Investigando a visita de Desaguliers a Loja Mary’s Chapel Nº1

Mary's Chapel - a loja maçónica mais antiga do mundo - Freemason.pt

Considerado o Pai da Maçonaria Especulativa Moderna, um dos fundadores e terceiro Grão-Mestre da Grande Loja de Londres, John Theophilus Desaguliers, fez uma viagem a Edimburgo em 1721, onde foi recebido como irmão em uma loja Escocesa. Desde então, rios de tinta foram utilizados para tentar explicar as razões para tal visita.

1 – Desaguliers foi um cientista e engenheiro. Ele foi contratado para inspecionar e melhorar o sistema de abastecimento de água de Edimburgo. A viagem foi apenas para isso?

2 – Ele foi recebido na Loja Mary´s Chapel e aceito como um irmão Maçom. Então, a Maçonaria Inglesa e a Escocesa compartilhavam as formas de reconhecimento?

3 – Ele participou da incorporação de funcionários do governo da cidade que o havia contratado. Foi por causa de sua influência?

4 – O terceiro grau, de mestre maçom, ainda não existia ou era uma criação recente. Ele viajou para a Escócia afim de promovê-lo?

Todas estas questões ainda não foram esclarecidas, mas vamos analisar as informações que temos conhecimento.

A situação na Escócia no início do século 18

Antes de falarmos sobre o dia 24 de agosto de 1721, vamos entender como estava a Escócia naquele momento.

Habitada por cerca de um milhão de habitantes contra 5 milhões da Inglaterra, seu rendimento nacional era da ordem de 1/38 da Inglaterra, com uma população predominantemente rural. Edimburgo, a maior cidade da Escócia tinha cerca de 30 mil habitantes, que era o nível de muitas cidades do interior da Inglaterra. Glasgow, a segunda maior cidade do país, não tinha mais do que 15 mil habitantes e Aberdeen, Dundee, Perth e St. Andrews eram apenas aldeias de 4 a 5 mil habitantes.

A situação econômica da Escócia era catastrófica. Os anos de 1692 a 1699, chamados de “os sete anos malditos do Rei Guillermo”, foram dramáticos:

Os invernos rigorosos se sucediam com muita chuva e dando lugar a fome.

“…Pode se ver homens e mulheres caírem de fome ao longo de estradas e caminhos, crianças que morrem por esgotamento do leite de suas mães. A morte está presente, principalmente entre os pobres (…)”

A higiene era deplorável. Somente uma rua de Edimburgo era pavimentada e epidemias não paravam de castigar a população.

Consequência imediata desta fome foi a imigração para os Estados Unidos, a maior influência sobre a demografia. Estima-se em 100 mil o número total de escoceses expatriados no curso do século 17.

As importações oriundas da Inglaterra eram quase inexistentes. E os escoceses não tinham acesso aos mercados administrados por colônias inglesas. Esse bloqueio, se não o isolamento, os incentivou a embarcar na aventura da colonização.

William Patterson, nascido em 1658, era rico. Ele fez uma fortuna na América e na Índia. Voltou para a Escócia e anunciou um projeto de colonização no Istmo de Darien, o que corresponde hoje ao Panamá.

A ideia do projeto era fazer comércio terrestre entre mercados marítimos do Atlântico e do Pacífico. Ele criou em Edimburgo a “Company of Scotland Trading to Africa and the Indies” (Companhia de Comércio Escocês para a África e as Índias) e vendo isso como uma tentativa de competir com a Companhia das Índias Orientais (East India Company), os escoceses o financiaram, afim de forçar os holandeses a se retirarem.

Patterson criou tanto entusiasmo, que milhares de escoceses participaram para financiar o projeto, somando um total de 400.000 libras, que era estimativamente, a metade do capital nacional da Escócia. Então, em 12 de julho de 1698, cerca de 1.200 voluntários deixaram o porto.

Em 02 de novembro de 1698, desembarcaram em um lugar que eles batizaram como Nova Caledônia. Mas eles não encontraram nada mais do que uma terra inóspita, formada principalmente de pântanos e terra estéril. Ao mesmo tempo, um segundo contingente de cerca de 1.300 colonos partia da Escócia. Sob pressão dos espanhóis, os colonos decidiram deixar o Istmo de Darien. Dos 16 navios que partiram, só restava 1. Mais de 2000 escoceses morreram na aventura e muitos mais foram arruinados.

Assim, nesta situação econômica, demográfica e social, catastrófica, o Parlamento ratificou em 16 de janeiro de 1701, o Ato de União com a Inglaterra por 110 votos a 69.

Este ato estava longe de contar com a unanimidade. Robert Burns disse sobre os deputados escoceses:

“Eles são comprados e vendidos em ouro Inglês”.

A população começou a promover tumultos e protestos, por uma maioria que estava contra a união, “contra a natureza”, depois de tantos anos.

E nesse clima tenso (como sempre), novamente entre a Inglaterra e a Escócia, é que a viagem de John Theophilus Desaguliers acontece.

Não sabemos quase nada da Grande Loja de Londres em 1721, e se deve principalmente à queima dos arquivos em 1722. De 1717 a 1722, portanto, não existem arquivos ou certezas.

Sabe-se que deste tempo, James Anderson reescreveu, a partir de sua memória, as atas dos primeiros cinco anos da Grande Loja de Londres. Mas podemos atribuir crédito?

James Anderson diz, por exemplo, que na formação de 1717, Anthony Sayer foi eleito, afim de esperar por um nobre para ocupar este cargo.

Foi real o que ele disse e decidiu ou apenas um elogio para o Duque de Montagu, eleito em 1721 ou para o Duque de Wharton em 1722?

Em 1722, John Theophilus Desaguliers deixou seu cargo de Grão-Mestre. E foi Grão-Mestre Adjunto em 1723. Qual foi o seu papel, a sua ação dentro da Grande Loja?

Sabemos que ele encomendou a James Anderson, cuja principal ocupação era criar genealogias, escrever a história do ofício.

Sabemos também que muitas personalidades, notáveis do mundo científico e da aristocracia, entraram na Maçonaria neste período.

Devemos lembrar que das quatro lojas que compuseram a Grande Loja de Londres, presume-se que três foram criadas para a ocasião. Em 1722 já haviam 24 lojas, demonstrando o crescimento significativo da Grande Loja em suas origens.

É atribuído a John Theophilus Desaguliers um papel muito importante no recrutamento desta época e, em especial, o Duque de Montagu. É verdade que Desaguliers tinha muitas relações com pessoas importantes.

É evidente que, quando não estava ocupando um posto importante na Grande Loja, Desaguliers continuava bem ativo.

A situação da loja Mary’s Chapel

A situação da loja Mary’s Chapel era muito diferente. Em primeiro lugar ela enfrentava uma nova “concorrência”.

Vamos ler o que Stevenson disse:

“… justamente no final do século 17, havia na área urbana uma única loja sob o controle da cidade de Edimburgo, embora os maçons de Canongate pertencessem a outra loja, a de Aitchison Haven.” (Canongate é um distrito de Edimburgo)

Na segunda década do século 18, haviam cerca de quatro lojas na área, duas das três novas, tinham sido fundadas para desafiar a Mary´s Chapel.

Em 1667, os maçons de Canongate, onde a jurisdição da Mary´s Chapel não era aplicável, fundaram a sua própria loja, e em 1688 os maçons de Leith os imitaram. Em 1708, houve um grave conflito dentro da Loja Mary´s Chapel, que levou inúmeros companheiros a saírem da loja e fundarem sua própria organização, que se tornou uma loja separada.

Longe de ser a “Primeira loja” da Escócia, no sentido de exercer alguma autoridade sobre outras lojas no país, como William Schaw tinha planejado um século antes, a Loja de Edimburgo não poderia impor sua vontade ou suas próprias portas!

O outro ponto importante da situação da Loja Mary´s Chapel, é o momento da visita de John Theophilus Desaguliers, sobre o recrutamento dos não operativos.

Entre 1630 e 1674, ele tinha começado lentamente um trabalho com os não operativos que eram iniciados.

E assim, por vinte e cinco anos, cerca de 1700, mas especialmente em 1706, aparecem entre os outros como admitidos, Samuel Mc Clellan (Lorde Maior de Edimburgo) e reitor da Guilda. Em 1710 se vê uma grande admissão de não-operativos, cirurgiões, arquitetos, reitores de guildas, e etc. Dois carpinteiros também foram admitidos em 1711. Entre 1700 e 1710 a Loja Mary´s Chapel claramente transformou a “Aceitação”, fato que antes não havia nenhum interesse.

A estadia em Edimburgo

Nós não conseguimos encontrar qualquer vestígio da partida de Desaguliers de Londres para Edimburgo. No entanto, as “Atas do Conselho da Cidade” de Edimburgo dizem que Desaguliers foi recebido como um burguês da cidade, “Irmão de Guilda” na forma mais ampla e livre, pelo reitor da Guilda de Edimburgo, em 18 de janeiro 1721.

Isto levanta a seguinte questão: John Theophilus Desaguliers voltou a Londres para assistir à instalação do Duque de Montagu em 24 de junho 1721 e voltou para Edimburgo depois?

O que é certo, é que ele foi chamado pela cidade para resolver um problema de canalização de água do aqueduto de Comiston. Um aqueduto com o comprimento de três milhas, que alimentava o reservatório de água por gravidade natural, ligado a cinco fontes situadas na cidade.

Como o fluxo de água parou, Desaguliers se viu com verdadeiro problema: as bolsas de ar que bloqueavam a circulação da água. A história oficial diz que Desaguliers resolveu o problema colocando uma válvula que permitia a evacuação do ar de forma manual e em 1726 criou um tipo de êmbolo que funcionava automaticamente.

24 de agosto de 1721

O que Desaguliers fez durante esse mês em Edimburgo, ninguém sabe. Só que em 24 de agosto de 1721, está escrito na ata da Mary´s Chapel:

“James Wattson, Diácono dos maçons de Edimburgo, presidiu. O dito Dr. John Theophilus Desaguliers, Companheiro da Royal Society e Capelão ordinário da Sua Graça, James Duque de Chandois, o último Mestre Geral das Lojas Maçônicas na Inglaterra, estando na cidade e desejoso de realizar uma reunião com o Diácono, o Vigilante e os Mestres Maçons de Edimburgo, o que lhe foi autorizado e ele se encontrando devidamente qualificado em todos os pontos da Maçonaria, foi recebido como um Irmão da Sociedade”.

Muitas observações vêm à mente com a leitura desta ata. 

O primeiro ponto diz respeito ao título que é dado a John Theophilus Desaguliers. Um Companheiro da Royal Society em primeiro lugar, por isso, o mais prestigioso.

Em seguida, o título que garante sua renda constante: Capelão para o Duque de Chandois. E no final o título de “Último Mestre Geral da Lojas Maçônicas da Inglaterra” (Grão-Mestre dos Maçons) até junho de 1721.

Mas o secretário de Mary´s Chapel não o chamou de Grão-Mestre, mas de Mestre Geral da Lojas Maçônicas da Inglaterra, o que não é o mesmo.

Alguns viram nisso uma vontade escocesa de não vai reconhecer a Grande Loja de Londres e, portanto, como um sinal de desconfiança, pelo menos.

Mas olhando bem, o título dado a John Theophilus Desaguliers foi ainda de mais prestígio, pois conferiu-lhe autoridade sobre todas as lojas maçônicas da Inglaterra.

Podemos propor as seguintes perguntas:

  • De onde veio tal título?
  • É uma certa desconfiança em relação à Grande Loja de Londres?
  • É, pelo contrário, um reconhecimento lisonjeiro por parte dos membros da Mary´s Chapel?
  • Será o título que Desaguliers dava a si mesmo?
  • Ou poderia ser que ele apresentou a Grande Loja de Londres como a organização que reagrupou e tomou autoridade sobre todas as lojas maçônicas inglesas?

O segundo ponto diz respeito a frase “desejoso de realizar uma reunião”.

A frase é clara: Desaguliers pediu para se encontrar com membros da Mary´s Chapel e é de se notar que não estava pedindo para ser admitido na loja. Ele só queria uma reunião. Vamos voltar mais tarde a este assunto.

O terceiro ponto diz respeito à passagem: “ele se encontrando devidamente qualificado em todos os pontos da Maçonaria”. Sabemos que essa expressão é tipicamente escocesa, mas não sabemos a que isso se refere. Em outras palavras, quais são os pontos da Maçonaria? É a Palavra do Maçom? É o conhecimento da abertura e fechamento da loja? É o conhecimento dos rituais de cerimônias de iniciação e passagem para o grau de “Companheiro”?

A expressão contém seus mistérios. De todo modo, ela está presente na ata da Mary´s Chapel.

De fato, a única razão plausível para Desaguliers ter respondido corretamente o telhamento dos membros da Mary´s Chapel, é que os rituais praticados em Edimburgo e em Londres, eram muito semelhantes. Qualquer outra explicação não refletirá a realidade do que aconteceu.

Mesmo atualmente, nossas atas contém expressões tradicionais que não correspondem em absoluto com o que é a realidade.

Um exame mais detalhado da ata da Mary´s Chapel, demonstraria se a expressão era utilizada toda vez que um visitante era telhado.

Quarto e último ponto: “foi recebido como um Irmão da Sociedade”. Essa passagem levou a numerosas interpretações devido à ambiguidade do texto. De fato, como no francês, o verbo “receber” poderia ser usado tanto para indicar a recepção em uma reunião, assim como ser recebido como membro da loja também.

Lembre-se que Desaguliers tinha pedido uma reunião, mas não ser recebido em loja.

A ata da loja relacionada com as suas reuniões oficiais, diz que Desaguliers foi recebido como um irmão.

Stevenson e Murray Lyon consideravam que Desaguliers se tornou um membro da Loja Mary´s Chapel. Pode até ser, mas nenhuma expressão indica este fato. Contudo pode-se pensar que ao ser telhado, ele foi considerado um maçom, e, consequentemente, um irmão, mas não um membro da loja.

Há um elemento que parece dar razão a Stevenson e Murray Lyon. De fato, podemos constatar nas atas posteriores da Mary´s Chapel que os visitantes são chamados assim, mas não os irmãos da loja. Além disso, o telhamento não é mencionado, e parece que, por ocasião da visita do Desaguliers, o que foi feito foi algo extraordinário em todos os sentidos do termo.

O 25 e 28 de agosto de 1721

Continuando a leitura das atas da Mary´s Chapel, com os acontecimentos após o dia 24 de agosto de 1721:

“… no dia 25 deste mês, Diáconos, Vigilante, Mestres e muitos outros membros da Sociedade, reuniram-se com o dito Dr. Desaguliers que estava na Mary´s Chapel, onde um pedido foi apresentado por John Campbell, Lorde Maior de Edimburgo; George Preston e Hugo Hathom, oficiais de justiça; James Nemo, tesoureiro; William Livingston, Reitor Secretário de Negócios; e George Irving, Secretário do Reitor do Tribunal da Guilda; e desejando forte e humildemente serem admitidos para a referida Sociedade; e sendo considerado por eles, nesse sentido, responderam favoravelmente ao seu desejo e essas pessoas honrosas foram admitidas e recebidos Aprendizes Ingressados e Companheiro do Ofício”.

Na ata seguinte, de 28 de agosto 1721, apenas três dias depois:

“Ainda assim, no dia 28 do mesmo mês e por uma reivindicação feita por Sir Duncan Campbell de Loghnell, Barão; Monsieur Robert Wightman, atual Reitor da Guilda de Edimburgo; Monsieur Gorge Drummond, último Tesoureiro da mesma; Archibald Mac Aulay, último Conselheiro municipal e Patrick Lindsay, comerciante; desejando o mesmo favor, que lhes foi aceito e foram recebidos como membros da Sociedade, como as outras pessoas mencionadas. No mesmo dia, James Key e Thomas Aikman, servidores de James Wattson, Diácono dos maçons, foram admitidos e recebidos Aprendizes Ingressados, pagando a James Mack os direitos comuns”.

Vamos analisar este texto. Primeiro de tudo, a presença de John Theophilus Desaguliers não é expressamente atestada assim como em 25 agosto de 1721, durante sua primeira visita.

Embora em 28 de agosto se estipule o que aconteceu assim como em 24 de agosto, isso não inclui a presença de Desaguliers.

A questão de saber o porque ele estava presente no dia 24 de agosto e não no dia 28, me parece conveniente, estudar que eram as pessoas iniciadas naqueles dias.

Nota-se que em 24 de agosto de 1721 foram iniciados o Lorde Maior (prefeito), o Tesoureiro da cidade, 2 Oficiais de justiça, um representante dos comerciantes, todos da cidade. Em suma, os empregadores de John Theophilus Desaguliers em Edimburgo, que haviam lhe encomendado o trabalho e pago por eles.

Então, é bastante natural que Desaguliers estivesse presente nas suas iniciações. Em vez disso, no dia 28 agosto de 1721, eram essencialmente pessoas da Guilda, que foram recebidos. Não se pode dizer que a ausência de John Theophilus Desaguliers tivera sentido em 28 de agosto, no entanto em 24 de agosto, sim, tinha sentido.

Só mais uma observação: dois servidores foram iniciados em 28 de agosto de 1721, o que poderíamos supor que havia um desejo de expansão social dos membros da loja.

No entanto, estes dois servidores não serviam ninguém menos que o Diácono dos maçons, que poderia ser um membro da Loja. Deste modo, uma revisão cuidadosa das atas da Mary´s Chapel, poderia nos dizer algo.

Podemos notar que foram iniciados, mas não se tornaram Companheiros do Ofício e ainda foram os únicos que pagaram por seus direitos. Esse ponto parece revelar um detalhe da sociedade da época.

Pode ser que as personalidades recebidas na Mary´s Chapel, o haviam sido por agradecimento (por exemplo, por ter contratado John Theophilus Desaguliers) ou porque era uma honra para a Loja, ter celebridades. Também pode-se dizer que a cortesia mais elementar, exigia que nunca falassem sobre questões monetárias com pessoas de posição, mas você poderia fazer quando se tratava de servidores.

Seguindo Murray Lyon, vamos conhecer quem foram os 13 personagens iniciados em 25 e 28 de agosto de 1721:

John Campbell, iniciado em 25 de agosto de 1721, foi o Lorde Mayor (Prefeito) de Edimburgo entre 1715 e 1720 e novamente entre 1723 e 1724. Campbell era conhecido por sua ação dentro da cidade, pois permaneceu leal ao governo durante a rebelião de 1715.

Archibald Mac Aulay, iniciado em 28 de agosto de 1721, também foi Lorde Mayor (Prefeito) de Edimburgo entre 1727 e 1749. Mais tarde, ele se tornou Lorde Conservador dos privilégios escoceses em Cámpvere. Lorde Conservador tem a função de gerenciar uma área pública do País, proteger os direitos dos plebeus e conservar a beleza natural da sua área.

Campvere, que antes chamava Veere, é uma cidade dos Países Baixos. Pelo casamento do Lorde de Veere com a filha de James I da Escócia, em 1444, a cidade recebeu como um privilégio, ser a única cidade onde poderiam ser recolhidos produtos escoceses para ser vendidos a outras regiões. Escoceses que viviam em Veere foram sujeitos apenas à lei do “Conservador da nação escocesa”. Tal privilégio foi removido em 1847.

Patrick Lindsay, iniciado em 28 de agosto de 1721, era um comerciante muito conhecido, foi eleito quatro vezes como Prefeito de Edimburgo e representou a cidade no parlamento, entre 1734 a 1741. Foi também governador de Isle of Man, uma ilha localizada entre a Irlanda e a Grã-Bretanha.

Sir Duncan Campbell, iniciado em 28 de agosto de 1721, foi o descendente direto do terceiro Conde de Argyll, mas, sobretudo, um amigo pessoal e conselheiro da rainha Anne. No funeral de seu pai, em 10 de janeiro de 1714, foi uma ocasião de uma manifestação importante, a favor dos Stuarts exilados. Diz-se que este enterro foi realizado na presença de 2.500 homens armados. Sir Duncan Campbell tornou-se capitão de um dos seis regimentos independentes, formados pelo governo em 1729. Esses regimentos foram apelidados de “Os sentinelas negros”. O primeiro coronel dos “Sentinelas Negros” foi John, Conde de Crawford e membro da Loja Mary´s Chapel.

Portanto temos, um nobre, amigo pessoal e conselheiro da rainha Anne, três prefeitos da cidade de Edimburgo, três oficiais de justiça, o tesoureiro da cidade, o Reitor da guilda, o secretário do ex-Reitor e do Reitor do Tribunal da Guilda, o responsável pelos negócios. E todos se tornaram membros da loja Mary´s Chapel em quatro dias.

Difícil fazer melhor, não? E tudo isso durante a visita de John Theophilus Desaguliers; a coincidência é pelo menos motivo de estudo.

Resumo

Tendo visto o contexto geral e estudado da forma mais objetiva possível ata da Loja Mary´s Chapel para os dias 24,25 e 28 de agosto de 1721, é hora de tentar sintetizar o que sabemos ou podemos supor, de tais fatos, e as consequências da visita de Desaguliers a esta Loja Escocesa.

Com os elementos reunidos, que estão em nossa posse, a maioria das suposições são plausíveis e, em todo caso, não se contradizem com os textos da época.

Por exemplo, não sabemos o real propósito da viagem de Desaguliers para Edimburgo. Se era puramente profissional ou puramente maçônico. Se foi para lucro ou prazer. Não sabemos mais nada de sua presença em Edimburgo. De acordo com AQC (Ars Quatuor Coronatorum), ele estava lá, em janeiro de 1721, para uma reunião com o prefeito de Edimburgo. É razoável pensar que era por razões profissionais, para o problema hidráulico, mas parece que durante o verão, ele fez várias visitas a Edimburgo.

Mas será que ele não estava presente na instalação do Duque de Montagu, na Grande Loja de Londres, em 24 de junho?

Será que viajou de volta, mesmo sabendo que levaria quatro ou cinco dias para ir de Londres a Edimburgo?

Que contatos ele fez em Edimburgo, antes de 24 de agosto de 1721?

É difícil imaginar que Desaguliers apareceu na porta da Mary´s Chapel, anunciando que 11 membros eminentes da cidade queriam ser iniciados na Maçonaria. É mais provável que os contatos haviam ocorrido muito antes disso.

É certo que Desaguliers conheceu seus empregadores antes de agosto de 1721. É também provável que ele também manteve contatos anteriores com membros da guilda ou da Loja.

O fato é que Desaguliers pediu uma reunião oficial com membros da Mary´s Chapel. Na verdade, é nesse momento que Desaguliers pediu a James Anderson para reescrever a história do Craft, que os maçons da época não sabiam quase nada, de modo que qualquer informação sobre as origens escocesas era importante. Será que a escolha de Anderson foi porque seu pai tinha sido um membro da Loja Aberdeen, na Escócia?

Alguns historiadores argumentam que John Theophilus Desaguliers veio com rituais puramente ingleses para que as lojas escocesas os adotassem, em um tipo de demonstração, que teria ocorrido em 02 de agosto de 1721.

Esta tese não é de forma unânime e mostra aqui que durante os primeiros três anos, a Maçonaria Escocesa pode ter influenciado a Inglesa, pelo menos no início. O mais provável é que John Theophilus Desaguliers não viajou com o propósito de iniciar personalidades importantes.

Desaguliers tinha conhecimento dos membros importantes do Conselho, os contatos com as cortes aristocráticas poderiam ser de interesse da Loja Mary´s Chapel. Foi sem interesse que Desaguliers apresentou estes candidatos a Loja? Ou era, uma troca de favores?

Outra hipótese da coincidência: Desaguliers iria visitar os membros da Mary´s Chapel e relatou que seus empregadores queriam ser iniciados.

Eles querem se juntar a nós? …. Então temos que verificar se Sois Maçom… (O que foi verificado, de acordo com a ata).

Conclusão

Muitas das perguntas realizadas durante a confecção deste texto, não foram elucidadas. Nós propomos desde a introdução, tentar responder à questão da visita de Desaguliers a Edimburgo: Viajou para contribuir com algo ou para levar algo a esta loja?

Na primeira parte da questão, parece muito provável que Desaguliers beneficiou a Loja Mary´s Chapel com suas relações, ajudando o ingresso de personalidades, coisa que durante anos a loja tentou fazer.

Quanto à possibilidade de que Desaguliers pudesse ter introduzido o terceiro grau na Escócia durante a sua visita, não parece ter lógica, pois a história nos diz que esse grau não foi praticado na Mary´s Chapel, antes de 1738, ou seja, 17 anos após a visita de Desaguliers e dois anos após a criação da Grande Loja da Escócia.

