O que está em cima é como o que está embaixo. O que está dentro é como o que está fora

Maçonaria e Alquimia

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Em sua importante obra Hermetismo e Maçonaria, e mais concretamente no capítulo II e intitulado “Tradição Hermética e Maçonaria”, Federico González afirma que entre os amigos da Filosofia Hermético-Alquímica se costuma dizer

“Que o último grande Alquimista (e escritor sobre estes temas) foi Ireneo Filaleto no século XVII. Isto é bastante exato de uma perspectiva, só que não se toma em conta com toda claridade que a partir dessa data não se interrompe esta Tradição até o presente, mas sim se transforma, e muitíssimos de seus ensinos e símbolos passam à Maçonaria, como transmissora da Arte Real e da Ciência Sagrada, tanto nos três graus básicos como na hierarquia dos altos graus.”

Estas palavras assinalam com toda claridade que a antiga Maçonaria foi a receptora, ao longo de todo esse período chamado de “transição”, entre os séculos XVI e XVII, de um importante simbolismo hermético-alquímico, que vai ser decisivo para o surgimento da Maçonaria especulativa, que se concretiza em começo do século XVIII. A partir desse momento, pode se falar de um Hermetismo maçônico que, de algum jeito, constitui o eixo doutrinal que vertebra essa nova Maçonaria, e que se conjuga perfeitamente com a herança da antiga Maçonaria medieval, que continua estando presente através do importante simbolismo construtivo e das ferramentas que lhe são inerentes, conservando também sua forma e sua estrutura institucional através de seus antigos usos e costumes.

Fazendo um parêntese, devemos dizer que as relações entre a Maçonaria e a Alquimia, ou melhor a Tradição Hermético-Alquímica, vêm de tempo muito antigo, antes inclusive da Idade Média, época em que os maçons construtores realizam suas grandes obras em pedra, tanto igrejas românicas como catedrais góticas, mas também obra civis, como castelos, palácios, etc., e é obvio começam a construir os grandes centros urbanos de acordo a uma estrutura que tinham herdado dos Collegia fabrorum romanos, e que se continuaria durante o Renascimento, estrutura que obedecia em seus traços essenciais a uma imitação do modelo cósmico, que também estava refletido na catedral e na planta românica, e que se conjugava com outras tradições muito mais antigas que se remontavam inclusive à pré-história, aos construtores megalíticos, e é claro, principalmente, à outra grande herança vinda do Oriente: a dos construtores do Templo de Salomão, ou Templo de Jerusalém, mostrando-se assim o vínculo com a tradição judaica, e mais especialmente com seu esoterismo, quer dizer com a Cabala. Acrescentaremos neste sentido que o desenho do Templo de Salomão, ou melhor sua estrutura interior, e a Ideia que a configurou, plasmar-se-á também na catedral cristã, e certamente formará parte da arquitetura ocidental ao longo de todo o Renascimento como uma imagem da Cidade Celeste, sendo a partir do século XVIII que essa estrutura, e essa Ideia, passará a formar parte da Loja maçônica.

Tanto na herança vinda dos Collegia fabrorum, como na que procedia do Templo de Salomão, estava presente a Tradição Hermética, que é propriamente falando a Tradição do Ocidente, pois reúne em seu corpo simbólico e doutrinal o legado sapiencial grego-egípcio e romano, que se concentrou especialmente na Alexandria dos primeiros séculos de nossa era, dando como fruto, entre outras obras importantes, o Corpus Hermeticum, conjunto de livros e textos inspirados diretamente pela deidade que dá nome a esta Tradição: Hermes Trismegisto, o Thot egípcio. Esse legado se nutriu também das correntes gnósticas, tão cristãs como judaicas, e de todo esse conjunto de ensinos sustentados na Magia Natural, na Astrologia e na Alquimia próprias das tradições milenares vindas tanto do Oriente Próximo como de toda a planície mediterrânea, herdeiras em realidade de uma Ciência Sagrada e de uma Tradição Unânime que esteve presente em todos os povos, culturas e civilizações do mundo inteiro desde tempo imemorial.

Não deve, pois, resultar estranho que em muitas dessas edificações, tanto medievais quanto renascentistas e outras posteriores, que manifestavam de maneira evidente a “Harmonia Mundi” através de uma verdadeira Geometria filosofal, apareçam gravados na pedra e outros materiais um sem fim de símbolos que fazem alusão à Alquimia e às distintas fases da Grande Obra da transmutação interior, e é obvio a presença em qualquer parte de um simbolismo astrológico-astronômico que denotava claramente o fato de que os maçons construtores e os alquimistas, astrólogos, magos e teurgos realizavam seu trabalho conjuntamente, pois em realidade todos eles pertenciam a uma mesma “cadeia áurea” que tem em Hermes Trismegisto, Pitágoras e seus Platão “pais fundadores”.

Precisamente neste artigo queremos falar de como efetivamente existe uma clara correspondência entre o simbolismo alquímico e o simbolismo maçônico, sem entrar em desenvolver tudo o que o tema dá de si, que é certamente muitíssimo, mas tão só apontar algumas ideias básicas que vêm dadas de forma natural com tão somente meditar com certa atenção no rico simbolismo alquímico e maçônico. Evidentemente tampouco careceria de interesse investigar como se gerou essa mutação que deu nascimento à Maçonaria moderna, quais foram as influências que, por exemplo, serviram para que aquele ou aqueles desconhecidos autores maçônicos do século XVIII elaborassem a lenda de Hiram e do ritual do terceiro grau, tal qual chegou até nossos dias, que é essencial em toda a Maçonaria, pois não existe Rito que não tenha essa lenda e esse ritual, até com os matizes e pequenas diferenças que se queira, formando parte de seus ensinos mais elevados e profundos.

