O maçom Simón Bolívar: entre o mito e a verdade histórica – Parte III

Palomo é o companheiro de batalhas de Simón Bolívar - Cavalus

Maçonaria francesa, não americana

Aqui ainda temos que fazer mais reflexões. A primeira é que estamos tratando, não de uma sociedade patriótica americana no estilo dos Cavaleiros Racionais, mas de uma Maçonaria Francesa que logo terminaria, por um lado identificando-se como uma maçonaria bonapartista para o serviço e uso de Napoleão; e por outro está a origem e principal órgão da Maçonaria Escocesa da França. Maçonaria que não tem nada a ver com as lojas Lautaro Mirandistas ou San Martinianas, que da Maçonaria não tinha nada mais do que o uso da palavra Loja, porque nem em seus estatutos ou Constituições, nem em seus objetivos e recrutamento tinham a menor semelhança com a Maçonaria. Como é bem atestado, entre muitas outras coisas, pelo juramento de que os membros das “lojas” lautarinas tinham que tomar [61].

Por outro lado, a Maçonaria em que Bolívar entrou em  Paris  não tinha nada “americano” sobre isso. Apesar do que foi escrito por Vicente González Loscertales, que garante que Bolívar foi impregnado em Paris com ideias iluministas, as noções de independência, soberania popular, progresso e civilização, “o que o levou a se juntar à Maçonaria Americana em Paris, onde ele alcançou o grau de mestre”[62].

Se analisarmos a composição social dos 47 membros que compõem a loja de Santo Alexandre da Escócia no ano em que o nome de Bolívar aparece, encontramos o seguinte resultado: em primeiro lugar não há outros “americanos” além de Bolívar, que, no entanto, está registrado como um oficial espanhol. Todos os outros são franceses, exceto dois nobres venezianos e Manuel Campos, um nobre espanhol. Entre as profissões estão 10 militares, incluindo Bolívar, 6 advogados e homens de direito, 6 médicos e doutores da medicina (incluindo o regente da Faculdade de Medicina de Paris), 6 altos funcionários, 5 proprietários, 2 funcionários, empresários e músicos, respectivamente, e um de cada uma das seguintes profissões: rentista, pintor, acadêmico, marinheiro, senador…, bem como os três nobres mencionados [63]. Além   disso, é impressionante que na frente da juventude de Bolívar que   em 24 de julho de 1804 tinha completado vinte e um anos, há muitos aposentados ou ex-militares, ex-médicos, ex-advogados, ex-funcionários, ex-marinheiros, ex-magistrados. Assim, tendo em vista os componentes da loja e suas qualidades, parece que qualquer possível “conexão “americana está excluída.  Na loja de Bolívar destacam-se, entre outros, dois membros por suas obras e atividades posteriores, os dois graus 33: Conde Antoine Thory [64] e Auguste de Grasse Tilly [65].

Américo Carnicelli também disponibiliza um novo documento intitulado “Lista nominal dos Mazones [sic] de altos graus que são conhecidos em diversos órgãos no mês de abril de 1824”, feito pelo Grão-Comandante M. Ilt. José Cerneau [66]. Há um total de 84 supostos maçons em posse do 33º grau.  Nesta lista está Simón Bolívar na 58ª   colocação.  Outras listas seguem com notas 32 e 30. Trata-se de um documento sem papel timbrado ou selo oficial, que pertencia ao herói José Félix Blanco, e que hoje está em Caracas no Arquivo Geral da Nação [67].

Pessoalmente, penso que o valor histórico deste documento é bastante escasso, se não nulo, embora o tenha do ponto de vista do testemunho. Apresenta uma extraordinária semelhança com as numerosas listas de supostos maçons que existem entre os papéis reservados de Fernando VII do Arquivo do Palácio Real de Madrid, e que foram feitas pela polícia com base em presunções, denúncias, suspeitas, etc. Curiosamente, Seal-Coon em seu já citado e prestigiado trabalho intitulado Simón Bolívar Maçom descarta este documento que ele nem sequer menciona, apesar de usar Carnicelli como uma de suas principais fontes de informação.

Nelson Martínez vai mais longe em seu Simón Bolívar quando diz que, desde que deixou a Europa, trabalhou fora das decisões de “uma maçonaria cujo aparelho e mistério não parecem atraí-lo” [68]. Na verdade, Bolívar não aparece  mais em nenhuma outra pousada europeia ou americana. O próprio Carnicelli, que usa tanta documentação maçônica, embora nem sempre aponte as fontes, é incapaz de nos dizer uma única loja americana na qual Bolívar está listado como membro. E quando ele fornece a Lista de Maçons de 1809 a 1828 [69] ele não pode deixar de apontar para Simon Bolivar, Libertador, como um membro da loja St. Alexandre da Escócia em Paris, sendo o único que não aparece em Pousada americana.  Que é um reconhecimento indireto de sua não atividade maçônica na    terra que ele libertou ou se tornou independente. Em outras palavras, diante de um ou dois anos de militância maçônica em Paris, estamos enfrentando 25 ou 26 anos depois de afastamento maçônico, ou pelo menos de nenhuma notícia de participação direta.

Testemunho que coincide com o que o ajudante de campo de Simón Bolívar, Louis Perú de Lacroix escreve em seu Diario de Bucaramanga.  Lá ele diz que o Libertador confessou a ele: primeiro que ele tinha se tornado um maçom em Paris; depois disse que     abandonou a Maçonaria porque ele não encontrou nada de novo nela, apenas repetições insubstanciais [70].

Continua…

Autor: Jose Antonio Ferrer Benimeli

Fonte: REHMLAC

*Clique AQUI para ler a primeira e a segunda parte do artigo.

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Notas

[61] – La fórmula del juramento del segundo grado era la siguiente: “Nunca reconoceré por gobierno legítimo de mi patria sino a aquel que sea elegido por la libre y espontánea voluntad de los pueblos; y siendo el sistema republicano el más adaptable al gobierno de las Américas, propenderé por cuantos medios estén a mi alcance, a que los pueblos se decidan por él”. Mitre, Historia de Belgrano, vol. II, 213.

[62] – Vicente González Loscertales, “Bolívar: El hombre y el mito”, Historia 16 87 (julio 1983): 50.

[63] – No deja de ser curioso, pero así figuran en el Cuadro: de profesión, noble. Biblioteca Nacional de París. Gabinete de Manuscritos. Fondo F.M.2 100 bis. Dossier 3.

[64] – El historiador Antoine Thory es autor de Annales originis magni Galliarum O. ou Histoire de la fondation du Grand Orient de France et des révolutions qui l’ont précédée, accompagnée et suivie, jusqu’en mil sept cent quatre vingt dix neuf, époque de la réunion à ce corps de la Grande Loge de France, connue sous le nom de Grand Orient de Clermont ou de l’Arcade de la Pelleterie (París: Dufart, 1812) que posteriormente adoptó el título de Acta Latomorum ou Chronologie de l’Histoire de la Franche-maçonnerie française et étrangère (París: Dufart, 1815).

[65] – El conde Auguste de Grasse-Tilly, capitán de artillería, comisionado por el Supremo Consejo de Charleston, tras su estancia en las Antillas, desembarcó en Burdeos a comienzos de julio de 1804. Poco después está ya en París como propagandista y difusor del rito escocés antiguo y aceptado, fundador del Supremo Consejo del Grado 33 y miembro de la logia San Alejandro de Escocia. En 1806 lo encontramos en Italia, en 1809-1811 en España y en 1817 en Bélgica, según Carnicelli, Díaz y Pérez y Clavel. Carnicelli, La masonería, tomo I, 43; Nicolás Díaz y Pérez, La Franc-Masonería Española (Madrid: R. Fe, 1894), 211-213; F.T.B. Clavel, Histoire Pittoresque de la Franc-Maçonnerie et des Sociétés Secrètes anciennes et modernes (París: Pagnerre, 1843), 206 y 241.

[66] – De este mismo autor se conoce una obra titulada Senda de las luces masónicas (New York: Wingslang, 1821).

[67] – Archivo General de la Nación (Caracas). Papeles del prócer José Félix Blanco. tomo I, no. 298.

[68] – Nelson Martínez, Simón Bolívar, 16.

[69] – Carnicelli, La masonería, tomo II, 374-376.

[70] – Luis Perú de Lacroix, Diario de Bucaramanga (Caracas: Ed. de Nicolás E. Navarro, 1935), 77. Luis Perú de Lacroix, nacido en Francia el 14 de septiembre de 1780 en realidad se llamaba Luis Gabriel Juan de Lacroix Peroux, según Seal-Coon, y descendía de un linaje distinguido. Su biografía, según el mismo autor, se resume así: Sirvió de oficial en el ejército de Napoleón pero con la restauración de Luis XVIII tuvo que huir a las Antillas donde se unió al corsario francés Luis Aury en 1814. Este operaba bajo bandera mejicana y conquistó a los españoles la isla Old Providence. Establecido allí nombró a Lacroix comandante general, y Secretario de Estado de su “gobierno”. Por este tiempo Lacroix adoptó una forma españolizada de sus nombres y apellidos. Aury murió en agosto de 1821 y entonces Perú de Lacroix ofreció sus servicios a la nueva república de Gran Colombia y fue enviado a Cartagena; luego encontró a Simón Bolívar con quien trabó amistad y fue condecorado por él en Bucaramanga donde escribió su famoso Diario de Bucaramanga. Elevado a general en 1830 fue llamado por Manuela Sanz, la querida de Bolívar en noviembre del mismo año, para que acudiera a San Pedro Alejandrino, Santa Marta, pues Bolívar quería verle. Llegó pocos días antes del fallecimiento de El Libertador. El otoño siguiente Perú de Lacroix fue exiliado por el gobierno anti-bolivariano y se marchó de Bogotá para Jamaica. En 1833 estaba en Caracas y en julio de 1835 se puso a la cabeza del movimiento rebelde reformista. Fue derrotado y Perú de Lacroix abandonó Venezuela y su familia, refugiándose en Francia. En París, a la edad de 56 años se suicidó. Seal Coon, “La isla de Jamaica y su influencia masónica en la Región”, en Masonería española y América, coord. Ferrer Benimeli (Zaragoza: CEHME, 1993), tomo I, 219.

O maçom Simón Bolívar: entre o mito e a verdade histórica – Parte II

Geopedrados: Simón Bolívar nasceu há 238 anos

Bolivar, maçom. Sua iniciação

Deixando de lado as características políticas e não maçônicas das lojas Lautaro, Cavaleiros Racionais ou o que você quiser chamá-los, e ignorando até o fato não comprovado de que Bolívar tinha seus contatos com ditos cavaleiros racionais em Cádiz ou Londres, por curiosidade ou convicção. A verdade é que Bolívar, algo que não pode ser provado no caso de Miranda[42], pertencia à Maçonaria europeia pelo menos durante sua breve estada em Paris nos anos 1804-1806.

Ao dispensar as hipóteses de trabalho mais ou menos sugestivas, se nos atermos à documentação maçônica preservada, Simón Bolívar foi iniciado na Maçonaria, embora não se saiba onde. Já que o primeiro documento nos é apresentado no ato de receber o grau de Companheiro Maçom, ou seja, do segundo grau. Trata-se de um documento manuscrito do qual falam Carnicelli e Seal-Coon[43], de propriedade do historiador venezuelano Ramón Díaz Sánchez, que certificou sua origem e titularidade antes de depositá-lo no Conselho Supremo do Grau 33 da República da Venezuela.

O documento em questão diz o seguinte:

À Glória do Grande Arquiteto do Universo. No dia 11 do 11º mês do ano da Grande Luz 5805 [44] as obras do Companheiro foram abertas a Leste pela R. hº de la Tour d’Auvergne, a Oeste e a Sul sendo iluminadas pela RR. H H. Thory e Potu. Feita e sancionada a leitura da última última prancha traçada, o Venerável propôs elevar o patamar de Companheiro ao Hº Bolívar recentemente [45] iniciado, por causa de uma viagem que se aproxima que está em vésperas de empreender. Tendo sido a opinião dos irmãos unânime em sua admissão e escrutínio favorável, hº Bolívar foi introduzido no templo, e após as formalidades de rigor prestou a costumeira obrigação ao pé do trono, situado entre os dois Vigilantes, e foi proclamado cavaleiro Companheiro Maçom da R. Loja Madre Escocesa de Santo Alexandre da Escócia. Este trabalho foi coroado com uma tripla aclamação (hurra) [46] , e o hº tendo dado graças tomou lugar no topo da Coluna do Meio-dia.

Os trabalhos foram encerrados da maneira usual

Em seguida, vêm oito assinaturas, incluindo a de Simón Bolívar. Este é um excerto das atas da Loja Santo Alexandre da Escócia [47], localizada em Paris “no subterrâneo (porão) do boulevard Poissonnière” segundo Coen-Dumesnil e na rua Coq-Heron, segundo Jacques Simon [48]. Nesse excerto se diz que o Venerável se propõe a subir à categoria de Companheiro o Irmão Bolívar, recém-iniciado, por causa de uma viagem que está prestes a fazer. Acrescenta que, após as formalidades exigidas, Bolívar foi proclamado cavaleiro Companheiro Maçom, tomando lugar no topo da coluna do meio-dia. Estamos diante de um ato ou documento maçônico datado do 11º mês do ano da Grande Luz 5805, que equivale a janeiro de 1806 da Era Vulgar, se levarmos em conta que o calendário maçônico começa no mês de março[49].

Além disso, temos outro documento em versão dupla (manuscrita e impressa) em que Bolívar já aparece como Mestre, ou seja, um grau superior. No entanto, este novo documento é datado de 1804, um ano antes. É a “Tabela Geral dos Membros que compõem a Respeitável Loja Escocesa de Santo Alexandre da Escócia, a Leste de Paris” desde o ano da Grande Luz 5804, a Restauração 5564 e a Era Vulgar do ano 13. Em outras palavras , o ano de 1804 e 13 da Revolução.

Uma possível explicação para esse descompasso na datação de ambos os documentos pode ser devido ao fato de este último se referir não apenas a 1804, mas também a 1805, pois não especifica o dia nem o mês, que estão em branco. Este poderia ser um título ‘padrão’ em que os dados precisos, incluindo a correção do ano, não foram preenchidos, como às vezes é o caso com os formulários de hoje. Além disso, pode ser a tabela de 1804 à qual novos dados de 1805 foram adicionados, como também costumava ser o caso. Em todo caso, trata-se de outro documento autêntico, conservado na Biblioteca Nacional de Paris, na coleção maçônica do Gabinete de Manuscritos [FM 2 . 100 bis, Dossiê 3].

Nela aparecem dois nomes: Emmanuel Campos “nobre espanhol, Mestre Maçom” e Simón Bolívar “oficial espanhol, Mestre Maçom”. A título de curiosidade, deve-se acrescentar que esta é a única “lista” em que aparece o nome de Bolívar. A coluna correspondente não inclui as assinaturas regulamentares de nenhum dos dois, nem de Campos, nem de Bolívar. Isso significa que não compareceu à reunião realizada ou à reunião maçônica de final de ano (geralmente em 27 de dezembro, dia de São João) para registrar suas assinaturas no documento em questão; ou que esses dias estiveram ausentes de Paris. Pelo menos, no que diz respeito a Bolívar, sabemos que a urgência em receber o graus de Companheiro se deveu a uma viagem iminente que ele teve que fazer, e que de fato o fez, seja no ano de 1804 ou no ano de 1805 .

De fato, Bolívar, que tinha grande admiração por Napoleão como símbolo de liberdade e glória, experimentou grande decepção em consequência de sua auto coração como imperador na catedral de Paris em 2 de dezembro de 1804 [50]. O fato de Napoleão estar com a coroa imperial quebrou em Bolívar o mito que se forjava em torno de sua figura:

Eu o adorei como o herói da República, como a estrela brilhante da glória, o gênio da liberdade. No passado eu não sabia de nada igual a ele, nem o futuro prometia produzir algo semelhante. Ele se tornou imperador, e daquele dia em diante eu o considerei um tirano hipócrita, uma desgraça para a liberdade e um obstáculo para o progresso da civilização. [51]

Essa decepção foi agravada quando, alguns meses depois, em 15 de agosto de 1805, em Milão, Napoleão voltou a se coroar, desta vez como rei dos italianos. Bolívar também se encontrava na Itália, evocando as glórias da República Romana e, tendo como testemunha seu tutor Simon Rodriguez, fez no Monte Sacro em Roma seu famoso juramento:

“Juro pelo Deus de meus pais, juro por eles, juro pela minha honra e juro pelo meu país que não darei descanso ao meu braço, nem descanso à minha alma, até que tenha quebrado as correntes que nos oprimem pela vontade do poder espanhol.” [52]

Embora o documento que o atesta ainda não tenha sido localizado, o mais provável é que pouco depois de ter sido admitido ao posto de Companheiro tenha recebido, e pelo mesmo motivo, o de Mestre, pois com este grau – e não com o como um Companheiro – aparece na lista acima mencionada de membros da Loja Santo Alexandre da Escócia . Provavelmente, e como se fala de ter sido iniciado recentemente, Bolívar recebeu os três graus (Aprendiz, Companheiro e Mestre) com pouca diferença de tempo na mesma loja parisiense. Pois bem, se tivesse sido iniciado em outra loja, a cerimônia de recepção da grau de Companheiro – relatada no documento do historiador venezuelano Ramón Díaz Sánchez – teria que ser precedida do ato de filiação à loja em questão. Como não há alusão a ele, o correto é pensar que ele recebeu os três graus na loja parisiense de Santo Alexandre da Escócia com muito pouca diferença de tempo, possivelmente nos últimos meses ou semanas de 1805. Pérez Vila acredita que Bolívar, provavelmente, foi iniciado no início de dezembro, ou no final do mês anterior[53]. Miriam Blanco-Fombona, após examinar a documentação da Loja Santo Alexandre da Escócia na Biblioteca Nacional de Paris, acredita que Bolívar foi iniciado como Aprendiz em 27 de dezembro de 1805 [54].

Existe ainda um novo documento na Biblioteca Nacional de Paris intitulado “Quadro do hh. que compõem a R. Loja Mãe Escocesa da França, sob o título distintivo de Santo Alexandre da Escócia a Leste de Paris no ano da Grande Luz 5804 e 1805”, que vem a ser uma repetição da anterior, mas ordenado por graus maçônicos e no qual, a partir dos cavaleiros Rosa Cruz [55], são especificados os nomes de seis Mestres, entre eles Campos, um senhor espanhol e Bolívar, um oficial espanhol [56]. Eles são seguidos por um Companheiro, dois membros da Coluna da Harmonia, um membro honorário e três não residentes ao longo do ano.

Esta questão está ligada a outra dificuldade menor ou pequena anomalia das quadros em questão. E é que, de acordo com os Estatutos da Ordem Maçônica na França [57], publicado em 1806, era proibido receber o grau de Companheiro antes dos vinte e três anos e o de Mestre antes dos vinte e cinco anos. Por outro lado, a passagem de graus estava sujeita à assiduidade das lojas. Um Aprendiz não poderia ser recebido como Companheiro se não tivesse participado de pelo menos cinco sessões; o grau de Mestre só foi concedido ao Companheiro depois de justificada a sua participação em sete assembleias. Em suma, a presença nas reuniões maçônicas de um ano foi suficiente para alcançar a possibilidade de acessar o mais alto grau da Maçonaria Azul, ou seja, o de Mestre. No entanto, o militar – e este foi o caso de Bolívar – não só poderia ser iniciado antes dos 21 anos, como também os filhos dos maçons[58], assim como podiam, excepcionalmente, receberem mais de um diploma no mesmo dia quando sua partida era iminente. Ambas as circunstâncias ocorreram na pessoa de Simón Bolívar por ser militar e por ter que fazer uma viagem imediatamente. Na verdade, é sintomático que seu nome não apareça nos quadros dos membros da Loja de Santo Alexandre da Escócia antes de 1804 e 1805, nem nas posteriores[59]. No entanto, o nome de Emmanuel Campos aparece no quadro de 1806, um senhor espanhol de 24 anos, Mestre Maçom, que vivia na Rua Richelieu. Nesse caso, há a assinatura de Manuel Campos[60].

