Em busca da Apple Tree: uma revisão dos primeiros anos da maçonaria inglesa (Parte III)

John Montagu, 2.º Duque de Montagu

Um acontecimento que constituiu uma tragédia para o estudo da história da Maçonaria foi a “noite da indignação”, que aconteceu na Loja Antiguidade em novembro de 1778, quando os simpatizantes de William Preston, em sua disputa com o Grande Loja, roubaram arquivos e móveis[80]. Na época deste incidente, a loja tinha em sua posse as atas completas entre 1721 e 1778, bem como três volumes com os arquivos dos tesoureiros e dos secretários. Os dois volumes, que continham as atas de 1721 a 1733 foram perdidos e outros volumes tiveram suas páginas rasgadas. A perda desses registros é desastrosa. No entanto, foi preservado um rascunho, marcado com “E”, contendo alguns das primeiras atas. Felizmente, este volume ainda está em sua encadernação original, e tem anexado a ele o cartão de Charles Stokes, “Livreiro em Red-Lyon, perto de Bride-Lane, na Fleet Street”. O cartão está datado de 1716, provavelmente a data em que foi gravado. Stokes era conhecido por comercializar o “famoso tabaco oftálmico, que é fumado suavemente e é agradável de cheirar”, que foi amplamente divulgado a partir de 1720, e a as folhas de tabaco são vistas no cartão[81]. Stokes, “uma pessoa engenhosa que colecionava medalhas, pinturas e outras curiosidades”, faleceu em 10 de junho de 1741[82]. A participação de Stokes na Loja Antiguidade está registrada no Volume “E” e, em 1719, ele foi tutor de geometria, álgebra e assuntos relacionados junto com Jonathan Sisson[83].

Graças à sobrevivência do livro e do cartão de Stokes, sabemos que o livro “E” em arquivo no Loja Antiguidade é anterior às ações de Preston e seus seguidores e que, provavelmente, foi encadernado em princípios década de 1720. Boa parte do livro não foi usada até anos depois de seu aquisição, uma vez que também contém atas de 1759 a 1767 entre as páginas 9v e 85, além da contabilidade da loja da página 148v ao final do volume. Ele também contém várias notas de, por exemplo, a entrega de uma placa para imprimir ingressos, em julho de 1751, ou na página 7v o reembolso das verbas pagas durante uma cerimônia trimestral em abril de 1756. Na página 124v há uma lista negócios inacabados de grandes oficiais, o que é muito interessante porque omite a inclusão de Anderson como o Primeiro Vigilante em 1723. No entanto, esta lista é muito tardia, pois está escrita pela mesma pessoa que escreveu a ata entre 11 de junho e 26 de agosto de 1766. O volume não escapou ileso da “noite da indignação”, uma vez que entre as páginas 125 a 133 existem alguns trechos, escritos em caligrafia do final do século XVIII, que supõe-se sejam do livro de atas de 1721 a 1733 que está perdido. Como o observa Wonnacott[84], eles foram escritos por uma mão que não pode ser anterior a 1765 e muitos traços têm uma semelhança marcante com as notas de rodapé do obras de William Preston, sugerindo que se trata de registros que foram elaborados e corrigidos sob sua direção.

Mas, no início do livro “E”, existem dois documentos que podem ser datados sem dúvida a partir do início dos anos 1720. Após a reprodução de um retrato do Duque de Montagu por John Faber, há uma ata na página 2 que descreve a nomeação do duque em junho de 1721; então, das páginas 4-5, há uma lista de membros da loja, datada de 18 de setembro de 1721. O início desta lista é redigida pela mesma pessoa que redigiu a ata da reunião de Montagu. Adições subsequentes à lista, que deixam um registro de alguns figuras ilustres da loja, como o primeiro conde de Waldegrave e Sir Charles Hotham, representante de de Beverly no Parlamento[85], são primeiro da mão original e depois de uma variedade de mãos que parecem ser, como no caso do artista Benjamin Cole, assinaturas dos próprios membros. As últimas entradas na lista referem-se às iniciações de 15 de março de 1725, o que significa que a lista não pode ser posterior a 1726. A maioria dos membros nomeados na primeira seção aparecem na lista de membros da Loja na taverna Goose and Gridiron. Outros nomes na lista de 1725 aparecem como membros da Loja na taverna Queen’s Arms, que é para onde se mudou a Loja da Goose and Gridiron[86]. Isso nos leva a pensar que a relação entre as duas lojas é mais complexa do que se acreditava anteriormente, provavelmente devido ao papel do Duque de Wharton como Grão-Mestre da Loja Queen’s Arms. No entanto, a lista da loja mostra os membros no início da década de 1720, e foi copiado no livro “E” nessa época. O nome do mestre William Esquire parece, à primeira vista, um erro de redação, porém, possivelmente, se trata de um William Esquire que batizou sua filha Ann em St. Botolph Aldgate em 1710[87]. Nesse caso, ele é o primeiro mestre da Loja da Antiguidade.

Visto que a lista de membros da Loja Antiguidade contida no livro “E” data do início dos anos 1720, pode-se presumir que o relato da nomeação do duque de Montagu, escrito pela mesma pessoa, foi elaborado não muito depois de 1721 e portanto, pode ser considerada uma fonte contemporânea. Esta ata amplia consideravelmente a lista de nobres e senhores ilustres que compareceram ao evento. Concorda com a menção de Stukeley sobre a presença de Lord Herbert e Sir Andrew Fountaine, bem como Lord Hinchingbrooke[88], que mais tarde visitaria Stukeley na Loja Fountain. Também nos diz que Lord Hillsborough, um amigo próximo do Duque de Wharton[89], esteve presente. A ata não diz explicitamente que Lord Stanhope esteve presente, mas a entrada “P. Stanhope” pode se referir a ele. O William Stanhope, que aparece, é possivelmente o irmão mais novo de Lord Stanhope. No texto um bom número de baronetes e cavaleiros também são mencionados, como Sir William Leman, terceiro Baronete, Sir George Oxenden, quinto Baronete, parlamentar do Partido whig por Sandwich[90]; Sir Robert Rich, quarto baronete, que na época era parlamentar por Dunwich e apoiador de Walpole[91], Sackville Tufton, mais tarde sétimo Conde de Thanet e Coronel John Cope, parlamentar por Queenborough e também apoiador de Walpole[92]. A ata também menciona Christopher Wren Jr., que mais tarde se tornaria mestre da loja Antiguidade, bem como membros das lojas Goose and Gridiron e Queen’s Arms, incluindo Richard Boult, Charles Hedges e William Western, membro da Royal Society.

O documento da Loja Antiguidade mostra-nos que, entre os presentes na iniciação de Montagu estavam representantes da mais alta classe da sociedade. O mais surpreendente é a notícia de que o duque de Wharton também compareceu. Isso não era inerentemente improvável, mas, uma reportagem na imprensa, publicada em 5 de agosto de 1721, afirmava que Wharton começou na Maçonaria na Loja na taverna Queen’s Arms apenas no final de julho do mesmo ano[93]. Isso nos leva a questionar a sequência exata dos eventos sobre a iniciação de Wharton, embora não desacredite o relato da Loja Antiguidade[94]. A reunião é descrita como “uma assembleia geral de um grande número de maçons”, a ata declara que o duque de Montagu foi eleito Grão-Mestre, e jurou sobre a bíblia, “observar e manter inviolável no futuro, todas as franquias e liberdades dos maçons da Inglaterra e todos arquivos da antiguidade sob a custódia da antiga loja de São Paulo em Londres”.

Embora esse ata fosse claramente destinada a reforçar as reivindicações da loja, estas estavam baseadas na posse dos arquivos das Old Charges. Neste contexto, quando Payne apresentou um documento muitos mais velho realmente complicou a coisa toda. Isso adicionou importância à segunda parte do juramento de Montagu: “Firmemente observar e nunca permitir qualquer interferência nos Landmarks das antigas lojas da Inglaterra, o que da mesma forma será feito por seus sucessores, que estarão obrigados por juramento a fazer o mesmo”.

Em reciprocidade, as antigas lojas concordaram em renunciar aos seus privilégios em favor deste novo órgão, que era a Grande Loja:

Neste dia, os maçons de Londres, em seu próprio nome e em nome do restante de seus irmãos da Inglaterra, concedem seus reservados e distintos direitos e poderes de reunir-se em capítulos, etc., presentes nas antigas lojas de Londres, em favor do que hoje foi publicamente reconhecido e notificado aos irmãos reunidos na Grande Loja.
Os senhores das antigas lojas aceitaram e confiaram em nome de suas lojas e tudo foi juramentado de forma pertinente

Assim, a descrição contemporânea mais completa e detalhada mostra-nos que a nomeação do Duque de Montagu e o ato de transferência dos privilégios das antigas lojas de Londres para o Grão-Mestre e a nova Grande Loja foi realizada, não na Loja da taverna Goose and Gridiron em 1717, mas na reunião no Stationers ‘Hall em 1721.

Este relato é convincente não apenas porque é mais contemporâneo do que o de Anderson, mas também porque está de acordo com o histórico de Stukeley e as evidências encontradas nos jornais. Aparentemente, foi George Payne, com a ajuda de Desaguliers e talvez do próprio Stukeley, que concebeu um esquema para levar a Maçonaria a um novo nível social e cultural nos meses anteriores, além conseguir levar para suas fileiras personagens ilustres como o duque de Montagu e talvez também o duque de Wharton. Payne foi, sem dúvida, quem orquestrou toda a operação, preparou o regulamento da nova organização e talvez tenha sido nomeado Grão-Mestre durante esse processo. Mas o significado das atas da Loja Antiguidade é muito claro: a Grande Loja não foi fundada na taverna Goose and Gridiron em 24 de junho de 1717, mas sim quatro anos depois, quando as lojas de Londres fizeram a transferência formal de seus privilégios para o nova organização, em 24 de junho de 1721 no Stationers ‘Hall. Portanto, a contagem de Anderson do que aconteceu entre 1717 e 1721 deveria ser desconsiderada.

Continua…

Autores: Andrew Prescot e Susan Mitchell Sommers
Traduzido por: Luiz Marcelo Viegas

Fonte: REHMLAC

*Clique AQUI para ler os capítulos anteriores.

Screenshot_20200502-144642_2

Círculo, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

Notas

[80] – W. H. Rylands y C. Firebrace, Records of the Lodge Original, No. 1, now the Lodge of Antiquity, No. 2 (Londres: Harrison, 1911-26), vol. I, 1-14; Colin Dyer, William Preston and his Work (Shepperton: Lewis Masonic, 1987), 67

[81] -Por ejemplo, en el Applebee’s Weekly Journal del 6 de agosto de 1720. Véase Francis Doherty, A Study in Eighteenth-Century Advertising Methods: The Anodyne Necklace (Lampeter: Edwin Mellen Press, 1992), 349-50.

[82] – London Daily Post and General Advertiser, 11 de junio de 1741

[83] – Evening Post, 9-11 de julio de 1719. Jonathan Sisson fue un fabricante de instrumentos para astronomía, navegación e ingeniería, inventó el teodolito moderno (N. Del T.).

[84] – W. Wonnacott, ‘The Lodge at the Goose and Gridiron’, AQC 25 (1912), 168.

[85] – Sobre Waldegrave, véase Berman, Foundations, 148-150; sobre Hotham, véase E. Cruickshanks e I. McGrath, “Hotham, Sir Charles, 4th Bt”, en The History of Parliament: the House of Commons 1690-1715, eds. Eveline Cruickshanks, Stuart Handley y D. W. Hayton (Londres: History of Parliament Trust, 2002 [citado el 2 de agosto de 2016]): disponible en http://www.historyofparliamentonline.org/volume/1690- 1715/member/hotham-sir-charles-1663-1723

[86] –La logia en Queen’s Arms fue famosa posteriormente por el patronazgo del Dr. Johnson, de Boswell y de Garrick. En la década de 1720 también se le conocía como King’s Arms, pero por cuestiones de consistencia aquí usaremos el nombre más usual y conocido de Queen’s Arms.

[87] – “England Births and Christenings, 1538-1975”. Genealogical Society of Utah, Salt Lake City, FHL microfilm 370933.

[88] – Sobre Hinchingbroke, véase E. Cruickshanks y S. Handley, “Montagu, Edward Richard, Visct. Hinchingbrooke”, en The History of Parliament [citado el 5 de mayo de 2017]: disponible en http://www.historyofparliamentonline.org/volume/1690-1715/member/montagu-edward-richard-1692-1722; Berman, Foundations, 135.

[89] – Berman, Foundations, 143.

[90] – R. Sedgwick, “Oxenden, Sir George, 5th Bt”, en The History of Parliament [citado el 5 de mayo de 2017]: disponible en http://www.historyofparliamentonline.org/volume/1715-1754/member/oxenden-sirgeorge-1694-1775

[91] – S. Matthews, “Rich, Sir Robert, 4th Bt”, en The History of Parliament [citado el 5 de mayo de 2017]: disponible en http://www.historyofparliamentonline.org/volume/1715-1754/member/rich-sir-robert-1685-1768; Sommers, “Dunwich: the Acquisition and Maintenance of a Borough”, en Proceedings of the Suffolk Institute of Archaeology and History 38 (1995): 317-318; Berman, Foundations, 127-128.

[92] – A. Newman, “Cope, John”, en The History of Parliament [citado el 5 de mayo de 2017]: disponible en
http://www.historyofparliamentonline.org/volume/1715-1754/member/cope-john-1690-1760

[93] – Robbins, “Earliest Years”, 68.

