente, como maçons.

Estamos, constantemente, sendo confrontados com especulações sobre o nosso existir.

Cabe-nos definir qual, realmente, é o nosso existir.

Autor: Carlos Antônio Porto de Sousa

Publicado originalmente no O Buscador – Campina Grande- PB Brasil, Ano I N° 2 pág. 17 – 20 abr/jun – 2016

Fonte: Blog do Bianchi

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Referências

ALVES, Creusa Maria Oliveira Alves. O que é Ética. Disponível em: http://www.webartigos.com. Acesso em 2 de dezembro de 2009. AUTOR DESCONHECIDO. Ética e Intuição – Intuição e Maçonaria. Disponível em: http://www.a-partir- pedra.blogspot.com. Acesso em 2 de dezembro de 2009. AUTOR DESCONHECIDO. Ética Maçônica. Disponível em: http://www.asceta33.wordpress.com. Acesso em 2 de dezembro de 2009. FADISTA, Antonio Rocha. Ética e Virtude Maçônicas. Disponível em: http://www.maconaria.net. Acesso em 4 de dezembro de 2009. MONTE, Joaquim. Ética e Estética na Maçonaria. Disponível em: http://www.lojahugosimas.com.br. Acesso em 7 de dezembro de 2009. NAVES, Doracino. Venerável Mestre, professor de ética. Disponível em: http://www.gloriadoocidente.org. Acesso em 7 de dezembro de 2009. PEROTTONI, Marco Antonio. Ética Maçônica. Disponível em… Acesso em 9 de dezembro de 2009. SANTOS, Bartolomeu Martins. Você é um Maçom Ético? Disponível em… Acesso em 9 de dezembro de 2009. ZVEITER, Waldemar. Ética e Política sob a Ótica da Maçonaria. Disponível em: http://www.lojahugosimas.com.br. Acesso em 11 de dezembro de 2009. ARANHA, Maria Lúcia de Arruda e MARTINS, Maria Helena Pires. Temas de filosofia. São Paulo: Moderna, 1992. CHALITA, Gabriel. Vivendo a filosofia. São Paulo: Ática, 2005. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Miniaurélio Século XXI Escolar; O minidicionário da língua portuguesa. Coordenação de edição, Margarida dos Anjos, Marina Baird de Holanda Ferreira; 4a ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. HECK, José N. e ORSINI, Ricardo. Moral e Ética em Habermas, sem fonte de publicação e data. OS PENSADORES (COLEÇÃO). História da Filosofia. São Paulo: Nova Cultural, 1996. SUGIZAKI, Eduardo. A Moral e a Ética – Definições e Origens. Apostila de Curso. Goiânia: Universidade Católica de Goiás: 1998.

Ética e Política

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Diante da vastidão do tema assumi uma tarefa muito modesta. Pensei que pudesse ser de alguma utilidade apresentar, à guisa de introdução, um “mapa” das diversas soluções opostas que historicamente têm sido dadas ao problema da relação entre ética e política.

Trata-se certamente de um mapa incompleto e imperfeito, pois está sujeito a um duplo erro: quanto à classificação dos tipos de solução e quanto ao enquadramento das diversas soluções nesse ou naquele tipo. O primeiro erro é de natureza conceitual, o segundo de interpretação histórica. Trata-se portanto de um mapa a ser revisto por observações ulteriores. Mas por ora creio estar em condições de oferecer pelo menos uma primeira orientação a quem, antes de se aventurar num terreno pouco conhecido, queira saber de todos os caminhos que o percorrem.

Divido as teorias que trataram do problema da relação entre ética e política em monistas e dualistas. Por sua vez divido as monistas em rígidas e flexíveis, as dualistas em dualismo aparente e dualismo real. Trata-se de quatro grandes subdivisões onde se encaixam, ou ao menos procuro encaixar, todas as doutrinas que conheço. De cada uma darei um exemplo.

Todos os exemplos são tirados da filosofia política moderna a partir de Maquiavel. É verdade que a grande filosofia política nasce na Grécia, mas a discussão do problema das relações entre ética e política fica particularmente aguda com a formação do Estado moderno, e recebe pela primeira vez um nome que não a abandona mais, “razão de Estado”.

Mas por qual motivo? Sugiro uma razão, ainda que com muita cautela. O dualismo entre ética e política é um dos aspectos do grande contraste entre Igreja e Estado, um dualismo que só podia nascer com a contraposição entre uma instituição cuja missão é a de ensinar, pregar, indicar leis universais de conduta reveladas por Deus, e uma instituição terrena cuja tarefa é assegurar a ordem temporal nas relações dos homens entre si. Na realidade o contraste entre ética e política na época moderna é, desde o princípio, o da moral cristã com a praxis daqueles que desenvolvem ação política. Num estado pré-cristão, em que não existia uma moral institucionalizada, o contraste é menos evidente. O que não quer dizer que não exista no pensamento grego: basta pensar na oposição a que se refere Antígona, entre as leis não escritas e as do tirano. No mundo grego não há uma moral, mas várias morais. Cada escola filosófica tem a sua moral. Onde existem diversas morais com as quais a ação política possa se confrontar, o problema da relação entre moral e política não tem sentido preciso algum. O que suscitou o interesse do pensamento grego não foi tanto o problema da relação entre ética e política, mas o problema da relação entre bom governo e mau governo, de onde nasce a distinção entre rei e tirano. Mas é uma distinção no interior do sistema político, que não diz respeito à relação entre um sistema normativo, como a política, e um outro sistema normativo, como a moral. O contrário disso ocorre no mundo cristão e pós-cristão.

A segunda razão da minha escolha é que, sobretudo com a formação dos grandes Estados territoriais, a política se revela sempre mais como lugar no qual se explicita a vontade de poder em um teatro bem mais vasto, e portanto bem mais visível, que aquele das vinganças privadas ou dos conflitos da sociedade feudal; sobretudo quando essa vontade de poder põe-se a serviço de uma confissão religiosa. O debate sobre a razão de Estado explode no período das guerras de religião. O contraste entre moral e política revela-se em toda sua dramaticidade quando ações moralmente condenáveis (lembre-se, para dar um grande exemplo, da noite de São Bartolomeu, louvada entre outros por um dos maquiavélicos, Gabriel Naudé) são cumpridas em nome da própria fonte, originária, única, exclusiva, da ordem moral do mundo, que é Deus.

Pode-se acrescentar ainda uma terceira razão: somente no século XVI esse contraste foi assumido também como problema prático para o qual se procura dar alguma explicação. Ainda uma vez o texto canônico é O Príncipe de Maquiavel, particularmente o capítulo XVIII, que começa com estas palavras fatais: “Quanto seja louvável num príncipe manter a fé, e viver com integridade e não com astúcia todos entendem: não é sem mais que se vê pela experiência, nos nossos tempos, aqueles príncipes que da fé tiveram pouca conta terem feito grandes coisas.” A chave de tudo é a expressão “grandes coisas”. Quando se começa a tratar o problema da ação humana não do ponto de vista dos princípios mas do ponto de vista das “grandes coisas”, isto é, do resultado, então o problema moral muda completamente de aspecto e se desloca radicalmente. O longo debate sobre a razão de Estado é um comentário, que dura séculos, desta afirmação peremptória e inconfundivelmente verídica: na ação política não contam os princípios, mas as grandes coisas.

Voltando à nossa tipologia, depois desta premissa, faço ainda uma segunda. Das doutrinas sobre ética e política que enumerarei algumas têm valor basicamente prescritivo, já que não pretendem dar uma explicação para o contraste e sim tendem a dar a ele uma solução prática. Outras têm um valor basicamente analítico, já que não buscam sugerir como deveria ser a relação entre ética e política, mas a indicar a razão pela qual existe o contraste. Ainda que a divisão entre os dois aspectos nunca seja muito nítida, pode-se dizer genericamente que as doutrinas do monismo rígido e do dualismo aparente tem mais um valor prescritivo que analítico. Pelo contrário, as doutrinas do monismo flexível e do dualismo verdadeiro têm um valor mais analítico que prescritivo. Acredito que a desconsideração das diferentes funções das teorias tenham produzido grandes confusões. Por exemplo, não tem sentido refutar uma doutrina prescritiva com observações de tipo realístico, assim como não tem sentido contrapor-se a uma teoria analítica propondo uma melhor ou a melhor solução para o contraste.

Começo, então, com o monismo rígido. Incluo no monismo rígido todas as teorias que afirmam não haver contraste entre dois sistemas normativos, o moral e o político, porque só há um sistema. Naturalmente, existem duas versões possíveis dessa variante: a redução da política à moral e a redução da moral à política. Exemplo da primeira é a ideia, ou melhor o ideal, típico do século XVI, do príncipe cristão, tão bem representado por Erasmo, cujo livro A educação do príncipe cristão é de 1515, portanto mais ou menos contemporâneo de O Príncipe de Maquiavel, do qual é a mais radical antítese. O príncipe cristão de Erasmo é o outro lado da face demoníaca do poder. Algumas citações. Erasmo se dirige ao príncipe dizendo: “Se, queres mostrar-te ótimo príncipe, estai bem atento a não te deixar superar por outro alguém naqueles bens que são verdadeiramente teus próprios, a magnificência,, a temperança e a honestidade.” Estas virtudes unicamente morais não tem nada a ver com a virtude no sentido maquiavélico da palavra. Ou então: “Se desejais competir com outros príncipes, não julgue havê-los vencido por lhes haver tirado parte do domínio. Os vencerá verdadeiramente se fores menos corrupto que eles, menos avaro, arrogante, iracundo.” E ainda, “Qual é a minha cruz” pergunta o príncipe; e responde: “é seguir o que é honesto, não fazer mal a ninguém, não espoliar ninguém, não deixar-se corromper por donativos.” A satisfação do príncipe consiste em ser justo, não em fazer “grandes coisas.

