Origem e evolução dos Cargos em loja da Maçonaria e dignidades maçônicas na Grã-Bretanha do século XVII até nossos dias – Parte III

Avental Provincial De Chester - Colecionador - Maçonaria | Mercado Livre

III – As Grandes Lojas provinciais

Desde meados do século XIX, existem Grandes Lojas provinciais na Inglaterra. Estas Grandes Lojas são dirigidas pelos Grãos Mestres Provinciais (nomeados pelo Grão-Mestre) e os Oficiais provinciais que usam decorações comparáveis às dos Oficiais da Grande Loja Unida da Inglaterra, com a famosa “liga azul”, o azul da Ordem da Jarreteira. As Grandes Lojas Provinciais cobrem todo o país, com exceção da região de Londres administrada diretamente pela GL. Esta particularidade destaca a verdadeira função dessas Grandes Lojas. De fato, para entrar no cursus honorum da maçonaria inglesa deve-se necessariamente começar pelo escalão provincial. Como os irmãos de Londres não contavam com isso, foi criado para eles no início do século, o “London Rank” e depois o “London Grand Rank,” que são o equivalente exato de uma dignidade de Grande Oficial provincial na jurisdição de Londres. Todos os anos são criados cerca de sessenta “Active Grand Rank” e cerca de 200 “Past Grand Rank[10], que envergam, evidentemente, a “liga azul”. Assim, constata-se que os cargos provinciais (ou seus equivalentes) são usados essencialmente para outorgar honras maçônicas[11] a irmãos que, por definição, são todos Past Masters. As Grandes Lojas provinciais, portanto, têm um papel muito mais honorífico que administrativo[12].

História das dignidades de Grandes Lojas Provinciais

Nas Constituições de 1738, não encontramos nenhuma provisão relativa aos Grandes Oficiais Provinciais (e muito menos aos Grãos Mestres Provinciais), embora saibamos que eles já existiam. Mas, o fato de que havia Grãos Mestres Provinciais não significa em absoluto que havia Grandes Lojas Provinciais. A distinção pode ser sutil, mas não deixa de ser real. Os Grãos Mestres provinciais realmente apareceram antes das Grandes Lojas provinciais.

Muito cedo na história da maçonaria inglesa, nomeavam-se dignitários para representar o Grão-Mestre nas províncias. Estes representantes eram titulares de uma missão que lhes era confiada pessoalmente (eram os Grãos Mestres Adjuntos para as províncias), mas eles não estavam no comando de uma estrutura administrativa regional com que tivessem de se ocupar.

Isso de fato permite entender, de passagem, uma expressão ambígua e muitas vezes citada das Constituições de 1738, sobre países estrangeiros:

“todas as lojas estrangeiras [isto é, fora da Inglaterra] estão sob o patrocínio do nosso GM, mas a antiga loja da cidade de York e as lojas da Escócia, Irlanda e France[13] e Itália[14] assumindo que tenham sua independência [affecting independency] e seu próprio Grão-Mestre, e que tenham a mesma constituição, os mesmos deveres e as mesmas regras que nós e que elas tenham o mesmo zelo com o estilo da Augusta e o segredo de nossa antiga e honrosa fraternidade.”

Este texto nos ensina que, na época de Anderson, havia dois tipos de Grão-Mestre. De um lado, havia Grãos Mestres colocados no comando de Grandes Lojas “presumindo sua independência” em relação a Londres e, de outro lado, Grãos Mestres nas províncias inglesas sob o controle do Grão-Mestre da Inglaterra. Esses últimos eram Grãos Mestres intuitu personnae, como pessoa, e, portanto, não estavam à frente de Grandes Lojas provinciais em sentido estrito do termo. Assim, a expressão “affecting independency” não é uma contestação dessa independência por Londres, como alguns autores estimaram imprecisamente, mas a constatação de uma situação diferente da que prevalece na Inglaterra, onde os Grãos Mestres Provinciais dependem diretamente do Grão-Mestre.

A primeira referência oficial aos Grãos Mestres Provinciais na Inglaterra encontra-se nas atas da Grande Loja em 1747. Naquela época, na hierarquia das dignidades, eles ficavam depois[15] dos Primeiros Grandes Vigilantes e antes do Grande Tesoureiro.

Em 1756, no livro das Constituições chamadas “d’Entick” (1ª edição), definem-se regras específicas relativas aos Grãos Mestres. Lê-se:

“O cargo de Grão-Mestre Provincial foi considerado particularmente necessário desde o ano de 1726 [note-se que não se pretende que existissem então Grandes Lojas Provinciais], quando do aumento extraordinário do número de obreiros [ou seja, de homens do Oficio], e suas viagens às vezes a partes mais remotas do mundo, a necessidade de que eles tenham à sua disposição uma autoridade própria.”

Isto se dá devido ao afastamento dos irmãos da metrópole que foi criado o cargo de Grão-Mestre Provincial para lhes dar um chefe por delegação. O Artigo II dessas Constituições afirma que “a nomeação deste Grande Oficial é uma prerrogativa do Grão-Mestre que lhe outorga sua delegação”, e que “o Grão-Mestre Provincial assim delegado tem o poder e a honra de um Grão-Mestre Adjunto”.

Em 1756, a instituição dos Grãos Mestres Provinciais está bem integrada na maçonaria inglesa e seu lugar na hierarquia é elevado: o Grão-Mestre Provincial situa-se na terceira posição, logo atrás da Grão-Mestre Adjunto. Note que mesmo neste texto de 1756, não há menção alguma de Grandes Lojas provinciais nem de oficiais provinciais. Ser Grão-Mestre Provincial é especialmente possuir um título equivalente ao de um Grão-Mestre Adjunto.

Em 1767, na 4ª edição das Constituições d’Entick, o artigo II é modificado:

“O Grão-Mestre Provincial assim delegado fica investido do poder e a honra de um Grão-Mestre em seu distrito particular e tem o direito de usar as decorações de um Grande Oficial, estabelecer lojas em sua própria província e em qualquer reunião pública, de marchar logo atrás do Grande Tesoureiro. Ele também tem o poder de nomear um Adjunto, vigilantes, um tesoureiro, um secretário, um porta-espada, que estão qualificados para usar as decorações de Grandes Oficiais quando eles oficiarem como tal naquele distrito particular, mas em nenhum outro lugar”.

