Os Grandes Ensinamentos da Maçonaria – Capítulo V

Nos encontramos sobre o Nível

Não é sempre que um dos temas do pensamento especulativo torna-se a questão de calorosas discussões, mas isso é o que aconteceu em nossa história nacional entre 185o e 1861 com a doutrina da igualdade. Toda a discussão, não é preciso dizer, foi trazida à tona pela questão da escravidão. Oradores anti-escravidão não se cansavam de lembrar a seus amigos do sul que os pais da nação, na sua Declaração de Independência, tinham proclamado abertamente “que todos os homens são criados iguais”: sendo essa a verdade, eles argumentaram em seguida que os negros têm os mesmos direitos e deveres que qualquer outro cidadão. Os defensores pró-escravidão retorquiram dizendo que os pais do país, muitos deles, tinham sido donos de escravos, e que o que eles realmente queriam dizer era: “todos os homens são criados iguais, exceto os negros.” Aquele que estuda completamente os debates mais importantes sobre o assunto – e será muito recompensado por isso – vai aprender como é extremamente difícil criar alguma definição de igualdade que imediatamente irá fazer justiça, alterando a maneira de como as coisas são para como elas deveriam ser. A igualdade é uma aspiração (na Maçonaria como em outros lugares), uma esperança, um sonho, um ideal, difícil de se exprimir apenas em palavras, algo que não se consegue apenas com a força do pensamento, de modo que se deve continuar tratando do assunto depois de tudo que foi pensado sobre ele se você ainda não é capaz de conceber a igualdade.

É tão difícil chegar a uma concepção clara de igualdade a partir da história da Maçonaria, como é a partir da história desta nação. A velha Maçonaria Operativa não teve qualquer igualdade, exceto em um sentido muito especial. Sua corporação era uma parte indefesa de uma ordem social aristocrática.

Ela mesmo era um lugar em que a própria associação era determinada pelos regulamentos mais rigorosos estabelecidos “de cima para baixo”. As próprias corporações foram classificadas por relevância, e os membros de cada associação rapidamente também criaram uma hierarquia similar. Não há nenhuma evidência de que, antes de 1717, qualquer forma de Maçonaria explicitamente ensinava e aplicava a doutrina da igualdade. Posteriormente a 1717 a doutrina veio à tona, e em alguns países quase esteve em primeiro lugar entre os ensinamentos maçônicos. Mas, mesmo assim, houve muitas exceções. Na Maçonaria dos países latinos não havia igualdade, por razões óbvias, tendo sido então este um tema muito mais enfatizado.  Mesmo na Inglaterra, a casa da democracia, ela nunca teve uma aplicação muito rigorosa. Quando o conde de Carnarvon empossou o Rei Eduardo VII como Grão-Mestre, ele teve o cuidado de lembrar àquele potentado que a Maçonaria Inglesa nunca tinha sido subversiva ao sistema monárquico na Inglaterra como tinha sido em outros países.

É na França e na América que encontramos a doutrina maçônica da igualdade mais em evidência, e mais influente. O papel desempenhado pela Maçonaria durante a Revolução Francesa é, e talvez seja para sempre, um mistério. Mas não há provas sólidas que indiquem que a Maçonaria tinha poder suficiente para convencer as massas francesas de que essas tinham direitos próprios. Atualmente liberdade e democracia são amplamente entendidos na França no sentido igualitário. “Liberdade, Fraternidade, Igualdade” é um slogan que ainda não perdeu seu poder de encanto.

Mas é em nossa própria terra que a igualdade tem desempenhado o seu importante papel na história maçônica. Pode ter sido a própria Maçonaria (embora isso seja alvo de acaloradas discussões) quem escreveu na Declaração as palavras: “todos os homens são iguais”. É certo que a Maçonaria tinha muito a ver com a estirpe de igualitarismo que consta na Constituição. É certo que a Ordem estava na vanguarda na defesa dos direitos igualitários dos negros. E é certo que, nos dias atuais, igualdade e Maçonaria são quase sinônimos para muitas pessoas.

Eu tenho minha própria teoria sobre o que significa a Igualdade para os maçons, e eu vou expô-la, mas isso não é nada mais que minha própria opinião, e não uma manifestação de uma formulação geralmente realizada da doutrina. Eu desejo que tal interpretação geral possa ser feita, porque é isto que o pensamento maçônico exige. Até que possamos elaborar tal interpretação por completo o assunto sempre permanecerá nebuloso como parece ser agora (se assim se pode pensar a partir de livros maçônicos, discursos e artigos), e não são muitos os maçons que irão entender o que queremos expressar quando dizemos que todos os maçons “encontram-se sobre o nível”.

É mais fácil aproximar-se de uma pessoa por um processo de eliminação. Pela igualdade, não podemos dizer que todos os homens são iguais em sua características naturais.

Há homens grandes e homens pequenos, e todos nós sabemos que, em muitos casos, um homem grande “nasceu assim”, e que um homem pequeno  não pode se tornar grande mesmo por muito esforço. Porque é assim é um mistério, e parece ser (embora sem dúvida não seja) uma injustiça fundamental na própria estrutura do universo. Isso me veio à mente recentemente durante a leitura do terceiro volume de “A História dos Estados Unidos”, de James Ford Rhodes, em que ele descreve através de várias páginas a comparação entre Lincoln e McClellan. McClellan foi rancoroso, vaidoso e mal-educado; ele era um bom organizador, mas não tinha a coragem que, naturalmente, pertence a um general. Ele tratou o presidente com grosseria, e escreveu a sua esposa (de McClellan) palavras carregadas de tanto orgulho que a fizeram acreditar que o destino da União dependia dele sozinho. Lincoln era uma grande encarnação do poder humano, e podia ser magnânimo, brando, e por essa mesma razão paciente. Com esse contraste entre eles, não podiam então se ajudar, mas acredito  que as diferenças que os mantinham separados eram originárias apenas da “natureza” de cada um, e que no momento do nascimento Lincoln teve mais da natureza humana  do que McClellan. Uma desigualdade como essa, aquela que vai. até as raízes do ser, é aquela que é difícil de conciliar com o nosso senso de justiça imparcial da natureza. Mas o fato é que nesse caso, e em qualquer outro, por dois homens não possuírem os mesmos talentos, deixamos os teóricos abstratos falar o que que quiserem.

Nós não podemos dizer que os homens são iguais em natureza: também não podemos dizer que eles são iguais, ou podem ser iguais, na oportunidade. Isso pode eventualmente acontecer em pequenos círculos onde todos os membros vivem nas mesmas condições, como no caso de uma família, ou um bairro, mas não é o que ocorre quando olhamos de uma maneira mais ampla. O Bosquímanos australianos, para tomar um exemplo extremo, podem nunca ter as oportunidades para a educação, para a riqueza, para o prazer, a fama, etc., e por outro lado o jovem americano médio pode vir a desfrutar de tudo isso.  Os homens devem ter oportunidades iguais, mas eles não as tem. Eles nunca podem tê-las porque a própria Terra é muito diversificada, e em cada lugar são diferentes as “armas” oferecidas àqueles que ali nascem de modo que possam estar aptos a aproveitar o que a vida ali lhes oferece.

Os homens não nascem iguais em habilidades. Por isso não é necessário dizer muito porque esse tipo de desigualdade nos confronta em todos os lugares. Ela costumava ser a moda entre os teóricos para ensinar que, se todos os homens pudessem receber a mesma educação e terem as mesmas chances de riqueza, e viverem sob as leis de igualdade, e serem libertados de restrições não naturais, todos viriam a ter a mesma taxa de sucesso. Horace Mann acreditava firmemente que, se todos os meninos e meninas desta nação pudessem entrar na faculdade todos eles viriam a ser estudiosos, proficientes em grego, latim e artes. Mas aqueles que tiveram alguma experiência com meninos e meninas na faculdade sabem que nada é mais certo e invariável do que as diferenças de habilidade. Um aluno, não importa o quanto ele tente, pode não dominar as disciplinas; outro parece compreendê-las por natureza.

Por fim – não há necessidade de continuar com mais exemplos – não pode haver algo como igualdade social, se por esse termo entendermos uma uniformidade social. As classes sociais existem, e sempre existirão, porque as necessidades sociais e instintos são diferentes. Se uma classe social (eu uso a palavra em seu sentido mais amplo) é baseada em castas, ou privilégio aristocrático, ou qualquer outro tipo de privilégio especial, então é um mal. Mas há muitas classes sociais que são baseadas não no princípio da superioridade de um grupo de pessoas para com outro, mas sobre o fato da diferença entre os homens. Vou usar um exemplo simples. Em uma pequena cidade um grupo de cinquenta pessoas se organiza em um clube literário, e nas atividades do clube reúnem-se socialmente, se familiarizam uns com os outros, e todos compartilham do prazer comum da arte literária. Suponhamos, para clarear o exemplo, que a admissão a este clube se baseie puramente no desejo de compartilhar o estudo da literatura. É claro que haverá um grande número de pessoas na comunidade que nunca irá desejar a adesão, porque em cada comunidade há muitos que, por sua natureza, não se importam em nada com literatura. Esse exemplo, como eu disse acima, é de caráter trivial, por si só, mas pode servir para nos lembrar de como há muitas variações sociais, classes, panelinhas, clubes, etc., e existem em todos os lugares, onde não pairam qualquer discussão sobre superioridade, mas há diferenças de interesses, gostos e objetivos entre as pessoas. Enquanto existirem tais diferenças (que provavelmente irão existir enquanto existir a raça humana) nunca chegará o momento em que tais agrupamentos sociais irão desaparecer, e por conseguinte, nunca chegará o momento em que todos os homens irão desfrutar das mesmas vantagens sociais. Trabalhar para a criação de um Estado social, tal como os comunistas já fizeram (Owen, Fourier, Saint-Simon, etc.) é esforçar-se para o impossível. Tal comunismo social não é a igualdade em nenhum sentido possível.

O que, então, é a igualdade? Em vez de tentar qualquer definição exaustiva, vou fazer uma generalização a respeito dela, e então confiar a uma série de exemplos que espero possam defini-la. A afirmação é a seguinte: todo homem está habilitado a ter direitos iguais aos direitos desfrutados por outro homem,  para os desempenhos normais e sem impedimentos de sua natureza.

Sir Isaac Newton tinha um grande intelecto, um dos maiores que já apareceu na Terra, e nisso todos os historiadores concordam. Meu intelecto não pode, de forma alguma, ser comparado ao dele. No entanto, eu reivindico o direito de usar meu intelecto, tal como ele é, do mesmo jeito que ele usava o dele; e ele, se estivesse vivo, teria qualquer direito, apenas por causa de sua própria superioridade, para me negar as prerrogativas de usar meu intelecto. Para ele a fazê-lo, e para mim a submeter-me a tal humilhação seria um crime contra a natureza. O direito de utilizar a mente é, para todos os homens em todos os lugares, sempre o mesmo direito, qualquer que sejam as desigualdades de capacidade mental. Sempre que esse direito é dificultado, ou controlado no interesse de alguma panelinha ou classe, como já aconteceu muitas vezes, a sociedade sofre, os indivíduos sofrem, e um erro é cometido que merece uma punição exemplar.

A mesma coisa vale para as habilidades práticas.  William Morris tinha um gênio extraordinariamente versátil. Ele poderia tecer tapeçaria, esculpir madeira, pintar quadros, escrever poesia, fazer discursos, modelo em argila, publicar livros, e uma mais uma infinidade de coisas, e fazer tudo com rara habilidade. Há poucos de nós que poderiam reivindicar tal capacidade, mas, mesmo assim, temos o mesmo direito de usar nossos “poderes”, tal como eles são, assim como Morris usava os seus. Por isso é fundamental e muito importante dizer que Morris não era melhor que o mais desajeitado aprendiz que trabalhava em suas oficinas.

Cada um de nós é social por natureza, e quase cada um de nós aprecia o raro privilégio de amizade. Mas alguns homens tem o talento para fazer amizades. Theodore Watts-Dunton, ele mesmo relativamente um desconhecido, era o centro de um círculo de amigos em  que quase todos se tornaram famosos em algum momento. Nosso próprio Charles Eliot Norton, um dos espíritos mais raros já habitaram esta terra, contava entre seus amigos íntimos homens como Ruskin, Carlyle, Emerson, Lowell, George William Curtis, Charles Darwin, Leslie Stephen, e ninguém sabe quantas mais personalidades de destaque. Você e eu podemos contar os nossos amigos nos dedos de uma mão, e por mais humildes que eles possam ser, por mais simples que tenham sido suas realizações, cada um de nós tem o direito de ter amigos, o mesmo direito que beneficia os Watts-Dunton e Eliot Norton. Tal afirmação pode parecer extremamente banal, mas há lugares no mundo agora, e houve muitos lugares no passado,  onde a vida social foi tão rigidamente restrita que o costume e a ordem aristocrática a tornaram impossível para todos, mas uns poucos conseguiram colocar em prática, sem obstáculos, o cultivo da amizade, algo tão caro nas relações humanas.