Como exemplo da segunda versão do monismo, da redução da moral à política, escolhi Hobbes. Claro que também aqui com toda a cautela, sobretudo depois que alguns críticos recentes chamaram a atenção para o que foi chamado de clareza plena de confusão do autor do Leviatã e deixam o leitor, vencido e fascinado pela força lógica da argumentação hobbesiana, desconfiado no que se refere a interpretações demasiadamente unilaterais. Ainda assim parece-me que, por certos aspectos, seja difícil encontrar um autor no qual o monismo normativo seja mais rigoroso, e o sistema normativo, diversamente de todos os outros,, seja o sistema político ou o sistema de normas que derivam da vontade do soberano legitimado pelo contrato social. Podem-se aduzir muitos argumentos:; para Hobbes, os súditos não têm o direito de julgar o que é justo e injusto porque isso cabe somente ao soberano, e sustentar que o súdito tenha o direito de julgar o que é justo e injusto é considerado uma teoria sediciosa. Mas o argumento fundamental é que Hobbes é um dos poucos autores, talvez o único, que não distingue o príncipe do tirano: e não há esta distinção porque não existe a possibilidade de distinguir o bom governo do mau governo. Enfim, como me referi ao contraste entre Igreja e Estado como determinante para entender o problema da razão de Estado nos séculos XVI e XVII, recordo que Hobbes reduz a Igreja ao Estado: as leis da Igreja são leis somente enquanto aceitas, desejadas e reforçadas pelo Estado Hobbes, negando a distinção entre Igreja e Estado, reduzindo a Igreja ao Estado, elimina a própria razão do contraste.

Por monismo flexível, entendo a teoria que também reconhece um só sistema normativo, mas admite como legítimas, justificáveis com argumentos pertencentes à esfera do racional, exceções em determinadas circunstâncias de tempo, de lugar, de pessoa ou de natureza da ação. Basta ter uma certa familiaridade com o Direito (ou tratamento legalista da ética, que dá na mesma), para saber a importância da instituição que os juristas denominam lex specialis. Pois bem, quando há um contraste entre a lex specialis lex generalis, prevalece a lex specialis. Ou então a análoga instituição da dispensa, que é característica do direito canônico (a dispensa é definida como abrandamento da lei para um caso especial, relaxio legis in casu speciali). Ou ainda o princípio da equidade, a justiça do caso concreto, invocada para temperar o rigor da lei abstrata. A importância da exceção é capital, já que nenhuma lei é tão forte que valha em todos os casos. Não há lei bastante forte para dispensar exceções em determinados casos específicos.

A explicação e a justificação do contraste entre moral e política com base na relação entre regra e exceção, e portanto do princípio da excepcional idade por justa causa, estão entre as mais comuns em meio aos teóricos da razão de Estado. Rodolfo De Mattei, que foi o mais assíduo e aplicado estudioso de tratados relativos à razão de Estado, italiana sobretudo, demarca a teoria da excepcionalidade ou, como se dizia, da “contravenção lícita”, de Scipione Ammirato, cujos discursos sobre Cornelio Tacito são de 1594. Mas pode-se citar ainda muitos outros textos de autores menores. Destes, talvez o mais interessante seja Canonieri, que diz: “Razão de Estado é o necessário excesso da jurisprudência (giure comune) para fins de utilidade pública.” Como se pode entrever pelo adjetivo “necessário”, o primeiro grande argumento em favor da excepcionalidade é o estado de necessidade, estado aquele em que não se pode deixar de fazer aquilo que se faz. As leis se referem somente às ações possíveis, às ações que podem ou não ser realizadas. Mas quando uma ação ou é necessária ou é impossível, as leis são absolutamente impotentes. A necessidade não tem lei: é a própria lei. O estado de necessidade, como causa de justificação, vale tanto para o privado, no direito penal por exemplo, quanto no direito público, na forma do estado de emergência.

A própria máxima “o fim justifica os meios” pode ser incluída na noção de exceção por necessidade. De fato, uma vez deslocado do fim para o meio, o juízo sobre a bondade ou maldade da ação torna-se puramente técnico; um juízo em que a ação é considerada exclusivamente como o “meio” para alcançar o fim. Em outras palavras, a consideração da relação meio – fim transforma o imperativo categórico em imperativo hipotético do tipo “se queres, deves”, no qual a relação meio-fim é pura e simples derivação da relação causa-efeito (ou de uma relação necessária, como é aquela de causa-efeito).

Além do estado de necessidade, para justificar a exceção são adotados argumentos referentes tanto à qualidade específica de uma determinada pessoa quanto à natureza específica de uma dada ação. Aqui emerge o tema das éticas especiais ou profissionais, isto é, dos sistemas normativos que se referem a pessoas específicas na especificidade de sua ação: comerciantes, médicos, sacerdotes, e também, (por que não?) os políticos. Levando em conta essa relação entre o geral e o particular, poder-se-ia incluir o contraste entre ética e política na distinção mais conhecida entre moral geral e morais profissionais, considerando a política como atividade específica que tem suas regras práticas ou técnicas, como qualquer outra atividade. É bem sabido, de resto, que no início das reflexões sobre a política, entendida como arte ou ciência do governo, as sugestões tiradas da analogia entre a arte política e outras artes são muito frequentes: o político é o mestre da ginástica, o piloto, o tecelão, e assim por diante.

Mas, com essa abertura para as éticas profissionais, o monismo tende a converter-se em dualismo, se bem que uma forma atenuada de dualismo, no qual a relação entre os dois sistemas normativos se resolve numa relação entre um sistema geral e um sistema especial.

Como se percebe, estou procurando aplicar às relações entre sistemas normativos alguns critérios que os juristas aplicam à análise das relações entre normas no interior de um sistema. Além do critério lex specialis derogat generali, os juristas conhecem um outro critério para resolver antinomias normativas: lex superior derogat inferiori. Trata-se do assim chamado critério hierárquico. Pois bem, aplicando este critério à análise da relação entre dois sistemas normativos abre-se o caminho para as doutrinas que, diferentemente das monistas, sustentam que ética e política são distintas mas ao mesmo tempo relacionam-se entre si, numa relação na qual um dos dois sistemas é considerado superior e o outro inferior. Se há uma relação hierárquica, no caso de conflito entre os dois sistemas prevalece o superior.

Também aqui, como no caso do monismo rígido, são dois os casos: a moral é superior à política ou então a política é superior a moral. O exemplo que ocorre da primeira solução é a filosofia de Croce. No sistema de Croce, economia e ética são distintas (a política é parte do mundo da economia), mas não são colocadas no mesmo plano: uma é superior à outra, no sentido que uma sobrepuja a outra. Entenda-se que não se está dizendo que “sobrepujar” implique ser superior no sentido axiológico, e sim que quando Croce se põe o problema maquiavélico da relação entre ética e política jamais deixa de admitir que o momento logicamente sucessivo é também axiologicamente superior, mesmo que nunca seja muito claro quais sejam as consequências desta superioridade: uma ação política imoral é condenável? O que significa isso de que é lícita na sua esfera particular, se depois se admite uma esfera superior? São questões muito difíceis de responder e, repito, não é fácil encontrar uma resposta clara em Croce, que retornou a este tema infinitas vezes. Aqui escolho uma passagem que encontra-se num volume intitulado, não por acaso, Ética e Política.

Croce diz: a esfera da política é a da utilidade, das transações, dos acordos, das lutas, e nessa guerra contínua, indivíduos, povos e Estados estão em guarda contra indivíduos, povos e Estados, buscando manter e promover a própria existência e respeitando outras só na medida em que beneficiem a sua própria. Mas – continua – mesmo nunca perdendo de vista esta realidade da política convém resguardar-se de um erro comum, que é o de separar as formas da vida. Que se recusem as tolas moralizações da política, que se celebre Nicolò Machiavelli como gênio e como o verdadeiro fundador da ciência política, mas que nunca se esqueça que a própria política não existiria se não existisse de todo o outro homem, se não existisse o homem moral. E, – conclui – tenha-se por falso a priori qualquer dissensão que se crê divisar entre a política e a moral, já que a vida política ou prepara a vida moral ou é ao mesmo tempo instrumento e forma de vida moral.

O outro lado da moeda, isto é, a política vista como superior à moral, sendo esta entendida como moral individual, pode ser representada por Hegel. Em Croce a moral vem depois da política e a “supera”, enquanto que em Hegel o momento da moralidade subjetiva precede o momento da moralidade desenvolvida, que se realiza na esfera pública e culmina no Estado. A moralidade subjetiva prepara a política mas é forçada a calar-se junto com a palavrório dos predicantes, quando entram em campo a cavalaria com suas armas cintilantes. A bem conhecida passagem em que Hegel enfrenta o tema da razão de Estado está no parágrafo 337 da Filosofia do Direito, onde afirma: “Já muito se discutiu o contraste entre moral e política e a pretensão a conformar a segunda à primeira. Nesse ponto importa somente notar que justificação do bem do Estado é completamente diferente da do bem do indivíduo e que a substância ética, o Estado, está imediatamente presente, com o seu direito, em uma existência não abstraía mas concreta, e que só essa existência concreta, e não algum dos tantos pensamentos gerais tomados por imperativos morais, pode ser o princípio do seu agir e da sua conduta. A suposição de que, nesse suposto contraste, a política deve sempre estar em erro repousa ainda mais na superficialidade das representações da moralidade, da natureza do Estado e de suas relações com o ponto de vista moral.”