Neste sentido se assinalou que o autor, ou autores, da lenda de Hiram, tal qual se psicodramatiza no ritual do terceiro grau, é muito provável que se inspirou em uma obra hermética do século XVII intitulada Septimana Philosophica, do médico alquimista e rosa-cruz Michel Maier (autor deste modo da Atalanta Fugitiva, entre outras obras importantes), escrita em forma de diálogo e cujos interlocutores são o rei Salomão, Hiram e a rainha de Sabá. Neste contexto surge também a figura do Tubalcain, que segundo as Old Charges, ou Antigos Deveres, foi o inventor da metalurgia e um dos fundadores míticos da Maçonaria junto a sua irmã Noemá (inventora da arte do tecido), e seus irmãos Jabal (inventor da Geometria) e Jubal (inventor da Música). Tubalcain, que tem também um papel relevante no ritual do terceiro grau, aparece como um antepassado de Hiram e pertencente, como ele, a uma tradição antiquíssima relacionada com a Arte metalúrgica, e portanto com evidentes vinculações com a Alquimia, que utiliza justamente o simbolismo metalúrgico, e o fogo a ele inerente como elemento ativo e transformador da matéria, para exemplificar os processos de transmutação e purificação interior. E não deixa de ser interessante, além disso, que este antepassado de Hiram, Tubalcain, apareça em certos textos alquímicos também do século XVII tendo em suas mãos o esquadro e o compasso, ferramentas maçônicas por excelência, recordando assim ao Rebis hermético de Basilio Valentino e João Daniel Mylius, que sustenta também em suas mãos estas duas ferramentas.

Enfim, como dissemos é este um tema extremamente interessante e que aos maçons brinda a excelente oportunidade de conhecer mais em profundidade sua Venerável Tradição, herdeira dos Antigos Mistérios, e cujo lema mais importante é aquela sentença que já figurava no frontispício do templo de Apolo em Delfos: “conhece-te a ti mesmo”. Diremos que esse Conhecimento é gradual e necessita de uma didática e de um ensino que vem dado efetivamente através do percurso pelos três graus maçônicos: aprendiz, companheiro e mestre, que sintetizam na realidade todos os graus iniciáticos, chamados altos graus, que recolhem também numerosos ensinos herméticos e alquímicos, e nos fazem ver que na realidade, e como deixávamos vislumbrar anteriormente, a Maçonaria atual forma parte integrante da Tradição Hermética, e reproduz através do desenvolvimento de todos seus graus as etapas da Grande Obra Alquímica, análoga igualmente ao processo de criação do Cosmo, como mais adiante veremos.

Por outro lado esta expressão, “conhece-te a ti mesmo”, encerra todo o sentido da Maçonaria como via Iniciática, palavra que como todos vocês sabem indica a aspiração no homem de empreender ou iniciar o caminho para a busca de sua verdadeira identidade, de seu autêntico “Eu”, ou como se diz na tradição hindu, de seu autêntico Si Mesmo. Para a Maçonaria, o ser humano, em seu estado ordinário, ou “profano”, não se conhece apenas, não sabe quem é em realidade, de tal maneira que nesse estado vive uma existência completamente “exterior” ao que é sua verdadeira Essência, aquela que na Maçonaria recebe o nome de Grande Arquiteto do Universo. Recordemos que a palavra “profano” quer dizer “fora do templo”, aludindo o templo à “casa do Pai”, quer dizer o lugar de nossa origem, a terra nutriz espiritual, a pátria celeste, ou a Loja maçônica “do Alto” de que se fala na Maçonaria, que um dia abandonamos porque sobreveio em nós o esquecimento, essa terrível enfermidade da alma que se cura invocando à Memória, a Mnemósyne, que os gregos consideravam uma deusa.

Aos que empreendiam esse caminho, o caminho do autoconhecimento, antigamente se chamavam “peregrinos”, ou “estrangeiros” que deve ser o mesmo, e percorriam as sendas do mundo e da vida como um símbolo de sua viagem interior para a “casa do Pai”, sendo precisamente as etapas dessa viagem o processo que ia assinalando a recuperação de sua memória arquetípica. Isto que dissemos não é uma licença mais ou menos poética, mas uma realidade recorrente na vida do homem sempre e que se pode expressar como queremos, mas que tem que ver com o encargo de um fato incontestável: a fragilidade da existência humana, a percepção clara de que verdadeiramente nosso passo pela vida é justamente isso: uma passagem, um trânsito entre nosso nascimento e nossa morte, e é sob a denominação de “estagiários” como também se denominavam antigamente aos construtores que viajavam de cidade em cidade deixando na pedra os rastros de sua Arte Real.

De fato, e se repararmos nisso com certa atenção, a própria existência de qualquer coisa ou ser tem algo de ilusório e de evanescente, que lhe vem de sua própria “provisoriedade”, de “estar de passagem”, e assim no-lo fazem ver os ensinos iniciáticos e esotéricos de qualquer tradição. Mas precisamente o dar-se conta deste fato, com tudo o que significa, empurra-nos a procurar o sentido de nossa própria existência, quer dizer sua razão de ser, o princípio do que ela depende e que evidentemente não tem que estar fora de nós, pois se fosse assim, sequer nos formularíamos a pergunta fundamental e com a que em realidade dá começo a busca para a verdadeira identidade: quem sou?

“Ouvi-me, poderosos liberadores! (Exclama o neoplatônico Proclo aos deuses em seu Hino IV). Concedei-me, pela compreensão dos livros divinos e dissipando a trevas que me rodeia, uma luz pura e Santa a fim de que possa compreender com claridade o Deus incorruptível e também o homem que eu sou.”

É inegável que a resposta a essa pergunta sobre nossa identidade tem que vir através do que Platão denomina a anamnesis, a “reminiscência”, ou seja “a lembrança de si”, que pode ir-se dando pouco a pouco, ou de uma vez por todas, ou combinando ambas as experiências, pois de fato é assim como ocorre na realidade, já que a “revelação é coetânea com o tempo”, e essa possibilidade sempre vem dada pela graça de Mnemósyne, e de suas filhas, as Musas, que inspiram no “peregrino” seu canto liberador e lhe fazem partícipe do mistério e da harmonia do Cosmos. Conta Platão que a alma humana ao vir a este mundo “esquece” qual é sua verdadeira origem, e como consequência disso fica encerrada na “esfera sublunar”, ou mundo inferior, onde vive como em um sonho com os olhos vendados à verdadeira realidade. A isto precisamente se refere também Platão com o famoso mito da caverna: tudo o que nela acontece é um reflexo de uma realidade mais alta, de onde procede a luz que ilumina essa caverna, a qual é evidentemente uma imagem simbólica de nosso mundo, e em consequência da existência que levamos dentro dele.

