Não se chega muito longe sem uma tribo

Numa galáxia muito, muito distante…

… a ficha de um ex-caçador de recompensas um dia cai!

Pois bem, Sr. Boba Fett.

A sociabilidade sempre fez parte da natureza.

Como disse Aristóteles, a característica específica do homem em comparação com os outros animais é que somente ele tem o sentimento do bem e do mal, do justo e do injusto e de outras qualidades morais, e é a comunidade de seres com tal sentimento que constitui a família e a cidade.” (Política, I, 1253b, 15).

O individualismo pode impor réguas de sucesso e de felicidade. Mas sempre haverá quem questione os limites da ilusão.

É vital não confundir o individualismo materialista com a individuação do sujeito, o processo de se tornar um indivíduo psicológico, uma unidade autônoma, atingir a forma da sua unicidade mais íntima, como ensina Carl Jung, pai da psicologia profunda.

Pelas iniciações sucessivas, o Iniciado mergulha ao interior de si mesmo, de sua pedra bruta, numa rota cada vez mais atômica, visando aperfeiçoamento pessoal.

O Buscador almeja ser ponto.

Mas, pelo agrupamento associativo, o buscador almeja compartilhar saberes e experiências. Isso potencializa seu esforço em sabedoria para romper as fronteiras das dualidades ilusórias impostas. Sua percepção expande em ciclos, rumo ao infinito.

O buscador almeja também ser círculo.

Tudo é símbolo. E sábio é quem lê em tudo, como cunhou Plotino.

E o primeiro dever de todo Iniciado é apurar a interpretação do simbólico. Nesta senda, tal como a beleza da mandala, o Iniciado, em sua jornada, também é um ponto dentro do círculo.

Nessa curiosa correlação, a constatação de Boba Fett, na aridez do deserto de Tatooine[1], confirma o “animal social” proposto por Aristóteles: “não se chega muito longe sem uma tribo”. Descubra a sua.

Autor: Luciano Alves

* Luciano é Mestre Maçom da ARLS Jacques DeMolay n.º 22, do oriente de Belo Horizonte e jurisdicionada à Grande Loja Maçônica de Minas Gerais.

Nota

[1]O Livro de Boba Fett. Criação de Jon Favreau. Estados Unidos, 2021.  45min.  Série exibida pela Disney+. Temporada 1, episódio 4. Acesso em: 26/01/2022.

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Porque se vai à Loja

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A pergunta sobre as razões por que os maçons vão à Loja, gastando tempo que, não fora essa utilização, dedicariam à sua família, ao lazer ou a outras atividades a que se dediquem, tem tantas respostas quantos os maçons. Em boa verdade, cada um tem as suas razões para ir à Loja.

Uns vão em busca do conhecimento, dos ensinamentos que a Maçonaria proporciona.

Outros buscam o convívio, rever os seus Irmãos, com eles estar e partilhar um ágape, em amena cavaqueira.

Outros ainda procuram na Loja a estrutura que corresponde aos seus anseios de serem úteis à Sociedade e aos seus semelhantes, utilizando a Loja como meio de enquadramento da sua vontade de devolver à Sociedade um pouco do que esta lhes proporciona.

Também há os que vão à Loja simplesmente cumprir o seu dever de maçons, assegurar o cumprimento das obrigações que assumiram, efetuar as tarefas cuja execução assumiram.

Há também aqueles que, na Loja, no seu espaço, nos seus símbolos, no seu ritual, encontram espaços e tempos de comunhão com o Divino, com o Transcendente.

E existem também aqueles que anseiam por uns momentos de simples e pacata Paz, que procuram a companhia de seus Irmãos e a sua estada no espaço do Templo com confiança, encontrando um oásis de segurança e comunhão, que os compensam das agruras, dos desafios, da tensão da sua vida do dia a dia.

E outros buscarão coisas e estados e espaços diferentes.

O que a Loja tem afinal, de extraordinário, é uma infinita capacidade de proporcionar a cada um o porto de abrigo, o espaço de segurança, o caminho de busca, o tempo de convívio, a estrutura de atividade ou contemplação ou investigação ou busca que cada um necessita.

O que, no fundo, a Loja é, é um espaço de suprema Liberdade e Tolerância, em que cada um pode realizar-se e deixar os outros realizar-se, cada um à sua maneira e segundo as suas características e necessidades. É um espaço de cooperação, em que cada um contribui para a realização e melhoria dos outros, beneficiando ele próprio do contributo dos demais. É um ponto de encontro, simultaneamente ponto de partida e encruzilhada de variegados interesses individuais, que constituem um rico interesse coletivo. É a bissectriz do individual e do coletivo, de tal forma equilibrada que permite que ambos cresçam e cooperem e mutuamente se alimentem. É, em suma, a Utopia possível, a concretização do inconcretizável, equilíbrio instavelmente estável de múltiplos interesses e egoísmos, numa matriz que a todos enquadra satisfatoriamente. É um delicado bordado de mil linhas e infinitas cores, executado por inúmeras mãos, extraordinariamente resultando numa harmoniosa composição. É tudo isto e ainda mais o que cada um quiser, desde que respeite os interesses e anseios dos demais e do conjunto por todos constituído.

Esta singular plasticidade da Loja faz dela um duradouro cimento que une homens de diferentes temperamentos, de diversas gerações, de divergentes culturas, de separadas religiões, de conflituantes convicções, gerando laços de solidariedade e confiança que imutavelmente duram há centenas de anos.

É por isso que sempre se marca bem, sempre da mesma forma, sempre com o mesmo ritual, a abertura dos trabalhos, delimitando invisível mas sensivelmente o espaço e o tempo e a cumplicidade da Loja e dos seus elementos em relação a tudo e a todos que lhes é exterior. É por isso que, findos os trabalhos, de novo, sempre e da mesma forma, se executa um ritual de encerramento, que marca o fechar e preservar desse espaço e tempo e cumplicidade próprios e exclusivos, preparando cada um para voltar a atuar no mundo exterior, só que mais forte, mais sabedor, mais capaz de ver beleza onde o olhar comum nada de especial vê.

A Loja é um espaço onde cada um dá o que pode e vai buscar o que necessita.

É por isso que cada um sabe porque vai à Loja e, afinal, existem tantas razões para um maçom ir à Loja como maçons existem à face da Terra.

Autor: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

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Porquê “meu irmão”, e não “meu amigo”?

Os maçons tratam-se, entre si, por “irmão”, tratamento que é explicitamente indicado a cada novo maçom após a sua iniciação. Imediatamente após terminada a sessão de Iniciação é normal que todos os presentes cumprimentem o novo Aprendiz com efusivos abraços, rasgados sorrisos e, entre repetidos “meu irmão”, “meu querido irmão” e “bem vindo, meu irmão”, recebe-se, frequentemente, mais afeto do que aquele que se recebeu na semana anterior.

O que seria um primeiro momento de descontração torna-se, frequentemente, num verdadeiro “tratamento de choque”, num momento de alguma estranheza e, quiçá, algum desconforto para o novo Aprendiz. Afinal, não é comum receber-se uns calorosos e sinceros abraços de uns quantos desconhecidos, para mais quando estes nos tratam – e esperam que os tratemos – por irmão… e por tu! Sim, que outro tratamento não há entre maçons, pelo menos em privado – que as conveniências sociais podem ditar, em público, distinto tratamento.

O primeiro momento de estranheza depressa se esvai – e os encontros seguintes encarregam-se de tornar naturalíssimo tal tratamento, a ponto de se estranhar qualquer “escorregadela” que possa suceder, como tratar-se um Irmão na terceira pessoa… Aí, logo o Aprendiz é pronta e fraternalmente corrigido, e logo passa a achar naturalíssimo tratar por tu um médico octogenário, um político no ativo, ou um professor universitário. E de fato assim é: entre irmãos não há distinção de trato.

Não se pense, todavia, que todos se relacionam do mesmo modo. Afinal, não somos abelhas obreiras, e mesmo entre essas há as que alimentam a rainha ou as larvas, as que limpam a colmeia, e as que recolhem o néctar. Do mesmo modo, todos os maçons são diferentes, têm distintos interesses, e não há dois que vivam a maçonaria de forma igual. É natural que um se aproxime mais de outro, mas tenha com um terceiro um relacionamento menos intenso. Não é senão normal que, para determinados assuntos, recorra mais a um irmão, e para outros a outro – e podemos estar a falar de algo tão simples quanto pedir um esclarecimento sobre um ponto mais obscuro da simbologia, ou querer companhia ao almoço num dia em que se precise, apenas, de quem se sente ali à nossa frente, sem que se fale sequer da dor que nos moi a alma.

Mas não serão isto “amigos”? Porquê “irmãos”? Durante bastante tempo essa questão colocou-se-me sem que a soubesse responder. Sim, havia as razões históricas, das irmandades do passado, mas mesmo nessas teria que haver uma razão para tal tratamento. O que leva um punhado de homens a tratarem-se por “irmão” em vez de se assumirem como amigos? Como em tanta outra coisa, só o tempo me permitiu encontrar uma resposta que me satisfizesse. Não é, certamente, a única possível – mas é a que consegui encontrar. 

Quando nascemos, fazêmo-lo no seio de uma família que não temos a prerrogativa de escolher. Ninguém escolhe os seus pais ou irmãos de sangue; ficamos com aqueles que nos calham. O mais natural é que, em cada núcleo familiar, haja regras conducentes à sua própria preservação e à de todos os seus elementos, regras que passam, forçosamente, pela cooperação entre estes. É, igualmente, natural que esse fim utilitário, de pura sobrevivência, seja reforçado por laços afetivos que o suplantam a ponto de que o propósito inicial seja relegado para um plano inferior. É, assim, frequente que, especialmente depois de atingida a idade adulta, criemos laços de verdadeira e genuína amizade com os nossos irmãos de sangue, que complementa e de certo modo ultrapassa, em certa medida, os meros laços de parentesco.

Do mesmo modo, quando se é iniciado numa Loja – e a Iniciação é um “renascimento” simbólico – ganha-se de imediato uma série de Irmãos, como se se tivesse nascido numa família numerosa. Neste registo, os maçons têm, uns para com os outros, deveres de respeito, solidariedade e lealdade, que podem ser equiparados aos deveres que unem os membros de uma célula familiar. Porém, do mesmo modo que nem todos os irmãos de sangue são os melhores amigos, também na Maçonaria o mesmo sucede. Não é nenhum drama; o contrário é que seria de estranhar. Diria, mesmo, que é desejável e sadio que assim suceda, pois a amizade quer-se espontânea, livre e recíproca. E, tal como sucede entre alguns irmãos de sangue, respeitam-se e cumprem com os deveres que decorrem dos laços que os unem, mas não estabelecem outros laços para além destes. Pode acontecer – e acontece. Mas a verdade é que o mais frequente é que, especialmente dentro de cada Loja, cada maçom encontre, de entre os seus irmãos, grandes amigos – e como são sólidos os laços de amizade que se estabelecem entre irmãos maçons!

Autor: Paulo M.

Fonte: Blog A Partir Pedra

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Gênese e expansão dos Supremos Conselhos do R.E.E.A.

landmarks-maconaria - Conhece-te a ti mesmo: Simbolos Grau 33

O R.E.A.A aparece no mundo, como é praticado atualmente, com a constituição do primeiro Supremo Conselho de Charleston em 31 de maio de 1801. O mundo maçônico da época, basicamente europeu, não tomou o mínimo conhecimento, pois seria como se hoje, em Cochabamba, na Bolívia (sem nenhum demérito para os IIrr. bolivianos) se formasse uma nova instituição maçônica. Os europeus viam os norte-americanos como chucros e selvagens, ou seja gente de país, diríamos hoje, periférico. Coil[1], na sua Enciclopédia, afirma que “pouco se conhece sobre os assuntos do Supremo Conselho do Sul [pois os EEUU são o único país do mundo que possui dois Supremos Conselhos: Jurisdição Sul e Norte] nos primeiros 50 anos de sua existência”.

Em 4 de dezembro de 1802, uma circular – atrevida e demente, para não dizer paranoica para a época – dava conhecimento ao mundo maçônico da criação deste Conselho-Mãe em Charleston, Carolina do Sul, apelidado desde então de Supremo Conselho dos Soberanos Grandes Inspetores Gerais, 33º e último grau do Rito Escocês Antigo e Aceito. A circular afirmava pomposamente que em “31 de maio, o Supremo Conselho dos Estados Unidos da América foi constituído em grande pompa pelos IIrr. John Mitchell e Frederico Dalcho e o pleno efetivo dos Grandes Inspetores Gerais foram, no curso do presente ano, completado conforme as Grandes Constituições”. Naudon[2], no seu livro clássico, afirma que “o Ir\John Mitchell tomou o título de Soberano Grande Comendador deste Supremo Conselho e o Ir. Dalcho, o de Grande Comendador Adjunto. Os outros membros eram os Mui Ilustres IIrr. Emmanuel de la Motta, Abraham Alexander, Major Th. Bartolomew Bowen, Israel de Lieben, Dr. Isaac Auld, Moses C. Levy e o Dr. James Moultrie. O conde de Grasse-Tilly e seu sogro Delahogue estavam entre os fundadores; permaneceram como membros até a sua partida para São Domingos e antes que o efetivo de nove membros tivesse sido completado”.

