O DNA da Maçonaria – Por que?

O cavaleiro Ramsay e a origem da Maçonaria - Freemason.pt

O que teria levado os ingleses a criar uma sociedade que se caracterizava por permitir a reunião, sigilo e vínculos de fidelidade garantidos por juramentos?

A maioria dos maçons gosta de acreditar em motivações de cunho moral, de pessoas interessadas em especular sobre os mistérios da vida e da morte e outras motivações tão nobres quanto falaciosas.

A razão pode ser algo bem mais grave, objetivo e, a meu ver, mais edificante do que sonha nossa vã filosofia.

Vejamos o que ocorria naquele momento histórico.

Os Jacobitas e a União

A União de 1707 entre a Escócia e a Inglaterra era altamente impopular junto à grande maioria da população, na Escócia. Diversos artigos do acordo da Lei da União eram economicamente favoráveis aos proprietários de terras na Escócia, mas não conseguiam oferecer quaisquer vantagens econômicas à maioria da população por mais de 30 anos. O descontentamento era geral e tumultos motivados por alimentos ocorreram nos burgos da costa leste à medida que os efeitos da fome eram agravados pelos impostos da união. Embora a situação induzisse a resistência à união econômica, ela não se traduzia em apoio universal à causa jacobita de manter os Stuarts no trono, em Londres. Muitos, na Escócia, agora associavam os Stuarts ao catolicismo e à supressão da Igreja protestante. A União estava decidia a pôr fim às esperanças dos Jacobitas de uma restauração Stuart, garantindo que a dinastia alemã de Hanover sucedesse a Rainha Anne após a sua morte. Mas, os Stuarts ainda comandavam grande parte da lealdade na Escócia, França e Inglaterra – a União Britânica inevitavelmente reacendeu a causa jacobita.

Em 1708, o pretendente jacobita ao trono, o suposto James VIII, e seus aliados franceses haviam tentado desembarcar na Escócia para incitar um levante, mas foram frustrados pelas condições climáticas adversas e vencidos pela Marinha Real. Seis anos mais tarde, uma moção na Câmara dos Lordes para desmantelar a União falhou por apenas quatro votos. Em seguida, no mesmo ano, a rainha Ana morreu e foi sucedida por Jorge I de Hanover. A questão controversa da sucessão se intensificou e no ano seguinte, muitos nobres e conservadores, descontentes com a sua parte dentro da união, levantaram-se em favor de uma monarquia Stuart.

O Levante Jacobita de 1715

O levante de 1715 foi liderado por John Erskine, Conde de Mar – um homem que tinha votado a favor da União inicialmente e que fora secretário de Estado até 1714. Ele tinha a maioria de seu apoio ao norte do rio Tay, no Planalto Nodeste e nas terras altas da Escócia – áreas onde os latifundiários não se beneficiavam muito com a União e onde o Episcopalianismo (que via os Stuarts como chefes de sua igreja) era dominante.

Mas, o conde de Mar, não se provou um grande líder militar. Ele travou uma batalha muito mal comandada em Sherriffmuir, onde os jacobitas superavam as forças Hanoverianas sob o Duque de Argyll em dois para um, mas falhou em conseguir uma vitória decisiva. Nem mesmo a chegada e coroação de James Stuart como o rei James VIII conseguiu reverter a sorte Jacobita. Eventualmente, o levante fracassou quando 6.000 soldados holandeses desembarcaram em apoio ao governo de Hanover, e as forças do rei James se dispersaram sob a pressão de má liderança e falta de ajuda externa.

Em consequência deste estado de coisas, o governo reagiu prontamente com a votação e decreto do Riot Act (Lei da Rebelião), em 1714, lei esta que entrou em vigor em 1715 que continha o seguinte:

Cap V

Considerando que nos últimos tempos muitos motins rebeldes e tumultos têm ocorrido em diversas partes do reino, para a perturbação da paz publica, e o perigo para a pessoa de Sua Majestade e do governo, o mesmo ainda continua sendo fomentado por pessoas descontentes com Sua Majestade, presumindo assim fazer, para que as punições previstas pela legislação atual não sendo adequada para tais crimes hediondos; Sua Majestade e seu governo tendo sido de forma mal intencionadamente interpretada por tais rebeldes com a intenção de aumentar as divisões, e alienar a afeição do povo de Sua Majestade, por conseguinte, para a prevenção e repressão de distúrbios e tumultos como estes, e para a mais célere e efetiva punição dos infratores nelas envolvidos, seja promulgada por sua mais excelente majestade o Rei, por e com o conselho e consentimento dos lordes espirituais e temporais e dos comuns, neste atual Parlamento reunido, e pela autoridade do mesmo;

Que se qualquer pessoa até o número de doze ou mais, sendo ilegal, rebelde e desordenadamente reunidos, em perturbação do sossego público, em qualquer momento após o último dia do mês de Julho no ano de nosso Senhor, 1715, e sendo requisitado ou ordenado por qualquer uma juiz ou juízes, ou pelo xerife do condado, ou o seu sub-xerife, ou pelo prefeito, oficial ou oficiais de justiça, ou outro chefe ou juiz de paz de qualquer capital ou cidade, onde tal assembleia se reúna, por decreto a ser feito em nome do rei, sob a forma doravante ordenada, a dispersar-se, e afastar-se em paz para suas habitações, ou aos seus negócios lícitos, devem, o tal número de doze ou mais (não obstante tal proclamação feita) de forma ilegal, desenfreada e desordenada permanecer ou continuar juntos pelo espaço de uma hora após o comando ou solicitação feita pela proclamação, então, tal permanência do número de doze ou mais ou feita tal proclamação, será julgado crime sem o benefício do clero, e os infratores serão condenados como criminosos, e sofrerão a morte como no caso de crime, sem o benefício do clero. (Grifos do Tradutor)

Teria sido uma mera coincidência que dois anos depois disso surgisse uma organização cuja principal característica é a reunião de pessoas?

Isso altera, e muito, a visão que se tem da maçonaria especulativa. Estamos acostumados a achar que a vida nesta época era um mar de rosas, mas a realidade era de uma ditadura sufocante e a Maçonaria surgiu pela primeira vez como um porto seguro para os lutadores da liberdade, que viria a se repetir nos Estados Unidos em 1776, na França em 1789 e no Brasil em 1822.

Ou os homens livres e de bons costumes de uma nascente burguesia desejosa de participar dos destinos da nação se sentiram oprimidos e buscaram uma saída que lhes garantisse a impunidade diante de tal lei draconiana? E levaram dois anos para “aparelhar” a maçonaria operativa?

A verdade é que o Establishment inglês, ou a Coroa, encarregou os pastores Desagulliers e Anderson de desativar a bomba relógio criada com o Riot Act. E eles se sairam muito bem, pelo menos no que diz respeito à Inglaterra.

Mas, eles não faziam ideia do monstro que haviam criado. Quando a nascente instituição foi transplantada para o Continente, ela assumiu o mesmo formato de controle social, sendo via de regra dirigida pelo monarca como Grão-Mestre e as lojas utilizadas para enquadrar a parcela pensante da população.  Foi assim na Alemanha e em outros centros monarquicos.

Uma parcela pensante da sociedade francesa aderiu à maçonaria, que se transformou em vibrantes centros de discussão. A maçonaria, mesmo não sendo a responsável direta pela queda da Bastilha, transformou-se em uma ameaça entre os aristocratas da época. Posteriormente à revolução francesa, a Maçonaria Francesa assumiu uma postura progressista, ligada diretamente à Carta de 1717, adotando o princípio da isenção religiosa que a caracteriza até os dias atuais.

Mas, na América ela teve enorme influência nos movimentos de libertação, desde os Estados Unidos em 1776, até o Brasil em 1822, passando pelas colônias espanholas onde maçons como San Martin e Bolivar tiveram uma atuação crucial.

Atualmente, a maçonaria só tem uma atuação progressista na França, por meio do Grande Oriente de França, defendendo causas e participando ativamente da vida social. Também em Portugal, o ramo originário do Grande Oriente de França tem uma atuação proativa e progressiva.

No restante do mundo, continua a ser um instrumento de controle social e tem uma imagem de instituição retrógrada e conservadora.

Nas grandes capitais, devido à composição heterogênea das lojas, a atuação da Ordem é bastante limitada, ao passo que no interior tem grande influência e participa da vida da sociedade, mesmo em suas versões retrogradas e religiosas do rito escocês, adoniramita  e brasileiro.

Autor: José Filardo

Fonte: Bibliot3ca Fernando Pessoa

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Os Stuarts e a Maçonaria, história ou lenda?

James II da Escócia

A associação dos Stuarts com a Maçonaria continua a ser uma das grandes figuras da imaginação maçônica do século XVIII. Muitos rituais ou correspondência explicam que, desde tempos imemoriais, os Stuarts eram os protetores e chefes secretos da Ordem, alguns até mesmo adicionam que um propósito oculto das Lojas era então restaurar a infeliz dinastia escocesa em seu trono legítimo. O que é realmente isso; história ou lenda?

Talvez não haja fumaça sem fogo, mas ainda hoje os historiadores não conseguem encontrar provas documentais sobre o envolvimento real dos últimos representantes da grande dinastia com a Maçonaria escocesa. Elementos raros emergem como existência comprovada de uma oficina “jacobita” na comitiva de James III no exílio em Roma, ou a de algumas lojas stuartistas claramente identificadas em Paris na década de 1730 por Pierre Chevallier. Mas, por outro lado, todas as patentes ou cartas constitutivas supostamente concedidas assinadas ou promulgadas pelos Stuarts revelaram-se falsas.

Desde 1653, a Loja de Perth exibe um pergaminho dizendo que James VI da Escócia foi iniciado como Aprendiz em seu seio em 15 de abril de 1601. Os rumores em torno da existência de uma Loja no exílio de Saint-Germain-en-Laye em 1688 ocupam os maçons de Paris desde 1737. Em 1749, o ritual da Sublime Ordem dos Cavaleiros Eleitos afirma que os Templários perseguidos foram acolhidos e protegidos pelos reis Stuart na Escócia, onde eles se esconderam nas Lojas dos maçons. A lenda tornou-se ainda mais viva que a personalidade, a epopeia e o trágico destino de Charles Edward Stuart, conhecido como Bonnie Prince Charlie – chamado de “jovem pretendente” (1720-1788) – lhe conferem uma forte dimensão romântica. Sua reconquista inaudita da Escócia por alguns meses em 1745 e, em seguida, a fuga para as montanhas depois da derrota fatal de Culloden apaixonaram então toda a Europa.

Seja por cálculo, como a crítica moderna o acusou, ou mais ou menos de boa fé como pensamos, o Barão de Hund conservou essa genealogia Templária e stuartista quando começou a desenvolver a “Estrita Observância” Templária na Alemanha a partir de 1750. Ele alegava ter sido recebido em Paris, na década de 1740, na Ordem do Templo restaurada no seio de uma loja reunindo membros ingleses e escoceses seguidores de Charles Edward Stuart. Fizeram-no supor que Charles Edward era o Grão-Mestre secreto dos Maçons sob o nome de “Eques a sole Aureo”. A Maçonaria, que dissimulava a continuação secreta da Ordem do Templo, era na realidade dirigida por chefes que ninguém conhecia, os “Superiores Desconhecidos”.

O grande sucesso da Estrita Observância Templária popularizou mais o suposto papel do Stuarts nas Lojas. Após a morte de Hund, o novo Grão-Mestre, o príncipe Ferdinand de Brunswick quis saber onde se colocar. Em 1777, ele então envia um Maçom muito ativo, o Barão de Waechter junto ao “jovem pretendente”, que não o é de fato, para interrogá-lo “oficialmente” – finalmente! – sobre as ligações reais dos Stuarts com a Maçonaria. Este dá uma resposta confusa, mas da qual finalmente fica claro que nem seu pai nem ele eram maçons. Mas o lado evasivo da resposta e a reputação de dissimulação ligada a Charles Édward não resolvem a questão, e os dignitários maçônicos alemães e suecos voltam à carga. Abordado diversas vezes, ele acaba por insinuar que se as lojas desejassem ele estava pronto para assumir os deveres do seu cargo! Pressionado por todos os lados – e à procura de reconhecimento e … dinheiro! – em 1783, ele finalmente dará uma Patente “verdadeira-falsa” ao rei Gustavo III da Suécia, reconhecendo-o como seu legítimo sucessor como chefe da Ordem dos Cavaleiros de São João do Templo, isto é, da Ordem Maçônica Templária.

Desde tempos imemoriais à pergunta “S. M.?” as instruções maçônicas mandam responder: “M. I…..” Se é quase certo que ele nunca foi iniciado em boa e devida forma, Charles Edward era reconhecido desde longa data “como tal” por muitos maçons do século XVIII. No crepúsculo de sua vida, ele finalmente aceitou esta coroa que todos lhe queriam colocar.

A única que ele jamais colocaria em sua cabeça.

Autor: Pierre Mollier

Tradução: José Filardo

Fonte: Revista BIBLIOT3CA

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Verdade e fé: as linguagens da catedral nos séculos XII ­ XIII

Catedral de Notre Dame - A catedral gótica mais famosa de Paris

A relação entre verdade e fé significava a aliança entre os homens e Deus na idade média. O compromisso com o divino tinha lugar num local sagrado onde transcorria o ritual da união simbólica, a igreja do cristianismo. Na passagem do século XII para o XIII, com o crescimento das cidades europeias, surgem as catedrais românicas e, posteriormente, as góticas. Nessa mudança, a grandiosa catedral gótica, a igreja do bispo, caracteristicamente urbana e moderna, passa a ser o espaço síntese das artes e o centro de toda a vida da urbe, sediando, inclusive, escolas e universidades. Sob a gestão dos arquitetos, chamados de doutores em pedra, as construções proliferaram e integravam os trabalhos dos artesãos de toda espécie, como os escultores, denominados de talhadores de pedra e os vitralistas. A dinâmica dos seus espaços abrangia também as performances religiosas, as gesticulações ritualísticas, a música e os cantos sagrados, e dispunha o altar como o palco principal do drama cristão

Verdade e fé. Duas palavras capazes de provocar uma discussão interminável. Na Idade Média, para os cristãos, homens e mulheres, ambas as palavras significavam fidelidade a Deus, a Aliança feita com ele, a misericórdia, a santidade e o mistério da Salvação. A palavra “amém”, que podemos traduzir como “assim seja”, no final de uma prece, exprime mais do que o desejo formulado: As palavras que acabam de ser pronunciadas são verdadeiras. Neste sentido, a palavra fé, significa, crer.

Faz-se necessário esclarecer que não podemos nos referir à Idade Média como um todo. Vamos nos deter em apenas dois séculos: o XII e XIII, na Europa ocidental, onde o sistema de crenças era profundamente distinto do atual. A verdade e a fé formam um só sentimento que não se faz presente apenas na prática religiosa e espiritual dos medievais. Constituem a essência da cultura política da sociedade feudal vassálica. O que significa isto? Uma sociedade sem mobilidade social, que se desenvolveu a partir de guerras, após a queda do império romano, dos campos devastados e uma profunda insegurança. Em meio ao caos, uma única instituição sobreviveu: a Igreja. Ela vai processar a síntese das duas culturas: a romana e a germânica. A fé está implícita na fidelidade, essencial nas relações homem a homem no medievo. De acordo com a etimologia latina, fides, quer dizer “palavra dada”. Isto é, estabelece a relação entre os homens, mediante a palavra dada e firmada, conforme descreve uma farta documentação desde a época dos merovíngios na França (finais do século V).

Com a urbanização da Europa, surgiram as grandes catedrais. Inicialmente as românicas, posteriormente as góticas. Os canteiros de obras se espalhavam nas cidades de maior importância. No comando do canteiro o arquiteto também é o responsável pela decoração. Ele estabelecia o programa que seria executado pelos que talhavam a pedra e delas faziam brotar as imagens. “Talhadores de pedra” como eram denominados os escultores de então. As imagens góticas se distinguem das românicas não apenas pelo conteúdo. Os intelectuais refletiam sobre o que estava em volta. Foi esta atenção voltada para o mundo real que foi transmitida aos construtores das catedrais. A natureza se fez presente nos capiteis góticos, diferenciando-se dos capiteis românicos, onde os elementos eram criados reproduzindo um mundo de criaturas e seres fantásticos. Nos capitéis góticos a cópia dos vegetais permite inclusive distinguir as espécies.

A igreja de Notre Dame constitui um belo exemplo do gótico. Todavia os capitéis da igreja que nos vemos atualmente foram restaurados por Viollet le Duc. A igreja como se sabe, foi atingida duramente pelos revolucionários. Viollet le Duc, esclarece a impossibilidade de a restauração recuperar a igreja original. Seja como for, os capiteis interagem com a arquitetura, participando da síntese das artes processada no interior do edifício. Não se trata apenas de uma decoração. Ao mesmo tempo, honram a presença do sagrado que é o elemento sintetizador. Todo lugar de culto é por natureza um lugar sacralizado. Não existe culto sem sacralização. Para os medievais as palavras em latim – decor e decus – possuíam um sentido específico. Não significavam nem decorar nem ornar. Para o Abade Suger de Saint Denis, implicavam em homenagear e exaltar.

Os séculos XII e XIII correspondem a uma Idade Média que avança na urbanização. São outros homens, outras mulheres. Mas a crença em Deus continua. Estuda-se “Deus”. E a cidade garante uma melhoria de vida, mas ao mesmo tempo é cercada por uma periferia de miséria. O poder da Igreja fortaleceu-se. Em cada cidade existe um bispo.

A pesquisa que venho desenvolvendo tem como objetivo explorar as linguagens da catedral. Para mim a linguagem possui um significado muito amplo. Concordo com Alphonse Dupront:

“A linguagem implica na multiplicidade de discursos falados e escritos, expressos plasticamente ou pela técnica; pelo gestual, pelos comportamentos, ou mesmo pelos silêncios”.

Neste amplo leque de possibilidades, o nosso foco direciona-se ao mesmo tempo para o discurso plástico e para o discurso litúrgico, buscando entender de que forma os dois discursos se encontram, interagem, e promovem sob o comando da arquitetura, novas linguagens que resultam na síntese das artes.

A síntese das artes é uma expressão vinculada ao século XX caracterizando a presença das manifestações plásticas em um espaço arquitetônico ou urbano. Ao me apropriar da expressão para falar da catedral medieval como espaço produzido pela arquitetura capaz de reunir as artes do medievo, em nenhum momento a expressão me pareceu inapropriada. O anacronismo é próprio da história. E o tempo das imagens não é necessariamente o tempo da história. Estou partindo do meu presente, e acredito que a expressão síntese das artes cabe muito bem no estudo das catedrais. A partir do momento em que o lugar do culto aumentou suas dimensões – distanciando-se da concepção de que a Casa de Deus se concebia espiritualmente – para construir templos monumentais, promoveu no seu interior, a síntese de todas as artes: não só a arquitetura (construção do edifício), mas a escultura (decoração de colunas internas e estatuárias nas fachadas), a pintura (colunas e vitrais, iluminuras dos evangelhos) e também a ourivesaria, música e as artes cênicas.

Este percurso não foi feito com rapidez. Inicialmente, os cristãos não se preocuparam com um lugar de culto. Foi a aliança estabelecida entre a Igreja e os Carolíngios, em particular com a política de Renovação do Império Romano, que propiciou uma ocupação de território por parte da Igreja. Ergueram-se gradualmente, e cada vez mais, igrejas, mosteiros, abadias e outros edifícios com funções e práticas vinculadas a Roma. Dominique Iogna-Prat, em um livro que se tornou rapidamente uma referência, intitulado La Maison Dieu, analisa como a construção de um Império cristão pelos carolíngios foi determinante para a Igreja. Até então, a “Casa do Senhor” não se apresentava como algo decisivo para os cristãos. O ritual celebrado ocorria de forma simples e em local, por muito tempo, minúsculo. Alguns historiadores alegam que os primeiros convertidos não possuíam meios e por isso se reuniam nas próprias casas para um culto muito simples. Mas, convém considerar também, que nos primeiros dois séculos, já haviam divergências a respeito da construção de um local para o culto. Para alguns o senhor “estava em toda a parte”. Logo não se fazia necessário erguer um templo.

Foi a partir da dinastia carolíngia que a Igreja adquiriu visibilidade terrena. Isto é, construíram-se lugares específicos para o culto e “o termo ecclesia se impôs como terminus technicus para designar a igreja-monumento, lugar consagrado segundo os termos de um ritual que se fixou por volta dos anos 840.” É interessante notar que pela construção das igrejas e mosteiros a igreja ocupa um território. Torna-se concreta. Uma
olhada no mapa do Ocidente europeu nos faz perceber que a partir do século IX o número das construções aumenta e se torna maior do que o número dos castelos fortalezas.

Foi nos ateliês fundados por Carlos Magno que nasceu no final do século X um novo estilo de arquitetura que veio a ser denominada de românica. Tratava-se de uma igreja grande, de grossas paredes e caracterizada desde o século XI por uma arquitetura que se faz reconhecer pelo emprego sistemático das arcaturas e de bandas lisas. Foram construídas em cidades que pertencem a um território onde a instituição monástica ainda é “uma força de organização e foco de ação. Em especial, a ordem de Cluny teve um papel político e moral importante. Foram eles que organizaram as peregrinações, levando a população a se movimentar pelos caminhos e percorrerem as cidades, onde a igreja românica é uma espécie de relicário imenso, aberto a todos. A igreja monástica desta época é ao mesmo tempo a igreja dos monges e dos peregrinos graças a ação dos beneditinos da Ordem de Cluny, (fundada em 910). As peregrinações foram muito importantes para as cidades, que passaram a ter uma catedral onde se abrigavam uma ou mais relíquias de santos. A construção das igrejas românicas na sua notável variedade de estilos regionais é o resultado de um processo que perdurou até o séc. XII, quando se iniciam as experiências góticas.

O gótico é, sobretudo, a arte das grandes catedrais (não que não tenham ocorrido catedrais românicas grandes). Mas as grandes catedrais se deslocaram para as cidades mais populosas, mais ricas, com mais recursos. Enfim, onde existissem estradas que levassem os materiais extraídos das pedreiras. Para alguns historiadores da arquitetura, a arte românica e a arte gótica não são sucessivas. Não decorrem naturalmente, uma da outra. A arte românica pertence a uma ordem antiga, ligada a um passado histórico, enquanto o gótico se origina da pesquisa que resulta em uma arte que vários historiadores consideram “essencialmente moderna”.

A catedral gótica é a igreja do bispo. Uma igreja urbana que responde a uma liturgia mais complexa e exige um espaço grandioso para se realizar em toda sua expressão. O seu público é diferenciado. Isto é, constituído por indivíduos que moram na cidade. Os seus doadores possuíam uma profissão: eram artesãos os mais diversos, médicos (barbeiros), professores, livreiros, comerciantes. Estes habitantes que dominavam a vida da cidade econômica e socialmente, não entravam na catedral apenas para rezar. No seu interior se reuniam as confrarias e se realizavam as assembleias civis das quais toda a comuna participava. A catedral centralizava toda a vida urbana”. Graças às suas proporções, era nela que toda a população encontrava refúgio em caso de catástrofes naturais e guerras. Esta ideia de centralidade se mantém ainda hoje: a catedral de Notre Dame é o Km 0. O ponto de partida para toda a França.

Como sabemos, as cidades eram nesta época fortificadas. Isto é, fechavam as portas ao escurecer indicando claramente a grande importância econômica que haviam adquirido e o cuidado dos seus moradores com a proteção dos bens e das riquezas ali guardadas. Neste cenário, a Igreja, parte dominante da urbes, domina pela palavra, pelos dogmas, pelas regras e pela edificação da ética. Cada cidade demonstrava a sua importância econômica, social e política pela grandiosidade da catedral que podia construir – o que era naturalmente, proporcional às doações que recebia. A construção das catedrais alcançara uma monumentalidade impressionante. Ao mesmo tempo, passaram a ser construídas com maior rapidez. E isto tem uma boa explicação: no interior das mesmas, além dos locais citados acima – nos quais os habitantes não se reuniam para a prece -, cada catedral possuía uma escola, uma universidade.