[94] – Wonnacott, “Goose and Gridiron”, 171. Es probable que no haya habido rituales durante la cena del 24 de junio de 1721, por lo que tal vez ni Wharton ni nadie más haya sido iniciado en esa fecha

Em busca da Apple Tree: uma revisão dos primeiros anos da maçonaria inglesa (Parte II)

18th century history: What was life like in the 18th century? - Who Do You  Think You Are Magazine

Existem muitas contradições no relato feito por Anderson dos primeiros anos da Grande Loja. Por exemplo, ele afirma que o primeiro ato de Sayer como Grão-Mestre deveria reavivar as comunicações trimestrais, mas relata apenas os banquetes anuais que aconteciam na Goose e Gridiron. A primeira comunicação trimestral a que se refere Anderson foi realizada em 25 de março de 1721[50]. Conforme Begemann apontou, era muito difícil para uma reunião trimestral ser realizada em 25 de março, Dia da Anunciação no calendário cristão, quando as pessoas estavam ocupadas com pagamento de aluguéis e renovação de contratos[51], visto que, de acordo com os registros, é evidente que a Grande Loja evitou se reunir naquele dia[52]. Aparentemente, Anderson inventou esta comunicação trimestral para dar a certeza de que o duque de Montagu havia sido nomeado Grão-Mestre em todos os sentidos. Existe um problema semelhante com a comunicação trimestral de março de 1722, durante a qual, supostamente, um comitê da Grande Loja aprovou o texto das Constituições a serem publicadas em 1723. Há outros pontos onde Anderson claramente inventou detalhes para complementar sua narrativa. Seu relatório do aumento no número de lojas entre 1721 e 1722 (12 lojas em junho de 1721, 16 de setembro do mesmo ano e 20 de dezembro de 1721 e 24 de março de 1722) é suspeitamente regular em sua progressão aritmética, e não corresponde ao que sabemos de outras fontes[53].

O epítome das dificuldades narrativas de Anderson é a Apple Tree Tavern, que é o exemplo mais notório de seu problema com datas. A Apple Tree existia em 1738, e os arquivos de licença nos mostram que o dono desta taverna era James Douglas, que a comprou em 1729[54]. No entanto, apesar de se conhecer centenas de nomes de tabernas na Londres de 1716 (muitas delas com variantes do nome “Apple Tree”), não há referência à Apple Tree da Charles Street. Aparentemente, este nome foi dado por Douglas quando ele tomou posse da propriedade em 1729. Como W. J. Williams aponta, os livros de registro mostram que a Apple Tree ficava no lado leste da Charles Street, na esquina da York Street. Este local atualmente corresponde ao número 28 da Wellington Street, esquina com a Tavistock Street, e é ocupado por um restaurante da rede “Bella Italia”. Os proprietários anteriores deste estabelecimento foram Robert McClure – de 1713 a 1719 – e Thomas Taylor – entre 1719 e 1729[56]. As licenças, tanto de McClure quanto de Taylor, eram para trabalhar como estalajadeiros, mas não há evidências de que usaram o nome “Apple Tree“. Nossa discussão durante a última cátedra de Edward A. Sankey, na Universidade de Brock, era que em 1716 este lugar não era uma taberna, mas uma mercearia chamada The Golden Anchor, de propriedade de Simon Mayow[57]. Mas uma revisão posterior dos arquivos mostrou que a The Golden Anchor não estava no lugar que mais tarde foi ocupado pela Apple Tree, mas sim no lado sul da York Street. No entanto, a busca pela Apple Tree ilustra como a narrativa de Anderson é confusa devido a suas invenções e suas atualizações de nomes de pessoas e lugares, no que meias-verdades são intercaladas com fatos inventados de propósito. Apesar de que alguns nomes de taberna passaram de uma geração de proprietários para outra –você ainda pode tomar uma bebida hoje no The Coach and Horses, cujo nome data de 1736–, o nome Apple Tree parece ter sido exclusivo de James Douglas, uma vez que desapareceu após sua morte em 1753[58].

Anderson distorceu e inventou sua narrativa porque a Grande Loja pediu a ele. Na edição de 1723 das Constituições, Anderson tenta mostrar que a origem da Maçonaria pode ser rastreada desde o início dos tempos, mas é muito vaga em sua história sobre a sucessão de Grão-Mestres desde a Antiguidade. Em 31 de março 1735, a Grande Loja aprovou uma moção expressando “o desejo de que o Dr. James Anderson imprima os nomes (em seu novo livro de Constituições) de todos os Grão-Mestres que se possa encontrar desde o início dos tempos, bem como um lista com os nomes de todos os Grão-Mestres substitutos, dos Grandes Vigilantes e dos irmãos que serviram à ordem como Expertos”. Anderson recebeu essas instruções para que, no futuro, todos os oficiais da loja fossem selecionados a partir dessas listas. Esta medida foi pensada para marcar o exclusividade social do grupo e para evitar que qualquer funcionário se torne necessitado a ponto de solicitar assistência de caridade da loja, como aconteceu com Sayer e Joshua Timson, o sapateiro e ferreiro falido que era Vigilante ao mesmo tempo que Anderson[60]. Da mesma forma, a Grande Loja estava, sem dúvida, ciente dos planos que se elaboravam para se estabelecer uma Grande Loja na Escócia e, portanto, devia se apressar para estabelecer sua primazia.

Outra consideração que levou Anderson a enfatizar as continuidades na história da Grande Loja, foi a maneira pela qual esta organização se inclinou para a oposição “patriótica” ao governo de Walpole, oposição esta que se dava em torno do figura de Frederick Louis, o Príncipe de Gales[61]. Esta tendência foi impulsionada por Desaguliers, a quem o príncipe concedeu um espaço no Palácio de Kew para configurar seu equipamento de laboratório[62]. A dedicação e apresentação da edição de 1738 das Constituições ao Príncipe de Gales, foram sinais inequívocos de apoio em uma época em que o herdeiro do trono havia caído nas graças de seu pai e era visto pela oposição como a última esperança para restaurar a ordem que havia sido perdida devido à corrupção de Walpole[63]. Influenciado pelo livro Remarks on the History of England, escrito por Henry St John Bolingbroke em 1730, a oposição “patriótica” destacava a importância “do sentido de continuidade e orgulho que representam ser britânico”, bem como a consciência das tradicionais liberdade e independência britânicas[64]. A história da Maçonaria escrita por Anderson tinha como objetivo mostrar que a organização estava profundamente enraizada na tradição inglesa, porém revitalizada pela casa de Hannover.

Se não fosse pelo testemunho tardio e suspeito de Anderson e a lista de oficiais nos livros de atas, poderia se pensar que a Grande Loja foi fundada em 1721. Não existem referências contemporâneas à Grande Loja entre 1717 e 1721: nem um única nota publicada na imprensa, nem um único panfleto antimaçônico, nem uma menção em nenhum jornal privado, nem uma única peça satírica[65]. Parece que, na Inglaterra, a Maçonaria entrou abruptamente em cena em 1721. Duas outras fontes nos oferecem uma explicação bem simples: a Grande Loja foi fundada na verdade em 1721. Essas fontes são os escritos do médico, antiquário e filósofo natural William Stukeley e um livro nos arquivos da Lodge of Antiquity. Ambos são contemporâneos e mais confiáveis ​​do que as fontes consultadas na pesquisa de Anderson. A história de que Sayer, Lamball e outros tinham sido oficiais da loja antes de 1721 foi inventado por eles mesmos, com o intuito de obter dinheiro do fundo de caridade da Grande Loja. Se ela concordou com o pedido dos três, foi para reforçar seus direitos sobre as outras lojas e para demonstrar sua própria antiguidade.

Stukeley foi um dos fundadores da Sociedade de Antiquários e é lembrado por suas investigações arqueológicas em Avebury e em Stonehenge. Registrou em seu diário que, em 6 de janeiro de 1721, se iniciou “Maçom na taverna Salutation, da Tavistock Street, junto com o Sr. Collins e o Capitão Rowe, que fez a famosa máquina de mergulho”[66]. A Salutation era uma taberna bem conhecida na Bairro de Covent Garden, virando a esquina da Apple Tree, que se estabeleceu em 1709 e sobreviveu até 1881[67].

Não sabemos quem era o Sr. Collins, mas Jacob Rowe era um capitão do mar e empresário de Devon, que patenteou uma máquina de mergulho[68]. Porém, o mais surpreendente na história da iniciação de Stukeley, ele deixou registrado em seu diário[69]: “Fui a primeira pessoa que se iniciou na Maçonaria em Londres desde muitos anos. Tivemos muita dificuldade em encontrar membros suficientes para realizar a cerimônia. Imediatamente depois disso, houve um grande impulso e todos estavam loucos para serem membros”[70]. Por volta de 1750, enquanto preparava um resumo de sua vida, Stukeley novamente enfatizou a falta de Maçons em Londres em 1721: “Sua curiosidade o levou a ser iniciado nos mistérios dos maçons, imaginando que seriam uma continuação dos mistérios dos antigos, mas era difícil encontrá-los em número suficiente em Londres. Depois disso, eles se tornaram uma moda pública, que não só se espalhou pela Inglaterra e Irlanda, mas também por toda a Europa”[71].

É impossível amarrar o relato de Stukeley, sobre a falta de maçons para realizar sua iniciação, com a narrativa de Anderson, que afirma que o número de lojas cresceu rapidamente[72]. A Salutation Tavern, onde Stukeley foi iniciado, estava a alguns passos do ponto na Charles Street onde a Apple Tree mais tarde seria alojada. É surpreendente a dificuldade para encontrar maçons se é que, de fato, uma Loja se reuniu lá. Para Stukeley, o verdadeiro gatilho para o crescimento da Maçonaria foi a nomeação do Duque de Montagu como Grão-Mestre em Stationer’s Hall, em junho de 1721. Ao contrário de Anderson, Stukeley compareceu a este evento e o descreveu assim:

Os maçons jantaram no Stationer’s Hall, estavam presente o duque de Montagu, Lord Herbert, Lord Stanhope, Sir Andrew Fountaine e outros. O dr. Desaguliers fez um discurso. O Grão-Mestre Sr. Payne mostrou um antigo manuscrito das Constituições, que ele obteve no oeste da Inglaterra e que tem 500 anos. Ele leu para nós um novo grupo de artigos que deveriam ser observados. O duque de Montagu foi eleito Grão-Mestre para o ano seguinte, e o Dr. Beal como substituto.[73]

Embora o relato de Stukeley seja muito mais sucinto do que a elaborada história de Anderson, nos fornece detalhes importantes. Em primeiro lugar, ele nos revela que, além da presença de Lord Stanhope – o futuro quarto conde de Chesterfield – também havia Lord Herbert – 9º Conde de Pembroke – que era arquiteto e mecenas, grande promotor do Palladianismo, e o intelectual Sir Andrew Fountaine, responsável pelas coleções de Lord Herbert e outro eminente promotor do Arquitetura Palladiana[74]. Em segundo lugar, Stukeley relata que George Payne apresentou um manuscrito com as “Old Charges“. Nós sabemos que era o manuscrito Cooke[75] graças ao desenho de Stukeley e porque o dito manuscrito estava sob a tutela da Grande Loja em seus primeiros anos, durante os quais William Reid fez duas transcrições do documento[76]. A descoberta do manuscrito Cooke, que talvez fosse considerado um compêndio de “mistérios dos antigos”, fez com que Anderson ficasse encarregado de resgatar as tradições e salvá-las dos “graves erros encontrados na história e na cronologia” ocorridos devido à “ignorância de escribas nas idades escuras e iletradas, antes do renascimento da geometria e da arquitetura antiga”[77].

Stukeley afirma que George Payne era o Grão-Mestre quando o duque de Montagu foi eleito, mas é surpreendente que nem mesmo um homem de ciência, tão bem socialmente conectado, nem mesmo a loja da Salutation Tavern não soubessem nada sobre Payne seis meses antes. Payne fora nomeado Grão-Mestre já em 1721? De igual forma, as reportagens dos jornais nos dizem que entre duzentos e trezentos maçons participaram do banquete no Stationers’ Hall, o que é uma mudança radical em relação a janeiro do mesmo ano. Aparentemente, durante a primeira metade de 1721, a Maçonaria realmente tomou um “grande impulso” e Stukeley teve a ver com isso. Em dezembro de 1721, Stukeley estava envolvido na fundação de uma loja na Fountain Tavern em The Strand, da qual foram membros Dr. Beal, Grão-Mestre substituto da Grande Loja, e o próprio Stukeley foi eleitoGrão-Mestre[78]. Ele nos diz que, em 1722, esta loja recebeu inúmeras pessoas famosas, como o Duque de Queensberry, o Duque de Wharton, Lord Hinchingbrooke, Lord Dumbarton e Lord Dalkeith[79]. O prestígio social deste Loja também foi registrado nas reportagens sobre a Maçonaria na imprensa da época.

A impressão que Stukeley nos passa da repentina aparição em cena da Grande Loja, em 1721, é corroborada por outra fonte que, apesar de não ser muito conhecida, fornece um relato crucial para a história da criação da Grande Loja. Se trata de uma cópia contemporânea de uma ata descrevendo a reunião, em 24 de junho de 1721, que se encontra nos arquivos da Antiquity Lodge nº 2, a mesma loja que se reunia na cervejaria Goose and Gridiron. Estes arquivos não foram suficientemente estudados, e aproveitamos a oportunidade para agradecer ao Venerável Mestre, Secretário e membros da Antiquity Lodge nº 2 que têm nos permitido, com todas as facilidades possíveis, examinar este manuscrito e tirar fotos dele.