Pois bem, a despertar desse sonho, a escapar desse mundo e dessa existência que não tem em si mesmo sua realidade e sua razão de ser, vem a nos socorrer a Filosofia, a autêntica Filosofia, a que faz honra ao significado verdadeiro de seu nome: “Amor à Sabedoria”. Esse amor, ou essa filiação, é um estado da consciência próprio do ser humano, e está em todos nós, só que como estamos completamente voltados para o exterior, para “fora de nós mesmos”, não o percebemos como algo próprio e que nos pertence pelo fato de termos nascido humanos, como o único, enfim, que pode nos arrancar essa atadura que nos cobre os olhos, e que é como um encantamento enraizado no mundo dos sentidos, o “véu de Maia”, a ilusão do relativo, do impermanente e do condicionado.

Amar a Sabedoria implica pois uma aspiração impetuosa e sem trégua alguma para o Conhecimento, para a Gnose, o que supõe acontecer do exterior, ou do mundo das aparências, para o interior, ao mundo da realidade. Da periferia da roda para seu centro, que é precisamente o que dá todo seu sentido à roda e a seu movimento, vale dizer a nossa existência neste mundo, que sem esse centro, sem sua Essência, não existiria. Ir do exterior para o interior, da representação à realidade, supõe efetivamente seguir um caminho, uma via, um raio, e isso não é outra coisa que nossa “reta intenção”, nosso querer “ser”, que é o mesmo que nos orientar “na direção que assinala a luz”, como se diz em linguagem maçônica. Trata-se em definitivo de passar de uma leitura exterior das coisas, do mundo e de nós mesmos, a uma leitura interior, mais acorde com o que constitui a razão de ser dessas mesmas coisas, do mundo e de nós. “Ler interiormente” é o que quer dizer precisamente a palavra inteligência, que é, ao igual que Mnemósyne (a Memória), ou a própria Sabedoria, o nome de uma deusa: a deusa Inteligência, aquela que como diz Federico González em vários lugares de sua obra, e mais concretamente em Simbolismo e Arte, é

“Uma energia capaz de selecionar os valores e pô-los em seu lugar, criando uma ordem mental em oposição ao caos da ignorância. Daí a importância do modelo do Universo e de sua Ordem Arquetípica, ou seja, da doutrina e de sua encarnação, posto que é capaz de ativar e gerar o auxílio desta deidade, a que sempre se manifesta no microcosmo como a compreensão imediata, efetivada no coração.”

Esse Amor à Sabedoria é o que se pratica nas oficinas maçônicas, e faz dos irmãos maçons verdadeiros filósofos cuja aprendizagem na “lembrança de si”, ou seja no reconhecimento de sua identidade mais verdadeira e profunda, é constante e permanente, e vem dando uma dimensão cada vez mais ampla e universal de nós mesmos, que é inversamente proporcional ao abandono de nossas superficialidades, que são aqueles metais impuros, ou arestas da “pedra bruta” que com paciência e perseverança, duas virtudes muito elogiadas pelos alquimistas e maçons de todos os tempos, têm que ser polidas pelas ferramentas do maço e o cinzel, símbolos respectivos da vontade e da reta intenção que a dirige e com a qual se conjuga.

Na linguagem dos símbolos (que os trovadores medievais chamavam “a língua de oc” –languedoc– ou o “linguagem dos pássaros”) o coração é precisamente a sede da inteligência, não da inteligência racional, que segundo a mesma linguagem simbólica estaria localizada no cérebro, e que é dual por natureza, mas sim da inteligência superior, ou da intuição intelectual, aquela que tende para a síntese pela reunião dos contrários, e que é como um sexto sentido que tem o homem, o microcosmo, para “descobrir” esses outros estados mais sutis que estão em nosso interior, e que, tal como os raios da roda ou da circunferência, põem-nos em comunicação direta (ou seja a “compreensão imediata” de que fala Federico González) com nosso verdadeiro “Eu”, ou Si mesmo.

Mas no “descobrimento” dessa faculdade superior inerente à natureza humana é muito importante, com efeito, conhecer o modelo do Universo, que nos fala de uma Ordem Arquetípica, de uma Cosmogonia; e não só isso, mas também dito conhecimento, para ser compreendido em toda sua integridade, tem que “encarnar-se” e viver-se como tal, quer dizer que tem que ser realmente transformador e operativo, e não uma mera especulação teórica que por muitos “saberes” que acumule nunca poderá nos levar mais à frente da soleira ou da periferia da roda, nesse ponto onde realmente começa a viagem para o centro de nosso ser, o qual se vive, tornamos a repetir, como um retorno à “casa do Pai”.

Esse retorno tão somente é possível através de uma Arte que a Maçonaria chama “Arte Real”, idêntico a Grande Obra alquímica, Obra que é a que o homem pode realizar consigo mesmo em seu interior, e cujo processo criativo como dissemos ao princípio é análogo à própria criação do Cosmo, já que há uma identidade entre o homem e o Universo, entre o microcosmo e o macrocosmo, de tal maneira que existe uma relação constante e permanente entre um e outro, quer dizer que o conhecimento de si se inter-relaciona com o conhecimento do mundo, conformando ambos um todo unitário, “uma só e única coisa maravilhosa”, verdadeiro objetivo da Grande Obra, como dizem os textos herméticos segundo a fórmula da Tábua de Esmeralda: “O que está acima é como o que está abaixo, e o que está abaixo é como o que está acima, para fazer a maravilha de uma coisa única”. A isto alude sem dúvida alguma o conhecido selo de Salomão, que como sabemos são dois triângulos entrelaçados, sendo um o reflexo do outro.

Tu te acreditas um nada, e é em ti em quem reside o mundo,

Recorda-nos neste sentido René Guénon citando o filósofo Avicena.

E assim como a ordem cósmica, o Mundo, segundo os relatos mitológicos de todas as tradições da humanidade, surgiu do caos das trevas primitivas, também esse processo interior que o homem realiza consigo mesmo surge a partir do “caos de nossa ignorância”, como dizia Federico González na nota citada. Segundo a Alquimia, nesse “caos” estão em potência e sem desenvolver todas nossas virtudes e qualidades, e é graças à Arte da transmutação que esse “caos” começa pouco a pouco a ordenar-se, quer dizer, a atualizar-se, recebendo a luz da Inteligência, análoga ao Fiat Lux (“Faça-se a Luz”) que iluminou as trevas pré-cósmicas.