Encerro com o dualismo real. A distinção entre moral e política, nesse caso, corresponde à distinção entre duas éticas, que são irredutivelmente diferentes, já que propõem dois critérios diferentes como juízo positivo e negativo das ações. As ações podem ser julgadas segundo os princípios, isto é, segundo algo que antecede a ação, ou segundo as consequências, isto é, segundo alguma coisa que está depois da ação. Essa distinção, mesmo que um pouco simplificada, corresponde à famosa distinção weberiana entre ética da convicção e ética da responsabilidade. É fato que, aplicando um ou outro desses critérios, podemos chegar a juízos completamente diferentes ou mesmo opostos sobre qualquer ação. Tomemos um tema de grande valor, a pena de morte. Se a julgo baseado no princípio “não matarás”, não posso senão condená-la. Mas se a julgo com base nas consequências, e se por exemplo acredito que a pena de morte seja mais intimidadora que a prisão, não posso aprovar sua abolição.

Uma ação moralmente boa é aquela realizada de acordo com certos princípios universais, ou assim supostos por quem os cumpre. Uma ação politicamente boa é uma ação que teve sucesso, que atingiu a finalidade que os agentes se propunham. Quem age segundo princípios não se preocupa com o resultado de suas ações: faz aquilo que deve e que disso advenha o que for possível. Quem se preocupa exclusivamente com o resultado não se move tanto pelo sutil respeito à conformidade aos princípios mas faz aquilo que é necessário para que ocorra o que deseja. O juiz que pergunta ao terrorista “arrependido” se havia cogitado do problema do “não matarás” representa a ética dos princípios. O terrorista que responde que o grupo só havia cogitado do problema de ser ou não bem sucedido representa a ética do resultado. Se se arrepende não é porque sinta remorso por haver violado a lei moral mas por considerar que afinal a ação política praticada havia falhado em relação ao escopo proposto. Nesse sentido não pode dizer-se propriamente “arrependido”, mas antes alguém que se convenceu de ter errado. Não reconheceu tanto a culpa quanto o erro.

Pode-se tanto não atingir o resultado como alcançar um resultado diferente daquele que estava proposto. O assassino do arquiduque Ferdinando durante o interrogatório do processo disse: “Não previa que após o atentado teria vindo a guerra. Acreditava que o atentado teria agido sobre a juventude, incitando-a às ideias nacionalistas.” E um dos cúmplices, que errou o tiro, disse: “Este atentado teve consequências que não podiam ser previstas. Se tivesse podido prever o que teria sucedido, teria eu mesmo sentado naquela bomba para fazer-me em pedaços.”

Concluo. Afirmei que das quatro concepções da relação entre ética e política, duas têm um valor mais prescritivo e as outras um valor analítico. Acrescento por fim que a concepção do monismo flexível não somente explica porque há o dissídio como também procura justificá-lo. A única doutrina verdadeiramente analítica, que não pretende prescrever nem justificar nada, limitando-se a constatar o contraste procurando dar-lhe uma explicação – digo explicação e não justificação – é a última, o dualismo real. Posto nesses termos, como contraste entre dois sistemas de juízo não coincidentes sobre o bem e o mal, o problema é realmente insolúvel. Haveria uma solução se se pudesse demonstrar que sempre, digo sempre, o melhor resultado é aquele que se obtém respeitando princípios. Uma demonstração desse gênero é possível somente no âmbito de uma ética extra-mundana, para o qual o único fim bom que conta é a salvação da própria alma, obtido pelo respeito às leis morais sustentadas por quem está em posição de dar um juízo definitivo, de premiar o justo e de punir o injusto. Neste mundo, porém, a glória do justo e a condenação do injusto não estão de modo algum asseguradas. O justo deve fazer-se injusto para fazer justiça, o pacífico deve fazer-se violento para estabelecer a paz, o amante da verdade deve mentir para não se deixar enganar pela mentira de outros, o honesto deve violar os pactos impostos pela força, o bom deve manchar-se das mesmas culpas do malvado para fazer triunfar o bem.

A história da vida moral e a história da vida dos Estados são duas histórias paralelas que até agora raramente se encontraram. Olhando ao redor tenho a impressão de que não estejam destinadas a encontrar-se num futuro próximo. O herói da vida moral é o santo que vai ao encontro do martírio para salvar o princípio do bem, o herói político é o homem da história universal de Hegel, o líder carismático ou somente o governante responsável, que salva ou crê salvar o próprio povo, mesmo que ao preço de inaudita crueldade.

Permitam-me fechar uma exposição deliberadamente fria, compassada e impassível, com essa lembrança da dramática realidade de nossos dias. Não só a história dos justos e a história dos poderosos são paralelas que não se encontram, mas até agora a história que se celebrou e cujos triunfos continuam se celebrando não é a primeira mas a segunda.

Autor: Norberto Bobbio
Tradução de Marcos Tadeu del Roio

Fonte: Scielo

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Ética e Moral: dois conceitos de uma mesma realidade

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A confusão que acontece entre as palavras Moral e Ética existe há muitos séculos. A própria etimologia destes termos gera confusão, sendo que Ética vem do grego “ethos” que significa modo de ser, e Moral tem sua origem no latim, que vem de “mores”, significando costumes.

Esta confusão pode ser resolvida com o esclarecimento dos dois temas, sendo que Moral é um conjunto de normas que regulam o comportamento do homem em sociedade, e estas normas são adquiridas pela educação, pela tradição e pelo cotidiano. Durkheim explicava Moral como a “ciência dos costumes”, sendo algo anterior a própria sociedade. A Moral tem caráter obrigatório.

Já a palavra Ética, Motta (1984) define como um “conjunto de valores que orientam o comportamento do homem em relação aos outros homens na sociedade em que vive, garantindo, outrossim, o bem-estar social”, ou seja, Ética é a forma que o homem deve se comportar no seu meio social.

A Moral sempre existiu, pois todo ser humano possui a consciência Moral que o leva a distinguir o bem do mal no contexto em que vive. Surgindo realmente quando o homem passou a fazer parte de agrupamentos, isto é, surgiu nas sociedades primitivas, nas primeiras tribos. A Ética teria surgido com Sócrates, pois se exige maior grau de cultura. Ela investiga e explica as normas morais, pois leva o homem a agir não só por tradição, educação ou hábito, mas principalmente por convicção e inteligência. Vásquez (1998) aponta que a Ética é teórica e reflexiva, enquanto a Moral é eminentemente prática. Uma completa a outra, havendo um inter-relacionamento entre ambas, pois na ação humana, o conhecer e o agir são indissociáveis.

Em nome da amizade, deve-se guardar silêncio diante do ato de um traidor? Em situações como esta, os indivíduos se deparam com a necessidade de organizar o seu comportamento por normas que se julgam mais apropriadas ou mais dignas de ser cumpridas. Tais normas são aceitas como obrigatórias, e desta forma, as pessoas compreendem que têm o dever de agir desta ou daquela maneira. Porém o comportamento é o resultado de normas já estabelecidas, não sendo, então, uma decisão natural, pois todo comportamento sofrerá um julgamento. E a diferença prática entre Moral e Ética é que esta é o juiz das morais, assim Ética é uma espécie de legislação do comportamento Moral das pessoas. Mas a função fundamental é a mesma de toda teoria: explorar, esclarecer ou investigar uma determinada realidade.

A Moral, afinal, não é somente um ato individual, pois as pessoas são, por natureza, seres sociais, assim percebe-se que a Moral também é um empreendimento social. E esses atos morais, quando realizados por livre participação da pessoa, são aceitas, voluntariamente.

Pois assim determina Vasquez (1998) ao citar Moral como um “sistema de normas, princípios e valores, segundo o qual são regulamentadas as relações mútuas entre os indivíduos ou entre estes e a comunidade, de tal maneira que estas normas, dotadas de um caráter histórico e social, sejam acatadas livres e conscientemente, por uma convicção íntima, e não de uma maneira mecânica, externa ou impessoal”.

Enfim, Ética e Moral são os maiores valores do homem livre. Ambos significam “respeitar e venerar a vida”. O homem, com seu livre arbítrio, vai formando seu meio ambiente ou o destruindo, ou ele apóia a natureza e suas criaturas ou ele subjuga tudo que pode dominar, e assim ele mesmo se torna no bem ou no mal deste planeta. Deste modo, Ética e a Moral se formam numa mesma realidade.

Autor: Ivan Melo

Fonte: Recanto das Letras

Nota do Blog

Segue link da entrevista de Mário Sérgio Cortella sobre o tema: O que é Ética e Moral – Mário Sérgio Cortella

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REFERÊNCIAS BIBLIGRÁFICAS

SILVA, José Cândido da; SUNG, Jung Mo. Conversando sobre ética e sociedade. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2000.

CAMARGO, Marculino. Fundamentos da ética geral e profissional. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1999.

VÁSQUEZ, Adolfo Sánchez. Ética. 18. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998.

GUSMÃO, Paulo Dourado de. Introdução à Ciência do Direito. Rio de Janeiro: Forense, 1972.

VENOSA, Sílvio de Salvo. Introdução ao Estudo do Direito. São Paulo: Atlas, 2004.

MOTTA, Nair de Souza. Ética e vida profissional. Rio de Janeiro: Âmbito Cultural, 1984.