São os arquitetos que comandam e promovem a síntese das artes na construção das catedrais. No século XIII, os primeiros arquitetos assinam suas obras e são respeitados como mestres das escolas. Eles se auto denominam “doutores em pedra”. O ensino no mundo urbano distingue-se profundamente do ensino anteriormente ministrado nos mosteiros, que apesar da imensa importância, estava voltado para si mesmo. No interior da catedral, as escolas e as universidades se abriam para o mundo. Para Georges Duby, esta

“É a razão que concebe a catedral, que faz aí se coordenarem conjunto séries de elementos discretos. Esta lógica se faz cada vez mais rigorosa e o edifício cada vez mais abstrato”

Panofsky destacou, entre as consequências importantes que a deslocação da educação para o âmbito urbano provocou no conhecimento, o caráter cosmopolita das escolas catedrais, universidades e as studia das novas ordens mendicantes. No clássico, Arquitetura Gótica e Escolástica, ele afirma que a escolástica detinha o monopólio da formação intelectual no âmbito restrito em torno de Paris. Distinguiu o arquiteto da cidade do arquiteto monástico. O primeiro aprendia o seu ofício e desde o início supervisionava suas obras pessoalmente. O papel predominante do arquiteto na condução dos trabalhos se revela pela atenção e pelo contato estreito com os escultores, pintores de vidro, entalhadores e outros. Era ele, o arquiteto, que os contratava e supervisionava pessoalmente, transmitia os projetos e o programa iconográfico.

O abade de Saint Denis considerou que a decoração era necessária por contribuir para a doutrina e participar do ritual. No exterior da catedral, as imagens nas portas e nas fachadas exerciam uma função pedagógica. As decorações podiam manifestar as hierarquias, divisões internas e polaridades do lugar da igreja. No espaço arquitetônico, as imagens se espalhavam, estruturando o espaço interior. Entretanto, ao meu ver, a distribuição das imagens não é tão aleatória. A relação de uma imagem, ou mesmo de um conjunto de imagens ao ritual, pode possuir um significado. É o caso principalmente das imagens do altar e mesmo dos nichos que se encontram nas laterais, na porta e no tímpano.

O crescimento das cidades, movido pela economia dos mercadores e do comércio, favoreceu a concentração das principais atividades urbanas na catedral, que era ao mesmo tempo escola e centro da urbes. Não importa se os arquitetos do gótico não tenham lido Gilberto de La Porree ou Tomás de Aquino no original, conforme considerou Panofsky. O que importa é que de qualquer forma, entraram em contato com o ideário escolástico por outros escolásticos e pela circulação das ideias. É possível que nem tenham percebido que, por força de sua atividade, tinham de trabalhar com quem esboçava os programas litúrgicos e iconográficos, isto é a própria Igreja.

De acordo com George Duby,

“A catedral gótica nasceu destinada a ser magnífica, por que é a morada de Deus, porque é o símbolo dos poderes espiritual e temporal. Para que a igreja do bispo fosse o coração da cidade e não uma cidadela fechada, reservada a clérigos. Os programas e os custos foram pensados, a racionalização do trabalho concebeu que os espaços litúrgicos fossem rapidamente abertos aos ofícios e ao curso anual das festividades e que o fluxo de rendimentos que os acompanha não sofresse interrupções”.

É neste contexto, que se inserem os Tratados de liturgia. No século XIII, o arcebispo de Mende, Guillaume Durand (cerca de 1230-1296), redigiu um dos mais importantes tratados de liturgia da Idade Média de que se tem notícia: O Rationale Divinorum Officiorum (Análise racional do serviço divino). A obra está inserida na longa tradição de interpretação alegórica da liturgia. O manuscrito que se encontra na BNF (Paris) possui oito livros que tratam da igreja, da hierarquia clerical, do vestuário litúrgico, da missa, do ofício divino, dos ofícios do domingo, das festas, dos santos e das finanças. Ou seja, repete várias passagens de outros tratados litúrgicos (conforme referência acima). Sua repercussão foi excepcional para a época: As fontes indicam mais de 200 manuscritos que datam da Idade Média. Para que se tenha uma ideia da importância do Tratado, em 1457 ele foi um dos primeiros manuscritos a ser impresso em Mogúncia, no mesmo ateliê onde dois anos antes foi impressa a Bíblia de Gutenberg. Quase um século mais tarde, o Tratado de Durand se mantinha atual, a tal ponto, que o rei Carlos V, em 1374, encomendou a Jean Golein a sua tradução para o francês. O códice foi iluminado à altura de um rei. As iluminuras revelam a riqueza dos materiais que percorrem os fólios do manuscrito, embelezando-o no sentido caro aos medievais.

Na abertura do texto traduzido, uma grande iluminura, com motivos vegetais de estilo italiano, enquadra o manuscrito, representando o momento em que Durand entrega o manuscrito ao rei Carlos V em 1374, de acordo com o prólogo (f. 1-2v); os fólios 28-34 se referem ao Tratado do Sagrado, definindo que sagradas são “todas as coisas que pertencem ao divino ofício, tanto ornamentos como quaisquer outras coisas”, confirmando o abade Suger.

Os sete livros do tratado dão uma ideia da obra. Tratam dos lugares, dos ornamentos, da consagração e dos sacramentos. Voltam-se inicialmente para o próprio edifício, sua arquitetura, que deve ter como função a rememoração da vida e da morte de Cristo. Ou seja, é aí, na arquitetura, que o cerimonial ganha a materialidade que está na própria pedra, seguindo a rigor o tratado litúrgico. Tanto a construção como as esculturas obedecem ao tratado. Não se trata de um edifício comum, mas de um edifício sagrado, onde se celebram vários rituais. A catedral recebe a todos. Inclusive o Rei. Por isso, é possível dizer que na catedral gótica se reúnem os dois poderes: o espiritual e o temporal.

O exame cuidadoso da planta interna de uma catedral, independente do seu estilo, evidencia um plano que revela o itinerário a ser percorrido, onde os personagens repetirão os mesmos gestos, as mesmas palavras e ao som da música instrumental e dos hinos realizam sempre a mesma performance. O figurino dos sacerdotes faz parte do ritual que é celebrado. A igreja todavia não é apenas uma arena teatral. É concebida como um locus, uma Terra sancta. Isto significa que ela é consagrada, tornando-se apta a realizar todos os demais sacramentos. A planta é em cruz romana orientada para o Ocidente. Nela estão localizados os lugares dos participantes e o seu ponto mais importante, o altar. É dentro deste pensamento que a arquitetura realiza uma das funções da igreja. Mas não é a única. Não podemos esquecer que os moradores da cidade não entravam nas catedrais apenas para rezar. No interior, da igreja monumental, construída com as suas doações (conforme salientamos acima), reuniam-se também, para outras atividades. A catedral dominava a cidade, era a própria cidade, a casa de todos.

As formas românicas ou góticas não produziam sobre os medievais o mesmo sentimento estético que podem provocar em qualquer um de nós, independente da crença religiosa, ou mesmo da ausência de fé. Para os homens e as mulheres da Idade Média, aquele edifício, possuía uma função importante, central na cidade. Isto porque para essas pessoas, o invisível possuía a mesma realidade do visível. Para elas, a vida não terminava com a morte. Elas acreditavam na eternidade. A relação visível e invisível, vida e morte era lembrada logo na entrada da igreja. As igrejas dos séculos XII e XIII trazem, ocupando todo o pórtico, esculturas em relevo que reproduziam a cena do juízo final (onde todos compareceriam, incluindo o clero, a realeza e a aristocracia). Na pedra o Cristo em majestade julgava os mortos, enquanto anjos e demônios realizavam uma triagem tomando cada um a parte das almas que lhes cabia. Ao lado, a Virgem Maria advogava a causa dos justos.

Outros temas bastante divulgados são o do Apocalipse, Pentecostes e o da Ascenção.

O pórtico possuía um valor simbólico extraordinário na medida em que constituía uma área de fronteira entre o sagrado e o profano. O simbolismo da porta representa a palavra do próprio Cristo. Em um sermão, Agostinho afirmou: “Cristo é a porta”, repetindo as palavras ditas por Jesus (Eu sou a porta). Nessa entrada, o profano e o sagrado ora se enfrentavam, ora buscavam a conciliação. Aí também, o mesmo discurso litúrgico que ditava regras para a arquitetura, separando territórios no interior, traçando itinerários para os peregrinos, promovia também cerimônias religiosas que possuíam um papel social importante. Na porta da catedral, realizavam-se procissões e demais festas determinadas pelo calendário litúrgico, tal como os domingos de ramos e da Páscoa. Aí também ocorrem importantes encenações como a da paixão. O discurso litúrgico tem, portanto, papel fundamental na sintetização das artes. É este discurso que subsidia e dita as regras. Ë segundo as suas determinações que se constrói, se esculpe e se pinta o cenário em que se fala, se cala, se canta, se senta e se levanta. Os tratados litúrgicos mencionam também os rituais internos, que se processam no interior da catedral em lugar determinado, tais como batizados e ofício dos mortos.

Contrariamente ao que se costuma pensar, os medievais não se sentiam pertencendo a um mundo de trevas. Os homens e as mulheres da Idade Média acreditavam que Deus é luz. A vivacidade da luz obtida com o vitral da catedral gótica, que já existia no românico, foi prolongada até a abóboda. A construção da catedral submetida à luz repousa na tradição de um discurso de longa duração, no qual se destacam nomes como o de Suger, mas, bem anteriormente, o do Pseudo Dionísio. As rosáceas são próprias à arquitetura gótica. São três rosáceas em Notre Dame que fazem com que o altar fique cada vez mais iluminado à medida que a pessoa se aproxima. São construídas com vitrais, o que produz um efeito especial na luz.

Simbolicamente, pode significar a caminhada do fiel em direção à luz.

Finalmente, a música e o jogo de luz e cores promovido pelos vitrais interagiam no cenário propiciando o desenvolvimento da performance, de acordo com o discurso do evangelho que determina os movimentos e os gestos do ou dos celebrantes e da plateia. – Vários historiadores da arte, entre eles Jean Claude Bonne, fazem referência à performance que compõe o ritual cristão.

Dois relicários de marfim provenientes respectivamente de Cambrigde e de Frankfurt, datados do século IX, e que se encontram atualmente no museu do Vaticano, representam o momento da celebração de uma missa, termo específico utilizado apenas pelos católicos. A missa é um ofício litúrgico no decorrer do qual os indivíduos presentes atualizam a última ceia que antecedeu a crucificação de Jesus. O ritual se divide em duas partes, como vimos nas representações dos relicários: primeiro, a liturgia da palavra: Isto é a leitura dos textos bíblicos, o sermão, as preces de suplicação e os cantos que também podem ser recitados; a segunda parte é composta pela liturgia da eucaristia que começa pela oferenda do pão e do vinho e, em seguida, pela consagração de ambos e repartição entre os presentes. Isto é a comunhão precedida pela prece do Agnus Dei (Cordeiro de Deus). A cerimônia é concluída pela formula Ite missa est (A missa é dita).

Na primeira parte da liturgia da palavra, o Livro, o evangelho representa a palavra de Deus. No códice, seguidamente em tamanho A4, os fólios em pergaminho iluminados são costurados à mão. A capa pode ser em madeira, marfim e prata; em ouro, com o uso ou não de pedras preciosas e esmaltes.

Em tal cenário, o altar possui um papel essencial. Sobre ele, um conjunto de objetos – cálice, patena, evangelho – adquirem no momento apropriado a sua função. O altar do cristianismo está ligado à tradição judaica do sacrifício de um cordeiro no período da Páscoa. O cristianismo serviu-se de tal tradição em muitos aspectos, legitimando a vinda do Salvador ao mundo dos homens. A importância do altar é enfatizada pelo Antigo Testamento, no Gênese (Abraão Gn 12,7 e Jacó Gn. 12,7) no Exodus (Moisés Ex 20,24) e no Livro de Esdras ( Esd 3,2-3). O altar do Antigo Testamento é construído de pedra. Com a expansão do cristianismo, fiel a tradição judaica, a pedra se tornou por excelência, o material do altar. A palavra altar está vinculada a montanha – lugar sagrado de muitas crenças – lugar alto, onde ocorre a manifestação do sagrado (a teofania).

No interior da igreja, o altar une a palavra à eucaristia, referenciando-se a mesa da Páscoa. O altar é, portanto, o palco principal do drama cristão. Nele são feitas as narrativas e é atualizada uma das cenas mais importantes da história cristã.

Autora: Maria Eurydice de Barros Ribeiro

Fonte: Revista Estética e Semiótica / Volume 7 / Número 2

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A questão da liberdade em Rousseau: Nascemos livres, mas vivemos presos na sociedade?

liberdade em rousseau: nascemos livres, mas vivemos presos na sociedade?

Você já parou para pensar (e constatar) que tudo que está à sua volta foi, de certa forma, imposto a você? Ao nascer, ninguém lhe perguntou se você concordava ou não com o modo com que a sociedade dirige seus negócios, suas relações políticas ou mesmo elabora suas leis. Ao nascer, você foi bombardeado com obrigações, com um mundo já previamente pronto e seu nascimento de nada influenciaria o ritmo dessa sociedade. Você teve que aceitar o fato de que mesmo tendo alguns poucos dias de vida e não concordando com o regime político vigente (levando-se em consideração que, enquanto bebê, você já pudesse ter essa consciência), ele não mudaria só porque era sua vontade. Mesmo que chorasse com toda a força de seus pulmões as coisas continuariam como estavam.

Isso também acontece com a tecnologia. Não sabemos como funciona nosso celular ou tablet. Na verdade, para a maioria das pessoas não importa como um mecanismo pode se comunicar a uma rede mundial de informações sem nem mesmo precisar de fios. Não queremos saber dos detalhes, mas nos achamos verdadeiros homens das cavernas quando não encontramos sinal para o celular ou quando a internet está lenta devido a algum problema técnico ou mesmo por causa do mal tempo, já que a umidade e as descargas elétricas presentes na atmosfera podem distorcer o sinal, que é transmitido por ondas.

Já nascemos num mundo pronto e até você ganhar certo grau de determinação e consciência pouca coisa poderá ser mudada através de suas atitudes, ainda que em um espaço limitado de abrangência, restrito ao seu convívio social. As mudanças ocorrem sim, mas o que a história da humanidade nos mostra é que os movimentos revolucionários são frutos de anos de lutas e conquistas, galgadas por pessoas que possuíam o mesmo ideal, que não desistiram devido ao fato do mundo já estar pronto quando nasceram. Esses homens queriam mudar as coisas, alterar o que, até então, parecia ser o certo a ser feito (e não poderia ser alterado), mas que, muitas vezes, favorecia o interesse de uma pequena parcela de pessoas, em detrimento da condição de vida de uma grande parcela de indivíduos, que viviam na miserabilidade.

Sobre o fato das leis já existirem quando nascemos e que elas são colocadas a nós de forma obrigatória, a isso dá-se o nome de “heteronomia”. É uma característica da lei, que impõe ao destinatário o seu cumprimento, independentemente da vontade do indivíduo. Pouco importa se você concorda ou não com o fato de uma prática ser considerada crime ou se acha injusto pagar tributo para o governo. Se não obedecer a lei (no primeiro caso, o deixar de fazer, e, no segundo, o dever de efetuar o pagamento) você sofrerá as penalidades cabíveis.

A heteronomia funciona como um processo de interiorização do dever da lei. Inicialmente, os indivíduos obedecem à lei por medo do castigo, por não quererem sofrer as penalidades. Depois de certo tempo, esses indivíduos passam a perceber que o cumprimento da lei trará benefícios para a coletividade. Nesse sentido, a vontade individual dá lugar ao que é bom para todos. Passa-se de um estado egoísta para uma consciência baseada nos princípios e valores morais que justificam a aplicação da lei e sua devida aceitação pelas pessoas.

Assim, mesmo que, inicialmente, o cumprimento da lei cause estranheza, o segundo patamar, o da aceitação, reflete que, ainda que um indivíduo ache injusto pagar imposto ao governo, este passa a refletir que se ninguém pagasse imposto não seria possível o Estado por em prática as políticas necessárias para a melhoria da qualidade de vida da população.

Agora, a reflexão e o questionamento se esses impostos são abusivos e/ou não estão tento a destinação correta é uma correta linha de pensamento, que passa a assimilar o teor da lei, que não é beneficiar um seleto grupo de pessoas (como políticos e empresários corruptos ou a elite da sociedade), mas que o fim último da lei é a segurança jurídica, que inclui o conceito de qualidade de vida para todos os cidadãos.

Será que podemos relacionar a heteronomia a um tipo de prisão ou cerceamento de vontade? Para Jean-Jacques Rousseau, importante filósofo, escritor, teórico político e compositor suíço, notável influenciador dos ideais iluministas, o homem se encontra preso. É dele a frase “O homem nasce livre, e, em toda parte, encontra-se acorrentado”.

Mas a qual homem Rousseau estava se referindo? Ele se referia ao homem do século XVIII. A questão da heteronomia pode ser abordada aqui em função de a sociedade daquela época ter aceitado um fato que causa horror e repúdio em nossos dias: homens que nasceram livres sendo escravizados por outros homens. Não somente uma escravidão pela etnia (como ainda ocorria na época), mas pelo trabalho e pelas regras impostas pela própria sociedade.

Rousseau teve vários de seus livros banidos pela Igreja Católica por apresentarem conceitos religiosos pouco convencionais, como a ideia de que a verdadeira religião vinha do coração e que as cerimônias e liturgias não eram importantes. Mas foram as ideias políticas que lhe trouxeram grandes problemas e perseguição.

A ideia de que o homem é livre ao nascer, mas se encontra preso na sociedade, presente na sua obra “O contrato social”, publicado em 1762, questiona a causa dos indivíduos viverem sob o julgo da sociedade ao abandonarem o “estado de natureza”, onde se encontravam livres e iguais.

Não é difícil entender o porquê das ideias de Rousseau terem tido grande reverberação nos movimentos revolucionários. Rousseau se tornou um grande inspirador do movimento iluminista francês, que desejava quebrar as correntes que a classe rica havia imposto à população pobre. Pessoas morriam de fome enquanto a classe rica gozava de uma vida de luxo as custas do trabalho dos pobres.

É pouco provável que Rousseau, que faleceu quase uma década antes da Revolução Francesa vir à tona, concordasse com as atrocidades que foram praticadas pelos líderes do movimento. Na verdade, para o filósofo suíço, o homem é naturalmente bom e, provavelmente, viveríamos num certo grau de reciprocidade amigável se vivêssemos numa floresta à base dos nossos próprios recursos. É o que ele chama de “estado de natureza”, bastando sermos realocamos para um ambiente como as cidades para que tudo comece a dar errado.

Fora do estado de natureza, o homem busca, a todo custo, dominar os outros e ser o centro da atenção dos demais indivíduos. Por viver em sociedade, sentimentos como ganância e inveja e o desejo de manipular os outros invadem o ser humano. Na natureza, os homens seriam fortes, saudáveis e livres, mas a civilização corrompe o homem.

Em sua obra, Rousseau desejou encontrar uma solução para que as pessoas vivessem juntas e fossem livres da mesma forma que seriam na natureza, ao passo que também obedeceriam às leis impostas pelo Estado. Impossível ou não e ainda que a ideia de liberdade não comungue com as regras da sociedade, que são como verdadeiras correntes que impedem os homens de fazerem o que bem intenderem, Rousseau apontou uma saída: a vontade geral.

Assim como a heteronomia parte de um pensamento e um querer egoísta e evolui para a assimilação do bem maior (para o que seja melhor para a coletividade), a vontade geral propõe que os indivíduos devem abrir mão de muitas liberdades individuais em prol da comunidade. Nesse sentido, deve haver leis que restrinjam o comportamento das pessoas.

Para Rousseau, as ideias de liberdade e obediência às leis estatais se complementavam. Quando os indivíduos agrupam-se em sociedade, acabam por formar um tipo de pessoa, em que cada cidadão faz parte de um todo bem maior em relação à individualidade de cada um. Para o filósofo, as pessoas seriam livres na sociedade quando estivessem sob o julgo de leis que, verdadeiramente, refletissem a vontade geral, a vontade desse corpo formado pelos cidadãos, e não a leis que beneficiassem somente uma parcela da coletividade.

Nesse contexto, o legislador teria a função de criar um sistema que permitisse que os indivíduos se mantivessem livres de acordo com a vontade geral, ao invés de buscarem suas próprias realizações as custas da perda da liberdade de outros. A verdadeira liberdade, para Rousseau, seria viver num grupo de cidadãos que procuram agir de acordo com o interesse da coletividade, em que os desejos pessoais convergissem para o que fosse melhor para todos e que as leis evitassem que pessoas agissem de forma egoísta.

E para os que não desejassem seguir o “contrato”? Eles seriam forçados a isso! Seriam forçados a serem livres! Parece contraditório, mas para Rousseau não era. O indivíduo é forçado a ser livre quando é livre de sua própria vontade mesquinha e egoísta, quando é levado a pensar no que é melhor para todos, pois, já que vivemos em sociedade, se cada um pensar somente em si o resultado será o extermínio das relações e instituições sociais tal como conhecemos.

Assim, tal como a ideia de heteronomia, a ideia de vontade geral pressupõe a assimilação de que os homens, para viverem em sociedade, devem aceitar as regras que lhe são impostas. Em contrapartida, essas leis devem refletir o anseio do Estado em praticar o que é melhor para todos. Quando as leis representam ou favorecem a um grupo restrito de pessoas, é aceitável que a própria sociedade, como um único corpo, admita movimentos revolucionários que objetivam resgatar o ideal de bem comum e segurança jurídica para todos, tal qual anticorpos combatem um corpo estranho presente no organismo que deseja alterar o estado normal de funcionamento do corpo humano.

Autor: Francisco Renato Silva Collyer

Francisco é Mestre em Direito Constitucional pela Faculdade de Direito do Sul de Minas. Especialista em Direito Público, Ciência Política, Direito Ambiental e Educação Ambiental. Graduado em Direito e Sociologia. Possui cursos de formação complementar nas áreas de Direito, Filosofia, Sociologia, Ética, Meio Ambiente e Gestão. Professor nas áreas de Direito (com ênfase em Direito Empresarial, Tributário e Administrativo), Logística e Ética Profissional.

Fonte: jus.com.br

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Discurso sobre a servidão voluntária

Servidão voluntária e tirania no poder – CAOS FILOSÓFICO

Palavras iniciais

Étienne de La Boétie morreu aos 33 anos de idade, em 1563. Deixou sonetos, traduções de Xenofonte e Plutarco e o Discurso Sobre a Servidão Voluntária, o primeiro e um dos mais vibrantes hinos à liberdade dentre os que já se escreveram.

Toda a sua obra ficou como legado ao filósofo Montaigne (1533 – 1592), seu amigo pessoal que, diante de uma primeira publicação — pirata — do Discurso em 1571, viu-se obrigado a se pronunciar a respeito da Obra, que procura minimizar em seus efeitos apodando-lhe o epíteto de “obra de infância” e “mero exercício intelectual”. Montaigne, com todo o seu inegável brilho intelectual, era um Homem do Estado e disso não escapava.

Entre muitos pontos importantes e relevantes do Discurso em si, ressalta-se:

  • O poder que um só homem exerce sobre os outros é ilegítimo.
  • A preferência pela república em detrimento da monarquia.
  • As crenças religiosas são frequentemente usadas pelas monarquias para manter o povo sob sujeição e jugo.
  • Étienne de La Boétie afirma no Discurso a liberdade e a igualdade de todos os homens na dimensão política.
  • Evidencia, pela primeira vez na história, a força da opinião pública.
  • Repele todas as formas de demagogia.
  • Incursionando pioneiramente pelo que mais tarde ficará conhecido como psicologia de massas, informa da irracionalidade da servidão, desde o título provocativo da Obra, indicada como uma espécie de vício, de doença coletiva.

O Discurso, que no século XVI Montaigne considerava difícil prefaciar, hoje em dia é ainda tristemente atual.

O ser humano encontra-se em amarras auto-infligidas por toda a parte. Como dizia Manuel J. Gomes, importante tradutor de La Boétie para o português:

“Se em 1600 era tarefa difícil escrever um prefácio a La Boétie, hoje não é mais fácil. Hoje como nos tempos de La Boétie e Montaigne, a alienação é demasiado doce (como um refrigerante) e a liberdade demasiado amarga, porque está demasiado próxima da solidão. E da loucura.”

LCC Publicações Eletrônicas– verão de 2004


Discurso sobre a servidão voluntária

Muita gente a mandar não me parece bem;
Um só chefe, um só rei, é o que mais nos convém.

