O Simbolismo da Roda – Capítulo 4 (2ª Parte)

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O conhecimento de “outro tempo” na verdade está incluído na ordenação ou iniciação hermética, que supõe a vivência direta de uma cosmogonia e a iniciação em seus mistérios. E só o quis trazer aqui para mostrar o influxo espiritual da tradição hermética, sob distintas formas, até nossos dias, no Ocidente. Inclusive o cristianismo oferece uma iniciação virtual por intermédio do sacramento do batismo, ou regeneração pelas águas, motivo pelo qual as pessoas interessadas neste tipo de temas aos quais estamos nos referindo, não têm necessidade de ir a tradições estranhas a sua, embora de maneira nenhuma devam desprezá-las, face à dificuldade que, algumas vezes, se tem de se identificar com elas[64]. A obra hermética se produz na interioridade do athanor (analogicamente, do templo do homem). O certo é que esta tradição propõe o conhecimento mediante o estudo da cosmogonia. Estudar as leis cosmogônicas não supõe a erudição literal, ou o cômputo de detalhes banais, que para estas disciplinas são coisas secundárias, se não às vezes entorpecedoras. Conhecer a cosmogonia supõe ser uno com ela. Estar vivo ou ter nascido no verdadeiro estado humano. Este fato assombroso inclui uma perda e um achado de identidade, uma morte e uma ressurreição, que se realizam inumeráveis vezes em vários anos, no athanor do alquimista, sua interioridade. E lhe dá também a matéria com o que seguir trabalhando neste processo alquímico, chamado também de iniciação no caminho do conhecimento e da vida real.

O alquimista e o astrólogo trabalham sozinhos. Assim se os pode ver em numerosas gravuras da iconografia hermética. Ou estudando, meditando ou orando, quando não absortos na contemplação de seus achados[65].

Conhecer uma cosmogonia significa viver a mandala tridimensional do cosmos. Compreender a revelação de um universo e suas leis, absolutamente diferente do que foi ensinado. Onde os valores são tão outros, que unicamente podem ser recebidos por meio de uma total conversão psicológica. Este processo necessita de uma ordem e de um trabalho. Não só tem enormes riscos de separação de muitos tipos (os quais, geralmente, são parte do processo), mas sim pode resultar quase impossível de realizar, por indefinidos motivos. Diz-se que é difícil, mas não impossível. No caminho podem ficar, entre outras coisas, a saúde, a fama e a honra, quer dizer, toda segurança. Mas a recompensa é a identidade, o conhecimento, o ser. O aprendiz de alquimista está disposto à realização espiritual, que inclui o conhecimento vivo das leis do cosmos, em definitivo, o conhecimento de si mesmo, e da realidade, da ordem, da vida. Receberá, pois, o que desejou, sempre que seu trabalho for paciente e sacrificado[66] e passe pelas provas dos heróis mitológicos. Deve levar seu trabalho hermético a todo nível em sua vida e sua cotidianidade, pois se trata da recuperação da luz – a lucidez -, utilizando o emotivo fogo do sangue. O estudo das disciplinas herméticas e dos textos mágicos, alternar-se-á com a constante meditação e o trabalho interno, sagrado, e se surpreenderá então de ver-se cada vez mais estrangeiro no mundo das causas e efeitos[67]. Esse espaço interno poderá albergar as estruturas com as quais construir um novo cosmos, ou melhor, descobri-las-á em si mesmo e manifestando-se em qualquer parte. Poderá então viver de manhã até a noite – e em suas próprias horas de repouso – um novo mundo, cada vez mais assombroso, cuja característica é a riqueza e também o esplendor. Sendo tanto o que tem nas mãos, tem que tomar consciência então de sua responsabilidade com respeito a si, e advertir que não foi por seu mérito, nem um descobrimento próprio, o obtido, senão que simplesmente isso é assim, e que, além disso, não lhe pertence. E, mais ainda, reconhecerá que sua personalidade, tal qual imaginava, não existe. Deve então procurar dirigir-se com as estratégias próprias das artes marciais e equilibrar constantemente o percurso de seu caminho, o manejo de seu veículo. Esta arte requer uma manipulação delicada e é provável que se aprenda à força; ao menos se trata de uma ciência de fortes contrastes. Mas, perseverando até o fim, conseguirá viver em uma mandala viva, espelho do cosmos, onde toda coisa tem significado, nas tensões e matizes próprios da harmonia e da ordem do criado, e de seu sustento invisível e arquetípico. Terá conhecido a cosmogonia e, assim, o batismo lunar de João, de água (da ciência do esquadro), e terá recebido o batismo solar de Jesus, de fogo (da ciência do compasso), e quando tiver culminado este último processo, então se poderá dizer que compreendeu a essência da terra e do céu, o que é simultâneo com sua chegada ao centro e equivale a estar já preparado para começar sua ascensão vertical, pois finalizou com os mistérios menores.

Trata-se, pois, de um caminho mágico, onde os próprios veículos são reveladores[68]. E quando nos referimos ao termo magia, não estamos falando de nada de menor grau, onde os sempre mesquinhos interesses pessoais estão em jogo e a mera individualização fenomênica é valorizada de acordo a patrões modernos e materializados. Referimo-nos a algo muitíssimo mais sutil e poderoso: a autêntica estrutura invisível do espaço e do tempo, intuída diretamente, que não é já algo exterior ou alheio a nós mesmos e ao todo. Entre outras razões, diz-se que o pensamento analógico é mágico, porque as associações e correspondências que ele provoca nos ensinam a pensar, fazem-nos saber do que se trata a obscura lembrança do conhecimento. E nos transforma em verdadeiros seres inteligentes, ao nos fazer partícipes da natureza de nossa identidade. Esta transformação psicológica, e a fenomenologia que lhe corresponde, é mágico-teúrgica. Por outra parte, existem sistemas iniciáticos especialmente desenhados para transmitir estas verdades do pensamento analógico. Estes métodos estão carregados com o influxo espiritual de quem os tem trazido à luz e com a energia de todos aqueles que meditaram neles. Para isso foram construídos – assim como qualquer texto revelador ou sagrado, que sem este fim não teria sido escrito – e se confia em seu poder simbólico e sintético, que nos manifesta a cosmogonia através de uma mandala – ou jogo de estruturas – para nos fazer partícipes dela, utilizando códigos e símbolos como a árvore da vida sefirótica ou o jogo do Tarot.

Desta maneira, transmite-se a energia espiritual da revelação, e a pessoa que está em condições de compreender poderá ouvir as vozes e o chamado da Tradição e efetivar sua iniciação, quer dizer, começar o caminho do conhecimento. Para esse, então, certamente a maioria dos candidatos conheceram bastante o mundo que os rodeia, e de uma ou outra maneira, desiludiram-se dele; hão aprofundado com relação ao que a sociedade atual pode lhes oferecer como atrativo, sobretudo no que toca o plano da realização do autêntico ser. Ou seja, que efetuaram um trabalho de depuração e seleção com respeito a si mesmos, e essa busca os trouxe para os temas da tradição hermética, que quase nunca se encontram de forma casual. A partir de um momento determinado – para o qual terá que estar preparado internamente – produz-se o começo efetivo do processo de conhecimento. As provas iniciáticas são posteriores a esse ponto e as assimila ao passar pelo labirinto. As dificuldades que cada aspirante tenha encontrado até o momento da iniciação, devem ser tomadas apenas como circunstâncias preparatórias, por graves ou significativas que sejam.

Assim, articula-se um processo que, transposto ao plano do temporal, tem que ser visto necessariamente como sucessivo e gradual, e que compreende o conhecimento de sete, nove, ou mais estágios[69], segundo as diferentes tradições, e que se simbolizam em forma de pirâmide no espaço, ou, no plano, com a espiral – ou a dupla espiral – ou com um jogo de círculos concêntricos (uns dentro dos outros), que podem sintetizar-se em três grandes círculos ou níveis, correspondentes aos graus de aprendiz, companheiro e mestre, e aos subgraus que houver entre um e outro destes estágios.

Estas coisas são bem singelas de compreender, embora nem tanto de experimentar honestamente, motivo pelo qual [grande] quantidade de pessoas não têm feito senão confundir-se e confundir a respeito, amparando-se na ignorância de outros, constituindo-se em verdadeiros impedimentos da iniciação dos puros[70], fazendo-se desta maneira cúmplices de forças muito obscuras, que não nos atrevemos a qualificar, mas que podem formar parte deste processo e também truncá-lo definitivamente. Referimo-nos expressamente àqueles que negam a possibilidade da encarnação do conhecimento, através de um desenvolvimento, e repudiam desse modo a divindade do Cristo interno, contra a unânime opinião das tradições. São essas mesmas pessoas as que, ao não se sentirem qualificadas para essa empresa, permitem-se julgar os outros de acordo ao achatamento e mediocridade de seus padrões, motivo pelo qual se condenam a suas próprias limitações, sem que por isso seu desejo de danificar, e de fazer o mal, seja menos notório. Coisa curiosa, este tipo de seres é moralista e certas vezes pretende conhecer algo do processo iniciático. São inimigos tão embuçados como pueris, que pensam que a iniciação é uma cerimônia física, onde um extraterrestre impõe as mãos sobre um pobre ignorante e este se transforma imediatamente em superman. A iniciação seria, para estas pessoas, um diploma devidamente certificado e garantido por uma religião oficial, um prêmio por boa conduta e pontualidade, uma gratificação outorgada ao mérito. Tenhamos muito cuidado com os que “sabem” a respeito da doutrina, o mistério e a iniciação, falsos doutores da lei que condenam o processo de amor e paixão cristã. Esta gente está acostumada ser a mesma que aqueles outros obscuros sacristões de vocação, que pretendem ser “bons” e “piedosos”, pela bondade e a piedade mesm0[71] fazendo verdadeiras competições para medir quem é o melhor e o maior dentre eles, enchendo-se todos de uma satisfação soberba, úmida e perigosa. Estes personagens, insignificantes em si, podem fazer grave dano, repeti-lo-emos, legalizando-se depois de uma ortodoxia mentida e uma localização e um conhecimento falsos; e o aspirante deve saber que são inimigos de sua evolução espiritual, aos quais tem necessariamente que vencer, no plano das ideias, porque é provável que sejam parte das provas de seu percurso e não só pessoas inocentes e equivocadas.

Do mesmo modo, há outra espécie que pode encontrar-se com o passar do processo e que, junto com a anterior, constitui um bloco muito marcado, que tem em comum com ela o fingimento, embora o aprendiz tem que saber que inumeráveis perigos lhe aguardam em forma de muitos personagens, que não são senão a projeção externa e social de seus egos internos. Trata-se, neste caso, daqueles que entendem que dominar as paixões é as ocultar[72]. Além disso, sempre com segunda intenção, intimamente associada com o poder. E não se permitem a menor demonstração de suas emoções, procedendo com a “habilidade” dos jogadores de pôquer, de gente com “guelra”, que atuam com “sangue-frio”[73].

Com muitos conceitos acontece o mesmo que com estes personagens, ou egos, e são autênticos riscos. Sem ir mais longe, com toda a terminologia atualmente em uso, que corresponde a uma leitura literal e materializada das palavras e dos termos, com respeito ao sentido com que foram concebidos. Esta confusão, este impedimento, não é um fato isolado, mas sim, pelo contrário, constitui uma amostra da degradação cultural geral da sociedade moderna, cujo chefe, é necessário nomeá-lo, é o príncipe deste mundo, que, como tão bem já se disse, não só é um monstro do mal e da falsidade, mas também, por sobre todas as coisas, é um autêntico estúpido e um mentiroso. Personagem que todos levamos dentro e que nos faz nos vender constantemente por um prato de lentilhas.

Portanto, nada tem de irregular um processo iniciático que se realiza por meio dos ensinos, instrutores e mestres da tradição hermética – como tampouco outro que se efetue pela judaica, cristã, ou islâmica – e que se desenvolve de forma normal, face às dificuldades, insipidezes e paradoxos de todo tipo, próprias desta via mágico-teúrgica – em que se trabalha quase sempre solitariamente -, embora sua realização se produza em um meio tão irregular como o mundo moderno. E é necessário advertir as pessoas a quem lhes começa a acontecer certos fatos referentes à abertura de sua consciência e lhes dá vontade de compartilhá-los, que devem tomar cuidado, porque estas coisas são perigosas. Mas também, poderão sentir-se suficientemente seguras para vivê-los com outros, ou outro, entre os quais se encontrará o Espírito, conforme se diz nos evangelhos. Igualmente, afirma-se que: “procurem e encontrarão”, e, do mesmo modo, um adágio hermético assegura que: “quando o discípulo está pronto, o mestre aparece”. Este último, se a atitude é adequada, surgirá de todas maneiras. É conveniente esclarecer, por um lado, que ninguém pode adicionar um só côvado a sua estatura, motivo pelo qual tem que chegar até onde pode e deve, no percurso da vida e o conhecimento. Por outro, que ao aspirante, apesar de seus múltiplos méritos, tudo lhe foi ou lhe será ensinado. Que nenhum homem pode nem poderá conhecer estes segredos, nem os descobrir por si mesmo, se não for por revelação e por sua participação em uma cadeia iniciática, com a qual se enlace. A via que aqui se propõe é a simbólica da tradição hermética e sua relação com a simbólica e com a mitologia universal. Onde um símbolo ou mito não resulta claro, em tal ou qual contexto, busca-se a analogia correspondente nesta ou naquela tradição. As transposições e relações que se efetuam com os símbolos constituem grande parte do trabalho hermético. Um símbolo chinês, ou pré-colombiano, pode iluminar imediatamente um símbolo europeu e desta maneira constituir-se em parte integrante de um jogo de relações, de ideias, que se não fosse por sua participação, não poderiam se efetuar. Deve se recordar, uma vez mais, a energia-força atribuída aos símbolos em geral e aos da tradição hermética – neste caso em particular – e a sua irradiação mágico-teúrgica. Também deve se prestar atenção completa aos textos dos sábios, hierofantes e magos, que atuam de uma maneira especial, entre quem é capaz de recebê-los, e os conduzem ao jardim do paraíso, ou estado adâmico, restituindo-os ao andrógino original. Em todo caso, devemos assinalar, para finalizar, que certamente é muito benéfico o transitar especificamente uma tradição religiosa determinada, e praticar o rito esotérico correspondente. Mas de maneira nenhuma é imprescindível, pois os mistérios da tradição hermética – que não é religiosa – e a iniciação nos mesmos, não só constituem o patrimônio vivo do Ocidente, mas também, acaso, sua razão de ser, como um gesto, ou uma cor, no espectro da história humana.

Autor: Federico González
Tradução: Igor Silva

Notas

[64] – Atualmente não é difícil conectar-se com membros ou representantes de tradições orientais, seja viajando para eles ou assistindo a cursos e ritos em distintas cidades europeias ou americanas. Especialmente mestres taoistas e zen budistas, assim como lamas do budismo mahayana. Igualmente existem no Ocidente tarîqahs islâmicas, entre as que podemos citar, em cidades de língua castelhana, a de Granada (Espanha) e Buenos Aires (Argentina) A tradição hindu é, desgraçadamente, a vítima mais notória de todo tipo de fraudes. Onde isto é mais evidente, é na própria a Índia, e até em cidades sagradas como Varanasi, Rischikesh e Harivard. Estes mesmos perigos existem dentro da Tradição Pré-colombiana, ou melhor, entre alguns que pretendem conhecê-la ou até representá-la, o que não é o caso, é obvio, de seus autênticos chefes, mestres, ou de seus curandeiros [NT: original “medicine men“].

[65] – A contemplação pode-se vincular, em maior grau, com a energia celeste, enquanto que a ação pode-se conectar, mais diretamente, com o terrestre.

[66] – No sentido de sacrum-facere.

[67] – Interessa destacar a força energética da oração, seu poder de concentração imediato, a necessidade da invocação incessante dos nomes divinos, sua repetida lembrança, sua memória trazida constantemente ao sempre Presente.

[68] – Recordar os numerosos cavalos mágicos, ou que falam, das distintas tradições e folclores.

[69] – Na tradição hermética soem tomar-se às vezes como dez a estes graus, sendo os sete primeiros os de construção do ser ou templo interno, o oitavo de passagem, o nono de conclusão da Obra, e o décimo, o de coroação da mesma ou virtual saída do cosmos ou da perspectiva espaço-temporal simplesmente humana, que se foi modificando pouco a pouco com o passar do processo.

[70] – Os puros, os não compostos nem duplos. Os valentes e generosos aspirantes ao conhecimento. Nenhuma relação com as piedosas “filhas da Maria”.

[71] – Como os que desejam ser ascéticos ou estoicos, pela ascética e o estoicismo como fins, e não como simples veículos ou meios, que aparecem no caminho. Uma vez mais se faz de algo relativo, algo absoluto.

[72] – Em lugar de utilizar esse fogo e domesticá-lo, de tal maneira que facilite a transmutação.

[73] – São os meninos maus do passeio, ou aqueles que já “sabem” ou que confundem sua megalomania com a verdade. Seu esporte é a constante manipulação.

O Simbolismo da Roda – Capítulo 4 (1ª Parte)

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A Tradição Hermética

A tradição hermética deriva de seu nome, nada menos que de Hermes, deus grego, o Mercúrio romano, e sobretudo do mítico Hermes Trismegisto, todos eles instrutores e educadores dos homens, mensageiros dos deuses, personagem que aparece em quase todas as tradições sob distintas formas, como emissário ou intermediário entre céu e terra, sempre vinculado com o que voa, por isso costuma-se representá-lo com atributos alados. Deste modo se o relaciona com audições, recepções e transmissões de mensagens. Quer dizer, com doutrina[54], ciência, sabedoria e revelação. A palavra tradição deve significar, de certa forma, o mesmo que o anterior[55], por isso a expressão “tradição hermética” possa parecer uma redundância, se não se quisesse destacar, pelo aditamento desta última palavra, uma nítida origem revelada -como também assinalar uma circunstância histórico-cultural referente, de modo específico, ao ocidente e às origens de sua civilização. Por outra parte, o termo que nos ocupa é também claro assim que indica uma via de conhecimento determinada, relacionada com os mistérios menores, chamados também mundo ou plano intermediário, no caminho iniciático, expressando, além disso, a ideia da escuridão e silêncio, inerentes a este caminho, referindo-se igualmente a sua natureza misteriosa.

A tradição hermética é, pois, uma forma da tradição unânime, universal e primitiva -adequada à roupagem histórica e à mentalidade de certos povos e certos seres- que se manifestou aqui e ali, conformando e organizando a cultura e a civilização. O deus Hermes é solidário com o Toth egípcio[56],posto que, como ele, representa sabedoria e interpretação hermenêutica, e virtudes de profecia, atribuídas também a Enoch e a Elias artista -patrono da alquimia-, arrebatados ambos ao céu em um carro de fogo (veículo francamente solar) e dos quais se diz que não estão mortos, mas sim vivos, como outros personagens análogos de distintas tradições, dos quais se aguarda sua segunda aparição ao fim dos tempos, assim como os cristãos esperam a parusia do mestre Jesus, rei dos judeus, Cristo Rei, que encarna em forma humana, para nos revelar a verdadeira vida: transmissão que o converte em salvador e redentor. Historicamente não é muito difícil de advertir que os mitos e símbolos esotéricos egípcios, judeus, greco-romanos, cristãos, árabes e mediterrâneos em geral conformam um conjunto que se pode relacionar diretamente com os povos ocidentais; e que esta influência espiritual, embora não tome formas religiosas, é indiscutivelmente válida pela pureza de sua origem, e pelo desenvolvimento concatenado de transmissão, protagonizado por sábios, profetas, guerreiros e “artistas”. Isto não exclui que o conjunto de ensinos ao que nos referimos seja perfeitamente solidário com outros de distintas épocas e latitudes, e até idêntico a eles, além dos disfarces formais. No caso particular que nos ocupa -o do emissário divino que reúne em si a possibilidade unificada do que repta e do que voa, da terra e do ar, que devem ser separados para complementar-se adequadamente através da paixão e do amor-, este fato é claro e probatório da unidade arquetípica de todas as tradições, já que esta oposição-conjunção acha-se manifestada em toda parte. O que nos interessa agora é destacar que as ciências e artes que foram chamadas de “tradição hermética” têm uma origem comum, que se manifestam historicamente ao longo da vida do Ocidente, e que se expressam por intermédio de uma série de disciplinas e trabalhos, mitos e símbolos, que constituem um código coerente, suscetível de ser transposto a todos os códigos e sistemas tradicionais, pois na verdade elas expressam e se propõem o mesmo: revelar um conhecimento oculto, permitindo desta maneira a conquista do verdadeiro estado humano, o ser original, que todo homem perdeu pela queda, e que o coloca em uma situação infra-humana com respeito a si mesmo, motivo pelo que tem que restaurar seu verdadeiro Eu, que se acha oculto em seu interior, tão somente vivo em forma potencial, e que deve atualizar, pela memória de si e a lembrança do arquétipo original, com fé e amor, graças à doutrina tradicional, conhecida neste caso com o nome de hermetismo. Que lhe permite RE-nascer[57] ao estado autenticamente humano, frente ao qual os estados inferiores[58] aparecem como sonhos, ou ensaios, ou projetos ilusórios, ou mera tolice, por não dizer estúpida vaidade.

Estas disciplinas, ou veículos, levam o aprendiz através do mundo intermediário e o colocam defronte ao tabernáculo, no coração do templo, no eixo, que igualmente comunica com a cripta ou caverna, o país subterrâneo dos mortos, ou melhor, no interior do sacrário, de onde poderá iniciar sua ascensão vertical, para a cúpula ou a sumidade, que simbolizam a saída do templo ou do corpo, o supracósmico ou o supra-humano. Faz tempo que recebeu as águas batismais. Inclusive já se liberou das provas do labirinto das formações. Convertido agora, pela comunhão solar, no Rei do Mundo, o aspirante poderá então ser absorvido inteiramente na função sacerdotal e escapar da cosmogonia, que lhe revelou, utilizando sua identificação com ela como um suporte vivo de transmutação inefável. Ofício de guerreiros e cavaleiros, também o é de sábios e artistas, quer dizer, de astrólogos e alquimistas, e inclui a mestria no conhecimento. Não pouco é este conhecimento, no caso da astrologia e da alquimia, disciplinas que conformam o hermetismo ou a tradição hermética -os mistérios menores da Antiguidade-, pois se referem respectivamente ao conhecimento do céu e da terra, constituindo ambas o saber da cosmogonia completa, a ciência dos ciclos e a ciência das transmutações: a “arquitetura” experimentada em forma direta[59].

Historicamente se pode detectar em numerosos pontos da cultura ocidental a aparição de correntes de ideias, crenças, sistemas e pontos de vista herméticos, quer dizer, esotéricos, dentro do exoterismo de tal ou qual período determinado. Se nos ativermos à cronologia cristã, estes acontecimentos ideológicos aparecem não só em determinados momentos históricos -conformando períodos inteiros, como na Idade Média europeia-, mas também constituem os antecedentes de certos personagens e fatos científicos, filosóficos, históricos, literários, e até a origem de todo um código, como no caso da astronomia e da matemática. Convém, pois, situar-se em algum segmento mais ou menos claro e computado do devir temporal e avaliar uma amostragem de acontecimentos culturais-históricos, a fim de ilustrar esta exposição, que não pretende ser um estudo histórico ou sociológico.