Continua…

Autor: Jose Antonio Ferrer Benimeli

Fonte: REHMLAC

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Notas

[42] – Seal-Coon, “Maçonaria revolucionária hispano-americana. A alvenaria mítica de Francisco de Miranda ”, Ars Quatuor Coronatorum 94 (1981): 83-106. Seal-Coon, “The Mythical Freemasonry of Francisco de Miranda”, 107-126. Padrón Iglesias, “Maçonaria”, 13-20.

[43] – Carnicelli, Maçonaria , volume I, 121; Sean-Coon, “Simón Bolívar Freemason”, 231-248.

[44] – Na verdade, na terminologia maçônica, “o ano da Verdadeira Luz” é usado com mais frequência em vez de “Grande Luz”.

[45] – No original é usada a expressão nouvellement, que em espanhol tem duas traduções diferentes: de novo e recentemente . Seal-Coon em sua obra já citada Simón Bolívar maçom (233) usa a expressão recém-iniciado e sugere que ele pode ter sido iniciado em Cádiz. Mas além do fato de que devido ao contexto, a tradução correta é a de recentemente-também usado por Carnicelli- há outro erro em Seal-Coon: a alegada loja Caballeros Racionales de Cádiz ainda não havia sido fundada em Cádiz e também não pode ser entendida como uma loja maçônica, mas sim como uma sociedade patriótica; e sua adesão não implicava qualquer iniciação maçônica apropriada válida para a Maçonaria autêntica.

[46] – Na Maçonaria, a aclamação segue os tambores . Tambor é um rito que consiste em bater palmas um certo número de vezes, dependendo do grau em que este rito é praticado. Os veneráveis ​​e vigilantes costumam participar dos tambores batendo nos respectivos tacos em suas mesas. A aclamação é pronunciada pelos maçons em pé, a mão direita erguida e o braço estendido horizontalmente. Na Maçonaria francesa, existem duas aclamações tradicionais. O primeiro usa a fórmula vivat, vivat, sempre vivat-viva, viva, viva sempre-; a segunda, que ainda existe no rito escocês, é a tripla “houzzé” ou “houzza”. Esta última expressão é a utilizada no documento em questão. A origem desta palavra, “houzzé” ou “houzza”, ainda não está completamente esclarecida, apesar das obras de Lantoine. Segundo Delaunay ( Manuel maçonnique , Paris, 1821) e Vuillaume ( Manuel Maçonnique , Paris, 1820), significaria “Viva o rei”. Lantoine ( Le Rite Ecossais Ancien et Accepté , Paris, 1930) vê simplesmente uma distorção da velha exclamação inglesa “viva”. A bateria de alegria sempre foi feita em homenagem a um evento feliz para a loja ou um irmão, e era natural que os maçons escoceses usassem essa aclamação.

[47] – Carnicelli, Maçonaria , Volume I, 123-127. A reprodução fotográfica na página 129, e em Seal-Coon, Simón Bolívar , 233. Entre as assinaturas deste documento está a de Jeanne (Juana) de la Salle que liderou Iván Herrera Michel em sua obra La logia de Bolívar de Paris ( http://www.diariomasonico.com/historia/bolivar-y-la-francmasoneria) a um lamentável erro em acreditar que dita assinatura pertencia a um maçom e que portanto Bolívar recebeu o 2º e 3º graus na “prestigiosa loja mista St Alexandre da Escócia ”. No entanto, na foto da referida loja fica claro que Jeanne de la Salle é o sobrenome, e seu nome é Thomas, um ex-marinheiro que ocupou a posição de segundo diácono na loja.

[48] – Antoine Coen – Michel Dumesnil de Gramont, La Franc-Maçonnerie Écossaise (Paris: EE Figuière, 1934) 25-26. Jacques Simon, Histoire du Rite Écossais Ancien et Accepté en France. Tomo I: Des origines de la franc-maçonnerie à 1900 ( Paris: Dervy, 2019), 90.

[49] – A data maçônica usada, como o calendário maçônico não é uniforme, não é fácil especificar sua correspondência em nosso calendário gregoriano. A este respeito, Manuel Pérez Vila, “A experiência maçônica de Bolívar em Paris” em Visão diversa de Bolívar(Caracas: Ed. De Pequiven, 1984), 333-334, diz o seguinte: “Se o registro pertencesse a uma loja inglesa ou norte-americana de rito ortodoxo (o que não é o caso), não haveria dúvida: o 11º dia do O 11º mês do ano 5805 seria 11 de novembro de 1805, porque lá o ano maçônico começa na mesma época que o ano civil, em 1º de janeiro, e 4000 são adicionados ao ano para voltar ao que era então considerada a data da criação do mundo. Mas se o ato tivesse sido feito em uma loja francesa dependente do Grande Oriente da França, o 11º dia do 11º mês de 5805 corresponderia a 11 de janeiro de 1806, uma vez que essas lojas também acrescentaram 4.000 anos ao da era cristã, mas eles começaram o ano maçônico em março e não em janeiro. Mas como o ato relativo a Bolívar corresponde a uma loja escocesa de rito antigo e aceito, o assunto fica mais complicado, pois, além de somar 4.000 anos e iniciar o cálculo em março, os escoceses não necessariamente começam seu ano em 1º de março, mas seguem o calendário hebraico em que os meses são lunares, e não idênticos aos um ano para o outro, sendo necessário estabelecer uma tabela de equivalências. O máximo que se pode dizer é que o dia em que Bolívar foi promovido a companheiro na Loja Santo Alexandre da Escócia, em Paris, deve situar-se na primeira quinzena de janeiro de 1806”. Sobre sendo necessário estabelecer uma tabela de equivalências. O máximo que se pode dizer é que o dia em que Bolívar foi promovido a companheiro na Loja Santo Alexandre da Escócia, em Paris, deve situar-se na primeira quinzena de janeiro de 1806”. Sobre sendo necessário estabelecer uma tabela de equivalências. O máximo que se pode dizer é que o dia em que Bolívar foi promovido a companheiro na Loja Santo Alexandre da Escócia, em Paris, deve situar-se na primeira quinzena de janeiro de 1806”. Sobre Calendários maçônicos na Maçonaria , História Extra IV 16 (novembro de 1977): 134-136.

[50] – Bolívar estava em Paris quando Napoleão foi coroado imperador. Além disso, o embaixador espanhol convidou Bolívar a fazer parte de sua comitiva para presenciar a cerimônia na Catedral de Notre-Dame; mas não só ele recusou o convite, mas – de acordo com Villaurrutia – “ele se trancou em casa o dia todo.” Ramírez de Villaurrutia, A Rainha, 314.

[51] – Ramírez de Villaurrutia, La Reina , 313-314.

[52] – Nelson Martínez, Simón Bolívar, 18 anos.

[53] – Pérez Vila, A experiência , 334.

[54] – Miriam Blanco-Fombona de Hood, “Masonry and our Independence”, The American Repertory I (julho de 1979): 59-70.

[55] – Que são três: um Marechal do Império e dois Doutores em Medicina, os três oficiais do Grande Oriente da França.

[56] – Atualmente segundo tenente do Regimento da Milícia Voluntária Branca dos Valles de Aragua. Foi em junho de 1810 – seis anos depois – que Bolívar seria promovido a coronel das milícias. Porém, na filiação por ele cedida à polícia parisiense em abril de 1806, aparece como um “empresário domiciliado na Espanha”, embora na fornecida à pousada o faça como um “oficial espanhol”.

[57] – Statuts de l’Ordre Maçonnique en France (Paris, 1806), cap. XII, sec. VII, 205.

[58] – Observe aqui a influência de Napoleão Bonaparte na configuração do que acabaria sendo chamada de Maçonaria Bonapartista. Ferrer Benimeli, “A Maçonaria Bonapartista na Espanha”, in Formação Histórica da Maçonaria (Rio de Janeiro: Academia Brasileira Maçônica de Letras, 1983), tomo I, 102-165.

[59] – Como Demetrio Ramos coleta na biografia de Bolívar, alarmado com as tentativas de Miranda na Venezuela, ele decidiu retornar à sua terra natal. De Paris foi para Hamburgo, onde embarcou no final de 1806 em um navio neutro chegando a Charleston em 1º de janeiro de 1807. Ramos, Simón Bolívar , 38.

[60] – De Manuel Campos, que se apresenta como um ‘nobre’ ou ‘cavalheiro’ espanhol, pouco se sabe. Possivelmente foi iniciado por volta das mesmas datas de Bolívar, dada a ordem de inscrição na tabela lógica. Alguns anos antes localizei precisamente um Manuel Campos, capitão da Companhia Provisória dos Invalides estacionado na Alhambra e que recebeu o conde Aranda como prisioneiro em 29 de agosto de 1794 em consequência de sua demissão do cargo de Primeiro Ministro e o processo iniciado por Carlos IV a pedido de Godoy. Mas não é possível ser a mesma pessoa porque se Manuel Campos tinha 24 anos em 1806, deveria ter doze em 1794. Rafael Olaechea e Ferrer Benimeli, El Conde de Aranda. Mito e realidade de um político aragonês (Zaragoza: Ibercaja, 1998) 376.

O maçom Simón Bolívar: entre o mito e a verdade histórica – Parte I

A figura de Simón Bolívar em relação à Maçonaria, assim como aos demais heróis das independências hispano-americanas, permanece polêmica, apesar das investigações que vêm ocorrendo nos últimos anos para esclarecer o assunto. Trata-se, portanto, de atualizar o conhecimento histórico –não maçônico ou antimaçônico- sobre essa relação por meio dos estudos mais recentes.

Introdução

Esta obra é uma continuação e complemento da publicada em 1983 por ocasião do bicentenário do nascimento de Simón Bolívar (Caracas, 24 de julho de 1783) e das apresentadas em 2014 em Cartagena das Índias no IX Colóquio de História Social e Ciências “La Masonería and American Independence” (Grande Loja Nacional da Colômbia, 20-24 de março); em 2017 no México no Colóquio Internacional “Maçonaria e Sociedades Secretas” (UNAM, 12 a 13 de junho) e em 2019 em Gijón (Espanha) no “Seminário Interdisciplinar Permanente da Maçonaria” (Biblioteca Jovellanos, 22 a 25 de fevereiro)[1] .

Os quatro textos foram escritos com o intuito de superar ‘ideias, preconceitos e mitos’[2]. Preconceitos e mitos que, à força de se repetir sempre, à parte da crítica histórica mais elementar, tornaram-se dogmas históricos, pouco menos que imóveis, apesar de sua fragilidade histórica documental.

Esta abordagem afeta, especialmente, a suposta ou real filiação à Maçonaria dos chamados heróis da Independência americana e, em particular, o caso do libertador Simón Bolívar [3], o único do qual há provas documentais confiáveis ​​de sua pertença uma loja maçônica., pelo menos em um curto período de sua vida. O que não acontece, por exemplo, com Miranda, San Martín[4], O’Higgins, Sucre e tantos outros que se tornaram heróis e símbolos da pátria e da Maçonaria, embora sua filiação maçônica nem sempre seja clara ou suficientemente comprovada como a de Bolívar. Aqui, como afirma Alain Keghel, “a lenda e a imaginação desempenharam um papel importante na constituição de um corpus histórico-lendário, às vezes tingido de uma certa fantasia”[5].

Precisamente, um dos problemas anteriores que o estudo biográfico de Simón Bolívar acarreta é o caráter confuso e polêmico de sua iniciação maçônica, negada por alguns, afirmada por outros e desconhecida ou ignorada por outros. Mas isso, em qualquer caso, se converte em prova ou contraprova de ações políticas pró-independência, nem sempre suficientemente comprovadas com sua conexão ou não maçônicas.

As biografias de Bolívar, como tantos dicionários e enciclopédias[6], não têm nenhuma relação com o fato de ele ser ou não maçom. Em geral, são bastante decepcionantes devido às suas lacunas, imprecisões e reiterações neste assunto. Se tomarmos como exemplo três biografias de caráter popular e amplamente divulgado, observamos que uma delas fala apenas em “Sociedade Patriótica”[7]; em outra da “Loja de Cádiz” ligada ao Grande Encontro Americano, cuja sede era em Londres em agosto[8]; e em uma terceira em um capítulo intitulado “ações em ação”. A única coisa que se diz é que o movimento de Miranda e Bolívar, como mais tarde o de San Martín, tinha sido apoiado por sociedades secretas chamadas “lojas”, como a que levou o nome de Lautaro e operou em Cádiz durante a guerra de independência da Espanha contra Napoleão[9]. Como contrapartida no ambiente da Maçonaria existe uma tradição que vincula Bolívar com a Maçonaria e especialmente com as sociedades patrióticas ou lojas Lautaro[10].

Onde e quando Bolívar começou na Maçonaria?

O maçom William R. Denslow, em sua obra 10.000 maçons famosos, diz que Bolívar ingressou na Maçonaria em Cádiz e acrescenta que recebeu os graus do Rito Escocês em Paris, sendo elevado à liderança dos Cavaleiros Templários na França em 1807, e que durante sua missão diplomática em Londres em 1810 levou uma vida ativa naquele país. Mais tarde, ele fundou a Loja Protetora das Virtudes nº 1 na Venezuela, e La Libertad nº 2 no Peru, da qual teria sido Venerável Mestre[11]. Mas não chega a mais detalhes como, por exemplo, a data de sua entrada na Maçonaria de Cádiz, o nome da loja, ou o que era esta Maçonaria. Hoje sabemos que a primeira loja maçônica foi fundada em Cádiz em janeiro de 1807[12] e nessa época Bolívar já havia retornado à América, por isso foi difícil para ele entrar na Maçonaria em Cádis.

Por sua vez, o Dr. Buenaventura Briceño Belisario, que foi Soberano Grande Comandante do Supremo Conselho 33 do Antigo Rito Escocês e Aceito pela Venezuela, em seu livro Immortal Humans[13], assegura que Bolívar foi iniciado por Francisco de Miranda em uma loja Lautaro, porém, sem indicar qual, onde e quando – e recebeu o grau de Mestre na loja venezuelana de Carúpano[14].

Por sua vez, Carnicelli, como Mancini, a quem cita[15], asseguram que começou na “Maçonaria Mirandista” na cidade de Cádiz, na Loja Lautaro, sem indicar a data nem dar mais detalhes. E acrescentam que, em Londres, em 1810, recebeu do precursor Miranda, o grau iniciático supremo na Grande Loja americana. E como complemento ao anterior, trazem o depoimento do historiador Marquês de Villa Urrutia[16] em seu estudo Rainha María Luisa y Bolívar, onde se afirma que Bolívar foi iniciado no final de 1803 não na Loja Lautaro, mas na Cavaleiros Racionais também da cidade de Cádiz[17].

Michel Vaucaire, em Bolívar el Libertador, relata que depois de sua viagem à Europa em 1803 – após a morte de sua esposa María Teresa em 22 de janeiro daquele ano – e de seu retorno à Venezuela, via Estados Unidos, em 1806, lhe mostrou seu Diploma maçônico e comentou sobre a visita à loja de Cádiz “a que foi por curiosidade e não por convicção”[18].

Este testemunho, como os anteriores, não tem valor para Seal-Coon em seu rigoroso trabalho Simón Bolívar, maçom[19]. O primeiro por ser contraditório e não fornecer nenhuma prova. Este último, porque Bolívar, no final de 1803, tinha 20 anos e era um oficial espanhol, não um revolucionário, que veio a Madrid para amenizar a dor de ter perdido a esposa após seis meses do casamento[20]. E para Seal-Coon nenhuma dessas circunstâncias era favorável para pensar na possibilidade da iniciação de Bolívar a uma loja política. O máximo que ele admite é uma visita como um não-maçom.

Mas, é mais importante saber que a “Loja” Lautaro ou Cavaleiros Racionais, de Cádiz, ainda não existia em 1803, pois foi fundada em 1811 por Carlos de Alvear e não por Miranda, como se disse. Além disso, a Lautaro não era uma loja maçônica, mas uma sociedade secreta patriótica que tinha como objetivo a independência da América Espanhola[21]. A lenda da iniciação de Bolívar em Cádiz não faz sentido, já que nas datas indicadas não havia loja maçônica na cidade e, o suposto Lautaro, também não existia e ainda levaria sete ou oito anos para ser estabelecido por Alvear, segundo seu próprio testemunho[22].

Também não há evidências de que Bolívar tenha sido membro, muito menos fundador, da Loja Protetora das Virtudes que foi criada em Barcelona (Venezuela) em 1º de julho de 1810 por Diego Bautista Urbaneja; nem da Loja Ordem e Liberdade , nº 2 , de Lima (Peru). Fundação atribuída ao General Antonio Valero com quem Bolívar teria em 1826 palavras não excessivamente fraternas, por causa das lojas constituídas pelo referido General Valero[23]. Os primeiros contatos de Bolívar com a Maçonaria foram logo depois, e não com a Maçonaria Templária como Denslow aponta, nem com a loja americana de Carúpano como afirma Briceño Belisario, mas com a Maçonaria escocesa parisiense.

Sociedades secretas

Em todo caso, estamos perante instituições como Lautaro, Cavaleiros Racionais, Encontro de Americanos, Conjuração de Patriotas, União Americana, Supremo Conselho da América, Grande Loja Americana, entre outras. Todos esses nomes têm o mesmo significado[24]: instituições ou sociedades que realmente não tinham nada da Maçonaria, embora às vezes adotassem o nome de lojas[25].

Nem existe qualquer acordo sobre o nome e localização dessas “associações”. Para Martínez Zaldúa e Enrique de Gandía[26], os Cavaleiros Racionais de Cádiz não eram uma loja, mas sim membros do Grande Encontro Americano fundado em Londres por Francisco Miranda em 1797. Porém, para Fernando Nadra[27], a sociedade fundada pelo venezuelano Miranda em Londres foi chamada de Lautaro ou Cavaleiros Racionais. Por sua vez, María Teresa Berruezo León afirma que “Miranda fundou em Londres a loja cavaleiros Racionais ou Grande Encontro Americano, que mais tarde seria transplantada para Cádiz como uma filial da loja-mãe”[28].

Nicolás E. Navarro, em Maçonaria e Independência pergunta: “Eram essas lojas maçônicas verdadeiras? Pode-se duvidar ”[29], ele responde. O maçom Pedro A. Barboza de la Torre, de Maracaibo, em sua obra datilografada Simon Bolivar e a maçonaria[30] ao mencionar essas pseudo lojas mirandistas, se refere a elas como “lojas” itinerantes, talvez uma imitação das lojas militares bonapartistas[31].