Assim proclamava publicamente Ulisses em Homero [Homero, Ilíada, cap. II]. Teria toda a razão se tivesse dito apenas:

Muita gente a mandar não me parece bem.

Deveria, para ser mais claro, ter explicado que o domínio de muitos nunca poderia ser boa coisa pela razão de o domínio de um só que usurpe o título de soberano ser já assaz duro e pouco razoável; em vez disso, porém, acrescentou:

Um só chefe, um só rei, é o que mais nos convém.

Uma única desculpa terá Ulisses e é a necessidade que teve de recorrer a tais palavras para apaziguar as tropas amotinadas, adaptando (julgo) o discurso às circunstâncias mais do que à verdade.

Vistas bem as coisas, não há infelicidade maior do que estar sujeito a um chefe; nunca se pode confiar na bondade dele e só dele depende o ser mau quando assim lhe aprouver.

Ter vários amos é ter outros tantos motivos para se ser extremamente desgraçado.

Não quero por enquanto levantar o discutidíssimo problema de saber se as outras formas de governar a coisa pública são melhores do que a monarquia. A minha intenção é antes interrogar-me sobre o lugar que à monarquia cabe, se algum lhe cabe, entre as mais formas de governar. Porque não é fácil admitir que o governo de um só tenha a preocupação da coisa pública.

É melhor, todavia, que esse problema seja discutido separadamente, em tratado próprio, pois é daqueles que traz consigo toda a casta de disputas políticas.

Quero para já, se possível, esclarecer tão-somente o fato de tantos homens, tantas vilas, cidades e nações suportarem às vezes um tirano que não tem outro poder de prejudicá-los enquanto eles quiserem suportá-lo; que só lhes pode fazer mal enquanto eles preferem aguentá-lo a contrariá-lo.

Digno de espanto, se bem que vulgaríssimo, e tão doloroso quanto impressionante, é ver milhões de homens a servir, miseravelmente curvados ao peso do jugo, esmagados não por uma força muito grande, mas aparentemente dominados e encantados apenas pelo nome de um só homem cujo poder não deveria assustá-los, visto que é um só, e cujas qualidades não deveriam prezar porque os trata desumana e cruelmente.

Tal é a fraqueza humana: temos frequentemente de nos curvar perante a força, somos obrigados a contemporizar, não podemos ser sempre os mais fortes.

Se, portanto, uma nação é pela força da guerra obrigada a servir a um só, como a cidade de Atenas aos trinta tiranos, não nos espanta que ela se submeta; devemos antes lamentá-la; ou então, não nos espantarmos nem lamentarmos mas sofrermos com paciência e esperarmos que o futuro traga dias mais felizes.

Está na nossa natureza o deixarmos que os deveres da amizade ocupem boa parte da nossa vida. É justo amarmos a virtude, estimarmos as boas ações, ficarmos gratos aos que fazem o bem, renunciarmos a certas comodidades para melhor honrarmos e favorecermos aqueles a quem amamos e que o merecem. Assim também, quando os habitantes de um país encontram uma personagem notável que dê provas de ter sido previdente a governá-los, arrojado a defendê-los e cuidadoso a guiá-los, passam a obedecer-lhe em tudo e a conceder-lhe certas prerrogativas; é uma prática reprovável, porque vão acabar por afastá-lo da prática do bem e empurrá-lo para o mal. Mas em tais casos julga-se que poderá vir sempre bem e nunca mal de quem um dia nos fez bem.

Mas o que vem a ser isto, afinal?

Que nome se deve dar a esta desgraça? Que vício, que triste vício é este: um número infinito de pessoas não a obedecer, mas a servir, não governadas mas tiranizadas, sem bens, sem pais, sem vida a que possam chamar sua? Suportar a pilhagem, as luxúrias, as crueldades, não de um exército, não de uma horda de bárbaros, contra os quais dariam o sangue e a vida, mas de um só? Não de um Hércules ou de um Sansão, mas de um só indivíduo, que muitas vezes é o mais covarde e mulherengo de toda a nação, acostumado não tanto à poeira das batalhas como à areia dos torneios, menos dotado para comandar homens do que para ser escravo de mulheres?

Chamaremos a isto covardia? Temos o direito de afirmar que todos os que assim servem são uns míseros covardes?

É estranho que dois, três ou quatro se deixem esmagar por um só, mas é possível; poderão dar a desculpa de lhes ter faltado o ânimo. Mas quando vemos cem ou mil submissos a um só, não podemos dizer que não querem ou que não se atrevem a desafiá-lo.

Como não é covardia, poderá ser desprezo, poderá ser desdém? Quando vemos não já cem, não já mil homens, mas cem países, mil cidades e um milhão de homens submeterem-se a um só, todos eles servos e escravos, mesmo os mais favorecidos, que nome é que isto merece? Covardia?

Ora, todos os vícios têm naturalmente um limite além do qual não podem passar. Dois podem ter medo de um, ou até mesmo dez; mas se mil homens, se um milhão deles, se mil cidades não se defendem de um só, não pode ser por covardia.

A covardia não vai tão longe, da mesma forma que a valentia também tem os seus limites: um só não escala uma fortaleza, não defronta um exército, não conquista um reino.

Que vício monstruoso então é este que sequer merece o nome vil de covardia? Que a natureza nega ter criado, a que a língua se recusa nomear?

Disponham-se de um lado cinquenta homens armados e outros tantos de outro lado; ponham-se em ordem de batalha, prontos para o combate, sendo uns livres e lutando pela liberdade, enquanto os outros tentam arrebatá-la dos primeiros: a quais deles, por conjectura, se atribui a vitória? Quais deles irão para a luta com maior entusiasmo: os que, em recompensa deste trabalho receberão o prêmio de conservar a liberdade ou os que, dos golpes que derem ou receberem, esperam tão-somente a servidão?

Os primeiros têm constantemente diante dos olhos a felicidade de sua vida passada, a esperança de no porvir a poderem conservar. Preocupa-os menos o que têm de sofrer no decurso da batalha do que tudo o que vão ter de suportar eles, os filhos e toda a posteridade. Os outros nada têm que os anime, a não ser um pouco de cobiça que é insuficiente para protegê-los do perigo e tão pouco ardente que não tardará a extinguir-se logo que derramem as primeiras gotas de sangue.

Nas muito famosas batalhas de Milcíades, Leônidas e Temístocles, travadas há já dois mil anos e que permanecem tão frescas na memória dos livros e dos homens como se tivessem acontecido ontem, nessas batalhas travadas na Grécia para bem da Grécia e exemplo do mundo inteiro, donde terá vindo aos gregos escassos não digo o poder mas o ânimo para se oporem à força de navios tão numerosos que mal cabiam no mar? E para desbaratarem nações tão numerosas que em toda a armada grega não se achariam soldados que chegassem para preencherem, se tal fosse mister, os postos de comandantes desses navios?

É que, em boa verdade, o que estava em causa nesses dias gloriosos não era tanto a luta entre gregos e persas como a vitória da liberdade sobre a dominação, da razão sobre a cupidez.

Quantos prodígios temos ouvido contar sobre a valentia que a liberdade põe no coração dos que a defendem!

Mas o que acontece afinal em todos os países, com todos os homens, todos os dias?

Quem, só de ouvir contar, sem o ter visto, acreditaria que um único homem tenha logrado esmagar mil cidades, privando-as da liberdade?

Se casos tais acontecessem apenas em países remotos e outros no-los contassem, quem não diria que era tudo invenção e impostura?

Ora, o mais espantoso é sabermos que nem sequer é preciso combater esse tirano, não é preciso defendermos-nos dele.

Ele será destruído no dia em que o país se recuse a servi-lo.

Não é necessário tirar-lhe nada, basta que ninguém lhe dê coisa alguma.

Não é preciso que o país faça coisa alguma em favor de si próprio, basta que não faça nada contra si próprio.

São, pois, os povos que se deixam oprimir, que tudo fazem para serem esmagados, pois deixariam de ser no dia em que deixassem de servir.

É o povo que se escraviza, que se decapita, que, podendo escolher entre ser livre e ser escravo, se decide pela falta de liberdade e prefere o jugo, é ele que aceita o seu mal, que o procura por todos os meios.

Se fosse difícil recuperar a liberdade perdida, eu não insistiria mais; haverá coisa que o homem deva desejar com mais ardor do que o retorno à sua condição natural, deixar, digamos, a condição de alimária e voltar a ser homem?

Mas não é essa ousadia o que eu exijo dele; limito-me a não lhe permitir que ele prefira não sei que segurança a uma vida livre.

Que mais é preciso para possuir a liberdade do que simplesmente desejá-la?

Se basta um ato de vontade, se basta desejá-la, que nação há que a considere assim tão difícil?

Como pode alguém, por falta de querer, perder um bem que deveria ser resgatado a preço de sangue? Um bem que, uma vez perdido, torna, para as pessoas honradas, a vida aborrecida e a morte salutar?

Veja-se como, ateado por pequena fagulha, acende-se o fogo, que cresce cada vez mais e, quanto mais lenha encontra, tanta mais consome; e como, sem se lhe despejar água, deixando apenas de lhe fornecer lenha a consumir, a si próprio se consome, perde a forma e deixa de ser fogo.

Assim são os tiranos: quanto mais eles roubam, saqueiam, exigem, quanto mais arruínam e destroem, quanto mais se lhes der e mais serviços se lhes prestarem, mais eles se fortalecem e se robustecem até aniquilarem e destruírem tudo. Se nada se lhes der, se não se lhe obedecer, eles, sem ser preciso luta ou combate, acabarão por ficar nus, pobres e sem nada; da mesma forma que a raiz, sem umidade e alimento, se torna ramo seco e morto.

Os audazes, para que obtenham o que procuram, não receiam perigo algum, os avisados não recusam passar por problemas e privações. Os covardes e os preguiçosos não sabem suportar os males nem recuperar o bem. Deixam de desejá-lo e a força para o conseguirem lhes é tirada pela covardia, mas é natural que neles fique o desejo de o alcançarem. Esse desejo, essa vontade, são comuns aos sábios e aos indiscretos, aos corajosos e aos covardes; todos eles, ao atingirem o desejado, ficam felizes e contentes.

Numa só coisa, estranhamente, a natureza se recusa a dar aos homens um desejo forte. Trata-se da liberdade, um bem tão grande e tão aprazível que, perdida ela, não há mal que não sobrevenha e até os próprios bens que lhe sobrevivam perdem todo o seu gosto e sabor, corrompidos pela servidão.

A liberdade é a única coisa que os homens não desejam; e isso por nenhuma outra razão (julgo eu) senão a de que lhes basta desejá-la para a possuírem; como se recusassem conquistá-la por ela ser tão simples de obter.

Gentes miserandas, povos insensatos, nações apegadas ao mal e cegas para o bem!

Assim deixais que vos arrebatem a maior e melhor parte das vossas riquezas, que devastem os vossos campos, roubem as vossas casas e vo-las despojem até das antigas mobílias herdadas dos vossos pais!

A vida que levais é tal que (podeis afirmá-lo) nada tendes de vosso.

Mas parece que vos sentis felizes por serdes senhores apenas de metade dos vossos haveres, das vossas famílias e das vossas vidas; e todo esse estrago, essa desgraça, essa ruína provêm afinal não dos seus inimigos, mas de um só inimigo, daquele mesmo cuja grandeza lhe é dada só por vós, por amor de quem marchais corajosamente para a guerra, por cuja grandeza não recusais entregar à morte as vossas próprias pessoas.

Esse que tanto vos humilha tem só dois olhos e duas mãos, tem um só corpo e nada possui que o mais ínfimo entre os ínfimos habitantes das vossas cidades não possua também; uma só coisa ele tem mais do que vós e é o poder de vos destruir, poder que vós lhe concedestes.

Onde iria ele buscar os olhos com que vos espia se vós não lhos désseis?

Onde teria ele mãos para vos bater se não tivesse as vossas?

Os pés com que ele esmaga as vossas cidades de quem são senão vossos?

Que poder tem ele sobre vós que de vós não venha?

Como ousaria ele perseguir-vos sem a vossa própria conivência?

Que poderia ele fazer se vós não fôsseis encobridores daquele que vos rouba, cúmplices do assassino que vos mata e traidores de vós mesmos?

Semeais os vossos frutos para ele pouco depois calcar aos pés. Recheais e mobiliais as vossas casas para ele vir saqueá-las, criais as vossas filhas para que ele tenha em quem cevar sua luxúria.

Criais filhos a fim de que ele, quando lhe apetecer, venha recrutá-los para a guerra e conduzi-los ao matadouro, fazer deles acólitos da sua cupidez e executores das suas vinganças.

Matai-vos a trabalhar para que ele possa regalar-se e refestelar-se em prazeres vis e imundos.

Enquanto vós definhais, ele vai ficando mais forte, para mais facilmente poder refrear-vos.

E de todas as ditas indignidades que os próprios brutos, se as sentissem, não suportariam, de todas podeis libertar-vos, se tentardes não digo libertar-vos, mas apenas querer fazê-lo.

Tomai a resolução de não mais servirdes e sereis livres. Não vos peço que o empurreis ou o derrubeis, mas somente que o não apoieis: não tardareis a ver como, qual Colosso descomunal, a que se tire a base, cairá por terra e se quebrará.

Os médicos aconselham a não se tocar com a mão nas chagas incuráveis; não é, pois, sensato que eu dê conselhos a um povo que há muito perdeu a consciência e cuja doença, uma vez que ele já não sente dor, é evidentemente mortal. Temos, antes, de procurar saber como esse desejo teimoso de servir se foi enraizando a ponto de o amor à liberdade parecer coisa pouco natural.

Antes demais, eu creio firmemente que, se nós vivêssemos de acordo com a natureza e com os seus ensinamentos, seríamos naturalmente obedientes ao país, submissos à razão e de ninguém escravos.

Todos os homens, por si próprios, sem outro conselho que não seja o da natureza, guardam obediência ao pai e à mãe; quanto à razão, discutem muito os acadêmicos e todas as escolas filosóficas se ela nasce ou não conosco.

De momento penso não errar se crer que há na nossa alma uma semente natural de razão, a qual, se cultivada com bons conselhos e bons costumes, floresce em virtude; se, pelo contrário, é atacada pelos vícios, morre de asfixia e aborta.

Uma coisa é claríssima na natureza, tão clara que a ninguém é permitido ser cego a tal respeito, e é o fato de a natureza, ministra de Deus e governanta dos homens, nos ter feito todos iguais, com igual forma, aparentemente num mesmo molde, de forma a que todos nos reconhecêssemos como companheiros ou mesmo irmãos.

Ao fazer as partilhas dos dons que nos legou, deu, mais a uns do que a outros, certos dons corporais e espirituais; mas é igualmente certo que não pretendeu pôr-nos neste mundo como em campo fechado, nem deu aos mais fortes e aos mais avisados ordem para, quais salteadores emboscados no mato e armados, dizimarem os mais fracos.

É de crer, isso sim, que, favorecendo alguns e desfavorecendo outros, pretendia dar lugar à fraterna afeição, dar-lhes meios de se manifestar, pois se a uns assiste o poder de ajudar, os outros tinham necessidade de ser ajudados.

Esta boa mãe deu-nos a todos a terra para nela morarmos, albergou-nos a todos numa mesma casa, moldou-nos a todos numa mesma massa, para assim todos podermos mirar-nos e reconhecer-nos uns nos outros; a todos em comum outorgou o grande dom da voz e da palavra para sermos mais amigos e mais irmãos e, pela comum e mútua declaração dos nossos pensamentos, estabelecermos a comunhão de nossas vontades.

E pois ela buscou por todos os meios apertar e estreitar mais fortemente os nós da nossa aliança e sociedade, e por todas as formas mostrou mais desejar ver-nos unidos do que unos, não há dúvida de que somos todos companheiros e ninguém poderá jamais admitir que a natureza, integrando-nos a todos numa sociedade, tenha destinado uns para escravos.

Não importa verdadeiramente discutir se a liberdade é natural, provado que esteja ser a escravidão uma ofensa para quem a sofre e uma injúria à natureza que em tudo quanto faz é razoável.

Não há dúvidas, pois, de que a liberdade é natural e que, pela mesma ordem e de ideias, todos nós nascemos não só senhores da nossa alforria mas também com condições para a defendermos.

Se acaso pusermos isso em dúvida e descermos tão baixo que não sejamos capazes de reconhecer qual o nosso direito e as nossas qualidades naturais, vou ter de vos tratar como mereceis e por os próprios animais a dar-vos lições e a ensinar-vos qual é vossa verdadeira natureza e condição.

Só quem for surdo não ouve o que dizem os animais: viva a liberdade! Muitos deles morrem quando os apanham. Como o peixe que, fora da água, perde a vida, também outros animais se negam a viver sem a liberdade que lhes é natural.

Se os animais estabelecessem entre si quaisquer grandezas e proeminências, fariam (creio firmemente) da liberdade a sua nobreza.

Alguns há que, dos maiores aos menores, ao serem presos, opõem resistência com as garras, os chifres, as patas e o bico, demonstrando assim claramente o quanto prezam a liberdade perdida. E uma vez no cativeiro, dão evidentes sinais do conhecimento que têm da sua desgraça e deixam ver perfeitamente que se sentem mais mortos do que vivos, continuando a viver mais para lamentarem a liberdade perdida do que por lhes agradar a servidão.

O que quer dizer o elefante que, depois de se defender até mais não poder, sentindo-se impotente e prestes a ser apanhado, espeta as presas nas árvores e as quebra, assim mostrando o grande desejo que tem de continuar livre como nasceu?

Assim dá a entender que deseja negociar com os caçadores, dando-lhes os dentes para que o soltem, entregando-lhes o marfim em penhor da liberdade.

Começamos a domesticar o cavalo, desde o momento em que ele nasce, preparamo-lo para nos servir e não podemos glorificar-nos de que, uma vez domado, ele não morde o freio e não se empina quando o esporeamos, como se (assim parece) quisesse mostrar à natureza e testemunhar por essa forma que serve não de boa vontade mas por ser obrigado a servir.

Que dizer perante isto? Que

Até os bois sob o jugo andam gemendo
E na gaiola as aves vão chorando
.

como escrevi no tempo em que versejava à francesa (não receio, escrevendo-te em particular, citar versos meus, coisa que nunca faço; como tens mostrado gostar deles, não me acusarás de ser pretensioso).

Todas as coisas que têm sentimento sentem a dor da sujeição e suspiram pela liberdade; as alimárias, feitas para servirem o homem não são capazes de se habituar à servidão sem protestarem desejos contrários.

A que azar, pois, se deverá que o homem, livre por natureza, tenha perdido a memória da sua condição e o desejo de a ela regressar?

Há três espécies de tiranos. Refiro-me aos maus príncipes. Chegam uns ao poder por eleição do povo, outros por força das armas, outros sucedendo aos da sua raça.

Os que chegam ao poder pelo direito da guerra portam-se como quem pisa terra conquistada.

Os que nascem reis, as mais das vezes, não são melhores; nascidos e criados no sangue da tirania, tratam os povos em quem mandam como se fossem seus servos hereditários; e, consoante a compleição a que são mais atreitos, avaros ou pródigos, assim fazem do reino o que fazem com outra herança qualquer.

Aquele a quem o povo deu o Estado deveria ser mais suportável; e sê-lo-ia a meu ver, se, desde o momento em que se vê colocado em altos postos e tomando o gosto à chamada grandeza, não decidisse ocupá-los para todo o sempre. O que geralmente acontece é tudo fazerem para transmitirem aos filhos o poder que o povo lhes concedeu. E, tão depressa tomam essa decisão, por estranho que pareça, ultrapassam em vício e até em crueldade os outros tiranos; para conservarem a nova tirania, não acham melhor meio do que aumentar a servidão e afastar tanto dos súditos a ideia de liberdade que eles, tendo embora a memória fresca, começam a esquecer-se dela.

Assim, para dizer toda a verdade, encontro entre eles alguma diferença, mas não vejo por onde escolher.

Sendo diversos os modos de alcançar o poder, a forma de reinar é sempre idêntica.

Os eleitos procedem como quem doma touros; os conquistadores como quem se assenhoreia de uma presa a que têm direito; os sucessores como quem lida com escravos naturais.

Se acaso hoje nascesse um povo completamente novo, que não estivesse acostumado à sujeição nem soubesse o que é a liberdade, que ignorasse tudo sobre uma e outra coisa, incluindo os nomes, e se lhe fosse dado a escolher entre o ser sujeito ou o viver a liberdade, qual seria a escolha desse povo?

Não custa a responder que prefeririam obedecer à razão em vez de servirem a um homem; a não ser que se tratasse dos israelitas, os quais, sem ninguém os obrigar e sem necessidade, elegeram um tirano [I Samuel, capítulo 8]; mas nunca leio a história de tal povo sem uma grande decepção e alguma fúria, tanta que quase me alegro por lhe terem acontecido tantas desgraças.

Uma coisa é certa, porém: os homens, enquanto neles houver algo de humano, só se deixam subjugar se foram forçados ou enganados; enganados pelas armas estrangeiras, como Esparta e Atenas pelas forças de Alexandre, ou pelas facções, como aconteceu quando o governo de Atenas caiu nas mãos de Pisístrates. [Pisístrates (600 – 527) foi por três vezes tirano de Atenas. Da primeira vez foi derrubado por Licurgo. Da segunda por Hermódio e Aristogíton. Deve-se, contudo, a Pisístrates a compilação das obras de Homero, como a Ilíada e a Odisseia.]

Muitas vezes perdem a liberdade porque são levados ao engano, não são seduzidos por outrem mas sim enganados por si próprios. Assim, o povo de Siracusa, cidade capital da Sicília, denominada hoje Saragoça [aqui Boétie se equivoca…], apertado pelas guerras, sem olhar a nada a não ser o perigo, elevou ao poder Dionísio Primeiro e entregou-lhe o comando do exército. Tantos poderes lhe foi dando que o velhaco, uma vez vitorioso, como se tivesse triunfado não sobre os inimigos, mas sobre os cidadãos, subiu de capitão a rei e de rei a tirano.

Incrível coisa é ver o povo, uma vez subjugado, cair em tão profundo esquecimento da liberdade que não desperta nem a recupera; antes começa a servir com tanta prontidão e boa vontade que parece ter perdido não a liberdade mas a servidão.

É verdade que, a princípio, serve com constrangimento e pela força; mas os que vêm depois, como não conheceram a liberdade nem sabem o que ela seja, servem sem esforço e fazem de boa mente o que seus antepassados tinham feito por obrigação.

Assim é: os homens nascem sob o jugo, são criados na servidão, sem olharem para lá dela, limitam-se a viver tal como nasceram, nunca pensam ter outro direito nem outro bem senão o que encontraram ao nascer, aceitam como natural o estado que acharam à nascença.

E todavia não há herdeiro tão pródigo e desleixado que uma vez não passe os olhos pelos livros de registros, para ver se goza de todos os direitos hereditários e se não foi esbulhado nos seus direitos, ele ou o seu predecessor.

Mas o costume, que sobre nós exerce um poder considerável, tem uma grande orça de nos ensinar a servir e (tal como de Mitrídates se diz que aos poucos foi se habituando a beber veneno) a engolir tudo até que deixamos de sentir o amargor do veneno da servidão.

Não pode negar-se que a natureza tem força para nos levar aonde ela queira e fazer a nós livres ou escravos; mas importa confessar que ela tem sobre nós menos poder do que o costume e que a natureza, por muito boa que seja, acaba por se perder se não for tratada com os cuidados necessários; e o alimento que comemos transmite-nos muito de seu, faça a natureza o que fizer.

As sementes do bem que a natureza em nós coloca são tão pequenas e inseguras que não aguentam o embate do alimento contrário. Não se mantêm facilmente, estragam-se, desfazem-se, reduzem-se a nada. Como acontece com as árvores de fruto, possuidoras de uma natureza própria que conservarão enquanto as deixarem; mas passarão a ter outra e a dar frutos estranhos, não os delas, a partir do momento em que sejam enxertadas.

As ervas têm cada uma a sua propriedade, a sua natureza e a sua singularidade próprias; mas o frio, o tempo, a terra ou a mão do jardineiro acrescentam-lhe ou tiram-lhe muitas das suas virtudes. Vê-se num sítio uma planta que outro sítio não reconhece.