Assim como a maçonaria simbólica é regida pelas Constituições de Anderson, os Supremos Conselhos o são pelas Grandes Constituições de Apesar de sua importância, as Constituições de 1786 não foram redigidas por Frederico II, da Prússia, conforme já demonstraram exaustivamente Lindsay[3], Naudon[4], Castellani[5], Findel[6], Kloss[7], Mellor[8], Prober[9], Le Forestier[10], Chevallier[11], Lantoine[12] e tantos outros que seria enfadonho citar aqui. Contudo, uma grande parte dos maçons dos altos graus no Brasil, por falta de conhecimento da moderna historiografia, continuam ainda acreditando e jurando “de pés juntos” que as Constituições de 1786 foram redigidas pelo rei prussiano. Um fato ponderável que concorreu para esta mitologização foi o de que os EEUU, à época, não era nenhuma potência maçônica, como veio a se tornar posteriormente, e necessitava de um forte aval para legitimar o seu Supremo Conselho de Charleston para que não caísse no ridículo. Nada melhor do que um rei europeu, um déspota esclarecido, com nítida simpatia pela maçonaria para ser o autor das Constituições de 1786. Independentemente de ser apócrifa a assinatura de Frederico II, as Constituições de 1786 constituem o corpo de leis que regem o R.E.A.A., e ao longo de pouco mais de 200 anos, esta Lei ficou corroborada pelo costume gerando uma permanente luta em defesa da liberdade e do bem-estar social e do desenvolvimento moral, espiritual e intelectual da humanidade.

O segundo Supremo Conselho criado no mundo foi o francês, em 1804, pelo conde de Grasse-Tilly, personagem extremamente interessante, pois tinha estado tanto na criação do Supremo Conselho das Índias Ocidentais francesas (criado antes do de Charleston e também com 33 graus), onde era Soberano Grande Comendador quanto do Supremo Conselho de Charleston, como visto acima, e no qual figurava como Grande Inspetor Geral. Gould[13], quando se refere à criação do R.E.A.A., somente menciona a Grasse-Tilly, citando os norte-americanos marginalmente.

O terceiro Supremo Conselho criado no mundo foi o da Itália em 1805 por uma patente que conferia poderes aos Grandes Inspetores Gerais Pyron, Renier e Vital para instituir em Milão um Supremo Conselho da Itália. Convém salientar que Grasse-Tilly passou a semear Supremos Conselhos por diversos países.

O quarto Supremo Conselho foi também criado em 1811 por Grasse-Tilly que fazia parte do estado-maior francês na invasão napoleônica da Espanha. Assim em 4 de julho de 1811, o referido conde criou um Supremo Conselho do grau 33 ao mesmo tempo que organizou a Grande Loja Nacional sob a denominação de Grande Oriente das Espanhas e das Índias.

A seguir, segundo Naudon[14], foram criados os seguintes Supremos Conselhos: 5º – Estados Unidos (jurisdição norte) em 1813, 6º – Bélgica em 1817, 7º – Venezuela em 1824, 8º Irlanda em 1826, 9º Brasil em 1829 (Castellani[15] considera, acertadamente, que a data da criação do nosso Supremo Conselho, não seria esta da outorga da carta patente e sim 1832 quando foi realmente implantado), 10º Peru em 1830, 11º Colômbia em 1833, 12º Haiti em 1836, 13º Portugal em 1842, 14º Inglaterra e Gales em 1845, 15º Escócia em 1846, 16º Uruguai em 1856, 17º Argentina em 1858, 18º Cuba em 1859, 19º México em 1860, 20º República Dominicana em 1861, 21º Turquia em 1861, 22º Egito em 1864, 23º Chile em 1870, 24º Paraguai em 1870, 25º Guatemala em 1871, 26º Hungria em 1871, 27º Grécia em 1872, 28º Suíça em 1873, 29º Canadá em 1874, 30º Tunísia em 1880, 31º Romênia em 1881, 32º Equador em 1910, 33º Iugoslávia em 1912, 34º Países Baixos em 1913, 35º Panamá em 1913, 36º Polônia em 1922, 37º Checoslováquia em 1922, 38º Áustria em 1925, 39º Alemanha em 1930, 40º Bolívia em 1931, 41º Líbano em 1934, 42º Bulgária em 1936, 43º Filipinas em 1950, 44º Itália em 1960, 45º El Salvador em 1960, 46º Nicarágua em 1961, 47º Honduras em 1961, 48º Costa Rica em 1961, 49º Israel em 1966, 50º Irã em 1970, 51º Finlândia em 1973, 52º Luxemburgo em 1976, 53º Marrocos em 1977, 54º Gabão em 1980 e 55º Camerum em 1981.

Como inexistisse um poder central que unificasse os Supremos Conselhos, fazia-se necessário, com a crescente proliferação de Supremos Conselhos no século XVIII e o surgimento de Supremos Conselhos espúrios, uma certa coordenação que desse um mínimo de unidade de procedimentos.

A primeira tentativa, infrutífera, de criar uma união entre os Supremos Conselhos foi o tratado de aliança concluído em Paris em 23 de fevereiro de 1834 no qual se fizeram representar os seguintes Supremos Conselhos: da França, da Bélgica, do Brasil e um tal de Supremo Conselho Unido do Hemisfério Ocidental, criado por um mulato de São Domingos – conde Roume de Saint-Laurent, tendo tal Conselho desaparecido posteriormente.

A segunda tentativa de se tentar uma união e organização internacional, antevista e abortada em 1834, foi o Convento que se realizou em Lausanne na Suíça período de 6 a 22 de setembro de 1875, tendo como principais objetivos a revisão e reforma das Grandes Constituições de 1786, a definição e proclamação de princípios e a elaboração de um Tratado de Aliança e Solidariedade.

Onze Supremos Conselhos se fizeram representar neste Convento: Inglaterra (e País de Gales), Bélgica, Cuba, Escócia, França, Grécia, Hungria, Itália, Peru, Portugal e o anfitrião Suíça. A Escócia e a Grécia, ambas representadas pelo mesmo Ir. se retiraram antes do término dos trabalhos, fato que levou a assinatura dos documentos finais a somente nove países. Os Supremos Conselhos dos Estados Unidos (jurisdição sul), Argentina e Colômbia deram seu assentimento mas não puderam mandar representantes. O do Chile mandou dizer que daria seu assentimento às resoluções do Conclave.

Após numerosas reuniões de trabalho em comissão e onze sessões plenárias, o Conclave foi encerrado em 22 de setembro de 1875.

Foram basicamente discutido os seguintes temas:

  • uma revisão das Grandes Constituições de 1786, retirando toda referencia a Frederico II, tendo como base a versão latina, considerada como a carta fundamental do R.E.A.A.;
  • a conclusão de um Tratado de União, de Aliança e de Confederação dos Supremos Conselhos;
  • proclamação de um Manifesto solene;
  • uma Declaração de Princípios do Rito, nos quais os cinco primeiros parágrafos forma incluídos no Tratado de Aliança;
  • adoção de um Monitor (Tuileur) Escocês, especificando para cada grau do 1º ao 33º, as especificações sobre a decoração da Loja, os títulos dos oficiais, os sinais de ordem e de reconhecimento, os toques, as baterias, as aclamações, as marchas, as idades simbólicas, as palavras sagradas e de passes, as joias, painéis, alfaias, etc.;
  • apresentar uma relação dos Supremos Conselhos regularmente reconhecidos no mundo: Estados Unidos: Jurisdição Norte e Sul, Costa Rica, Inglaterra, Bélgica, Canada, Chile, Cuba, Escócia, Colômbia, França, Grécia, Hungria, Irlanda, Itália, México, Peru, Portugal, Argentina, Suíça, Uruguai e Venezuela. O Brasil não aparecia na lista e segundo Prober “o S.C.BRAS., na verdade um dos mais antigos do mundo, não figurava nesta relação dos 22 ‘reconhecidos’, por certo uma represália por não ter participado”[16]. A Ata da décima sessão faz menção à questão do reconhecimento do Brasil: o Convento reconhece a existência de um Supremo Conselho no Brasil, mas como existiam duas autoridades pretendendo este título, seriam enviados, pelo Supremo Conselho da Suíça, os documentos para que ambas chegassem a um acordo. Caso contrário, o assunto deveria ser remetido ao tribunal criado pelo artigo VII do Tratado de Aliança para que pudesse ser julgado.

O artigo 3º do Tratado de Aliança e de Confederação estipulava que os Supremos Conselhos se reuniriam em Convento geral em 1878 em Roma ou Londres e de dez em dez anos a partir desta data. Contudo, como este Convento de Lausanne não foi ratificado como previsto, somente em 1900, por iniciativa do Supremo Conselho da França, que um novo mas modestíssimo Conclave se reuniu em Paris. Novamente o Conclave, previsto para se reunir em Bruxelas em 1902, teve seu início em 10 de junho de 1907, 32 anos após o Conclave de Lausanne, com o pomposo título de Primeira Conferência Internacional dos Supremos Conselhos. Depois deste Conclave é que se assiste às reuniões regulares, somente interrompidas pelas duas guerras mundiais: a IIª Conferência em Washington – 1912, a IIIª em Lausanne – 1922, a IVª em Paris – 1929, a Vª em Bruxelas – 1935, a VIª em Boston – setembro de 1939, a VIIª em Havana – 1956, a VIIIª em Washington – 1961, a IXª em Bruxelas – 1967, a Xª em Barranquilha na Colômbia – 1970, a XIª em Indianápolis nos EEUU – 1975, a XIIª em Paris – 1980, a XIIIª em Washington – 1985, a XIVª no México – 1990, a XVª em Lausanne – 1995 e a XVIª será no Rio de Janeiro em 2000.

E assim, os Supremos Conselhos se preparam para adentrar o século XXI.

Autor: William Almeida de Carvalho

Fonte: Review of Freemasonry Pietre-Stones

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Notas

[1] – COIL, Henry Wilson, Coil’s Masonic Encyclopedia, Macoy Publishing & Masonic Supply Co., Inc., Revised Edition, Reichmond, Virginia, 1995, pg. 608.

[2] – NAUDON, P. Histoire, Rituels et Tuiler des Hauts Grades Maçonniques, Paris VI, Dervy Livres, 1984, pg. 141.

[3] – LINDSAY, R. S., The Scottish Rite for Scotland, W. & R. Chambers, Limited, Edinburg, 1958, pg. 55.

[4] – NAUDON, P., opus cit., pg. 153.

[5] – CASTELLANI, J., O Rito Escocês Antigo e Aceito, Cadernos de Estudos Maçônicos Nº 4, Londrina, PR, Ed. Maçônica “A Trolha”, 1988, pg. 25.

[6] – FINDEL, J. G., Historia General de la Francmasonería, in Diccionario Enciclopédico de la Masonería, tomo IV, Editorial del Valle de Mexico, México, 1977, pg. 338.

[7] – KLOSS, Historia de la Francmasonería en Francia apud FINDEL, opus cit., pg. 388.

[8] – MELLOR, Alec., Dicionário da Franco-Maçonaria e dos Franco-Maçons, ed. Martins Fontes, S.Paulo, 1989, pg. 98.

[9] – PROBER, Kurt, Frederico, o Grande e a Maçonaria, Ed. Maçônica “A Trolha”, Londrina, PR, 1988, pg. 58.

[10] – LE FORESTIER, René, La Franc-Maçonnerie Templière et Occultiste aux XVIII et XIX Siècle, vol. I, La Table D’Emeraude, Paris, 1987, pg. 287.

[11] – CHEVALLIER, Pierre, Histoire de la Franc-Maçonnerie Française, vol. II, Librarie Arthème Fayard, Paris, 1974, pg. 65.

[12] – LANTOINE, Albert, Histoire de la Franc-Maçonnerie Française – La Franc-Maçonnerie chez elle, vol. I, Slatkine Reprints, Genéve-Paris, 1981, pg. 245.

[13] – GOULD, Robert Freke, The History of Freemasonry, Thomas C. Jack, London, 1887, pgs. 123-125.

[14] – NAUDON, P., opus cit., pg. 178-191.

[15] – CASTELLANI, José, História do Grande Oriente do Brasil – A Maçonaria na História do Brasil, Grande Oriente do Brasil, Brasília, 1993, pg. 111.

