Maçonaria moderna: o legado escocês – Parte II

The Freemasons Hall, home of The United Grand Lodge of England: Uncovering  a few hidden treasures | Masonic lodge, Masonic, Freemason

Segundo Stevenson (2009), referindo-se à maçonaria na Escócia, “já em meados do século XVII, podem ser detectados nas Lojas ideais semelhantes, em muitos aspectos, aos da maçonaria moderna, além de um significativo número de homens que não eram pedreiros sendo admitidos nelas”. Estendendo-se até século XVIII, afirma que “uma das funções básicas de muitas Lojas era regulamentar a vida profissional dos pedreiros livres”.

Vale destacar que, já em 1600, registrou-se o ingresso de Sir John Boswell, iniciado na Loja Capela de Santa Maria em Edimburgo na Escócia, considerado um dos primeiros maçons “não operativos” ou “aceitos” conhecidos. Registre-se que, até o Tratado da União de 1707, que criou o Reino da Grã-Bretanha, a Escócia era um país considerado inimigo da Inglaterra. Outro renomado iniciado foi Elias Ashmole (1617-1692), antiquário, político, oficial de armas, estudante de astrologia e alquimia britânico, recebido em uma confraria dos obreiros maçons em 1646, em Warrington (condado de Lancashire/Inglaterra), pertencente ao grupo de cientistas e livres pensadores que mais tarde fizeram parte da Sociedade Real de Londres (Royal Society), que nenhuma relação tinha com a Maçonaria.

Destaca Benimeli (2007), jesuíta e historiador não maçônico, que na Escócia, “em 1670, na Loja de Aberdeen, três quartos de seus 40 afiliados eram advogados, médicos e comerciantes. Exatamente nessa Loja já existia a distinção entre os construtores de edifícios e aqueles que se de dedicavam às especulações sobre geometria”.

O período de transição entre a Maçonaria Operativa e Especulativa teve mais consistência entre 1660 e 1716, segundo o historiador alemão Findel (citado por Benimeli, 2007), época de distúrbios civis. Transcorridos 117 anos desde a afluência dos “aceitos”, não mais atuava a força operativa que dera origem àquelas organizações, passando os associados à condição de especulativos, com os encargos das atividades operativas deixadas aos cuidados dos sindicatos e partidos políticos.

Por sua vez, Stevenson (2009), argumenta que evidências do século XVII relacionadas ao desenvolvimento da Maçonaria são abundantes na Escócia e quase inexistentes na Inglaterra. Afirma que em Lojas na Inglaterra, desde a década de 1640, é registrada a iniciação de cavalheiros, mas o processo é mais obscuro.

“O elo com os pedreiros e suas organizações era fraco, e os segredos possuídos pelos maçons ingleses e suas organizações em Lojas parece ter vindo da Escócia, sugerindo que, enquanto lá a maçonaria surgira das verdadeiras práticas de pedreiros trabalhadores, na Inglaterra ela fora, pelo menos em parte, importada da Escócia, em Lojas sendo criadas por cavalheiros e para os cavalheiros.” (grifo nosso).

Pesquisas indicam que nos registros ingleses no ano de 1600, o sistema de guildas já estava enfraquecido, não podendo ser comprovada a existência de Lojas Operativas. É nesse contexto que reside o busílis, dando respaldo para os críticos de uma transição não documentada, evidenciando-se o surgimento de lojas maçônicas na Inglaterra com caráter puramente especulativo, que Stevenson (2009) denomina de “artificiais”. Remanesce, portanto, a dúvida quanto à condição dos não operativos, se seriam ou não efetivamente especulativos ou, ainda, se poderiam ser equiparados à condição de membros honorários, como se conhece atualmente.

Provisoriamente, o que se sabe, é que tudo isso desaguou em 1717, no dia 24 de junho, quando três lojas londrinas e uma loja de Westminster, cujos membros eram então exclusivamente especulativos, numa tacada de mestre, formaram a Grande Loja de Londres e Westminster, marco histórico que introduziu o sistema Obediencial, incorporando cerimônias e regras tradicionais das antigas Lojas de obreiros-aceitos, tipo copia e cola avant la lettre do modelo escocês, com a eleição de um Grão-Mestre (Anthony Sayer) e outros oficiais.

Com isso, personalidades como James Anderson e J. T. Désaguliers, seguidores de Lutero, passaram elaborar a maior parte do material então adotado. Anderson (1679-1739), escocês de Aberdeen, ordenado ministro presbiteriano da Igreja da Escócia em 1707, e profundo conhecedor da evolução das Lojas em seu país de origem, é considerado o autor do documento de fundação da moderna Maçonaria Especulativa, publicado em 1723, no qual faz referência à célebre reunião da noite de São João do ano 1717 como data de fundação da primeira Grande Loja (vide Nota 1).

Na elaboração de sua Constituição, onde produziu uma apologia sobre os antecedentes históricos da “entidade então restaurada”, Anderson buscou subsídios nos antigos manuscritos, estatutos e regulamentos da Maçonaria Operativa da Escócia, Inglaterra e Itália. Conforme afirma Anatalino (2007), Anderson estipulou que nenhum irmão poderia ser supervisor (entenda-se Vigilante), sem antes ter passado pelo grau de Companheiro; nem Mestre (entenda-se Venerável) antes de ter exercido as funções de supervisor (Vigilante).

A admissão de novos membros ficou então condicionada ao atendimento do pré-requisito de crença em um Ser Supremo, admitindo-se homens de todas as religiões e tendo como tema central o comportamento moral, o auto aperfeiçoamento constante e a dedicação à caridade. A Maçonaria foi acusada de descristianização em 1723, com a permissão de entrada de adeptos de outros credos que não o catolicismo.

Essa “transição” da Maçonaria dos Aceitos, desde 1600 na Escócia, para a condição de Especulativa por excelência ou Maçonaria Moderna, como se afirma desde então, exigiu adaptação dos títulos maçônicos para fins de adequação a uma estrutura que funcionaria nos moldes de uma escola, com a escolha de alguns Mestres entre os Companheiros para administrar e conduzir os trabalhos. Não há indícios de que, na época, os ingleses pensassem numa confederação que se estendesse além de Londres e de Westminster. Pouco a pouco, outras Lojas Maçônicas, a maioria em torno de Londres, uniram-se à nova Grande Loja.

Segundo Stevenson (2009), a partir do século XVIII, os ingleses começaram a inovar e adaptar o movimento e assumindo a liderança no desenvolvimento da Maçonaria originária na Escócia, afirma, com alguns dos valores associados ao Iluminismo sendo incorporados. “À medida que a Idade da Razão alvorecia, a maçonaria – nascida da Renascença – era adaptada para acomodar-se ao novo clima”. Segundo o irmão Alex Davidson, “a maçonaria ‘especulativa’ pode ter-se desenvolvido a partir da influência de William Schaw na Escócia e posteriormente disseminada para Inglaterra, mas a essência da maçonaria iluminista é caracteristicamente inglesa, e o que foi reexportado para a Escócia no início do século XVIII era algo novo. A ênfase em constituições, leis e governança originou-se em Londres”.

Stevenson (2009) ressalta ainda que, “começando na Grã-Bretanha, a maçonaria se espalhou pela Europa em meados do século XVIII, de uma maneira assombrosa”. Contrapondo-se à corrente inglesa, comenta que a criação da Grande Loja de Londres em 1717 “é quase irrelevante no longo processo de avanço do movimento, pois embora a Grande Loja Inglesa tenha tido um importante papel na organização da maçonaria, quando fundada ela apenas reuniu quatro Lojas de Londres”. Porém, aduz que “o fato de a Inglaterra ter dado o primeiro passo em direção à organização nacional e de tal gesto ser imitado subsequentemente na Irlanda (c.1725) e na Escócia (1736), levou muitos historiadores maçônicos ingleses a concluir levianamente que a maçonaria se originou na Inglaterra, que depois teria passado para o resto do mundo”.

As lojas maçônicas passaram a ser consideradas como centro de influência inglesa e, portanto, contrárias aos interesses das famílias dinásticas europeias, de orientação católica. Provocaram incômodo nos poderes dominantes de cada país, despertando o receio de conspirações para derrubada e tomada do poder pelo grande afluxo de nobres e aristocratas aos seus quadros. Não podemos olvidar que, desde o rompimento com a Igreja Católica e a criação da Igreja Anglicana, em 1534, a Inglaterra ignorava a autoridade do Sumo Pontífice. O rei Henrique VIII se autoproclamara único protetor e chefe supremo da Igreja e do clero da Inglaterra e confiscou, à época, todos os bens da Igreja Católica e aboliu o celibato dos padres.

A primeira objeção formal ao conceito de Grande Loja veio em 1725 pela Loja Maçônica de York, localizada na cidade inglesa de mesmo nome, frente à assumida superioridade e antiguidade dos londrinos. No ano de 1737, teve início uma explosão da Maçonaria na França, dando “início à proliferação de novas ordens maçônicas e à criação de novas lendas e fantasias que confundem qualquer tentativa séria de compreender a maçonaria moderna, mesmo nos Estados Unidos”, conforme registra o historiador não maçônico John Robinson (2014).

Na antiga Maçonaria Operativa não existia o grau de Mestre, apenas os de Companheiro (Fellow) e Aprendizes. O titulo de Mestre era dado apenas ao presidente da Loja, eleito entre os Companheiros ou adquirido por herança. O Grau de Mestre Maçom somente seria implantado a partir de 1738, apesar de criado em 1725, quando a Maçonaria passou a ser iniciática. Até 1725 não havia “Iniciação” e sim uma “Recepção” de um novo membro ou sócio, que consistia de um compromisso prestado sobre o Livro de Registro da Confraria e, tempos mais tarde, sobre o Evangelho de São João (Carvalho, 1997). Outras fontes registram a criação deste grau em 1723 e efetiva implantação em 1738.

A confusão com caráter religioso deu-se com o formato das cerimônias no recinto das Lojas, que levaram a Maçonaria britânica das tabernas para salas e edifícios construídos especialmente para isso, introduzindo-se música de órgão e a composição de hinos a ser cantados pelos irmãos. Funerais maçônicos, preparados com os emblemas da Ordem, ocorriam em Igrejas Protestantes, onde, após o ministro terminar seu serviço, os maçons tomavam a vez com os próprios ritos, dando a entender ao público de que a Maçonaria era uma Ordem “religiosa” à parte.

Um famoso personagem, iniciado em 1730, motivo de controvérsias e considerado responsável pelo prestígio da Maçonaria, foi o também escocês Michel Andrew Ramsay (1686-1743), “profundo conhecedor da história antiga e moderna, doutor pela Universidade de Oxford e membro da Sociedade Real de Londres, como muito outros maçons proeminentes da época” (Figueiredo, 2016). A ele é atribuído um polêmico discurso, “não pronunciado”, segundo consta, publicado em 1738, que ligaria a Maçonaria aos nobres das Cruzadas, argumento considerado uma invencionice, sem comprovação histórica, mas que promoveu uma efervescência à época, inclusive influenciando na elaboração e desenvolvimento dos altos graus maçônicos entre 1740 e 1780. Nesse discurso é dado um ar de aristocracia à Maçonaria. Os detratores do Cavaleiro Ramsay argumentam que ele não aceitava a verdadeira origem humilde dos maçons construtores e analfabetos, tendo então inventado essa narrativa.

A Maçonaria despertou mais inimizades do que qualquer outra organização secular na história mundial. Difamadores ganharam força ao longo do tempo em face da tradição da Maçonaria em não responder aos ataques, beneficiando-se do conceito de “confissão de silêncio”, mesmo atualmente com a sociedade dominada pela mídia. Por isso, “os Maçons podem estar destinados a permanecer controversos, embora a legião de críticos sejam facilmente desafiadas pelas legiões de notáveis que escolheram ser membros dela” (Robinson, 2014).

Com a expansão da Maçonaria a partir da fundação da Grande Loja da Inglaterra e Westminster e os novos pensamentos elaborados pela dupla Anderson & Désaguliers, passou-se a exigir que as demais Lojas europeias lhe rendessem obediência. Mas, isso causou repercussões no âmbito da Igreja Católica, então Senhora do Mundo, que entendeu não ter reconhecido tal direito às quatro Lojas de Londres, pois cabia a Roma a competência para delegar poderes e concedê-los absolutos dentro dos comportamentos humanísticos, coroando reis e dando forma jurídica às nações.