Vejam-se os venezianos, um punhado de pessoas livres, tanto que até o pior de todos se recusaria a ser rei, nascidos e criados de tal modo que a grande ambição deles é defenderem ciosamente a liberdade de cada um; educados desde o berço nestes princípios, não aceitariam todas as outras felicidades da terra, se para isso tivessem de perder a menor de suas liberdades. Vejam-se os venezianos, repito, e repare-se depois nos que habitam as terras daquele a que chamamos Grão-Senhor, gente que nada mais faz do que servi-lo e que, para o manterem no poder, dão a própria vida.

Diria quem visse uns e outros que possuem todos a mesma natureza?

Não julgaria antes que saíra de uma cidade de homens para entrar num curral de animais? Licurgo, reformador de Esparta, criara (diz-se) dois cães que eram irmãos, alimentados com o mesmo leite, um deles habituado a ficar na cozinha e o outro acostumado a correr pelo campo, ao som da trompa e da corneta; querendo mostrar ao povo lacedemônio que os homens são o que a educação faz de cada um, colocou os dois cães no meio da praça e, no meio deles, uma sopa e uma lebre. Um correu para o prato e o outro para a lebre. Muito embora (disse ele) fossem irmãos.

Lembrarei com prazer um dito dos favoritos de Xerxes, senhor da Pérsia, a respeito dos espartanos.

Quando Xerxes se aparelhava para conquistar a Grécia, mandou embaixadores às cidades gregas, a pedir-lhes água e terra. A Esparta e Atenas não os enviou, porque os enviados de seu pai, Dario que lá tinha ido fazer igual pedido, tinham-nos os espartanos e atenienses lançado em covas e outros em poços, dizendo-lhes que tirassem terra e água à vontade e que fossem levá-la a seu príncipe.

Nenhum daqueles povos tolerava que, sequer por palavras, alguém lhes tocasse na liberdade.

Por assim terem feito, viram os espartanos que tinham incorrido no ódio dos próprios deuses, especialmente no de Taltíbio, deus dos arautos.

Para os apaziguarem, mandaram a Xerxes dois cidadãos, para que fossem à presença dele e ele os tratasse como lhe aprouvesse, tirando assim a desforra dos embaixadores que seu pai enviara e tinham sido mortos. Dois espartanos, um de nome Specto e outro Bulis, ofereceram-se voluntariamente para esta missão.

Foram e, pelo caminho, entraram no palácio de um persa chamado Gidarno, lugar-tenente do rei em todas as cidades do litoral da Ásia. Este os recebeu com muita honraria. E como fossem conversando sobre vários assuntos, perguntou-lhes que motivos tinham para recusarem a amizade do rei.

“Podeis crer, espartanos (dizia-lhes), juro-vos que o rei sabe honrar quem o merece e, se vos tornardes seus súditos, vereis que assim é. Se aceitardes e ele vos conhecer, vereis como será cada um de vós nomeado imediatamente senhor de uma cidade da Grécia.”

Ao que lhe responderam os lacedemônios:

“Ruim conselho é o que nos dás, Gidarno. O bem que nos prometes, já o experimentaste, mas nada sabes do que nós já possuímos; gozas do favor do rei, mas nada sabes da liberdade, do gosto que ela tem, da sua doçura. Se a conhecesses, havias de nos aconselhar a defendê-la, não só com lança e escudo, mas até com unhas e dentes.”

O espartano é que tinha razão; mas um e outro falavam de acordo com o que tinham aprendido.

Não era possível ao persa avaliar a liberdade, pois nunca a tivera, nem ao lacedemônio aceitar a sujeição, depois de ter conhecido o gosto da liberdade.

Catão de Útica, quando era ainda menino de escola, entrava muitas vezes na casa do ditador Sila cujas portas lhe estavam abertas, não só por pertencer a uma família nobre, como até por ser parente próximo de Sila.

Acompanhava-o sempre o preceptor, como era costume entre os filhos de boas famílias.

Deu ele então conta de que em casa de Sila, na presença deste ou por sua ordem, muitos cidadãos eram presos e condenados, eram uns banidos e outros estrangulados, decretava-se a confiscação dos bens e era perdida a cabeça de muitos.

Ou seja, mais parecia o paço do tirano do que a morada do governador da cidade, era menos um tribunal de justiça do que uma espelunca da tirania.

Perguntou o nobre infante ao preceptor:

“Dar-me-eis um punhal? Metê-lo-ei sob a toga e, como entro muitas vezes nos aposentos de Sila, antes de ele acordar, o meu braço há de ter força suficiente para libertar o povo.”

Este é um dito digno de Catão. Assim já se revelava digno da morte que teve.

Mas se porventura a história não referisse o nome dele nem o local, seria facílimo adivinhar que se trata de um romano e natural de Roma, da verdadeira Roma, quando ela era livre.

Mas para que dizer mais? Em boa verdade não creio que o país ou a terra importem muito. Em todos os países, em todos os climas, sabe mal a sujeição e é gostosa a liberdade.

Dignos de dó são os que nasceram com a canga no pescoço.

Devem ser desculpados e perdoados, pois, nunca tendo visto sequer a sombra da liberdade e ninguém lha tendo mostrado, não sabem como é mal serem escravos.

Há países em que o Sol aparece de modo diverso daquele a que estamos habituados: depois de brilhar durante seis meses seguidos, deixa-os ficar mergulhados na escuridão, nunca os visitando no meio do ano; se os que nasceram durante essa longa noite nunca tivessem ouvido falar do dia, seria de espantar que eles se habituassem às trevas em que nasceram e nunca desejassem a luz?

Nunca se lastima o que não se conhece, só se tem desgosto depois de ter gozado o prazer, depois de se ter conhecido o bem e se recordar a alegria passada.

É natural no homem o ser livre e o querer sê-lo; mas está igualmente na sua natureza ficar com certos hábitos que a educação lhe dá.

Diga-se, pois, que acaba por ser natural tudo o que o homem obtém pela educação e pelo costume; mas da essência da sua natureza é o que lhe vem da mesma natureza pura e não alterada; assim, a primeira razão da servidão voluntária é o hábito: provam-no os cavalos sem rabo que no princípio mordem o freio e acabam depois por brincar com ele; e os mesmos que se rebelavam contra a sela acabam por aceitar a albarda e usam muito ufanos e vaidosos os arreios que os apertam.

Afirmam que sempre viveram na sujeição, que já os pais assim tinham vivido. Pensam que são obrigados a usar freio, provam-no com exemplos e com o fato de há muito serem propriedade daqueles que os tiranizam.

Mas a verdade é que os anos não dão o direito de se praticar o mal, antes agravam a injúria.

Sempre haverá umas poucas almas melhor nascidas do que outras, que sentem o peso do jugo e não evitam sacudi-lo, almas que nunca se acostumam à sujeição e que, à imitação de Ulisses, o qual por mar e terra procurava avistar o fumo de sua casa, nunca se esquecem dos seus privilégios naturais, nem dos antepassados e de sua antiga condição.

São esses dotados de claro entendimento e espírito clarividente; não se limitam, como o vulgo, a olhar só para o que têm adiante dos pés, olham também para trás e para frente e, estudando bem as coisas passadas, conhecem melhor o futuro e o presente.

Além de terem um espírito bem formado, tudo fazem para aperfeiçoá-lo pelo estudo e pelo saber.

Esses, ainda quando a liberdade se perdesse por completo e desaparecesse para sempre do mundo, não deixariam de imaginá-la, de senti-la e saboreá-la; para eles, a servidão, por muito bem disfarçada que lhes aparecesse, nunca seria coisa boa.

O Grão-Turco teve perfeita consciência de que os livros e a doutrina, mais do que qualquer outra coisa, dão aos homens a capacidade de se conhecerem e de odiarem a tirania. Sabe-se que nas suas terras não há mais sábios do que os que lhe convém a ele.

Acontece que o zelo e a dedicação dos que, apesar de tudo, prezam a liberdade, não têm efeito algum, pois, mesmo que sejam em grande número, não se podem conhecer uns aos outros.

A tirania subtrai-lhes toda e qualquer liberdade de agir, de falar e quase de pensar.

Têm de guardar só para eles as suas fantasias. Razão tinha Momo para zombar, quando censurou o homem forjado por Vulcano, por não lhe ter feito no coração uma janela através da qual pudessem ser vistos os seus pensamentos.

É sabido que Brutus e Cássio, ao planejarem a libertação de Roma, ou antes, do mundo inteiro, não quiseram que Cícero, o maior zelador do bem público, entrasse na conspiração; julgaram que tinha um coração demasiado débil para tal façanha, confiavam na vontade dele, mas não estavam muito seguros da sua coragem. Quem estudar os efeitos da antiguidade e as velhas crônicas descobrirá que, vendo-se o país mal governado e maltratado, e tomando-se a decisão firme de libertá-lo, poucos ou nenhum deixaram de consegui-lo; tiveram nisso a ajuda da própria liberdade, ansiosa por renascer.

Harmódio, Aristogíton, Trasíbulo, Brutus-o-Velho, Valério e Díon executaram cabalmente o que valorosamente planejaram. Em casos assim, a sorte quase nunca falta a quem quer o bem. O jovem Brutus e Cássio derrubaram a servidão e repuseram a liberdade, tendo por isso morrido, mas não desonrosamente. Desonroso seria dizer que foi desonrosa a vida ou a morte desses jovens. Tristeza e desgraça foram a ruína da república que viria a ser enterrada com eles. As conjuras que depois houve contra os imperadores romanos foram todas atos de gente ambiciosa e não devemos lamentar as derrotas que sofreram; era evidente que não queriam derrubar mas arruinar a coroa, pretendiam expulsar o tirano e manter a tirania. Não é para mim desejável que eles tivessem triunfado e apraz-me que, pelo exemplo, tenham mostrado como não se deve abusar do sagrado nome da liberdade para levar a cabo ruins empreendimentos.

Mas, voltando ao assunto principal de que me afastei: a primeira razão que leva os homens a servirem de boamente é o terem nascidos e sido criados na servidão.

A esta soma-se outra que é a de, sob a tirania, os homens se tornarem covardes e efeminados.

Nisso concordo com Hipócrates, pai da medicina, que assim afirmou e escreveu num de seus livros, intitulado Das Doenças.

Este homem tinha o coração no lugar e bem o demonstrou quando o rei quis atraí-lo para junto de si, com muitas dádivas e oferendas; respondeu-lhe francamente que teria muitos escrúpulos em tratar e curar os bárbaros que queriam matar os gregos e de pôr a sua arte a serviço de um rei que pretendia escravizar a Grécia.

A carta que lhe mandou pode ainda hoje ver-se entre as suas outras obras e constituirá para todo o sempre uma prova do seu bom coração e de sua natureza nobre.

Com a perda da liberdade, perde-se imediatamente a valentia.

As pessoas escravizadas não mostram no combate qualquer ousadia ou intrepidez.

Vão para o castigo como que manietadas e entorpecidas, como quem vai cumprir uma obrigação.

E não sentem arder no coração o fogo da liberdade que faz desprezar o perigo e dá ganas de comprar com a morte, ao lado dos companheiros, a honra da glória.

Entre homens livres, todos disputam invejosamente quem há de ser o primeiro a servir o bem comum; todos desejam ter o seu quinhão no mal da derrota ou no bem da vitória. Mas as pessoas escravizadas, além desta falta de valor na guerra, perdem também a energia em todo o resto, têm o coração abatido e mole e não são capazes de grandes ações.

Os tiranos o sabem e, à vista deste vício, tudo fazem para piorá-lo.

Xenofonte, historiador grave e da melhor cepa entre os gregos, em um livro fez Simônides falar com Hierão, rei de Siracusa, sobre as misérias dos tiranos.

É um livro eivado de bons costumes e graves argumentos e, a meu ver, escrito com muita graça. Bom seria que todos os tiranos que já houve pusessem diante dos olhos e dele se servissem como de um espelho.

Não creio que deixassem de ver nele todas as suas verrugas e não se envergonhassem de todas as suas manchas.

Conta no referido tratado o tormento por que passam os tiranos que, por fazerem mal a todos, a todos devem temer.

Diz entre outras coisas que os maus reis recorrem a estrangeiros para fazerem a guerra, subornam-nos e não se atrevem a meter armas nas mãos dos próprios súditos a quem ofenderam.

Reis houve, alguns até franceses, mais outrora do que nos dias de hoje, que contrataram para a guerra mais de uma nação estrangeira, com intenção de preservarem os seus, por acharem que não era perdido o dinheiro gasto em defesa das pessoas.

Era o que dizia Cipião (o grande Africano, julgo) para quem valia mais defender a vida de um cidadão do que desbaratar cem inimigos.

Mas não há dúvida alguma de que o tirano se julga absolutamente seguro e só se preocupa quando percebe que já não tem a seu serviço um único homem de valor.

Com razão se lhe poderá dizer nessa altura o que Trasão, em Terêncio, se glorific

a de ter dito ao domador de elefantes:

Tão bravo vos hei mostrado
Que sois das bestas criado.

Mas esse estratagema com que os tiranos humilham os súditos está, mais do que em qualquer outro lado, explicitado no que Ciro fez aos lídios, depois de se ter apoderado de Sardes, capital da Lídia, quando aprisionou o riquíssimo rei Creso e o levou cativo. Trouxeram-lhe a notícia de que os de Sardes se tinham revoltado. Ter-lhe-ia sido fácil dominá-los.

Não desejando saquear uma tão bela cidade nem querendo destacar para lá um exército que a vigiasse, recorreu a um outro expediente. Fundou nela bordéis, tabernas e jogos públicos e publicou um decreto que obrigava os habitantes a frequentá-los.

Tão bons resultados teve esta guarnição que foi desnecessário daí em diante levantar a espada contra os lídios. Os desgraçados divertiram-se a inventar toda a casta de jogos, de tal forma que a palavra latina usada para significar “passatempos” é a palavra “ludi”, que vem de “Lydi”, lídios.

Nem todos os tiranos foram tão explícitos no seu desejo de efeminarem os homens, mas o que este ordenou formalmente foi, em grande parte, realizado de forma velada.

É muito próprio do vulgo, mormente o que pulula nas cidades, desconfiar de quem o estima e ser ingênuo para com aqueles que o enganam.

Atrair o pássaro com o apito ou o peixe com a isca do anzol é mais difícil que atrair o povo para a servidão, pois basta passar-lhes junto à boca um engodo insignificante.

É espantoso como eles se deixam levar pelas cócegas.

Os teatros, os jogos, as farsas, os espetáculos, as feras exóticas, as medalhas, os quadros e outras bugigangas eram para os povos antigos engodos da servidão, preço da liberdade, instrumentos da tirania.

Deste meio, desta prática, destes engodos se serviam os tiranos para manterem os antigos súditos sob o jugo. Os povos, assim ludibriados, achavam bonitos estes passatempos, divertiam-se com o vão prazer que lhes passava diante dos olhos e habituavam-se a servir com simplicidade igual, se bem que mais nociva, à das crianças que aprendem a ler atraídas pelas figuras coloridas dos livros iluminados.

Os tiranos romanos decretaram também na celebração frequente das decenárias públicas, para as quais atraiam a canalha que põe acima de tudo os prazeres da boca.

Nem o mais esclarecido de todos eles trocaria a malga da sopa pela liberdade da república de Platão.

Os tiranos ofereciam o quarto de trigo, o sesteiro de vinho e o sestércio. E os vivas ao rei eram então coisa triste de ouvir.

Não davam conta, os néscios, de que recuperavam dessa forma parte do que era seu e que não podia o tirano dar-lhes coisa que não lhes tivesse furtado antes.

O que hoje ganhava o sestércio, o que se fartava de comer no festim público, louvando a grande liberalidade de Tibério e Nero, era no dia seguinte obrigado a entregar os seus haveres à avareza, os filhos da luxúria e o próprio sangue à crueldade daqueles magníficos imperadores, e fazia-o sem dizer palavra, mudo como uma pedra, quedo como um cepo.

O povo sempre foi assim.

É perante o prazer que honestamente não pode atingir, aberto e dissoluto e, face ao agravo e à dor que honestamente não deveria sofrer, insensível.

Não sei hoje em dia de pessoa alguma que, ao ouvir falar de Nero, não trema só com o nome de tão vil monstro, de tão hedionda e imunda besta. Pode, porém, dizer-se que após a sua morte, vil tanto quanto foi a sua vida, o povo romano ficou com tanta pena (por se lembrar dos seus jogos e festins) que pouco faltou para vestir luto. Assim o escreveu Cornélio Tácito, autor dos melhores e mais graves, e só pode estranhar o fato quem não conheça bem o que o povo fez após a morte de Júlio César, que tinha abolido as leis e a liberdade.

Achavam que era um homem sem valor (creio), mas louvaram muito a sua humanidade que afinal foi tão nociva como a crueldade mais selvagem de todos os tiranos.

Em boa verdade, a sua peçonhenta doçura serviu só para adoçar a servidão que impôs ao povo romano.

Mas, depois de morto, o dito povo, que tinha ainda na boca o sabor dos banquetes e a recordação das suas prodigalidades, queimou, para honrá-lo e incinerá-lo, todos os bancos da praça, edificou-lhe uma coluna, como a um verdadeiro pai do povo (assim rezava a inscrição no capitel), e prestou-lhe mais honrarias, após a morte, do que a qualquer outro homem, à exceção talvez dos que o mataram.

Os imperadores romanos não deixavam de tomar sempre o título de tribuno do povo, seja porque seu cargo era tido na conta de santo e sagrado, seja porque havia sido estabelecido para se defenderem do povo e estarem sob o favor do estado.

Deste modo tinham por certo que o povo lhes daria toda a confiança, tendo em maior consideração o título do que os atos deles.

Não procedem melhor hoje em dia os que sempre que cometem aleivosias, incluindo as mais graves, fazem-nas acompanhar de discursos sobre o bem comum e a utilidade pública.

Não ignoras, Longa, os considerandos de que habilmente eles costumam lançar mão. Mas na maioria das vezes não há habilidade que chegue para cobrir tanto despudor.

Os reis assírios, e depois deles os medos, só apareciam em público o mais tarde possível, ao anoitecer, para a populaça julgar que eles tinham algo de sobre-humano, assim iludindo as gentes propensas ao devaneio e amigas de imaginar aquilo que não vêem claramente visto.

Foi assim que as nações que durante longos anos pertenceram ao império sírio se habituaram, com tal mistério, a servir e serviam tanto mais quanto não sabiam quem era o soberano; e todos o respeitavam e temiam, sem nenhum deles o ter visto.

Os primeiros reis do Egito, esses nunca se mostravam em público sem levarem um ramo ou uma luz na cabeça e mascaravam-se como saltimbancos, coisa tão estranha de ver que os súditos se enchiam de respeito e veneração por eles; e havia gente tão doida e tão submissa que se prestava a tal comédia em vez de com ela se rir. Faz pena ouvir comentar as artimanhas a que os tiranos de antigamente recorriam para consolidarem as suas tiranias e o modo como de coisas somenos tiravam grande partido.

Tinham compreendido ser possível fazerem o que quisessem de um povo que se deixava apanhar na rede, por muito frágil que ela fosse, um povo tão fácil de enganar e submeter que quanto mais dele zombavam mais se rebaixava.

E que direi daquela outra patranha a que os povos antigos sempre deram grande crédito? Acreditaram, de fato, que o dedo grande do pé de Pirro, rei dos epirotas, fazia milagres e curava as doenças do baço.

Acreditavam na lenda de que o dito dedo, após a cremação do corpo de Pirro, ficaria inteiro no meio das cinzas.

Era o próprio povo que forjava as mentiras em que posteriormente acreditava. Muitos assim o escreveram e, pelo modo como o fizeram, é patente que se limitaram a reunir o que ouviam dizer nas cidades entre o povo miúdo.

Vespasiano, no regresso da Assíria, passando por Alexandria a caminho de Roma, para tomar o governo do Império, teria realizado muitos milagres.

Punha os coxos a andar, dava vista aos cegos e obrava muitas outras façanhas em que só podia acreditar quem fosse mais cego do que aqueles a quem pretensamente curava.

Até os mesmos tiranos se espantavam com a forma como os homens podem suportar um homem que lhes faz mal; utilizavam por isso o disfarce da religião e, se possível, tomavam o aspecto de certas divindades, disso se servindo para protegerem a má vida que levavam.

Se dermos credo à Sibila de Virgílio e à sua descrição do inferno, Salmoneu, por ter zombado dos deuses e vestido a indumentária de Júpiter, está agora no fundo do inferno a receber o castigo que merece:

… As penas vi cruéis e penetrantes
De Salmoneu soberbo, que tanto erra,
De Júpiter Tonante o raio horrendo
E do Olimpo os trovões contrafazendo.

De quatro frisões este conduzido
Uma tocha acendida meneando,
Pelos povos de Grécia ia atrevido,
E pelo meio de Elides triunfando.
O culto aos altos deuses só devido
Pedia: mentecapto, que rodando
Pela ponte no coche miserável,
Fingia a chuva e o raio imitável.

Mas de uma nuvem densa um raio horrendo,
Vibrando irado, o padre onipotente
O derrubou com ímpeto tremendo,
Não com fumoso raio ou tocha ardente…
[Eneida, Virgílio, Cap. VI]

Se este, cujo crime foi fazer de tolo, padece hoje tais tormentos no inferno, é de crer que merecem muito pior os que abusaram da religião para fins ruins.

Os nossos semearam pela França sapos, flores de lis, a ampola e a oriflama. Pela parte que mais me cabe, não ponho em dúvida que os nossos foram maiores e nós não temos razão de queixa, pois sempre tivemos reis bons em tempo de paz, valorosos na guerra, reis que, embora sendo-o de nascença, parecem ter sido não criados pela natureza, como os outros, mas eleitos por Deus Todo-poderoso, antes de tomarem nas mãos as rédeas do governo e a guarda do reino.

Ainda que assim não fosse, não poria em dúvida a verdade contada pelas nossas histórias, nem as discutiria com vistas a rebaixar a nossa bela nação e deslustrar a nossa poesia francesa, a qual, mais do que remoçada, está hoje completamente renovada graças aos nossos Ronsard, Baïf e Du Bellay, que fizeram evoluir a nossa língua a pontos (ouso esperá-lo) de os gregos e latinos não serem em nada superiores, a não ser quiçá no direito de antiguidade.

E seria da minha parte grande ofensa à nossa métrica (uso de boa mente a palavra e não me desagrada) que, tornada embora por muitos mecânica, tem muita gente capaz de enobrecê-la e de restituí-la à sua honra primitiva, seria, digo, grande ofensa, subtrair-lhe os belos contos do rei Clóvis, nos quais julgo ver despontar fácil e elegantemente a veia do nosso Ronsard e da sua Francíada. Pressinto o seu alcance, reconheço-lhe a graça e finura de espírito. Tem arte para fazer da oriflama o que os romanos fizeram das ancilas, como diz Virgílio: “E os escudos do céu jazendo em terra”. Erguerá a nossa ampola tanto quanto os atenienses o cesto de Eríctono; e as nossas armas serão faladas tanto quanto o foi a oliveira que ainda hoje se encontra na torre de Minerva. Seria de fato ultrajante renegar os nossos livros e desdizer os nossos poetas.

Mas voltando ao assunto de que sem querer me afastei, quem mais do que os tiranos tem conseguido para sua segurança, habituar o povo não só à obediência e à servidão, mas até à devoção? Tudo, pois, o que até aqui disse sobre o hábito de as pessoas serem voluntariamente escravas aplica-se apenas às relações entre os tiranos e a arraia miúda e embrutecida.

Passarei agora a um ponto que, a meu ver, constitui o segredo e a mola da dominação: o apoio e o alicerce da tirania.

Quem pensar que as alabardas dos guardas e das sentinelas protegem o tirano, está, na minha opinião, muito enganado; usam-nos, creio, mais por formalidade e como espantalho do que por lhes merecerem a confiança.

Os arqueiros vedam a entrada no paço aos pouco hábeis, aos que não têm meios, não aos bem armados e aos façanhudos.

Dos imperadores romanos se pode dizer que foram menos os que escaparam de qualquer perigo por intervenção dos arqueiros do que os que pelos próprios guardas foram mortos.

Não são as hordas de soldados a cavalo, não são as companhias de soldados peões, não são as armas que defendem o tirano.

Parece à primeira vista incrível, mas é a verdade. São sempre quatro ou cinco os que estão no segredo do tirano, são esses quatro ou cinco que sujeitam o povo à servidão.