Moral, Ética e Virtude

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Introdução

Falar de moral, de ética e de virtude nos tempos de hoje pode parecer um contrassenso ou um tema por demais teórico para que ofereça alguma utilidade imediata para nossas vidas. Afinal, vivemos em uma época na qual muitos valores humanos parecem estar tão relegados, tão ausentes na sociedade moderna que, por vezes, poderia, até, parecer um tanto piegas tratar de tema dessa natureza. Nas célebres palavras do “Águia de Haia”, Ruy Barbosa:

“De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto.”

Mas, por isso mesmo, esta talvez seja a melhor oportunidade para fazê-lo. E, justamente, por serem tão necessários ao ser humano moderno, seja mesmo adequado o momento para falarmos de valores, para pensarmos em virtudes, sobretudo entre obreiros da Arte Real.

Moral e Ética

O filósofo catalão José Ferrater Mora observa que, às vezes, os termos moral e ética são utilizados indistintamente, embora o primeiro tenha um significado bem mais amplo que o segundo. Para ele, no entanto, a moral é aquilo que se submete a um valor (FERRATER MORA, 1978).

Um entendimento mais aprofundado da palavra moral, originária de mores, do latim, com o significado de “costumes” e, por sua vez, da palavra ética, que tem origem grega, em ethos, significando “o modo de ser”, permite avançarmos sobre o real e amplo sentido de cada um desses termos, de modo a evitarmos costumeiras confusões ocorrentes.

Assim, poderemos pensar a moral como referindo-se aos costumes de uma população como, por exemplo, o padrão moral adotado por um determinado grupo, o conjunto das normas que regulam o comportamento dos indivíduos nesse grupo, e que é adquirido através do aprendizado, ou seja, pela educação, pela tradição e pelo cotidiano de cada um.

A moral tem, no entanto, um caráter mais normativo e um traço de obrigatoriedade, e se origina na própria existência do grupamento humano. Por essa razão, é fruto da dinâmica de formação e de desenvolvimento do grupo em questão e pode, dessa forma, ser diferente da moral de outros grupamentos que, por sua vez, possuam valores próprios, diferentes.

A ética, por outro lado, é muito mais individual do que grupal. Nair de Souza Motta (1984) assim a define:

O conjunto de valores que orientam o comportamento do homem em relação aos outros homens na sociedade em que vive, garantindo, outrossim, o bem-estar social.” (MOTTA, Nair de Souza. Ética e Vida Profissional. 1984)

Talvez, um entendimento inicial comparativo poderia ser construído se olhássemos para a moral como um conjunto de normas que regulam o comportamento de um grupo, enquanto, para a ética, olharíamos como um conjunto de valores que orientam o comportamento do indivíduo.

Podemos dizer, da ética, resumidamente, que se trata da maneira como o indivíduo deve se comportar em seu ambiente social e em relação às demais pessoas com as quais se relacionar. Podemos, ainda, considerar que, a partir de uma ética individual, se constrói um valor social e, deste, se elabora a lei, quando aquele valor já se encontra consolidado na sociedade em pauta.

A ética surgiu no seio do pensamento clássico grego, no século IV a.C., quando o filósofo Sócrates demonstrou que ela seria sempre o juiz individual das normas morais, as quais o homem deve seguir, não somente por educação ou por tradição, mas por convicção e em razão de sua própria reflexão. Podemos, então, perceber, que aqueles filósofos, desde a Grécia Clássica, foram os primeiros a pensar o conceito de ética, associando ao termo as ideias da própria moral e da cidadania.

Nesse sentido, é também importante considerarmos que as cidades-estados gregas, naquele tempo, encontravam-se em sua fase inicial de desenvolvimento e, portanto, havia uma necessidade implícita de harmonia e de honestidade entre seus cidadãos, o que fazia conceber ideias que, então, fomentassem essas condições entre os moradores da tão propalada polis grega (EGG, 2009).

Por outro lado, também não podemos perder de vista que a polis grega era, no dizer de Nicole Loraux (2007), uma “estrutura de exclusão”, já que apenas os chamados cidadãos tomavam todas as decisões da cidade política, mesmo tratando-se de uma sociedade onde também existiam as mulheres, as crianças, os escravos e os estrangeiros.

De qualquer forma, os gregos Sócrates e Platão, assim como o macedônio Aristóteles, situam-se entre aqueles filósofos que, inicialmente, lançaram as bases conceituais da ética, cada um deles com a sua devida importância. Aristóteles, no entanto, foi o que mais influenciou nossa civilização ocidental, como já nos referimos em outro trabalho, no qual abordamos a virtude entre os gregos clássicos.

Posteriormente, além do mundo grego, Jesus de Nazaré e a sua ética do amor ao próximo introduziu no pensamento de sua época o que, mais tarde, ficou conhecido como a ética cristã, da qual, avidamente, se apoderaram as igrejas subsequentes. Ao instituírem seus próprios dogmas, tais igrejas desfiguraram aquela ética no que tinha de mais original, prática que se mantém ainda hoje em nossas sociedades.

Na esteira daquela ética cristã, mas incorporando o ideal e o pensamento de sua igreja, em seu próprio tempo, surgem, então, grandes pensadores do porte de Agostinho, no século IV e Tomás de Aquino, no século XIII, verdadeiros baluartes das virtudes cristãs.

Até hoje, podemos observar que os princípios intrínsecos à ética aristotélica e à ética cristã influenciam, sobremaneira, a nossa sociedade ocidental e o pensamento dos filósofos que se empenham no seu estudo. A manutenção do conceito grego de virtudes cardinais incorporado pelas igrejas reflete, em parte, aquela ética, analisada no Grau de Companheiro, do Rito Escocês Antigo e Aceito.

Um importante filósofo de nossa era atual (1844-1900) foi Friedrich Wilhelm Nietzsche, que dedicou quase toda a sua obra à moral e às concepções éticas tradicionais, mas que, por outro lado, também foi um árduo crítico da tradição filosófica. Ramiro Fernando Lopes Marques comenta, de modo sintético, sobre esse pensador alemão:

“Nietzsche foi um filósofo atormentado com a moral e a prova disso é que, foi dos poucos, que lhe dedicou toda a sua obra. E fê- lo com tanta energia, criatividade e mestria que podemos dizer que há uma ética antes de Nietzsche e um ética pós-nietzschiana. Toda a sua obra, e em particular os ensaios Para A Genealogia da Moral e Para Além do Bem e do Mal, são um combate enérgico contra as várias tradições éticas que o precederam, nomeadamente a tradição judaico-cristã e a concepção individualista introduzida por Kant. Não é, portanto, por acaso que, ao longo da sua obra, se sinta a presença de dois ódios de estimação: Aristóteles (cuja filosofia foi apropriada pela matriz cristã medieval) e Kant (cuja filosofia abre caminho à moderna concepção de ética).”

Existem normas sociais tradicionais (a moral) que, por si, orientam todo o comportamento dos indivíduos, como se o seu cumprimento fosse obrigatório. Assim, por exemplo, mentir é moralmente condenável e, portanto, deve-se dizer a verdade (todos estamos, moralmente, obrigados a dizer a verdade). A ética surge, justamente, como forma de organizar uma norma que pode, por exemplo, não ser a mais apropriada ou digna de ser cumprida, pelo mal que possa causar considerando que, às vezes, não seria adequado dizer a verdade. O que, também, não significa que, de qualquer forma, se autorize a mentira. Mas, é dessa forma, por exemplo, que a ética não permite que uma moral seja absoluta e, por essa razão, insiste em definir quando ela deve mudar. Eis, desse modo, a ética em ação: existe uma norma, uma regra social tradicional que pode ser inadequada e, portanto, deve ser considerada de outra forma. A ética assim o faz, como nas palavras do lusitano poeta:

“Cesse tudo o que a Musa antiga canta, que outro valor mais alto se alevanta.” (CAMÕES, 2007).

Podemos, também, considerar uma situação hipotética, na qual alguém esteja morrendo, necessitando de um medicamento cujo valor, de imediato, o torna completamente inacessível. É quando um indivíduo decide furtá-lo para salvar aquela vida. A norma (moral) é não roubar, mas a ética em ação privilegiou o valor representado pela vida, em detrimento da norma.

Como exemplo derradeiro, durante todo o período que se estendeu entre os séculos XVI e XIX, a escravidão humana era considerada moralmente aceitável e não era errado ter escravos. Pelo contrário, algumas sociedades privilegiavam a posse desses escravos e enalteciam o status de “senhor de escravos”. Hoje, qualquer pessoa é capaz de reconhecer como absurda aquela posição, dantes tão comum.

Então, podemos dizer que a moral mudou, os costumes mudaram, assim como as regras reformularam-se a partir desses posicionamentos novos onde a ética humanista se manifestou contra o status quo da moral que imperava à época.

Virtude

A virtude, por seu turno, pode se caracterizar como uma qualidade, um hábito positivo de se insistir na prática do bem, vale dizer, daquilo que é correto, decente, justo, honesto, etc., e que é desenvolvido pelo indivíduo através do próprio exercício e da constância de sua prática.

A virtude, portanto, fomenta a ética na prática constante, tanto das ações moralmente corretas, como também no exercício de outras tais que irão corrigir a moral implantada, estimulando, assim, a evolução moral dos indivíduos e, consequentemente, de um povo. Desse modo, aqui, talvez, resida a essência da arte de levantar templos à virtude.

Um pensador moderno, bastante afinado com as visões de Aristóteles sobre a virtude, é o conhecido filósofo escocês Alasdair Chalmers MacIntyre. Trata-se de um crítico radical do projeto iluminista moderno e um defensor inconteste da ética clássica das virtudes ‒ uma posição, como vimos, diferente da adotada por Nietzche, no que se refere ao platonismo.