[16] – PROBER, Kurt, História do Supremo Conselho do Grau 33 do Brasil, vol. I/1832 a 1927, Livraria Kosmos Editora, Rio de Janeiro, 1981, pg. 162.

Como o sistema escolar falhou com a Maçonaria

Comenius school

O sistema educacional público, nas últimas décadas, tornou-se utilitarista, ou seja, mais orientado para a praticidade e menos para as humanidades gerais, porque essas eram e ainda são consideradas, pelos “filósofos” utilitaristas, como não essenciais para o progresso humano no século XX ou século 21.

Da mesma forma, tornou-se um sistema escolar muito secular. Não se engane: embora apoiemos totalmente um sistema secular, isso também teve um efeito colateral inesperado: muitas obras de arte e obras-primas literárias de repente se tornaram ininteligíveis para a maioria dos alunos porque eles não entendem mais referências bíblicas.

O mesmo vale para a língua: por sermos (principalmente) um país de língua inglesa devemos conhecer mais sobre sua história – e essa afirmação não contraria o caráter multicultural da sociedade como um todo, pois mesmo nas mais diversas sociedades, há sempre a necessidade de uma “língua franca”.

Curiosamente, essa frase, língua franca significava em latim a língua falada pelos francos, uma tribo germânica que, ironicamente, deu o nome à França… utilizar como denominador comum e como instrumento geral de comunicação entre várias entidades, um pidgin da época medieval.

Pansophia

Como um país de língua inglesa… seria de esperar que alguém considerasse necessário aprender a história da língua, incluindo suas formas clássicas – desde o renascimento inglês, ou seja, da era elisabetana, com a KJV (King James Version): provavelmente como a tradução inglesa mais conhecida, querida e reverenciada do Livro Sagrado do Cristianismo e do Judaísmo; e ao mesmo tempo com textos de Shakespeare e seus contemporâneos, e mais tarde algum estudo do estilo e do adorno das obras literárias e das frases durante a era vitoriana. Esse era um idioma eloquente bem conhecido e aceito pelos homens e mulheres educados do período e se reflete na maioria de nossos rituais.

Ao que parece, e posso estar errado, essas coisas, como história da(s) arte(s), história dos antigos (antigos) estilos gregos ou ordens de arquitetura, incluindo suas adições romanas; e a redescoberta desses elementos arquitetônicos básicos, como colunas, durante a época do Renascimento – são uma arte perdida entre as gerações mais jovens.

E ao mesmo tempo há uma falta, uma total falta de conhecimento da mitologia grega antiga ou da mitologia romana antiga, que é meio que espelhando a mitologia grega.

Nas universidades medievais onde se ensinava o que mencionamos muito superficialmente na instrução do 2º grau – as sete artes liberais e ciências –, era considerado o básico da educação e formação para os jovens que passavam pela educação formal…

Através do grego e do latim antigos, com as regras gramaticais muito rígidas, eles também adquiriram uma maneira muito disciplinada de pensar, usando estruturas lógicas, e ao mesmo tempo uma maneira muito rica de se expressar através da língua usando gramática adequada; e recitando-a em voz alta, como a retórica exige, eles aprenderam a arte de falar em público.

Quo Modo Deum
Quo Modo Deum
(xilogravura de um livro sobre alquimia mostrando um “Olho no Céu” precursor do Olho da Providência. Título traduz como ‘Este é o caminho de Deus’.)

Todas essas coisas desapareceram da nossa educação contemporânea – assim como no mundo inteiro!

De volta à Loja e à Maçonaria. Aqui está o que acontece quando um jovem, muito simpático, e até mesmo ‘educado’ e conhecedor, bate na porta da loja: se ele é considerado digno, ou seja, um bom ajuste e um bom homem, com potencial para crescer em um bom maçom, então nós o aceitamos, nós o iniciamos, ele passa pelo ritual de ser iniciado… e essa cerimônia rica, cerimônia linguisticamente muito rica, adornada em um estilo muito vitoriano, com uma linguagem às vezes complicada, bate na cabeça dele como um martelo. Ninguém consegue na primeira noite.

Com suas inúmeras referências a histórias bíblicas, com inúmeras referências ocultas ou abertas a antigas escolas filosóficas, de Platão e da escola platônica, incluindo neoplatônicos, estoicos, e depois ideias da era renascentista, como Pico Dela Mirandola e muitas outras… não é fácil de digerir.

Há também nessa “mistura” os efeitos dos influentes pensadores de 1600, quando os fundamentos do nosso sistema atual evoluíram: do método científico de Sir Francis Bacon à alquimia e matemática newtoniana, de antiquários como Ashmole ao pai da pedagogia (Comenius , um irmão da Morávia), desde os fundadores da Royal Society (de fato a academia de ciências da Inglaterra) até os primeiros representantes do Iluminismo…

Na literatura contemporânea, frases (topos como diriam os gregos) como o Templo do Conhecimento, o Templo da Enciclopédia, o Templo da Sabedoria (Templum Sophiae) junto com sonhos utópicos sobre a sociedade perfeita, que deveria ser uma Nova Jerusalém … eram sujeitos onipresentes.

Vale a pena notar que (de acordo com um equívoco comum) acreditava-se que a antiga Jerusalém e o Templo do Rei Salomão – sim, aquele templo! – nele estava o repositório de toda a sabedoria e conhecimento humano (lembre-se, o epíteto ornans de Salomão era sábio ) … estava no ar, por assim dizer, para recriar, para reconstruir aquele Templo da Sabedoria, aquele Templo o conhecimento humano que abrange tudo.

nova Jerusalém
Nova Jerusalém

E esses homens muito educados, muito instruídos… os antepassados ​​da Maçonaria (e estou falando principalmente da Maçonaria Inglesa porque os Escoceses e os Irlandeses trouxeram uma tradição diferente para a mistura e isso poderia ser assunto de outra apresentação) então, todos essas ideias na Maçonaria Inglesa, juntamente com a herança cristã (católica) prática, embora um pouco mística, transmitida pelas guildas de pedreiros e lojas operativas, criaram uma mistura fenomenal, uma novidade fenomenal, uma fermentação fenomenal de ideias, filosofias e visões de mundo. E dentro dos muros (intra muros) em vez de matar uns aos outros – como acontecia fora dos muros – por causa de diferentes abordagens à divindade, aos princípios do cristianismo (na verdade, naquela época era apenas sobre diferentes facções do cristianismo, ninguém pensava em religiões e crenças fora da Europa) eles criaram esse microcosmos quase irreal da loja. A questão é: ainda temos?

Assim, os mencionados jovens chegam à Loja e descobrem todas essas coisas fascinantes (como as três colunas, símbolos de sabedoria, força e beleza e pertencentes a diferentes ordens de arquitetura “nobres” antigas), mas não têm a imagem mental dos três estilos gregos diferentes; têm dificuldade em compreender as referências bíblicas; e não entendem referências mitológicas; e não entendem as ferramentas literárias aplicadas na compilação dos textos…

3 colunas gregas
As três colunas gregas clássicas – cronologicamente na ordem errada. O dórico no meio foi o mais antigo…

Quando descobrem no ritual e na Loja todos aqueles tópicos de que nunca ouviram falar, desenvolvem esse equívoco de que TUDO foi inventado pelos maçons (incluindo as artes e ordens antigas) e não são capazes de contar a história do mito, a realidade da lenda , genealogia da semelhança… E, finalmente, eles são vítimas de autonomeados especialistas sem escrúpulos que os alimentam com mitos e lendas (em tons caros) em vez de educação e conhecimento reais.

Nós falhamos com eles duas vezes. Em primeiro lugar porque o sistema escolar não os preparou para compreender todas as referências em nossos textos ritualísticos. Em segundo lugar, falhamos com eles na Loja ao não fornecer mentores. Nós nos importamos apenas com eles memorizando as passagens obrigatórias: “se prepararem”. Nunca se trata de compreensão. Há poucos que poderiam ensiná-los, orientá-los, explicá-los… e nem toda Loja tem o número suficiente desses maçons.

Sem mentores, você nunca formará um novo maçom bem informado. Eles vão envelhecer tão desinformados quanto aqueles que os iniciaram estiveram por eras. E é assim que você ouve aquelas vozes entre os maçons perguntando: “Por que não modernizamos?” “Por que não facilitamos?” “Deveríamos emburrecer o ritual, o texto”…

Este é realmente o caminho que queremos seguir? Ou estamos condenados a tomá-lo?

Espero que não.

Autores: Istvan Horvath
Traduzido por: Luiz Marcelo Viegas

Fonte: The Other Mason

*Horvath é Mestre Maçom, Maçom do Arco Real, membro da Philaletes Society, do Quatuor Coronati Correspondence Circle e da Scottish Rite Research Society. 

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As contenções da liberdade. A Maçonaria e a Internunciatura Apostólica no Brasil do século XIX (Parte III)

A IMPORTÂNCIA DA GESTÃO DE CONFLITOS PARA O SUCESSO DE UM NEGÓCIO - DVF

A instrução da Internunciatura

Há que se considerar que o conflito católico-maçônico no Brasil, que deu origem a instrução da internunciatura, estava situado no conflito que era universal, mas que reflete as especificidades das relações dos segmentos em conflito a partir da questão religiosa. Preocupava, sobretudo, a experiência Europeia em função das associações da maçonaria com governos que restringiam a presença da igreja. Além disso, havia evidente intenção de reforçar a autoridade simbólica do catolicismo junto à sociedade brasileira, e como decorrência reforçar também a autoridade das ações do clero no enfrentamento. A especificidade da experiência brasileira também deve levar em conta a manifesta hostilidade interna dos setores liberais e do governo, e a perplexidade geral resultante do encarceramento dos bispos católicos na crise da Questão religiosa.

Do ponto de vista estratégico o documento pelo seu agente emissor, marcava posição junto ao Estado brasileiro, transformava a questão doméstica em questão diplomática, por causa da procedência do texto, a Santa Sé, a diplomacia vaticana, e a internuciatura. Além disso, inibia as ações da igreja no Brasil, para aproximação com a maçonaria, a defesa que muitos faziam dela, com a tese de não ter ela a índole anticlerical que se verificava em outras partes do mundo. Ao mesmo tempo, o documento mantinha a igreja como interlocutora nas questões em debate no Império.

Do ponto de vista social o documento tem um caráter marcadamente segregador, na medida em que distingue os “afiliados” da maçonaria, como objeto de tratamento específico, restritivo, e também simbólico em relação aos fieis católicos que recebiam elogio implícito da sua fidelidade, ao contrário dos que eram objeto de sanções eclesiásticas. O discurso pressupunha a prerrogativa da igreja como portadora de autoridade que o catolicismo possuía para julgar a Maçonaria

Se o discurso atrai, o documento procurava reforçar sua força autoritativa por ser um discurso que historicamente a igreja reeditava. Além disso, a proximidade temporal com a Questão Religiosa sugeria que a igreja mantinha sua posição mesmo em face do rigor com que foi tratado sob a lei durante a crise, e fazia repercutir sua palavra junto aos setores envolvidos, que incluía proeminentes intelectuais e juristas que tomaram posição a favor da igreja, além de congregar em torno da autoridade eclesiástica os fiéis católicos, e mandar uma mensagem implícita para os protestantes, envolvendo todos os setores que estiveram nos embates da Questão Religiosa: o poder público, os fiéis católicos, e os protestantes como beneficiários indiretos. [42]

Uma vez que o embate se dava também no plano institucional, deve-se ter em conta que as instituições operam como um conjunto das formas ou estruturas fundamentais da organização social, tal como são estabelecidas pela lei ou costume nas diversas sociedades, é esta concepção que realça o papel dos conflitos políticos e a atribuição do caráter propriamente político assumido por determinadas instituições sociais, como no caso, a igreja católica e a maçonaria. A pergunta a ser colocada é se a influência política das instituições lhes é própria ou se revela somente a incidência de fatores externos.

A fórmula que sustentaria a estratégia era a recorrência à doutrina católica, especificamente no que refere à maçonaria, mais ainda a questão sacramental que se expressava “… num conjunto coerência relativa de representações, valores e crenças”. Valores e crenças operando como ideologia

Diz respeito ao mundo no qual os homens vivem suas relações com a natureza, a sociedade, os outros homens e sua própria atividade sócio-política. Faz-se presente em todas as atividades dos membros de uma sociedade de tal forma que ela (a ideologia religiosa) é indiscernível de sua experiência vivida”. [43]

Lembremos que todo ato de comunicação constitui-se um processo, no qual a ação percorre uma trajetória, com vista a tornar comuns os elementos de comportamento, experiências, sentimentos, ou modos de vida. Sua efetivação promove um sentido de unidade entre ideias e aspirações. Este o processo de comunicar reveste-se de função social, porque ao prover a identidade de aspirações, por exemplo, remete a normas que estruturam a ação comum dos sujeitos que estão envolvidos nesse processo, e que resulta em forma organizativa dos agrupamentos sociais. Sabe-se que nessa função social o processo se propõe a prover a estrutura ideológica para a vida dos seus destinatários através de recursos semiológicos, psicológicos, semânticos, etc.