A Maçonaria passou, então, a ser vista pela Igreja Católica como uma “seita” vinculada à dissidente religião Anglicana. Por isso, nos séculos seguintes, “a maçonaria foi alvo de mais bulas e encíclicas papais odientas do que qualquer outra organização secular na história cristã” (Robinson, 2014). (Sugerimos a leitura do artigo “Maçonaria e Igreja Católica, reconciliação improvável” – Partes I, II, II e IV, em:  https://opontodentrocirculo.com/2018/10/08/maconaria-e-igreja-catolica-reconciliacao-improvavel/).

A Maçonaria inglesa passou ainda por ajustes, tendo em vista a formação de uma Potência rival em 1751, a Grande Loja da Inglaterra, que se apresentou como depositária das Antigas Instituições. Lawrence Dermott (1720-1791), irlandês, eleito segundo Grande Secretário em 1752, escreveu em 1756 o “Ahiman Rezon”, adotado como Constituição para suas Lojas jurisdicionadas. Dermott combatia a narrativa lendária da Maçonaria criada por James Anderson, a quem denominava de “Modernos”. Em 1813, as duas se uniram, formando a Grande Loja Unida da Inglaterra (GLUI).

O primeiro Templo Maçônico inglês fixo foi construído entre 1772 e 1776, o conhecido “Freemason Hall”. O Grande Oriente da França (GOF), nascido em 1728, como Primeira Grande Loja da França, tendo tomado a sua forma e atual nome em 1773, conseguiu, no ano de 1788, o seu primeiro Templo, proibindo a reunião em tabernas, a partir de então. Entretanto, por divergências de práticas, o GOF não tem tratado de reconhecimento junto à Maçonaria inglesa. Somente a Grande Loja Nacional Francesa (GLNF), fundada em 1913, a partir do GOF, tem reconhecimento junto à GLUI. Enfim, no que se refere aos Protocolos e práticas litúrgicas e ritualísticas adotadas pelas diversas Potências, são marcantes as influências anglo-saxônica (teísta) e francesa/latina (deísta), sobre a estrutura do simbolismo do REAA, em especial, considerando-se que cada país preserva sua autonomia para defini-los.

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

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Referências

ANATALINO, João. Conhecendo a Arte Real. São Paulo: Madras, 2007;

ASLAN, Nicola.  A Maçonaria Operativa Escocesa. Disponível em https://www.revistaartereal.com.br/wp-content/uploads/2014/02/A-MACONARIA-OPERATIVA-ESCOCESA-Nicola-Aslan.pdf

CARVALHO, Assis. A Descristianização da Maçonaria. Londrina: Ed. “A Trolha”, 1997;

DAVIDSON, Alex. O Conceito Maçônico de Liberdade – Maçonaria e o Iluminismo. Artigo em: https://bibliot3ca.com/o-conceito-maconico-de-liberdade-maconaria-e-o-iluminismo/

FERRER-BENIMELI, José Antônio. Arquivos secretos do vaticano e a franco-maçonaria. São Paulo: Madras, 2007;

FIGUEIREDO, Joaquim Gervásio. Dicionário de Maçonaria: seus mistérios, ritos, filosofia, história. São Paulo: Pensamento, 2016;

MELLOR, Alec. Os Grandes Problemas da Atual Franco-Maçonaria – Os novos rumos da Franco-Maçonaria. São Paulo, Pensamento, 1976;

OLIVEIRA FILHO, Denizart Silveira. Da Iniciação Rumo à Elevação. Londrina: Editora Maçônica “A Trolha”, 2012;

___________________________. Da Elevação Rumo à Exaltação. Londrina: Editora Maçônica “A Trolha”, 2013;

ROBINSON, John J. Nascidos do Sangue. São Paulo: Madras, 2014;

STEVENSON, David. As Origens da Maçonaria: O Século da Escócia (1590 – 1710). São Paulo: Madras, 2009;

VICENTINO, Cláudio. História Geral. São Paulo: Editora Scipione, 1992;

XAVIER, Arnaldo. Saiba o que são Maçonarias. Belo Horizonte: Label Artes Gráficas, 2010;

Blog do Pedro Juk, em: http://pedro-juk.blogspot.com/

Blog “Freemason”, em: http://www.freemasons-freemasonry.com/regius.html

______________, em http://maconico.com.br/a-carta-de-bolonha-1248-o-mais-antigo-documento-maconico-freemason-pt/

Blog “No Esquadro”, em:  https://www.noesquadro.com.br

Blog “O Ponto Dentro do Círculo”, em: https://opontodentrocirculo.com/2019/10/08/a-maconaria-inventada/

_________________________, em: https://opontodentrocirculo.com/2018/06/03/o-manuscrito-cooke/ _________________________, em https://opontodentrocirculo.com/2021/02/06/consideracoes-sobre-o-poema-regius-do-seculo-xiv/

Origem e evolução dos Cargos em loja da Maçonaria e dignidades maçônicas na Grã-Bretanha do século XVII até nossos dias – Parte III

Avental Provincial De Chester - Colecionador - Maçonaria | Mercado Livre

III – As Grandes Lojas provinciais

Desde meados do século XIX, existem Grandes Lojas provinciais na Inglaterra. Estas Grandes Lojas são dirigidas pelos Grãos Mestres Provinciais (nomeados pelo Grão-Mestre) e os Oficiais provinciais que usam decorações comparáveis às dos Oficiais da Grande Loja Unida da Inglaterra, com a famosa “liga azul”, o azul da Ordem da Jarreteira. As Grandes Lojas Provinciais cobrem todo o país, com exceção da região de Londres administrada diretamente pela GL. Esta particularidade destaca a verdadeira função dessas Grandes Lojas. De fato, para entrar no cursus honorum da maçonaria inglesa deve-se necessariamente começar pelo escalão provincial. Como os irmãos de Londres não contavam com isso, foi criado para eles no início do século, o “London Rank” e depois o “London Grand Rank,” que são o equivalente exato de uma dignidade de Grande Oficial provincial na jurisdição de Londres. Todos os anos são criados cerca de sessenta “Active Grand Rank” e cerca de 200 “Past Grand Rank[10], que envergam, evidentemente, a “liga azul”. Assim, constata-se que os cargos provinciais (ou seus equivalentes) são usados essencialmente para outorgar honras maçônicas[11] a irmãos que, por definição, são todos Past Masters. As Grandes Lojas provinciais, portanto, têm um papel muito mais honorífico que administrativo[12].

História das dignidades de Grandes Lojas Provinciais

Nas Constituições de 1738, não encontramos nenhuma provisão relativa aos Grandes Oficiais Provinciais (e muito menos aos Grãos Mestres Provinciais), embora saibamos que eles já existiam. Mas, o fato de que havia Grãos Mestres Provinciais não significa em absoluto que havia Grandes Lojas Provinciais. A distinção pode ser sutil, mas não deixa de ser real. Os Grãos Mestres provinciais realmente apareceram antes das Grandes Lojas provinciais.

Muito cedo na história da maçonaria inglesa, nomeavam-se dignitários para representar o Grão-Mestre nas províncias. Estes representantes eram titulares de uma missão que lhes era confiada pessoalmente (eram os Grãos Mestres Adjuntos para as províncias), mas eles não estavam no comando de uma estrutura administrativa regional com que tivessem de se ocupar.

Isso de fato permite entender, de passagem, uma expressão ambígua e muitas vezes citada das Constituições de 1738, sobre países estrangeiros:

“todas as lojas estrangeiras [isto é, fora da Inglaterra] estão sob o patrocínio do nosso GM, mas a antiga loja da cidade de York e as lojas da Escócia, Irlanda e France[13] e Itália[14] assumindo que tenham sua independência [affecting independency] e seu próprio Grão-Mestre, e que tenham a mesma constituição, os mesmos deveres e as mesmas regras que nós e que elas tenham o mesmo zelo com o estilo da Augusta e o segredo de nossa antiga e honrosa fraternidade.”

Este texto nos ensina que, na época de Anderson, havia dois tipos de Grão-Mestre. De um lado, havia Grãos Mestres colocados no comando de Grandes Lojas “presumindo sua independência” em relação a Londres e, de outro lado, Grãos Mestres nas províncias inglesas sob o controle do Grão-Mestre da Inglaterra. Esses últimos eram Grãos Mestres intuitu personnae, como pessoa, e, portanto, não estavam à frente de Grandes Lojas provinciais em sentido estrito do termo. Assim, a expressão “affecting independency” não é uma contestação dessa independência por Londres, como alguns autores estimaram imprecisamente, mas a constatação de uma situação diferente da que prevalece na Inglaterra, onde os Grãos Mestres Provinciais dependem diretamente do Grão-Mestre.

A primeira referência oficial aos Grãos Mestres Provinciais na Inglaterra encontra-se nas atas da Grande Loja em 1747. Naquela época, na hierarquia das dignidades, eles ficavam depois[15] dos Primeiros Grandes Vigilantes e antes do Grande Tesoureiro.

Em 1756, no livro das Constituições chamadas “d’Entick” (1ª edição), definem-se regras específicas relativas aos Grãos Mestres. Lê-se:

“O cargo de Grão-Mestre Provincial foi considerado particularmente necessário desde o ano de 1726 [note-se que não se pretende que existissem então Grandes Lojas Provinciais], quando do aumento extraordinário do número de obreiros [ou seja, de homens do Oficio], e suas viagens às vezes a partes mais remotas do mundo, a necessidade de que eles tenham à sua disposição uma autoridade própria.”

Isto se dá devido ao afastamento dos irmãos da metrópole que foi criado o cargo de Grão-Mestre Provincial para lhes dar um chefe por delegação. O Artigo II dessas Constituições afirma que “a nomeação deste Grande Oficial é uma prerrogativa do Grão-Mestre que lhe outorga sua delegação”, e que “o Grão-Mestre Provincial assim delegado tem o poder e a honra de um Grão-Mestre Adjunto”.

Em 1756, a instituição dos Grãos Mestres Provinciais está bem integrada na maçonaria inglesa e seu lugar na hierarquia é elevado: o Grão-Mestre Provincial situa-se na terceira posição, logo atrás da Grão-Mestre Adjunto. Note que mesmo neste texto de 1756, não há menção alguma de Grandes Lojas provinciais nem de oficiais provinciais. Ser Grão-Mestre Provincial é especialmente possuir um título equivalente ao de um Grão-Mestre Adjunto.

Em 1767, na 4ª edição das Constituições d’Entick, o artigo II é modificado:

“O Grão-Mestre Provincial assim delegado fica investido do poder e a honra de um Grão-Mestre em seu distrito particular e tem o direito de usar as decorações de um Grande Oficial, estabelecer lojas em sua própria província e em qualquer reunião pública, de marchar logo atrás do Grande Tesoureiro. Ele também tem o poder de nomear um Adjunto, vigilantes, um tesoureiro, um secretário, um porta-espada, que estão qualificados para usar as decorações de Grandes Oficiais quando eles oficiarem como tal naquele distrito particular, mas em nenhum outro lugar”.

Nessa época, começa então a se constituir em torno do Grão-Mestre Provincial, uma equipe de Grandes Oficiais. É o início de estruturação.

Nas Constituições de Noorthouck de 1784, os Grandes Oficiais são finalmente claramente identificados como elementos essenciais para o funcionamento de uma Grande Loja Provincial.

Assim, no período anterior à União de 1813, pode-se distinguir duas fases:

  1. A fase de 1726 a 1767, durante o qual há Grãos Mestres Provinciais, sem que se faça alusão às Grandes Lojas provinciais nem a Grandes Oficiais provinciais;
  2. A fase de 1767-1813, onde os Grãos Mestres provinciais adquirem o poder de nomear Grandes Oficiais Provinciais. Isso pressupõe uma espécie de Grande Loja Provincial, embora o termo não apareça ainda nos textos. Neste momento, a Grande Loja Provincial não está claramente definida e não tem ainda realmente estrutura nem poder.

A partir da União de 1813, a nova Grande Loja Unida da Inglaterra se constitui. As Constituições William (de 1815-1827) precisam então que o Grão-Mestre Provincial “detém [isto é, preside] uma Grande Loja Provincial, pelo menos uma vez por ano”. Mas ainda não se define o que é esta famosa Grande Loja Provincial.