O depoimento do próprio San Martín nos faz duvidar se a, por alguns chamados, Loja Reunião de Americanos de Cádiz, era uma sociedade ou loja, ou melhor, “uma reunião de americanos”, com letra minúscula, como o próprio San Martín refere numa carta escrito ao General Ramón Castilla dois anos antes de sua morte em seu exílio voluntário de Boulogne-sur-Mer, na França, na qual ele diz:

Como você, servi no exército espanhol, na península, dos treze aos trinta e quatro anos, até o posto de tenente-coronel da cavalaria. Num encontro de americanos em Cádiz[32], cientes dos primeiros movimentos ocorridos em Caracas, Buenos Aires, etc., resolvemos devolver cada um ao seu país natal, a fim de prestar nossos serviços na luta, pois nós calculou que ele faria.

O depoimento de José Pettenghi conclui com o seguinte comentário lapidar: “Tudo o que se acrescenta não passa de suposições”[33].

Por sua vez, William Spence Robertson, o biógrafo de maior prestígio de Miranda, considera como hipótese a fundação em Londres por Miranda daquela influente sociedade de revolucionários hispano-americanos chamada loja Lautaro que, mais tarde, desenvolveria uma grande atividade na América do Sul, onde fomentou a revolução. Além disso, ele acrescenta que o exame de seus documentos não publicados “não revela nada que ele possa provar, se ele pertencia à Ordem Maçônica e se ele foi o fundador da Loja Lautaro.”

Da mesma opinião é o maçom Seal-Coon, que conclui sua valiosa obra “A mítica maçonaria de Francisco de Miranda” com as seguintes palavras: “Em minha opinião é muito mais provável que nosso famoso e pitoresco sul-americano nunca tenha sido membro. de um organismo maçônico regular ou irregular”[34].

No entanto, a opinião de que Miranda foi o fundador de um clube revolucionário hispano-americano é adotada entre tantos outros que não puderam conhecer ou consultar o rico arquivo pessoal de Miranda, do maçom e ilustre historiador Bartolomé Mitre. Em sua História de San Martín y de la emancipación Sudamericana[35], diz sobre as chamadas “lojas mirandistas”[36] que as sociedades secretas constituídas por sul-americanos, com tendências à emancipação da América do Sul com base no dogma republicano, eram muito semelhantes em sua organização e em seus propósitos às associações carbonárias traçadas nos ritos da Maçonaria, dos quais não tinham senão suas formas e símbolos ”[37].

Essas mesmas ideias também se encontram em sua outra obra História de Belgrano y de la Independencia Argentina, onde no Capítulo XXIV do Volume Dois, sob o título “Belgrano y San Martín”, ele diz que essas sociedades secretas

assumiram todas as formas das lojas maçônicas; mas apenas sinais, fórmulas, graus e juramentos tinham tais sinais. Seu objetivo era mais alto e, por causa de sua organização, eles se assemelhavam muito às associações carbonárias. Compostas em sua maioria por jovens americanos fanatizados pelas teorias da Revolução Francesa, não iniciaram em seus mistérios, mas sim por aqueles que professavam o dogma republicano, dispostos a trabalhar pela independência da América.[38]

Nessas passagens é claramente apreciado como Bartolomé Mitre descreve a associação política secreta atribuída a Miranda. Uma associação muito diferente da Maçonaria e mesmo do Carbonária, da qual assumiu apenas uma aparência superficial de signos, fórmulas, graus e juramentos secretos. Era uma associação secreta, sim, mas uma sociedade secreta de natureza política, com um propósito perfeitamente definido que nada tinha a ver com o que a Maçonaria pretendia[39].

Mas como esse é um assunto que há pouco já abordei em Cartagena das Índias. Focado justamente na pessoa de Miranda, me refiro ao que foi dito e publicado ali [40] e também ao que publiquei nas lojas Lautaro [41], porque o que nos interessa agora é o que se refere a Bolívar e sua iniciação maçônica.

Continua…

Autor: Jose Antonio Ferrer Benimeli

Fonte: REHMLAC

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Notas

[1] – José Antonio Ferrer Benimeli, “Bolívar e a Maçonaria”, Revista de Indias XLIII, no. 172 (julho-dezembro de 1983): 631-632; Journal of Ibero-American Studies IX, no. 1 (julho-dezembro de 1983): 1-51; “Maçonaria e independência da América Latina: Miranda e as lojas Lautaro”, em La Masonería en la Independencia de América. Três Séculos de Fundação da Maçonaria Simbólica (1717-2017) , eds. Diana Elvira Soto Arango, Miguel Angel Puig-Samper e José Pascual Mora-García (Tunja: Universidade Pedagógica e Tecnológica da Colômbia, 2018), 15-45; “As lojas Lautaro, os Cavaleiros Racionais e o movimento de independência americana”, na Maçonaria e sociedades secretas no México, coords. José Luis Soberanes Fernández e Carlos Francisco Martínez Moreno (México: UNAM, 2018) 41-70; “Mito, esquecimento e manipulação da história da Maçonaria”, REHMLAC + , 17, no. 1 (maio a novembro de 2019) 1-11, https://doi.org/10.15517/rehmlac.v11i1.36976

[2] – Expressão utilizada por Fernando Marqués da Costa em seu excelente prefácio a Alain de Keghel, Maçonaria na América Latina. Idealismo, complexidades e poder (Oviedo: Masonica.es, 2019), 15.

[3] – Simón Bolívar era na verdade chamado Simón José Antonio de la Santísima Trinidad Bolívar y Palacios, seus pais sendo Juan Vicente Bolívar y Ponte e Concepción Palacios y Blanco.

[4] – Apesar de Angel Guisado Cuellar, “Maçonaria britânica em Cádiz durante a Guerra Peninsular”, St. Bernard’s Lodge of Research No. 1817 SC Gibraltar Masonic Papers 1 (2015): nota 14, diz que “a única coisa que foi claramente demonstrado é que o dirigente argentino San Martín era maçom ”, já que nenhuma das duas obras em que se apoia tem esse valor probatório. Vida espanhola do General San Martín , coord. Antonio Lago Carballo (Madrid: Instituto Español Sanmartiniano, 1994).

[5] – Keghel, Maçonaria na América Latina , 273.

[6] – A título de exemplo, basta recorrer à voz de Simón Bolívar em uma das muitas enciclopédias ou dicionários que tratam dele para verificar que omitem qualquer referência a sua presumível filiação à Maçonaria. Isso ocorre, por exemplo, com a European-American Illustrated Universal Encyclopedia (Barcelona: José Espasa e Hijos Ed. 1908), volume VIII, 1408-1413; Dicionário enciclopédico hispano-americano de literatura, ciências e artes (Barcelona: Montaner y Simón, 1888), volume III, 744-745; Salvat Encyclopedic Dictionary (Barcelona: Salvat, 1955), 249-251; Grande Enciclopédia do Mundo (Bilbao: Durvan, 1962), volume III, 725. Uma exceção é a Nova Enciclopédia Larousse (Barcelona: Planeta, 1980), 1262-1263, onde, bem informado, se diz que em Paris “ingressou numa loja maçônica”.

[7] – Demetrio Ramos Pérez, Simón Bolívar el Libertador (Madrid: Anaya, 2004), 47-49.

[8] – Nelson Martínez, Simón Bolívar (Madrid: Hª 16 Quorum, 1986), 15-16.

[9] – R. Ballester Escalas, Simón Bolívar (Barcelona: Toray, 1963), 145.

[10] – A escolha do título “Lautaro” -o guerreiro mapuche- já é muito significativa, pois Lautaro, o caudilho araucano, foi quem derrotou Valdivia, o conquistador do Chile, em Tucapel em 1554.

[11] – William R. Denslow, 10.000 maçons famosos (Richmond: Macoy, 1957).

[12] – Ferrer Benimeli, Contemporary Spanish Masonry (Madrid: Siglo XXI de España ed., 1980), 42-46.

[13] – Buenaventura Briceño Belisario, Immortal Humans (Havana: Lex, 1961).

[14] – Carúpano: cidade da Venezuela localizada na costa do Mar Antillean, no estado de Sucre, a 65 kms. de Caracas.

[15] – Américo Carnicelli, Maçonaria na independência da América (1810-1830) (Bogotá: El autor, 1970), tomo I, 207. Jules Mancini, Bolívar e a emancipação das colônias espanholas das origens a 1815 , citado por Carnicelli, Maçonaria , Volume I, 207.

[16] – Wenceslao Ramírez de Villaurrutia (Havana 1850-Madrid 1933), diplomata (embaixador em Viena, Londres, Roma e Paris), historiador (membro da Royal Academy of History) e político (senador vitalício em 1905 e Ministro de Estado do 27 de janeiro a 23 de junho de 1905 no governo presidido por Raimundo Fernández Villaverde), porém, ele não tem autoridade como historiador da Maçonaria.

[17] – Wenceslao Ramírez de Villaurrutia, “Rainha María Luisa y Bolívar”, Boletim da Real Academia de História 90 (1927): 297-315.

[18] – de Michel Vaucaire, Bolívar o libertador , citado por FW Seal-Coon, “Simón Bolívar, maçom”, Ars Quatuor Coronatorum 90 (1977): 232.

[19] – Seal-Coon, Bolívar, Freemason , 231-247.

[20] – Simón Bolívar ficou viúvo aos 19 anos, quando sua esposa María Teresa morreu em Caracas “de uma febre maligna” em 26 de janeiro de 1803.

[21] – Ferrer Benimeli, “Cádiz e as chamadas lojas Lautaro ou Cavaleiros Racionais”, em Da Ilustração ao Romantismo. Ideias e movimentos clandestinos (Cádiz: Universidad, 1988); “As lojas Lautaro, os Cavaleiros Racionais”, 41-70.

[22] – Enrique de Gandía, “A política secreta da Grande Loja de Londres”, Boletim da Academia Nacional de História (Buenos Aires, 1976), 208. Nicolás Eugenio Navarro, Bolivarian Topics. Glosses to the “Diario de Bucaramanga” (Caracas, 1933), 31-32. Emilio Ocampo, Alvear na guerra com o Império do Brasil (Buenos Aires: Claridad, 2003).

[23] – Carnicelli, Maçonaria , volume II, 64.

[24] – Francisco Morales Padrón, História da América (Madrid: Espasa Calpe, 1962), 87, em vez de Cavaleiros Racionais diz Cavaleiros Nacionais.

[25] – D. Duthu, “San Martín e a Loja Lautaro”, Revista Eclesiástica do Arcebispado de Buenos Aires V (1905): 900-902; Juan Canter, “A Sociedade Patriótica e a Loja Lautaro”, La Nación, Buenos Aires, 10 de outubro de 1934; “A Loja Lautaro e a Revolução de Outubro de 1812”, La Nación, Buenos Aires, 3 de outubro de 1934; “A Loja Lautaro e a independência da América segundo Antonio R. Zúñiga”, Crítica Histórica (Buenos Aires, 1933): 1-14; “The Lautaro y Mendoza Lodge”, Revista da Junta Provincial de Estudos Históricos II (Santa Fe, 1936): 79-80; Raúl Ruiz y Ruiz, “A Loja Lautaro e a Independência da América”, Revista do Conselho Provincial de Estudos HistóricosXIV (Santa Fe, 1946): 73-82 e Revista San Martín 13 (Buenos Aires, 1947): 117-126; Fabián Onsari, San Martín, Lautaro Lodge e Maçonaria (Avellaneda, 1951); F. Pacífico Otero, “The Lautaro Lodge. Seu valor e importância histórica ”, La Nación, Buenos Aires, 12 de junho de 1910; Benjamín Oviedo Martínez, “La logia lautarina”, Revista Chilena de História e Geografia LXII (1929): 105-126; Mariano F. Paz Soldán, “The Lautaro Lodge”, em History of Independent Peru (Lima, 1868-1870): tomo I, 228-232; Rómulo Avendaño, “Sociedade Lautaro. Retificações históricas ”, Buenos Aires Magazine 19 (1869): 439-445; Augusto Barcia, San Martín e o Lautaro Lodge(Buenos Aires, 1950); Jaime Eyzaguirre, La logia lautarina e outros estudos sobre a independência (Santiago do Chile, Ed. Fco. De Aguirre, 1973); Guillermo Furlong. “The Lautaro Lodge”, Critério X (Buenos Aires), 1930): 721-722; Enrique de Gandía, A política secreta da Grande Loja de Londres (Buenos Aires, 1977); José Pettenghi, “San Martín em Cádiz, a caminho da América”, em espanhol Life of General San Martín , coord. Antonio Lago Carballo (Madrid, Instituto Español Sanmartiniano, 1994): 186-193.

[26] – Ramón Martínez Zaldúa, Maçonaria na América Latina (México, 1965), 15; Enrique de Gandía, “As prováveis ​​origens da loja Lautaro”, Symbol (Buenos Aires) 47 (agosto de 1990): 15-18.

[27] – Fernando Nadra, San Martín hoje (Buenos Aires: Ed. Cartago, 1974) 26.

[28] – María Teresa Berruezo León, “Londres, uma pioneira da propaganda da independência americana na Europa, 1808-1830”, Cádiz e Iberoamérica 7 (1984): 18-22.

[29] – Nicolás E. Navarro, Freemasonry and Independence (Caracas: Ed. Sur-America, 1928), 15-16.

[30] – Pedro A. Barboza de la Torre, Simón Bolívar e a Maçonaria (Maracaibo: sc 1977).

[31] – Sobre a Maçonaria Bonapartista na Espanha: Ferrer Benimeli, Maçonaria Espanhola Contemporânea (Madrid: Século XXI da Espanha Ed. 1980), 38-81.

[32] – O sublinhado é meu.

[33] – Pettenghi, “San Martín em Cádiz, a caminho da América”, 188. Manuel Jesús Segado-Uceda, “José Francisco de San Martín. De herói a fora da lei ”, Iberian 2 (2011) 30-39.

[34] – “Tampouco houve qualquer evidência que indicasse que ele alguma vez tenha iniciado revolucionários como San Martín e Bolívar em uma associação de ‘carbonari’ sul-americanos. Na verdade, nem mesmo há indícios de que Miranda tenha conhecido San Martín ”. William Spence Robertson, A vida de Miranda (Caracas: Academia Nacional de História, 2006): 158. FW Seal-Coon, “A mítica Maçonaria de Francisco de Miranda”, em Maçonaria espanhola entre a Europa e a América , coord. Ferrer Benimeli (Zaragoza: Gobierno de Aragón, 1993), volume I, 107-126.

[35] – Bartolomé Mitre, Emancipation of South America (Londres, 1893). História de San Martín e a emancipação sul-americana (Buenos Aires: Eudeba, 1968).

[36] – Francisco de Miranda é considerado o criador de algumas associações secretas às quais aderiram os americanos espalhados pela Europa (O’Higgins do Chile, Nariño de Nueva Granada, Montúfar e Rocaforte de Quito, Caro de Cuba, Alvear da Argentina …). Porém, em seus papéis privados que o próprio Miranda encadernou em mais de 60 volumes e que de 1812 a 1926 foram mantidos na Inglaterra, não há alusão a essas sociedades. Quando Miranda foi feito prisioneiro na Venezuela em 1812, seu secretário particular Antonio Leleux despachou os documentos em um navio inglês com destino a Curaçao, onde permaneceram por dois anos. Posteriormente, foram enviados para a Inglaterra sob a custódia de Lord Barthust, cuja família os guardou até que o diplomata e historiador venezuelano Caracciolo Parra Pérez os comprou e transferiu para Caracas. A Academia Nacional de História da Venezuela publicou os primeiros 14 volumes entre 1929 e 1933. Outros dez foram publicados entre 1934 e 1950. Eles mantêm a classificação que Miranda deu a seus trabalhos: Viagem (1750-1805), Revolução Francesa (1792-1808 ) e Negociações (1790-1810). Wilfredo Padrón Iglesias. “A Maçonaria, um ponto negro na trajetória de Francisco de Miranda”,Journal of Latin American Studies 2, no. 61 (2015): 23-24. Gloria Henríquez-Uzcátegui. Os papéis de Francisco de Miranda (Caracas: Biblioteca da Academia Nacional de História, 1984), 135.

[37] – Iris M. Zavala, Masones, comuneros y Carbonarios (Madrid: Siglo XXI de España Ed. 1971).

[38] – Citado por Nicolás E. Navarro, Masones, comuneros y carbonarios (Madrid: Siglo XXI de España Ed. 1971).

[39] – O professor Salvador M. Dana Montaño (ex-reitor da Universidad del Litoral e professor das universidades de Trelew e Santa Fe, na Argentina, teve a mesma opinião em nossa correspondência privada (anos 1975-1987) em torno de San Martín, da qual afirma que “em nenhum documento público ou privado o general San Martín menciona a Maçonaria”. E acrescentou: “Acho que não era maçom, mas membro de uma sociedade secreta de natureza política, como a de Mazzini na Itália., ou o de Echeverría em Buenos Aires ”.

[40] – Ferrer Benimeli, “Maçonaria e independência da Hispano-América”, 15-45.

[41] – Ferrer Benimeli, “Cádiz e as chamadas“ lojas ”Lautaro”, 149-176. Ferrer Benimeli, “Os Cavaleiros Racionais, os loges lotariennes e as formas de la franc-maçonnerie dans le monde hispanique”, em Sous le masque de la Franc-Maçonnerie , ed. Jacques Lemaire (Bruxelles: Editions de L’Université, 1990), 11-30.

Mito, esquecimento e manipulação da história da Maçonaria latino-americana

Para entender história

Por ocasião do XV Simpósio Internacional de História da Maçonaria Espanhola realizado em Lisboa, em outubro de 2018, em torno de Mitos e História, dos 10 anos da revista REHMLAC, temos vindo a refletir como um balanço da investigação realizada nestes últimos 40 anos pela historiografia e seu alcance no conhecimento real do fenômeno maçônico. Aproveitando a reunião do Seminário Permanente Internacional de História da Maçonaria em Gijón, em fevereiro de 2019, uma síntese em torno do mito, esquecimento e manipulação da História da Maçonaria é apresentada com o desejo de que um dia a realidade do passado maçônico ocupe o lugar que se apropriou de seus mitos e lendas.

Estamos comemorando os primeiros dez anos da Revista de Estudos Históricos da Maçonaria Latino-americana e Caribenha [REHMLAC], portanto, nas reflexões que vamos compartilhar em voz alta, gostaria de começar acrescentando uma pequena nuance e um complemento ao título da inha apresentação: Mito, esquecimento e manipulação da história da Maçonaria latina, ou seja, ibérica, hispânica ou sul-americana, conforme as preferências de cada um. E farei isso lembrando o professor canário-sevilhano Francisco Morales Padrón que, em sua História da América, observou há 36 anos que ainda não havia um livro geral que estudasse o papel da Maçonaria na independência ou na história da América. Hoje ainda não temos essa publicação, embora seja verdade que um grande passo foi dado nos últimos anos, então, desde algumas universidades americanas e europeias, assim como desde o CEHME, o Grupo La Habana y la revista REHMLAC tem publicando muitos e valiosos estudos sobre a Maçonaria na América Latina, desde o Cone Sul (Chile y Argentina) até o México e o Caribe. Universidades e Centros de Estudos onde a Maçonaria alcançou o status de objeto histórico[1] .

No entanto, como foi revelado no XV Simpósio Internacional de História da Maçonaria Espanhola (Lisboa, 2018), centrado nos mitos e mal-entendidos da historiografia maçônica, ainda existem muitos tópicos e lendas em torno da história da Maçonaria, principalmente hispânica ou latina americana e em particular aqueles que se referem aos protagonistas da emancipação ou independência.