No caso aqui referido se reconhece episcopado de um lado, clero, fieis e público geral, de outro, tendo a instrução pastoral como instrumento de mediação. A teoria comunicativa informa a necessidade de um “campo comum” entre emissor e retor, e que quanto maior a interação entre estes, melhor se realiza o processo comunicativo. O emissor pretende sempre que sua mensagem possua o poder modificador e leva em conta a situação histórica e a disposição dos destinatários.

Como lembra José Carlos Araújo, este projeto corresponderá ao “estado de espírito ideológico” mannheimiano no qual “as ideias são estranhas a realidade e transcendem a existência social”, ainda quando tais ideias, situacionalmente transcendentes permanecem “no nível da realização e na manutenção da ordem de coisa existentes”. [44]

Neste contexto o depositário das ideias ideológicas é o grupo religioso, institucionalmente denominado igreja católica, pois, possui um sistema intelectual, racional e ético, que porta e veicula uma interpretação doe sobreo mundo abarcando a vida ante e pós morte. [45]

Tal caráter ideológico do discurso produzido pela igreja católica é inevitável na medida em que sempre operou como representante de uma determinada ordem e pretendeu exercer o controle das ideias e interesses remissos a transcendência, impossíveis de serem efetivados no quadro de uma ordem autônoma, e porque pretendeu manter as coisas, ou seja, a posição da igreja foi de assegurar seu lugar social historicamente instituído.

Como demonstra Mannheim, sempre o grupo dominante que esteja em pleno acordo com a ordem existente irá determinar o que se deve considerar utópico, ao passo que o grupo ascendente em conflito com as coisas como estão, determinará o que deve ser considerado ideológico. [46]

A perspectiva da igreja católica era acordar-se com a ordem existente, pois não lhe convinham mudanças. Por esta razão ela caracterizará, por oposição, as utopias em relação aos grupos ascendentes a direção política que carrega consigo uma visão emancipada do mundo e do homem, a modernidade. O poder político ambiguamente representava a visão dominante e o conflito com outra ordem que abalaria o status quo.

Embora o senso comum repute negatividade ao conflito, a sociologia já demonstrou que ele é um dos mecanismos básicos da interação social. De fato, o conflito fixa fronteiras entre os grupos internos de uma mesma sociedade, robustecendo a consciência dos grupos, uma vez que a distinção favorece a afirmação de identidades. Quando grupos sociais se repulsam reciprocamente forjam no sistema social total um equilíbrio, ainda quando reclamam delimitação entre eles, e o meio ambiente social.

O documento em estudo Instrução aos Revmos. Ordinários do Brasil[…] é sugestivo a partir da sua construção enunciativa. Dentro da estrutura do direito canônico, a modulações de linguagem oferecem sugestões que não correspondem literalmente ao que a forma sugere. Evidentemente que o caráter do pronunciamento não tinha mero conteúdo de instrução, mas era um instrumento normativo, que fixava padrões de “como proceder”, bem como, embora aparente impor mecanismo para a contenção de uma dupla militância de católicos que se ligassem a maçonaria, o documento oferecia recursos para enfrentamento ideológico com a maçonaria, em seguida anunciada como “seita maçônica”, o que lhe atribuía à condição de grupo religioso, diretamente, e com o poder civil, indiretamente.

O texto refere-se “a seita maçônica que tantos danos tem causado a religião nesse país..”. o que apresenta a justificativa para o combate contra a maçonaria de forma tríplice: sua condição de seita, os males a religião, e os danos aos país. Apela-se a ação do clero, tomando-se como óbvio os danos, uma vez que não se enumera nem caracteriza tais males, mas se afirma de forma implícita, que a omissão do clero corresponde à perpetuação dos danos a religião e ao país. Mas não havia como não saber os comprometimentos do clero com ideologias alheias a ortodoxia romana. Não se cogita, portanto, um diálogo pacificador, mas “forte repressão” que não será resultado de ações isoladas ou resultados de improvisos, mas que demanda escrupuloso rigor na sua implementação.

Obviamente, uma crise de legitimidade no sistema social, como a ambígua separação de poderes em um estado confessional, como o Brasil imperial, impõe aos grupos com posições de influência objetivamente similares que, por meio do conflito, constituam-se grupos autoconscientes, com interesses próprios a defender, e a própria estrutura social estabelece o grau de conflito admissível, e seu limite é que não provoque a anomia social, como evidenciado na Questão Religiosa.

Considerando que toda identidade é política, compreende-se que no texto incide um enunciado sobre a construção das identidades, que sempre são politicamente ativas, e sua afirmação ou o surgimento se dá num espaço ocupado por outras pretensões de identidade e porque a referida afirmação consiste em traçar uma fronteira de alteridade que separa oque se é do que não se é. Ao mesmo tempo, não se ignora que toda identidade é contingente e remete a condições históricas, sociais, culturais e políticas, contingência que desautoriza suas pretensões de detenção da verdade, de legitimação universal ou de superioridade natural.

Segundo a perspectiva de Rubem Alves (1982), uma vez que o sagrado e a verdade não habitam as instituições, mas invadem o nosso mundo através da consciência, e que os sistemas religiosos são organizações simbólicas do mundo, cuja linguagem não é facilmente distinguida dos outros instrumentos linguísticos, é neste lócus que se acentuam as múltiplas formas do conflito, muitas vezes já esgotadas nas formas institucionais, mas mantidos em seus aparatos simbólicos.

Segundo o mesmo autor, “a combinatória de todos os conceitos de uma linguagem é o limite do que pode ser pensado com ela[…] Nenhuma linguagem pode assimilar os conceitos estranhos a si mesma, sem com isso condenar-se a destruição”[47], como sugere o texto da Instrução remetendo a norma da doutrina católica acerca da maneira de tratar os maçons, principalmente no que diz respeito aos sacramentos e aos outros bens espirituais, de cuja comunhão eles deveriam ser inteiramente privados, no caso, em forma de antítese de dois princípios: a norma da doutrina católica, e a maneira de tratar os maçons.

Ainda segundo Alves, “a aceitação de um discurso como verdadeiro e ortodoxo, e a rejeição de outro como falso e heterodoxo se dá ao nível do poder político dos sujeitos que o enunciam e sustentam tais discursos. O que importa é quem tem a última palavra” (Id., p. 38). No mesmo sentido Maurice Durverger (1961) indica que política é enfrentamento, onde os grupos que exercem o poder lutam contra os que lhes ameaçam o que se dá com vistas à preservação do bem ou resistência ao mal, concebida a partir do status social dos oponentes, objetivando a preservação de determinada ordem ou sua subversão. Afirma o autor:

toda a contestação da ordem social existente é a imagem e projeto de uma ordem superior, mais autêntica. Toda luta é portadora de um sonho de integração, e constitui um esforço para o encarnar. Para muitos, luta e integração não são duas faces opostas, mas sim um único e mesmo processo de conjunto gerando a luta naturalmente a integração, tendendo a antagonismos, pelo seu próprio desenvolvimento para a supressão e para o advento de uma Cidade harmoniosa. [48]

Estas formas de embate político têm como background o poder exercido sempre em proveito de algum grupo, nível onde conflituam os interesses dos diversos segmentos sociais. O fato é que as instituições políticas determinam o quadro interior no qual se desenrolam os combates políticos, e assimilam em sua arena de luta as instituições “para-políticas”, aquelas que não instituídas como organizações políticas, mas que exercem efetivamente este papel na sociedade, como a igreja. O ambiente onde se desenvolvem os antagonismos pode polarizar os blocos em disputa em uma oposição máxima.

A instituição é um mecanismo social que estabelece os parâmetros comportamentais dos indivíduos de forma especializada, de sorte que eles reproduzem os objetos predeterminados pela Instituição, assim, força os indivíduos a produzirem segundo o modelo pré-estabelecido, como, por exemplo, a dimensão excludente entre ser católico e maçom que se considerava intolerável.

Na formação social brasileira, ainda no século XIX, o sacerdote operava como referência societária e comunitária, desta forma, se parte do clero se tornava membro da maçonaria, isto podia ser tomado como consentimento ou legitimidade para a participação de leigos católicos na maçonaria, o que representava uma “dissidência” e consequentemente um enfraquecimento do próprio catolicismo.

O empenho da igreja em manter seu status e papel social reflete o fato que as instituições, enquanto respostas aos problemas concretamente vividos na organização da vida social, somente se justificam na medida em que preservam sua eficácia prática, e que em sua institucionalidade o passado tem sempre prioridade sobre o presente, onde aquele funciona como modelo desses, daí a remissão ao enfrentamento com a maçonaria como experiência de longa data na trajetória da igreja, como sendo certo e mais que certo, que a maçonaria deveria ser considerada entre as sociedades condenadas pelas Constituições Apostólicas.

Na medida em que as instituições são eficazes, ninguém precisa alterá-las, e a funcionalidade é confundida com verdade, o discurso sobre outras instituições toma forma de justificação ideológica, e passa-se a usar a descrição das realidades institucionais, como base para os imperativos éticos, que no documento em estudo se nomeia como bens espirituais, conformidade a “norma da doutrina católica[…]”; “sacramentos e aos outros bens espirituais, as bênçãos e […]” “cerimônias eclesiásticas”; “poderão ser absolvidos da excomunhão em que incorreram e para este fim Sua Santidade benignamente concede[…];” reconciliado com Deus e com a Igreja pela absolvição.

Ainda segundo Durverger o combate político insere-se nas práticas sociais onde os sujeitos refletem as categorias sociais em conflito, e se subordinam a situações conjunturais e históricas do próprio ambiente societário no qual se situam, assim, compreende-se o apelo ao clero “contra os males a religião e ao país”.

Uma vez que não se cogita o diálogo pacificador, se reafirma que “será tanto mais fortemente reprimida”, quanto mais “escrupulosamente for observada pelo clero a norma da doutrina católica acerca da maneira de tratar os maçons”, a fórmula que sustentaria a estratégia era, portanto, a recorrência à doutrina católica, no que refere à maçonaria, mais especificamente a questão sacramental, explicitamente no que diz respeito aos sacramentos e aos outros “bens espirituais”, de cuja comunhão eles devem ser inteiramente privados até que abjurem da “ímpia seita”.

Não se ignora que o conflito com outros grupos torna mais nítido as fronteiras de cada grupo, ao contrário das tensões intramuros que ameaça derrubar as fronteiras já estabelecidas do grupo, o que explica a insistência que o texto revela nas informações chegadas a Roma, apontando a lassidão com que o problema de admissão dos maçons nas práticas religiosas acarretava, quando afirma textualmente que: “a S. Sé esteja bem informada de que a praxe seguida pelos párocos desse império difere muito nesse ponto a Sagrada Congregação”, com a aprovação do Santo Padre.

Nesta seção o quadro ganha nova gravidade porque se aponta para a cumplicidade ou omissão do clero. O clero, não era infenso as relações que marcavam a vida social dos Oitocentos, e muitos deles, adotavam a maçonaria como espaço pra expressão de suas convicções políticas liberais. Por isso, se apela ao princípio de autoridade porque a matéria estava agora no âmbito da Sé romana, e se estabelece velada ameaça, apontando que a questão não estava cativa da dimensão administrativa, mas jurídica, porque sob os olhares do órgão sensor, a Sagrada Congregação da Santa Inquisição. Ambas, a Cúria e a Congregação estavam sob o aval do próprio pontífice.

É conhecido como os sistemas religiosos tendem a absorver a personalidade inteira dos seus fiéis. Porque a união entre os membros é muito mais forte do que naquelas onde prevalecem relações do tipo fragmentário. Assim, os credos tendem a reprimir os antagonismos internos e os desvios de conduta, sobretudo, entre as lideranças e aqueles investidos de autoridade, como já indicamos, com a adesão de clérigos e fiéis a maçonaria.

Na verdade, a reação pode ser mais forte nestas condições porque o inimigo de dentro põe em contradição os valores e interesses do grupo e ameaça a unidade. A quebra da norma, ou transigir com o erro, significa e simboliza uma deserção daqueles princípios que o grupo considera vital para seu bem estar, e para sua sobrevivência. O religioso que transige contribui para a fortaleza do grupo oposto ao transferir para este a sua lealdade, primeiro porque sugere possível a dupla militância, segundo porque esta lealdade pode ser mais forte, principalmente pelo fato que transfere maior convicção a sua causa nova

A estes teve por bem “relembrar as coisas seguintes, que todos deverão cumprir fielmente”. Outra vez o expediente discursivo aparece de forma sutil, porque se tratava não de novo regramento, mas de “relembrar” o que já era dever do clero, porém, esta “lembrança” exigia que as obrigações fossem “cumpridas fielmente”. E o documento insiste: “e falando primeiramente do sacramento do matrimônio, não se pode de modo algum tolerar o que sucede em algumas dioceses, segundo consta, a saber, que sejam celebrados os matrimônios dos maçons com toda solenidade do rito católico”.