Continua…

Autores: Andrew Prescot e Susan Mitchell Sommers
Traduzido por: Luiz Marcelo Viegas

Fonte: REHMLAC

*Clique AQUI para ler a primeira parte do artigo.

Screenshot_20200502-144642_2

Se você acha importante o trabalho que realizamos com O Ponto Dentro do Círculo, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

Notas

[51] – El día de la anunciación, “Lady Day” en inglés, fue hasta 1752 (cuando el gobierno británico adoptó el calendario gregoriano) el primer día del año. Los contratos de arrendamiento de la época tenían vigencia de un año, e iban del “Lady Day” de un año al del siguiente (N. del T.)

[52] – Begemann, Early History, 609.

[53] – Begemann, Early History, 610.

[54] – La primera referencia de la Apple Tree en los registros de licencias de Westminster data de 1729, cuando le fue otorgada a James Douglas: London Metropolitan Archives, WR/LV/1/19. En otra publicación se hace la primera mención de Douglas como licenciatario de la taberna Apple Tree en 1736, véase Westminster City Archives Research Group, One on Every Corner: the History of Some Westminster Pubs (Londres: Westminster City Archives, 2002), 64. Este fue el año en que Douglas tomó posesión de su propiedad según consta en los Westminster City Archives, St. Paul Covent Garden Rate Books.

[55] – W. J. Williams, “A Masonic Pilgrimage through London”, AQC 42 (1930): 105-106.

[56] – Al parecer, James Douglas era yerno de Taylor. Thomas Taylor bautizó a su hija Mary en St. Paul Covent Garden en 1708. James Douglas se casó con Mary Taylor (aunque no sabemos si en realidad era la hija de Thomas) en 1728, justo cuando Thomas Taylor cedió la propiedad del local en Charles Street. Douglas bautizó cuatro hijos en St. Paul Covent Garden entre 1729 y 1733. Thomas Taylor reaparece en los registros como licenciatario de una propiedad en la cercana Brydges Street, también en Covent Garden, en 1729: London Metropolitan Archives, WR/LV/1/19.

[57] – The Golden Anchor se menciona en espacios publicitarios en el Daily Courant, del 16 de enero de 1718, en el Original Weekly Journal, del 1 de marzo de 1718, y nuevamente en el Daily Courant, del 22 de noviembre de 1722.

[58] – La última referencia de la Apple Tree que quedó registrada fue en 1751: London Metropolitan Archives, WR/LV/1/24. A partir de este punto, el nombre de Douglas se reemplazó por el de John Lemman. Un James Douglas fue enterrado en St. James Piccadilly en 1753: “England, Middlesex, Westminster, Parish Registers, 1538-1912”. City of Westminster Archives Centre, Londres, FHL microfilm 1042313.

[59] – QCA 10, 251.

[60] – St. Clement Danes, Pauper Settlements, Vagrancy and Bastardy Examinations, 13 de noviembre de 1742, ref. WCCDEP358180037-38; QCA 10, 123, 130, 134.

[61] -Berman, Foundations, 174-175.

[62] -Carpenter, Desaguliers, 45-46.

[63] – La presentación del libro ante el príncipe se consignó en los anuncios publicitarios de la obra, por ejemplo, en el London Daily Post and General Advertiser del 3 de noviembre de 1739 y en el Country Journal or The Craftsman del 24 de noviembre de 1739.

[64] – Andrew Pink, “Robin Hood and her Merry Women: Modern Masons in an Early Eighteenth-century London Pleasure Garden”, Journal of Research into Freemasonry and Fraternalism 4 (2013): 203-206; Christine Garrard, The Patriot Opposition to Walpole: Politics, Poetry, and National Myth (Oxford: Clarendon Press, 1994).

[65] – Dada la falta de evidencia sobre la existencia de la Gran Logia en 1721, es importante ser cuidadosos en la datación de los documentos. Por ejemplo, el reporte de una reunión masónica en Pontefract, publicado en el Leeds Mercury y citado por Berman en su obra Foundations, está basada en la calendarización “Old Style” (véase la nota 59), por lo tanto, la fecha correcta debería ser el 16 de enero de G. D. Lumb, “Extracts from the Leeds Mercury 1721-1729”, Thoresby Society 22 (1915), 187-188. De igual forma, el English Short Title Catalogue data la obra teatral satírica Love’s Last Shift or Mason Disappointed como de 1720, pero en realidad fue anunciada en el Stamford Mercury del 6 de junio de 1723 como una obra nueva.

[66] – Bodleian Library, MS Eng. misc. c.533: f. 34v; W. C. Lukis, ed., The Family Memoirs of the Rev. William Stukeley, M. D. (Surtees Society, 1880), vol. I, 62; David Boyd Haycock, William Stukeley: Science, Religion and Archaeology in Eighteenth-Century England (Woodbridge: Boydell Press, 2002), Una inspección del manuscrito revela que fue redactado por Stukeley en la fecha de los eventos.

[67] – “Southampton Street and Tavistock Street Area: Tavistock Street”, en Survey of London: Volume 36, Covent Garden, 218-222. La taberna Salutation se convirtió en uno de los refugios favoritos del príncipe regente. W. Earle, Sheridan and his Times (Londres: J. F. Hope, 1859), vol. 1, 299-311. Esta taberna no tenía relación alguna con la masonería, a excepción de lo que relata Stukeley sobre su iniciación, y no debe confundirse con la cafetería que estaba sobre la misma calle y que era propiedad del masón Richard Leveridge, error cometido por J. Timbs en su libro Clubs and Club Life in London (Londres: John Graham Hotten, 1872), 434-435, y repetido por E. Beresford Chancellor en The Annals of Covent Garden and its Neighbourhood (Londres: Hutchinson, 1930) 154.

[68] – Peter Earle, Treasure Hunt: Shipwreck, Diving and the Quest for Treasure in an Age of Heroes (Londres: Methuen, 2007).

[69] – Este es un concepto muy de habla inglesa, que no tiene una traducción directa al español. Se trataba de un cuaderno en el que las personas copiaban fragmentos de obras que hallaban interesantes, apuntaban datos diversos o ideas que venían a su mente o que escuchaban de alguien más. No era precisamente un diario. Podría pensarse más en un “cajón de sastre” o en “cuadernos de todo”, como llamó a los suyos la escritora Carmen Martín (N. del T.).

[70] – Bodleian Library, MS Eng. misc. e.260: f. 88; Family Memoirs, vol. I, 122; Haycock, 175.

[71] – Family Memoirs, vol. I, 51.

[72] – Book of Constitutions, 1738, 111.

[73] – Bodleian Library, MS Eng. misc. c.533, f. 35; Family Memoirs, vol. I, p. 64; D. Knoop, G. P. Jones y D. Hamer, The Two Earliest Masonic Manuscripts (Manchester: Manchester University Press, 1938), 55. Otra referencia que hace Stukeley a la cena del 24 de junio de 1721, que había pasado desapercibida previamente, se encuentra en la Bodleian Library, MS Eng misc e. 121: f. 30: “[1721] Junio 24. Cena con el D. Montagu y etcétera en la fiesta de los Masones en Stationers Hall”.

[74] – Véase T. P. Connor, “Herbert, Henry, ninth earl of Pembroke and sixth earl of Montgomery (c.1689–1750)” y Andrew W. Moore, “Fountaine, Sir Andrew (1676–1753)”, en Oxford Dictionary, nos. índ. 101013033 y 101009994 Berman, Foundations, 105,125,135,179.

[75] – Manuscrito fechado hacia el 1450 que mezcla un elogio de la geometría con fragmentos del antiguo testamento para hacer un relato de los orígenes de la masonería operativa. Una transcripción en inglés moderno se puede consultar en http://freemasonry.bcy.ca/texts/cooke.html (N. del T.).

[76] – Knoop, Jones y Hamer, Masonic Manuscripts, 55-57; G. P. Speth, “The Stukeley-Payne-Cooke MS”, AQC 4 (1891), 69-70; Family Memoirs, vol. I, no. 18, 64. El dibujo de Stukeley se supone que está junto con sus demás papeles en la Bodleian Library, pero hasta ahora no ha sido localizado.

[77] – Book of Constitutions, 1723, 73.

[78] – Bodleian Library, MS Eng. misc. c.533, f. 36; Family Memoirs, I, 66.

[79] – Bodleian Library, MS Eng. misc. c.533, f. 36v.

A (im)perfeição e as Old Charges – Parte I

imperfeito.com | Lutando contra a imperfeição - Projeto Imperfeito

No Livro das Constituições de Andersen, de 1723, aprovado por maçons ilustres como Desaguliers, Cowper e Payne – reputados e reconhecidos pela sua sabedoria maçónica – podem encontrar-se estas palavras: “The men made masons must be free-born, no bastard, and of mature age, and of good report, hale and sound, not deformed, or dismembered at the time of their making” (Os homens feitos maçons devem ter nascido livres, não bastardos, de idade madura, boa fama, saudáveis e sãos, não deformados ou amputados na altura da sua admissão). Isto levanta a questão: manter-se-á esta exigência nos dias de hoje? Não há melhor forma de entender uma lei do que descobrir e entender o propósito do legislador quando se deu ao trabalho de a elaborar.

Em Junho de 1718 – fazia a Grande Loja de Inglaterra um ano – o Grão-Mestre manifestou o desejo de que os Irmãos que tivessem acesso a registos e escritos antigos sobre Maçons e Maçonaria os trouxessem à Grande Loja, para que pudessem ser constatados os antigos usos e costumes da Maçonaria Operativa. Era importante, no contexto da altura, conferir à Ordem recém criada uma certa patine, alguma daquela aura de autoridade que só a idade proporciona. Foi assim que, nesse ano, apareceram diversas cópias de documentos referente à Maçonaria Operativa – as “Gothic Constitutions”. Face a estas, e não as achando adequadas, o Grão-Mestre e a Grande Loja ordenaram ao Irmão James Andersen que as coligisse e elaborasse um novo e melhor Método.

James Anderson, em 1723, com a aprovação da sua Grande Loja, publicou o resultado do seu laborioso trabalho, no que se tornou uma das obras que mais influenciou a Maçonaria até aos nossos dias: o primeiro livro de “The Constitutions of the Free-Masons”. Nele incluiu uma secção chamada “the Charges of a Free-Mason” – os chamados “Antigos Deveres” – extraída de registos de lojas “para além do mar”, bem como de Inglaterra, Escócia e Irlanda, para uso pelas Lojas de Londres. Foi assim que James Anderson fez uso dos antigos manuscritos a que chamou “The Old Gothic Constitutions”, e que citou e parafraseou extensivamente na sua obra. É por esta razão que, num livro destinado a Maçons Especulativos, encontramos regras que só fazem sentido quando aplicadas a Maçons Operativos.

Os “Antigos Deveres” são os documentos históricos que constituem as tais “Gothic Constitutions”. De um total de 119 documentos, cerca de dois terços são anteriores à primeira Grande Loja de 1717 – talvez uns 75 – e uns 55 são anteriores a 1700. Quatro foram escritos por volta de 1600, um é datado de 1583, outro de cerca de 1400 ou 1410, e outro será de cerca de 1390.

Quase todos começam com uma invocação: “Que a vontade do Pai do Céu, com a sabedoria do seu Glorioso Filho, através da graça e bondade do Espírito Santo, que são três Pessoas num só Deus, estejam conosco no nosso início, e nos deem a graça de que governemos a nossa vida aqui de modo que possamos chegar à Sua felicidade que não tem fim. Amém.”

Pode ler-se então o anúncio do propósito e do conteúdo, seguido de uma breve descrição das Sete Artes Liberais ou Ciências, uma das quais é a Geometria. Seguia-se uma extensa História Tradicional da Geometria, Maçonaria e Arquitetura, que tomava mais de metade do texto, e que se iniciava nos tempos bíblicos de Noé, terminando no ano de 930, em que o Príncipe Edwin reuniu uma assembleia de maçons na cidade de York, e estabeleceu os regulamentos usados “desde esse dia até aos dias de hoje”.

A seguir vinha a forma de se fazer um juramento: “Um dos anciãos segurava o Livro, de modo que ele ou eles pudessem colocar as mãos sobre o Livro, e então as regras eram lidas.” a que se seguia o aviso: “Que cada maçom tome nota destes juramentos, pois se alguma vez se vir culpado de ter violado um, que possa reconciliar-se com Deus. E especialmente tu que vais prestar juramento, toma atenção ao cumprimento destes juramentos, pois é um grande perigo para um homem quebrar um juramento feito sobre um Livro”.

Seguia-se a lista das regras a cumprir, algumas de cariz comercial, outras de índole comportamental. Sem dúvida que eram essenciais a uma comunidade de artesãos que trabalhavam em grande proximidade vinte e quatro horas por dia. Por fim, vinha o juramento: “Estas ordens que ensaiámos, e outras que pertençam à Maçonaria, iremos guardar, assim Deus nos ajude, e por este Livro e para o seu poder. Amém.”

Autor: Paulo M.

Fonte: Blog A Partir Pedra

Screenshot_20200502-144642_2

Se você acha importante o trabalho que realizamos com O Ponto Dentro do Círculo, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

Maçonaria moderna: o legado escocês – Parte II

The Freemasons Hall, home of The United Grand Lodge of England: Uncovering  a few hidden treasures | Masonic lodge, Masonic, Freemason

Segundo Stevenson (2009), referindo-se à maçonaria na Escócia, “já em meados do século XVII, podem ser detectados nas Lojas ideais semelhantes, em muitos aspectos, aos da maçonaria moderna, além de um significativo número de homens que não eram pedreiros sendo admitidos nelas”. Estendendo-se até século XVIII, afirma que “uma das funções básicas de muitas Lojas era regulamentar a vida profissional dos pedreiros livres”.