Nessa época, começa então a se constituir em torno do Grão-Mestre Provincial, uma equipe de Grandes Oficiais. É o início de estruturação.

Nas Constituições de Noorthouck de 1784, os Grandes Oficiais são finalmente claramente identificados como elementos essenciais para o funcionamento de uma Grande Loja Provincial.

Assim, no período anterior à União de 1813, pode-se distinguir duas fases:

  1. A fase de 1726 a 1767, durante o qual há Grãos Mestres Provinciais, sem que se faça alusão às Grandes Lojas provinciais nem a Grandes Oficiais provinciais;
  2. A fase de 1767-1813, onde os Grãos Mestres provinciais adquirem o poder de nomear Grandes Oficiais Provinciais. Isso pressupõe uma espécie de Grande Loja Provincial, embora o termo não apareça ainda nos textos. Neste momento, a Grande Loja Provincial não está claramente definida e não tem ainda realmente estrutura nem poder.

A partir da União de 1813, a nova Grande Loja Unida da Inglaterra se constitui. As Constituições William (de 1815-1827) precisam então que o Grão-Mestre Provincial “detém [isto é, preside] uma Grande Loja Provincial, pelo menos uma vez por ano”. Mas ainda não se define o que é esta famosa Grande Loja Provincial.

Nos anos que se seguiram, as Grandes Lojas provinciais adquirem sua forma definitiva. Elas devem reunir-se uma vez por ano, os Oficiais provinciais passados e ativos devem estar presentes ali, bem como os Veneráveis, os Past Masters e os Vigilantes de todas as lojas individuais.

Uma Grande Loja Provincial aparece como a reunião de Grandes Oficiais provinciais (com poderes imprecisos), as quais se juntam todos os Veneráveis e Vigilantes em seu distrito. Esta prática é muito antiga, como é observado em York, e em Chester desde a década de 1730. Naquela época, alguns Grãos Mestres Provinciais já detinham o equivalente a uma Grande Loja Provincial. Eram, na verdade, reuniões com periodicidade indeterminada ocorrendo dentro da loja mais antiga em operação na região. Nessa reunião, e durante os trabalhos, a loja e os seus oficiais tinham uma função provincial. Note-se que é assim que funcionava a Grande Loja dos “Antigos” durante os três primeiros anos de sua existência. De 1751 a 1753, o que ainda era chamado de “Grande Comissão” (antes de se tornar a Grande Loja dos “Antigos”, considerando que eles não se erigiam como uma “Grande Loja” até que ela tivesse encontrado um irmão nobre para a presidir como Grão-Mestre) reunia-se anualmente em uma loja designada por antiguidade e era presidida pelo Venerável desta loja, que agia como Grão-Mestre pro tempore[16].

A organização das províncias é o último ato na evolução das dignidades maçônicas inglesas. A existência desses escalões provinciais não impedia a Grande Loja Unida da Inglaterra de ser muito centralizado e muito hierarquizada. A história dessas Grandes Lojas provinciais mostra bem que se tratava sobretudo no início, de dar dignidades a certos irmãos. Isto é particularmente notório com o caso da região de Londres, onde foram criados a partir do zero um substituto para as dignidades provinciais. As Grandes Lojas provinciais são assim menos um escalão administrativo que um escalão de dignidades intermediário entre as dignidades de uma determinada loja e as da Grande Loja Unida da Inglaterra. Este elemento tardio é certamente devido ao grande desenvolvimento da maçonaria Inglesa no século XIX.

Conclusão

A formação do sistema de dignidades e de cargos da loja no sistema Inglês é algo complexo e ainda parcialmente obscuro. No entanto, podemos identificar dois fatos importantes.

  1. Embora os cargos e dignidades de uma loja inglesa dos anos 1720 fossem fortemente influenciados pela herança escocesa (no vocabulário e na estrutura), o fato é que inovações importantes foram introduzidas (por exemplo, a aparição de dois vigilantes, ou a do diácono);
  2. É provável que alguns cargos de lojas particulares (por exemplo, o Tuileur ou Cobridor Externo) já existiam na Grande Loja antes de serem introduzidos em loja. Este relacionamento da Grande Loja e das lojas individuais coloca a questão do status real da Grande Loja fundada em 1717. Era ela uma potência reguladora, ou era simplesmente a reunião de lojas, uma vez que é provável que tenha sido só mais tarde, por volta de 1721-1723, com a entrada da aristocracia na maçonaria inglesa que Grande Loja tornou-se um poder que se impunha às lojas individuais? Assim, os novos cargos, que parecem necessários nestas grandes reuniões, poderia então ser introduzidos naturalmente nas lojas.

Autores: Roger Dachez e Thierry Boudignon

Tradução: José Filardo

Fonte: Bibliot3ca Fernando Pessoa

Notas

[10] – Portanto, existem dois tipos de oficiais provinciais: os “Active Grand Officers” e os “Past Grand Officers”. Este último status tem, na verdade, como função recompensar alguns irmãos. Para obtê-lo, não é necessário ter exercido as funções correspondentes. Entretanto, quando se o obtém, desfruta-se dos mesmos benefícios (condecorações etc.) que aqueles que realmente exerceram…

[11] – E, em teoria, também instalar lojas. Mas, na maior parte das vezes, o GM provincial delega esse encargo ao GM Adjunto, que por sua vez delega aos GM Assistentes que, eles mesmos, o confia aos Veneráveis ​​Mestres da região.

[12] – A administração local real é conduzida pelas Lojas de Mestres instalados, uma verdadeira estrutura que são clubes regionais de Veneráveis.

[13] – Sabemos que os três primeiros GGMM da Maçonaria Francesa (o Duque de Wharton, Mac Leane, Lord Derwentwater) eram anglo-saxões. No entanto, não podemos considerá-los “representantes” do GM da Inglaterra pela simples razão de que eles haviam sido eleitos pelos irmãos franceses. Além disso, essas lojas eram provavelmente mais franco-escocesas que franco-inglesas. Esta é a oportunidade de esclarecer que a famosa “GL Inglesa da França”, cara para alguns “historiadores” nunca existiu. Trata-se simplesmente de uma falsificação do Cavaleiro de Beauchaine (ou Beauchesne).