Neste ponto importa pensar porque as dioceses casavam os mações, contra a regra católica. Num ambiente em que não somente os estratos médios e subalternos da sociedade aderiam à maçonaria, mas de fato, predominava entre membros da elite intelectual e política, não convinha ao clero se indispor com estas elites, por isso, as autoridades diocesanas tendiam a contemporanizar com tais práticas, preterindo o rigor. De resto, senão na hierarquia, mas no clero graduado no governo diocesano a percepção sobre a maçonaria não se fazia sobre os documentos eclesiásticos, mas sobre o contexto social do Brasil imperial.

O objetivo no documento era colocar os maçons numa condição de pária social, subtraindo a legitimidade das suas relações sociais, notadamente, familiares, num contexto que o status civil do casamento fixado em lei brasileira era novo e não gozava de plena efetividade enquanto norma jurídica. Esta estratégia não significava apenas uma hostilidade aos maçons, e sim um mecanismo de demarcação dos espaços de poder dentro da ordem política imperial, com o enfraquecimento da maçonaria, através de uma contrapropaganda que subtraísse sua possibilidade de ampliar a inserção sobre segmentos sociais tradicionalmente menos infensos a influência do catolicismo, ou seja, catalisar novos membros para a maçonaria entre os católicos. Mas fica a pergunta até que ponto sansões eclesiásticas inibiam a adesão à maçonaria?

Havia irmandades católicas com membros e dirigentes maçons, tanto que foram objeto de sansões eclesiásticas pelo bispo de Pernambuco na Questão Religiosa, e também livres pensadores, profissionais liberais e acadêmicos, além de membros do governo em todas as instâncias, já filiados as diversas lojas pelo país.

Se percebermos a comunidade como a realidade social dentro da própria instituição social, no sentido em que ambas afirmam os mesmos símbolos, uma vez que os símbolos que a comunidade usa foram mediados pela instituição, se entende mais precisamente o que era a sansão eclesiástica num ambiente social e culturalmente católico.

Se por um lado a hermenêutica da instituição é uma em que a significação dos símbolos já foi esgotada pelo passado, cabendo-nos agora simplesmente explicitá-los com maior clareza e aprofundá-los, a comunidade, por sua vez, possui uma compreensão que os símbolos não se encontram apenas no significado herdado do passado, mas precisa ser ressignificados no presente vivido.

O documento afirma que antes, se algum maçom, sendo conhecido como tal, desejar contrair matrimônio, o pároco é obrigado a procurar com todas as forças, “que ele deixe a maçonaria”. Ora, em todas as relações de conflito, as disposições hostis agressivas acumuladas, podem não só descarregar sobre o objeto primordial da hostilidade, mas também sobre os objetos substitutivos. Neste caso, exemplarmente, a hostilidade contra “a seita maçônica” volta-se contra o maçom católico, pretenso beneficiário dos bens espirituais. É evidente que a privação da vivência religiosa dos indivíduos particulares não poria fim a “seita maçônica que tantos males tem feito a religião e ao país”. Portanto, o conflito direto com funções primárias de oposição não esgota a experiência conflitual, pois, ela pode derivar para objetos substitutivos ou obter satisfação alternativa mediante uma simples liberação da tensão, como as restrições às práticas religiosas para atingir a maçonaria, coagindo alguns a deixá-la, sob pressão social ou familiar.

A literatura sobre a situação religiosa da América Latina sob influência católica, explica a substituição do foco sob o maçom anelante por casar-se, para a família da nubente, na recomendação que “caso não queira [abjurar da maçonaria], o pároco se esforce seriamente em afastar com oportunas admoestações a esposa e seus pais de semelhante consórcio”, pois segundo anotado no jornal mexicano El abogado cristiano ilustrado: “a igreja tem em seu poder as mães, esposas, filhas, irmãs, toda a família, enfim, que satisfazem todos os seus gastos e gestos”[49], favorecendo a submissão da consciência [50].

E o documento insiste que:

Quando, porém, o pároco não puder de modo algum impedir a realização do matrimônio, e prudentemente recear que, negando sua assistência, resultará escândalo ou dano grave, então leve o fato ao conhecimento do ordinário, o qual, em virtude da faculdade competente que agora lhe é outorgada, depois de examinadas e pesadas todas as circunstâncias do caso, poderá permitir que o pároco assista o matrimônio passivamente, isto é, sem as bênçãos e sem as outras cerimônias eclesiásticas, apenas como testemunha autorizável, e neste caso.

A resposta a violência, com a exclusão do hostil assegura a sobrevivência do grupo e elimina a acumulação de disposições hostis, permitindo a manutenção interativa das relações, uma vez que o conflito modifica os termos tradicionais do relacionamento, pois, a simples hostilidade não produz necessariamente estes efeitos e até pode preservá-los. Nesse caso, a admissibilidade tinha objetivos precisos: impedir que se retorne aos níveis de tensão com o Estado como na Questão Religiosa. Evitar tensões com Estado que tendia a favorecer a maçonaria, afinal, a doutrina não previa este expediente de tolerância a que a igreja, contra sua vontade, se submetia para minimizar consequências do enfrentamento.

A Instrução determinava ainda:

devem ser tomadas previamente as precauções e providências necessárias para a educação de toda a prole, e observadas as demais condições de estilo. A referida faculdade poderá ser delegada em reservado aos párocos, sempre que o ordinário achar necessário. Quanto, porém, ao matrimônio entre uma parte católica e outra que afastou da fé para professar alguma religião falsa, ou seita herética, é preciso requerer a costumada e necessária dispensa com as prescrições e cláusulas conhecidas e de estilo. [51]

Como dissemos, é menos perigoso para um grupo se quem se separa se passa para o inimigo do que se, como faz o dissidente, forma seu próprio grupo rival dentro da instituição. Além disso, professando repartir valores do grupo, o dissidente cria confusão e, portanto, suas ações se consideram como uma tentativa de derrubar fronteiras. Pelo contrário, a percepção de perigo interno pelo conjunto do grupo faz com que se robusteçam suas fileiras, aumentando a discussão interna e a participação na vida grupal, ou seja, mobiliza as defesas do grupo.

Além disso, a exigência que os Ordinários, “em nome da S. Sé, recomendem aos confessores, que admoestem severamente aos seus penitentes, para que não se associem a maçonaria”, aponta para um catolicismo como o único espaço de objeção a maçonaria e a adesão progressiva de católicos, sobretudo, clérigos, que abria a mencionada faixa de vulnerabilidade que enfraqueceria ainda mais a condição do catolicismo no Brasil, já vitimado pela Questão Religiosa, o regalismo e o protestantismo que se estabelecia.

Segundo Vieira o núncio temia o protestantismo, pois, a igreja católica mantinha o desejo de possessão, subjugação inclusive de aniquilamento do inimigo, tendendo a se satisfazer mediante combinações e sucessos separados da luta. Quando o conflito é simplesmente um instrumento determinado por um objetivo mais amplo, não há razão para restringi-lo ou inclusive, evitá-lo, sempre que possa ser reimplementado por outras medidas que ofereçam possibilidade de êxito.

O documento procura criar uma rede sem escapatória insistindo que a ruptura quanto à maçonaria devia incluir outras sociedades secretas semelhantes a estas, nem tão pouco “tomem parte em suas reuniões, nem lhe prestem apoio ou proteção”, e os mesmos confessores “neguem absolvição sacramental aos que se mostrem pertinazes”.

Quanto, porém, “aos que se arrependerem sinceramente”, prossegue o documento, estes “poderão ser absolvidos da excomunhão em que incorreram” e para este fim Sua Santidade benignamente concede aos Ordinários as faculdades necessárias e oportunas pelo espaço de dez anos.

Demais, saibam os Confessores que os afiliados a sociedade denominada pedreiros livres, embora estejam arrependidos de terem prestado o juramento, não se pode dar a absolvição sacramental, senão depois que eles de uma vez para sempre, tiverem deixado de um modo absoluto e positivo a dita sociedade, ou ao menos prometerem deveras que o farão o quanto antes.

Ainda mais, deve-se proibir absolutamente que os maçons notórios sejam padrinhos de abismos ou de crisma, visto como eles, enquanto aderirem à uma seita condenada pela Igreja, são incapazes de promover a educação cristã de seus filhos espirituais quando se torne preciso.

Ainda na questão simbólica, foi dada a ênfase a questão dos enterramentos. Neste particular Pernambuco tinha um caso emblemático, com a negação de sepultura ao general Abreu e Lima por haver defendido a legitimidade das bíblias protestantes. A regra impunha que

Resta que se observe com exatidão as prescrições da Igreja relativas a sepultura e exéquias de maçons. Ei-las: não se pode dar sepultura eclesiástica aos maçons notórios, senão depois que eles, feita a devida retratação, se tiverem se reconciliado com Deus e com a Igreja pela absolvição. Se, porém, a morte lhes vier inesperadamente, de modo que não tenham podido fazer a retratação de estilo, e, não obstante, tiverem mostrado desejo e dado sinal de arrependimento, neste caso poderão ter sepultura eclesiástica, mas sem exéquias pomposas e solenes. Também devem ser privado da sepultura eclesiástica aqueles que, depois de recebido os sacramentos, pedir para ser sepultado com as insígnias maçônicas, exceto o caso de tenha demonstrado essa vontade. Quando, porém, por perversidade de outrem, contra o desejo do finado, forem colocado no féretro emblemas maçônicos, a menos que se tenha conhecimento disso, se faça retirá-las inteiramente de junto do cadáver. É, pois, manifesto do que fica exposto, que não é de modo algum permitido o que ali se costuma praticar em alguns lugares segundo esta Sagrada Congregação está informada, que os cadáveres sejam sepultados segundo o costume maçônico com acompanhamento e presença do clero.

Nas diversas formulas em que se instituem os conflitos sociais, a irracionalidade constitui-se apenas em uma das variantes do processo e representa o esforço por alcançar metas culturalmente prescritas através de meios socialmente proibidos, e em regra referem-se mais aos instrumentos do que a expressão. Todavia, outros tipos de desvio podem servir para liberar a tensão. A ação não serve como meio para obter um resultado específico.

A conclusão do documento guarda o caráter incisivo que permeia todo o texto:

Quando aos casos em que se deve negar a sepultura eclesiástica se houver receio de grave perturbação, os Ordinários, para procederem com mais segurança em negócio de tanta monta, observem a resposta da Sagrada Penitência. Convém a saber: todas as vezes em que se exigir com graves ameaças exéquias e sepultura eclesiástica para um defunto que tenha sido excomungado notório deve ser inteiramente privado das mesmas segundo os Sagrados Cânones e disposições de Direito, a sagrada Penitência em 10 de dezembro de 1860 prescrevem que se proceda do seguinte modo: “Se procure fazer tudo de conformidade com os sagrados cânones, quando porém não se possa fazer assim sem perigo de perturbações o escândalo, o pároco não preste de modo algum, nem por si, nem por outro Sacerdote o seu concurso para as exéquias e sepulturas”.

A conduta está relacionada a um campo social, e o conflito, como fenômeno social, somente pode ser compreendido dentro de um quadro de ação recíproca, como infere Montenegro

Religião é a própria concepção da monarquia apoiada num mito, cuja condição de representação mental primitiva embasa a religiosidade do povo, valorizando o paternalismo no campo social e político, traduzido na linguagem religiosa como providencialismo, mesmo porque “a coroa tem da religião uma imagem utilitária, já imbuída do racionalismo e valendo-se da união com a igreja, num momento histórico alheio a suas causas, não mais subsistentes, para investir contra ela, e reduzindo-a a impotência, assomar como força soberana única e incontestável, a ponto de tê-la submissa, mercê da política regalista. Neste quadro sintomática a incapacidade política da Cúria, do episcopado e do clero brasileiros aferrados aos dispositivos do direito canônico e da legislação civil, incapazes de promoverem uma revisão ou reforma no Estatuto Eclesiástico, na metodologia pastoral e de retificarem posições axiológicas sediças, mesmo sobre as violentas pressões do tempo. Muito ao contrario apegam-se ferrenhamente a privilégios temporais injustificáveis fomentando a onda de anticlericalismo e ceticismo religioso que assolou o Império. [52]

Finalmente, conclui o documento

sendo certo e mais que certo, que a maçonaria deve ser considerada entre as sociedades condenadas por Constituição Apostólica, de maneira alguma se pode permitir que os maçons assistam o Santo Sacrifício da Missa, e outras funções eclesiásticas de caráter oficial, isto é, com representantes da seita. Se deve igualmente proibir que o clero por convite ou mandado dos maçons celebrem missa ou funções eclesiásticas, como encomendadas ou mandadas pelos maçons, ou publicadas como tais em convites ou folhas públicas.