Como naquele tempo, Desaguliers estava escrevendo a história da Maçonaria, e para dar crédito a Grande Loja de Londres, qualquer informação que pudesse enriquecê-lo, certamente interessaria Desaguliers. Por exemplo, a semelhança entre os rituais escoceses e ingleses da época.

O assunto é complexo e exige não apenas conhecimento histórico e maçônico. Acredito que um estudo mais apurado sobre as condições da criação da Grande Loja da Escócia em 1736, nos trará luz sobre as ações de John Theophilus Desaguliers.

Autor: Luciano R. Rodrigues

Fonte: O Prumo de Hiram

Screenshot_20200502-144642_2

Se você acha importante o trabalho que realizamos com O Ponto Dentro do Círculo, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

Referências

R. Dachez – Renaissance Traditionnelle, n°83, 1990.

W. Ferguson – Scotland, 1689 to the present.

M. Duchein – Histoire de l’Ecosse.

D. Stevenson – Les premiers Francs-Maçons.

City Council Minutes (Transactions of Quator Coronati Lodge, vol 111 & 112).

A.W. Skempton – A biographical dictionary of civil engineers in Great Britain and Ireland.

David Murray Lyon – History of the Lodge of Edinburgh, Mary’s Chapel n°1.

The Builder Magazine, vol 14, 1928.

Texto de François Delaporte – Loge d’études et de recherches William Preston – 2008

John Theophilus Desaguliers, o pai da Maçonaria Especulativa

Traveling Templar: John Theophilus Desaguliers: Father of Modern  Speculative Freemasonry

Introdução

“Na atualidade, o nome Desaguliers é familiar apenas para poucos maçons. Mas eles deveriam saber que a ele, talvez mais do que qualquer outro homem, devemos a existência atual da Maçonaria como uma instituição viva, …. E a quem, talvez, mais do que qualquer outra pessoa, a atual Grande Loja da Inglaterra deve a sua existência. (Albert G. Mackey).

“Ele pegou uma antiga ordem que estava morrendo e deu uma filosofia que lhe era muito própria e peculiar. Ele acrescentou um toque de ciência, um conceito prático do Grande Arquiteto e Organizador do Mundo. Ele soprou uma oração e nasceu a maçonaria especulativa” (George E. Maine – Grande Orador da Grande Loja de Washington em 1939).

No ano de 2000, em um artigo sobre “as dez teorias propostas sobre a origem da maçonaria”, da Ars Quatuor Coronatorum, encontramos a citação abaixo, sobre “A teoria das origens rosacruzes” de A. Cosby F. Jackson:

Jackson propôs que duas fraternidades, a Maçonaria especulativa e o Rosacrucianismo, foram lançadas com poucos anos de diferença por homens de qualidades intelectuais semelhantes. Ambos teriam começado no século XVII com propósitos parecidos, o auto aperfeiçoamento e o misticismo religioso. O Rosacrucianismo espalhou-se rapidamente com ideias da alquimia, enquanto a Maçonaria tinha um atrativo diferente, e consequentemente se desenvolveu mais lentamente.

Havia apenas dois vínculos plausíveis:

  1. A importância da piedade cristã e auto aperfeiçoamento.
  2. Os membros das duas convicções poderiam estar envolvidos com a recém-fundada Royal Society, que fora estabelecida por senhores cultos.

A pesquisa

Neste texto vamos examinar a criação da Maçonaria que conhecemos, especialmente o seu principal fundador, Rev. Dr. John Theophilus Desaguliers.

Ao fazê-lo, chegamos à conclusão de que, em vez de reviver fielmente os segredos e mistérios de pedreiros medievais e operativos, Desaguliers e seus associados criaram uma nova instituição (com alguns elementos antigos, reais ou imaginários, contudo, eles eram bem diferentes dos empregados pelos operativos).

Nesta nova instituição, eles conseguiram inserir em quatro ou mais lojas de Londres, e estes perpetuaram, alguns usos e costumes remanescentes dos maçons (pedreiros) artesãos.

A Grande Loja de Londres foi criada em 1717. No primeiro ano, o Grão-Mestre foi Anthony Sayer, que não fez nada para o desenvolvimento da ordem. No ano seguinte, o segundo Grão-Mestre, George Payne, provou ser um administrador competente, mas não excepcional. Até que em 1719, momento que a Grande Loja enfraquecia, foi reavivada pela liderança de John Theophilus Desaguliers depois de ser eleito como o terceiro Grão-Mestre.

Sua visão extraordinária transformou o que tinha sido até então, pouco mais do que uma combinação de clubes de bebedores, com uma instituição nobre e da moda, eminentemente preparada para o aparecimento do Século das Luzes, ou mais conhecido como o Iluminismo.

Todos os Grãos Mestre subsequentes foram patronos “só de nome”, de nascimento aristocrata ou real, cuja rotina de trabalho era depositada no Deputy (ou Adjunto), posição ocupada por Desaguliers por três vezes.

Desaguliers é considerado unanimemente como o criador da primeira Grande Loja.

No livro The Royal Masonic Cyclopaedia de 1987, o autor Kenneth Mackenzie nos diz:

“Por seu ardor despertou as energias dos maçons de seu tempo, e depois da conferência preliminar com o velho Christopher Wren (talvez apócrifa), reuniu quatro lojas em Londres em 1717, quando a Grande Loja foi formada. Sob Dr. Desaguliers, o Ofício cresceu rapidamente em força, número, respeitabilidade e influência, muitos nobres participaram das cerimônias e posteriormente como oficiais”.

Outro ponto sobre o qual o Dr. Desaguliers tinha muito interesse foi a coleta de documentos antigos relativos ao Ofício (Craft) e a isso se deve a preservação das “Obrigações dos maçons” e a preparação do Regulamento Geral.

Em suas Constituições de 1723, James Anderson dá o crédito a seu mentor, de ter auxiliado no trabalho, provavelmente exagerando o papel de Desaguliers para dar brilho ao que era essencialmente o trabalho do próprio Anderson, e assim conseguiu a aprovação da Constituição pela Grande Loja.

Referindo-se novamente ao livro de Kenneth Mackenzie:

“Depois de se retirar do cargo em 1720, ele (Desaguliers) foi nominado por três vezes como Grão-Mestre Adjunto (Deputy ou Vice Grão-Mestre): em 1723, pelo Duque de Wharton; em junho do mesmo ano, pelo Conde de Dalkeith; em 1725, por Lord Paisley; e durante este período de serviço ele fez muitas coisas para o benefício do Ofício, entre outros, iniciando o esquema de caridade que foi posteriormente desenvolvido no que é hoje conhecido na Grande Loja da Inglaterra como o Fundo de Benevolência.

Durante este período, ele visitou lojas operativas em Edimburgo. (Este ponto é tão interessante que será explorado em outro post)

Em seguida, ele viajou para a Holanda e foi mestre de uma loja especialmente reunida para iniciar o Duque de Lorena, mais tarde Grão Duque da Toscana e imperador da Alemanha. Ele também iniciou o príncipe de Gales em Kew em uma loja formada especialmente para este propósito.

Através da força de sua própria personalidade, ele atraiu a sua nova instituição, homens importantes na Inglaterra, a realeza, os nobres, a elite, a as grandes mentes.

Devido a pureza de seus princípios e a importância desses primeiros líderes reunidos por Desaguliers, a Maçonaria desde estes dias, é uma coisa viva, pulsando com o melhor que há em cada homem. Alguns escritores afirmam que Desaguliers “foi quem escreveu a maioria de seus rituais”.

Dr. Oliver em “Os Princípios Peculiares do Ofício”, diz:

“Seu desempenho (Desaguliers) poderia ter contribuído para o benefício de toda a comunidade, se tivesse sido encaminhado em uma certa direção desde a saída de Sir Christopher Wren”.

Podemos supor que Desaguliers tentou redirecioná-los para algo totalmente novo (a influência de Wren é duvidosa e provavelmente foi invocada para legitimar as inovações de Desaguliers).

Em “The Ritual of the Operative Freemasons” (Carr), ficamos surpresos pela falta de semelhança entre o sistema de guildas de Londres, de sete graus, e os atuais três graus da Maçonaria simbólica.

A palavra de cada um dos primeiros graus é totalmente diferente (não apenas transposta como aconteceu depois) do que é utilizado na moderna maçonaria especulativa e os pilares que são tão proeminentes em graus especulativos tinha um significado muito diferente entre os operativos.

Além disso, como afirma Bernard E. Jones em “Freemasons Guide and Compendium”, observamos que entre os maçons especulativos não há registros de um terceiro grau ou a lenda de Hiram até cerca de 1726, quando aparece, e não se assemelha a nada praticado entre os pedreiros operativos.

O que Desaguliers teria em mente ao criar a Maçonaria que nos é familiar?

A pergunta nos leva a tentar entender como era este irmão.

Desaguliers era um cientista de renome, amigo íntimo de Sir Isaac Newton (Presidente da Royal Society de 1703 até sua morte em 1727) e Desaguliers era um Companheiro desta sociedade.

Tal influência se reflete nos rituais da Maçonaria, com a ênfase nos “Mistérios ocultos da natureza e ciência”, as “Sete Artes Liberais e Ciências” e seu discurso por um “avanço diário no conhecimento maçônico” e como os escritores Hamill e Gilbert nos diz em “The First Grand Lodge”:

“Parece haver pouca dúvida de que a quantidade de Companheiros da Royal Society, que se tornaram maçons, foi devido à influência do exemplo de Desaguliers e certamente não foi por acaso que, pelo menos, 12 dos Grãos Mestres foram Companheiros da Royal Society ao longo dos 20 anos após Desaguliers.”

Na verdade, a ideia de que a Maçonaria especulativa foi o produto da Royal Society é uma das teorias mais plausíveis sobre as origens da maçonaria, que citada por Mackey em “The History of Freemasonry”. No entanto, apesar da prevalência da moda do Rosacrucianismo no início do século XVIII, quando a alquimia era considerada uma ciência e da influência que o Rosacrucianismo pode ter exercido tanto na Royal Society quanto na Maçonaria, a última conexão e direta entre os dois parece estar ausente por um motivo a se observar: enquanto que os aspectos práticos do Ofício dos operativos podem ter dado origem a algum interesse entre os membros da Royal Society, há muito pouco sobre a maçonaria especulativa que explique o motivo deles, como entusiastas da ciência, gostariam de ter sido envolvidos em sua criação.

Voltando ao Desaguliers, encontramos um outro aspecto deste maçom, que nos leva a considerar uma nova teoria: Ele foi um huguenote, que é o nome dado aos protestantes franceses durante as guerras religiosas na França.

Quando Desaguliers tinha dois anos de idade, seu pai que era Reverendo, foi para a Inglaterra dentro de um tonel de vinho para escapar da perseguição na França. Todos os clérigos protestantes foram forçados a deixar a França, enquanto que outros protestantes foram obrigados a ficar (muitos escaparam). Na Inglaterra, Desaguliers também se tornou um clérigo protestante (embora um ministro anglicano).

Um grande número de huguenotes eram artesãos e por causa do preconceito religioso eram bem-vindos na maioria dos países onde eles se refugiaram. Um outro número de huguenotes foram entusiastas cientistas.

Na Academia Real de Ciências da França pode ser lido (Instituto e Museu de História da Ciência):

“A Academia declinou após a revogação do Édito de Nantes (1685), quando muitos cientistas huguenotes deixaram a França”.

Não é de se estranhar, então, que a Royal Society de Londres floresceu atraindo membros huguenotes, como Desaguliers, conforme afirma Neville Barker Cryer, em “Huguenot Freemasons”, de 1995.

Eu sugiro que está aqui, entre os huguenotes e ilustres protestantes, o grão da verdade na teoria das origens da Royal Society e onde a Maçonaria especulativa pode ser encontrada.

Margaret Kilner, no livro “The Huguenot Heritage”, falando da capela Huguenot de Leicester Square, nos diz:

“Junto a capela se encontra a residência de Sir Isaac Newton (1642-1727) mais conhecido como o maior cientista do seu tempo….. Parece que sua proximidade com a capela, lhe permitiu oferecer o andar térreo de sua residência como um lugar de culto para os refugiados franceses. Muitos Huguenotes rezavam ali”.

Em uma publicação intitulada “Huguenot freemasons”, apresentado a “Huguenot Lodge” de Londres, o Rev. Neville Barrer Cryer disse:

“…. Nada menos do que um quarto de todos os nomes registrados dos Stewards da Grande Loja são reconhecidos em sua origem Huguenot mas e aqueles cujos nomes foram prontamente anglicanizados?

Os huguenotes seguem as doutrinas de João Calvino. Os Calvinistas que falavam Inglês, tal como os huguenotes e valões, emigraram para a Inglaterra, os covenanters escoceses, os puritanos ingleses, etc., entusiasticamente aderiram à Bíblia de Genebra, mesmo depois que foi imposto o uso da versão autorizada do rei James.

Valões foram um povo de origem germânica e céltica que habitavam a região da Valônia, na atual Bélgica. Covenanters eram membros de um movimento religioso nascido dentro do presbiterianismo na história da Escócia. Puritanos eram membros de grupos calvinistas rígidos de costumes.

Em outra publicação, Cryer prova que o Volume da Lei Sagrada em uso na primeira Grande Loja foi uma Bíblia de Genebra.

Aliás, a ligação entre os huguenotes e covenanters foi particularmente forte devido à “Auld Alliance” (Antiga Aliança) entre os franceses e escoceses, contra o inimigo comum, o Inglês.

Na sequência da Reforma e, especialmente, no contexto da perseguição dos huguenotes (por exemplo, o massacre do Dia de São Bartolomeu), esse aspecto da vida de Desaguliers pode ter sido influenciado pela insistência sobre a tolerância, especialmente em matéria de religião, como apresentado na Primeira Grande Loja.

Nesta conjuntura, eu acho que temos que manter em mente que os temas comuns entre os protestantes, incluíam traduções da Bíblia e restauração dos mistérios da igreja primitiva (por exemplo, o gnosticismo) acusando Roma de os ter desprezado. As traduções da Bíblia agora estão disponíveis, mas e sobre os mistérios?

Igrejas protestantes e seus cerimoniais ainda são mais inflexíveis do que os dos católicos. Para os mistérios, eu sugiro que você estude o rosacrucianismo como um braço mais ou menos separado da Reforma.

Agora vamos voltar ao protegido de Desaguliers, o Rev. Dr. James Anderson (1648-1746), o criador das Constituições da Maçonaria. Sua fama tem se mostrado muito duradoura entre os maçons e podemos surpreender ao dizer que ele não era um clérigo ortodoxo, mas um membro da Igreja Reformada Escocesa, presbiteriana, que tinha suas raízes calvinistas e nos covenanters.

Além disso, apesar de ser um pastor presbiteriano, ele assumiu a concessão de uma capela em Swallow Street, Piccadilly, pertencente a uma congregação de protestantes franceses, onde o pai de Desaguliers tinha sido pastor e alguns pesquisadores acreditam que suas constituições são o produto do saber, seguindo o exemplo de seu amigo e mentor, Desaguliers, para criar a Maçonaria especulativa moderna.

Também a essa luz, pode ser refletida a irritação dos maçons britânicos, devido a proliferação de graus na França, em comparação ao seu, “básico, puro e inalterável” Ofício, atravessando o canal.

Conclusão

Podemos observar que a maçonaria especulativa, apesar de ter origem na Inglaterra, teve uma influência francesa desde a concepção e talvez os franceses simplesmente conheceram a instituição pela retidão que tinha, e posteriormente introduziram suas ideias desenvolvidas em alegorias e símbolos.

Autor: Luciano R. Rodrigues

Fonte: O Prumo de Hiram

Screenshot_20200502-144642_2

Se você acha importante o trabalho que realizamos com O Ponto Dentro do Círculo, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

Bibliografia

The Ritual of the Operative Freemasons – Thomas Carr

The Geneva Bible and its Contribution to the Development of English Ritual – Neville Barker Cryer

The First Grand Lodge – Robert Gilbert e Jonh Hamill – acesso em março 2017 http://www.mastermason.com/3rdnorthern/MasonicHistoryfiles/firstgl.htm

Huguenot Freemasons – Neville Barker Cryer

The Huguenot Heritage – Margaret Kilner – acesso em março de 2017 – http://ensignmessage.com/articles/the-huguenot-heritage/

The Royal Masonic Cyclopaedia – Kenneth Mackenzie

Encyclopedia of Freemasonry and its Kindred Sciences Comprising the Whole Range of Arts, Sciences and Literature as Connected with the Institution – Albert Gallatin Mackey

The History of Freemasonry – Albert Gallatin Mackey

Desaguliers and the March of Militant Masonry – George Maine – acesso em março de 2017 – https://archive.org/stream/Desaguliers_And_The_March_Of_Militant_Masonry_-_G._E._Maine/Desaguliers_And_The_March_Of_Militant_Masonry_-_G._E._Maine_djvu.txt

The Royal Society Tercentenary – Alexander Piatigorsky

Os ideais que fizeram a Maçonaria possível

De que servem os nossos ideais se não nos permitirem dar uso a eles? -  Marta - O meu canto

A proposta desse trabalho é discutir a origem da fraternidade em geral e da Maçonaria em particular, em termos intelectuais atuais que fizeram com que a Fraternidade Maçônica fosse concebida como uma instituição.

Os pressupostos desse trabalho são dois:

  • Que foi alcançada uma síntese intelectual e institucional por volta do início cultural do século 18, por exemplo 1717-1738, que, em essência, “criou” a Maçonaria como nós a conhecemos em tempos subsequentes;
  • Que, como a Maçonaria é um protótipo de uma subsequente Fraternidade, e que a maior parte das ordens de Fraternidade tem se utilizado tanto de rituais quanto do modelo estrutural da Maçonaria, então se entende que as precondições intelectuais da Ordem permitiram que estudantes entendessem com mais clareza o fenômeno único da fraternidade na cultura ocidental.

A Maçonaria, como a conhecemos hoje, existe em vários lugares e tem por volta de 300 anos. Entretanto, em nenhum lugar o impacto na cultura foi tão profundo quanto nos Estados Unidos da América. Depois da revolução de 1776 a fraternidade proveu diversos símbolos, mitos, e ética pública ou virtude, que, na mesma medida, a Igreja promoveu na Monarquia estabelecida na Inglaterra. Isso fez dos Estados Unidos um laboratório único para entender o papel da Maçonaria como um fenômeno civil ou cultural.

Assim, definir a exata natureza, na medida do possível, do que era único sobre a Maçonaria antiga nos Estados Unidos, nos ajuda a investigar as condições prévias para a síntese ou criação da própria Maçonaria.

Além disso, compreender a experiência Americana como única, nos auxilia a entender que correntes filosóficas específicas no século XVII e anteriores tornaram possível o desenvolvimento da Ordem.

Se este trabalho for bem sucedido em esclarecer essas últimas correntes, mesmo em um grau pequeno e sugestivo, seu propósito terá sido cumprido.

A Maçonaria dos Estados Unidos: “O que o Ofício Conquistou”

Além do papel heroico dos principais Maçons na Revolução Americana, o fundo de ideias, símbolos e mitos associados à Maçonaria foram fundamentais para o nascimento de uma nova nação.

O historiador de religiões Joseph Campbel [1] resume essa conquista de duas maneiras:

  • Que os símbolos do Ofício se tornaram o simbolismo da nação; e
  • Que os ideais da fraternidade que estão dentro da Ordem foram projetados além dos meros ensinamentos particulares, inseridos na mentalidade popular dos próprios revolucionários.

Este último ponto é particularmente importante porque implica que os Pais Fundadores foram capazes de articular uma visão que alcançou simultaneamente dois objetivos opostos: o bem do todo ou da comunidade; e os direitos do indivíduo dentro desse todo.

Assim, dois objetivos potencialmente contraditórios, os direitos do Estado versus os direitos da pessoa, foram reconciliados e preservados em uma tensão criativa.

Simbolicamente, a filosofia da Maçonaria ainda oferecia um caminho alternativo entre os da Igreja, de um lado, e da Monarquia de outro, ambos os sistemas eram predominantes de autoridade no meio europeu do século XVIII.

Esse ponto se torna mais evidente quando lembramos que o período revolucionário e depois federalista geraram uma escola arquitetônica única que refletia não apenas os ideais igualitários e do iluminismo dos Pais Fundadores, mas também que emprestavam uma aura estética de respeito crível a edifícios como a Casa Branca e o Federal Hall, em Nova York, que vieram incorporar a imagem pública da nova nação.

A criação de uma Nação não é tarefa fácil. Como os Estados Unidos foram a primeira nação moderna construída não sobre o poder militar arbitrário, a ambição da dinastia ou menos o interesse próprio, a principal tarefa dos Pais Fundadores após a Revolução era articular uma filosofia ou ideologia unificadora que fizesse sentido para as classes educadas da época. Isso significava que as promessas políticas da Declaração de Independência (1776) e da Constituição (1787), ou seja, direitos individuais, tinham de ser reconciliadas por uma filosofia pública que explicava, ou pelo menos tornava compreensível, a realidade de que todos não eram economicamente iguais[2].

Em outras palavras, eles tiveram que encontrar uma filosofia que falava da dignidade do trabalho, a democracia essencial da representação hierárquica, em si um conceito potencialmente contraditório, e tudo dentro de uma visão de harmonia que evitava conflitos sectários. A resposta foi, claro, a Maçonaria.

Em específico, a Maçonaria Americana primitiva realizou três funções particulares que iluminam suas origens anteriores na história intelectual europeia:

  • Alcançou uma espécie de trégua com a religião sectária, notadamente o puritanismo e o congregacionalismo na Nova Inglaterra, que permitia às pessoas não concordar com a teologia que conduziu com sucesso uma guerra contra um terceiro “mal maior”, a tirania britânica. Como a maioria dos Pais Fundadores estava de alguma forma associada à Igreja da Inglaterra, essa conquista é ainda mais significativa[3] [4];
  • Isso ocasionou e justificou uma elite política, que nasceu comprometida com a disseminação do conhecimento, e com a efetiva responsabilidade de intermediação do poder em um espírito progressista[5];
  • Quando a era Antimaçônica forçou uma reestruturação da imagem pública na Maçonaria e uma diminuição de sua composição elitista, por volta de 1826, ela “se recuperou” para assumir ainda um outro papel cultural como símbolo aceitável da classe média de cooperação no comércio e nos assuntos cívicos. Durante o período da relativa ausência dos Estados Unidos nos assuntos europeus, 1776-1914, a Maçonaria continuou a ser a filosofia essencial do pluralismo harmonioso para toda a nação[6].

Em outro contexto[7], tenho sugerido que a Maçonaria pode ser melhor compreendida através de referências a tratados simbólicos dentro dos seguintes textos: bíblicos, medievais, herméticos (ou ocultistas) e deístas ou elementos iluministas.

Essa maneira de abordar o estudo das origens Maçônicas é útil porque permite que o estudante pense na síntese dos Ideais Maçônicos no início do século XVIII em termos de correntes de pensamento predominantes em um contexto mais amplo entre Ingleses e Europeus. Por exemplo, pode-se traçar uma linha medieval, cavalheiresca, incluindo os graus da Ordem Real da Escócia de 1745 a era Jacobita com o interesse de revitalização da Cavalaria, e a organização Templária Moderna na era Romancista Inglesa, entre 1798 [9] e 1850 (início do Realismo Francês), quando foi instituído o Grande Acampamento dos Cavaleiros Templários nos Estados Unidos, em 1817, e as “Ordens Religiosas e Militares Unidas do Templo e São João de Jerusalém”, que foi reorganizada pelo Duque de Sussex (1812-1843).

Com exceção do motivo bíblico, que provavelmente foi absorvido pela Maçonaria no século XVII com a saga da construção do Templo do Rei Salomão[10], os motivos medievais, herméticos e iluministas podem, de fato, serem traçados em ordem cronológica mostrando onde cada corrente prosperou. Além disso, podemos traçar os principais emblemas Maçônicos para cada uma dessas eras, como a seguir:

  • Ferramentas de trabalho Operativas, Manuscrito Gótico, 1390;
  • O uso da arquitetura como uma referência pra a ética e moralidade, para o “reativamento ocultista” dos séculos XVI e XVII e para a literatura moralizadora puritana[11];
  • O Olho Que Tudo Vê, como o símbolo do deísmo inglês e americano, na iconografia da época[12].

Pode-se entender os Pais Fundadores, na verdade, como aqueles que sintetizaram a Maçonaria em um sistema moral coerente e uma instituição simultaneamente, se e somente se, entendermos que o uso de emblemas específicos reflete uma conexão mítica e viva entre a sociedade, incluindo o governo e a percepção da estrutura do universo.