[14] – A primeira excomunhão de maçons pelo papado veio, entre outras coisas, da presença de lojas na Itália.

[15] – Lembremo-nos que no protocolo maçônico de costume, são os mais altos na hierarquia que são os últimos.

[16] – A LNF funciona hoje dessa forma.

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O desenvolvimento da arquitetura gótica a partir da filosofia escolástica – Parte II

O estilo gótico | M4
Catedral Basílica de Saint Denis

IV.1. A influência da filosofia escolástica sobre a arquitetura gótica

Nos anos 50 do século XX o pesquisador Erwin Panofsky expôs uma tese que estabeleceu uma inusitada ligação entre a filosofia escolástica e a arquitetura gótica. É sabido que ambas surgiram paralelamente no mesmo espaço geográfico, no caso o norte de Paris, e no mesmo período de tempo, aproximadamente entre os séculos XII e XIII. Panofsky vê nesta coincidência temporal e espacial dos dois eventos mais do que uma simples casualidade e defende a existência de uma relação mais concreta que a simples sincronia no tempo e no espaço. Aponta, entre outros fatores, uma provável influência de conselheiros escolásticos sobre os artistas e mestres [23] góticos.

No entanto, o autor vai além e chega a uma conclusão mais profunda, defendendo a hipótese de que esta influência, muito mais do que de forma direta e individual, se deu genericamente, através do que ele chama de “hábito mental”. Este conceito é entendido por Panofsky como “um princípio que rege a ação” e o autor sustenta seu pensamento com a simples constatação histórica de que “a escolástica detinha o monopólio da formação intelectual naquele âmbito restrito”.[24]

Em geral, a educação espiritual deslocou-se das escolas monásticas para instituições mais urbanas que rurais, de caráter antes cosmopolita que regionalista e, por assim dizer, apenas semi-eclesiásticas, a saber: as escolas catedrais, as universidades e as studia das novas ordens mendicantes que surgiram quase todas no século XIII e cujos membros desempenharam papel de crescente importância mesmo nas universidades.[25]

Isto é, a educação e a produção de conhecimento não estavam mais restritas à clausura dos mosteiros. Deixava de existir o isolamento natural das práticas intelectuais que passaram então a acontecer também nas cidades.

Podemos imaginar em qual clima psicológico e intelectual passou a existir a arquitetura gótica: dentro da cidade, envolta pela fé e pela razão, com a missão de substituir uma arquitetura que não satisfazia mais à religiosidade católica, que agora contava com um complexo sistema filosófico como respaldo teológico e intelectual. Neste sentido, devemos atentar para as observações de Maria Gozzoli:

[…] a escolástica – que enquadrava harmoniosamente todo o saber do tempo e afirmava a possibilidade de ascender a Deus não só pela fé, como pela razão. Chegava-se a Deus por um esforço de pensamento, complexo mas requintado, rigidamente formal mas rico de sutilezas: esses mesmos conceitos que, em arquitetura, inspiraram as catedrais góticas, a sua ascensão para Deus através de construções complexas mas requintadas, formalmente rigorosas, mas de igual modo ricas de pormenores.[26]

Aqui, as palavras-chave são: harmonia e ascensão; fé e razão; complexidade e requinte; formalidade e sutileza. São palavras que podem ser usadas tanto para caracterizar a escolástica quanto o gótico. Mais uma vez nos parece evidente a relação entre os dois fenômenos.

E sobre este contato, entre os mestres-construtores e os clérigos com os quais tinham que trabalhar, todos mergulhados em uma nova ambientação intelectual, Panofsky diz:

É pouco provável que os arquitetos do gótico tenham lido Gilberto de la Porrèe ou Tomás de Aquino no original. Mas entraram em contato com o ideário escolástico por inúmeros outros, sem perceber que, por força de sua atividade, tinham de trabalhar com quem esboçava os programas litúrgicos e iconográficos. Haviam frequentado a escola, tinham ouvido sermões e podiam acompanhar as disputationes de quolibet que tratavam de todas as questões imagináveis da atualidade e que se haviam transformado em eventos sociais, comparáveis a nossas óperas, concertos e conferências públicas.[27]

É feita uma ressalva: os mestres provavelmente não manusearam os livros que continham toda a essência do pensamento escolástico. Mas teriam sido fortemente influenciados por esta aura escolástica que dominava todo o ambiente. A escolástica estava no ar e os arquitetos do gótico estavam inseridos neste contexto.

IV.2. Completude, ordenamento e clareza

Existem três exigências mínimas e fundamentais para que se cumpra aquilo que é denominado pelos estudiosos de esquematismo ou de formalismo escolástico. A clareza é algo buscado incessantemente nos textos escolásticos e para se atingi-la de modo satisfatório deve-se utilizar: a completude, que é a enumeração suficiente – nem mais, nem menos – das questões a serem abordadas; o ordenamento seguindo o esquema de “partes das partes”, como forma de bem estruturar a exposição; e, obviamente, a clareza e força probatória, entendidas aqui como uma relação suficiente de reciprocidade entre o que se mostra e o que se comprova a partir disso. Como complemento a estes pré-requisitos para a correta exposição escolástica há ainda as similitudines de Tomás de Aquino, ou seja, uma espécie de analogia, com o uso de palavras adequadas, visando à melhor compreensão dos conceitos expostos.

É nesse sentido que, ao observarmos a estrutura de uma catedral gótica, podemos aplicar o conceito escolástico de completude, pois não há nada sobrando, nem nada que falte. Elementos como a cripta, as galerias, e as torres, com exceção daquelas frontais, foram eliminados, em nome da clareza e da síntese exata de todo o conhecimento cristão, seja no aspecto teológico, como também no natural, histórico e moral.