Por isso justamente a iniciação se concebe como uma “iluminação” interior, e a expressão “dar a luz”, que se refere ao nascimento carnal, é exatamente o mesmo que “dar a luz”, tal qual se realiza durante o rito da iniciação maçônica, e em qualquer iniciação ao Conhecimento pois se trata de um arquétipo universal, com o qual se estabelece uma correspondência entre o nascimento físico e o nascimento espiritual. A própria palavra “neófito” com que se designava ao recém iniciado nos antigos Mistérios do Elêusis, e também na Alquimia e na Maçonaria, quer dizer tanto “nova planta” como “novo nascido”. E tudo isto está vinculado com a própria palavra Conhecimento, que é realmente um “CO-nascimento” [N.T.: em espanhol, “conhecimento” é “conocimiento“; o autor faz logo atrás, então, uma correlação entre as duas palavras e ideias], um voltar a nascer novamente. Neste sentido qualquer conhecimento relacionado com estas ideias é sem dúvida alguma um nascimento a uma outra realidade, com o que o campo de nossa visão do mundo e de nós mesmos se amplia e se faz mais verdadeiramente universal.

Por isso mesmo não se ilumina, não se desperta ou não se nasce, a não ser a aquilo que o ser já possui dentro de si, pois como diz também Platão: “Tudo o que o homem aprende já está nele”. Daí que a via alquímica e maçônica seja um processo de estrita realização pessoal, e todos os meios ou ajudas que vêm do exterior contribuem de fato a facilitar esse despertar e esse nascimento, mas tendo sempre em conta que são só ajudas, ou suportes, ou veículos, para iniciar e começar esse processo, e que inclusive podem nos servir durante um comprido trajeto do caminho, mas finalmente, e como se diz nos textos alquímicos, a “quem não compreende por si mesmo, nunca ninguém poderá fazê-lo o compreender, faça-se o que se fizer”.

Os suportes mais importantes, e poderíamos dizer virtualmente os únicos, são os símbolos e o alto Ensino que se deriva deles, tendo em conta que os símbolos iniciáticos foram especialmente desenhados para cumprir essa função didática, e estão “carregados”, se nos permitem a expressão, de influxos espirituais ou, se preferirem, de ideias-força, que eles mesmos transmitem sob suas formas e modos respectivos, e que convenientemente estimulados por nosso estudo, meditação e concentração, comunicam-nos e nos fazem partícipes de seu conteúdo, que assim que seja compreendido, incorporamo-lo e fazemos plenamente nosso, quer dizer, que nos identificamos com a ideia que revelam, ou dito de outra maneira: devimos essa própria ideia, pois como diz Aristóteles, e confirmam as experiências de todos os que o viveram, e o vivem, “o ser é o que conhece”, quer dizer que há uma identidade entre ser e conhecer: a gente é o que conhece. Por isso mesmo é tão importante o conhecimento dessa Ordem Arquetípica, que é a Cosmogonia, pois na medida em que dito conhecimento se faz em nós por sua compreensão, e tendo sempre presente as correspondências e analogias entre o macrocosmos e o microcosmos, nossa consciência se universaliza ao aflorar nela outros estados de uma natureza muito mais sutil, e que até esse momento eram completamente desconhecidos, até formando parte de nós mesmos. Essa “floração” é o que no tantrismo hindu se denomina o “despertar dos chakras“, palavra que quer dizer “rodas”, e que são efetivamente estados de nossa consciência que jazem adormecidos até que são despertados pela energia espiritual (uma de cujas expressões é a paixão pelo Conhecimento), a que podemos relacionar com o enxofre alquímico, força divina que jaz no centro de nosso ser, ou também com o maço e o cinzel maçônicos, cuja ação conjunta sobre a “pedra bruta” fazem possível a transformação desta em pedra cúbica.

Esse despertar dos centros sutis nos permite ir ascendendo degrau a degrau, degrau após degrau, pela “escada filosófica” que une a terra com o céu, até chegar a conceber, e em consequência viver, a ideia da Unidade, do Si mesmo, que constitui a “chave de abóbada” ou “pedra angular”, idêntica à “pedra filosofal” da Alquimia, de todo o Edifício Cósmico – e é obvio do ser humano, que vive assim a plenitude de uma existência não circunscrita somente a sua individualidade, pois esta foi transmutada pela gradual identificação com o universal por meio de seu conhecimento e da identidade com ele.

Então aquela existência que estava sujeita ao ilusório e evanescente de que falávamos mais acima, cobra aqui todo seu sentido e passa a ser o suporte permanente dessa transmutação, que é uma sucessão constante de mortes e nascimentos, ou dito em linguagem alquímica, de dissoluções e coagulações, que vão “afinando” o “composto” humano até fazê-lo “simples”, ou seja “não composto nem duplo”, semelhante a uma semente ou um germe, que evoca claramente a parábola evangélica do “grão de mostarda” (Mateus XIII, 31-32): “Semelhante é o Reino dos Céus a um grão de mostarda, que tomando-o um homem o semeou em seu campo; que é a menor de todas as sementes, mas quando se desenvolve é maior que as hortaliças, e se faz uma árvore, de modo que vêm as aves do céu e aninham em seus ramos”. Ou este outro texto dos livros sagrados da Índia, que diz o seguinte: “Este Âtmâ (o Grande Espírito), que reside no coração, é menor que um grão de arroz, menor que um grão de cevada, menor que um grão de mostarda, menor que um grão de millium, menor que o germe que está em um grão de millium; este Âtmâ, que reside no coração, é também maior que a terra, maior que a atmosfera, maior que o céu, maior que todos os mundos em conjunto”.

