O Primeiro Maçom Especulativo

A imagem da Marca do Maçom de Robert Moray, desenhada por ele mesmo.

Elias Ashmole (1617-1692) não foi o primeiro Maçom Especulativo. Nem o segundo, terceiro ou décimo! Os primeiros Maçons Especulativos foram William, Lorde Alexander, e seu irmão Anthony Alexander (o Mestre dos Trabalhos do Rei) e o Senhor Alexandre Strachan de Thornton. Eles foram iniciados no terceiro dia de julho de 1634, na Loja de Edimburgo, isso é mais de 12 anos antes de Elias Ashmole[1] Para entender a importância disso e marcar a iniciação de Ashmole no contexto, vamos fornecer algumas informações fundamentais.

No período desses eventos, a Escócia era um país inteiramente independente da Inglaterra. A União das Coroas em 1603 (James VI da Escócia se tornou James I da Grã-Bretanha) pelos reinos da Escócia e Inglaterra não uniu os dois países por completo. Por exemplo, a Escócia manteve seu próprio Parlamento, sistema monetário, leis, religiões e, claro, a Maçonaria. Em 1534, Henrique VIII da Inglaterra instituiu a reforma religiosa, se colocando como a cabeça da Igreja no lugar do Papa de Roma. A sua motivação era anular seu primeiro casamento com Catarina de Aragão e a recusa do Papa em prover tal anulação. O motivo era mais legal, jurisdicional e político do que religioso[2]. Uma vez estabelecido, Henrique aproveitou a oportunidade para confiscar a maior parte do dinheiro e propriedades da Igreja. As organizações que deram suporte e encorajaram a pré-Reforma religiosa foram abandonadas, seu dinheiro e propriedades foram confiscadas e isso incluiu as Guildas Inglesas. A situação na Escócia era um tanto diferente. A Reforma Protestante iniciou em 1559 e era de natureza religiosa. A Igreja Católica e muitas de suas práticas foram substituídas por um novo sistema religioso completo, baseado no Calvinismo. E tem mais! Diferente da Inglaterra, as Guildas Escocesas (conhecidas como Incorporações), não foram abolidas mas seu suporte religioso à pré-Reforma da Igreja simplesmente se encerrou quando a nova fé Protestante foi estabelecida [3].

As Incorporações Escocesas (diferente das extintas Guildas Inglesas) funcionaram na Escócia antes e depois da Reforma [4]. A principal proposta das Incorporações era de promover os interesses de seus membros. Considerá-las como uma forma primária de “sindicato empregatício” explica o que elas eram à época, mas elas faziam mais do que simplesmente negociar com empregadores. Elas eram responsáveis por regular o ofício de seus membros e estender seus trabalhos controlando pagamentos, supervisionando a qualidade do serviço, gerenciando os termos de aprendizado, promovendo funerais de membros falecidos, cuidando de suas viúvas e órfãos e também promovendo a moral de seus membros.

Todos os grandes ofícios tinham suas Incorporações, incluindo os Baxters (padeiros), Cordiners (sapateiros); Fleshers (açougueiros); Hammermen (ferreiros); Wobsters (tecelões); e claro os Masons (trabalhadores de pedra). Quando novos membros eram admitidos a uma Incorporação, certos segredos eram comunicados para cada um deles [5]. Entretanto, e mais importante, somente a incorporação dos Maçons tinha um nível adicional – a Loja. Nesse ponto os Maçons eram únicos. A razão porque um corpo extra era necessário se dava ao fato de que a Incorporação de Maçons também incluía outros ofícios como os Wrights (carpinteiros) e Coopers (produtores de barris) e comunicar os segredos dos trabalhadores de pedra não podia ser realizado onde havia a presença de não-Maçons. A Loja era então o lugar onde os segredos eram transmitidos dos Trabalhadores de Pedra para os Trabalhadores de Pedra e a ninguém mais. Incorporações eram parte conhecida e aceita da sociedade escocesa, elas eram a parte pública dos Maçons mas a Loja era o Segredo – a face privada do Ofício. As Incorporações mantiveram registros de seus trabalhos, já as Lojas não.

Isso mudou em 1598 quando o Mestre dos Trabalhos do Rei (“King’s Maister o’ Wark”), William Schaw (c. 1550-1602), escreveu o que é hoje conhecido como o Primeiro Estatuto de Schaw e foi seguido pelo seu Segundo Estatuto em 1599. Por causa deles Schaw é conhecido como o Pai da Maçonaria Moderna. Sem entrar em detalhes sobre esses documentos, é importante entender que eles eram instruções endereçadas para todas as Lojas na Escócia. Contém um grande número de informações interessantes sobre as Lojas de Maçons, mas é importante aqui marcar que eles formalizam uma organização já existente. Schaw entendia seu trabalho como sendo ele o encarregado de uma ordem de Lojas espalhadas pela Escócia que eram controladas de forma informal, até desorganizadas. Seus Estatutos instituíam um sistema organizado, que incluía a manutenção de registros e é por isso que o mais antigo registro de uma Loja só veio após seu estatuto [6].  O estabelecimento de um sistema nacional de Lojas de Maçons foi, sem dúvida, para o benefício do próprio Schaw, pelo ponto de vista da eficiência, mas também que os estatutos foram atualmente um subterfúgio para assuntos esotéricos que o espaço aqui não nos permite debater. Schaw morreu em 1602 deixando um sistema nacional de Lojas, como detalhado em seus Estatutos, que conseguimos ver a continuidade até os dias atuais [7].

Uma das inevitáveis consequências das instruções de Schaw foi que as Lojas se tornassem fixas, permanente, instituições. Elas não seriam mais casuais, encontros quando necessário (normalmente para iniciar um candidato ou conduzir os trabalhos de uma Loja). Depois da morte de Schaw, as Lojas agora se reúnem em dias específicos (a principal reunião anual sendo no dia 27 de dezembro – o Festival de São João Evangelista) e mantém registros. Um grupo de homens agora identificável, que se reunia com certa regularidade, com certeza atraiu atenção da sociedade. Se essas Lojas admitiam não-operativos antes que Schaw as formalizasse, não teremos como saber, visto que não se mantinha registros escritos até que os Estatutos as instruísse a fazê-lo. É um pensamento muito interessante, embora especulativo, que Schaw possa ter sido o primeiro não-operativo (um Maçom Especulativo) a ser iniciado em uma Loja.