Sempre foi a uma escassa meia dúzia que o tirano deu ouvidos, foram sempre esses os que lograram aproximar-se dele ou ser por ele convocados, para serem cúmplices das suas crueldades, companheiros dos seus prazeres, alcoviteiros suas lascívias e com ele beneficiários das rapinas. Tal é a influência deles sobre o caudilho que o povo tem de sofrer não só a maldade dele como também a deles. Essa meia dúzia tem ao seu serviço mais seiscentos que procedem com eles como eles procedem com o tirano. Abaixo destes seiscentos há seis mil devidamente ensinados a quem confiam ora o governo das províncias ora a administração do dinheiro, para que eles ocultem as suas avarezas e crueldades, para serem seus executores no momento combinado e praticarem tais malefícios que só à sombra deles podem sobreviver e não cair sob a alçada da lei e da justiça. E abaixo de todos estes vêm outros.

Quem queira perder tempo a desenredar esta complexa meada descobrirá abaixo dos tais seis mil mais cem mil ou cem milhões agarrados à corda do tirano; tal como em Homero, Júpiter se gloria de que, puxando a corda, todos os deuses virão atrás.

Tal cadeia está na origem do crescimento do Senado no tempo de Júlio, do estabelecimento de novos cargos e das eleições de ofícios, que não são de modo algum uma reforma na justiça, mas novo apoio à tirania.

E, pelos favores, ganhos e lucros que os tiranos concedem chega-se a isto: são quase tantas pessoas a quem a tirania parece proveitosa como as que prezam a liberdade.

Dizem os médicos que, havendo no nosso corpo uma parte afetada, é nela que naturalmente se reúnem os humores malignos; da mesma forma, quando um rei se declara tirano, tudo quanto é mau, a escória do reino (não me refiro aos larápios e outros desorelhados que no conjunto da república não fazem bem ou mal algum), os que são ambiciosos e avarentos, todos se juntam à volta dele para apoiarem-no, para participarem do saque e serem outros tantos tiranetes logo abaixo do tirano.

É o caso dos grandes ladrões e corsários famosos. Há uns que exploram o país e assaltam os viajantes; estão uns de emboscada e outros à espreita; uns chacinam, outros saqueiam e, havendo muito embora alguns mais proeminentes, uns que são criados e outros chefes de bando, todos afinal se sentem donos, senão do espólio principal, pelo menos de parte dele.

Conta-se que os piratas sicilianos não só se juntaram em tão grande número que foi mister enviar contra eles Pompeu Magno, como também conseguiram estabelecer alianças com algumas belas cidades e grandes praças fortes em cujos portos ancoravam com toda a segurança, no regresso do corso, dando-lhes em recompensa uma parte dos bens que rapinavam.

O tirano submete a uns por intermédio dos outros.

É assim protegido por aqueles que, se algo valessem, antes devia recear, e dá razão ao adágio que diz ser a lenha rachada com cunhas feitas da mesma lenha.

Vejam-se os arqueiros, os guardas e porta-estandartes que do tirano recebem não poucos agravos.

Mas os desgraçados, banidos por Deus e pelos homens, suportam de boa mente o mal e descarregam depois esse mal não naquele que os maltrata, mas nos que são como ele maltratados e não têm defesa.

À vista dos que servilmente giram em redor do tirano, a executar as suas tiranias e a oprimir o povo, fico muitas vezes espantado com a maldade deles e sinto igualmente pena de tanta estupidez.

Porque, em boa verdade, o que fazem eles, ao acercarem-se do tirano, senão afastarem-se da liberdade, darem (por assim dizer) ambas as mãos à servidão e abraçarem a escravatura?

Ponham eles algum freio à ambição, renunciem um pouco à avareza, olhem depois para si próprios, vejam-se bem e perceberão claramente que os camponeses, os servos que eles espezinham e tratam como escravos são em comparação com eles, livres e felizes.

O camponês e o artesão, embora servos, limitam-se a fazer o que lhes mandam e, feito isso, ficam quites.

Os que giram em volta do tirano e mendigam seus favores, não se poderão limitar a fazer o que ele diz, têm de pensar o que ele deseja e, muitas vezes, para ele se dar por satisfeito, têm de lhe adivinhar os pensamentos.

Não basta que lhe obedeçam, têm de lhe fazer todas as vontades, têm de se matar de trabalhar nos negócios dele, de ter os gostos que ele tem, de renunciar à sua própria pessoa e de se despojar do que a natureza lhes deu.

Têm de se acautelar com o que dizem, com as mínimas palavras, os mínimos gestos, com o modo como olham; não têm olhos, nem pés, nem mãos, têm de consagrar tudo ao trabalho de espiar a vontade e descobrir os pensamentos do tirano.

Será isto viver feliz? Será isto vida? Haverá no mundo coisa mais insuportável do que isto? Não me refiro sequer a homens bem nascidos, mas sim a quem tenha o sentido do bem comum ou, para mais não dizer, cara de homem. Haverá condição mais miserável do que viver assim, sem ter nada de seu, sujeitando a outrem a liberdade, o corpo, a vida?

Fazem tudo o que fazem para ganharem fortuna…

Como se pudessem ganhar alguma coisa de seu, quando da sua própria pessoa não podem dizer que seja sua.

Como se fosse possível, na presença do tirano, alguém possuir o que quer que seja, eles fazem tudo para acumularem riquezas e não se lembram de que são eles que lhe dão a força para roubar tudo a todos, não deixando a ninguém nada de seu.

Vêem que é o ter que mais sujeita os homens à crueldade, que não há para o tirano crime mais digno de morte do que a posse de quaisquer bens; que ele só quer possuir riquezas, que rouba aos ricos que se apresentam diante dele como num matadouro, para que ele os veja bem recheados e ornados e deles tenha inveja.

Estes favoritos deveriam lembrar-se menos dos poucos que no convívio com o tirano ganharam fortunas do que dos muitos que, tendo acumulado assim alguns haveres, acabaram por perder os bens e a vida.

Bom será pensar que, se alguns poucos ganharam riquezas, pouquíssimos foram os que as conservaram.

Percorreram-se as histórias antigas, pense-se nas de fresca data e se verá claramente quão grande é o número dos que, ganhando as boas graças dos príncipes com falsidades e tendo recorrido à maldade ou abusado da simplicidade deles, acabaram por ser aniquilados pelos mesmos príncipes, os quais, tão facilmente quanto os tinham elevado, viram que não podiam conservá-los.

Entre o grande número de pessoas que algum dia viveram nas cortes dos maus reis, poucos ou nenhum escaparam de sentir em si a crueldade do tirano a quem tinham acirrado contra os outros.

Tendo o mais das vezes enriquecido, à custa da proteção deles, com os despojos dos outros, foram eles que depois enriqueceram os outros com seus próprios despojos.

As próprias pessoas de bem, se acaso as há ao redor do tirano e gozam das suas graças, enquanto nelas brilha a virtude e a integridade, que, vistas de perto, até aos maus inspiram respeito, essas pessoas de bem não ficarão muito tempo sem perceber o mal que os outros sofrem e aprenderão às suas custas os malefícios da tirania.

Sêneca, Burro, Trázeas, esse trio de pessoas de bem que tiveram a pouca sorte de viver perto do tirano e a missão de tratar dos seus negócios, foram todos por ele estimados e benquistos; um deles fora seu preceptor e tinha como penhor da amizade e educação que lhe dera; ora todos eles testemunharam pela sua morte cruel quão pouca confiança merecem os tiranos.

Que amizade, afinal, pode esperar-se daquele cujo coração é tão duro que odeia o próprio reino que em tudo lhe obedece? Que, por não conseguir fazer-se amar, se empobrece e destrói seu império?

Poderá dizer-se que todos os que referi, incorreram em grandes desgraças, por terem sido virtuosos; mas olhemos também para o resto do séquito do tirano e veremos que todos quantos obtiveram os seus favores e os mantiveram por maldade acabaram por não durar muito.

Onde se ouviu falar de amor mais dedicado, de afeto mais duradouro, onde é que já se viu homem mais obstinadamente preso a uma mulher do que ele estava a Pompéia, a quem afinal envenenou?

Agripina, mãe de Nero, matara o marido Cláudio para por o filho no trono. Fez-lhe todas as vontades, não se poupou a trabalhos para lhe agradar. Ora foi esse mesmo filho por ela gerado e feito imperador, foi ele que, depois de muitas vezes, debalde, o tentar, acabou por lhe tirar a vida; e ninguém depois diria que ela não mereceu esse castigo, mas a opinião geral é que devia tê-lo recebido das mãos de outrem e não daquele que lho infligiu.

Onde houve já homem mais fácil de manobrar, mais simples, digamos até mais ingênuo do que o Imperador Cláudio? Quem se apaixonou algum dia por uma mulher mais do que ele por Messalina? Nem por isso deixou de entregá-la ao carrasco. A simplicidade é uma crueldade de todos os tiranos: tanto que todos ignoram o que seja praticar o bem. Mas, não sei como, chega sempre o dia em que usam de crueldade para com os que os rodeiam e a pouca inteligência que possuem desperta de imediato.

É bem conhecida a palavra daquele que, vendo a descoberto o colo da mulher amada, sem a qual parecia não poder viver, a acariciou, dizendo: este belo pescoço, logo que eu o ordene, pode ser cortado.

Por isso é que a maior parte dos antigos tiranos eram geralmente mortos pelos seus favoritos, os quais, uma vez conhecida a natureza da tirania, perdiam toda a fé na vontade do tirano e desconfiavam do seu poder.

Assim foi que Domiciano morreu às mãos de Estevão, Cômodo assassinado por uma das suas amantes, Antonino por Macrino, e o mesmo aconteceu com quase todos os outros.

A verdade é que o tirano nunca é amado nem ama.

A amizade é uma palavra sagrada, é uma coisa santa e só pode existir entre pessoas de bem, só se mantém quando há estima mútua; conserva-se não tanto pelos benefícios quanto por uma vida de bondade.

O que dá ao amigo a certeza de contar com o amigo é o conhecimento que tem da sua integridade, a forma como corresponde à sua amizade, o seu bom feitio, a fé e a constância.

Não cabe amizade onde há crueldade, onde há deslealdade, onde há injustiça. Quando os maus se reúnem, fazem-no para conspirar, não para travarem amizade. Apoiam-se uns aos outros, mas temem-se reciprocamente. Não são amigos, são cúmplices.

Ainda que assim não fosse, havia de ser sempre difícil achar num tirano um amor firme. É que, estando ele acima de todos e não tendo companheiros, situa-se para lá de todas as raias da amizade, a qual tem seu alvo na equidade, não aceita a superioridade, antes quer que todos sejam iguais.

Por isso é que entre os ladrões reina a maior confiança, no dividir do que roubaram; todos são pares e companheiros e, se não se amam, temem-se pelo menos uns aos outros e não querem, desunindo-se, tornar-se mais fracos.

Quanto ao tirano, nem os próprios favoritos podem ter confiança nele, pois aprenderam por si que ele pode tudo, que não há direitos nem deveres a que esteja obrigado, a sua única lei é a sua vontade, não é companheiro de ninguém, antes é senhor de todos. Quão dignos de piedade, portanto, são aqueles que, perante exemplos tão evidentes, face a um perigo tão iminente, não aprendem com o que outros já sofreram!

Como pode haver tanta gente que gosta de conviver com os tiranos e que nem um só tenha inteligência e ousadia que bastem para lhes dizer o que (no dizer do conto) a raposa respondeu ao leão que se fingia doente:

“De boa mente entraria no teu covil; mas só vejo pegadas de bichos que entram e nenhuma dos que dele tenham saído.”

Esses desgraçados só vêem o brilho dos tesouros do tirano e ficam olhando espantados para o fulgor das suas suntuosidades, deslumbrados com tanto esplendor; aproximam-se e não vêem que estão a atirar-se para o meio de uma fogueira que não tardará a consumi-los. O Sátiro indiscreto (reza a fábula), ao ver aceso o lume descoberto por Prometeu, achou-o tão belo que foi beijá-lo e se queimou.

A borboleta que, esperando encontrar algum prazer, se atira ao fogo, vendo-o luzir, acaba por ser vítima de uma outra qualidade que o fogo tem: a de tudo queimar (diz o poeta lucano).

Vamos admitir que os favoritos consigam escapar às mãos daqueles a quem servem. Não escaparão do rei que vier depois. Se for bom, tudo fará para pedir contas e repor a justiça. Se for mau e semelhante ao que eles serviram, há de ter os seus favoritos que, evidentemente, além de pretenderem ocupar o lugar dos outros, hão de querer também os bens e as vidas deles.

Assim sendo, como pode haver alguém que, no meio de tantos perigos, de tanta insegurança, queira ocupar tão desgraçada posição e servir com tal risco tão perigoso amo?

Que tormento, que martírio este, Deus meu: viver dia e noite a pensar em ser agradável a alguém e, ao mesmo tempo, temê-lo mais do que a qualquer homem!

Que tormento estar sempre de olho à espreita, de ouvido a escuta, a espiar de onde virá o golpe, para descobrir embustes, examinando sempre as feições dos companheiros, a ver se descobre quem o trai, rindo-se para todos, receando-os a todos, não tendo inimigo declarado nem amigo certo!

Que tormento fazer sempre rosto risonho, tendo o coração transido, não poder mostrar-se contente e não se atrever a ser triste!

Aprazível é considerar o que eles ganham com tanto tormento, o que podem esperar dos trabalhos que passam e da mísera vida que levam.

O povo gosta de acusar dos males que sofre não o tirano, mas os que o aconselham: os povos, as nações, toda a gente, incluindo os camponeses e os lavradores, todos sabem os nomes deles e os respectivos vícios; sobre eles lançam mil ultrajes, mil vilanias, mil maldições. Todas as suas orações e votos são contra eles. Todas as desgraças, todas as pestes, todas as fomes lhes são atribuídas e, se às vezes, exteriormente, lhes tributam algum respeito, não deixam de amaldiçoá-lo no mais fundo do coração, têm por eles um horror maior do que têm aos animais ferozes.

Tal é a honra, tal é a glória que recebem em paga dos serviços que prestam aos povos, os quais nunca se darão por saciados e compensados do que sofreram, ainda que por eles repartissem o corpo em pedaços.

Mesmo depois de morrerem, os que ficam tudo farão para que o nome de Come-Gente lhes seja atribuído e manchado pela tinta de mil penas, e a sua reputação desfeita em milhares de livros, e os próprios ossos, a bem dizer, pisados pelos vindouros que assim castigam depois de mortos os que tiveram vida ruim.

Aprendamos com estes exemplos, aprendamos a fazer o bem.

Ergamos os olhos para o Céu, seja por amor da nossa honra, seja pelo amor da própria virtude, olhemos para Deus Todo-poderoso, testemunha certa de nossos atos e justo juiz de nossas faltas.

De minha parte, penso, e não me engano, que nada há de mais contrário a um Deus liberal e bondoso, do que a tirania e que ele reserva aos tiranos e seus cúmplices um castigo especial.

Autor: Étienne de La Boétie

Fonte: eBooksBrasil

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O Desenho e o Canteiro no Renascimento Medieval (séculos XII e XIII): Indicativos da formação dos arquitetos mestres construtores – Capítulo Final

Catedral de Chartres, na França: um guia para sua visita | Um ViajanteCatedral de Chartres (1145-1221)

6. Conclusão

A imagem do arquiteto mestre construtor que ficou na memória histórica foi aquela resultante da analogia entre sua figura e a do Criador, sempre apresentado numa posição superior e com um grande compasso nas mãos.

Esta iconografia, além de retratar uma condição realmente existente nos canteiros de obras, foi responsável pela visão do demiurgo que se colou à atividade profissional do arquiteto: o orientador dos trabalhos tanto na esfera mental (o projeto) como na esfera prática (o instrumento representando o fazer arquitetônico).

Os trabalhos no canteiro eram todos planejados em função da envergadura econômica do empreendimento, ficando assim descartada a ideia de um período histórico onde os arquitetos mestres construtores dirigiam suas obras sem projeto.

O projeto medieval era algo diferente de como hoje o entendemos: grelhas ou traçados reguladores forneciam a concepção geral do espaço a ser ocupado no solo. Estes traçados reguladores eram implantados com o auxílio de instrumentos e ferramentas: a groma para alinhamentos e ângulos retos, as cordas para materializá-los, as varas com as unidades adotadas e o chorobate para nivelar os platôs.

O lançamento e o dimensionamento das fundações tiveram excepcional melhora no século XIII, pela diminuição sensível do número de desmoronamentos. Como as fundações são diretas e necessitam de largas e profundas trincheiras para garantir sua resistência e estabilidade, não podemos admitir a possibilidade de um simples risco traçado sobre o solo, sem um plano prévio.

Por isso, às fases iniciais de marcação, seguem-se a colocação de piquetes. Com a abertura das trincheiras para as fundações, se recuperam os alinhamentos através de cordas esticadas entre os piquetes, que são as testemunhas do traçado regulador. Assim, se verifica a correta posição das fundações em relação às paredes ou aos elementos de sustentação.

O edifício gótico, por sua grande altura e pelo seu elemento constitutivo principal – a pedra – necessita de um prumo perfeito, para que a transmissão das cargas se dê sem excentricidades nos elementos estruturais, de modo a não provocar outros esforços que não a compressão. Isto garante a otimização da característica principal da pedra que é a sua resistência à compressão.

O arquiteto mestre construtor possuía um grande conjunto de detalhes construtivos – principalmente para os arcos ogivais – conforme demonstrado pelos cadernos de Villard de Honnecourt: os arcos eram de diferentes formas que ficavam catalogados em função do tabelamento do triângulo de referência que os gerava.

Com estes recursos, o arquiteto mestre construtor trabalhava o projeto do edifício, quase sempre através de um desenho no plano horizontal (o traçado regulador) e do desenho de elevações, onde demonstrava parte de suas escolhas e aprovava seu projeto junto ao Capítulo da Catedral.

O projeto medieval não tinha cortes. Os cortes atualmente têm uma característica de desenho definidor do projeto. Estes cortes, inexistentes no medievo, estavam embutidos nas relações conhecidas pelos arquitetos mestres construtores. As relações de escolha de proporções, razões incomensuráveis como Ad Quadratum (√2) e Ad Triangulum (√3), triângulos de referência e detalhes construtivos utilizados estão nas tradições do ofício que são dominadas pelos arquitetos mestres construtores.

A escolha dos parâmetros para a distribuição espacial do edifício no terreno é atribuição exclusiva do arquiteto mestre construtor, função direta de sua experiência na prática profissional. Estas escolhas e também o fabrico de instrumentos, como os esquadros de lados afunilados e de lado curvo, estão a comprovar a existência de planos prévios para as obras – o projeto.

Os registros gráficos, existem em número tão reduzido por duas razões.

Uma primeira refere-se à natureza dos suportes disponíveis à época, que eram muito frágeis e efêmeros. Suportes como os pergaminhos, além disso, custavam muito caro, tinham dimensões reduzidas, não se prestando para desenhos grandes. Superfícies em gesso ou argamassa de cal em pisos ou paredes desapareciam com o desenrolar da obra ou ficavam perdidos nas salas de riscos. O mesmo acontecia com desenhos feitos sobre pranchas de madeira.

Vários desenhos dos cadernos de Villard de Honnecourt apresentam-se superpostos ou comprimidos, no intuito de economizar espaço no pergaminho.

Muitas peças de pedra tinham seu desenho conformado em escala natural, diretamente sobre seu volume. Naturalmente o projeto da peça se perdia com sua execução.

Uma segunda razão era a inexistência do hábito de documentar, arquivar ou preservar os desenhos feitos para uma catedral, por exemplo. Sua utilidade cessava após o término das obras, ou seja, sua existência justificava-se pelo seu uso prático no canteiro, durante o tempo de execução. Os desenhos tinham apenas valor instrumental.

Por isso, a reutilização de suportes, como no caso dos pergaminhos, também contribuiu para o desaparecimento de muitos desenhos. Raspar e desenhar ou escrever novamente sobre o pergaminho e encapar livros eram práticas bastante comuns.

Suspeita-se que os Palimpsestos de Reims, da metade do século XIII, sejam de autoria de Hugues Libergier: são desenhos apagados e cortados em pedaços, formando as páginas de um livro.

A formação dos arquitetos mestres construtores assenta-se sobre a Geometria Prática – Geometria Fabrorum – que apesar de apresentar resoluções gráficas não totalmente corretas do ponto de vista matemático (Geometria Teórica), resolve satisfatoriamente os problemas arquitetônicos. O ofício desenvolveu especialmente este ramo da Geometria, para possibilitar o exercício profissional de seus praticantes.

A formação dos arquitetos mestres construtores era realmente voltada para o projeto, pois com o conhecimento das tabelas para arcos podiam escolher logo as abóbadas que deveriam sustentar as coberturas das naves e que melhor se adaptassem às suas escolhas projetuais: vãos, alturas, formas,etc…

Com o conhecimento do arsenal de procedimentos postos à sua disposição, o arquiteto mestre construtor concebia e dirigia a obra com este método de projeto, exatamente como registrou o grande arquiteto João Batista Vilanova Artigas: Que catedrais tendes na cabeça?.

FINIS

Autor: Francisco Borges Filho

Tese apresentada à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo para obtenção do título de Doutor. Área de concentração: Estruturas Ambientais Urbanas.

Fonte: Digital Library USP – Theses and Dissertations

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Referências e Bibliografia Recomendada

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Os (“Altos”) Graus escoceses iniciais tiveram origem na França?

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Para que se tenha a chance de entender por que algo inesperado aconteceu em um local específico, em um horário específico, parece lógico investigar o que aconteceu ali antes e durante esse período em outras partes do mundo e, em seguida, tentar descobrir se pode haver existido algum tipo de relação entre eventos que a princípio não pareciam relacionados entre si. Um médico não faria um diagnóstico antes de investigar o passado de um paciente (anamnese) e um tribunal não passaria uma sentença antes de investigar o passado de qualquer pessoa acusada de um crime grave.

Embora essa abordagem pareça razoável, muitos historiadores maçônicos seguem outra. Começam com uma opinião preconcebida, consideram um fato do qual tiram conclusões e misturam o resultado com algumas frases selecionadas de seus antecessores que usaram o mesmo método, dificilmente mencionando o que quer que tenham tomado emprestado. Tendo preparado assim um coquetel próprio, eles escrevem, chamam de trabalho de pesquisa ou de livro novo e colocam sua assinatura.

Os (altos) graus escoceses foram originários da França? A maioria dos autores maçônicos responde a essa pergunta com um enfático sim, mas estou longe de ter certeza de que eles estão certos. A afirmação parece ter se originado assim: escritores antimaçônicos seguidos por historiadores românticos franceses atribuíram uma origem francesa aos altos graus. Sua afirmação foi repetida de um livro para o outro sem controle. Então, em 1877, o Grande Oriente francês foi excluído da comunidade maçônica por razões bem conhecidas. Em uma situação que opunha uma Maçonaria deviacionista, de língua francesa, a uma respeitadora dos Landmarks, de língua inglesa, mais um pecado não importava muito. Pelo contrário, desde que “a Maçonaria pura e antiga” foi definida como composta apenas por três graus, incluindo o Arco Real, não era inconveniente adotar a opinião de que desde o início – desde a primeira metade do século XVIII – a Maçonaria francesa se desviou da linha pura e antiga.

Por volta da mesma época, nasceu a escola autêntica de pesquisa inglesa. Não se poderia esperar que membros da Loja Quatuor Coronati admitissem uma teoria não comprovada. No entanto, eles fizeram isso desde o início em outros domínios da pesquisa maçônica fundamental, como o das origens da Maçonaria:

Os fundadores da Loja cunharam a frase “escola autêntica ou científica” de pesquisa maçônica, que depois de cem anos levanta a questão de saber se eles cumpriram aquilo a que se propunham. Em seu apetite voraz por procurar evidências, a resposta é sim. No tratamento dessas evidências, penso que a resposta só pode ser um sim muito moderado, particularmente no que tange ao seu trabalho sobre as origens da Maçonaria. Eles examinaram, acharam falta e rejeitaram muitas das teorias mais estranhas de nossa existência e trataram da mesma forma as evidências fornecidas por Anderson. No entanto, eles não examinaram a premissa básica de Anderson de que a Maçonaria se desenvolveu diretamente a partir da maçonaria operativa. Isso eles parecem ter aceitado sem questionar e, como Darwin, passaram muito tempo procurando elos perdidos entre a maçonaria operativa e as evidências que vinham trazendo à luz sobre a maçonaria não operativa. Nisso, eles estavam se comportando de maneira não científica, buscando evidências para provar sua teoria, em vez de buscar evidências e analisá-las para ver o que poderia ser deduzido delas. (John Hamill, AQC 99, 1986, p. 4)

Buscar evidências para provar uma teoria equivale a escolher fatos e resulta em isolar eventos de seu contexto, o que a escola autêntica fez[1] e continua fazendo.

