A Conexão Januária

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Para uma Ordem que respeita as religiões, mas que se pretende equidistante de todas elas, as menções a São João nos rituais maçônicos poderiam parecer, ao observador desatento, controversas e incongruentes. Mas não o são! A exemplo das diversas representações que a maçonaria didaticamente adota, as referências a São João têm um caráter iminentemente simbólico, embora de origem um tanto nebulosa. No entanto, a análise histórica das culturas que serviram de berço para a civilização ocidental – onde a maçonaria especulativa foi concebida – nos dá uma série de pistas e permite compor um quadro geral, ainda que com algumas lacunas, sobre os caminhos que levaram a Ordem a estabelecer vínculos com São João. Um desses caminhos, que aqui expomos e ao qual decidimos chamar, por sua relação com o deus romano Jano, de Conexão Januária, oferece uma versão consistente para esta questão, embora não a encerre, já que acreditamos que suas raízes podem remontar a um passado muito mais distante e que ainda há muito a se estudar sobre elas.

Considerações

É razoável deduzir que a simbologia construtiva tenha começado a se desenvolver a partir do momento em que os hominídeos primitivos empregaram sua engenhosidade para criar abrigos. É possível concluir também que, sem que tenha havido qualquer notória interrupção, essa simbologia veio, através dos tempos, agregando conhecimentos, ampliando conceitos e internalizando valores de inúmeros povos, sempre preservando sua meta mais importante: proteger e dignificar a vida e contribuir para que o homem cumpra seu sagrado papel na Criação. Atravessou milênios desta forma e foi assim que passou a fazer parte dos mistérios de diversas religiões, mesmo quando escamoteada sob signos alheios. E embora nos séculos mais recentes seus fundamentos exotéricos tenham sido transferidos para o mundo profano sob a forma de ciência e sofrido as interferências próprias desse meio, seu precioso arcabouço esotérico, talvez o mais sublime legado da humanidade, tem sido preservado, apesar da intolerância e das guerras e catástrofes que permeiam a evolução do homem.

Um dos pontos críticos enfrentados por este conhecimento milenar foi a introdução, em Roma, da fé cristã como prática oficial de estado. No afã de difundir sua crença e propagar seus valores por todo o mundo romano, o cristianismo, já então estruturado como catolicismo, agiu em várias frentes:

  • num primeiro momento, tomou conta dos templos pagãos, transformando-os em igrejas;
  • transferiu os atributos altruístas das divindades existentes para seus vultos mais expressivos, de modo que os fiéis pudessem, por algum tempo, continuar executando suas práticas rituais com pouca ou nenhuma mudança, apenas aceitando um novo nome para o objeto de seu louvor. Criaram-se assim os santos
  • dedicou-se a desconstruir as antigas religiões pagãs, associando seus deuses e semideuses às práticas do mal, catástrofes, violências etc.

A medida se demonstrou eficiente e foi responsável pela conversão de milhões de súditos do império que, a rigor, além de adotar os sacramentos cristãos, tiveram apenas que aceitar um novo nome para suas antigas divindades[1].

O caso particular que vamos tratar neste artigo é o do deus Jano, um dos mais antigos e importantes para os romanos.

Jano, o deus das passagens

Segundo os historiadores mais antigos, Jano[2] foi introduzido na religião romana trazido da Etrúria, onde, por sua vez, teria sido concebido por influência de deuses mesopotâmicos ou egípcios ancestrais[3]. Suas primeiras versões parecem caracterizá-lo como um deus do Sol que trazia a luz do amanhecer. Dizia-se que era o criador das moedas e dos barcos[4] e, neste particular, é possível estabelecer-se um vínculo bem claro entre ele e o deus Ra egípcio[5], embora isso, por si só, não seja uma garantia de hereditariedade.

Suas imagens mais frequentes apresentam-no com duas faces olhando para lados opostos. É chamado, neste caso, de Jano Bifronte, sendo algumas vezes retratado com um dos rostos jovem e o outro idoso, indicando que olhava para o futuro e para o passado. Portava uma chave numa das mãos e um bastão na outra. Em número menor, mas da mesma forma importantes, são suas versões com quatro faces, chamadas de Jano Quadrifronte, que parecem estar ligadas às quatro estações do ano e aos quatro pontos cardeais.

Consta de sua teologia que era o “deus de todos os inícios[6]“ e, portanto, das iniciações. Com o tempo, passou a ser responsabilizado pelo sucesso das inaugurações, admissões, aberturas, passagens e transições. Portas, pórticos, portais, portões, janelas, corredores, arcos, pontes, túneis e passadiços estavam nos domínios de Jano. Por extensão, tornou-se responsável pelos limiares, umbrais e fronteiras, e assumiu o papel de guardião dos limites ou de zelador[7] da entrada e saída dos locais, fossem casas, lugares públicos ou cidades, tendo a manutenção da paz entre suas incumbências. Talvez o fato de um dia ter simbolizado o Sol é que lhe tenha valido o comando dos solstícios[8],[9], inaugurando o inverno e o verão romano. Associavam-no também ao Nascente e ao Poente e aos ventos Boreal e Antiboreal. Representava o marco limítrofe entre o dentro e o fora, o início e o fim, o passado e o futuro, caracterizando o presente absoluto. É o instante atemporal e adimensional e, neste particular, lembra muito o ponto dos geômetras. Nas liturgias romanas, seu nome era sempre invocado em primeiro lugar.