Assim que Lorde Alexander, seu irmão e um amigo se tornaram membros da Loja de Edimburgo, outros não–operativos também se juntaram à Loja. Em 1635, Archibald Stewart de Hesselsyd se tornou membro. Ele foi seguido por David Ramsay (um “servo especial” do Rei – que agora era Charles I (1600-1649)) em 1637 e mais tarde, naquele ano, Alexander Alerdis se juntou à Loja. Henry Alexander (o irmão do Lorde Alexander e Anthony que foi admitido na Loja em 1634) se tornaram membros da Loja em 1638 [8].

A iniciação desses não-operativos é de grande importância para a compreensão da origem e desenvolvimento da Maçonaria Moderna mas, a iniciação do Sr. Robert Moray (1608/09-1673), em 1641, é ainda mais importante por vários motivos. Ele foi o primeiro Maçom Especulativo a ser iniciado em solo inglês.

Resumidamente, Moray fazia parte do exército inglês que ocupou, após o cerco a Newcastle, a Inglaterra, durante a chamada “Guerra dos Bispos” (1639-1640). Membros da Loja de Edimburgo foram pioneiros contratados pelo exército para o trabalho de construir pontes e fortificações e realizaram uma reunião especial para iniciar Moray e outro general do exército, Alexander Hamilton. Não há nada de especial nisso, já que era uma prática conhecida como “inscrições abertas”, conforme atestado por várias Iniciações similares vistas em vários registros de Lojas. Também está de acordo com o velho costume da Maçonaria Escocesa de crer que uma Loja não possui um lugar fixo, mas que uma Loja é uma reunião de homens que pensam juntos e se unem para os propósitos da Maçonaria. Este registro da iniciação de Moray significa que ele foi feito Maçom cinco anos antes de Ashmole.

Moray foi o principal entusiasta da Fundação da Royal Society e tornou-se seu primeiro presidente. A reunião inaugural da sociedade foi realizada na quarta-feira, 28 de novembro de 1660, no Colégio Gresham, em Londres, com a presença de 12 eminentes cavalheiros. Ashmole não era um deles. Esses 12 prepararam uma lista de 40 outros emitentes cavalheiros para serem convidados para se unirem a nova sociedade. Ashmole estava na lista e, portanto, embora fosse um dos primeiros membros da Royal Society, não era membro fundador [9]. A Royal Society ainda realiza sua reunião anual no dia de Santo André (30 de novembro) em homenagem ao seu primeiro presidente Escocês [10]. Moray e Ashmole devem, portanto, ter se encontrado, mas não existe nada que eleve a natureza de seu relacionamento. Se eles já discutiram sobre Maçonaria também é desconhecido. A ausência de provas pode, ocasionalmente, fornecer algumas hipóteses, pois elas nos permitem comparar o “silêncio” com algo que é conhecido.

Como vimos, Moray foi iniciado em uma Loja fixa, permanente, como as dirigidas por William Schaw em seus estatutos [11]. Ashmole, em comparação, foi iniciado em uma Loja cuja evidência de sua existência é uma anotação antiga em seu diário pessoal. Parece, portanto, que a Loja em Wattington, Inglaterra, era na melhor das hipóteses uma Loja ocasional, e consequentemente muito diferente das Lojas Escocesas. Se elas trabalhavam da mesma forma, ou mais especificamente, se conduziam as mesmas cerimônias de iniciação é um segredo. É dito que não sabemos nada sobre os rituais maçônicos em uso antes de 1717 [12]. Isso é incorreto pois há uma grande quantidade de material escrito sobre esse mesmo assunto [13]. Estes rituais compreendem uma família de documentos muito semelhantes, dos quais o Edinburgh Register House MS de 1696 é o mais antigo deles [14]. A existência desses rituais nos permite ver o formato das cerimônias usadas por Lojas na Escócia antes da existência de qualquer Grande Loja e aumenta as questões sobre que tipo de cerimônia Ashmole experimentou. Foi a mesma praticada nas Lojas Escocesas? Se sim, então ele teria sido iniciado como Moray, no “Estilo Escocês”. Se não, então não estava de acordo com a prática estabelecida à época.

O interesse de Ashmole na Maçonaria era, na melhor das hipóteses, fugaz. Seus diários detalhados e meticulosos mostram que ele foi “iniciado” em Warrington em 16 de outubro de 1646. Ele nunca mais compareceu a uma reunião em Loja. A única outra ocasião maçônica relacionada a Ashmole é novamente encontrada em um diário de 1682 quando ele participou de uma reunião de Maçons na Mason’s Livery Company (algo como Companhia de Maçons de Panelas). A carreira maçônica de Ashmole está em forte contraste com os Maçons especulativos mencionados acima, que continuaram a frequentar as reuniões da Loja por vários anos após sua Iniciação, sendo impedidos somente durante a guerra. Ashmole não escreveu nada sobre a Maçonaria além das duas breves entradas em seu diário. Moray, por outro lado, escreveu uma grande quantidade, principalmente descrevendo e interpretando o uso da Marca do Maçom e o que a Maçonaria significava para ele [15]. Ele não revelou o que poderia ser considerado um segredo Maçônico e não estava preocupado com as pessoas o reconhecendo como Maçom [16]. Em comparação a Ashmole, Moray considerava seu ingresso a uma Loja muito importante, e a Maçonaria e, particularmente, sua Marca de Maçom com um símbolo místico significante.

Moray e Ashmole compartilhavam algo em comum – o interesse em alquimia. Moray construiu um laboratório de alquimia no Palácio Whitehall. Os quartos foram doados pelo Rei. Ele era amigo pessoal de Charles II (1630-1685) e foi essa amizade fundamental para obter a aprovação para a Royal Society em 1662 [17]. Um de seus experimentos foi a tentativa de extrair chumbo de uma rocha e depois de transformar esse chumbo em prata. Nisso ele foi parcialmente sucedido e relatou os resultados do experimento para a Royal Society.