O seu pensamento se caracteriza por uma firme e erudita apropriação das teorias morais e políticas dos gregos antigos aos nossos dias. Ele considera que as virtudes são aquelas disposições que, não apenas mantêm as práticas e nos permitem alcançar os bens internos a essas práticas, mas nos conduzem a uma busca do bem, nos auxiliam a vencer os riscos, perigos, tentações e as distrações que encontramos, e a procurar um permanente e crescente autoconhecimento e crescente conhecimento do bem (McINTYRE, 2001).

Para sua concepção de virtude moral, MacIntyre (2001) toma como ponto de partida a teoria das virtudes de Aristóteles e da ética cristã, adotando-as como seus dois principais paradigmas (CARDOSO, 2010).

Uma disposição firme e constante de praticar o bem: eis a virtude, em poucas palavras, assim como a vê o pensamento exarado dos ensinamentos da Maçonaria. A esse conceito, deve -se agregar a ideia de uma verdadeira inclinação, vale dizer, de uma tendência para a prática do bem. André Comte-Sponville (2009) acrescenta que ela, a virtude, é o próprio bem, em espírito e verdade. E o bem não é para se contemplar, mas para se fazer e, desse modo, a virtude é o esforço para se portar bem que, em última instância, define o bem nesse próprio esforço.

Para o filósofo alemão Josef Pieper, considerado um dos mais conhecidos pensadores cristãos da atualidade, dono de uma vastíssima produção literária, a virtude é a força com a qual o homem é inclinado a fazer o bem. Seguindo o pensamento de Tomás de Aquino, Josef Pieper considera, como elemento mais importante para o conceito de virtude, assim como apontado por Aristóteles, o fato de que a virtude é um hábito.

Esse conceito é insistentemente repetido neste trabalho, como o exercício da prática do bem também o é na formação da virtude.

Por sua vez, Emmanuel Kant considera o valor moral de uma ação como não residente nela própria, mas no motivo que levou o indivíduo a praticá-la. E que tal motivo deve consistir, unicamente, no respeito à lei moral, obtida a partir da razão e livre de quaisquer determinações empíricas, como, por exemplo, as inclinações do indivíduo. O respeito ao dever, somente, é, assim, condição necessária para a atribuição de um valor moral genuíno a uma ação (PETRY, 2007).

Com isso, Kant mostra que as ações que têm presentes as inclinações como seus motivos não poderiam ter valor moral. A possibilidade das virtudes constituírem um aspecto importante da ação no que diz respeito à sua moralidade é eliminada, uma vez que o respeito ao dever é a condição subjetiva para o valor moral da ação (Ibid).

Para o filósofo brasileiro André Luiz Souza Coelho:

“Toda virtude é distinção de cará- ter, quer dizer, é posse de certa qualidade, disposição e motivação específica que falta aos demais (às „pessoas comuns‟) e por isso dota a pessoa virtuosa de um brilho próprio, que a torna merecedora ora da admiração, ora da inveja dos demais (aqui, ambos, admiração e inveja, poderiam ser considerados dois pólos do mesmo padrão de reação diante do que lhe é superior).”

A abordagem ética da virtude na modernidade relaciona-se com o raciocínio intelectual, mas também, e sobretudo, com o caráter e a busca de excelência das práticas conduzidas pelo indivíduo. Assim, responder às questões “Como devo agir?” e “Que tipo de pessoa devo ser?” é o exercício permanente que se coloca diante do homem, em geral, e do maçom, em particular.

O pensamento do mundo moderno, no entanto, não pode considerar virtuoso e moralmente válido um ato a partir, tão somente, de seu julgamento interior e dos valores que lhe são implícitos, por mais consensual que possa ser. É mister que se veja, antes, os resultados dele decorrentes, isto é, quais as consequências da ação tomada o que, no dizer de Claudio Mano, pode assim ser entendido:

“A virtuosidade da ação não é mais inerente ao ato, mas sim dependente de uma avaliação posterior, efetuada pela sociedade.”

Conhecer as principais virtudes humanas, absorver o seu entendimento e exercitá-las como modo de vida, como traço de caráter nas ações práticas da vida diária é o que as consolida e, enfim, caracteriza o homem virtuoso, uma vez que o hábito da retidão impele esse homem virtuoso a uma vida reta. Esse é o sentido prático de “polir as arestas” para aperfeiçoar as pedras que constroem o templo interior de cada um de nós. Eis, enfim, como antes nos referimos, a operacionalidade da construção de templos à virtude.

Segundo o professor André Luiz Souza Coelho, pode-se reconhecer qualquer virtude a partir de seus quatro elementos constitutivos, quais sejam, aqueles que se referem à situação, à emoção, à ação e à finalização do ato virtuoso.

O primeiro, o componente situacional da virtude, é o que se refere ao tipo de circunstância ou de situação que requer o exercício daquela virtude, como no caso da coragem, que requer uma situação de risco, por exemplo, para que um ato, naquela circunstância, se reverta de virtuosidade. Diante da situação que se apresenta, deve surgir o segundo elemento constitutivo das virtudes, o que se refere à emoção envolvida com o quadro que se tem diante de si. Trata-se, desse modo, do sentimento que é despertado no indivíduo e o impele à ação. Este é o terceiro dos componentes, o que define que ação é requerida pela situação, a qual é apontada pelo sentimento desperto. E, finalmente, existe um componente de finalização, que remete ao propósito que a virtude requer.

Considerações Finais

A partir de considerações, ainda que singelas, como as que compilamos neste pequeno trabalho, podemos, os obreiros da Ordem Real, laborar mais precisamente na implantação dos hábitos que constituirão as virtudes maçônicas de cada um, já cônscios da moral de nosso tempo, aprimorada esta, no entanto, pela ética maçônica, através da qual nos pautamos, a fim de que, como tais, sejamos reconhecidos.

Autor: Ricardo B. Buchaul
ARLS “Arquitetos da Harmonia” Nº. 2829 – GOSP/GOB

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Referências Bibliográficas

ARAÚJO, Luiz Bernardo Leite. MacIntyre e a Ética das Virtudes. UERJ. Disponível em: . Acesso em: 24 jun 2012. BUCHAUL, Ricardo B. As Virtudes de Todo Dia. No prelo. CAMÕES, Luis Vaz de. Os Lusíadas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007. CARDOSO, Flora Rocha. A Teoria das Virtudes de Alasdair MacIntyre. UFMG, 2010. COELHO, André Luiz Souza. Ética: Coragem. Blog Filó- sofo Grego. Disponível em: . Acesso em: 19 jul 2012. COMTE-SPONVILLE, André. Pequeno Tratado das Grandes Virtudes. São Paulo: Martins Fontes, 2009. EGG, Rosiane Follador Rocha. História da Ética. In Videoaula do Curso “Ética nas Organizações”. Curitiba: IESDE, 2009. FERRATER MORA, José. Dicionário de Filosofia. Lisboa: Dom Quixote, 1978. HUGO, Victor. Os Miseráveis. São Paulo: Martin Claret, 2007. LORAUX, Nicole. A Tragédia Grega e o Humano. In Ética. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. McINTYRE, Alasdair Chalmers. Depois da Virtude: um estudo em teoria moral. Bauru: EDUSC, 2001. MANO, Claudio. Ética, virtudes e ordem social: de Aristóteles ao mundo atual. UFJF. Disponível em: . Acesso em: 1o jul 2012. MARQUES, R. F. L. A Ética de Friedrich Nietzsche (1844 – 1 9 0 0 ) . D i s p o n í v e l e m : . Acesso em: 17 ago 2012. MARQUES, R. F. L. Ética da virtude e desenvolvimento moral. Disponível em: . Acesso em: 1o de jul 2012. MOTTA, Nair de Souza. Ética e Vida Profissional. Rio de Janeiro: Âmbito Cultural, 1984. NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos. São Paulo: Escala, 2008. OLIVEIRA, Ruy Barbosa de. Triunfo das Nulidades. Trecho do discurso “Requerimento de Informações sobre o Caso do Satélite”, proferido no Senado Federal, no Rio de Janeiro, em 17 de dezembro de 1914. ORC COTRIM, Policarpo. A Ética das Virtudes no Pensamento de Josef Pieper. Disponível em: . Acesso em: 29 jun 2012. PETRY, Franciele Bete. O Papel da Virtude na Ética Kantiana. In Etich@ – Revista Internacional de Filosofia da Moral, Vol. 6, No 1. Florianópolis: UFSC, 2007.

A bem da Verdade

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As pessoas não querem ouvir a verdade porque não desejam que suas ilusões sejam destruídas.”  (Nietzsche)

Compulsando várias fontes de consulta, é pacífico o entendimento de que a Filosofia, no seu sentido literal, significa o amor à sabedoria, e tem seu campo de estudo voltado para problemas relacionados à existência, aos valores morais e éticos, à linguagem e à mente, ao conhecimento e, sobretudo, à Verdade, este um tema assaz sensível e controverso na saga da humanidade.

Afinal, o que vem a ser essa Verdade que provoca discussões acaloradas, dúvidas e questionamentos de toda ordem, gerando incômodos, atritos e conflitos, sedições, estudos e escaramuças para acobertá-la ou contradizê-la quando se manifesta cristalina?

Estudiosos, filósofos, intelectuais, estrategistas, profissionais e curiosos, de todos os matizes, ao longo da história, vêm se debruçando sobre evidências que possam desvendá-la e conduzir a respostas objetivas sobre atos e fatos que caracterizam a realidade nua e crua.