Podemos nos localizar então na Alexandria do século III de nossa era e observar a multidão de ideias, concepções e personagens, tradições e culturas -inclusive a hindu e a budista-, que confluem ali, constituindo uma verdadeira encruzilhada de caminhos, um ponto de concentração de uma série de energias análogas, vindas de várias e diferentes direções, as quais têm que conformar posteriormente as diversas facetas de nossa cultura. Naquelas datas e lugar podemos encontrar o cristianismo dos primeiros padres convivendo com o gnosticismo, ambos de origem oriental. [Podemos encontrar] o pensamento grego, em particular o neoplatonismo -que surge como uma constante ao longo da história do Ocidente- misturado com a tradição hebraica, e com os fragmentos de civilizações como a caldaica, a egípcia, as do Irã, e outras, algumas delas perdidas ou esquecidas por nós. Não tentaremos, tampouco, neste ensaio, dar uma visão mais ou menos clara destes fatos, nem sequer brindar com um panorama. Remetemos o leitor à numerosa bibliografia a respeito, obra de autênticos especialistas. Desde nosso ponto de vista, destacamos estas coordenadas espaço-temporais, como lugar de reunião e posterior expansão das ideias da Tradição Unânime, da filosofia perene e universal, da doutrina, que chegaram a nós com o nome de tradição hermética. É também muito interessante sublinhar que estas ideias, através dos séculos, mantiveram-se vivas até nossos dias. E não só sobreviveram simplesmente, mas também constituíram, e ainda constituem, a trama invisível de certos acontecimentos revivificadores da história do homem ocidental, sem a qual esta história, e este homem, teriam desaparecido já há muito tempo.

O andaime de ideias ao qual estamos nos referindo, há de permanecer mais ou menos incólume e ser considerado como a sabedoria sempre oculta e esquiva, mas presente na vida pública da cidade e do povo -como uma herança cultural imperecível-, até aproximadamente o século XVII. E seguirá constituindo a medula cultural da Europa. Mas, a partir de então os valores mais profundos, postos em crise pelo mal chamado “humanismo”, degradar-se-ão até a negação de toda possibilidade de tradição e doutrina, o desconhecimento de qualquer esoterismo, e a ignorância total referente ao que se entende por iniciação[60]. Passou-se, então, à profanação do sagrado e à dessacralização da vida e da realidade, por isso tudo começa a ser empírico e insignificante[61].

Não que não tenha ocorrido anteriormente -ou, inversamente, que na escuridão atual não exista a luz-, mas estamos nos referindo agora ao tom particular de um determinado ciclo. Este ciclo que tratamos, é, em termos gerais, o da cultura chamada ocidental. E está, como todo ciclo, encadeado a outro, que a sua vez o está a um terceiro, e assim sucessivamente. Mas isto não é tudo: cada ciclo é um fragmento de outro maior e cada uma de suas partes pode ser um ciclo completo em si, com seus sistemas de subciclos, e deste modo indefinidamente. Tudo são ciclos dentro de ciclos, e a história exemplifica -de maneira alarmante às vezes- esta complexidade tão sutil como emaranhada. Mas a doutrina aparece em cada um deles, de uma ou outra maneira, por momentos brilhando intensamente, em outros declinando, ou escondida na escuridão, no coração de uns poucos. A tradição hermética esteve presente no Ocidente desde suas origens históricas e ideológicas, manifestando-se através de distintos grupos, pessoas ou instituições. Não nos referimos exclusivamente à filosofia grega, Pitágoras e Platão[62], Plotino e Porfírio, Proclo, nem à soteriologia dos romanos (Virgílio, Apuleio), tampouco aos verdadeiros gnósticos, nem aos primeiros pais da Igreja, mas sim queremos destacar o enorme amontoado de hermetistas ocidentais cristãos e esoteristas judeus e islâmicos, que tanta influência tiveram sobre os construtores da Idade Média e entre alquimistas, rosa-cruzes e algumas ordens cavalheirescas de diferentes tipos, das quais deriva a Maçonaria, organização iniciática nascida historicamente no século XVIII, embora de origens muito mais antigas -inclusive míticas-, que felizmente permaneceu até a data, embora desgraçadamente seja quase desconhecida, até para os próprios integrantes de seus quadros, em razão da degradação cultural cíclica, que se dá em todas as ordens e lugares, cada vez mais progressiva e veloz, e que tem feito à verdade tão mais misteriosa e secreta, como se se tivesse retirado realmente ao interior de si mesma e se tivesse que procurá-la, ou tirarmo-nos os véus psicológicos que nos ocultam isso de nós mesmos. Entretanto, a Maçonaria segue outorgando a iniciação em suas lojas maçônicas e esta é perfeitamente válida, dado que se trata da transmissão regular de uma influência espiritual. São muitas as lojas maçônicas que na Europa e América estão trabalhando muito seriamente e são muitos os adeptos que revitalizam os valores originários.

Com respeito ao ocidente moderno, podemos aceitar que as tradições religiosas que atualmente o conformam e que estão presentes em maior grau em sua cultura, são a judaica, a cristã e a islâmica, ou seja, denominadas as “do Livro”. O judaísmo tem em sua religião sua própria tradição e certos rabinos se dedicam à cabala, às relações entre letras, palavras e números, ao estudo, ao rito e à meditação. Quanto ao Islã, sua parte exotérica e seu esoterismo estão muito pouco diferenciados. Religião do deserto, é vivenciada de forma individual, e suas práticas, totalmente interiores, não precisam de imagens e nem de ritos complicados. O sufismo, é sabido, é a expressão do esoterismo islâmico. Quanto ao cristianismo, e mais especificamente ao catolicismo, diremos que muitos de seus membros pertenceram em diferentes épocas a ordens herméticas de esoterismo cristão. Papas, arcebispos, bispos, cardeais, singelos abades, ou párocos, ou humildes monges, encarnaram o conhecimento. E não só entre os doutores e os sábios da Igreja, mas também entre seu Santos e seus mártires, começando pelos apóstolos. Só nos bastará mencionar alguns nomes, dentro do esoterismo cristão, que provam a continuidade e a importância deste, não só quanto à Igreja como instituição e ao catolicismo como religião se refere, senão assim que representa historicamente as raízes mesmas do pensamento ocidental. Assim, por exemplo, deveríamos começar por Orígenes e os primeiros pais da Igreja, para continuar com o cristianismo ortodoxo do Oriente[63], falar do monaquismo na Irlanda, de São Bento e a constituição das diversas ordens de monges religiosos, para passar a São Bernardo, ao Císter e à cavalaria, mencionando nada menos que a Dionísio Areopagita no século V, e também a Santo Agostinho, para chegar a Alberto Magno, São Tomás de Aquino, e ao Mestre Eckhart. Neste ponto, é importante a aparição de um ambiente iniciático, o dos místicos de Munique, que foi para o Eckhart o mesmo que a ordem dos Fedeli d’Amore para Dante. Do mesmo modo, deveríamos nos recordar dos artistas medievais (Nicolas Flamel, Basílio Valentino, Bernardo Trevisano) e do hermetismo cabalístico cristão: Raimundo Llull, Nicolas de Cusa, Marsílio Ficino e Pico de la Mirandola. Também de Jacob Boehme, Cornelio Agripa, Francesco Zorzi; e dos magos elisabetanos, até Robert Fludd e os mencionados rosa-cruzes.

Desta maneira poderíamos percorrer os ciclos das histórias particulares -inscritos em outros mais amplos- e estabelecer as legítimas vinculações e as relações insuspeitadas de todo tipo, entre diversos acontecimentos sem conexão aparente, que nos fariam ver e conhecer outra história. E esse é o valor que na verdade tem a história dos personagens e dos povos, o de poder ser tomada como um código de sinais significativos ou significantes, como um discurso salpicado aqui e acolá de detalhes reveladores. Uma linguagem criptográfica, que poderia nos dar uma espécie de espectro ou panorama -de enquadramento no tempo-, no qual lêssemos como em um livro aberto, o livro da vida, cuja leitura tem que nos levar à imortalidade através do conhecimento dos ciclos universais, análogos aos ciclos dos homens.

Continua…

Autor: Federico González
Tradução: Igor Silva

Notas

[54] – Não confundir com a estreiteza e com o fanatismo do dogmático.

[55] – Do latim tradere: transmitir.

[56] – A quem miticamente costuma-se atribuir a paternidade do código do Tarot. A ave Íbis é um de seus símbolos.

[57] – CO-nhecer = CO-nascer [NT: conforme o original espanhol “CO-necer = CO-nacer”]. Em francês é mais evidente: CO-naitre

[58]Infernus

[59] – Pensamos que não deve associar os mistérios menores com o budismo hinayana e os maiores com o mahayana. O hinayana designa o pequeno veículo e significa a via que o adepto, ou o monge, efetua por si e para si. O mahayana ou grande senda, é a realização que não se produz “até que a última erva seja redimida”, quer dizer, a que se alcançaria conjuntamente com todos os seres sencientes. Esta diferença não cabe entre os mistérios menores e os maiores. Tampouco os mistérios menores correspondem ao que se convencionou chamar “a via úmida” e os maiores, à “via seca”. Nem que os primeiros sejam lunares e os segundos solares. Os mistérios menores correspondem à totalidade da obra alquímica e à astrologia e, portanto, à via lunar; e a solar, à obra em branco e à obra em vermelho, às pequenas e às grandes viagens. Nos mistérios maiores, a ideia da viagem, e ainda a de movimento, carecem de sentido.

[60] – Alguns tomam especificamente o ano 1492 como encruzilhada deste fenômeno histórico. Efetivamente, nessa época se unifica a Espanha católica, descobre-se a América e são expulsos os mouros e os judeus (e inclusive os ciganos) da península Ibérica. Este tema exigiria um longo desenvolvimento, que em alguma oportunidade tentaremos.

[61] – Além do mais deve-se dizer que esta degradação também afeta à Tradição Hermética, que em muitos casos se degenerou em paródias e instituições pseudo-espiritualistas, ocultistas, teosóficas e em toda espécie de fraternidades e confrarias que usurparam determinados conhecimentos, rebaixando-os à trivialidade de sua leitura literal. O mesmo acontece com os nomes e terminologias da autêntica tradição, com os quais se comercializa em forma descarada, quando não “filantrópica”.

[62] – “Quem é Platão?”, perguntamo-nos várias gerações de leitores.

[63] – Ainda existe o esoterismo dentro desta forma tradicional, e não exclusivamente localizado no monte Athos.

A Simbologia da Franco-­Maçonaria (Parte II)

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Chegamos assim à primeira metade do século XVII, onde assistimos ao surgimento do movimento hermético-cristão ao qual se convencionou chamar de “iluminismo rosa-cruz”. Esse movimento, que concedia uma importância especial à invocação dos nomes divinos hebreus e cristãos, assim como às analogias e correspondências entre os três mundos ou planos da manifestação universal-corporal, anímico e espiritual – viria a ser decisivo para a gestação da Maçonaria especulativa. Os rosacrucianos, dentre os quais se encontravam autênticos homens de conhecimento do porte de Robert Fludd, Michel Maier e Juan Valentín Andreae (autor de As Bodas Químicas de Christian Rosenkreutz), eram, por assim dizer, o braço exterior e visível da enigmática “Ordem da Rosa-Cruz”, da qual tomaram o nome. Esta sociedade hermética era composta por doze membros (número primordial) que permaneceram sempre no mais completo anonimato, justificado pelas condições, cada mais vez mais adversas, provocadas pelo poder exercido de forma autoritária pela maior parte da nobreza e do dogmatismo inquisitorial. Esse “Colégio Invisível da Rosa-Cruz”, como igualmente se denominava, herdou, graças a organizações filo-templárias como a Fede Santa à qual pertenceu Dante, o essencial do simbolismo do Templo.

Durante os primeiros anos do século XVII o movimento rosacruciano estendeu as ideias herméticas por diversos Estados e Principados do Europa central, especialmente na Boemia e no Alto e Baixo Palatinado, fomentando um florescente, mas breve, período no qual se tentou perpetuar a cultura tradicional do Ocidente. Não obstante, tudo ficou truncado quando o movimento rosacruciano foi cruelmente dissolvido – como no caso dos templários – durante a “Guerra dos Trinta Anos”, acontecimento este que supôs que a “Ordem da Rosa-Cruz”, inspiradora desse movimento, desaparecera da Europa buscando refúgio na Ásia[1].

Cabe aqui destacar dois pontos: primeiro, o aspecto cruento que tomou a perseguição dos templários e dos rosacrucianos, aspecto esse que foi uma característica bastante frequente no Ocidente durante muito tempo, e que deve ser entendido, antes de mais nada, como a expressão de um gesto verdadeiramente sacrificial estreitamente ligado com os mitos solares, e que o próprio Cristo exemplificou com sua paixão e morte na cruz. Do mesmo modo, toda ação sacrificial sofre uma morte ritual seguida de um renascimento ou ressurreição (o sol repete este ato todo dia quando desaparece no Ocidente e volta a aparecer no Oriente), o que pode ser constatado em diversas histórias, incluindo as que se referem ao destino coletivo de todo um povo e das organizações iniciáticas e tradicionais. Segundo, o desaparecimento dos Rosa-Cruzes ocorreu exatamente 333 anos depois da destruição da Ordem do Templo (1314-1647).

Este número, 333, é um número cíclico, pois a soma de seus dígitos dá nove, que é o símbolo numérico da circunferência, que, por sua vez, simboliza um ciclo completo e fechado. Digamos, neste sentido, que o correto conhecimento da teoria dos ciclos é imprescindível para compreender o desenvolvimento histórico ao qual se circunscreve a vida dos povos e das civilizações, situando esse desenvolvimento em suas justas relações analógicas com os grandes ciclos cósmicos, relações que representam a expressão simbólica de tais ciclos no plano horizontal do mundo. Assim, pois, com a “Guerra dos Trinta Anos” finaliza-se um ciclo e começa outro: precisamente aquele que desembocaria na era de subversão dos valores tradicionais e sagrados que constitui o mundo moderno. De fato, com o desaparecimento dos Rosa-Cruzes acabaria de romper-se o laço que unia o Ocidente ao “Centro Supremo”, ou seja, à Tradição Primordial das origens.

Assim sendo, não obstante também se possa considerar as coisas de outro modo, e atendendo ao que neste sentido diz um autor maçom “… Ásia designa apenas o Oriente, onde está situada desde sempre a Loja do maçom”[2]. Sendo, desde logo, verdade que o “Colégio Invisível da Rosa-Cruz” se ocultou no Oriente físico, isso de forma nenhuma invalida que também o fizesse no Oriente simbólico e espiritual. Voltamos a repetir que os acontecimentos históricos, como todas as coisas, são sempre simbólicos, manifestando a nível sensível as realidades espirituais. A ordem metafísica e o natural não se negam – pelo contrário, se complementam – coadjuvando desta maneira à realização da harmonia universal, tendo sempre em conta, isso sim, uma preferência hierárquica do primeiro sobre o segundo, sem confundi-los.

Ao finalizar a Guerra dos Trinta Anos, e durante ela, muitos rosacrucianos abandonaram o continente instalando-se na Inglaterra e na Escócia, seguindo o caminho que três séculos antes haviam empreendido os templários, e buscando, como esses, refúgio nas lojas dos “irmãos franco-maçons”. Significa dizer que estas relações tiveram suas consequências no simbolismo e rituais maçônicos, sobretudo em alguns símbolos e ritos onde se vê claramente a inspiração hermética e rosa-cruz. Por aquela época (século XVII) o caráter operativo da Maçonaria praticamente havia desaparecido, e, com ele, a perda das técnicas ritualísticas próprias do ofício de construtor e os conhecimentos simbólicos a elas vinculados, os quais ficaram sob posse de reduzidos grupos maçônicos, que em vista das condições adversas que se estavam apresentando, optaram por passar ao anonimato. Não obstante, achamos que essa perda ficou compensada, em parte, pela influência revitalizadora que a Maçonaria estava recebendo das diversas sociedades herméticas e de algumas das ordens de cavalaria iniciática que perduravam, ou foram-se criando, desde o final do período Medieval. O simbolismo arquitetônico ligado aos mistérios da cosmogonia seguiria vigente, pois constitui a senha de identidade da tradição maçônica; mas, a partir de então, esse simbolismo já só se aplicaria na edificação do templo interior. Quer dizer que havia quase desaparecido a “forma”, mas não o espírito, o núcleo, a essência.

É certo, por outro lado, que a admissão indiscriminada de pessoas que não tinham mínimos conhecimentos sobre o que era verdadeiramente o simbolismo e a iniciação, foi criando, paralelamente, as condições que levaram à gestação de uma Maçonaria privada de sua dimensão espiritual, que é certamente a que a grande maioria de nossos contemporâneos conhece. Assim, durante o século XVIII e princípios do XIX, todas aquelas influências tradicionais recebidas durante anos foram, realmente, decisivas para a estruturação definitiva dos “sistemas” ou Ritos mais importantes da Maçonaria especulativa, entre os quais destacam por seu caráter tradicional, o Rito Escocês Antigo e Aceito, o Rito Escocês Retificado e o Ritual de Emulação.

Este breve trajeto pelo tempo nos permitiu comprovar como a Maçonaria interveio nos feitos mais significativos da história de Ocidente, ajudando a tecer (muitas vezes de forma passiva e receptiva, é verdade, mas assim tinha que ser por razões que nos escapam) a trama sutil da mesma durante os últimos setecentos anos.

Símbolos e Ritos

Como tradição sagrada que é, a riqueza simbólica da Maçonaria promove no homem a busca do conhecimento de si mesmo, além de lhe oferecer os meios e os métodos para chegar a ele, os quais, fundamentalmente, se expressam como uma didática que facilita o despertar da consciência, que restitui a lembrança de sua dimensão universal. Esse ensinamento pode ser classificado em:

  • símbolos visuais e gráficos;
  • símbolos sonoros e vocais; e
  • símbolos gestuais ou ritos.

Entre os primeiros se encontram os de desenho geométrico, cuja diversificação é bem extensa, adequados à Maçonaria que costuma identificar-se com a própria geometria, palavra derivada de Gea (terra) e metrón (medida), ou seja “medida da terra”, o que, consequentemente, se relaciona com o ofício de construtor (e de agrimensor), na medida que este delimita um espaço com o fim de realizar uma obra arquitetônica. Entre os símbolos gráficos e visuais destacaremos o chamado “quadro da Loja” que já é, por si só, uma síntese simbólica da Loja, e que de alguma maneira resume os ensinamentos iniciáticos contidos em cada um dos três primeiros graus maçônicos. Como todo símbolo que se refere às ideias de “enquadramento” ou “marcação”, o quadro da Loja protege uma série de elementos de caráter sagrado destinados à meditação e contemplação. Nisto é semelhante aos mandalas ou yantras das tradições hindu e budista, modelos simbólicos que desenham uma imagem geométrica do universo. São, portanto, verdadeiros suportes de meditação, adequados para gerar no homem uma visão e um conhecimento de sua própria estrutura interior, refletida na estrutura do mundo. Dissemos que cada um dos quadros de Loja resume ou sintetiza o ensinamento do grau ao qual pertence, e isso é correto na medida em que nele se encontram os símbolos visuais e gráficos mais significativos e importantes. Trata-se das próprias ferramentas como o maço e o cinzel, o nível e o prumo, a régua de vinte e quatro polegadas, o compasso e o esquadro. Também achamos o símbolo do Delta, a estrela pentagramática, o Sol e a Lua, a pedra bruta, a pedra cúbica e a pedra cúbica em ponta, o pavimento mosaico, o frontispício do templo com as duas colunas (Jakin e Boaz ) destacadas de um e outro lado da porta de entrada da Loja, etc. Trataremos de algum destes símbolos.

Entre o segundo grupo de símbolos, os sonoros e vocais, encontramos as “palavras sagradas” e as “palavras de passe” (todas de origem hebraica e cristã) e as lendas dos distintos graus iniciáticos. As palavras sagradas se relacionam diretamente com o que, na Maçonaria se chama de “busca da Palavra perdida”, que constitui o verdadeiro Nome do Deus inefável, e cuja reconstituição equivale a “reunir o disperso”, quer dizer, harmonizar os distintos elementos do ser na unidade de seu princípio divino ou supra individual. Todas as “palavras sagradas” que se dão do primeiro até o último grau, poderiam ser vistas como uma escala ordenada e hierarquizada que conduz à “Palavra de Vida”, que não é outra senão o verbo interior luminoso e regenerativo propiciador do nascimento espiritual. Nesse sentido, a vocalização das palavras sagradas na Maçonaria recorda, em certos aspectos, as técnicas de vocalização dos mantras, em uso entre as tradições hindu e budista. Como se repetiu em diversas ocasiões, os mantras são sílabas e palavras de poder, geradoras de vibrações sutis que conferem a iluminação iniciática ao transmitir a potência do verbo divino imanente na própria realidade da vida cósmica e humana. As “palavras de passe” estão estreitamente vinculadas às “palavras sagradas”. Como sua própria definição indica, as “palavras de passe” aludem ao simbolismo de passagem ou de trânsito, ou seja, contém uma chave que abre a porta de um espaço e tempo interior sagrado e qualitativo. Devemos dizer que cada uma das palavras e letras das línguas sagradas tem seu próprio valor numérico, e tudo junto, palavras e números, formam a “ciência dos nomes”, em si mesma um código simbólico que expressa as diferentes leituras da realidade nos distintos níveis e planos em que se manifesta. Quanto às lendas dos graus, há que vê-las como uma espécie de história sagrada da Maçonaria que permanentemente restitui a lembrança e a memória do tempo mítico das origens. São relatos exemplares, modelos a seguir pelo iniciado e através dos quais este se identifica com as façanhas e vivências de seus antepassados, reatualizando-as no tempo presente, que desta maneira adquire sua verdadeira qualidade.

E o terceiro grupo de símbolos refere-se, como se disse, aos ritos. E esta palavra, “rito”, é idêntica, fonética e etimologicamente, ao sânscrito rita, que significa ordem. O rito seria, pois, a repetição de um gesto ou ato ordenado. Na realidade o rito iniciático (também religioso) é o próprio símbolo em ação executado conforme uma ideia ou arquétipo, e, por sua vez, o símbolo é a fixação de um rito primordial, tal qual o “gesto” do Grande Arquiteto criando o mundo. Se o trabalho com os símbolos gráficos e geométricos se baseia fundamentalmente na concentração e nos estudos de caráter intelectual, os ritos são uma série de gestos e posturas corporais que “fixam” no plano psicossomático do ser a energia-força que precisamente o símbolo geométrico veicula. Estes gestos rituais maçônicos são semelhantes aos mudras hindus e budistas, que através de certas posturas e gestos manuais descrevem uma linguagem sagrada articulada por uma cadência rítmica que é em si uma “música visual”. Essa mesma relação símbolo-rito se pode estender também aos propriamente sonoros e vocais; tudo isso expressa uma unidade de pensamento e ação que deve encarnar-se na realidade cotidiana e diária, pois obviamente de nada serviria meditar na energia salutar dos símbolos se depois não a levamos à prática de uma maneira ordenada e consciente. Da mesma forma, o rito se realiza e desenvolve tanto no tempo como no espaço; no tempo porque os trabalhos maçônicos se realizam do meio-dia em ponto (zênite solar) até meia-noite em ponto (zênite polar); e no espaço porque tais trabalhos são feitos seguindo a direção dos quatro pontos cardeais, ou seja, do Oriente ao Ocidente e do Meio-dia ao Setentrião. Em tudo isso se reconhece uma estrutura circular e cruciforme que abrange conjuntamente a ordem do macrocosmos e do microcosmos, religados ambos pela recriação de um gesto ou rito comum.