Marco Aurelio Skinner Vásquez[2] em seu ensaio sobre a possível influência da Maçonaria na revolução da independência da Grande Colômbia, onde questiona se dita influência é verdadeira ou mítica, reconhece que no inconsciente coletivo dos hispano-americanos há uma memória mítica que diz: A Maçonaria influenciou muito a liberdade dessas nações, mas não é fácil encontrar provas dessa afirmação.

Em contrapartida na maior parte da historiografia universitária americana e europeia, a Maçonaria nem mesmo é mencionada quando se trata da independência e dos chamados libertadores.

O colombiano Gilberto Loaiza Cano, da Universidad Nacional de Colombia e del Valle em Cali, afirma que “nem mesmo os estudos biográficos sobre os líderes políticos do século 19 na Colômbia contemplaram em suas análises as relações de seus biógrafos com a militância maçônica”[3]. Na maioria dos casos, os biógrafos preferiram omitir qualquer vínculo com a Maçonaria de seus biografados[4].

E no caso da Colômbia, as omissões mais marcantes são as de Francisco de Paula Santander e Tomás Cipriano de Mosquera, promotores e líderes indiscutíveis da Maçonaria colombiana e da primeira implantação da rede de lojas.

No entanto, esse vazio na historiografia universitária americana e europeia, até datas relativamente recentes, foi preenchido por contribuições mais ou menos valiosas de militantes maçons como Américo Carnicelli, Julio Hoenisberg e o mais recente de Mario Arango Jaramillo[5] ou por muito mais numerosos antimaçons e em geral mais infelizes, como o prolífico José Patricio Maguirre ou Ramón Martínez Zaldúa[6].

Um caso especial devido, ao grande número de publicações que delas trataram, embora nem sempre com a desejável exatidão e objetividade histórica, são algumas lojas ou pseudolojas, especialmente os chamados Lautaro[7] que, como se sabe, não eram maçônicas. mas sim político-patrióticas e pertencente a um momento muito específico da história da América, especialmente ligado à independência, emancipação ou revolução do início do século XIX[8]. Correspondem ao estudo muitas vezes confuso do papel desempenhado não só pela Maçonaria, mas pelas sociedades secretas em geral, sejam maçônicas, políticas, patrióticas, militares, literárias, econômicas ou filológicas, como a que atacou Bolívar em 1828[9].

Nos últimos quarenta anos, a Maçonaria tem sido estudada no contexto dessas práticas associativas e de construção dos novos Estados-nação americanos. A história da Maçonaria no início do século XIX é apresentada como mais uma forma de cultura política ou sociabilidade cosmopolita baseada na harmonia e na tolerância política, social, religiosa e fraterna.

É o caso de Eduardo Torres Cuevas para Cuba e de Francisco Javier Guerra, María Eugenia Vázquez Semadeni, Carlos Francisco Martínez Moreno, Guillermo de los Reyes e Marco Antonio Flores Zavala para o México[10], de Pilar González Bernaldo de Quirós para a Argentina[11], de Felipe Santiago del Solar para o Chile[12] ou Gilberto Loaiza Cano para a Colômbia e Miguel Guzmán-Stein e Ricardo Martínez Esquivel para a Costa Rica[13].

E embora seja verdade que na segunda metade do século 19 grande parte da classe política da Argentina, México e Colômbia – para colocar apenas três exemplos representativos de curso extensíveis aos demais países da área geográfica ibero-americana – militou nas lojas, no entanto, no primeiro terço do século a prática associativa maçônica foi muito mais diluída nas elites político-intelectuais. Em primeiro lugar, porque a introdução da Maçonaria nesses países é muito posterior à independência, o que nos leva a questionar se a Maçonaria na América espanhola é uma causa ou melhor, uma consequência da independência; e em segundo lugar, porque não é o mesmo que alguma loja ou pseudoloja implantada do exterior esteja localizada do que que haja uma maçonaria autóctone organizada e institucionalizada como tal.

A origem da famosa e polêmica “loja” Lautaro de Buenos Aires geralmente está localizada em 1812. No entanto, a Maçonaria Argentina foi fundada em 1857, como o Grão-Mestre Carlos Wilson lembrou em 1982 por ocasião da celebração do 125º aniversário da Grande Loja da Argentina de Maçons Livres e Aceitos[14]. O mesmo poderíamos dizer do Chile, que em 2012 comemorou o 150º aniversário da fundação da Grande Loja do Chile em maio de 1862, conforme afirmou o Grão-Mestre Luis A. Riveros em seu discurso comemorativo. E mais recentemente, em outubro de 2018, a Grande Loja da República Dominicana comemorou 180 anos de sua fundação em 1868.

Intimamente ligado ao acima mencionado está o papel desempenhado pelos chamados libertadores e sua suposta ou real filiação na Maçonaria, embora na realidade o único do qual haja evidências documentais confiáveis ​​de que ele foi iniciado em uma loja maçônica e, portanto, era um maçom, pelo menos em um curto período de sua vida é a de Simón Bolívar, o que não acontece, por exemplo, com Miranda, San Martín, O’Higgins e tantos outros que se tornaram heróis nacionais e símbolos da pátria, embora sua filiação nem sempre é clara ou suficientemente comprovada como a de Bolívar.

No entanto, Bolívar, que recebeu os três primeiros graus da Maçonaria em 1805 na Loja de Santo Alexandre da Escócia em Paris, não voltou mais em nenhuma outra loja maçônica europeia ou americana[15]. Em outras palavras, que em comparação com alguns meses ou semanas de militância maçônica em Paris, estamos enfrentando 25 ou 26 anos de retirada maçônica, ou pelo menos a ausência de notícias de participação direta.

Além disso, como resultado do fracasso da Convenção de Ocaña em junho de 1828, que confrontou os partidários do General Santander e os de Bolívar, e também o fracasso da conspiração contra Bolívar e sua tentativa de assassinato pela Sociedade Filológica, ao final de setembro do mesmo ano[16], Bolívar e seus ministros consideraram conveniente prevenir futuras conspirações, evitando encontros ilegais, a pretexto das sociedades culturais, e para tanto emitiu o decreto de 8 de novembro de 1828, sobre a proibição no território da república da Colômbia “das associações ou fraternidades secretas”. Certamente a Maçonaria não é especificamente mencionada no decreto, mas foi tacitamente incluída. Desde 8 de novembro de 1828, a Maçonaria foi oficialmente dissolvida na Colômbia.

Sobre a atitude pessoal de Bolívar e o motivo de sua entrada na Maçonaria, as palavras que o francês Luis Perú de Lacroix, marechal de campo de Bolívar e coronel do Exército da Grande Colômbia, recolhe no famoso Diario de Bucaramanga onde glosa assim algumas confidências. “Segundo ele” o libertador o fez no domingo, 11 de maio de 1828, sete meses antes do decreto de proibição:

Ele falou sobre a Maçonaria, dizendo que também teve a curiosidade de ser iniciado para ver de perto quais eram esses mistérios, e que em Paris fora recebido um Mestre, mas que aquele grau tinha sido suficiente para julgar o ridículo daquela antiga associação; nas Lojas ele encontrou alguns homens de mérito, alguns fanáticos, muitos mentirosos e muitos mais tolos zombados; que todos os pedreiros se parecem (sic) algumas grandes crianças, brincando com sinais, morisquetas, palavras hebraicas, fitas e cordas; que, no entanto, a política e os mafiosos podem tirar proveito dessa sociedade secreta, mas que no estado de civilização da Colômbia, de fanatismo e preocupações religiosas em que estão seus povos, não era político usar a Maçonaria, porque se tornar alguns partidários nas Lojas teriam atraído o ódio e a censura de toda a Nação, e então movido contra ele pelo clero e frades, que teriam se valido desse pretexto; que, pela mesma razão, a Maçonaria poderia fazê-lo ganhar pouco e fazê-lo perder muito de opinião[17]. Luis Perú de Lacroix, Diario de Bucaramanga (Caracas: Edição de Monsenhor Nicolás E. Navarro, 1935)

Este texto sintetiza bem a posição de Bolívar em relação à Maçonaria, na opinião de Nicolás E. Navarro, editor do Diario de Bucaramanga, que não tem dúvidas de que o oficial francês refletiu fielmente o pensamento do Libertador, já que o próprio Peru de Lacroix era maçom, grau 33, e não tinha interesse em ridicularizar ou subestimar a instituição a que pertencia[18].

Voltando ao decreto de proibição, é curioso o fundamento ideológico que o próprio Bolívar nele faz. Diz assim:

SIMON BOLIVAR

Presidente Libertador da República da Colômbia …

Tendo creditado a experiência tanto na Colômbia como em outras nações, que as sociedades secretas servem para preparar convulsões políticas, perturbando a tranquilidade pública e a ordem estabelecida; que ocultando por trás delas todas suas operações com o véu do mistério, fazendo presumir fundamentalmente que não boas nem úteis à sociedade e por isso mesmo se mostram suspeitas e temerosas a todos aqueles que ignoram os assuntos com os quais se ocupam, ouviu o parecer do Conselho de Ministros,

Decreto: Artigo 1. Todas as associações ou fraternidades secretas são proibidas na Colômbia, independentemente da denominação de cada uma …

Aqui a fórmula do decreto de Bolívar pela qual “todas as associações ou fraternidades secretas eram proibidas, qualquer que fosse a denominação de cada uma”, lembra outro decreto anterior, de 1817, do Arcebispo de Granada em que está incluída a bula de Leão XII, proibindo e condenando novamente “qualquer seita ou sociedade clandestina, qualquer que seja sua denominação…”[19].

Na década de 1820, as lojas maçônicas foram introduzidas na América hispânica principalmente via Jamaica, França e Estados Unidos[20], e se misturaram ou substituíram as sociedades patrióticas Lautaro.

Gilberto Loaiza Cano lembra que a partir dessas datas a pousada serve para reunir as facções ou partidos que disputavam o controle do processo organizacional das pós-independências. E traz exatamente o exemplo da conspiração contra Bolívar apoiada por um grupo de maçons sob a direção de Francisco de Paula Santander, fundador em Bogotá da Loja Libertad de Colômbia. Na outra ponta da história política cronológica do século XIX situa-se a aprovação da Constituição colombiana de 1886, quando os maçons daquele país ligados ao liberalismo radical foram novamente alvo de perseguições e proibições oficiais[21].

Este período é fundamental para compreender a orientação político-ideológica de praticamente toda a Maçonaria latino-americana, na Colômbia, Peru, Argentina e nas demais nações do triângulo formado entre o Pacífico, o Atlântico e o Caribe. Bem, o papel que na década de 1810 as sociedades patrióticas e as “lojas” Lautaro desempenhariam, nos anos após as independências será desempenhado por algumas lojas maçônicas. E a Maçonaria foi amplamente identificada com o liberalismo radical[22]. O liberalismo que terá o secularismo como companheiro de viagem e o anticlericalismo dentro de um projeto político-cultural mais amplo cuja forma última de expressão será o republicanismo.

A república, principal objetivo das sociedades patrióticas que lutaram pela independência, consubstanciada no juramento que os membros do “Lautaro”[23] deviam prestar, será incluída como forma de Estado e de governo nas Constituições dos diversos países que tornaram-se independentes da monarquia espanhola.

Juramento que lembra aquele que Bolívar também fez na montanha sagrada de Roma como uma rejeição ao caminho monárquico-imperialista adotado por Napoleão Bonaparte após sua dupla autocoroação em 1805, como imperador em Paris e rei dos italianos em Milão. Coroações em que Bolívar esteve presente por sua primeira admiração por Bonaparte, mas depois de sua decepção radical causada justamente por sua autocoroação [“A coroa que Napoleão pôs na cabeça eu olhei como uma coisa miserável e em estilo gótico” Diario de Bucaramanga)] reafirmou-o na sua vocação antimonárquica e republicana.

As lojas maçônicas, de certa forma herdeiras ou camufladas com os ideais e objetivos das sociedades patrióticas da primeira década do século XIX, também foram identificadas com o ideal republicano. E o fizeram de forma militante e proselitista ao contrário de algumas maçonarias europeias estabelecidas em países então ainda monárquicos como Itália, Espanha, França e Alemanha, além dos já tradicionais como Grã-Bretanha, Bélgica, Holanda e Escandinávia e países bálticos, ou mesmo do próprio Brasil, cujo imperador Pedro I foi maçom e quem realizou, em 1822, a independência daquela colônia em relação à sua metrópole Portugal. No Brasil, a república federal não seria proclamada até 1889.

Assim, do ponto de vista histórico, tanto na história americana como especificamente maçônica, a identificação quase sagrada que, principalmente na América, se faz entre a Maçonaria e a República não é muito consistente. Essa identificação fez com que a Maçonaria do século XIX na América Latina se visse desde suas origens muito comprometida com os projetos de secularização, principalmente no ensino, em nome de um liberalismo-republicanismo com suas ambiguidades ideológicas, especialmente na história político-religiosa. na segunda metade do século XIX. Ambiguidades reveladas na Colômbia onde, segundo Carnicelli[24] havia duas correntes maçônicas radicalmente diferentes. Uma delas na costa atlântica, no entorno do Conselho Supremo de Cartagena, que se caracterizou pelo fato de os maçons sempre buscarem conciliar os princípios da Maçonaria com sua fé católica. Já a outra, que corresponde ao centro e leste do país, era bastante anticlerical, estando ligada ao liberalismo radical. Entre os acontecimentos mais sintomáticos, devemos destacar a presença no Conselho Supremo de Cartagena de 14 padres católicos, entre os quais dois bispos: Juan Fernández de Sotomayor e Calixto Noguera[25] (o primeiro, grau 33 e, o segundo, grau 18), bem como aquele do secretário do Bispo de Santa Marta, Antonio González Carazo, leigo, membro da Loja União Fraterna, a qual informou, deveria ausentar-se para acompanhar Dom Luis José Serrano durante sua visita pastoral à diocese, na qualidade de secretário diocesano.

Estamos diante do avesso da medalha daquela outra maçonaria liberal colombiana do interior baseada em um ideal secularizador e geralmente anti-religioso e de controle social da profissão docente e das atividades da Igreja Católica.

É impressionante notar que essa abordagem historiográfica em que o acento é colocado na sociabilidade maçônico-religiosa, ou secularização do secularismo, bem como na cultura político-intelectual, dando especial destaque no passado da América a outras abordagens e militâncias de igrejas alheia e oposta ao católico, é uma linha de pesquisa à qual tem sido dada especial atenção da faculdade de teologia protestante da Universidade Marc Bloch de Estrasburgo em figuras proeminentes como a do pastor Pierre Bastian e seus discípulos Dévrig Molles e Gilberto Loaiza Cano[26]. Linha de pesquisa enriquecedora e complementar às anteriores.

Uma reflexão final sobre a linha de revisão dos trabalhos recentes realizados sobre a Maçonaria Ibero-americana nas primeiras décadas do século XIX tanto no sul (Colômbia, Brasil, Argentina, Chile …) e no centro (Cuba e Costa Rica) e no norte (México). Confirma-se a necessidade de continuar analisando os anos que precedem e se seguem à independência, que, como aponta Ballester Escalas em seu Simón Bolívar, “nasceu do grito ‘morram os franceses’ e dos protestos de fidelidade ao rei da Espanha expulso pelo rei invasor José Bonaparte”[27], mas também as da segunda metade do século XIX, que apresentam abordagens e realidades muito diferentes. Em ambos os períodos de estudo dos grupos de poder, destaca-se a importância dada à Maçonaria no debate público como uma nova forma de fazer política primeiro e de fazer história depois.

Aqui, a proeminência da Maçonaria reside no fato de ser objeto de debate público, não em uma presença ou realidade maçônica, já que em muitos casos ela nem existia, dando o paradoxo de que algo não existe e é introduzido muito mais tarde. Daí a ausência de documentos e arquivos, o que dificulta a pesquisa histórica.

O debate público sobre a Maçonaria dará origem e consistência a um imaginário popular que se forma em torno desta instituição, com conotações positivas e negativas – mais negativas do que positivas – de acordo com as ideologias político-religiosas do lugar e do momento. Imaginário que se fortalece no campo da polêmica principalmente na imprensa e nas brochuras tão ricas e variadas, esta última no México. Mas a polêmica também irá para o campo da história e da política.

A maçonaria real ou fictícia acabará ocupando um espaço político no momento em que, na América recém-independente, se busca e constrói identidades políticas. No período de 1826-1828 as lojas maçônicas ou a Maçonaria em geral, identificadas com outras sociedades mais ou menos secretas, foram apresentadas como uma nova forma de lidar com os sistemas políticos nascentes. Isso significará que do parlamento chileno ao mexicano, por meio do decreto colombiano de Bolívar de 1828, a Maçonaria, identificada como sociedade secreta política, está proibida e perseguida nesses anos na maioria das novas repúblicas hispano-americanas.

Desta forma, a Maçonaria, de protagonista torna-se ilegal e permanece fora da lei. A história da Maçonaria na América nos anos após a independência, ou a percepção histórica dela, se move, portanto, em uma área de fronteira entre a rejeição e a aceitação, entre a liderança política e a condenação. Em todo caso, parece que tanto para uns como para outros se identifica, na nova ordem política institucional, com posições a favor ou contra, como se fosse difícil – como acontece hoje – permanecer indiferente ao fato maçônico.

A título de conclusão, podem-se propor dois períodos históricos na América Latina. Um que abrange aproximadamente o primeiro terço do século XIX, no qual ainda não existe a Maçonaria, mas há muita conversa e debate sobre ela. E a segunda metade de um século em que a Maçonaria e os Maçons são, em muitos casos, conhecidos ou desconhecidos protagonistas dessa história.

Em ambos os casos, embora no primeiro seja por atribuição mais gratuita do que real, a Maçonaria, especialmente em certos autores que tratam do assunto, será identificada na América Latina com os libertadores e a independência e com uma forma de fazer política por ser o portador e difusor de princípios e valores como o liberalismo, a república, a federação[28], a soberania, a igualdade, os direitos individuais … e a secularização do espaço público.

No entanto, para a maioria dos historiadores, a Maçonaria é ignorada ou vista como não mais do que um fato marginal ou anedótico mais típico do ocultismo do que das ciências sociais[29].

Finalmente, para nós, o triângulo formado por REHMLAC , CEHME e SPIHM[30] como uma rede internacional de estudos históricos da Maçonaria, constitui uma equipe de trabalho e um objeto histórico de estudo e pesquisa multicultural e multinacional que tem a Maçonaria como seu centro visto de um amplo âmbito multidisciplinar em que nenhum aspecto histórico, social, político e cultural está ausente. Equipe que pesquisa e publica de forma coordenada na América e na Europa, principalmente da REHMLAC ‒ que nos reúne aqui hoje ‒ mas também da coleção Historia de la Masonería (editada por masonica.es) que nosso organizador Yván Pozuelo dirige com tanto sucesso, e do que em breve serão 30 volumes de anais dos quatorze simpósios internacionais sobre a história da Maçonaria Espanhola, realizada em Espanha, Gibraltar e Portugal entre 1983 e 2018, e organizada pelo CEHME nestes últimos 35 anos. Desta forma, estamos contribuindo para oferecer uma bibliografia ampla e variada que talvez um dia ajude a quebrar os estereótipos, clichês e falsidades que ainda cercam este pequeno pedaço de história que não é tão ruim quanto alguns acreditam, nem tão bom quanto outros desejam.

Autor: José-Antonio Ferrer Benimeli*

*Sacerdote jesuíta, professor de História pela Universidad de Zaragoza. Foi diretor do Centro de Estudos Históricos da Maçonaria Espanhola, e é membro da Real Academia de História da Espanha. Autor de mais de uma dezena de livros sobre Maçonaria.