O direito de igualdade humana foi frequentemente violado, ao que parece, na religião, o campo em que os homens deveriam desfrutar da maior medida dele. Quantas narrativas de usurpações, tirania e aristocracia tem sido a história das religiões no mundo! Só de pensar no assunto exemplos vêm à mente em números incontroláveis. Durante um grande período de sua história o povo egípcio foi totalmente humilhado sob os pés de uma hierarquia sacerdotal que doutrinou as massas com seus próprios instintos de culto, e fizeram uso desse instinto para obter vantagens para sua própria classe. Depois de Buda ter revelado aos olhos de seu povo a sacralidade de cada alma ante as realidades inefáveis e eternas do universo, os brâmanes vieram com suas castas e seus mecanismos de opressão e as pessoas perderam mais uma vez todos os usos de suas próprias faculdades religiosas. Jesus veio fazer com que cada homem conhecesse a si mesmo como filho de Deus, unido ao grande círculo de irmãos, mas depois o tempo passou, e os clérigos perderam o caminho, sendo necessária uma revolução luterana para restaurar aos cristãos “A liberdade de um homem cristão”. A velha senhora do outro lado da rua, que lê a Bíblia de manhã e à noite, que quando acorda e quando vai dormir faz uma oração, e que vive em sua maneira humilde e ignorante uma vida religiosa, pode estar a mundos de distância das faculdades religiosas de um Jesus, Buda ou Lutero; mas ela tem tanto direito quanto eles a ter seus pequenos pensamentos religiosos e conduzir sua vida de pequenas devoções.

A partir disso, será visto que a igualdade não é uma teoria utópica que os homens sonharam como sendo desejável neste mundo cruel. Longe disso! A igualdade é uma necessidade da nossa natureza, sem a qual vivemos mutilados, vivemos vidas infelizes. É uma necessidade, quando bem compreendida, como alimentos, roupas e abrigo. O que aflige os homens é que a igualdade que a natureza ordena é um crime contra a essência humana. Ele faz algo que deve, necessariamente, ser seguido por consequências trágicas, como é o caso da violação de qualquer outra condição, tornadas necessárias pela própria Natureza. É por isso que a doutrina não é um mero brinquedo para eruditos, mas um problema premente para cada homem, no entanto ele pode estar ocupado e não se dar conta disso.

“Mas”, algum leitor pode aqui legitimamente interpor, “isto é tudo muito bom, e ninguém vai negar que a igualdade é um direito, mas de que forma podemos tratá-la como algo real? Qualquer um precisa apenas olhar em volta para ver que a igualdade simples e básica que você descreveu não está sendo desfrutada pelas massas!”

“É verdade,” Eu deveria responder: “mas você se limitou a afirmar o fato complementar (complementares, isto é, com o que tenho dito até agora) que a igualdade é uma tarefa bem como um direito, e é precisamente porque a igualdade é um direito que é para todos nós uma tarefa.” Com isso quero dizer que, se temos claro em nossa mente que todo homem tem todo o direito de uma medida razoável de igualdade, então é uma tarefa para todos nós, na medida em que somos bons maçons e cidadãos, para assim ver um dia que todo homem pode desfrutá-la. Ver todo homem conquistar a igualdade é uma das grandes missões em que a Maçonaria está envolvida.

Vamos considerar um momento igualdade perante a lei. Houve um tempo na Inglaterra, quando só os ricos tinham acesso à proteção da “lei” em tudo, e quando o sacerdócio tinha seus próprios tribunais, onde padres faziam as leis para padres. Homens pobres foram presos; condenados sem julgamento; e muitas vezes executados sem provas. Tudo dependia do capricho do conde, ou do barão, ou bispo, ou rei, ou um outro qualquer. Mas aos poucos foi desenvolvido na Inglaterra uma verdadeira igualdade perante a lei, como pode ser comprovado através das seguintes importantes marcas da evolução da liberdade do povo inglês:

  • Carta Magna
  • A petição de Direitos, 1628
  • Habeas Corpus, 1679

Em nossos dias de colônia esses ganhos obtidos pelo povo da Inglaterra, naturalmente, foram apreciados pelos primeiros colonizadores, e eles, finalmente, depois de escrever a Declaração de Independência, incorporaram a igualdade perante a lei de base na Constituição, e nas primeiras sete ou oito emendas à mesma.

Mas, como seria de esperar, a igualdade perante a lei ainda não é um fato percebido por todos.  O advogado de uma grande corporação me disse que seus empregadores eram tão poderosos e que através de sua riqueza ele seria capaz de manter qualquer caso indefinidamente nos tribunais, e, assim, se desgastam qualquer adversário. “Atrasos da lei”, são muitas vezes uma calamidade triste para um homem pobre. Na minha própria comunidade, onde tinha minha antiga casa, eu sabia de dois homens cujas experiências opostas ilustram esse fato lamentável. Um deles era o presidente de uma grande corporação que em um tribunal federal foi considerado culpado em dez acusações graves, mas sendo um presidente de empresa, e muito rico, e muito importante, ele não pagou um centavo de multa e não passou um dia na prisão. Quando ele voltou para sua cidade natal, foi recebido na estação ferroviária por uma banda e uma longa procissão. O outro homem sobre quem eu sabia que tinha roubado uma bobina de fio de cobre de uma colheitadeira na mesma cidade e pegou dois anos na penitenciária pelo crime! O leitor sabe de casos semelhantes, eu não tenho nenhuma dúvida, e assim acontece em todo o mundo. Mas isso é só para dizer que qualquer direito que a humanidade ganha é sempre imperfeitamente realizado, e devemos sempre procurar ganhar mais e mais,  e todo direito adquirido deve ser cuidadosamente protegido, porque se relaxarmos a vigilância, e isso é uma tendência da sociedade, andaremos para trás. Igualdade perante a lei como agora temos neste país não é encontrada em nenhum outro lugar no mundo, salvo na Inglaterra, França e algumas outras nações. Na grande parte do mundo é uma coisa desconhecida. Se a igualdade ainda não é algo perfeito, o desafio de se chegar lá é nosso; e é em algum sentido, uma prova de que a doutrina da igualdade é uma coisa impossível.

O que é  dito sobre a igualdade perante a lei vale para o que é dito sobre igualdade de direitos e senso de justiça. E nós, maçons temos a obrigação particular de nos dedicarmos à tarefa de tornar a igualdade em todos os lugares uma realidade. A igualdade é um de nossos princípios fundamentais.  A Fraternidade não nos permite esquecer disso; o ritual grava-a no candidato em todos os sentidos;  a loja é de tal modo organizada para que todos “se encontrem sobre o nível”. O candidato é preparado para sentir que sem a ajuda de seus companheiros ele é um desprotegido, nu, cego, destituído das coisas, sem esperança; o membro da Ordem é preparado para saber que cada Maçom tem direitos iguais a todos os outros Maçons, paga os mesmos encargos, entra nas mesmas condições, tem suas funções nos mesmos termos que os outros, e compartilha em igualdade com todos os outros os encargos e obrigações da Ordem.

Continua…

Autor: H. L. Haywood
Tradução: Luiz Marcelo Viegas
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Seis Séculos de Ritual Maçônico – Última Parte

Mais Provas da França

Os ingleses plantaram a Maçonaria na França em 1725, e ela tornou-se um passatempo elegante para a nobreza e a aristocracia. O Duque Fulano de Tal realizaria uma loja em sua casa, onde ele era o Mestre para sempre, e a qualquer momento, ele convidava alguns amigos de sua roda, eles abririam uma loja e ele iniciaria mais alguns Maçons. Foi assim que começou, e levou cerca de dez ou doze anos antes que a Maçonaria começasse a se infiltrar na base da pirâmide, através dos níveis mais baixos. A essa altura, as lojas estavam começando a se reunir em restaurantes e tavernas, mas por volta de 1736, as coisas foram se tornando difíceis na França e temia-se que as lojas estivessem sendo usadas ​​para tramas e conspirações contra o governo.

Em Paris, em particular, precauções foram tomadas. Um edital foi emitido por René Herault, chefe geral da polícia, informando que os taberneiros e donos de restaurante não deviam dar guarida às lojas maçônicas, sob pena de ter o estabelecimento fechado por seis meses e uma multa de 3.000 libras. Temos dois registros, ambos em 1736-1737, de restaurantes bem conhecidos que foram fechados pela polícia por esse motivo. Não deu certo, e a razão era muito simples: a Maçonaria tinha começado em casas particulares. No momento em que a polícia começou a reprimir as reuniões em tavernas e restaurantes, ela voltou para casas particulares; ela passou à clandestinidade por assim dizer, e a Polícia ficou inerme.

Eventualmente, Herault decidiu que ele poderia fazer muito mais danos à Maçonaria se pudesse torná-la alvo de chacota. Se ele pudesse fazê-la parecer ridícula, ele tinha certeza de que poderia colocá-la fora de ação para sempre, e ele decidiu tentar. Ele entrou em contato com uma de suas amigas, uma certa Madame Carton. Agora, Irmãos, eu sei que o que eu vou dizer a vocês soa como o nosso English News of the World (jornal de noticias populares inglês), mas o que eu estou lhes dando está gravado na história, e é uma história muito importante. Então, ele entrou em contato com Madame Carton, que é sempre descrita como uma dançarina da Ópera de Paris. A verdade é que ela seguia uma profissão muito antiga. A melhor descrição que dá uma ideia de seu status e de suas qualidades é que ela dormia nas melhores camas da Europa. Ela tinha uma clientela muito especial. Agora ela não era jovem; tinha 55 anos na época e tinha uma filha que também estava na mesma linha interessante de negócio. E eu tenho que ser muito cuidadoso com o que eu digo, pois se acreditava que um de nossos próprios Grãos-Mestres estava enredado com uma delas ou com ambas. Tudo isso estava nos jornais da época.

De qualquer forma, Herault entrou em contato com Madame Carton e pediu-lhe para obter uma cópia do ritual maçônico de um de seus clientes. Ele tinha a intenção de publicá-lo, e expondo os maçons ao ridículo, ele ia colocá-los fora do negócio. Bem! Ela o fez, e ele o fez. Em outras palavras, ela conseguiu sua cópia do ritual e passou-a a ele. Ela foi publicada pela primeira vez na França em 1737, sob o título “Reption d’un Frey-Maçon”. Dentro de um mês, ela foi traduzida em três jornais de Londres, mas não conseguiu diminuir o zelo francês pela Maçonaria e não teve qualquer efeito na Inglaterra.

O texto, em forma de narrativa, descrevia apenas uma única cerimônia de dois pilares, lidando principalmente com o trabalho em loja e apenas fragmentos do ritual. O candidato era privado de metais, joelho direito nu, sapato esquerdo usado “como um chinelo” e trancado em um quarto sozinho na escuridão total, para colocá-lo no estado de espírito certo para a cerimônia. Seus olhos estavam vendados e seu padrinho batia três vezes na porta da Loja. Depois de várias perguntas, ele era apresentado e admitido sob os cuidados de um Guarda (Vigilante). Ainda com os olhos vendados, ele era levado três vezes em volta do desenho do pavimento no centro da Loja, e havia “brilhos de resina”. Era costume nas lojas francesas naqueles dias ter uma panela de brasas vivas dentro da porta da loja e no momento em que o candidato era trazido, eles polvilhavam resina em pó sobre as brasas, para fazer um enorme clarão, que assustaria o candidato, mesmo que ele estivesse com os olhos vendados. (Em muitos casos eles não os vendavam até que chegasse à Obrigação.) Então, no meio de um círculo de espadas, temos a postura para a Obrigação das três formas de penalidade, e detalhes dos aventais e luvas. Isto é seguido pelos sinais, toques e palavras relativas a dois pilares. A cerimônia continha várias características desconhecidas na prática inglesa, e algumas partes da história parecem ter sido contadas na sequência errada, de modo que, ao lê-lo, de repente percebemos que o cavalheiro que estava ditando teve sua mente mais ligada a assuntos muito mais mundanos. Então, Irmãos, esta foi a primeira exposição da França, não muito boa, mas foi o primeiro de um fluxo realmente maravilhoso de documentos. Como antes, discutirei apenas os mais importantes.

Meu próximo é Le Secret des Francs-Maçons (O Segredo dos Maçons), 1742, publicado pelo Abade Perau, que era Prior na Sorbonne, a Universidade de Paris. Um belo primeiro grau, tudo em forma de narrativa, e cada palavra a favor da Maçonaria. Suas palavras para o AM e CM estavam na ordem inversa (e isso se tornou uma prática comum na Europa), mas ele disse praticamente nada sobre o segundo grau. Ele descreveu o beber e brindar maçônico em grande extensão, com uma descrição maravilhosa do ‘Fogo Maçônico’. Ele mencionou que o grau de Mestre era “um grande lamento cerimonial sobre a morte de Hiram”, mas ele nada sabia sobre o terceiro grau, e disse que os Mestres Maçons apenas têm um novo sinal e isso foi tudo.

Nosso próximo trabalho é Le Catéchisme des Francs-Maçons (O Catecismo dos Franco-Maçons), publicado em 1744 por Louis Travenol, um jornalista francês famoso. Ele dedica seu livro “Ao Belo Sexo”, que ele adora, dizendo que ele está deliberadamente publicando essa exposição em benefício delas, porque os Maçons as excluíram, e seu tom é ligeiramente antimaçônico. Ele continua com uma nota “Ao Leitor”, criticando vários itens na obra de Perau, mas concordando que Le Secret está, de maneira geral, correto. Por essa razão (e Perau era irremediavelmente ignorante do terceiro grau), ele limita sua exposição ao nível de MM. Mas isso é seguido por um catecismo que é um composto para todos os três graus, sem divisões, embora seja fácil ver quais perguntas pertencem ao Mestre Maçom.

Le Catéchisme também contém duas excelentes gravuras dos Painéis de Loja ou Desenho do Pavimento, um chamado “Plano da Loja para o Aprendiz-Companheiro” combinado, e outro para “A Loja de Mestre”.

Travenol começa seu terceiro grau com ‘A História de Adoniram, Arquiteto do Templo de Salomão’. Os textos em francês costumam dizer Adoniram em vez de Hiram, e a história é uma versão esplêndida da Lenda de Hiram. Na melhor das versões em francês, a palavra do Mestre (Jeová) não foi perdida; os nove Mestres que foram enviados por Salomão para procurá-lo, decidiram adotar uma palavra substituta por medo de que os três assassinos tivessem obrigado Adoniran a divulgá-la.