Da mesma forma é facilmente observado um “princípio de divisibilidade progressiva”, que consiste em uma homologia entre as partes que constituem uma construção gótica, demonstrando assim que todas as partes que compõem a estrutura situam-se dentro de um mesmo nível lógico. O exemplo mais claro dessa divisão progressiva, que pode sem dúvida ser associada à esmerada divisão e subdivisão de um tratado escolástico bem estruturado, está nos

[…] suportes [que] eram divididos em pilar principal, colunas adossadas, colunas adossadas secundárias e colunetas novamente subordinadas a estas últimas; a caixilharia das janelas, os trifórios e as arcadas cegas eram divididas em suportes e perfis de primeira, segunda ou terceira ordem; nervuras e arcos eram subdivididos numa série de perfis.[28]

Desta forma, assim como estamos habituados a fazer divisões sucessivas em um trabalho acadêmico, de forma a deixá-lo claro e organizado, os construtores, por influência da escolástica, aplicaram o mesmo princípio às suas catedrais.

IV.3. Manifestatio e concordantia

Em relação às duas premissas básicas da escolástica, aplicadas à arquitetura das catedrais góticas em seu apogeu, Panofsky diz:

Enquanto o primeiro, a manifestatio, nos ajuda a entender a imagem fenomênica da arquitetura clássica do apogeu gótico, o segundo, a concordantia, ajuda a compreender a gênese do apogeu gótico clássico.[29]

Ou seja, a manifestatio, compreendida como a maneira clara de explicitar os conteúdos relacionados à fé cristã à luz da razão, determinou a mesma clareza de linhas e divisão dos elementos constitutivos de uma obra arquitetônica gótica. Como exemplo, Panofsky cita o portal central da fachada ocidental da catedral de Notre-Dame em Paris, com os doze apóstolos representados em divisões simétricas de dois grupos no tímpano da catedral. A simetria, sem dúvida alguma, era algo caro aos escolásticos e manifestou-se também na arquitetura gótica.

Já a concordantia, em se tratando da necessidade de conciliação de “possibilidades contraditórias” presente na filosofia escolástica, expressa em sua forma mais completa através do método de Abelardo de Sic et Non[30] até chegar-se a uma síntese, uma solução, parece ter sido outro fator a influenciar a arquitetura gótica. Resumidamente, este método consistia em aceitar as possíveis contradições dos textos de autoria de filósofos, dos padres da Igreja e até mesmo das escrituras sagradas. No entanto, como passo posterior à aceitação da existência destas contradições, passava-se então a tentativa de conciliá-las, que se dava através do método de arrolamento de uma série de autoridades (autorictates) em uma espécie de conjunto (videtur quod) que era colocado em oposição a outro rol de autoridades (sed contra). Como resultado deste confronto entre duas autoridades com comentários opostos, conflitantes, a respeito de um tema, era produzida como solução a respondeo dicendium.

Um fato notório que demonstra de maneira bastante convincente esta relação, levando-se em consideração que as construções românicas do passado aqui funcionavam como auctoritas, é a solução definitiva que os mestres-construtores encontraram para alguns problemas típicos da origem da arquitetura gótica. São três quaestiones cruciais, que, ao serem resolvidas definitivamente, caracterizaram e diferenciaram de vez esta nova forma de arquitetura em relação às construções românicas de antes. As quaestiones que tiveram então o seu respondeo dicendium dado pelos arquitetos góticos foram: a rosácea na fachada ocidental, ao substituir a janela que sempre existiu por uma estrutura circular que era estranha ao gosto gótico; a estrutura da parede debaixo do clerestório, com a criação do trifório que conjugou o Sic românico de Caen com o Non gótico de Amiens; e a conformação dos pilares da nave central, que deixaram de ser somente associados a formas angulares e passaram a utilizar o núcleo cilíndrico[31]. É importante destacar que Panofsky defende que todas essas mudanças ocorreram – ainda que sendo sabida a importância do hábito mental criado pela filosofia escolástica – de forma consciente, sendo aplicadas de forma racional pelos mestres-construtores.

De acordo com Panofsky [32], a influência do princípio da concordantia sobre as obras do apogeu do gótico é tão grande que “a dialética escolástica desenvolveu o pensamento arquitetônico a um ponto em que ele quase deixa de ser arquitetônico”. É quase como afirmar que os construtores das catedrais não estavam construindo igrejas, mas fazendo filosofia em pedra e vidro.

Continua…

Autor: Eduardo Pacheco Freitas

Fonte: Revista Nuntius Antiquus

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Notas

[23] – Mestre era o nome que se dava ao arquiteto neste período.

[24] – Cf. Panofsky op. cit., p. 14-15.

[25] – Cf. Panofsky op. cit., p. 15.

[26] – Cf. Gozzoli, op. cit., p. 8-9.

[27] – Cf. Panofsky op. cit., p. 15.

[28] – Cf. Panofsky op. cit., p. 34.

[29] – Cf. Panofsky op. cit., p. 46.

[30] – Famoso tratado onde Abelardo arrola 158 itens importantes, desde suicídio até concubinato, que são confrontados, em uma relação dialética, a partir de visões conflitantes das autoridades e conciliados por fim. Entre outras, a importância deste texto está em demonstrar claramente a visão dos escolásticos e que a fé poderia buscar apoio na razão.

[31] – Para um maior aprofundamento no tema, recomendamos a leitura do capítulo V de Arquitetura gótica e escolástica, onde Panofsky examina detalhadamente todas estas
novas características da arquitetura gótica, comparando-as com os valores da arquitetura românica e demonstrando a relação da filosofia escolástica com a resolução destes problemas.

[32] – Cf. Panofsky op. cit., p. 62.

A interpretação e o entendimento dos símbolos – 2ª Parte

As-duas-colunas.-Louça-La-Rochelle

2- Simbologia

Os símbolos, aliados às metáforas e a prática da analogia, sempre foram utilizados na transmissão de informações e mensagens, principalmente aquelas que são consideradas religiosas ou até mesmo esotéricas. Assim foi com o cristianismo ao longo de sua evolução, e também com a imensa maioria das religiões que existem na atualidade ou que já existiram.

Uma cerimônia religiosa ou ritual é um exemplo prático da riqueza representada pelos símbolos, bem como da sua utilização, assunto a que fazemos referência neste trabalho.

A cerimônia religiosa desempenha um papel importante em todas as religiões (…) invoca-se ou louva-se um deus ou vários deuses, ou ainda manifesta-se gratidão a ele ou a eles. Tais cerimônias religiosas, ou ritos, tendem a seguir um padrão bem distinto, ou ritual.” (HELLERN, op. cit., p. 25).