Assim, para entender a origem da Maçonaria e sua marca na psique da nova nação americana, por exemplo, é importante entender que os emblemas não eram como os vemos hoje – dispositivos intelectuais para nos ajudar a lembrar de certos preceitos ou ensinamentos, mas eram na realidade pontes entre a experiência humana e a natureza percebida do universo criado.

Outra maneira de enfatizar esse ponto é sugerir que o homem do século XX passou a entender como uma diferença entre o significado exato e literal de uma palavra ou imagem, e seu significado simbólico, ou significado alegórico, não existia da mesma maneira para uma pessoa do século XVII ou XVIII. O que queremos dizer hoje em dia como “simbólico” significava algo “literal”.

Assim, para entender as correntes exatas na história intelectual da Europa – sem as quais não haveria a Maçonaria como a conhecemos – é importante também entender que cada corrente utilizou seus símbolos de maneiras únicas. O filósofo do século XVI que olha para instrumentos de trabalho medievais, por exemplo, os veria como instrumentos de uma mudança na consciência; O Templo de Salomão, por exemplo, seria um meio para experimentar o lugar do homem na ordem do universo; e o Olho que Tudo Vê seria uma afirmação de que a racionalidade iluminada poderia colocar alguém em contato com a mente de Deus.

Homens arquétipos: os intelectos criativos que conceberam os ideais pré-maçônicos

A Maçonaria é essencialmente o produto de certas elites históricas: pequenos grupos de homens influentes ou poderosos que não apenas foram capazes de conceber uma organização tal como a Arte se tornou, mas também imprimir sua cultura com o significado de suas ideias.

Isso é mais claramente visto na história americana, como observei acima, pelos fundadores e a geração de homens que os seguiram, como DeWitt Clinton (1769-1828) e Andrew Jackson (1767-1845), que eram os elos entre a Maçonaria de classe alta de Washington e Franklin, e a fraternidade mais de classe média do período pós-Morgan.

Assim, a Maçonaria sempre foi melhor quando conquistou o entusiasmo e a lealdade de pessoas influentes.

Na Inglaterra, duas elites intelectuais e/ou comerciais foram particularmente importantes para a fundação da Grande Loja: os membros da Royal Society, e os emigrantes da Reforma Protestante Francesa, ou fé Protestante, que se reuniram na Inglaterra após a revogação dos éditos de Nantes por Luis XIV em 1685.

Elias Ashmole, o primeiro registro de maçom especulativo na Inglaterra, era um membro da Royal Society. Jean Theophile des Aguliers, conhecido posteriormente como John Theophilus Desaguliers, era tanto membro da Royal Society (1714) e um refugiado da Reforma Francesa, bem como o terceiro Grão-Mestre da primeira Grande Loja[13].

A função do Ofício nesse período de 1685-1717-1723, de fato, pode ser vista como a de reunir intelectos progressistas que acreditavam ser parte de uma aristocracia de aprendizagem; ou no caso de Desaguliers e o Presbiteriano James Anderson (1678-1739), uma aristocracia espiritual associada aos princípios do Calvinismo, notavelmente sua doutrina dos eleitos. Até o cavaleiro Ramsay (1686-88-1743), apesar de católico romano, foi criado como calvinista.

É útil, portanto, examinar membros representativos da elite intelectual da Inglaterra no período anterior à criação da Grande Loja, e fazê-lo em termos de sua associação não apenas como os “corredores do poder”, políticos ou intelectuais, mas também porque eles e seus escritos incorporam os conceitos que devem ser encontrados no coração da Maçonaria Especulativa.

Essas figuras “arquetípicas” nos ajudarão a entender que o singular surgimento de ideias específicas, mitos, símbolos, entre outros, fizeram a Maçonaria ser possível, como a vemos hoje.

A herança medieval: Giordano Bruno

Além dos Manuscritos Góticos e da existência de Lojas Operativas, temos poucas evidências hoje de que a Maçonaria começou na idade Média.

Cyril Batham, ex-mestre e ex-secretário da primeira Loja de Pesquisa Maçônica, pregou suas “cores” eruditas ao mastro dizendo que não acreditava mais que a Maçonaria Especulativa tinha evoluído da Maçonaria Operativa[14]. Em vez disso, deveríamos olhar para a sobrevivência e a existência de células filosoficamente inclinadas dentro das fraternidades religiosas, que foram abandonadas quando foram desiludidas em 1547, no final do reinado de Henrique VIII.

Se nos voltarmos para a história geral das ideias na Inglaterra da Renascença, no entanto, encontramos uma fascinação generalizada, embora atenuada, com a visão medieval da vida muito depois do fim da chamada Idade Média. Esse motivo pode ser visto em um renascimento do interesse pelo Cavalheirismo Medieval, e os códigos de ética e moralidade associados a ele, muito depois de o cavaleiro a cavalo deixar de ser uma figura militar ou social viável, e muito depois de o feudalismo deixar de ser o principal fator decisivo na organização econômica europeia.

A dinâmica essencial era uma tensão entre uma apreciação intelectual por uma forma mais antiga de pensamento, o medieval, que não era escolástica ou dogmática, versus o humanismo italiano importado que nos é familiar na vida de homens como Thomas More (1478-1535), Thomas Cromwell (1485-1540) e Thomas Elyot (1490-1546), onde todos estudaram na Itália. Os humanistas consideravam todas as coisas medievais como corruptas, e deixavam as universidades, como a Oxford, porque os julgavam desprovidos de investigação intelectual honesta.

A “forma mais antiga” do pensamento medieval não era escolástica na fala, no entanto, é significante na origem dos ideais Maçônicos porque foi incorporada por meio de figuras como o Frei Roger Bacon (1214-1292); a chamada escola de astronomia de Merton College e o bispo Robert Grossteste, um dos pais da moderna ciência experimental (1175-1253), profundamente interessado pela mística e o significado dos números. As tendências filosóficas, ou correntes, mais associadas a esta forma podem ser consideradas como uma combinação do Platonismo, com sua ênfase na ideia duradoura, e o entendimento medieval de Pitágoras.

No final do século XVI, é possível identificar um movimento distinto dentro dos círculos intelectuais da Inglaterra da rainha Elizabeth, que pode ser caracterizado através dos seguintes elementos:

  • A orientação Medieval Mística, mencionada acima;
  • O humanismo Renascentista, que em si próprio foi profundamente impresso por uma visão mais fresca e mais parcial de Platão, chamada de “neoplatonismo”[15];
  • Uma forma de corte, trejeitos Cavalheirescos personalizado por Cavaleiros, mas em uma aplicação anacrônica da maneira como a Renascença encarava o cavalheirismo como a ideia da masculinidade renascentista[16].

Cada um desses elementos existia não apenas em um tipo de tensão criativa entre si, mas também, após o Ato de Supremacia de 1535, com formas cada vez mais extremas de sentimento religioso: a reação católica romana à Reforma inglesa durante o reinado de Henrique VIII, durante o reinado de Maria Tudor (1553-1558), e fortes expressões do Calvinismo que se torna dominante durante o reinado do Rei Menino, Eduardo VI (1547-1553), e no final do reinado da rainha Elizabeth (1603).

A linhagem medieval do misticismo sofria tanto na mão de humanistas seculares, que consideravam qualquer coisa medieval como corrupta e intelectualmente desonesta, como também dos recém-formados calvinistas puritanos, que consideravam qualquer coisa medieval sob a influência da idolatria católica romana.

O resultado foi que aqueles que afirmavam o valor da tradição anterior tentaram preservar uma visão mais ampla da sociedade, e da vida da mente, do que era aceitável para as autoridades eclesiásticas e políticas estabelecidas.

Essa situação promoveu, como um meteoro, a figura central de um antigo monge dominicano italiano, Giordano Bruno (1548-1600), cuja curta visita à Inglaterra em 1583-1584, criou um grande impacto sobre os Ingleses mais intelectualizados ou espiritualizados[17].

Em resumo, Bruno foi capaz de dissolver, ou fundir o interesse inglês existente na tradição mística medieval, com seu próprio fascínio no lendário filósofo egípcio Hermes Trismegisto, assumido na época como contemporâneo de Moisés, e um preditor da vinda de Cristo.

Bruno, que foi finalmente executado pela inquisição romana, é importante para a origem dos ideais Maçônicos porque ele ativamente defendeu a preservação da arquitetura medieval em um período em que os protestantes derrubavam abadias medievais, e porque ele era a primeira grande figura da Renascença a apelar a uma ética internacional ampla e tolerante de paz mundial e fraternidade universal[18a]. O fato de ele ter feito isso com referência autoconsciente à mitologia e filosofia egípcias o torna – no espírito da Flauta Mágica de Mozart, duzentos anos depois, a primeira figura pré-maçônica identificável[18b].

Há um sentido importante no qual a ética pré-Maçônica de Bruno foi reforçada pela presença duradoura da filosofia política medieval nos escritos de estudiosos da Renascença, como Richardo Hooker (1554-1600), o arquidefensor de uma ampla base nacional pela Igreja da Inglaterra contra uma influência crescente do Puritanismo[19]. Hooker, que rejeitava o uso político da Bíblia como muito subjetivo e sectário e defendia uma forma primitiva de monarquia constitucional, apresenta ideias políticas de tolerância e justiça que, balanceadas com a filosofia de Bruno, produziam uma forte reinterpretação de comunidade medieval apropriada a uma Inglaterra mais moderna[20]. Depois de Bruno e Hooker, o palco estava montado para o uso de elementos medievais tanto na moralidade quanto na estrutura política que encontramos na Maçonaria após a síntese de 1717.

A herança “ocultista”: John Dee

Nenhuma herança, ou grupo de ideias pré-Maçônicas é tão elusivo ou importante para a Maçonaria quanto o aspecto esotérico ou “ocultista” da Fraternidade. Como a Maçonaria é, por definição, secreta e, portanto, diferente de outras instituições inglesas criadas ao mesmo tempo, entre elas sociedades escolares, acadêmicas, religiosas, etc.; devemos estar abertos a investigações substantivas e acadêmica sobre o fluxo de ideias ocultas em torno de Londres antes da criação da Grande Loja.

Mas esse não é o caso. A proliferação de graus quase místicos e as vezes irregulares na Europa após 1717; a ambivalência da Maçonaria Inglesa sobre o Arco Real até a União de 1813; e a hostilidade geral dos pesquisadores Maçônicos em torno do tema se tornou a mais importante de todas as questões acadêmicas e a mais difícil de responder.

É útil entender a natureza exata da questão. Em resumo, o entendimento desse escritor da investigação seria algo como o seguinte:

Quais influências secretas, esotéricas, ou herméticas moldaram o ambiente a partir do qual a Maçonaria surgiu no século XVII?

Colocando desta forma, os estudiosos podem alcançar dois objetivos importantes:

  • Evitar uma associação que não seja crítica da Maçonaria antes da Grande Loja com sociedades secretas moralmente fundadas, ou sociedades com segredos; e
  • Explorar a razão ou o fundamento lógico para que o esotérico ou oculto fosse tão importante para os Maçons depois da Grande Loja, importante o suficiente para abraçar e embelezar, ou importante o suficiente para reduzir ou imprimir.

A questão se torna mais administrável se selecionarmos um dos símbolos maçônicos mais importantes: o Templo de Salomão em Jerusalém, como uma chave.

Considerando a maneira pela qual a tradição oculta/hermética utiliza o Templo, talvez possamos entender mais nitidamente qual era sua função.

Resumidamente, isso é antecipado pela primeira vez na na vida e na obra renascentista Elizabethan Magus de John Dee (1527-1608), astrólogo Real da rainha Elizabete I, e supostamente o homem mais instruído da Inglaterra na época[21].

Dee estava convencido que a arquitetura era a chave para uma compreensão abrangente do universo. O papel do arquiteto na sociedade era, de fato, o de atualização e símbolo do erudito universal e iluminado[22].

Em uma origem mais germânica da Maçonaria, John Dee estava convencido que a arquitetura era uma arte “imaterial”, cuja base estava na imaginação moral individual[23].

A arquitetura física real era um empreendimento mágico ou místico porque “as estrutura idealizadas eram modeladas através de pontes celestiais, harmônicas”[24].

Por volta de 1570, 147 anos antes da Primeira Grande Loja, Dee publicou seus ideais entre a classe emergente de artesãos ingleses, cujos descendentes, duas gerações depois, estavam entre os primeiros Maçons.

John Dee estava antecipando o propósito ou a função da arquitetura como um dispositivo de ensino moral, especialmente a literatura que Alex Horne apontou em relação ao papel do Templo do Rei Salomão como um dispositivo moralizante entre os puritanos[25].

Literatura semelhante foi encontrada mais tarde, no século 17, nos escritos alegóricos de John Milton (1608-1674) e John Bunyon (1628-1688).

Mas a contribuição de Dee como um arquétipo pré-Maçônico é única não apenas porque ele era um matemático e geógrafo, um intelecto importante de sua época, mas porque entendia que a função específica da arquitetura era um dispositivo de memória: um meio do homem recordar harmonias e proporções no universo relacionadas com a harmoniosa ordenação da sociedade humana e da alma individual.

Ele foi fundamental na reintrodução do pensamento do arquiteto romano Vitruvius (século I AEC e século I da EC), cuja obra De Architectura era muito utilizada por arquitetos Renascentistas.

O pleno uso da arquitetura como um dispositivo de memória moral[26], para recordar e aplicar as harmonias do céu às formas terrenas, não se desenvolve até a influência do Rosacrurcianismo sobre os intelectuais ingleses, notavelmente Robert Fludd (1574-1637), Thomas Vaughan e Elias Ashmole (1617-1692), mas com John Dee o palco estava montado para uma combinação do medievalismo moral de Bruno e a construção de símbolos do Rosacrucianismo para tornar a Maçonaria Especulativa mais concebível para aqueles que eventualmente se tornariam sintetizadores da Ordem.

O escopo do Rosacrucianismo está além desse artigo. No entanto, nenhuma corrente tão singular de ideias é mais significativa para a formação da Maçonaria do que essa cadeia única e sutil de conceitos nos círculos intelectuais europeus no início do século XVII.

É prematuro afirmar categoricamente que o Rosacrucianismo teve um impacto direto e visível sobre os graus da Arte (essa tese foi objeto de um artigo não muito bem recebido pela Loja Quatour Coronati nº 2076, por A.C.F. Jackson, em 28 de junho de 1984). No entanto, além dos graus da Rose Croix [27] que aparece depois de 1750, e do Grau do Royal Arch, que apareceu em algum momento na década de 1740 [28], é importante percebermos que, talvez, muitos de nós tenhamos feito a pergunta “errada” sobre a influência Rosacruciana no simbolismo Maçônico.

Essa questão não serve pra provar ou refutar uma influência mística, mágica ou mesmo esotericamente cristã sobre a Maçonaria mas, sim, examinar com que precisão imagens, como o Templo do Rei Salomão, foram utilizadas, o que pode fornecer uma pista do motivo do templo ser um símbolo tão central.

A resposta, suspeito eu, pode ser encontrada em um texto alemão de um estudioso obscuro conhecido como Simon Studion, chamado Naomdria publicado em 1604. O manuscrito é importante para a história pré-Maçônica porque sugere que o propósito real da utilização do Templo do Rei Salomão no ritual maçônico é a interpretação da história, de maneira simplista, para predizer ou profetizar sobre o futuro em termos da mentalidade pré-revolução Científica do século XVII, mas também em um sentido filosófico de dar sentido à história, da mesma forma que os grandes historiadores clássicos, como Políbio, Agostinho, Suetônio Tucídides, Tácito, entre outros, e mais tarde o próprio Edward Gibbon, procuravam dar sentido moral à narrativa histórica.

A Naometria sugere que toda a extensão da história pode ser interpretada a partir das medidas do Templo do Rei Salomão. Para nós, isso parece ridículo mas, para a mente mais misticamente orientada do final da Renascença, é plausível não apenas porque o Templo foi o caminho bíblico escolhido por Deus antes de Cristo, mas porque se tornou um símbolo para a peregrinação cristã na Idade Média. Tal esforço também é semelhante a outros do século XVII, como o Discurso sobre a História Universal, do bispo católico francês Benches Bossuet (1627-1704), cujo trabalho procura provar que o Reino da França é o herdeiro da garantia espiritual do Sacro Império Romano e, portanto, a incorporação das virtudes dos impérios clássicos anteriores, grego e romano.

Este método é ainda mais significativo para uma investigação sobre as origens pré-maçônicas da Grande Loja, porque escritores maçônicos posteriores, como George Oliver (1782-1867) na Inglaterra e Salem Town (1779-1864) nos Estados Unidos, utilizaram o simbolismo Maçônico, incluindo o Templo, como um meio de interpretar toda a história, desde a antiguidade pré-cristã até os dias atuais.

Rejeitamos tais escritores porque eles – é claro – não são historiadores críticos e empíricos – e, de fato, a grande realização de Robert Freke Gould e outros fundadores da Loja Quatuor Coronati Nº 2076 foi repudiar as reivindicações de tais homens que se apresentavam como verdadeiros historiadores.

Mas hoje, ler George Oliver[29], ou ainda Salem Town[30], não serve tanto quanto o puritano Alex Horne explicando a moral da construção do Templo[31], mas serve para ser transportado para o início do século XVII na Alemanha de Simon Studion: 219 anos antes de Oliver.

Aqui chegamos a uma questão notável na compreensão da síntese maçônica que originou a Grande Loja e pode ser expressa da seguinte maneira: uma vez que tanto Dee quanto as ideias Rosacrucianas [32] impactaram na vida de Elias Ashmole (iniciado em 1646) e Robert Moray, o primeiro registro de iniciação especulativa na Escócia (1641), ambos associados da Royal Society, assim como muitos fundadores da Grande Loja, porque a influência ocultista não foi mais evidente e perceptível nas primeiras Constituições (1723-1725)?

A resposta óbvia é que o papel de Anderson não era apenas o de um codificador, escritor de leis e historiador (pelos padrões da época), mas também um árbitro, comprometedor e filtro de conceituações, decidindo talvez junto a um comitê, o que seria incluído ou não.

Há pouca dúvida que homens inteligentes, do final do século XVII e início do XVIII, ficaram horrorizados com a violência vivida durante o século que eles acabaram de passar: o holocausto da Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), a Guerra Civil Inglesa (1642-1660), a Revolução Inglesa (1688-1690) e a convulsão da Comunidade Puritana, não podiam deixar de repelir homens de sensibilidade, quando inúmeros homens e mulheres foram mortos em nome da religião.

É compreensível que qualquer coisa que alimentasse conflitos sectários, em especial questões místicas ou ocultas, foram omitidas das Constituições e, após a padronização, dos rituais.

Qualquer referência ao Templo do Rei Salomão, e sua construção, que não estivesse na versão autorizada da Bíblia (1611)[33], deveria ser ignorada pelo homens respeitáveis. Qualquer referência esotérica seria suspeita.

A questão do filtro de ideias ocultistas do ritual e da prática maçônica é também uma das crescentes sofisticações científicas dos estudos críticos no final dos anos 1600. Antiquários como John Aubrey (1626-1697) e Elias Ashmole, tidos como modelos de erudição, estavam dando lugar a pessoas como Christopher Wren (1632-1723), primeiro um astrônomo, depois arquiteto, e Isaac Newton (1642-1727), físico, mas também um estudante dos aspectos esotéricos da Sagrada Escritura. Esse dois últimos eram figuras transitórias do final do Renascimento e da era da Revolução Científica.

Um excelente laboratório para examinar esse processo de filtragem é o chamado Cambridge Platonists, um grupo de acadêmicos da Universidade de Cambridge de 1633-1688. Eles procuraram purificar o aplicar a filosofia do neoplatonismo, que era o denominador comum tanto para o humanismo renascentista secular, quanto para a linhagem medieval anterior associada a Giordano Bruno, para expandir o significado espiritual do cristianismo, e evitar o extremo do catolicismo dogmático, escolástico e puritanismo literalista. Nesse esforço, eles não eram diferentes dos antigos apologistas cristãos primitivos, como Orígenes e Clemente de Alexandria, que acharam muito no pensamento de Platão para enriquecer a teologia cristã para que os gregos e romanos não-cristãos pudessem entender, assim como acreditar na Fé Cristã.

Os platonistas de Cambridge também tentaram relacionar o cristianismo ao novo espírito de pensamento filosófico associado a René Descartes (1596-1650), que era um prenúncio do método científico moderno.

Eles são um precedente intelectual e acadêmico da Maçonaria porque apelam para a “Razão”, por meios neoplatônicos, e porque criaram um conceito de “Summum Bonum”, o bem maior, que antecipa o conceito da Maçonaria do Tetragramaton, o inefável Nome de Deus, para o qual a iniciação maçônica é dirigida.

Um desses eruditos, Benjamin Whichcote (1609-1683), defendia a tolerância dos judeus durante o Protetorado de Cromwell, e a ideia então revolucionária de que não era preciso ser cristão para ser uma pessoa de moral. Um segundo platonista de Cambridge, Henry Moore (1614-1687), defendia uma doutrina da verdade superior que era alcançável através de etapas ou graus; um terceiro Ralph Cudworth (1617-1688) considerou a ética e a moralidade como um reflexo da harmonia implícita no universo[34].

No entanto, apesar de sua considerável tolerância e esforços para reconciliar ética e religião com a ciência, eles foram o principal “filtro” através do qual as correntes intelectuais pré-maçônicas foram limpas de qualquer referência ao profundo simbolismo místico de Bruno ou John Dee.

Eles preservaram a estrutura básica da filosofia neoplatônica que a Maçonaria exibe em seu sistema de graus; o conceito de Luz, tolerância e razão, mas foram persuadidos a descartar qualquer traço de misticismo. Nisso eles eram irmãos de sangue sob a pele de James Anderson!

A herança deísta: John Toland

Além do medievalismo de Giordano Bruno e do ocultismo de John Dee, a origem das ideias maçônicas pode ser atribuída ao deísmo – a filosofia quintessencial da Maçonaria e de nossos próprios Pais Fundadores.

Nenhum elemento é tão claro e cristalino no ritual maçônico como este – visivelmente Deus como o Grande Arquiteto do Universo: um Deus que não interfere nos assuntos humanos, mas cuja própria natureza ordena a estrutura toda a criação.

O deísmo está implícito em muitas filosofias gregas e romanas, notadamente o estoicismo de Marco Aurélio, que pode ser traçado através de três acadêmicos modernos que novamente montaram o cenário para a mente que pode ser encontrada na visão Maçônica do Universo: Jean Bodin (1530-1596); Pierre Charron (1541-1603), ambos franceses, e o Lorde Inglês Edward Herbert de Cherbury (1583-1648).

O deísmo também lembra a filosofia do nominalismo, representada na Inglaterra de forma mais visível por Guilherme de Ockham (1300-1349) que defendia a separação da fé, como ligando apenas com os atributos teológicos de Deus, da Razão, a marca registrada da filosofia Maçônica quatro séculos depois.

É importante ressaltar que o deísmo implica um tipo de prática nos assuntos públicos e no governo, o que primeiro fica evidente no papel das novas classes urbanas educadas na Inglaterra urbanizada[35].

Considerando que o estado medieval só visava a preservação da ordem; o Estado dos Tudor na Renascença e o Estado durante a era deísta do século XVIII presumiam que as elites educadas e seus afluentes seriam, por excelência, cidadãos ativos e informados.

Como o deísmo era, na verdade, a “religião” dos Pais Fundadores[36], estamos acostumados a pensar nisso como pano de fundo tanto para a Revolução Americana de 1776 quanto para a francesa de 1789.

Mas em termos de pré-Maçonaria, o deísmo é importante para entender porque foi o “compromisso” entre o medievalismo de Bruno e o ocultismo de Dee, o que foi aceitável para Desaguliers, Anderson e incontáveis outros progenitores da Grande Loja.

Mencionei os fundamentos políticos que tornaram esse compromisso necessários. Mas havia outras bases para uma limpeza (ou redução) do simbolismo maçônico na época: tornou-se intelectualmente e academicamente indefensável manter os fundamentos pré-cristãos, egípcios, para o simbolismo de Bruno e Dee após o trabalho acadêmico do anglicano suíço Isaac Casaubon (1559-1614), que refutou a existência de Hermes Trismegisto.

A carreira de Casaubon assinala o ponto em que a alquimia, o cabalismo e o hermetismo deixam de atrair estudiosos sérios e estabelecidos, e também o começo de uma elite intelectual, à parte das universidade e das principais sociedades eruditas, que buscavam estudos esotéricos.