Pois bem, essas três categorias de símbolos maçônicos (que por certo se encontram em todas as tradições) estão ordenadas pela lei qualitativa do número, já que tanto quando se desenha uma figura geométrica, se vocaliza um nome divino, ou se executa um gesto ritual, não se está senão manifestando um ritmo interior que, ao exteriorizar-se e plasmar-se na realidade concreta das coisas, toma necessariamente uma estrutura numérica. A este respeito, disse José de Maistre em seu livro “As Noites de São Petersburgo“: “O Criador nos deu o número, e é pelo número que se manifesta para nós, assim como pelo número o homem se evidencia a seu semelhante; tire o número e tirareis as artes, as ciências, a palavra e, por conseguinte, a inteligência. Devolve-o, e reaparecerão com ele suas duas filhas celestiais, a harmonia e a formosura: o grito se converterá em canto; o estrépito, em música; o salto, em dança; a força se chamará dinâmica, e os traços, figuras”.

Continua…

Autor: Francisco Ariza
Tradução: Sérgio K. Jerez

Notas

[01] – A palavra “sacrifício” procede do latim sacrum facere, um ato ou um fazer sagrado.

[02] – Jean Tourniac, Vie et perspectives de la Franc-maçonnerie Traditionnelle.

Nota do Blog

Clique AQUI para ler a primeira parte do artigo A Simbologia da Franco-Maçonaria.

A Tradição Hermética e a Maçonaria (Parte IV)

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De fato, as corporações de construtores medievais deram a estrutura à Maçonaria, inclusive os três graus iniciáticos, e sua simbólica fundamental vinculada com a Arte de Construir. Esta influencia deriva, ou ao menos tem antecedentes nos Collegia ou Scholae romanos, vinculados às Religiões de Mistérios, as quais, por sua vez, fazem-no com o Egito, como já dissemos. Por outra parte, na Alexandria greco-egípcia, dos primeiros séculos anteriores e posteriores ao cristianismo, volta-se a produzir um ressurgimento tanto das religiões mistéricas, que ainda subsistiam, como dos estudos neoplatônicos, pitagóricos e teúrgicos-gnósticos, que desembocam numa corrente onde a Tradição Hermética veiculará estas energias até o Renascimento (em que tornarão a florescer), passando pela Idade Média, onde revestiram formas cristãs, o que não foi difícil dada a identidade de ambas as tradições quanto a suas origens e fins. É precisamente na Idade Média (quando se construíram em toda a Europa milhares de templos, castelos, e cidades inteiras, tanto em estilo românico, quanto gótico, por meio destas associações corporativas, incorporadas à cidade medieval como elementos constitutivos de sua ordem) onde se assenta a gnose Hermética, por intermédio de Pitágoras e da Aritmosofia, quer dizer, o sentido verdadeiro dos números, das proporções, da orientação, dos ciclos, etc., ou seja: os mistérios da Cosmogonia, os segredos do ofício, manifestados pela Filosofia dos Pais da Igreja e Dionísio Areopagita, entre outros, e sobretudo, sem dúvida, pelo Evangelho Cristão, São Paulo, e o fundo tradicional mitológico, religioso e agrícola das culturas anteriores ao cristianismo[27].

Todas estas influências espirituais, ou intelectuais, passam diretamente à Maçonaria, como se encontra documentado em manuscritos alemães e ingleses, e é sobre esta estrutura que se adicionam os outros elementos que mencionamos. Assim a Alquimia se integra a este pensamento posto que ela não é mais que uma expressão ou adaptação a mais deste saber tradicional, e os mesmos Adeptos se colocam sob a filiação Hermética e seu patrocínio. O mesmo vale dizer dos Rosacruzes, herdeiros do pensamento hermético e historicamente relacionados com eles e com a Maçonaria. Também por suas raízes medievais, deve se buscar a associação da Ordem com outras Ordens construtoras e de cavalaria.

Quanto ao elemento judeu, assombrar-nos-ia que não estivesse presente numa Ordem iniciática nascida na Europa, pois junto com o cristianismo, que deriva dele, este veiculou os elementos diversos que hoje chamamos Ocidente, aonde se destaca a figura do sábio, rei e construtor, encarnada por Salomão. De fato, o simbolismo do templo maçônico é fundamental na maçonaria e se o reconhece como o modelo e como o depósito de toda ciência, opinião compartilhada pelos sábios; assim no manuscrito de Isaac Newton intitulado “The original of religions” diz-se: “De maneira que era propósito da primeira instituição da religião verdadeira no Egito pôr à humanidade, mediante a estrutura dos antigos templos, o estudo da estrutura do mundo como o verdadeiro Templo do grande Deus ao qual adoravam … “[28].

A Maçonaria é, segundo tudo isto, o resultado feliz da relação e síntese entre diferentes formas de acessar o Conhecimento, e a unicidade que essas formas proclamam. Mas está claro que tamanho empreendimento não foi obra de algumas pessoas, ou do conjunto de ações individuais, encaminhadas para obter essa síntese, apesar da gratidão que merecem variadas personalidades nesse sentido. A Maçonaria é ­e seguirá sendo um depósito de Sabedoria Tradicional que outorga o Conhecimento àqueles que são capazes de recebê-lo, e ao qual generosamente expandiu de modo espiritual ­a loja maçônica é um condensador de energias, e divulgou culturalmente mediante os escritos e a participação de seus membros em diferentes instituições, sem falar de leis públicas, obras sociais, ou de beneficência. A isto deve acrescentar a perene dignificação do trabalho, verdadeiro objeto de culto de sua disciplina e o instrumento de conhecimento de um Maçom e portanto atividade humana por natureza.

Assinalaremos que, quaisquer que sejam as origens maçônicas, elas apontam, uma e outra vez, para os artesãos e construtores medievais e não aos sacerdotes e nobres da época. Sabe-se que os estamentos sociais eram muito fixos na Idade Média e que incluíam basicamente quatro categorias de decrescente importância:

  • a) a Igreja, o Papado e o clero como sabedoria;
  • b) a realeza e a nobreza, particularmente em seu aspecto militar;
  • c) os administrativos, comerciantes e profissionais (artistas e artesãos); e
  • d) o grupo de camponeses, dedicado ao serviço e a produção.[29]

A Maçonaria deve ser considerada como originada neste terceiro estamento, de acordo com as leis cíclicas, embora suas histórias míticas incluam reis construtores e sábios arquitetos, e no século XVIII estivesse constituída pela nobreza e no XIX gozasse decididamente do apoio de uma burguesia que já era o poder; também é significativa a incorporação da Alquimia (Via Régia), junto com a inclusão da Filosofia Hermética como componente da sabedoria sacerdotal.

A doutrina dos ciclos nos indica que, em sucessão indeterminável, estes se encadeiam, uns com outros, mas que cada um possui uma organização prototípica quaternária comum, que se desenvolve numa ordem invariável, pela qual determinado elemento constitutivo do ciclo prepondera sobre os restantes, o que é óbvio na quaternaridade das idades do homem: infância, juventude, maturidade e ancianidade. Com a história acontece o mesmo, e cada um dos componentes quaternários da sociedade tem que ter um período de supremacia sobre os outros. Assim foi claro na História do Ocidente a perda de poder da Igreja a favor da nobreza e desta à burguesia, para terminar nas massas proletárias que hoje detêm grande parte do poder, não obstante a confusão reinante neste aspecto que as contradiz ao extremo tal de que uma mesma família, ou idêntico meio social, engendra um filósofo ou um caipira, um homem nobre ou uma besta.

De qualquer maneira a Tradição Hindu também acredita nesta divisão em Castas (que nada tem que ver com as “classes sociais”), que por outra parte se encontra presente nas culturas mais arcaicas, que são fixadas pelo Destino, já que as determina o nascimento, embora como vimos na época atual os estamentos estão tão mesclados que sua validade se desintegra já que a humanidade se encontra no último estado de um período de dissolução que, como se sabe, é chamado Kali Yuga.

Do ponto de vista histórico, nasce a Maçonaria numa época onde as corporações de artesãos passavam a ser instituições de poder, e o profissionalismo de seus integrantes ocupava uma função no enquadramento do Estado. Esta influência é parelha à perda de importância da Igreja, e da Monarquia, e se corresponde com a crescente preponderância da burguesia formada por profissionais, mercadores e administrativos, em séculos posteriores. E esta determinação que faz os ciclos históricos e as castas marcará de algum modo os maçons (face às pretensões mundanas de alguns), que em linhas gerais pertencem a estes estamentos sociais profissionais e comerciais, aos quais também protege o deus Mercúrio. Pondo em destaque que, para a já mencionada Tradição Hindu, são os kshatriyas e, particularmente, os vaishyas (casta que igualmente pode acessar a liberação como a dos sábios e dos guerreiros) que poderiam se equiparar com os estamentos sociológicos e históricos da Maçonaria, relacionada igualmente com Noé (e sua arca), quer dizer como depositária da antiquíssima Ciência Sagrada, emanada da Tradição Hermética[30].

Para finalizar apontaremos que inclusive a Maçonaria medieval é nômade, ou melhor semi-nômade, e os construtores de catedrais, castelos, ou burgos, viajavam de uma a outra área segundo suas necessidades, relacionadas com seus movimentos, tais e quais as tribos vão trocando de paragens de acordo igualmente às suas. Num momento determinado, estes construtores se assentam em diferentes cidades e fundam grêmios de diversos ofícios, já que a cidade cresceu e se desenvolve conjuntamente com eles; são agora portanto pessoas sedentárias, que assim assentadas, oferecem de uma ou de outra maneira seus conhecimentos indispensáveis para todo labor ordenado e civilizador. Como vemos, é possível também relacionar a Maçonaria em sua evolução com as diferentes etapas mediante as quais se gera a cultura, basicamente assentada nas cidades. Abel deu lugar a Caim, e os construtores trocam sua forma de atuar, formando o sólido modelo das cidades, e, finalmente, do estado. Caim matou Abel mas, graças a seu sacrifício, o construtor pode passar através do rígido caminho das formas, à essência não formal, que entretanto as contém de modo potencial. O construtor então realiza por meio de uma indústria contingente uma ocupação eminentemente metafísica e transcendente.

É interessante destacar que Caim ­como se sabe, antepassado dos maçons foi condenado pelo YHVH a ser um vagamundo sobre a terra para purgar o crime cometido contra seu irmão Abel. Porém, quando construía uma cidade, sua esposa deu a luz a seu filho Enoque (apelativo que aparece no Antigo Testamento como o do filho de Caim e o do quinto filho de Set)[31]  cujo nome se fez extensivo à vila. Este último (Gênese 4, 9 a 18) deve confirmar o dito precedentemente com respeito ao fato do vagamundeio permanente e a ulterior fixação de uma família, que se projeta numa casa e posteriormente numa cidade, ou civilização.

Cremos que este tipo de simbólica relacionada com fenômenos cósmicos, ou cíclicos, está na raiz do assunto da passagem da maçonaria operativa à especulativa, ou seja, da adequação a novos modos de expressão da Ciência Sagrada em relação com os devaneios do pensamento humano[32]. De todas as maneiras, este é um fato que sempre se produz em qualquer transformação onde algo se perde e algo se regenera; há quem prefira lamentar aquilo que se perdeu, outros se regozijam no fato de que a doutrina tenha sobrevivido, além de disputas mais ou menos políticos (Hannover-Stuart) ou formas do cristianismo (Igrejas reforma das ­Igrejas submetidas a Roma). Neste último caso, a vigência das reformas empreendidas pelos “modernos” universaliza a Maçonaria ao se abrirem as portas a judeus (1732) e islâmicos (1738), de modo ecumênico, em detrimento de uma ortodoxia provinciana pretendida por determinados agentes do poder eclesiástico. E se muitos maçons ­entre os quais nos incluímos rechaçam o poder de Roma, não o fazem assim enquanto membros da Ordem, senão exclusivamente enquanto cristãos, comprometidos com os textos evangélicos e portanto também com o Antigo Testamento, em detrimento da nova teologia da libertação.

E embora a Maçonaria, como vimos reiteradamente, tem suas origens nos canteiros de pedras medievais, e portanto nas rigidezes religiosas das concepções desse tempo, não se deve esquecer que desde essa época até o século XVIII, onde toma sua forma especulativa, estes construtores viveram imersos num novo mundo, o do Renascimento, inspirado no Corpus Hermeticum, no Pitagorismo (também nos Hinos Órficos e nos Oráculos Caldeus) e sobretudo em Platão, nos neoplatônicos e Proclo, que se vê refletido em seus palácios, igrejas, jardins e torres, arquitetura interior, engenhos mecânicos e outras maravilhas de magia natural e experimentação científicas e artísticas (pinturas, esculturas, ourivesaria e movelaria) que tiveram sua origem na Academia dos Médicis, dirigida pelo Marsilio Ficino, cuja influência se estendeu em toda a Europa por quase três séculos, e que por certo esteve presente na Inglaterra Elisabetana e seus sucessores, e que desemboca não casualmente, e só para dar um exemplo, na tradução do Corpus Hermeticum por Sir Walter Scott, mestre maçom, na mesma época em que as lojas maçônicas inglesas irrompem com força na História moderna.

Os distintos Ritos e Obediências, apesar da sua heterogeneidade, têm em comum o Grande Arquiteto do Universo, e um ofício compartilhado: a Arte e a Ciência de Construir, que reconhecem no Símbolo sua expressão mais cabal. De certa forma, esta diversidade poderia comparar-se às distintas “gnoses” dos primeiros séculos de nossa era, inclusive a cristã, cujo fim último era obviamente o mesmo, face às diferentes malversações nas quais pode se ver envolta qualquer associação.

Esta “atomização” das Lojas é, de fato, a forma que tomou historicamente a Maçonaria para se multiplicar, e não nos deve surpreender então que esta ou aquela Oficina dê mais atenção sobre um ou outro aspecto dos símbolos, ou das origens da Ordem, conforme se sintam mais ou menos identificados com eles. O mesmo aqueles mais relacionados emocionalmente com determinada Religião, ou com conceitos humanistas de diferentes tipos[33].

Todas essas idéias, ou melhor, a convergência e execução destas correntes maçônicas, hoje também podem ter lugar em um âmbito mais amplo que o das oficinas, onde muitas vezes questões meramente pessoais de simpatias e antipatias, ou problemas sociais ou econômicos e políticos podem criar tensões e até abismos entre seus integrantes. Isto poderia encontrar uma solução, como de fato já ocorre, em certas lojas de estudos maçônicos, formadas por mestres de distintas oficinas, como ocorre em outras partes; estas lojas que se reúnem uma ou duas vezes ao ano durante os solstícios, celebrando-os, são de trabalhos estritamente doutrinários e históricos sobre os símbolos, ritos e antecedentes iniciáticos da Ordem, sem se deixarem afetar pelas diversas influências que correm entre as diferentes oficinas; como já se disse, são lojas maçônicas de Mestres que já foram Oficiais ou Veneráveis de diferentes lojas maçônicas e que provaram por numerosas circunstâncias, e ao longo dos anos, sua pertença às origens, usos e costumes e deveres da Ordem.

Pondo ponto final a este superficial panorama, queremos destacar a importância que teve a Maçonaria ­e por seu intermédio a Tradição Hermética na independência e organização das repúblicas americanas (do Norte, Centro e Sul), onde se podem destacar, entre outras, as figuras de Francisco de Miranda, Simón Bolívar, George Washington, José de San Martín, Antonio José de Sucre, José Martí, Miguel Hidalgo[34], etc., não só fundadores de países, constituições, legislações e instituições, mas também de cidades, tal o caso da cidade de Washington DC., capital dos Estados Unidos que leva o nome de seu fundador e da Ciudad de La Plata, província de Buenos Aires, fundada pelo mestre maçom Dardo Rocha[35]. Deve se destacar que o anteriormente mencionado se fez com base ao ordenamento desses povos, promovendo à cultura, a educação, a arte e as boas maneiras em países onde sobressaíam a desorganização e a violência, cumprindo certamente a Maçonaria uma função civilizadora que subsiste de diferente forma até nossos dias, já que a América, suas instituições e forma de vida, nasceram historicamente sob seu signo.

FINIS

Autor: Federico Gonzalez
Tradução: Igor Silva

Notas

[27] – Como curiosidade, observaremos que só a Ordem do Templo, dentro do primeiro século a partir de sua constituição (1128), construiu 80 catedrais, 60 abadias e 9000 comendas.

[28] – Isaac Newton, El Templo de Salomón. Introd. de J. M. Sánchez Ron, p. XXIX. Tradução e estudo filológico C. Moreno. Ed. Debate/CSIC, Madrid 1996. (Clique AQUI para ler a resenha em espanhol).

[29] – De fato a vinculação entre a Maçonaria e os estamentos do poder se encontra assinalada do começo da Ordem, inclusive em seus mitos, em sua relação com os distintos reinos europeus, príncipes e nobres, e posteriormente com os meios econômicos e políticos caracterizados pela incorporação de uma crescente burguesia com mando e influência na sociedade moderna. Ver as seguintes listas e anexo:

Listas

Na Inglaterra: os reis Athelstan e Edwin (s. X), Eduardo III (1327-1377) que favoreceu a instituição poderosamente, protetor das lojas maçônicas e das artes e ciências. Jaime I da Inglaterra (e VI de Escócia), filho de Mary Stuart. Da casa de Windsor: Jorge IV, (1762-1830), Guilherme IV (1765-1837), Ernesto Augusto, duque de Cumberland e rei de Hanover (1771-1851), Jorge V – de Hanover (1819-1878), Eduardo VII (1841-1910), Jorge VI (1895-1952), e também Frederico Luis, príncipe de Gales (1707-51), Guilherme Augusto, duque de Cumberland (1721-65), Eduardo Augusto, duque de York (1739-67), Guilherme Henrique, duque de Gloucester (1743-1805), Henrique Frederico, duque de Cumberland (1745-90), Frederico Augusto, duque de York (1763-1827), Eduardo Augusto, duque de Kent (1767-1820), Augusto Frederico, duque de Sussex (1773-1843), Artur, duque de Connaught (1850-1942), Leopoldo, duque de Albany (1853-1884), Alberto Vítor, duque de Clarence (1864-1892), príncipe Artur de Connaught (1883-1938), Eduardo VIII, último duque de Windsor (1894-1972), Jorge, duque de Kent (1902-1942), até os atuais príncipes Felipe, duque de Edimburgo, e Eduardo, duque de Kent (1935).

Na Escócia, Robert Bruce, e depois dele todos os reis Stuart, assim como as famílias nobres das quais emanava a guarda real escocesa: Hamilton, Montgomery, Seton, Sinclair e os próprios Stuart. Dos anteriores terá que destacar a William Sinclair, Conde de Orkney e Caithness, Grande Almirante da Escócia em 1436, deste modo construtor, renomado em 1441 por Jaime II, patrão e protetor dos maçons escoceses; função hereditária até 1736, em que o W. Sinclair de então (Saint-Clair) renunciou por não poder ocupar-se, sendo eleito primeiro Grão-Mestre da Escócia por votação unânime dos representantes das 33 Lojas maçônicas. Em 1600 e 1630 aparecem como “patronos”, “protetores” e “juizes” nas Cartas assinadas pela assembléia de Lojas maçônicas escocesas, assinada esta última deste modo por William Shaw (Estatutos Schaw) Mestre de Obra e Vigilante Geral (Supervisor das obras do Rei, Jaime I da Inglaterra e VI da Escócia). Ainda em 1812-13, e um de seus descendentes, o segundo conde James, que seria lorde presidente do Conselho em 1834, foi Grão-Mestre da Escócia.

Na Alemanha, Áustria e Prússia: Frederico II, da Prússia, o Grande, “uma das maiores figuras do século XVIII”, rei em 1740, iniciado dois anos antes sem que o soubesse seu pai, e junto com ele o príncipe de Lippe Bückerburg e o conde de Warteuslebem; seus três irmãos, Guilherme, Henrique e Fernando. Frederico Guilherme II, sobrinho e sucessor, vinculado com os Rosacruzes; Frederico-Guilherme III; Guilherme I, rei da Prússia (1861) e imperador da Alemanha (1871-88); Frederico III, Grão-Mestre em 1860, iniciado como o anterior por seu pai em uma loja maçônica especial formada por dignitários das três Obediências berlinenses; tomou o título de “Grande Protetor da Maçonaria” ao subir seu pai ao trono. A eles terá que se adicionarem outros membros dos ramos colaterais desta Casa de Hohenzollern (Brandenburgo Ansbach, B. Bayreuth, e B Schwedt; e a Casa de Brunswick). Na Áustria, Francisco duque da Lorena e grão-duque da Toscana (mais tarde imperador) iniciado em 1731, marido de Mª Teresa; o conde Kaunitz, chanceler da imperatriz e os conselheiros de sua corte: a primeira loja maçônica (1742) foi criada pelo Conde de Império A. J. Hoditsch e o conde F. de Glossa, a instâncias do arcebispo do Breslau, conde Schaffgotsch, maçom ele mesmo, e apesar da bula de Clemente XII (In eminenti, 1738); num ano tinha iniciado 56 membros das maiores famílias nobres da própria Áustria e outras. Os landgraves (logo grandes duques) regentes de Hesse, Luis VIII, IX e X, e o grão-duque Luis II (s. XVIII e XIX). A todos eles terão que ser somados os pertencentes a outras casas reais da Europa, incluindo a Noruega e a Suécia.

Na França: Os Grão-Mestres até a época napoleônica: o duque de Antin, par da França, 1738-43; o príncipe de Borbón-Condé, conde de Clermont, 1743-71; o duque de Chartres, depois de Orléans, príncipe de sangue, 1771-93, e Roettiers de Montaleau, 1795-1804, Grande Venerável da Maçonaria francesa. Deste modo os príncipes: de Condé, duque de Borbón; de Conti, príncipe de sangue; de Rohan; de Pignatelly, mestre das lojas maçônicas de Nápoles; de Saint-Maurice; os duques: de Choiseul-Praslin, de Choiseul-Stainville, de Luynes, de Lauzun; o duque Segismundo de Montmorency-Luxemburgo, administrador especial da Ordem (Grande Oriente e Grande Loja maçônica da França) de 1771 a 1789, de grande memória como nobre e maçom. Na Bélgica: Court de Gebelin se destaca pela importância internacional que adquiriu na Maçonaria; também foi membro do governo da monarquia belga que teve a Leopoldo I como seu primeiro rei, que era maçom, assim como outros membros desta família.