Por todas estas características, tornou-se um deus muito importante, a ponto de rivalizar-se com Júpiter. Isso lhe valeu uma homenagem por parte dos romanos, que batizaram um mês com o seu nome, chamando-o de janeiro.

Certamente foi por seu perfil iniciador ou iniciático que os artesãos romanos o adotaram como padroeiro, sendo que os pedreiros e construtores ainda com maior razão, já que sob a proteção de Jano estavam o que se costuma chamar de “obras de arte” na área da construção civil, ou seja, as pontes, viadutos, arcos etc., estruturas complexas, com a função de passagem, e que exigem muito conhecimento, engenhosidade e perícia para serem erigidas.

Os Collegia Fabrorum

Collegia Fabrorum era a denominação que os romanos davam às corporações de artesãos ou colégios de artífices. Consta que foram criados por Numa Pompílio, sucessor imediato de Rômulo e, portanto, segundo rei de Roma. As leis romanas estabeleciam que artífices de um mesmo ramo de atividade poderiam se associar para, juntos, praticarem seu ofício. Isso os obrigava ao respeito a regras e normas definidas pelos próprios associados.

A história mostra que havia Collegia Fabrorum dos mais variados ofícios: saboneiros, sapateiros, ourives, cunhadores de moedas etc. Embora não tenhamos encontrado menção explícita a pedreiros ou cantoneiros[10], certamente existiam Collegia que agrupavam estes tipos de profissionais, pela importância que têm em qualquer sociedade.

Por tipificar a iniciação, Jano era o patrono informal de todos os artífices, pois a aceitação do indivíduo como membro de um ofício era precedida de um processo iniciático. Este patronato, no entanto, não impedia que os Collegia fabrorum tivessem um padroeiro associado às peculiaridades do ofício que exerciam. O colégio dos alfaiates, por exemplo, cultuava Marte, o colégio dos médicos, Asclépio e Hígia, e assim vários outros.

As corporações de artesãos foram de fundamental importância para o desenvolvimento e expansão do Império Romano. O fomento à sua criação acabou proporcionando o aprimoramento dos ofícios e a criação de novos métodos para realização de suas atividades. Os membros mais experientes transmitiam seu conhecimento aos demais, gerando uma corrente altruísta que induzia o aperfeiçoamento individual e a formação de quadros cada vez mais bem preparados.

Porém, com a queda do Império Romano do Ocidente e o caos que a sucedeu, a figura formal dos Collegia fabrorum parece ter se dissipado, embora o conhecimento sobre a maioria dos ofícios pareça ter avançado pela Idade Média e chegado ao Renascimento senão incólume, pelo menos forte o suficiente para produzir bons frutos através das guildas medievais. E, ao que tudo indica, a influência de Jano continuou a se fazer sentir.

As Guildas Europeias

Há uma grande discussão entre os estudiosos sobre se e como o conhecimento das corporações romanas de artesãos influenciaram as guildas medievais. Não obstante, e a despeito de tudo o que se escreveu até hoje sobre o assunto, uma pergunta talvez traga em si mesma a resposta a esta questão: de onde mais, a não ser dos antigos, as guildas extrairiam a base das artes que praticavam?

Não se pode imaginar que a queda de Roma tenha apagado por completo todo o saber que a humanidade havia acumulado até então. Primeiro, porque a cultura por ela emanada continuou evoluindo, vigorosa, no Império Bizantino[11]. Depois, porque houve partes do império que foram menos afetadas pelas invasões das hordas bárbaras e, portanto, puderam manter, com razoável fidelidade, as práticas romanas. De toda forma, mesmo que tenha sido apenas transmitido de boca a ouvido, de mestres para discípulos, o fato é que este conhecimento subsistiu. Se nas guildas – às quais o clero por vezes chamava de conjurações – ou em qualquer outro tipo de associação, é irrelevante. O uso do nome guilda neste artigo é, portanto, apenas uma identificação genérica para as diversas formas de associação sob a égide das quais se reuniam, na Idade Média, os praticantes de um mesmo ofício.

Na área da construção em pedra, que é aquela que nos interessa mais de perto, as guildas erigiram, durante o período medieval, mosteiros, fortificações, cidadelas, moradias, templos e castelos por toda a Europa. Se, com raras exceções, até o final do primeiro milênio não apresentavam a sofisticação, a grandiosidade e a perfeição das mais importantes obras romanas, é porque não havia concentração suficiente de riquezas que permitisse gastos com opulência e refinamento arquitetônico. Só mais tarde, com a unificação de feudos, expansão das rotas comerciais e aumento do poder da Igreja é que as obras mais elaboradas e equiparáveis às romanas tornar-se-iam viáveis novamente.