Isto é seguido por um capítulo à parte que descreve o lay-out de uma Loja de Mestre, incluindo o “Desenho do Pavimento”, e a mais antiga cerimônia de abertura de uma Loja de Mestres. Contém um curioso “sinal de Mestre” que começa com uma mão ao lado da fronte e termina com o polegar na boca do estômago. E agora, Irmãos, temos uma descrição magnífica do desenho do pavimento do terceiro grau, toda a cerimônia, tão bem descrita e em tais detalhes, que qualquer Preceptor poderia reconstruí-la do começo ao fim – e cada palavra de todo este capítulo é material novo que nunca tinha aparecido antes.

É claro que há muitos itens que diferem das práticas que conhecemos, mas agora vocês podem ver porque eu estou animado com esses documentos franceses. Eles dão detalhes maravilhosos, numa época em que não temos o material correspondente na Inglaterra. Mas antes que eu saia de Le Catechisme, devo dizer algumas palavras sobre a sua figura do Painel de Loja ou Desenho do Pavimento do terceiro grau que ele contém, como seu tema central, um desenho de um ∴, cercado por gotas de lágrimas, as lágrimas que nossos irmãos antigos derramam com a morte de nosso Mestre Adoniram.

Sobre o ∴ está um ramo de ∴ e a palavra “JEHOVA”, “ancien mot du Maitre”, (antiga palavra de um Mestre), mas no grau francês ela não foi perdida. Ela era o Nome Inefável, que nunca devia ser pronunciado, e aqui, pela primeira vez, a palavra Jeová está no ∴. O diagrama, em pontos, mostra como ∴ passos em ∴ sobre o ∴ devem ser dados pelo candidato ao avançar do ∴ para o ∴, e muitos outros detalhes interessantes, numerosos demais para mencionar.

O catecismo, que é o último item principal do livro, está baseado (como todos os primeiros catecismos franceses) diretamente sobre a Maçonaria Dissecada, de Prichard, mas ele contém uma série de expansões e explicações simbólicas, resultado da influência especulativa.

E assim chegamos à última das exposições francesas que eu quero abordar hoje, L’Ordre des Francs-Maçons Trahi (A Ordem dos Maçons Traída) publicada em 1745 por um escritor anônimo, um ladrão! Não havia nenhuma lei de direitos autorais naqueles dias e este homem sabia reconhecer uma coisa de valor quando ele a via. Ele levou o melhor material que pôde encontrar, registrado em um livro, e acrescentou algumas notas de sua autoria. Então, ele roubou o livro de Perau, 102 páginas, inteirinho, e o imprimiu como seu próprio primeiro grau. Ele disse muito pouco sobre o segundo grau (o segundo grau sempre foi um pouco órfão). Ele roubou o adorável terceiro grau de Travenol, e acrescentou algumas notas, incluindo algumas linhas dizendo que antes da admissão do candidato, o MM mais recente na Loja deita-se no ∴, com o rosto coberto com um pano manchado de sangue, de modo que o candidato o verá levantado pelo Mestre, antes que ele avance para a sua própria parte na cerimônia.

De seu próprio material, não há muito; capítulos sobre a Cifra Maçônica, sobre os Sinais, Toques e Palavras, e sobre costumes maçônicos. Ele também incluía dois desenhos melhorados do Pavimento e duas gravuras excelentes ilustrando os primeiro e o terceiro graus em progresso. Seu catecismo seguia a versão de Travenol de muito perto, mas ele acrescentou quatro perguntas e respostas (aparentemente uma contribuição menor), mas elas são de grande importância em nosso estudo do ritual:

P. – Quando um Maçom encontra-se em perigo, o que ele deve dizer e fazer para chamar os irmãos em seu auxílio?

R. – Ele deve colocar suas mãos postas sobre a testa, os ∴, e dizer: “A mim os filhos da viúva”.

Irmãos, eu não sei se “∴” eram utilizados nos EUA ou no Canadá; só vou dizer que eles eram bem conhecidos em várias jurisdições europeias, e “Filhos da Viúva” aparece na maioria das versões da lenda de Hiram.

Mais três novas perguntas são:

  1. Qual é a Palavra de um Aprendiz? Resp: T∴
  2. A de um companheiro? Resp: S∴
  3. E a de um Mestre? Resp: G∴

Esta foi a primeira aparição de senhas impressas, mas o autor acrescentou uma nota explicativa:

Estas três senhas são pouco utilizadas, exceto na França e em Frankfurt am Main. Elas têm a natureza de palavras de passe, introduzido como uma salvaguarda mais segura (quando se lida) com irmãos que não as conhecem.”

As senhas nunca tinham sido ouvidas antes desta data, 1745, e elas aparecem pela primeira vez na França. Vocês devem ter notado, Irmãos, que algumas delas parecem estar na ordem errada, e, por causa da lacuna de 30 anos, não sabemos se elas estavam sendo usadas ​​na Inglaterra naquele momento ou se eram uma invenção francesa. Neste enigma temos uma curiosa peça de evidência indireta, e devo divagar por um momento.

No ano de 1730, a Grande Loja da Inglaterra foi grandemente perturbada pelas exposições que estavam sendo publicadas, especialmente a Maçonaria Dissecada de Prichard, que foi oficialmente condenada na Grande Loja. Mais tarde, como medida de precaução, certas palavras nos dois primeiros graus foram trocadas, um movimento que deu motivo, no devido tempo ao surgimento de uma Grande Loja rival. Le Secret, 1742, Le Catéchisme, 1744 e o Trahi, 1745, todos dão essas palavras na nova ordem, e em 1745, quando as senhas fizeram sua primeira aparição na França, elas também aparecem em ordem inversa. Sabendo quão regularmente a França adotou – e melhorou – práticas rituais inglesas, parece haver uma forte probabilidade de que as senhas já estivessem em uso na Inglaterra (talvez na ordem inversa), mas não há um único documento inglês para apoiar essa teoria.

Então, Irmãos, até 1745 a maior parte dos principais elementos nos graus da Maçonaria já existiam, e quando o novo fluxo de rituais ingleses começou a aparecer na década de 1760, o melhor daquele material tinha sido incorporado em nossa prática inglesa. Mas ainda estava muito crua e uma grande quantidade de polimento precisava ser feita.

O polimento começou em 1769 por três escritores – Wellins Calcutt e William Hutchinson, em 1769, e William Preston, em 1772, mas Preston superou os outros. Ele foi o grande expositor da Maçonaria e de seu simbolismo, um professor nato, constantemente escrevendo e melhorando seu trabalho. Por volta de 1800, o ritual e as Palestras (que eram os catecismos originais, agora se expandiram e explicavam em belos detalhes) estavam todos em seu melhor resplendor. E então, com um descuido típico inglês, nós estragamos tudo.

Vocês sabem, Irmãos, que a partir de 1751 até 1813, tivemos duas Grandes Lojas rivais na Inglaterra (a original, fundada em 1717, e a Grande Loja rival, conhecida como os “Antigos”, fundada em 1751) e eles se odiavam com zelo verdadeiramente maçônico. Suas diferenças eram principalmente em questões menores de ritual e em seus pontos de vista sobre a Instalação e o Arco Real. A amargura continuou até 1809, quando os primeiros passos foram dados no sentido de uma reconciliação e uma união muito desejada das rivais.

Em 1809, a Grande Loja original, os ‘Modernos’, ordenou as revisões necessárias, e a Loja de Promulgação foi formada para aprovar o ritual e trazê-lo a uma forma que pudesse ser considerada satisfatória para ambos os lados. Isso tinha que ser feito, ou ainda teríamos duas Grandes Lojas até nossos dias! Eles fizeram um excelente trabalho, e muitas mudanças foram feitas em assuntos de rituais e procedimentos; mas uma grande quantidade de material foi descartada, e que poderia ser justo dizer que eles jogaram fora o bebê com a água do banho. A Colmeia, a Ampulheta, o Alfanje, o Pote de Incenso, etc. que estavam em nossos Painéis de Loja no início do século XIX desapareceram. Nós temos que ser gratos de fato pelo material esplêndido que eles deixaram para trás.

Uma Nota para Irmãos nos EUA

Devo acrescentar aqui uma nota para Irmãos nos EUA. Vocês perceberão que até as alterações que acabo de descrever, eu venho falando sobre o seu ritual, bem como o nosso na Inglaterra. Depois da Guerra da Independência, os Estados rapidamente começaram a criar as suas próprias Grandes Lojas, mas o seu ritual, principalmente de origem inglesa – seja dos Antigos ou dos Modernos – ainda era basicamente inglês. Suas grandes mudanças começaram por volta de 1796, quando Thomas Smith Webb, de Albany, NY, uniu-se a um maçom inglês, John Hanmer, que era bem versado no sistema de palestras de Preston.

Em 1797, Webb publicou seu Monitor do Maçom ou Ilustrações da Maçonaria, em grande parte baseados nas Ilustrações de Preston. O Monitor de Webb, adaptado do nosso ritual quando, como eu disse, ele estava em seu melhor brilho, tornou-se tão popular que as Grandes Lojas americanas, principalmente nos estados do leste naquela época, fizeram tudo que puderam para preservá-lo em sua forma original; eventualmente, com a nomeação de Grandes Conferencistas, cujo dever era (e é) garantir que as formas adotadas oficialmente permaneçam inalteradas.

Eu não posso entrar em detalhes agora, mas a partir dos Rituais e Monitores que estudei e as Cerimônias e Demonstrações que vi, não há dúvida de que o seu ritual é muito mais completo que o nosso, dando ao candidato muito mais explicação, interpretação e simbolismo, do que normalmente é dado na Inglaterra.

Com efeito, devido às mudanças que fizemos no nosso trabalho entre 1809 e 1813, é justo dizer que em muitos aspectos, o seu ritual é mais antigo que o nosso e melhor do que o nosso.

Finis

Autor: Harry Carr
Tradução: José Filardo

Fonte: REVISTA BIBLIOT3CA

Notas

Harry Carr foi Past Master e Secretário por muito tempo da Quatuor Coronati Lodge No. 2076, CE, que é conhecida como a “Primeira Loja de Pesquisas Maçônicas”.

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Os Grandes Ensinamentos da Maçonaria – Capítulo IV

Bússola - Cartografia - InfoEscola

A teoria maçônica sobre uma vida correta

Não há como o homem evitar as forças da natureza, seja para o bem ou para o mal. Você pode levantar a vela de seu barco, mas isso não afeta o vento. Quando singrar o solo com seu arado, não ouvirá os gritos de dor da terra. O homem pode enviar suas mensagens sem fio através do espaço, mas isso não muda a estrutura da atmosfera. Um homem não tem muita escolha nas suas relações com a natureza. Se ele despenca de um telhado ele imediatamente cai na terra, qualquer que seja sua opinião sobre a  gravidade. O sol brilha, a noite escurece, as estações se sucedem, a chuva cai, o oceano se move através de suas marés, mas o desejo do homem não tem nada a ver com tudo isto. Já o relacionamento do homem com seus pares é muito diferente. Ele pode feri-los ou ajudá-los, abençoá-los ou amaldiçoá-los. Suas ações podem mudar o destino do outro: o que ele faz pode ser uma questão de vida ou morte. E tudo o que ele faz para e com os seus semelhantes é em grande parte uma escolha sua, pois ele pode optar por agir ou não agir, pensar ou não pensar, falar ou não falar, ele pode escolher qual atitude tomar quando sabe que seus pensamentos, palavras ou ações irão influenciá-los muito, de uma forma ou de outra. Essa regra também vale para o relacionamento do homem com si mesmo: sua personalidade é fruto de seus pensamentos e atos, para o bem ou para o mal, e pensamentos e atos que são de sua própria escolha, ele é o responsável, são eles uma parte do seu modo de ser. Todas as maneiras em que o homem se afeta, ou que homens afetam uns aos outros, abrangem a essência da moral, da qual a ética é a ciência.

A Maçonaria tem sua própria interpretação dos princípios da moralidade. Ela tem seus próprios ideais da conduta humana. Por suas próprias razões enfatiza certos deveres, e incentiva certos ideais. A fim de auxiliar os homens a agirem de uma determinada maneira ela reforça sobre eles certas influências e se esforça para neutralizar outras que possam se opor a seus propósitos. Ela sabe como o homem deve ser, como a sociedade de uma forma geral deve ser, e se dedica totalmente a esse objetivo. A Ética Maçônica é filosoficamente estudada desse ponto de vista particular, à luz dos princípios e ideais maçônicos, e em nome de propósitos maçônicos. É o estudo de como a ética auxilia a Maçonaria e de como a  Maçonaria auxilia a ética. Tal estudo está fortemente presente em toda literatura que trata da Arte Real, em sua filosofia, em seus ensinamentos, em seu ritual e suas tradições, porque a Maçonaria é acima de todas as outras coisas uma instituição moralista, que se esforça para tornar real na terra um ideal definido de conduta, tanto pessoal como pública. É lamentável que nenhum estudioso maçônico moderno ainda tentou fazer um estudo cuidadoso da história e da literatura maçônicas, a fim de construir um Sistema de Ética Maçônica, da mesma forma que inúmeros outros estudiosos construíram sistemas de ética cristã, ou ética chinesa , ou judia, etc.