Ao pessoal da França devemos adicionar também os mais altos dignitários do Império Napoleônico, começando pelo próprio Napoleão e por seu delegado, o príncipe J.-Jacques Regis de Cambacérès, duque de Parma, Grão-Mestre do Grande Oriente (1806-15) e Grande Comendador do Supremo Conselho do Rito Escocês sob o Império, assim como de outros três Ritos; por sua vez, ao menos 17 dos 25 marechais do Primeiro Império eram maçons. Tudo isso sem contar os meios econômicos e políticos da burguesia e o peso intelectual dos nobres de novo cunho e os intelectuais que substituíam à nobreza. Exemplo disso: Voltaire, Montesquieu, Condorcet (enciclopedista), La Rochefoucault posteriormente, Gérard de Nerval (?), etc. os sábios La Cépède, Lalande, Montgolfier, encabeçando uma geração que incluía inventores, médicos, pintores e músicos, e todo tipo de investigadores, a maior parte hoje esquecidos mas que contribuíram, em seu momento, ao desenvolvimento da cultura atual, membros muitos eles da Academia e do Liceu Franceses, da Academia das Ciências e das Artes etc. etc. O mesmo nos países antes mencionados e suas figuras intelectuais, científicas (especialmente na Inglaterra), políticas e econômicas até início do século XX. Nas capitais e nas províncias, as autoridades eram maçônicas e ainda hoje existem famílias inteiras maçônicas que receberam com orgulho esta herança.

Anexo

Do mesmo livro citamos a nobres francesas, pertencentes a lojas maçônicas de adoção: a duquesa de Borbón, que recebeu em 1776 o título de Grã-Mestra de todas as Lojas maçônicas de Adoção da França: na sessão “o Duque de Chartres presidia os trabalhos; seiscentas pessoas estavam presentes, entre as irmãs se destacavam a duquesa de Chartres, a princesa de Lamballe, as duquesas de Luynes e de Brancas, a condessa de Caylus, a viscondessa de Tavannes, as marquesas de Clermont e de Sabran. Terminados os trabalhos maçônicos, a assistência desceu aos jardins brilhantemente iluminados, onde divertimentos mesclados com música e canto precederam a um fogo de artifício cuja obra principal representava o Templo da Amizade e da Virtude. Houve a seguir banquete e baile e a festa terminou com uma arrecadação para fins de beneficência” (pág. 87). Outras damas da nobreza, pertencentes a lojas maçônicas vinculadas às masculinas do mesmo nome: a Grande Inspetora marquesa de Villervaudey, as condessas de Durfort, Janey; marquesas de Felletan, de Germigney, de Moam; baronesa de Glanc (Loja maçônica Sincérité de Besançon); duquesa de Cossé-Brissac, condessas de Caumont, de Saint-Pierre de Pontcarré, baronesa de Beaumont (São Luis de Dieppe); na Loja maçônica a Perfeita Amizade de Toulouse “particularmente elegante e aristocrática” as marquesas de Crouzet, de Rességuier, de Montlaur, viscondessa de Rochemaure, baronesa de Panetier, Mmes. de Saint-Victor, de Mahieu, de Rochefort, de Lacroix, etc. etc. além das Oficiais da Loja maçônica, sendo a maioria delas esposas dos membros da Loja maçônica masculina; a duquesa de Harcourt, condessas de Blagny, de Briqueville, de Faudoas, de Lestre, de Brassac, de Beaufort, viscondessa de Mathan, marquesas de Briqueville, de Bouthillier, de Molans (Loja maçônica militar São Luis em Caem); a baronesa de Viomesnil, Grande Inspetora, princesa de Horns, viscondessa de Nédonchelle, condessas da Valette, de Pestalozzi, de Marguerye, du Petit-Thouars, de Messey, marquesa de Balivières (Loja maçônica São Luis em Nancy). Outras lojas maçônicas de adoção: A Verdadeira Virtude em Annonay, A Perfeita União em Rennes, A Concórdiaem Rochefort, Les Neuf Sœurs em Toul, Philadelphes em Narbona, a muito importante São João da Candura em Paris, etc.

[30] – Ver “Os Livros Herméticos”

[31] – Enoque filho de Caim é ancestral do primeiro que trabalha os metais, bronze e ferro: Tubalcain, bem conhecido na Maçonaria. Hiram-Abif, filho de Israel e de Tiro, o Mestre Hiram dos maçons, é artesão do bronze e do ferro, da mesma forma que do ouro e da prata, da pedra e da madeira, dos tecidos e da gravura (II Crônicas 2, 13). O quinto Enoque filho de Set é o que “desapareceu, porque Deus o levou” (Genesis 5, 24). O pai de Tubalcain, Lamec, também aparece na descendência de Set, e nela é pai de Noé (Gen. 5, 24).

[32] – Por outra parte, deve-se esclarecer que a primeira versão das Constituições de Anderson estava incompleta e só havia dois graus iniciáticos. A esta omissão tão estranha veio somar a supressão da maçonaria do Royal Arch, tendo-se só em conta a maçonaria do esquadro (square masonry) sem ser coroada pela maçonaria do compasso, sendo ambos ferramentas, como se sabe, símbolos respectivos da terra e do céu. A isso se opuseram as Lojas maçônicas autenticamente operativas que, rechaçando este erro, passaram a defender as Antigas Constituições, encabeçadas em 1725 pela Grande Loja de York, ou em 1751 pela Grande Loja dos Antigos, que só aceitaram reunir-se com a Grande Loja de Londres, (a dos modernos, para os quais Anderson tinha escrito suas Constituições) em 1813, depois que estes aceitaram incluir em seu seio o que tinha sido desde tempo imemorial a Tradição da Ordem; desse modo se reconstituiu a herança anterior na forma que chegou até hoje. Este tipo de equívocos tem feito que alguns autores maçônicos suspeitem de certos aspectos do trabalho do pastor Anderson, que pareceria ter querido desviar os objetivos e origens da Maçonaria, embora deve ser dito em seu desencargo, que em outros documentos maçônicos historicamente válidos igualmente só aparecem os graus de aprendiz e companheiro. Em todo caso, se houve uma intenção deste tipo ela não prevaleceu e as Constituições de Anderson foram refeitas e se impôs a Tradição. Desde outro ponto de vista, qualquer adaptação aos tempos modernos de uma Antiga Tradição, necessita uma profunda adequação que só o tempo e outros muitos fatores, ainda de sinal contrário, promovem. A Igreja de Roma poderia ser um modelo quase camaleônico de adaptação: da escolástica à teologia da libertação, da sofia à ciência moderna, do sagrado ao religioso. E adicionar que a Maçonaria, como Instituição Iniciática sobreviveu a católicos e protestantes.

[33] – Como bem diz o refrão, “Ninguém recebe as heranças com benefício de inventário”.

[34] – Nos Estados Unidos os nomes ligados ao futuro EUA são muito numerosos tanto por sua qualidade como por sua quantidade; os nomes de: George Washington, Benjamim Franklin, Thomas Jefferson (segundo F. M. Hunter, Research Lodge of Oregon, 1952), James Madison, são óbvios para todos aqueles que estudaram a história deste país e sua imensa repercussão no resto da América Latina e do mundo; tenha-se em conta a importância que teve a independência e a organização política dos E.U.A. para a independência e organização hispano-americanas; tanto os primeiros presidentes norte-americanos como os latinos foram maçons. Há dúvidas sobre a pertença à Ordem de Adams, igualmente uma figura muito importante da América do Norte; terá que somar a Alexander Hamilton, ainda que não tenha sido presidente (muito influente seu livro O Federalista), e deste modo a Monroe, Andrew Jackson, Polk, Buchanan, Andrew Johnson, Garfield, Theodore Roosevelt, Taft, Harding, Franklin D. Roosevelt, até chegar a Truman e o fim da 2ª Guerra Mundial.

Políticos e Libertadores: Simón Bolívar (Venezuela, Colômbia, Bolívia), José de S. Martín (Chile e Peru), Antonio J. de Sucre (Equador), José Martí (Cuba), Francisco de Miranda (que iniciou a Bolívar, O’Higgins e S. Martín na loja maçônica Grande Reunião Americana que ele tinha constituído na Inglaterra), Hnos. O’Higgins, Carlos de Alvear, Bermúdez, Undarreta, A. Páez, O’Connor, D. Jiménez, J. M. de Alemán, Arizmendi, J. Tadeo Moragas, Rodríguez Peña, Pueyrredón, Maceo, M. Gómez, Grales. A. Valero, D. de Tristán, etc. Presidentes: Argentina: Justo J. de Urquiza, Bartolomé Mitre, historiador e Grão-Mestre, Santiago Derqui, Domingo F. Sarmiento, quem fez a reforma e plantou os pilares do desenvolvimento educativo, que foi deste modo G. Mestre do Grande Oriente. Brasil: José Bonifácio de Andrade, Fco. José Cardoso, Luis A. Vieira da Silva, Joaquín de Macedo Soares, Eusébio de Queiroz (aboliu a escravidão), Marechal Deodoro da Fonseca (República, 1889). Colômbia: León Echeverría, Gral. Mosquera, Fco. de Paula Santander, Gral. A. Nariño. Venezuela: Diego B. Urbaneja (vice-presidente do país em 1847-48, presidente do Grande Oriente Nacional Colombiano e da Grande Loja da Colômbia estabelecidos em Caracas em 1824, pertencendo ao primeiro os principais artífices civis e militares da independência da Colômbia, Venezuela, Equador, Panamá, todos 33º); Antonio Páez, José Tadeo Moragas, José Gregorio Moragas, (fim da escravidão); Antonio Guzmán Branco, Joaquín Crespo, Andueza Palácio, Grão-Mestres. Peru: José Rufino Echenique (1852), Miguel San Román. México: Miguel Hidalgo, Vicente Guerrero, Guadalupe Victoria, Guadalupe Gómez Pedraza, Javier Echevarria, Nicolás Bravo, Benito Juárez, Melchor Ocampo, Sebastián Tejada, Porfirio Díaz, Francisco Madero, etc. muitos deles Grão-Mestres.

[35] – Nas cidades americanas grandes, médias, e ainda pequenas, o edifício da loja maçônica ocupa sempre um lugar destacado.

A Tradição Hermética e a Maçonaria (Parte III)

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Falta-nos mencionar um pouco mais à Alquimia como influência presente na Ordem Maçônica. Já assinalamos que Enxofre, Mercúrio e Sal, os princípios alquímicos, encontram-se diretamente incorporados, desde os primeiros graus.

A Alquimia tem em comum com a Maçonaria o desenvolvimento interior, tendente à Perfeição, que tanto os alquimistas consideravam o objetivo de seus afãs (já que a Natureza não tinha finalizado sua Obra, que o Artista ou Adepto devia completar), como os maçons aos fins últimos da Maçonaria, que incluem a morte e a consequente regeneração em outro nível, ou estado de consciência.

Por outro lado, costumou-se dizer entre os amigos da Filosofia Hermético-Alquímica que o último grande Alquimista (e escritor sobre estes temas) foi Irineu Filaleto no século XVII. Isto é bastante exato de uma perspectiva, só que não se observa com toda claridade que a partir dessa data não se interrompe esta Tradição até o presente, mas sim se transforma, e muitíssimos de seus ensinos e símbolos passam à Maçonaria, como transmissora da Arte Real e da Ciência Sagrada, tanto nos três graus básicos como na hierarquia dos altos graus. Segundo René Guénon, estes altos graus são um prolongamento do estudo e da meditação sobre os símbolos e ritos (a uma parte deles, chamam-nos filosóficos)[20] nascidos do interesse de muitos maçons por desenvolverem e fazerem efetivas as possibilidades outorgadas pela Iniciação; por esse motivo a utilidade prática destes graus é indubitável e constituem a hierarquização que coroa o processo de Conhecimento, tendo em conta sempre o caráter iniciático da organização, como nos adverte isso o autor, que também nos põe em guarda sobre o perigo de que estes graus se dediquem a problemas sociais ou políticos, mutáveis por natureza, e portanto afastados dos alicerces do Templo maçônico, construído em pedra. (Ver “René Guénon”: artigo “Os Altos Graus”).

No simbolismo maçônico, tal como no Alquímico, o sol e a lua exercem um papel fundamental e se os encontra em lugares tão essenciais como nos quadros e na decoração das lojas maçônicas (localizado-se em seu Oriente). Certamente que se trata dos princípios ativo e passivo, que também se correspondem às colunas Jakín e Boaz, que deste modo assinalam a oposição destas energias, ao mesmo tempo que sua conjunção num eixo invisível, do qual tende o prumo o Grande Arquiteto do Universo. Sem deixar de dar primazia a este significado geral, deve também se ter em conta a realidade destes astros, já que existe um calendário maçônico cujos dois pontos extremos constituem, como em quase todas as Tradições, os solstícios de verão e de inverno, festividades dos dois São Joões, que marcam os pontos limites do sol em seu percurso, sinalizando também os pontos intermédios correspondentes aos equinócios na roda temporal, e nos introduzem na doutrina dos ritmos e dos ciclos. Por outra parte, existe uma preeminência entre estas luminárias, já que a lua resplandece graças à luz solar, conceito que não é alheio à Tradição Hermética e à Cabala, posto que ambas são utilizadas de maneira generalizada para indicar graus de Conhecimento, ou etapas no percurso iniciático. Jean Tourniac no prólogo ao conhecido Tuileur de Vuillaume[21] aponta, referindo-se aos ciclos, a semelhança do paredro simbólico lua-sol ao do simbolismo solar e do polar. Esta associação que possui indefinidas vias de desenvolvimento, poderia igualmente relacionar-se com dois aspectos da Maçonaria, encarnados nas figuras míticas de Salomão (solar) e Pitágoras (polar), que por sua vez – e isto não o diz Tourniac – guardariam alguma analogia com os graus simbólicos (Maçonaria Azul) e os Altos Graus, ou ao menos, supostamente isto é o que pretenderam aqueles que foram instituindo estes últimos.

A literatura sobre a Maçonaria, ou as investigações históricas sobre a Ordem, soem incluir os autores, meios e escritos anti-maçônicos, tão confuso é o panorama a respeito de suas origens e fins, havendo-se criado uma série de “lendas” paralelas, o que ocasiona que certos investigadores custem cruzar uma espécie de fronteira “maldita” e invisível que obedece às “lendas negras” a respeito da Maçonaria como as divulgadas por Leo Taxil na França, muitas delas originadas no catolicismo. Outro tipo de críticas, não referentes a seu conteúdo espiritual, funda-se na atuação política e econômica de algumas lojas maçônicas que utilizando a estrutura maçônica, e aproveitando-se da independência das Oficinas, auferiram vantagens desse modo da Ordem e do público, projetando uma imagem distorcida da Maçonaria. Deverá se reconhecer que isto foi desse jeito em ocasiões, embora simultaneamente é o que acontece há anos com todas as instituições, cuja decomposição é evidente. Em algumas sociedades a Ordem goza ainda do prestígio que teve no passado, e em certos países sua força espiritual, como gestora de grandes empreendimentos deixou rastros claros, que hoje são seguidos. Às vezes há maçons que ainda não conhecem a Maçonaria, ou acreditam que é outra coisa mais concreta e material, mas todos eles têm claro seu lema: Liberdade, Igualdade, Fraternidade, e cumprem seu Rito de acordo a seus Antigos Usos e Costumes. Se não tivesse sido pela coerência e pelo conteúdo espiritual-intelectual, que os símbolos e os ritos manifestam, a Maçonaria seria mais um absurdo e, em todo caso, talvez não tivesse chegado até nossos dias.

Outra coisa que deveria ser assinalada é a curiosidade por saber qual é o grau real de Conhecimento que tem tal ou qual maçom, ou em geral, este ou aquele Iniciado; mas isso a quem interessa? que importância tem e diante de quem?

Essa pergunta, como é lógico, não cabe nos limites de uma investigação histórica baseada na documentação, e portanto é muito difícil estabelecer origens claras e seqüências lógicas num tema que não é [claro], embora se tente forçá-lo [como tal]. Um destes investigadores, o já mencionado J. A. Ferrer Benimelli, que tem mais de vinte interessantes obra publicadas sobre Maçonaria, e que ignora sistematicamente a Hermes, informa-nos: “Bernardin, em sua obra Notas para servir à história da Maçonaria em Nancy até 1805, depois de comparar duzentas e seis obras que tratavam dos origens da Maçonaria, encontrou trinta e nove opiniões diversas, algumas tão originais como as que fazem descender a Maçonaria dos primeiros cristãos ou do próprio Jesus Cristo, de Zoroastro, dos Magos ou dos Jesuítas; para não citar as teorias mais conhecidas, as chamadas ‘clássicas’, que remontam a Franco-maçonaria aos Templários, aos Rosacruzes ou aos judeus” e adiciona em nota: “Destes trinta e nove autores, vinte e oito atribuíram os origens da F. M. aos pedreiros construtores do período gótico; vinte autores se perdem na antiguidade mais longínqua; dezoito os situam no Egito; quinze se remontam à Criação, mencionando a existência de uma loja maçônica maçônica no Paraíso Terrestre; doze, aos Templários; onze, à Inglaterra; dez, aos primeiros cristãos ou ao próprio Jesus Cristo; nove, à antiga Roma; sete, aos primitivos Rosacruzes; seis, à Escócia; outros seis, aos judeus, ou à Índia; cinco, aos partidários dos Stuart; outros cinco, aos jesuítas; quatro, aos druidas; três, à França; o mesmo número o atribuem: aos escandinavos, aos construtores do templo do Salomão, e aos sobreviventes do dilúvio; dois, à sociedade ‘Nova Atlântida’, de Bacon, e à pretendida Torre de Wilwinning [Kilwinning]. Finalmente, à Suécia, China, Japão, Viena, Veneza, aos Magos, à Caldeia, à ordem dos Essênios, aos Maniqueus, aos que trabalharam na Torre de Babel e, por último, um que afirma que existia a F. M. antes da criação do mundo.”[22]

Análogo quanto à confusão das origens, é o que acontece na Tradição Hermética, com o mito do Hermes e Hermes Trismegisto, e com todo mito ou origem, e por certo com o Corpus Hermeticum, livros que, como vimos anteriormente[23],  condensam e recordam o saber dessa Tradição. Efetivamente, Jean-Pierre Mahé, um estudioso que junto com P. J. A. Festugière dedicou sua vida ao estudo destes textos, acredita que os fragmentos em armênio desta literatura procedem do primeiro século anterior a esta era e que as versões posteriores conservadas em grego, latim e copta, desprendem-se delas sendo seu conteúdo nitidamente pagão, fora de influências gnósticas e cristãs que com certa liberalidade lhe atribuíram. É interessante observar como este estudioso, ao longo de seu trabalho mais importante a respeito, Hermès en Haute-Egypte[24], onde coteja diferentes versões do Corpus entre si, com outros manuscritos encontrados em Nag-Hammadi e com autores da antiguidade, etc. chega à conclusão de que todos eles estão aparentados, que procedem de uma única fonte, e inclusive têm um tom, um ar, um aspecto comum, que também se manifesta em seu estilo, opinião que compartilhamos. Mas este saber, próprio do Corpus[25],  que Mahé vê como solene, repetitivo, contraditório e sentencioso, em suma como má literatura (o que é boa literatura e quem está em capacidade de defini-la e com relação a que?), parece-nos difícil de apreciar com parâmetros lógicos, por mais esforço e trabalho que se ponha nisso, e pese à valiosíssima contribuição que supõe o estabelecimento destes textos, sua tradução e comentário, embora estejam reiteradamente vistos de uma perspectiva totalmente alheia à que os textos possuem. Daí o perigo de se aproximarem de coisas de uma ordem determinada com meios que, por sua natureza, não são os correspondentes, já que eles mesmos estão formados por séries de condicionamentos pertencentes ao mundo profano, que ainda uma assombrosa erudição não sabe esconder, pois aparecem aqui e acolá na literalidade dos delineamentos, o infantilismo das concepções, a desproporção abismal entre o sentido sapiencial-emocional do texto e a leitura “universitária”, quer dizer, profana que se faz do mesmo[26]. Não se deve tratar uma sociedade iniciática por suas ações humanitárias ou altruístas exclusivamente, pois se corre o perigo de desvirtuar a autêntica razão de sua existência.

Outro assunto mais ou menos utilizado como crítica, tanto da Maçonaria como do Hermetismo, é seu caráter pretendidamente sincrético. Em primeiro lugar nos parece imperdoável o abuso que se faz desta palavra, que equivale para alguns a uma desqualificação. O Cristianismo, o Islã, o Budismo, a Antiguidade Greco-romana, inumeráveis Tradições arcaicas, inclusive a Civilização Egípcia e a China, poderiam hoje ser julgadas como “sincréticas” à luz dos documentos mais antigos e sem mencionar a ideia de uma Tradição Unânime, além desta ou daquela forma. Efetivamente, o termo esteve em voga numa época em que a investigação antropológica e a História das Religiões estavam em fraldas, e se acreditava na “pureza”, tanto de certas culturas, conceito muito perigoso, além do mais, capaz de derivar no engano das raças como religiões. Desgraçadamente este termo seguiu sendo usado, e é utilizado por alguns como uma arma esgrimida para condenar aquilo que imaginam não lhes convir, ou que escape a suas simplificações elementares. Muito perto está a História da Igreja, seus Concílios e a formação de seus Dogmas, sua Teologia, a História dos Papas, etc., para que, em todo caso, a Cristandade possa reprovar à Tradição Hermética e à Maçonaria, algo neste sentido, e o dito poderia ser generalizado a outras religiões e influências espirituais que compõem a Cultura do Ocidente. São inumeráveis as correntes que formaram esta Civilização, a maior parte das quais, de um modo ou de outro, coexistem conosco mesmos, e devemos dar graças a Deus, em nome de nossa cultura, porque estas inter-relações naturais que se transvasam com as migrações humanas de um povo e sua língua a outro, existiram sempre, pese à ácida recriminação de sincretismo, emanada de supostas autoridades baseadas em imaginárias estruturas caducas.

Definitivamente, os diversos componentes da Maçonaria não impedem que esta adaptação da Ciência Sagrada, da Filosofia Perene, seja totalmente Tradicional, senão mais provam o contrário assim que se consideram em suas doutrinas, quer dizer, em si.

Continua…

Autor: Federico Gonzalez
Tradução: Igor Silva

Notas

[20] – Outros se consideram, no Rito Escocês Antigo e Aceito: “de perfeição”, “capitular” e “administrativos”.

[21]Vuillaume, le Tuileur. Ed. du Rocher, Mónaco 1990, reimpressão do de 1830. Manual maçônico que contém os seguintes Ritos praticados na França: Escocês Antigo e Aceito, Francês, da Maçonaria de Adoção, e Egípcio ou de Misraím. Clique AQUI para ler a resenha em aspanhol.

[22] – José A. Ferrer Benimelli, la Masonería Española en el siglo XVIII. Siglo XXI de España Editores, Madrid 1986.

[23]“Os Livros Herméticos”. SYMBOLOS Nº 11-12, Guatemala 1996.

[24] – Les Presses de l’Université Laval, Quebec 1978-1982. 2 vol.

[25] – E que é comum ao resto da literatura hermética, inclusive a Alquimia.

[26] – O discurso do Corpus é efetivamente reiterativo e se repetem certos axiomas ou máximas num tom que comporta certa solenidade, um “estilo” para ser identificado entre outros tons, e também porque lhe imprime uma cadência musical, que à par que fixa a memória, é um agente “invocador”.