As guildas de pedreiros eram formadas para fazer frente à demanda por mão-de-obra qualificada para realização das construções, onde quer que fossem necessárias. A exemplo dos colégios romanos de artífices, tinham, em geral, regras de conduta rígidas e mantinham fundos de amparo e auxílio funeral para seus membros. Tudo indica que os novos integrantes eram admitidos através de iniciação e que guardavam para si os segredos e mistérios da profissão, que eram transmitidos gradualmente aos demais segundo sua proficiência e habilidade, ao longo de períodos variáveis. Pelo menos em parte da Europa, na noite de 26 para 27 de dezembro, dia de S. João Evangelista[12], faziam entre si juramentos de sigilo e de união. Promoviam, então, imensos banquetes onde comiam e bebiam até se fartar.

Ainda que toda a literatura analisada não apresente evidências materiais de uma possível transmissão de conhecimentos[13] – e valores – das corporações romanas de artífices para as guildas, é muito provável que estas sejam as sucessoras naturais daquelas, com todas as implicações que possam advir disso. Afinal, é difícil imaginar que as guildas de pedreiros possam ter herdado o uso de ferramentas e as técnicas construtivas utilizadas pelos romanos, sem que, junto com elas, lhes tenham sido transferidos também os saberes, costumes, tradições, ritos, lendas e mitos que envolviam o ofício de construir.

Desde o ano de 590 – portanto, pouco mais de 100 anos após a queda do Império Romano, há documentos que comprovam a existência de guildas de construtores na Itália. A dos mestres comacinos, por exemplo, possivelmente originária da Lombardia, primava pela mútua proteção e desenvolvimento de seus integrantes. Outro exemplo de que os conhecimentos romanos permaneceram vivos nos é dado pelo bispo Wilfrido de York que, em 598, associou-se ao abade de Wearmouth para mandar enviados à França e Itália, pedindo que os pedreiros retornassem e retomassem as construções “de acordo com a maneira romana”.

A indicação da existência de pedreiros-livres aparece pela primeira vez em manuscritos dos séculos XII e XIII, quando são chamados de Sculptores lapidum liberorum[14] ou Latonii vocati fremacconi[15].

É neste contexto que surgem as lojas de São João.

As Lojas de São João

Coerente com a implantação do cristianismo no Império Romano, suspeita-se que a escolha das datas de 24 de junho e 27 de dezembro para as festas em homenagem a S. João Batista e S. João Evangelista, respectivamente, deva-se ao fato de que elas são próximas dos solstícios, cujo patrono em Roma, como já foi visto, era Jano. A razão para isso, embora possa parecer banal, deve ter sido a pronúncia em latim de ambos os nomes, Jano e João, que é muito semelhante. Tal identidade fonética certamente colaborava para a transferência das devoções dos fiéis de Jano para os santos católicos. No caso de São João Batista, em particular, esta transferência deve ter sido até mais fácil, pois existe um vínculo simbólico entre os dois, já que João Batista iniciou Jesus através do batismo e que Jano era o patrono das iniciações[16].

De qualquer forma, é possível identificar três motivos que teriam levado os trabalhadores da construção a adotar um ou outro João, ou ambos, como padroeiros:

  • O vínculo com Jano e os solstícios;
  • A associação do Batista com a iniciação e do Evangelista com o amor fraternal e a solidariedade[17];
  • A escolha do patrono de uma cidade como protetor de uma guilda[18], o que era muito frequente;

Há muitas provas de que os construtores medievais tinham apreço pelas datas solsticiais.[19] Se isso, de fato, era decorrente da adoção de Jano como seu padroeiro, é difícil saber, porque numa época em que a Igreja era fundamentalista e implacável, não seria razoável externar o culto a um deus pagão. Desse modo, mesmo que a reverência ao deus romano tenha prosseguido após a queda do império, deve ter permanecido cifrada nos mistérios do ofício. E assim se encontraria até hoje, velada pelos Sãos Joões.

A associação de João Batista com as iniciações e a importância destas para os ofícios é óbvia. Quanto à importância de João Evangelista – considerado o apóstolo do amor – para os construtores, é preciso ter em conta a relevância da solidariedade e da fraternidade entre os integrantes das guildas de pedreiros. Aqueles artífices, não raro, exerciam o ofício em lugares ermos e distantes de suas cidades, e, a exemplo dos colégios romanos, a ajuda mútua e o auxílio às famílias em caso de acidente ou falecimento eram fundamentos rigidamente obedecidos por todos e tratados como pontos de honra.

A guilda medieval de pedreiros e carpinteiros vinculada à catedral de Colônia, na Alemanha, adotava João Batista como padroeiro. Já os obreiros da Loja de Edimburgo[20], na Escócia, trabalhavam, no século XV, sob a proteção de João Evangelista, como era comum para boa parte das guildas de construtores escocesas.

Desde a época das Cruzadas, João Batista era reverenciado como padroeiro da Ordem de São João de Jerusalém, de grande destaque na realização de obras arquitetônicas. Esta ordem, também chamada de Ordem dos Hospitalários, foi a primeira instituição cristã de caridade especializada. Estabelecida na Palestina por volta de 1080 – portanto pouco antes da Primeira Cruzada – tinha por objetivo o apoio e a assistência médica aos peregrinos cristãos que se dirigiam à Terra Santa. Após a Cruzada, o fluxo de romeiros para a região aumentou enormemente e a Ordem de São João, administrada por leigos, enriqueceu, expandindo-se pelas rotas de peregrinação, onde construiu inúmeras fortalezas. Uma das remanescentes é a de Krak dos Cavaleiros, perto de Homs, na Síria, considerada Patrimônio Mundial pela UNESCO.