Considerações finais

Observando a imprensa secular, os jurisconsultos, os debates parlamentares, as reações populares, percebe-se nitidamente que a questão não se restringia a um desentendimento de duas agências políticas, antes, envolvia toda sociedade brasileira. Tradicionalmente católica, com sua própria compreensão da fé, amplos setores não percebiam contradição entre ser católico e maçon.

Mas o problema não se esgota como expediente doutrinário, a crise era política, do catolicismo historicamente atrelado ao estado, que, sentindo-se traído por este no apoio a maçonaria, acena com a ruptura das relações de compromisso, consequentemente, com a quebra da ordem.

Sentindo que sua condição no combate era desfavorável, o catolicismo substitui a estratégia, abandona o embate direto da igreja no Brasil com o Estado, e deixa que a questão seja reelaborada como expediente diplomático, pressionando o Estado a restaurar suas relações internacionais, e obrigando a igreja do Brasil a se conformar as diretrizes da igreja universal.

O documento da inernunciatura evidencia a tese citada de Rui Barbosa, que a questão não era forânea, circunstancial, o pessoal pelo temperamento voluntarioso do bispo. O documento deixa entrever que a igreja em Roma continuava com as mesmas demandas que sempre tivera em relação ao catolicismo brasileiro, e entendia que o governo imperial estava fadado a direcionar os interesses dos Estado na conformidade com a religião oficial e da tradição brasileira.

Finis

Autores: João Marcos Leitão Santos e Elza Silva Cardoso Soffiatti

Fonte: REHMLAC

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Notas

[42] – João Marcos Leitão Santos. A inserção do protestantismo em Pernambuco 1860-1891. (Tese de Doutorado em História Social, Universidade de São Paulo/USP, São Paulo, 2008). João Marcos Leitão Santos. “Protestantismo e tradicionalismo católico em Pernambuco no século XIX”. In: História das religiões no Brasil, Sylvana Brandão; Luiz Carlos Luz Marques, & Newton D. de Andrade Cabral (Recife: Bargaço, 2012), v. VI.

[43] – João Carlos Libâneo, apud José Carlos S Araújo, A Igreja católica no Brasil Um estudo de mentalidade ideológica (São Paulo: Paulinas, 1986),27.

[44] – José Carlos S. Araujo, A Igreja católica no Brasil, 42.

[45] – Riolando Azzi, O altar unido ao trono (São Paulo: Edições Paulinas l993).(História do Pensamento Católico no Brasil –V. III).

[46] – Karl Mannheim, Ideologia e utopia (Rio de Janeiro: Guanabara, 1983), 227.

[47] – Rubem A. Alves, Dogmatismo e Tolerância (São Paulo, Paulinas, 1982), 35-36.

[48] – Maurice Durverger, Introdução à política (Lisboa: Estudios Cor, 1961),17.

[49] – EL ABOGADO CRISTIANO 13.6.1901.

[50] – Maria Luiza Marcílio, Família, mulher, sexualidade e Igreja na história do Brasil (São Paulo: Loyola, 1993).

[51] – Sobre esta questão de casamentos com membros de uma religião falsa ver João Marcos Leitão Santos. “Religião e Direitos Civis. Direito acatólico em Pernambuco no século XIX”, Revista da Faculdade de Direito de Olinda (2005): 121-139. Ítalo Domingos Santirocchi.“O matrimônio no Império do Brasil: uma questão de Estado”. Revista Brasileira de História das Religiões 12 (2012): 81-122.

[52] – João Alfredo Montenegro, Evolução do Catolicismo Brasileiro (Rio de Janeiro: Vozes, l979).

Fontes

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Bibliografia

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Resposta a um maçom desiludido (II) 

O que é e o que faz a Maçonaria? | São Carlos em Rede

O artigo anterior [1] foi a expansão de uma resposta que dei privativamente a um irmão que comentou outra matéria, para compor o texto sobre a desilusão ou quebra de expectativa, algo que, em minha opinião, representa um dos maiores, se não o maior problema da Maçonaria em nível mundial.

Esse irmão replicou ao meu comentário ainda com algumas noções equivocadas sobre a Ordem Maçônica. Volto a publicar minha resposta à sua réplica.

A instituição Maçonaria (especulativa), conforme a conhecemos, foi inventada em 1717 e é essa à qual pertencemos. Basta ler o Artigo 1 da Constituição de Anderson para ver que os inventores dela pretendiam somente que a loja fosse “um centro de união para reunir homens que de outra forma nunca se conheceriam”. Eles não falaram em sociedade iniciática ou coisa parecida.

“Artigo 1 – Um maçom é obrigado por seu mandato a obedecer à lei moral e, se compreende bem a arte, nunca será um ateu estúpido nem um libertino irreligioso. Embora nos tempos antigos os maçons fossem obrigados em cada país a praticar a religião daquele país, qualquer que fosse ela, agora é considerado mais conveniente apenas obrigá-los a seguir a religião com a qual todos os homens concordam, isto é, ser homens bons e verdadeiros, ou homens de honra e probidade, quaisquer que sejam as denominações ou confissões que ajudam a diferenciá-los, de forma que a Maçonaria se torne o centro de união e o meio para estabelecer uma amizade sincera entre homens que de outra forma permaneceriam separados para sempre.”

O “ritual” operativo era simples, chamava-se “Palavra de Maçom” e o maçom era (ainda é) “feito” e não “iniciado”. O Aprendiz não era bem um membro da loja. Ele estava vinculado diretamente ao Mestre da Loja a quem devia obediência. Terminado o seu período de treinamento, geralmente de sete anos, ele era apresentado à Loja para receber sua obrigação, o toque de maçom e a(s) palavra(s) de passe. Nesse momento, liam para ele a História do Ofício (algo como aquela introdução das Constituições de Anderson – que não era exatamente igual à dos Operativos, já que Anderson inventou uma mitologia própria dessa nova invenção de 1717) e suas Obrigações (Old Charges) que ele jurava cumprir. Passava então a ser Companheiro. O grau de Mestre só viria a ser inventado vinte anos depois.

Esse ritual foi adotado pelas lojas da Maçonaria de 1717. Toda a filosofia adicional foi gradativamente sendo introduzida e deformando a instituição original, transformando-a em outra coisa totalmente diferente. Isso aconteceu principalmente no Continente europeu, quando a Franco-Maçonaria foi transplantada para o ambiente latino. Foi também quando Rosacruzes e outros hermetistas descobriram as lojas maçônicas que lhes ofereciam a estrutura ideal para estudar suas matérias. E assim foi, um pendura uma coisa aqui, outro pendura algo acolá, e aquela pequena construção que abrigaria os homens sérios e de bons costumes foi se transformado em uma catedral barroca parecida com a Sagrada Família de Barcelona.

Quanto aos operativos, eles eram efetivamente rudes e analfabetos, com exceção talvez do Mestre da loja (proprietário da empreiteira) que detinha um conhecimento um pouco mais ampliado, provavelmente conseguindo ler as plantas traçadas pelo Arquiteto (que quase nunca era um maçom, e na maior parte das vezes era um eclesiástico). Se puder ler em inglês, leia as constituições manuscritas dos operativos (publiquei na Amazon um livro “Old Charges of the British Freemasons” que dá uma visão mais clara do mundo deles.

As catedrais eram concebidas por eclesiásticos ou nobres que eram os arquitetos. Veja-se o caso da Catedral de St. Paul em Londres, em que o arquiteto foi o Mestre de Loja (Operativa) Sir Christopher Wren e as lojas operativas irlandesas, escocesas e inglesas a construíram.

Os maçons eram apenas uma das guildas que construíam aquelas obras, havia guildas de pedreiros, de ferreiros, de vidreiros, de carpinteiros, de escultores, etc. Cada uma delas especializada em uma parte da obra. Essa noção de que só os maçons pedreiros construíram as catedrais é parte da plêiade de desinformação publicada por “achistas” que não pesquisam e que ousam publicar suas ideias sem base. A Madras aceita tudo.

Mas, conforme dissemos no artigo anterior, a Maçonaria pura e simples se reduz ao cultivo da fraternidade, ao aperfeiçoamento pessoal e sua projeção no meio e dentro desse aperfeiçoamento pessoal, existem os “Altos Graus” ou Graus Filosóficos. Ninguém é menos maçom se não for além do terceiro grau. E um maçom de grau 33 (ou de grau 99 como no rito Memphis Misraïm) não é mais importante que um maçom de grau 3.

Agora uma confissão. Eu mordo a língua e me penitencio de público nesse momento. Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa

Eu costumava fazer blague de algumas lojas que eu chamava de R.E.A.A. – Ritual E Ata e Ágape. Minha crítica era que aquelas lojas não exercitavam um aspecto tradicionalmente desenvolvido na Maçonaria brasileira: a participação na política de sua comunidade. É claro que não me referia ao Rito Escocês, e também eu dizia isso sobre as lojas das grandes cidades que geralmente não têm ação política porque os centros de poder são muito descentralizados, o que não ocorre em pequenas e médias cidades, onde a Maçonaria pode exercitar sua tradicional influência sobre as instituições da sociedade, em linha com nossos fundadores de 1822.

A Maçonaria brasileira, tanto reconhecida quanto não reconhecida, não tem consciência de que têm o DNA francês e que o intervencionismo é uma de suas características. Pretende seguir a orientação de Londres de “não discutir política nem religião”, mas na prática cada candidato que ingressa na Ordem tem no seu inconsciente a imagem da maçonaria “francesa” que foi a Maçonaria brasileira até início do século XX. E muitas vezes se frustra ao descobrir que isso é coisa do passado e que hoje muitas lojas são apenas e tão somente redutos conservadores.

Mas, Oh meu Zeus! como estava enganado. A velhice trouxe-me o aumento do entendimento, juntamente com o gosto pelo estudo da história, e acabei descobrindo que o “ágape”, ou “copo d’água” e a loja de mesa são a tradição mais cara e mais importante da Maçonaria, herdada, isso sim, do Mitraísmo, com seus jantares ritualísticos, através da Maçonaria Operativa reunida em tabernas pois, é à mesa, em torno de um bom prato e uma cerveja, que se formam os vínculos mais estreitos.

Na Maçonaria cabem todas as personalidades – para isso existem diferentes ritos que atendem a diferentes tendências – mas que têm um núcleo comum que no fundo é o rito “Palavra de Maçom” original, acrescido de mil penduricalhos e adereços “descobertos” e agregados pelos “achistas” de plantão, descontentes com aquela simplicidade clássica.

Nela há lugar para todo mundo, desde os mais simples até verdadeiros gênios inquietos que se perguntam: “Mas é só isso?” e insatisfeitos partem para uma busca mais profunda de um significado que lhe satisfaça. Todos são importantes e, apesar de seus graus, sempre serão Mestres Maçons e serão melhores maçons na medida em que exercitarem, não os seus altos conhecimentos, mas a simples fraternidade.

Autor: José Filardo.

Fonte: Biblioteca Fernando Pessoa

Nota

[1] – Clique AQUI para ler o artigo anterior.

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A Pedra Bruta e a Pedra Cúbica

Portal Maçônico Orvalho do Hermon: DESBASTANDO A PEDRA BRUTA

Entre os símbolos apresentados, escolhi para o atual trabalho o símbolo da pedra.

Na minha vida secular, toquei, trabalhei, mudei e, finalmente, dei-lhe uma função útil. Sem afrouxar qualquer simbolismo possível de meus atos ou no próprio material. Com um pouco de retrospectiva, a pedra bruta recebe uma redução de suas dimensões, mas tanto ela quanto a pedra cúbica são apenas símbolos.

O trabalho da Pedra é um trabalho longo, meticuloso e preciso, é emocionante porque requer análise e reflexão constantes sobre o assunto. Assim como o homem, ao ser trabalhado a pedra evolui. E a dificuldade reside em ser capaz de criar o elemento perfeito, sem destruir sua própria natureza.

Assim como na vida profana, na vida maçônica as ferramentas serão a chave para este trabalho e serão diferentes dependendo dos estágios. O martelo deixará espaço para o malho, mais preciso e menos pesado. Isso permite um trabalho mais refinado, direcionado, mas ainda assim relaxante.

E, assim como na vida, tudo passa por um aprendizado, mas um aprendizado real: a transmissão de conhecimento de maneira quase tácita, sem influência fundamental, para não distorcer o espírito e levar ao progresso por si mesmo.

É como um artesão que inicia a construção de seu templo interior. Mas deixo pergunta interessante: é possível impor uma única orientação a um artista sem frustrá-lo? Eu acho que não. No entanto, ele sempre precisará progredir em sua arte para dominar ferramentas mais precisas e, especialmente, novas fontes de inspiração.