Nos anos que se seguiram, as Grandes Lojas provinciais adquirem sua forma definitiva. Elas devem reunir-se uma vez por ano, os Oficiais provinciais passados e ativos devem estar presentes ali, bem como os Veneráveis, os Past Masters e os Vigilantes de todas as lojas individuais.

Uma Grande Loja Provincial aparece como a reunião de Grandes Oficiais provinciais (com poderes imprecisos), as quais se juntam todos os Veneráveis e Vigilantes em seu distrito. Esta prática é muito antiga, como é observado em York, e em Chester desde a década de 1730. Naquela época, alguns Grãos Mestres Provinciais já detinham o equivalente a uma Grande Loja Provincial. Eram, na verdade, reuniões com periodicidade indeterminada ocorrendo dentro da loja mais antiga em operação na região. Nessa reunião, e durante os trabalhos, a loja e os seus oficiais tinham uma função provincial. Note-se que é assim que funcionava a Grande Loja dos “Antigos” durante os três primeiros anos de sua existência. De 1751 a 1753, o que ainda era chamado de “Grande Comissão” (antes de se tornar a Grande Loja dos “Antigos”, considerando que eles não se erigiam como uma “Grande Loja” até que ela tivesse encontrado um irmão nobre para a presidir como Grão-Mestre) reunia-se anualmente em uma loja designada por antiguidade e era presidida pelo Venerável desta loja, que agia como Grão-Mestre pro tempore[16].

A organização das províncias é o último ato na evolução das dignidades maçônicas inglesas. A existência desses escalões provinciais não impedia a Grande Loja Unida da Inglaterra de ser muito centralizado e muito hierarquizada. A história dessas Grandes Lojas provinciais mostra bem que se tratava sobretudo no início, de dar dignidades a certos irmãos. Isto é particularmente notório com o caso da região de Londres, onde foram criados a partir do zero um substituto para as dignidades provinciais. As Grandes Lojas provinciais são assim menos um escalão administrativo que um escalão de dignidades intermediário entre as dignidades de uma determinada loja e as da Grande Loja Unida da Inglaterra. Este elemento tardio é certamente devido ao grande desenvolvimento da maçonaria Inglesa no século XIX.

Conclusão

A formação do sistema de dignidades e de cargos da loja no sistema Inglês é algo complexo e ainda parcialmente obscuro. No entanto, podemos identificar dois fatos importantes.

  1. Embora os cargos e dignidades de uma loja inglesa dos anos 1720 fossem fortemente influenciados pela herança escocesa (no vocabulário e na estrutura), o fato é que inovações importantes foram introduzidas (por exemplo, a aparição de dois vigilantes, ou a do diácono);
  2. É provável que alguns cargos de lojas particulares (por exemplo, o Tuileur ou Cobridor Externo) já existiam na Grande Loja antes de serem introduzidos em loja. Este relacionamento da Grande Loja e das lojas individuais coloca a questão do status real da Grande Loja fundada em 1717. Era ela uma potência reguladora, ou era simplesmente a reunião de lojas, uma vez que é provável que tenha sido só mais tarde, por volta de 1721-1723, com a entrada da aristocracia na maçonaria inglesa que Grande Loja tornou-se um poder que se impunha às lojas individuais? Assim, os novos cargos, que parecem necessários nestas grandes reuniões, poderia então ser introduzidos naturalmente nas lojas.

Autores: Roger Dachez e Thierry Boudignon

Tradução: José Filardo

Fonte: Bibliot3ca Fernando Pessoa

Notas

[10] – Portanto, existem dois tipos de oficiais provinciais: os “Active Grand Officers” e os “Past Grand Officers”. Este último status tem, na verdade, como função recompensar alguns irmãos. Para obtê-lo, não é necessário ter exercido as funções correspondentes. Entretanto, quando se o obtém, desfruta-se dos mesmos benefícios (condecorações etc.) que aqueles que realmente exerceram…

[11] – E, em teoria, também instalar lojas. Mas, na maior parte das vezes, o GM provincial delega esse encargo ao GM Adjunto, que por sua vez delega aos GM Assistentes que, eles mesmos, o confia aos Veneráveis ​​Mestres da região.

[12] – A administração local real é conduzida pelas Lojas de Mestres instalados, uma verdadeira estrutura que são clubes regionais de Veneráveis.

[13] – Sabemos que os três primeiros GGMM da Maçonaria Francesa (o Duque de Wharton, Mac Leane, Lord Derwentwater) eram anglo-saxões. No entanto, não podemos considerá-los “representantes” do GM da Inglaterra pela simples razão de que eles haviam sido eleitos pelos irmãos franceses. Além disso, essas lojas eram provavelmente mais franco-escocesas que franco-inglesas. Esta é a oportunidade de esclarecer que a famosa “GL Inglesa da França”, cara para alguns “historiadores” nunca existiu. Trata-se simplesmente de uma falsificação do Cavaleiro de Beauchaine (ou Beauchesne).

[14] – A primeira excomunhão de maçons pelo papado veio, entre outras coisas, da presença de lojas na Itália.

[15] – Lembremo-nos que no protocolo maçônico de costume, são os mais altos na hierarquia que são os últimos.

[16] – A LNF funciona hoje dessa forma.

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Usos, costumes, tradições e antigas obrigações da maçonaria medieval relembrados na maçonaria atual

Entre os maçons medievais, o segredo era norma respeitada e sujeita à juramentos sobre a Bíblia ou os Evangelhos. O mesmo se dava com a promessa de não revelar a estranhos os sinais, toques e palavras de reconhecimento mútuo entre os companheiros. O compromisso envolvia a obrigação de cumprir os regulamentos, as tradições e as regras de fraternidade exigidas pela agremiação.

Quando as corporações medievais chegaram a adquirir maior importância política e econômica, até as representações teatrais passaram aos seus domínios. Os dramas da época, as antigas peças gregas, por vezes mal traduzidas, outras deturpadas, eram representadas para os associados. Os temas referentes a cada profissão eram enaltecidos ao gosto dos congregados e assistentes levados ao sentido épico. Até os antigos “mistérios” eram declamados ou encenados, ao lado das narrativas e passagens de religião.

Cada corporação tinha o seu santo padroeiro e protetor. Os maçons operativos veneravam São João Batista, ou este santo e João Evangelista, aos quais dedicavam reuniões e festas especiais. Os obreiros de Estrasburgo se chamavam Irmãos de S. João.

Nota ao Aprendiz – A Maçonaria operativa ignorava a existência de São João de Jerusalém, ou S. João Esmoler ou Hospitaleiro, lendária figura de príncipe, filho do rei de Chipre, no tempo das Cruzadas. Conta-se que ele teria renunciado aos seus direitos de herdeiro do trono, com o propósito de se dedicar à caridade, socorrer guerreiros e peregrinos. Teria fundado também um hospício.

A figura desse lendário santo foi levada à Maçonaria especulativa por maçons que quiseram impor a ideia de que a Sublime Instituição seria originária dos Cruzados. O Barão de Tschoudy viria a adotar S. João de Jerusalém, no seu Rito Adoniramita. Outros maçons passaram a identificar S. João Hospitaleiro com S. João d’Escócia, figura que jamais existiu, embora seja sempre referida em rituais do escocismo, por diversas conjecturas.

Maçons do passado, magoados com os insultos e perseguições clericais, principalmente partidas dos jesuítas, repeliam a norma de se admitir João, o Batista, como padroeiro da Sublime Instituição. A verdade é que estavam a repelir a realidade histórica e uma tradição haurida dos antigos Pedreiros-Livres e Canteiros.

Essa represália pouco adiantou. João, o Batista, continua sendo o padroeiro, com o seu par tradicional, que é João Evangelista. E em toda parte do mundo o dia 24 de junho é uma data maçônica e o verdadeiro dia da Instituição.

A Maçonaria operativa medieval possuía também os Quatro Coroados, santos da profissão, os quais eram Severo, Severiano, Carpóforo e Vitorino. Contava-se que esses quatro santos teriam sido mortos a vergastadas, por ordem de Diocleciano, eis que se teriam recusado a esculpir imagens destinadas à adoração pagã. A Igreja chegou a confundi-los com outros cinco mártires – Cláudio, Castor, Sinforiano, Simplício e Nicostrato, artistas que teriam repelido a imposição do mesmo imperador, que encomendara a imagem de um ídolo. Os cinco artífices, por esse motivo, teriam sido condenados e asfixiados dentro de um barril carregado de material pesado e atirados ao mar (ano de 237).

Outras lendas de enaltecimento da profissão eram contadas pelos maçons medievais e havidas como patrimônio da corporação.

Como ensina a psicologia social, todo agrupamento humano definido tende a ser enaltecido por seus próprios componentes. Os maçons medievais, naquela época, pouco esclarecidos, não fugiram à regra. Acreditavam que a Maçonaria vinha dos tempos de Adão e que este havia ensinado a Geometria a seus filhos. Mal fundados em vários textos da Bíblia e maus conhecedores da história, fantasiavam uma complicada narrativa da profissão, envolvendo reis, patriarcas, sábios, filósofos e geômetras. Desse modo, chamavam de “maçons” a Abraão, a Nemrod, o rei caçador, a Nabucodonosor, a Pitágoras (“Peter Gower”), a Euclides e outros. Até as épocas das narrativas eram desencontradas.

Nota ao Aprendiz – Ainda hoje há irmãos maçons que costumam sustentar mitos semelhantes, pretendendo levar a origem da Maçonaria a tempos imemoriais. Outros procuram convencer que toda e qualquer personalidade ilustre seja ou tenha sido maçom.

Já no século passado, os estudos de Findel e outros abalaram todos os mitos pelos quais a Maçonaria seria originária do Egito, da Grécia, do Templo de Salomão, dos Essênios, dos cretenses e de outras fontes “antiquíssimas”. A maioria dos Corpos Maçônicos deste século já não admite as supostas “derivações” da Maçonaria, muitas delas engendradas pelos “maçons aceitos” de quando iniciou a Maçonaria especulativa.

Por esse motivo, e também por apresentarem como “segredos” muitas lições vulgares da história da filosofia, muitas instruções anexas a rituais foram abolidas. A regra a cumprir, para com os maçons iludidos ou mitômanos, é a tolerância, mas sem prejuízo do constante esclarecimento.

A par de tais lendas que liam para os recipiendários, os maçons operativos mantinham seus regulamentos profissionais e tradições.

As “obrigações” (“old charges”) deviam ser integralmente respeitadas, bem como os preceitos da ética do oficio. Várias dessas obrigações se conservaram até na Maçonaria especulativa e se tornaram “landmarks” ou lindeiros. A palavra “landmark” significa limite entre países ou territórios, mas entre os maçons veio a significar marco ou regra instransponível e imutável.

A legitimidade das antigas obrigações foi revelada mediante referências históricas, leis, bulas, papeis, inclusive decretos governamentais e clericais que tinham por escopo perseguir os maçons e proibir as reuniões das Lojas. Além desses recursos da história, havia os antigos “manuscritos”. Vários desses documentos eram reproduções ou cópias de escritos mais antigos. Outros eram realmente falsificados. A “velha Constituição de York, do ano de 925”, outorgada numa Convenção convocada pelo príncipe Edwin, filho do rei Athelstan, não passou de mistificação, que o maçom Findel e outros viriam a desmascarar.

Porém, por esse fato não há que negar os maçons operativos narravam a lenda de Athelstan e seu filho Edwin. Essa lenda consta, por exemplo, do livro conhecido por “Poema Régio”, mas cujo nome verdadeiro e “Hic Incipiunt Constitutiones Artis Geometriae Secundum Euclydem” (Aqui principiam as constituições da arte da geometria, de acordo com Euclides, ou Princípios Constitucionais da Arte). James O. Halliwel, 1840, encontrou esse livro, escrito em pergaminho, na Real Biblioteca, do British Museum. Atribui-se a obra ao século XV. Trata-se de uma “constituição” à maneira adotada pelas fraternidades e organizações profissionais da época. O poema contém 794 versos, nos quais se constam as lendas da fraternidade de pedreiros, as regras morais da “boa geometria”, os deveres dos companheiros nas suas relações mútuas e para com os senhores e proprietários.