Ele e seu filho Meric (1599-1671) desmentiram implacavelmente qualquer ideia de que uma visão do mundo mística, pré-cristã, da fraternidade universal jamais existiu. Se nos lembrarmos que John Dee articulou tal visão, que por sinal justificava a colonização do Império da Rainha Elizabete nos termos do Neoplatonismo[37], podemos entender que a respeitável visão de Dee foi tratada como um sopro da morte. Depois de Casaubon, e certamente depois da morte do contemporâneo de seu filho, o francês Jean Mabilon (1632-1707), o erudito beneditino francês que mais do que qualquer outro é o fundador da erudição histórica moderna, nenhum dos principais intelectos do final do século XVII ou XVIII quiseram tocar na história “mítica” associada a Dee ou Bruno. Se a história fosse escrita para dar um ponto moral, o ponto moral era o da filosofia política atual, como o Declínio e a Queda de Gibbon, e não uma defesa quase mística da fraternidade mundial.

O caminho para tornar o deísmo a filosofia predominante na Maçonaria foi um fatídico, contendo de aspectos positivos e negativos.

Do lado positivo estava o fato de que o deísmo era o único sucessor prático e abrangente do ocultismo de Bruno e Dee, que também defendia uma fraternidade mundial de harmonia e paz, sem o risco de ofender cientistas ou teólogos, ou apenas homens de negócios seculares comuns.

O lado negativo é que grande parte da profundida e riqueza do simbolismo maçônico foi provavelmente perdida, pelo menos até o surgimento dos chamados Altos Graus após 1750.

Eu suspeito que algo que foi perdido foi a possibilidade da Maçonaria permanecer o que certamente era na criação da Grande Loja: uma reunião de classe mundial dos maiores intelectuais da época. Depois de 1750, poucas grandes figuras da civilização, com exceção dos fundadores e de W.A. Mozart, eram intelectuais maçônicos autoconscientes. Foi talvez o preço da respeitabilidade que a Maçonaria deísta não atraiu, por qualquer razão, os principais líderes do século XIX, e certamente não do século XX.

Desassociado dos centros de erudição e intelecto, o ocultismo tornou-se cada vez mais idiossincrático, sob a liderança de pessoas como Robert Fludd (1574-1637), que debateu com Casaubon, mas sem se dedicar ou refutar a seriedade de seus pontos[38].

E sem o que poderia ser chamado de centro espiritual, o deísmo, sob a liderança intelectual de homens como John Toland (1670-1722), tornou-se cada vez mais iconoclástico e anticlerical.

Enquanto Fludd estava tentando “restabelecer” a capacidade da arquitetura e da música para evocar a harmonia divina dentro do homem, Tolan, o deísta quintessencial, escreveu um livro, Christianity Not Mysterious (A Cristandade Sem Mistérios – 1696) no qual ele afirma que tudo o que precisamos conhecer de Deus pode ser discernido pela razão humana. O primo intelectual de Toland era Voltaire, e os outros filósofos franceses, que tinham a mesma tendência.

É aqui que nós fazemos o círculo completo. Suspeito que a genialidade dos Pais Fundadores era que eles perceberam que havia mais do que uma conexão passageira entre o deísmo racional do Iluminismo e a riqueza simbólica anterior mais profunda de Giordano Bruno e John Dee. Pelo menos, eles mantinham um senso aguçado e afiado do poder do mito e do simbolismo, sem sucumbir ao ocultismo ou à superstição. Eles sabiam que estavam criando uma “nova ordem das eras”, que sua arquitetura e suas palavras descreviam, mas estabeleceram uma conexão intelectual entre a apreciação de Dee do poder do símbolo com a realidade e a racionalidade prática de Toland, sem o excesso de qualquer um dos dois. Quando vemos o excesso da Revolução Francesa e a terra de ninguém habitada pelos ocultistas do século XIX, talvez possamos ser gratos por esse pequeno grupo de maçons e seus amigos por terem uma visão, e alcançado essa visão na Republica Americana, e dentro da Fraternidade Maçônica de seu tempo.

Talvez a nossa tarefa, como maçons no século XXI, seja recuperar, rearticular e realizar essa visão mais uma vez, com relevância direta para o cosmos.

Autor: William H. Stemper Jr.
Tradução: Rodrigo Menezes

Fonte: Ritos & Rituais

Screenshot_20200502-144642_2

Se você acha importante o trabalho que realizamos com O Ponto Dentro do Círculo, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

Notas

[1] – Joseph Campbell, The Power of Myth, New York: Doubleday, 1988, pp. 24-29.

[2] – cf. ” Building A National Image”: Architectural Drawings for the American Democracy, 1789-1912, Exhibition organized by the National Building Museum, Washington, D.C. IBM Gallery of Science and Art, New York City, May 12-July 11, 1987. Tim Hackler, “His Elective Highness,” Amtrak Express, Feb. March, 1989, 35 passim. Fred Pierce Corson, Address on Freemasonry and the Constitution, Philadelphia:, The Grand Lodge of Pennsylvania, 1937, p. 7, ff. “…Freemasonry was…the only common bond of unity in the Colonies in 1987 . . . “, p . 11.
Barbara Franco, “Scipio Lodge Reflects Time Capsule of Early 19th Century.” The Northern Light, February, 1989, p. 5, “Scipio Lodge’s classical proportions and Masonic symbolism created an environment that evoked both the republics of antiquity and the Masonic virtues. . . ”

[3] – cf. Sidney E. Mead, The Lively Experiment, New York: Harper & Row, 1963, pp. 38-52. Also H. Richard Niebuhr, The Social Sources of Denominationalism, Cleveland and New York: World Publishing Company, pp. 208-209, ff. Note the impact of Church–State separation on the denominational identity of evolving immigrant churches.

[4] – Wilson Carey McWilliams, The Idea of Fraternity in America, Berkeley, CA: University of California Press, 1974, n.b., comparison of Enlightenment and Puritanism, p. 172 .

[5] – cf. Thomas Bender, New York Intellect, Baltimore: The John Hopkins University Press, 1987, pp. 60-68; E. Dolby Baltzell, Puritan Boston and Quaker Philadelphia, Boston: Beacon Press, 179-

[6] – cf. Lynn Dumenil, Freemasonry in American Culture lb’b’0-1930, Princeton University Press, 1984, pp. 7-8, passim. The Symbolic Strata: The Essential Emblems of Fraternity.

[7] – William H. StemperJr., “Freemasons,” The Encyclopedia of Religion, New York: Macmillan Publishing Company, Vol. V., pp. 416-419.

[8] – H.W. Coil, Masonic Encyclopedia, New York: Macoy Publishing and Masonic Supply Company, 1961, p. 163, date dea. 1740-1743.

[9] – William Wordsworth’s “Preface” to Lyrical Ballads.

[10] – Alex Horne, King Solomon’s Temple in the Masonic Tradition, N. Hollywood, CA: Wilshire Book Company, pp. 29-40. Helen Rosenau, “Vision of the Temple: The Image of the Temple of Jerusalem in Judaism and Christianity, ” London: Oresko Books Ltd. 1979, pp. 103, 133.

[11] – Alex Horne, Sources of Masonic Symbolism, Trenton, MO: The Missouri Lodge of Research, 1981, pp. 73 ff.

[12] – Campbell, p. 25 and earlier Horne, Sources…. p. 63.

[13] – cf. Richard H. Sands, “Physicists, The Royal Society and Freemasonry, ” The Philalethes, Vol. XXXIV, Number 6, pp. 11-16. Robin D. Gwynn, Huguenot Herita, ?c, London: Routledge, Chapman, and Hall, 1985, pp. 89-

[14] – Cyril N. Batham, “The Origin of Speculative Freemasonry: A New Hypothesis,” un-published paper, given to The Goose and Gridiron Society of the United States, October 1986. But also compare, Harry Carr, “The Transition From Operative to Speculative Masonry” T.L.R., September 15, 1979.

[15] – cf. Paul Oskar Kristeller, Renaissance Thought New York: Harper and Row, 1961, p. 21, n.b. Thomas More, passim.

[16a] – Arthur B. Ferguson, The Indian Summer of English Chivalry, Durham, N.C.: Duke University Press, 1960.

[16b] – Richard Barber, The Knight and Chivalry, New York: Harper and Row, 1974, pp. 311 ff.

[17] – Francis A. Yates, Giordano Bruno and the Hermetic Tradition, The University of Chicago Press and London: Routledge and Kegan Paul, 1964, pp. 275 ff.

[18] – Yates, supra, p. 415. Yates, supra, p. 274.

[19] – cf. Alexander Passerin D’Entreves, Thc Medieval Contribution to Political Thought: Thomas Aquinas, Marsilius of Padua, Richard Hooker, New York: the Humanities Press, 1959, pp. 103 ff.

[20] – Also cf. Eric Voegelin, The New Science of Politics, Chicago and London: The University of Chicago Press, 1952, pp. 135 ff.

[21] – The Standard Biography is Peter J. French, John Dee: The World of an Elizabethan Magus, London: Routledge and Kegan Paul, 1972. É importante notar o relacionamento entre a Mágica Renascença e a Religião Ortodoxa no século 17 que não é tão definida, o que sugere que a complexidade na separação do “oculto” do “racional” no início das Constituições Maçônicas, por exemplo Keith Thomas, Religion and the Decline of Magic, Harmondswoth, Middlesex, England: Penguin Books, 1984, pp. 318-323 ff. Also note references to King Solomon’s Temple, Hermes, Pythagoras d. at. in English translations of the German Mystic Jacob Boehme (1575-1624), cited in Rufus Jones, “Jacob Boehme’s Influence in Eng-land ” pp. 208-234, Spiritual Reformers in the 16th and 17th Centuries, London: Macmillan and Co., 1914.

[22] – French, p. 57.

[23] – French, p. 58.

[24] – French, p. 58-59.

[25] – Horne, Symbolism, supra.

[26] – cf. Frances A. Yates, The Art of Memory, The University of Chicago Press, 1966, pp. 303-305.

[27] – cf. A.C . F. Jackson, Rose Croix–A History of the Ancient and Accepted Rite for England and Wales London: Lewis Masonic, 1980, pp. 17 ff., and James Fairbairn Smith, The Rise of the Ecossais Degrees, Dayton, Ohio: The Otterbein Press, 1965, pp. 11 ff.

[28] – Terrence Haunch, Anson Jones Lecture Transactions Texas Lodge of Research, June 18,1983 March 11, 1984, Waco, Texas Vol. XIX. ~. 155.

[29] – Oliver’s laborious The Antiquities of Freemasonry comprising illustrations of the Fioc Crand Paiods o Masony, from the creation of the World to the Dedication of King Solomon’s Temple, 1823.

[30] – Town’s A Systa II of Speculation Masonry, Salem New York: Dodd and Stevenson, 1818, n.b. pp. 98-99.

[31] – Also cf . Rosenau, supra .

[32] – cf. Frances A. Yates, The Rosicrucian Enlightenment, Boulder, CO: Shambbala Publications Inc., 1972, pp. 206-220; Christopher McIntosh, The Rosicrucians, Denington Estate, Wellingborougb, North Hamptonshire, UK: Crucible, pp. 50, 60, 67 68, 81, 82 passim.

[33] – I Kings 5-9; II Chronicles 2-8; Ezekiel 40-47.

[34] – F.L. Cross, Oxford Dictionary of the Christian Church, entries pp. 925, 360-361 passim.

[35] – cf. Arthur B. Ferguson, The Artuulate Citizan and the English Ranaissance, Durham, N.C.: Duke University Press, 1965, pps. 402-409. Edwin S. Gaustad, Faith of Our Fathers: Religion and the New Nation, San Francisco: Harper and Row, 1987. Also cf. interest in American philosophy in Plato, with more practical Roman philosophers, p. 86.

[36] – cf. Henry Steele Commager, The Empire of Reason, Garden City, N.Y.: Anchor Doubleday 1978, pP 43 ff

[37] – cf. E . M . W . Tillyard, The Elizabethan World Picture in New York: Vintage Random House, n.d.,

[38] – cf. Utriusque cosmi, maioris scilied et minores metaphysical, physicae atique technica historiac, Vol. I Oppenheim, 1617, Vol. II 1619.

Maçonaria moderna: o legado escocês – Parte II

The Freemasons Hall, home of The United Grand Lodge of England: Uncovering  a few hidden treasures | Masonic lodge, Masonic, Freemason

Segundo Stevenson (2009), referindo-se à maçonaria na Escócia, “já em meados do século XVII, podem ser detectados nas Lojas ideais semelhantes, em muitos aspectos, aos da maçonaria moderna, além de um significativo número de homens que não eram pedreiros sendo admitidos nelas”. Estendendo-se até século XVIII, afirma que “uma das funções básicas de muitas Lojas era regulamentar a vida profissional dos pedreiros livres”.

Vale destacar que, já em 1600, registrou-se o ingresso de Sir John Boswell, iniciado na Loja Capela de Santa Maria em Edimburgo na Escócia, considerado um dos primeiros maçons “não operativos” ou “aceitos” conhecidos. Registre-se que, até o Tratado da União de 1707, que criou o Reino da Grã-Bretanha, a Escócia era um país considerado inimigo da Inglaterra. Outro renomado iniciado foi Elias Ashmole (1617-1692), antiquário, político, oficial de armas, estudante de astrologia e alquimia britânico, recebido em uma confraria dos obreiros maçons em 1646, em Warrington (condado de Lancashire/Inglaterra), pertencente ao grupo de cientistas e livres pensadores que mais tarde fizeram parte da Sociedade Real de Londres (Royal Society), que nenhuma relação tinha com a Maçonaria.

Destaca Benimeli (2007), jesuíta e historiador não maçônico, que na Escócia, “em 1670, na Loja de Aberdeen, três quartos de seus 40 afiliados eram advogados, médicos e comerciantes. Exatamente nessa Loja já existia a distinção entre os construtores de edifícios e aqueles que se de dedicavam às especulações sobre geometria”.

O período de transição entre a Maçonaria Operativa e Especulativa teve mais consistência entre 1660 e 1716, segundo o historiador alemão Findel (citado por Benimeli, 2007), época de distúrbios civis. Transcorridos 117 anos desde a afluência dos “aceitos”, não mais atuava a força operativa que dera origem àquelas organizações, passando os associados à condição de especulativos, com os encargos das atividades operativas deixadas aos cuidados dos sindicatos e partidos políticos.

Por sua vez, Stevenson (2009), argumenta que evidências do século XVII relacionadas ao desenvolvimento da Maçonaria são abundantes na Escócia e quase inexistentes na Inglaterra. Afirma que em Lojas na Inglaterra, desde a década de 1640, é registrada a iniciação de cavalheiros, mas o processo é mais obscuro.

“O elo com os pedreiros e suas organizações era fraco, e os segredos possuídos pelos maçons ingleses e suas organizações em Lojas parece ter vindo da Escócia, sugerindo que, enquanto lá a maçonaria surgira das verdadeiras práticas de pedreiros trabalhadores, na Inglaterra ela fora, pelo menos em parte, importada da Escócia, em Lojas sendo criadas por cavalheiros e para os cavalheiros.” (grifo nosso).

Pesquisas indicam que nos registros ingleses no ano de 1600, o sistema de guildas já estava enfraquecido, não podendo ser comprovada a existência de Lojas Operativas. É nesse contexto que reside o busílis, dando respaldo para os críticos de uma transição não documentada, evidenciando-se o surgimento de lojas maçônicas na Inglaterra com caráter puramente especulativo, que Stevenson (2009) denomina de “artificiais”. Remanesce, portanto, a dúvida quanto à condição dos não operativos, se seriam ou não efetivamente especulativos ou, ainda, se poderiam ser equiparados à condição de membros honorários, como se conhece atualmente.

Provisoriamente, o que se sabe, é que tudo isso desaguou em 1717, no dia 24 de junho, quando três lojas londrinas e uma loja de Westminster, cujos membros eram então exclusivamente especulativos, numa tacada de mestre, formaram a Grande Loja de Londres e Westminster, marco histórico que introduziu o sistema Obediencial, incorporando cerimônias e regras tradicionais das antigas Lojas de obreiros-aceitos, tipo copia e cola avant la lettre do modelo escocês, com a eleição de um Grão-Mestre (Anthony Sayer) e outros oficiais.

Com isso, personalidades como James Anderson e J. T. Désaguliers, seguidores de Lutero, passaram elaborar a maior parte do material então adotado. Anderson (1679-1739), escocês de Aberdeen, ordenado ministro presbiteriano da Igreja da Escócia em 1707, e profundo conhecedor da evolução das Lojas em seu país de origem, é considerado o autor do documento de fundação da moderna Maçonaria Especulativa, publicado em 1723, no qual faz referência à célebre reunião da noite de São João do ano 1717 como data de fundação da primeira Grande Loja (vide Nota 1).

Na elaboração de sua Constituição, onde produziu uma apologia sobre os antecedentes históricos da “entidade então restaurada”, Anderson buscou subsídios nos antigos manuscritos, estatutos e regulamentos da Maçonaria Operativa da Escócia, Inglaterra e Itália. Conforme afirma Anatalino (2007), Anderson estipulou que nenhum irmão poderia ser supervisor (entenda-se Vigilante), sem antes ter passado pelo grau de Companheiro; nem Mestre (entenda-se Venerável) antes de ter exercido as funções de supervisor (Vigilante).

A admissão de novos membros ficou então condicionada ao atendimento do pré-requisito de crença em um Ser Supremo, admitindo-se homens de todas as religiões e tendo como tema central o comportamento moral, o auto aperfeiçoamento constante e a dedicação à caridade. A Maçonaria foi acusada de descristianização em 1723, com a permissão de entrada de adeptos de outros credos que não o catolicismo.

Essa “transição” da Maçonaria dos Aceitos, desde 1600 na Escócia, para a condição de Especulativa por excelência ou Maçonaria Moderna, como se afirma desde então, exigiu adaptação dos títulos maçônicos para fins de adequação a uma estrutura que funcionaria nos moldes de uma escola, com a escolha de alguns Mestres entre os Companheiros para administrar e conduzir os trabalhos. Não há indícios de que, na época, os ingleses pensassem numa confederação que se estendesse além de Londres e de Westminster. Pouco a pouco, outras Lojas Maçônicas, a maioria em torno de Londres, uniram-se à nova Grande Loja.

Segundo Stevenson (2009), a partir do século XVIII, os ingleses começaram a inovar e adaptar o movimento e assumindo a liderança no desenvolvimento da Maçonaria originária na Escócia, afirma, com alguns dos valores associados ao Iluminismo sendo incorporados. “À medida que a Idade da Razão alvorecia, a maçonaria – nascida da Renascença – era adaptada para acomodar-se ao novo clima”. Segundo o irmão Alex Davidson, “a maçonaria ‘especulativa’ pode ter-se desenvolvido a partir da influência de William Schaw na Escócia e posteriormente disseminada para Inglaterra, mas a essência da maçonaria iluminista é caracteristicamente inglesa, e o que foi reexportado para a Escócia no início do século XVIII era algo novo. A ênfase em constituições, leis e governança originou-se em Londres”.

Stevenson (2009) ressalta ainda que, “começando na Grã-Bretanha, a maçonaria se espalhou pela Europa em meados do século XVIII, de uma maneira assombrosa”. Contrapondo-se à corrente inglesa, comenta que a criação da Grande Loja de Londres em 1717 “é quase irrelevante no longo processo de avanço do movimento, pois embora a Grande Loja Inglesa tenha tido um importante papel na organização da maçonaria, quando fundada ela apenas reuniu quatro Lojas de Londres”. Porém, aduz que “o fato de a Inglaterra ter dado o primeiro passo em direção à organização nacional e de tal gesto ser imitado subsequentemente na Irlanda (c.1725) e na Escócia (1736), levou muitos historiadores maçônicos ingleses a concluir levianamente que a maçonaria se originou na Inglaterra, que depois teria passado para o resto do mundo”.

As lojas maçônicas passaram a ser consideradas como centro de influência inglesa e, portanto, contrárias aos interesses das famílias dinásticas europeias, de orientação católica. Provocaram incômodo nos poderes dominantes de cada país, despertando o receio de conspirações para derrubada e tomada do poder pelo grande afluxo de nobres e aristocratas aos seus quadros. Não podemos olvidar que, desde o rompimento com a Igreja Católica e a criação da Igreja Anglicana, em 1534, a Inglaterra ignorava a autoridade do Sumo Pontífice. O rei Henrique VIII se autoproclamara único protetor e chefe supremo da Igreja e do clero da Inglaterra e confiscou, à época, todos os bens da Igreja Católica e aboliu o celibato dos padres.

A primeira objeção formal ao conceito de Grande Loja veio em 1725 pela Loja Maçônica de York, localizada na cidade inglesa de mesmo nome, frente à assumida superioridade e antiguidade dos londrinos. No ano de 1737, teve início uma explosão da Maçonaria na França, dando “início à proliferação de novas ordens maçônicas e à criação de novas lendas e fantasias que confundem qualquer tentativa séria de compreender a maçonaria moderna, mesmo nos Estados Unidos”, conforme registra o historiador não maçônico John Robinson (2014).

Na antiga Maçonaria Operativa não existia o grau de Mestre, apenas os de Companheiro (Fellow) e Aprendizes. O titulo de Mestre era dado apenas ao presidente da Loja, eleito entre os Companheiros ou adquirido por herança. O Grau de Mestre Maçom somente seria implantado a partir de 1738, apesar de criado em 1725, quando a Maçonaria passou a ser iniciática. Até 1725 não havia “Iniciação” e sim uma “Recepção” de um novo membro ou sócio, que consistia de um compromisso prestado sobre o Livro de Registro da Confraria e, tempos mais tarde, sobre o Evangelho de São João (Carvalho, 1997). Outras fontes registram a criação deste grau em 1723 e efetiva implantação em 1738.

A confusão com caráter religioso deu-se com o formato das cerimônias no recinto das Lojas, que levaram a Maçonaria britânica das tabernas para salas e edifícios construídos especialmente para isso, introduzindo-se música de órgão e a composição de hinos a ser cantados pelos irmãos. Funerais maçônicos, preparados com os emblemas da Ordem, ocorriam em Igrejas Protestantes, onde, após o ministro terminar seu serviço, os maçons tomavam a vez com os próprios ritos, dando a entender ao público de que a Maçonaria era uma Ordem “religiosa” à parte.

Um famoso personagem, iniciado em 1730, motivo de controvérsias e considerado responsável pelo prestígio da Maçonaria, foi o também escocês Michel Andrew Ramsay (1686-1743), “profundo conhecedor da história antiga e moderna, doutor pela Universidade de Oxford e membro da Sociedade Real de Londres, como muito outros maçons proeminentes da época” (Figueiredo, 2016). A ele é atribuído um polêmico discurso, “não pronunciado”, segundo consta, publicado em 1738, que ligaria a Maçonaria aos nobres das Cruzadas, argumento considerado uma invencionice, sem comprovação histórica, mas que promoveu uma efervescência à época, inclusive influenciando na elaboração e desenvolvimento dos altos graus maçônicos entre 1740 e 1780. Nesse discurso é dado um ar de aristocracia à Maçonaria. Os detratores do Cavaleiro Ramsay argumentam que ele não aceitava a verdadeira origem humilde dos maçons construtores e analfabetos, tendo então inventado essa narrativa.

A Maçonaria despertou mais inimizades do que qualquer outra organização secular na história mundial. Difamadores ganharam força ao longo do tempo em face da tradição da Maçonaria em não responder aos ataques, beneficiando-se do conceito de “confissão de silêncio”, mesmo atualmente com a sociedade dominada pela mídia. Por isso, “os Maçons podem estar destinados a permanecer controversos, embora a legião de críticos sejam facilmente desafiadas pelas legiões de notáveis que escolheram ser membros dela” (Robinson, 2014).

Com a expansão da Maçonaria a partir da fundação da Grande Loja da Inglaterra e Westminster e os novos pensamentos elaborados pela dupla Anderson & Désaguliers, passou-se a exigir que as demais Lojas europeias lhe rendessem obediência. Mas, isso causou repercussões no âmbito da Igreja Católica, então Senhora do Mundo, que entendeu não ter reconhecido tal direito às quatro Lojas de Londres, pois cabia a Roma a competência para delegar poderes e concedê-los absolutos dentro dos comportamentos humanísticos, coroando reis e dando forma jurídica às nações.

A Maçonaria passou, então, a ser vista pela Igreja Católica como uma “seita” vinculada à dissidente religião Anglicana. Por isso, nos séculos seguintes, “a maçonaria foi alvo de mais bulas e encíclicas papais odientas do que qualquer outra organização secular na história cristã” (Robinson, 2014). (Sugerimos a leitura do artigo “Maçonaria e Igreja Católica, reconciliação improvável” – Partes I, II, II e IV, em:  https://opontodentrocirculo.com/2018/10/08/maconaria-e-igreja-catolica-reconciliacao-improvavel/).