A maioria dos homens sabe tão pouco de ciência moral como sabe de qualquer outra ciência, e suas concepções de “certo” e “errado” são, portanto, muitas vezes sem valor, como suas concepções de astronomia ou física. Da tradição, da igreja, ou por ouvir dizer, sem nunca submeter a uma análise criteriosa o que lhes foi passado, aceitaram se submeter a um rígido código de moral. Este código é composto, em sua maior parte, de duas diferentes listas de ações: uma do que é permitido; a outra do que é proibido. Sempre que surge a pergunta, se eu agir assim será bom ou ruim? eles tratam da questão através de suas “listas” e mandam agir em conformidade a elas. Um homem diz a si mesmo: Será que faço uma aposta na Mega-sena da Virada? Devo enviar dinheiro para os Missionários que estão no Congo? Devo contar esta mentira para o meu próximo? Será que devo começar a fumar? Se apostas estiverem na lista de coisas erradas, então jogar na Mega-sena será pecado. Se doações para os Missionários que estão no Congo estiverem na lista de coisas certas, então não tem problema algum. E assim vai.

Este procedimento funciona de forma satisfatória até que o homem entre em conflito com um código totalmente diferente. Veja este exemplo: Um francês, que seja supostamente um cristão também, verifica que beber vinho é permitido em código moral. Um metodista americano, por outro lado, constata que o vinho está entre as coisas mais violentamente proibidos por seu código. Quem está com a razão? O francês pode apelar para o que diz o Novo Testamento: assim o Metodista pode beber o vinho. O francês pode dizer, a minha igreja há muito tempo decidiu esta questão; o Metodista pode responder, a minha também decidiu a questão. Se o francês argumenta que beber vinho é tradição entre seus pares, o Metodista pode retrucar, usando a tradição entre os seus para uma conclusão oposta. Está claro que esta simples “lista” ou um sistema de código de moral é algo que perde valor já que é usado pelo o homem de acordo com a sua conveniência.

Isso não é nada mais que a milenar busca pela conquista do trono de autoridade no que concerne à moral. Quando um homem estiver em dúvida, sem saber se determinada ação é certa ou errada, a quem ele deve apresentar seu problema em busca de uma solução moral? Na opinião do escritor, não pode haver apenas uma resposta. A experiência humana, individual e de costumes, é a autoridade final na moral. Se um homem faz algo que fere o seu próprio corpo; ou desnecessariamente destrói algo de valor humano; ou fere outro de alguma forma; ou deliberadamente se faz infeliz ou torna outras pessoas infelizes, este homem está errado.

Errado é tudo o que fere a vida humana, ou destrói a felicidade humana; correto é aquilo que ajuda a vida humana, e tende a manter ou aumentar a felicidade humana.

Só há uma maneira de aprender o que é que fere ou ajuda, e é pela experiência que se aprende, e sempre que alguém não tiver certeza sobre o que a experiência tem a dizer, ele então é obrigado a fazer uma experiência moral. e sempre que não se tem certeza que a experiência tem que dizer que ele é obrigado a fazer uma análise moral. Atos não são intrinsecamente certos ou errados, mas de acordo com os seus efeitos são prejudiciais ou úteis. O propósito de se viver corretamente não quer dizer apenas se submeter a algum código, ou simplesmente prestar obediência a alguma autoridade, mas sim permitir que um homem viva de forma rica, saudável, feliz. Um homem sábio pode, portanto, às vezes, fazer algo que não seja aprovado por outros, mas o homem que faz algo que sua própria experiência mostra ser prejudicial é um tolo.

Isso não significa que um homem pode confiar, com segurança, apenas em sua própria experiência: muito pelo contrário, às vezes a experiência de um homem é tão exígua que dela não se pode tirar nenhum valor. Outros têm vivido mais tempo ou mais rica do que ele, ou com mais sabedoria, e ele pode escutar seus conselhos. Nesse caso ele deve escutar os conselhos daqueles mais velhos que já acumularam anos de experiências. Outros, em virtude de algum treinamento especial, podem compreender melhor os efeitos de um determinada ação, e, consequentemente, têm o direito de fazer suas escolhas, como um médico tem o direito de prescrever os remédios que considera mais eficazes. Também não pode um homem ousar colocar sua experiência pessoal contra a experiência de uma nação, ou de um povo, sendo um exemplo a época da escravidão, quando os senhores de terra achavam que aquele sistema era muito bom para eles mesmos e para seus escravos, ao passo que a experiência dos Estados Unidos, a nação, provou ser a escravidão uma maldição para todos. Mas, se o indivíduo pode confiar em sua própria experiência, ou deve submeter-se a experiência maior e mais sábia do seu povo, é a vivência humana que, em última análise, aprova ou condena qualquer conduta.

Certas ações são sempre, e em qualquer lugar, realizadas para ferir e causar danos. Enganar deliberadamente o outro infelizmente acontece tanto na China quanto na América, era assim no passado, e ainda o é nos dias de hoje; assim como os maus hábitos da gula e da intemperança que destroem a saúde, como também a extravagância, a preguiça, a crueldade, etc. Não se pode conceber qualquer condição social em que os homens não iriam encontrar essas coisas para provocar infelicidade. Essas decisões, frutos da experiência humana, tornam-se cristalizadas em princípios que  ninguém questiona, e estes princípios, tomados em conjunto, formam um sistema de moralidade.  Mas, mesmo assim, todos esses princípios são estabelecidos na experiência humana e nas decisões dela originadas. Caso a natureza do homem sofra alguma mudança misteriosa, e a gula torne a vida dos homens mais alegre, fortificante e rica, ela então se tornaria algo bom e não mais ruim.

A grande maioria dos problemas morais, no entanto, não têm sido, e nunca podem ser, estabelecidos definitivamente; sempre a pessoa, na medida em que as coisas acontecem, deve decidir por si mesmo o caminho a seguir.  Fumar é prejudicial? Alguns médicos dizem que é, e há outros que são eles próprios fumantes; alguns homens parecem poder fumar e continuarem livres de qualquer tipo de problema de saúde, apenas desfrutando do prazer que isso lhes traz; os outros já têm dores de cabeça e noites de insônia depois de alguns charutos: em todo caso, o indivíduo deve decidir por si mesmo, e, contanto que a questão continue a ser uma questão estritamente de experiência pessoal, ele não tem o direito de decidir por outro. A submissão a um tradicional código de posturas não é suficiente para definir um homem como sendo alguém de princípios e caráter;  o homem forte, do ponto de vista moral, é aquele que, quando decide pela experiência, permanece em sua decisão, embora essa escolha possa se opor a muitos interesses egoístas e interferir em muitos desejos secretos.

O teste da experiência é igualmente válido quando aplicado às questões mais religiosas e idealistas da conduta humana: auto sacrifícios, heroísmos, martírios, estes, como os assuntos mais banais da vida cotidiana, são aprovados ou condenados de acordo com o que fazem a favor ou contra vida humana. As milhares de pessoas que foram embora para as Cruzadas se consideravam com poderes conferidos diretamente por Deus, mas hoje em dia um julgamento mais sensato, embora admire o elemento de heroísmo nos Cruzados, condena a iniciativa como um todo como tendo sido uma inútil, e dispendiosa, amostra de fanatismo. Isso é para exemplificar que os ideais, aspirações, heroísmos, auto sacrifícios, e todos os outros atos semelhantes e objetivos não são, em si mais “justos” do que os outros tipos de comportamentos mais comuns, e que eles devem ser julgados “certos” ou “errados” apenas em função das condições em que são feitas e as consequências que deles resultam.

Esta análise sobre a conduta moral é de grande importância para nós em nossos períodos de descanso e reflexão, já que na maioria das vezes um homem não pode parar para “filosofar” sobre isso, muitas vezes ele não pode mesmo parar para pesar as probabilidades, e ponderar as causas, enquanto cumpre as tarefas do seu dia, pois geralmente as decisões devem ser tomadas na hora, e muitas vezes elas são tomadas de forma inconsciente, como um ato instintivo. A única coisa que determina um homem em todas essas decisões é a sua “natureza” moral, e essa natureza é um sistema de hábitos, reações, julgamentos, emoções, etc, que já está fixo no homem, que foi construído a partir de toda a sua experiência passada. Um bom homem é aquele que tem o passado tão vívido em sua memória que ele habitualmente age apenas de modo a proporcionar felicidade para si e para os outros (a palavra “feliz” aqui é usada em seu sentido mais amplo possível). Ele pode ter feito antes, e também fazer agora, algo que ele sabe que é errado, mas sua “natureza”, o viés constante da sua vontade, é para realizar coisas boas visando o bem-estar das pessoas. Um homem mau é aquele cuja natureza é tal que ele instintivamente faz coisas que machucam os outros ou a si mesmo, embora ele possa muitas vezes ser capaz de atos de ternura, auto sacrifícios, ou alguma atitude nobre momentânea.

Um homem age conforme sua natureza. Tal fato é reconhecido na descrição da conversa que Jesus teve com Nicodemos a quem o Mestre disse que ele deveria em primeiro lugar “nascer novamente”.  Esta frase passou para a teologia como a doutrina da “regeneração”, ou “novo nascimento”, e é uma doutrina saudável, pois muitos homens são tão arraigado à maldade que toda a sua natureza deve ser mudada radicalmente antes que eles possam ser confiáveis para viver em harmonia e felicidade com os seus companheiros.

Esta doutrina do “novo nascimento” parece estar no cerne do grande drama maçônico de Hiram Abif. Os intérpretes maçônicos têm divergido muito entre si quanto ao significado dessa parábola viva, mas quase todos têm em comum a crença de que, de alguma forma significa que, para ser um justo e verdadeiro irmão um homem deve “nascer de novo”, de modo que sua natureza seja alterada para agir em uníssono com um mundo novo. Como isso pode sr feito? É um dos pontos onde os princípios morais se fundem na religião, para quase todas as religiões têm-se adotado a necessidade da criação de uma nova natureza no homem, e todas elas procuram fazê-lo, conclamando o poder divino para auxiliar o indivíduo. A Maçonaria está em harmonia com a religião, pois ela também recorre a oração, para a busca da vontade de Deus. Ela também faz uso dos poderes de fraternidade, de raciocínio, de ritual, e de tudo que a Ordem nos proporciona. Toda a cerimônia é em si uma tentativa de criar uma nova natureza no candidato, e é também, por outro ponto de vista, um símbolo das influências do mundo que têm poderes regenerativos; essas influências, é claro, são inúmeras, e muitas delas não têm ligação direta com a religião, como, por exemplo, o carinho por um dos pais, a educação, o infortúnio, etc., qualquer um dos quais pode, em determinadas circunstâncias, provocar uma mudança profunda na natureza moral de qualquer indivíduo.

O que foi dito da vida moral do indivíduo pode-se dizer, em algum grau ou outro, da sociedade em geral. Como é julgada uma grande instituição social? Pela experiência social; por sua influência na vida da comunidade. Se alguma instituição, no entanto há muito estabelecida, por mais que seja considerada, começa a causar infelicidade entre os homens, a discórdia, a agitação, a pobreza, ou então que, essa instituição, embora esteja funcionando de acordo com as leis do país, torne-se perversa, aí então todos os homens de bem tornar-se-ão seus inimigos. Seja qual for a força social estabelecida contra o bem-estar de homens e mulheres, esta força é perversa, embora use o próprio nome da moralidade; seja qual for a força social que contribua para o bem-estar da sociedade, esta força é boa, mesmo que seja nova como a manhã. Se uma instituição é antiga, ou religiosa, ou de acordo com as leis, tal fato deve ser considerado, mas com cuidado, pois apenas isso não deixa claro quais são as influências dessa instituição, quais são suas atividades entre os homens. Por esta razão é que existe uma moralidade social. É o estudo das forças sociais, à luz dos seus resultados e efeitos na comunidade; é a avaliação moral das instituições sociais. É a proteção das forças que trabalham para o bem comum, e o combate àquelas que atentam contra a vida.

Sempre, a moralidade é para o bem dos homens e mulheres; ela existe para que possamos viver nossas vidas em plenitude. Cada homem vive em uma comunidade onde age e desempenha um papel, onde ele é influenciado por outras pessoas e por si mesmo, e onde ele influencia os outros. Sua própria natureza é um feixe de energias e influências do qual a felicidade depende. Para adaptarem-se uns aos outros, para assim aprenderem a governar a si mesmos, e assim ajustarem a vida para as forças da natureza, a fim de que a vida pode ser plena, rica, feliz, esse é o objetivo dos princípios morais. Esse também é o objetivo da Maçonaria, para o qual existe essa grande instituição, a fim de que os homens possam viver felizes juntos e, a fim de que a vida humana, individual ou social, possa sempre produzir as mais altas e nobres atitudes.

Continua…

Autor: H. L. Haywood
Tradução: Luiz Marcelo Viegas
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Os Grandes Ensinamentos da Maçonaria – Capítulo III

O significado da Iniciação e do segredo

Geralmente o Aprendiz deixa a loja maçônica após sua iniciação com a sensação de que que tudo que ele viu e ouviu foi muito interessante e impressionante, mas também muito estranho: é algo tão completamente diferente das outras experiências de sua vida que tudo parece irreal, uma parte de uma cerimônia singular, como se alguém a tivesse planejado bem elaborada, porém apenas algo formal do ápice do processo de introdução à Maçonaria. Não é de se admirar que muitos que vão embora com tais impressões nunca mais têm interesse nas cerimônias de iniciação. O que o Aprendiz precisa entender após a cerimônia é aquilo que é o objeto principal do estudo do presente capítulo: a iniciação, juntamente a todos princípios mais importantes da nossa Ordem, não é uma coisa estranha, arbitrariamente inventada por alguém, com fins apenas ornamentais e cerimoniais, mas sim algo normal, natural e inevitável, – tão natural quanto o vento soprando ou a neve caindo. A cerimônia de iniciação é algo que existe desde o início do mundo, e é portanto algo inerente ao ser humano como qualquer outra coisa que fazemos, embora talvez não tão comum.