Ao analisarmos o conjunto das cerimônias pertencentes e próprias de uma religião, qualquer que seja ela, conhecido também como culto ou liturgia, encontraremos aí o maior número das representações simbólicas desta mesma religião:

A palavra culto (do verbo latino colere ‘cultivar’) é empregada em geral para significar ‘adoração’, mas na ciência das religiões é um termo coletivo que designa todas as formas de rito religioso.” (Idem).

O objetivo do culto é procurar promover ou mesmo estabelecer um contato efetivo entre o fiel, a pessoa que crê, e o sagrado, o divino, o sobrenatural, enfim um contato com Deus ou ainda com os deuses cultuados. Neste ponto é que reside a sua maior representação simbólica. A prática dos cultos costuma ser efetivada em locais que também são considerados dotados e revestidos por um profundo valor simbólico, como os templos, as mesquitas, as igrejas e as sinagogas. Procurar explicitar e analisar as causas do surgimento das religiões e do misticismo entre os homens, neste trabalho, seria uma realização com certeza de extrema importância e utilidade. Porém, acabaríamos por certo fugindo ao objetivo central e principal deste trabalho que se apresenta como sendo o de procurar estudar e entender a forma de utilização e também a utilidade dos símbolos e da linguagem simbólica.

Cabe-nos também aqui procurar destacar que a Ordem Maçônica, ou simplesmente Maçonaria, não é todavia e muito menos pode vir a ser encarada como uma religião. Nem mesmo pode ser considerada um sociedade dogmática. A Maçonaria, porém, utiliza-se em seus diversos rituais e em sua simbologia própria, de influência de muitas outras religiões e seitas que existiram ou ainda existem no mundo. Esse aspecto em particular da Ordem Maçônica, já foi também afirmado por José Castellani em diversas oportunidades:

“Embora a Maçonaria não seja uma religião e nem seja uma ordem mística, ela utiliza, em seus rituais, na sua simbologia e na sua estrutura filosófica e doutrinária, os padrões místicos de diversas seitas, associações e civilizações antigas, principalmente os relativos às religiões e às ordens iniciáticas de cunho religioso daqueles povos que representaram o alvorecer das civilizações e que se concentravam, desde o século V a. C., em torno dos rios Tigre e Eufrates e do Mar Mediterrâneo. […] (A Maçonaria) nascida em sua forma moderna, nas asas das aspirações liberais e libertárias dos povos subjugados pelo poder real absoluto e pelos privilégios do clero, ela, também, é liberal e libertária, evolutiva e adaptável às épocas, racional e democrática. Para armar todavia, a sua doutrina moral, ela buscou o simbolismo nascido da mística de civilizações perdidas na noite dos tempos; e o simbolismo, fonte de espiritualidade oculta, será, sempre, por mais que a cibernética e a materialidade dominem o mundo, uma LUZ no caminho da humanidade.” (CASTELLANI: 1996. p.92)

3 – Condições para o entendimento dos Símbolos

Sobre a interpretação e o correto entendimento dos símbolos, bem como dos próprios ritos ou rituais, quer sejam eles religiosos ou mesmo filosóficos, Fernando Pessoa teceu algumas poucas, mas mesmo assim muito importantes considerações. Cabe, no entanto ressaltar, antes de qualquer outra consideração, que Fernando Pessoa é um dos mais importantes escritores da língua portuguesa de todo o século XX. Segundo ele próprio, que por diversas vezes claramente destacou, nunca pertenceu a Maçonaria, apesar de nutrir por esta instituição um profundo respeito, consideração e apreço. Em um artigo jornalístico, intitulado “Associações Secretas: Análise Serena e Minuciosa a Um Projeto de Lei Apresentado ao Parlamento”, e publicado no Diário de Lisboa no início do ano de 1935, Fernando Pessoa faz uma defesa e uma apologia muito bem fundamentada da Maçonaria e dos direitos do homem. Porém ele procura enfatizar de maneira bastante clara a sua condição de não maçom, destacando as dificuldades advindas de tal condição. Ele destaca as barreiras e limitações naturais que são encontradas por aqueles que não pertencem à Ordem Maçônica, para pesquisar sobre os seus conteúdos e os seus muitos mistérios:

Não sou maçom, nem pertenço a qualquer outra Ordem semelhante ou diferente. Não sou, porém, anti-maçon, pois o que sei do assunto me leva a ter uma ideia absolutamente favorável da Ordem Maçônica (…) assunto muito belo, mas muito difícil, sobretudo para quem o estuda de fora.” (PESSOA, 1935, passim).

Fernando Pessoa em uma nota preliminar ao seu livro “Mensagem”, disponibilizado no site da Loja São Paulo nº 43 (http://www.lojasaopaulo43.com.br/referencias.php), nos coloca aquelas que seriam consideradas como as cinco condições básicas ou qualidades necessárias para a mais perfeita interpretação e compreensão dos símbolos:

O entendimento dos símbolos e dos rituais (simbólicos) exige do intérprete que possua cinco qualidades ou condições, sem as quais os símbolos serão para ele mortos, e ele um morto para eles.” (PESSOA: 2003, passim)

Estas cinco condições ou qualidades fundamentais ao entendimento dos símbolos e da linguagem simbólica e que são expostas, listadas e qualificadas por Fernando Pessoa, seriam as seguintes:

  • Simpatia;
  • Intuição;
  • Inteligência;
  • Compreensão;
  • Graça ou Revelação.

Simpatia

Em primeiro lugar, por simpatia, devemos entender e procurar compreender a afinidade e a atração natural que sentimos pelo símbolo que nos é apresentado. Parece-nos óbvio que somente um símbolo que promova uma atração para o interprete e que lhe pareça simpático, poderá transmitir alguma mensagem que lhe sirva como um ensinamento.