Fonte: Revista de Estudos Históricos da Maçonaria Latino-americana e Caribenha – REHMLAC

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Notas

[1] – Essa falta de interesse historiográfico pela Maçonaria, denunciada em sua época por Francisco Morales Padrón, Historia de América (Madrid: Espasa Calpe, 1962) [2] , 100, mais recentemente foi também entre outros, por Pilar González-Bernaldo de Quirós , Civilité et politique aux origines de la nação argentina. Les sociabilités à Buenos Aires, 1829-1862 (Paris: Publications de la Sorbonne, 1999) (versão em espanhol no Fondo de Cultura Económica, 2002); Jean-Pierre Bastian, “Uma ausência notória: Maçonaria na historiografia mexicana ”, História mexicana 3 (1995), 439-460; Mario Arango Jaramillo, Maçonaria e poder político na Colômbia(Medellín: New Man Ed., 2011); Gilberto Loaiza Cano, “A Maçonaria e as facções do liberalismo colombiano no século XIX. O caso da Maçonaria da Costa Atlântica ”, História e Sociedade 13 (2007): 65-89, http://bdigital.unal.edu.co/23504/1/20438-68977-1-PB.pdf

[2] – Marco Aurelio Skinner Vásquez, Influência da Maçonaria na revolução de independência da Grande Colômbia. Verdade ou mito? (Bucaramanga: 2013).

[3] – Loaiza Cano, “Maçonaria e facções”, 3.

[4] – Como exceção, Loaiza cita os estudos de Antonio Nariño e Manuel Ancízar. Enrique Santos Molano, Antonio Nariño, filósofo e revolucionário (Bogotá: Planeta, 1999); Loaiza Cano, Manuel Ancízar e seu tempo (Medellín: Universidade Nacional da Colômbia, 2004).

[5] – Julio Hoenigsberg, Influência Revolucionária da Maçonaria na Europa e América (Bogotá: 1944); Américo Carnicelli, Maçonaria na independência da América (Bogotá: 1970), 2 vols. and History of Colombian Freemasonry, 1833-1940 (Bogotá: 1975), 2 vols.; Arango Jaramillo, Maçonaria e Partido Liberal. Outra cara na história da Colômbia (Medellín: Corselva, 2006).

[6] – José Patricio Maguirre, “Alguns antecedentes para avaliar a influência da Maçonaria na libertação da América Latina”, Boletim do Instituto de História da Argentina , n. 16-11 (1968-1969); Ramón Martínez Zaldúa, La masonería en Hispanoamérica ( Sua influência decisiva na revolução mexicana ) (México: B. Costa-Amie, 1965).

[7] – Nome adotado do guerreiro mapuche e líder araucano que derrotou o conquistador Valdivia em 1554. Alonso de Ercilla y Zúñiga, La Araucana (Madri: Gaspar y Roig Ed. 1852).

[8] – José Antonio Ferrer Benimeli, “As lojas Lautaro, os cavaleiros racionais e o movimento de independência americana”, em Maçonaria e sociedades secretas no México , coord. por José Luis Soberanes Fernández e Carlos Francisco Martínez Moreno (México: UNAM, 2018), 41-70.

[9] – Ferrer Benimeli, “Bolívar and Freemasonry”, Revista de Indias 172 (julho-dezembro 1983): 631-687.

[10] – Eduardo Torres Cuevas, História da Maçonaria Cubana. Seis ensaios (Havana: Imagem Contemporânea, 2004); François-Xavier Guerra, Le Mexique, de l’Ancien régime à la Révolution, (Paris, Publications de la Sorbonne, 1985); María Eugenia Vázquez Semadeni, A formação de uma cultura política republicana. O debate público sobre a Maçonaria. México, 1821-1830 (México: UNAM, 2010); Carlos Francisco Martínez Moreno, “A implantação da Maçonaria no México no século XIX” (Dissertação de Mestrado, UNAM, 2011); Guillermo de los Reyes Heredia, heranças secretas. Maçonaria, política e sociedade no México. O impacto da Maçonaria no discurso nacionalista, secular e liberal no México(Puebla: Universidade Autônoma, 2009); Marco Antonio Flores Zavala, “Maçonaria e Maçonaria no México, 1760-1936” (Tese de doutorado, Universitat Jaume I, 2016).

[11] – González-Bernaldo de Quirós, Civilité et politique .

[12] – Felipe Santiago del Solar, As lojas ultramarinas. Sobre as origens da Maçonaria no Chile 1850-1862 (Santiago do Chile: Occidente, 2012).

[13] – Loaiza Cano na nota 1. Miguel Guzmán-Stein, “Liberalismo, Educação, Igreja e Maçonaria: o processo de formação e secularização do Estado nacional através das relações institucionais na Costa Rica no século XIX” (Tese de doutorado, Universidade de Zaragoza, 2005); Ricardo Martínez Esquivel, Maçons e Maçonaria na Costa Rica no alvorecer da Modernidade (1865-1899) (San José: Editorial de la Universidad de Costa Rica, 2017).

[14] – Carlos Wilson, “125 Years of Freemasonry”, The Word of Freemasonry 1 (dezembro de 1982): 5-8.

[15] – Carnicelli, Maçonaria na independência da América , vol. II, 374-376, ao fornecer a Lista dos Maçons de 1809 a 1828, não pode deixar de apontar para Simón Bolívar, Libertador, como membro da Loja Santo Alexandre da Escócia, de Paris, sendo o único que não aparece em a Loja Americana, que supõe um reconhecimento indireto de sua atividade não maçônica na terra que ele libertou ou tornou independente.

[16] – Surpreendeu-se o guarda que guardava a residência do Presidente Libertador General Simón Bolívar, que foi salvo de ser assassinado pela coragem de Dona Manuela Sáenz que o encorajou a se jogar na rua de uma varanda, enquanto ela entretinha os conspiradores , assim ele foi capaz de escapar. Dona Manuela, chamada Libertadora do Libertador, era sua amante desde 15 de junho de 1822, dia em que se conheceram em Quito no baile que Dom Juan Larrea deu em homenagem a Bolívar, recém-chegado de Pasto. O idílio durou até a morte do Libertador, ocorrida em San Pedro Alejandrino, Santa Marta, em 17 de dezembro de 1830.

[17] – Luis Perú de Lacroix, Diario de Bucaramanga (Caracas: Edição de Monsenhor Nicolás E. Navarro, 1935).

[18] – Nicolás Eugenio Navarro, Tópicos Bolivarianos. Glosses para o “Diario de Bucaramanga” (Caracas: 1933): 17-20.

[19] – Sobre os decretos semelhantes que Fernando VII emitiu na Espanha naqueles anos contra as sociedades secretas, ver Ferrer Benimeli, Contemporary Spanish Masonry (Madrid: Siglo XXI de España Ed., 1980), vol. 1, 152-160.

[20] – Ferrer Benimeli, “Caminhos de penetração da Maçonaria no Caribe”, REHMLAC 1, no. 1 (maio-novembro de 2009): 4-15, https://revistas.ucr.ac.cr/index.php/rehmlac/article/view/6853

[21] – Loaiza Cano, “Maçonaria e facções”, 2-3.

[22] – Enquanto o liberalismo moderado ou conciliador em alguns lugares estará mais próximo da Igreja, apesar do fato de que para Roma a besta negra será o liberalismo sem distinções. Recordemos, entre muitos outros, Félix Sardá e Salvany, o liberalismo é pecado (Barcelona: Librería Católica, 1887); Maçonismo e Catolicismo. Paralelos entre a doutrina das lojas e a de nossa Santa Igreja Católica Apostólica Romana (Barcelona: Librería Católica, 1885).

[23] – “Não deves reconhecer como governo legítimo de teu país, mas sim aquele que é eleito pela vontade livre e espontânea dos povos, sendo o governo republicano o mais adaptável à liberdade da América, tende, por qualquer meio possível, aos povos decidirem por este tipo de governo ”. Rómulo Avendaño, Revista Buenos Aires , t. 19 (1869): 439. Navarro, Maçonaria e independência (Caracas: Ed. Sur-Americana, 1928), 29-30.

[24] – Carnicelli, História da Maçonaria Colombiana , vol. I, 39-91; vol. II, 37, 45, 98.

[25] – Tabela dos padres maçônicos do Conselho Supremo de Cartagena, preparada com informações de Carnicelli, de Loaiza Cano, “La masonería y las facciones”, 17-18.

[26] – Ao qual deve ser adicionado para o caso europeu o neoconvert Luc Nefontaine.

[27] – R. Ballester Escalas, Simón Bolívar (Barcelona: Ed. Toray, 1963), 45. Mesmo em 1821 os habitantes da Nova Espanha ainda eram obrigados a ser leais ao rei no decreto que proclamava a Independência e a União, bem como no juramento estabelecido de acordo com o plano de D. Agustín de Iturbide, primeiro chefe do exército das três garantias. Documentos relativos às últimas ocorrências da Nova Espanha (Madrid: Ibarra, 1821), 4-5.

[28] – Assim como nos Estados Unidos da América, outros países das Américas também adotaram a forma de república federativa, como Brasil e México.

[29] – Nesse sentido, o lugar destinado à Maçonaria na maioria das livrarias e editoras e mesmo em não poucas bibliotecas é muito esclarecedor.

[30] – REHMLAC ( Revista de Estudos Históricos da Maçonaria Latino-americana e Caribenha ), CEHME (Centro de Estudos Históricos da Maçonaria Espanhola) e SPIHM (Seminário Internacional Permanente sobre a História da Maçonaria).

Referências

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Arango Jaramillo, Mario. Maçonaria e Partido Liberal. Mais um rosto na história da Colômbia. Medellín: Corselva, 2006. [  Links  ]

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Pequena História da Maçonaria no Brasil – Parte I

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Introdução

O presente artigo visa dar uma ideia panorâmica da Maçonaria Brasileira através da história do Grande Oriente do Brasil GOB, o tronco básico, e de suas posteriores cisões, principalmente a de 1927 e a de 1973. Para uma visão mais completa e aprofundada sobre o assunto pode ser consultado o livro História do Grande Oriente do Brasil de José Castellani e William Carvalho da Editora Madras de 2009. Até a primeira cisão de 1927, a história da Maçonaria brasileira se confundia com a história do Brasil. A partir de então, ou seja, no momento em que a Maçonaria deixa de ser um grupo estratégico, a história se bifurca, seguem rumos paralelos, com alguns contatos ocasionais. A partir da gestão de Jair Assis Ribeiro (1983-1993) no GOB assistiu-se a um ponto de inflexão do desenrolar da Maçonaria brasileira. Atualmente cresce a taxas chinesas, mas ainda não voltou a ser um interlocutor estratégico do país, como fora no passado.

A Maçonaria brasileira, pelo menos, está entrando num patamar de efervescência cultural e educacional com a criação de lojas de pesquisas, universitárias, academias etc. que dentro em breve, inevitavelmente terá desdobramentos significativos. Assim como no passado, a Maçonaria emprestou a sua organização para um país que não possuía partidos políticos, ele poderá, neste limiar do século XXI, ajudar o país, que ainda possui instituições políticas com ranço de desempenho pré-iluministas, a criar valores e instituições verdadeiramente republicanos. O Brasil proclamou a República, mas seus valores ainda são patrimonialistas. Este é o grande desafio que a Maçonaria poderá ajudar o Brasil adequar sua escala de valores e desempenho neste século.

Deu-se particular ênfase às duas cisões no século XX por sua importância estratégica. Compõem ainda o presente trabalho dois anexos: i) a relação dos Grão-Mestres do GOB e ii) um quadro estatístico sobre as Obediências e os maçons brasileiros, considerados regulares, tais como o GOB, as Grandes Lojas e a COMAB (Confederação Maçônica do Brasil). Convém ainda salientar que todas as cisões no Brasil se devem à perda de eleições e não a divergências doutrinárias. Pelos dados apresentados pode-se afirmar que o Brasil possui mais de 6.000 lojas maçônicas e quase 200.000 maçons. Essas são as potências ditas regulares.

Primórdios

Com os dados hoje disponíveis, a primeira referência a uma Loja maçônica brasileira que se tem notícia teria sido em águas territoriais da Bahia, em 1797, em uma fragata francesa La Preneuse, denominada Cavaleiros da Luz, sendo pouco tempo depois transferida para a Barra, um bairro de Salvador. Contudo, a primeira Loja regular do Brasil foi a Reunião, fundada em 1801, no Rio de Janeiro, filiada ao Oriente da Ilha de França (Ille de France), antigo nome da Ilha Maurício, à época possessão francesa e hoje britânica.

Dois anos depois o Grande Oriente Lusitano, desejando propagar, no Brasil, a “verdadeira doutrina maçônica”, nomeou para esse fim três delegados, com plenos poderes para criar lojas regulares no Rio de Janeiro, filiadas àquele Grande Oriente. Criaram, então, as Lojas Constância e Filantropia, as quais, junto com a Reunião, serviram de centro comum para todos os maçons existentes no Rio de Janeiro, regulares e irregulares, tratando de iniciar outros, até ao grau de Mestre. Apesar de controvérsias a exigir maiores pesquisas nesta área, essas foram as primeiras Lojas oficiais e consideradas regulares, pois já existiam, anteriormente, agrupamentos secretos, em moldes mais ou menos maçônicos, funcionando mais como clubes, ou academias, mas que não eram Lojas na acepção da palavra.

Depois da fundação daquelas três primeiras Lojas “oficiais”, espalharam-se, nos primeiros anos do século XIX, Lojas nas províncias da Bahia, de Pernambuco e do Rio de Janeiro, livres, ou sob os auspícios do Grande Oriente Lusitano e do da França. Convém salientar que os governos coloniais da época tinham instruções precisas para impedir o funcionamento de Lojas no Brasil. Tanto assim que aquelas Lojas – Constância e Filantropia – foram fechadas em 1806 no Rio de Janeiro, cessando as atividades maçônicas nesta cidade, mas continuando e se expandindo, principalmente na Bahia e em Pernambuco. O Rio de Janeiro, contudo, não podia ficar sem uma Loja, e apesar desta proibição os trabalhos prosseguiam com as Lojas São João de Bragança e Beneficência.

Um fato importante para a história do futuro Grande Oriente do Brasil foi que a Loja Comércio e Artes, fundada em 1815, conservaram-se independente, adiando sua filiação ao Grande Oriente Lusitano, porque os seus membros pretendiam criar uma Obediência brasileira. Convém ainda salientar que no ano de 1817 ocorreram dois fatos de suma gravidade em termos de crime de lesa-majestade. Estouraram duas revoluções:

  • a Revolução Pernambucana de 1817, um movimento revolucionário, de caráter fortemente nacionalista, feito no sentido de implantar a República em Pernambuco; e
  • a Conspiração Liberal de Lisboa de 1817 liderada pelo nosso Ir. General Gomes Freire de Andrade, ex-Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano.

Dado esse clima de sedição, tanto em Portugal como no Brasil, houve a expedição do draconiano alvará de 30 de março de 1818, que proibia o funcionamento das sociedades secretas. As Lojas resolveram então cessar seus trabalhos, até que pudessem ser reabertas sem perigo. Os maçons, todavia, continuaram a trabalhar secretamente como no Clube da Resistência, fundado no Rio de Janeiro.

Estoura a Revolução Liberal do Porto em 1820, liderada pelos maçons portugueses, exigindo a volta de D. João VI para Portugal. A partir de então os acontecimentos começam a se precipitar. Também é desencadeada na Espanha a Revolução de 1820. A vaga liberal (maçônica) começava contestar os Estados Absolutistas da Península Ibérica. No Brasil, o ano de 1821 começou com uma série de acontecimentos político-militares que culminariam na Independência do Brasil. Como naquela época inexistiam os partidos políticos, foi necessária uma organização que coordenasse e mobilizasse o descontentamento político e a Maçonaria brasileira emprestou sua organização para tal fim. Voltava, então, à plena atividade.

O primeiro fato foi à sedição das tropas a 26 de fevereiro que impunham ao rei D. João VI o juramento à Constituição portuguesa, o que provocou o início de intensa conspiração, entre os quais muitos maçons, visando à independência do Brasil. Os acontecimentos seguintes foram os de 20 e 21 de abril, quando houve a sedição dos eleitores, exigindo a permanência do rei no País, o que provocou a pronta reação das tropas portuguesas, que garantiram o embarque da família real. Todos esses fatos atraíram a atenção policial contra os maçons, o que não impediu, todavia, que a Loja Comércio e Artes voltassem a trabalhar secretamente, reerguendo suas colunas a 24 de junho de 1821. Agora com o nome de Loja Comércio e Artes na Idade do Ouro, sob os auspícios do Grande Oriente de Portugal, Brasil e Algarves.

A afluência de adesões foi tão grande nos meses seguintes que logo se pensou em criar uma Obediência nacional, o que aconteceria a 17 de junho de 1822, com a subsequente divisão do “Comércio e Artes”, formando o trio de Lojas fundadoras do Grande Oriente. A partir deste momento, a Maçonaria brasileira deixava de ser um grupo heterogêneo de Lojas esparsas ou ligadas a algumas Obediências Estrangeiras para se transformar em mais uma célula do sistema obediência mundial.

Apresenta-se um breve resumo dos primórdios até a fundação do Grande Oriente do Brasil, a mais antiga, a maior e a mais tradicional Obediência brasileira. Apesar da precariedade documental, pode-se apresentar a seguinte cronologia:

  • 1796 – Fundação, em Pernambuco, do Areópago de Itambé, que não era uma verdadeira Loja, pois, embora criado sob inspirações maçônicas não fosse totalmente composto por maçons;
  • 1797 – Fundação da Loja Cavaleiros da Luz, na povoação da Barra, Bahia;
  • 1800 – Criação, em Niterói, da Loja União;
  • 1801 – Instalação da Loja Reunião, sucessora da União;
  • 1802 – Criação, na Bahia, da Loja Virtude e Razão;
  • 1804 – Fundação das Lojas Constância e Filantropia;
  • 1806 – Fechamento, pela ação do conde dos Arcos, das Lojas Constância e Filantropia;
  • 1807 – Criação da Loja Virtude e Razão Restaurada, sucessora da Virtude e Razão;
  • 1809 – Fundação, em Pernambuco, da Loja Regeneração;
  • 1812 – Fundação da Loja Distintiva, em S. Gonçalo da Praia Grande (Niterói);
  • 1813 – Instalação, na Bahia, da Loja União;
  • 1813 – Fundações de uma Obediência efêmera e sem suporte legal – que alguns consideram como o primeiro Grande Oriente Brasileiro – constituída por três Lojas da Bahia e uma do Rio de Janeiro;
  • 1815 – Fundação, no Rio de Janeiro, da Loja Comércio e Artes;
  • 1818 – Expedições do Alvará de 30 de março, proibindo o funcionamento das sociedades secretas, o que provocou a suspensão – pelo menos aparentemente – dos trabalhos maçônicos;
  • 1821 – Reinstalação da Loja Comércio e Artes, no Rio de Janeiro;
  • 1822 – 17 de junho: fundação do Grande Oriente.

 A Luta pela Independência

O objetivo principal dos fundadores do Grande Oriente era a independência do país no momento em que a Família Real era forçada a voltar a Portugal, pela Revolução Constitucionalista do Porto de 1820. Os maçons brasileiros irão aos poucos perceber que, além da solidariedade e da fraternidade internacionais, a geopolítica portuguesa, manejada pelos maçons do Porto, buscaria levar o Brasil ao status quo ante de colônia, depois de ser elevado a Reino Unido de Portugal e Algarves no final de 1815 por D. João VI, então Príncipe Regente no Reinado de D. Maria I, sua mãe.