Vale destacar que, já em 1600, registrou-se o ingresso de Sir John Boswell, iniciado na Loja Capela de Santa Maria em Edimburgo na Escócia, considerado um dos primeiros maçons “não operativos” ou “aceitos” conhecidos. Registre-se que, até o Tratado da União de 1707, que criou o Reino da Grã-Bretanha, a Escócia era um país considerado inimigo da Inglaterra. Outro renomado iniciado foi Elias Ashmole (1617-1692), antiquário, político, oficial de armas, estudante de astrologia e alquimia britânico, recebido em uma confraria dos obreiros maçons em 1646, em Warrington (condado de Lancashire/Inglaterra), pertencente ao grupo de cientistas e livres pensadores que mais tarde fizeram parte da Sociedade Real de Londres (Royal Society), que nenhuma relação tinha com a Maçonaria.

Destaca Benimeli (2007), jesuíta e historiador não maçônico, que na Escócia, “em 1670, na Loja de Aberdeen, três quartos de seus 40 afiliados eram advogados, médicos e comerciantes. Exatamente nessa Loja já existia a distinção entre os construtores de edifícios e aqueles que se de dedicavam às especulações sobre geometria”.

O período de transição entre a Maçonaria Operativa e Especulativa teve mais consistência entre 1660 e 1716, segundo o historiador alemão Findel (citado por Benimeli, 2007), época de distúrbios civis. Transcorridos 117 anos desde a afluência dos “aceitos”, não mais atuava a força operativa que dera origem àquelas organizações, passando os associados à condição de especulativos, com os encargos das atividades operativas deixadas aos cuidados dos sindicatos e partidos políticos.

Por sua vez, Stevenson (2009), argumenta que evidências do século XVII relacionadas ao desenvolvimento da Maçonaria são abundantes na Escócia e quase inexistentes na Inglaterra. Afirma que em Lojas na Inglaterra, desde a década de 1640, é registrada a iniciação de cavalheiros, mas o processo é mais obscuro.

“O elo com os pedreiros e suas organizações era fraco, e os segredos possuídos pelos maçons ingleses e suas organizações em Lojas parece ter vindo da Escócia, sugerindo que, enquanto lá a maçonaria surgira das verdadeiras práticas de pedreiros trabalhadores, na Inglaterra ela fora, pelo menos em parte, importada da Escócia, em Lojas sendo criadas por cavalheiros e para os cavalheiros.” (grifo nosso).

Pesquisas indicam que nos registros ingleses no ano de 1600, o sistema de guildas já estava enfraquecido, não podendo ser comprovada a existência de Lojas Operativas. É nesse contexto que reside o busílis, dando respaldo para os críticos de uma transição não documentada, evidenciando-se o surgimento de lojas maçônicas na Inglaterra com caráter puramente especulativo, que Stevenson (2009) denomina de “artificiais”. Remanesce, portanto, a dúvida quanto à condição dos não operativos, se seriam ou não efetivamente especulativos ou, ainda, se poderiam ser equiparados à condição de membros honorários, como se conhece atualmente.

Provisoriamente, o que se sabe, é que tudo isso desaguou em 1717, no dia 24 de junho, quando três lojas londrinas e uma loja de Westminster, cujos membros eram então exclusivamente especulativos, numa tacada de mestre, formaram a Grande Loja de Londres e Westminster, marco histórico que introduziu o sistema Obediencial, incorporando cerimônias e regras tradicionais das antigas Lojas de obreiros-aceitos, tipo copia e cola avant la lettre do modelo escocês, com a eleição de um Grão-Mestre (Anthony Sayer) e outros oficiais.

Com isso, personalidades como James Anderson e J. T. Désaguliers, seguidores de Lutero, passaram elaborar a maior parte do material então adotado. Anderson (1679-1739), escocês de Aberdeen, ordenado ministro presbiteriano da Igreja da Escócia em 1707, e profundo conhecedor da evolução das Lojas em seu país de origem, é considerado o autor do documento de fundação da moderna Maçonaria Especulativa, publicado em 1723, no qual faz referência à célebre reunião da noite de São João do ano 1717 como data de fundação da primeira Grande Loja (vide Nota 1).

Na elaboração de sua Constituição, onde produziu uma apologia sobre os antecedentes históricos da “entidade então restaurada”, Anderson buscou subsídios nos antigos manuscritos, estatutos e regulamentos da Maçonaria Operativa da Escócia, Inglaterra e Itália. Conforme afirma Anatalino (2007), Anderson estipulou que nenhum irmão poderia ser supervisor (entenda-se Vigilante), sem antes ter passado pelo grau de Companheiro; nem Mestre (entenda-se Venerável) antes de ter exercido as funções de supervisor (Vigilante).

A admissão de novos membros ficou então condicionada ao atendimento do pré-requisito de crença em um Ser Supremo, admitindo-se homens de todas as religiões e tendo como tema central o comportamento moral, o auto aperfeiçoamento constante e a dedicação à caridade. A Maçonaria foi acusada de descristianização em 1723, com a permissão de entrada de adeptos de outros credos que não o catolicismo.

Essa “transição” da Maçonaria dos Aceitos, desde 1600 na Escócia, para a condição de Especulativa por excelência ou Maçonaria Moderna, como se afirma desde então, exigiu adaptação dos títulos maçônicos para fins de adequação a uma estrutura que funcionaria nos moldes de uma escola, com a escolha de alguns Mestres entre os Companheiros para administrar e conduzir os trabalhos. Não há indícios de que, na época, os ingleses pensassem numa confederação que se estendesse além de Londres e de Westminster. Pouco a pouco, outras Lojas Maçônicas, a maioria em torno de Londres, uniram-se à nova Grande Loja.

Segundo Stevenson (2009), a partir do século XVIII, os ingleses começaram a inovar e adaptar o movimento e assumindo a liderança no desenvolvimento da Maçonaria originária na Escócia, afirma, com alguns dos valores associados ao Iluminismo sendo incorporados. “À medida que a Idade da Razão alvorecia, a maçonaria – nascida da Renascença – era adaptada para acomodar-se ao novo clima”. Segundo o irmão Alex Davidson, “a maçonaria ‘especulativa’ pode ter-se desenvolvido a partir da influência de William Schaw na Escócia e posteriormente disseminada para Inglaterra, mas a essência da maçonaria iluminista é caracteristicamente inglesa, e o que foi reexportado para a Escócia no início do século XVIII era algo novo. A ênfase em constituições, leis e governança originou-se em Londres”.

Stevenson (2009) ressalta ainda que, “começando na Grã-Bretanha, a maçonaria se espalhou pela Europa em meados do século XVIII, de uma maneira assombrosa”. Contrapondo-se à corrente inglesa, comenta que a criação da Grande Loja de Londres em 1717 “é quase irrelevante no longo processo de avanço do movimento, pois embora a Grande Loja Inglesa tenha tido um importante papel na organização da maçonaria, quando fundada ela apenas reuniu quatro Lojas de Londres”. Porém, aduz que “o fato de a Inglaterra ter dado o primeiro passo em direção à organização nacional e de tal gesto ser imitado subsequentemente na Irlanda (c.1725) e na Escócia (1736), levou muitos historiadores maçônicos ingleses a concluir levianamente que a maçonaria se originou na Inglaterra, que depois teria passado para o resto do mundo”.

As lojas maçônicas passaram a ser consideradas como centro de influência inglesa e, portanto, contrárias aos interesses das famílias dinásticas europeias, de orientação católica. Provocaram incômodo nos poderes dominantes de cada país, despertando o receio de conspirações para derrubada e tomada do poder pelo grande afluxo de nobres e aristocratas aos seus quadros. Não podemos olvidar que, desde o rompimento com a Igreja Católica e a criação da Igreja Anglicana, em 1534, a Inglaterra ignorava a autoridade do Sumo Pontífice. O rei Henrique VIII se autoproclamara único protetor e chefe supremo da Igreja e do clero da Inglaterra e confiscou, à época, todos os bens da Igreja Católica e aboliu o celibato dos padres.

A primeira objeção formal ao conceito de Grande Loja veio em 1725 pela Loja Maçônica de York, localizada na cidade inglesa de mesmo nome, frente à assumida superioridade e antiguidade dos londrinos. No ano de 1737, teve início uma explosão da Maçonaria na França, dando “início à proliferação de novas ordens maçônicas e à criação de novas lendas e fantasias que confundem qualquer tentativa séria de compreender a maçonaria moderna, mesmo nos Estados Unidos”, conforme registra o historiador não maçônico John Robinson (2014).

Na antiga Maçonaria Operativa não existia o grau de Mestre, apenas os de Companheiro (Fellow) e Aprendizes. O titulo de Mestre era dado apenas ao presidente da Loja, eleito entre os Companheiros ou adquirido por herança. O Grau de Mestre Maçom somente seria implantado a partir de 1738, apesar de criado em 1725, quando a Maçonaria passou a ser iniciática. Até 1725 não havia “Iniciação” e sim uma “Recepção” de um novo membro ou sócio, que consistia de um compromisso prestado sobre o Livro de Registro da Confraria e, tempos mais tarde, sobre o Evangelho de São João (Carvalho, 1997). Outras fontes registram a criação deste grau em 1723 e efetiva implantação em 1738.

A confusão com caráter religioso deu-se com o formato das cerimônias no recinto das Lojas, que levaram a Maçonaria britânica das tabernas para salas e edifícios construídos especialmente para isso, introduzindo-se música de órgão e a composição de hinos a ser cantados pelos irmãos. Funerais maçônicos, preparados com os emblemas da Ordem, ocorriam em Igrejas Protestantes, onde, após o ministro terminar seu serviço, os maçons tomavam a vez com os próprios ritos, dando a entender ao público de que a Maçonaria era uma Ordem “religiosa” à parte.

Um famoso personagem, iniciado em 1730, motivo de controvérsias e considerado responsável pelo prestígio da Maçonaria, foi o também escocês Michel Andrew Ramsay (1686-1743), “profundo conhecedor da história antiga e moderna, doutor pela Universidade de Oxford e membro da Sociedade Real de Londres, como muito outros maçons proeminentes da época” (Figueiredo, 2016). A ele é atribuído um polêmico discurso, “não pronunciado”, segundo consta, publicado em 1738, que ligaria a Maçonaria aos nobres das Cruzadas, argumento considerado uma invencionice, sem comprovação histórica, mas que promoveu uma efervescência à época, inclusive influenciando na elaboração e desenvolvimento dos altos graus maçônicos entre 1740 e 1780. Nesse discurso é dado um ar de aristocracia à Maçonaria. Os detratores do Cavaleiro Ramsay argumentam que ele não aceitava a verdadeira origem humilde dos maçons construtores e analfabetos, tendo então inventado essa narrativa.

A Maçonaria despertou mais inimizades do que qualquer outra organização secular na história mundial. Difamadores ganharam força ao longo do tempo em face da tradição da Maçonaria em não responder aos ataques, beneficiando-se do conceito de “confissão de silêncio”, mesmo atualmente com a sociedade dominada pela mídia. Por isso, “os Maçons podem estar destinados a permanecer controversos, embora a legião de críticos sejam facilmente desafiadas pelas legiões de notáveis que escolheram ser membros dela” (Robinson, 2014).

Com a expansão da Maçonaria a partir da fundação da Grande Loja da Inglaterra e Westminster e os novos pensamentos elaborados pela dupla Anderson & Désaguliers, passou-se a exigir que as demais Lojas europeias lhe rendessem obediência. Mas, isso causou repercussões no âmbito da Igreja Católica, então Senhora do Mundo, que entendeu não ter reconhecido tal direito às quatro Lojas de Londres, pois cabia a Roma a competência para delegar poderes e concedê-los absolutos dentro dos comportamentos humanísticos, coroando reis e dando forma jurídica às nações.

A Maçonaria passou, então, a ser vista pela Igreja Católica como uma “seita” vinculada à dissidente religião Anglicana. Por isso, nos séculos seguintes, “a maçonaria foi alvo de mais bulas e encíclicas papais odientas do que qualquer outra organização secular na história cristã” (Robinson, 2014). (Sugerimos a leitura do artigo “Maçonaria e Igreja Católica, reconciliação improvável” – Partes I, II, II e IV, em:  https://opontodentrocirculo.com/2018/10/08/maconaria-e-igreja-catolica-reconciliacao-improvavel/).

A Maçonaria inglesa passou ainda por ajustes, tendo em vista a formação de uma Potência rival em 1751, a Grande Loja da Inglaterra, que se apresentou como depositária das Antigas Instituições. Lawrence Dermott (1720-1791), irlandês, eleito segundo Grande Secretário em 1752, escreveu em 1756 o “Ahiman Rezon”, adotado como Constituição para suas Lojas jurisdicionadas. Dermott combatia a narrativa lendária da Maçonaria criada por James Anderson, a quem denominava de “Modernos”. Em 1813, as duas se uniram, formando a Grande Loja Unida da Inglaterra (GLUI).

O primeiro Templo Maçônico inglês fixo foi construído entre 1772 e 1776, o conhecido “Freemason Hall”. O Grande Oriente da França (GOF), nascido em 1728, como Primeira Grande Loja da França, tendo tomado a sua forma e atual nome em 1773, conseguiu, no ano de 1788, o seu primeiro Templo, proibindo a reunião em tabernas, a partir de então. Entretanto, por divergências de práticas, o GOF não tem tratado de reconhecimento junto à Maçonaria inglesa. Somente a Grande Loja Nacional Francesa (GLNF), fundada em 1913, a partir do GOF, tem reconhecimento junto à GLUI. Enfim, no que se refere aos Protocolos e práticas litúrgicas e ritualísticas adotadas pelas diversas Potências, são marcantes as influências anglo-saxônica (teísta) e francesa/latina (deísta), sobre a estrutura do simbolismo do REAA, em especial, considerando-se que cada país preserva sua autonomia para defini-los.