O grão de mostarda, como outros exemplos semelhantes, é evidentemente uma imagem simbólica da própria Unidade, que não tem composto nem duplo, por isso é a Unidade, e que em nosso mundo aparece como o menor, mas que em si mesmo é o maior, pois a tudo contém, e ao mesmo tempo está contida em tudo. Daí o exemplo da semente ou germe, que é precisamente no que tem que converter o candidato para receber a “luz” da Inteligência, para o qual precisa purificar-se de tudo que não é ele mesmo, quer dizer precisa passar pela prova dos elementos, que é outra herança que a Maçonaria recebe da Alquimia, e cujo fim não é outro que levá-lo a um estado completamente receptivo à luz da Inteligência.

Neste sentido, é interessante assinalar que os quatro elementos alquímicos, mais o quinto que é o éter ou “quintessência”, têm sua correspondência com o simbolismo construtivo, em concreto com as quatro pedras de fundação situadas nas quatro esquinas ou ângulos de base de um edifício, mais a quinta pedra, que não está no mesmo plano ou nível das outras quatro mas sim propriamente constitui o “quinto ângulo”, ou “pedra angular”, situada na sumidade do edifício, e da qual toda a construção aparece como a “projeção” ou “emanação” dessa mesma pedra, quer dizer, que a construção em si tem realidade a partir dela, pelo que realmente esta significa como representação da Unidade metafísica. E se isto é assim no simbolismo construtivo próprio da Maçonaria também o é no alquímico, no qual dita construção não é outra coisa que a que se realiza na alma humana a base de transmutações e purificações constantes e permanentes, até obter sua total identificação com a Unidade que reside no centro ou “quintessência” dela mesma, e que é ela mesma: “Quem se conhece si mesmo conhece seu Senhor”, é também uma máxima da Tradição Unânime.

A “viagem” pelos elementos que realiza o postulante a receber a iniciação maçônica se vive inumeráveis vezes ao longo de sua vida. Poderíamos dizer que é toda a vida a qual está envolta nisso, pois ditas viagens se vivem em distintos níveis de compreensão, sendo os elementos, do ponto de vista alquímico, estados do Ser Universal, e portanto do ser individual. Se tomarmos o exemplo da Árvore da Vida cabalística, vemos que em cada um de seus quatro planos: AsiahYetsirah, Beriah e Atsiluth (relacionados também com os quatro elementos) existe uma Árvore inteira, ao que se terá que percorrer do começo até o final, o que forma um ciclo, acabado o qual começa outro na escala evolutiva de nossa consciência, que vai assim da periferia ao centro, quer dizer a quintessência, à Unidade, em si mesmo e além da qual qualquer ideia de “viagem” ou de “busca” tal e como se considerava até então carece já de todo sentido.

Aqui tão somente falaremos da primeira dessas viagens, e sem a qual não seria possível as restantes. Esta se realiza visitando o interior da terra, o que na Maçonaria se simboliza com a “Câmara de Reflexão”, que é em tudo semelhante ao atanor, um espaço “hermeticamente fechado” onde é introduzido o aspirante para “despojar-se dos metais impuros”, linguagem claramente alquímica que alude a essas “escórias” e superficialidades (os “egos” em linguagem corrente) que impedem precisamente a “recepção da luz”. Ali, encerrado em seu atanor, na solidão mais completa, o aspirante tem que encontrar sua “pedra bruta”, ou seja, sua “matéria prima”, pois sem esta é impossível a Grande Obra. Ou dito de outra maneira: tem que dar-se conta de que a tudo tem que aprender de novo, e que em consequência tem que morrer para seu estado anterior, ou seja a não se identificar com o mais denso de si mesmo, aprendendo a “separar o espesso do sutil”, pois existe a promessa de uma vida nova, e que se tiver chegado até aí, até essa “Câmara de Reflexão” que é sua própria alma recolhida em uma extrema concentração, é porque secretamente, sem o saber, está cumprindo com seu destino. Neste ponto dizem novamente os textos alquímicos:

“Meu apelido é Dragão. Sou o servo fugitivo, e me encerraram em uma fossa para que logo me recompense com a coroa real e possa enriquecer a minha família… Minha alma e meu espírito me abandonam… Que eles não me deixem nunca logo, para que veja de novo a Luz do Dia, e que este Herói da Paz que o mundo espera possa sair de mim.”

A tudo isto aludem sem dúvida alguma os símbolos que se encontram na Câmara de Reflexão, todos destinados a nos fazer precisamente “refletir” sobre seu sentido profundo. Aí encontramos, por exemplo, ao galo, pássaro solar e de Hermes que anuncia a luz; aos três princípios alquímicos: enxofre, mercúrio e sal, quer dizer ao princípio ativo, ao passivo, e a síntese de ambos respectivamente; à caveira que nos indica o estado em que nos encontramos e ao mesmo tempo nos permite entender que no impermanente e no fugitivo, como a própria vida que nos escapa dentre as mãos, existe uma imagem do imutável, pelo que permanece, quer dizer que esses ossos nos evocam uma primordialidade e uma origem incorruptível. Por isso mesmo, nas correspondências entre o cosmo e o homem, os ossos estão regidos pelo planeta Saturno, o rei da Idade de Ouro, que é também o chumbo, o mais vil e denso de todos os metais mas no qual, entretanto, está encerrado o ouro, o mais precioso e sutil de todos eles. E ali, enfim, encontramos as siglas alquímicas VITRIOL, ou VITRIOLUM, que dão pleno sentido à Câmara de Reflexão: “Visita o Interior da Terra e Retificando Encontrará a Pedra Oculta. Verdadeiro Remédio”.

Visitar o interior da terra é fazê-lo em si mesmo, procurar em nossa memória os sinais que nos levem ao país dos antepassados, a nossa linhagem espiritual, como faz o mestre Hiram, quando vai procurar no interior da terra, no mundo subterrâneo, a seu antepassado Tubalcain, segundo se relata em outras lendas que revestem Hiram com os características de um herói civilizador. Ressoam aqui as palavras de todos os iniciados de todos os tempos: para ascender ao mais alto tens de descer ao mais baixo, e este fato se cumpre indefinidas vezes no processo iniciático, pois o percurso pelo eixo que comunica os diferentes planos do Ser universal, e do ser individual, faz-se sempre nas duas direções: ascendente-descendente:

Sobe da Terra ao Céu, desce de novo à Terra, e une os poderes das coisas de cima e das de baixo,

Podemos ler na “Tábua de Esmeralda” hermética, fundamento doutrinal e síntese magistral de todos os trabalhos alquímicos.