A coluna norte, a coluna dos aprendizes, vive nas sombras, sob a lua. Governada pelo irmão 2º Vigilante (na França), tem essa inspiração para o incentivo à reflexão e o progresso, para que nosso trabalho possa um dia produzir obras de arte.

Talvez seja por isso que a linha de prumo esteja associada a ela?

O 2º Vigilante orienta a construção em vários níveis no trabalho da Pedra:

– Define o fruto a ser dado às obras para que não corram o risco de colapso prematuramente, mas também remove as asperezas muito pronunciadas que desnaturam o ser, para que o aprendiz entenda que ele ainda pode melhorar seu trabalho e progresso.

– O trabalho dos aprendizes será permitido quando a linha de prumo florescer com as pedras sem a toque em toda a altura do trabalho.

A Pedra Bruta talvez seja o espelho do homem. Escondendo inúmeras qualidades naturais, que apenas um trabalho profundo poderia ressurgir. Ele não está ciente disso. Até ver a luz. Segue uma longa jornada, cada pedra é diferente e terá uma função que será transparente para o maçom; de acordo com suas predisposições inatas, e todas são úteis!

Qualquer pedra, todo homem é dotado de certas predisposições que o levarão a ter um papel específico no que ele pode servir e explorar, melhorar suas habilidades para si e para os outros.

A pedra tem uma “veia” que é favorável ao tamanho do ângulo e terá sua função adquirida dentro da grande obra, assim todo aquele com uma veia diferente terá seu papel diferente, mas igualmente importante. Todo homem tem seu lugar favorável na sociedade.

Mas a Pedra Bruta é modificada por necessidade, porque escolhemos torná-la uma atriz de uma peça de teatro muito maior, tornando-a útil. Assim como o homem tem que trabalhar em si mesmo para ser útil à sociedade e à humanidade.

Mas pergunto-lhes: a pedra muda por si mesma ou é modificada por outros? Ambos podem ser?

O homem nasce, cresce, mas uma vez que se torna útil, ele tem que resistir a elementos externos. O vento, a chuva, as provações da vida que lhe darão a experiência, mesmo assim ele ainda precisa encontrar seu lugar final perto das outras pedras.

É difícil estar ciente de ser uma pedra bruta, estar ciente de suas muitas falhas e perceber que é possível melhorar, em uma sociedade onde frequentemente somos tentados a nos fazer acreditar que é fácil encontrar nosso lugar, já que somos todos parecidos e perfeitos.

Sem pedras, mas blocos de fábrica. Entendo apenas que a Pedra sofre inúmeros golpes antes de revelar sua verdadeira beleza e seu uso final, o bloco geralmente é oco e se quebra se você tentar esculpir. Além disso, é de alguma forma falsa ou egoísta, pois é revestida, pintada e decorada para sempre esconder sua verdadeira natureza na realidade sem alma.

Pela minha parte, escolhi ser um aprendiz de maçom e desbastar minha pedra porque me recuso a ser ator de uma construção que teria sido imposta. Porque descubro que, de alguma forma, podemos nos livrar do trabalho se é bem dirigido e não escravizado.

Se o trabalho da pedra bruta é obra do homem, achei interessante para tentar vincular nossos princípios humanos a esse símbolo:

Princípio de Liberdade: Se o homem é a pedra, seu trabalho pode ser eterno e ele decidirá seu próprio limite no resultado.

Princípio da Igualdade: Se o homem é a pedra, “cortada”, “educada”, ele precisará estar ciente de que a pedra britada, queimada, que não pode ser usada na fachada, é hoje o elemento permitindo que seja de uso duradouro (quer dizer, tão importante quanto, com seu lugar próprio).

Princípio da Fraternidade: Se o homem é a única pedra, ele é limitado em suas possibilidades. Mas ligado a outras que, como ele, asseguram suas funções distintas e naturais com o mesmo objetivo de progresso. A empresa se torna possível.

Princípio da Solidariedade: pelo todo útil e perfeito que constitui as pedras de um edifício sustentável é o resultado da ligação de elementos totalmente diferentes que se apoiam mutuamente um ao outro.

Alcançar a Pedra Cúbica será fruto de uma obra de paciência. Trabalho cuidadoso, preciso, algo que o homem decidirá interromper ou não sozinho, já que uma pedra poderia de fato, ser trabalhada até o infinito.

Redimensionada. Polida. Renovada. Até ficar perfeita em todos os aspectos. Mas a perfeição de um elemento por si só não é igual à força de um todo útil. O homem não pode ser realmente perfeito, mas ele faz o seu melhor desenvolvendo suas capacidades para contribuir para uma evolução positiva.

Aprendendo a dominar novas ferramentas para realizar um projeto pessoal na medida do possível, ele talvez possa estar em perfeita harmonia consigo mesmo e com os outros com sinceridade e durabilidade.

A pedra bruta pode tornar-se cúbica por força de trabalho, mas e o homem? Pode ele se tornar perfeito? E quais seriam esses critérios de perfeição?

Eu acredito no resultado do trabalho do homem em si mesmo, não existe perfeição. Mas cabe ao homem perseverar em sua empresa para que o fruto de seu trabalho seja de certa forma uma consciência profundamente benéfica para si mesmo, seus entes queridos e a humanidade.

Finalmente, ao perceber o quão difícil o trabalho do homem em si mesmo poderia ser longo, mas tão emocionante e benéfico, eu diria que ele é gratificante. Provavelmente é mais fácil viver uma vida de cinzas de fábrica, mesmo que menos gratificante.

Tradução e adaptação: Rodrigo de Oliveira Menezes

O presente texto é uma adaptação de dois textos franceses, recebidos sem o nome dos autores. Foi realizado sua tradução e adaptação respeitando algumas instruções transmitidas na França, principalmente quanto à função dos Vigilantes que difere bastante da instrução comum ministrada por aqui.

Fonte: Ritos & Rituais

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Homo homini lupus

Lectures Bureau | ” Homo homini lupus”, man is a wolf to another man (A.  SCHOPENHAUER)

A organização social das alcateias tem vindo a ser extensivamente estudada desde os anos 60 do século passado por L. David Mech, que começou pela observação do comportamento de várias alcateias que se haviam constituído em cativeiro a partir de indivíduos dispersos – reproduzindo o entendimento que se tinha, de que estes se reuniriam para, juntos, fazerem frente aos desafios trazidos pelo Inverno. 

A hipótese inicial a que as observações levaram este cientista foi a de que os lobos se organizariam em torno de um “macho alfa”, mais forte, que exigia acesso preferencial à comida e às fêmeas, por exemplo, mas também a locais de abrigo ou certos papéis nas atividades do grupo. Esta hipótese do “macho alfa” explicava o comportamento verificado, de constantes lutas entre machos no sentido da dominância de uns indivíduos sobre os demais.

Mais de trinta anos depois, Mech apercebeu-se de um erro que derrubava impiedosamente as suas conclusões: o que tomara por alcateias típicas não passava de agregados disfuncionais de indivíduos não relacionados entre si, o que raramente se encontrava na natureza. As verdadeiras alcateias eram constituídas por um casal reprodutor e pelos filhos mais novos – das ninhadas dos dois ou três anos anteriores. Nestes grupos não havia lutas pelo poder, e reinava a paz e a harmonia. Após confirmação do erro, Mech rejeitou oficialmente as suas conclusões anteriores.

Uma loja maçônica é uma alcateia de indivíduos dispersos, reunidos para fazer frente aos desafios que a vida levanta. Como em qualquer grupo, especialmente quando exclusivamente constituído por machos, a tendência natural é de confrontação e de medição de forças. É precisamente o domínio de si mesmo, no sentido de não deixar prevalecer os aspetos mais vis da natureza humana, que se procura incentivar.

Não é fruto do acaso o fato de os maçons se tratarem uns aos outros por “meu irmão”. O estabelecimento deste “laço familiar” voluntário transforma a nossa visão do outro, trazendo-o de uma esfera em que é um estranho, um outsider, um potencial inimigo, para outra em que é “um dos nossos”.

Não é arbitrária a imposição de que, no momento próprio de cada sessão, cada um possa intervir apenas uma vez sobre determinado assunto; esta limitação impede, na prática, a discussão do tema, sem impedir a exposição da posição de cada um.

Por fim, não é fortuita a rotação dos papéis que cada um vai desempenhando ao longo dos anos, e a recordação constante de que o papel que se desempenha é, acima de tudo, um serviço que se presta,  e nunca um exercício de poder absoluto.

O aforismo segundo o qual “o homem é o lobo do homem” – homo homini lupus – remete-nos para as atrocidades de que o Homem é capaz – e tem demonstrado sê-lo ao longo da História. O potencial destruidor de um homem que se sinta acossado é virtualmente ilimitado.

O propósito último da maçonaria consiste, precisamente, em incentivar-nos a contrariar esta faceta da nossa natureza. O estabelecimento de laços de “fraternidade voluntária” é instrumental nesse sentido. De fato, mesmo correndo o risco de abuso, tratar aqueles que nos rodeiam como se fossem elementos do nosso núcleo familiar é um dos mais eficazes caminhos para a paz desta grande alcateia na qual todos fomos lançados.

Autor: Paulo M.

Fonte: Blog A Partir Pedra

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As contenções da liberdade. A Maçonaria e a Internunciatura Apostólica no Brasil do século XIX (Parte II)

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Jesuitismo em delírio

Segundo a ordem que o nosso jovem prelado acaba de expedir, os maçons não servirão mais de padrinhos, tanto nos batizados como nas crismas e casamentos, porque estão excomungados.

Admira que só agora se lembrasse ele desta sábia medida, o que prova que, ou ignorava quando entrou para o bispado, ou cometeu o pecado de permitir que tal se fizesse contra a disposição expressa da igreja como agora alega.

Enfim, diz o rifão antes tarde do que nunca.

Como consequência lógica, já que o anátema data de tempos atrás, deve declarar nulo todos os batizados, crismas e casamentos feitos, em que figurem maçons atendendo ao que não estão autorizados [19].

A uma igreja que se erigira á margem da cátedra episcopal, com amorfa vida das ordens religiosas, e sob influência tutelar das elites, o Estado não devotava maior preocupação. A mudança se dá com o processo de romanização. D. Fr. Vital Maria Gonçalves de Oliveira escolhido como alvo era um contraste com a “legião de religiosos mansos, pacíficos, cordatos, dotados de submissão absoluta, incapazes de reação violenta contra o poder estatal, onde os maçons de então se escudavam” [20].

Sim foi um choque tremendo. Parecia uma outra igreja que falava pela voz do jovem prelado de Olinda. Habituáramos a uma religião decorativa, oficial, a uma igreja que, vivendo a sombra do Estado, tranquila na segurança do monopólio religioso, num meio de alto a baixo tido como católico, limitava-se a rotina do culto [21].

Outra vez a imprensa empresta sua hermenêutica do problema:

Motim em Pernambuco

Os excessos do episcopado e a inexplicável morosidade do poder civil em satisfazer as justas esperanças da opinião pública ultrajada, vão produzindo seus naturais resultados funestos. [22]

E o analista católico completa:

No período monárquico, a religião não pode ser considerada pelo historiador, sem que, ao lado do profundo sentimento católico que anima o povo e do prestígio que ela tem para as massas, se mostram bem salientes estes fatos: o regalismo, o enfraquecimento das ordens religiosas, o desprestígio do clero, a reação enérgica, mas efêmera, do episcopado e do elemento católico contra as usurpações do poder público, o racionalismo ou o ceticismo das classes dirigentes (grifo nosso) [23].

Por isso não e difícil acompanhar Nestor Duarte afirmando que:

A igreja e o Estado entraram no Brasil já discutindo competências, a reivindicar jurisdição, disputar poderes, com grave dano tão só, porém, para a Coroa, que vem vindo, já de longe, arrastando concurrente (sic) e concorrida, na hora histórica, precisamente, em que o poder real em outras nações encetou o ciclo do Estado Moderno. [24]

Assim se reeditava a tese de que a Questão Religiosa sintetizou-se dentro de uma unilateralidade própria de uma maçonaria toda diferente dos primeiros moldes da organização europeia, em não ser uma luta entre católicos e ateus, ou mesmo ainda entre católicos e protestantes, porém, essencialmente, entre católicos e católicos, ou melhor, entre católicos escolásticos e ortodoxos, contra a tese de uma maçonaria operante como um complexo de formação secreta, fermento políticos ou símbolo de progresso liberal, como incentivo de revoluções25.Não se passava na elite católica adepta da maçonaria a ideia que na intimidade daquela irmandade iria encontrar germes de ação anticlerical.