Conclusão

Podemos ver no breve resumo do sistema de Lojas Escocesas descrito acima que mais de 100 anos antes da existência de qualquer Grande Loja, as Lojas de Maçons Operativos já iniciavam não-operativos. Eles o fizeram por uma variedade de razões e uma vez feito, nunca mais pararam a admissão de não-operativos em suas Lojas. A Maçonaria Especulativa Moderna nasceu entre várias adições, mudanças e elaborações. A mudança nas Lojas de Operativos para Lojas Maçônicas Modernas é conhecida como a “Teoria da Transição” e é algo que pode ser visto claramente nos registros escritos das Lojas Escocesas. Os detalhes dos indivíduos reais, Maçons Especulativos, iniciados já em 1634 são parte da evidência escrita. Informações como essa destacam a importância desses registros das Lojas.

Para aqueles que desejam saber mais sobre os primeiros dias da Maçonaria Moderna, não posso fazer melhor do que recomendar os trabalhos do professor David Stevenson. São eles: As Origens da Maçonaria – O Século da Escócia (1590-1710), disponível em português, encontrado em Sebos) e O Primeiro Maçom – As Primeiras Lojas Escocesas e seus membros (The First Freemasons – Scotland’s Early Lodges and their members), infelizmente ainda não traduzido para o português .

Autor: Robert Cooper
Traduzido por: Rodrigo Menezes

Fonte: Ritos & Rituais

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Notas

[1] – A Loja ainda existe é é conhecida como a Loja de Edimburgo da Capela de Maria (Lodge of Edinburgh Mary’s Chapel), No. 1. Os registros da Loja são de 31 de julho de 1599 e continuam até a presente data.

[2] – O Ato de Supremacia de 1534 encerrou a autoridade Papal sobre a Igreja na Inglaterra e transferiu-o para a Coroa.

[3] – Muitas dessas incorporações continuam a existir na Escócia até os dias atuais, incluindo, por exemplo, a Incorporação dos Maçons de Glasgow que possui registros existentes de 1475. Eles agora não confinados a corpos de caridade.

[4] – Existe muito poucas referências a Lojas antes da Reforma mas o mais importante ocorre em 1491, quando Maçons de Edimburgo foram permitidos a usarem a Loja para “assuntos recreativos”. Veja o Apenso 1, O Mágico Maçônico (The Masonic Magician), pag. 246.

[5] – Por exemplo um membro de uma Incorporação dos Ferreiros de Dundee foi expulso em 1653 por revelar os segredos do ofício a um não-membro. Veja The Burgh Laws of Dundee, pag. 493.

[6] – A primeira dessas Lojas foi a Aitcheson’s Haven que começa em 09 de janeiro de 1599.

[7] – As estátuas foram recentemente reproduzidas no The Rosslyn Hoax?, Apenso 1 e 2. pags. 330 – 335.

[8] – Later the 2nd Earl of Stirling.

[9] – Veja: ‘From Elias Ashmole to Arthur Edward Waite’ em Philalethes, Winter 2011, págs. 22 – 23.

[10] – Santo André é o Santo Padroeiro da Escócia.

[11] – Por essa razão que elas são ocasionalmente referidas como as “Lojas de Schaw”.

[12] – Veja: ‘From Elias Ashmole to Arthur Edward Waite’ em Philalethes, Winter 2011, pág 24.

[13] – Esses rituais ou catecismos foram descobertos desde 1930 quando o mais antigo deles, o Edinburgh Register House MS datado de 1696 foi descoberto e anunciado ao mundo Maçônico na ‘Ars Quatuor Coronatorum’ (AQC) Volume 43, págs. 153 – 155. (Esse é o jornal anual da Loja Quatuor Coronati, No. 2076 a mais antiga Loja de Pesquisa do mundo).

[14] – Outros Rituais pré-Grande Loja nessa família são documentos datados de 1700, 1705, 1710 e 1715.

[15] – Esse debate está contido em Kincardine Letters escrito entre 1657 – 1659.

[16] – Pelo ponto de vista histórico, é uma pena que ele não discorreu sobre qualquer aspecto dos rituais da Loja incluindo os tão chamados “segredos” mas talvez isso tenha ocorrido indicação que ele levou do seu juramento (obrigação) ao coração.

[17] – A Sociedade foi, de fato, garantira por três cartas Reais: 1662, 1663 e 1669 todas durante o tempo de vida de Moray. Na segunda delas “o próprio Rei se declara Fundador e Patrono da Sociedade”.

O maçom Simón Bolívar: entre o mito e a verdade histórica – Parte II

Geopedrados: Simón Bolívar nasceu há 238 anos

Bolivar, maçom. Sua iniciação

Deixando de lado as características políticas e não maçônicas das lojas Lautaro, Cavaleiros Racionais ou o que você quiser chamá-los, e ignorando até o fato não comprovado de que Bolívar tinha seus contatos com ditos cavaleiros racionais em Cádiz ou Londres, por curiosidade ou convicção. A verdade é que Bolívar, algo que não pode ser provado no caso de Miranda[42], pertencia à Maçonaria europeia pelo menos durante sua breve estada em Paris nos anos 1804-1806.

Ao dispensar as hipóteses de trabalho mais ou menos sugestivas, se nos atermos à documentação maçônica preservada, Simón Bolívar foi iniciado na Maçonaria, embora não se saiba onde. Já que o primeiro documento nos é apresentado no ato de receber o grau de Companheiro Maçom, ou seja, do segundo grau. Trata-se de um documento manuscrito do qual falam Carnicelli e Seal-Coon[43], de propriedade do historiador venezuelano Ramón Díaz Sánchez, que certificou sua origem e titularidade antes de depositá-lo no Conselho Supremo do Grau 33 da República da Venezuela.

O documento em questão diz o seguinte:

À Glória do Grande Arquiteto do Universo. No dia 11 do 11º mês do ano da Grande Luz 5805 [44] as obras do Companheiro foram abertas a Leste pela R. hº de la Tour d’Auvergne, a Oeste e a Sul sendo iluminadas pela RR. H H. Thory e Potu. Feita e sancionada a leitura da última última prancha traçada, o Venerável propôs elevar o patamar de Companheiro ao Hº Bolívar recentemente [45] iniciado, por causa de uma viagem que se aproxima que está em vésperas de empreender. Tendo sido a opinião dos irmãos unânime em sua admissão e escrutínio favorável, hº Bolívar foi introduzido no templo, e após as formalidades de rigor prestou a costumeira obrigação ao pé do trono, situado entre os dois Vigilantes, e foi proclamado cavaleiro Companheiro Maçom da R. Loja Madre Escocesa de Santo Alexandre da Escócia. Este trabalho foi coroado com uma tripla aclamação (hurra) [46] , e o hº tendo dado graças tomou lugar no topo da Coluna do Meio-dia.