A Tradição Hermética e a Maçonaria (Parte II)

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Elías Ashmole é também um bom ponto de confluência entre o Hermetismo e a Maçonaria. Este extraordinário personagem, nascido em Lichfield, Inglaterra, em 1617, parece ter desempenhado um papel importante na transição entre a antiga Maçonaria, anterior a Anderson-Desaguliers, e sua projeção histórica posterior, encaminhada para resgatar a maior parte da mensagem espiritual-intelectual, ou seja, gnóstica (no sentido etimológico do termo), das autênticas organizações iniciáticas, entre elas a Maçonaria e a Ordem da Jarreteira. Foi recebido na loja maçônica de Warrington em 16-10-1646, embora segundo seu diário, só foi à sua segunda sessão muitos anos depois, somente. Entretanto, não deve nos chamar a atenção este comportamento numa individualidade como a sua, produto do ambiente da época, onde o culto do segredo e do mistério era habitual por razões óbvias de segurança e de prudência. Em 1650 publica seu Fasciculus Chemicus sob o nome anagramático de James Hasolle; trata-se da tradução de textos latinos de Alquimia (entre eles o de Jean d’Espagnet), com sua introdução. Em 1652 edita o Theatrum Chemicum Britannicum, uma coleção de textos alquímicos ingleses em verso, que reúne muitas das mais importantes peças produzidas nesse país, e seis anos depois The Way to Bliss, ao mesmo tempo em que trabalha em buscas documentais literárias como historiador, e desenvolve sua atividade de antiquário reunindo num museu toda espécie de “curiosidades” e “raridades” relacionadas com a arqueologia e com a etnologia, como igualmente coleções de História Natural, inclusive todo tipo de espécies minerais, botânicas e zoológicas. Na realidade, este último foi o objetivo científico do museu (onde inclusive se realizaram os primeiros experimentos químicos na Inglaterra), que hoje é visitado em suas magníficas instalações de Oxford, mais como Museu de Arte que como instituição precursora da ciência e auxiliar da Universidade. A vida de Ashmole esteve muito unida à de Oxford, e os recursos de suas doações de objetos e manuscritos à instituição de seu nome (onde também se encontram seus jornais redigidos num sistema cifrado e que contêm numerosas notas sobre a Maçonaria)[11] foram muito importantes para essa cidade, dado seu prestígio universitário. Em Oxford, e também em Londres, Ashmole teve um destacadíssimo papel; filho de sua época, entregou-se à ciência natural e experimental como uma forma da magia das transmutações, tal como numerosos filósofos herméticos. Nesse sentido tratou com Astrólogos, Alquimistas, Matemáticos e todos os tipos de sábios e dignatários da época, junto com os quais formará a Royal Society de Londres e a Philosophical Society de Oxford. Seus numerosos amigos e companheiros de toda uma vida são nomes de muitíssimo relevo, muitos deles ligados à Maçonaria em seus mais altos graus, como Christopher Wren, ou à investigação e exercício das Artes liberais e da Ciência Sagrada, que formaram um conjunto de personalidades de um papel fundamental em seu tempo, concretamente na difusão e prática da Tradição Hermética e na relação desta com a Maçonaria. Como disse René Guénon ao referir-se ao papel de Ashmole: “Pensamos, inclusive, que se buscou no século XVII, reconstituir a este respeito uma tradição da qual uma grande parte já se perdeu”. Neste extraordinário trabalho brilha o nome do E. Ashmole em dois aspectos: como um dos reconstrutores da Maçonaria quanto à relação desta com as ordens da Cavalaria e as corporações de construtores, e igualmente como ponto de confluência com a Tradição Hermética. O mesmo Ashmole se chamava filho de Mercúrio (Mercuriophilus Anglicus), e sua obra mais importante, a já mencionada The Way to Bliss, 1658, recolhe seus estudos em Filosofia Hermética, conforme indica em sua introdução ao leitor.

Deste modo deve ser destacado que alguns autores fazem muita questão sobre certos temas relacionados com o catolicismo e com o protestantismo no processo de passagem da Maçonaria operativa à especulativa. De fato, acostumou-se a simplificar o assunto dizendo que as corporações operativas eram católicas e as especulativas, posteriores, protestantes. Certamente que, do ponto de vista histórico, estes fatos podem ser mais ou menos “reais”, pois a Ordem, como toda instituição, está sujeita a determinados vai-e-vens cíclicos que têm manifestações sociais, políticas, econômicas, etc. Mas do ponto de vista da Maçonaria como organização iniciática, ela não está sujeita ao devir, motivo pelo qual subsistirá até que finalize o ciclo[12]. Na realidade, a Tradição Hermética (e Hermes mesmo) sofreu inumeráveis adaptações através do tempo, embora jamais deixou de se expressar; e é óbvio que esta Tradição, como os fundamentos da Maçonaria, identificada com a Ciência de Construir, é anterior ao Cristianismo, embora tenha convivido com ele durante vinte séculos, e até produziu hermetistas cristãos e cristãos herméticos (entre estes últimos, dignitários do mais alto nível, papas inclusive), o que não impede que essa Tradição tenha antecedentes claramente pagãos, relacionados com as escolas de mistérios, ou como hoje se as denomina, religiões mistéricas; portanto, poder-se-ia asseverar que o hermetismo tem uma vertente pagã e outra cristã. Neste sentido, devemos esclarecer que a palavra pagão soa a nossos ouvidos acostumados ao mais superficial das religiões abraâmicas a maldito, ilegal, bastardo, ou pelo menos a um nebuloso pecado. Também a ignorância atribuída ao atraso de povos que se desconhecem, e que nem sequer interessam. É costumeiro o entendimento do pagão como algo renhido com a opinião civilizada, extremamente primitivo, ou que está contrário ao cristianismo, ou à religião, e portanto fora de toda ordem. Em suma, o paganismo está eliminado previamente, por censura interior, como algo um pouco repugnante, antes de que nos inteiremos que, na realidade, só se trata da sabedoria de indefinidos povos tradicionais que povoaram este mundo antes e durante os só vinte séculos que caracterizam à chamada Civilização contemporânea[13].

Supomos que desde este último ponto de vista, quase oficialmente ecumênico, não há nada injurioso em compartilhar o pensamento pagão, como bem o viram dos Pais da Igreja até numerosos sábios, sacerdotes e pastores contemporâneos[14].

Na verdade para o Hermetismo, anterior historicamente ao Cristianismo, existe uma Cosmogonia Perene, manifestada por sua filosofia e seus escritos, como para o maçom religioso ou não o está em seus símbolos e ritos.

A respeito da relação entre os Franco-maçons e as corporações de construtores e artesãos existem três grandes testemunhos bastante citados como fontes documentais sobre a prática da construção na idade Média[15]. Nicolá Coldstream as recolhe em seu livro sobre os artesanatos na Idade Média[16], onde rechaça a ideia da filiação “fantasmal” da Franco-maçonaria com os construtores e artesãos medievais, (sua simples tese é que os maçons eram operários e não pessoas de gabinete) embora paradoxalmente seu estudo o confirma de diferentes maneiras; assim nos diz referindo-se ao tema:

“Trata-se do documento, redigido pelo abade Suger, que relata a construção do novo coro da abadia de Saint-Denis; do manuscrito, datado cerca 1200, do monge Gervais do Canterbury, sobre o incêndio e a reparação da catedral de Canterbury, e do Album de Villard de Honnecourt, conjunto de desenhos e de planos de edifícios, molduras e tornos elevadores. Dos três, o texto do Suger nos informa mais sobre o homem e da decoração de sua igreja que sobre o edifício, embora faça, de passagem, algumas alusões preciosas sobre sua construção. O exame atento do Album de Villard de Honnecourt nos permite duvidar seriamente de que este tenha construído alguma vez Igrejas e de que tenha tido algum conhecimento de arquitetura; quanto a seus desenhos, embora sejam interessantes, não seriam entretanto os de um arquiteto ou os da oficina de um maçom. O texto de Gervais, pelo contrário, é o único documento medieval que descreve uma equipe de maçons trabalhando; proporciona numerosas informações sobre a prática dos maçons e alguns métodos de construção.”

Interessa-nos especialmente a referência ao Album de Villard de Honnecourt. Efetivamente, não é a primeira vez que se destacam certas características sobre o fato de que este caderno não é um manual de tecnologia aplicada, senão completamente outra coisa, muito mais ligada com as propostas da Filosofia Hermética que se anotam para uso dos mestres de obras[17]. E o fato de que exista um documento deste tipo (mais de gabinete que outra coisa) é uma prova de que a especulação sobre o simbolismo e a linguagem hermética em sua versão cristã já tinham cultores a princípios do século XIII, que vê nascer, entre outras, as catedrais de Chartres e de Reims.

Muito se tem escrito sobre este tema e fica aberto o debate; o investigador tirará suas próprias conclusões, mas não poderá ignorar a Tradição oral, e sua filiação universal com o Simbolismo Construtivo, que tanto pode manifestar-se no Extremo Oriente, como no Egito ou na América Central; nos “collegia fabrorum” romanos, ou nas corporações medievais, às quais se acostumaram considerar fazendo abstração de qualquer referência iniciática ou ligada aos Franco-maçons como fechadas e ao mesmo tempo depositárias de conhecimentos relativos ao “ofício”, que se transmitiam por símbolos e termos de uma linguagem cifrada.

Não obstante deve-se fazer a ressalva de que a influência da Filosofia Hermética, por um lado, e por outro a das corporações de construtores cristãos (e algumas mais já mencionadas como a da Ordem do Templo), é desigual nos distintos Ritos, onde sobre um fundo comum, observam-se algumas filiações inclinadas para um ou outro aspecto. Não podemos tratar aqui o complexo e extensíssimo assunto da diversidade dos Ritos maçônicos, mas podemos assinalar sua existência, e igualmente a de distintos aspectos da Ciência Sagrada que provocam em alguns maior ou menor simpatia. Já que, sendo uma só a Maçonaria, como é uma só a Construção Cósmica, e portanto o Simbolismo Construtivo, as interpenetrações de diferentes influências, suas oposições e conjunções, formam parte do jogo de desequilíbrios e adaptações às quais se vê exposto o legado maçônico, veiculado pela civilização judaico-cristã. Isto foi assim também no passado e explica a passagem da Maçonaria operativa à especulativa, como já dissemos, fato que foi gradual, ao extremo que certas lojas maçônicas “operativas” (anteriores a 1717) tinham elementos “especulativos” e que muitas lojas maçônicas “especulativas” (atuais), são propriamente operativas. Inclusive há documentos que testemunham a coexistência de ambas, tema que foi expressamente mencionado por distintos autores Maçonaria de transição[18].

Efetivamente, depois da publicação das “Constituições de Anderson”, um grupo muito numeroso de maçons, escoceses, irlandeses e de outros lugares da Inglaterra, decidem desvincular-se da Grande Loja fundada em Londres (e que começou com só quatro lojas maçônicas), sendo em parte suas diferenças relativas a certas alterações de sentido, inclusive ritualísticos, das que não são alheias as distinções religiosas, e inclusive criaram uma espécie de Federação da Antiga Maçonaria, a qual depois de umas dezenas de anos começará novamente a ter relações com os ingleses, mas mantendo seus pontos de vista tradicionais mais relacionados com o operativo ou iniciático que com o especulativo ou alegórico; a isto devem-se somar problemas de sucessão ao trono da Inglaterra, pretendido pelo escocês e católico Jaime, que contava com muitos partidários, não só nas ilhas mas também em todo o continente[19].

Em todo caso esta situação da diversidade de Ritos se reproduz nos distintos graus, que variam em número, nome e condição, segundo as diferentes forma maçônicas. Este tema é de interesse, mas se nos parece prioritário recordar que esses graus (seja em número de três, sete, nove, ou mais,) representam etapas no Processo de Conhecimento, ou Iniciação, e que essas passagens ou estados na Maçonaria são sintetizados e designados com os nomes de Aprendiz, Companheiro e Mestre, em correspondência com os três mundos: físico, psíquico e espiritual. Estes três grandes graus contêm sinteticamente em si todos os graus, que a maior parte das vezes não são senão especificações ou prolongações deles. Mas está claro que a divisão é hierárquica e se efetua dentro de uma ordem ritual que corresponde simbolicamente a estas etapas na Iniciação ou Via do Conhecimento. Ainda assim, não há um poder central que agrupe toda a Maçonaria, apesar de que haja Grandes Lojas muito poderosas, com um passado tradicional, e as diferentes Obediências e Ritos mantêm uma atitude de mútuo respeito, já que são vergônteas de uma árvore comum.

Esta espécie de independência, se assim é possível dizer, também é clara em cada loja maçônica, onde se efetivam ou não os símbolos, e se praticam ou não os ritos prescritos. A Unidade maçônica se produz fundamentalmente na Oficina, projeção do Cosmo, com liberdade da Obediência à qual esta pertence.

Resta-nos mencionar que estes três graus formam o que se chama a Maçonaria Azul ou Simbólica. Acima deles se encontram os Altos Graus, sistema de hierarquias que não é considerado em certas Obediências nem aceito por determinados Ritos. Cabe saber também que, ao passar de um grau a outro, apenas se inicia a realizar o grau obtido; assim ao receber um Companheiro o grau de Mestre, é que começa a iniciação nesse grau. Deste modo que os graus são permanentes e jamais se perdem os adquiridos em uma carreira maçônica normal.

Continua…

Autor: Federico Gonzalez
Tradução: Igor Silva

Notas

[11] – “The few notes on his conexion with Freemasonry which Ashmole has left are landmarks in the sparsely documented history of the craft in the seventeenth century”. C. H. Josten, Elias Ashmole. Ashmolean Museum and Museum of The History of Sciences, Oxford 1985. Estes diários foram publicados sob o título: Elias Ashmole, His Autobiographical and Historical Notes, his Correspondence and other Contemporary Sources relating to his life and Work. Introd. C. H. Josten, 5 vol. Deny, 1967.

[12] – De acordo às mudanças que demandam os ciclos e os ritmos, às quais não se pode subtrair nenhuma Tradição ou Organização, por iniciática que seja, e que marcam as diferentes fases e formas em que se expressa a Cosmogonia Perene, e portanto também assinalam as adaptações históricas à mesma.

[13] – Segundo Geoffrey de Monmouth em “História dos Reis da Britania” (1135-39), uma das primeiras crônicas escritas sobre a História da Inglaterra, os ilhéus procedem dos troianos que chegaram a suas costas, passando antes pela França, vindos da Grécia, onde permaneciam os descendentes dos que sobreviveram à famosa guerra.

[14] – Algo análogo quanto suspeita de herético, defeituoso, ou falso, acontece com os sistemas, ou religiões, do Oriente. Com a condição de que estas últimas gozam nos meios ocidentais de um maior prestígio generalizado, embora estes às vezes não conseguem evitar o desdém, ou a fobia, pelo fato de serem politeístas, outro termo que em boca de alguns pareceria ser um insulto.

[15] – É óbvio o crescimento da Maçonaria com o nascimento dos burgos e a cultura das cidades, que sempre necessitaram construtores para sua efetivação, pelo que não é difícil inferir que muitas cidades mais ou menos importantes da Europa, assim como a construção de castelos, fortificações, conventos e palácios, foram realizadas por arquitetos, diretores de obra e pedreiros maçons, sem contar os carpinteiros e marceneiros, vitralistas, escultores e pintores, todos eles iniciados nos segredos de seu ofício. Isto se observa claramente na época moderna (e tem que ver também com a passagem do operativo ao especulativo), em relação com o incêndio da cidade de Londres que incluiu a catedral de S. Paulo e que teve que ser totalmente reconstruída por mão-de-obra especializada dirigida pelo arquiteto Christopher Wren, maçom de alta hierarquia na Ordem e de reconhecido renome, que efetuou este gigantesco trabalho no menor tempo possível. O incêndio de Londres é um tema fundamental na história da Inglaterra e na Maçonaria em geral. Sua reconstrução, efetuada por maçons, é um símbolo cíclico relacionado com a perenidade da Ciência Sagrada que, manifestando-se em qualquer parte, expressou-se em uma cidade tão mágica, como é o caso da capital inglesa.

[16]Medieval Craftsmen, Masons and Sculptors. British Museum, 1991.

[17] – Cf. Villard de Honnecourt, Cuaderno, siglo XIII. Apresentado e comentado por Alain Erlande-Brandenburg, Régine Pernoud, Jean Gimpel, Roland Bechman. Ed. Akal, Madrid 1991.

[18] – É importante fazer constar, dos começos, a presença de militares em todas as lojas maçônicas. Isto chegou a ser tão comum que, inclusive, algumas delas foram exclusivamente militares, tanto as que se organizaram em bases militares, como as que funcionavam em navios, seja em alto mar ou em portos.

[19] – Como se sabe, uma corrente numerosa de maçons liga especialmente com a Origem Templária, Escocesa e Jacobita da Ordem, para a qual exibem numerosos testemunhos e fatos muito prováveis. Isso sem que esta corrente negue a herança Pitagórica, Hermética e Platônica, e tampouco a das corporações de construtores, dos Rosacruzes e a influência judaica dada pelo mito de Hiram e a construção do Templo de Salomão. Michael Baigent e Richard Leigh, em seu livro The Temple and the Lodge (Londres 1989) apoiando a validade desta origem que desenvolvem em sua obra desde a Idade Média ao século XVIII afirmam: pág. 187, “Ela [a Maçonaria] tinha suas raízes em famílias e associações vinculadas pelo antigo juramento de fidelidade aos Stuarts e à monarquia Stuart. (…) Jaime I, um rei escocês que era ele mesmo maçom.” Na obra de Robert Kirk, The Secret Common-Wealth, (“La Comunidad Secreta”. Madrid, Siruela 1993) escrita em 1692, a respeito de “Os costumes mais notáveis do Povo da Escócia”, este erudito historiador do mais antigo “folclore” escocês e da cultura celta, anota no parágrafo “Singularidades da Escócia”, e como característica desse reino a: “A palavra maçônica, da qual, embora alguns haja que façam mistério dela, não ocultarei o pouco que sei. É como uma tradição rabínica, como comentário relacionado a Jakín e Boaz, as duas colunas eretas do Templo do Salomão, à qual vem se acrescentar algum sinal secreto, que passa de  mão em mão, graças ao qual eles se reconhecem e familiarizam entre si.”

A Tradição Hermética e a Maçonaria (Parte I)

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No antigo manuscrito maçônico Cooke, (cerca de 1.400) da Biblioteca Britânica, lê-se nos parágrafos 281-326 que toda a sabedoria antediluviana foi escrita em duas grandes colunas. Depois do dilúvio de Noé, uma delas foi descoberta por Pitágoras, a outra por Hermes, o Filósofo, que se dedicaram a ensinar os textos ali gravados. Isto se encontra em perfeita concordância com o testemunhado por uma lenda egípcia, da qual já dava conta Manethon, segundo o mesmo Cooke, vinculada também com Hermes.

É óbvio que essas colunas, ou obeliscos, semelhantes aos pilares J. e B., são as que sustentam o templo maçônico e, ao mesmo tempo, permitem o acesso ao mesmo e configuram os dois grandes afluentes sapienciais que nutrirão a Ordem: o hermetismo, que assegurará o amparo do deus através da Filosofia, quer dizer do Conhecimento, e o pitagorismo, que dará os elementos aritméticos e geométricos necessários, que reclama o simbolismo construtivo; deve-se considerar que ambas as correntes são direta ou indiretamente de origem egípcia. Igualmente que essas duas colunas, são as pernas da Mãe loja, pelas quais é parido o Neófito, quer dizer pela sabedoria de Hermes, o grande iniciador, e por Pitágoras, o instrutor gnóstico.

De fato, na mais antiga Constituição Maçônica editada, a de Roberts publicada na Inglaterra em 1722 (portanto anterior à de Anderson), mas que não é mais que a codificação de antigos usos e costumes operativos que derivam da Idade Média, e que serão desenvolvidos posteriormente na Maçonaria especulativa, menciona-se especificamente a Hermes, na parte chamada “História dos Franco-maçons”. Efetivamente, ali aparece na genealogia maçônica com esse nome e também com o de Grande Hermarmes, filho de Sem e neto de Noé, que depois do dilúvio encontrou as já mencionadas colunas de pedra onde se achava inscrita a sabedoria antediluviana (atlântica) e lê (decifra) numa delas o que em seguida ensinará aos homens. O outro pilar, como se mencionou, foi interpretado por Pitágoras enquanto pai da Aritmética e da Geometria, elementos essenciais na estrutura da loja, e portanto ambos os personagens formam, como vimos, a “alma mater” da Ordem, em particular em seu aspecto operativo, ligado às Artes liberais.

No manuscrito Grand Lodge nº 1 (1583) só subsiste a coluna de Hermes, reencontrada pelo “Grande Hermarines” (a quem se faz descendente de Sem) “que foi chamado mais tarde Hermes, o pai da sabedoria”. Note-se que Pitágoras não figura já como o intérprete da outra coluna. No manuscrito Dumfries nº 4 (C. 1710) também aparece, como “o grande Hermorian”, “que foi chamado ‘o pai da sabedoria’ “, mas, neste caso, retificou-se sua origem de acordo com o texto bíblico que o faz descendente de Cam e não de Sem, por intermédio de Kush; como diz J.-F. Var em La franc-maçonnerie: documents fondateurs, Ed. L’Herne, P. 207, N. 33: “Agora, na Gênese (10, 6-8), Kush é o filho de Cam e não de Sem. O redator do Dumfries retificou consequentemente a filiação. Ao mesmo tempo, esta filiação resulta em ser a que a Escritura dá com relação a Nemrod. Daqui a assimilação de Hermes com Nemrod, contrariamente a outras versões que fazem deles dois personagens distintos.”

Assim o destaca também o manuscrito chamado Regius, descoberto por Haliwell, no Museu Britânico em 1840, ao qual reproduz J. G. Findel na História Geral da Franco-maçonaria (1861), em sua extensa primeira parte que trata das origens até 1717, embora nele não se inclua Pitágoras como o hermeneuta que, junto com Hermes, decifra os mistérios que serão herdados pelos maçons, senão a Euclides, a quem se faz filho de Abraão; a este respeito, deve se recordar que o teorema do triângulo retângulo de Pitágoras foi enunciado na proposição quarenta e sete de Euclides.

O mesmo Findel, referindo-se à quantidade de elementos gnósticos e operativos que constituem a Maçonaria, e concretamente ocupando-se dos canteiros alemães, afirma: “Se a conformidade que resulta entre o organismo social, os usos e os ensinos da franco-maçonaria e os das companhias de maçons da Idade Média já indica a existência de relações históricas entre estas diversas instituições, os resultados das investigações feitas nos arcanos da história e o concurso de uma multidão de circunstâncias irrecusáveis estabelecem de modo positivo que a Sociedade dos Franco-maçons descende, direta e imediatamente, daquelas companhias de maçons da Idade Média.” E adiciona: “a história da franco-maçonaria e da Sociedade dos Maçons está por isso mesmo intimamente unida à das corporações de maçons e à história da arte de construir na Idade Média; é, pois, indispensável dirigir um rápido olhar sobre esta história para chegar a que nos ocupa.”