A Maçonaria inglesa passou ainda por ajustes, tendo em vista a formação de uma Potência rival em 1751, a Grande Loja da Inglaterra, que se apresentou como depositária das Antigas Instituições. Lawrence Dermott (1720-1791), irlandês, eleito segundo Grande Secretário em 1752, escreveu em 1756 o “Ahiman Rezon”, adotado como Constituição para suas Lojas jurisdicionadas. Dermott combatia a narrativa lendária da Maçonaria criada por James Anderson, a quem denominava de “Modernos”. Em 1813, as duas se uniram, formando a Grande Loja Unida da Inglaterra (GLUI).

O primeiro Templo Maçônico inglês fixo foi construído entre 1772 e 1776, o conhecido “Freemason Hall”. O Grande Oriente da França (GOF), nascido em 1728, como Primeira Grande Loja da França, tendo tomado a sua forma e atual nome em 1773, conseguiu, no ano de 1788, o seu primeiro Templo, proibindo a reunião em tabernas, a partir de então. Entretanto, por divergências de práticas, o GOF não tem tratado de reconhecimento junto à Maçonaria inglesa. Somente a Grande Loja Nacional Francesa (GLNF), fundada em 1913, a partir do GOF, tem reconhecimento junto à GLUI. Enfim, no que se refere aos Protocolos e práticas litúrgicas e ritualísticas adotadas pelas diversas Potências, são marcantes as influências anglo-saxônica (teísta) e francesa/latina (deísta), sobre a estrutura do simbolismo do REAA, em especial, considerando-se que cada país preserva sua autonomia para defini-los.

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

Screenshot_20200502-144642_2

Se você acha importante o trabalho que realizamos com O Ponto Dentro do Círculo, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

Referências

ANATALINO, João. Conhecendo a Arte Real. São Paulo: Madras, 2007;

ASLAN, Nicola.  A Maçonaria Operativa Escocesa. Disponível em https://www.revistaartereal.com.br/wp-content/uploads/2014/02/A-MACONARIA-OPERATIVA-ESCOCESA-Nicola-Aslan.pdf

CARVALHO, Assis. A Descristianização da Maçonaria. Londrina: Ed. “A Trolha”, 1997;

DAVIDSON, Alex. O Conceito Maçônico de Liberdade – Maçonaria e o Iluminismo. Artigo em: https://bibliot3ca.com/o-conceito-maconico-de-liberdade-maconaria-e-o-iluminismo/

FERRER-BENIMELI, José Antônio. Arquivos secretos do vaticano e a franco-maçonaria. São Paulo: Madras, 2007;

FIGUEIREDO, Joaquim Gervásio. Dicionário de Maçonaria: seus mistérios, ritos, filosofia, história. São Paulo: Pensamento, 2016;

MELLOR, Alec. Os Grandes Problemas da Atual Franco-Maçonaria – Os novos rumos da Franco-Maçonaria. São Paulo, Pensamento, 1976;

OLIVEIRA FILHO, Denizart Silveira. Da Iniciação Rumo à Elevação. Londrina: Editora Maçônica “A Trolha”, 2012;

___________________________. Da Elevação Rumo à Exaltação. Londrina: Editora Maçônica “A Trolha”, 2013;

ROBINSON, John J. Nascidos do Sangue. São Paulo: Madras, 2014;

STEVENSON, David. As Origens da Maçonaria: O Século da Escócia (1590 – 1710). São Paulo: Madras, 2009;

VICENTINO, Cláudio. História Geral. São Paulo: Editora Scipione, 1992;

XAVIER, Arnaldo. Saiba o que são Maçonarias. Belo Horizonte: Label Artes Gráficas, 2010;

Blog do Pedro Juk, em: http://pedro-juk.blogspot.com/

Blog “Freemason”, em: http://www.freemasons-freemasonry.com/regius.html

______________, em http://maconico.com.br/a-carta-de-bolonha-1248-o-mais-antigo-documento-maconico-freemason-pt/

Blog “No Esquadro”, em:  https://www.noesquadro.com.br

Blog “O Ponto Dentro do Círculo”, em: https://opontodentrocirculo.com/2019/10/08/a-maconaria-inventada/

_________________________, em: https://opontodentrocirculo.com/2018/06/03/o-manuscrito-cooke/ _________________________, em https://opontodentrocirculo.com/2021/02/06/consideracoes-sobre-o-poema-regius-do-seculo-xiv/

O DNA da Maçonaria – Por que?

O cavaleiro Ramsay e a origem da Maçonaria - Freemason.pt

O que teria levado os ingleses a criar uma sociedade que se caracterizava por permitir a reunião, sigilo e vínculos de fidelidade garantidos por juramentos?

A maioria dos maçons gosta de acreditar em motivações de cunho moral, de pessoas interessadas em especular sobre os mistérios da vida e da morte e outras motivações tão nobres quanto falaciosas.

A razão pode ser algo bem mais grave, objetivo e, a meu ver, mais edificante do que sonha nossa vã filosofia.

Vejamos o que ocorria naquele momento histórico.

Os Jacobitas e a União

A União de 1707 entre a Escócia e a Inglaterra era altamente impopular junto à grande maioria da população, na Escócia. Diversos artigos do acordo da Lei da União eram economicamente favoráveis aos proprietários de terras na Escócia, mas não conseguiam oferecer quaisquer vantagens econômicas à maioria da população por mais de 30 anos. O descontentamento era geral e tumultos motivados por alimentos ocorreram nos burgos da costa leste à medida que os efeitos da fome eram agravados pelos impostos da união. Embora a situação induzisse a resistência à união econômica, ela não se traduzia em apoio universal à causa jacobita de manter os Stuarts no trono, em Londres. Muitos, na Escócia, agora associavam os Stuarts ao catolicismo e à supressão da Igreja protestante. A União estava decidia a pôr fim às esperanças dos Jacobitas de uma restauração Stuart, garantindo que a dinastia alemã de Hanover sucedesse a Rainha Anne após a sua morte. Mas, os Stuarts ainda comandavam grande parte da lealdade na Escócia, França e Inglaterra – a União Britânica inevitavelmente reacendeu a causa jacobita.

Em 1708, o pretendente jacobita ao trono, o suposto James VIII, e seus aliados franceses haviam tentado desembarcar na Escócia para incitar um levante, mas foram frustrados pelas condições climáticas adversas e vencidos pela Marinha Real. Seis anos mais tarde, uma moção na Câmara dos Lordes para desmantelar a União falhou por apenas quatro votos. Em seguida, no mesmo ano, a rainha Ana morreu e foi sucedida por Jorge I de Hanover. A questão controversa da sucessão se intensificou e no ano seguinte, muitos nobres e conservadores, descontentes com a sua parte dentro da união, levantaram-se em favor de uma monarquia Stuart.

O Levante Jacobita de 1715

O levante de 1715 foi liderado por John Erskine, Conde de Mar – um homem que tinha votado a favor da União inicialmente e que fora secretário de Estado até 1714. Ele tinha a maioria de seu apoio ao norte do rio Tay, no Planalto Nodeste e nas terras altas da Escócia – áreas onde os latifundiários não se beneficiavam muito com a União e onde o Episcopalianismo (que via os Stuarts como chefes de sua igreja) era dominante.

Mas, o conde de Mar, não se provou um grande líder militar. Ele travou uma batalha muito mal comandada em Sherriffmuir, onde os jacobitas superavam as forças Hanoverianas sob o Duque de Argyll em dois para um, mas falhou em conseguir uma vitória decisiva. Nem mesmo a chegada e coroação de James Stuart como o rei James VIII conseguiu reverter a sorte Jacobita. Eventualmente, o levante fracassou quando 6.000 soldados holandeses desembarcaram em apoio ao governo de Hanover, e as forças do rei James se dispersaram sob a pressão de má liderança e falta de ajuda externa.

Em consequência deste estado de coisas, o governo reagiu prontamente com a votação e decreto do Riot Act (Lei da Rebelião), em 1714, lei esta que entrou em vigor em 1715 que continha o seguinte:

Cap V

Considerando que nos últimos tempos muitos motins rebeldes e tumultos têm ocorrido em diversas partes do reino, para a perturbação da paz publica, e o perigo para a pessoa de Sua Majestade e do governo, o mesmo ainda continua sendo fomentado por pessoas descontentes com Sua Majestade, presumindo assim fazer, para que as punições previstas pela legislação atual não sendo adequada para tais crimes hediondos; Sua Majestade e seu governo tendo sido de forma mal intencionadamente interpretada por tais rebeldes com a intenção de aumentar as divisões, e alienar a afeição do povo de Sua Majestade, por conseguinte, para a prevenção e repressão de distúrbios e tumultos como estes, e para a mais célere e efetiva punição dos infratores nelas envolvidos, seja promulgada por sua mais excelente majestade o Rei, por e com o conselho e consentimento dos lordes espirituais e temporais e dos comuns, neste atual Parlamento reunido, e pela autoridade do mesmo;

Que se qualquer pessoa até o número de doze ou mais, sendo ilegal, rebelde e desordenadamente reunidos, em perturbação do sossego público, em qualquer momento após o último dia do mês de Julho no ano de nosso Senhor, 1715, e sendo requisitado ou ordenado por qualquer uma juiz ou juízes, ou pelo xerife do condado, ou o seu sub-xerife, ou pelo prefeito, oficial ou oficiais de justiça, ou outro chefe ou juiz de paz de qualquer capital ou cidade, onde tal assembleia se reúna, por decreto a ser feito em nome do rei, sob a forma doravante ordenada, a dispersar-se, e afastar-se em paz para suas habitações, ou aos seus negócios lícitos, devem, o tal número de doze ou mais (não obstante tal proclamação feita) de forma ilegal, desenfreada e desordenada permanecer ou continuar juntos pelo espaço de uma hora após o comando ou solicitação feita pela proclamação, então, tal permanência do número de doze ou mais ou feita tal proclamação, será julgado crime sem o benefício do clero, e os infratores serão condenados como criminosos, e sofrerão a morte como no caso de crime, sem o benefício do clero. (Grifos do Tradutor)

Teria sido uma mera coincidência que dois anos depois disso surgisse uma organização cuja principal característica é a reunião de pessoas?

Isso altera, e muito, a visão que se tem da maçonaria especulativa. Estamos acostumados a achar que a vida nesta época era um mar de rosas, mas a realidade era de uma ditadura sufocante e a Maçonaria surgiu pela primeira vez como um porto seguro para os lutadores da liberdade, que viria a se repetir nos Estados Unidos em 1776, na França em 1789 e no Brasil em 1822.

Ou os homens livres e de bons costumes de uma nascente burguesia desejosa de participar dos destinos da nação se sentiram oprimidos e buscaram uma saída que lhes garantisse a impunidade diante de tal lei draconiana? E levaram dois anos para “aparelhar” a maçonaria operativa?

A verdade é que o Establishment inglês, ou a Coroa, encarregou os pastores Desagulliers e Anderson de desativar a bomba relógio criada com o Riot Act. E eles se sairam muito bem, pelo menos no que diz respeito à Inglaterra.

Mas, eles não faziam ideia do monstro que haviam criado. Quando a nascente instituição foi transplantada para o Continente, ela assumiu o mesmo formato de controle social, sendo via de regra dirigida pelo monarca como Grão-Mestre e as lojas utilizadas para enquadrar a parcela pensante da população.  Foi assim na Alemanha e em outros centros monarquicos.

Uma parcela pensante da sociedade francesa aderiu à maçonaria, que se transformou em vibrantes centros de discussão. A maçonaria, mesmo não sendo a responsável direta pela queda da Bastilha, transformou-se em uma ameaça entre os aristocratas da época. Posteriormente à revolução francesa, a Maçonaria Francesa assumiu uma postura progressista, ligada diretamente à Carta de 1717, adotando o princípio da isenção religiosa que a caracteriza até os dias atuais.

Mas, na América ela teve enorme influência nos movimentos de libertação, desde os Estados Unidos em 1776, até o Brasil em 1822, passando pelas colônias espanholas onde maçons como San Martin e Bolivar tiveram uma atuação crucial.

Atualmente, a maçonaria só tem uma atuação progressista na França, por meio do Grande Oriente de França, defendendo causas e participando ativamente da vida social. Também em Portugal, o ramo originário do Grande Oriente de França tem uma atuação proativa e progressiva.

No restante do mundo, continua a ser um instrumento de controle social e tem uma imagem de instituição retrógrada e conservadora.

Nas grandes capitais, devido à composição heterogênea das lojas, a atuação da Ordem é bastante limitada, ao passo que no interior tem grande influência e participa da vida da sociedade, mesmo em suas versões retrogradas e religiosas do rito escocês, adoniramita  e brasileiro.

Autor: José Filardo

Fonte: Bibliot3ca Fernando Pessoa

Screenshot_20200502-144642_2

Se você acredita em nosso trabalho e acha importante o que realizamos, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através de um dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

As Sete Artes e Ciências Liberais – Parte II

Isidoro de Sevilha e as artes liberais | Ensaios e Notas

Usos, costumes, tradições e antigas obrigações da maçonaria medieval relembrados na maçonaria atual

Entre os maçons medievais, o segredo era norma respeitada e sujeita à juramentos sobre a Bíblia ou os Evangelhos. O mesmo se dava com a promessa de não revelar a estranhos os sinais, toques e palavras de reconhecimento mútuo entre os companheiros. O compromisso envolvia a obrigação de cumprir os regulamentos, as tradições e as regras de fraternidade exigidas pela agremiação.

Quando as corporações medievais chegaram a adquirir maior importância política e econômica, até as representações teatrais passaram aos seus domínios. Os dramas da época, as antigas peças gregas, por vezes mal traduzidas, outras deturpadas, eram representadas para os associados. Os temas referentes a cada profissão eram enaltecidos ao gosto dos congregados e assistentes levados ao sentido épico. Até os antigos “mistérios” eram declamados ou encenados, ao lado das narrativas e passagens de religião.

Cada corporação tinha o seu santo padroeiro e protetor. Os maçons operativos veneravam São João Batista, ou este santo e João Evangelista, aos quais dedicavam reuniões e festas especiais. Os obreiros de Estrasburgo se chamavam Irmãos de S. João.

Nota ao Aprendiz – A Maçonaria operativa ignorava a existência de São João de Jerusalém, ou S. João Esmoler ou Hospitaleiro, lendária figura de príncipe, filho do rei de Chipre, no tempo das Cruzadas. Conta-se que ele teria renunciado aos seus direitos de herdeiro do trono, com o propósito de se dedicar à caridade, socorrer guerreiros e peregrinos. Teria fundado também um hospício.

A figura desse lendário santo foi levada à Maçonaria especulativa por maçons que quiseram impor a ideia de que a Sublime Instituição seria originária dos Cruzados. O Barão de Tschoudy viria a adotar S. João de Jerusalém, no seu Rito Adoniramita. Outros maçons passaram a identificar S. João Hospitaleiro com S. João d’Escócia, figura que jamais existiu, embora seja sempre referida em rituais do escocismo, por diversas conjecturas.

Maçons do passado, magoados com os insultos e perseguições clericais, principalmente partidas dos jesuítas, repeliam a norma de se admitir João, o Batista, como padroeiro da Sublime Instituição. A verdade é que estavam a repelir a realidade histórica e uma tradição haurida dos antigos Pedreiros-Livres e Canteiros.

Essa represália pouco adiantou. João, o Batista, continua sendo o padroeiro, com o seu par tradicional, que é João Evangelista. E em toda parte do mundo o dia 24 de junho é uma data maçônica e o verdadeiro dia da Instituição.

A Maçonaria operativa medieval possuía também os Quatro Coroados, santos da profissão, os quais eram Severo, Severiano, Carpóforo e Vitorino. Contava-se que esses quatro santos teriam sido mortos a vergastadas, por ordem de Diocleciano, eis que se teriam recusado a esculpir imagens destinadas à adoração pagã. A Igreja chegou a confundi-los com outros cinco mártires – Cláudio, Castor, Sinforiano, Simplício e Nicostrato, artistas que teriam repelido a imposição do mesmo imperador, que encomendara a imagem de um ídolo. Os cinco artífices, por esse motivo, teriam sido condenados e asfixiados dentro de um barril carregado de material pesado e atirados ao mar (ano de 237).

Outras lendas de enaltecimento da profissão eram contadas pelos maçons medievais e havidas como patrimônio da corporação.

Como ensina a psicologia social, todo agrupamento humano definido tende a ser enaltecido por seus próprios componentes. Os maçons medievais, naquela época, pouco esclarecidos, não fugiram à regra. Acreditavam que a Maçonaria vinha dos tempos de Adão e que este havia ensinado a Geometria a seus filhos. Mal fundados em vários textos da Bíblia e maus conhecedores da história, fantasiavam uma complicada narrativa da profissão, envolvendo reis, patriarcas, sábios, filósofos e geômetras. Desse modo, chamavam de “maçons” a Abraão, a Nemrod, o rei caçador, a Nabucodonosor, a Pitágoras (“Peter Gower”), a Euclides e outros. Até as épocas das narrativas eram desencontradas.

Nota ao Aprendiz – Ainda hoje há irmãos maçons que costumam sustentar mitos semelhantes, pretendendo levar a origem da Maçonaria a tempos imemoriais. Outros procuram convencer que toda e qualquer personalidade ilustre seja ou tenha sido maçom.

Já no século passado, os estudos de Findel e outros abalaram todos os mitos pelos quais a Maçonaria seria originária do Egito, da Grécia, do Templo de Salomão, dos Essênios, dos cretenses e de outras fontes “antiquíssimas”. A maioria dos Corpos Maçônicos deste século já não admite as supostas “derivações” da Maçonaria, muitas delas engendradas pelos “maçons aceitos” de quando iniciou a Maçonaria especulativa.

Por esse motivo, e também por apresentarem como “segredos” muitas lições vulgares da história da filosofia, muitas instruções anexas a rituais foram abolidas. A regra a cumprir, para com os maçons iludidos ou mitômanos, é a tolerância, mas sem prejuízo do constante esclarecimento.

A par de tais lendas que liam para os recipiendários, os maçons operativos mantinham seus regulamentos profissionais e tradições.

As “obrigações” (“old charges”) deviam ser integralmente respeitadas, bem como os preceitos da ética do oficio. Várias dessas obrigações se conservaram até na Maçonaria especulativa e se tornaram “landmarks” ou lindeiros. A palavra “landmark” significa limite entre países ou territórios, mas entre os maçons veio a significar marco ou regra instransponível e imutável.

A legitimidade das antigas obrigações foi revelada mediante referências históricas, leis, bulas, papeis, inclusive decretos governamentais e clericais que tinham por escopo perseguir os maçons e proibir as reuniões das Lojas. Além desses recursos da história, havia os antigos “manuscritos”. Vários desses documentos eram reproduções ou cópias de escritos mais antigos. Outros eram realmente falsificados. A “velha Constituição de York, do ano de 925”, outorgada numa Convenção convocada pelo príncipe Edwin, filho do rei Athelstan, não passou de mistificação, que o maçom Findel e outros viriam a desmascarar.

Porém, por esse fato não há que negar os maçons operativos narravam a lenda de Athelstan e seu filho Edwin. Essa lenda consta, por exemplo, do livro conhecido por “Poema Régio”, mas cujo nome verdadeiro e “Hic Incipiunt Constitutiones Artis Geometriae Secundum Euclydem” (Aqui principiam as constituições da arte da geometria, de acordo com Euclides, ou Princípios Constitucionais da Arte). James O. Halliwel, 1840, encontrou esse livro, escrito em pergaminho, na Real Biblioteca, do British Museum. Atribui-se a obra ao século XV. Trata-se de uma “constituição” à maneira adotada pelas fraternidades e organizações profissionais da época. O poema contém 794 versos, nos quais se constam as lendas da fraternidade de pedreiros, as regras morais da “boa geometria”, os deveres dos companheiros nas suas relações mútuas e para com os senhores e proprietários.

Euclides, “por inspiração de Cristo”, teria ensinado as sete ciências e, certa vez, teria sido contratado para ensinar a Geometria aos jovens da nobreza do Egito. A “arte” se espalharia pelo mundo e teria chegado à Inglaterra (Ilha dos Santos). Certa vez, o rei-arquiteto Athelstan teria promovido uma convenção, na qual se teriam promulgado quinze principais artigos e quinze pontos fundamentais. O documento menciona o martírio dos “Quatro Coroados”, santos conhecidos por essa denominação que, por sua vez, viria a ser um atributo da “arte” (“Ars Quatuor Coronatorum”). Seguem-se as lendas da Torre de Babel, “construída muito depois do dilúvio e, em certa ocasião, dirigida pelo rei Nabucodonosor”. “Os construtores da torre se tornaram tão vaidosos que o Senhor os castigou, enviando-lhes um anjo que lhes confundiu a linguagem”. Consta do documento os significados morais das sete ciências e as regras da fraternidade.

Outro documento relevante, embora de tradução infiel, é o dos regulamentos profissionais da Fraternidade de Pedreiros (talhadores e escultores de pedra) de Estrasburgo. Esses estatutos teriam sido aprovados em Spira, em 1464 e ratificados em Ratisbona cinco anos depois, trata-se de uma verdadeira constituição da Ordem, na qual se consignam as regras de ética profissional, a admissão dos aprendizes, o tempo de aprendizado, o respeito aos planos e aos contratos de obra. Na confraria só podiam ser admitidos homens livres e de boa formação moral e familiar. Era proibido aos mestres confiar trabalhos aos companheiros que viesse amancebado ou passasse “a viver desregradamente com mulheres”, ou fosse jogador a tal ponto que dele se pudesse dizer “que havia apostado as próprias vestes”. O dever religioso, inclusive os de confessar e comungar, era imposto aos obreiros.

Outro “documento”, a chamada “Carta de Colônia”, atribuída ora aos jesuítas, ora a Frederico de Nassau, não passa de mistificação. Entre os demais documentos citados pelos historiadores maçônicos, podem mencionar-se a lei do Conde de Santo Albano (1663), o manuscrito Harley (1670), existente no Museu Britânico e escrito por Randle Holmes e o “Velho Manuscrito”, assinado por William Bray e escrito por Robert Cleark (1686). Os Estatutos Shaw, da Maçonaria Escocesa, foram publicados no final do século XVI (1598-1599).

Do confronto de todos os documentos e regulamentos e, mais, do que se pode concluir das referências históricas, resulta uma síntese de várias regras que se impunham aos maçons, entre as quais:

I – a de cumprir os mandamentos da Igreja, respeitar os sacramentos e confessar e comungar periodicamente;

II – a de respeitar as leis e as autoridades constituídas e de nunca tomar parte em sedições;

III – a de seguir os preceitos da “moral da boa Geometria”, de modo a viver de acordo com os bons costumes, a não se entregar ao jogo e a outros vícios, a mulheres de vida fácil, ao adultério e ao concubinato;

IV – a de somente admitir nas corporações e confrarias candidatos livres, de boa família (no sentido moral) e de bons costumes e boas referências (“good reports”);

V – a de não se admitirem jamais candidatos portadores de defeitos físicos ou doentes;

VI – a de os obreiros cumprirem os contratos de construção, de modo a contentar os proprietários e senhores, seguindo suas as ordens e condições combinadas e cuidando de terminar e entregar a obra no tempo ajustado;

VII – a de não se admitirem novos companheiros sem a licença do mestre da circunscrição e sem prévia comunicação às lojas da região, mediante a fixação de um pergaminho a uma prancha ou tábua colocada de modo ostensivo;

VIII – a de dar conhecimento à assembleia geral dos fatos que interessavam à fraternidade, inclusive admissões;

IX – a de comparecer periódica ou anualmente à assembleia geral, para tomar conhecimento das resoluções e receber conselhos e instruções sobre a Arte, sobre os salários a serem pagos e sobre a maneira de bem servir aos mestres, aos senhores e aos proprietários;

X – a de eleger mestres entre os companheiros mais experimentados e mais versados na Arte;

XI – a de cumprir as regras de fidelidade e fraternidade entre os companheiros e reservar “troncos” para os necessitados;

NotaDe certos regulamentos se vislumbra que o “tronco” se referia também a honorários pagos na conclusão das obras.

XII – a de os aprendizes serem sujeitos a prestar serviços aos mestres durante um determinado número de anos (na Alemanha se exigiam cinco anos e na Inglaterra sete); e a de os companheiros (aspirantes) praticarem o ofício em várias obras (três, pelo menos) e viajarem, antes de conseguirem a plenitude de seus direitos.