Em vez de tratar o assunto de forma superficial é bom começar por observar justamente o que acontece com o candidato durante o processo de sua iniciação na Maçonaria. Antes de qualquer coisa, ele assina um formulário, em que cita certos fatos importantes sobre si mesmo; então, ele participa do “trabalho” por algumas noites; ele se compromete solenemente a fazer certas coisas e a não fazer outras; ele faz o juramento de guardar segredo que protege as cerimônias e também o que não pode ser dito ou feito fora da loja; depois disso ele se compromete a colaborar financeiramente de acordo com as normas da Loja; ele inicia uma relação com um grande grupo de pessoas que foram igualmente iniciadas e que também fizeram o juramento; ele se dispõe a  viver sob um conjunto de preceitos bem definidos e muito nobres. Pode-se acrescentar outros itens à lista, mas isso é suficiente para recordarmos como é todo o processo de iniciação; e é perfeitamente claro que, com exceção de algumas palavras e ações durante as cerimônias, não há nada no processo que possa provocar em alguém a sensação de que tudo nelas seja estranho ou formal em excesso; é tudo tão real e tão natural como a concretização de um negócio em um dia qualquer. Isso é algo que vale a pena lembrar, porque muitos que têm abordado o tema da iniciação de uma forma puramente superficial e teórica são muito hábeis em criar histórias incríveis sobre o tema, nos colocando em dificuldades, fazendo acreditar que a iniciação na Maçonaria é algo totalmente esotérico e oculto, o que não condiz com a verdade.

Eu disse que durante a cerimônia de iniciação pode acontecer de algumas coisas que são feitas parecerem estranhas a qualquer homem que dela participa pela primeira vez. Mas mesmo estes elementos em nossos “mistérios” não estão lá para satisfazer qualquer finalidade fantástica ou irreal: eles estão lá porque nós os herdamos do passado, e é porque eles ainda têm para nós significados valiosos que continuamos a mantê-los. Se existe alguma coisa no ritual que parece fantástico ou sem sentido para alguém, ele só precisa estudar a história do mesmo para poder compreender o porquê da sua existência.

A única coisa lamentável é que muitos candidatos passam por todo o processo de iniciação sem serem influenciados minimamente por ele. Por que isso? Muitas vezes é por culpa do próprio candidato. Antes de entrar para a Ordem ele deve aprender algo sobre uma instituição como a Maçonaria; pelo menos um pouco de sua história, e, tanto quanto possível sobre suas atividades atuais.  E então, depois de ter passado pela cerimônia de iniciação, deve dedicar o tempo suficiente para descobrir o que tudo isso significa. Uma pessoa para ficar impressionada com algo deve fazer a sua parte: não pode deixar que nada fora do que ali está acontecendo o distraia, desviando seus pensamentos, sentimentos e ações.  Além disso, a iniciação maçônica é uma bem, que traz consigo muitos privilégios valiosos e, portanto, vale a pena “um esforço” para compreendê-la.

Em todos os outros casos, a iniciação sem o efeito esperado é fruto da falta de cuidado da loja. Um ritual não pode ser seguido satisfatoriamente de uma maneira mecânica, como se tudo o que se tinha que fazer era girar a manivela de um moinho. Também não pode ser visto como algo que dispense o pensamento e o uso da inteligência. Nenhuma loja tem o direito de empurrar um homem pelos três graus e depois expulsá-lo sem primeiro se esforçar para instruí-lo no significado dos símbolos e alegorias, sem tentar fazer com que ele compreenda qual o seu objetivo como Construtor Social. Todo o processo deve ser uma das experiências mais importantes da vida do candidato, algo que nunca esquecerá, que irá mudá-lo em seu íntimo, se isso não acontecer então não houve uma iniciação, mas sim uma imitação da verdadeira cerimônia.

Vamos pensar no que ocorre dentro de um homem quando a iniciação alcança seu objetivo. A própria palavra sugere um “novo nascimento”. A experiência, sempre que ocorre realmente, é profunda. É como a crise da adolescência, quando um rapaz se encontra passando por uma mudança misteriosa que joga todo o seu ser em tumulto; ele fica temperamental; a barba faz a sua aparição; ocorrem as mudanças de voz; sua fisionomia sofre mudanças; desenvolvem os seus músculos; seus interesses mudam; ele começa a ter mais interesse no sexo oposto; ele não é mais um menino, mas um homem jovem. Ou é como a mudança moral e espiritual que atinge um homem que passa pela experiência religiosa conhecida como “conversão” ou “regeneração”; ele encontra-se com um novo conjunto de interesses; ele se comporta de forma diferente com sua família e seus companheiros; ele cria novos hábitos, como a oração e comparecimento à igreja; ele tem uma nova sensação a respeito de Deus; novas crenças sobre as grandes questões que concernem ao homem; ele se chama um “novo” homem. Ele foi iniciado na vida religiosa, que é para ele um novo mundo de experiência, e ele não voltará a ser o que era, ainda que todos esses novos interesses desapareçam.

A Iniciação maçônica destina-se a ser tão profunda e capaz de mudanças radicais como a as experiências citadas acima.  Como seu resultado o candidato deve se tornar um novo homem: ele deve ter uma nova gama de pensamentos; um novo sentimento sobre a humanidade; uma nova ideia sobre Deus; uma nova confiança na imortalidade; uma nova paixão para a fraternidade; uma nova generosidade e caridade. Todo o propósito do ritual, dos símbolos, de tudo o que é feito e dito, é solenemente para provocar essa transformação no homem. Se a iniciação não esse objetivos, ela foi um fracasso; se os os objetivos foram alcançados, isso por si só deve sempre silenciar para sempre aqueles que a viam apenas como uma pequena parte de uma cerimônia elaborada e cara.

O segredo é uma característica tão proeminente da Maçonaria, que muitas vezes na literatura encontramos a última palavra usada como sinônimo da primeira, como quando lemos que em um círculo de amigos estes estavam tão íntimos que havia uma “espécie de maçonaria” entre eles. Para alguns, isso é muito ofensivo, uma vez que seria indigno serem comparados a uma Ordem que esconde seu funcionamento atrás de um véu sombrio: ou então pensam que o que deve ser tão eficazmente escondido deve conter alguma mancha, ou ter influências anti-sociais. “Se é bom e nobre”, assim dizem, “por que esconder a sua luz debaixo do abajur?. Se suas ações ocultas são condenáveis, em seguida, todo seu segredo é uma hipocrisia elaborada! Ou pode ser que todo o seu segredo é meramente uma brincadeira de criança criada para atrair a curiosidade dos traficantes. Em qualquer caso, as nossas melhores instituições públicas, a igreja, escola, hospitais públicos, bibliotecas e até mesmo os nossos governos, não têm necessidade de tal véu.” A falácia subjacente dessa oposição acorre porque os opositores não sabem que o segredo maçônico é um tipo peculiar de segredo criado e preservado exclusivamente para as necessidades de uma instituição desse tipo.

De qualquer forma, não há nada condenável ou estranho sobre segredo; é uma necessidade humana encontrada em toda parte, e muitas vezes onde não está, aparentemente, em uso, será encontrado em um exame semelhante ou mesmo superior ao utilizado para desmascarar aqueles que mentem sobre os caminhos de nossa Fraternidade.  Nada é mais zelosamente guardado que o lar. Os administradores de uma empresa mantêm suas deliberações para si mesmos. A amizade é baseada na confiança mútua o que significa muito sigilo. Os governos são públicos na função, mas eles ainda são obrigados a realizar muitas das suas atividades nos bastidores. Na verdade, o que seria a vida sem este tipo de ocultação honrosa?! como é que alguém aguentar viver no mundo com toda a sua vida exposta, como os produtos em uma vitrine?!

A Maçonaria compartilha desse tipo mais comum de segredo, mas há segredos e segredos, e uma variedade deles é sobre o que nós nunca imaginamos: refiro-me ao que é ainda desconhecido para nós, não porque isso seja proibido, mas porque nós ainda não estamos preparados ou capacitados para compreendê-los. A música é uma terra desconhecida para quem não sabe uma nota sequer, e não pode reconhecer uma melodia. A literatura é um grande desconhecida para os analfabetos. Química, física, geologia, astronomia, ou alguma das ciências, assim como na “maçonaria” é onde os segredos existem! pois eles são revelados apenas aos iniciados. Eles não estão escondidos de nós por um capricho; eles estão escondidos porque usamos a venda da ignorância. Grande parte do nosso segredo maçônico é deste caráter. Na verdade é surpreendentemente pouco o que existe na Maçonaria e que não pode ser acessível ao público geral, mas há uma grande quantidade que permanece desconhecida até mesmo para os seus iniciados, já que muitos são os que não fazem nenhum esforço para estudá-los.

Além disso, o segredo maçônico existe para determinadas finalidades definidas. A própria Fraternidade existe para manter fixo no homem um certo conjunto de influências, e, a fim de trazer certas mudanças no mundo, etc .; a sua confidencialidade é um meio para esse fim, e ajuda a fazer tal objetivo possível. Se uma Loja for totalmente aberta ao público em geral como um comércio da esquina tudo o que é realizado especificamente pela Maçonaria iria desaparecer e o propósito para o qual a Ordem existe seria derrotado.

A experiência e a reflexão nos ensinaram isso. A Ordem continua existindo por tantos séculos porque sempre foi uma sociedade secreta. Outras fraternidades modernas também têm estabelecido segredos igualmente necessários. Assim também foi com fraternidades em épocas anteriores. Os Mistérios cobriam a si mesmos da forma mais elaborada. Os Collegia realizavam suas reuniões à porta fechada. A igreja cristã, em pelo menos um período de sua história, muitas vezes fez o mesmo; e assim fizeram as inúmeras guildas da Europa medieval.

Existe uma psicologia do segredo, cuja abordagem é recomendada, embora haja pouco espaço disponível para tratarmos do assunto como ele merece. O que nós valorizamos, nós instintivamente protegemos. Cortinas são fechadas antes fazermos as coisas mais íntimas. Mesmo para a religião, muitas pessoas a tratam de uma forma em sua casa e de outra em público, e muitos são os preferem serem vistos como infiéis do que serem pegos rezando. Em todos estes, e em dezenas de casos similares, o segredo é usado como uma tela a proteger os sentimentos mais sensíveis. Em muitos outros casos, igualmente familiares, o segredo é usado para despertar o desejo de explorar, a curiosidade de saber; estimula um homem para fazer busca por aquilo que lhe é apresentado como um mistério. Pode-se ver o segredo maçônico afetando as mentes dos irmãos na Loja em ambas as formas: algumas são felizes de estar lá, porque eles podem dar vida aos pensamentos, aos ideais, e às suas aspirações, muitas vezes religiosas, entre irmãos de confiança, e alguns estão lá porque o véu lançado sobre os nossos mistérios tem atraído-os para tentar levantá-lo.

Ao meu ver o efeito mais nobre do segredo maçônico é encontrado na atmosfera de bondade que ele lança sobre todas as operações de ajuda fraternal e caridade. O irmão que se encontra com problemas é muitas vezes ajudado quase sem saber de onde veio o socorro; não há nenhuma divulgação da aflição pela qual passa; a coisa não é a se vangloriar; geralmente o objeto do auxílio nem sequer faz um pedido: amparado por uma mão suave que a ele se estende, sente-se apoiado de tal modo que o seu orgulho não precisa descer ao nível de agruras.

Se o segredo maçônico não fosse necessário para o que nos é desconhecido, ele ainda é plenamente justificado para cada irmão gentil e caridoso.

Mantendo tudo isto em mente, também é bom lembrar que, afinal de contas, os maçons, por vezes, não compreendem que o segredo do Craft, à parte seu uso quando se trata de suas ações de caridade, é quase que totalmente preocupado com o método da Ordem e não com matéria que nela se encontra. Se alguém considerar cuidadosamente o compromisso de segredo que assumiu ao fazer seu juramento, ele verá que não pode de maneira alguma revelar aos outros qualquer coisa sobre a cerimônia de iniciação, ou do que pode ser dito apenas em Loja; mas ele não é obrigado por juramento a manter segredo do que a Maçonaria realmente é! Os seus princípios, sua história, seu espírito, seus ideais, suas finalidades e programas, ele pode publicar para o mundo, e quanto mais ele publica-los melhor.

Continua…

Autor: H. L. Haywood
Tradução: Luiz Marcelo Viegas

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Os Grandes Ensinamentos da Maçonaria – Capítulo II

Porque a Maçonaria utiliza-se de um ritual e do simbolismo

A repetição é da essência do ritualismo; e como nada pode ser  mais fora de moda ou tolo do que a repetição descobrimos que muitas pessoas pensam no ritual como algo como sem sentido algum. Fazer os mesmos sinais várias vezes, dizer as mesmas palavras da mesma maneira, e muitas vezes nem mesmo saber o significado dessas ações e dessas palavras, não é um pouco infantil? Este assunto chegou ao lar de inúmeros maçons, especialmente maçons norte-americanos, pois nesse país temos tão valorizada a originalidade, a novidade, e a individualidade que todos nós temos uma tendência a desprezar e temer o cerimonial. Pode ser bom para nós refletirmos um pouco sobre ritual, o que ele é, o que ele faz por nós, e porque todos nós devemos, mesmo sendo individualistas, simples e inteligentemente mantê-lo como peça essencial para o perfeito funcionamento de uma loja maçônica.