O interessante destas referências provenientes da Alemanha é que sua História Geral… é considerada como a primeira história (no sentido moderno do termo) da Maçonaria, e desde o começo o autor estabelece que: “a história da Franco-maçonaria, assim como a história do mundo, tem sua base na tradição”[1]. Desta forma resulta óbvio que os Antigos Usos e Costumes, os símbolos e os ritos e os segredos do ofício, transmitiram-se sem solução de continuidade desde datas muito remotas e certamente nas corporações medievais, e a passagem do operativo ao especulativo não foi senão a adaptação de verdades transcendentes a novas circunstâncias cíclicas, fazendo notar que o termo operativo não só se refere ao trabalho físico ou de construção, projeção ou planejamento material e profissional das obras, mas também à possibilidade de que a Maçonaria opere no iniciado o Conhecimento, por meio das ferramentas proporcionadas pela Ciência Sagrada, seus símbolos e ritos. Precisamente isto é o que procura a Maçonaria como Organização Iniciática, e o confirma na continuidade da passagem tradicional, que faz com que, igualmente, seja encontrada na Maçonaria especulativa, de modo reflexo, a virtude operativa e a comunicação com a loja maçônica Celeste, quer dizer, a recepção de seus eflúvios que são os que garantem qualquer iniciação verdadeira, principalmente quando os ensinos são emanados do deus Hermes e do sábio Pitágoras[2]. De todas as maneiras, tanto uma quanto outra são os ramos de um tronco comum que tem os Old Charges (Antigos Deveres) como modelo; destes se encontraram numerosos fragmentos e manuscritos em forma de cilindro do século XIV em diversas bibliotecas[3].

Quanto a Hermes, não mencionado nas Constituições de Anderson, em particular o Hermes Trismegisto grego (o Thot egípcio), é uma figura tão familiar à Maçonaria dos mais distintos ritos e obediências como o poderia ser para os alquimistas, forjadores da imensa literatura posta sob seu patrocínio. Não só o Hermetismo é o tema de abundantes pranchas e livros maçônicos, e inumeráveis lojas maçônicas se chamam Hermes, mas também existem ritos e graus que levam seu nome. Assim, há um Rito chamado os discípulos de Hermes; outro o Rito Hermético da loja Mãe Escocesa de Avignon (que não é a de Dom Pernety), Filósofo de Hermes é o título de um Grau cujo catecismo se encontra nos arquivos da “loja dos amigos reunidos de São Luis”, Hermes Trismegisto é outro grau arcaico do qual nos dá conta Ragón, Cavaleiro Hermético é uma hierarquia contida em um manuscrito atribuído ao irmão Peuvret onde também se fala de outro denominado Tesouro Hermético, que corresponde ao grau 148 da nomenclatura chamada da Universidade, onde existem outros como Filósofo Aprendiz Hermético, Intérprete Hermético, Grande Chanceler Hermético, Grande Teósofo Hermético(correspondente ao grau 140), O Grande Hermes, etc. Igualmente no Rito do Memphis o grau 40 da série Filosófica se chama Sublime Filósofo Hermético, e o grau 77 (9ª série) do Capítulo Metropolitano é nomeado Maçom Hermético.

Não faltam tampouco na atualidade, em revistas e dicionários maçônicos, referências diretas à Filosofia Hermética e ao Corpus Hermeticum[4], onde esta se encontra fixada, senão que incluem analogias com a terminologia alquímica; eis aqui um só exemplo tirado do Dictionnaire de la franc-maçonnerie de D. Ligou (pág. 571): “Citaremos uma interpretação hermética de alguns termos utilizados no vocabulário maçônico: Enxofre (Venerável), Mercúrio (1.º Vigilante), Sal (2.º Vigilante), Fogo (Orador), Ar (Secretário), Água (Hospitaleiro), Terra (Tesoureiro). Encontram-se aqui os três princípios e os quatro elementos dos alquimistas.”

Por isso que Hermes e o Hermetismo são referências habituais na Maçonaria, como o são também Pitágoras e a geometria. Por outra parte ambas as correntes históricas de pensamento derivam através da Grécia, Roma e Alexandria, do Egito mais remoto e por seu intermédio da Atlântida e da Hiperbórea, como em última instância acontece com toda Organização Iniciática, capaz de religar o homem com sua Origem. E naturalmente que esta impressionante genealogia na qual estão compreendidos os deuses, os sábios (sacerdotes) e os reis (tanto de Tiro e Israel, quanto da Escócia: a realeza não desdenhava a construção e o rei era mais um mestre operativo) forma um âmbito sagrado, um espaço interior construído de silêncio, lugar onde se efetivam todas as virtualidades e, assim, pode refletir o Ser Universal de modo especular. A loja maçônica, como se sabe, é uma imagem visível da loja Invisível, como o Logos é o desenvolvimento da Triunidade dos Princípios.

A influência do deus Hermes, e as ideias do sábio Pitágoras não desapareceram totalmente deste mundo crepuscular que habitamos, de fato é tudo o que resta dele; não esqueçamos que os alquimistas equiparam Jesus com o Mercúrio Solar, no Ocidente pelo menos. Por outra parte, talvez sequer pudera ser o mundo sem eles, tanto no aspecto das energias perpetuamente regeneradoras atribuídas a Hermes e sua Filosofia, como o das ideias-força pitagóricas, sem cuja ordem numérica (e geométrica) hoje não seria possível a menor operação.

A deidade é imanente em cada ser, e os Filhos da Viúva, os filhos da luz, reconhecem-na no interior de sua própria loja maçônica, feita à imagem e semelhança do Cosmo. A raiz H. R. M. é comum aos nomes Hermes e Hiram, e este último forma com Salomão um paredro onde se unem a sabedoria e a possibilidade (a doutrina e o método), destacando-se à Tradição (Cabala) hebraica, em que nasceu Jesus, como a veiculadora desta revelação sapiencial, real, e artística (artesanal), que constitui a Ciência Sagrada, que é aprendida e ensinada por símbolos e ritos na loja maçônica, “livro” cifrado que os Mestres decodificam hoje, tal qual o fizeram seus antepassados no tempo mítico, posto que a Maçonaria não outorga o Conhecimento em si, mas mostra os símbolos e indica as vias para aceder a ele, com a bênção dos ritos ancestrais, que atuam como transmissores mediáticos desse Conhecimento[5].

Ou seja, que a atualização da possibilidade, quer dizer, o Ser, a comprovação de que tudo está vivo, de que o Presente é Eterno, a simultaneidade do Tempo, a ideia da Triunidade do Único e Só, formam um Conhecimento ao qual os maçons conduzem pela própria experiência, que proporciona um aprendizado gradual e hierarquizado.

O Mestre Construtor leva sua loja maçônica interior a todas partes, ele mesmo é isso, uma miniatura do Cosmo, desenhada pelo Grande Arquiteto do Universo. Mas a obra está inacabada, necessita-se polir (com Ciência e Arte) sua pedra bruta tal como cinzelou o Criador sua Obra. Os números e as figuras geométricas simbolizam conceitos metafísicos e ontológicos, que também representam realidades humanas concretas e imediatas, tão necessárias como as atividades fisiológicas e, daí por diante, quaisquer outras. O número estabelece ideia de escala, de proporção, e relação; também de ritmo, medida e harmonia, já que são eles os canais que tende a Unidade para a indefinidade numérica, até os quatro pontos do horizonte matemático e da multiplicidade.

É óbvio que Pitágoras, ou Tales de Mileto, não “inventou” nada, mas sim reconheceu na série decimal, que retorna a sua Origem (10 = 1 + 0 = 1), uma escala natural, uma ascese, que permitisse ao ser humano completar a Obra e transmutar assim no Homem Verdadeiro, paradigma de todo Iniciado, localizado na Câmara do Meio, entre o esquadro e o compasso[6]. Não houve Tradição que não tenha desenvolvido um sistema numérico que lhe servisse como método de conhecimento, em perfeita correspondência com as pautas criacionais. Recordemos que o teto da loja está decorado pelos astros, os Regentes, que governam as esferas celestes e estabelecem os intervalos e as medidas da Harmonia Universal.

Entretanto os maçons não deixaram nunca de reconhecer a frase evangélica: “Na casa de meu Pai há muitas moradas” (João, 14, 2), pois embora saibam que eles têm uma senda aberta diante de si que os conduzirá a seu Pai, não negam outros caminhos nem se opõem a nenhuma via, já que pensam que as estruturas invisíveis são as mesmas, protótipos válidos para todo tempo e lugar, apesar da adaptação constante de distintas formas aptas para diferentes individualidades, a maior parte das vezes determinadas pelos ciclos temporais tal qual poderia ser exemplificado por qualquer organismo vivo, entre eles o ser humano e suas modificações e adaptações ao longo dos anos, ciclos aos quais tampouco a Maçonaria é alheia, como se comprova em sua paulatina transformação concretizada finalmente no século XVIII. E é por essa mesma compreensão de suas possibilidades metafísicas e iniciáticas que a Maçonaria reconhece outras Tradições, e também deixa em aberto o exercício de qualquer crença religiosa, ou pseudo-religiosa, entre seus membros, muitos dos quais conciliam seu processo de Conhecimento, leia-se Iniciação, com a prática de preceitos e cerimônias religiosas exotéricas e legais, que pensam poderem enriquecer sua passagem e o de outros por este mundo. Não há portanto conflito entre Maçonaria e Religião, sempre que não tratem de misturar os conceitos, ou se pretenda, como já aconteceu, que determinados fundamentalistas (religiosos ou não) tentem monopolizar as lojas maçônicas para seu proveito pessoal. De fato, numerosos hermetistas, pitagóricos e maçons foram, e são, perfeitos cristãos, ou grandes cabalistas, e todos eles tiveram os símbolos como seus mestres. A Igreja Católica jamais condenou o Hermetismo, nem Euclides, herdeiro da ciência geométrica pitagórica, e mestre dos maçons, mas teve problemas com a Maçonaria do século XVIII a ponto de condená-la e excomungar seus membros. Entretanto foi sendo produzida nos últimos tempos uma paulatina aproximação entre ambas as instituições, salpicada aqui e acolá por incompreensões e interferências, muitas vezes interessadas. Segundo José A. Ferrer Benimelli, S. J., a revista a Civilittà Cattolica de Roma, publicada desde 1852, e que deu seguimento ao tema da Maçonaria até nossos dias, marca em sua evolução este processo de aproximação, ou ao menos de respeito mútuo. Efetivamente os primeiros artigos são violentos e condenatórios, há um período de transição, e os dos últimos anos, bastante conciliatórios e abertos ao diálogo[7].

São numerosos os maçons católicos, muitos deles franceses, que tentam há anos conciliar ambas as instituições e suspender a excomunhão; entretanto há muitos outros autores maçônicos que se integram completamente à Tradição Hermética, com sua Ordem, sem necessidade de um exoterismo religioso, tal o caso de Oswald Wirth, diretor durante muitos anos da revista Le Symbolisme, e reconhecido maçom que tem escrito sobre os Símbolos da Tradição Hermética e os símbolos maçônicos, El Simbolismo Hermético en sus relaciones con la Alquimia y la Masonería, Saros, Bs. As. 1958 (ver aqui pág. XXX), mostrando muitos aspectos de sua identidade de Origem; quanto a maçons que publicaram nos últimos anos, tanto sobre os distintos graus como acerca dos Números, desejaríamos citar em primeiro lugar a Raoul Berteaux, dentro de um nutrido grupo que tratou amplamente a Aritmosofia, de base pitagórica[8].

Hermes, a quem se lhe adjudica o ensino de todas as ciências, gozou de supremo prestígio ao longo de distintos períodos da história da cultura do Ocidente. Isto foi assim entre os alquimistas e os chamados filósofos herméticos, e estas mesmas ideias se manifestaram na Ordem dos Irmãos Rosacruzes, influências todas que recolheu a Maçonaria a tal ponto que se lhe pode considerar como um depósito da sabedoria pitagórica e sua transmissora nos últimos séculos, assim como uma receptora dos Princípios Alquímicos, e também das ideias Rosacruzes[9], o que é evidente quando à simples vista comprovamos que um dos mais altos graus no Rito Escocês Antigo e Aceito, o 18, denomina-se precisamente Príncipe Rosacruz. Igualmente analogias e conexões com as Ordens de Cavalaria são reclamadas por alguns maçons, concretamente com a Ordem do Templo. Há muitos indícios históricos que mostrariam estas sementes, também tradições e ritos, especialmente uma das palavras de passe no grau 33, mas ficam bastante diminuídos quando se recorda que os Templários eram ao mesmo tempo monges e soldados (embora grandes construtores medievais), o que não guarda relação aparente com a Maçonaria, onde, por outra parte, há destaque para uma influência bem clara do hebraico que já assinalamos no caso de Salomão e da Construção do Templo, e se vê confirmada pela simples comprovação de que quase todas as palavras de passe e grau, segredos sagrados, pronunciam-se em hebraico[10].

Brasão do Capítulo dos Rosacruzes
de Heredom de Kilwinning, Paris 1776

No Diccionario Enciclopédico de la Masonería (Ed. del Valle de México, México D. F.), talvez o mais conhecido em castelhano, sob o título “Hermes” encontramos o verbete correspondente, onde pode apreciar a importância atribuída ao Corpus Hermeticum que, em algumas lojas maçônicas sul-americanas, ocupa o lugar da Bíblia como livro sagrado. É conhecida a relação de Hermes com o silêncio, e é costume chamar-se hermético àquilo que se encontra perfeitamente fechado, ou selado. O silêncio deste modo é próprio da Maçonaria e também dos pitagóricos que passavam cinco anos cultivando-o.

Continua…

Autor: Federico Gonzalez
Tradução: Igor Silva

Notas

[1] – O mesmo Findel no Anexo de sua História publica o primeiro documento de que dispomos, datado em 1419, sobre os trabalhadores de canteiros alemães.

[2] – “Parece-nos indiscutível que ambos os aspectos, operativo e especulativo, estiveram sempre reunidos nas corporações da Idade Média, que empregavam, por outra parte, expressões tão nitidamente herméticas como a de ‘Grande Obra’, com aplicações diversas, mas sempre Analogicamente correspondentes entre elas.” R. Guénon, Etudes sur la Franc-Maçonnerie et le Compagnonnage T. II, cap. “A propos des signes corporatives et de leur sens originel”. Ed. Traditionnelles, Paris 1986.

[3] – Enciclopédia Britânica. Artigo ‘Freemasonry‘, edic. 1947.

[4] – Ver Claude Tannery “Le Corpus Hermeticum (Introduction, pour des dévéloppements ultérieurs, à l’hermétisme et la maçonnerie)”; nº 12 revista Villard de Honnecourt, Paris 1986. as referências a Hermes e à Tradição hermético-alquímica na literatura maçônica são muito abundantes como já dissemos; não há o que dizer de Pitágoras, tema que é tratado em outro estudo deste mesmo nº do V. do Ir.: Thomas Efthymiou, “Pythagore et sa présence dans la Franc-maçonnerie”.

[5] – Ver E. Mazet “Eléments de mystique juïve et chrétienne dans la franc-maçonnerie de transition (VIe-VIIe s.)”; nº 16, 2ª série, igualmente da revista Travaux de la loge nationale de recherches Villard de Honnecourt. O autor publicou nesta, que edita os trabalhos da loja maçônica de estudos do mesmo nome, adscrita à Grande Loge Nationale Française, outras colaborações igualmente interessantes sobre aspectos documentais da Maçonaria. Na verdade, esta revista junto com a Ars Quatuor Coronatorum, também órgão difusor de uma loja maçônica de estudos homônima, (Quatuor Coronati Lodge) e que desde 1886 tem já mais de 80 volumes publicados na Inglaterra, são as melhores fontes que se podem achar para o estudo integral da Maçonaria.

[6] – É conhecida a importância da Tetraktys pitagórica em qualquer tipo de conhecimento metafísico e cosmogônico. Por outra parte, a relação das harmonias musicais em relação aos números, em particular com a escala dos sete primeiros, é também um tema pitagórico que a Maçonaria e o Corpus Hermeticum recolhem em forma de graus e toques de reconhecimento ligados com as esferas planetárias e os Regentes que as governam. Há que se adicionar os distintos teoremas geométricos pitagóricos, conhecendo-se a importância que para a Maçonaria e para a ciência e arte de construir possuem; só bastaria assinalar entre eles o do triângulo retângulo, posteriormente enunciado por Euclides, outro dos ancestrais maçônicos, como já mencionamos. Em 1570 John Dee, conhecido mago elisabetano e notável matemático que exercera um papel tão importante no Hermetismo inglês e no europeu publicou um famoso prólogo aos “Elementos de Geometria” de Euclides. Como é sabido, os ensinos de Dee foram retomados por Robert Fludd, que editou em 1619 seu Utriusque Cosmi Historia e por seu intermédio, concatenadamente, fizeram-no os futuros integrantes da maçonaria especulativa.

[7] – J. A. Ferrer Benimelli, “Bibliografía de la Masonería” – Fundación Universitaria Española – Madrid – 1978, pág. 112. Este sacerdote jesuíta que deu impulso aos estudos maçônicos em língua castelhana –a ponto de que alguns autores sobre maçonaria, como J. A. Vaca de Osma (La Masonería y el Poder), chegam a se perguntarem se verdadeiramente não é membro da Ordem– tem, entretanto, uma ideia escassa sobre ela, tomando-a como uma sociedade filantrópica e espiritualista, não lhe outorgando nenhuma categoria iniciática, termo que jamais emprega e que parece inclusive desconhecer em sua verdadeira dimensão.

[8]La Symbolique au Grade d’Apprenti, La Symbolique au Grade de Compagnon, La Symbolique au Grade de Maître, Edimaf, París 1986, íd, y 1990; La Symbolique des Nombres, íd. 1984. Também queremos destacar aqui os livros amplamente conhecidos em castelhano assinados por Magister (Aldo Lavagnini): Manual del Aprendiz, del Compañero, del Maestro, del Gran Elegido, etc. De fato, todos os manuais maçônicos têm menções aritmético-geométricas.

[9] – Desde 1824, Thomas de Quincey destacava em um periódico londrino a conjunção da Maçonaria com o rosacrucianismo como um tema conhecido.

[10] – A genealogia maçônica é também bíblica, embora se combine com a Egípcia. Deve se recordar a relação de Israel com o Egito na época de Moisés e ainda o simbolismo do Egito nos evangelhos cristãos. Segundo o livro I dos Reis, 3-1, há uma filiação direta entre o Rei Salomão e o Egito, já que aquele era genro do Faraó, seu vizinho.

Maçonaria e Alquimia

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Em sua importante obra Hermetismo e Maçonaria, e mais concretamente no capítulo II e intitulado “Tradição Hermética e Maçonaria”, Federico González afirma que entre os amigos da Filosofia Hermético-Alquímica se costuma dizer

“Que o último grande Alquimista (e escritor sobre estes temas) foi Ireneo Filaleto no século XVII. Isto é bastante exato de uma perspectiva, só que não se toma em conta com toda claridade que a partir dessa data não se interrompe esta Tradição até o presente, mas sim se transforma, e muitíssimos de seus ensinos e símbolos passam à Maçonaria, como transmissora da Arte Real e da Ciência Sagrada, tanto nos três graus básicos como na hierarquia dos altos graus.”

Estas palavras assinalam com toda claridade que a antiga Maçonaria foi a receptora, ao longo de todo esse período chamado de “transição”, entre os séculos XVI e XVII, de um importante simbolismo hermético-alquímico, que vai ser decisivo para o surgimento da Maçonaria especulativa, que se concretiza em começo do século XVIII. A partir desse momento, pode se falar de um Hermetismo maçônico que, de algum jeito, constitui o eixo doutrinal que vertebra essa nova Maçonaria, e que se conjuga perfeitamente com a herança da antiga Maçonaria medieval, que continua estando presente através do importante simbolismo construtivo e das ferramentas que lhe são inerentes, conservando também sua forma e sua estrutura institucional através de seus antigos usos e costumes.

Fazendo um parêntese, devemos dizer que as relações entre a Maçonaria e a Alquimia, ou melhor a Tradição Hermético-Alquímica, vêm de tempo muito antigo, antes inclusive da Idade Média, época em que os maçons construtores realizam suas grandes obras em pedra, tanto igrejas românicas como catedrais góticas, mas também obra civis, como castelos, palácios, etc., e é obvio começam a construir os grandes centros urbanos de acordo a uma estrutura que tinham herdado dos Collegia fabrorum romanos, e que se continuaria durante o Renascimento, estrutura que obedecia em seus traços essenciais a uma imitação do modelo cósmico, que também estava refletido na catedral e na planta românica, e que se conjugava com outras tradições muito mais antigas que se remontavam inclusive à pré-história, aos construtores megalíticos, e é claro, principalmente, à outra grande herança vinda do Oriente: a dos construtores do Templo de Salomão, ou Templo de Jerusalém, mostrando-se assim o vínculo com a tradição judaica, e mais especialmente com seu esoterismo, quer dizer com a Cabala. Acrescentaremos neste sentido que o desenho do Templo de Salomão, ou melhor sua estrutura interior, e a Ideia que a configurou, plasmar-se-á também na catedral cristã, e certamente formará parte da arquitetura ocidental ao longo de todo o Renascimento como uma imagem da Cidade Celeste, sendo a partir do século XVIII que essa estrutura, e essa Ideia, passará a formar parte da Loja maçônica.

Tanto na herança vinda dos Collegia fabrorum, como na que procedia do Templo de Salomão, estava presente a Tradição Hermética, que é propriamente falando a Tradição do Ocidente, pois reúne em seu corpo simbólico e doutrinal o legado sapiencial grego-egípcio e romano, que se concentrou especialmente na Alexandria dos primeiros séculos de nossa era, dando como fruto, entre outras obras importantes, o Corpus Hermeticum, conjunto de livros e textos inspirados diretamente pela deidade que dá nome a esta Tradição: Hermes Trismegisto, o Thot egípcio. Esse legado se nutriu também das correntes gnósticas, tão cristãs como judaicas, e de todo esse conjunto de ensinos sustentados na Magia Natural, na Astrologia e na Alquimia próprias das tradições milenares vindas tanto do Oriente Próximo como de toda a planície mediterrânea, herdeiras em realidade de uma Ciência Sagrada e de uma Tradição Unânime que esteve presente em todos os povos, culturas e civilizações do mundo inteiro desde tempo imemorial.

Não deve, pois, resultar estranho que em muitas dessas edificações, tanto medievais quanto renascentistas e outras posteriores, que manifestavam de maneira evidente a “Harmonia Mundi” através de uma verdadeira Geometria filosofal, apareçam gravados na pedra e outros materiais um sem fim de símbolos que fazem alusão à Alquimia e às distintas fases da Grande Obra da transmutação interior, e é obvio a presença em qualquer parte de um simbolismo astrológico-astronômico que denotava claramente o fato de que os maçons construtores e os alquimistas, astrólogos, magos e teurgos realizavam seu trabalho conjuntamente, pois em realidade todos eles pertenciam a uma mesma “cadeia áurea” que tem em Hermes Trismegisto, Pitágoras e seus Platão “pais fundadores”.

Precisamente neste artigo queremos falar de como efetivamente existe uma clara correspondência entre o simbolismo alquímico e o simbolismo maçônico, sem entrar em desenvolver tudo o que o tema dá de si, que é certamente muitíssimo, mas tão só apontar algumas ideias básicas que vêm dadas de forma natural com tão somente meditar com certa atenção no rico simbolismo alquímico e maçônico. Evidentemente tampouco careceria de interesse investigar como se gerou essa mutação que deu nascimento à Maçonaria moderna, quais foram as influências que, por exemplo, serviram para que aquele ou aqueles desconhecidos autores maçônicos do século XVIII elaborassem a lenda de Hiram e do ritual do terceiro grau, tal qual chegou até nossos dias, que é essencial em toda a Maçonaria, pois não existe Rito que não tenha essa lenda e esse ritual, até com os matizes e pequenas diferenças que se queira, formando parte de seus ensinos mais elevados e profundos.