Nota – Referências históricas demonstraram cabalmente que esses prazos não eram iguais em todos os lugares e que a habilidade profissional era levada em consideração, de modo a se encurtarem os “interstícios”. Porém, houve época em que os mestres das diferentes profissões artísticas prolongavam, a seu bel-prazer, o tempo de aprendizado e faziam outras exigências, aproveitando-se da situação privilegiada de que desfrutavam como principais contratantes nas encomendas, e das condições regulamentares para aprovar a concessão, de cartas, licenças ou franquias. Certos regulamentos exigiam que o companheiro, para ser admitido ao trabalho, exibisse ainda a carta de apresentação de mestres e companheiros experimentados.

Por outro lado, revela considerar a tradição universitária que a Maçonaria herdou no que tange ao seu humanismo e à sua filosofia. Os estudantes da Idade-Média também se reuniam em corporações. Pagavam os professores, contratavam os mestres e os despediam. Desse modo é que fundaram as universidades.

Na Itália, na Espanha e no sul da França, as universidades seguiam o padrão de Bolonha. Nessas instituições se ensinavam o “trivium” (Gramática, Retórica ou Dialética e Lógica) e o “quadrivium” (Aritmética, Geometria, Música e Astronomia), mais ou menos na seriação secular instituída por Boécio. Para o estudante conseguir a carta de “mestre” era exigido um curso que durava sete anos ou pouco mais, pois o “trivium” exigia quatro ou cinco anos e o “quadrivium” o tempo restante.

As sete ciências, porém, não tinham o sentido atual. O seu ensinamento era filosófico e humanístico, isto é, mais ou menos como ocorre na Maçonaria.

As sociedades secretas estudantis resultam de tradições das universidades. A Maçonaria, por sua vez, contém muita coisa das tradições das universidades, quer por se inspirar nas práticas dos antigos Pedreiros-Livres, para os quais a Geometria era também uma ciência moral, quer porque os maçons mais versados do passado, e depois os “aceitos”, cuidariam de manter os melhores princípios das corporações, inclusive os das universidades.

Essa conclusão resulta de qualquer livro de história, como, por exemplo o de McNall Burns, 1º vol., Parte 4.

Constituída a Grande Loja Inglesa, em 1717, os seus principais fundadores cuidaram de reunir os velhos regulamentos, as lendas e tradições dos maçons e as antigas “obrigações” (old charges).

Em 1718, George Payne é eleito Grão-Mestre da Grande Loja e manda consolidar os regulamentos, usos e obrigações constantes de velhas cópias. Em 1719 é eleito Grão-Mestre o reverendo João Teófilo Desaguliers, que ao lado de James Anderson, fora um dos principais fundadores da Grande Loja.

George Payne, novamente eleito para o grão-mestrado em 1720, manda completar as compilações iniciadas em 1718. Surgem e se definem, por conseguinte, as Trinta e Nove Regras Gerais (“General Regulations”) condensadas nos conhecidos Regulamentos Gerais. No mesmo ano, por motivos que se ignoram, foram queimados preciosos manuscritos da antiga Maçonaria. O fato foi lamentável, embora existissem velhas cópias nos museus e velhos documentos nas Lojas que ainda não pertenciam à Grande Loja Inglesa.

Nota – Vários maçons autênticos, inclusive os que não eram católicos, atribuíram essa queima de documentos à preocupação de se ocultar a origem clerical da Maçonaria, pois os fundadores da Grande Loja Inglesa eram protestantes, na sua maioria. Não há muito fundamento em tal suposição. No mais, seria impossível ocultar que os Pedreiros-Livres e Canteiros eram católicos e que a primeira fase da Maçonaria operativa medieval pertencia aos monásticos. Isso não quer dizer que a Maçonaria seja uma derivação de Igreja Católica, eis que releva ponderar muito mais as tradições das corporações e fraternidades do que as circunstâncias em que essas organizações vicejaram.

O ilustre maçom autêntico Albert Lantoine, autor de “Lês Societés Secretes actuelles em Europe et en Amérique” (Paris 1940), é um dos que abonam a insinuação.

As Regras gerais viriam a ser aprovadas na data de S. João de 1721. Aos 17 de janeiro de 1723 foi aprovado pela Grande Loja Inglesa o tradicional LIVRO DAS CONSTITUIÇÕES, impropriamente conhecido por Constituição de Anderson, pelo fato de este fundador da Grande Loja haver-se dedicado ao projeto e compilado as velhas lendas, usos, costumes e “antigas obrigações”, tudo acrescido às “Regras Gerais”.

Do confronto histórico resulta que o trabalho de Anderson não foi muito fiel a tudo quanto revelaram as velhas cópias. As lendas do passado, mais ou menos alteradas, se acrescentaram outras, principalmente aquelas inspiradas na Bíblia, como conviria a bons ministros e pastores protestantes.

Contudo, a modificação foi salutar, pois a Bíblia é um dos maiores monumentos morais do mundo.

A chamada Constituição de Anderson se impôs como padrão de qualquer organização maçônica regular, isto é, fundada nos princípios da Maçonaria Universal, da qual a Grande Loja da Inglaterra é a “alma mater”.

Cumpre lembrar que no tempo de Anderson ainda havia uma corrente católica, mais ligada à antiga Maçonaria Escocesa. Essa corrente era também política, pois era partidária dos Stuarts. O Cavaleiro Ramsay pertencia a essa corrente.

Mais tarde se operou a unificação da Maçonaria inglesa.

O atestado mais definido dessa unificação é o tradicional RITO DE YORK, condensado num livro denominado “Landmarks”, Leis Básicas e Cerimônias dos Três Graus Simbólicos da Arte Maçônica, chamada, às vezes, RITO DE IORQUE, por terem compiladas, elaboradas e organizadas por representantes de todas as Lojas consideradas regulares reunidas na cidade de Iorque, na Inglaterra, em 1815, tais como foram aprovadas, confirmadas e sancionadas pela Grande Loja da Inglaterra, em 1815. O ritual também é, chamado de Ritual dos Maçons Antigos, Livres e Aceitos.

Em 1813 já havia ocorrido a formal unificação da Maçonaria inglesa, com a constituição da Grande Loja Unida (27 de dezembro de 1813, data de S. João Evangelista). A união das Grandes Lojas inglesas governadas pelos duques de Kent e de Sussex tinha sido preparada desde o começo daquele ano. O duque de Kent renunciou ao grão-mestrado para facilitar a unificação. Assim, se consumou a união de “Antigos” e “Modernos”.

Já então a Maçonaria se havia espalhado pelo mundo, com suas Lojas, algumas abraçando regras mistas e outras seguindo ou escolhendo entre regras da Grande Loja da Escócia e as regras da Grande Loja Inglesa.

Surgiram, por sua vez, vários ritos e rituais.

A Grande Loja da Escócia foi fundada aos 15 de outubro de 1736, em Edimburgo.

O Grande Oriente de França foi fundado oficialmente aos 24 de dezembro de 1772, mas a Maçonaria francesa já existia desde muito antes, quer sob a égide da Grande Loja Inglesa, quer de maneira independente. Sabe-se que em 1730 já existia a “Grande Loja Inglesa de França”. Em Paris havia a “Ordem dos Franco-Maçons do reino de França”, fundada aos 27 de dezembro de 1735.

Na Alemanha, as Lojas trabalhavam sob o sistema da Grande Loja da Inglaterra. Em, 1766, um mágico profissional hábil, prestidigitador, artista genial e homem culto de nome Schröder, funda o “Capítulo de Antigos e verdadeiros Franco-Maçons” e, depois, cria o belíssimo rito que tem o seu nome, com os três graus do simbolismo sob o nome de “Rito Retificado de Rosa-Cruz”.

Em suma, a Maçonaria se pratica por vários ritos ou métodos. De um modo geral, esses métodos conduzem o maçom ao mesmo resultado de aperfeiçoamento moral. Como afirmava Pascal, os homens se aperfeiçoam e conquistam a verdade seguindo os ritos.

As Lojas do mundo os congregam em Grandes Orientes ou Grandes Lojas, governadas pelos respectivos Grão-Mestres. Por sua vez, esses Altos Corpos se relacionam como as nações, por meio de troca de representantes, correspondências, tratados de amizade e confirmações de relacionamento mútuo. Não há poder maçônico internacional. As reuniões universais se efetuam por meio de Congressos e Convenções.

O templo doutrinário da Maçonaria

Dir-se-ia, pois, que o Templo Maçônico foi erguido com o melhor material produzido pela humanidade. Ergueu-se com os alicerces da História. Suas paredes foram levantadas com tijolos e pedras iguais, que representariam a manifestação do espírito humano e o denominador comum de todas as crenças. Todos os componentes do edifício maçônico se entendem ligados com a argamassa da comunhão universal. Enfim, os ornamentos do Templo completariam a síntese de todas as ideias dirigidas para um mundo melhor.

E o melhor paradigma para o Templo Maçônico não podia ser outro que não o Templo de Salomão. A Davi, que manchara as mãos de sangue, não fora concedido erguer o Templo (Crônicas, 28/3), de cuja obra possuía os projetos (Crônicas, 28/11 a 21 e Cap. 29). A tarefa haveria de caber a seu filho Salomão, que apelou para Hirão, rei de Tiro, monarca suserano e aliado a Davi. O rei Hirão enviou a Salomão o artífice, metalista e arquiteto Hirão Abi, filho de uma viúva da tribo de Neftáli (Reis, I, caps. 5, 6 e 7 e Crônicas ou Paralipômenos, caps, 2, 3 e 4).

ObservaçãoNo Rito Adoniramita (Adon-Hiramita) é preferido Adonirão e Hirão-Abi (V. I-Reis, 5/14).

Assim, foi edificado o Templo de Jerusalém, com pedras já preparadas nas pedreiras, de maneira que nem martelo, nem machado, nem instrumento algum de metal se ouviram na casa, enquanto a construíam (I, Reis, 6/7). O mesmo se dá com a Loja maçônica dedicada à construção do mundo melhor. O seu trabalho não se ouve lá fora.

FINIS

Autor: Jeffson Magnavita Barbosa Filho

Fonte: página da ARLS De Campos Ribeiro, 51

Referências

Ritual do Aprendiz Maçom – Edição de junho/2006.

Curso de Maçonaria Simbólica – (I Tomo) Theobaldo Varoli Filho – Editora – A Gazeta Maçônica

Screenshot_20200502-144642_2

Estimado leitor, contribuindo a partir de R$ 2,00 você ajuda a manter no ar esse que é um dos blogs maçônicos mais conceituados no Brasil e nossos podcasts O Ponto Dentro do Círculo e O Peregrino. Clique no link abaixo e apoie nosso projeto! Contamos com você!

https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Podcast Ritos & Rituais – 1717 ou 1721? Em que ano nasceu a Grande Loja da Inglaterra? (Parte I)

Em 2017 houve a comemoração dos seus 300 anos, mas, será que a data é essa mesmo? Nesse episódio, Rogério Miranda, Felipe Côrte Real e Cloves Gregorio, iniciam a discussão, a partir da análise dos artigos de 4 estudiosos, Andrew Prescot, Susan Somers, John Hamil e Ric Berman, sobre em que ano foi criada a Grande Loja da Inglaterra e Westminster.

Disponibilizamos também, para você estimado leitor, as quatro palestras proferidas pelos pesquisadores na Loja Quatuor Coronati, 2076.

Se você deseja apoiar o blog O Ponto Dentro do Círculo e nossos podcasts, clique no link abaixo para efetuar a sua contribuição.

https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Considerações sobre o Poema Regius, do século XIV

Resultado de imagem para Poema Regius

O presente texto tem como objetivos:

  • situar, brevemente, um poema do final do século XIV – conhecido como Poema Régio – entre documentos denominados Old Charges (Antigas Obrigações);
  • explicar as características básicas do texto;
  • oferecer uma tradução sintética do seu conteúdo e,
  • contextualizar os dados considerados mais relevantes para a compreensão mais acurada de determinados aspectos da história da nossa Ordem.

I

A História mais antiga da nossa Ordem está cercada, de um lado, de imprecisões e lacunas e, de outro lado, de muitos dados fantasiosos, sem qualquer comprovação, geralmente arrolados ao léu. Falta, de modo habitual, conhecimento de metodologia de pesquisa científica a inúmeros daqueles autores que acabam elaborando teses mirabolantes e, assim, desejam recuar os primórdios da instituição a tempos imemoráveis, não-documentados e míticos. Contudo, entre suposições e dados documentais há enorme distância.

Parece evidente, no entanto, que haja vínculos estreitos entre a organização da nossa Ordem e a estrutura de algumas corporações de ofício medievais e que também a instituição tenha herdado traços diversos de outras ordens iniciáticas, sobretudo no que respeita ao embasamento filosófico, em especial das correntes neopitagóricas, neoplatónicas e similares. Todavia, este tema, em especial, é complexo o suficiente para gerar um outro trabalho. No ocaso da Idade Média, a corporação dos editores (sem dúvida, posterior ao ano de 1455, data em que Johan Gutenberg teria iniciado a reprodução mecânica de textos impressos) também mostra uma organização assemelhada em diversos aspectos à dos construtores medievais.

Desde três séculos para cá, existem documentos baseados em fatos históricos comprovados, sobretudo depois da constituição da Grande Loja de Londres, em 1717. No entanto, há outros, mais antigos, que têm importância seminal para compreender diversos fatos históricos relacionados com a nossa Ordem. As chamadas Old Charges (Antigas Obrigações) são manuscritos do final da Idade Média e do início da Idade Moderna usados pelas corporações dos Maçons Operativos Talhadores de Pedra e que foram encontrados, basicamente, na Inglaterra e na Escócia, e recobrem um período que vai do final do século XIV ao ano de 1748. Na verdade, os antigos manuscritos que, grosso modo, fazem referência tanto à Maçonaria Operativa medieval, quanto à Maçonaria Especulativa moderna, eram contabilizados, em 1872, por William James Hughan, como um total de 32 documentos. Em 1889, já se mencionavam 62, e o próprio Hughan, em 1895, falava da existência de 66 manuscritos, mais nove versões impressas e onze desaparecidas, num total de 86 documentos. No começo do século passado, em 1918, o Ir∴ Roderick H. Baxter, V∴ M∴ da Loja Quatuor Coronati, listou nada menos de 98 , incluindo as versões em falta.

Entre outros, fazem parte do que se denomina Old Charges:

  • o Poema Regiuscirca 1390;
  • Manuscrito de Cooke, de 1410, descoberto por Matthew J. Cooke, divulgado sob forma impressa em 1861, redigido em prosa de 930 linhas; 19 artigos sobre a história da Arquitetura e Geometria, quatro relativos à vida social dos maçons, nove conselhos de ordem religiosa e moral; o historiador Wilhelm Begemann indica a cidade inglesa de Gloucester como provável origem do documento e também há quem o date de 1430 ou 1440;
  • os Estatutos de Schaw, de 1598, referem-se a estatutos promulgados por William Schaw, na Escócia, a quem se faz menção como “mestre dos maçons” (Maister o’ Work Warden General o’er a’ the masons), na Loja Kilwinning, em Ayrshire, e cujos registos parecem remontar a 1140;
  • Manuscrito de Aitchison´s Haven, de 1598, no Condado de Midlothian, Escócia, contém um livro de balaústres da Loja de Edimburgo;
  • Manuscrito de Inigo Jones, de 1607, que, nomeado mestre dos maçons, na Inglaterra, organiza lojas no estilo das academias italianas e incentiva a ingressar na instituição personagens desejosos de adquirir cultura;
  • Manuscrito de Melrose, de 1674, balaústres da Loja Melrose Saint John, de Newstead, na Escócia, 258 páginas, que contam a história das reuniões de 1674 até 1792; o brasão de armas da Loja Melrose , gravado em madeira, remonta a 1156.

II

O chamado Poema Regius, datado supostamente de 1390, parece ser um dos elos mais antigos capazes de ligar, em definitivo, a Maçonaria Operativa à Maçonaria Especulativa. Trata-se de um manuscrito de 64 páginas, em pergaminho, de autor anônimo, que se encontra hoje no Museu Britânico. Foi catalogado como A Poem of Moral Duties: here entitled Constitutiones Artis Geometriae secundum Euclydem (Um Poema de Obrigações morais, aqui intitulado como as Constituições da Arte da Geometria, segundo Euclides), com metade do título em inglês e outra metade, em latim. O rei inglês George II, em 1757, apresentou-o à nação e mandou depositá-lo na abadia de Westminster. O antiquário James Orchard Halliwell-Phillips (1820-1889), um renomado especialista em Shakespeare, revelou o real sentido do manuscrito redigido em inglês medieval. Entre 1838-39, apresentou à Sociedade dos Antiquários de Londres um trabalho intitulado On the Introduction of Freemasonry in England (Sobre a Introdução da Franco-Maçonaria na Inglaterra) e, com isto, chamou à atenção de muitos Irmãos nossos (interessados em pesquisa séria sobre a História da Ordem) para as reais ligações entre maçons operativos e especulativos. Em 1844, Halliwell revisou e ampliou o seu texto e acrescentou-lhe uma cópia fac-simila do original. No ano de 1889, um fac-simile exato foi publicado no volume primeiro das Antigrapha da Lodge Quatuor Coronati, editado pelo secretário da Loj∴, Ir∴ George William Speth, com glossário indispensável e comentários do Ir∴ R.F. Gould.

Poema Regius está composto de quinze artigos e quinze pontos, alguns comentários introdutórios e uma longa peroração final. Trata-se de um poema – mas com rimas pobres-, com 794 linhas, redigido em inglês arcaico, contemporâneo a Geoffrey Chaucer [1]. Supõe-se que o manuscrito tenha sido copiado de um texto mais antigo e há indícios de que, ou o copista, ou o autor do texto original. tenha sido um padre, face às alusões que faz à cristandade, à necessidade de frequentar a igreja –

“o próprio Cristo ensinou-nos que a sagrada igreja é a casa de Deus, feita para nada mais do que para rezar, como nos ensina o Livro”- [(…) For Christ hymself, he techet ous/ That holy churhe ys Goddes hous,/That ys y-mad for nothynge ellus/but for to pray yn, as the bok tellus, linhas 87: 90, no original].

Há trechos que aludem, de modo transparente, à visão esposada pela igreja católica – os sete pecados capitais e o culto a Maria (que aparece somente no Poema Regius e em nenhum outro manuscrito das Old Charges). Nos versos finais, há claras instruções a respeito da maneira de se comportar dentro da igreja, como proceder durante a missa, como se ajoelhar, etc. Aparecem, ainda, menções ao pensador Santo Agostinho (354-430 d.C.), a personagens bíblicas, aos procedimentos a serem adotados na presença de nobres, às boas maneiras à mesa e nas ruas.

Há trechos em latim medieval, com evidentes erros de ortografia e/ou transcrição e, a certa altura, o texto faz menção ao rei inglês Athelstan [2], insinuando que teria sido ele o responsável pela regulamentação da Maçonaria (Operativa) na Inglaterra. A primeira linha do poema está em latim (já se notam os erros mencionados) e reza o seguinte: 

Hic incipiunt constituciones artis gemetriae secundum Eucyldem [sic] (Aqui começam as constituições da Arte da Geometria, segundo Euclides).

O texto menciona, na parte final, personagens bíblicos, como é o caso de Noé, refere-se à torre da Babilónia, ao rei Nabucodonosor II [3], ao dilúvio, à perda dos conhecimentos relativos à construção e ao fato de o erudito Euclides [4], muitos anos depois, ter ensinado novamente a arte da Geometria (recuperando, portanto, o conhecimento perdido) e, ao todo, as sete ciências, ou seja, as Sete Artes Liberais do mundo antigo. O narrador, em primeira pessoa, afirma que a Gramática é a primeira ciência de que tem conhecimento e, a seguir, enumera as outras seis: Dialética, Retórica, Música, Astronomia, Aritmética e Geometria; assevera, também, que a Geometria

“pode separar a falsidade da verdade” [ (…) con deperte falshed from trewthe, linha 574, no original].

III

Em linhas gerais, é possível concluir que o texto faz referência explícita à Maçonaria Operativa medieval, na medida em que menciona “grandes senhores” aos quais os Mestres Maçons estariam ligados, o que permite supor, corretamente, que tenham sido os nobres que contratavam a construção de castelos, catedrais, fortalezas, etc. Há uma série de alusões marcantes ao ambiente socioeconómico, político e cultural da Idade Média europeia e, particularmente, inglesa, como, por exemplo, a figura do xerife de um condado. No entanto, levando-se em conta uma sociedade, como a medieval, em que as classes sociais eram estanques e separadas, o papel da nobreza e da igreja era preponderante, não deixa de ser surpreendente ler, no Ponto Nono do texto que “todos os homens devem ser igualmente livres” e que a equidade no comportamento deveria ser observado tanto em relação a homens, quanto a mulheres.

A partir do texto, não fica muito claro se, de fato, os construtores medievais consideravam a existência de três graus diferentes na escala de conhecimentos, ou seja, Aprendiz, Companheiro e Mestre, uma vez que o texto cita a figura do Aprendiz (que devia ser subordinado a um Mestre), a do Mestre e, em sucessivas passagens, refere-se a Companheiros, mas não há clareza quanto ao fato de o termo significar, literalmente, “companheiro” ou referir-se a “todos os integrantes da confraria”. Convém lembrar que com o surgir da Grande Loja Unida de Inglaterra, em 1813, quando os Antigos e Modernos concordaram em trabalhar sob comando único, estabeleceu-se em definitivo, que

fica declarado e promulgado que a pura Antiga Maçonaria consiste de três graus e não mais , isto é, Aprendiz, Companheiro e Mestre Maçom, incluindo a Suprema Ordem do Sagrado Real Arco”.

A simples leitura dos quinze artigos do Poema Regius permite, no entanto, perceber inúmeras e claras interrelações entre operativos e especulativos e a existência de um rígido código ético.

É interessante mencionar que, em 1968, Henry Carr [5] afirmava o seguinte:

“Insisto, contudo, que a nossa Franco-Maçonaria atual, especulativa, é descendente direta da maçonaria operativa, cujos princípios podemos fazer retroceder aos mais antigos registos referentes à organização entre construtores, em 1356”.

Uma década mais tarde, Carr voltaria a dizer:

“A transição da maçonaria operativa para a especulativa não representou a substituição de uma atividade antiga sob nova direção. Era a atividade antiga, que, gradualmente, alterou o caráter, segundo as necessidades da sua época, mas com continuidade perfeita” [6].

Todavia, ao longo do século XX, nada menos que dez teorias diferentes desfilaram nas páginas do Ars Quatuor Coronatorum, publicação oficial da Loja Quatuor Coronati [7], muitas delas contraditórias entre si.

McLoughlin [8], por seu turno, lembra que documentos históricos autênticos mostram a existência, durante a Idade Média, de construtores de catedrais e outras obras que eram chamados de “Free and Accepted Masons” (Maçons Livres e Aceitos), chamados de operativos, e a designação recobria vários profissionais, inclusive carpinteiros. Aos poucos, prossegue, burgueses, nobres e até mesmo reis foram iniciados, gradualmente, como “especulativos”. Sublinha a existência de inúmeras lojas na Europa, nos séculos XV, XVI e XVII e menciona as atas, de 1599, da Loja Maçónica de Edimburgo nº 1.

IV

Segue, abaixo, resumo traduzido do texto, na ordem em que estão relacionados os artigos, pontos e outros dados no poema:

  • Artigo 1º – o Mestre Maçom deve ter segurança absoluta no conhecimento da Geometria e deve pagar os Companheiros corretamente;
  • Artigo 2º – todo Mestre Maçom deve comparecer às assembleias da Ordem;
  • Artigo 3º – um Mestre Maçom não deve aceitar qualquer Aprendiz, a menos que tenha certeza de que poderá conviver bem durante sete anos com ele e se estiver seguro de que o Aprendiz será capaz de aprender o ofício;
  • Artigo 4º – o Mestre Maçom deve supervisionar o trabalho do Aprendiz que, por sua vez, deve ter boa índole;
  • Artigo 5º – o Aprendiz não pode ser deformado para não fazer a Ordem passar vergonha porque faria mal à instituição e deve ser um homem forte;
  • Artigo 6º – o Mestre Maçom, convém sublinhar, deve ser perfeito na sua Arte e deve transmitir absolutamente tudo ao Aprendiz;
  • Artigo 7º – um Mestre Maçom não deve, em hipótese alguma, dar abrigo a ladrões ou assassinos, a fim de não envergonhar a Ordem;
  • Artigo 8º – um Mestre Maçom deve substituir, imediatamente, qualquer membro da Ordem que não corresponder às expectativas e necessidades;
  • Artigo 9º – o Mestre Maçom deve ser sábio e forte e deve ser útil à Ordem, onde quer que vá;
  • Artigo 10º – todos devem ter ciência, acima e abaixo (na hierarquia), que nenhum Mestre Maçom deve tentar suplantar o outro, mas deve comportar-se como um Irmão e deve terminar o seu trabalho de modo correto;
  • Artigo 11º – nenhum Maçom deve trabalhar à noite;
  • Artigo 12º – um Mestre Maçom, onde quer que esteja, deve zelar para que nada possa depravar os seus Companheiros;
  • Artigo 13º – se o Mestre Maçom tiver um Aprendiz, deve instruí-lo o necessário para que ele se torne útil à Ordem, onde quer que vá;
  • Artigo 14º – nenhum Mestre Maçom deve tomar Aprendiz, a menos que seja capaz de instruí-lo e responder por ele;
  • Artigo 15º – o Mestre Maçom deve ser um instrutor amigo, não deve prestar falso juramento e jamais deve envergonhar a Ordem.