Portanto, todos os que se posicionam no sentido dessas descobertas estão exercitando o amor ao conhecimento e à essência da sabedoria, haja vista que a capacidade de pensar, investigar, especular e refletir sobre a temática não é restrito a um grupo com uma denominação específica ou a uma área notória do saber.

À míngua de expertise sobre o assunto e por fugir ao escopo desta Prancha, não pretendemos nos aprofundar em definições e explanar sobre as várias formas e espécies de verdades objeto de exame pela Filosofia, em suas várias escolas. Porém vale o registro de que a Verdade se situa numa relação de conformidade entre o conhecimento e as coisas consideradas, entre o que o espírito julga e o que de fato é.

O filósofo existencialista Jean-Paul Sartre dizia que o julgamento do fato trata sobre o que é; o julgamento do valor trata sobre o que deve ser. Recomendava sempre “pensar contra si próprio”, no sentido de desconfiar de nossas certezas, questionando-a antes de chegar a uma conclusão (citação de Jean-Bertrand Pontalis – Entrevista  Revista VEJA, Edição 2302, Nº 1, de 02.01.13). Por sua vez, Nietzsche advertia que “não existem fatos eternos, assim como não existem verdades absolutas”. Isso pode ficar entendido partindo-se da premissa da impossibilidade de uma fundamentação do conhecimento humano que é parcial, inacabado e imperfeito.

Segundo o escritor francês Eliphas Levi, pseudônimo de Alphonse Louis Constant (1810 – 1875), em seu livro “A Chave dos Grandes Mistérios” (Ed. Pensamento, 1975, pág. 93):

Para ter a ciência da realidade é preciso ter consciência da verdade. Para ter a consciência da verdade é preciso ter uma noção exata do ser. O ser, a verdade, a razão e a justiça são os objetos comuns das investigações da ciência e das aspirações da fé (…). A ciência procura a verdade em todas as coisas, a fé relaciona todas as coisas com uma verdade universal e absoluta.

Na mesma obra, numa sequência de perguntas e respostas em torno de problemas filosóficos (pág. 97/98), afirma que

Pela analogia e proporção, acima da verdade conhecida está a verdade desconhecida (…). Um homem que age conforme a verdade, a realidade, a razão e a justiça é um ‘homem moral’. E, se pela justiça sacrifica suas tendências é um ‘homem de honra’. E, se para imitar a grandeza e a bondade da Providência, faz mais que o seu dever e sacrifica seu direito ao bem do outro, é um herói. O princípio do verdadeiro heroísmo é a fé.

Na Carta aos Hebreus (11;1), atribuída a São Paulo, “a fé é a certeza de cousas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem”. Portanto, a fé é o exercício da vontade de querer, de acreditar e de confiar.

Conforme citado por Eduardo Carvalho Monteiro em seu livro “O Templo Maçônico e as Moradas do Sagrado” (Editora Maçônica “A Trolha” Ltda., Londrina, 1996, pág.87), diz a ciência hermética do “Caibalion” que

Tudo é duplo; tudo tem seu par de opostos; o semelhante e o dessemelhante são uma só coisa; os opostos são idênticos em natureza, mas diferentes em grau; os extremos se tocam; todas as verdades são meias-verdades; todos os paradoxos podem ser reconciliados” (grifo nosso).

Em princípio, acreditamos em algo a que chamamos de realidade. Pensamos o que conhecemos pela experiência, que avaliamos com o nosso sentido da visão e a inteligência, orientadas por paradigmas ou idiossincrasias, crenças e verdades que relacionamos entre si. Em algumas circunstâncias isso funciona como um par de óculos desfocados, gerando modelos mentais que inibem a aceitação de novas possibilidades. Porém, essa realidade é por vezes também construída ou fruto de um mito e cada um a percebe de um modo diferenciado.

Essas distorções que comprometem nosso entendimento são muito bem representadas na conhecida “Alegoria da Caverna” ou “Mito da Caverna”, uma passagem de “A República” (Livro VII, Volume II, Clássicos Garnier – Difusão Européia do Livro, São Paulo, 1973 – págs. 105/143), do filósofo grego Platão (400 a.C). A narrativa fala sobre pessoas que viviam presas e acorrentadas desde o nascimento em uma caverna. Lá passavam todo o tempo olhando para uma parede do fundo, de costas para a entrada, que era iluminada por uma fogueira.  Nesta parede podiam ver sombras projetadas de objetos, animais e de outros homens que estavam fora e mantinham a fogueira. Ouviam-se também sons que provocavam a imaginação dos prisioneiros, que associavam às sombras e atribuíam a elas as falas, julgando-as reais. Da mesma forma, davam nomes às sombras e analisavam a situação que se apresentava.

Em seguida, a narrativa cria uma situação em que um dos prisioneiros consegue se libertar e sair da caverna, descobrindo como as sombras eram feitas e a realidade do mundo e da natureza. Segundo Platão, caso o fugitivo decidisse voltar e contar aos companheiros a situação enganosa em que se encontravam, poderia ser ignorado, considerado louco, um inventor de mentiras e absurdos e arriscar-se a ser morto, pois somente acreditam no que enxergam na parede iluminada da caverna.

Como se vê, a linguagem simbólica é um meio privilegiado para induzir à reflexão e transmitir algumas ideias. Com essa alegoria, a caverna simboliza o mundo em que vivemos e Platão provoca nossa imaginação a concluir que temos uma visão distorcida dos fatos, ao acreditarmos apenas em imagens criadas pelas informações que recebemos ao longo da vida, moldadas pela cultura e conceitos apreendidos. O prisioneiro que fugiu é a pessoa que tem a oportunidade de adquirir novos conhecimentos, vislumbrar novas possibilidades, descobrir a verdade e se libertar da sua ignorância, de seu comodismo ou medo, ou de continuar vivendo alienada ou amparada pelas idéias dos outros, em face do livre-arbítrio.

Para termos consciência do contexto em que vivemos, precisamos nos libertar de influências culturais e sociais, caracterizadas por falsas crenças, valores impostos como forma de dominação, alienação e preconceitos que turvam nossa visão e nos mantêm acorrentados a uma situação do tipo “sempre foi assim” ou “em time que está ganhando não se mexe”. Essa situação condiciona a vida ao ambiente à nossa volta e nos priva de conceitos mais evoluídos e novas possibilidades de ver a verdade dos fatos.

Aos menos atentos, é pacífico o entendimento de que a história é povoada de lembranças inventadas representadas por narrativas baseadas em fatos reais e adornados ou preenchidos por fantasias e crenças pessoais ou influências de época, com fronteiras muito tênues entre um lado e outro, restando à verdade dos fatos apenas uma abstração superficial, que pode estar eivada de vícios de interpretação ou servir a propósitos inconfessáveis. Contextos podem ser idealizados e reduzidos a termo em função da trama infinita que as palavras permitem criar, às vezes com desprezo por razão e lógica. De fato, não se pode medir o alcance da imaginação.

Mesmo obras de referência ao tratarem de fatos presentes ou passados não estão isentas de informações resultantes de preenchimento de lacunas com frutos de imaginações criativas ou para dar caráter de verdade irretorquível, mas que na realidade enseja manifestação de fé ou ideologia que o relator coloca em sua obra. Sempre nos deparamos com verdades absolutas, que têm sua utilidade em determinado período e cultura, mas que frente a fatos não se sustentam.

No início da humanidade, as mensagens e registros eram feitos em pedras pelos escribas e encantavam as pessoas comuns, uma vez que essa habilidade era privilégio de poucos que sabiam “fazer a pedra falar” e eram considerados detentoras de grande poder mágico. Vale destacar que à época o analfabetismo era a regra nas comunidades e o conhecimento fruto da tradição oral. Muitos desses escritos se constituíam em mistura de fatos precisos, fragmentos de memórias culturais e mitos enriquecidos e que ganhavam vida própria e chegaram aos tempos modernos com muito poder de convencimento. Muitos considerados autênticos e reveladores.

A comunidade científica também não fica fora de uma avaliação crítica mais acurada. Não se pode olvidar que pesquisas e observações foram reveladas em congressos e viraram manuais. Muitas permitiram a produção de bens, serviços e soluções, formando novos paradigmas que passaram a ser adotados e seguidos como modelos acabados até serem desacreditados e/ou sobrevir uma ruptura provocada por diferentes experimentos, originando versões que substituíram as anteriores.

Com o título “um terço dos cientistas mente”, a Revista SUPERinteressante na sua edição 309 (setembro/2012, pág.49), apresenta o resultado de uma pesquisa realizada pela Revista Nature em 2005, envolvendo 3247 cientistas, onde

“33% confessaram (anonimamente) que fizeram pelo menos uma coisa antiética ao elaborar seus estudos. Por exemplo: 1,5% cometeu plágio, 15,5% adulteraram o método ou os resultados do estudo, e 12,5% usaram dados que sabidamente não eram confiáveis…”.

Nos dias atuais, temos informações em tempo real sobre tudo e quase todos na rede virtual de informações, assim como em revistas, jornais, rádio e televisão, em ritmo alucinante, com imensas possibilidades de escolhas, porém com conhecimentos e verdades restritas. Saber filtrar o que é importante e com credibilidade é um processo que demanda cuidados e atenção redobrados.  O alerta que precisamos manter sempre ligado é para não cair na situação de perigo representado pelo que os ouvidos ouvem o os olhos veem, que levam a mente a acreditar, podendo ser apenas uma ilusão. Podemos estar seguros de que a credibilidade das imagens é relativa.