Na realidade, a Pedra Oculta, o verdadeiro remédio ou elixir da imortalidade de que se fala nas siglas VITRIOL, não é outra coisa que a obtenção do Conhecimento, já que como antes recordávamos, também se disse que “Quem se conhece si mesmo conhece seu Senhor”, quer dizer à Unidade. O “prêmio”, se é que houvesse algum neste caminho de enormes contrastes que realiza o peregrino para sua pátria de origem, não é outro que esse Conhecimento, ao que alguns preferem pôr o nome de Tradição Primitiva, que é a Fonte da qual emana a Ciência Sagrada ou Filosofia Perene de todos os tempos e lugares. Neste sentido, em um momento determinado dessa viagem, a Câmara de Reflexão passa a ser outra Câmara: a Câmara do Meio, situada na base do Eixo do Mundo durante o rito de recepção ao terceiro grau, ali onde têm lugar outros mistérios que fazem referência também a uma morte e a um novo nascimento.

Isto nos faz recordar indevidamente que quando Dante, em sua viagem ao centro da terra, desce ao ponto mais baixo desta, “retifica” imediatamente o sentido dessa direção e começa a subir pelo eixo do mundo, que é seu próprio eixo interior, para a saída à “Luz do Dia”, à Realidade, abandonando o “reino das sombras” ao encontro com sua dama Beatriz, personificação da Sabedoria.

E não queríamos terminar estas reflexões que quis compartilhar com todos vós sem citar novamente o livro Simbolismo e Arte, concretamente o capítulo titulado “Arte Alquímica”, onde se diz o seguinte:

E de igual forma que todo nascimento se transforma em morte e esta é continuada por um renascimento – qualquer seja o ponto de vista que se adote, posto que a criação é perene –, assim estes estados se sucedem no ser, sujeito ao espaço, ao tempo e à memória. Pelo que o xamã vive em seu processo alquímico indefinidos falecimentos e ressurreições. (…) Entretanto também devemos observar que de modo acorde em Alquimia se destacam diversas etapas significativas no processo geral, que se realiza escalonadamente na projeção temporal, que estão vinculadas com os ciclos que, embora universalmente se sucedem sem solução de continuidade, têm um sentido claro no subciclo de uma existência particular, onde a dimensão de uma vida humana reconhece os tênues e sutis sinais de uma transformação, que por leve e esfumada que pareça, faz-se de repente transparente e se arraiga profundamente no coração do atanor, ou o que é o mesmo, da alma humana, permitindo-lhe assim ao operário seguir desenvolvendo-se para enfrentar novos trabalhos de sua ciência evolutiva, graças à intuição intelectual, direta, que não admite dúvidas nem demonstrações pois, de face à certeza, resultam completamente desnecessárias.

Pode-se compreender, então, que este processo do adepto – ou o xamã, que recebeu sucessivas iniciações, ou compreendido distintos estados do Ser Universal – que vai obtendo para si paulatinamente as cores da Obra, é uma verdadeira imersão no tempo, já que adverte a simultaneidade de todo o possível (que se dá mercê à projeção temporal, ou seja, gradualmente), e reconhece estados não humanos de uma perspectiva distinta, onde vê girar a roda dos sucessos e fenômenos sem apego, tal qual o alquimista metálico observa de uma maneira imparcial as substâncias que combustam – coagulam e se dissolvem – em seu atanor. Em tudo isto tem um papel decisivo a memória, matéria com que está tecido o tempo e portanto o homem, já que este é tanto o que conhece como o que recorda, e em todo caso se for algo em si, é por sua memória: imprecisa e frágil substância que troca com os momentos e os dias e constantemente se atualiza.

Autor: Francisco Ariza

Tradução: Igor Silva

Fonte: Hermetismo y Masoneria

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Axioma hermético

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Conhecimento, assim como a riqueza, é destinado ao uso.
Esta é uma lei universal, e aquele que a contraria sofrerá em razão de se ir contra a lei.

– O Caibalion

São 7 os axiomas herméticos, ou princípios, ou leis, mas falarei apenas de um porque o assunto é vasto e merece uma vida de atenção. Se quiser saber mais sobre quem foi Hermes Trismegistus e onde aparecem esses axiomas, veja no final da página informações sobre esta figura e suas obras.

Hermes Trismegistus é considerado o pai da Alquimia e sua origem provém do Antigo Egito. Como o assunto acerca do hermetismo é vastamente interpretado de maneiras erradas por diferentes doutrinas e culturas, é muito difícil conseguir informações verdadeiras sobre ele, principalmente na internet e este post não é exceção. Há quem diga que ele provém dos filhos de Caim (sim, tão antigo assim), outros dizem que ele é conterrâneo de Zoroastro ou mesmo de Salomão. A sua origem é tão distorcida que ele passou a ser um personagem mítico e representa um movimento ou doutrina sob o nome de uma pessoa (ou deus). Assim, Hermes Trismegistus não necessariamente foi uma pessoa, mas uma escola.

O Homem nada sabe; mas é chamado a tudo conhecer.

Todo o assunto que encerra verdades ocultas e direciona o pensamento humano para a iniciação, acaba naturalmente confundindo os ignorantes e ensinando valiosas lições aos Filósofos. Isso acontece porque a verdade por ser o maior tesouro não deve ser dada à qualquer um, mas somente àqueles que realmente a buscam. Assim, nem tudo neste post pode lhe fazer sentido a primeira lida, mas o real ensinamento está nas entrelinhas e por mais racional que seja, os ensinamentos devem ser sentidos na alma.

Informação por si só de nada vale sem a colocar em prática. O ensino colocado à prova transforma-se em conhecimento. Meu primeiro grande professor de filosofia, o mestre Sydnei uma vez disse que ler muitos livros não é a chave do sucesso, mas ler de trecho em treco e colocá-lo ao sabor da experiência é a chave que abrirá portas que você nem imagina que existia. Deste dia em diante entendi que devorar livros só me traria indigestão mental como o estava experimentando até então, e um dos motivos de eu escrever aqui neste blog é justamente para eu, de post em post, organizar e estudar trechos entre trechos dos mais profundos ensinamentos. E o meu convite fica aberto a você que lê estas linhas para participar de uma discussão a fim de, juntos, elevarmos o nosso entendimento.