Como uma das muitas provas desta colocação, apresentamos o caso que é representado pela “Cruz Suástica”, que foi usada como um símbolo, dístico e emblema pela Alemanha Nazista, hoje a suástica nos representa apenas o ódio e a intolerância racial. Tornou-se um símbolo emblemático e odioso do totalitarismo e da opressão, mesmo que alguns estudiosos e escritores tentem destacar o seu original ou inicial significado simbólico de progresso. Causa-nos estranheza o fato de que alguns escritores, mesmo aqueles que são maçons, tenham tentado constantemente, mesmo que de maneira inconsciente reabilitar a suástica.

Dentro ainda da análise deste conceito de simpatia e em relação a Ordem Maçônica, podemos, como um exemplo simples, rapidamente analisar o significado do Esquadro e do Compasso justapostos e aquilo que a nós representam. Apenas não iremos no entanto procurar considerar ou nos aprofundarmos muito na análise dos significados que representam cada um destes instrumentos operativos de maneira distinta.

Para qualquer maçom, e até mesmo para aqueles que da Maçonaria não façam parte, mas que assim mesmo possuam sobre ela algum parco conhecimento, o Esquadro e o Compasso quando justapostos ou entrelaçados passam a significar, e acabam por representar praticamente, a própria Instituição da Maçonaria:

O símbolo da Maçonaria remete aos instrumentos dos trabalhadores que, na Idade Média dominavam as técnicas de construção em pedra: O COMPASSO, que desenha círculos perfeitos, representa a busca da perfeição pelo homem; A letra G, no centro de tudo, vem de GOD, ‘Deus’ em inglês. Para os maçons, é Ele o Grande Arquiteto do Universo; O ESQUADRO, que forma ângulos retos, lembra que o homem deve levar uma vida igualmente reta: ética e Honesta.” (SUPERINTERESSANTE, 2001, p.39)

Não existe, portanto um símbolo que se apresente de uma maneira mais simpática aos maçons e também não existe um que seja também, tão mais representativo da Ordem Maçônica do que este representado pelo Esquadro e pelo Compasso quando se encontram entrelaçados. O símbolo que é formado por esta imagem, representa a medida justa que deve ser característica de todas as ações dos maçons e dos seus corpos regulares, lembra-os que não podem se afastar da justiça e da retidão determinados pelos seus profundos princípios. E mesmo com o decorrer do tempo,

de todos os símbolos dos Painéis primitivos e dos atuais, o mais forte, o mais consciente, ainda é o Esquadro e o Compasso entrelaçados. Cada um desses símbolos possui vida própria, inclusive com vida anterior ao advento da Maçonaria que nós conhecemos como Operativa. Todavia unidos, formando um terceiro símbolo, um poderoso Emblema que embora tenha tido vida anterior à Maçonaria, tornou-se um símbolo maçônico por excelência em todos os Ritos.”  (KAPFENBERGER FILHO, 2001, p. 7-8)

Devemos também ter a consciência de que o significado que procuramos enxergar e encontrar em um símbolo, enquanto maçons, é justamente e necessariamente o seu sentido e representações maçônicos. Procuramos encontrar e enxergar e absorver a sua mensagem e significados éticos e morais, absorvendo aquilo que não for possível e claramente perceptível dos seus ensinamentos.

Intuição

Podemos compreender por intuição a ocorrência da percepção clara das verdades, sem que, no entanto seja perceptível a intermediação e a utilização do raciocínio. A intuição seria como que a primeira impressão, mais do que um palpite ou impressão, ela se apresenta como sendo uma certeza inconsciente, a imagem que nos marca em definitivo e a representação que nos é causada por um símbolo. Esta impressão é primeiro formada pela simpatia que nos é despertada por este símbolo.

A Intuição da forma como é vista pela filosofia, torna-se um dos sentidos mais importantes dentro do Estudo Maçônico, principalmente na interpretação dos símbolos.” (CAMPANHA, op. cit., p.38)

Inteligência

A terceira das condições ou qualidades para se obtenha a perfeita compreensão e o entendimento dos símbolos, apresentada por Fernando Pessoa, trata-se pois da inteligência. Compreendida como uma condição ou qualidade que atua conjuntamente e correlacionando-se de maneira análoga com as demais condições anteriormente citadas, a inteligência se apresenta como um fator considerado fundamental e essencial para a compreensão dos símbolos, das metáforas e das analogias que nos são colocadas constantemente dentro dos ensinamentos maçônicos:

A inteligência analisa, decompõe, reconstrói noutro nível o símbolo; […] Não poderá fazer isto se a simpatia não tiver lembrado essa relação, se a intuição a não tiver estabelecido. Então a inteligência, de discursiva que naturalmente é, se tornará analógica, e o símbolo poderá ser interpretado.” (PESSOA, 2003, passim)

Cabe-nos ressaltar, porém, que a inteligência atua de uma maneira paralela à razão, sendo que com esta chega a ser confundida. Sabemos da importância que é atribuída à razão pelos maçons, pois dentro da Ordem Maçônica, a razão deve acabar por se sobrepor ao misticismo.

A simpatia é um sentimento importante para despertar o interesse e por lançar nossos olhares sobre o símbolo, a intuição nos faz ver além da imagem representada pelo símbolo, nos fazendo buscar seus mais profundos significados e fazendo-o revelar a sua mensagem oculta. Por fim, a inteligência nos faz relacionar todos estes significados e mensagens com os outros que já foram, em momentos anteriores decodificados e assimilados. A inteligência sintetiza as informações recebidas, procurando compreendê-las de uma maneira que seja profunda e integral.

Compreensão

É a qualidade representada pela inteligência que nos encaminha para a compreensão que é a quarta condição ou qualidade necessária para a interpretação dos símbolos e a assimilação da linguagem simbólica. A compreensão pode ser também considerada como o entendimento completo, praticamente a perfeita e a total absorção e a fixação da mensagem e os significados que nos são transmitidos pelo símbolo.

“Por esta palavra o conhecimento de outras matérias, que permitam que o símbolo seja iluminado por várias luzes, relacionado com vários outros símbolos, pois que, no fundo, é tudo o mesmo.(…) Assim, certos símbolos não podem ser bem entendidos se não houver antes, ou no mesmo tempo, o entendimento de símbolos diferentes. (Idem, op. cit.)

Ao decodificar e compreender a mensagem transmitida pelo símbolo, o intérprete deve sintetiza-la e passar a procurar nela o seu íntimo e pessoal significado e representação.