O ser humano foi moldado por um universo que ama a repetição e o cerimonial; a inspiração para o ritualismo está em toda parte. Noites e dias eternamente sucedem uns aos outros; as quatro estações continuam com seus movimentos, vindo uma depois da outra, como as viagens do candidato em sua na Iniciação : as estrelas se movem em suas órbitas fixas, as marés sobem e descem, luas aumentam e diminuem, o crescimento é seguido pela decadência, o nascimento é sucedido pela morte, e até mesmo o cometa, uma vez que se considere o mais caprichoso de todos os principais objetos da criação, foi criado para retornar em cima de seu próprio caminho para sempre. Como o homem tornou-se gradualmente ciente dessas mudanças cíclicas e, quando ele descobriu como sua própria vida estava ligada a elas, ficou admirado, e aprendeu como acompanhá-las, a mover-se nos ritmos da dança, criou cerimoniais religiosos solenes, na esperança de descobrir os segredos do universo.

A partir de então, a nossa sociedade foi preenchida com os elementos dessas cerimônias. Quando a criança nasce, temos um batismo; e após alguns anos o crisma; ensina-se a ajoelhar-se ao fazer suas orações; é instruída sobre como comportar-se nas refeições: quando chega o dia casamento os amigos e parentes são convidados para uma cerimônia formal; e a morte é selada por um “serviço” que deve geralmente ser tão parecido com a cerimônia em uso universal quanto possível. Quando nos encontramos, ou partimos, nos cumprimentamos com um apertar das mãos; o cavalheiro levanta as pontas do chapéu para a senhora, e todos nós nos levantamos quando um convidado ou um estranho entra na sala. Nossos tribunais e as assembleias legislativas têm sua próprias cerimônias, aprendemos a manter o passo quando em marcha para a guerra, e a reunião pública mais informal insiste em alguma aparência de ordem. Todas essas coisas são da essência do ritual, e difícil seria dar uma justificativa puramente racional para eles. Há algo em nós que exige tudo isso.

Embora os psicólogos ainda não tenham explicado esta tendência há uma vantagem nisso em seu aspecto exterior que todos nós podemos ver: o ritual leva o homem a pairar fora de si mesmo, e lhe dá uma sensação de uma personalidade maior.

O garoto que toca em uma banda, o soldado que marcha com seu pelotão, o jovem treinando com sua equipe de atletismo, o adulto em um desfile – nestes, e em incontáveis casos semelhantes, o indivíduo esquece de si mesmo, e é levado pelas emoções que parecem maiores e melhores do que seus próprios, comuns e mesquinhos sentimentos individuais. A ampliação da consciência individual em uma consciência de grupo, adotando o jargão psicológico, é o segredo da prevalência de cerimônias ritualísticas. Se vamos aplicar este fato ao uso do ritual na loja maçônica seremos mais capazes de valorizar e compreender a sua prática.

Por ter um ritual como base de trabalho a loja está a salvo das caprichos individuais e da ditadura de algum Venerável Mestre. Suponha-se que em cada cerimônia de iniciação ou de elevação de grau seja obrigatório um discurso por parte de algum irmão, ou por um dos oficiais, e que esse discurso seja novo para cada ocasião. Por um tempo isso pode ser interessante, mas depois de um tempo os discursos iriam perder o seu interesse ou se tornariam estereotipados, simplesmente porque há poucas pessoas que possam fazer um discurso bem sucedido. O mesmo aconteceria a qualquer iniciação que force a dispensa de se seguir um ritual: a incapacidade individual, ou da comissão encarregada da cerimônia; ou o mau humor de alguém determinado a ter as coisas à sua própria maneira, com a total descaracterização da cerimônia em si, deixaria a todos com a sensação de desgosto. Muitas igrejas passam por essa situação atualmente, naqueles grupos religiosos que dependiam inteiramente do seu pregador e adotaram a exclusão do ritual religioso, a participação está caindo. O indivíduo logo se desgasta, mas um ritual rico e multifacetado, que evoluiu através de gerações de uso, repleto de luzes reluzentes, sombras e mistérios, nunca está à mercê dos caprichos ou falhas individuais.

Mas não se deve supor que um ritual, mesmo o nosso ritual maçônico, exclui a novidade, e as possibilidades do indivíduo acrescentar sua parte à riqueza de tudo isso, pois há sempre espaço para os membros da loja aprimorarem os trabalhos através da interpretação correta das instruções, pela sua capacidade de oratória, por meio de seus sinais, por seus trajes adequados, e cada loja tem a oportunidade de mostrar o seu comprometimento por meio de melhores equipamentos e mobiliário. Além disso, para aqueles que são capazes de fazer um discurso geralmente há muitas oportunidades. A repetição de nosso ritual não tem como finalidade destruir a individualidade mais do que a repetição constante de “Rip Van Winkle” (1) tem em destruir a personalidade cativante de Joseph Jefferson.

Também pode-se notar que um ritual é muito mais rico em significado e poder do que seria a produção de uma só pessoa;  sua sabedoria vem de muitas mentes, e de anos de prática; sua ciência foi aprimorada ao longo do tempo: há nele algo muito mais profundo do que qualquer trabalho de uma pessoa apenas.

É por meio do ritual que a Maçonaria mantém a sua própria identidade. Por que algumas de nossas igrejas protestantes se tornaram irreconhecíveis após a sua criação? Porque foi permitido que cada líder fizesse as coisas mais para atender a si mesmo e as suas vontades: uma sucessão de interpretações pessoais tem sobreposto a mensagem original. Aconteceria o mesmo conosco se não fosse o nosso ritual: ele mudou, mas levemente, e pouco a pouco, de modo que hoje, em uma cerimônia de Iniciação, o neófito vai dizer e fazer muitas coisas que outros neófitos disseram e fizeram várias centenas de anos atrás. Além disso, é uma coisa gratificante para o rapaz que está sendo iniciado sentir que o que ele está fazendo em uma loja nos Estados Unidos. algum outro jovem está fazendo em qualquer lugar do mundo, e que outros homens também irão fazer nos anos que estão por vir. E quando aquele jovem estiver presente, já na sua velhice, na cerimônia de iniciação de seu neto favorito, as lágrimas virão aos seus olhos ao relembrar o que ele viu e ouviu na noite de sua própria iniciação. Assim, é que é, por meio do ritual a Fraternidade conserva a sua identidade e se mantém sólida para seus membros em todo o mundo, sendo capaz de não sucumbir pelas ações do tempo.

Além disso, podemos dizer, embora haja pouco espaço para desenvolvermos um assunto tão rico, que a repetição eterna do mesmo ritual significa que cada palavra torna-se associada na mente de cada Maçom com experiências diversas. O componente presente na vida da loja é como uma rocha sólida sobre a qual surge o coral, ou como uma antiga mansão que reúne todas as memórias das gerações que ali viveram.

E esse elemento ritualístico, sendo algo que quase qualquer homem pode aprender, não exclui ninguém de participar das atividades da loja. Se cada reunião da loja significasse um novo discurso, ou um novo programa, ou alguma outra novidade, então apenas alguns homens talentosos poderiam estar presentes.  Por outro lado, seguindo o ritual todos os irmãos estarão presentes e unidos na bateria de alegria quando um candidato é trazido à luz.

Apesar de dizer anteriormente que não teríamos mais espaço para desenvolver nossos pensamentos sobre o assunto, acredito que o abordamos de maneira clara. Espero que seja o suficiente para lembrarmo-nos do grande tesouro que dispomos em nosso ritual, pois nele estão as riquezas extraídas de todas as partes do mundo e de todas as eras, e para compreendermos o grande segredo da vitalidade da Ordem, de sua imortal juventude, e – isto talvez não tenha ficado claro – de sua original e ímpar forma de desenvolvimento pessoal. Pois não pode haver liberdade para um homem onde não há também regras mais rígidas.

Se todas as estrelas decidissem inovar, e passassem a mover-se livremente como os pássaros no ar; se todas as coisas comuns a nós repentinamente desejassem serem diferentes do que realmente são e começassem rapidamente a transformar-se, teríamos uma grande balbúrdia no Universo, e nessa “liberdade” atrapalhada de se fazer o que se quer, desapareceriam a espontaneidade, a originalidade, e a liberdade individual, já que onde não existe ordem não pode haver liberdade.

Do simbolismo ainda mais pode ser dito do que do ritualismo, pois tem sido mais universal o seu uso e é capaz de uma aplicação muito mais ampla. Símbolos foram a primeira forma de comunicação do homem. Antes de letras e palavras foram inventadas imagens, criadas para transmitir os pensamentos, e diversos sinais foram criados para representar diversas coisas. Quase toda a linguagem primitiva é uma linguagem simbólica, pois “a voz do sinal”, como Robert Freke Gould descreveu-a, pode ser compreendida por crianças e selvagens. Mesmo hoje, após o uso de palavras ter sido aprimorado quase que infinitamente, símbolos permanecem em uso constante. O pedaço de seda preta na porta é o sinal de morte; um anel representa o compromisso entre um homem e uma mulher; o lírio significa Páscoa e imortalidade, e o emprego de botões, emblemas, brasões, bandeiras, e a lista continua, interminável. Se alguém pudesse registrar uma vida humana em cada detalhe de sua existência desde o nascimento até a morte, ele iria descobrir que essa vida é toda coberta com símbolos, como tenda dos índios norte-americanos.

Não há nada magistral ou simples no uso de um dispositivo tão universal, e não há qualquer dificuldade em descobrir por que é que os símbolos são tão naturais para todos nós.

Por um lado, um símbolo não se esgota tão rapidamente quanto as palavras. Há mistério e profundidade nele, uma infinidade de pequenas sugestões, um incentivo a novas abordagens de pensamento. Suponha, por exemplo, que usemos uma série de discursos para transmitir a um candidato a lição incutida pelo drama de Hiram Abiff! As meras ideias abstratas poderiam ser assim expressas, mas quanto elas perderiam do poder sobre a mente do homem! Da forma que é, nenhum homem pode presenciar a apresentação simbólica da tragédia, mesmo pela centésima vez, sem encontrar-se em um novo estado de espírito, ou com novos pensamentos. Há algo inesgotável no símbolo, de modo que ele ainda estará presente mesmo após o morte de muitas línguas. Ele continua nos dizendo: “Você adivinhou corretamente este significado, mas eu tenho mil outros significados que ainda não foram decifrados.”

Isso sugere mais uma das melhores utilizações de simbolismo. Nós não podemos aprender a mensagem de um símbolo com uma mente meramente passiva e receptiva, porque é do gênio do simbolismo se esconder, como bem o é se revelar. Quando uma coisa é transmitida a nós em palavras simples, ou em imagens simples, como se vê nos filmes, não há necessidade de se fazer um grande esforço para compreender tudo; mas quando um símbolo é colocado diante de nós, e nós temos uma razão para proteger a sua mensagem, nossas mentes devem agir, para que nenhum de seus significados permaneça desconhecido. Seu valor para nós é como o ouro escondido na montanha – o mineiro deve cavar encontrá-lo. Isto é uma virtude, porque muitos homens são amaldiçoados pela recusa em usar suas próprias habilidades. Eles passam por toda a sua vida repetindo pensamentos de outros homens, e essa é uma vida necessariamente sem prazer algum de fazer novas descobertas, que é uma das alegrias  para os que têm presença de espírito.

Todas as grandes coisas, amor, amizade, morte, imortalidade, religião, patriotismo, etc., falam-nos através de símbolos. A vibração da bandeira na frente de uma coluna de soldados nos motivará mais que qualquer discurso: a cruz irá sugerir mais sobre a morte do que qualquer sermão. Talvez isso seja porque o símbolo tenha vários caminhos através dos quais pode alcançar a mente; ele está presente nas características do quadro, dos atos, dos sons, das palavras, e das cerimônia, e por causa de sua ampla utilização e antiguidade encontram-se sobre ele combinações incalculáveis.

Um símbolo, a menos que seja um inventado por algum indivíduo de uma maneira puramente arbitrária, é geralmente entendido em toda parte; ele fala uma linguagem universal. Um círculo para nós significa “infinito”, porque ele não tem começo nem fim. Significa a mesma coisa na Índia e no Japão.E significava a mesma coisa para os homens que viveram antes do alvorecer da história. a Maçonaria nunca poderia ter-se tornado uma instituição mundial se não tivesse em seu ritual um conjunto de símbolos, se não tivesse aprendido há muito tempo a transmitir seus ensinamentos por meio de emblemas e símbolos. Se seus ensinamentos fossem estabelecidos apenas em palavras, essas teriam que ser colocadas em um livro, esse livro teria que ser traduzido em diversas línguas, o que nunca seria um processo satisfatório; falar através de símbolos, é falar a “língua do povo” em todos os lugares.

Além disso, o caráter simbólico do ensino da Maçonaria tende para que a tolerância de pensamento, que é uma das suas bandeiras. Não pode haver interpretação dogmática e oficial de um símbolo para obrigar o parecer favorável disposto por qualquer mente; a mensagem dos símbolos é, em virtude da sua própria natureza, fluida e livre, de modo que todo homem tem o direito de pensar por si mesmo. De professores e estudiosos maçônicos tem havido muitos – Oliver, Preston, Pike, Mackey, e outros igualmente tão honrosos para a nossa história, e estes deram-nos interpretações nobres da Maçonaria, mas nenhum Maçom é obrigado a aceitá-las. Em uma grande Ordem que ensina por meio da “voz dos sinais” nunca pode haver um papa.

O que nos lembra que o simbolismo em si não é uma coisa infalível, e possui toda a sabedoria. Assim como existem livros bons e ruins, e os homens de bem e do mal, por isso existem símbolos bons e maus, e cada um deve manter para com todo o simbolismo uma mente ágil e crítica. Devemos sempre separar o joio do trigo.