Parece justo?

Então vamos lá, vou começar com a frase que abre o livro O Caibalion (The Kaybalion) de autoria dos Três Iniciados.

Os lábios da sabedoria estão cerrados, exceto para os ouvidos do entendimento.

O hermetismo e o ocultismo se fundem numa mesma ciência. Não se pode falar de um sem esbarrar no outro, e infelizmente o mundo vulgarizou seu nome a tal ponto que se tornaram ridículas as suas associações. Videntes, previsões do futuro, cartomantes, numerólogos, hipnotizadores e afins, que levam o ensinamento esotérico para fora dos muros de carne e ossos e o colocam nos ditames do exotérico, do externo, fora do homem e fora da consciência. A real essência alquímica não pode acontecer desta maneira e quando o faz não é duradoura e nem verdadeira. O hermetismo (ou ocultismo) real só acontece quando é pelo lado de dentro, e é deste que quero dedicar a minha atenção.

As seitas herméticas, escolas e doutrinas pelo mundo afora, sentem leve um prazer egoísta em apelidar aqueles que não conhecem as suas valiosas lições e o termo “profano” é empregado para representar essa classe. Excluir desta maneira aqueles que são tidos como atrasados na jornada do entendimento da alma humana é ao meu ver outra prova de que os ensinamentos reais estão sendo novamente corrompidos porque em lugar algum nos livros originais esse tipo de classificação é empregada. Isso é a vaidade humana operando em uma profundidade não convidada. Não pode existir elevação sem bondade e não pode existir união sem fraternidade. Disse São Paulo que a caridade é a chave para chegar ao reino dos céus mais rapidamente. Então o meu primeiro passo é não aceitar este termo, “profano”, para designar meus irmãos de vida, por mais distantes que possam estar de mim na jornada, e paradoxalmente, por mais próximos que tenhamos nascidos com laços de sangue. Assim sendo, nada pode ser profano, porque diz a minha amiga e filósofa Cláudia Carvalho, “o sagrado é o cotidiano”. O dia a dia, o que é o pequeno e comum, aparentemente descartável, este é o sagrado para o Filósofo porque faz relação direta com o primeiro axioma hermético que todo filósofo deveria conhecer, entender, sentir e aprender.

O Princípio da Correspondência

ou Lei da Analogia

“As above, so below. As below, so above.”

  • “Assim como em cima, é embaixo. Assim como embaixo, é acima.”
  • “Aquilo que está embaixo é como aquilo que está em cima, aquilo que está em cima é como aquilo que está embaixo.”
  • “O que está em cima é como o que está embaixo, e o que está embaixo é como o que está em cima.”
  • “Assim como é em cima, assim é embaixo. Assim como é dentro, assim é fora.”

Repare que as traduções de um mesmo axioma muda levemente o seu entendimento, e varia de livro para livro, de doutrina para doutrina e de escola para escola. No entanto, o ponto mais importante é o “como”, não “exatamente” ou “igual”, mas o “como” no sentido de ser “parecido”, e esta é a chave que abre as portas do inalcançável para o homem.

Este princípio encerra um grande mistério que é revelado aos sentidos do atento filósofo que faz da observação a sua ferramenta prática do cotidiano. Lembrando que o cotidiano é sagrado, então esta lei não pode ser ignorada no dia a dia e aos olhos do ativo observador faz-se reconhecer a profundidade e a veracidade de seu mandamento. Não há como fugir, não há como escapar-se dela. Talvez a única maneira de não sentir-se absorvido nesta máxima é ignora-la e afundar-se na ignorante vida cega do homem comum, ou seja, viver a vida sem pensar e nem questionar, reclamar e maldizer a sua sorte, e finalmente, seguir e deixar que o acaso da vida decida seu destino. E muitos são os homens e mulheres assim, e eu não me excluo disto porque isso também acontece involuntariamente comigo.

Em momentos de lucidez como este agora, consigo enxergar e reverenciar o poder desta lei, e posso, de maneira humilde, tentar traduzir em palavras o que ela significa.

A doutrina rosacruz que entende o homem como a cruz que se espera florescer rosas, bem como a maçônica que visa o homem como a pedra filosofal que aguarda sua devida lapidação, ambas só são conseguidas com uma limpeza por dentro. Ambas vêm beber da fonte hermética, com suas leves alterações evolutivas desta fórmula, no entanto, a sua origem e alegoria alquímica prevalecem. A base e o ponto de origem se convergem no princípio da correspondência.

Ela diz que assim como é em cima, assim é embaixo. Essa é a chave para se conseguir medir e entender o que está fora do alcance mundano. Nada está fora do alcance do homem quando ele realmente quer. Assim chegamos à lua, chegamos à Marte, e chegamos à descobrir planetas e estrelas à anos luz de distância, também chegamos às menores formas de vida, células, moléculas, átomos … seja em cima, seja em baixo, o homem consegue alcançar quando quer. E para sua descoberta, o gigantesco não passa de um padrão repetido do minúsculo. Porque os planetas orbitam ao redor de suas estrelas, assim como os elétrons orbitam ao redor de seu núcleo.

Assim como é em cima, assim é embaixo. Esse princípio revela como podemos entender o microcosmo e o macrocosmo, como podemos entender o invisível e o visível, como podemos entender a carne e o espírito. Porque o homem aprende e entende por comparação.

Desde que nascemos somos vítimas da comparação e aprendemos a entender o mundo através dela. Veja a ciência por exemplo. A ciência só funciona por comparação. Se um cientista não puder comparar, ele não pode concluir. Um médico só pode considerar como curado um doente quando este estiver novamente são. Um músico só sabe que está afinado quando não está desafinado. Uma campanha publicitária só é bem sucedida quando faz a marca vender mais e não vender menos. E assim o mundo passa a existir por comparação.

Uma moeda só é falsa porque você conhece uma verdadeira.