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

Screenshot_20200502-144642_2

Se você acha importante o trabalho que realizamos com O Ponto Dentro do Círculo, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

Referências

ANATALINO, João. Conhecendo a Arte Real. São Paulo: Madras, 2007;

ASLAN, Nicola.  A Maçonaria Operativa Escocesa. Disponível em https://www.revistaartereal.com.br/wp-content/uploads/2014/02/A-MACONARIA-OPERATIVA-ESCOCESA-Nicola-Aslan.pdf

CARVALHO, Assis. A Descristianização da Maçonaria. Londrina: Ed. “A Trolha”, 1997;

DAVIDSON, Alex. O Conceito Maçônico de Liberdade – Maçonaria e o Iluminismo. Artigo em: https://bibliot3ca.com/o-conceito-maconico-de-liberdade-maconaria-e-o-iluminismo/

FERRER-BENIMELI, José Antônio. Arquivos secretos do vaticano e a franco-maçonaria. São Paulo: Madras, 2007;

FIGUEIREDO, Joaquim Gervásio. Dicionário de Maçonaria: seus mistérios, ritos, filosofia, história. São Paulo: Pensamento, 2016;

MELLOR, Alec. Os Grandes Problemas da Atual Franco-Maçonaria – Os novos rumos da Franco-Maçonaria. São Paulo, Pensamento, 1976;

OLIVEIRA FILHO, Denizart Silveira. Da Iniciação Rumo à Elevação. Londrina: Editora Maçônica “A Trolha”, 2012;

___________________________. Da Elevação Rumo à Exaltação. Londrina: Editora Maçônica “A Trolha”, 2013;

ROBINSON, John J. Nascidos do Sangue. São Paulo: Madras, 2014;

STEVENSON, David. As Origens da Maçonaria: O Século da Escócia (1590 – 1710). São Paulo: Madras, 2009;

VICENTINO, Cláudio. História Geral. São Paulo: Editora Scipione, 1992;

XAVIER, Arnaldo. Saiba o que são Maçonarias. Belo Horizonte: Label Artes Gráficas, 2010;

Blog do Pedro Juk, em: http://pedro-juk.blogspot.com/

Blog “Freemason”, em: http://www.freemasons-freemasonry.com/regius.html

______________, em http://maconico.com.br/a-carta-de-bolonha-1248-o-mais-antigo-documento-maconico-freemason-pt/

Blog “No Esquadro”, em:  https://www.noesquadro.com.br

Blog “O Ponto Dentro do Círculo”, em: https://opontodentrocirculo.com/2019/10/08/a-maconaria-inventada/

_________________________, em: https://opontodentrocirculo.com/2018/06/03/o-manuscrito-cooke/ _________________________, em https://opontodentrocirculo.com/2021/02/06/consideracoes-sobre-o-poema-regius-do-seculo-xiv/

Episódio 43 – Quem foi James Anderson?

Nada predispunha o Reverendo James Anderson (1679-1739) a se tornar o mais famoso entre os maçons modernos; especialmente não a publicação em 1732 de sua obra-prima: Genealogias reais, ou Tabelas genealógicas de imperadores, reis e príncipes, desde Adão até os dias atuais. Mas  o  acaso quis que ele fosse um dia escrever as “Constituições” de uma associação que, no entanto, tinha muito poucos membros.  (music: Slow Burn by Kevin MacLeod; link: https://incompetech.filmmusic.io/song/4372-slow-burn; license: https://filmmusic.io/standard-license)
Screenshot_20200502-144642_2

Se você acredita em nosso trabalho e acha importante o que realizamos, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através de um dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Episódio 37 – O primeiro iniciado do mundo

Os textos atribuídos a James Anderson foram compilados sob a supervisão de Desaguliers. Rir de Anderson é um apanágio daqueles que se julgam à altura de rir da simbologia, dos graus acadêmicos M.A. e D.D. que o Reverendo possuía, do prestígio da Royal Society e da fundação da moderna maçonaria. (music: Slow Burn by Kevin MacLeod; link: https://incompetech.filmmusic.io/song/4372-slow-burn; license: https://filmmusic.io/standard-license)
Screenshot_20200502-144642_2

Se você acha importante o trabalho que realizamos com O Ponto Dentro do Círculo, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

As Constituições de Anderson de 1723 e de 1738

The importance of the Constitutions of Anderson | SUN YAT SEN LODGE N. 8

Há um texto em La Tulip [1] que, parcialmente, atinge o alvo quando diz que “a distinção entre operativos e especulativos nunca poderá ser absoluta por dois fatores: o primeiro, que as Antigas Obrigações contêm parte de natureza especulativa na forma de uma espécie de lenda alegórica do Ofício; o outro fator exposto é que as primeiras lojas da Grande Loja de Londres eram nessa época operativas, apesar da aceitação de numerosos cavalheiros, ou seja, aqueles que sabem como desempenhar bem o seu ofício, que estão em posição de ocupar um cargo de responsabilidade social; que têm um senso de honra, pelo qual é respeitado pelos demais. Aprendeu mais com as viagens que fez e com a experiência direta com as coisas do que com os livros. Que foi formado com um critério pessoal, com o qual é capaz de julgar as coisas. E quem tem conhecimento sólido e útil para a vida. além da virtude de saber como dominar seus sentimentos e subordiná-los à razão, antes de agir de acordo com eles.

Mas, em 1723, elas não eram numerosas o suficiente, a tal ponto que várias prescrições foram consagradas no mesmo ano, como o parágrafo V das Antigas Obrigações[2].

Nessas questões se misturam, por um lado, a petição de Payne como Grão-mestre para recolher todos os manuscritos sobre Maçons e a Maçonaria, a fim de conhecer em primeira mão os usos antigos, que certamente já deviam ser conhecidos se atentarmos para o pastor James Anderson, que afirma que, em 1716, havia seis lojas, e em 1718 já havia meia centena, o que resulta em que devia haver um grande número de maçons entre todos esses membros, o que indica, por sua vez, que a referida herança não era fácil de dissolver, pois era muito evidente e ativa entre as lojas fundadoras da Grande Loja em 1717, fossem elas operacionais ou quase especulativas.

Exceto que a estratégia de que falam Roger Dachez e Alain Bauer era justamente a de conseguir todas as cópias possíveis e depois livrar-se delas, [este é um argumento desenvolvido por um bom amigo Anselmo Vega em seu romance El Muro de Piedra [3], cuja tese se conecta muito bem a toda essa estratégia, porque mais tarde, na época do Grão Mestrado do duque de Montagu, ele declara “que havia encontrado todas as cópias [aquelas cópias das Antigas Obrigações que foram submetidas pelos membros da Grande Loja] para que fossem reformuladas em um método novo e melhor.”[4]

Nesse contexto, em que se indica ter uma série de lojas promovido a redação das Constituições de 1723, denominadas de Anderson, cujo texto não só não é assinado, mas só tem uma dedicatória ao Grão-Mestre, o duque de Montagu, escrito e assinado por Theophilus Desaguliers, Grão-Mestre Adjunto em exercício, terminando com a aprovação da obra pelo duque de Warthon, mas uma vez terminado o mandato de Montagu.

O fato de que as Constituições não tiveram o nihil obstat da Grande Loja, supunha-se que era devido a que estas eram entendidas como um trabalho coletivo e, apesar da supervisão de quatorze membros da Grande Loja, a situação de aprovação não fica clara. Segundo Anderson, foi aprovado com algumas emendas, mas pode-se duvidar sobre algumas dessas questões [5], dado que a Grande Loja teve dificuldade em aprovar o trabalho de Anderson, um fato que este estava interessado em esconder.

O texto das Constituições ainda estava na gráfica em janeiro de 1723, por isso era necessário emitir uma segunda aprovação muito mais curta e mais séria com os nomes do Grão-Mestre Wharton e de seus adjuntos, tais como Desaguliers, alegando que o livro havia sido produzido em forma impressa na comunicação trimestral em 17 de janeiro de 1723, sendo ordenada a publicação e recomendado para o uso das lojas.

Alguns dias depois, em 23 de janeiro de 1723, o seguinte anúncio apareceu no Daily Journal:

“Em benefício da antiga Sociedade dos Maçons Livres. Agora está pronto para publicação, um novo conjunto de constituições e ordens, muito diferente do Antigo, pelo qual a referida Sociedade está feliz e silenciosa, regulado por muitas eras passadas.

Serve o presente para informar a todos os amantes da pura Maçonaria, retiradas as Inovações e Interesses pessoais, que terá uma preparação rápida e entregue a eles, gratuitamente, as antigas constituições e ordens, tiradas das melhores cópias; onde tais erros na história e na cronologia, que, devido ao descuido de vários transcritores que se infiltraram entre eles, será completamente retificados

A extensão extravagante das referidas novas Constituições e Ordens, superior aos quatro sermões comuns, torna mais evidente que nele se calculam os gastos e danos da sociedade, simplesmente para servir ao interesse de um único membro, o autor, cuja segurança era tal que ele os imprimiu antes de oferecê-los à Censura Geral da Fraternidade. Por quais razões, esperamos que a Irmandade não se apresse agora para incentivar o referido Inovador. Para mostrar de forma honrosa e justa que trata com seus amados Irmãos Maçons, seu livro completo de dois e seis centavos será publicado rapidamente, em um papel tão bom quanto o dele, pelo preço de seis centavos; dos quais aviso oportuno será apresentado neste documento “.[6]

De qualquer forma, temos essa significante dedicatória inserida nas Constituições de 1723:

“À Sua GRAÇA O DUQUE DE MONTAGU SENHOR: Por Ordem de Sua Graça, o Duque de Wharton, atual justamente honorável Grão Mestre dos Maçons, e como seu Adjunto, dedicou humildemente a Vossa Graça este Livro das Constituições de nossa antiga Fraternidade, em testemunho de vosso honroso, prudente e vigilante desempenho do cargo de nosso GRÃO MESTRE durante o ano passado.

Não preciso dizer a Vossa Graça, do trabalho que nosso instruído AUTOR realizou para compilar e codificar este Livro dos antigos Arquivos e quão escrupulosamente ele comparou e expôs tudo sobre a História e a Cronologia, para que essas NOVAS CONSTITUIÇÕES sejam uma descrição justa e perfeita da Maçonaria, desde o começo do mundo até o GRÃO MESTRADO de Vossa Graça, preservando tudo o que é verdadeiramente autêntico nos antigos, porque o trabalho agradará a todo Irmão que saiba que Vossa Graça a leu e aprovou; e Imprima-se agora para uso pelas Lojas, depois de aprovado pela Grande Loja quando Vossa Graça era GRÃO MESTRE. Todos os irmãos se lembrarão da honra que lhes fez Vossa Graça. Toda a Fraternidade sempre se lembrará da honra que lhes destes, bem como do vosso zelo pela Paz, Harmonia e Fraternidade duradoura, que ninguém sente mais intensamente que Meu Senhor.

De Vossa Graça reconhecido, servo obediente e irmão fiel. J.T. DESAGULIERS Grão-Mestre Adjunto”.

Para piorar as coisas, esta primeira edição Andersoniana provocou uma cópia pirata que reproduzia o essencial do que Anderson havia exposto nessas Constituições, sendo posta à venda no A Pocket Companion, sob a responsabilidade de um certo William Smith.

Em fevereiro de 1735, Anderson interporá com duas reclamações à Grande Loja, uma porque a primeira edição das Constituições estava esgotada e se supunha que alguém deveria estar encarregado de reeditá-las, e a outra era motivada porque o tal William Smith havia plagiado material de seu livro para redigir seu libelo no Free Mason’s Pocket Companion, uma vez que, segundo Anderson, as Constituições eram sua propriedade exclusiva.

Mas a realidade é que, a julgar por essas divulgações, as Constituições de Anderson de 1723, tampouco parece que fossem propriedade da Grande Loja.

O texto que se pode ler na página de rosto da obra deixa claro que os editores e detentores dos direitos autorais eram John Senex e John Hooke.

Anderson, na época, trabalhava na tradução de Conversations in the Realms of the House of the Dead de David Fassmann e recebia seu pagamento de Hooke e Senex, sob a forma de pagamento por página (copy money), então presumivelmente, algo semelhante aconteceu com o volume das Constituições. Tanto é que, por mais que Anderson reivindicasse à Grande Loja, a edição de 1723 não era propriedade dele, nem parece ser propriedade da Grande Loja, mas dos editores.[7]

Por outro lado, é verdade que as Constituições de 1738 são assinadas por sua própria vontade e assinatura: James Anderson A.M. O autor deste livro. Mestre, de tal forma que assume inteiramente sua paternidade, embora mais tarde tenha tido bastante problemas com a distribuição da edição e sua posterior venda.

O que parece claro, realmente, quando se lê as Constituições, é que as Antigas Obrigações são sempre referenciadas em seus escritos, embora os fundadores da Grande Loja de Londres pareçam estar interessados em querer se afastar daqueles conhecimentos antigos clássicos que os precederam.

Os referidos textos, ainda na época, tinham certo prestígio e presença, mas, mesmo assim, ainda queriam deitar abaixo por meio dele, com referência ao modelo operativo, o que não deveria ser nada fácil, pois eram necessárias táticas, estratégias e muita paciência para desenvolver a força dos vestígios identitários do conjunto corporativo operativo, por mais em declínio que este parecesse estar.