Os trabalhos foram encerrados da maneira usual

Em seguida, vêm oito assinaturas, incluindo a de Simón Bolívar. Este é um excerto das atas da Loja Santo Alexandre da Escócia [47], localizada em Paris “no subterrâneo (porão) do boulevard Poissonnière” segundo Coen-Dumesnil e na rua Coq-Heron, segundo Jacques Simon [48]. Nesse excerto se diz que o Venerável se propõe a subir à categoria de Companheiro o Irmão Bolívar, recém-iniciado, por causa de uma viagem que está prestes a fazer. Acrescenta que, após as formalidades exigidas, Bolívar foi proclamado cavaleiro Companheiro Maçom, tomando lugar no topo da coluna do meio-dia. Estamos diante de um ato ou documento maçônico datado do 11º mês do ano da Grande Luz 5805, que equivale a janeiro de 1806 da Era Vulgar, se levarmos em conta que o calendário maçônico começa no mês de março[49].

Além disso, temos outro documento em versão dupla (manuscrita e impressa) em que Bolívar já aparece como Mestre, ou seja, um grau superior. No entanto, este novo documento é datado de 1804, um ano antes. É a “Tabela Geral dos Membros que compõem a Respeitável Loja Escocesa de Santo Alexandre da Escócia, a Leste de Paris” desde o ano da Grande Luz 5804, a Restauração 5564 e a Era Vulgar do ano 13. Em outras palavras , o ano de 1804 e 13 da Revolução.

Uma possível explicação para esse descompasso na datação de ambos os documentos pode ser devido ao fato de este último se referir não apenas a 1804, mas também a 1805, pois não especifica o dia nem o mês, que estão em branco. Este poderia ser um título ‘padrão’ em que os dados precisos, incluindo a correção do ano, não foram preenchidos, como às vezes é o caso com os formulários de hoje. Além disso, pode ser a tabela de 1804 à qual novos dados de 1805 foram adicionados, como também costumava ser o caso. Em todo caso, trata-se de outro documento autêntico, conservado na Biblioteca Nacional de Paris, na coleção maçônica do Gabinete de Manuscritos [FM 2 . 100 bis, Dossiê 3].

Nela aparecem dois nomes: Emmanuel Campos “nobre espanhol, Mestre Maçom” e Simón Bolívar “oficial espanhol, Mestre Maçom”. A título de curiosidade, deve-se acrescentar que esta é a única “lista” em que aparece o nome de Bolívar. A coluna correspondente não inclui as assinaturas regulamentares de nenhum dos dois, nem de Campos, nem de Bolívar. Isso significa que não compareceu à reunião realizada ou à reunião maçônica de final de ano (geralmente em 27 de dezembro, dia de São João) para registrar suas assinaturas no documento em questão; ou que esses dias estiveram ausentes de Paris. Pelo menos, no que diz respeito a Bolívar, sabemos que a urgência em receber o graus de Companheiro se deveu a uma viagem iminente que ele teve que fazer, e que de fato o fez, seja no ano de 1804 ou no ano de 1805 .

De fato, Bolívar, que tinha grande admiração por Napoleão como símbolo de liberdade e glória, experimentou grande decepção em consequência de sua auto coração como imperador na catedral de Paris em 2 de dezembro de 1804 [50]. O fato de Napoleão estar com a coroa imperial quebrou em Bolívar o mito que se forjava em torno de sua figura:

Eu o adorei como o herói da República, como a estrela brilhante da glória, o gênio da liberdade. No passado eu não sabia de nada igual a ele, nem o futuro prometia produzir algo semelhante. Ele se tornou imperador, e daquele dia em diante eu o considerei um tirano hipócrita, uma desgraça para a liberdade e um obstáculo para o progresso da civilização. [51]

Essa decepção foi agravada quando, alguns meses depois, em 15 de agosto de 1805, em Milão, Napoleão voltou a se coroar, desta vez como rei dos italianos. Bolívar também se encontrava na Itália, evocando as glórias da República Romana e, tendo como testemunha seu tutor Simon Rodriguez, fez no Monte Sacro em Roma seu famoso juramento:

“Juro pelo Deus de meus pais, juro por eles, juro pela minha honra e juro pelo meu país que não darei descanso ao meu braço, nem descanso à minha alma, até que tenha quebrado as correntes que nos oprimem pela vontade do poder espanhol.” [52]

Embora o documento que o atesta ainda não tenha sido localizado, o mais provável é que pouco depois de ter sido admitido ao posto de Companheiro tenha recebido, e pelo mesmo motivo, o de Mestre, pois com este grau – e não com o como um Companheiro – aparece na lista acima mencionada de membros da Loja Santo Alexandre da Escócia . Provavelmente, e como se fala de ter sido iniciado recentemente, Bolívar recebeu os três graus (Aprendiz, Companheiro e Mestre) com pouca diferença de tempo na mesma loja parisiense. Pois bem, se tivesse sido iniciado em outra loja, a cerimônia de recepção da grau de Companheiro – relatada no documento do historiador venezuelano Ramón Díaz Sánchez – teria que ser precedida do ato de filiação à loja em questão. Como não há alusão a ele, o correto é pensar que ele recebeu os três graus na loja parisiense de Santo Alexandre da Escócia com muito pouca diferença de tempo, possivelmente nos últimos meses ou semanas de 1805. Pérez Vila acredita que Bolívar, provavelmente, foi iniciado no início de dezembro, ou no final do mês anterior[53]. Miriam Blanco-Fombona, após examinar a documentação da Loja Santo Alexandre da Escócia na Biblioteca Nacional de Paris, acredita que Bolívar foi iniciado como Aprendiz em 27 de dezembro de 1805 [54].