A adoção de São João como patrono daquela ordem decorreu do fato de que o seu primeiro abrigo foi construído próximo à Igreja de São João Batista, na Cidade Santa, onde os hospitalários faziam suas orações. Embora neste caso pareça não haver qualquer relação direta com o deus Jano, a hipótese de que essa relação exista, ainda que de difícil comprovação, não pode ser sumariamente descartada, pois a cultura do Oriente Médio está impregnada de referências solsticiais.

No século XVIII, quando a nossa Ordem ainda tinha muitas referências cristãs, São João Batista e São João Evangelista eram tidos como santos patronos da Maçonaria inglesa. Dos dois, São João Batista era considerado o principal. Seu simbolismo é tão importante que a primeira Grande Loja, formada em 1717, escolheu seu dia como data de fundação. Por outro lado, antes mesmo da formação da Grande Loja Unida da Inglaterra, em 1813, era costume as Lojas instalarem os Veneráveis a cada seis meses, e o faziam em 24 de junho (dia de São João Batista) e 27 de dezembro (dia de São João Evangelista). A antiga Grande Loja da Inglaterra, em particular, sempre realizava suas instalações no dia 27 de dezembro.

De lá para cá, as referências maçônicas aos dois Sãos Joões têm sido mantidas. Muitas Lojas de vários países se assumem dedicadas a ambos os santos. No Rito Sueco, os três primeiros graus são conhecidos como graus de São João. No começo do século XIX, algumas Lojas francesas abriam seus trabalhos em nome de São João da Escócia, mas, a despeito do que possa parecer à primeira vista, não há um santos escocês de nome João, de onde presume-se que esta tenha sido uma maneira indireta de reverenciar o padroeiro das guildas escocesas, S. João Evangelista. O Rito de York Antigo, mais ou menos na mesma época, dedicava a Loja aos dois Sãos Joões. No R.E.A.A., até hoje, todos se dizem oriundos de uma Loja de S. João, em honra do qual os trabalhos são abertos e fechados.

Conclusão

Ainda haveria muito a se falar de Jano, colégios de artesãos, guildas e Lojas de São João. Existe uma vasta literatura a respeito, parte da qual é apresentada na bibliografia a seguir. Não obstante, e como sempre acontece com as pesquisas sobre simbologia maçônica, alguns vazios permanecem, dada a carência de fontes quando nos aprofundamos no passado. De todo modo, esperamos que este trabalho motive outros Irmãos a preenchê-los com seus estudos.

Não há dúvida de que, desde os primórdios, o homem se preocupa em entender a natureza. Poder antever as alterações climáticas provocadas pela mudança das estações e, com isso, preparar-se para o plantio, colheitas e caça, e proteger-se das intempéries, era uma questão de sobrevivência e garantia da manutenção da prole. Passaram-se dezenas de milhares de anos até que ele pudesse identificar os solstícios, e foi buscando perpetuar este conhecimento que passou a registrá-lo em pedra. Inúmeros templos e construções trazem em si esta sabedoria primordial, que só chegou aos dias atuais porque encontrou pedreiros dispostos a traduzi-la pela ação de seus maços e cinzéis. No Templo de Salomão, eram representados pelas colunas J e B, e, no império romano, através das portas solsticiais, estavam associados a Jano, de onde vieram até chegar aos dias atuais personificados pelos dois São João.

Esta tese, evidentemente, está aberta a contestações. Ainda assim, é preciso considerar que na tradição cristã não existe qualquer ligação desses santos com os ofícios construtivos, nem há indicação de que seu patronato seja fruto de imposição ou preferência religiosa. Ou seja, ainda que a maçonaria não fosse equidistante das religiões, do ponto de vista da hagiologia[21] cristã – e exceto pela fraternidade apregoada pelo Evangelista – não haveria porque ter qualquer dos São João como patrono. Quanto à hipótese de que a adoção dos santos pela maçonaria seja uma mera homenagem ao padroeiro de alguma cidade medieval, carece da ancestralidade característica dos símbolos maçônicos e, por isso, mesmo que não se possa refutá-la, é pouco provável que seja verdadeira.

Os hermetistas associam o solstício de verão à “porta dos homens” e o de inverno à “porta dos deuses”[22], que são as portas zodiacais de Câncer e Capricórnio. São os momentos a partir dos quais há, respectivamente, diminuição e aumento da intensidade da luz solar, reproduzidos simbolicamente na vida do maçom da iniciação em diante, conduzindo-o das trevas à luz. Diz a antiga filosofia que a alma humana descia dos céus e passava pela Porta dos Homens para encarnar na terra. Na morte, após deixar o corpo, ela passava pela Porta dos Deuses e retornava aos céus. E era Jano quem detinha a chave que abriria estas portas.