Estamos falando de um ambiente profissional e social com implicações políticas e religiosas, bem estabelecido por décadas na sociedade inglesa, para poder apagar com um toque de pena a sua importância e transcendência.

Um ano antes do trabalho publicado por Anderson, editaram-se as Constituições de Roberts (1722) que se estabeleceram por meio da ação da Grande Loja de York que permaneceu independente, cobrindo várias lojas operativas que não assumiram os predicados da Grande Loja de Londres de 1717, atuando como contrapeso diante do modernismo e ecumenismo desenvolvidos pela Grande Loja Londrina de 1717.

Esse é um assunto que dificilmente é discutido na literatura especializada em Maçonaria. Refiro-me à semelhança entre as Constituições de Roberts e as de Anderson, e ainda assim as semelhanças são incríveis, tanto que alguém poderia ousar dizer que Anderson teria conhecido de antemão o libreto de Roberts e teria deliberadamente tomado partes do referido trabalho, especialmente no que se refere a alguns de seus capítulos, e que mais tarde foram curiosamente adicionados nas modificações de 1738.[8]

Roberts era o nome do impressor da obra intitulada: As Constituições Antigas pertencentes à Sociedade Antiga e Honorável de Maçons Livres e Aceitos.[9] 

Voltando à questão que nos preocupa, talvez esse método “novo e melhor” de que falava o Grão-Mestre Montagu, não era outra coisa senão as Constituições de 1723, ou seja, a primeira fundação de um projeto que queria se afastar, apesar do fato de que seu redator querer remontar as origens maçônicas até o Paraíso Terrestre, para assim se distanciar de uma proposta tradicional reunida em um estrato popular, como eram os primeiros componentes, membros do Ofício, que eram a maioria neste primeiro momento da criação da Grande Loja acima mencionada.

Nesse contexto, temos o pastor, um membro da comunidade presbiteriana e não-conformista, James Anderson, trabalhando para dar uma Constituição ao projeto inglês, um objetivo que ele muito habilmente realiza com uma prosa dura com a qual tenta comunicar que a ideia da fundação existia desde tempos imemoriais, dessa forma as Antigas Obrigações eram sutilmente modificadas pelas novas Constituições de 1723, ou seja, pelos novos Regulamentos Gerais de uma nova organização assentada sobre bases operativas, mas aspirando que o caráter especulativo seria seu maior expoente, embora por enquanto fosse cativa de sua origem e tivesse que operar com três planos inseparáveis no contexto em que se movia, com um desejo intenso, não muito extrovertido, de alcançar uma certa unidade nacional em bases que poderíamos chamar de liberais dentro de uma Grande Loja monárquica mas de caráter protestante e newtoniano.

Três planos que se sobrepõem paralelamente, por um lado, o plano político onde a dinastia Hanoveriana desempenhará um papel importante, em cujo contexto a figura de Desaguliers é importante, embora em um primeiro momento os jacobitas [10], em posição permanente de combate, farão parte das elites maçônicas, em cuja trama a jovem Grande Loja queria desempenhar o papel de árbitro da reconciliação, ou pelo menos essa era a intenção que aquelas elites começaram e desejavam alcançar através de uma caridade muito ativa, ao mesmo tempo em que afirmavam sua vocação para constituir um espaço de consenso [11].

Eles tinham a antiga esperança de conseguir unir a disjecta membra da diáspora protestante no meio de uma monarquia europeia e um poder parlamentar fundado nos conceitos liberais dos quais partiam após a Revolução Gloriosa de 1688, fundindo-se ao mesmo tempo na tolerância religiosa que Locke defendia e cujos postulados foram recolhidos em Uma Carta Relativa à Tolerância de 1689.

Este poderia ser um bom exemplo da maneira de Desaguliers entender o projeto de fundação de uma nova estrutura maçônica, na qual as primeiras lojas tiveram um caráter inter-religioso, cujo objetivo foi reunido nas Constituições de 1723 no título II de Obrigações Da autoridade civil, superior e inferior:

“O maçom deve ser uma pessoa calma, submissa às leis do país onde está estabelecida e não deve participar ou se deixar arrastar pelos motins ou conspirações forjados contra a paz e contra a prosperidade do povo, ou mostrar-se rebelde à autoridade inferior, porque a guerra, a efusão de sangue e os distúrbios, sempre foram funestos para a Maçonaria.”

Estava-se falando da ameaça jacobita à sucessão de Hannover e da supremacia do parlamentarismo e da governança legislativa, vez que não estava no plano de apoio ao monarca, mas sim a um sistema constitucional do monarca, mas com o Parlamento e o poder judiciário e legislativo como intermediários; em suma, uma separação de poderes.

Embora o desenvolvimento do plano político tenha tido dificuldades devido às rivalidades entre hanoverianos e stuartistas, o conflito no contexto religioso não era menor, o que o colocava na própria raiz do contexto político após a decorrência de anos de guerras entre protestantes e Jacobitas [12], questão que ocupava um lugar importante nas preocupações do latitudinário Desaguliers enquanto redator da parte legislativa das Constituições de 1723 [13].

Ele encaixava essas preocupações no desenvolvimento de um importante Título das Constituições: Obrigações em relação a Deus e à Religião:

“Um Maçom está obrigado por sua condição (tenure) a obedecer a lei moral e se compreende bem a Arte, nunca será nem um Ateu estúpido, nem um Libertino irreligioso.”

“Embora em tempos antigos os Maçons fossem obrigados em cada país a adotar a religião daquele país ou aquela Nação, qualquer que fosse ela, hoje pensa-se ser mais acertado somente obrigá-los a adotar aquela Religião com a qual todos os homens concordam, guardando suas opiniões particulares para si próprio, isto é, serem Homens bons e leais, ou Homens de honra e probidade, qualquer que seja a denominação ou crença que os possam distinguir; por isso a Maçonaria se torna um centro da união e um meio de assegurar uma verdadeira Amizade entre Pessoas que de outra forma permaneceriam em perpétua distância.”

Essa questão, que no fundo nada mais é do que uma tensão entre o teísmo Noaquita e o deísmo como heresia cristã, faz com que, entre esses dois extremos, encontremos os relativistas cuja crença na ideia divina lhes parecerá útil, ou a dos racionalistas que colocavam a razão acima da fé, sem esquecer os agnósticos que deixam ao domínio íntimo a origem das coisas, ou os ateus incipientes que negam a existência de Deus, marcando, com suas atitudes, todo o desenvolvimento posterior da Maçonaria, tanto inglesa, quanto aquela outra, que não tardaria a atravessará o Canal da Mancha a caminho da França católica.

Por fim, seria necessário analisar o plano intelectual, embora se possa dizer que grande parte de seus membros participavam de tramas filosóficas transversais, não resta dúvida de que o aparato administrativo das lojas operativas federadas à Grande Loja, com inclusão cada vez maior de maçons especulativos tentará cooptar as elites culturais inglesas; daí que não demorará muito para que se vejam nos bancos maçônicos a presença de muitos membros ligados, por exemplo, à prestigiada Royal Society, até porque eles haviam sido, ou serão, muitos deles fellow (membro) daquela instituição.

Falou-se de um grande número de membros, e alguns deles muito famosos, com certeza sabemos que pertenciam à maçonaria: Martin Folkes (1719-1742) ateu e libertino da loja de Bedford HeadMaid´s Head; William Jones (1711-1740), da Loja Queen’s Head, William Stukeley (1718-1752) da Loja Fountain; John Machin (1730-1741) membro da loja Bedford Head; Thomas Pellet (1733-1740) da Loja Bedford; ou T. Desaguliers (1728-1735) pertencente à Loja Horn, University Bear-Harrow.

Dessa forma, é possível encontrar até oitenta membros “fellow” da Royal Society, que eram ou foram maçons entre 1725 e 1730, embora tal adesão perdesse força ao longo do tempo, sem esquecer os encontrões pessoais entre eles, o mais notável dos quais foi o que se deu entre Folkes e Stukeley, que disse do primeiro aquilo de “losing his teeth, he speaks so”.

A partir da década de 1740, essas presenças se tornaram cada vez mais raras, época em que havia duas grandes tendências políticas, os Whigs e os Torys, estes últimos alinhados com os jacobitas, somando aos partidários de James Stuart VII da Escócia, reinando sobre o trono da Inglaterra em 1685, quando James II da Inglaterra já convertido ao catolicismo.

Por sua vez, os Whigs da tendência protestante seguiam William de Orange, que subiria ao poder como William III, graças à revolução que James II desencadearia no exílio francês. Enquanto George I, Eleitor de Hanover, de tendência protestante, era apoiado por estes, tornando-se mais tarde rei da Inglaterra. Os maçons especulativos, fundadores da Grande Loja de Londres, apoiavam majoritariamente George I, visto que ele era Hanoveriano e Whig.

De toda forma, há que se enfatizar que os antecedentes maçônicos durante o século XVIII serão marcados pela marca cristã com a nova proposta da “religião natural newtoniana”, a cuja estrutura o corpus maçônico especulativo vai aderir e da qual vai se tornar uma bandeira da Grande Loja de Londres.

Dada a multiplicação de teólogos racionalistas nesse ambiente intelectual e maçônico, ocorrerá uma série de mutações que operarão no mesmo centro nevrálgico do Iluminismo, dando voltas no axioma de que o problema não era demonstrar a existência de Deus, mas sim que sua própria existência estava ameaçada.

Esse mesmo paradigma será desenvolvido dentro de uma maçonaria latitudinária que acusa essa herança newtoniana de um Deus filósofo, como um Grande Arquiteto do Universo que dota o mundo de leis racionais, mas que faz de sua distância uma incógnita, onde ele aparece como o autor do mundo, um mundo que os newtonianos designaram com o apelo ambíguo do sensoriun Dei, que se confunde com a natureza, em que ele é criticado por seu intervencionismo, mas, sem por isso, que os maçons reneguem a fé.

Uma herança contraditória no mundo dos maçons newtonianos de caráter hanoveriano e, é claro, dos maçons operativos jacobitas, que se explica com base nessa mistura de misticismo e racionalismo que caracteriza a maçonaria da época

“que se reforça de forma resistente diante dos racionalismos clássicos, tanto como cristãos em oposição à philosophia naturalis, que transplantada para a esfera francesa-cristã, retém seu duplo aspecto de philosophique et philantrophique, mas perde seu caráter igualitário, se não de palavra, pelo menos pelos atos”.[14]

Esse sentimento também se reflete nos campos filosóficos, especificamente em um artigo de Chesneau du Marsais, Le Philosophe (1743)[15] 

“A existência de Deus é a mais difundida e profundamente enraizada de todos os preconceitos; e em seu lugar, Le Philosophe coloca a sociedade civil: ‘esta é a única divindade que ele reconhecerá na Terra’. Presa pelos sistemas doutrinários das igrejas estabelecidas, a atenção ao governo se torna fútil, quando alguém é mantido em cativeiro sob o jugo da religião, torna-se incapaz das grandes visões que atraem para o governo e que são tão necessárias para situações públicas “.[16]

E Robert Kalbach exemplifica isso muito bem, quando explica que a irreligião na França se tornou uma paixão geral, ardente, intolerante e opressiva. Assim, os filósofos do Iluminismo atacavam a Igreja como um poder político, mas também apoiavam a tradição, reconhecendo a autoridade superior da razão individual baseada na hierarquia.

“A peculiaridade da Revolução Francesa é que ela desgosta aos homens, derrubando leis religiosas e civis ao mesmo tempo”.[17]

Mas a contradição é tão grande que, por exemplo, as propostas newtonianas de um cristianismo razoável como alternativa ao panteísmo dos livre pensadores, apesar da boa acolhida entre os membros da maçonaria e a posição vacilante dos teólogos anglicanos, tanto ortodoxos quanto latitudinários, terá uma forte rejeição por parte dos livre pensadores e místicos exaltados, embora Newton não poderá ser a referência para o futuro da Grande Loja por sua paixão ardente pela Bíblia; nesse sentido, temos a figura de Desaguliers, que aparecerá como o principal barqueiro entre ambas as margens do newtonismo, talvez na crença de que as Escrituras permitiam descobrir o esoterismo e retirar ensinamentos iniciáticos da mais alta importância.

Este é um assunto que parece não ter sido estudado em profundidade, ou seja, as relações entre a Maçonaria e a Royal Society, além de algumas abordagens como a de Richard Berman[18], que nos explica que parte dos numerosos abandono ocorridos por parte das elites cooptadas na época poderia ter vindo da forte crise que sofreu a Grande Loja e, principalmente, a partir da querela entre Antigos e Modernos que, lembro, estava em parte enraizado nas concepções deístas de uns e teístas de outros, o que abriu um cisma de entendimento sobre as realidades maçônicas no conceitual, mas também no administrativo, e que no fundo deve ser considerada uma rebelião, enquanto que a segunda Grande Loja era abertamente muito mais teísta cristã em todos os sentidos e com todas as consequências.

Autor: Victor Guerra

Tradução: José Filardo

Fonte: Revista BIBLIOT3CA

Screenshot_20200502-144642_2

Estimado leitor, contribuindo a partir de R$ 2,00 você ajuda a manter no ar esse que é um dos blogs maçônicos mais conceituados no Brasil. Clique no link abaixo e apoie nosso projeto! Contamos com você!

https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Notas

[1] – Patrick Négrier La Tulip. Historie du rite du Mot de maçon 1637a 1739. Éditions Ivorie-Clair. 2005.