Se você não sabe o que é verdadeiro, corre o risco de aceitar o falso como verdadeiro. E intimamente, sabemos muito pouco sobre as coisas que são verdadeiras porque não conhecemos meios confiáveis de se medir o que está fora do nosso alcance. Algumas coisas estão fora do alcance porque estão muito longe, como estrelas, sonhos e outras pessoas, e, outras coisas estão fora do alcance porque estão muito perto, aliás perto demais, tão perto que está dentro de nós, como nossos pensamentos, sentimentos e a própria consciência. Ou assim julgamos estar. Na falta de se saber medir o que é verdadeiro, o homem aceita muito do lixo que existe no mundo e faz da verdade alheia a sua verdade, e esforça-se para que se mantenha verdadeira. Essa atitude, esse esforço, está sempre acontecendo e comparamos tudo. Tendemos a colocar tudo em graus de bom ou ruim, útil ou inútil, que traz felicidade ou tristeza, que funciona ou que atrapalha, e tantas outras coisas.

Somos feitos à imagem e semelhança de Deus diz a Bíblia (Gênesis 1:27), e esta é a primeira comparação que o homem tem diante de si, afinal, reside em nosso interior o sonho de um dia sermos tão poderosos quanto Deus (quem nunca quis matar, quem nunca quis criar, quem nunca quis mandar e quem nunca quis explodir o mundo) e isso faz de nós uma cópia microcósmica de Deus, talvez meio descontrolada e guiada pela vaidade, mas ainda assim uma micro cópia com todos os poderes e forças latentes em si.

Então como fazer para conhecer o que está fora do nosso alcance, por exemplo, Deus?

Ora, a chave está diante de ti e só será revelada quando você praticar a observação de tudo o que existe ao seu redor, primeiramente ao seu externo. Quando estiver atento à tudo o que está lhe rodeando, poderá ficar atendo ao seu redor interno e então com prática ficar alerta quanto aos seus pensamentos, suas emoções e o que você julga ou deixa de julgar. Quando estiver com os olhos abertos para estas realidades, a exotérica (externa) e a esotérica (interna), poderá estabelecer como verdadeiro o princípio da correspondência e inevitavelmente enxergará o que antes não enxergava porque não tinha formado ainda os olhos capazes de fazê-lo. Perceberá o padrão repetido de tudo. O que lhe acontece e que é tangível bem como o padrão de tudo o que acontece e lhe é intangível. E numa escala maior / menor poderá chegar até onde a sua capacidade inteligente e vontade lhe permitirem.

É muito fácil negar ou afirmar a existência de Deus (por exemplo) de olhos fechados (para este e para todos os outros mundos). Permita-se meditar sobre esta lei, pondere e pense profundamente. Extraia dela a essência que a faz tão bela e não apenas o jogo de palavras que soa ridículo à princípio. Eu mesmo me arrependo publicamente de fazer deste princípio motivo de piada pelo arranjo das palavras, e quero levar adiante a seriedade e profundidade que encerra esta lei que pode muito bem nos servir de ferramenta para medir o imensurável. Graças à este princípio, consigo trazer Deus perto de mim, tão perto de mim que consigo vê-lo dentro de mim, de você e de tudo ao nosso redor, bem como fora de mim, de você e de tudo ao nosso redor. Pratique e verá também.

Autor: Cláudio Beck

Blog O Filósofo

Informações de background

O hermetismo é um dos maiores tesouros do conhecimento humano e é o legado deixado por Hermes, ou Mercúrio na mitologia ou ainda Thoth pelos egípcios. Qualquer que seja o nome empregado, ele é a personificação do deus da lógica e razão, e deixou um conjunto de escrituras contendo as leis que faz o homem entender e fluir à favor ou contra o universo. Hermes Trismegistus significa três vezes o grande, e acredita-se que ele tenha existido em 2.700 a.C., ou seja, muito tempo atrás. Alguns relatos dizem que ele foi descendente de Caim, outros que ele foi conterrâneo de Abraão. Ainda, muitos relatos cruzados confirmam que Hermes Mercurius Trismegistus tenha vivido 300 anos antes de partir. Seja qual for o relato, a sua origem é tão antiga e documentada de maneiras tão diferentes por culturas igualmente diferentes, que a sua verdadeira origem é reservada apenas para aqueles que buscam realmente, e isso significa que nem eu e nem você teremos essa informação aqui na internet, no conforto da sua cadeira e do monitor de seu computador.

Onde buscar este conhecimento

Os ensinamentos herméticos estão contidos em 18 obras gregas com uma diferença de tempo entre elas que data milhares de anos.

O primeiro registro de Hermes, Corpus Hermeticum ou Hermetica, com os ensinamentos escrito em primeira pessoa, como se o deus Hermes tivesse contato direto com o Nous, deus dos deuses, apareceu no Egito entre 100 d.C. e 300 d.C. Foi considerado o livro de revelações absolutas pelos Renascentistas porque naquela época tudo o que era atribuído ao Antigo Egito (época das Grandes Pirâmides) era tido como do mais sagrado e profundo. Acontece que estas escrituras não vieram do Antigo Egito, mas de uma época em que o Egito abriu as suas portas para Roma.

A Tábua de Esmeralda apareceu no mundo muito tempo depois, na Europa, cerca de 650 d.C. escrito originalmente em Latim, depois traduzido para o Árabe, e depois para os demais idiomas. Contém o conjunto de leis herméticas que foram, anos depois, copiadas, incorporadas e vulgarizadas em muitas doutrinas diferentes.

O Caibalion é um livro de 1908, escrito por três iniciados e que segundo eles, traduzem a essência dos ensinamentos assim como eram ensinados no Antigo Egito. Repare querido(a) leitor(a) como a palavra Caibalion é incrivelmente similar à Kabala. Se você não conhece a Kabala, este é o conjunto muito antigo de obras ocultistas dos Judeus. O Caibalion, assim como a Tábua de Esmeraldas, são a base dos conceitos modernos da Lei da Atração e do Novo Pensamento.

Como o livro é antigo, caiu em domínio público e existem muitas versões disponíveis na internet para você ler. O livro original possui cerca de 227 páginas, no entanto, a versão mais popular que circula na internet é versão comentada e reduzida dele. Vou deixar dois links aqui, sendo este primeiro da Sacred Magik que possui uma diagramação mais decente, você pode fazer o download dele em PDF aqui e a versão direta do Hermetics.org que apresenta o texto mais direto e tudo no preto e branco mesmo, você pode fazer download dele também em PDF aqui.

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