Euclides, “por inspiração de Cristo”, teria ensinado as sete ciências e, certa vez, teria sido contratado para ensinar a Geometria aos jovens da nobreza do Egito. A “arte” se espalharia pelo mundo e teria chegado à Inglaterra (Ilha dos Santos). Certa vez, o rei-arquiteto Athelstan teria promovido uma convenção, na qual se teriam promulgado quinze principais artigos e quinze pontos fundamentais. O documento menciona o martírio dos “Quatro Coroados”, santos conhecidos por essa denominação que, por sua vez, viria a ser um atributo da “arte” (“Ars Quatuor Coronatorum”). Seguem-se as lendas da Torre de Babel, “construída muito depois do dilúvio e, em certa ocasião, dirigida pelo rei Nabucodonosor”. “Os construtores da torre se tornaram tão vaidosos que o Senhor os castigou, enviando-lhes um anjo que lhes confundiu a linguagem”. Consta do documento os significados morais das sete ciências e as regras da fraternidade.

Outro documento relevante, embora de tradução infiel, é o dos regulamentos profissionais da Fraternidade de Pedreiros (talhadores e escultores de pedra) de Estrasburgo. Esses estatutos teriam sido aprovados em Spira, em 1464 e ratificados em Ratisbona cinco anos depois, trata-se de uma verdadeira constituição da Ordem, na qual se consignam as regras de ética profissional, a admissão dos aprendizes, o tempo de aprendizado, o respeito aos planos e aos contratos de obra. Na confraria só podiam ser admitidos homens livres e de boa formação moral e familiar. Era proibido aos mestres confiar trabalhos aos companheiros que viesse amancebado ou passasse “a viver desregradamente com mulheres”, ou fosse jogador a tal ponto que dele se pudesse dizer “que havia apostado as próprias vestes”. O dever religioso, inclusive os de confessar e comungar, era imposto aos obreiros.

Outro “documento”, a chamada “Carta de Colônia”, atribuída ora aos jesuítas, ora a Frederico de Nassau, não passa de mistificação. Entre os demais documentos citados pelos historiadores maçônicos, podem mencionar-se a lei do Conde de Santo Albano (1663), o manuscrito Harley (1670), existente no Museu Britânico e escrito por Randle Holmes e o “Velho Manuscrito”, assinado por William Bray e escrito por Robert Cleark (1686). Os Estatutos Shaw, da Maçonaria Escocesa, foram publicados no final do século XVI (1598-1599).

Do confronto de todos os documentos e regulamentos e, mais, do que se pode concluir das referências históricas, resulta uma síntese de várias regras que se impunham aos maçons, entre as quais:

I – a de cumprir os mandamentos da Igreja, respeitar os sacramentos e confessar e comungar periodicamente;

II – a de respeitar as leis e as autoridades constituídas e de nunca tomar parte em sedições;

III – a de seguir os preceitos da “moral da boa Geometria”, de modo a viver de acordo com os bons costumes, a não se entregar ao jogo e a outros vícios, a mulheres de vida fácil, ao adultério e ao concubinato;

IV – a de somente admitir nas corporações e confrarias candidatos livres, de boa família (no sentido moral) e de bons costumes e boas referências (“good reports”);

V – a de não se admitirem jamais candidatos portadores de defeitos físicos ou doentes;

VI – a de os obreiros cumprirem os contratos de construção, de modo a contentar os proprietários e senhores, seguindo suas as ordens e condições combinadas e cuidando de terminar e entregar a obra no tempo ajustado;

VII – a de não se admitirem novos companheiros sem a licença do mestre da circunscrição e sem prévia comunicação às lojas da região, mediante a fixação de um pergaminho a uma prancha ou tábua colocada de modo ostensivo;

VIII – a de dar conhecimento à assembleia geral dos fatos que interessavam à fraternidade, inclusive admissões;

IX – a de comparecer periódica ou anualmente à assembleia geral, para tomar conhecimento das resoluções e receber conselhos e instruções sobre a Arte, sobre os salários a serem pagos e sobre a maneira de bem servir aos mestres, aos senhores e aos proprietários;

X – a de eleger mestres entre os companheiros mais experimentados e mais versados na Arte;

XI – a de cumprir as regras de fidelidade e fraternidade entre os companheiros e reservar “troncos” para os necessitados;

NotaDe certos regulamentos se vislumbra que o “tronco” se referia também a honorários pagos na conclusão das obras.

XII – a de os aprendizes serem sujeitos a prestar serviços aos mestres durante um determinado número de anos (na Alemanha se exigiam cinco anos e na Inglaterra sete); e a de os companheiros (aspirantes) praticarem o ofício em várias obras (três, pelo menos) e viajarem, antes de conseguirem a plenitude de seus direitos.

Nota – Referências históricas demonstraram cabalmente que esses prazos não eram iguais em todos os lugares e que a habilidade profissional era levada em consideração, de modo a se encurtarem os “interstícios”. Porém, houve época em que os mestres das diferentes profissões artísticas prolongavam, a seu bel-prazer, o tempo de aprendizado e faziam outras exigências, aproveitando-se da situação privilegiada de que desfrutavam como principais contratantes nas encomendas, e das condições regulamentares para aprovar a concessão, de cartas, licenças ou franquias. Certos regulamentos exigiam que o companheiro, para ser admitido ao trabalho, exibisse ainda a carta de apresentação de mestres e companheiros experimentados.

Por outro lado, revela considerar a tradição universitária que a Maçonaria herdou no que tange ao seu humanismo e à sua filosofia. Os estudantes da Idade-Média também se reuniam em corporações. Pagavam os professores, contratavam os mestres e os despediam. Desse modo é que fundaram as universidades.

Na Itália, na Espanha e no sul da França, as universidades seguiam o padrão de Bolonha. Nessas instituições se ensinavam o “trivium” (Gramática, Retórica ou Dialética e Lógica) e o “quadrivium” (Aritmética, Geometria, Música e Astronomia), mais ou menos na seriação secular instituída por Boécio. Para o estudante conseguir a carta de “mestre” era exigido um curso que durava sete anos ou pouco mais, pois o “trivium” exigia quatro ou cinco anos e o “quadrivium” o tempo restante.

As sete ciências, porém, não tinham o sentido atual. O seu ensinamento era filosófico e humanístico, isto é, mais ou menos como ocorre na Maçonaria.

As sociedades secretas estudantis resultam de tradições das universidades. A Maçonaria, por sua vez, contém muita coisa das tradições das universidades, quer por se inspirar nas práticas dos antigos Pedreiros-Livres, para os quais a Geometria era também uma ciência moral, quer porque os maçons mais versados do passado, e depois os “aceitos”, cuidariam de manter os melhores princípios das corporações, inclusive os das universidades.

Essa conclusão resulta de qualquer livro de história, como, por exemplo o de McNall Burns, 1º vol., Parte 4.

Constituída a Grande Loja Inglesa, em 1717, os seus principais fundadores cuidaram de reunir os velhos regulamentos, as lendas e tradições dos maçons e as antigas “obrigações” (old charges).

Em 1718, George Payne é eleito Grão-Mestre da Grande Loja e manda consolidar os regulamentos, usos e obrigações constantes de velhas cópias. Em 1719 é eleito Grão-Mestre o reverendo João Teófilo Desaguliers, que ao lado de James Anderson, fora um dos principais fundadores da Grande Loja.

George Payne, novamente eleito para o grão-mestrado em 1720, manda completar as compilações iniciadas em 1718. Surgem e se definem, por conseguinte, as Trinta e Nove Regras Gerais (“General Regulations”) condensadas nos conhecidos Regulamentos Gerais. No mesmo ano, por motivos que se ignoram, foram queimados preciosos manuscritos da antiga Maçonaria. O fato foi lamentável, embora existissem velhas cópias nos museus e velhos documentos nas Lojas que ainda não pertenciam à Grande Loja Inglesa.

Nota – Vários maçons autênticos, inclusive os que não eram católicos, atribuíram essa queima de documentos à preocupação de se ocultar a origem clerical da Maçonaria, pois os fundadores da Grande Loja Inglesa eram protestantes, na sua maioria. Não há muito fundamento em tal suposição. No mais, seria impossível ocultar que os Pedreiros-Livres e Canteiros eram católicos e que a primeira fase da Maçonaria operativa medieval pertencia aos monásticos. Isso não quer dizer que a Maçonaria seja uma derivação de Igreja Católica, eis que releva ponderar muito mais as tradições das corporações e fraternidades do que as circunstâncias em que essas organizações vicejaram.

O ilustre maçom autêntico Albert Lantoine, autor de “Lês Societés Secretes actuelles em Europe et en Amérique” (Paris 1940), é um dos que abonam a insinuação.

As Regras gerais viriam a ser aprovadas na data de S. João de 1721. Aos 17 de janeiro de 1723 foi aprovado pela Grande Loja Inglesa o tradicional LIVRO DAS CONSTITUIÇÕES, impropriamente conhecido por Constituição de Anderson, pelo fato de este fundador da Grande Loja haver-se dedicado ao projeto e compilado as velhas lendas, usos, costumes e “antigas obrigações”, tudo acrescido às “Regras Gerais”.

Do confronto histórico resulta que o trabalho de Anderson não foi muito fiel a tudo quanto revelaram as velhas cópias. As lendas do passado, mais ou menos alteradas, se acrescentaram outras, principalmente aquelas inspiradas na Bíblia, como conviria a bons ministros e pastores protestantes.

Contudo, a modificação foi salutar, pois a Bíblia é um dos maiores monumentos morais do mundo.

A chamada Constituição de Anderson se impôs como padrão de qualquer organização maçônica regular, isto é, fundada nos princípios da Maçonaria Universal, da qual a Grande Loja da Inglaterra é a “alma mater”.

Cumpre lembrar que no tempo de Anderson ainda havia uma corrente católica, mais ligada à antiga Maçonaria Escocesa. Essa corrente era também política, pois era partidária dos Stuarts. O Cavaleiro Ramsay pertencia a essa corrente.

Mais tarde se operou a unificação da Maçonaria inglesa.

O atestado mais definido dessa unificação é o tradicional RITO DE YORK, condensado num livro denominado “Landmarks”, Leis Básicas e Cerimônias dos Três Graus Simbólicos da Arte Maçônica, chamada, às vezes, RITO DE IORQUE, por terem compiladas, elaboradas e organizadas por representantes de todas as Lojas consideradas regulares reunidas na cidade de Iorque, na Inglaterra, em 1815, tais como foram aprovadas, confirmadas e sancionadas pela Grande Loja da Inglaterra, em 1815. O ritual também é, chamado de Ritual dos Maçons Antigos, Livres e Aceitos.

Em 1813 já havia ocorrido a formal unificação da Maçonaria inglesa, com a constituição da Grande Loja Unida (27 de dezembro de 1813, data de S. João Evangelista). A união das Grandes Lojas inglesas governadas pelos duques de Kent e de Sussex tinha sido preparada desde o começo daquele ano. O duque de Kent renunciou ao grão-mestrado para facilitar a unificação. Assim, se consumou a união de “Antigos” e “Modernos”.

Já então a Maçonaria se havia espalhado pelo mundo, com suas Lojas, algumas abraçando regras mistas e outras seguindo ou escolhendo entre regras da Grande Loja da Escócia e as regras da Grande Loja Inglesa.

Surgiram, por sua vez, vários ritos e rituais.

A Grande Loja da Escócia foi fundada aos 15 de outubro de 1736, em Edimburgo.

O Grande Oriente de França foi fundado oficialmente aos 24 de dezembro de 1772, mas a Maçonaria francesa já existia desde muito antes, quer sob a égide da Grande Loja Inglesa, quer de maneira independente. Sabe-se que em 1730 já existia a “Grande Loja Inglesa de França”. Em Paris havia a “Ordem dos Franco-Maçons do reino de França”, fundada aos 27 de dezembro de 1735.

Na Alemanha, as Lojas trabalhavam sob o sistema da Grande Loja da Inglaterra. Em, 1766, um mágico profissional hábil, prestidigitador, artista genial e homem culto de nome Schröder, funda o “Capítulo de Antigos e verdadeiros Franco-Maçons” e, depois, cria o belíssimo rito que tem o seu nome, com os três graus do simbolismo sob o nome de “Rito Retificado de Rosa-Cruz”.