O primeiro passo oficial dos maçons, nesse sentido, foi o Fico, de 9 de janeiro, o qual representou uma desobediência aos decretos, emanados das Cortes Gerais portuguesas, e que exigiam o imediato retorno do príncipe a Portugal e, praticamente, a reversão do Brasil à sua condição colonial, com a dissolução da união brasílico-lusa, elaborada por influência do Congresso de Viena.

Assiste-se então ao embate de duas forças econômicas nos dois países: os comerciantes do Porto, que sempre foram o entreposto entre a Colônia e a Metrópole e a Base Escravocrata do Brasil, representada pelas grandes famílias do Tráfico de Escravos e os grandes fazendeiros, que a partir da vinda da Família Real em 1808, já operava com os interesses britânicos. Os maçons brasileiros que, no início estavam embalados pelas ideias do Reino Unido ou implantação de uma República, vão aos poucos se desligando das Cortes Gerais portuguesas.[1]

O episódio do “Fico” 9 de janeiro de 1822 foi feito, no Rio de Janeiro, sob a liderança dos maçons José Joaquim da Rocha e José Clemente Pereira e com a representação de diversas províncias ao príncipe, principalmente a Província de São Paulo, cujo motor principal era o Ir. José Bonifácio de Andrada e Silva, o futuro Patriarca da Independência, no sentido de que desobedecesse aos decretos, permanecendo no País.

Começava, neste momento, o processo de aliciamento do Príncipe Regente – D. Pedro que começava a perceber a força do Grande Oriente, o qual continuaria, logo depois, quando os maçons fluminenses, resolviam, a 13 de maio de 1822, outorgarem-lhe o título de Defensor Perpétuo do Brasil, numa cartada política a qual não faltavam, porém, interesses das lideranças, que pretendiam melhorar seu prestígio político junto ao regente e até suplantar o respeito de que José Bonifácio, já então o ministro todo-poderoso das pastas do Reino e de Estrangeiros, desfrutava junto a ele. As escaramuças entre os grupos de Gonçalves Ledo, de tendência mais republicana e de José Bonifácio, de tendência mais monárquica constitucional, já começavam a se propagar.

Com o grande número de adesões à Loja líder do movimento emancipador, a Comércio e Artes, Primaz do Brasil, dividiu-se em três – Comércio e Artes, União e Tranquilidade e Esperança de Nichtheroy para então formar o Grande Oriente Brasílico ou Brasiliano, o primeiro nome do Grande Oriente do Brasil – GOB, a 17 de junho de 1822. Já existia uma instituição paramaçônica chamada Apostolado da Nobre Ordem dos Cavaleiros da Santa Cruz, ou simplesmente Apostolado fundada por José Bonifácio a 2 de junho de 1822. Era uma organização nos moldes da Carbonária europeia cuja atuação Bonifácio bem conhecera, durante os anos em que permanecera na Europa.

O Apostolado e o Grande Oriente viriam a representar facções diferentes da Maçonaria brasileira, a primeira, sob a liderança de José Bonifácio, que teve papel importante na História do Brasil, e a segunda, sob a de Gonçalves Ledo, com papel considerável na História da Maçonaria, ambas defendendo a emancipação política do País, mas sob formas diferentes de governo e maneiras diversas de encarar a questão. O grupo filo republicano de Ledo, Clemente Pereira, Francisco Nóbrega e cônego Januário Barbosa defendia o rompimento total dos laços com a metrópole monárquica portuguesa e um regime que o aproximasse mais daquele dos demais países latino-americanos, que, paulatinamente, iam conseguindo sua independência da Coroa espanhola. O grupo de Bonifácio, presente no Grande Oriente, mas encastelado principalmente no Apostolado, pregava a união brasílico-lusa, ou seja, uma comunidade luso-brasileira de países autônomos, que englobasse as colônias e não admitisse a escravização dos negros e, mais tarde, a união do Brasil em torno da figura imperial de D. Pedro I. Crucial para entender o Zeitgeist da época são as Anotações à Biografia de Vasconcelos de Drummond, escritas pelo próprio. José Bonifácio foi o primeiro Grão-Mestre do Grande Oriente, sendo, pouco depois, sucedido pelo próprio Imperador no grão-mestrado.

Após a Proclamação da Independência por D. Pedro I em 7 de setembro de 1822, o mesmo resolveu fechar o Grande Oriente em 25 de outubro do mesmo ano, permanecendo adormecido até 1831. Trabalhos maçônicos continuaram, contudo, a ser executados em lojas individuais. O próprio Imperador chegou a montar uma Loja no palácio.

Os maçons deputados na Assembleia Nacional Constituinte continuaram atuando em forte oposição ao Imperador que resolveu fechá-la e outorgar uma Constituição em 24 de março de 1824 que durou todo o período imperial. Depois disso, os maçons do Grande Oriente e os do Apostolado, que tinham visto suas entidades serem fechadas pelo imperador, uniram-se contra ele, em um processo de solapamento do trono, o qual viria a culminar na abdicação de 7 de abril de 1831, após a qual foi reinstalado o Grande Oriente.

Continua…

Autor: William Almeida de Carvalho

Fonte: Revista de Estudios Históricos de la Masonería Latinoamericana y Caribeña

Nota

[1] – CARVALHO, William Almeida de, Maçonaria, Tráfico de Escravos e o Banco do Brasil (São Paulo: Ed. Madras, 2010).

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A Independência do Brasil e a Maçonaria – Parte III

File:Jean-Baptiste Debret - Coroação de D. Pedro I, 1828.jpgCoroação de D. Pedro I (Jean-Baptiste Debret – 1828)

Em ato do início de agosto de 1822, D. Pedro declara inimigas as tropas portuguesas que desembarcassem no Brasil sem o seu consentimento. Foi ainda recomendado aos governos provinciais que não dessem posse a funcionários nomeados em Portugal. Para admissão a cargo público, impunha-se o juramento prévio à causa da União e Independência do Brasil. Na Maçonaria, as primeiras atas do Grande Oriente deixam clara a intenção da instituição com a restrição do recrutamento de novos obreiros dentre aqueles que se comprometessem com a causa da independência política do Brasil.

Convencido da necessidade de apoio das potências europeias, José Bonifácio desenvolveu intensa campanha junto aos governos estrangeiros e às embaixadas. Num manifesto redigido por ele, em 6 de agosto, em nome do príncipe e dirigido às “Nações Amigas”, garantia-lhes que os seus interesses seriam respeitados (Mota, 1972). Referido manifesto praticamente anunciava a independência do Brasil, “mas como reino irmão de Portugal”. À grande propriedade escravista eram dadas garantias solenes de que a independência não alterava o sistema de trabalho. O Brasil já estava independente, faltando ainda dar maior dramaticidade à ruptura (Conhecer, 1988).

No dia 14 de agosto D. Pedro parte em viagem, com o propósito de apaziguar os descontentes em São Paulo, cujo governo reacionário parecia querer desacatar o poder dos irmãos Andrada (José Bonifácio e Martim Francisco), sendo acompanhado por uma pequena comitiva, dentre eles o Padre Belchior Pinheiro de Oliveira, Luís Saldanha da Gama e Francisco Gomes da Silva, o popular “Chalaça”. Antes de partir, entregou a regência à esposa, D. Leopoldina, para que o governo não ficasse paralisado. Chegando a Lorena no dia 19 de agosto, emite o decreto dissolvendo o governo provisório de São Paulo. No dia 25 de agosto, já em São Paulo, onde foi recebido com honrarias, hospeda-se no Colégio dos Jesuítas.

No dia 2 de setembro, no Rio de Janeiro, reuniu-se o Conselho de Estado sob a presidência da princesa D. Leopoldina, onde foram lidas as cartas chegadas de Lisboa com as abusivas decisões das Cortes, anunciando o propósito de enviar tropas ao Brasil e contendo afirmações ofensivas ao príncipe. José Bonifácio, que já vinha percebendo que a solução de uma monarquia dual era impossível, escreveu a D. Pedro, concitando-o à ação rápida e que nada mais havia a fazer senão proclamar o rompimento definitivo com Portugal.

De São Paulo, em 5 de setembro, D. Pedro parte para Santos, regressando dois dias depois, na madrugada do dia 7. No percurso, às margens de um riacho localizado na colina do Ipiranga, foi surpreendido pelo Major Antônio Gomes Cordeiro e pelo ajudante Paulo Bregaro, portadores de urgentes notícias enviadas pelo seu primeiro ministro José Bonifácio. Então, ao tomar ciência dos fatos D. Pedro, aos quase 24 anos de idade, na versão do Padre Belchior, pronunciou as seguintes palavras que entraram para a história:

As Cortes perseguem-me, chamam-me com desprezo, rapazinho e brasileiro. Verão agora quanto vale o rapazinho. De hoje em diante estão quebradas as nossas relações; nada mais quero do governo português e proclamo o Brasil para sempre separado de Portugal“.

No dia seguinte ao “grito do Ipiranga” e despedindo-se dos paulistanos, D. Pedro anunciou a nova divisa do país: “Independência ou Morte”, através da Proclamação aos Paulistas (Castellani, 2007). Deu-se, portanto, o início ao Primeiro Reinado, que duraria entre 1822 e 1831. A ruptura brasileira com a metrópole foi pacífica e manteve a estrutura política e social praticamente intacta.

O clima político do período ficou tenso, ganhando corpo o conflito entre os dois grupos à frente do Grande Oriente.

De um lado, a elite brasiliense, liderada pelo prócer da maçonaria no Brasil, Joaquim Gonçalves Ledo, e formada por aqueles que desejavam um governo baseado na soberania popular, tendo dom Pedro como chefe escolhido pelo povo e subordinado aos seus representantes. Do outro lado, a elite coimbrã, liderada por José Bonifácio e formada pelos que defendiam uma Constituição que limitasse os poderes da Assembleia Legislativa, aceitando a autoridade do soberano como um direito legalmente herdado através da dinastia” (Lustosa, 2000).

Os inimigos de José Bonifácio procuravam intrigá-lo junto a D. Pedro e passaram a contar com uma aliada poderosa, a futura marquesa de Santos, com quem o Príncipe iniciara uma ligação amorosa e que logo se tornou desafeta de José Bonifácio. No Grande Oriente, em nova iniciativa política, em 4 de outubro de 1822, Gonçalves Ledo promove o golpe da eleição e posse de D. Pedro no cargo de Grão-Mestre, sem que José Bonifácio houvesse renunciado a ele e sem que a Assembleia Geral o houvesse destituído. Tal ato demonstrava que Ledo dominava o Grande Oriente.

Otávio Tarquínio de Souza, em “A Vida de D. Pedro I”, citado por Tenório de D’Albuquerque (1973), comenta que D. Pedro, por sua vez, não vacilou um minuto em assumir o cargo que era de seu ministro e amigo José Bonifácio, solidarizando-se com o grupo de Gonçalves Ledo, pois sabia que com este estava a força da maçonaria. Sabe-se que José Bonifácio não compareceu a nenhuma sessão importante do Grande Oriente, e que teria sido colocado no cargo sem ser consultado.

Segundo alguns autores, dando o revide, José Bonifácio fundara o “Apostolado da Nobre Ordem dos Cavaleiros da Santa Cruz”, uma sociedade secreta, nos moldes da Carbonária europeia, que reuniria altos funcionários, fazendeiros, os formados em Coimbra, mineiros e baianos, incluindo os mais representativos da aristocracia da época, com o objetivo de combater os chamados liberais mais radicais liderados por Gonçalves Ledo e Januário da Cunha Barbosa, que não contavam com o apoio popular. Porém, Castellani (2007) afirma que isso não representa uma verdade histórica, pois o Apostolado fora fundado no dia 2 de junho de 1822, quinze dias antes, portanto, de ser criado o Grande Oriente e dele faziam parte, além de José Bonifácio e de D. Pedro, Ledo e os seus seguidores.

Na instalação do Apostolado, que pregava uma comunidade luso-brasileira de países autônomos, de orientação conservadora e monárquica, por manobra de José Bonifácio e seus irmãos, D. Pedro fora eleito seu chefe com o título de Arconte-Rei. Segundo o historiador Mello Moraes (2004), essa foi uma atitude desesperada de José Bonifácio para contrabalançar o poder e guerrear com os maçons do Grande Oriente.

Ao perpetrar o golpe político, elegendo o regente Grão-Mestre do Grande Oriente, que tinha um caráter liberal e republicano e defendia um rompimento total dos laços com a metrópole portuguesa, Ledo procurava diminuir a influência de José Bonifácio sobre o príncipe, rompendo o tênue elo existente entre eles. Ambos os grupos disputavam as boas graças do príncipe regente, visando, cada um deles, o esmagamento do adversário e com isso declarou-se abertamente as hostilidades com um fervedouro de intrigas e perseguições entre os dois grupos.

Em outra ação política importante, D. Pedro foi aclamado como “Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil”, em 12 de outubro de 1822, data de seu aniversário. Gonçalves Ledo e seu grupo, naquela oportunidade, exigiram de D. Pedro, três assinaturas em branco e o juramento à Constituição que fosse aprovada por uma Assembleia Constituinte. Diante disso, José Bonifácio se opôs terminantemente e deu o troco no campo político, convencendo o Imperador de que havia uma rede de intrigas e “a luta da independência exigia um período de calmaria política interna, que estava sendo quebrado pelo grupo adversário, com exigências descabidas” (Castelani, 1993). José Bonifácio mostrou a D. Pedro que as exigências do grupo de Gonçalves Ledo eram altamente prejudiciais e perigosas à estabilidade de seu governo.

O grupo liderado por Gonçalves Ledo cederia logo nos primeiros momentos ao aceitar a monarquia como solução definitiva para a realidade do Brasil. Seu esforço, a partir de então, se concentraria na tentativa de dar a essa monarquia uma feição republicana, e em tentar fazer, através de uma Constituinte brasileira, que o Legislativo se sobrepusesse ao Executivo, reduzindo e limitando os poderes de D. Pedro.

A resistência de José Bonifácio e do próprio D. Pedro a esse projeto fez com que, ao se definir o regime de governo que seria adotado, a opção democrática viesse a ser definitivamente afastada. A postura mais moderada da elite coimbrã, com a instalação de um Estado cuja concepção não se afastava tanto das práticas do absolutismo ilustrado, sairia vencedora.

A repressão aos ex-aliados do acontecimento de 7 de setembro, representados pelos liberais radicais de Gonçalves Ledo (democrático e republicano) foi então deflagrada pelo ministério liderado por José Bonifácio. O Grande Oriente que abrigava desde monarquistas constitucionais até republicanos tornou-se um problema para o governo. Diante de tais fatos, 17 dias depois de ascender ao grão-mestrado e aconselhado por José Bonifácio, D. Pedro enviou uma carta ao 1º Grande Vigilante, Joaquim Gonçalves Ledo, em 21 de outubro de 1822, com a ordem de fechamento do Grande Oriente, que se deu em 25 de outubro.

Segundo Mello Moraes (2004), “José Bonifácio, para conhecer praticamente a sua influência pessoal, e política, em vista do estado convulso da capital do Império, no dia 28 de outubro do mesmo ano, pediu a sua demissão de ministro do Império. Os andradistas, com este inesperado acontecimento, saem pelas ruas e praças, a obterem numerosas assinaturas, e com elas vão pedir ao Imperador a reintegração dos Andradas no Ministério, o que teve lugar no dia 30 de outubro…”. O Rio de Janeiro mergulhou, então, num clima de medo e repressão.

No retorno ao Ministério, o primeiro ato de José Bonifácio foi mandar instaurar uma devassa contra os maçons do grupo político de Gonçalves Ledo, que ficou conhecida como “Bonifácia”, acusando-os de conspirar contra o governo, que levou quase todos os membros do Grande Oriente à prisão. Ledo fugiu para Buenos Aires, para não ser preso e deportado.

Em 1º de dezembro de 1822, D. Pedro foi sagrado e coroado não rei, mas Imperador do Brasil, para mostrar que, apesar do direito monárquico, também fora eleito pelo “povo”. “Para perpetuar a memória deste dia ele criou a Ordem do Cruzeiro, puramente brasileira; e bem a Guarda de Honra para sua pessoa”. A Assembleia Constituinte Legislativa, para confeccionar a Constituição política do Império, foi instalada no dia 3 de maio de 1823.

Quanto ao Apostolado, segundo Castellani (2007), sua existência foi curta. D. Pedro recebera uma carta denunciando uma conjuração contra ele, o que redundou em imediata ação comandada pelo próprio D. Pedro, que acompanhado de cinquenta soldados, no dia 15 de julho de 1823, invadiu a sede do Apostolado e ordenou seu fechamento. No dia seguinte, deu-se o rompimento de José Bonifácio e de seus irmãos Martim Francisco Ribeiro de Andrada e Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva com o imperador. D. Pedro demitiu o ministério e José Bonifácio passou à oposição.

Em 12 de novembro de 1823, D. Pedro dissolveu a Assembleia Constituinte e mandou o exército invadir o plenário. Muitos deputados foram presos e exilados. José Bonifácio foi banido e se exilou na França por seis anos. Nesse período, ele e seus dois irmãos, também exilados, receberam polpuda pensão mensal, a custa do Erário. D. Pedro implantou um regime de arbítrio e de exceção, fechando todas as lojas maçônicas. Em 25 de março de 1824, D. Pedro outorgou a Constituição Política do Império do Brasil, elaborada em 40 dias por uma comissão de dez membros, o Conselho de Estado. Referida Constituição somente foi revogada com a proclamação da república no Brasil, 66 anos mais tarde, em 15 de novembro de 1889.

O reconhecimento externo da independência, essencial para uma jovem nação necessitada de mercados e ameaçada de ser recolonizada, teve nos Estados Unidos o primeiro aliado, seguido pelo México e Argentina. Os Ingleses ficaram esperando que Portugal o fizesse, como forma de assegurar mercados e aliados.

Ainda em 1824, e em protesto contra o fechamento da Constituinte e contra a Constituição então promulgada, eclodiu um movimento republicano e separatista, com origem em Pernambuco, conhecido como a “Confederação do Equador”, também de inspiração maçônica. A revolta foi debelada em setembro, com a prisão e enforcamento dos chefes e o fuzilamento de Frei Caneca, pois ninguém aceitou ser seu carrasco, tal o carisma e autoridade moral (Castellani, 2007).

Diante de pressões e do trabalho diplomático da Inglaterra, em 1824, Portugal desistiu de reconquistar o Brasil. O acordo de reconhecimento foi firmado em 29 de agosto de 1825 (Tratado do Rio de Janeiro ou Tratado de Paz e Aliança). Mas, em troca do reconhecimento, D. João VI recebeu o título honorário de Imperador Perpétuo do Brasil e uma indenização de mais de dois milhões de libras esterlinas. A indenização foi uma jogada de mestre, pois os portugueses deviam valor equivalente, desde a estada da família real no Brasil. Vislumbrando a impossibilidade de receber a bolada, a Inglaterra emprestou o dinheiro ao Brasil, que pagou a Portugal, que pagou à Inglaterra. Virtualmente, o dinheiro sequer chegou a sair dos cofres ingleses e o endividamento externo entrou para nossa história.