A Maçonaria do século XVIII não era a organização centralizada nacionalmente em que viria a se tornar. Ela se desenvolveu e mudou através da influência de irmãos que viajavam de um país para o outro, de uma parte do mundo para outra, trazendo consigo costumes e inovações de onde vieram e comunicando-os onde quer que chegassem. As Grandes Lojas Nacionais – nenhum Conselho Supremo ou órgão semelhante existia na época – tiveram pouca influência real nas ações individuais de seus membros. As regras do jogo eram diferentes.

Analisar os desenvolvimentos históricos e os rituais maçônicos fora desse contexto internacional, abordando-os com nossas regras atuais em mente, é provavelmente uma das razões pelas quais os historiadores do século XVIII maçônico são confrontados – e confrontam seus leitores – com situações inexplicadas ​​e inexplicáveis; pois tal técnica não faz sentido.

Pior ainda. Por mais de cem anos, os graus simbólicos e os graus adicionais são estudados em livros separados – ou em capítulos distintos de livros maçônicos – como se pertencessem a universos separados do mundo, sem feedback mútuo[2]. Esse não foi o caso ao longo do século XVIII, por exemplo, na Irlanda. Os historiadores irlandeses enfatizam o fato de que as Licenças emitidas por sua Grande Loja

forneceram às Lojas da jurisdição irlandesa certos poderes pelos quais elas julgavam ter plena autoridade para trabalhar qualquer grau maçônico sob seu mandado – um poder que exerciam a partir do momento em que eram criadas. O único limite para a prática exigia a presença de algum irmão competente para realizar as cerimônias […]. Consequentemente, os irlandeses garantiam que as Lojas, domésticas e no exterior, conferissem qualquer grau que desejassem, com pleno conhecimento e aprovação da G.L.[3][…] É difícil perceber que todos os graus já foram dados sob a única sanção e autoridade de uma Licença Simbólica. Antes da formação do Grande Capítulo e do Supremo Grande Acampamento, nos anos 1830, nenhuma outra Licença era conhecida. E assim, em nossos antigos Livros de Atas, encontramos os Graus mais altos e outros Graus secundários há muito esquecidos, conferidos aos Irmãos geralmente à taxa modesta de 5/5d. irlandeses ou 5/– ingleses. Cada Loja tinha chancelas separadas para estes graus[4].

No entanto, dois passos, ambos dados na Inglaterra, levaram à atual separação entre os Graus Simbólicos e outros graus. Em primeiro lugar, a redação do Artigo II dos Artigos da União ratificada por ambas as Grandes Lojas inglesas em 1813

É declarado e pronunciado que a Maçonaria Antiga pura consiste em três graus, e não mais; a saber: os de Aprendiz, Companheiro e de Mestre Maçom, incluindo a Ordem Suprema do Santo Arco Real. […]“

Segundo, o quinto dos Princípios Básicos, aceito pela Grande Loja Unida da Inglaterra, em 4 de setembro de 1929. O primeiro documento pôs fim às consequências negativas de uma situação maçônica estritamente inglesa, a saber, a existência de duas Grandes Lojas rivais na Inglaterra e suas colônias nos sessenta anos anteriores. O último expressou a avaliação inglesa da situação maçônica europeia entre as duas guerras mundiais.[5]

Algumas observações sobre a morte de Hiram

Antes de considerar se os graus Escoceses se originaram na França, vamos dar uma olhada na velha questão dos graus originais e de seus temas, uma vez que o conteúdo de um grau costuma ser mais revelador do que o nome ou o número atribuído a ele.

Historiadores da Maçonaria de língua inglesa admitem uma falta de manuscritos ou evidências impressas mostrando a evolução dos graus na Inglaterra entre 1730 (Maçonaria Dissecada) e 1760 (Três batidas distintas), uma falta pela qual Harry Carr cunhou a expressão ‘a lacuna de trinta anos’. Eles enfrentam a seguinte situação desconfortável:

  • uma primeira série de ‘catecismos’ e exposições emitidos entre 1723 e 1730, considerados incompletos porque “ não contém […] referência a uma oração ou a uma cobrança feita a irmãos recém-admitidos” (Knoop , Jones e Hamer , Catecismos Maçônicos Antigos , 1947, 2ª ed. [1963], p. 21 – Mesma ideia em Carr, AQC 94, 1981, p. 117);
  • o ‘intervalo de trinta anos’, de 1730 a 1760, durante o qual “um certo desenvolvimento [ocorreu]”, é um discreto eufemismo de John Hamill (The Craft , 1986, p. 65);
  • uma segunda série de exposições em inglês, começando com o Three Distinct Knocks (1760) e Jachin e Boaz (1762).[6]

No entanto, analisando, em 1980, as duas primeiras exposições em inglês da segunda série, Harry Carr fez uma pergunta que parece um pouco estranha em vista do exposto: “Por que ele [o autor de Jachin e Boaz usou a seção narrativa de abertura contendo práticas que eram estranhos para aos procedimentos ingleses?[7]. Em outras palavras: Carr admite a falta de elementos que permitam acompanhar a evolução do ritual inglês depois de 1730, mas não hesita em declarar certas práticas rituais de 1762 como procedimentos estranhos ao inglês[8].Bastante ilógico, não é?[9]

O porquê dos graus Escoceses ou os primeiros ‘altos’ graus terem sido inventados e trabalhados pode muito bem estar relacionado a duas perguntas:

– Quando a lenda envolvida em nosso atual terceiro grau se tornou parte da Maçonaria Simbólica?

– Qual foi a evolução da lenda em diferentes partes do mundo?

Uma evidência bem conhecida é que o assassinato do arquiteto fez sua primeira aparição impressa na Maçonaria Dissecada de Prichard, publicada em Londres, em outubro de 1730. Outra é que três graus distintos – ignoramos sua substância temática – foram trabalhados em Londres em maio de 1725:

Charles Cotton foi “feito maçom” em 22 de dezembro de 1724; algum tempo depois “Uma Loja foi realizada com Mestres suficientes para esse fim “a fim de passar Charles Cotton, Esc Mr. Papillon Ball and Mr. Thomas Marshall Companheiros.”; em 12 de maio de 1725, “Irmão Charles Cotton Esc | Irmão Papillon Ball foram regularmente passados a Mestres”).[10] 

Uma pista adicional foi aparentemente até agora ignorada. Está incluída em Um Diálogo Entre Simão e Felipe.

a) Um diálogo entre Simão e Felipe 

Por volta de 1943, a transcrição de um documento sem data – o manuscrito original foi considerado perdido – intitulado A Dialogue Between Simon, A Town Mason, & Philip, A Traveling Mason, foi trazida à atenção de Douglas Knoop, que a publicou na primeira edição (1943) de Catecismos Maçônicos Antigos (EMC). Naquele momento, Knoop, Jones e Hamer atribuíram a data de c.1740 ao documento. Depois que o Diálogo foi submetido e discutido na Quatuor Coronati Lodge, em 7 de janeiro de 1944, Knoop mudou de ideia e admitiu que poderia ter sido escrito já em c.1725. Felizmente, em 1945, um conjunto de fotografias que reproduzem o manuscrito original foi descoberto na Grand Lodge Library, em Londres (AQC 57, 1946, p. 21). A segunda edição (1963) da EMC, no entanto, não menciona nem a mudança sugerida de datação (pelo contrário, seu prefácio repete o c.1740) nem algumas diferenças entre a transcrição e o documento original, que incluiu dois esboços essenciais com as seguintes legendas:  “Esta é a forma das antigas Lojas” e “Esta Loja é a nova Loja sob o Regulamento Desaguliers”.[11]

Diálogo inclui as seguintes palavras:

E o Aprendiz Junior pega você pela mão e bate três vezes na porta. O Mestre pergunta: quem está lá. E o Aprendiz responde: Aquele que deseja ser feito maçom. A resposta do Mestre: Traga-o.

Nota: A razão para esses três golpes não é conhecida pelos Aprendizes, mas pelo Mestre, que é de HIRAM, o Grão-Mestre no TEMPLO DE SALOMÃO. Sendo assassinado por seus três Aprendizes e despachado pelo terceiro golpe que o último Aprendiz deu nele e isso porque ele não desvendaria os segredos para eles.[12]

Dizer que Hiram foi assassinado por seus três Aprendizes dá, eu acho, uma pista interessante para uma tentativa de datar o Diálogo, bem como para avaliar o estágio de desenvolvimento do sistema de graus no momento em que foi colocado no papel. Sugere as seguintes possibilidades:

  • Um ‘sistema’ composto apenas por dois graus: o grau de ‘Aprendiz’ seguido de um grau que incluía o assassinato de Hiram. Nesse caso, a datação pode ser anterior ao ano ( 1725) sugerido por Knoop numa segunda avaliação;
  • Um sistema de três graus no qual a lenda do nosso terceiro grau atual pertencia ao segundo grau, sendo o tema do terceiro desconhecido, mas possivelmente incluindo elementos conhecidos posteriormente como integrantes do Arco Real. Essa possibilidade foi exposta por Philip Crossle, um excelente estudioso irlandês, catorze anos antes da redescoberta do Diálogo.

b) Rito irlandês de Philip Crossle

Em 1927, Philip Crossle descreveu aquilo que o conteúdo temático do sistema nativo de três graus poderia ter incluído desde o início na Irlanda.

Primeiro Período. […]

Possivelmente a mesma prática, descrita por Pennell (1730):

  1. Aprendiz ou Irmão
  2. Companheiro
  3. Parte do Mestrado (M.M.), não restrito ao Presidente.

[…]

Segundo período.

Na medida em que se deu a conversão para o Arquismo Real, cuja data exata é impossível de ser definida, os três graus acima foram mantidos; mas os nomes foram mudados. […]

  1. Aprendiz Iniciante e Companheiro de Ofício (um grau), mais frequentemente chamado de ”Iniciante e Oficiando”.
  2. Mestre Maçom.
  3. Arco Real.

Aqui temos um sistema de apenas três graus. O número 1, o “aprendiz” de Pennell, ficou conhecido por um nome composto. Seu “Companheiro de Ofício”, tendo perdido seu significado anterior, deixou de representar um grau específico. O nome, apenas, foi unido ao primeiro grau, apenas para preservá-lo da extinção. O número 2, o “Companheiro de Ofício” de Pennell, foi rebatizado de “Mestre Maçom”. É importante manter isso em mente. O número 3, a “parte do Mestre” (M.M.) de Pennell, foi rebatizada de “Arco Real”. […] O significado do grau que nós, na Irlanda, chamamos agora de “Mestre Instalado” deve ter sido apenas uma parte da parte do Mestre de Pennell e parece ter sido fundido nas cerimônias conhecidas pelo nome geral de “Arco Real” do Segundo Período[13].[…] O Segundo Período nos apresenta as palavras “Arco Real”. Na minha opinião, nossa concepção do grau que leva esse nome não foi uma invenção – era a “parte do Mestre” (M.M.) de Pennell, revestida de um novo nome[14].

c) Algumas ideias de Robert J. Meekren[15]

J. Meekren seguiu uma trilha mais conservadora. Entretanto, sua experiência com vários rituais em diferentes partes do mundo permitiu que ele estudasse o ritual de M.M. com a abordagem comparativa recomendada por Douglas Knoop (The Genesis of Freemasonry, p.16). As citações, a seguir, de artigos que Meekren escreveu e de comentários que ele fez sobre trabalhos de outros estudiosos abrem perspectivas interessantes.

Aliás, há um grande mistério que é, ou parece ser, insolúvel por pura falta de evidência ou mesmo sugestão a respeito; e foi quando, e como, o motivo Elu foi incluído no terceiro grau tal como este é tratado nos países de língua inglesa. Não há nenhum vestígio disso em qualquer forma do grau de M.M. na Europa Continental. Isso deve ter ocorrido antes de 1760 e (como parece) depois de 1730. (AQC 68, 1956, p. 109)

Não há nada em Prichard ou em Le Secret sobre procurar a Palavra no túmulo de H.A.B.; por outro lado, é dito em Prichard que a Palavra foi perdida, e também é dito que “agora é encontrada”. Nas versões atuais na França – e que quase certamente refletem as formas então favorecidas nos círculos da Grande Loja na Inglaterra – a Palavra não está perdida. Aqueles que foram enviados para procurar o H.A.B. sabiam qual ela era, mas concordaram em alterá-la pelas razões apresentadas. A única forma da lenda hirâmica na qual se diz que a Palavra é procurada é a do rito de York na América, que descende do ritual dos “Antigos”. Neste, os pesquisadores são cobrados a “observar se palavra-chave do Mestre ou uma chave para ela deveria ser encontrada no corpo ou sobre ele”. Isso me parece o resquício de uma tradição ainda mais antiga, como indicaria o relato de Prichard, porque nada é feito dela, nem é mencionada de novo. Eu acho que a versão francesa pode muito bem ter sido uma das coisas que os “Antigos” objetaram no ritual dos autodenominados “Modernos”. (AQC 72, 1960, p. 50)

No Rito de York, que é quase universal nos Estados Unidos e que é o ritual dos “Antigos” um pouco elaborado, a ideia bastante fantástica de que aqueles Companheiros que descobriram o corpo do Mestre desaparecido tornaram-se automaticamente Mestres Maçons através de sua exclamação diante do túmulo é completamente evitada. A essência da história é que os dois reis e Hiram Abif formaram a primeira Loja de Mestres, e os Artesãos haviam prometido que, quando o Templo estivesse concluído, eles (ou seja, todos os que fossem julgados fiéis e, suponho, competentes) receberiam os segredos do Mestre como recompensa. Como os três concordaram ou se obrigaram a não comunicar esses segredos que haviam adotado, exceto quando os três estivessem presentes, o combinado era que, quando um deles estivesse ausente, isso não poderia ser feito. A mesma situação aparece no manuscrito Graham com os dois irmãos do rei Alboyne. Assim, embora os dois reis soubessem quais eram os segredos originais, eles não poderiam comunicá-los e, portanto, ficariam perdidos para aqueles que esperavam recebê-los. Consequentemente, o rei Salomão, que comparece ao túmulo quando o corpo de Hiram é levantado, anuncia que, embora os sinais e palavras adotados primitivamente pelos três Mestres originais (chamados Grandes Mestres) estejam efetivamente perdidos, ele os substituirá por outros, para que os dignos artesãos recebam o status de Mestres, embora não com a palavra pretendida originalmente. A palavra é especialmente enfatizada, embora os sinais também sejam mencionados.

Obviamente, o efeito da versão inglesa é praticamente o mesmo. Mas na França a história é radicalmente diferente. Não havia um acordo como o relatado nas versões inglesa e americana da história e, evidentemente havia mais de três Mestres, pois os descobridores do corpo, em muitos casos, são considerados Mestres, nove deles em uma versão que, temendo que os três assassinos possam ter obtido a palavra (evidentemente considerada apenas uma senha), concordam em alterá-la e, ao relatar isso, aquela que deveria ter sido a palavra original é abertamente contada ao candidato. Houve substituição, mas não houve perda – foi o Mestre que se perdeu. E enquanto nos modernos rituais franceses e outros europeus essa ideia evoluiu um pouco, ela permaneceu essencialmente a mesma desde o início, pois ela aparece, como ressalta que o irmão Ward, nos primeiros documentos franceses. (AQC 75, 1962, p. 172)

Para permitir que os leitores percebam as implicações das observações de R. J. Meekren, alguns textos relevantes são transcritos nos Apêndices 2 – 4 deste artigo. Eles incluem:

  • Partes do testemunho de John Coustos (vide anexo 3) feitas perante a Inquisição Portuguesa, em Lisboa, em março de 1743, sob a ameaça de tortura[16]. Em 1982, o padre José A. Ferrer Benimeli, s.j., transcreveu e emitiu a ata original da Inquisição e outros documentos referentes à prisão de Coustos[17]. Uma frase, “Ele disse ainda que ele, o prisioneiro, aprendeu todo o assunto acima exposto no Reino da Inglaterra”, é do maior interesse em relação a um elemento ritual mencionado por Coustos: “quando ocorreu a destruição do famoso templo de Salomão, foi encontrada, embaixo da primeira pedra, uma tábua de bronze sobre a qual estava gravada a seguinte palavra, Jeová, que significa Deus”.
  • Trechos de duas exposições francesas, Catechisme des Franc-Masons (1744) (vide anexo 4) e L’Ordre des Francs-Maçons Trahi et le Secret of Mopses Revelé (1745), onde aparecem em palavras quase idênticas.
  • Trechos paralelos da Parte do Mestre incluídos em Três Batidas Distintas (1760) (vide anexo 5) e em Jachin e Boaz (1762). Em ambos, os três assassinos são condenados e executados.

d) Comentários do Dr. Pott

Em um notável artigo traduzido do holandês que apareceu em Le Symbolisme (maio-junho de 1964, nº 365), o Dr. P. H. Pott resumiu as consequências do mito da morte de Hiram e sua possível influência nos temas dos graus Escoceses.

A Maçonaria ‘Azul’ dos graus simbólicos tem sua origem em determinados elementos relacionados à construção do Templo do rei Salomão. Nos graus de Apr. e Comp., eles são apresentados sob um aspecto extremamente indiferenciado, isto é, como um resumo geral preocupado com a construção de um templo, considerado de um ponto de vista simbólico. No grau de M. M., no entanto, tais elementos tornam-se mais precisamente delineados através do mito. O ponto não é mais, abstratamente, aquele da construção em geral, mas diz respeito a um evento trágico que ocorre dentro da aparência simbólica de um edifício considerado como um todo.

[…]

Indo além, pode-se dizer que o evento que ocorre no grau do M.M. acarreta consequências específicas que permanecem incompletas:

a) o assassinato de H.A. perturba a ordem das coisas: implica pôr fim a uma situação anormal e, consequentemente, prender e punir os culpados por seu crime, ou seja, exercer uma vingança justificada sobre eles;

b) a morte de H.A. resulta em uma interrupção dos trabalhos. Consequentemente, torna-se necessário encontrar um novo arquiteto, o mais competente possível, capaz de prosseguir com as obras e concluir o edifício da melhor maneira possível;

c) por causa do assassinato de H.A., a Palavra-Mestre se perdeu e todos os esforços devem ser feitos para recuperá-la.

A partir do momento em que alguém se sente instigado a dar uma sequência aos graus do Ofício, pode encontrar uma oportunidade numa das consequências mencionadas acima. E foi isso que de fato aconteceu.

Primeira evidência do Écossais, ‘Escocês’ ou dos ‘Altos Graus’

Vamos agora considerar as evidências sobre as primeiras aparições do Écossais, “escocês” ou “altos” graus em diferentes partes da Europa.

1 – A Loja irlandesa de Lisboa – agosto de 1738

Philip Crossle, cujas ideias sobre o Rito Irlandês foram mencionadas acima, ficaria interessado em ler uma declaração feita perante a Inquisição, em Lisboa, em 1º de agosto de 1738, por Hugo O’Kelly, então Mestre de uma Loja local, que, por volta de 1733, começou a trabalhar, e era então composta principalmente por Irmãos irlandeses. Provavelmente é a Loja N ° 135, licenciada em 17 de abril de 1735 pela primeira Grande Loja da Inglaterra, e que foi fundada por um matemático escocês chamado George Gordon[18].

A primeira bula papal contra os maçons, In Eminenti, foi lançada em 28 de abril de 1738, promulgada em Portugal em junho, e seu texto foi afixado nas portas das igrejas em Lisboa logo depois. Chamado como testemunha, O’Kelly declarou

que, assim que soube que o Santo Padre […] proibira tais reuniões, escreveu imediatamente a todos os membros de sua Loja [e] deu ordens para que não houvesse mais reuniões desse tipo […]”.

No decurso de seu testemunho – ao contrário de Coustos, cinco anos depois, ele não foi ameaçado de tortura e fez seu depoimento por vontade própria – Hugo O’Kelly disse que tornou-se Maçom na Irlanda, antes de chegar a Portugal, por volta de 1734-1735. Ele descreveu os sinais feitos “com a mão direita”, que pertenciam às três classes de maçons, e acrescentou:

e há mais duas classes que eles chamam de Excelentes Maçons, e de Grande Maçom, que estão acima de todas as outras e superiores às que ele, a testemunha, exercitou”.[19]

2 – Inglaterra

Durante os últimos cem anos, a autêntica escola inglesa descobriu muitos fatos que não se encaixavam na teoria do nascimento francês dos graus Ecossais, mas seus membros estavam tão convencidos de sua verdade que nem parecem ter considerado “uma reavaliação dolorosa” da evidência. Nenhuma tentativa foi feita para investigar se esses fatos faziam parte de uma situação geral na Inglaterra. Nada aparentemente sobreviveu em termos de ritual ou conteúdo dos graus mencionados a seguir.

a) Listas antigas de Lojas, 1733 e 1734

Na lista de manuscritos de Rawlinson do ano de 1733, a Loja n°115 se reuniu na Devil Tavern, Temple Bar, Londres, e foi descrita como “uma Loja de Maçons Escoceses”. Na lista gravada de Pine, de 1734, a mesma Loja aparecia como uma “Scott’s Masons Lodge”. Em junho de 1888, depois de ter mencionado as duas listas e citado Gould (“Os graus escoceses parecem ter surgido, por volta de 1740, em todas as partes da França”), John Lane fez uma pergunta sensata:  

Agora, se os graus “escoceses”, ou Lojas “escocesas” se originaram primeiro na França, e não até 1740, duas questões surgem naturalmente. (1) Onde nossos irmãos ingleses obtiveram a denominação distinta de um “Scotch” ou “Scott’s Masons Lodge”? e, (2) o que constituía sua peculiaridade em 1733? Respostas satisfatórias a essas perguntas seriam muito aceitáveis, mas não posso fornecê-las.[20]

b) A Loja existente em Bear, Bath, 1735

“Em 28 de outubro de 1735 A Loja se reuniu Extraordinária quando o nosso Valoroso Irmão Dr. Kinneir foi admitido e tornado Maçom. […] Na mesma data Loja de Mestres reuniu-se Extraordinária e nossos seguintes Valorosos Irms foram tornados e admitidos Mestres Maçons Escoceses (Scots Mastr Masons). [ dez nomes]. Presente. Hugh Kennedy S.M., David Threipland S.S.W.[21], David Dappe S.J.W. ”

Edward Armitage transcreveu o texto acima do Livro de Atas da Loja e comentou:

Desses três, só Hugh Kennedy pertencia à Loja da qual ele era Mestre quando as atas começaram a ser lavradas, em dezembro de 1732, e quando a Loja foi constituída como Loja regular, em 18 de maio de 1733, saindo em 27 de dezembro de 1733. Encontrei o nome de David Threipland como membro da Loja em Bear and Harrow, na Butcher Row, em 1730. Dos que receberam grau, os quatro últimos não eram membros da Loja; Dr. Toy era D.M. do País de Gales enquanto Wm. Nisbett, Esc., e Henry Balfour, Esc. tiveram o grau de Mestre conferido a eles naquele dia, aparentemente, para permitir que eles passassem para o Grau de Mestre Escocês. Na reunião seguinte da Loja, em 17 de novembro de 1735, Hugh Kennedy, John Morris, B. Ford e David Threipland têm as letras S.M. após seus nomes.[22]

c) Old Lodge Nº.1, Londres, 1740

“17 de junho de 1740. | Os seguintes membros desta Loja | Esta noite foram feitos Mestres Maçons Escoceses pelo Irm. Humphry’s do Mourning Bush Aldersgte. | [seguem nove nomes]”

Harry Rylands transcreveu o texto acima do Livro de Atas C da Old Lodge nº 1, que em 1717 se reuniu no Goose and Gridiron em Londres, e escreveu:

Na ata acima, a palavra “Mestre” é escrita sobre a palavra “Maçons”; evidentemente, ele pretendia inicialmente escrever que os membros foram feitos “Maçons Escoceses” e fizeram a correção para “Mestres Maçons Escoceses”. Vale notar que apenas dois dos presentes na reunião de auditoria não foram nomeados maçons escoceses: Richard Wotton e Richard Reddall, e, a menos que se possa supor que eles já possuíam o grau e ajudaram Humphreys, deve-se concluir que os membros da Loja foram, como afirmam as Atas, “feitos Mestres Maçons Escoceses pelo Irm. Humphry’s” sozinho. Também pela forma do registro e pelo fato de que vários, se não todos, daqueles cujos nomes foram fornecidos já eram Mestres Maçons, o grau de Mestre Escocês deve ter sido algo diferente do grau que já haviam recebido na Maçonaria Inglesa. Sou inclinado a pensar que o grau dado na Loja por Humphreys não era o grau estrangeiro de mesmo nome, mas o mesmo que era dado nas Lojas de Scott’s [Master] Masons’ [17] de 1733-34.[23]

d) Lodge at the Rummer, Bristol, 1740

18 de julho de 1740: “Orden’do & acordado Que Irm. Tomson & Irm. Watts [1º Vig e 2º Vig p.t. ] e qualquer outro membro desta L. que já seja Mestre Maçom pode se tornar Mestre Escocês…”. 15 de agosto de 1740: “Ordenado – Irm. Byndloss seja na próxima noite pass’do f.c. e que os Mestres Maçons sejam feitos Mestres Escoceses e esta L. para se encontrar às 5 horas para esse fim”. 07 novembro de 1740: “segundo a ordem de [sic] 18 jul 1740 Ir. Watts & Ir. Noble & Ir. Ramsay e Horwood & Morgan foram elevados a Mestres Escoceses e, ao mesmo tempo, Ir. Wickham e Ir. Pirkins foram elevados a Mestres”.[24]

e) O H-d-m Escocês, ou Antiga e Honorável Ordem de K-n-g (1743 [ 1741?] – 1750)

Em 26 de novembro de 1743, o seguinte anúncio apareceu em um jornal de Londres:

Os Irmãos do H —— d—— m Escocês, ou Antiga e Honorável Ordem de K—— n—— g, desejam encontrar o Grão-Mestre da referida Ordem, e o resto de seus Grandes Oficiais, no sinal do Cisne na Great Portland-street, perto de Oxford-Market, na próxima quarta-feira, exatamente às três horas da tarde, para celebrar o Dia. Por ordem do Grão-Mestre, E.W., Grand Sec.[25]

Duas semanas depois, em 11 de dezembro de 1743, um Capítulo da Ordem foi formado na Golden Horseshoe, Cannon Street, em Southwark, um bairro de Londres. Foi o quinto capítulo pertencente à Ordem, mas o primeiro mostra quando foi formado, uma vez que os quatro anteriores que afirmavam ser de Tempo Imemorial. Outros anúncios relacionados à Ordem apareceram em 1 de agosto de 1750 (reunião da Grande Loja e Grande Capítulo, assinada “Por Comando do P.G.M., N.B.L.T.Y.  Grande Secretário”) e em 17 de novembro de 1753 (reunião do Grande Capítulo da Ordem H.R.D.M., assinado como acima).