Neste sentido se assinalou que o autor, ou autores, da lenda de Hiram, tal qual se psicodramatiza no ritual do terceiro grau, é muito provável que se inspirou em uma obra hermética do século XVII intitulada Septimana Philosophica, do médico alquimista e rosa-cruz Michel Maier (autor deste modo da Atalanta Fugitiva, entre outras obras importantes), escrita em forma de diálogo e cujos interlocutores são o rei Salomão, Hiram e a rainha de Sabá. Neste contexto surge também a figura do Tubalcain, que segundo as Old Charges, ou Antigos Deveres, foi o inventor da metalurgia e um dos fundadores míticos da Maçonaria junto a sua irmã Noemá (inventora da arte do tecido), e seus irmãos Jabal (inventor da Geometria) e Jubal (inventor da Música). Tubalcain, que tem também um papel relevante no ritual do terceiro grau, aparece como um antepassado de Hiram e pertencente, como ele, a uma tradição antiquíssima relacionada com a Arte metalúrgica, e portanto com evidentes vinculações com a Alquimia, que utiliza justamente o simbolismo metalúrgico, e o fogo a ele inerente como elemento ativo e transformador da matéria, para exemplificar os processos de transmutação e purificação interior. E não deixa de ser interessante, além disso, que este antepassado de Hiram, Tubalcain, apareça em certos textos alquímicos também do século XVII tendo em suas mãos o esquadro e o compasso, ferramentas maçônicas por excelência, recordando assim ao Rebis hermético de Basilio Valentino e João Daniel Mylius, que sustenta também em suas mãos estas duas ferramentas.

Enfim, como dissemos é este um tema extremamente interessante e que aos maçons brinda a excelente oportunidade de conhecer mais em profundidade sua Venerável Tradição, herdeira dos Antigos Mistérios, e cujo lema mais importante é aquela sentença que já figurava no frontispício do templo de Apolo em Delfos: “conhece-te a ti mesmo”. Diremos que esse Conhecimento é gradual e necessita de uma didática e de um ensino que vem dado efetivamente através do percurso pelos três graus maçônicos: aprendiz, companheiro e mestre, que sintetizam na realidade todos os graus iniciáticos, chamados altos graus, que recolhem também numerosos ensinos herméticos e alquímicos, e nos fazem ver que na realidade, e como deixávamos vislumbrar anteriormente, a Maçonaria atual forma parte integrante da Tradição Hermética, e reproduz através do desenvolvimento de todos seus graus as etapas da Grande Obra Alquímica, análoga igualmente ao processo de criação do Cosmo, como mais adiante veremos.

Por outro lado esta expressão, “conhece-te a ti mesmo”, encerra todo o sentido da Maçonaria como via Iniciática, palavra que como todos vocês sabem indica a aspiração no homem de empreender ou iniciar o caminho para a busca de sua verdadeira identidade, de seu autêntico “Eu”, ou como se diz na tradição hindu, de seu autêntico Si Mesmo. Para a Maçonaria, o ser humano, em seu estado ordinário, ou “profano”, não se conhece apenas, não sabe quem é em realidade, de tal maneira que nesse estado vive uma existência completamente “exterior” ao que é sua verdadeira Essência, aquela que na Maçonaria recebe o nome de Grande Arquiteto do Universo. Recordemos que a palavra “profano” quer dizer “fora do templo”, aludindo o templo à “casa do Pai”, quer dizer o lugar de nossa origem, a terra nutriz espiritual, a pátria celeste, ou a Loja maçônica “do Alto” de que se fala na Maçonaria, que um dia abandonamos porque sobreveio em nós o esquecimento, essa terrível enfermidade da alma que se cura invocando à Memória, a Mnemósyne, que os gregos consideravam uma deusa.

Aos que empreendiam esse caminho, o caminho do autoconhecimento, antigamente se chamavam “peregrinos”, ou “estrangeiros” que deve ser o mesmo, e percorriam as sendas do mundo e da vida como um símbolo de sua viagem interior para a “casa do Pai”, sendo precisamente as etapas dessa viagem o processo que ia assinalando a recuperação de sua memória arquetípica. Isto que dissemos não é uma licença mais ou menos poética, mas uma realidade recorrente na vida do homem sempre e que se pode expressar como queremos, mas que tem que ver com o encargo de um fato incontestável: a fragilidade da existência humana, a percepção clara de que verdadeiramente nosso passo pela vida é justamente isso: uma passagem, um trânsito entre nosso nascimento e nossa morte, e é sob a denominação de “estagiários” como também se denominavam antigamente aos construtores que viajavam de cidade em cidade deixando na pedra os rastros de sua Arte Real.

De fato, e se repararmos nisso com certa atenção, a própria existência de qualquer coisa ou ser tem algo de ilusório e de evanescente, que lhe vem de sua própria “provisoriedade”, de “estar de passagem”, e assim no-lo fazem ver os ensinos iniciáticos e esotéricos de qualquer tradição. Mas precisamente o dar-se conta deste fato, com tudo o que significa, empurra-nos a procurar o sentido de nossa própria existência, quer dizer sua razão de ser, o princípio do que ela depende e que evidentemente não tem que estar fora de nós, pois se fosse assim, sequer nos formularíamos a pergunta fundamental e com a que em realidade dá começo a busca para a verdadeira identidade: quem sou?

“Ouvi-me, poderosos liberadores! (Exclama o neoplatônico Proclo aos deuses em seu Hino IV). Concedei-me, pela compreensão dos livros divinos e dissipando a trevas que me rodeia, uma luz pura e Santa a fim de que possa compreender com claridade o Deus incorruptível e também o homem que eu sou.”

É inegável que a resposta a essa pergunta sobre nossa identidade tem que vir através do que Platão denomina a anamnesis, a “reminiscência”, ou seja “a lembrança de si”, que pode ir-se dando pouco a pouco, ou de uma vez por todas, ou combinando ambas as experiências, pois de fato é assim como ocorre na realidade, já que a “revelação é coetânea com o tempo”, e essa possibilidade sempre vem dada pela graça de Mnemósyne, e de suas filhas, as Musas, que inspiram no “peregrino” seu canto liberador e lhe fazem partícipe do mistério e da harmonia do Cosmos. Conta Platão que a alma humana ao vir a este mundo “esquece” qual é sua verdadeira origem, e como consequência disso fica encerrada na “esfera sublunar”, ou mundo inferior, onde vive como em um sonho com os olhos vendados à verdadeira realidade. A isto precisamente se refere também Platão com o famoso mito da caverna: tudo o que nela acontece é um reflexo de uma realidade mais alta, de onde procede a luz que ilumina essa caverna, a qual é evidentemente uma imagem simbólica de nosso mundo, e em consequência da existência que levamos dentro dele.

Pois bem, a despertar desse sonho, a escapar desse mundo e dessa existência que não tem em si mesmo sua realidade e sua razão de ser, vem a nos socorrer a Filosofia, a autêntica Filosofia, a que faz honra ao significado verdadeiro de seu nome: “Amor à Sabedoria”. Esse amor, ou essa filiação, é um estado da consciência próprio do ser humano, e está em todos nós, só que como estamos completamente voltados para o exterior, para “fora de nós mesmos”, não o percebemos como algo próprio e que nos pertence pelo fato de termos nascido humanos, como o único, enfim, que pode nos arrancar essa atadura que nos cobre os olhos, e que é como um encantamento enraizado no mundo dos sentidos, o “véu de Maia”, a ilusão do relativo, do impermanente e do condicionado.

Amar a Sabedoria implica pois uma aspiração impetuosa e sem trégua alguma para o Conhecimento, para a Gnose, o que supõe acontecer do exterior, ou do mundo das aparências, para o interior, ao mundo da realidade. Da periferia da roda para seu centro, que é precisamente o que dá todo seu sentido à roda e a seu movimento, vale dizer a nossa existência neste mundo, que sem esse centro, sem sua Essência, não existiria. Ir do exterior para o interior, da representação à realidade, supõe efetivamente seguir um caminho, uma via, um raio, e isso não é outra coisa que nossa “reta intenção”, nosso querer “ser”, que é o mesmo que nos orientar “na direção que assinala a luz”, como se diz em linguagem maçônica. Trata-se em definitivo de passar de uma leitura exterior das coisas, do mundo e de nós mesmos, a uma leitura interior, mais acorde com o que constitui a razão de ser dessas mesmas coisas, do mundo e de nós. “Ler interiormente” é o que quer dizer precisamente a palavra inteligência, que é, ao igual que Mnemósyne (a Memória), ou a própria Sabedoria, o nome de uma deusa: a deusa Inteligência, aquela que como diz Federico González em vários lugares de sua obra, e mais concretamente em Simbolismo e Arte, é

“Uma energia capaz de selecionar os valores e pô-los em seu lugar, criando uma ordem mental em oposição ao caos da ignorância. Daí a importância do modelo do Universo e de sua Ordem Arquetípica, ou seja, da doutrina e de sua encarnação, posto que é capaz de ativar e gerar o auxílio desta deidade, a que sempre se manifesta no microcosmo como a compreensão imediata, efetivada no coração.”

Esse Amor à Sabedoria é o que se pratica nas oficinas maçônicas, e faz dos irmãos maçons verdadeiros filósofos cuja aprendizagem na “lembrança de si”, ou seja no reconhecimento de sua identidade mais verdadeira e profunda, é constante e permanente, e vem dando uma dimensão cada vez mais ampla e universal de nós mesmos, que é inversamente proporcional ao abandono de nossas superficialidades, que são aqueles metais impuros, ou arestas da “pedra bruta” que com paciência e perseverança, duas virtudes muito elogiadas pelos alquimistas e maçons de todos os tempos, têm que ser polidas pelas ferramentas do maço e o cinzel, símbolos respectivos da vontade e da reta intenção que a dirige e com a qual se conjuga.

Na linguagem dos símbolos (que os trovadores medievais chamavam “a língua de oc” –languedoc– ou o “linguagem dos pássaros”) o coração é precisamente a sede da inteligência, não da inteligência racional, que segundo a mesma linguagem simbólica estaria localizada no cérebro, e que é dual por natureza, mas sim da inteligência superior, ou da intuição intelectual, aquela que tende para a síntese pela reunião dos contrários, e que é como um sexto sentido que tem o homem, o microcosmo, para “descobrir” esses outros estados mais sutis que estão em nosso interior, e que, tal como os raios da roda ou da circunferência, põem-nos em comunicação direta (ou seja a “compreensão imediata” de que fala Federico González) com nosso verdadeiro “Eu”, ou Si mesmo.

Mas no “descobrimento” dessa faculdade superior inerente à natureza humana é muito importante, com efeito, conhecer o modelo do Universo, que nos fala de uma Ordem Arquetípica, de uma Cosmogonia; e não só isso, mas também dito conhecimento, para ser compreendido em toda sua integridade, tem que “encarnar-se” e viver-se como tal, quer dizer que tem que ser realmente transformador e operativo, e não uma mera especulação teórica que por muitos “saberes” que acumule nunca poderá nos levar mais à frente da soleira ou da periferia da roda, nesse ponto onde realmente começa a viagem para o centro de nosso ser, o qual se vive, tornamos a repetir, como um retorno à “casa do Pai”.

Esse retorno tão somente é possível através de uma Arte que a Maçonaria chama “Arte Real”, idêntico a Grande Obra alquímica, Obra que é a que o homem pode realizar consigo mesmo em seu interior, e cujo processo criativo como dissemos ao princípio é análogo à própria criação do Cosmo, já que há uma identidade entre o homem e o Universo, entre o microcosmo e o macrocosmo, de tal maneira que existe uma relação constante e permanente entre um e outro, quer dizer que o conhecimento de si se inter-relaciona com o conhecimento do mundo, conformando ambos um todo unitário, “uma só e única coisa maravilhosa”, verdadeiro objetivo da Grande Obra, como dizem os textos herméticos segundo a fórmula da Tábua de Esmeralda: “O que está acima é como o que está abaixo, e o que está abaixo é como o que está acima, para fazer a maravilha de uma coisa única”. A isto alude sem dúvida alguma o conhecido selo de Salomão, que como sabemos são dois triângulos entrelaçados, sendo um o reflexo do outro.

Tu te acreditas um nada, e é em ti em quem reside o mundo,

Recorda-nos neste sentido René Guénon citando o filósofo Avicena.

E assim como a ordem cósmica, o Mundo, segundo os relatos mitológicos de todas as tradições da humanidade, surgiu do caos das trevas primitivas, também esse processo interior que o homem realiza consigo mesmo surge a partir do “caos de nossa ignorância”, como dizia Federico González na nota citada. Segundo a Alquimia, nesse “caos” estão em potência e sem desenvolver todas nossas virtudes e qualidades, e é graças à Arte da transmutação que esse “caos” começa pouco a pouco a ordenar-se, quer dizer, a atualizar-se, recebendo a luz da Inteligência, análoga ao Fiat Lux (“Faça-se a Luz”) que iluminou as trevas pré-cósmicas.

Por isso justamente a iniciação se concebe como uma “iluminação” interior, e a expressão “dar a luz”, que se refere ao nascimento carnal, é exatamente o mesmo que “dar a luz”, tal qual se realiza durante o rito da iniciação maçônica, e em qualquer iniciação ao Conhecimento pois se trata de um arquétipo universal, com o qual se estabelece uma correspondência entre o nascimento físico e o nascimento espiritual. A própria palavra “neófito” com que se designava ao recém iniciado nos antigos Mistérios do Elêusis, e também na Alquimia e na Maçonaria, quer dizer tanto “nova planta” como “novo nascido”. E tudo isto está vinculado com a própria palavra Conhecimento, que é realmente um “CO-nascimento” [N.T.: em espanhol, “conhecimento” é “conocimiento“; o autor faz logo atrás, então, uma correlação entre as duas palavras e ideias], um voltar a nascer novamente. Neste sentido qualquer conhecimento relacionado com estas ideias é sem dúvida alguma um nascimento a uma outra realidade, com o que o campo de nossa visão do mundo e de nós mesmos se amplia e se faz mais verdadeiramente universal.

Por isso mesmo não se ilumina, não se desperta ou não se nasce, a não ser a aquilo que o ser já possui dentro de si, pois como diz também Platão: “Tudo o que o homem aprende já está nele”. Daí que a via alquímica e maçônica seja um processo de estrita realização pessoal, e todos os meios ou ajudas que vêm do exterior contribuem de fato a facilitar esse despertar e esse nascimento, mas tendo sempre em conta que são só ajudas, ou suportes, ou veículos, para iniciar e começar esse processo, e que inclusive podem nos servir durante um comprido trajeto do caminho, mas finalmente, e como se diz nos textos alquímicos, a “quem não compreende por si mesmo, nunca ninguém poderá fazê-lo o compreender, faça-se o que se fizer”.

Os suportes mais importantes, e poderíamos dizer virtualmente os únicos, são os símbolos e o alto Ensino que se deriva deles, tendo em conta que os símbolos iniciáticos foram especialmente desenhados para cumprir essa função didática, e estão “carregados”, se nos permitem a expressão, de influxos espirituais ou, se preferirem, de ideias-força, que eles mesmos transmitem sob suas formas e modos respectivos, e que convenientemente estimulados por nosso estudo, meditação e concentração, comunicam-nos e nos fazem partícipes de seu conteúdo, que assim que seja compreendido, incorporamo-lo e fazemos plenamente nosso, quer dizer, que nos identificamos com a ideia que revelam, ou dito de outra maneira: devimos essa própria ideia, pois como diz Aristóteles, e confirmam as experiências de todos os que o viveram, e o vivem, “o ser é o que conhece”, quer dizer que há uma identidade entre ser e conhecer: a gente é o que conhece. Por isso mesmo é tão importante o conhecimento dessa Ordem Arquetípica, que é a Cosmogonia, pois na medida em que dito conhecimento se faz em nós por sua compreensão, e tendo sempre presente as correspondências e analogias entre o macrocosmos e o microcosmos, nossa consciência se universaliza ao aflorar nela outros estados de uma natureza muito mais sutil, e que até esse momento eram completamente desconhecidos, até formando parte de nós mesmos. Essa “floração” é o que no tantrismo hindu se denomina o “despertar dos chakras“, palavra que quer dizer “rodas”, e que são efetivamente estados de nossa consciência que jazem adormecidos até que são despertados pela energia espiritual (uma de cujas expressões é a paixão pelo Conhecimento), a que podemos relacionar com o enxofre alquímico, força divina que jaz no centro de nosso ser, ou também com o maço e o cinzel maçônicos, cuja ação conjunta sobre a “pedra bruta” fazem possível a transformação desta em pedra cúbica.

Esse despertar dos centros sutis nos permite ir ascendendo degrau a degrau, degrau após degrau, pela “escada filosófica” que une a terra com o céu, até chegar a conceber, e em consequência viver, a ideia da Unidade, do Si mesmo, que constitui a “chave de abóbada” ou “pedra angular”, idêntica à “pedra filosofal” da Alquimia, de todo o Edifício Cósmico – e é obvio do ser humano, que vive assim a plenitude de uma existência não circunscrita somente a sua individualidade, pois esta foi transmutada pela gradual identificação com o universal por meio de seu conhecimento e da identidade com ele.

Então aquela existência que estava sujeita ao ilusório e evanescente de que falávamos mais acima, cobra aqui todo seu sentido e passa a ser o suporte permanente dessa transmutação, que é uma sucessão constante de mortes e nascimentos, ou dito em linguagem alquímica, de dissoluções e coagulações, que vão “afinando” o “composto” humano até fazê-lo “simples”, ou seja “não composto nem duplo”, semelhante a uma semente ou um germe, que evoca claramente a parábola evangélica do “grão de mostarda” (Mateus XIII, 31-32): “Semelhante é o Reino dos Céus a um grão de mostarda, que tomando-o um homem o semeou em seu campo; que é a menor de todas as sementes, mas quando se desenvolve é maior que as hortaliças, e se faz uma árvore, de modo que vêm as aves do céu e aninham em seus ramos”. Ou este outro texto dos livros sagrados da Índia, que diz o seguinte: “Este Âtmâ (o Grande Espírito), que reside no coração, é menor que um grão de arroz, menor que um grão de cevada, menor que um grão de mostarda, menor que um grão de millium, menor que o germe que está em um grão de millium; este Âtmâ, que reside no coração, é também maior que a terra, maior que a atmosfera, maior que o céu, maior que todos os mundos em conjunto”.

O grão de mostarda, como outros exemplos semelhantes, é evidentemente uma imagem simbólica da própria Unidade, que não tem composto nem duplo, por isso é a Unidade, e que em nosso mundo aparece como o menor, mas que em si mesmo é o maior, pois a tudo contém, e ao mesmo tempo está contida em tudo. Daí o exemplo da semente ou germe, que é precisamente no que tem que converter o candidato para receber a “luz” da Inteligência, para o qual precisa purificar-se de tudo que não é ele mesmo, quer dizer precisa passar pela prova dos elementos, que é outra herança que a Maçonaria recebe da Alquimia, e cujo fim não é outro que levá-lo a um estado completamente receptivo à luz da Inteligência.

Neste sentido, é interessante assinalar que os quatro elementos alquímicos, mais o quinto que é o éter ou “quintessência”, têm sua correspondência com o simbolismo construtivo, em concreto com as quatro pedras de fundação situadas nas quatro esquinas ou ângulos de base de um edifício, mais a quinta pedra, que não está no mesmo plano ou nível das outras quatro mas sim propriamente constitui o “quinto ângulo”, ou “pedra angular”, situada na sumidade do edifício, e da qual toda a construção aparece como a “projeção” ou “emanação” dessa mesma pedra, quer dizer, que a construção em si tem realidade a partir dela, pelo que realmente esta significa como representação da Unidade metafísica. E se isto é assim no simbolismo construtivo próprio da Maçonaria também o é no alquímico, no qual dita construção não é outra coisa que a que se realiza na alma humana a base de transmutações e purificações constantes e permanentes, até obter sua total identificação com a Unidade que reside no centro ou “quintessência” dela mesma, e que é ela mesma: “Quem se conhece si mesmo conhece seu Senhor”, é também uma máxima da Tradição Unânime.

A “viagem” pelos elementos que realiza o postulante a receber a iniciação maçônica se vive inumeráveis vezes ao longo de sua vida. Poderíamos dizer que é toda a vida a qual está envolta nisso, pois ditas viagens se vivem em distintos níveis de compreensão, sendo os elementos, do ponto de vista alquímico, estados do Ser Universal, e portanto do ser individual. Se tomarmos o exemplo da Árvore da Vida cabalística, vemos que em cada um de seus quatro planos: AsiahYetsirah, Beriah e Atsiluth (relacionados também com os quatro elementos) existe uma Árvore inteira, ao que se terá que percorrer do começo até o final, o que forma um ciclo, acabado o qual começa outro na escala evolutiva de nossa consciência, que vai assim da periferia ao centro, quer dizer a quintessência, à Unidade, em si mesmo e além da qual qualquer ideia de “viagem” ou de “busca” tal e como se considerava até então carece já de todo sentido.

Aqui tão somente falaremos da primeira dessas viagens, e sem a qual não seria possível as restantes. Esta se realiza visitando o interior da terra, o que na Maçonaria se simboliza com a “Câmara de Reflexão”, que é em tudo semelhante ao atanor, um espaço “hermeticamente fechado” onde é introduzido o aspirante para “despojar-se dos metais impuros”, linguagem claramente alquímica que alude a essas “escórias” e superficialidades (os “egos” em linguagem corrente) que impedem precisamente a “recepção da luz”. Ali, encerrado em seu atanor, na solidão mais completa, o aspirante tem que encontrar sua “pedra bruta”, ou seja, sua “matéria prima”, pois sem esta é impossível a Grande Obra. Ou dito de outra maneira: tem que dar-se conta de que a tudo tem que aprender de novo, e que em consequência tem que morrer para seu estado anterior, ou seja a não se identificar com o mais denso de si mesmo, aprendendo a “separar o espesso do sutil”, pois existe a promessa de uma vida nova, e que se tiver chegado até aí, até essa “Câmara de Reflexão” que é sua própria alma recolhida em uma extrema concentração, é porque secretamente, sem o saber, está cumprindo com seu destino. Neste ponto dizem novamente os textos alquímicos:

“Meu apelido é Dragão. Sou o servo fugitivo, e me encerraram em uma fossa para que logo me recompense com a coroa real e possa enriquecer a minha família… Minha alma e meu espírito me abandonam… Que eles não me deixem nunca logo, para que veja de novo a Luz do Dia, e que este Herói da Paz que o mundo espera possa sair de mim.”