Ao olharem para os solstícios, as duas faces de Jano estão, portanto, zelando para que o ciclo da existência se cumpra e permitindo, com isso, que o homem se torne partícipe da criação. Se uma das faces pode ser associada a São João Batista e a outra a São João Evangelista, sob o aspecto estritamente simbólico isso talvez não seja tão relevante. Os símbolos são importantes pelo que representam, não pelo nome que se dê a eles. E os solstícios continuarão a existir independentemente de como os chamemos.

O passado é só uma lembrança e o futuro ainda não chegou. Jano, transfigurado nos Sãos Joões, continuará a nos remeter ao aqui e agora, que é o tênue e fugaz momento que estabelece a ponte ou a passagem entre o que já foi vivido e o que ainda resta viver. Ou, se preferirmos, o olhar sobre o que já foi plantado e colhido e a incerteza se haverá um novo plantio e uma nova colheita.

Ele já nos abriu uma porta. Em vão esperaremos que tenha perdido a chave da outra…

Autor: Sérgio Koury Jerez

Fonte: BIBLIOT3CA

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Notas

[1] – Só num momento seguinte, já bem mais tarde, uma nova iconografia seria criada para proporcionar aos devotos uma representação “palpável”, e as estátuas das divindades romanas foram substituídas por imagens de santos para os quais eles podiam canalizar suas orações e súplicas.

[2] – Do latim Dianus (com a mesma raiz de dies – dia) ou Ianusou Janus.

[3] – Jano pode ser um eco longínquo do acádio Usmu ou do egípcio Nehebkau.

[4] – As moedas romanas mais antigas trazem de um lado a efígie de Jano e, do outro, a proa de um barco. Ao tirarem cara ou coroa os romanos diziam capite aut navim (cabeça ou barco, em latim)

[5] – Uma moeda é, em última análise, uma representação do círculo solar, que, na mitologia egípcia, era identificado com Ra, cuja barca fazia o Sol se mover no firmamento.

[6]deus omnium initiorum, em latim.

[7] – Em vários países adota-se a palavra janitor para identificar os responsáveis por zelar pelos edifícios ou propriedades em geral e que, por isso, detêm suas chaves.

[8] – Do latim sol sistere, que significa parada do sol ou sol estático.

[9] – No templo de Salomão, as colunas J e B indicariam a posição do sol nos dois solstícios.

[10] – Pelo menos nos documentos consultados pelo autor.

[11] – Também chamado de Império Romano do Oriente.

[12] – Data onde também ocorria a festa do deus nórdico Jul.

[13] – Ao contrário, alguns autores refutam esta hipótese.

[14]Escultores de pedras emancipados, em tradução livre do latim.

[15] – Latonni (Cultuadores de Apolo ou Diana) chamados de pedreiros-livres, em tradução livre do latim.

[16] – Do ponto de vista de iconografia, no entanto, dois dos principais símbolos de Jano, que eram a chave e o barco, passaram, curiosamente, a ser associados a S. Pedro, que, como o deus romano, é o patrono católico dos construtores de pontes.

[17] – Entre os séculos XV e XVIII, em Paris, existiu uma guilda de impressores e livreiros, chamada de Guilda de São João Evangelista, dedicada quase que exclusivamente à ajuda mútua e benemerência.

[18] – Florença, na Itália, considerada o berço do Renascimento e, portanto, mantenedora da mais importante guilda de construtores da Europa Ocidental na época, tinha São João Batista como padroeiro desde o começo do segundo milênio.

[19] – Um exemplo é a catedral de Chartres, na França, construída no século XII. No solstício de verão, os raios de Sol atravessam o vitral de São Apolinário e projetam um círculo de luz sobre uma estrutura de metal no piso da igreja.

[20] – Nos manuscritos Edinburgh Register House, de 1696, eChetwode Crawley, de 1717, que são reconhecidos como exemplares dos Antigos Deveres, os aprendizes diziam jurar por Deus e São João, pelo Esquadro e Compasso…

[21] – Estudo os santos.

[22] – Diz a antiga filosofia que a alma humana descia dos céus e passava pela Porta dos Homens para encarnar na terra. Na morte, após deixar o corpo, ela passava pela Porta dos Deuses e retornava aos céus.

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São João, nosso Patrono

Imagem relacionadaDecapitação de São João Batista – Caravaggio (1607-08)
Resultado de imagem para san juan apóstol y evangelistaSão João, o Evangelista – Valentin de Boulogne (1622-23)

Quando os trabalhos são declarados abertos, há referência a São João, dito nosso patrono. Porém, qual o São João? São muitos, na Igreja Cristã, os santos com o nome de São João “disso e daquilo, etc.” Os regulamentos maçônicos recomendam se festejar a dois: a São João, “o Batista”, e a São João, “o Evangelista”.