Existe ainda um novo documento na Biblioteca Nacional de Paris intitulado “Quadro do hh. que compõem a R. Loja Mãe Escocesa da França, sob o título distintivo de Santo Alexandre da Escócia a Leste de Paris no ano da Grande Luz 5804 e 1805”, que vem a ser uma repetição da anterior, mas ordenado por graus maçônicos e no qual, a partir dos cavaleiros Rosa Cruz [55], são especificados os nomes de seis Mestres, entre eles Campos, um senhor espanhol e Bolívar, um oficial espanhol [56]. Eles são seguidos por um Companheiro, dois membros da Coluna da Harmonia, um membro honorário e três não residentes ao longo do ano.

Esta questão está ligada a outra dificuldade menor ou pequena anomalia das quadros em questão. E é que, de acordo com os Estatutos da Ordem Maçônica na França [57], publicado em 1806, era proibido receber o grau de Companheiro antes dos vinte e três anos e o de Mestre antes dos vinte e cinco anos. Por outro lado, a passagem de graus estava sujeita à assiduidade das lojas. Um Aprendiz não poderia ser recebido como Companheiro se não tivesse participado de pelo menos cinco sessões; o grau de Mestre só foi concedido ao Companheiro depois de justificada a sua participação em sete assembleias. Em suma, a presença nas reuniões maçônicas de um ano foi suficiente para alcançar a possibilidade de acessar o mais alto grau da Maçonaria Azul, ou seja, o de Mestre. No entanto, o militar – e este foi o caso de Bolívar – não só poderia ser iniciado antes dos 21 anos, como também os filhos dos maçons[58], assim como podiam, excepcionalmente, receberem mais de um diploma no mesmo dia quando sua partida era iminente. Ambas as circunstâncias ocorreram na pessoa de Simón Bolívar por ser militar e por ter que fazer uma viagem imediatamente. Na verdade, é sintomático que seu nome não apareça nos quadros dos membros da Loja de Santo Alexandre da Escócia antes de 1804 e 1805, nem nas posteriores[59]. No entanto, o nome de Emmanuel Campos aparece no quadro de 1806, um senhor espanhol de 24 anos, Mestre Maçom, que vivia na Rua Richelieu. Nesse caso, há a assinatura de Manuel Campos[60].

Continua…

Autor: Jose Antonio Ferrer Benimeli

Fonte: REHMLAC

*Clique AQUI para ler a primeira parte do artigo.

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Notas

[42] – Seal-Coon, “Maçonaria revolucionária hispano-americana. A alvenaria mítica de Francisco de Miranda ”, Ars Quatuor Coronatorum 94 (1981): 83-106. Seal-Coon, “The Mythical Freemasonry of Francisco de Miranda”, 107-126. Padrón Iglesias, “Maçonaria”, 13-20.

[43] – Carnicelli, Maçonaria , volume I, 121; Sean-Coon, “Simón Bolívar Freemason”, 231-248.

[44] – Na verdade, na terminologia maçônica, “o ano da Verdadeira Luz” é usado com mais frequência em vez de “Grande Luz”.

[45] – No original é usada a expressão nouvellement, que em espanhol tem duas traduções diferentes: de novo e recentemente . Seal-Coon em sua obra já citada Simón Bolívar maçom (233) usa a expressão recém-iniciado e sugere que ele pode ter sido iniciado em Cádiz. Mas além do fato de que devido ao contexto, a tradução correta é a de recentemente-também usado por Carnicelli- há outro erro em Seal-Coon: a alegada loja Caballeros Racionales de Cádiz ainda não havia sido fundada em Cádiz e também não pode ser entendida como uma loja maçônica, mas sim como uma sociedade patriótica; e sua adesão não implicava qualquer iniciação maçônica apropriada válida para a Maçonaria autêntica.

[46] – Na Maçonaria, a aclamação segue os tambores . Tambor é um rito que consiste em bater palmas um certo número de vezes, dependendo do grau em que este rito é praticado. Os veneráveis ​​e vigilantes costumam participar dos tambores batendo nos respectivos tacos em suas mesas. A aclamação é pronunciada pelos maçons em pé, a mão direita erguida e o braço estendido horizontalmente. Na Maçonaria francesa, existem duas aclamações tradicionais. O primeiro usa a fórmula vivat, vivat, sempre vivat-viva, viva, viva sempre-; a segunda, que ainda existe no rito escocês, é a tripla “houzzé” ou “houzza”. Esta última expressão é a utilizada no documento em questão. A origem desta palavra, “houzzé” ou “houzza”, ainda não está completamente esclarecida, apesar das obras de Lantoine. Segundo Delaunay ( Manuel maçonnique , Paris, 1821) e Vuillaume ( Manuel Maçonnique , Paris, 1820), significaria “Viva o rei”. Lantoine ( Le Rite Ecossais Ancien et Accepté , Paris, 1930) vê simplesmente uma distorção da velha exclamação inglesa “viva”. A bateria de alegria sempre foi feita em homenagem a um evento feliz para a loja ou um irmão, e era natural que os maçons escoceses usassem essa aclamação.

[47] – Carnicelli, Maçonaria , Volume I, 123-127. A reprodução fotográfica na página 129, e em Seal-Coon, Simón Bolívar , 233. Entre as assinaturas deste documento está a de Jeanne (Juana) de la Salle que liderou Iván Herrera Michel em sua obra La logia de Bolívar de Paris ( http://www.diariomasonico.com/historia/bolivar-y-la-francmasoneria) a um lamentável erro em acreditar que dita assinatura pertencia a um maçom e que portanto Bolívar recebeu o 2º e 3º graus na “prestigiosa loja mista St Alexandre da Escócia ”. No entanto, na foto da referida loja fica claro que Jeanne de la Salle é o sobrenome, e seu nome é Thomas, um ex-marinheiro que ocupou a posição de segundo diácono na loja.

[48] – Antoine Coen – Michel Dumesnil de Gramont, La Franc-Maçonnerie Écossaise (Paris: EE Figuière, 1934) 25-26. Jacques Simon, Histoire du Rite Écossais Ancien et Accepté en France. Tomo I: Des origines de la franc-maçonnerie à 1900 ( Paris: Dervy, 2019), 90.