Posteriormente, em 1829, o tal empréstimo foi renegociado, por falta de pagamento, mediante novo empréstimo, realimentando a conhecida ciranda financeira tão cara ao nosso povo até os dias atuais. Em dezembro de 1829, o Banco do Brasil foi fechado. “Belas moedas de ouro tinham sido substituídas por pobres tiras de papel” (Bueno, 1977).

A maçonaria que havia entrado em longo período de aparente adormecimento desde 25 de outubro de 1822, somente ressurgiu em 1831, por obra dos maçons do Grande Oriente e dos membros do Apostolado, que tinham visto suas entidades fechadas pelo imperador e haviam se unido contra ele, “num processo de solapamento do trono, o qual viria a culminar na abdicação de 7 de abril”, organizando-se em dois grandes troncos: o Grande Oriente Brasileiro, que desapareceria cerca de 30 anos depois, e o Grande Oriente do Brasil (Castellani, 2007).

D. Pedro, após nove anos como imperador, enfrentando constantes crises políticas e rebeliões, e perdendo a cada dia o apoio da opinião pública e das elites, por seu autoritarismo, abdicou do trono brasileiro em favor de seu filho mais novo Pedro II, em 7 de abril de 1831. Contribuiu para tal decisão o desgaste pela repressão feroz aos participantes da Confederação do Equador e pelas derrotas na Cisplatina. “Para não levar o país a uma guerra”, conforme escreveu posteriormente, foi para Portugal restaurar o trono da filha, Maria da Glória, usurpado pelo irmão D. Miguel. Sua vitória assegurou o liberalismo em Portugal. D. Pedro I do Brasil tornou-se Pedro IV, rei de Portugal e dos Algarves, morreu aos 36 anos, em 24 de setembro de 1834, depois de assistir à aclamação de sua filha como rainha.

José Bonifácio de Andrada e Silva, após sua queda e exílio em 17 de julho de 1823, mediante autorização voltou ao Brasil em julho de 1829 e, após a abdicação de D. Pedro e a pedido deste, tornou-se tutor do futuro D. Pedro II. Participou da reinstalação do Grande Oriente, voltando a ser seu Grão-Mestre. Em 1832 foi destituído da tutoria, processado, preso e absolvido. Morreu aos 74 anos, em 6 de abril de 1838. Seus restos mortais jazem no Panteão dos Andradas, em Santos (SP), ao lado dos despojos de seus irmãos. É conhecido pelo epíteto de “Patriarca da Independência”.

Joaquim Gonçalves Ledo, que havia retornado ao Brasil, em julho de 1823, com a queda de José Bonifácio, assumiu a cadeira de deputado, para a qual tinha sido eleito em 1822, onde permaneceu até 1834, quando abandonou a política e a maçonaria. Sempre foi avesso a exibições e não ambicionava cargos, títulos e honrarias. Participou da reinstalação do Grande Oriente (1831/1832). Faleceu aos 65 anos, em 19 de maio de 1847. Antes de sua morte, queimou todos os seus arquivos. Apesar de seu importantíssimo papel nas lutas pela independência do Brasil, ainda é pouco reconhecido pela sua atuação.

A partir de então, uma nova era na história política do Brasil deu forma aos partidos políticos organizados. A maçonaria “Vermelha” deu origem ao Partido Liberal, pregando a democracia, com o fortalecimento do Parlamento, e uma maior autonomia das províncias. A maçonaria “Azul” se transformou no Partido Conservador, com a defesa de um regime forte, monárquico, com autoridade concentrada no Trono e pouca liberdade concedida às Províncias.

No ensejo, alguns fatos curiosos a respeito da Independência merecem um comentário especial. Segundo a tradição e com muita controvérsia inicial, consta que o “Hino da Independência do Brasil” fora criado logo após o 7 de setembro, com a letra do maçom, político e jornalista Evaristo da Veiga e a melodia de D. Pedro I. A decisão definitiva foi pacificada no governo de Getúlio Vargas. Nesse mesma toada, D. Pedro também é o autor da música do “Hino da Maçonaria”, com a letra de Otaviano Bastos.

Quanto ao dia 7 de setembro, Castellani (2007) ressalta que muitos maçons e historiógrafos desinformados afirmam erroneamente que a Independência foi proclamada a 20 de agosto de 1822, em sessão do Grande Oriente, quando Gonçalves Ledo aclamava D. Pedro rei do Brasil, acatando, em seguida, a emenda de Domingos Alves Branco que propunha o título de imperador. Demonstra o escritor que se trata de erro de interpretação do calendário maçônico e que tal fato ocorrera, na realidade, no dia 9 de setembro, dois dias após o “grito do Ipiranga”. Segundo ele, com os parcos meios de comunicação da época não se podia saber, no Rio de Janeiro, no dia 9, que a Independência já havia sido proclamada em São Paulo no dia 7, uma vez que de São Paulo ao Rio de Janeiro gastava-se uma semana a cavalo. Por isso, Castellani critica a escolha do dia 20 de agosto como “Dia do Maçom”.

Nessa mesma linha, o historiador Hélio Viana, citado pelos historiadores Tito Lívio e Manoel Rodrigues Ferreira (1972, p.228), afirma que o “20º dia do 6º mês do calendário da Maçonaria ‘Vermelha’ do Brasil, correspondeu a 12 de setembro”. O escritor maçônico A. Tenório D’Albuquerque (1973) é um dos que defendem o dia 20 de agosto. Pacificando o entendimento, o Grande Oriente, na forma de ato exarado por ocasião das comemorações do seu centenário, em 1922, dentre outras datas, registrou que a proclamação da Independência foi votada nas Sessões de 9 e 12 de setembro e por editais do Senado e da Câmara do Rio de Janeiro no dia 21 do mesmo mês (Castellani, 1993, p.94, 6º registro).

Não se pode deixar de registrar, também, que a pintura “Independência ou morte”, que está no Museu Paulista, da USP, concluída por Pedro Américo em 1888, um ano antes da Proclamação da República, é uma idealização do “Grito do Ipiranga”. Segundo a revista “Nossa História” (Ano I, nº 11, de setembro de 2004), o artista teria feito uma ampla pesquisa. “Apesar disso, achava que não deveria ficar preso à verdade… Assim, entre outros aspectos, alterou a topografia….escolheu raças de cavalos que dessem maior elegância….definiu trajes e chapéus…promoveu a incorporação anacrônica da Guarda de Honra…”, consubstanciando na imagem clássica presente em todos os livros escolares.

Enfim, ao completar 195 anos da Independência do Brasil, a maçonaria, como uma instituição político-social, e este sodalício em especial, não poderiam deixar de prestar suas homenagens a evento de tamanha relevância na consolidação da consciência cívica de um povo e na formação de um país de dimensões continentais, como resultado da visão de uma geração de abnegados obreiros que se colocaram na vanguarda da luta pela conquista de um sonho de liberdade.

FINIS

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Ex-Venerável Mestre da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

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Bibliografia

BUENO, Eduardo. História do Brasil. São Paulo: Empresa Folha da Manhã e Zero Hora/RBS Jornal, 2ª Edição, 1997; CÁCERES, Florival. História do Brasil. São Paulo: Moderna, 1995; CASTELLANI, José. A Ação Secreta da Maçonaria na Política Mundial. São Paulo: Landmark, 2007; CASTELLANI, José. A Maçonaria e o Movimento Republicano Brasileiro. São Paulo: Traço, 1989; CASTELLANI, José. História do Grande Oriente do Brasil: A Maçonaria na História do Brasil. Brasília: Publicação do Grande Oriente do Brasil, 1993; CASTELLANI, José. Os Maçons na Independência do Brasil. Londrina: A Trolha, 1993; D’ALBUQUERQUE, A. Tenório. A Maçonaria e a Independência do Brasil. Rio de Janeiro: Aurora, 1973; DEL PRIORE, Mary. A Carne e o Sangue: A Imperatriz D. Leopoldina, D. Pedro I e Domitila, a Marquesa de Santos. Rio de Janeiro: Rocco, 2012; FERREIRA, Tito Lívio; Manoel Rodrigues. A Maçonaria na Independência Brasileira – Volumes I e II. São Paulo: Biblos, 1972; GOMES, L. 1822: como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram Dom Pedro a criar o Brasil, um país que tinha tudo para dar errado. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010; JUNIOR, Caio Prado. Evolução do Politica Brasil e Outros Estudos. São Paulo: Brasiliense, 1994; KOSHIBA, Luiz; PEREIRA, Denise Manzi Fraayze. História do Brasil-6ª ed. São Paulo: Atual, 1993; LUSTOSA, Isabel. Revista Trópico. Uma história da Independência, com base na tese de Lúcia Maria Bastos Pereira das Neves “Corcundas e Constitucionais – A Cultura Política da Independência (1820-1822)”, 2000: http://www.revistatropico.com.br/tropico/html/textos/1769,1.shl MATTOS, Ilmar Rohloff. Independência ou morte: a emancipação política do Brasil. São Paulo: Atual, 1991; MORAES, Alexandre José de Mello. A Independência e o Império do Brasil. Brasília: Edições do Senado Federal, 2004: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/sf000045.pdf MOTA, Carlos Guilherme. – 1822: Dimensões. Perspectiva. São Paulo, 1972; Revista Conhecer Atual. Edição organizada pela Editora Nova Cultural Ltda., 1988. Revista Nossa História, Ano 1, Nº 11, de setembro de 2004; Site da ARLS COMÉRCIO E ARTES, http://www.comercioeartes.com.br/historia-loja.php

A Independência do Brasil e a Maçonaria – Parte II

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Com a chegada ao Rio de Janeiro dos Decretos 124 e 125, de 29 de setembro de 1821, onde as Cortes ordenavam a abolição da regência e o imediato retorno de D. Pedro a Portugal, sujeitando a obediência das províncias a Lisboa e não mais ao Rio de Janeiro, e esvaziando, por completo, a autoridade do governo, D. Pedro aparentemente resignado começou a fazer os preparativos para o seu regresso. Ao considerar desnecessária a permanência de D. Pedro, as Cortes exigiam o seu retorno imediato também sob o pretexto de completar sua educação, já que, na opinião dos deputados, não tendo mais o Brasil um governo central, a sua presença passaria também a ser meramente figurativa.

Segundo Mary Del Priore (2012), “o Regente estava entre dois fogos: obedecer a D. João, dominado pelas cortes e obrigado a impor sanções ao Brasil, ou reagir, manifestando o desejo de independência”. A esposa de D. Pedro, princesa Leopoldina, “inicialmente pouco simpática ao movimento e desejosa de voltar à Europa, foi se dobrando aos fatos”. O cenário no segundo semestre de 1821 foi tenso. “Ora parecia que iam embarcar… ora, apoiado pelos jornais maçônicos, D. Pedro colocava-se como favorável à independência e sensível à ideia de assumir o trono do Brasil”. Os dias eram, assim, de indecisão e de insegurança.

D. Pedro, por outro lado, tinha consciência de que seu pai era um rei sem poder, decorativo e prisioneiro das Cortes. Os comerciantes portugueses e estrangeiros aqui residentes viam no retorno do príncipe o início da anarquia. Foi nesse contexto que a ideia de rompimento com Portugal começou a se fortalecer.

A partir daí se sobressai a maçonaria, com toda força e vigor. Os interesses de todos os setores envolvidos convergiam para uma independência feita sob o comando do príncipe regente D. Pedro. A reação dos brasileiros contra o decreto ordenando o retorno de D. Pedro ganha voz no discurso do maçom Cipriano José Barata, denunciando a trama contra o Brasil e publicado na íntegra, através da imprensa. Ao mesmo tempo é fundado na casa do maçom José Joaquim da Rocha o “Clube da Resistência”, depois transformado no “Clube da Independência”.

As tratativas iniciais tinham como objetivo sensibilizar D. Pedro para resistir ao comando das Cortes, convidar o Presidente do Senado, o maçom José Clemente Pereira, a aderir ao movimento, bem assim de ampliar os contados com maçons de Minas Gerais e São Paulo. Longe dos olhos das autoridades, outras reuniões de cunho maçônico eram realizadas tanto no Clube quanto no Convento de Santo Antônio, organizadas pelo Frei Francisco Sampaio.

Com a reinstalação da Loja “Comércio e Artes” em 1821, quando obteve liberdade de atuação, a maçonaria conheceu grande expansão no Brasil, principalmente na cidade do Rio de Janeiro, com o tema da “independência” na pauta de todas as reuniões, onde se faziam agitação e proselitismo em favor da ideia. Alguns membros, como o liberal radical Joaquim Gonçalves Ledo, eram partidários de uma independência democrática e republicana, conhecida desde o século anterior como “Maçonaria Vermelha”, em contraposição ao grupo simpático à “Maçonaria Azul”, que defendia a proposta de uma monarquia constitucional parlamentar. Em comum, os grupos tinham o absolutismo como inimigo, e o liberalismo e a representação do povo no legislativo como princípios fundamentais.

A partir de outubro daquele ano começaram a aparecer pelas ruas do Rio de Janeiro panfletos denunciando as intenções recolonizadoras das Cortes e concitando o príncipe a assumir a direção do movimento em defesa da autonomia do país (Motta, 1972). Segundo Tito Lívio e Manoel Rodrigues Ferreira (1972), “insuspeitos historiadores”, nas palavras de Castellani (1993), a propaganda deflagrada pela maçonaria “vermelha” era, sim, para separar politicamente o Brasil de Portugal, pois a independência já fora considerada conquistada desde 1815. Para esse grupo, com a separação, surgiria fatalmente a república, pois não havia no Brasil uma monarquia própria.

Três representações foram encaminhadas a D. Pedro, rogando a sua permanência no Brasil e o descumprimento aos Decretos 124 e 125. A representação dos fluminenses foi redigida pelo Frei Francisco Sampaio, Orador da Loja “Comércio e Artes”. A dos mineiros foi liderada por Pedro Dias Paes Leme, maçom e amigo de D Pedro. De São Paulo, o maçom José Bonifácio de Andrada e Silva, presidente da junta governativa da província e partidário de uma monarquia constitucional, com D. Pedro no poder, enviou o documento, em 24 de dezembro de 1821, no qual criticava duramente a decisão das Cortes de Lisboa e chamava a atenção para o importante papel reservado ao príncipe naquele momento de crise. A carta chegou às mãos do príncipe no Rio a 1º de janeiro de 1822 e foi por ele divulgada imediatamente, deixando que seu conteúdo se espalhasse entre a população, com aparência de segredo, e depois mandada imprimir na Gazeta do Rio, em 8 de janeiro (D’Albuquerque, 1973).

D. Pedro enviou correspondência a D. João em 2 de janeiro de 1822 onde se lia:

Farei todas as diligências por bem para haver sossego, e para ver se posso cumprir os decretos 124 e 125, o que me parece impossível, porque a opinião é toda contra, em toda a parte“. Enquanto isso, a princesa Leopoldina conspirava “com o Partido do Fico e afirmava que D. Pedro devia organizar o governo do jeito que quisesse.” (Del Priore, 2012).

No dia 9 de janeiro de 1822, diante de D. Pedro, na sala do trono, o maçom José Clemente Pereira, Presidente do Senado da Câmara, interpretando o pensamento geral, contido nos manifestos dos fluminenses, paulistas e mineiros, fez seu discurso pedindo a permanência do príncipe. O texto da representação, comovente, emocionou D. Pedro – e mudou o rumo da história do Brasil. Então D. Pedro, compreendendo a magnitude do evento e reconhecendo a sua responsabilidade junto ao povo brasileiro, pronuncia o que a história reconhece a data como o “Dia do Fico”: “Como é para bem de todos, e felicidade geral da Nação, estou pronto: diga ao povo que fico“. Naquele mesmo evento, D. Pedro recebera um abaixo-assinado com 8.000 nomes. Reunido defronte do Paço Municipal, o povo saudou a decisão do príncipe.

Os setores das classes médias e urbanas da época, compostos pelos jornalistas, médicos, padres, funcionários públicos dos baixos escalões, professores etc., muitos deles militantes da maçonaria e que defendiam a implantação de uma república, passaram a aceitar a monarquia constitucional com D. Pedro no poder, depois do “Dia do Fico”, devido à fraqueza das camadas médias da população. Os séculos anteriores de monarquia tinham grande influência no povão e a república era vista com desconfiança.

No dia 11 de janeiro, as tropas portuguesas tentaram obrigar o príncipe a embarcar para Lisboa. Apoiado pelo povo e por tropas leais, D. Pedro resistiu. A independência, agora, era uma questão de tempo. A petição de José Bonifácio e o abaixo assinado que resultou no “Dia do Fico” marcaram a aproximação entre D. Pedro e a elite brasileira.

Aproveitando-se do apoio da população do Rio de Janeiro, o regente demitiu o ministério deixado pelo pai e nomeou outro. Com a chegada de José Bonifácio ao Rio a 17 de janeiro, foi ele logo nomeado para chefiar o Ministério dos Negócios do Reino e Estrangeiros, sendo o primeiro brasileiro a ocupar um cargo semelhante. Ainda naquele mês, seguindo o conselho de José Bonifácio, D. Pedro assinou Decreto instituindo que só vigorariam no Brasil as Leis portuguesas que recebessem o “cumpra-se” do príncipe regente.

Em 13 de maio de 1822, por proposta do brigadeiro Domingos Alves Branco Muniz Barreto e de Joaquim Gonçalves Ledo, o príncipe regente recebe o título de “Defensor Perpétuo do Brasil”, oferecido pela Maçonaria e pelo Senado, marcando uma cartada política importantíssima da Loja “Comércio e Artes”. Por trás dessa iniciativa estava também o interesse das lideranças que pretendiam aproximar-se do regente e suplantar o prestígio desfrutado por José Bonifácio, o todo-poderoso ministro.

Dando um decisivo passo em direção à independência, em 2 de junho de 1822, José Clemente Pereira, em audiência com D. Pedro, fez saber o discurso redigido por Joaquim Gonçalves Ledo e Padre Januário da Cunha Barbosa sobre a necessidade de uma Constituinte.

Por sua vez, José Bonifácio manifestou-se contrário à convocação da Constituinte, mas acabou por aceitá-la, procurando descaracterizá-la com a proposta de eleição indireta, que acabou prevalecendo contra a vontade dos liberais radicais comandados por Gonçalves Ledo, que defendiam o princípio da eleição direta, ampliando o conflito entre ambos. Em 3 de junho de 1822 foi expedido decreto em que José Bonifácio convocou a Assembleia Geral Constituinte e Legislativa. Apesar do controle da situação pelos conservadores e de o texto da Constituinte apresentar declarações favoráveis à união entre Brasil e Portugal, as Cortes insistiam no retorno imediato de D. Pedro.

Neste ínterim, fora criada a primeira Obediência Maçônica do Brasil, o Grande Oriente Brasílico (ou Brasiliano), em 17 de junho de 1822, uma entidade dedicada, com exclusividade, à luta pela independência política do Brasil. Para esse fim, a Loja “Comércio e Artes” foi dividida em três Lojas, dela saindo os maçons em número suficiente para a formação das Lojas “União e Tranquilidade” e “Esperança de Niterói”.

A administração do Grande Oriente ficou então composta por José Bonifácio de Andrada e Silva, como Grão-Mestre; Joaquim de Oliveira Alvarez, como Delegado do Grão-Mestre; Joaquim Gonçalves Ledo e João Mendes Viana, como 1º e 2º Grandes Vigilantes, respectivamente; Padre Januário da Cunha Barbosa, como Grande Orador; capitão Manoel José de Oliveira, como Grande Secretário; Francisco das Chagas Ribeiro, como Grande Chanceler; Francisco Luiz Pereira da Nóbrega, como Promotor Fiscal; João da Rocha, como Grande Cobridor; e, Joaquim José de Carvalho, como Grande Experto (Castellani, 1993).