Assim, a descoberta da Verdade implica sair do mito e procurar entender os fenômenos sociais que nos cercam, objetivando entender o que se passa, tirar as próprias conclusões, formar espírito crítico e reativo. Isso para não dizer que a verdade muita das vezes está na cara, mas não se impõe e, sobretudo, se encolhe, prevalecendo sofismas ou versões manipuladas para atender a objetivos não revelados que passamos a compactuar pela nossa incapacidade de reflexão ou receio de reagir. Não se pode olvidar que muitos, deliberadamente, se colocam em uma situação de cegueira diante dos fatos.

No caso do nosso País, tivemos uma oportunidade recente para exercitar a habilidade de avaliar com clareza os fatos, no campo da prática jurídica, uma situação de repercussão internacional. Com informações disponíveis em tempo real e uma superexposição midiática, assistimos ao emblemático julgamento pelo Supremo Tribunal Federal do caso do “Mensalão”, que se constituiu em uma novela de pouco mais de 50 capítulos, repercutido com comentários de juristas, jornalistas, intelectuais e população em geral.

A perspectiva se abriu a uma maior possibilidade de compreensão pela população brasileira sobre a forma e o conteúdo de um julgamento cercado por discussões entre ministros e analistas especializados acerca dos conflitos de aplicação das leis vigentes, com o recurso da retórica manejado na sua plenitude. O caráter pedagógico das discussões aumentou a conscientização do povo quanto a condutas que deterioram os valores, geram intolerância à corrupção e criam demanda por maiores controles, fiscalização e transparências dos agentes públicos.

script de sempre nos tem demonstrado que na vida social, familiar ou no trabalho, no mercado, como na política, a versão tem mais vitrine do que o fato. Em determinadas situações, aqueles que se sentem prejudicados se tornam porta-vozes de versões que corroem a credibilidade dos fatos. Nesses casos, uma situação passa a ser aquela que um poder maior diz que é a verdade. Povos e governos dotados de maior poder de destruição sempre se consideram senhores da verdade histórica.

O exemplo em política é cartesiano. O que importa são as opiniões abalizadas. Uma opinião, tantas vezes repetida, é aceita sem contestação. É atribuída a Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Adolf Hitler, a afirmativa de que basta contar uma mentira por um tempo suficiente, e ela se torna uma verdade.

A história é testemunha de que, em política, quem expõe a realidade passa a ser considerado de oposição. Aqueles meios de comunicação, como a própria imprensa, perdem o acesso a gordas verbas publicitárias quando adotam tal prática e divulgam textos críticos envolvendo governantes.

A dura realidade sempre demonstrou e é farta de exemplos de campanhas difamatórias orquestradas, interesses privados patrocinados por grupos políticos no poder, excessos praticados, abusos de poder cometidos, direitos individuais cerceados, discursos aperfeiçoados e simulacros passados como se fossem verdades. Tudo isso mostrando que a vontade da sociedade pode ser manipulada por fortes empresários e políticos com o objetivo de aumentar lucros e riquezas, sendo a mídia, pela penetração e credibilidade, um instrumento poderoso de convencimento e difusão de ideias, de forma a transformar mentiras oficiais em verdades acreditadas.

No aspecto religioso, uma área bastante sensível e rica em exemplos, fundamentalistas de todos os matizes se arvoram em deter o domínio da verdade. E essa convicção pode conduzir a fronteiras inimagináveis, movendo multidões de despreparados ou inocentes. Em nome de uma crença, a história narra perseguições, torturas, mortes, às vezes de forma obsessiva. Mas, é inegável o legado daqueles que resistiram e investiram no conhecimento e no saber. Segundo Buda, “o conflito não é entre o bem e o mal, mas entre o conhecimento e a ignorância”.

Veja a alegoria do profeta que possuía um anel, ao qual atribuía o dom da profecia. Seus três filhos, reservadamente, pediram-lhe o anel, cada um com uma argumentação muito particular e nobre. O profeta para atender o pleito, mandou confeccionar três anéis iguais ao seu e lançou o original ao mar. Discretamente, entregou cada uma das cópias aos três filhos, dizendo que aquele era o legítimo. Os filhos acreditaram no ato do pai e se fizeram profetas nas suas comunidades e convenceram a todos que tinham tal poder.

Não podemos refutar que a convicção de cada um era sincera e acreditavam naquilo que profetizavam, demonstrando que a história dos homens gira em torno de suas crenças. Ademais, se essa atitude do profeta se agiganta na imaginação, se inflama na retórica, desperta emoções e impõe regras e influencia comportamentos, temos uma nova corrente religiosa ou filosófica. Se o respeito e a tolerância não se fizerem presentes como valores indiscutíveis e as paixões se reverberarem, o conflito de instaura.

Outra área bastante emblemática em nossos tempos é aquela representada pelos documentários cinematográficos produzidos em profusão, onde é inegável a incidência de mentiras e simulações, para que tudo pareça real. No mesmo sentido, ainda que se diga que um filme é baseado em fatos reais passados, a linguagem utilizada, combinada a sons e imagens, leva o espectador a se iludir e acreditar que está diante de uma situação real, mexendo com os sentimentos. É a força da sétima arte.

Em áreas de grande apelo popular, como o esporte, temos relatos de vários casos de farsas que muitas vezes surpreendem o mundo quando os fatos vêm à tona. São conhecidos os casos de atletas de competição que apresentam rendimentos inacreditáveis e sustentam uma imagem bem distante dos demais mortais. Muitos mitos são criados nessa seara e se tornam verdades históricas.

Na economia, como em tudo na vida, contra fatos não há argumentos. A inflação no nosso bolso é sempre mais alta do que aquela “oficial” divulgada pelo noticiário. Os índices divulgados não revelam uma alta tão forte como a que percebemos em nossos gastos com produtos e serviços. Segundo discursos especializados, não podemos individualizar os índices com base em nossas cestas de consumo. E ainda temos que acreditar com fervor que é isso mesmo. Essa é a verdade!

Portanto, à luz do que foi acima comentado e a bem da verdade, não é de todo descabido acreditar que nem tudo é como se mostra. Mas, estaremos prontos para encarar a dura verdade e arriscarmos a ter nossas ilusões destruídas, como questiona Nietzsche, conforme citação de abertura desta Prancha?

A propósito, vale destacar um texto de autor desconhecido que circula pela rede, intitulado “A maneira de dizer as coisas”, que narra uma sábia e conhecida lenda árabe sobre um sultão que sonhou ter perdido todos os dentes. Ao despertar, mandou chamar um adivinho para que interpretasse o sonho. O adivinho disse que era o presságio de uma desgraça, pois cada dente caído representava a perda de um parente do Sultão. Este, ao ouvir aquelas palavras, gritou chamando o intérprete de insolente e expulsou-o dos aposentos, ordenando aos guardas que aplicassem cem açoites no pobre adivinho. Mandou, em seguida, que trouxessem outro adivinho e lhe contou sobre o sonho. Este, após ouvir o sultão com atenção, disse-lhe que grande felicidade lhe estava reservada, pois o sonho significava que o Sultão haveria de sobreviver a todos os seus parentes. A fisionomia do sultão iluminou-se num sorriso e mandou dar cem moedas de ouro ao segundo adivinho. Quando este saía do palácio, um dos cortesões aproximou-se e lhe disse admirado que se tratava da mesma interpretação e não entendia porque o primeiro recebera cem açoites e a ele foram pagas cem moedas de ouro.  Respondeu-lhe o adivinho que tudo depende da maneira de dizer.

Conclui o relato que um dos grandes desafios da humanidade é aprender a arte de se comunicar. Da comunicação depende, muitas vezes, a felicidade ou a desgraça, a paz ou a guerra. Que a verdade deve ser dita em qualquer situação, não há duvida. Porém, a forma como ela é comunicada tem provocado, em alguns casos, sérios problemas. A verdade pode ser comparada a uma pedra preciosa. Se a lançarmos no rosto de alguém pode ferir, provocando dor e revolta. Mas se a envolvemos em delicada embalagem e a oferecemos com ternura, certamente, será aceita com facilidade. A embalagem, nesse caso, é a indulgência, o carinho, a compreensão e, acima de tudo, a vontade sincera de ajudar a pessoa a quem nos dirigimos.  Ademais, será sábio de nossa parte, antes de dizer aos outro o que julgamos ser uma verdade, dizer a nós mesmos diante do espelho. E, conforme seja a nossa reação, podemos seguir em frente ou deixar de lado o nosso intento. Importante mesmo é ter sempre em mente que o que fará diferença é a maneira de dizer as coisas…, encerra o citado texto, que convida a uma reflexão.

Portanto, não se pode afirmar que a Verdade pura não exista, mas na realidade se apresenta em diferentes versões, restando-nos o empenho de buscá-la, ou pelo menos aproximarmo-nos dela. Indiscutível é que será sempre o conceito ou o argumento de quem conta a outro que a ouve, envolta no conflito de acreditar nas palavras que se ouvem ou naquelas que a contradizem.

Refletir sobre a verdade é por demais palpitante e exemplos de situações contraditórias são inesgotáveis, chegando a prática de se faltar com a mesma a desenvolver o seu lado cômico, como é o notório 1º de abril, que em culturas ocidentais é consagrado ao dia da mentira. Famosos clássicos infantis, como “Pinóquio” e o “Menino Maluquinho”, exploram essa vertente. A propósito, poucos sabem que 3 de abril é o “Dia da Verdade”.

Para os interessados em aprofundar nos atoleiros envolvendo a temática, e não correr o risco de ter que se salvar puxando seu próprio cabelo, caso ainda os tenha, sugerimos uma busca na Internet do termo “Trilema de Münchhausen ou de Agripa”, cunhado pela filosofia e usado em teoria do conhecimento sobre a impossibilidade de provar verdades com certezas absolutas, inclusive no campo da lógica e matemática.