[49] – A data maçônica usada, como o calendário maçônico não é uniforme, não é fácil especificar sua correspondência em nosso calendário gregoriano. A este respeito, Manuel Pérez Vila, “A experiência maçônica de Bolívar em Paris” em Visão diversa de Bolívar(Caracas: Ed. De Pequiven, 1984), 333-334, diz o seguinte: “Se o registro pertencesse a uma loja inglesa ou norte-americana de rito ortodoxo (o que não é o caso), não haveria dúvida: o 11º dia do O 11º mês do ano 5805 seria 11 de novembro de 1805, porque lá o ano maçônico começa na mesma época que o ano civil, em 1º de janeiro, e 4000 são adicionados ao ano para voltar ao que era então considerada a data da criação do mundo. Mas se o ato tivesse sido feito em uma loja francesa dependente do Grande Oriente da França, o 11º dia do 11º mês de 5805 corresponderia a 11 de janeiro de 1806, uma vez que essas lojas também acrescentaram 4.000 anos ao da era cristã, mas eles começaram o ano maçônico em março e não em janeiro. Mas como o ato relativo a Bolívar corresponde a uma loja escocesa de rito antigo e aceito, o assunto fica mais complicado, pois, além de somar 4.000 anos e iniciar o cálculo em março, os escoceses não necessariamente começam seu ano em 1º de março, mas seguem o calendário hebraico em que os meses são lunares, e não idênticos aos um ano para o outro, sendo necessário estabelecer uma tabela de equivalências. O máximo que se pode dizer é que o dia em que Bolívar foi promovido a companheiro na Loja Santo Alexandre da Escócia, em Paris, deve situar-se na primeira quinzena de janeiro de 1806”. Sobre sendo necessário estabelecer uma tabela de equivalências. O máximo que se pode dizer é que o dia em que Bolívar foi promovido a companheiro na Loja Santo Alexandre da Escócia, em Paris, deve situar-se na primeira quinzena de janeiro de 1806”. Sobre sendo necessário estabelecer uma tabela de equivalências. O máximo que se pode dizer é que o dia em que Bolívar foi promovido a companheiro na Loja Santo Alexandre da Escócia, em Paris, deve situar-se na primeira quinzena de janeiro de 1806”. Sobre Calendários maçônicos na Maçonaria , História Extra IV 16 (novembro de 1977): 134-136.

[50] – Bolívar estava em Paris quando Napoleão foi coroado imperador. Além disso, o embaixador espanhol convidou Bolívar a fazer parte de sua comitiva para presenciar a cerimônia na Catedral de Notre-Dame; mas não só ele recusou o convite, mas – de acordo com Villaurrutia – “ele se trancou em casa o dia todo.” Ramírez de Villaurrutia, A Rainha, 314.

[51] – Ramírez de Villaurrutia, La Reina , 313-314.

[52] – Nelson Martínez, Simón Bolívar, 18 anos.

[53] – Pérez Vila, A experiência , 334.

[54] – Miriam Blanco-Fombona de Hood, “Masonry and our Independence”, The American Repertory I (julho de 1979): 59-70.

[55] – Que são três: um Marechal do Império e dois Doutores em Medicina, os três oficiais do Grande Oriente da França.

[56] – Atualmente segundo tenente do Regimento da Milícia Voluntária Branca dos Valles de Aragua. Foi em junho de 1810 – seis anos depois – que Bolívar seria promovido a coronel das milícias. Porém, na filiação por ele cedida à polícia parisiense em abril de 1806, aparece como um “empresário domiciliado na Espanha”, embora na fornecida à pousada o faça como um “oficial espanhol”.

[57] – Statuts de l’Ordre Maçonnique en France (Paris, 1806), cap. XII, sec. VII, 205.

[58] – Observe aqui a influência de Napoleão Bonaparte na configuração do que acabaria sendo chamada de Maçonaria Bonapartista. Ferrer Benimeli, “A Maçonaria Bonapartista na Espanha”, in Formação Histórica da Maçonaria (Rio de Janeiro: Academia Brasileira Maçônica de Letras, 1983), tomo I, 102-165.

[59] – Como Demetrio Ramos coleta na biografia de Bolívar, alarmado com as tentativas de Miranda na Venezuela, ele decidiu retornar à sua terra natal. De Paris foi para Hamburgo, onde embarcou no final de 1806 em um navio neutro chegando a Charleston em 1º de janeiro de 1807. Ramos, Simón Bolívar , 38.

[60] – De Manuel Campos, que se apresenta como um ‘nobre’ ou ‘cavalheiro’ espanhol, pouco se sabe. Possivelmente foi iniciado por volta das mesmas datas de Bolívar, dada a ordem de inscrição na tabela lógica. Alguns anos antes localizei precisamente um Manuel Campos, capitão da Companhia Provisória dos Invalides estacionado na Alhambra e que recebeu o conde Aranda como prisioneiro em 29 de agosto de 1794 em consequência de sua demissão do cargo de Primeiro Ministro e o processo iniciado por Carlos IV a pedido de Godoy. Mas não é possível ser a mesma pessoa porque se Manuel Campos tinha 24 anos em 1806, deveria ter doze em 1794. Rafael Olaechea e Ferrer Benimeli, El Conde de Aranda. Mito e realidade de um político aragonês (Zaragoza: Ibercaja, 1998) 376.

Episódio 59 – Teseu e a Iniciação

(music: Slow Burn by Kevin MacLeod; link: https://incompetech.filmmusic.io/song/4372-slow-burn; license: https://filmmusic.io/standard-license)

O mito de Teseu é, claramente, a descrição de um ritual de passagem: do profano ao sagrado; do homem profano, ao buscador. Pode-se compreender esse mito como o caminho que faz o indivíduo, a partir do momento que decide ser buscador: é o caminho do iniciado.