Graça ou Revelação

Condição ou qualidade esta que, em sua opinião, é a que possui uma maior e mais profunda dificuldade para a sua definição e a sua completa compreensão. A Graça, que é esta quinta condição acaba possuindo uma das mais dispersas e complexas possibilidades concretas de entendimento e assimilação imediata. Sua ação sobre a compreensão dos significados das mensagens, a representação e o ensinamento dos símbolos para aqueles que seriam os seus interpretes, pode ocasionar aquilo a que muitos denominam simplesmente de “insight”. Esta intervenção ou atuação do “Superior Incógnito”, do “Ser Supremo”, do “Grande Arquiteto do Universo”, enfim, a intervenção de Deus ou dos deuses, poderia e pode ser simplesmente chamada de Revelação.

De nada adiantaria ao ser humano possuir a simpatia por um símbolo, conseguir adquirir capacidades para enxergar através deste, conseguir ver além das suas formas e dos seus contornos com o uso da intuição, possuir a inteligência necessária para analisá-lo, a capacidade exigida e necessária para compreendê-lo e as habilidades para sintetizar os seus conteúdos, de nada adiantaria todos esses dons e qualidades se não lhe for revelado pelo Grande Arquiteto do Universo um íntimo e pessoal significado para este símbolo.

Um exemplo prático que poderíamos usar para ilustrar de maneira mais clara e objetiva esta quinta condição ou qualidade, seria o significado atribuído à Estrela de Davi para os judeus, e aquele atribuído à Cruz para os cristãos. Estes símbolos revelam significados religiosos e íntimos que transcendem a simples compreensão humana, que não poderiam jamais ser traçados em papel ou outro material que fosse.

O sentimento sagrado, esotérico, pessoal e intimo que estes símbolos transmitem aos fiéis destas religiões não podem ser simplesmente dissecados e compreendidos pela razão humana. São sentimentos que teriam sido colocados por Deus diretamente no coração e na alma de cada ser humano.

Sem a atuação e a manifestação desse Dom divino jamais se compreenderia o significado de um símbolo com toda a magnitude esotérica e mística que ele poderia representar. Portanto, o seu significado seria incompleto.

4 – Conclusões

A Ordem Maçônica, atuando como uma autêntica escola provedora dos mais profundos ensinamentos éticos e morais, necessita, como nenhuma outra instituição, procurar continuadamente afirmar, reafirmar e principalmente procurar repassar os seus diversos princípios aos seus membros e também à sociedade em que ela se insere. Devido as suas origens corporativas, desde os mais remotos tempos, a Maçonaria procurou sempre traçar paralelos e estabelecer analogias entre os seus princípios morais e ensinamentos éticos, utilizando-se como base os instrumentos laborais dos pedreiros medievais.

“Embora não haja documentação que o comprove, deve-se admitir que os Maçons Operativos, os franco-maçons, usavam seus instrumentos de trabalho como símbolos de sua profissão, pois caso contrário não se teria esse simbolismo na Maçonaria Moderna. A existência desse simbolismo é a mais evidente demonstração de que houve na Inglaterra, contatos diretos entre os Maçons Modernos e os franco-maçons profissionais, e demorados o suficiente para que essa transmissão se consolidasse.” (PETERS, 2003, passim)

Ambrósio Peters, nos coloca ainda aqueles que seriam considerados os símbolos principais e essenciais a existência da atual Maçonaria Especulativa (Simbólica). Cabe destacar também que são destes símbolos que os Maçons metaforicamente retiram os princípios básicos e os seus principais ensinamentos éticos e morais:

“O trabalho dos franco-maçons, limitava-se aos canteiros de obras e à construção em si. Os instrumentos que eles usavam eram o esquadro, o compasso e a régua para determinar a forma exata das pedras a serem lavradas, o maço e o cinzel, para dar-lhes a forma adequada, e o nível e o prumo, para assentá-las com perfeição nos lugares previstos na estrutura da obra. Eram, portanto três diferentes grupos de instrumentos, cada qual representando uma etapa da obra, a saber: a medição ou a determinação do formato das pedras, o desbastamento das pedras para dar-lhes a forma adequada e finalmente a aplicação das peças lavradas na construção do edifício.

Cada trabalhador tinha para sua tarefa, instrumentos apropriados que indicavam a especialidade de cada um. Os Mestres mediam e transmitiam suas instruções aos aprendizes, estes executavam as instruções dos Mestres, e os Companheiros aplicavam os trabalhos dos aprendizes na estrutura da obra.” (Idem)

Possivelmente a linguagem simbólica utilizada pela Maçonaria, na atualidade somente encontre paralelos significativos, se comparada, com aquela que é utilizada ainda nos dias de hoje pela Igreja Católica. A igreja Católica que talvez seja ainda a única outra instituição que na atualidade ainda faça uso de símbolos e metáforas para poder ministrar os seus ensinamentos, conforme nos foi afirmado por Nicola Aslan (ASLAN, 2000, p.5).

Como já colocamos neste trabalho, o significado de um símbolo, é íntimo e pessoal para cada pessoa ou intérprete. A interpretação dos símbolos depende da formação de cada pessoa ou ainda da maneira como estas qualidades que aqui procuramos retratar, se manifestam em cada um individualmente. Tais afirmações encontram respaldo nas afirmações de Luís Roberto Campanha, quando fez referência ao chileno Moisés Mussa Battal:

“As escolas filosóficas caracterizam-se por serem criadas por um mentor intelectual, possuem um sistema ideológico, verifica-se nela uma certa uniformidade de pensamento e ação, desenvolvem seu trabalho em torno do ser, do conhecer e do valer, atuam nas áreas da metafísica e da ciência, assumem aspectos esotéricos e exotéricos.

A Escola Maçônica difere em alguns aspectos das escolas filosóficas, pois não foi fundada por um pensador, seu sistema ideológico não é fixo, se adapta às evoluções do mundo e da cultura, sua doutrina e prática não são ortodoxas, pois o Símbolo permite uma interpretação ampla e variada, fundamenta suas preocupações nos problemas do ser, do saber e do valer, não exige obediência cega a ela dando a todos a liberdade de pensamento.