Em suma, a Maçonaria se pratica por vários ritos ou métodos. De um modo geral, esses métodos conduzem o maçom ao mesmo resultado de aperfeiçoamento moral. Como afirmava Pascal, os homens se aperfeiçoam e conquistam a verdade seguindo os ritos.

As Lojas do mundo os congregam em Grandes Orientes ou Grandes Lojas, governadas pelos respectivos Grão-Mestres. Por sua vez, esses Altos Corpos se relacionam como as nações, por meio de troca de representantes, correspondências, tratados de amizade e confirmações de relacionamento mútuo. Não há poder maçônico internacional. As reuniões universais se efetuam por meio de Congressos e Convenções.

O templo doutrinário da Maçonaria

Dir-se-ia, pois, que o Templo Maçônico foi erguido com o melhor material produzido pela humanidade. Ergueu-se com os alicerces da História. Suas paredes foram levantadas com tijolos e pedras iguais, que representariam a manifestação do espírito humano e o denominador comum de todas as crenças. Todos os componentes do edifício maçônico se entendem ligados com a argamassa da comunhão universal. Enfim, os ornamentos do Templo completariam a síntese de todas as ideias dirigidas para um mundo melhor.

E o melhor paradigma para o Templo Maçônico não podia ser outro que não o Templo de Salomão. A Davi, que manchara as mãos de sangue, não fora concedido erguer o Templo (Crônicas, 28/3), de cuja obra possuía os projetos (Crônicas, 28/11 a 21 e Cap. 29). A tarefa haveria de caber a seu filho Salomão, que apelou para Hirão, rei de Tiro, monarca suserano e aliado a Davi. O rei Hirão enviou a Salomão o artífice, metalista e arquiteto Hirão Abi, filho de uma viúva da tribo de Neftáli (Reis, I, caps. 5, 6 e 7 e Crônicas ou Paralipômenos, caps, 2, 3 e 4).

ObservaçãoNo Rito Adoniramita (Adon-Hiramita) é preferido Adonirão e Hirão-Abi (V. I-Reis, 5/14).

Assim, foi edificado o Templo de Jerusalém, com pedras já preparadas nas pedreiras, de maneira que nem martelo, nem machado, nem instrumento algum de metal se ouviram na casa, enquanto a construíam (I, Reis, 6/7). O mesmo se dá com a Loja maçônica dedicada à construção do mundo melhor. O seu trabalho não se ouve lá fora.

FINIS

Autor: Jeffson Magnavita Barbosa Filho

Fonte: página da ARLS De Campos Ribeiro, 51

Referências

Ritual do Aprendiz Maçom – Edição de junho/2006.

Curso de Maçonaria Simbólica – (I Tomo) Theobaldo Varoli Filho – Editora – A Gazeta Maçônica

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Podcast Ritos & Rituais – 1717 ou 1721? Em que ano nasceu a Grande Loja da Inglaterra? (Parte I)

Em 2017 houve a comemoração dos seus 300 anos, mas, será que a data é essa mesmo? Nesse episódio, Rogério Miranda, Felipe Côrte Real e Cloves Gregorio, iniciam a discussão, a partir da análise dos artigos de 4 estudiosos, Andrew Prescot, Susan Somers, John Hamil e Ric Berman, sobre em que ano foi criada a Grande Loja da Inglaterra e Westminster.

Disponibilizamos também, para você estimado leitor, as quatro palestras proferidas pelos pesquisadores na Loja Quatuor Coronati, 2076.

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Uma abordagem ao percurso inicial da Maçonaria especulativa

Notícias Filhos do Arquiteto ✡: MAÇONARIA - OS 33 GRAUS DO RITO ...

Preâmbulo

As notas que vos apresento tiveram a sua gênese nas dúvidas que nos foram surgindo no que respeita quer à eventual “passagem de testemunho” da maçonaria operativa para a especulativa, quer aos reais motivos que terão estado por trás da constituição da Grande Loja de Londres em 1717, considerada como o marco fundacional da moderna maçonaria especulativa.

À medida que ia consultando diferente documentação, uma leitura mais atenta de alguns estudos e livros referidos na Bibliografia, foi importante para obter uma nova perspectiva de um dos capítulos mais interessantes da historiografia maçônica, alvo de diversas interpretações históricas de consistência variável, consoante os círculos maçônicos e os objetivos e tendências que perseguem.

Ficou mais claro para nós que a moderna maçonaria tem inequívocas raízes escocesas, que a partir do Norte influenciaram a Inglaterra e a Irlanda, sendo que os ingleses, através da criação da Grande Loja de Londres, vieram a recolher os louros da sua gênese. No entanto, a constituição da GLL traduziu também a intensa luta entre os blocos católico/stuartista e protestante/hanoveriano, que no fundo apoiavam duas concepções distintas da Maçonaria. As Lojas maçônicas foram utilizadas durante essa época para veículo dessa disputa, que se estendeu às terras francesas, iniciando a difusão da Maçonaria especulativa pelo continente europeu, com o exílio dos Stuarts.

Introdução

O fato de se questionar a eventual ausência de ligação direta entre a Maçonaria operativa e a especulativa, sendo uma “heresia” face às fontes tradicionais, não deixa de ser simultaneamente desafiador e estimulante. No entanto e independentemente da teoria seguida, restam poucas dúvidas de que a Maçonaria Especulativa se constituiu na Grã-Bretanha, no decurso do século XVII, em condições ainda incertas e historicamente muito pouco documentadas. No entanto quando procuramos evidências relativamente ao seu desenvolvimento, verificamos que são abundantes na Escócia e quase totalmente ausentes em Inglaterra.

Uma das primeiras abordagens diferenciadas das correntes tradicionalistas de grande parte dos historiadores ingleses do final do século XIX (Gould, Hughan e outros), é dada pelo trabalho de dois grandes historiadores ingleses da Maçonaria, Douglas Knoop (professor de Economia na Universidade de Sheffield e maçom) G. P. Jones (professor de História Econômica também em Sheffield, mas não maçom) nos finais dos anos trinta do século passado.

Contudo somente a partir de meados dos anos 70 começou a ser dada a devida atenção aos seus estudos e pesquisas. No prólogo da primeira edição da sua obra principal “The Genesis of Freemasonry”, salientam que:

“Embora tenha sido até agora habitual pensar a história da Maçonaria como uma questão totalmente à parte da história, justificando um tratamento especial, pensamos que se trata dum ramo da história social, do estudo de uma instituição social particular e das ideias que estruturam esta instituição, que se deve abordar e escrever exatamente da mesma forma que a história das outras instituições sociais.”

Esta abordagem tem vindo a ser seguida por alguns dos atuais historiadores e estudiosos maçônicos, como por exemplo R. Dachez e David Steveson, entre outros, que salientam que esta escolha incontornável está longe de ser unanimemente partilhada por numerosos autores que se “adaptam” às ocasiões da história maçônica, da mesma forma que a história de certas religiões e igrejas, tratada com objetividade, implica a contestação de alguns fiéis, que se recusam a olhar a sua história. Do mesmo modo, o que designa por “história laica da maçonaria” não alcança o espírito de todos os maçons, sendo um escolho que todo o historiador maçônico deverá estar consciente.

Esta corrente preconiza o caminho da aproximação “científica” (ou “autêntica”), segundo a qual uma teoria deve ser fundada a partir de fatos ou de documentos que a sustentem, por contraponto à aproximação “não autêntica” que se esforça por colocar a Maçonaria na tradição do Mistério, procurando, por um lado ligações entre os ensinamentos, as alegorias e o simbolismo e, por outro, as diversas tradições esotéricas (vide John Hamill – bibliotecário da Grande Loja Unida de Inglaterra, durante vários anos, na sua obra “The Craft. A history of English Freemasonry”).

Relativamente à gênese da maçonaria especulativa, a tese mais vulgarizada e partilhada quer pela esmagadora maioria da documentação maçônica, quer entre os Maçons, é a chamada teoria da “transição“, que preconiza a passagem gradual das Lojas operativas a especulativas, devido às transformações econômicas que levaram ao declínio das grandes construções, a partir dos finais do Renascimento.

Deste modo, indivíduos estranhos ao ofício, provenientes da nobreza ou com importantes cargos civis ou intelectuais de prestígio, movidos por interesses especulativos de base neo-platônica, alquimista ou Rosa-Cruz, teriam efetuado uma entrada progressiva nas lojas operativas em estado pré-moribundo, aproveitando as estruturas criadas e os rituais praticados, para desenvolverem os seus objetivos e tomarem o respectivo controle.

Quanto à constituição da Grande Loja de Londres, aprovada numa assembleia constituinte por 4 lojas existentes na cidade, em 24 de Junho (dia de S. João) de 1717, não terá sido provavelmente um ato criativo “espontâneo”, mas justificado por perspectivas politicas e sociais específicas, já que sempre nos pareceu de difícil sustentação histórica e social a teoria da espontaneidade, de per si.

As Lojas “antigas” da Escócia

Na sua obra principal The-Origins-of-Freemasonry-Scotland-s-Century-1590-1710, David Steveson, conclui que a contribuição medieval e renascentista, para a organização e história da Ordem, propiciou alguns dos ingredientes essenciais à formação da Maçonaria, mas o processo de combinação desses com outros ingredientes só ocorreu por volta de 1600 e teve lugar na Escócia .

É geralmente aceito pelos historiadores que os “Estatutos de Shaw”, no reino da Escócia, são o primeiro documento conhecido onde são lançadas as bases organizativas do sistema de Lojas da Maçonaria operativa, que veio posteriormente a servir de modelo à estrutura das Lojas especulativas.

Este documento resultou da reunião realizada em Edimburgo, em 28 dezembro de 1598, convocada e dirigida por William Shaw, Supervisor Geral dos Maçons e intendente das edificações do rei da Escócia, durante o reinado de James VI (James I da Inglaterra). Foi completado em 1599 por uma segunda série de regulamentos para dar solução à reivindicação da presença da Loja de Kilwinning. Estes estatutos consagravam a organização territorial das lojas por cidades e por regiões, impondo a eleição anual dos Oficiais.

São essencialmente regras práticas estabelecidas pelos mestres da corporação sediados em Edimburgo, tornadas mandatórias para todos os membros. Os dois primeiros artigos instruem e regulam a obediência, antecipando a iniciação maçônica, relativamente à qual não são dados detalhes, mencionando unicamente o juramento (“taking of the oath”) e a transmissão da “palavra de maçom” (“mason word”). O manuscrito conhecido como “Edinburgh Register House”, datado de 1695 explicita que o juramento é efetuado sobre a Bíblia e o candidato “jura por Deus”, S. João, o esquadro e o compasso.

Segundo P. Naudon, os estatutos de 1599, definem também a jurisdição da Loja e estabelecem as taxas mandatórias. O Mestre, aqui entendido como grau sobretudo honorífico, ou guardião (“Warden”) tem o poder de verificar as qualidades e aptidões dos companheiros, bem como a capacidade de expulsar os não cumpridores do juramento, podendo também nomear um secretário. Estes estatutos utilizam os termos, aprendiz ( “journey man” / mais tarde “entered apprentice”) e Companheiro (“Fellow-Craft”), o que prova a existência de pelo menos dois graus na Maçonaria operativa escocesa da época (século XVII).

A Maçonaria emergiu pois na Escócia no século XVII baseada em Lojas, organizações secretas ou semi-secretas/discretas de iniciados, combinando sociabilidade e fraternidade com segredos elaborados e esforçando-se genericamente em trabalhar para regular a entrada de artífices da pedra (“stonemasons“) e regulamentar as respectivas práticas de trabalho. Efetuavam rituais de iniciação e identificação descritos nos catecismos.

No decurso desse século XVII, alguns homens de níveis sociais distintos, começaram a ficar intrigados e simultaneamente curiosos com os segredos dos “stonemasons” e o reconhecimento de que a sua Ordem tinha um estatuto intelectual único, tendo alguns desses “outsiders” sido iniciados em lojas. Existem evidências de que certas personalidades próximas das correntes iluministas e Rosa-Cruzes da época, entre os quais Robert Moray, passaram e/ou debruçaram-se sobre estas organizações. A organização discreta/secreta e a existência de certos ritos despertaram-lhes interesse, mesmo que a sua passagem por elas, durante todo o século, tenha sido extremamente rara, esporádica ou efêmera.