Depois de estudar a filosofia do simbolismo, tendo como guia o que foi dito anteriormente, vai ser bom para o estudante para investigar uma outra questão: Que regra iremos usar para interpretar os símbolos maçônicos? O que foi dito sobre o direito de cada membro interpretar os símbolos a sua maneira não quer dizer, naturalmente, que ele sempre tem o direito de interpretar um símbolo maçônico sem nenhuma reflexão, ou que ele jamais poderá descobrir uma verdadeira interpretação, sem levar em conta a devida consideração que outros já fizeram sobre o símbolo em si. Esse procedimento não seria o pensamento livre, mas uma ausência de pensamento. Eu mesmo acredito no princípio histórico da interpretação, e tenho encontrado na prática algumas vozes que compartilham desse pensamento. Quero com isto dizer que, se nos comprometemos a interpretar alguns símbolos, devemos primeiro tentar aprender o que esse símbolo sempre significou para a Fraternidade no passado. Se perguntarmos a nós mesmos, por exemplo, qual é o significado do esquadro e do compasso, devemos tentar descobrir quando esses símbolos entraram em uso na Fraternidade; porque entraram em uso; o que significaram então, e então nós devemos tentar aprender o que a Fraternidade tem entendido por estes símbolos durante os séculos seguintes. Isso vai nos salvar de uma interpretação baseada na ignorância, ou arbitrariedade, ou em nossas próprias manias, e também iria jogar uma nova luz sobre o que a Maçonaria como um todo significa para nós.

Continua…

Autor: H. L. Haywood
Tradução: Luiz Marcelo Viegas
NOTA:
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A Maçonaria e a Casa dos Homens

I. Antropólogos descobrem a Casa dos Homens

Desde que Heinrich Schurtz publicou seu “Altersklassen und Maennerbunde” em 1902, os antropólogos têm se interessado cada vez mais no papel desempenhado pelas sociedades secretas entre os povos primitivos. Herr Schurtz descobriu que as sociedades secretas não eram de forma alguma uma coisa privada, de pouco interesse e menor consequência, conforme antropólogos antigos acreditavam que elas fossem, mas que eram de igual importância na vida primitiva à de outras instituições sociais. Ele descobriu que

em íntima conexão com as faixas etárias, e mais particularmente com o papel dominante desempenhado pelos solteiros organizados, ali se desenvolvia a casa dos homens. Ela é caracterizada como uma estrutura na qual homens adultos, porém solteiros preparam suas refeições, trabalham, jogam e dormem, enquanto os homens casados moram separados com suas famílias. As mulheres e crianças são geralmente proibidas de entrar nos locais, enquanto as meninas amadurecidas se relacionam livremente com os ocupantes.”

O Prof. Hutton Webster da Universidade de Nebraska, trabalhando independentemente e sem conhecimento das conclusões de Schurtz, chegou à mesma conclusão, e escreveu um tratado sobre o assunto que se revelou de extrema importância para os estudantes de sociedades secretas. Este artigo foi publicado em 1908 sob o título de Primitive Secret Societies: A Study in Early Politics and Religion (Sociedades Secretas Primitivas: Um estudo de Política e Religião Primitivos). O conceito central deste livro é o da casa de homens. O Prof. Webster descreve isso até certo ponto na primeira página deste livro, como segue:

A separação dos sexos que existe nas sociedades civilizadas é o resultado, em parte, das diferenças naturais de sexo e função econômica; em parte, ela encontra uma explicação nos sentimentos de solidariedade sexual aos quais devemos a existência dos nossos clubes e sindicatos. A solidariedade sexual em si é apenas outra expressão para o funcionamento dessa lei universal da empatia humana, ou em frase mais moderna, de consciência da espécie, que está na base de todas as relações sociais. Mas, em sociedades primitivas, a essas forças produzindo separação sexual, acrescenta-se uma força ainda mais poderosa, que tem origem na crença generalizada quanto à transmissibilidade das características sexuais de um indivíduo a outro. Dessas crenças surgiram muitos tabus curiosos e interessantes destinados a evitar o perigo real ou imaginado incidente no contato entre os sexos. A separação sexual é ainda mais garantida e perpetuada pela instituição conhecida como “casa dos homens”, exemplos da qual podem ser encontrados entre os povos primitivos em todo o mundo.

A casa dos homens geralmente é o maior edifício em um assentamento tribal. Ela pertence em comum aos moradores; serve como sala do conselho e prefeitura, como casa de hóspedes para estranhos, e como local de repouso dos homens. Frequentemente, assentos na casa são designados a idosos e outros líderes de acordo com sua dignidade e importância. Aqui, os bens preciosos da comunidade, tais como troféus tomados na guerra ou na perseguição, e símbolos religiosos de vários tipos são preservados. Dentro do seu recinto, mulheres, crianças, e homens membros da tribo não completamente iniciados, raramente ou nunca entram. Quando o casamento e a posse exclusiva de uma mulher não ocorrem imediatamente após a iniciação na tribo, a instituição da casa dos homens torna-se uma contenção eficiente sobre as predileções sexuais dos jovens solteiros. Ela serve, então, como um clube para os solteiros, cuja permanência nela pode ser considerada como uma perpetuação daquela separação formal entre rapazes e as mulheres, que deve ser conseguida com as cerimônias de iniciação em primeiro lugar. Essa vida comunitária dos jovens é um sinal visível da sua separação do círculo restrito da família e da sua introdução aos deveres e responsabilidades da vida tribal. A existência de tal instituição enfatiza o fato de que uma vida familiar estabelecida com uma residência privada é privilégio dos homens mais velhos, que sozinhos têm direitos conjugais sobre as mulheres da tribo. Porque a promiscuidade, seja antes ou depois do casamento, é exceção entre os povos primitivos, que não apenas tentavam regular através de sistemas de casamento complicados e rigorosos os desejos sexuais daqueles que são competentes para se casar, mas na verdade para evitar qualquer relação sexual com aqueles que não são membros plenamente iniciados da comunidade.

“Pode-se esperar que uma instituição tão firmemente estabelecida sobrevivesse por devoção a outros usos, à medida que as ideias anteriores que levaram à sua fundação desaparecem. Como postos de guarda onde os jovens são confinados em serviço militar e onde são exercitadas artes da guerra, estas casas muitas vezes se tornam um meio útil de defesa. O culto religioso da comunidade frequentemente está centrado neles. Muitas vezes, eles constituem o teatro para representações dramáticas. Em raros casos, estas instituições parecem ter perdido sua finalidade original, e ter facilitado o comunismo sexual, ao invés da separação sexual. Entre algumas tribos, a casa dos homens é usada como centro de cerimônias de iniciação da puberdade. Com o desenvolvimento das sociedades secretas, substituindo as instituições tribais de puberdade anteriores, a casa dos homens frequentemente se torna a sede dessas organizações e constituem uma “loja“ secreta. A presença, então, da casa dos homens em qualquer de suas numerosas formas em uma comunidade primitiva indica fortemente a existência, agora ou no passado, de cerimônias secretas de iniciação.“ (Primitive Secret Societies, páginas 1, 2, 3)

Pode-se duvidar da precisão do Prof. Webster quando ele diz que “exemplos podem ser encontrados entre os povos primitivos em todo o mundo.” Não há muitos exemplos a serem encontrados na Ásia, e que pode muito bem ser que em determinadas partes do continente, a sociedade secreta primitiva nunca tenha sido conhecida: algumas autoridades têm a mesma opinião, Schurtz, por exemplo, que não foi capaz de descobrir vestígios das sociedades secretas de homens em grandes partes do continente. Em seu capítulo sobre “Difusão de Antigas Cerimônias”, o próprio Webster não forneceu exemplos asiáticos, mas limitou-se à Austrália, Tasmânia, Melanésia, Polinésia, América do Sul, América Central e América do Norte.

É impossível nas presentes limitações de espaço, estabelecer muitos exemplos do culto primitivo secreto: algumas amostras serão suficientes. Entre os ilhéus de Andaman existem três tipos de barracas, para os solteiros, solteiras e Casais, respectivamente. Aos onze anos, meninos e meninas são submetidos a diferentes provas e em cada caso devem participar de cerimônias elaboradas ao passar de um grau de idade a outro. As mulheres participam nestes mistérios, assim como os Homens. A maioria das tribos australianas têm cerimônias de iniciação em ou perto da época da puberdade. Na maioria dos casos, essas cerimônias são muito rigorosas, somente os Homens são admitidos; e o rito aparece geralmente como uma forma de preparação para o matrimônio. Os Masai dividem seus membros do sexo masculino em três classes de meninos, guerreiros e anciãos; suas cerimônias são acompanhadas de circuncisão. Entre os Ilhéus de Banks, os Homens constituem uma espécie de sociedade secreta tripla, mas a entrada neste grupo não ocorre através de iniciação, mas através do pagamento de uma taxa. Os homens vivem na Casa do clube da vila, que é um lugar de repouso e refeição durante o dia e dormitório à noite: eles são divididos em classes com poder e prestígio respectivos, e só os homens ricos podem chegar a posições mais elevadas.

Este mesmo povo tem “Sociedades Fantasmas”, que são muito secretas por natureza e têm sede nos lugares mais recônditos. Entre os índios Pueblo, os Zunis tinha uma sociedade “Dançarino Mascarado”, na qual havia graus, iniciações e muita palhaçada primitiva: cada sociedade tem sua sede própria loja onde havia compartimentos que representam os quatro cantos da bússola, o zênite, e o nadir. Os índios Hopi tinham fraternidades secretas semelhantes, assim como os Crows, que tinham uma “Sociedade do Tabaco”, com cerimônias de iniciação, diplomas, etc. O Hidatsas tinha muitos clubes sociais, onde a entrada era adquirida através de compra: suas mulheres tinham organizações semelhantes. Por outro lado, o Shoshoneans de Great Basin, aparentemente, nunca tiveram qualquer coisa que possa ser corretamente classificada como uma sociedade secreta. Estes casos são apenas típicas do inúmeros casos em que povos primitivos – ou selvagens como os chamamos – fizeram uso de organizações secretas.

II. A iniciação tribal é uma provação rigorosa

Na maioria dos casos, as cerimônias de iniciação têm a natureza de provas, e muitas vezes são tão rigorosas que morte ou permanente incapacitação não são inéditos.

A diversidade de provas é muito interessante. Assim, depilação, mordidas na cabeça, remoção de dentes, aspersão com sangue humano, imersão em poeira ou sujeira, flagelação pesada, escarificação, fumo e queimaduras, circuncisão e sub-incisão são algumas das formas em que as provas aparecem, só entre os australianos… De todas essas provações, a circuncisão tem o maior destaque… Quase universalmente, os ritos de iniciação incluem uma representação mímica da morte e ressurreição do noviço. A nova vida para a qual ele acorda da iniciação é uma totalmente esquecida da antiga, um novo nome, uma nova linguagem e novos princípios são o seu acompanhamento natural. Uma nova linguagem está intimamente associada ao novo nome. A posse de um discurso esotérico conhecido apenas aos membros iniciados é muito útil pois empresta um mistério adicional ao processo… As diferentes cerimônias que se realizam sobre a chegada das meninas à puberdade são nitidamente menos impressionantes que as dos meninos. Como regra, não há admissão em uma iniciação formal possuindo aspectos tribais e ritos secretos… Não há dúvida que diversas crenças originárias de muitas fontes diferentes se uniram para estabelecer a necessidade de separar meninos e meninas na puberdade.

O isolamento das coisas da carne e do sentido tem sido uma atitude não raramente empregado por pessoas de cultura avançada para a promoção da vida espiritual, e não precisamos ficar surpresos ao encontrar o homem não civilizado recorrendo a atitudes semelhantes para fins mais práticos. Os jejuns prolongados, privação de sono, a constante excitação do novo e inesperado, a reação nervosas sob tormentos longos e continuados resultam em uma condição de extrema sensibilidade – hiperestesia, que é certamente favorável à recepção de impressões que serão indeléveis. As lições aprendidas em uma escola tribal dessa natureza, como o é a instituição da puberdade, perduram por toda a vida.

Outro motivo óbvio ditando um período de reclusão é encontrado na sabedoria da separação completa dos jovens púberes das mulheres, até que aulas de contenção sexual tenham sido aprendidas. Nativos de Nova Guiné, por exemplo, dizem que “quando os meninos atingem a idade da puberdade, eles não devem ser exposto aos raios do sol, para que eles não sofram com isso; assim, eles não devem realizar trabalho manual pesado, ou o seu desenvolvimento físico será parado, todas as possibilidades de misturá-los com mulheres devem ser evitadas, sob pena de se tornarem imorais, ou a ilegitimidade se torna comum na tribo. Quando a casa dos homens é encontrada em uma comunidade tribal, essa instituição muitas vezes serve para prolongar o isolamento dos homens mais jovens iniciados por muitos anos após a puberdade ter sido atingida.” (Primitive Secret Societies, páginas 36, 37, 38, 41, 45, 47.)

As instituições da puberdade para a iniciação dos jovens na idade adulta estão entre as características mais difundidas e presentes na vida primitiva. Elas são encontradas entre povos considerados os menos desenvolvidos da humanidade: entre Andamaneses, hotentotes, fueguinos e australianos, e eles existem em vários estágios de desenvolvimento entre os povos emergentes da selvageria até a barbárie. Seus fundamentos remontam a uma antiguidade desconhecida; seus mistérios, zelosamente guardado dos olhos de todos, exceto os iniciados, preservam a religião e a moralidade da tribo. Embora variando infinitamente em detalhes, suas características principais se reproduzem com uniformidade substancial entre os diferentes povos e em áreas muito distantes entre si no mundo. A iniciação dos jovens da tribo pelos anciãos tribais, seu isolamento rígido, às vezes por um longo período das mulheres e crianças; sua sujeição a certas provas e ritos destinados a mudar completamente sua natureza; a utilização desse período de confinamento para transmitir aos noviços um conhecimento das tradições e os costumes tribais e, finalmente, a inculcação através dos métodos mais práticos de hábitos de respeito e obediência aos homens mais velhos – todas estas características são bem descritas no elegante e vigoroso relato por um antigo escritor de cerimônias praticadas uma vez pelos índios Tuscarora da Carolina do Norte.” (Ibidem, p. 32.)