A Maçonaria, mais que uma escola filosófica, é uma escola que permite o livre exame, a crítica, a dúvida metódica, a aceitação de postulados, ainda que superficiais, no intuito de melhorar a condição humana, individual e coletiva.” (CAMPANHA, op. cit., p.34-35).

Porém, Theobaldo Varoli Filho, em seu livro “Simbologia e Simbolismo da Maçonaria”, nos coloca algumas posições contrárias e contraditórias a despeito desta última afirmação. O principal ponto seria a questão da liberdade de opinião como recurso para a livre interpretação dos Símbolos Maçônicos, nos colocando que dentro da Maçonaria, devemos ao interpretar um Símbolo Maçônico, sempre procurar analisá-lo justamente do ponto de vista maçônico. A Maçonaria nos coloca algumas tradições, princípios e significados gerais que devem ser sempre respeitados, caso contrario desvirtuaríamos os objetivos da Sublime Ordem.

A Loja Maçônica não é lugar de psicanálise, onde cada um interpreta os Símbolos como lhe aprouver. Esta é a resposta que damos aos que afirmam que os Símbolos Maçônicos são livremente interpretados subjetivamente e livremente, isto é, licenciosamente […] É importante assinalar que o Símbolo Maçônico é sempre ideológico e não simplesmente ideográfico.

O símbolo Maçônico se distingue por sua universalidade e como expressão de ideias pacificamente aceitas pela humanidade civilizada. Por conseguinte, o maçom não deve ‘particularizar’ o Símbolo a seu gosto. Todo Símbolo Maçônico é de comunicação nos âmbitos da Sublime Instituição, ainda que, por motivos históricos, não seja originário da Maçonaria, mas de tradições morais profanas. Assim o Maçom licencioso prejudica a comunicação iniciatória universal. É Obreiro pernicioso e vaidoso, ainda que invoque a liberdade de opinião a seu favor, a sua falsa maneira de defender-se e de impor as suas inventivas pessoais.

Ainda, todo Símbolo Maçônico requer interpretação coerente, lógica, e inspiradora de lições morais. Dissemos ‘inspiradora’, porque iniciação é inspiração e não simples ensinamento ou pregação” (VAROLI FILHO, 2000, p.17-18).

Como maçons e como seres humanos, que buscamos a cada momento procurar melhorar os nossos conhecimentos e as nossas qualidades, possuímos também a profunda responsabilidade pelo crescimento da capacidade intelectual e maçônica, das virtudes morais e éticas dos nossos Irmãos de Ordem e da sociedade que formamos e a qual pertencemos. Sendo assim, desta maneira, nos vemos na constante obrigação e com o compromisso crescente de procurar divulgar e repassar os resultados de nossos estudos e pesquisas.

Quando da apresentação de nossos trabalhos, invariavelmente, devemos procurar provocar um debate que com certeza irá enriquecer mais ainda este trabalho, dando a ele novos pontos de vista e conclusões. Estas afirmações foram feitas por Luiz Roberto Campanha, em seus trabalho que já por diversas vezes citamos em partes deste artigo. Sobre as responsabilidades dos maçons para a construção, elevação e a consequente evolução da Maçonaria, ele nos cita o seguinte:

“Infere-se daí que não apenas os Mestres podem ensinar. O Aprendiz e o Companheiro, ao apresentarem os resultados de suas pesquisas, tornam-se mestres e os Mestres devem, humildemente, como aprendizes, analisar a lição ministrada e com ela agregar fundamentos ao seu conhecimento. Só atinge o Grau de Mestre aquele que tem discípulos: ora seremos Mestres, ora Aprendizes.” (CAMPANHA, 2003, op. cit., p.40).

Não imaginamos uma citação melhor que esta para podermos encerrar este trabalho sobre a condições e qualidades para a perfeita interpretação e o entendimento dos símbolos e também do Estudo Maçônico. O saber Maçônico é uma construção de múltiplos materiais e de incontáveis mãos nos aproximando cada vez mais da Fonte da Verdadeira Luz.

Autor: Roberto Bondarik
ARLS Cavaleiros da Luz Nº 60 – GLP
Oriente de Cornélio Procópio-PR

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Referências 

ASLAN, Nicola. O Simbolismo. In: O Fio de Prumo. Ponta Grossa, Ano 1, nº 5, Outubro de 2001, p.5-6;

BONDARIK, Roberto. Escolas do Pensamento Maçônico. In: A Trolha:

Coletânea 6. Londrina: A Trolha, 2003. p.141-151;

CAMPANHA, Luiz Roberto. A Filosofia e a Análise dos Símbolos. In: Caderno de Pesquisas 20. Londrina: A Trolha, 2003. p.33-40;

CARVALHO, Luis Nandim de. História da Maçonaria. Disponível em Acesso em 03 de Outubro de 2003;

CASTELLANI, José. O Rito Escocês Antigo e Aceito: História, Doutrina e Prática. 2ª ed, Londrina: A Trolha, 1996;

CHAUI, Marilena. Convite a Filosofia. 5ª ed. São Paulo: Ática, 1996. p.59-60;

FIGUEIREDO, Joaquim Gervásio de. Dicionário de Maçonaria: Seus Mistérios, Seus Ritos, Sua Filosofia e Sua História. São Paulo: Editora Pensamento, 1998,

GRANDE LOJA DO PARANÁ. Maçonaria: um informativo para quem não é maçom. Curitiba: Grande Loja do Paraná, 2000;

HELLERN, Victor; NOTAKER, Henry; GAARDER, Jostein. O Livro das Religiões. São Paulo: Companhia das Letras, 2000;

KAPFENBERGER FILHO, Francisco. Simbolismo. In: O Fio de Prumo. Ponta Grossa, Ano 1, nº 9, Março de 2001, p.7-8;

KOSHIBA, Luiz. História: origens, estruturas e processos. São Paulo: Atual, 2000

O QUE É E COMO SURGIU A MAÇONARIA. Super Interessante, São Paulo, Ano 15, nº3, p. 39, Março de 2001;

PESSOA, Fernando. “Associações Secretas: Análise Serena e Minuciosa a Um Projeto de Lei Apresentado ao Parlamento.” Acesso em 19 de Agosto de 2003.