O Batista

São João Batista, também dito “o Precursor”, era filho de Isabel, prima da Virgem Maria e, por conseguinte, também parente de Jesus. Ele ganhou o epíteto de “batista” porque, no rio Jordão, “batizava” as pessoas, derramando -lhes água sobre as cabeças, assim limpando-os espiritualmente (batismo significa banho ). Era também conhecido por viver no deserto, alimentando-se de mel e gafanhotos, vestindo apenas com uma pele de carneiro, andando assim meio nu, meio vestido. Seguramente, pertencia, entre os judeus, ao grupo dos essênios, que vivia em Quram, perto do mar Morto. Local onde, em 1947, foram encontrados alguns documentos de sua época. Tinha vários seguidores, mas se dizia Precursor de Alguém Maior que ele, e de quem não era digno sequer de Lhe desatar as sandálias. Vituperava a Herodes Antipas ¾o rei imposto pelos romanos aos judeus ¾ , porque Antipas mandara matar a seu meio-irmão para ficar com a sua esposa. Antipas mandou decapitar a João Batista, atendendo o pedido de Salomé, sua enteada, filha de seu meio-irmão, acima referido.

O dia 24 de junho foi estipulado pela Igreja Católica como o de sua comemoração.

O Evangelista

O outro São João, o Evangelista, era apóstolo de Jesus. Chamam-no de Evangelista porque, além de pregar os ensinamentos do Mestre, foi o autor do 4º Evangelho, de três epístolas e do famoso Apocalipse. Essa palavra quer dizer “revelação”. Nele, João relata as revelações que teria tido sobre o fim dos tempos e dos caminhos para a salvação. Por falar nos fins dos tempos, catástrofes, guerras, pestes, castigos, a palavra “apocalipse” ganhou a conotação de “algo ruim, apavorante, cataclismático, terrificante”. A linguagem é extremamente simbólica, de difícil compreensão.

Seu dia é comemorado em 27 de dezembro.

Maçonaria Operativa

Na verdade, porém, como vem registrado no item XXII, dos Regulamentos Gerais das Constituições de Anderson, de 1723, e com elas publicados, o dia que os maçons operativos do passado tinham escolhido para a reunião anual era o de São João Batista, em 24 de junho, ou, opcionalmente, no dia de São João Evangelista, em 27 de dezembro. Mas, com ênfase ao primeiro. Aliás, notar que a fundação da Grande Loja de Londres, em 1717, ocorreu precisamente nesse dia, 24 de junho. Veja-se como vem redigido esse cânone dos Regulamentos Gerais, aprovados, pela segunda vez, no dia de São João, 24 de junho de 1721, por ocasião da eleição do Príncipe João, duque de Montagu, para Grão-Mestre:

“XXII. Os Irmãos de todas as Lojas de Londres e Westminster e das imediações se reunirão em uma COMUNICAÇÃO ANUAL e Festa, em algum Lugar apropriado, no Dia de São João Batista, ou então no Dia de São João Evangelista, como a Grande Loja pensa fixar por um novo Regulamento, pois essa reunião ocorreu nos Anos passados no Dia de São João Batista: Provido(…)”

Razões Esotéricas

Só por uma segunda opção a reunião e festa ocorreria,portanto, no dia 27 de dezembro, na festa do outro São João. Mas, por quê? O porque dessa alternativa tem uma explicação esotérica, que remonta às prováveis origens da Maçonaria, aos Collegia Fabrorum dos romanos. A esses colégios de artesãos, de diferentes ofícios, pertenciam também os da construção. Eles acompanhavam as tropas romanas, para o trabalho de reconstrução e instalação da administração imperial, nas terras conquistadas e colonizadas. E com eles ia a sua religião ou religiões, para ser mais exato, ainda que entre os romanos a predominante fosse a da adoração à Mitra, que era representado por uma figura humana. No lugar da cabeça, um Sol.

Havia muitos outros deuses, notadamente, o de Janus, uma figura de duas cabeças coladas e opostas, cada uma olhando em sentido contrário a da outra, e que simbolizavam: uma, o solstício da entrada do verão (21 de junho, hemisfério norte); a outra, o solstício da entrada do inverno (21 de dezembro, hemisfério norte). Esses solstícios estão sempre presentes nas festas pagãs, vinculadas à Natureza. É aí que encontramos uma provável explicação histórica para os festejos juninos e os natalinos, a que a nova religião romano-cristã, não podendo desenraizar dos costumes populares, o mínimo que conseguiu foi a substituição. Todavia, no seio da maçonaria operativa, mesmo sob tal disfarce, ambas as datas sobreviveram, em face do conteúdo esotérico de seus significados. Não esquecer que os colégios, principalmente, os dos construtores, seriam depositários dos conhecimentos e mistérios de antiquíssimas sociedades iniciáticas, todas praticantes de ritos solares.

Autor: Bruno Calil Fonseca

Fonte: Usina das Letras

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A Maçonaria e a celebração dos solstícios e equinócios

Nossa Ordem, como detentora de milenares tradições de natureza espiritual tem como uma de suas práticas mais antigas e tradicionais a celebração dos Solstícios e Equinócios. Estas celebrações remontam a outras também antigas tradições esotéricas e iniciáticas que foram ensinadas aos humanos por seres de natureza superior.

Nos Solstícios e Equinócios toda a natureza, na forma de animais, vegetais e também minerais, celebra as mudanças de estação, o magnífico e necessário ciclo da vida. É uma verdadeira festa e os humanos mais antigos, orientados e sensíveis a este ambiente festivo, resolveram também participar dele.