[2] – Op. Cit. La Tulip… Pág.71.

[3] – Vega Junquera, Anselmo. El Muro de Piedra. Editorial MASONICA.2013.

[4] – Op. Cit. Nouvelle historie… Págs.81-90.

[5] – Mereaux, Pierre. Les Constitutions d´Anderson. Vérité ou Imposture. Éditions du Rocher. 1995.Pág. 232-282.

[6] – Daily Journal. 25 de janeiro de 1723.

[7] – Prescott A. e Susan Mitchell Sommers. Searching for the Apple Tree: Revisiting the Earliest Years of Organized English Freemasonry, en Reflections on Three Hundred Years of Freemasonry, ed. John S. Wade (Surrey, UK: Lewis Masonic, 2017). Pág. 172-174. Tradução para o espanhol por Rogelio Aragón, publicada em 300 anos da Maçonaria: Maçonaria e Maçons 1717-2017. Volume V Cosmopolitismo. Editorial Palabra de Cio.México 2017; pode-se dar uma olhada no artigo de Pierre Nöel: Une forgerie autour de 1721? https://www.hiram.be/blog/2019/03/26/uneforgerie-autour-de-1721/?

[8] – Op. Cit. James Anderson… Pág. 197 Sgtes.

[9] – https://freemasonry.bcy.ca/history/old_charges/robertsconstitutions1722.pdf.

[10] – A Maçonaria Jacobita. https://masoneriaantigua.blogspot.com/2014/10/la-masoneriajacobita.html.

[11] – Beaurepaire, Yves-Pierre. O templo maçônico do século XVIII. Um espaço de paz religiosa e diálogo inter-religiosohttps://www.victorguerra.net/2018/04/el-templo-masonico-del-siglo-xviii.html

[12] – Berman, Richard. 1717 and All That. The Political and Religious Context. Prestonian Lecturer. Oxford Brookes University. 2016.

[13] – https://racodelallum.blogspot.com/2016/02/las-constituciones-de-anderson.html.

[14] – Porset, Charles. La religion des Philalèthes. Franc-maçonnerie et religion dans l´Europe des Lumières. Éditions Honore Champion. 2006. Pág. 89-100.

[15] – http://cerphi.ens-lyon.fr/spip.php?article73.

[16] – Jacob, Margaret. The Enlightenment as Lived. Late Eighteenth Century European Reformers. Revista REHMLAC. Ano 2011. Vol.3. Nº 1.

[17] – Kalbach, Robert. Montmorency-Luxembourg et son temps. Fondateur du Grand Orient de France. Éditions Dervy.2009. Pág. 258.

[18] – Berman, Richard. Schism: The Battle That Forged Freemasonry. Edit. Sussex Academic Press.2013.

Maçonaria e Política: uma visão crítica na pandemia

Maçonaria volta às sessões e abdica de alguns rituais | Covid-19 | PÚBLICO

A palavra “política” na sua origem nos remete à Grécia Antiga, à polis grega, quando fazer política tinha o sentido de participar da cidade, exercer a cidadania. Diz-se que eles inventaram a política por ela ser imprescindível na vida do ser humano, fazendo-o distinguir-se dos deuses e dos animais. Para Aristóteles (384-322 a.C), “o homem é um animal político”, estando, assim, destinado a viver em sociedade. Platão (427-347 a.C.) já afirmava que,

“Não há nada de errado com aqueles que não gostam de política, simplesmente serão governados por aqueles que gostam.”

A capacidade de traduzir demandas da sociedade em meios aptos a converter a exigência em realidade pertence à Política. Governar é aumentar a confiança das pessoas e das empresas, alargar as esperanças e reduzir as incertezas. Entretanto, a percepção é que há uma simbiose entre política e corrupção. Mas, não é bem assim!

Tema polêmico por excelência, Política é o único mecanismo possível de solução pacífica de diferenças, compreendendo a busca de consensos. Os pontos mais complexos aí se circunscrevem. Política é inclusão social. O Papa Francisco diz que “a Política é a melhor forma da caridade, porque se empenha pelo bem comum”. A sua linguagem, a forma como a política dialoga com a sociedade, é um referencial da qualidade da democracia de um País.

A temática vem repercutindo em alguns oásis maçônicos, pois o trabalhar incessantemente pela felicidade do gênero humano enseja um caráter universal, tendo por isso cunho essencialmente político, por se impor como uma escola de civismo e de liberdade, onde se devem debater grandes assuntos de interesse do país. A realidade exponencial e disruptiva é o desafio.

Mas aí é que surge uma afirmação sobejamente decantada e que contrasta com sua missão. A Constituição de Anderson, de 1723, afirma que: “..deve-se evitar discussões sobre religião e política…”. Tal dispositivo vai de encontro ao conceito de liberdade que é um pilar da maçonaria moderna. As constituições dos países modernos e livres consideram como um direito inalienável do cidadão a liberdade de se manifestar e de debater os problemas políticos e sociais. Portanto, existe um dispositivo hierárquico atual e superior que abre os caminhos para uma efetiva participação, não obstante a disputa de narrativas.

Entende-se que as restrições quanto a debates sobre política e religião têm por cunho evitar-se apenas que a harmonia das Lojas não seja perturbada por discussões partidárias, contaminações ideológicas, proselitismo ou sectarismo que promovam o desentendimento e a desagregação. Assim, em decorrência das sucessivas crises políticas, a maçonaria não pode passar ao largo das questões de interesse do país. A realidade impõe-se, e ficar de fora, neste caso, é omitir-se, é ser cúmplice dos erros. Segundo o influente pregador Batista inglês. C. H. Spurgeon (1834-1892),

“Somente os tolos acreditam que politica e religião não se discute. Por isso os ladrões continuam no poder e os falsos profetas continuam a pregar.”

No contexto histórico vislumbra-se inegável a influência por vezes decisiva da ação política da maçonaria em vários acontecimentos de relevo. No caso brasileiro destacam-se os movimentos de rebeldia e de libertação que antecederam a Proclamação da República, e inúmeros outros conflitos e rebeliões, que contribuíram para o amadurecimento histórico do país, os quais contaram com a participação pioneira de várias Lojas e de membros expressivos da maçonaria, inspirados e movidos pelos princípios da Ordem.

Até um determinado período, a Maçonaria funcionou como veículo para expansão de ideias e organização de movimentos, atuando como um partido político camuflado. Em análise retrospectiva, a Maçonaria brasileira iniciou o século XX exercendo interferência política decisiva nos destinos do país, mas chegou ao final do período enfraquecida, gerando ilhas autossuficientes, em decorrência das cisões de 1927 e 1973, bem como do impacto das Revoluções de 1930 e de 1964, além de disputas intestinas de poder que são referências em sua estrutura administrativa. E com isso, esvaiu-se a medida de liberdade.

Apesar do conceito positivo junto àqueles que a conhecem, a Maçonaria ainda é desconhecida por grande parte da população brasileira. No cenário político nacional atualmente não tem nenhuma representatividade e não exerce qualquer sopro a exemplo da norte-americana ou da europeia, que mesmo assim vem decrescendo aceleradamente em número de obreiros. E vejam que capital intelectual e consciência de sua importância para liderar as transformações necessárias à promoção da justiça social é prédica recorrente entre suas colunas. O que falta é esse discurso repercutir no mundo profano.

A Maçonaria, como instituição, não pode continuar na velha toada de que não deve envolver-se diretamente em temas políticos e nas grandes decisões de interesse do Brasil, candidamente delegando aos maçons que o façam individualmente, pois um regramento de 1723, editado em outro momento histórico, impede ações mais decisivas em pleno século XXI. Somente caprichar na retórica e bradar que alguém tem que tomar uma providência é muito confortável. Esse comodismo e o obsequioso silêncio político da Maçonaria do Brasil precisam ser quebrados. Repetindo a questão de sempre: sabemos ou não dialogar?

O espírito da Constituição de Anderson vislumbrava a Maçonaria como uma organização de cunho muito mais abrangente, suprapartidário, abrigando todas as tendências. Mentes tacanhas distorceram tal entendimento e têm conseguido mantê-la acorrentada. É hora de a Maçonaria repensar sua atuação, decretar a sua independência e de agir com responsabilidade. Chega de discursos pomposos, manifestos bem comportados, fotos teatrais, homenagens, firulas, reverências e salamaleques com autoridades de plantão! No caso específico dos “irmãos” titulares de cargos no poder executivo, o mote deveria ser de pressioná-los para cumprir o juramento ou dar baixa na Ordem.

Como reiterado em trabalho anterior, já passou da hora de maçons e a Maçonaria, como um todo, assumirem o papel que já foi sua marca registrada no passado: revolucionária, decisiva, incomodativa, marginal em outros momentos. Defender que a maçonaria seja apenas uma escola de pensamento onde se cultive exclusivamente moral e ética e acalente o sonho de que seus princípios e valores sejam amplamente conhecidos e que forças do além inspirem os tomadores de decisão, sem se envolver diretamente, ficando na torcida para que a justiça e os bons costumes prevaleçam, é mais do mesmo. Educar os obreiros para que sejam pessoas do bem e apenas sonhar com um futuro melhor, pregando como os outros devem agir, é muito bacana, supimpa mesmo! Podemos chamar esse contexto de Maçonaria Contemplativa.

Se o apenas falar dentro da bolha não deu certo, algo está errado. Ou se for isso mesmo, a Maçonaria agiria melhor como um clube de serviços e cultivar a memória de um passado confortável pela frente e permanecer admirando-se no retrovisor da história, sonolenta, a lembrar do conto “Cidades Mortas”, onde Monteiro Lobato escreveu: “Ali tudo foi, nada é. Não se conjugam verbos no presente. Tudo é pretérito”. E nada é tão ruim que não possa piorar!

“Apesar de tudo”, o momento é de despertar e de assumir o protagonismo, sair na dianteira, declarar guerra e partir para cima dos poderes constituídos exigindo competência e transparência, abraçar pautas de interesse da sociedade, promover debates públicos, videoconferências abertas para não maçons, encaminhar e liderar propostas de soluções, criar pontes e ocupar espaços que permitam aos obreiros a reivindicarem, de forma organizada, com uma Maçonaria que poderíamos chamar de Executiva, as mudanças que todos exigem, pois a perda de contato com a realidade paralisa a consciência crítica. O dramaturgo e poeta Bertolt Brecht (1898-1956) certa vez escreveu: “Que continuemos a nos omitir da política é tudo o que os malfeitores da vida pública mais querem”.

O obstáculo maior sempre foi escapar das velhas ideias, das formas arraigadas de pensar, mas, em solo fértil boas sementes frutificam. Com a provocação e o impulso de novas gerações, em especial a Geração Z[1] ainda como uma voz que clama, a GLMMG vem de algum tempo construindo propostas, várias submetidas à Confederação da Maçonaria Simbólica do Brasil, visando a promover a coesão e a credibilidade da Ordem. Os Projetos “Gestão Maçônica” e “Cultura Cidadã”, constantes do Site da GLMMG atacam o cerne dessa questão. A propósito, lembrando um certo juramento, imaginamos que todos já os tenham lido e discutido em Loja.

Mas, um velho ditado popular adverte: “uma andorinha só não faz verão”. Aplausos e aplausos em Plenárias somente alimentam egos. Ao término dessas reuniões, como bons isentões, voltamos para nossas Lojas e a “Ordem do Dia” continua a ser o mais do mesmo, e nada de falar em temas palpitantes de interesse do país. As melhores intenções morrem nas palavras, em face de discursos emocionados, carregados de simbolismos e vazios de concretude.

Não obstante o sofrimento e custo social decorrente da pandemia do coronavírus, que superou os piores prognósticos realizados ainda no primeiro trimestre de 2020, navegamos nos últimos meses por mares turbulentos, com vários percalços e tropeços, que pegou a todos desprevenidos, com impactos na economia global, de vidas que se foram e o isolamento social (“fique em casa”), inédito nos tempos modernos, evocando sentimentos de perplexidade, inquietação, sensação de vulnerabilidade, de finitude e até de medo.

Tempo suspenso, portas trancadas, cortinas cerradas, famílias separadas, mortes transformadas em números, rituais de despedida não autorizados, sistema global econômico e de produção paralisados, além do conceito de liberdades individuais com leitura distorcida por autoridades confusas, conflitantes entre si e sem um norte. De outra sorte, água suja se limpando, poluição diminuindo e pássaros retornando aos locais de onde tinham desaparecido.

Nesse interim, boa parte das nossas Lojas encontrou o caminho das videoconferências para não interromper os estudos e a divulgação da cultura maçônica, procurando, ainda, manter os laços de fraternidade, mesmo que virtuais, porém com adesão ainda não avaliada de forma consistente, mas estimada em número inexpressivo em face da quantidade de maçons ativos, haja vista as mesmas carinhas a frequentar nossas telinhas, não obstante artilharia pesada de argumentos contrários a esse tipo de evento.

Não se pode descurar das sessões presenciais, quando possível, mas o papel complementar das reuniões virtuais é inquestionável. Vários temas estão sendo explorados, muitos conhecimentos compartilhados e ideias borbulhando, mas o da Política com “P” maiúsculo ainda encontra resistências. O mundo lá fora pegando fogo e a gente, por ora, apenas filosofando nas “lives maçônicas”!

A Maçonaria precisa ser protagonista e não apenas apoiadora ou um rebanho carneiril pastoreada por dirigentes políticos que sabidamente jogam mal, com raras exceções. Para isso, urge mudar sua forma de ação e trabalhar em um plano conjunto entre as Potências soberanas, com fôlego e determinação para ser uma influenciadora permanente, pela prática da moderna advocacy, sem se envolver no círculo vicioso da politicagem tradicional, que tem o hábito de dar voltas e parar no mesmo lugar, ensejando as mesmas contradições.