José Bonifácio foi escolhido como Grão-Mestre pela sua dimensão, não só na política nacional como Ministro, mas, também, na europeia, pela sua atividade científica e política, durante os 37 anos em que viveu e trabalhou na Europa. Porém, a liderança dos maçons cabia a Gonçalves Ledo, seu substituto imediato. Ledo era um político fluminense, considerado a maior liderança maçônica da época, mas não tinha o prestígio nacional e internacional de José Bonifácio. Entretanto, Ledo, como líder do Grande Oriente, teve um papel destacadíssimo e, segundo Castellani (1993), pouco reconhecido nas lutas pela independência do Brasil, tendo inspirado “todas as grandes manifestações populares ocorridas no Rio de Janeiro, naqueles conturbados dias que antecederam a emancipação do país”.

Os grupos de Bonifácio e Ledo mantinham uma luta ideológica. Eram maçons em conflito, com agitação nas ruas e intrigas palacianas. Enquanto o primeiro grupo defendia a independência dentro de uma união brasílico-lusa, mais palatável, o segundo pretendia o rompimento total com a metrópole portuguesa, “o que poderia tornar difícil a transição para país independente”. Essa luta extrapolou as discussões no âmbito das lojas e assumiu caráter público e se estendeu através da imprensa (Castellani, 2007). Para José Bonifácio somente a forma de governo monárquica seria capaz de manter a unidade territorial. Ele temia as eleições diretas, opondo-se às ideias de fundo republicano (Mattos, 1991).

Entre 15 de setembro de 1821 e 8 de outubro de 1822 circulou o jornal “Revérbero Constitucional Fluminense”, redigido pelos seus editores Gonçalves Ledo e Padre Januário da Cunha Barbosa, que contribuiu significativamente para formação de um sentimento libertador. Também a partir de 29 de julho de 1822, Frei Francisco Sampaio passou a editar o jornal “Regulador Brasílico-Luso”, depois denominado, “Regulador Brasileiro”, impresso na Tipografia Nacional, que marcou presença no movimento de emancipação, mas entrou em atrito com o “Revérbero”, na defesa de José Bonifácio. Outro de destaque foi o jornal “O Constitucional”, redigido pelos maçons José Joaquim da Rocha e padre Belchior Pinheiro de Oliveira, defendendo as mesmas ideias liberais de Ledo. Curiosamente, Padre Belchior, nascido em Diamantina, vigário de Pitangui (MG), para alguns autores sobrinho de José Bonifácio e para outros um primo distante, era amigo e confidente de D. Pedro.

Por proposta de José Bonifácio, em 2 de agosto de 1822, é iniciado na Loja Comércio e Artes o príncipe regente, D. Pedro, que adotou o nome histórico ou heroico de “Guatimozim”, em referência ao último imperador Asteca morto em 1522. O Rito adotado à época ensejava tal escolha (Bonifácio era “Tibiriçá” e Ledo era “Diderot”). Tal fato não deixou de ser um ato político, pois à Maçonaria era importante ter o regente nas suas fileiras, onde poderiam influenciá-lo no caminho da emancipação e, para D. Pedro, estando entre os maçons melhor poderia atuar na busca de uma solução monárquica para o país, afastando inclinações para um regime diferente (Castellani, 2007). Logo em seguida, no dia 5 de agosto, Joaquim Gonçalves Ledo, que ocupava a presidência dos trabalhos, conduziu a cerimônia de exaltação de D. Pedro ao grau de Mestre Maçom.

Segundo Laurentino Gomes (2010) há fortes indícios de que D. Pedro frequentasse as atividades da maçonaria bem antes de sua iniciação. Segundo ele, “No museu Imperial de Petrópolis há uma carta que o então príncipe regente escreveu a José Bonifácio com vocabulário e sinais maçônicos no dia 20 de julho de 1822, data anterior à sua iniciação oficial”. Diz a carta: “O Pequeno Ocidente toma a ousadia de fazer presentes ao Grande Oriente duas cartas da Bahia e alguns papéis periódicos da mesma terra há pouco vindas. Terra a quem o Supremo Arquiteto do Universo tão pouco propício tem sido. É o que se oferece por ora a remeter a este que em breve espera ser seu súdito e I∴ Pedro”. O autor ressalta ainda, que “No canto superior esquerdo da página, há o desenho de um sol e a palavra Alatia, em que as letras foram substituídas por esquadro, compasso, martelo, uma pá de pedreiro e um olho… A assinatura é acompanhada do símbolo ∴, os três pontinhos em forma de pirâmide que indicam filiação maçônica”. Donde se conclui que D. Pedro já era um “goteira” real.

Em ato do início de agosto de 1822, D. Pedro declara inimigas as tropas portuguesas que desembarcassem no Brasil sem o seu consentimento. Foi ainda recomendado aos governos provinciais que não…

Continua…

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Ex-Venerável Mestre da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

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A Independência do Brasil e a Maçonaria – Parte I

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Os registros históricos revelam que as primeiras Lojas Maçônicas em nosso país foram oficialmente estabelecidas no início do século XIX. Anteriormente, consta da literatura maçônica o Areópago de Itambé, datado de 1796, uma sociedade filosófica de caráter liberal, referenciada como o embrião da maçonaria brasileira, mas incluída na categoria de sociedade secreta, além de vários clubes, academias e associações, cuja filosofia seguia o pensamento maçônico.

Outra sobre a qual recai controvérsia sob o aspecto da regularidade é a “Cavaleiros da Luz”, fundada na Bahia em 17 de julho de 1797, a bordo da fragata francesa La Preneuse, mas que seguramente teria o caráter de uma sociedade secreta com fins políticos. Tudo isso porque uma loja, para ser considerada regular, deve possuir uma carta constitutiva emitida por uma Obediência ou Potência também regular.

A Loja “União”, fundada por maçons portugueses, constituída em 1800, e considerada irregular inicialmente, foi refundada com o nome de “Reunião” no Rio de Janeiro, em 1801, filiada a uma Obediência francesa. Na sequência, constam as Lojas “Virtude e Razão” (Bahia, 1802); “Constância” e “Filantropia” (RJ, 1804), “Virtude e Razão
Restaurada” (Bahia, 1807); “Regeneração” (Engenho Paulista – PE, 1809); “Pernambuco do Ocidente” e “Pernambuco do Oriente” (1812); Distintiva (São Gonçalo da Praia Grande – Niterói-RJ, 1812); Guatimosim (Recife-PE, 1812); “União” (Bahia, 1813).

O realce na cronologia das lojas sempre ficou com a “Comércio e Artes na Idade do Ouro”, fundada em 15 de novembro de 1815, no Rio de Janeiro, inativa, pelo menos aparentemente, após o Alvará Real de 30 de março de 1818, que proibiu o funcionamento das ainda incipientes lojas do território nacional, na época em que o Brasil era Reino Unido ao de Portugal e Algarve (Castellani, 1993). A Loja foi reinstalada
em 24 de junho de 1821 e serviu de base para a fundação do Grande Oriente Brasileiro, em 17 de junho de 1822, entrando para a história como o pivô da Independência.

Os acontecimentos que resultaram na independência do Brasil têm como largada o ano de 1808, com a chegada de D. João ao Rio de Janeiro no dia 7 de março, depois de uma estada na Bahia, onde aportou em 22 de janeiro, sob a proteção naval da marinha inglesa, trazendo a Corte para o Brasil, em fuga da invasão e dominação de Portugal pelas tropas francesas de Napoleão Bonaparte, comandadas pelo General Junot, com o assentimento da Espanha. Tal acontecimento deu ao país nova organização administrativa nos moldes de um Estado independente e ensejando, segundo alguns historiadores, a “inversão metropolitana”, onde uma colônia passava a sediar uma corte europeia pela primeira vez na história. Naquele momento, Inglaterra e França disputavam a liderança no continente europeu. D. João não obedecera às determinações de Napoleão de fechar os portos portugueses aos navios ingleses. Ao partir, D. João deixara Portugal aos cuidados do Conselho de Regência de 1807.

A bordo dos navios que trouxeram a Corte, com a estimativa entre quatro e sete mil pessoas, excluindo tripulantes, constaram

joias da família real, arquivos importantes do governo português, homens essenciais de um Estado soberano – como as altas hierarquias civil, militar e eclesiástica -, a alta sociedade, membros de profissões liberais e do mundo dos negócios, toda a máquina do Estado estava sendo transplantada para continuar sua rotina no Brasil” (Cáceres, 1995).

Com isso, foram reconstituídos em solo brasileiro todos os órgãos do Estado português: os ministérios do Reino, da Marinha e Ultramar, da Guerra e Estrangeiros e o Real Erário, que em 1821 mudou o nome para Ministério da Fazenda. Outros órgãos da administração e da justiça foram recriados. Cada departamento, cada repartição importante foi restabelecida com as mesmas funções, o mesmo nome, os mesmos poderes e os mesmos métodos que o seu protótipo em Portugal.

Registre-se que a burocracia generalizada e ineficiente, o apadrinhamento e o nepotismo eram os mesmos existentes no modelo português, fato este que explica boa parte de nossa herança cultural. Muitos historiadores consideram D. João como o verdadeiro mentor do moderno Estado brasileiro. Caio Prado Júnior, na obra “Evolução política do Brasil (1ª ed.: 1933)”, consignou que, se não fora os aspectos externos e formais, a transferência da corte poderia ser caracterizada como o marco da independência do Brasil.

A chegada da Corte promoveu mudanças que redundaram em progresso, através de inúmeras medidas adotadas, como a carta-régia de 28 de janeiro de 1808, que permitiu a abertura dos portos brasileiros às nações amigas, considerado como um referencial de transição do Brasil, de colônia a Estado soberano; o alvará de 1º de abril, revogando o de 1785, que proibia a instalação de manufaturas; a criação do Banco do Brasil, em 12 de outubro de 1808, e, finalmente, a importantíssima lei de 16 de dezembro de 1815, que elevou o país à categoria de reino: Reino Unido a Portugal e Algarves, legitimando a permanência da Corte no Brasil e favorecendo a ruptura colonial sem graves convulsões sociais, sem fragmentação territorial e com unidade politica. Conforme alguns historiadores, com esse ato D. João tornou o Brasil independente dentro da Monarquia Portuguesa.

As transformações materiais foram acompanhadas de mudanças no panorama cultural, como a criação do Museu Nacional e da Biblioteca Real – futura Biblioteca Nacional, da Academia Militar, da Academia da Marinha e de escolas voltadas para melhorar a qualidade da mão de obra, como a Escola de Comércio e Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios. O ensino público melhorou com a criação de escolas de Medicina na Bahia e no Rio de Janeiro. Repercutiu positivamente a vinda de missões artísticas e científicas estrangeiras. A Academia de Belas-Artes foi criada em 1816. Cidades cresciam e foram tomadas medidas visando à melhoria das condições higiênicas e sanitárias, em especial nas cidades portuárias. Entre 1810 e 1820, o Rio de Janeiro já contava com mais de 100 mil habitantes, sendo muitas vezes identificada como uma “nova Lisboa” pelos enciumados moradores de outras partes do Brasil.

De grande relevância para a história cultural e ideológica do período foi a criação da Imprensa Régia, que quebrou a secular proibição da atividade impressora no Brasil. O primeiro jornal foi a “Gazeta do Rio de Janeiro” (1808-1822). Na Bahia, em 1811, apareceu o jornal “A Idade de Ouro do Brasil” (1811-1823). O destaque foi o “Correio Brasiliense (1808-1822)”, editado em Londres, com frequência quase mensal, pelo maçom Hipólito da Costa, brasileiro, conhecido como o “Patriarca da Imprensa Brasileira” e mentor da geração da independência. O “Correio Brasiliense” ou “Armazém Literário” era de oposição e não tinha o apoio oficial, mantendo-se dos recursos provenientes de suas vendas, e considerado, à época, o mais completo veículo de informação e análise da situação política e social de Portugal e do Brasil.

Segundo a historiadora Emilia Viotti da Costa (citada por Koshiba, 1963), “a entrada de estrangeiros em número crescente a partir de 1808, a intensificação dos contatos com a Europa facilitaram a divulgação de ideias liberais e nacionalistas, então cultivadas nas sociedades secretas que aqui também se multiplicavam”. Tudo isso propiciou à formação de uma consciência emancipacionista no Brasil.

A presença da Corte portuguesa no Brasil acabou com a importância política da região Nordeste. Por isso, um sentimento antilusitano tomou conta da Bahia e de Pernambuco, e teve papel importante no movimento revolucionário que marcou o período, a Revolução Pernambucana de 1817, de tendência fortemente nacionalista, no sentido de implantar a república em Pernambuco. Os portos nordestinos recebiam navios e comerciantes norte-americanos, a procura de mercados, que traziam artigos de jornais, livros e exemplares da Constituição norte-americana e faziam reuniões e conferências com pessoas importantes da sociedade de Pernambuco. Com as discussões sobre a Declaração de Independência e a Constituição dos Estados Unidos, muitos acreditavam que as ideias republicanas e liberais trariam o progresso e o desenvolvimento para o Nordeste.

A maçonaria e outras sociedades secretas, estimuladas pelos comerciantes e viajantes estrangeiros, se encarregaram de difundir os novos princípios liberais. O maçom Domingos José Martins, que era favorável à libertação dos escravos e a incorporação dos mesmos como soldados na luta contra os portugueses, liderou o movimento. Com a derrota do despreparado exército revolucionário, os principais chefes foram levados para Salvador, onde responderam a processo sumário (devassa), sendo todos executados, incluindo Domingos José Martins, num total de 43, entre civis e militares, bem como três eclesiásticos, dentre os quais o famoso padre Roma (José Inácio Ribeiro de Abreu e Lima), também maçom (Castelani, 1989). A Revolução Pernambucana é considerada a precursora da independência política do país, juntamente com a Inconfidência Mineira, tendo ambas o protagonismo de vários maçons que fomentaram o caminho da emancipação total.

Segundo Castellani (2007), toma-se o Alvará de 30 de março de 1818 como uma consequência direta da fracassada Revolução Pernambucana, ensejando medidas contra a atuação da maçonaria, ao proibir o funcionamento das sociedades secretas, abrangendo as ainda incipientes lojas do território nacional, motivado pela agitação do meio maçônico empenhado em obter a independência do Brasil, através de movimentos regionais nacionalistas, de caráter geralmente republicano. O Alvará mostrava o empenho de D. João em fazer uso da força contra qualquer nova tentativa de rebelião, com a participação das hostes maçônicas. Não obstante o recesso oficial, a maçonaria continuou a trabalhar secretamente.

Desde 1809, Portugal estava libertado, pelos ingleses, do domínio francês. O general William Baresford, da Inglaterra, com o título de “Lorde Protetor”, era o virtual ditador, com o consentimento de D. João, enquanto este e sua Corte permaneciam no Brasil, com prejuízos para a burguesia comercial portuguesa, para a qual interessava a volta da família real para Lisboa e o restabelecimento do exclusivismo comercial da metrópole sobre a colônia.

Naquele momento,

Embora consideradas criminosas e proibidas em Portugal, as sociedades secretas e a Maçonaria se desenvolviam e difundiam ideias liberais nas grandes cidades. Combatiam o absolutismo, a sociedade tradicional, as superstições e a intolerância religiosa. A Maçonaria não era antibritânica, porque contava com muitos membros ingleses. Mas as outras sociedades secretas, como o Sinédrio, que pretendiam libertar Portugal da dependência inglesa, eram claramente antibritânica.”(Cáceres, 1995).

Como resultado da vitória da Revolução Liberal do Porto conduzida pelos militares, culminando com a expulsão dos ingleses, em 1820, e a consequente formação das “Cortes Gerais e Extraordinárias da Nação Portuguesa”, como o primeiro Parlamento convocado em Portugal, à revelia de D. João, a permanência da Família Real no Brasil tornou-se motivo de enorme insatisfação, pois a colônia, então equiparada à metrópole, estava a um passo de sua emancipação, e isso feria o orgulho português.

A Revolução do Porto pôs fim ao período de relativa estabilidade política que o Brasil havia conhecido desde a chegada da família real, gerando tumultos, passeatas, pronunciamentos militares e rebeliões em várias partes do país, forçando D. João, a partir de então, com o título de rei e o nome de D. João VI, a jurar a nova Constituição que estava sendo elaborada em Portugal, deixando de ser um monarca absolutista e tornando-se rei constitucional. A pressão das Tropas portuguesas sediadas no Rio de Janeiro foi decisiva para a decisão de D. João. Sua volta passou a ser exigida, apesar da vontade em permanecer no Brasil.

Embora criando uma monarquia constitucional e derrubando o absolutismo, as Cortes em Portugal sempre declararam lealdade ao rei D. João. Entretanto, crescia ainda a preocupação de seus membros com as perdas das riquezas provenientes do Brasil. Vale ressaltar que a Inglaterra dominava o comércio exterior brasileiro.

Assim, atendendo à exigência das Cortes e com o receio de perder o trono, em função do decreto-régio de 7 de março de 1821, e pressentindo a possibilidade de o Brasil tornar-se independente, D. João nomeou como regente do Reino do Brasil seu filho e herdeiro, D. Pedro, aos 22 anos de idade. Ao partir, em 26 de abril de 1821, D. João recomendou a seu filho: “Pedro, se o Brasil se separar, antes seja para ti, que me hás de respeitar, do que para alguns desses aventureiros”. A esquadra, composta por duas fragatas e nove embarcações de transportes, levou 40 mil pessoas. D. Carlota Joaquina exultante, partiu maldizendo o Brasil. D. Pedro acompanhou o pai até a saída da barra. (Del Priore, 2012).

Dessa forma, o príncipe regente vê-se envolvido pela elite pensante e econômica local, dentre os quais um forte grupo político composto por vários maçons. Já naquela oportunidade, o Banco do Brasil se viu desfalcado de mais de cinquenta milhões de cruzados em barras e moedas de ouro que haviam sido levadas por D. João dentro de suas malas, inaugurando procedimento que se “repete” ainda nos dias atuais. Para contornar a situação, D. Pedro ordenou a emissão de mais papel-moeda, o que causou a desvalorização da moeda e a elevação dos preços, inoculando o veneno da inflação. Qualquer comparação com a história recente não é mera coincidência.

Ainda em abril de 1821, um decreto das Cortes anulou o ato que havia nomeado D. Pedro regente. Decidiram, ainda, que o Brasil não apenas deixaria de ser um reino unido a Portugal como também o vice-reinado, com sede no Rio de Janeiro, não seria restabelecido. Em substituição a um governo central, o Brasil seria divido em províncias autônomas, cujos governadores (militares) seriam nomeados pelas próprias Cortes. Foi determinada a eliminação de todos os tribunais de justiça, das agências e das repartições públicas estabelecidas depois de 1807. Ademais, estavam sumariamente demitidos todos os juízes, advogados, escreventes e burocratas que ocupavam esses postos (Bueno, 1997).

Com a chegada ao Rio de Janeiro dos Decretos 124 e 125, de 29 de setembro de 1821, onde as Cortes ordenavam a abolição da regência e o imediato retorno de D. Pedro a Portugal, sujeitando a obediência das províncias a Lisboa e não mais ao Rio de Janeiro, e esvaziando, por completo, a autoridade do governo, D. Pedro aparentemente resignado começou a…

Continua…

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Ex-Venerável Mestre da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

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