A origem desta tradição se perde nas brumas de um passado longínquo. A celebração dos solstícios e equinócios pode ser encontrada junto a povos e culturas como os celtas e os egípcios e ainda outros povos. Se nos permitirmos pesquisar o assunto na Internet encontraremos que a celebração da passagem das estações é uma tradição pagã. É importante salientar que conforme o cristianismo de Saulo de Tarso, tudo o que não seja o seu próprio cristianismo é chamado de pagão. Só isso, nada mais. Ou seja, uma prática pagã não é necessariamente algo demoníaco, perverso ou contrário à ordem e ao desenvolvimento.

Mas, talvez o maçom se pergunte, o que temos nós maçons a ver com tradições ou celebrações pagãs comuns à bruxaria e ao esoterismo medieval? Bem, existe um importantíssimo elo entre o mundo maçônico e os cultos ancestrais: o Rei Salomão. Devemos lembrar que Salomão viveu na Mesopotâmia, o berço tanto da civilização quanto da cultura terrena e mais ainda dos principais conceitos relativos à espiritualidade universal.

Historicamente Salomão se uniu à riquíssima e poderosa Rainha de Sabá (conhecida pelos etíopes como Makeda e na tradição islâmica como Balkis) e juntos chegaram a ter um filho Menelik I, que foi o primeiro rei ou imperador da Etiópia. Os arqueólogos apontam evidências de que a Rainha de Sabá rendia culto às tradições primitivas da Mesopotâmia, principalmente à Sóthis (a estrela Sírius para os egípcios) e à deusa egípcia Sopdet (deificação de Sóthis – uma referência ao brilho de Sirius).

Na arte, Sopdet é descrita como uma mulher com uma estrela de cinco pontas sobre a cabeça. Sopdet é a consorte de Sah , a constelação de Órion, e o planeta Vênus era por vezes considerado seu filho. A figura humana notável de Orion foi eventualmente identificada como uma forma de Hórus , o deus do céu para os egípcios.

Na antiguidade as civilizações estavam totalmente alinhadas com os ciclos da vida representados pelas estações do ano e os solstícios e equinócios. A vida daquelas civilizações dependia 100% do movimento da Terra em torno do Sol, tanto no plano da agropecuária quanto social e principalmente espiritualmente. A Rainha de Sabá e seu povo perpetuando as mais antigas tradições mesopotâmicas certamente também celebrava os Solstícios e Equinócios.

Sob o antigo palácio de Menelik I, em Axum, em maio de 2008, o arqueólogo alemão Helmut Ziegert encontrou os restos da casa da Rainha de Sabá e junto a eles encontrou também evidências que indicam forte probabilidade de que por um longo tempo lá tenha ficado a tão procurada Arca da Aliança de Moisés, com os Dez Mandamentos. Fica então evidente a possível troca de práticas entre ela e Salomão em um verdadeiro ecumenismo espiritual e religioso, sem preconceitos, tabus ou dogmas limitantes. Fica também evidente que muito provavelmente a relação entre Salomão e a Rainha de Sabá não foi coisa passageira, trivial ou superficial como se pode supor. Para que um rei hebreu tirasse a Arca da Aliança de dentro do Tabernáculo e levasse para um templo ou palácio de outra cultura e religião, seria necessário haver uma razão muito importante.

Se nossa Maçonaria tem sua origem em Salomão, se Salomão se envolveu não somente com a Rainha de Sabá, mas também com sua religião e espiritualidade, fica claro e evidente a justificativa da presença até os dias atuais da celebração dos Solstícios e Equinócios em nossa liturgia. Se atentarmos para a nossa atual Celebração Litúrgica dos Solstícios, perceberemos evidentemente elementos tidos como pagãos, não tocados pelo cristianismo de Saulo de Tarso.

O exemplo disso são as libações aos Sete Planetas e à tudo aquilo que eles representam na Criação e na vida de todos nós. A própria comida também sempre esteve presente nas passagens das estações, pois a Deusa Natureza está em festa, assim como todos os demais seres que Nela habitam. A humanidade tem papel determinante nesta celebração. Nestas ocasiões festivas eram servidas comidas da época, abundantes pela colheita recente, bem como as bebidas tradicionais e muita música e dança.

A Deusa primitiva sempre foi sinônimo de alegria, paz, harmonia, saúde, descontração e prazer. Na chamada Idade das Trevas, de uma forma preconceituosa e despótica Ela foi amaldiçoada e retratada como bruxa demoníaca, conceito que a humanidade traz até os presentes dias. A antiga tradição original informa, Poderosos e Amados Irmãos, que na ocasião dos Solstícios e Equinócios a “distância” entre os mundos físico e espiritual é reduzida e assim está facilitada a transição ou o acesso entre elas. Ou seja, no exato momento em que nosso Logos Solar cruza a Eclíptica ou atinge seus pontos máximos e que marcam os Solstícios e Equinócios temos a oportunidade de tanto receber quanto enviar mensagens de natureza espiritual evolutiva.