Agora que descobrimos um novo meio de reunir os maçons das várias Potências pela força das redes sociais e já estamos familiarizados com os recursos tecnológicos disponíveis, a novel missão seria a prática de um ativismo orquestrado, ombro a ombro, mesmo que virtual nesta fase, envolvendo a Ordem como instituição, seus Grão-Mestres na postura de estadistas e os maçons alinhados em torno de projetos amplamente discutidos e aprovados, distinguindo-se pelo exercício ético e competente de influenciar o comportamento e ações de outras pessoas, como “Agentes Cidadãos”, formando alianças do bem, não apenas com foco em resultados de curto prazo, mas de construir um país melhor para todos os brasileiros e uma saída para a atual crise que nos acorrenta.

A sociedade saberá reconhecer o empenho e certamente o exemplo da Maçonaria arrastará outros movimentos que anseiam por uma liderança competente e decisiva na Politica.

“Somente quem, frente a todas as dificuldades, pode dizer ‘Apesar de tudo! ’ tem a vocação para a política.” (Max Weber)

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da Loja Maçônica Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida e da Academia Mineira Maçônica de Letras.

Notas

[1] – Ver artigo “Maçonaria e Geração ‘Z’ Pós-pandemia”, em: https://opontodentrocirculo.com/2020/08/26/maconaria-e-geracao-z-pos-pandemia/

Screenshot_20200502-144642_2

Só foi possível fazermos essa postagem graças à colaboração de nossos leitores no APOIA.SE. Todo o conteúdo do blog é disponibilizado gratuitamente, e nosso objetivo é continuar oferecendo material de qualidade que possa contribuir com seus estudos. E você também pode nos auxiliar nessa empreitada! Apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos blogs maçônicos mais conceituados no Brasil. Para fazer sua colaboração é só clicar no link abaixo:

https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Quem foi James Anderson?

Nada predispunha o Reverendo James Anderson (1679-1739) a se tornar o mais famoso entre os maçons modernos; especialmente não a publicação em 1732 de sua obra-prima: Genealogias reais, ou Tabelas genealógicas de imperadores, reis e príncipes, desde Adão até os dias atuais. Mas  o  acaso quis que ele fosse um dia escrever as “Constituições” de uma associação que, no entanto, tinha muito poucos membros.

Nascido em Aberdeen de um pai vidraceiro (e Maçom aceito na loja operativa local) James Anderson fez os estudos necessária para a ordenação na Igreja da Escócia; mas foi em uma velha paróquia huguenote, em Londres, que ele se tornou, na década de 1710, um pastor presbiteriano. Não está claro até hoje, se em 1717 ele foi um dos maçons aceitos que contribuíram para a formação da Grande Loja de Londres; temos, por vezes, sugerido que ele poderia ter sido iniciado na Escócia, antes de se mudar para Londres.

O caminho para a fama, no entanto, abriu-se para ele em setembro de 1721, quando, durante uma assembleia geral realizada na presença de oficiais e membros de dezesseis lojas “erros foram revelados nas antigas Constituições Góticas”, ele foi convidado a “realizar as correções necessárias em uma nova e melhor apresentação”. Três meses depois, quatorze irmãos “educados” foram nomeados para examinar o manuscrito do irmão Anderson.

Em 25 de marco de 1722, durante uma nova sessão da Grande Loja, a História, os Deveres, os Regulamentos e os Cantos de Mestre foram aprovados com algumas alterações  “ao que a [Grande] Loja pediu ao Grão-Mestre que mandasse imprimir”.

Assim, em 17 de janeiro de 1723, na taverna King’s Arms, dois eventos memoráveis aconteceram: a adesão de Philip, primeiro duque de Wharton ao grão-mestrado de Londres e a apresentação do novo Livro das Constituições.

Nesse dia especial, “A Maçonaria conhecendo a harmonia, a fama e o nome, muitos nobres e cavalheiros de alta linhagem pediram para serem admitidos na Fraternidade, assim como outros homens esclarecidos, comerciantes, membros do clero e trabalhadores, que encontraram na Loja um lugar de relaxamento agradável, longe do estudo, dos negócios e da política”, escreveu Anderson na segunda edição de sua obra, publicada em 1739, ou seja, no mesmo ano em que ocorreu sua morte.

Note-se que neste mesmo 17 de janeiro de 1723, James Anderson, que havia anteriormente ocupado as funções de Mestre de Loja foi nomeado para o ano em curso Grande Vigilante da Grande Loja de Londres.

Muitas vezes, nos é perguntado por que motivo ele tinha sido convidado, e não outro Irmão, a elaborar as novas Constituições da Ordem. David Stevenson, autor de um estudo sobre o homem, apresenta a ideia de que a escolha teria resultado de uma viagem de John Desaguiliers, um membro influente da Maçonaria londrina a Edimburgo e sua descoberta da Maçonaria Operativa escocesa. Anderson sendo de ascendência escocesa e nascido de pai maçom (além disso, antigo Secretário e Mestre de Loja) teria sido considerado mais qualificado do que qualquer outro para ser promovido a historiador e legislador.

A vida maçônica de James Anderson, no entanto, permanece obscura até hoje. Ignora-se quais atividades específicas ele pode implantar, quais lojas ele pode frequentar; registra-se que pertencia em 1723 à Loja do Chifre, e em 1735 da Loja Francesa, e sua presença em algumas assembleias de Grande Loja, mas isso é tudo…

De sua vida secular, conhecemos pouco fatos precisos. Anderson se casou com uma viúva rica de Londres, que lhe deu um filho e uma filha, mas viveu pobremente  devido ao maus negócios ocorridos na década de 1720. Ele fez, como  pastor, alguns sermões que lhe valeram duras críticas, e foi obrigado a mudar de paróquia em 1734, depois de desentendimentos com alguns paroquianos. Em 1731, ele recebeu também do Colégio Marischal, de Aberdeen, um diploma de doutor em teologia.

No ano seguinte, Anderson, cujas primeiras Constituições tinham sido esgotadas, propôs à Grande Loja de Londres, voltando da Inglaterra, uma nova edição, revista e ampliada. Se a primeira consistia de apenas 91 páginas, a segunda teve em sua publicação cerca de  231 – incluindo o nome do autor, acompanhado pelas iniciais D. D. para esclarecer suas credenciais acadêmicas…

Enquanto isso, Anderson tinha dedicado seus talentos literários à elaboração de sua obra sobre as genealogias reais, bem como outros textos como a Unidade na Trindade (1733), Defesa da Maçonaria (1738) – da qual nada há a dizer – Notícias do Eliseu (1739) e História da Casa de Yvery (1742).

James Anderson morreu no final de maio 1739. De acordo com o jormal The Daily Post, datada de 02 de junho:

Ontem à noite, foi enterrado em uma cova anormalmente profunda, o corpo do Dr. Anderson, pastor não conformista. […] Ele foi seguido por uma dúzia de maçons que cercaram a sepultura. […] Os irmãos, exibindo grande tristeza, levantaram as mãos, sinalizaram e golpearam três vezes os seus aventais em honra do falecido.

Assim viveu e morreu o autor do Livro das Constituições, o verdadeiro documento de fundação da Maçonaria especulativa moderna.

Autor: Guy Chassagnard
Tradução: José Filardo

Fonte: REVISTA BIBLIOT3CA

O primeiro iniciado do mundo

As pessoas adstritas ao simbolismo ou pouco versadas na simbologia debocham e riem do Reverendo James Anderson (1680-1739) atribuindo a ele a frase:

“Adão foi o primeiro maçom, iniciado por Deus no paraíso.”

Se verificarmos o texto original de “The Constitution of The Fraternity of Accepted Free Masons” (Constituições de Anderson, 1723) veremos que Anderson escreveu o seguinte:

“Adão, nosso primeiro Antepassado (first Parent), criado a partir da Imagem de Deus, o Grande Arquiteto do Universo, deve ter tido as Ciências Liberais, especialmente a Geometria, escritas em seu Coração (written on his Heart) pois mesmo desde a Queda, encontramos os Princípios dela nos Corações de seus descendentes e que nos processo do tempo (in process of time), têm sido depuradas em um conveniente Método de Proposições, pela observação das Leis das Proporções…”

O estudo do simbolismo e a simbologia parecem ser a mesma coisa. Mas são diferentes, tanto pelo objetivo quanto pelo método. Os expertos (e espertos) em SIMBOLISMO restringem-se à expressão e à interpretação de símbolos.

Já a SIMBOLOGIA estuda esses mesmos símbolos pelo prisma aprofundado do humanismo.

James Anderson era  mestre em artes e doutor em teologia, quando redigiu a Constitution of Free Masons, Jean Théophile Desaguliers estava ao lado dele. Desaguliers era membro da Royal Society de Londres, assistente de Isaac Newton, professor de filosofia, inventor do planetário e terceiro Grão-Mestre da Grand Lodge of England, entre 1719 e 1720, e um dos pais da moderna maçonaria.

Os textos atribuídos a James Anderson foram compilados sob a supervisão de Desaguliers. Rir de Anderson é um apanágio daqueles que se julgam à altura de rir da simbologia, dos graus acadêmicos M.A. e D.D. que o Reverendo possuía, do prestígio da Royal Society e da fundação da moderna maçonaria.

Partamos do princípio de que as ordens iniciáticas têm por objetivo despertar o potencial interior do ser humano e auxiliá-lo na redescoberta de sua relação com o Cosmos. Consideremos que cada pessoa seja portadora dos arquétipos que promovem sua evolução – arquétipos e leis escritos em seu Coração.

Partamos do princípio de que as ordens iniciáticas têm por objetivo despertar o potencial interior do ser humano e auxiliá-lo na redescoberta de sua relação com o Cosmos. Consideremos que cada pessoa seja portadora dos arquétipos que promovem sua evolução – arquétipos e leis escritos em seu Coração.

  • um Mestre primordial (Deus ou Imagem [representação] de Deus);
  • uma transmissão de potencialidades básicas (iniciação);
  • um recipiendário (Adão ou, se preferirem, nosso primeiro pai – first parent);
  • uma escola (templum – paraíso) preparado para aquele remoto cerimonial.

Quem estuda SIMBOLOGIA reconhece na afirmação do Dr. James Anderson os quatro pontos necessários para a comunicação de um pensamento sob forma figurada – uma ciência livre (liberal science) em especial as justas e perfeitas proporções (Geometria) gravadas em seu íntimo (Coração).

O Adão a que Anderson se refere é o Adamah hebraico ou “criatura feita da mãe-Terra”. O Deus Iniciador é o (ainda) Desconhecido e Inefável. A comunicação alegórica (iniciação no paraíso) deve ser compreendida mediante vários aspectos:

  • No primeiro estágio da inteligência, o objeto comunicado passa pelas funções psíquicas da percepção e do julgamento: vejo isso; isso é bom ou é mal! – alegoria da árvore do conhecimento do bem e do mal;
  • No segundo estágio, mais evoluído, ocorre a decomposição do objeto através da razão – O que é isso? Como é isso?;
  • No terceiro, há uma transcendência, pela contemplação e pela iluminação, daquilo que foi comunicado – é o daqui para onde.

Se não conseguimos conceber o conhecimento primordial, a forma de transmissão havida a priori (tempo) e uma objetividade factual (espaço) é porque estamos formal e prematuramente iniciados. Se não temos a percepção, o julgamento e o raciocínio superior, não podemos contemplar em conformidade com os três estágios mencionados. O despertar daquele potencial interior torna-se impossível e o reencontro do homem com o transpessoal, uma utopia.

É verdade que convivemos com pessoas que, apesar de terem recebido a iniciação apenas formal, negam os princípios da transmissão primordial. Por causa disso o formalismo e o ritualismo tendem a suplantar o conteúdo filosófico nas Ordens e nas Lojas que as compõem.

Por outro lado, é justamente nessa relação entre o Mestre primordial (Deus) e o recipiendário inocente (Adão/Adam/Adamah) que reside a tradição judaica, os cânones da cabala e sua relação mais íntima com as iniciações (especialmente a maçônica).

Vou além: mesmos as religiões – monoteístas ou politeístas – partem de princípios idênticos ao Bereshit hebraico seguido do Adam Kadmon – homem arquetípico ou anthropos – elementos cuja verdadeira compreensão e realização determinam o nível de evolução alcançado pelo discípulo, pelo aprendiz e pelos que almejam a maestria. Religiosos ou não, mesmo os mais radicais, céticos e materialistas admitem um process of time – processo do tempo nas palavras de Anderson, que equivale aos enunciados da evolução.

Quando o Dr. James Anderson sugeriu que Adão fora o primeiro maçom, iniciado por Deus no paraíso, ele quis expressar a seguinte verdade: o homem traz dentro de si (written on his Heart) as ferramentas necessárias para construir uma relação harmoniosa com seus semelhantes (templo-outro), com o templo-planeta e o templo-universo.

Todo aquele que bate nos portais da Iniciação é um Adão (Adamah) que retoma um lugar entre nós, na oficina do cosmos, dispondo-se a utilizar os instrumentos de trabalho – “especialmente a Geometria”, diz Anderson referindo-se alegoricamente à Moral das justas e perfeitas proporções entre o homem e seu meio.

Autor: José Maurício Guimarães

José Maurício foi o primeiro Venerável Mestre da Loja de Pesquisas “Quatuor Coronati” Pedro Campos de Miranda – GLMMG. Também é membro da Academia Mineira Maçônica de Letras.