Em 1750, um certo William Mitchell, de Haia, recebeu vários documentos da Ordem em Londres, entre os quais uma patente nomeando-o

Grão-Mestre Provincial da Ordem do H.R.D.M. em todas as Sete Províncias Unidas”. No corpo da patente, é feita referência ao “o Justo Honável e Justo Venável Príncipe e Supremo Governante e Governador do Grande S.N.H.D.R.M. e Grão-Mestre do H.R.D.M. de K.L.W.N.N.G.”. A patente foi entregue a Mitchell pelo “SIR ROBERT R.L.F. Cavaleiro da Ordem do R.Y.C.S., Guarda da Torre do R.F.S.M.N.T., Presedente dos Juízes e Conselheiro do Grande S.N.H.D.R.M. e Grão-Mestre Provincial do H.R.D.M. de K.L.W.N.N.G. no S.B.” e datado assim: “Dado sob minha mão e o | Selo do meu Escritório em Londres | neste vigésimo segundo dia de julho | A.D. 1750, A.M.H. 5753 e em | o Nono Ano do meu Provincial | Grão Mestrado”.[26]

De acordo com as últimas palavras, a Ordem deve ter existido em Londres pelo menos desde 1741. Pode ter existido mais cedo caso Sir Robert R.L.Fnão tenha sido seu primeiro Grão-Mestre Provincial de Londres.

3 – Prússia – novembro de 1742

A sexta edição (1903) da história da Grande Loja-Mãe Nacional dos Três Globos, em Berlim, inclui o seguinte:

Em 30 de novembro, dia de Sto. André, 1742, os irmãos Fabris, Roman, Fromery, Finster, Perard e Robleau, membros da Loja aux trois Globes, foram autorizados por ela a estabelecer uma Loja Escocesa sob o nome de l’Union “para deixar seus irmãos mais novos aspirarem à mais elevada ou assim chamada Maçonaria Escocesa”. Essa Loja Escocesa, composta por membros da Loja de São João, existia além dela, sem exercer nenhum tipo de autoridade sobre ela nem interferir de alguma forma com sua administração, e possuía seu próprio caixa.[27]

Jacopo ou Jacobus Fabris era ser eleito Mestre da Loja Três Globos de Berlim, em 30 de Outubro de 1744. Pintor, nascido por volta de 1689, em Veneza, e falecido em 1771 em Copenhague (Dinamarca), ele foi tornado Maçom na Union Lodge, Londres[28]. Philipp Friedrich Steinheil, fundador e primeiro Mestre da Union Lodge de Frankfurt am Main, em 1742, havia sido membro da mesma Loja em Londres junto com Fabris[29]. Nenhum dos nomes existe nas primeiras listas de membros, incluídas nos dois primeiros livros de atas da primeira grande Loja da Inglaterra, transcritos em Quatuor Coronatorum Antigrapha, vol. X (1913).

Quando Eric Ward mencionou a Berlin Union Lodge antes da Quatuor Coronati Lodge, em 1962, ele comentou:

o fato de as Lojas ‘escocesas’ (scots) terem sido montadas em 1742 em Berlim, em 1744 em Hamburgo e em 1747 em Leipzig, todas de origem francesa [?], parece provável [!] que o conhecimento do grau em sua forma primitiva em Londres e Bath em 1735 fosse, similarmente, derivado da França”.[30]

Para apoiar a origem francesa reivindicada para essas Lojas, Ward referiu-se em uma nota de rodapé a uma tradução, para o inglês, de Findel, originalmente escrita em 1866! Findel citou Lachmann, que afirmava que “o grau escocês de Ramsay chegou cedo na Alemanha, provavelmente através de Graf Schmettow”[31]. Lachmann acreditava na existência do mítico grau escocês de Ramsay e ignorava que dois maçons distintos se chamavam Schmettow. Não há evidências de que o barão Gottfried-Heinrich (1710-1762), tornado maçom na Três Globos, em 13 de setembro de 1740, alguma vez tenha tido algo a ver com os graus escoceses de Berlim. Seu primo, Graf Woldemar (Dresden, 1719 – Copenhague, 1785), fundou a primeira Loja Escocesa (Scotch Lodge) em Hamburgo, em 1744. Após 1746, sua carreira militar e maçônica transcorreu na Dinamarca[32].

4 – França – dezembro de 1743

Até onde sei, a primeira referência documental aos graus Écossais na França está incluída em um conjunto de regulamentos gerais adotados pela Grande Loja, reunida em Paris, em 11 de dezembro de 1743, no dia em que o conde de Clermont foi eleito Grão-Mestre, dois dias após a morte de seu antecessor, o duque de Antin. Seu vigésimo e último artigo diz:

Como parece que recentemente (depuis peu) alguns irmãos se anunciam como Scots Masters (maîtres Ecossais), reclamando prerrogativas em Lojas particulares e afirmando privilégios dos quais nenhum vestígio pode ser encontrado nos antigos arquivos e usos das Lojas espalhadas pelo globo, a Grande Loja, a fim de consolidar a unidade e a harmonia que deve reinar entre os maçons, decretou que esses Mestres Escoceses, a menos que sejam Oficiais da Grande Loja ou de uma Loja particular, não deverão ser tratados com mais consideração pelos irmãos do que os demais aprendizes e companheiros, e não devem exibir quaisquer sinais de distinção.[33]

A data de 11 de dezembro, 1743 em conjunto com as palavras depuis peu (recentemente) deveria ser mantida em mente ao se afirmar que os ‘altos’ graus se originaram na França.

Gould, membro do comitê designado pela Grande Loja Unida da Inglaterra, em 5 de dezembro de 1877, para considerar a recente ação do Grande Oriente da França, viu no artigo acima um sinal das “primeiras inovações no ritual” na França (History of Freemasonry, vol. III, 1886, p. 141). Eric Ward, embora familiarizado com a maioria das evidências inglesas acima citadas, chamou em seu socorro um trabalho escrito em 1797, por John Robison, um dos primeiros autores antimaçônicos, para justificar a opinião que expressou em seu artigo de 1962, assim:

A riqueza de referências a Mestres Escoceses (Scots Masters) na literatura do continente, em comparação com a escassez na Inglaterra (e a total ausência na Escócia), leva inevitavelmente [sic] à visão de que isso era de origem francesa. John Robison continua […] dizendo: “Aconteceu que a Maçonaria simples, importada da Inglaterra, foi totalmente alterada em todos os países da Europa, seja pela impressionante ascensão de irmãos franceses… ou pela importação de doutrinas e cerimônias das Lojas parisienses. Até a Inglaterra, local de nascimento da Maçonaria, experimentou as inovações francesas; e todas as repetidas injunções, advertências e repreensões das antigas Lojas não podem impedir que pessoas de diferentes partes do Reino aceitem as novidades francesas… (Provas de uma conspiração, p. 9).[34]

3 – Conclusão

Depois de colocar minhas informações à disposição do leitor, cabe agora a ele decidir se os graus Écossais (antes “altos”) se originaram na França ou em outro lugar… por exemplo, na Irlanda ou na Inglaterra.

Se ainda houver dúvidas em sua mente, devo lembrá-lo de uma observação feita por Henry Sadler, historiador inglês cujo bom senso e senso de humor eu admiro muito: Isso pode ser verdade ou não, você deve aceitar pelo que vale; de minha parte, direi digo francamente a você que não engulo tudo o que leio nas Enciclopédias, maçônicas ou não” (AQC 23, 1910, p. 327), palavras que, presumivelmente, também podem ser aplicadas a muitos livros maçônicos.

Autor: Alain Bernheim
Tradução: S.K.Jerez

Fonte: BIBLIOT3CA

Publicado originalmente em: Pietre-Stones Review of Freemasonry

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Notas

[1] – “A escola autêntica […] estava inclinada a considerar isoladamente os desenvolvimentos maçônicos em cada país“ (Douglas Knoop e GP Jones The Genesis of Freemasonry , 1947, p. 16).

[2] – A ideia parece inicialmente ser apoiada pela circular aprovada pelo Conselho Supremo dos Estados Unidos em Charleston, em 4 de dezembro de 1802 (Walgren Nr. 15, Heredom vol. 3, p. 69). Incluía um relatório escrito por três membros do Conselho, Frederick Dalcho , Isaac Auld e Emanuel De La Motta, que afirmavam: “Embora muitos dos graus sublimes sejam, de fato, uma continuação dos graus azuis, ainda não há interferência entre os dois corpos“. Quando a Circular foi reimpressa, alguns meses depois, em Charleston (Oration, 21 de março de 1803, por Frederick Dalcho, na sublime Grande Loja da Carolina do Sul, Charleston. Charleston [1803]. Walgren Nr. 22, ibid., P. 72), o parágrafo que inclui as palavras acima tornou-se uma nota de rodapé esclarecedora (Apêndice, p. 64) que Emanuel De La Motta achou importante o suficiente para reproduzir em sua ‘Réplica’, publicada em Nova York, em 5 de setembro de 1814, em nome de seu Supremo Conselho: “Embora os Sublimes Maçons, neste país, não tenham iniciado ninguém nos graus Azuis, ainda assim seus conselhos possuem o direito irrevogável de conceder mandados para esse fim. É comum no continente europeu e pode ser o caso aqui, caso as circunstâncias tornem necessário o exercício desse poder. A legalidade desse direito deriva da mais alta autoridade maçônica do mundo e pode ser demonstrada para a perfeita satisfação de todos os órgãos maçônicos, judiciais ou legislativos. […] “ A ‘Réplica’ de La Motta ou resposta à Réplica de Cerneau (Walgren Nr. 36, ibid. , P. 80-81) é reproduzida na íntegra em alguns livros relativamente escassos: Joseph M’Cosh , Documents on Sublime Free-Masonry in the United States of America, Charleston 1823 (Walgren Nr. 55, ibid., P. 90), citação acima, p. 62; Robert B. Folger, The Ancient and Accepted Scottish Rite, in Thirty-three degrees, […] Nova York 1862, citação acima no Apêndice, p. 155; [Charles S. Lobingier ], The Supreme Council, 33 ° , Louisville, Ky., 1931, citação acima, p. 112.

[3] – William Jenkinson , Two Hundred Years of Masonry in the City of Armagh’, The Lodge of Research, No CC, Ireland. Transactions for the Year 1925 (impresso em 1933) , p. 107 Jenkinson tornou-se membro da Quatuor Coronati Lodge em 1934. Morreu em 1956.

[4] – Jenkinson , ‘In the Days of our Forefathers: Old Customs of the Irish Craft’, The Lodge of Research, No CC, Ireland. Transactions for the Years 1939-46 (impresso em 1948), pp. 35-36.

[5] – O momento em que os Princípios Básicos foram adotados foi infeliz. Isso resultou em apoiar dois anos mais tarde as Grandes Lojas Alemãs, que tentaram lidar com Hitler e, eventualmente, expressaram sua concordância com ele, e se recusaram a reconhecer a nova Grande Loja Simbólica da Alemanha, fundada em 1930, que se opôs a Hitler desde o início.

[6] – A autenticidade do ritual impresso em Jachin e Boaz foi estabelecida sem dúvida por Paul Tunbridge em seu artigo sobre Emanuel Zimmermann (AQC 79, 1966).

[7] – Três batidas distintas e Jachin e Boaz , com uma introdução e comentários de Harry Carr , The Masonic Book Club, vol. 12, 1981, p. [181].

[8] – Ver Henri Amblaine [= Alain Bernheim ] , ‘Masonic Catechisms and Exposures’, AQC 106, 1993, pp. 150-151.

[9] – Ser ilógico é descrito como uma característica britânica comum por Knoop e Jones: “Para o bem ou o mal, a maçonaria de Londres e Westminster na época de Walpole mostrou as quesão consideradas como características britânicas comuns. Primeiro, pode-se notar uma relutância ou incapacidade de seguir um argumento até o fim, e uma disposição a se satisfazer com uma posição um tanto ilógica“(AQC 56 , 1943 , p. 48).

[10] – Atas da Philo Musicæ e Architecturæ Societas Apollini , citadas por Gould, AQC 16, 1903, pp. 113-114.

[11] – Fac-símiles de ambos os esboços são reproduzidos em AQC 57, 1946, entre as pp. 10 e 11.

[12] – AQC 57, 1946, p. 9. Texto corrigido por JH Lepper após as fotografias do manuscrito original (ibid., Nota de rodapé 1, p. 7).

[13] – Philip Crossle , ‘The Irish Rite’, Dirigido à The Manchester Association for Masonic Research, 31 de março de 1927. Reproduzido em The Lodge of Research, No CC, Irlanda. Transactions for the Year 1923 (impresso em 1929), pp. 155-275. Citação atual: pp. 160-161.

[14] – Crossle, ibid., p. 193. Richard E. Parkinson, no segundo volume de The History of the Grand Lodge of Free and Accepted Masons of Ireland (1957) , observou, p. 321: “A massa de evidências que ele [Philip Crossle ] apresentou é sólida, mas deve-se admitir que sua teoria, por mais atraente que seja, ainda não obteve o apoio de estudiosos maçônicos fora da Irlanda“.

[15] – Robert James Meekren (Londres, 1876 – 1963) passou a maior parte de sua vida no Canadá. Foi editor do The Builder de 1925 a 1930 (de acordo com Wallace McLeod, citado por Art deHoyos ) e tornou-se membro da Quatuor Coronati Lodge em 1949.

[16] – Coustos nasceu em 1702 ou 1703, em Berna (Suíça), e seus pais foram para a Inglaterra. Seu nome é listado em 1730 como membro da reunião da Loja no Rainbow Coffee House, em Londres. Então ele pertenceu a uma nova Loja em Londres, licenciada em 17 de agosto de 1732 sob o nº 98, que se reunia reunida na Prince Eugene’s Coffee House, e que iria tomar o nome de Union French Lodge, em 1739. Ele se mudou para a França por volta de 1736 e era o Mestre de uma Loja em Paris, cujas atas existentes vão de 18 de dezembro de 1736 a 17 de julho de 1737. Coustos deixou a França por Portugal em 1741 e fundou uma Loja em Lisboa. Foi preso pela Inquisição em 14 de março de 1743 e permaneceu na prisão por quinze meses, durante os quais foi interrogado várias vezes e torturado três vezes. Os registros dos interrogatórios, traduzidos para o inglês, foram publicados na AQC 66 (1956) e 81 (1968). Eles fornecem informações altamente interessantes sobre a prática ritual maçônica. Wallace McLeod dedicou dois artigos a Coustos e suas Lojas (AQC 92 e 95, 1979 e 1982) e escreveu a Introdução da reimpressão de Os Sofrimentos de John Coustos, anunciada para venda em Londres, em 31 de janeiro de 1746 (vol. 10 do The Masonic Book Club, Bloomington, 1979).

[17] – José A. Ferrer Benimeli , Masoneria , Iglesia e Illustracion , Madri 1982, vol. II., Pp. 440-468, apêndices n ° 45 A – 45 X.

[18] – Ver atas da Premier Grand Lodge, de 17 de abril de 1735, Quatuor Coronatorum Antigrapha, vol. X (1913), p. 254.

[19] – Vatcher , ‘A Lodge of Irishmen at Lisbon, 1738’, AQC 84, 1971, p. 88. Atas originais da Declaración de Hugo O’Kelly, Ferrer Benimeli , op. cit., vol. I, apêndice N ° 40 C, pp. 304-305: “[…] e há mais duas a que chamao mas apenas Chamao Massones Excelentes e e há mais duas a que chamao Massones excelentes, e Masson grande, que he sobretodos, e mais superioir a qual elle testemunha exercitava”.

[20] – John Lane, AQC 1, 1886-1888, pp. 167 e 173. Também ver John Lane, A Handy Book…, 1889, pp. 24-25, e W. J. Hughan , The Engraved List of Regular Lodges from A.D. 1734 , 1889, p. 26.

[21] – W. R. S.  Bathurst (AQC 75, 1962, p. 168) sugere que David Threipland era o 2º Baronete do Castelo de Fingask , perto de Dundee, que ingressou na Earl of Mar em 1715 e morreu em 1746, ou um dos os filhos dele.

[22] – Edward Armitage, AQC 32, 1919, pp. 40-41. Em 8 de janeiro de 1746, dois irmãos “hoje foram feitos Mestres Escoceses“. Cinco “foram feitos maçons escoceses“ em 27 de novembro de 1754. Em 17 de fevereiro de 1756, dois irmãos “foram devidamente elevados a Mestres Maçons Escoceses. Ao mesmo tempo, Thomas Miller, o Desenhador da the Bear Inn, e John Morris, o Telhador, ambos Servos desta Loja, foram, para a conveniência dos negócios desta Loja, também elevados a Mestres Maçons Escoceses“. Em 14 de abril de 1758, “a Loja achou extra’ para elevar [nove nomes] Maçons Escoceses“ (Atas da Loja, citado por Eric Ward, AQC 75, 1962, pp. 132-133).

[23] – Records of the Lodge Original, No. 1. Now the Lodge of Antiquity, No. 2. Editado por W. Harry Rylands , impresso em particular em 1911, pp. 105-106.

[24] – A Loja foi autorizada sob o nº 137, 12 de novembro de 1735. Seu primeiro livro de Atas foi comprado de particulares em 1924 (Cecil Powell, AQC 49, 1939, p. 160). Acima extratos desse livro de atas, citado por Eric Ward, AQC 75, 1962, pp. 131-132.

[25] – F. W. Levander , ‘The Collectanea of the Rev. Daniel Lysons , FRS, FSA ‘, AQC 29, 1916, p. 26. Ver R. S. Lindsay (editado por A. J. B. Milborne ), The Royal Order of Scotland , 1972, p. 26.

[26] – Citações da patente de Mitchell, de Lindsay, op. cit., pp. 40-41. Lindsay declarou: “a Ordem é especulativa e, um estágio além da Maçonaria Simbólica, […] a Ordem foi fundada entre 1725 e 1741 como um protesto contra a eliminação de elementos cristãos dos três graus de Maçonaria Simbólica. (Op. Cit., P. 25-26).

[27] – “Am 30. November, dem St. Andreastage , 1742, stifteten die Brr. Fabris , Roman, Fromery , Finster , Perard e Robleau der Loge aux trois Globes mit deren Genehmigung “ fur das Emporstreben ihrer jungeren Brr. zur höhere oder sogenannten schottischen Maurerei “ eine Schottische Lodge unter dem Namen de União , welche Dann neben der Johannisloge und aus Mitgliedern derselben Fortbestand , ohne irgend eine Hoheit uber diese auszuuben , sich auch em Deren Verwaltung nicht einmischte , vielmehr ihre eigene Kasse hatte “. Geschichte der Grossen National- Mutterloge in den Preussichen Staaten genannt zu den drei Weltkugeln , 6a ed., Berlim 1903, pp. 14-15.

[28] – K. L. Bugge , Det Danske Frimureries Historie indtil Aar 1765 , vol. 1, Kj¢benhavn 1910, p. 47.

[29] – Georg Kloss , Annalen der Loge zur Einigkeit , 1842, p. 9. Alain Bernheim, Les Débuts de la Franc-Maçonnerie à Genève et en Suisse,  1994, pp. 67-68.

[30] – Eric Ward, AQC 75, 1962, p. 160.

[31] – Dr. Heinrich Lachmann , Geschichte und Gebräuche der maurerischen Hochgrade und Hochgrad-Systeme , Braunschweig 1866, p. 4.

[32] – Matthias G., Graf von Schmettow , Schmettau und Schmettow , Geschichte eines Geschlechts aus Schlesien [ Schmettau e Schmettow, Story of a family from Silesia], Buderich bei Dusseldorf, 1961. Bugge , op. cit., p. 47. Bernheim , op. cit., p. 67.

[33] – O 200 artigo  foi conhecido por Daruty (Recherches sur le Rite Ecossais Ancien Accepté, 1879, p. 97) e por Gould (History of Freemasonry, vol. III, pp. 141-2). Ambos o retraduziram de uma tradução alemã reproduzida em Findel (3d German ed., 1870, p. 285), originalmente publicada em ‘Zeitschrift fur Freimaurerei‘ (Altenburg, 1836). Após a Segunda Guerra Mundial, o texto original do Regulamento Geral de 1743 foi considerado perdido pelos historiadores maçônicos franceses. Redescobri-o Library of the Grand East of the Netherlands, anunciando a descoberta em 1969, no Annales Historiques de la Révolution Française, e publicando-a em 1974 (Travaux de Villard de Honnecourt , Volume X).

[34] – Ver nota 30.

Cowans: os pedreiros sem a palavra – Capítulo Final

A Concise History of Freemasonry

Os Cowans no ritual maçônico francês

Em geral, os rituais franceses geralmente não ecoam o tema dos cowans, pelo menos sob esse termo anglo-saxão definido, embora seja verdade que ele foi traduzido ou recriado, geralmente sob outros significados, como intruso, ou como espião ou simplesmente como profano.

Diante dessa situação paradigmática, o professor D. Stevenson vem ao nosso apoio, quando nos diz que toda essa trajetória pelas terras francesas é quando se nota que tal palavra desapareceu dos rituais atuais e “provavelmente porque houve poucos historiadores da maçonaria que examinaram a questão, bem como as áreas que ela cobre, e até os próprios maçons não sabem muito bem o que essa expressão significa[1], além das expressões canônicas em uso e encontradas em alguns tratados e em muitas páginas da web nas quais são repetidas como papagaios.