Estas iniciações diferem notavelmente entre si, no entanto, todas e cada uma delas têm certas características fundamentais em comum. Em um parágrafo brilhante de um tratado sobre a Iniciação, na Enciclopédia de Religião e Ética de Hasting (Vol. VII, p. 317), o Conde Goblet d’Alvielia, que está tão alto entre os estudiosos maçônico europeus fornece uma lista dessas características:

As formalidades de iniciação, seja sua função dominante mágica ou religiosa, apresentam semelhanças marcantes. Andrew Lang observa as seguintes características gerais: (a) danças místicas, (b) a utilização do rombo, (c) rebocar com barro e lavar, (d) desempenho com serpentes e outros “feitos loucos”. A estes poderíamos acrescentar: (e) simulação de morte e ressurreição, (f) a concessão de um novo nome aos iniciados, (g) o uso de máscaras ou outros disfarces. Em todo caso, podemos dizer que as cerimônias de iniciação incluem: (1) uma série de formalidades que afrouxar os laços de ligação do neófito com seu ambiente antigo, (2) outra série de formalidades admitindo-o ao mundo sobrenatural, (3) uma exposição de objetos sagrados e instruções sobre assuntos que lhes dizem respeito; (4) ritos de reentrada ou reintegração, facilitando o retorno do neófito ao mundo comum. Estes ritos, especialmente os das três primeiras divisões, são encontrados com uma função mais ou menos importante em todas as cerimônias de iniciação, tanto entre selvagens quanto entre civilizados.” 

De onde vieram esses clubes secretos? Será que todos são originários de um centro? NW Thomas, escrevendo no Volume XI da Enciclopédia de Hasting, página 297, oferece uma resposta com a qual a maioria das autoridades concordaria:

Talvez possamos resumir a posição, dizendo que rastrear todas as sociedades secretas até uma origem única é provavelmente tão errado quanto rastrear todas as formas de religião a uma única fonte, ou tentar desvendar todas as mitologias com uma única chave. Parece claro que graus de idade, clubes de sepultamento, escolas de iniciação, irmandades religiosas, grupos ocupacionais, e sociedades mágicas têm contribuído para a massa de diversos elementos agrupados em sociedades secretas. O que não pode ser definitivamente estabelecido é que qualquer um desses teve um tipo inicial como modelo; como encontramos todos os seus estágios rudimentares em várias partes da África, precisamos, a menos que suponhamos que esses rudimentos sejam derivadas de sociedades totalmente desenvolvidas de outras tribos, supor que eles são a semente da qual, em outras áreas, as sociedades secretas vêm se desenvolvendo e que todos são igualmente primitivos, embora não necessariamente da mesma idade.

III. A Maçonaria evoluiu da Casa dos Homens?

Quando as sociedades secretas aparecem entre bárbaros e povos meio civilizados, eles mantêm muitas das características fundamentais descritas nas páginas acima, mas ao mesmo tempo, tornam-se extremamente diferentes e, muitas vezes são utilizados para fins completamente diferentes. Todos os leitores de literatura maçônica estão familiarizados com a história dos Druidas, dos Drusos, dos caldeus, dos Assassinos, etc., etc.: também as inúmeras sociedades secretas da China, que, parecem, na maioria dos casos, ser de caráter político, ao invés de moral ou religioso. Estas organizações bárbaras, ou semicivilizadas têm seus graus, sinais, segredos, palavras de passe e cerimônias de iniciação, assim como todas as outras, e não há necessidade, neste contexto, de particularizar entre elas ou prestar-lhes qualquer atenção adicional.

O leitor já terá notado certa semelhança entre algumas dessas associações e a nossa própria. Em alguns casos, essas semelhanças são tão marcantes que quase equivalem à identidade, como quando um dos nossos sinais maçônico é encontrado na posse de alguma seita selvagem. Contos de como os maçons salvaram suas vidas ou obtiveram outras vantagens entre povos selvagens através do uso de um dos sinais maçônicos estiveram entre as anedotas de nossa literatura por muitos anos.

O uso sensacional destes fatos tem sido feito recentemente pelo irmão J.S.M. Ward em seu “Maçonaria e os Deuses Antigos” publicado em 1921. O Irmão Ward corajosamente assume a posição de que as sociedades secretas primitivas, como aquelas descritas acima devem ser considerados parte integrante da Maçonaria, ou vice-versa. Ele assume essa posição muito claramente nos seguintes termos: “Corajosamente esta é a minha tese, de que o nosso sistema atual é derivado originalmente de ritos de iniciação primitivos de nossos ancestrais pré-históricos. Baseio esta afirmação no fato de que muitos dos nossos mais venerados sinais e símbolos, apertos e senhas são hoje utilizadas por raças selvagens precisamente com o mesmo significado que nós. Não posso concordar com aqueles que afirmam que isso é apenas uma questão de coincidência, ou ainda que eles sejam puramente sinais naturais que expressam sentimentos simples e elementares. “Esta declaração aparece na página 119 do seu livro. Na 123, ele repete isso em outras palavras:

Meu argumento, então, é que a Maçonaria deriva originalmente daqueles ritos primitivos que primeiro ensinaram um menino de onde ele veio, em seguida o preparou para ser um membro útil da sociedade e, finalmente, lhe ensinou a morrer e que a morte não era o fim de tudo. Em relação a estes ritos primitivos, eu considero, o homem construiu os mistérios e as diferentes confissões religiosas do mundo antigo, alguns dos quais sobreviveram até os nosso dias, enquanto outros se desenvolveram em outras religiões, incluindo o cristianismo.”

A tese é desenvolvida ainda em outras palavras, na página VIII do seu prefácio, onde ele diz:

“Resumidamente, a teoria que me atrevo a propor é que a Maçonaria se originou nos ritos de iniciação primitivos do homem pré-histórico, e a partir daqueles ritos foram construídos todos os mistérios antigos, e daí, todos os sistemas religiosos modernos. É por esta razão que os homens de todas as crenças religiosas podem entrar Maçonaria, e, ainda, a razão para não se admitir as mulheres é que estes ritos eram originalmente ritos de iniciação de homens, as mulheres tinham os seus próprios. Estes, por razões sociológicas pereceram, enquanto que os dos homens sobreviveram, e se desenvolveram nos mistérios.”

Se o irmão Ward fizesse valer a sua tese, ele provocaria uma revolução completa na antropologia. Uma sociedade secreta que existiu em todas as partes do mundo através de todos os muitos séculos da história seria o fato mais estupendo conhecidos da sociologia, e exigiria uma revisão completa de nossas teorias sociais. A coisa é estupenda demais para ter acontecido. Para se entender que a Maçonaria, como a conhecemos hoje, está em solidariedade com todas essas outras fraternidades secretas, é necessário ampliar os fatos em quase todos os pontos, para preencher as lacunas com suposições e hipóteses, e para ler nas cerimônias das tribos primitivas muitos significados e propósitos que nunca foram capazes de ter.

Ficou abundantemente claro nas citações acima de várias autoridades que todas as sociedades secretas têm uma cultura em comum e na natureza do caso, inevitavelmente, fazem uso de sinais, símbolos, cerimônias, graus, lojas, iniciações, etc., de modo que se uma nova sociedade secreta surge, criada ab initio por seus próprios membros, ela terá, necessariamente, muitas características em comum com outras organizações similares, de modo que um pouco de imaginação sempre facilitará para os homens acreditar que o que foi recentemente criado já existia em outros lugares durante muitos séculos. Nada é mais fácil que criar tradições e história antiga para um culto secreto; e isso porque ele é munido de muitos usos que outros cultos secretos empregaram em tempos passados. A Maçonaria não é exceção a esta regra. Quase tudo nela pode encontrar paralelo em sociedades semelhantes que existiam há centenas de anos, e sempre há a tentação de emprestar delas a autoridade e o prestígio da antiguidade.

Muitas vezes, encontram-se atribuídos a uma época muito antiga símbolos que foram criados, de acordo com nosso conhecimento positivo em tempos recentes. “A Virgem chorando sobre uma coluna quebrada” é o caso abordado aqui. Ela foi idealizada por um Maçom Americano cerca de cem anos atrás, mas só recentemente eu li um artigo que procurava mostrar que este símbolo tinha sido emprestado de Mistérios Antigos pela Maçonaria.

Irmão Ward tenta provar que Os Altos Graus são tão antigos quanto os Graus do Simbolismo. Para um leitor americano familiarizados com a história do Rito Escocês, ele não terá muito sorte. Sabemos que o próprio Albert Pike, sozinho e sem ajuda criou uma grande parte da estrutura elevada e bela do ritual do Rito Escocês, de modo que tem sido dito sobre ele que ele encontrou o Rito Escocês uma cabana de madeira e o deixou em um palácio de mármore. Mas, há muitas coisas nas cerimônias do Rito Escocês mais antigas que a história, alguém poderia argumentar. É verdade, mas nós sabemos como elas chegaram ali: Albert Pike as tirou de sua própria aprendizagem dos livros antigos. Muito do material é muito antigo, mas a estrutura em ele as construiu e o uso em que ele os colocou data do trabalho de Albert Pike, ou, no máximo, de seus antecessores imediatos.

O verdadeiro cerne de toda esta discussão pode ser colocando em forma da pergunta, Qual a idade da Maçonaria? Essa questão nunca perde a sua vitalidade, e parece ter um fascínio inesgotável para os maçons. A resposta depende do significado que se atribui à palavra Maçonaria. Se por Maçonaria queremos dizer qualquer tipo de organização secreta, então ela é tão velha quanto o mundo. Se for usada sobre qualquer sociedade secreta que emprega alguns de nossos sinais ou símbolos, então ela pode ser traçada aqui e ali, em muitas terras e através de muitos séculos. Se ela é usada no sentido mais estrito para indicar um homem que foi iniciado em uma loja regular da Maçonaria simbólica trabalhando sob a autoridade de uma Grande Loja regular, então a Maçonaria tem apenas 300 anos de idade. Se for para ser usado sobre organizações com as quais esta moderna maçonaria especulativa pode traçar uma continuidade histórica inegável, então ele pode ser datado até os séculos XII ou XIII. De uma coisa podemos ter certeza, a casa dos homens, uma loja em que irmãos encontram por trás de portas fechadas, não é uma coisa moderna e artificial, mas brota da própria natureza humana, para satisfazer as necessidades que foram sentidas desde que o homem começou a ser.

Autor: H.L. Haywood
Tradução: José Filardo

Fonte: BIBLIOT3CA

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LIVROS CONSULTADOS NA PREPARAÇÃO DESTE ARTIGO

Lowie, Primitive Society. J.S.M. Ward, ; Freemasonry and the Ancient Gods. Webster, ; Primitive Secret Societies. Frazer, Golden Bough. ; Hasting’s Encyclopedia of Religion and Ethics, Vol. VII, p. 314; XI, p. 287. Smith, ; Religion of the Semites. Heckethorn, ; Secret Societies. Lang, ; Myth, Ritual, and Religion. Thomas, ; Source Book For Social Origins. Rivers, ; The Todas. Tyler, ; Primitive Culture. Wallace, ; The Malay Archipelago. Coote, ; The Western Pacific. Upward, ; The Divine Mystery. Capart, ; Primitive Art. Evans, ; Tree and Pillar Cult. Harrison, ; Ancient Art and Ritual. Maspero, ; Dawn of Civilization. Wright, ; Indian Masonry. Giles, ; Freemasonry in China.

REFERÊNCIAS SUPLEMENTARES

Vol. I (1915) – Ancient Evidences, p. 18; The Golden Bough, p.22; The Men’s House, p. 308. Vol. 11 (1916) – Masonic Tradition, p. 189; Indian Masonry, p. 190; The Meaning of Initiation, p. 205; Masonic Signs, p. 253; Indian Freemasonry, p. 371. Vol. III (1917) – A Central African Mystery, p. 15; The Origin of Druidism, p. 22; The Initiatory Rites of Druidism, p. 35; Masonry Among Primitive Peoples, p. 38; Secret Societies of Islam, p. 84; Aboriginal Races and Freemasonry, p. 96; Chinese Signs, p. 156; The Men’s House, p. 209. Vol. IV (1918) – Definitions of Masonry, p. 125; The Voice of the Sign, October, C.C.B., p. 4; The Divine Mystery, p. 334; The Mysteries of the Art of the Caverns and Early Builders, p. 366. Vol. V (1919) – Legendary Origin of Freemasonry, p. 297, Vol. VI (1920) – A Bird’s-Eye View of Masonic History, p. 236; The Purposes of Legends and Myths, p. 258; Freemasonry Among the American Indians, p. 295. Vol. VII (1921) – Whence Came Freemasonry, p. 90; Little Wolf Joins the Metawin, p. 281. Vol. VIII (1922) – American Indians and Freemasonry, P. 71; Freemasonry and the Ancient Gods, pp. 88, 151, 152, 153; Masonry Among the Chippewa Indians, p. 126; A Mediating Theory, p. 318; Traces of Masonry Among Indians and Worth Americans, p. 354. Mackey’s Encyclopedia – (Revised Edition): Albert Pike, p. 563; Assassins, p. 82; China, p. 147; Chinese Secret Societies, p. 148; Civilization and Freemasonry, p.153; Culdees, p. 191; Degrees, p. 203; Druidical Mysteries, p. 220; Druses, p. 221; Initiation, p. 353; Man, p. 461; Primitive Freemasonry, p. 584; Scottish Rite, p. 671; Secret Societies, p. 677; Woman, p. 855.