É nessa perspectiva da especulação, ou no que podemos considerar uma característica bem humorada da cultura mineira, desconfiando sempre com respeito, é que o Maçom escolhe e desenvolve o seu caminho evolutivo. Isso se realiza de forma individual, sem nenhuma interferência da Ordem, não se evidenciando uma investigação dirigida da Verdade, por ferir princípio da liberdade de pensamento e do livre arbítrio.

O Maçom, como livre pensador, tem compromisso com a livre investigação da Verdade e, nesse contexto, movido por questionamentos e inquietações, reflete sobre assuntos de vital importância para a compreensão da história.

Para cumprir o seu desiderato, o Maçom não pode fingir que está tudo bem ou mal e que não tem nada com isso que está por aí. Para tanto, precisa estar sempre atento e dizer não à alienação, à omissão, à mediocridade, ao desinteresse, ser consciente dos direitos e deveres como cidadão. Além de tudo, deve ser um observador qualificado e consciente das realidades que nos cercam de modo a ter uma visão clara dos fatos.

Para o Maçom, esse empenho investigativo é diuturno e é também interior, representado por descobertas decorrentes do pensar, de embates contra inimigos poderosos como as paixões, hipocrisias, fanatismos, ambições, para que a Verdade, enfim, triunfe sobre o erro.

Enfim, sabendo que a evolução é uma constante que independe de nossa vontade, essa busca consciente e isenta dos fatos vem ao encontro do desejo da Ordem de servir à humanidade e torná-la mais esclarecida. O papel da Maçonaria nesse contexto visa a estimular o caráter de seus membros e a promover reflexões sobre a espiritualidade e elevação do nível de consciência e convivência irrestrita e fraternal.

Essa luta transformadora enseja levar seus membros a aprimorarem a capacidade de raciocínio e a se capacitarem como construtores sociais aptos para influenciar a opinião pública e provocar mudanças qualitativas nas atitudes das pessoas, despertando a lucidez e mostrando a realidade.

Jesus disse: “E conhecereis a Verdade, e ela te libertará. (João 8:32)

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Maçom da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras e, para nossa alegria, também um colaborador do blog.

Nota do Blog

A busca da Verdade, a procura do conhecimento, e o trabalho para o constante aprimoramento intelectual e espiritual devem ser sempre uma meta de todos, em especial dos irmãos maçons,

O pior cego é o que não quer enxergar; mas os iniciados “viram a Luz”, e cabe agora a eles iluminar o caminho da humanidade.

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A Ética e o Valor Moral na Maçonaria

A Ética, denominada de Filosofia Moral ou Ciência Moral, trata da análise e a reflexão sobre as condutas humanas, tanto individuais, quanto coletivas, e as normas morais como princípios dos comportamentos. Sua finalidade é fazer com que o desenvolvimento humano atinja a plenitude, respeitando as diferenças individuais.

Segundo Aristóteles, “a Ética estabelece o que se deve ou se pode fazer, e o que não se deve ou não se pode fazer”.

É evidente que quando se estuda o procedimento do homem no meio social, deve-se levar em conta que o homem é um ser moral, justamente por ser ele um se político. É um ser político porque a isso o obriga a sua natureza humana.

Mais do que nunca o homem tem que se adaptar à vida em comunidade, mormente nos tempos de globalização, quando o mundo virou uma “aldeota”, onde a aviação e os meios de comunicação acabaram com as distâncias.

O homem vive em sociedade e o Estado onde ele vive precisa dele, como ele precisa do Estado. Na sua larga visão, Aristóteles em “A Política” assinala:

…“Está claro que o Estado é produto da natureza e superior ao indivíduo; quem não fosse capaz de viver na comunidade civil ou dela não tivesse necessidade para bastar-se a si mesmo, não se tornaria nenhuma parte do Estado…”.

Tenhamos em mira que a teoria aristotélica da moral é o fundamento dessa corrente do pensamento chamado Ética.

É interessante verificar que a palavra ética, em português, é derivada do vocábulo grego ethos que significa hábito, costume.

Os romanos traduziram o ethos grego por moralis. Cícero diz em uma das suas obras, referindo-se ao vocábulo grego, que “Aquilo que tem a ver com os costumes, que eles (os gregos) chamam ethos, nós, nesta parte da filosofia referente aos hábitos, costumamos chamar de moral”.

O dicionário esclarece que Moral é a parte da filosofia que trata dos costumes ou deveres do homem para com seus semelhantes e para consigo mesmo.

Aristóteles não separa a Ética da Virtude, porque, para ele, toda a virtude se gera e perece dos mesmos atos, e mediante os mesmos atos; e exemplifica dizendo que “de tocar cítara surgem os bons e os maus citaredos”. Isto significa que, pelos atos, se conhece se o indivíduo é virtuoso ou não.

Mais adiante ele enfatiza: “É necessário, pois, atentar para a qualidade dos atos que praticamos, porque consoante a sua diferença resulta a diferença dos hábitos.”

Se o homem considerar que a prática dos deveres para com os outros e para consigo mesmo é o único caminho que leva à perfeita harmonia social, estará, pois, procedendo corretamente e pode considerar-se feliz.

Analisemos o que Aristóteles estabelece de fundamental na sua “Ética”:

“Os atos morais são livres, motivo por que o indivíduo a s s u m e a s u a responsabilidade. Em assim sendo, torna-se, para quem os pratica, causa de mérito ou demérito. A responsabilidade supõe, com certeza, o que d e n o m i n a m o s d e imputabilidade, pelo qual o ato é atribuído a um indivíduo como seu autor”.

“Existem duas espécies de responsabilidade: aquela pela qual o indivíduo responde por seus atos diante da própria consciência, ou seja, a responsabilidade moral, e a responsabilidade social que faz com que o indivíduo responda por seus atos, às vezes, perante a justiça, quando violar as leis civis”.

Aristóteles ensina que “A virtude é um hábito não só diante da reta razão, mas a ela conjunta. E a reta razão nada mais é que sabedoria”.

Resumindo, Virtude é o hábito de praticar o Bem, e vício, o hábito de praticar o mal.

Voltemos a Aristóteles e vejamos o que ele tem para nos ensinar:

“A Virtude, diz ele, se distingue segundo esta diferença: das virtudes, algumas chamo dianoéticas, a sapiência, a inteligência e a prudência; éticas, a liberalidade e a temperança. Quando, de fato, falamos dos costumes de alguém, não dizemos ser sapiente ou inteligente, mas sim, brando de ânimo ou temperante; e louvamos também, referindo-nos ao hábito: que nós chamamos virtudes aqueles hábitos que merecem ser louvados.”

Aristóteles procura estabelecer diferença entre aquilo que ele chama de virtudes dianoéticas e virtudes éticas:

“As primeiras são inatas no homem e podem crescer através do estudo, do ensinamento, razão por que têm necessidade de experiência e de tempo. Já as virtudes éticas são frutos do hábito, o que vale dizer que nenhuma delas se gera no homem por natureza, são as chamadas virtudes adquiridas. Elas não se geram nem por natureza nem contra a natureza, mas nascem em nós que, aptos pela natureza a recebê-las, nos tornamos perfeitos mediante o hábito”.

O estagirita conceitua a natureza humana como sendo equilibrada. Para ele, todo ideal tem base natural e todo natural tem desenvolvimento ideal. Reconhece, e o faz objetivamente, que a meta da vida não é o Bem por si mesmo, mas a felicidade. Assegura que a felicidade aparece como um bem perfeito, sendo a meta de todas as ações.

A Maçonaria é por excelência, uma Entidade de Moral, pois, seus princípios alcançam, em suas ações, os níveis mais elevados da Ética Universal. Sua obra, tanto material quanto espiritual advém de um passado remoto. Educando e disciplinando, prepara seus membros para que participem na busca da verdade, elevando-os em sua dignidade, fazendo com que ajam com justiça, desfrutando da liberdade, praticando a fraternidade e dedicando-se com amor à Humanidade.

Diante da evolução por que passa o mundo é necessário que visualizemos, à luz maçônica, os grandes desafios. O rigor moral e a força da autêntica solidariedade social se fazem necessários para que corrijamos os deslizes individuais, as más instituições políticas, econômicas e sociais, com o intuito de que o relacionamento humano seja mais fraterno.

A resposta não é simples, mas, podemos assegurar que sem ela enveredamos os mais tristes e funestos destinos. A Moral permite o cultivo de todas as virtudes, o que garante uma promissora convivência com nossos pares.

O imoral e o amoral, hoje ou amanhã, pagarão alto preço de uma conduta desmedida, destruindo, assim, suas vidas. “A História, mestra da vida”, testemunha a decadência dos que se distanciam da moral.

Nenhuma nação, nenhum povo e nenhum homem poderão concretizar seus sonhos, se não estiverem embasados nos conceitos da Moral. Seria como construir castelos ao vento, ainda que a aparência pareça estável.

Portanto, a cada um, a concepção do dever, do bem, da justiça, das virtudes e, sobretudo, da verdade, pois aí está a formatação da moral, revelando-nos os valores que norteiam o homem e os povos, prestigiando suas instituições e reafirmando na fé, a verdadeira perfectibilidade humana.

A Maçonaria nos chama ao cultivo da Moral e à sua nobre prática, para que sejamos cada dia, mais virtuosos.

Autor: José Airton de Carvalho

Zé Airton é Mestre Instalado, membro da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, presidente da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, membro da Loja de Pesquisas Quatuor Coronati Pedro Campos de Miranda, e um grande incentivador do blog.