Localizados nos primeiros textos pré-rituais originários das heranças dos Modernos, e gerado em solo francês, como foi o ritual Luquet de 1745.  Isso nos diz que o Guarda do Templo (Tuileur) tem o senso e o dever de afastar os profanos:

P. Pourquoi vous armez-vous de glaive in vos L. ? (Por que estais armado com uma espada dentro da loja?).

R. C’est pour écarter les profs. (Para afastar os profanos).

Neste momento, não estamos mais diante de traduções, mas pelo contrário, diante de produções rituais típicas da prática maçônica francesa, que em sua fraseologia nos lembram vagamente o tema dos famosos cowans anglo-saxões, neste caso quem intervém é o Tuileur (Telhador) do Luquet, tratando de afastar os profanos, que parece dirigir-se a eles como os chamados cowans, que estariam interessados em obter esse acesso sem saber muito bem  para quê e, por outro lado, não parece fazer muito sentido afastar  aqueles que poderiam ser candidatos adequados para fazer parte da fraternidade maçônica.

É claro que, no subconsciente coletivo, atua sob pressão da constante presença de bisbilhoteiros no entorno das lojas para poder dar prazer ao público que exigia esse tipo de material, conforme mostra a extensa lista de divulgações e exposições que foram publicadas ao longo do século XVIII, tanto na Inglaterra quanto na França.

A exposér que vaza alguns anos após o Luquet, sob o título: Antimaçons (1748)comunica existência de pessoas indiscretas e dedicadas à espionagem, e serem malignas em suas pretensões.

On peut s’en rapporter aux sots pour remarquer tout ils n’ont que cela à faire. Ils sont espions par malignité, & indiscrets par besoin de conversation.”

Nesse sentido, estamos diante de uma definição mais exata da situação pela qual passava a Maçonaria, pois estarem todos os seus rituais sendo vazados para a opinião pública, evidentemente com a intenção de desacreditar, e cuja forma de obtenção como foi vista no Prichard de 1730 através de espionagem, daí a essencialidade do Guardião do Templo externo.

A Condenação do Régulateur sobre artesãos e Companheiros

Mas enquanto todas as exposições francesas vão se mover nesse mantra da bisbilhotice e a intrusão, será um ritual do final do século como o Régulateur du Maçon, que vai além ao definir uma diretriz muito alinhada com o associativismo terminológico que venho comentando, já que no ritual do grau de Aprendiz, ao detalhar as condições para admissão, ele explica:

“Raramente se admitirá um artesão, mesmo que ele seja um Mestre, especialmente em lugares onde as corporações e comunidades não estejam estabelecidas.”

Procurando explicações para esta citação, que não é mais sobre os cowans operativos sobre os quais foi insuflada uma certa penalidade em forma de maldição, mas que transfere essa pressão para o setor artesanal francês, realizando uma transmutação que havia sido realizada antes sobre os artesãos canteiros sem a palavra, ou seja, os cowans, embora obviamente a história dos dois grupos de cantaria, tanto ingleses quanto franceses sejam radicalmente diferentes.

Para entender em parte a razão dessas omissões no tratamento e estudo sobre os cowans e as condenações sobre os Companheiros nos rituais, nos voltamos para a figura de Pierre Nöel, que nos explica por que significados, autores como Guenón[2], Dat ou Guyot não expuseram a existência dessas incongruências, e a explicação vem do fato de que parte desses estudiosos nunca leram os rituais operativos da Worshipful Society e autores do outro lado do canal como Bothwell-Gose ou Debenham, pelo contrário, nunca leram o Régulateur du Maçon.

E, portanto, a questão da rejeição pode ser observada no que é exposto pelo ritual Luquet, que é, por sua vez, uma espécie de enxerto operativo de origem inglesa na ritualidade francesa; é evidente que nesta história não brilham muito os cowans que, geralmente, são semienterrados sob outros nomes, como se pode observar nas exposérs francesas, exatamente até que o Regulateur, de uma maneira muito discriminatória, volta a colocar no tapete as velhas essências inglesas de rejeição a alguns setores operativos do início do século XVIII.

Não deixa de parecer estranho que o “esquecimento” por parte dos historiadores e estudiosos franceses sempre tenha sido muito exigente e mais sobre o fato de que essa curiosa dissolução terminológica do cowan tenha ocorrido com base em várias traduções pelas quais outros termos mais tradicionais, ligados ao determinismo hexagonal foram incorporados, cujas adaptações surgiram com base em situações e realidades muito diferentes, que viriam a criar fortes distorções semânticas e de interpretação histórica.

Em 1801, quando o Régulateur du Maçon é publicado na França pela mão do Grande Oriente da França, que codifica a prática dos Modernos, mostra uma frase que vem complementar aquela já anteriormente exposta à forte rejeição dos artesãos, a frase termina com esta determinação:

“Jamais se admitirão os trabalhadores chamados Companheiros (Compagnons) nas artes e ofícios.”[3]

Conhecidos são os embates históricos do Companheirismo (Compagnons) na história das construções religiosas e sociais ao longo dos diferentes séculos, tanto de caráter religioso, sindical e social, que levaram os poderes civis a perseguir tais guildas, tidas como revoltosas, o que não deixa de ser paradoxal que a mente coletiva maçônica, pelo menos no âmbito castelhano, continue a propor paralelismos estranhos, acreditando que são os mesmos ou semelhantes construtores de catedrais e maçonaria e, portanto, continua a ser mitologizada como algo próprio da Maçonaria especulativa por herança, quando na realidade, no caso da França, é mais uma questão muito mais de guildas de Ofício e dos Companheiros.

Portanto, depois de ler o vade-mécum sobre o trabalho do Companheirismo na França[4] fica bastante claro que a censura feita pelo Régulateur não deixa de ser  é uma recriação do malditismo dos artesãos e, portanto, dos Companheiros, o que nos vem lembrar os velhos cowans anglo-saxõesapesar de sua história registrar grandes confrontos com seus irmãos de confraria, mas nesse outro contexto de torná-los alvo de invectivas e objetos de perseguição e zombaria, o que no contexto francês afetaria os Companheiros.

E é nesse contexto que se pode entender como lógica a condenação exposta no Régulateur, que se destaca dos usos terminológicos equívocos mais atuais, tais como profano ou intruso, para inclinar-se em direção às raízes operativas, transformando o dardo da marginalização desta vez sobre os Companheiros (Compagnons).

No entanto, um especialista em questões de Companheirismo, como é Jean-Michel Mathoniere, indica que essa referência aos Companheiros no Regulateur não se refere aos  Companheiros de Dever, mas aos “Companheiros do mesmo sistema corporativo e gremial dos operativos”. Essa acaba sendo uma opinião bastante estranha, pois desde os tempos antigos estamos diante de uma queixa quase permanente sobre a possível presença de artesãos, como cowans, cuja maldição está incluída no relato bíblico de Ezequiel 13.  10-15:

“Porque inclusive seduziram o meu povo, dizendo: Paz; não havendo paz; e um construiu um muro e eis que os outros o sujaram com lodo solto.”

Nas referências a seguir, eles são tratados ou assemelhados a intrusos, e de abomináveis,  fazendo-os passar continuamente, como “ouvintes intencionais” que desejam entrar nas lojas e, assim, obter a Palavra de Maçom, ou seja querer passar-se por, em todo caso querer passar-se por maçons, uma opinião encontrada em ambos os lados do Canal da Mancha, nessa sequência, primeiro como cowans e depois como espiões intrusos, embora seja necessário esclarecer que alguns seriam ouvintes involuntários (cowans) e outros seriam os ouvintes intencionais (espiões), a serem finalmente assemelhados aos Companheiros, que definitivamente serão classificados como indesejados.

Pessoalmente, estou inclinado a pensar que o Régulateur, em seu preâmbulo, quer abranger precisamente aqueles artesãos, qualificados em alguns setores como “vis, sem elevação e sem mérito”[5] e os Companheiros, como um reflexo do repúdio a esse estamento, dada sua história como guildas dentro da articulação do ofício na França.

Os maçons de Teoria e de Prática

Se isso era pouco dentro desse imbróglio terminológico da França do século XVIII, que relaciona os cowans ingleses a espiões e intrusos, etc., é perturbado pela chegada de outros significados e concepções controversos encontrados nos rituais franceses, que versam sobre os maçons de prática e de teoria.

Embora não deixe de ser certo que este assunto apresente muitos problemas ao lidar tanto com o conceito quando com a historiografia.

Um dos primeiros rituais que expõe a questão colocada é o ritual Luquet (1745). Em seu catecismo baseado na troca típica de perguntas e respostas, destaca-se a pergunta:

P. Quantos tipos de maçons existem?

R. Existem dois tipos.

P. Quais são eles?

R. O M. de Teoria e o M. de Prática.

P. O que você aprende como M. de Teoria?

R. Uma boa moral, para purificar nossas maneiras e nos tornar agradáveis a todos.

 P. O que é um M. de Prática?

R. Ele é um pedreiro, que trabalha a pedra e que levanta colunas sobre suas bases.

Aqui vemos, como um maçom de teoria se tornaria o virtuoso maçom especulativo com base no aceitação de bons elos cavalheiros, que formarão a associação da Grande Loja de Londres, em vez disso, o maçom de prática é apresentado como um simples e tosco pedreiro que não parece ter outro objetivo senão erguer colunas, ele não é um construtor, mas sua missão parece mais simples, como os antigos cowans, erguer pilares.

P. O que aprendeis como M. de Teoria?

R. Uma boa moral, purificar nossos costumes, tornando-nos agradáveis a todo mundo. [novamente a presença dos cavalheiros ou gentis homens]

P. Quais são as principais qualidades de um M. de Teoria?

R. Ser um homem livre e discreto, igual aos príncipes reconhecidos por suas virtudes e amigo de Deus e do próximo.”

Eleva-se o elemento cavalheiro à categoria semidivina, ao contrário de como se expõe o artesão e o pedreiro, simplesmente um trabalhador da pedra, em que permanecerão pelo resto de suas vidas, pelo menos sob essa concepção medieval de estar sujeito ao ofício por toda a vida.

P. Que é o Maçom Prático?

R. Quem usa materiais nos edifícios.

P. Não pode ser tão virtuoso quanto nós?

R. Todo homem pode estar nesse estado; mas a grosseria e muitas vezes as razões mecânicas impedem praticamente que ele se una.

Essa discriminação é algo compartilhado por outra divulgação francesa do mesmo ano, a Sceau Rompu (1745) e que prossegue nessa mesma linha o Luquet em seus ditados, e onde essa exposição sobre a grosseria baseada na ruralidade como incapacidade de se projetar e ser portador de suficiente argamassa para que a Maçonaria lhe diga que

“não tem lugar para quem constrói suas paredes simbólicas sem o cimento do amor fraterno.”

Por outro lado, observar que na tradução apresentada pela editora Pardes esses dois termos foram traduzidos diretamente como “Maçons especulativos e Maçons Operativos”, conforme indicado na nota colocada no rodapé da página da tradução. O catecismo continua:

P. Quantas classes de maçons existem?

R. Maçons de teoria e Maçons de Prática.

P. O que aprendeis como M. de Teoria?

R. Uma boa moral, para purificar nossos costumes e nos tornar agradáveis a todos.

P. O que é um Maçom de Prática?

R. Um trabalhador de pedra que levanta perpendiculares (aprumadas) sobre suas bases.

Em relação ao exposto, insiste-se nesse erguer verticalmente de forma unânime, como aqueles que erguem muros e os Maçons de Teoria  seria o maçom especulativo que deve aprender, por sua condição, a obter uma boa moral, a purificar as maneiras e ser agradável a todos. Deverá observar o silêncio, o segredo, a prudência e a caridade, fugindo das calúnias e da intemperança, pois a Arte Real dos Maçons sempre teve o desejo de unir a prática da virtude e as artes liberais herdadas da antiguidade.

E esse objetivo é proposto à custa de rebaixar o pedreiro simples, maçom de prática, que lhes doou primeiro suas ferramentas e conhecimentos para com eles construir uma fraternidade, para depois despojá-lo de toda a sua ciência, de seu ser e estar no sítio da construção maçônica.

De qualquer forma, essa não é a novidade, mas que uma divulgação deixe tão claro que os maçons operativos não tinham nenhuma conotação espiritual ou esotérica e que obviamente não parecem ter eco na Maçonaria recém-criada por sua falta de empatia e amor fraterno, o que cria um paradoxo, já que tais afirmações vão contra a corrente mítica que elevou os maçons operativos como os grandes construtores das catedrais com toda a sua carga místico-esotérica.

Em textos como a Divulgação de 1745, ou a de 1748, Le Nouveau Catéchisme de Franc-maçons, ou os rituais do Marquês de Gages de 1763, ou mesmo nos rituais do Duque de Chartres de 1784, todos eles se alinham para deixar clara a razão diferencial entre Maçons Práticos e Teóricos (Operativos e Especulativos), e nessas apreciações não há grandes diferenças de conceito entre eles.

É mais um dos últimos rituais descritos como provenientes do ramo dos Modernos, e já terminando o século XVIII, como é o Corpo Completo da Maçonaria, adotado pela Grande Loja de França (1761 ou 1774) isso continua na mesma posição.

P. Quantos tipos de maçons existem?

R. Existem dois tipos: Maçons de Teoria e os Maçons de Prática.

P. Quem são os Maçons de teoria?

R. São aqueles que aprendem uma forma de moral, purificam seus hábitos e se tornam agradáveis a todos.

P. Quem são os Maçons de Prática?

R. São os que talham a pedra e erguem a perpendicular (aprumada) sobre suas bases.

Essas definições na instrução do Segundo Grau do Regulateur (1786), voltam a reafirmar, com uma diferença entre uma e outra, mas rebaixando cada vez mais as funções do Maçom de Prática.

P. Quantos tipos de maçons existem?

R. Existem dois tipos, uns de Teoria e outros de Prática.

P. O que os aprendem os Maçons de Teoria?

R. Uma boa moral que serve para purificar nossos costumes e nos tornar agradáveis ​​a todos os homens.

P. O que é um Maçom de Prática?

R. É o trabalhador da construção.

Essa ideia da distinção entre ambos será mantida até o final do século XVIII, embora em parte vá se dissolvendo gradualmente, mas mesmo assim, surge alguma divulgação tardia que se afasta de tais paradigmas, como é o caso de Mahhabone (1766), que vai um pouco mais longe ao deixar para trás, pois assume o novo estado no qual o novo membro da loja deve ter tanto de cavalheiro quanto de pedreiro:

P. O que aprendestes ao se tornar Cavalheiro Maçom?

R. O Segredo, a Moral e a boa camaradagem.

P. O que aprendestes ao se tornar Maçom do Ofício?

R. A talhar a pedra em esquadro, dar forma à pedra, possuir o nível de habilidade com a perpendicular (prumada).

É evidente que a exposição Mahabone assume e adota as duas tipologias, é claro a dos cavalheiros como seu fundamento essencial, mas assumindo o elemento operativo como uma herança valiosa que o ajudará a elevar-se até o novo estado que propõem os cavalheiros, os quais

“trabalham de segunda a sábado, com giz, carvão de madeira e uma panela que significa Liberdade, Fervor e Zelo, essa é uma proposta um pouco diferente do futuro universo especulativo.”

A herança dos Antigos e dos Cowans um século depois

No entanto, dentro da corrente dos Modernos e no seio do continente, essa questão praticamente desaparece, exceto pela exceção do Régulateur, que eu já expus antes, por outro lado e a título de contraste, expor que a corrente dos Antigos recupera a antiga linha marcada pelos preconceitos.

É assim que a situação é apresentada em um texto do Catecismo de Instrução do REAA da Grande Loja da Espanha (GLE)[6].

P. Um maçom pode seguir sendo um Cowan?

R. Aquele homem que ingressa por mera curiosidade, para ganhar posição social ou vantagens nos negócios, o falso maçom é o verdadeiro cowan, uma fonte sutil de problemas dentro do corpo do Ofício, que certamente afetará a vida da Irmandade. se não se tiver cuidado.

A pergunta que poderíamos nos fazer é: Por que se segue recolhendo em diferentes textos do REAA a proposta de Anderson de 1738 em um documento de 2011 da Maçonaria de tradição espanhola?

A julgar pelo que alguns maçons anglo-saxões expõem, isso é relativamente fácil de entender, uma vez que os cowans são elementos exógenos das guildas da maçonaria especulativa, uma vez que são trabalhadores sem a palavra, que desejam ingressar em nossas fraternidades… e, portanto, esse termo tem sido o ideal para definir a situação.

Podemos verificar o mesmo no Duncans´Masonic Ritual and Monitor de 1866, e pertencente à herança Antiga:

P. Brother Tyler, your place in the Lodge. (Irmão Guarda do Templo Qual é vosso lugar em Loja?)

R. Without the inner door. (Fora da porta interna)

P. Your duty there? (Qual é o seu dever ali?)

R. To keep off all cowans and eavesdroppers, and not to pas o repas any but are duly qualified and have the Worshipful Master´s permission. (Manter afastados todos os profanos e bisbilhoteiros, e não deixe passar ninguém devidamente qualificado e sem a permissão do Venerável Mestre.)

Como já expliquei, no restante dos cadernos rituais franceses de raiz Moderna do século XIX, perde-se praticamente toda a referência à persistência nessas tessituras, exceto no Rito Francês Filosófico que retoma a questão, mas a partir de perspectivas novas e diferentes.

Conclusões

Com base no exposto sobre os famosos cowans, pode-se resumir o que segue:

  • Temos no início de toda essa história na região anglo-saxônica alguns pedreiros rurais (wallers ou construtores de muros) coexistindo no tempo e, circunstancialmente, nos mesmos lugares com os poderosos setores do Ofício (Craft) de caráter marcadamente urbano: guildas, confrarias, corporações, etc. .
  • Pedreiros rurais apontados pelas corporações de ofício como pedreiros marginais, ou mão de obra eventual, a quem designam em vários documentos como “Cowans”. (Canongate, Glasgow, Morher Kilwinning, York, Lodge Aitchison´s Haven).
  • Cowans, que, nas Old Charges, e em alguns outros regulamentos e documentos, são mencionados em relação ao exercício e regulamentação do Ofício, nos quais lhes são atribuídas uma certa especificidade profissional de natureza rural limitada à construção de muros e pequenas construções no meio rural e, portanto, a eles são reduzidos as áreas de trabalho e dedicação. (Estatutos de Shaw, manuscritos DumfriesWilkinson).
  • Termo que provém dos usos operativos da Escócia e que aparece em solo inglês e seus textos regulatórios no final do século XVII e início do século XVIII, estendendo esse termo em relação à Maçonaria a qualquer pessoa que não fosse um maçom especulativo.
  • Como tais trabalhadores da cantaria rural não estavam inseridos nos grupos das guildas urbanas do Ofício, ficando à margem da posse da Mason’s Word (Palavra do Maçom), que dava opção para mais benefícios de trabalho ou proteção.
  • Tais cowans aparecem no seio da ritualidade no início do período especulativo como tais cowans, mas também sob descrições: espiõesintrusos, etc., e sob o pretexto de entrar secretamente na Maçonaria, conforme apresentado em diversos textos. (Confissão de Maçons, Constituições de Anderson,)
  • São o resultado de campanhas de assédio e ridicularização, tanto nos rituais quanto por outros meios: canções e desenhos, nos quais são apresentadas como tal e conforme ocorre  no Ahiman Rezon, como imorais e abomináveis.
  • Na ritualidade francesa, o termo cowan vai adquirindo outros significados já comentados:  espiõesintrusos, e como profanos indignos, perdendo a raiz original, aparecendo certos problemas de tradução e interpretação ao perder a raiz.
  • A adaptação do termo cowan nos meios de comunicação de massa maçônicos franceses transformou sua presença como maçons de prática, como um ponto de ruptura e separação entre o mundo operativo e o mundo especulativo, que se apresenta como um simples obreiro que levanta colunas e sem atitudes, devido à sua grosseria.
  • Volta ao conceito de marginalização operativa, ou seja, considerando cowans certos setores do Ofício: os artesãos e os Companheiros(Régulateur du Maçon).
  • Desaparecimento prático, dentro da raiz dos Modernos no século XIX, de tais significados denegridores.
  • Presença dos velhos clichês operativos dentro da corrente dos Antigos e até o século XIX. ( Ritual e Monitor de Duncans)

Em geral, este estudo quis demonstrar como um termo que esteve presente por mais de um século em nossos rituais, como os cowans, foi sendo alterado em termos de definições, disseminação e desenvolvimento, em cujo setor do Ofício foi marcado com sangue e fogo sob alguns conceitos como pedreiros, artesãos ou companheiros, mas sob percepções ou tratamento pejorativos como espiões, intrusos, detestáveis ou abomináveis de quem a Maçonaria se serviu para denegrir e atribuir certas atitudes, quando, de fato, como diz Bob Walker da Grande Loja da Escócia, nunca esses [cowans] representaram um problema ou uma ameaça para Maçonaria[7].

No entanto, houve toda uma concomitância em querer apresentar os cowans sob diferentes denominações como pessoas que não são capazes de construir nada no seio da Maçonaria, porque lhes faltariam, como diz um maçom inglês “o cimento que supõe o amor fraternal”, recorrendo à mesma Bíblia em que o livro de Ezequiel 13:10-15 dedica um flagelo cruel a esses simples pedreiros rurais que constroem muros sem argamassa.

“Deste modo, destruirei o muro que vós cobristes com lodo solto, e o jogarei por terra, e sua fundação será descoberta e cairá, e sereis consumidos no meio dela; e sabereis que eu sou Jeová. Assim, cumprirei minha fúria no muro e naqueles que o cobriram com lodo solto; e eu vos direi: Não existe muro, nem quem o revestiu.”[8]

Não deixa de ser curioso que uma fraternidade como a maçônica, baseada no objetivo de “reunir os dispersos”, tenha mantido essa discriminação e denigração por tanto tempo.

Um termo como “cowans” que, se não fosse pela atenção ou estudo de autores como Mackey, Joseph Fort Newton, Henry Carr ou Sudarkis…, teria sido esquecido, perdendo toda a sua marca.

Estas são as investigações e reflexões que pude conceber para trazer à tona as velhas dúvidas maçônicas que desde a idade de aprendiz maçom eu vinha arrastando em relação a esses estranhos pedreiros rurais, os cowans.

FINIS

Autor: Victor Guerra
Tradução: José Filardo

Fonte: BIBLIOT3CA

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Publicado originalmente em: ritofrances.net/

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Notas

[1]Stevenson, David.Les Premiers Francs-Maçons. Les Loges Écossaises originelles et leursmembres. Éditions Ivoire-Clair. 2000.

[2]http://pierresvivantes.hautetfort.com/archive/2013/12/15/rene-guenon-et-les-origines-de-la-franc-maconnerie-les-limit-5247265.html#_ftn3, (René Guénon y los orígenes de la masonería: los límites de una mirada).

[3]Régulateur du Maçon. Editor Masonica. Es.

[4] – Berton, Hugues ; Imbert, Christelle. Les Enfants de Salomon. Approches historiques et rituelles sur le Compagnonnages et la franc-maçonnerie. Éditions Dervy. 2015.

[5] – Anatole de Maontaignon. Etat des ouvriers ramenés d’Italie par Charles VIII, 1497-8. Archives de L´Arte Français. T. 1. 1906.

[6]Lectura de Instrucción por preguntas y Respuestas, basadas en los catecismos y textos tradicionales del REAA. GLE. 2011.

[7] – Are there Cowans in our midst? http://www.themasonictrowel.com/Articles/General/other_files/are_there_cowans_in_our_midst.htm

[8] – Ezequiel 13. 14-15

Forces Occultes (1943) – O Filme

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O filme, uma propaganda nazista anti-maçônica, se passa na França, durante o governo de Vichy (1940-1944). Foi  o primeiro filme mostrando os segredos da maçonaria em telas de cinema, apresentando uma Cerimônia de Iniciação. Tem como subtítulo Os Mistérios da Maçonaria. Hoje a maçonaria é revelada em Hollywood, nas livrarias e na web.

Clique no link abaixo e digite a P∴S∴ de Apr∴ (primeira letra maiúscula) para ter acesso ao vídeo:

https://opontodentrocirculo.com/2017/12/07/forces-occultes-1943-o-filme/

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