Ponto Primeiro – onde se congregarem Mestres Maçons, devem demonstrar amor a Deus e também aos seus Companheiros;

Ponto Segundo – o Mestre Maçom deve trabalhar dedicadamente, para merecer o descanso;

Ponto Terceiro – o Aprendiz deve levar a sério os conselhos do Mestre Maçom e dos seus demais Companheiros também, e nada do que vir ou ouvir em Loja poderá contar a qualquer homem no mundo;

Ponto Quarto – nenhum homem deve mostrar-se falso em relação à Ordem, ou prejudicar os Mestres Maçons e Companheiros, e todos devem obedecer às leis;

Ponto Quinto – o Maçom deve receber pagamento do Mestre, que deve avisá-lo, até o meio-dia, se não precisar dele depois [desse horário];

Ponto Sexto – se surgir inveja ou ódio entre Maçons, cabe a outro Maçom corrigi-los, para que convivam segundo as leis de Deus;

Ponto Sétimo – o Maçom deve respeitar a esposa do Mestre e do Companheiro;

Ponto Oitavo – o Maçom sempre deve ser um mediador positivo entre o Mestre Maçom e os Companheiros;

Ponto Nono – o Maçom deve servir aos seus Companheiros, dia após dia, sem buscar quaisquer vantagens e todos os homens devem ser igualmente livres; deve pagar todos os homens de modo correto e deve ser justo com todos os Companheiros, todos os homens e todas as mulheres e também deve registar o bem que os Companheiros fizerem;

Ponto Décimo – o Maçom deve viver corretamente, para não fazer recair sobre a Ordem vergonha alguma e, se cometer algo impróprio, será chamado à Assembleia para explicar-se diante dos seus iguais; e, se não aparecer, será punido conforme a lei que vem de tempos antigos (that was y-fownded by olde dawe, no original);

Ponto Décimo-Primeiro – o Maçom, se vir um Companheiro executar um trabalho de forma incorreta, deve admoestá-lo com palavras dóceis;

Ponto Décimo-Segundo – no local em que se realizar a Assembleia, deve haver Mestres Maçons e Companheiros (Ther schul be maystrys and felows also, linha 409, no original), e outros grandes Senhores, e o prefeito da localidade e o xerife do condado (There schal be the scheref of that contré / And also the meyr of that syté, /Knytes and sqwyers ther schul be,/ linhas 411;13, no original) cavaleiros também; e, se houver qualquer acusação contra eles (Mestres e Companheiros?), devem tomá-los sob a sua custódia;

Ponto Décimo-Terceiro – o Maçom deve jurar que jamais roubará e jamais ajudará falsos Obreiros;

Ponto Décimo-Quarto – o Maçom deve jurar, perante Mestres Maçons e Companheiros, que obedecerá ao seu rei e também deve prestar o juramento dos Maçons sobre todos os pontos anteriores, e saber que será responsabilizado, se faltar com a palavra;

Ponto Décimo-Quinto – se os Maçons atentarem contra a Ordem, não poderão retornar a ela e o xerife poderá encarcerá-los e tomar-lhe os bens e o gado e colocá-los à disposição do rei, e deixar que ele lhes decida o destino (?).

Alia ordinacio artis gemetriae (sic) [Outras ordenações da Arte da Geometria]

Afirma o texto que, a cada ano, uma Assembleia deverá corrigir as falhas encontradas na Ordem e, a cada três anos, todos devem comparecer para corrigir os erros e manter os estatutos concedidos à Ordem pelo rei Athelstan.

Ars quatuor coronatorum [Arte dos Quatro Coroados]

“Rezemos, ao Deus Todo-Poderoso e à sua Mãe bendita para que todos estes artigos possam ser conservados como o fizeram os quatro mártires – que são grande honra para o Ofício -, (Pray we now to God almyht, / And to hys moder Mary bryht, / That we mowe keepe these artyculus here, / And these poynts wel al y-fere, / As dede these holy martyres fowre, /That yn thys craft were of fret honoure, / linhas 497:502, no original) foram bons Maçons, escultores e gravadores – e eles amaram a Deus e serviram e viveram segundo as leis de Deus”, reza o poema.

A seguir, faz menção à punição que os Quatro Coroados sofreram. Menciona que são festejados no oitavo dia após Alle Halwen (sic), ou seja, Hallow-e´en (Here fest wol be, withoute nay, /After Alle Halwen the eyght day. /, linhas 533:34, no original).

Parte significativa do conteúdo do Poema Regius reaparece nas Constituições dos Pedreiros Livres (The Constitutions of the Free-Masons), de James Anderson, editadas em 1723 [9]. É extremamente interessante, segundo nos parece, a linha de raciocínio ético que perpassa o texto e coincide com preceitos que sobreviveram até aos nossos dias dentro da nossa Ordem. A principal contribuição de Anderson foi o fato de subtrair do documento que redigiu referências explícitas ao denominacionalismo e, com isto, conferiu, em definitivo, caráter universal à nossa Ordem, que aceita a Iniciação de pessoas de qualquer confissão religiosa. No entanto, isto também já é tema suficiente para outro trabalho.

O longo Poema Regius merece uma tradução completa, cuidadosa e comentada para o português, tarefa que representa um desafio múltiplo não somente devido aos inúmeros problemas linguísticos que o texto oferece, às circunstâncias históricas que precisam ser elucidadas, mas, sobretudo, em decorrência da necessidade de identificar muitas fontes documentais corretas.

Autor: Aleksandar Jovanović

Fonte: Freemason

* O Poema Regius pode ser consultado AQUI

Notas

[1] – Geoffrey Chaucer (1343-1400), filósofo, diplomata, tradutor e poeta, autor dos Canterbury Tales (Contos de Cantuária), considerado o Pai da Literatura Inglesa, porque modernizou o idioma, inclusive devido aos conhecimentos que possuía de latim, francês, italiano, etc. e das respectivas literaturas.

[2] – Athelstan ou Æþelstān, o Glorioso (895-939), rei inglês (saxão), submeteu Constantino II, rei dos escoceses, na Batalha de Brunanburh, em 937, e, por isso, foi o primeiro a ostentar o título de rex totius Britanniae (rei da Bretanha inteira).

[3] – Nabucodonosor II (c. 632 a.C. – 562 a.C.), o mais conhecido imperador do Império neobabilônico. Ficou famoso pela conquista do Reino de Judá e pela destruição de Jerusalém e o seu Templo, em 587 a.C., além das monumentais construções na cidade de Babilônia e, entre elas, os Jardins Suspensos, conhecidos como uma das sete maravilhas do Mundo Antigo.

[4] – Euclides de Alexandria (360 a.C. – 295 a.C.), professor, matemático e escritor de origem desconhecida, criador da Geometria Euclidiana. Teria estudado em Atenas e teria sido discípulo de Platão. Foi convidado por Ptolomeu I a compor o quadro de docentes da Academia, que tornaria Alexandria o centro do saber, durante muito tempo. Euclides foi o mais importante matemático da Antiguidade: publicou os Stoikhía (Os Elementos), em 300 a.C., obra em treze volumes, a respeito de Geometria Plana, números, teoria das proporções, etc.

[5] – Carr, Henry. 600 years of Craft Ritual. Ars Quatuor Coronatorum, 81 (1968): 200.

[6] – Carr, Henry. Ars Quatuor Coronatorum, 91 (1978), passim.

[7] – Os Quatro Coroados (Quatuor Coronatis, em latim) eram, segundo reza a tradição, escultores de Sirmium (hoje Srem, região da Sérvia, ao norte de Belgrado), que se recusaram a esculpir uma estátua pagã para o imperador romano Diocleciano (243-305), porque se tinham convertido ao cristianismo. Por isto, foram aprisionados, martirizados com uma coroa de pregos agudos de ferro que lhes foi martelada no crânio. Foram eles Castório, Nicóstrato, Cláudio e Sinfrónio; Simplício, um quinto, morreu com eles, mas não há explicações claras a respeito. Aos Quatro Coroados está dedicada uma capela, erigida em 619, em Canterbury, Inglaterra. São venerados na Maçonaria inglesa e a Loja Quatuor Coronati Lodge No. 2076 ostenta, inclusive, o título de The Premier Lodge of Masonic Research (A primeira loja de pesquisa maçônica), e, de fato, é a mais importante Loja de pesquisas maçônicas, consagrada em 12 de Janeiro de 1886. A Ars Quatuor Coronatorum (A Arte dos Quatro Coroados) é a publicação regular da Loja de pesquisa Quatuor Coronati.

[8] – McLoughlin, Emmett. An Introduction to Freemasonry. In: Waite, Arthur E. [1970] A New Encyclopedia of Freemasonry and cognate instituted mysteries: their rites, Literature and History. New York: Weathervane Books. p. xxxiii.

[9] – James Anderson (1679-1739), escocês nascido em Aberdeen, foi ministro presbiteriano e membro da Grande Loja de Londres. Escreveu as Constituições, que ficaram conhecidas como A Constituição de Anderson. Em 1734, o nosso  Ir∴ Benjamin Franklin reproduziu e editou a obra, o primeiro livro maçônico impresso no que são hoje os Estados Unidos da América. A obra é considerada um dos marcos fundamentais da nossa Ordem.

Screenshot_20200502-144642_2

Estimado leitor, contribuindo a partir de R$ 2,00 você ajuda a manter no ar esse que é um dos blogs maçônicos mais conceituados no Brasil e nossos podcasts O Ponto Dentro do Círculo e O Peregrino. Clique no link abaixo e apoie nosso projeto! Contamos com você!

https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Referências

  • Anderson, James. The Constitutions of the Free-Masons containing the History, Charges, Regulations, &c of that most Ancient and Right Worshipful Fraternity. Digital Commons, University of Nebraska, Lincoln. 2006. Edição fac-similar electrónica..
  • Ars Quatuor Coronatorum. [1968]: 81.
  • Ars Quatuor Coronatorum. [1978]: 91.
  • DAVIES, Norman [1996] Europe. Oxford: New York. Oxford University Press. 1996.
  • WAITE, Arthur E. [1970] A New Encyclopedia of Freemasonry and cognate instituted mysteries: their rites, Literature and History. New York: Weathervane Books.

Origens do Ritual Maçônico

Maç Primitiva, Operativa e Especulativa | GLERN

As origens das cerimônias maçônicas são integralmente discutidas por Knoop e Jones no Capítulo X do livro A Gênese da Maçonaria. Os autores deduzem as origens de cerimônias maçônicas do século XVIII de duas fontes principais. Em primeiro lugar, a Invocação; a lenda ou “história” do Ofício; e os regulamentos dos maçons, conforme comumente contidos nos manuscritos maçônicos, sendo estes os respectivos protótipos da Oração de Abertura, da História Tradicional e das Obrigações do ritual Maçônico posterior. Em segundo lugar, “a forma de dar a Palavra maçônica” e as Perguntas e Respostas do Teste associadas à Palavra de Maçom. Dois manuscritos dessa natureza foram rastreados até agora: o Manuscrito Edimburgo Register House de 1696 e o Manuscrito Chetwode Crawley , cerca de 1700.

Estas são as primeiras versões conhecidas do que geralmente são chamadas de catecismos maçônicos, e retratam uma cerimônia de uma natureza diferente daquela sugerida nos manuscritos maçônicos.

O Manuscrito Edimburgo Register House de 1698 afirma que “a pessoa que recebe a Palavra” primeiro teve que fazer um juramento de segredo, no qual jurou não revelar por palavra ou por escrito qualquer parte do que eventualmente ouvisse ou visse, ou traçá-la com a ponta de uma espada ou outro instrumento, sobre a neve ou areia. Ele então saia com o maçom mais jovem (último maçom iniciado na loja), que lhe ensinava os sinais, posturas e palavras de sua entrada. Ele então retornava e dizia as palavras à sua entrada, terminando com as palavras “. . . sob não menos dor do que ter minha língua cortada sob meu queixo e de ser enterrado dentro da estranha marca, onde nenhum homem saberá”. Parece que ele então recebia a palavra dada pelo Mestre. O MS. afirma que o texto acima pertence ao Aprendiz e que outros sinais e palavras pertencem a um Mestre Maçom ou Companheiro.

O Manuscrito Chetwode Crawley confirma que havia duas cerimônias diferentes, uma que se aplicava aos Aprendizes e outra aos Companheiros ou Mestres. Os autores consideram que “ambos os tipos de cerimônia operativa, aquela retratada no Catecismos, sem dúvida contribuíram para o desenvolvimento dos trabalhos atuais. . . ” e que “a evidência parece apontar para que membros operativos e não-operativos das Lojas escocesas e para o Maçom Aceito na Inglaterra, usavam um tipo combinado de cerimônia na segunda metade do século XVII.”

As Obrigações de um Maçom foram “resumidas” por Anderson para as suas Constituições de 1723, e orientadas “para serem lidas ao se fazer um Novo Irmão, ou quando o Mestre assim ordenasse”. Elas estão incorporadas ao NZ Book of Constitution (1974 Edition) 9-20. Knoop e Jones (op. Cit p. 235) acham que as Obrigações de 1723 não substituíram as Old Charges, e que essas últimas podem ter continuado em uso até meados do século XVIII.

Em 1734 ou 1735, “Uma curta obrigação a ser dada aos irmãos recém-admitidos” aparece no “Pocket Companion for Free-Masons” de Smith. Utiliza-se em parte do material das Constituições de 1723 com uma boa quantidade de material novo – Leia (op. Cit. Pp. 236 f.) – Os irmãos notarão que muito da substância das Obrigações aparece após a Iniciação na p. 84 do Ritual da Nova Zelândia; e outras partes dele também têm lugar em nosso Ritual.

A edição irlandesa do mês de maio seguinte contém uma Aprovação pela Grande Loja da Irlanda imediatamente após as Obrigações. As Obrigações são reproduzidas quase literalmente no Ahiman Rezon (Ed. 1756) pp. 35-38. As Obrigações agora usadas nos trabalhos irlandeses correspondem bastante de perto aos quatro primeiros parágrafos das Obrigações da N. Zelândia, mas omite completamente os três parágrafos restantes.

A Prece de Abertura, ou Prece de Admissão incorporava uma invocação à Trindade no Manuscrito Aberdeen de 1670 e diz-se que invocações formuladas de forma semelhante à Trindade ocorriam em todas as versões escocesas dos manuscritos maçônicos.

Nas “Constituições” de Penell, publicadas em Dublin em 1730, a “Prece a ser feita na abertura de uma Loja ou ao se “Fazer um Irmão” também é de caráter Trinitário. Este era o Livro das Constituições da Grande Loja da Irlanda; a prece provavelmente estava em uso na Irlanda e contém a essência da prece pelo candidato do Primeiro Grau, na pág. 41, do Ritual NZ.

Três formas alternativas de prece sobrevivem na coleção Rawlinson. Nenhuma delas contém uma referência específica à Trindade. Eles são provisoriamente datadas por volta de 1730 e devem ter existido antes de 1755, o ano da morte do Dr. Rawlinson. Uma delas está impressa na pág. 41 do Ritual da Nova Zelândia.

Os registros da Loja de Pesquisas, No. CC., Irlanda, para 1934-38 contém na p. 137 um artigo de Q Ir∴ Philip Crossly intitulou “Fazendo um Irmão, por volta de 1740”. Ele afirma, inter alia, que os primeiros catecismos não representam uma cerimônia ou ritual fixo; que a classificação da Fraternidade em Aprendizes, Companheiros e Mestres encontrada em “O Livro das Constituições, um deles publicado em Londres em 1723 e outro em Dublin em 1730” são estágios em vez de graus, e não devem ser confundidos com nossa prática atual; que “qualquer Cerimônia de Iniciação em 1730 só acontecia quando o aprendiz era ‘feito irmão’ e recebia a Palavra de Maçom, que significava que nossa fé em Deus se firma na força”; que o irmão era passado ao grau de Companheiro ao dar prova de sua proficiência no Catecismo, aparentemente sem cerimonial; e que ele alcançava a parte de Mestre, ou seja, Mestre da Loja, somente por mérito pessoal ─ “essa Parte deve ter sido inteiramente filosófica.”

Depois de notar isso, Maçonaria Dissecada de Samuel Prichard de 1730 foi frequentemente reimpressa e traduzida para o francês e alemão, apesar da denúncia da Grande Loja da Inglaterra em dezembro de 1730, nosso irmão comenta que “os maçons continentais parecem ter aceitado isso como representação do trabalho inglês ortodoxo”.

O funcionamento da Loja é descrito a seguir: após o Aprendiz ter assumido sua obrigação “era-lhe presenteado  um avental branco de pele de cordeiro com a abeta dobrada para dentro, um par de luvas brancas para ele e outro par para a senhora que ele mais estimava”. A abeta do avental ainda está dobrada para dentro nos trabalhos irlandeses.

AQC LXVI, pág. 107., oferece um relato contemporâneo dos trabalhos maçônicos que parece ter vindo à tona recentemente. Documentos originais do arquivo da Inquisição de Lisboa, descobertos e traduzidos por um membro do Ramo de Lisboa da Associação Histórica, e reproduzidos por cortesia daquela Associação, tratam do julgamento de John Coustos pela Inquisição. Os documentos mostram claramente que o tribunal se esforçou para fazer um registro completo e preciso de seus procedimentos.

John Coustos nasceu por volta de 1700, e antes de 1732 era membro de uma Loja de Londres , a Loja No. 75, hoje Loja Britânica, No. 33; e se tornou Fundador de outra Loja de Londres, a Loja No. 98, constituída em 17 de agosto de 1732 e existente até 1753.

Em 6 de outubro de 1742, um advogado denunciado depôs formalmente perante um Inquisidor “que cerca de um mês e meio atrás apareceram vários professores e adeptos nesta cidade da nova seita chamada ‘Maçons’ condenados pelos Sé Apostólica alguns anos atrás ”- isto sem dúvida se refere ao Bula do Papa Clemente XII em 1738 ″ – “e que o chefe destes é um inglês chamado Monsieur Coustos, Master Diamond Cutter. . . que é um herege. . . ” Ele dá os nomes de outros seis como “companheiros e seguidores da mencionada seita . . . todos franceses e católicos ”, e passa a dar mais informações.

Outro informante depôs em 11 de fevereiro de 1743, e o informante original, novamente, no dia seguinte. Nos dias 21 e 26 de março de 1743, foi registrada a Confissão de John Coustos, ocupando seis páginas da A.Q.C., e o Exame após a Confissão, em 30 de março de 1743, ocupando mais quatro páginas. Ele dá um relato muito completo das ações dos maçons, verdadeiro até onde se pode dizer. As referências ao Primeiro Grau são extraídas daqui – descrição nas páginas 112 e 113, ler: –

Parece que as cerimônias, embora menos elaboradas do que aquelas agora em uso, incorporam muito da substância de nossos atuais Primeiro e Segundo Graus. Diáconos não são mencionados, nem (com uma possível exceção) o Guarda Interno. O registro fala de mais instruções (aparentemente visuais) após a recreação, e parece transmitir que o período de recreação contava como parte do tempo durante o qual a Loja esteve aberta.

A formação da Loja também é descrita: “[..].ali existe…colocada uma mesa, longitudinalmente com três grandes velas de cera sobre ela na forma de um triângulo, a saber, duas nos dois cantos da parte superior da mesa e a outra no meio da parte inferior[…] À cabeceira da mesa está o Mestre principal de todos, e ao lado estão os outros Irmãos de acordo com seu grau, até o último lugar onde se sentam os chamados vigilantes.”. Esse arranjo de velas e cadeiras (considerando o formato diferente da mesa) aparece na Prancha IV na p. 112 do “Guia e Compêndio dos Maçons” de BC Jones.

In British Masonic Miscellany, Vol. IV, pp. 79-131, o Ir∴ Rev. HG Rosedale considera a Evolução do nosso Ritual antes da União (Primeiro Grau). Ele considera as “Exposições” como versões mais ou menos corretas do que realmente acontecia nas lojas, e está satisfeito que em 1724 todas as três cerimônias, de alguma forma, já existiam. Além disso, que as “exposições” do século XVIII indicavam que o ritual era um desenvolvimento gradual, e ele encontra as diferenças entre J. e B.Mahhabone (publicado em 1766), e Hiram sem importância, no que se refere ao ritual. Ele transcreveu onze páginas cifradas de “Chave Mestra” de Browne (1789) e descobriu que eram a parte das perguntas dos três cerimônias; e observa seu desapontamento ao descobrir “o quanto estava faltando para a descoberta de algo como o ritual completo”.

Posteriormente, ele obteve a Segunda Edição (1802), contendo as respostas, parte em cifra e parte em aberto, e considera a obra um “registro realmente confiável”. Infelizmente para o presente propósito, os três catequismos ocupam 1-80, e “Iniciação de um Candidato” apenas pp. 81-82. No pouco material disponível, ele retrata “com pelo menos alguma abordagem geral da verdade” o cenário de uma Loja Maçônica no período de 1800 a 1813. O Mestre estava colocado no Oriente, os Irmãos sendo divididos em duas linhas, ao Norte e ao Sul, e os Vigilantes na extremidade ocidental dessas duas linhas, e representando os dois pilares no pórtico ou entrada, o Primeiro Vigilante à direita e o Segundo Vigilante à esquerda do Mestre, o Segundo Vigilante estando, portanto, ao Sul “em relação ao Primeiro Vigilante e à Loja.”

Nosso irmão começa a ensaiar a cerimônia de iniciação “tomando a versão de Browne e melhorando-a com dicas. . . de formas mais antigas e não apenas do Ritual publicado por. . . Finch ”, em quem nosso irmão está preparado para confiar Ad hoc. O Candidato é admitido no ponto de a s ─- pi – – – t etc.

Na sua entrada, o S.V. vinha em seu auxílio e perguntava ao Guarda do Templo (Tyler) quem ele tinha ali. A resposta era dada muito como atualmente, o S.V. reporta-se ao Mestre e o Candidato é admitido. Depois da prece, etc., ele é conduzido de volta à Loja pelo S.V. e entregue ao P.V. no Ocidente. O P.V. pergunta “quem vem lá” e o S.V. responde nos termos usados anteriormente pelo Guarda do Templo . A cerimônia prossegue com pouca variação em relação ao uso atual, exceto que o P.V. leva o Candidato para o Oriente seguindo as instruções do Mestre.

Os “Antigos” parecem ter usado uma forma de Obrig. mais curta do que a presente, mas incorporando a maior parte do conteúdo. A Obrig dos “Modernos”. era ainda mais curta e parece incorporar as penalidades de mais de um grau, conforme usado hoje. Após a Obrig. o P.V., por ordem do Mestre, “mostra a luz ao Candidato”, assim como o S.V. faz atualmente. As fontes variam em detalhes quanto às Luzes Maiores e Menores e quanto à forma de investidura. Os segredos eram então comunicados e a colocação no canto NE era seguida.

Browne termina a cerimônia aqui, mas versões posteriores de J. e B. e Mahhabone continuam com as Ferramentas de Trabalho, “o desenho no chão” e sua lavagem subsequente pelo iniciado “se for feito com giz e carvão”, seguido pela Palestra do Aprendiz, principalmente um diálogo entre o Mestre e o P.V., com o objetivo de explicar ao iniciado, passo a passo, o significado esotérico daquilo em que ele participou.

Sendo assim, os vislumbres anteriores do ritual sugerem, na minha opinião, um fio bastante forte de continuidade dos Manuscritos, Constituições e Catecismos até a época da União.