A tudo isto aludem sem dúvida alguma os símbolos que se encontram na Câmara de Reflexão, todos destinados a nos fazer precisamente “refletir” sobre seu sentido profundo. Aí encontramos, por exemplo, ao galo, pássaro solar e de Hermes que anuncia a luz; aos três princípios alquímicos: enxofre, mercúrio e sal, quer dizer ao princípio ativo, ao passivo, e a síntese de ambos respectivamente; à caveira que nos indica o estado em que nos encontramos e ao mesmo tempo nos permite entender que no impermanente e no fugitivo, como a própria vida que nos escapa dentre as mãos, existe uma imagem do imutável, pelo que permanece, quer dizer que esses ossos nos evocam uma primordialidade e uma origem incorruptível. Por isso mesmo, nas correspondências entre o cosmo e o homem, os ossos estão regidos pelo planeta Saturno, o rei da Idade de Ouro, que é também o chumbo, o mais vil e denso de todos os metais mas no qual, entretanto, está encerrado o ouro, o mais precioso e sutil de todos eles. E ali, enfim, encontramos as siglas alquímicas VITRIOL, ou VITRIOLUM, que dão pleno sentido à Câmara de Reflexão: “Visita o Interior da Terra e Retificando Encontrará a Pedra Oculta. Verdadeiro Remédio”.

Visitar o interior da terra é fazê-lo em si mesmo, procurar em nossa memória os sinais que nos levem ao país dos antepassados, a nossa linhagem espiritual, como faz o mestre Hiram, quando vai procurar no interior da terra, no mundo subterrâneo, a seu antepassado Tubalcain, segundo se relata em outras lendas que revestem Hiram com os características de um herói civilizador. Ressoam aqui as palavras de todos os iniciados de todos os tempos: para ascender ao mais alto tens de descer ao mais baixo, e este fato se cumpre indefinidas vezes no processo iniciático, pois o percurso pelo eixo que comunica os diferentes planos do Ser universal, e do ser individual, faz-se sempre nas duas direções: ascendente-descendente:

Sobe da Terra ao Céu, desce de novo à Terra, e une os poderes das coisas de cima e das de baixo,

Podemos ler na “Tábua de Esmeralda” hermética, fundamento doutrinal e síntese magistral de todos os trabalhos alquímicos.

Na realidade, a Pedra Oculta, o verdadeiro remédio ou elixir da imortalidade de que se fala nas siglas VITRIOL, não é outra coisa que a obtenção do Conhecimento, já que como antes recordávamos, também se disse que “Quem se conhece si mesmo conhece seu Senhor”, quer dizer à Unidade. O “prêmio”, se é que houvesse algum neste caminho de enormes contrastes que realiza o peregrino para sua pátria de origem, não é outro que esse Conhecimento, ao que alguns preferem pôr o nome de Tradição Primitiva, que é a Fonte da qual emana a Ciência Sagrada ou Filosofia Perene de todos os tempos e lugares. Neste sentido, em um momento determinado dessa viagem, a Câmara de Reflexão passa a ser outra Câmara: a Câmara do Meio, situada na base do Eixo do Mundo durante o rito de recepção ao terceiro grau, ali onde têm lugar outros mistérios que fazem referência também a uma morte e a um novo nascimento.

Isto nos faz recordar indevidamente que quando Dante, em sua viagem ao centro da terra, desce ao ponto mais baixo desta, “retifica” imediatamente o sentido dessa direção e começa a subir pelo eixo do mundo, que é seu próprio eixo interior, para a saída à “Luz do Dia”, à Realidade, abandonando o “reino das sombras” ao encontro com sua dama Beatriz, personificação da Sabedoria.

E não queríamos terminar estas reflexões que quis compartilhar com todos vós sem citar novamente o livro Simbolismo e Arte, concretamente o capítulo titulado “Arte Alquímica”, onde se diz o seguinte:

E de igual forma que todo nascimento se transforma em morte e esta é continuada por um renascimento – qualquer seja o ponto de vista que se adote, posto que a criação é perene –, assim estes estados se sucedem no ser, sujeito ao espaço, ao tempo e à memória. Pelo que o xamã vive em seu processo alquímico indefinidos falecimentos e ressurreições. (…) Entretanto também devemos observar que de modo acorde em Alquimia se destacam diversas etapas significativas no processo geral, que se realiza escalonadamente na projeção temporal, que estão vinculadas com os ciclos que, embora universalmente se sucedem sem solução de continuidade, têm um sentido claro no subciclo de uma existência particular, onde a dimensão de uma vida humana reconhece os tênues e sutis sinais de uma transformação, que por leve e esfumada que pareça, faz-se de repente transparente e se arraiga profundamente no coração do atanor, ou o que é o mesmo, da alma humana, permitindo-lhe assim ao operário seguir desenvolvendo-se para enfrentar novos trabalhos de sua ciência evolutiva, graças à intuição intelectual, direta, que não admite dúvidas nem demonstrações pois, de face à certeza, resultam completamente desnecessárias.

Pode-se compreender, então, que este processo do adepto – ou o xamã, que recebeu sucessivas iniciações, ou compreendido distintos estados do Ser Universal – que vai obtendo para si paulatinamente as cores da Obra, é uma verdadeira imersão no tempo, já que adverte a simultaneidade de todo o possível (que se dá mercê à projeção temporal, ou seja, gradualmente), e reconhece estados não humanos de uma perspectiva distinta, onde vê girar a roda dos sucessos e fenômenos sem apego, tal qual o alquimista metálico observa de uma maneira imparcial as substâncias que combustam – coagulam e se dissolvem – em seu atanor. Em tudo isto tem um papel decisivo a memória, matéria com que está tecido o tempo e portanto o homem, já que este é tanto o que conhece como o que recorda, e em todo caso se for algo em si, é por sua memória: imprecisa e frágil substância que troca com os momentos e os dias e constantemente se atualiza.

Autor: Francisco Ariza

Tradução: Igor Silva

Fonte: Hermetismo y Masoneria

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Simbolismo e Cosmogonia – Parte I

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A Cosmogonia Perene 

A cosmogonia é uma ciência cultivada por todos os povos arcaicos e tradicionais e se refere ao conhecimento do homem (pequeno cosmos) e do universo (homem grande). Repete-se de modo unânime e de maneira perene ao longo do tempo (história) e do espaço (geografia), descrevendo uma única realidade, a do cosmos. Esta realidade, por outro lado, é a mesma que nós, os contemporâneos, vivemos e habitamos, pois é essencialmente imutável apesar das mutantes formas em que pode ser expressa ou apreendida, já que se mantém perenemente viva.

Esta ciência é praticamente desconhecida para o ser humano atual, que é produto do racionalismo, do positivismo, do materialismo e da técnica. Foi, no entanto, a estrutura básica, primária, sobre a qual tanto os povos primitivos como as grandes civilizações da antiguidade como, por exemplo, os egípcios, fundaram suas crenças, e a ferramenta com a qual construíram sua vida e cultura, que no caso desse exemplo durou três mil anos; o mesmo poderia ser dito do império chinês, ou melhor, da Tradição extremo–oriental. Esta  ciência, na verdade, é o denominador comum de todas as tradições conhecidas, quer se encontrem vivas ou aparentemente mortas.

O modo normal pelo qual essa Cosmogonia, Universal e Perene, se expressa, é o símbolo, ou um conjunto de símbolos em ação, constituindo códigos e estruturas que se conjugam permanentemente entre si, manifestando e veiculando a realidade, ou seja, toda a possibilidade do discurso universal, que se faz audível e compreensível por seu intermédio. O símbolo é, portanto, a tradução inteligível de uma realidade cosmogônica e, ao mesmo tempo, essa realidade em si, ao nível em que ela se expressa[1].

Para o caso da cosmogonia nos interessam particularmente os símbolos numéricos e geométricos, que, como se sabe, mantém uma perfeita correspondência entre si. Constituem módulos paradigmáticos, presentes em todas as culturas, já que formam a estrutura de qualquer construção, neste caso, da Construção Universal. Não obstante, trataremos aqui não só dos números e figuras geométricas e do simbolismo construtivo em geral, mas, em particular, do símbolo da roda. É importante ressaltar que aquilo que a simbólica manifesta dentro de si, no mais profundo de sua intimidade, não é senão a totalidade do cosmos, atual e constante. Ela própria, a Cosmogonia Perene e Universal – e não só a ciência que trata dela – que é válida para todo tempo e lugar na dimensão do humano, não é nada mais que um símbolo de algo muito  mais amplo que a transcende, já que pode ser concebida e explicada como uma modalidade arquetípica do Ser Universal.

ROD1Roda da Fortuna – Miniatura. Século XII. Arte alsaciana

Pode-se pensar, equivocadamente, que as estruturas simbólicas são meras convenções utilizadas para descrever a realidade. Isso só seria válido na medida em que se aplicasse igualmente a qualquer manifestação, que é sempre uma determinação, uma fixação, começando pela linguagem, pelo verbo. Porém, é óbvio que não há maneira de apreender a realidade senão é por meio do símbolo (linguístico, numérico, geométrico, etc.) e dos códigos que este forma.

O símbolo não é arbitrário, e reflete autenticamente o que expressa, requisito sem o qual seria impossível qualquer relação ou comunicação. Deve-se ter em mente que, por tomar uma forma, constitui uma estrutura na torrente do não-enunciado, na vida larval e caótica do vir a ser. Os antigos conheciam sobejamente esta verdade, e daí o valor criativo que atribuíam à palavra. Ou seja: o sujeito participa de qualquer fato objetivo e portanto o gera; a história de seus ciclos também testemunha esta inter-relação constante. No entanto, a irrealidade do mundo – e do homem – só pode ser observada porque existe, e deve ser, nesse caso, sujeito e objeto de alguma revelação. Os símbolos, como os conceitos ou os seres, são imprescindíveis no plano do Universo, e alguns códigos como o aritmético ou o geométrico, entre outros, não são convenções casuais, mas expressam realidades arquetípicas e formam a base de qualquer estrutura, não só no “exterior” mas também no “interior”. A ponto que de se poder dizer que estas imagens constituem categorias próprias do pensamento, e fazem do homem um autêntico intermediário entre o conhecido e o desconhecido, ou seja: o maior dos símbolos, capaz de unificar por sua mediação a multidão do disperso.

Continua…

Autor: Federico González
Tradução: S. K. Jerez

Fonte: Hermetismo y Masoneria

Notas

[1] – Ver René Guénon: Símbolos Fundamentales de la Ciencia Sagrada, Eudeba, Buenos Aires 1988.

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Anais do Colégio Invisível – I – A Tradição Hermética

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I

A Tradição Hermética

De todas as tradições espirituais conhecidas em Ocidente, a de Hermes, o três Vezes Grande, pode vangloriar-se de ser a mais antiga. Exposta a alterações pelo transcurso do tempo, a Tradição Hermética se arraiga no passado egípcio mais remoto. Ali cai a máscara de Hermes para revelar Thot, o da cabeça de íbis, o primeiro doador do conhecimento à humanidade. Este conhecimento ainda perdura entre nós conservado através de séculos por uma invisível comunidade de adeptos conhecidos e desconhecidos.

Um Deus doador de conhecimento difere muito de um Deus salvador sofredor como Osíris, ou de uma deusa-mãe amante como Ísis. Cada aspecto da divindade apela a um tipo psico-espiritual diferente e cada um deles pode conduzir, por diferentes caminhos, para o mesmo objetivo. O caminho que leva ao conhecimento tem um duplo propósito. Primeiro, ensinar técnicas e práticas para superar as limitações humanas como o trauma da morte e, segundo, estudar a ordem cósmica e trabalhar dentro dela. Quando estes dois objetivos coincidem, temos uma forma de hermetismo.

O mundo clássico sentiu cedo a atração pelo Egito e seus mistérios, ainda que fosse um Egito de passadas glórias. Pitágoras se encontrou entre aqueles que visitaram a “Terra de Chem” para adquirir suas iniciações e incorporá-las à sua própria filosofia. No nível religioso, os cultos egípcios foram introduzidos no mundo clássico com as conquistas de Alexandre, o Grande. O próprio Alexandre era representado portando os chifres do carneiro de Amon, deus de Tebas. Em Roma foi Ísis, cujo culto chegou a ser um dos mais esplêndidos sob os Imperadores. Em Alexandria e outros centros de fala grega surgiu Serápis como um amistoso rival de Zeus, mas foi Thot quem partilhou mais da mente filosófica.

No mito egípcio, Thot é descrito várias vezes como o espírito e inteligência do Criador; deus do saber e da cura, juiz de disputas celestiais e secretário dos deuses; o que pesa as almas dos defuntos. Foi ele quem proferiu as palavras que suturaram os membros divididos de Osíris. Thot inventou números e mediu o tempo. Em sua abstração máxima, Thot foi um Deus de transições, do caos ao cosmos, das disputas ao entendimento, da morte ao renascer, das causas aos efeitos. Mas mais especificamente, era considerado como um Deus de encantamentos, da astrologia e da medicina popular e o mestre–instrutor sobre plantas e minerais.

Tudo isso era trazido por Thot enquanto ia tomando uma aparência grega. O Deus grego Hermes também havia sido um Deus de transições: um demarcador de fronteiras, um guia de almas ao Hades, mensageiro entre o Olimpo e a Terra, patrono de mercadores e ladrões. Quando foi dado o nome de Hermes a Thot, com o epíteto de Trismegisto (“Três Vezes Grande”), este assumiu a aparência de filósofo–rei, recriando, para a época helênica, a memória daqueles homens divinos ou deuses encarnados que haviam educado a raça humana. Existem ressonâncias deles em todo o planeta, como Zoroastro, Fo-hi, Tubalcaim, Quetzalcoátl, Dionísio, Orfeu, etc.

Os escritos gregos atribuídos a Hermes Trismegisto não constituem um cânone mais unificado que o das escrituras judaicas ou cristãs. São uma série de escritos doutrinais e inspirados de vários autores, com variações em torno de alguns grandes temas, tais como: a bondade absoluta de Deus, que é ao mesmo tempo Uno e Tudo; a auto–revelação da Mente divina no cosmos; o universo como uma emanação de seres vivos dentro de uma ordem hierárquica; a constituição única do ser humano como microcosmos; o caminho para a regeneração e o conhecimento direto de Deus. O Corpus Hermeticum expunha novamente estes temas em benefício dos cosmopolitas de fala grega que viviam sob o Império Romano.

Da mesma forma que Thot tinha seu aspecto popular, o Corpus Hermeticum tem seu aspecto apócrifo no qual Hermes se converte em senhor das ciências ocultas, revelador da medicina astrológica e da magia simpática pela qual se atraem influências do céu e se fixam em talismãs. Há um exemplo até no Asclepius, quando descreve como os egípcios infundem deuses em estátuas. Por último, mas não menos importante, a filosofia natural de Hermes e seu conhecimento do oculto se uniram para fazer dele o pai da alquimia, a arte egípcia da transmutação.

A imagem mítica central do Hermetismo aparece no primeiro tratado do Corpus Hermeticum, “Poimandrés, o Pastor dos Homens”. É a descrição da ascensão da alma depois da morte e da rendição de suas energias às sucessivas esferas dos sete planetas. Quando a alma renunciou a todas elas, pôde então atravessar a Oitava Esfera (as Estrelas Fixas) e unir-se à companhia dos Benditos. Esta é uma versão cósmica da ordália descrita no Livro dos Mortos dos egípcios (ou a “Saída à Luz do Dia”), onde a alma deve atravessar os diversos corredores do outro Mundo e ser contrapesada com uma pluma em uma balança antes de poder ingressar ao Paraíso de Osíris.

O aspecto filosófico do Hermetismo se baseia na doutrina das correspondências. Na ascensão Hermética, cada planeta corresponde a determinado poder da alma: Mercúrio à inteligência, Vênus ao desejo, Marte à ira, etc. Assim, o ser humano é um microcosmos que contém, em pequena escala, as mesmas energias que o macrocosmos. Se imaginarmos a Terra no centro do universo, a alma adquiriu essas energias em sua viagem descendente (ou interior) das regiões celestiais através das esferas planetárias e surge na vida terrena através do ventre materno, cheia de potencialidades e tendências que são delineadas por seu horóscopo natal. Durante a vida, a alma trabalha com estas potencialidades com a esperança de refiná-las para que surjam como virtudes. Caso atinja seu objetivo, ao abandonar seu corpo na morte torna-se luz e, desembaraçada, está pronta para ascender (ao exterior) para o seu lugar de origem. Se ao contrário, as energias se transformaram em vícios, então a viagem ascendente se tornará difícil e a alma poderia permanecer presa na atmosfera da Terra, um tormento para ela mesma e um veneno para suas companheiras.

A doutrina Hermética geralmente é entendida assim. Não obstante, segundo as escolas modernas de alquimia, que romperam com o estrito secretismo do passado, não sobra nada das almas da maioria das pessoas, pois foram filtradas pelas esferas planetárias. A maior parte delas será extinta como personalidade pouco depois da morte, e talvez reciclada como pessoas totalmente diferentes. Simplificando: não existe garantia alguma acerca da imortalidade pessoal, apesar do que possam dizer em contrário as doutrinas consoladoras.

A ambição do adepto seria sobreviver a essa dissolução geral e, se voltasse a encarnar, fazê-lo só por eleição deliberada e não por aprisionamento a um processo natural, como o resto das pessoas. Para atravessar além dos limites do cosmos (simbolizado pela esfera estelar) e entrar conscientemente em outra forma de vida, o adepto deve ter forjado durante sua vida um “corpo radiante” como veículo para a sua individualidade. Diz-se que este processo é puramente científico e não tem nada que ver com a fé ou a religião. As técnicas requeridas foram ensinadas em escolas muito restritas e, de várias formas, adaptadas às diferentes culturas do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul.

Conhecer esta corrente hiper–esotérica facilita a compreensão da alquimia. Na alquimia operativa ou física, o forjamento do corpo radiante acontece em paralelo com eventos químicos, e seu término é marcado pelo surgimento da Pedra Filosofal. Há evidentemente objetivos intermediários que são considerados dignos de serem alcançados: o assunto é extremadamente complexo. Alternativamente, a alquimia pode ser totalmente interna, consistindo de meditações, exercícios de respiração, magia sexual, etc.

Mas seria um grave erro supor que só a vida do adepto vale a pena, já que apenas ele consegue a imortalidade pessoal. Em certo sentido, o objetivo do adepto é contrário à Natureza e, como toda ciência é amoral, poderia preservar personalidades que, do nosso ponto de vista, são más. (A versão esotérica do “mito da sobrevivência hitleriana” é um caso).

O Hermeticismo não se limita a isto. Contrariamente às filosofias que dão as costas ao mundo, ele aceita e abraça jubilosamente todo o processo de in–carnação e ex–carnação. Devido ao fato de que o mundo físico está imbuído de influências celestiais, ele constitui um lugar de beleza e maravilha. A Natureza é um livro onde se pode ler a Sabedoria da Mente Divina. Recordemos que Thot estava relacionado ao conhecimento útil: as artes e as ciências que melhoram a qualidade da vida como a música, a matemática e a escrita. Obviamente, a própria alquimia teve início com a tecnologia dos metais. Quando a mera existência animal se eleva devido às artes e às ciências, e as pessoas se tornam conscientes da Mente Divina através das obras da Natureza, é porque os dons de Thot estão dando fruto.

Depois do Império Romano, o Hermetismo, ou as doutrinas do Corpus Hermeticum, se expandiram para o Hermeticismo, termo mais amplo que abrange muito da tradição esotérica do Ocidente. As três religiões abraâmicas encontraram um espaço para ele, ainda que às vezes mesquinhamente. Entrou no Islã graças aos sábios de Harron (na Turquia, perto da fronteira com a Síria), centro da antiga indústria do cobre e de uma seita que misturou a adoração das estrelas com o neopitagorismo, neoplatonismo e com a alquimia prática. Seus patronos, Hermes e Agathodaimon se transformaram nos profetas muçulmanos Idris (= Enoch) e Seth. Por mais de um século, Harron foi também a sede de uma escola de tradutores que se especializou em matemática e astronomia grega, transmitindo assim muito da tradição pitagórica ao mundo muçulmano. No século X, a Irmandade da Pureza de Basra (Iraque) compilou uma enciclopédia de todas as artes e ciências, incluindo a teúrgia e a magia, que foi estudada pelos druzos, pela seita dos assassinos e pela maioria das escolas sufis. Atualmente, ainda é lida. Dessa forma, o Hermeticismo foi passado ao verdadeiro coração do esoterismo islâmico.

No judaísmo, a influência hermética surgiu na Cabala. O breve e fundamental texto cabalístico Sepher Itsirah (o “Livro da Formação”, século III d. C.?) expõe uma cosmologia baseada na doutrina de correspondências, especialmente a do septenário dos planetas, dias da semana, aberturas da cabeça, etc. e a do dodecanato do zodíaco, das direções do espaço, dos meses, dos órgãos do corpo, etc. Descreve um cosmos não separado entre o bem e o mal, mas suspenso na polaridade por energias positivas e negativas. O método de salvação é por meio da tomada de consciência de si mesmo como microcosmos, estando o “Rei em seu Trono” (a presença divina) no centro da vida. De novo, temos uma doutrina que afirma a natureza e o corpo, e que está dedicada à realização do macrocosmos no microcosmos. A ideia esotérica de Israel também é uma ideia hermética: a de que os judeus são chamados a dar testemunho da ordem divina na Terra. Da mesma forma que no Hermetismo, a Terra, incluindo o corpo humano, está cheia de influências celestes, e assim a forma de vida judaica está projetada para assegurar que toda ação leve um significado espiritual.

Em Bizâncio, o Corpus Hermeticum foi preservado pela escola de Pselos sob a bandeira do neoplatonismo e daí passou para a Itália, e teve um novo ímpeto. A tradução latina de Marcílio Ficino foi apresentada a Cosme de Medici em 1463 e, no século e meio seguinte, marcou o mundo intelectual. A ideia de que Deus havia falado não só aos judeus, mas também aos pagãos, conduziu, em círculos seletos, à renovação de um sentido religioso universal, como o que existiu pela última vez sob o Império Romano. O Hermetismo serviu como campo neutro tanto a protestantes como a católicos. O Hermeticismo, ou a busca da alquimia e das outras ciências ocultas às quais o Hermetismo provê o suporte intelectual, floresceu como nunca antes.

Devido ao fato de ser essencialmente um ensinamento cosmológico e prático em vez de uma teologia, o Hermeticismo pode coexistir com qualquer uma das religiões abraâmicas. Seu antecedente histórico, contrário ao dessas últimas, está livre de intolerância e derramamento de sangue. A forma de vida hermética, que é ciência, contemplação e auto refinamento, não entra em conflito com a fé ou com as práticas religiosas. Por essas razões, o terreno hermético é um lugar de confluência ideal para cristãos, judeus, muçulmanos e para aqueles de outras religiões ou de nenhuma delas. Oferece uma análise da condição humana dentro do cosmos e uma variedade de métodos para fazer o melhor uso dessa condição.

A Maçonaria foi a criação mais duradoura da Tradição Hermética no Ocidente, levando-a através da era do ceticismo e do cientificismo. O simbolismo maçônico é totalmente hermético, mesmo quando não é obviamente egípcio. A imagem do grande Arquiteto do Universo fazendo os homens como pedras brutas para serem lavradas até se tornarem blocos perfeitos do Templo Cósmico remonta ao Demiurgos de Platão (não confundi-lo com o enganoso Demiurgo do gnosticismo). As etapas da iniciação estão, como os passos na ascensão Hermética, cheias de simbolismo planetário. A regra que evita qualquer discussão religiosa em loja elimina um dos principais obstáculos para a irmandade do homem: a discórdia sectária.

Autor: Joscelyn Godwin
Tradução: S.K.Jerez
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