É interessante observar que nossos rituais são abertos e fechados citando-se exatamente a movimentação solar. Além disso, as Colunas Zodiacais aludem aos Doze Signos Astrológicos por onde o Sol passa ao longo de seu ciclo anual. Nossa Ordem, meus Irmãos, é uma Ordem Solar. Nossa Ordem, que tradicionalmente atua na sociedade visando “tornar feliz a humanidade”, evidentemente não poderia deixar de se “alimentar” das mais elevadas energias e consciências espirituais que nos vêm dos planos superiores exatamente nos Solstícios e Equinócios. Mais ainda, se nosso mister é “tornar feliz”, é exatamente na Deusa Natureza que encontraremos nossa fonte para recarregar as forças. É na natureza, Poderosos Irmãos, que podemos encontrar Deus em sua forma Manifesta. É onde Ele está próximo e “tangível”.

Se abnegarmos a divindade da Natureza estaremos nos condenando à orfandade de Pai e de Mãe e somente a desesperança, a insegurança, a incerteza e a falta de rumo serão nossas realidades. Lembremo-nos do exemplo do Antigo Egito, onde seu deus maior, Osíris, era reconhecido e reverenciado, mas não estava presente.A regência espiritual do Antigo era da deusa Ísis a quem seus súditos recorriam. Da mesma forma, nosso G∴A∴D∴U∴ é inacessível para nós. Porém podemos encontra-Lo na Natureza, Sua manifestação e Obra Maior.

Lembremo-nos que muitos autores maçônicos estabelecem uma relação direta entre nossa Ordem, a Maçonaria, com a deusa egípcia Ísis, a viúva de Osíris. Abençoadas as Sagradas Oficinas que celebram nossos Banquetes Solsticiais Maçônicos e reverenciam as manifestações e origem das Sete Leis Universais.

Esse é o Solstício de Inverno, a noite mais longa do Ano. A partir desse dia, a luz do Sol passa a iluminar e aquecer cada vez mais a Terra, e a escuridão e o frio do inverno ameaçam ir embora. É quando a Deusa dá à luz seu novo filho, o Deus renovado e forte, ainda bebê, a “criança prometida”. Ou seja, é quando “nasce” anualmente o Cristo Solar.

O deus Mithra, da Pérsia, nasceu de uma virgem no Solstício de Inverno, teve 12 discípulos e praticou milagres, e após a sua morte foi enterrado, e 3 dias depois ressuscitou, também era referido como “A Verdade”, “A Luz”, entre muitos outros. Curiosamente, o dia sagrado de adoração a Mithra era a um Domingo. Outro mito solar se refere a Hórus: consta que Hórus nasceu no Solstício de Inverno da virgem Ísis-Méris. O seu nascimento foi acompanhado por uma estrela a Leste, que por sua vez, foi seguida por 3 Reis em busca do salvador recém-nascido.

Baco ou Dionísio da Grécia também nasce de uma virgem no Solstício de Inverno. Átis, deus da Frígia/Roma também nasceu de uma virgem no Solstício de Inverno, foi crucificado, morreu e foi enterrado, tendo ressuscitado no terceiro dia. Hércules nascido da virgem Alcmena, e seu nascimento é comemorado no Solstício de Inverno no Hemisfério Norte. Na mitologia hindu Krishna (um avatar, personificação ou encarnação de um deus, do Deus nasceu no Solstício de Inverno de uma virgem, Devaki (“Divina”) e uma estrela avisou a sua chegada.

Em 274 o Imperador Aureliano proclamou o dia 25 de dezembro (Solstício de Inverno no hemisfério norte), como “Dies Natalis Invicti Solis” (O Dia do Nascimento do Sol Inconquistável). O Sol passou a ser venerado. Buscava-se o seu calor que ficava no espaço muito acima do frio do inverno na Terra. O início do inverno passou a ser festejado como o dia do Deus Sol. A comemoração do Natal de Jesus surgiu de um decreto. O Papa Júlio I decretou em 350 que o nascimento de Jesus o Cristo deveria ser comemorado no dia 25 de Dezembro (Solstício de Inverno no hemisfério norte), substituindo a veneração ao Deus Sol pela adoração ao Salvador Jesus Cristo. O nascimento de Cristo passou a ser comemorado no Solstício do Inverno em substituição às festividades do Dia do Nascimento do Sol Inconquistável.

Segundo a tradição esta celebração solsticial chama-se Yule. Foi a primeira festa sazonal comemorada pelas tribos neolíticas do norte da Europa. É até hoje considerado o início da roda do ano por muitas tradições, inclusive a chinesa. Daí surge a simbologia do Natal. Certamente os Irmãos estranharão se falar de Natal em junho, mas a simbologia do Natal ou de Yule ocorre no Solstício de Inverno, que no hemisfério norte ocorrem em dezembro e aqui no hemisfério sul ocorrem agora em junho.

Conforme a Tradição, em Yule é tempo de reencontrarmos nossas esperanças, pedindo para que os Sete Deuses Mitológicos rejuvenesçam nossos corações e nos deem forças para nos libertarmos das coisas antigas e desgastadas. É uma excelente oportunidade “recarregarmos” nossas energias pessoais com os sete arquétipos divinos e perfeitos, aferindo nossa conduta e vivência.

Um feliz e alegre renascimento a todos!

Autor: Juarez de Fausto Prestupa
Membro da Loja Maçônica de Pesquisas Quatuor Coronati “Pedro Campos de Miranda

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