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Episódio 55 – Cinco motivos para NÃO ser maçom

(music: Slow Burn by Kevin MacLeod; link: https://incompetech.filmmusic.io/song/4372-slow-burn; license: https://filmmusic.io/standard-license)

Quem pensar que a entrada na Maçonaria é uma porta aberta para obter contatos e negócios e o propiciar de condições para “subir na vida”, pense outra vez, e pense melhor! Se for este o motivo que o faz desejar entrar na Maçonaria, poupe-se ao trabalho e às despesas. Dentro da Maçonaria fará os mesmos negócios que faria fora dela. O que todos lhe pedirão na Maçonaria é que dê algo de si em prol dos outros. Dos demais receberá o que efetivamente…

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A (im)perfeição e as Old Charges – Parte III

Cientistas criam neurônios capazes de reparar danos do Alzheimer - Olhar  Digital

Para além da questão da deficiência física coloca-se a da deficiência mental. Poderá um deficiente mental ser iniciado maçom? Neste caso, a porta já não se abre tanto quanto face à deficiência física, mas também não se fecha de todo. É tudo uma questão da natureza e das consequências da deficiência. Um profano, para ser iniciado maçom, tem que ser “livre e de bons costumes”. A pedra de toque da questão da deficiência mental coloca-se, precisamente, na liberdade. Há três vertentes em que se exige que uma pessoa seja livre se quer ser admitido:

– Liberdade da luta pela autossuficiência. Para ser admitida na maçonaria, uma pessoa tem que dispor dos meios económicos para se bastar a si mesma de modo que o sustento diário não seja uma preocupação tal que se sobreponha a todo o resto. Não está em causa a quantidade dos rendimentos, mas que este sejam suficientes e adequados ao garante do sustento do próprio e daqueles que tenha a cargo – descendentes ou ascendentes. Deve, ainda, permitir que os custos decorrentes da pertença à maçonaria (quotas, material, etc.) não causem transtorno. Uma pessoa que viva constantemente assoberbada com o que vai amanhã colocar na mesa para os filhos, ou falte mesmo aos seus deveres familiares, não tem disponibilidade mental para ser maçom – decorra essa carência económica ou não de deficiência mental.

– Liberdade de pensamento. Uma pessoa que não seja livre de poder, voluntariamente, alterar a sua forma de pensar não tem lugar na maçonaria, pois a maçonaria tem como objetivo o aperfeiçoamento do Homem, e aperfeiçoar-se é, forçosamente, mudar. Ora, procurar aperfeiçoar-se é sinal de que se admitiu já a própria imperfeição, e isto só pode ter decorrido de uma autoanálise – que, por sua vez, só pode ter tido lugar numa mente suficientemente ordenada para a ter efetuado. Por esta razão, quem não tenha a capacidade de ver e aceitar como válido um ponto de vista distinto do seu – o que sucede, por exemplo, com alguns fundamentalistas, cujas crenças podem ser rígidas a ponto de que o impeçam de pensar por si mesmo – também não está apto, independentemente da sua sanidade mental, a ser iniciado.

– Liberdade de agir em consciência. Uma pessoa incapaz de pôr em prática os seus próprios desígnios e de agir de acordo com os ditames da sua consciência dificilmente poderia tirar algum proveito da maçonaria. Se a maçonaria não tiver repercussões na forma de agir do maçon, então estamos perante um caso de insucesso. É essencial que o maçom não só tenha uma consciência bem formada – uma boa noção do bem e do mal – como paute o seu modo de agir por esses mesmos princípios. Uma pessoa que, em virtude de uma dependência (do jogo, de uma droga…) que condicione a sua vontade, não possa agir em consciência – não porque esta não exista, mas porque a sua concretização esteja fortemente condicionada – não deverá ser iniciada.

Não esqueçamos, por fim, que o conceito de normalidade é puramente arbitrário e estritamente decorrente das características da população em que o indivíduo se insira: um indivíduo “normal” numa população pode ser “anormal” se inserido noutra. A fronteira tem que ser traçada algures, mas isso quer dizer o quê? Que, se a pessoa estiver num dia bom, pode ser iniciada, e depois, num dia mau, é excluída? Mas não temos todos momentos melhores e piores, de maior ou menor lucidez, uns mais felizes do que outros?

Uma pessoa dependente do álcool a ponto de que isso perturbe a sua vida quotidiana está tão privada de liberdade de ação como uma pessoa que tenha o espírito igualmente embotado mas sem que tal decorra da bebida. Ou um fanático religioso pode ser tão inabalável e impermeável à mudança quanto um obsessivo-compulsivo. Não é a deficiência mental, em si mesma, o obstáculo, mas as limitações – que podem ter variadas origens para além da deficiência mental – a que a liberdade do indivíduo esteja sujeita.

Pretender que apenas seres perfeitos e perfeitamente livres se tornem maçons seria um contrassenso. Por não existirem homens perfeitos, seria esta uma excelente receita para se acabar com a maçonaria. Mas, acima de tudo, a maçonaria é um método de aperfeiçoamento – e só se aperfeiçoa quem não é perfeito. Pedras polidas não precisam de desbaste – e liberdade absoluta não existe. Como em tantas outras coisas, aqui só podemos socorrer-nos das linhas gerais e, para cada caso particular, aplicar uma das mais importantes regras: a do bom senso.

Autor: Paulo M.

Fonte: Blog A Partir Pedra

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A (im)perfeição e as Old Charges – Parte II

Bem-vinda imperfeição. Abro a porta para ela entrar… | by Nalini  Vasconcelos | Revista in-Cômoda | Medium

Em pleno século XIX houve diversas tentativas de se tornar menos estrita a regra que impedia a admissão de deficientes físicos na Maçonaria, alegando-se ser esta um legado dos tempos da maçonaria operativa. Algumas Grandes Lojas deixaram, mesmo, cair este requisito, exigindo apenas que o candidato tivesse a capacidade física estritamente necessária a que pudesse ser iniciado e receber os ensinamentos da Ordem. Mas logo vozes se elevaram, recordando que o que estava em causa era um dos landmarks da Maçonaria, que são por definição imutáveis, e por isso a questão não careceria sequer de mais discussão. Independentemente da origem do preceito residir na maçonaria operativa e ter, entretanto, deixado de fazer sentido, este deveria ser cumprido, sob pena da retirada do reconhecimento às Obediências que não o cumprissem e fizessem cumprir. Mas não se pense que, sem mais debate, a questão se ficava por aqui, ou que os argumentos alegados eram desprovidos de substância; pelo contrário.

Alegava-se, por exemplo, que a Bíblia descreve, repetidamente, como só um animal perfeito e sem mancha podia ser oferecido em sacrifício. Se o bicho tivesse a mínima imperfeição deixava de ser passível de ser oferecido em holocausto: ao Divino não se oferecia senão o que se tinha de melhor. Ainda nesta perspectiva, uma vez que, em Maçonaria Regular, se trabalha “À Glória do Grande Arquiteto do Universo” – donde decorre que o trabalho que se faz é feito em Sua intenção, sendo cada maçom a sua própria oferenda – a aplicar-se à letra o antigo princípio da perfeição da vítima sacrificial, poder-se-ia discorrer que um deficiente físico não seria “suficientemente bom” para ser oferecido ao Grande Arquiteto do Universo.