Autor: A. L. Blank

Tradução: José Filardo

Fonte: REVISTA BIBLIOT3CA

image.png

Estimado leitor, contribuindo a partir de R$ 2,00 você ajuda a manter no ar esse que é um dos blogs maçônicos mais conceituados no Brasil e nossos podcasts O Ponto Dentro do Círculo e O Peregrino. Clique no link abaixo e apoie nosso projeto! Contamos com você!

https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Verdade e fé: as linguagens da catedral nos séculos XII ­ XIII

Catedral de Notre Dame - A catedral gótica mais famosa de Paris

A relação entre verdade e fé significava a aliança entre os homens e Deus na idade média. O compromisso com o divino tinha lugar num local sagrado onde transcorria o ritual da união simbólica, a igreja do cristianismo. Na passagem do século XII para o XIII, com o crescimento das cidades europeias, surgem as catedrais românicas e, posteriormente, as góticas. Nessa mudança, a grandiosa catedral gótica, a igreja do bispo, caracteristicamente urbana e moderna, passa a ser o espaço síntese das artes e o centro de toda a vida da urbe, sediando, inclusive, escolas e universidades. Sob a gestão dos arquitetos, chamados de doutores em pedra, as construções proliferaram e integravam os trabalhos dos artesãos de toda espécie, como os escultores, denominados de talhadores de pedra e os vitralistas. A dinâmica dos seus espaços abrangia também as performances religiosas, as gesticulações ritualísticas, a música e os cantos sagrados, e dispunha o altar como o palco principal do drama cristão

Verdade e fé. Duas palavras capazes de provocar uma discussão interminável. Na Idade Média, para os cristãos, homens e mulheres, ambas as palavras significavam fidelidade a Deus, a Aliança feita com ele, a misericórdia, a santidade e o mistério da Salvação. A palavra “amém”, que podemos traduzir como “assim seja”, no final de uma prece, exprime mais do que o desejo formulado: As palavras que acabam de ser pronunciadas são verdadeiras. Neste sentido, a palavra fé, significa, crer.

Faz-se necessário esclarecer que não podemos nos referir à Idade Média como um todo. Vamos nos deter em apenas dois séculos: o XII e XIII, na Europa ocidental, onde o sistema de crenças era profundamente distinto do atual. A verdade e a fé formam um só sentimento que não se faz presente apenas na prática religiosa e espiritual dos medievais. Constituem a essência da cultura política da sociedade feudal vassálica. O que significa isto? Uma sociedade sem mobilidade social, que se desenvolveu a partir de guerras, após a queda do império romano, dos campos devastados e uma profunda insegurança. Em meio ao caos, uma única instituição sobreviveu: a Igreja. Ela vai processar a síntese das duas culturas: a romana e a germânica. A fé está implícita na fidelidade, essencial nas relações homem a homem no medievo. De acordo com a etimologia latina, fides, quer dizer “palavra dada”. Isto é, estabelece a relação entre os homens, mediante a palavra dada e firmada, conforme descreve uma farta documentação desde a época dos merovíngios na França (finais do século V).

Com a urbanização da Europa, surgiram as grandes catedrais. Inicialmente as românicas, posteriormente as góticas. Os canteiros de obras se espalhavam nas cidades de maior importância. No comando do canteiro o arquiteto também é o responsável pela decoração. Ele estabelecia o programa que seria executado pelos que talhavam a pedra e delas faziam brotar as imagens. “Talhadores de pedra” como eram denominados os escultores de então. As imagens góticas se distinguem das românicas não apenas pelo conteúdo. Os intelectuais refletiam sobre o que estava em volta. Foi esta atenção voltada para o mundo real que foi transmitida aos construtores das catedrais. A natureza se fez presente nos capiteis góticos, diferenciando-se dos capiteis românicos, onde os elementos eram criados reproduzindo um mundo de criaturas e seres fantásticos. Nos capitéis góticos a cópia dos vegetais permite inclusive distinguir as espécies.

A igreja de Notre Dame constitui um belo exemplo do gótico. Todavia os capitéis da igreja que nos vemos atualmente foram restaurados por Viollet le Duc. A igreja como se sabe, foi atingida duramente pelos revolucionários. Viollet le Duc, esclarece a impossibilidade de a restauração recuperar a igreja original. Seja como for, os capiteis interagem com a arquitetura, participando da síntese das artes processada no interior do edifício. Não se trata apenas de uma decoração. Ao mesmo tempo, honram a presença do sagrado que é o elemento sintetizador. Todo lugar de culto é por natureza um lugar sacralizado. Não existe culto sem sacralização. Para os medievais as palavras em latim – decor e decus – possuíam um sentido específico. Não significavam nem decorar nem ornar. Para o Abade Suger de Saint Denis, implicavam em homenagear e exaltar.

Os séculos XII e XIII correspondem a uma Idade Média que avança na urbanização. São outros homens, outras mulheres. Mas a crença em Deus continua. Estuda-se “Deus”. E a cidade garante uma melhoria de vida, mas ao mesmo tempo é cercada por uma periferia de miséria. O poder da Igreja fortaleceu-se. Em cada cidade existe um bispo.

A pesquisa que venho desenvolvendo tem como objetivo explorar as linguagens da catedral. Para mim a linguagem possui um significado muito amplo. Concordo com Alphonse Dupront:

“A linguagem implica na multiplicidade de discursos falados e escritos, expressos plasticamente ou pela técnica; pelo gestual, pelos comportamentos, ou mesmo pelos silêncios”.

Neste amplo leque de possibilidades, o nosso foco direciona-se ao mesmo tempo para o discurso plástico e para o discurso litúrgico, buscando entender de que forma os dois discursos se encontram, interagem, e promovem sob o comando da arquitetura, novas linguagens que resultam na síntese das artes.

A síntese das artes é uma expressão vinculada ao século XX caracterizando a presença das manifestações plásticas em um espaço arquitetônico ou urbano. Ao me apropriar da expressão para falar da catedral medieval como espaço produzido pela arquitetura capaz de reunir as artes do medievo, em nenhum momento a expressão me pareceu inapropriada. O anacronismo é próprio da história. E o tempo das imagens não é necessariamente o tempo da história. Estou partindo do meu presente, e acredito que a expressão síntese das artes cabe muito bem no estudo das catedrais. A partir do momento em que o lugar do culto aumentou suas dimensões – distanciando-se da concepção de que a Casa de Deus se concebia espiritualmente – para construir templos monumentais, promoveu no seu interior, a síntese de todas as artes: não só a arquitetura (construção do edifício), mas a escultura (decoração de colunas internas e estatuárias nas fachadas), a pintura (colunas e vitrais, iluminuras dos evangelhos) e também a ourivesaria, música e as artes cênicas.

Este percurso não foi feito com rapidez. Inicialmente, os cristãos não se preocuparam com um lugar de culto. Foi a aliança estabelecida entre a Igreja e os Carolíngios, em particular com a política de Renovação do Império Romano, que propiciou uma ocupação de território por parte da Igreja. Ergueram-se gradualmente, e cada vez mais, igrejas, mosteiros, abadias e outros edifícios com funções e práticas vinculadas a Roma. Dominique Iogna-Prat, em um livro que se tornou rapidamente uma referência, intitulado La Maison Dieu, analisa como a construção de um Império cristão pelos carolíngios foi determinante para a Igreja. Até então, a “Casa do Senhor” não se apresentava como algo decisivo para os cristãos. O ritual celebrado ocorria de forma simples e em local, por muito tempo, minúsculo. Alguns historiadores alegam que os primeiros convertidos não possuíam meios e por isso se reuniam nas próprias casas para um culto muito simples. Mas, convém considerar também, que nos primeiros dois séculos, já haviam divergências a respeito da construção de um local para o culto. Para alguns o senhor “estava em toda a parte”. Logo não se fazia necessário erguer um templo.

Foi a partir da dinastia carolíngia que a Igreja adquiriu visibilidade terrena. Isto é, construíram-se lugares específicos para o culto e “o termo ecclesia se impôs como terminus technicus para designar a igreja-monumento, lugar consagrado segundo os termos de um ritual que se fixou por volta dos anos 840.” É interessante notar que pela construção das igrejas e mosteiros a igreja ocupa um território. Torna-se concreta. Uma
olhada no mapa do Ocidente europeu nos faz perceber que a partir do século IX o número das construções aumenta e se torna maior do que o número dos castelos fortalezas.

Foi nos ateliês fundados por Carlos Magno que nasceu no final do século X um novo estilo de arquitetura que veio a ser denominada de românica. Tratava-se de uma igreja grande, de grossas paredes e caracterizada desde o século XI por uma arquitetura que se faz reconhecer pelo emprego sistemático das arcaturas e de bandas lisas. Foram construídas em cidades que pertencem a um território onde a instituição monástica ainda é “uma força de organização e foco de ação. Em especial, a ordem de Cluny teve um papel político e moral importante. Foram eles que organizaram as peregrinações, levando a população a se movimentar pelos caminhos e percorrerem as cidades, onde a igreja românica é uma espécie de relicário imenso, aberto a todos. A igreja monástica desta época é ao mesmo tempo a igreja dos monges e dos peregrinos graças a ação dos beneditinos da Ordem de Cluny, (fundada em 910). As peregrinações foram muito importantes para as cidades, que passaram a ter uma catedral onde se abrigavam uma ou mais relíquias de santos. A construção das igrejas românicas na sua notável variedade de estilos regionais é o resultado de um processo que perdurou até o séc. XII, quando se iniciam as experiências góticas.

O gótico é, sobretudo, a arte das grandes catedrais (não que não tenham ocorrido catedrais românicas grandes). Mas as grandes catedrais se deslocaram para as cidades mais populosas, mais ricas, com mais recursos. Enfim, onde existissem estradas que levassem os materiais extraídos das pedreiras. Para alguns historiadores da arquitetura, a arte românica e a arte gótica não são sucessivas. Não decorrem naturalmente, uma da outra. A arte românica pertence a uma ordem antiga, ligada a um passado histórico, enquanto o gótico se origina da pesquisa que resulta em uma arte que vários historiadores consideram “essencialmente moderna”.

A catedral gótica é a igreja do bispo. Uma igreja urbana que responde a uma liturgia mais complexa e exige um espaço grandioso para se realizar em toda sua expressão. O seu público é diferenciado. Isto é, constituído por indivíduos que moram na cidade. Os seus doadores possuíam uma profissão: eram artesãos os mais diversos, médicos (barbeiros), professores, livreiros, comerciantes. Estes habitantes que dominavam a vida da cidade econômica e socialmente, não entravam na catedral apenas para rezar. No seu interior se reuniam as confrarias e se realizavam as assembleias civis das quais toda a comuna participava. A catedral centralizava toda a vida urbana”. Graças às suas proporções, era nela que toda a população encontrava refúgio em caso de catástrofes naturais e guerras. Esta ideia de centralidade se mantém ainda hoje: a catedral de Notre Dame é o Km 0. O ponto de partida para toda a França.

Como sabemos, as cidades eram nesta época fortificadas. Isto é, fechavam as portas ao escurecer indicando claramente a grande importância econômica que haviam adquirido e o cuidado dos seus moradores com a proteção dos bens e das riquezas ali guardadas. Neste cenário, a Igreja, parte dominante da urbes, domina pela palavra, pelos dogmas, pelas regras e pela edificação da ética. Cada cidade demonstrava a sua importância econômica, social e política pela grandiosidade da catedral que podia construir – o que era naturalmente, proporcional às doações que recebia. A construção das catedrais alcançara uma monumentalidade impressionante. Ao mesmo tempo, passaram a ser construídas com maior rapidez. E isto tem uma boa explicação: no interior das mesmas, além dos locais citados acima – nos quais os habitantes não se reuniam para a prece -, cada catedral possuía uma escola, uma universidade.

São os arquitetos que comandam e promovem a síntese das artes na construção das catedrais. No século XIII, os primeiros arquitetos assinam suas obras e são respeitados como mestres das escolas. Eles se auto denominam “doutores em pedra”. O ensino no mundo urbano distingue-se profundamente do ensino anteriormente ministrado nos mosteiros, que apesar da imensa importância, estava voltado para si mesmo. No interior da catedral, as escolas e as universidades se abriam para o mundo. Para Georges Duby, esta

“É a razão que concebe a catedral, que faz aí se coordenarem conjunto séries de elementos discretos. Esta lógica se faz cada vez mais rigorosa e o edifício cada vez mais abstrato”

Panofsky destacou, entre as consequências importantes que a deslocação da educação para o âmbito urbano provocou no conhecimento, o caráter cosmopolita das escolas catedrais, universidades e as studia das novas ordens mendicantes. No clássico, Arquitetura Gótica e Escolástica, ele afirma que a escolástica detinha o monopólio da formação intelectual no âmbito restrito em torno de Paris. Distinguiu o arquiteto da cidade do arquiteto monástico. O primeiro aprendia o seu ofício e desde o início supervisionava suas obras pessoalmente. O papel predominante do arquiteto na condução dos trabalhos se revela pela atenção e pelo contato estreito com os escultores, pintores de vidro, entalhadores e outros. Era ele, o arquiteto, que os contratava e supervisionava pessoalmente, transmitia os projetos e o programa iconográfico.

O abade de Saint Denis considerou que a decoração era necessária por contribuir para a doutrina e participar do ritual. No exterior da catedral, as imagens nas portas e nas fachadas exerciam uma função pedagógica. As decorações podiam manifestar as hierarquias, divisões internas e polaridades do lugar da igreja. No espaço arquitetônico, as imagens se espalhavam, estruturando o espaço interior. Entretanto, ao meu ver, a distribuição das imagens não é tão aleatória. A relação de uma imagem, ou mesmo de um conjunto de imagens ao ritual, pode possuir um significado. É o caso principalmente das imagens do altar e mesmo dos nichos que se encontram nas laterais, na porta e no tímpano.

O crescimento das cidades, movido pela economia dos mercadores e do comércio, favoreceu a concentração das principais atividades urbanas na catedral, que era ao mesmo tempo escola e centro da urbes. Não importa se os arquitetos do gótico não tenham lido Gilberto de La Porree ou Tomás de Aquino no original, conforme considerou Panofsky. O que importa é que de qualquer forma, entraram em contato com o ideário escolástico por outros escolásticos e pela circulação das ideias. É possível que nem tenham percebido que, por força de sua atividade, tinham de trabalhar com quem esboçava os programas litúrgicos e iconográficos, isto é a própria Igreja.

De acordo com George Duby,

“A catedral gótica nasceu destinada a ser magnífica, por que é a morada de Deus, porque é o símbolo dos poderes espiritual e temporal. Para que a igreja do bispo fosse o coração da cidade e não uma cidadela fechada, reservada a clérigos. Os programas e os custos foram pensados, a racionalização do trabalho concebeu que os espaços litúrgicos fossem rapidamente abertos aos ofícios e ao curso anual das festividades e que o fluxo de rendimentos que os acompanha não sofresse interrupções”.

É neste contexto, que se inserem os Tratados de liturgia. No século XIII, o arcebispo de Mende, Guillaume Durand (cerca de 1230-1296), redigiu um dos mais importantes tratados de liturgia da Idade Média de que se tem notícia: O Rationale Divinorum Officiorum (Análise racional do serviço divino). A obra está inserida na longa tradição de interpretação alegórica da liturgia. O manuscrito que se encontra na BNF (Paris) possui oito livros que tratam da igreja, da hierarquia clerical, do vestuário litúrgico, da missa, do ofício divino, dos ofícios do domingo, das festas, dos santos e das finanças. Ou seja, repete várias passagens de outros tratados litúrgicos (conforme referência acima). Sua repercussão foi excepcional para a época: As fontes indicam mais de 200 manuscritos que datam da Idade Média. Para que se tenha uma ideia da importância do Tratado, em 1457 ele foi um dos primeiros manuscritos a ser impresso em Mogúncia, no mesmo ateliê onde dois anos antes foi impressa a Bíblia de Gutenberg. Quase um século mais tarde, o Tratado de Durand se mantinha atual, a tal ponto, que o rei Carlos V, em 1374, encomendou a Jean Golein a sua tradução para o francês. O códice foi iluminado à altura de um rei. As iluminuras revelam a riqueza dos materiais que percorrem os fólios do manuscrito, embelezando-o no sentido caro aos medievais.

Na abertura do texto traduzido, uma grande iluminura, com motivos vegetais de estilo italiano, enquadra o manuscrito, representando o momento em que Durand entrega o manuscrito ao rei Carlos V em 1374, de acordo com o prólogo (f. 1-2v); os fólios 28-34 se referem ao Tratado do Sagrado, definindo que sagradas são “todas as coisas que pertencem ao divino ofício, tanto ornamentos como quaisquer outras coisas”, confirmando o abade Suger.

Os sete livros do tratado dão uma ideia da obra. Tratam dos lugares, dos ornamentos, da consagração e dos sacramentos. Voltam-se inicialmente para o próprio edifício, sua arquitetura, que deve ter como função a rememoração da vida e da morte de Cristo. Ou seja, é aí, na arquitetura, que o cerimonial ganha a materialidade que está na própria pedra, seguindo a rigor o tratado litúrgico. Tanto a construção como as esculturas obedecem ao tratado. Não se trata de um edifício comum, mas de um edifício sagrado, onde se celebram vários rituais. A catedral recebe a todos. Inclusive o Rei. Por isso, é possível dizer que na catedral gótica se reúnem os dois poderes: o espiritual e o temporal.

O exame cuidadoso da planta interna de uma catedral, independente do seu estilo, evidencia um plano que revela o itinerário a ser percorrido, onde os personagens repetirão os mesmos gestos, as mesmas palavras e ao som da música instrumental e dos hinos realizam sempre a mesma performance. O figurino dos sacerdotes faz parte do ritual que é celebrado. A igreja todavia não é apenas uma arena teatral. É concebida como um locus, uma Terra sancta. Isto significa que ela é consagrada, tornando-se apta a realizar todos os demais sacramentos. A planta é em cruz romana orientada para o Ocidente. Nela estão localizados os lugares dos participantes e o seu ponto mais importante, o altar. É dentro deste pensamento que a arquitetura realiza uma das funções da igreja. Mas não é a única. Não podemos esquecer que os moradores da cidade não entravam nas catedrais apenas para rezar. No interior, da igreja monumental, construída com as suas doações (conforme salientamos acima), reuniam-se também, para outras atividades. A catedral dominava a cidade, era a própria cidade, a casa de todos.

As formas românicas ou góticas não produziam sobre os medievais o mesmo sentimento estético que podem provocar em qualquer um de nós, independente da crença religiosa, ou mesmo da ausência de fé. Para os homens e as mulheres da Idade Média, aquele edifício, possuía uma função importante, central na cidade. Isto porque para essas pessoas, o invisível possuía a mesma realidade do visível. Para elas, a vida não terminava com a morte. Elas acreditavam na eternidade. A relação visível e invisível, vida e morte era lembrada logo na entrada da igreja. As igrejas dos séculos XII e XIII trazem, ocupando todo o pórtico, esculturas em relevo que reproduziam a cena do juízo final (onde todos compareceriam, incluindo o clero, a realeza e a aristocracia). Na pedra o Cristo em majestade julgava os mortos, enquanto anjos e demônios realizavam uma triagem tomando cada um a parte das almas que lhes cabia. Ao lado, a Virgem Maria advogava a causa dos justos.

Outros temas bastante divulgados são o do Apocalipse, Pentecostes e o da Ascenção.

O pórtico possuía um valor simbólico extraordinário na medida em que constituía uma área de fronteira entre o sagrado e o profano. O simbolismo da porta representa a palavra do próprio Cristo. Em um sermão, Agostinho afirmou: “Cristo é a porta”, repetindo as palavras ditas por Jesus (Eu sou a porta). Nessa entrada, o profano e o sagrado ora se enfrentavam, ora buscavam a conciliação. Aí também, o mesmo discurso litúrgico que ditava regras para a arquitetura, separando territórios no interior, traçando itinerários para os peregrinos, promovia também cerimônias religiosas que possuíam um papel social importante. Na porta da catedral, realizavam-se procissões e demais festas determinadas pelo calendário litúrgico, tal como os domingos de ramos e da Páscoa. Aí também ocorrem importantes encenações como a da paixão. O discurso litúrgico tem, portanto, papel fundamental na sintetização das artes. É este discurso que subsidia e dita as regras. Ë segundo as suas determinações que se constrói, se esculpe e se pinta o cenário em que se fala, se cala, se canta, se senta e se levanta. Os tratados litúrgicos mencionam também os rituais internos, que se processam no interior da catedral em lugar determinado, tais como batizados e ofício dos mortos.

Contrariamente ao que se costuma pensar, os medievais não se sentiam pertencendo a um mundo de trevas. Os homens e as mulheres da Idade Média acreditavam que Deus é luz. A vivacidade da luz obtida com o vitral da catedral gótica, que já existia no românico, foi prolongada até a abóboda. A construção da catedral submetida à luz repousa na tradição de um discurso de longa duração, no qual se destacam nomes como o de Suger, mas, bem anteriormente, o do Pseudo Dionísio. As rosáceas são próprias à arquitetura gótica. São três rosáceas em Notre Dame que fazem com que o altar fique cada vez mais iluminado à medida que a pessoa se aproxima. São construídas com vitrais, o que produz um efeito especial na luz.

Simbolicamente, pode significar a caminhada do fiel em direção à luz.

Finalmente, a música e o jogo de luz e cores promovido pelos vitrais interagiam no cenário propiciando o desenvolvimento da performance, de acordo com o discurso do evangelho que determina os movimentos e os gestos do ou dos celebrantes e da plateia. – Vários historiadores da arte, entre eles Jean Claude Bonne, fazem referência à performance que compõe o ritual cristão.

Dois relicários de marfim provenientes respectivamente de Cambrigde e de Frankfurt, datados do século IX, e que se encontram atualmente no museu do Vaticano, representam o momento da celebração de uma missa, termo específico utilizado apenas pelos católicos. A missa é um ofício litúrgico no decorrer do qual os indivíduos presentes atualizam a última ceia que antecedeu a crucificação de Jesus. O ritual se divide em duas partes, como vimos nas representações dos relicários: primeiro, a liturgia da palavra: Isto é a leitura dos textos bíblicos, o sermão, as preces de suplicação e os cantos que também podem ser recitados; a segunda parte é composta pela liturgia da eucaristia que começa pela oferenda do pão e do vinho e, em seguida, pela consagração de ambos e repartição entre os presentes. Isto é a comunhão precedida pela prece do Agnus Dei (Cordeiro de Deus). A cerimônia é concluída pela formula Ite missa est (A missa é dita).

Na primeira parte da liturgia da palavra, o Livro, o evangelho representa a palavra de Deus. No códice, seguidamente em tamanho A4, os fólios em pergaminho iluminados são costurados à mão. A capa pode ser em madeira, marfim e prata; em ouro, com o uso ou não de pedras preciosas e esmaltes.

Em tal cenário, o altar possui um papel essencial. Sobre ele, um conjunto de objetos – cálice, patena, evangelho – adquirem no momento apropriado a sua função. O altar do cristianismo está ligado à tradição judaica do sacrifício de um cordeiro no período da Páscoa. O cristianismo serviu-se de tal tradição em muitos aspectos, legitimando a vinda do Salvador ao mundo dos homens. A importância do altar é enfatizada pelo Antigo Testamento, no Gênese (Abraão Gn 12,7 e Jacó Gn. 12,7) no Exodus (Moisés Ex 20,24) e no Livro de Esdras ( Esd 3,2-3). O altar do Antigo Testamento é construído de pedra. Com a expansão do cristianismo, fiel a tradição judaica, a pedra se tornou por excelência, o material do altar. A palavra altar está vinculada a montanha – lugar sagrado de muitas crenças – lugar alto, onde ocorre a manifestação do sagrado (a teofania).

No interior da igreja, o altar une a palavra à eucaristia, referenciando-se a mesa da Páscoa. O altar é, portanto, o palco principal do drama cristão. Nele são feitas as narrativas e é atualizada uma das cenas mais importantes da história cristã.

Autora: Maria Eurydice de Barros Ribeiro

Fonte: Revista Estética e Semiótica / Volume 7 / Número 2

Screenshot_20200502-144642_2

Só foi possível fazermos essa postagem graças à colaboração de nossos leitores no APOIA.SE. Todo o conteúdo do blog é disponibilizado gratuitamente, e nosso objetivo é continuar oferecendo material de qualidade que possa contribuir com seus estudos. E você também pode nos auxiliar nessa empreitada! Apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos blogs maçônicos mais conceituados no Brasil. Para fazer sua colaboração é só clicar no link abaixo:

https://apoia.se/opontodentrodocirculo