Os antagonismos com a maçonaria remetiam a períodos precedentes, por isso,

em 1817 ensaiaram os maçons o primeiro e subterrâneo movimento contra a religião, lançando nos termos de sua proclamação na revolução pernambucana deste ano, os planos sobre a liberdade de culto religioso. Se a ideia de fato não atingia diretamente a igreja católica, todavia, levantava uma premissa perigosa aos conceitos de nosso composto sociológico–o principio da liberdade religiosa–como porta aberta aos cismáticos religiosos, dos ímpios e dos ateus. Não era possível a um povo tipicamente católico como o nosso, o cisma de competições religiosas, que se nos afigurava, então, como um conceito inqualificado de impiedade cristã. E daí, quem sabe, tenha vindo, entre outros fatores, a fracassar o movimento revolucionário de 1817. Um dos sentidos da revolução era o do espírito combativo contra a exclusividade religiosa e não tinha, assim, raízes na alma popular (grifo nosso). [26]

O governo imperial já informara a D. Vital que “considerando que a maçonaria como sociedade secreta, e permitida pela lei civil, não tem fins religiosos nem conspira contra a religião católica, e que, portanto, faltam-lhe o caráter e o intuito que a sujeitou a jurisdição eclesiástica e a condenação sem forma e figura de juízo”[27], ou seja, os maçons não estavam sob jurisdição eclesiástica, mesmo vinculados a entidades católicas. O argumento, paradoxalmente, se fundava sob o princípio da liberdade de consciência, ao passo que:

Esquecia-se até, que esta liberdade de consciência, que permitia este combate descoberto contra os princípios da igreja, por mais absurdo que parecesse fora defendido pelos próprios sacerdotes, ansiosos pelos princípios da pura liberalidade social, e sem pressentirem, porém, que abriam caminho para os seus próprios inimigos. [28]

Os emissários episcopais já haviam cientificado o Vaticano das tensões, e o secretário de Estado da Santa Sé, cardeal Antonelli, notificado o barão de Alhandra, autoridade diplomática brasileira, para dar-lhe ciência da posição do Papa, em apoio explícito aos seus bispos e o enfrentamento ao governo brasileiro.

O fracasso do governo atingia indiretamente a maçonaria. Começam sinais de indisciplina eclesiástica, que Dom Vital indicara porque “os homens do estado responsáveis pela violência, são cegos à situação política do Brasil. Eles não vêm que a religião é a melhor parte da autoridade contra os assaltos da revolução que avança, são vitimas da cegueira e levarão o país a ruína” [29].

A problemática da Questão Religiosa não se esgota entre 1872 e 1875 como se percebe nos debates parlamentares posteriores, implicava toda a questão do padroado e no embate do direito eclesiástico com o civil [30], e o Imperador entendia com o Marquês de São Vicente, principal jurista do Império, que no Direito Público o Estado tem direito de fiscalizar o culto, a doutrina e a disciplina da religião do Estado.

Dar a religião católica o privilégio de religião do Estado e criar uma igreja nacional, eis a visão galicana, expressa concisamente por Joaquim Nabuco em A Invasão Ultramontana (1873). O Conselho de Estado, “o cérebro da Monarquia”, segundo Joaquim Nabuco e a maioria dos juristas e políticos, apoiava esta doutrina e defendia com o gabinete de Rio Branco e o Imperador a doutrina regalista temendo“(jus cavendi…) a invasão do temporal pelo espiritual” [31].

A leitura dos textos de D. Vital e D. Macedo Costa nos mostra uma inflexibilidade doutrinal e uma identificação completa entre igreja como instituição e salvação ou Reino de Deus[…] limitaram-se a defender a doutrina da igreja, isto é, os textos pontifícios, especialmente os de Pio IX contra o maçonismo e o regalismo”[32].

Mas isto revela uma incongruência. Afirmar a verdade da igreja na questão doutrinal é afirmar a verdade do discurso da igreja, na ordem temporal. Havia uma compreensão que o conflito não fora espontâneo. Tobias Barreto, que foi “o único em sua geração” a a desinteressar-se pela questão interrogou se a questão não serviria como cortina de fumaça para esconder a lei do ventre livre, que emancipava os escravos nascidos depois de o 28 de setembro de 1871. Depois Hermes Lima [33] também sugeriu que o presidente do Conselho de Estado agiu para dar ao país novos motivos de preocupação, e assim teria engendrado a controvérsia religiosa.

Como fica claro, a Questão de fato se pretende a algo mais do que um bispo solitário, expressão do enfrentamento mais geral entre a Igreja e maçonaria, porque antes da sua sagração, a maçonaria estava mobilizada com uma estratégia aguerrida.

Segundo Freire:

A consciência da ordem católica, encarnada por D. Vital, em momento dramático da vida brasileira, encontrou no senso de ordem política, que animou então contra a igreja, e particularmente, contra os seus bispos mais severamente ortodoxos, os estadistas principais do império, radical contradição. Eram, entretanto, dois aspectos essenciais –essas duas ordens –de um só sistema não só de convivência como de ordenação[…], um sistema mais compreensivo ou mais amplo, que qualquer das suas ordens. [34]

Em carta a D. Vital, afirmava o ministro João Alfredo:

A nossa constituição permite todas as religiões com seu culto doméstico e particular. Organizam-se aqui sociedades compostas de estrangeiros para fins religiosos diferentes dos nossos com autorização do poder civil e funcionam livremente. Quando isso acontece, não sei como poderia o governo proibir as sociedades maçônicas que se compõem de católicos que não tem fins contrários à religião do império e que dado que os tivessem, trabalham de portas fechadas. [35]

Na resposta ao conselheiro, afirma D. Vital:

Compreenda V. Exia que esta questão é de vida ou de morte para a igreja brasileira cumpre-nos antes arcar com os maiores sacrifícios que afrouxar. E mais: Se eu fosse político ou de mais idade, diria que graves perturbações da ordem pública estão iminentes em quase todo o Brasil e são inevitáveis, apesar da minha prudência, a causa, reservo-me para dizê-la a V. Exia pessoalmente, quando tiver ensejo. [36]

Continuidade das tensões: A maçonaria sobrevive

Oliveira Torres lembra, que numa época em que não existiam partidos estruturados, “as lojas maçônicas eram instrumento de ação política, estava a serviço dos objetivos, ideais e preconceitos da burguesia da época” [37]. A Questão Religiosa espelhava um estado de ânimo da formação sociorreligiosa do Brasil imperial e não pode ser vista sem pensar a influência já apontada do jansenismo e do galicanismo que legou a formação dos nossos juristas na tradição da Universidade de Coimbra, e que informou a ereção da igreja no Brasil, muito mais do que a doutrina católica propriamente, o clero era ainda composto de muitos regalistas e revolucionários. Tudo, aliás, se complica enormemente porque existe uma tradição maçônica brasileira especialíssima [38].

As consequências indiretas do conflito foram altamente fecundas sob o aspecto religioso. A ala mais exaltada e polêmica da maçonaria considerou a solução do conflito como a favor da Igreja, seus direitos, sua liberdade. “A igreja foi vencedora na parte substancial da questão, reconhece-o a própria maçonaria. E Dom Vital no seu admirável Resumo Histórico, nos escreve: “‘a questão despertou o sentimento católico no Brasil’.

A questão maçônica tornou-se religiosa por haver o bispo de Pernambuco respondido as questões postas pela imprensa não católica? O deputado Saldanha Marinho, o “Ganganelli”,arguia que o bispo poderia ser enquadrado na mesma lei em que se apoiava contra a maçonaria se não fosse “certa leniência do Estado”, e acusava não somente Dom Vital e Dom Macedo Costa, mas o episcopado: “E gravíssima a questão religiosa, que o episcopado irrefletida e imprudentemente levantou, urge que seja resolvida sem demora” [39]. O enfrentamento da Igreja era também com o poder temporal, no dizer de Macedo Costa, se a maçonaria podia dizer, a igreja podia replicar.

Para que se pudesse lançar a culpa ao governo, como fez o bispo do Pará, de modo peremptório, era necessário que esse mesmo governo se identificasse com a maçonaria. Por isso, a questão deixou de ser maçônica, para ser religiosa, porque, sendo assim, a culpa não seria da maçonaria, mas dos bispos e da igreja. Configurou-se, então, o choque mais amplo, que ia além da desinteligência local entre bispos e maçons, entre liberais e ultramontanos. Não lucrava muito o governo com esta mudança, porque passou a ser o alvo da retórica acusatória do episcopado.

A conclusão pode ser a forma lacônica e premonitória de descrever a conjuntura do Monsenhor Joaquim Pinto de Campos

Tristes e pesados se revezam os dias desta parte integrante do rebanho cristão. As mais urgentes necessidades corriam a revelia de toda vigilância pastoral; a lanterna da fé quase se extinguia nos ermos da consciência; a caridade, filha preciosa das entranhas divinas, quase que se esfriavam nas obras dos homens; as evidências do catolicismo eram postas em questão; a heresia pompeava ao remanso da indiferença de uns, e do fervor de outros; e quando o desejo dos flagícios e dos escândalos mais ameaçava de soltar-se de todos os diques, eis que o Espírito Santo, supremo instruidor dos pastores, nos favoreceu com o remédio apropriado as nossas enfermidades espirituais! [40]

Além da escassez de mão-de-obra, o perfil do clero também comprometia. Segundo Maciel de Barros:

O clero nacional, dos tempos pombalinos até as vésperas da Questão Religiosa, não se distinguia com raras exceções por qualquer demonstração de ortodoxia. Mais frequentadores das letras francesas do que das latinas, mais versados em literatura profana do que em obras pias, muitos de nossos clérigos estavam saturados de ideais iluministas… Ao lado do ideal iluminista, o clero professava geralmente, no que diz respeito às relações entre a Igreja e o Estado, o mais ferrenho regalismo, apoiado nas tradições lusitanas, particularmente a pombalina. Basta dizer que entre os muitos eclesiásticos que faziam parte da Assembleia Legislativa, de 1826 a 1829, contavam-se vários que não titubeavam em reconhecer o primado do Imperador… [41]

Continua

Autores: João Marcos Leitão Santos e Elza Silva Cardoso Soffiatti

Fonte: REHMLAC

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Notas

[19] – JORNAL DO RECIFE, 16.03.1873

[20] – Flávio Guerra, A questão religiosa, 53.

[21] – Manoel de Oliveira Lima, O Império brasileiro (1821-1889) (São Paulo: Melhoramentos, 1930), 130.

[22] – JORNAL DO RECIFE, 10.05.1873

[23] – Júlio Maria, O catolicismo no Brasil (Rio de Janeiro: Agir, 1950),19, 20.

[24] – Nestor Duarte, A ordem privada e a organização política nacional. Contribuição a sociologia política brasileira (São Paulo: Nacional, 1939), 26.

[25] – Nas perseguições havidas com a fundação da Igreja Presbiteriana do Recife, em agosto de 1878, os populares afirmaram, as três fontes, como base da legitimidade social ao acusarem os protestantes: “desafiaram Roma, o Imperador e a Maçonaria” Moacyr Soares; Israel F. Gueiros; Nicodemos L Pereira, Anais do centenário. Igreja Presbiteriana do Recife 1878-1978 (Recife: do autor, 1978).

[26] – Flávio Guerra, A questão religiosa, 57.

[27] – Flávio Guerra, A questão religiosa, 104.

[28] – Flávio Guerra, A questão religiosa, 107.

[29]Carta Pastoral do bispo de Olinda premunindo seus diocesanos contra as ciladas e maquinações da maçonaria (Recife, 1873[D. frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira]), 19.

[30] – João Dornas Filho, O padroado e a igreja brasileira (Rio de Janeiro: Cia Ed. Nacional, 1937).

[31] – Antonio Carlos Vilaça. Pensamento Católico no Brasil, 57.

[32] – Antonio Carlos Vilaça. Pensamento Católico no Brasil, 58.

[33] – Hermes Lima, “A Questão Religiosa”, Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Pernambuco 28, no. 3l/34 (1917):323-326.

[34] – Gilberto Freire, Casa Grande e Senzala (São Paulo: Círculo do Livro, 1959), 25.

[35] – Antonio Carlos Vilaça. Pensamento Católico no Brasil, 42.

[36] – Antonio Carlos Vilaça. Pensamento Católico no Brasil, 52.

[37] – João Camilo de O. Torres, História das ideias religiosas no Brasil (São Paulo: Grijalbo, 1968), 156.

[38] – Antonio Carlos Vilaça, Pensamento Católico no Brasil, 61.

[39] – J. Saldanha Marinho, A igreja e o Estado (Rio de Janeiro: Perseverança, 1874).

[40] – Joaquim Pinto de Campos, Polêmica religiosa (Recife: Tipografia do Jornal do Comércio, 1862), 4.

[41] – Roque S. Maciel de Barros, “Vida Religiosa e A questão religiosa”, in História da Civilização Brasileira, Sérgio Buarque de Holanda(Paulo: DIFEL, Difusão Europeia do Livro, 1971), tomo II, vol. 4. S.,321.

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