Entre os fatos que evidenciam fortemente que tenha sido a Escócia preponderante no aparecimento da moderna Maçonaria, desde o final do século XVI e sobretudo no século XVII, apontam-se a existência dos registos mais antigos de:

  • utilização do termo “Loja” no sentido moderno do termo e evidência de que estas instituições existiam permanentemente;
  • Organização de lojas em âmbito nacional;
  • Registos oficiais e atas de reuniões efetivas;
  • Exemplos de “não-operativos” (“no working stonemasons”) que se juntaram às lojas;
  • referências à “palavra do Maçom” / “mason word“;
  • catecismos maçônicos expondo a “palavra do Maçom” e descrevendo iniciações maçônicas;
  • Evidências ligando o que era realizado pela loja com ideais éticos específicos, expostos pela utilização de símbolos;
  • Utilização de dois graus ou níveis na maçonaria;
  • Utilização dos termos “entered apprentice” e “fellow-craft” nesses graus;
  • Evidência da emergência dum terceiro grau (loja de Edimburgo), pela utilização de “masted’ como estatuto no mínimo diferente de “fellow-craft
  • Começo da percepção, por alguns, da maçonaria como “sinistra” ou “conspirativa”.

Ainda segundo Steveson, as reuniões nas Lojas ocorriam em média uma a duas vezes por ano, tendo a de Edimburgo, entre 1601 e 1710, reunido em média duas a três vezes por ano, o que representa um excelente registro, visto tratar-se duma importante loja urbana.

Percorrendo os registos do século XVII, imediatamente anteriores ao da criação da Grande Loja de Londres, Steveson e Naudon, comprovaram que a maçonaria escocesa possuía já um grau de organização e expansão nacional muito mais consistente do que acontecia em Inglaterra na mesma época.

Existe evidência de que em 1710 estavam ativas 25 lojas na Escócia, tendo mais algumas sido referenciadas ao longo do século, mas estando inativas ou extintas nessa data. Destas 25, 20 continuaram ativas e destas últimas, atualmente 80% ainda existem, o que constitui um registo assinalável.

Há contudo dois aspectos fundamentais, face à moderna maçonaria, que não existiam na Escócia no século XVII:

  • Não existia nenhuma autoridade central de supervisão, como uma Grande Loja (apesar de Schaw e alguns dos sucessores o tentarem criar esse figura, numa forma mais estatutária que efetiva), embora existisse uma rede de lojas
  • Inexistência de lojas compostas unicamente por não-operativos.

Em 20 de maio de 1641, alguns membros da loja de Edimburgo que estavam na época em Newcastle com o exército “conjurado” escocês (na guerra com a Inglaterra), admitiram como “maçom aceito” o honorável Robert Moray (juntamente com Alexander Hamilton, também general revoltoso), quartel-mestre geral do exército escocês, figura notável à época, considerado um dos “pais” da maçonaria especulativa e um dos grandes impulsionadores da Royal Society. Esta prática manteve-se ao longo do tempo, propiciando a formação de lojas nos regimentos escoceses e irlandeses. Mais tarde referiremos o seu importante papel no estabelecimento da moderna maçonaria no continente europeu, em especial na França.

A liberdade e independência das Lojas propiciaram a formação de algumas constituídas somente por membros não operativos. Segundo Naudon, por volta de 1670, mais de três quartos dos membros da Loja de Aberdeen não eram maçons profissionais. Os Estatutos de Shaw especificavam que estes membros estavam isentos da caixa de coleta, da marca, do banquete e do “pint” de vinho.

A dificuldade de generalizar o comportamento das Lojas, já que diferem consideravelmente em tamanho e composição, aplica-se também aos seus membros.

Os “não operativos ou “gentleman-masons” tinham como atrativo nas Lojas um ideal de amizade, uma mistura social informal (embora dentro duma instituição formal) e o banquete anual podendo adicionalmente compreender traços do antigo, do secreto, do misterioso e do ritualístico.

Parece ter sido esta a causa, mas podemos questionar o real motivo do aparecimento destas lojas pré- especulativas, sendo que está comprovado que a Escócia foi um dos países em que a maçonaria operativa mais persistiu de forma organizada, o que comprovadamente não aconteceu na Inglaterra.

É curiosa a análise do percurso de duas das figuras mais notáveis da época, relativamente às quais existem provas da sua iniciação, sem que no entanto existam dados continuados da sua presença em lojas. Quando Robert Moray, como referimos atrás, foi admitido na Loja Mary’s Chapel de Edimburgo, consta nos arquivos da Loja a seguinte minuta:

“Em Newcastle, a 20 de maio 1641. Neste dia, um certo número de mestres e outros estando regularmente reunidos, admitem o muito distinto Robert Moray, Mestre General de Quartel do exército da Escócia, o que foi aprovado por todos os mestres maçons da loja de Edimburgo que colocaram as suas assinaturas ou as suas marcas”.

Quanto a Elias Ashmole (antigo capitão da artilharia real e fervoroso stuartista), foi iniciado cinco anos depois de Moray, em Warrington (também a norte da Inglaterra), numa loja com mais características de se tratar de uma loja escocesa deslocalizada do que uma loja inglesa. Verifica-se pois que duas das principais figuras precursoras da nova maçonaria eram ambos fervorosos partidários dos Stuarts. Poderá isto ter algum significado? Provavelmente terá.

Steveson mostrou inequivocamente que esta organização profundamente inovadora, era estritamente específica da Escócia, sem que nenhum sistema idêntico tenha existido anteriormente. Como refere Dachez, contrariamente às versões clássicas, o aspecto mais importante deste trabalho foi evidenciar que a característica da “aceitação”, expressão tipicamente inglesa, utilizada para justificar a penetração dos especulativos nos operativos, jamais foi utilizada na Escócia durante o século XVII.

A partir deste trabalho, por consulta dos registos disponíveis das lojas, é possível identificar e estudar os 139 membros não operativos recebidos nas Lojas escocesas entre 1637 e 1717. É no mínimo curioso observar que o pastor Anderson, escocês, filho do secretário da Loja escocesa de Aberdeen, ignora por completo estes escoceses não-operativos. Será que o motivo principal terá sido o de constituírem, na sua maioria, fervorosos stuartistas?

Durante o reinado de Carlos I, uma dúzia de membros “gentleman” admitidos na Loja Mary’s Chapel de Edimburgo pertenciam à corte do Rei. Destes, só Robert Moray voltou à loja em 1647. O panorama das lojas escocesas majoritariamente operativas irá mudar consideravelmente a partir da morte de Carlos II. O quantitativo de personalidades não operativas recebidas nessas lojas, desde a ascensão ao trono de James II em 1685, eleva-se a mais de uma centena até 1717, aproximadamente o quíntuplo dos recebidos na totalidade do reinado de Carlos II, num período de tempo sensivelmente equivalente.

Na loja de Dunblane em 1696, por exemplo, dos 13 membros nomeados em ata de reunião, somente 4 são operativos, sendo a maioria constituída por nobres, quase todos ligados à causa stuartista. Steveson aponta que os membros dessa loja muito seletiva eram relativamente assíduos, mas não se preocupavam muito com o “ofício”, até finais de 1710, quando o predomínio passou para os operativos. Teria a ver com o final das “esperanças” dos stuartistas em reconquistarem o trono, como sugere Louis Trébuchet?

A prática comprovada, mas excepcional, das Lojas receberem a titulo honorário pessoas exteriores à profissão, que raramente lá voltavam, terá produzido, segundo Dachez, um conjunto de “maçons livres” com a possibilidade de transmitir uma Maçonaria que foram transformando em função dos seus próprios objetivos e preocupações intelectuais. Tinham descoberto algo que lhes interessou vivamente, um ritual e uma tradição.

Assim a “fronteira do Norte” terá sido permeável à expansão até ao Sul da Inglaterra destes maçons “não- operativos” que a Maçonaria operativa nunca integrou internamente, justificando plenamente que a maçonaria inglesa do século XVII tenha sido, desde a origem, puramente especulativa.

Parece não existir outra explicação plausível para a admissão de elementos não operativos nas Lojas Escocesas já que, por volta de 1717, ainda possuíam um importante papel na área da construção e, contrariamente ao que se passava na Inglaterra, não se reuniam em tabernas ou em locais esporádicos, mas em edifícios ou locais que lhes pertenciam.

As Lojas “antigas” da Inglaterra

Na Inglaterra a iniciação de cavalheiros (“gentlemen”) em Lojas é registada desde 1640, mas aqui o processo é muito mais obscuro.

Sendo fato praticamente inequívoco que a maçonaria especulativa, tal como a entendemos, surgiu na Inglaterra, não existem contudo documentos suficientemente esclarecedores de que pessoas estranhas ao oficio fossem admitidos em lojas operativas inglesas. E, mesmo relativamente a estas últimas e ao seu funcionamento como estrutura permanente em todo o território, não existem quaisquer dados.

Para os que defendem a primazia da Inglaterra no aparecimento da moderna Maçonaria, sobretudo no século XVII, apontam-se os seguintes fatos:

  • cópias mais antigas das “Old Charges” (não são conhecidas cópias escocesas anteriores a meados do século XVII);
  • utilização generalizada do termo “freemason” e utilização do termo “maçom aceito”(“accepted mason”);
  • Lojas compostas unicamente por “não operativos” (que se pode interpretar como indicando que a “maçonaria” inglesa era, muito mais que a escocesa, uma criação sem, ou com reduzida, sustentação profissional);
  • criação da primeira Grande Loja.

A única certeza que existe é de que as poucas lojas operativas que tardiamente surgem, permanecem operativas até à sua extinção, como a loja de Chester. A famosa loja de Acception, de Londres (século XVII), abusivamente citada como exemplo da transição especulativa é indevidamente classificada como Loja, uma vez que este termo não aparece nunca em suas respectivas atas, não se sabendo quem a fundou e por que motivo, deixando historicamente apenas dois leves traços documentais, em 1610 e em 1686, relacionados com Elias Ashmole.

Nas primeiras lojas inglesas, contrariamente à Escócia, não se detectam ligações aos operativos, o que sugere que a maçonaria foi aqui uma criação “artificial”, no sentido de ter sido originada por pessoas sem contato direto com a profissão, muitas vezes influenciados provavelmente pelo que “acontecia” ou então podem ter sido “importadas” a partir da Escócia. Não existe atualmente nenhuma loja na Inglaterra a que se possa ser feita referência continuada antes de 1716-17, quando a Grande Loja foi criada. As lojas inglesas só tinham inicialmente um grau, o que implicava substanciais diferenças nos rituais comparativamente à Escócia, onde existiam dois graus.

A teoria clássica da “transição”, foi posta contestada também por outros historiadores (finais da década de setenta), nomeadamente Eric Ward, que defendem que na Inglaterra, contrariamente à Escócia, não teria havido transição da maçonaria operativa para a especulativa e que as lojas dos primeiros se foram progressivamente extinguindo, sem deixar rastro, face às características sócio-econômicas da época. A crítica de Ward fundamenta-se sobretudo na interpretação do significado clássico atribuído a certas palavras-chave (origens de “freemason” e de “Free-Mason” ou “Free-Masons”) utilizadas indistintamente pela teoria da “transição”).

Também para Knoop e Jones, os únicos fatos mais ou menos incontestados, comprovam que desde a sua origem, as lojas maçônicas inglesas são puramente especulativas, contando-se como exceção, como vimos, a loja de Chester. Nesse período existiu também a Companhia dos Maçons de Londres, restrita à área da capital, e a única guilda conhecida na Inglaterra para a profissão de maçom, não se conhecendo mais nenhuma estrutura comparável. Esta corporação procurou o suporte de vários patronos de famílias nobres e comerciantes, com a figura de membros honorários, para ajudarem a assegurar o fundo financeiro de apoio aos associados.

Lembre-se que a Escócia era, no início do século XVII, um país estrangeiro e inimigo, havendo poucas relações entre ambos, motivo pelo qual a existência de Lojas operativas organizadas por toda a Escócia não poderia, por si só, impulsionar ou servir de catalisador do surgimento de uma Maçonaria especulativa, na mesma época, no sul da Inglaterra.