Outro dos argumentos teria que ver com a capacidade de trabalhar. A Maçonaria – mesmo a Especulativa – socorre-se do trabalho como forma e método de aprendizagem, pelo que a incapacidade para desempenhar tarefas úteis poria em causa todo o método maçónico. Por outro lado, é essencial que um maçom se baste a si mesmo, pois de outro modo não teria a disponibilidade mental para se aperfeiçoar enquanto pessoa. É uma questão de prioridades: primeiro o sustento do corpo, depois o apuramento do espírito.

A própria simbologia maçónica era usada como argumento. Discutia-se, com a maior seriedade, se, uma vez que a maçonaria tinha por objetivo a “construção do Templo” a partir das pedras que cada um ia tratando de polir, não seria contrário à mesma maçonaria aceitar pedras “tortas”? Que Templo Perfeito poderia a Maçonaria almejar construir à Glória do Grande Arquiteto se as pedras não fossem todas perfeitas?

Espantosamente, este debate ainda persiste; ainda há Obediências – Grandes Lojas – cujos regulamentos proíbem a admissão de deficientes físicos. Contudo, mesmo a maioria dessas admite que, se um Irmão ficar limitado (amputado, paralisado…) após a sua admissão, terá todo o apoio da loja.

Na Grande Loja Legal de Portugal/GLRP a questão, tanto quanto sei, não se coloca. As condicionantes à admissão são, de acordo com a Constituição e Regulamento Geral da GLLP, apenas que os candidatos sejam “homens livres e de bons costumes que se comprometem a pôr em prática um ideal de paz” , que tenham “o respeito pelas opiniões e crenças de cada um”, e sejam “homens de honra, maiores de idade, de boa reputação, leais e discretos, dignos de serem bons irmãos e aptos a reconhecer os limites do domínio do homem, e o infinito poder do Eterno”.

Pode argumentar-se que um deficiente físico não é inteiramente livre. Fosse esse um requisito – ser inteiramente livre – e não haveria quem pudesse ser admitido na maçonaria. Todos nós só o somos até certo ponto. Quanto à iniciação, será que se perde alguma coisa se for feita de cadeira de rodas? Claro que sim. Mas não se perde mais numa iniciação do que num passeio na cidade; quem está limitado sabe que o está, e em que medida.

E um surdo? Ou um cego? Poderão ser iniciados maçons? Não vejo porque não. Desde que aptos a comunicar, estou certo de que se providenciaria o que fosse razoável para os acomodar. Um surdo pode, por exemplo, ler nos lábios; e poderia “falar” por escrito, à falta de melhor. Um cego pode ouvir e falar – apesar de poder ser curioso ouvir da sua boca algumas fórmulas rituais que se referem à Luz e às Trevas, por exemplo, mas basta que interiorizemos que a Luz e as Trevas, em Maçonaria, são simbólicas, não precisando nós dos olhos para as poder entender, para que logo as suas palavras deixassem de soar estranhas.

Pode um amputado praticar natação? Ou um paraplégico jogar basquete? Sabemos que podem. E podem competir de igual para igual com uma pessoa não deficiente? Tenho as minhas dúvidas. Mas poderá a prática desportiva tornar a sua vida mais completa, incrementar a sua saúde, torná-los pessoas mais felizes? Disso já tenho a certeza. Do mesmo modo, poderá um deficiente físico tirar partido da maçonaria tanto quanto alguém que o não seja? Bom… em muitos casos até pode, mas admitamos que não podia. Seria essa lacuna, esse inultrapassável obstáculo, razão para que fosse impedido de atingir todo o resto?

Autor: Paulo M.

Fonte: Blog A Partir Pedra

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Episódio 52 – Somos pó e em pó nos tornaremos

“Tu és pó e em pó te tornarás”; embora esta frase não seja recente e nem teve como signatário nenhum filósofo ou pensador carente de perdão Divina, nós a renegamos ou pelo menos não a abstraímos além de sua magnífica força expressiva. Esta frase milenar está grafada e é exposta na Sala de Reflexões, antes que façamos o nosso juramento de aceitação e ingresso na Ordem Maçônica, exatamente pela força que ela representa no ciclo nascimento vida e morte. (music: Slow Burn by Kevin MacLeod; link: https://incompetech.filmmusic.io/song/4372-slow-burn; license: https://filmmusic.io/standard-license)
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Episódio 39 – Iniciação na prática

A humildade muitas vezes procede da razão como vestimenta ou capa de proteção. Já ouvi dizer que a maior das vaidades está sob essa capa de humildade e pode irromper, como uma fera, a qualquer instante e à menor provocação. Por outro lado, a modéstia é decência, compostura, moderação e sobriedade, especialmente no falar.  (music: Slow Burn by Kevin MacLeod; link: https://incompetech.filmmusic.io/song/4372-slow-burn; license: https://filmmusic.io/standard-license)
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VITRIOL Podcast – Episódio 2 – A Maçonaria e a Ordem DeMolay

Neste segundo episódio, João Cézar Roldão Porto recebe os convidados, Matheus Bandieira, Daniel Ávila e Ricardo Torido, para um bate papo sobre Maçonaria e Ordem DeMolay.

Será que a iniciação na Maçonaria é o caminho natural para um DeMolay quando este completa 21 anos? Essa é a pergunta que não quer calar!

Veja no vídeo ou ouça no Spotify, ambos disponíveis abaixo, como foi conversa entre os quatro. Aproveite para fazer sua inscrição no canal Vitriol podcast, deixar sua curtida e divulgar essa iniciativa para os seus contatos.

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Episódio 23 – A caverna, o candidato e o Aprendiz

O candidato, que deseja conhecer os Augustos Mistérios da Maçonaria, também se encontra em uma caverna. Acorrentado, desconhece a verdade sobre o globo terrestre, sobre seu corpo e sobre o SEU EU. Preso ao mundo profano, as imagens que lhe chegam por sombras na parede da vida lhe enganam, e os sons distorcidos que vão até seus ouvidos ajudam na criação do engodo promovido pelo Establishment, privando-o do conhecimento do EU Verdadeiro.

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