A tese de Colin Dyer (a teoria do “empréstimo”/“emprunt” em francês), seguida por outros autores ingleses contemporâneos, aponta para que o movimento que dá origem à maçonaria especulativa tenha tido origem e motivações claramente religiosas. O estudo comparado das “Old Charges” (“Antigos Deveres”) estabelece claramente que este movimento, aparentemente secreto, o que à luz da história da época se torna compreensível, não teve qualquer ligação com a maçonaria operativa. Teria sido estabelecido por altura de 1560 ou 1580, época em que os conflitos religiosos atingiram grande intensidade (atestam por exemplo que o Manuscrito da “Grande Loja, n°1” não teve nada a ver com o de “Cooke”, sendo um documento totalmente novo, já que a ortografia utilizada segue a das Bíblias publicadas em Inglaterra após a Reforma, ou seja a partir de 1540, cerca de 180 anos após este).

Os trabalhos de David Steveson trouxeram, contudo, uma nova interpretação da controversa questão das fontes da maçonaria especulativa. O fenômeno da “aceitação” utilizava uma expressão puramente inglesa, nunca adotada na Escócia, o que comprovou pela análise cuidadosa das listas dos membros das diversas Lojas, e da sua história durante vários decênios.

Detectou contudo, um novo ponto muito importante, a curiosidade e o interesse com que, desde a origem, algumas personalidades, entre as quais o famoso Sir Robert Moray, demonstraram sobre estas Lojas escocesas. A prática excepcional, mas comprovada, de receber com o título de membros honorários, pessoas estranhas ao ofício, teria permitido constituir uma população de “maçons livres”, que embora numericamente fraca, era legítima e ativa, possibilitando-lhes transmitir uma Maçonaria que lhes foi possível transformar em ordem às suas preocupações intelectuais e filosóficas.

Poderiam as lutas religiosas de 1640 a 1660/80 e depois entre stuartistas e hanoverianos, estar na origem da falta de documentação relativa às Lojas Inglesas?

Na Inglaterra, o papel de loja mãe foi durante muito tempo assegurado pela velha loja de York. Este teria sido o motivo da recua da “Old Lodge of York” em reconhecer a autoridade da Grande Loja de Londres, quando esta foi instituída em 1717. Segundo P. Naudon, somente após a reunião da Assembleia Maçônica de York, em 27 de dezembro de 1663, quando a Maçonaria já se tinha tornado especulativa, o título de grão-mestre foi aprovado, embora não conferisse autoridade administrativa a quem fosse designado. De fato, o escolhido poderia ser somente um “protetor”, garantindo o patrocínio à corporação. Os poderes do grão-mestre só foram criados a partir de 1717, com a Grande Loja de Londres.

Segundo Knoop e Jones, a hipótese duma rede desconhecida de lojas (iniciáticas e secretas), cuja existência e ensinamentos tenham escapado à análise do historiador, é insustentável, pelo menos se pretendermos permanecer no campo da história, tal como o entendemos.

Há, contudo, uma data a que devemos prestar atenção e que não é muitas vezes referida, que é 1707. Neste ano realizou-se o “Ato de União”, transformando a Escócia e a Inglaterra num único reino. As duas nações que tinham estado até aqui de costas voltadas e muitas vezes em guerra, iniciaram finalmente uma lenta, mas real , aproximação, sem que contudo, a desconfiança de um país face ao outro se tivesse automaticamente atenuado.

Da Royal Society à Grande Loja de Londres

Considerando as diferenças e eventuais interseções entre maçonaria operativa e especulativa, sobretudo na Escócia do século XVII e início do XVIII, nada permite fundamentar, face à sequência temporal e histórica, que a maçonaria especulativa tenha nascido em 1717. De fato, esta data é quase irrelevante no longo processo de desenvolvimento do movimento. Segundo Knoop e Jones,

“naquela altura, a formação da Grande Loja foi uma ocorrência de menor importância no desenvolvimento da Maçonaria, e não faz sentido constituir um marco na historia maçônica”.

No entanto a nova forma de organização instituída pela Grande Loja de Londres constitui uma inovação, face à organização predominante até ao momento, de raiz escocesa, centrada sobretudo nas Lojas.

P. Naudon salienta que não se conhecem as razões oficiais da criação da referida Grande Loja, francamente modesta na concepção, sendo a ênfase dada possivelmente à necessidade de um poder regulador sobre as lojas, o que fará sentido, como veremos.

Somos pois levados a concordar com a afirmação de J. Marty:

“O fato das mais influentes lojas maçônicas na Inglaterra, na Escócia e na Irlanda terem uma fortíssima influência stuartista, a outra família real que disputava o trono, impôs aos novos ocupantes do trono inglês o desenvolvimento de esforços imediatos para contrariar essa influência no mesmo terreno, como uma das formas de manterem o poder adquirido.”

Não é pois sustentável diluir historicamente a criação da Grande Loja de Londres (que no século seguinte evoluiria para a Grande Loja Unida da Inglaterra), como não deixando de corresponder a um plano político organizado pela nova família real inglesa, a dinastia Orange ou hanoveriana, para combater a influência stuartista.

Recuando de novo à questão do nascimento da Maçonaria Especulativa, é necessário correlacioná-la e ter também presente a criação da Royal Society, em 28 de novembro 1660, no Gresham College, em Londres e em que tiveram destacado papel alguns maçons ou Rosacruzes da época, nomeadamente Robert Moray, Elias Ashmole, Christopher Wren, e outros.

Robert Moray foi elemento preponderante na liderança que constituiu a Royal Society, e foi virtualmente o seu presidente durante 1661 e a primeira metade de 1662, apesar do titulo não ter sido formalmente utilizado por ninguém, até a carta patente receber o selo real, onde foi personagem decisivo. O aparecimento desta instituição mostrou claramente o crescente interesse na investigação científica e na experimentação, e o prestigio crescente destas atividades.

Antes da constituição da Royal Society, a ciência estava completamente dominada pela religião e amarrada a argumentos teológicos. Qualquer investigador que desafiasse a visão dos inquisidores era considerado herege e punido enquanto tal, pagando muitas vezes o preço da própria vida.

Mais do que um conjunto de ideias estabelecidas, os princípios de estudo da natureza propostos pela Royal Society representavam uma atitude e uma maneira inovadoras de pensar a realidade, resultantes do desejo de reexaminar e pôr em questão as ideias e os valores recebidos, mas com enfoques bem diferentes.

A esta grande mudança no desenvolvimento científico, levando uma comunidade a rejeitar uma teoria pseudo-científica anteriormente seguida, em favor de uma outra com ela incompatível, traduz uma mudança de paradigma, no sentido “kuhniano” do termo. A esta mudança não foram alheios os ideais da verdade, da tolerância, do respeito pelo trabalho realizado, da retidão e da fraternidade dos Maçons que estiveram associados à fundação e direção inicial da Royal Society, da qual que Isaac Newton veio a ser um dos mais notáveis presidentes (já no início do século XVIII).

Em resposta à interpretação de Eric Ward, Frederic Seal-Coon respondeu no ano seguinte (1979) com uma teoria mais política, que estabelecia a correspondência cronológica entre o nascimento da maçonaria especulativa e as relações tumultuosas da dinastia escocesa dos Stuarts com o trono da Inglaterra, ocupando grande parte do século XVII e a primeira metade do século XVIII, em que tentou recuperar o trono, após o exílio na França.

Na Grã-Bretanha, tanto os stuartistas, quanto os hanoverianos, foram atraídos para alianças maçônicas rivais. O sistema das lojas, combinado com o secretismo, ideais de lealdade e modos secretos de reconhecimento, originou uma estrutura ideal de organização, na qual os membros puderam colocar os seus próprios valores, podendo adaptá-los para utilização própria.

Da análise dos sermões do Rev. Anderson de 1712 e 1715, Steveson concluiu que era evidente uma tonalidade “whigh” (protestantes, partidários da casa de Hannover) radical e determinante, já que descreve o país como

“benzido com um bom protestante como soberano e uma feliz Constituição, depois de libertado das garras e da escravatura papista, pela revolução…”

Aliando estas interrogações ao fato das Constituições elaboradas pretensamente pelo Rev. Anderson (que era pastor presbiteriano escocês), elaboradas em 1723, seis anos depois da criação da Grande Loja de Londres, terem efetuado uma “limpeza criativa e radical” (continuada pelo duque de Montagu) de toda a documentação conhecida anteriormente existente, contribuiu para reforçar um conjunto de interrogações, cujo esclarecimento tentamos aprofundar.

Somos, pois, levados a concordar de novo com J. Marty, em que

“a história oficial que foi criada e difundida, constituiu parte de um programa de cultura imperial global muito ativo no último quadrante do século XVIII e no século XIX, por parte da potência dominadora a nível mundial nesse período, a Grã- Bretanha.”

Também não se encontra antes de 1723 nenhum texto proibindo as lojas escocesas, e mais tarde as lojas temporárias inglesas, de serem criadas sem terem a autorização superior de alguém com poderes para tal, mas a partir daquele ano, só puderam ser criadas novas lojas na Inglaterra com a obtenção prévia da carta patente, firmada pelo Grão-Mestre da Grande Loja de Londres.

O primeiro Grão-Mestre de origem nobre da Grande Loja de Londres foi, em 1721, o Duque de Montagu, “whigh” convicto, condecorado em 1718 por George I com a distinta Ordem da Jarreteira, responsável pela criação em 1745, de um regimento de cavalaria para combater o príncipe Carlos Eduardo Stuart, quando da última tentativa deste para recuperar o trono.

Os dados parecem pois apontar para que tenha existido uma tomada de poder dentro da fraternidade maçônica pela facção “whigh”, então minoritária, numa época em que a ascensão ao trono de George I de Hanover, três anos atrás, estava longe de ser unânime, quer na Inglaterra, mas sobretudo na Escócia.

A reação stuartista/jacobita não se fez esperar e o duque de Wharton, de regresso da Europa depois de convertido à causa stuartista, conquistou o grão-mestrado num golpe interno. Foi destituído no ano seguinte, mas a luta de influencias, perdida no território inglês, continuará agora na França.

As “lojas escocesas” na França

Desde que se deu a confrontação entre os Stuarts e o Parlamento, e mais tarde entre os Stuarts e a casa de Hannover, cada uma duas partes procurou trazer a Ordem para o seu lado. A ligação desta aos Stuarts era manifesta desde a Escócia, em virtude das origens escocesas comuns, pelo que não lhes foi difícil utilizá-la como aliada e veículo dos seus objetivos restauracionistas.

O papel desempenhado pela Maçonaria Escocesa na França é confirmado pelo cavaleiro Ramsay, no seu famoso “discurso” de 1737, sendo a presença de lojas escocesas mais evidente a partir do exílio forçado dos Stuarts.

A Maçonaria stuartista chegou na França em 1688 através das primeiras lojas militares que se formaram nos regimentos que acompanharam James II, no exílio em Saint Germain de Laye. Existem provas de que a fuga para França intensificou a criação de Lojas maçônicas nos regimentos stuartistas. Por volta de 1689, os regimentos escoceses e irlandeses sediados na França possuíam “staffs” maçônicos, constituindo muitas vezes, a autoridade administrativa, sendo os militares a executiva.

É possível que a primeira loja na França tenha sido a que mais tarde se designou por “La Parfaite Égalité” (inicialmente “Irish Guard Lodge”), loja militar real irlandesa do coronel Walsh, do regimento de guarda pessoal de James II. Quatro anos depois da sua fundação , o Grande Oriente de França reconhece, em 1777, que essa loja foi constituída em 25 de março de 1688.

A primeira loja francesa, indiscutivelmente conhecida, foi fundada em 1725 por Charles Radcliffe de Derwenwater e outros fervorosos stuartistas. Sensivelmente por volta de 1728, as lojas escocesas na França, reconheceram como Grão-Mestre o duque de Wharton, anterior Grão-Mestre da Grande Loja de Londres e apoiador dos Stuarts. Após a sua morte, em 1731, Lord Derwentwater assumiu o grão-mestrado, seguido por Hector MacLean (baronete escocês) de 1733 a 1735 e de novo Lord Derwentwater, a partir de 1736.

A concorrência “whigh”/hanoveriana, não se fez esperar muito, deslocando-se também a partir de 1734 para o solo francês, com a criação em Paris de uma loja rival à de Derwentwater, em que a Grande Loja de Londres se faz representar pelo duque de Richmond e Jean T. Desaguiliers. O conflito provocado pela existência de duas categorias de lojas rivais – escocesas e inglesas, transpôs-se e desenvolveu-se também na França, até à criação da Grande Loja de França e da nomeação do duque de Antin, como Grão-Mestre (ad vitam), em 24 de junho de 1738.

Foi o duque de Montagu, que sucedeu, desde 1721, ao pastor J. T. Desaguiliers, que se comprometeu a introduzir na França a Maçonaria especulativa (tendência “inglesa”). Do desenvolvimento dos ritos da época, a par das teorias filosóficas que sustentaram o aparecimento da Real Society, acabaria por surgir o Rito Francês. Mais tarde, e embora apresente maior parentesco com a matriz escocesa, acabaria por surgir o Rito Escocês Antigo e Aceito, assim designado apesar do berço francês.

Notas finais

Julgamos poder concluir, no essencial, que a moderna maçonaria teve origem escocesa, em vez de inglesa. A evidência escocesa pode ser fielmente comprovada durante o século XVII, através dos documentos oficiais de várias lojas, que foram conservados, graças aos Estatutos de Schaw. Contrariamente, na Inglaterra somente parcos registos em papel, que possam ter pertencido a Lojas, sobrevivem.

O termo “aceito” continuou a ser aplicado na Inglaterra aos Mmaçons iniciados, e a Grande Loja de Londres, fundada cerca de 40 anos depois, passou a chamar-lhes “maçons livres e aceitos“. Nos anos do rápido desenvolvimento da maçonaria inglesa depois de 1700, os rituais que surgiram eram baseados na “mason word” e as práticas descritas no catecismos mais antigos têm, sem dúvida, origem na Escócia.

A primeira referência a uma loja inglesa caracterizada por um corpo permanente e não por uma reunião ocasional, é a de Chester, também no norte do país. A primeira loja na Inglaterra cujas atas sobreviveram, a loja de Alnwick, fica a 20 milhas da fronteira com a Escócia. A loja mais antiga descrita na Inglaterra refere-se a Warrington, no Lancashire, também no Norte.

Tudo isto sugere claramente que as lojas maçônicas, na sua moderna configuração, nascem da instituição escocesa que se espalhou pela Inglaterra no decurso do século XVII. A maçonaria na qual os primeiros “gentlemen” não operativos foram iniciados foi também muito influenciada pelas práticas escocesas.

No entanto, e esta é uma diferença essencial, desde o início os ingleses preferiram encontrar-se informal e irregularmente, apelidando por vezes estes encontros ocasionais de “reuniões de loja”. No entanto, a institucionalização da estrutura, originada por Schaw, foi reconhecida e as lojas ocasionais foram dando progressivamente origem a instituições permanentes.

Doze dos Grão-Mestres da Inglaterra no século XVIII eram escoceses e, quando os maçons franceses inventaram inúmeros altos graus e rituais, sentiram que a melhor maneira de lhes dar legitimidade era designá-los por “Rito Escocês”. Também estes fatos parecem admitir tacitamente que a maçonaria escocesa tem um papel especial na história da Ordem….

O objetivo subjacente à elaboração das Constituições de Anderson, o papel desempenhado por Desaguiliers, a Grande Loja de Londres e os conflitos que se arrastaram por quase 100 anos entre “Antigos” e “Modernos”, podem dar lugar a diversas interpretações, mas certo é que por trás destes conflitos estavam dois conceitos distintos da Maçonaria, que foram utilizados na disputa do trono real britânico pelos blocos stuartista e hanoveriano.

Parece não existir dúvidas, face aos historiadores e obras que temos referido, que as Lojas maçônicas escocesas, irlandesas e inglesas foram palco da intensa luta entre estes dois blocos, que no fundo apoiavam duas concepções religiosas distintas, a católica e protestante. Também pode não ter sido ocasional que o Papado só tenha apresentado a sua primeira Bula contra a Maçonaria (“In Eminenti Apostolatus Specula”), quando já era evidente que a luta entre os dois blocos pendia para os protestantes (hanoverianos) e a derrota definitiva dos Stuarts se resumia a uma questão de tempo. Todavia, este assunto é por demais vasto, exigindo elevada preparação e estudo, para que possa ser tratado nestas breves e humildes notas.

Pelas análises dos historiadores que citamos, nomeadamente Steveson e Eric Ward, a teoria da “transição” parece não ter suporte documental fidedigno, pelo menos analisando historicamente os dois países onde mais se enraizava, a Inglaterra e a Escócia.

Parece também não existirem dúvidas de que as Constituições de Anderson traduziam uma versão mais universalista e agregadora da Maçonaria, rompendo com as versões mais tradicionalistas, que eram a base da Maçonaria católica stuartista.

Em reação a esta visão mais progressista (à época) organizaram-se mais tarde os “Antigos”. Esta polêmica entre “Antigos” e “Modernos” durou cerca de 100 anos, mas o enfraquecimento progressivo da Grande Loja de Londres e a pressão do establishment real acabaria, também por pressão adicional da revolução francesa e dos receios por ela provocados na monarquia britânica, de proporcionar a fusão das duas, originando a Grande Loja Unida de Inglaterra, com predominância inequívoca dos valores dos “antigos”.

O estudo das origens é fundamental para uma melhor compreensão da Ordem. No entanto a sua análise, contribuindo para a nossa progressão individual a caminho do conhecimento e da Luz, só alcançará o seu sentido último se alavancar o nosso trabalho no mundo profano.

Termino citando Jean Mourges:

“Independente da interpretação das origens, a Augusta Ordem deverá conservar dois princípios, sem os quais não será Maçonaria:

      • Os Maçons são construtores. Creem na possibilidade de estabelecer uma Ordem Social ou em todo o caso de contribuir para a estabelecer”; e,
      • Escolher os construtores que, entre eles, saibam elevar-se acima das querelas das Escolas, já que a perfeição da ordem Coletiva repousa na qualidade dos homens chamados a construí-la.”

Autor: Salvador Allende – R∴ L∴ Ocidente

Fonte: Freemason

Revisão e adaptação ao português brasileiro: Luiz Marcelo Viegas

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Bibliografia

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A Maçonaria e os Labirintos da República

Há um ditado que diz: a democracia pode não ser o melhor regime de governo que existe, mas ainda não tivemos ideia melhor. Parodiando, ouso dizer que o regime republicano pode não ser o ideal, mas ainda não descobrimos outro mais satisfatório.

Apesar de a maçonaria moderna ter sido organizada numa monarquia – na boa e velha Inglaterra, entre 1717 e 1723 – a atuação política da Ordem firmou-se mediante uma filosofia voltada para os ideais republicanos e através de erros e acertos. Mesmo a United Grand Lodge of England reconhece que a instituição teve origem nas corporações de pedreiros operativos, portanto, homens do povo e não da nobreza.

Dois anos após James VI da Escócia ter sido iniciado na Loja Perth and Scone, ele assumiu os tronos da Inglaterra e Irlanda com o título de James I. Desde então, todos os homens da família real foram iniciados na maçonaria. Mas, o primeiro documento de iniciação em solo inglês é, ao que parece, de 1646 em Warrington.

Esse primeiro maçom, um dos fundadores da Royal Society, era o antiquário judeu Elias Ashmole, oficial de armas, astrólogo, alquimista – tudo, menos um nobre. Os primeiros iniciados de sangue azul inglês apareceram a partir das décadas seguintes a Ashmole. E, quando os Stuarts foram exilados na França, criou-se a primeira loja escocesa naquele território, primeiro em 1728 como Grande Loja da França, depois em sua forma e nome atuais desde 1773. O Grande Oriente da França foi produto do Iluminismo visando à prática da maçonaria liberal e antidogmática.

Distanciados do fundamentalismo, os maçons franceses moldaram uma iniciação baseada no desenvolvimento individual e numa filosofia humanista disposta a repensar os problemas do mundo pelo prisma das questões sociais.

Nesta linha de pensamento, durante dois séculos, caminharam os maçons Voltaire, o abolicionista Schoelcher, o revolucionário Motier Marquês de La Fayette, o paladino dos direitos humanos Jean Zay, Garibaldi, Eboué, o emir Abd-el-Kader, o socialista Blanqui, e Brossolette, líder e maior herói da Resistência.

Seria uma infantilidade afirmar que bons reformadores e bons líderes são maçons; mas não é exagero dizer que bons maçons são comprometidos com as reformas sociais. Desde os primórdios da Revolução Francesa (1789-1799) a maçonaria se empenhou na afirmação dos ideais republicanos garantidores de Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

Apesar do achismo equivocado de que o tríptico Liberdade, Igualdade e Fraternidade foi adotado pela maçonaria a partir da Revolução Francesa, o fato é que foi a Revolução que chamou para si o códice maçônico. Georges Jacques Danton, procurador da Comuna, Ministro da Justiça e deputado, foi iniciado na mesma Loja que Voltaire – Les Neuf Soeurs de Paris. Jean Paul Marat, médico e jacobino extremista, conheceu a Ordem na Inglaterra e alcançou o Grau de Mestre em 1774 na Loja King Head. Maximilien Robespierre frequentava os meios acadêmicos na qualidade de membro da Loja Hesdin do Pas-de-Calais em Arras.O jornalista e advogado Camille Desmoulins tornou-se maçom em 1776 na Loja Des Maîtres de Amiens. Charles Louis de Secondat Montesquieu (1689–1755), filósofo e membro da Academia Francesa, foi iniciado na loja londrina Horn Tavern de Westminster, tendo o Duque de Norfolk como Venerável que presidiu a cerimônia.

Montesquieu foi um dos precursores do método classificatório das formas políticas: monarquia, aristocracia e governo dos comuns. Sua teoria da separação dos três poderes, consagrada nas constituições liberais, estabelece a administração do governo através do executivo, legislativo e judiciário em contraposição ao poder soberano, dominador e centralizado numa pessoa, dinastia ou casta.

Não foram poucos os conflitos entre a monarquia e a república. Entre nós, quando imperava o Maçom Grão-Mestre D. Pedro I, também imperou o conflito constante entre o paulista José Bonifácio de Andrada e Silva – maçom defensor da monarquia constitucional – e seu ilustre rival, o carioca Joaquim Gonçalves Ledo, maçom e ferrenho defensor da república. Mas, graças ao bom Deus – que, segundo se crê, é brasileiro – acabou triunfando a República em 1889.

Da Maçonaria vieram os primeiros presidentes do Brasil: Deodoro da Fonseca (Loja Rocha Negra de São Gabriel, RS), Floriano Peixoto (Loja Perfeita Amizade Alagoana de Maceió), Prudente de Morais (Loja Sete de Setembro, SP) e Campos Sales (Loja Fraternidade Campineira, SP).  Nos Estados Unidos, onde eles dizem confiar em Deus – in God we trust– menciono também quatro presidentes maçons – que não fizeram seus sucessores, preferindo a sadia alternância de poder: George Washington, James Monroe, Andrew Jackson e James Knox Polk.

“O fato de as pessoas aprovarem o que está sendo feito por um governo – diz Marina Silva – não significa que elas queiram eternizar quem esteja no poder”; é a alternância de poder que promove o equilíbrio (Blog da Marina, 01/04/2010). Do contrário, as forças políticas se acomodam e o projeto de governo se transforma em projeto de poder “a se eternizar no tempo e a sufocar todo pensamento crítico no País” (vide Ministro Carlos Ayres Britto in Coletânea de Jurisprudência do STF em Temas Penais, julgamento em 30-4-09, Plenário, DJE de 6-11-09).

Modernamente, a iniciação maçônica busca a evolução do homem em todas as suas dimensões. Como maçonaria liberal e adogmática, a filosofia que herdamos interpreta o mundo como uma grande república. Sendo que o melhor ensino é o exemplo, a maçonaria pratica, nas lojas, uma administração segundo os parâmetros republicanos dos três poderes.

As Lojas, abertas aos homens de todas as religiões, desde que se disponham à busca da adequação passível de ser estabelecida, por meio do pensamento, entre a subjetividade e os fatos da realidade objetiva. Este é o sentido maçônico da palavra pesquisa, a primeira das liberdades, motor do pensamento e da ação.

Com relação à Igualdade, a maçonaria republicana se opõe fortemente às manipulações do poder, ao despotismo, aos inimigos da democracia e aos preconceitos. Vê a administração da república em sua forma mais pura – res publica: coisa pública – e a delegação do poder subordinada à escolha dos cidadãos e com duração limitada.

Autor: José Maurício Guimarães