O enigma das catedrais góticas

Basílica de Saint-Denis - Horário, preço e localização em Paris

Catedrais Góticas, gigantescas paredes de vidro num caleidoscópio de cores rodeadas por uma teia de alvenaria e coroadas com gárgulas assustadoras. Esses arranha-céus de pedras dominaram as paisagens por quase mil anos. Como, na idade média, sem o uso da tecnologia e de ferramentas modernas, os engenheiros construíram as catedrais góticas? Agora os peritos estudam uma nova teoria, um código matemático oculto, tirado das páginas da bíblia, que foi usado como modelo. Mas para desvendar os códigos da catedral os investigadores precisam analisar essas mega estruturas medievais nos mínimos detalhes.

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A proclamação maçônica de Fé

Oração para aumentar a fé: renove a sua crença - WeMystic Brasil

Em 1722, James Anderson, um ministro presbiteriano e maçom foi contratado pela nova grande loja de reescrever a sua constituição. Ele fez um movimento dramático e corajoso, a fim de perseguir a ideia de uma fraternidade universal. As duas primeiras obrigações em sua nova constituição foram pontos de partida radicalmente inovadores de conceitos previamente existentes e que permitiriam à Fraternidade alcançar homens de todas as fés. Sua primeira Obrigação, lidando com Deus e da religião causaria mais comentário e má interpretação do que qualquer outra nos últimos 285 anos, onde se lê:

“Um Maçom é obrigado em sua ação, a obedecer à lei moral, e se ele compreende corretamente a Arte, nunca será um ateu estúpido nem um libertino sem religião. Mas, embora em tempos antigos os maçons fossem obrigado em cada País a ter a Religião daquele país ou nação, qualquer que fosse ela, ainda assim pensa-se ser agora mais conveniente obrigá-los a ter apenas aquela religião na qual todos os homens concordam, deixando suas opiniões particulares para si ; isto é, serem homens bons e verdadeiros, ou Homens de Honra e Honestidade, quaisquer que sejam as Denominações ou Obediências que os possa distinguir; dessa forma a Maçonaria se torna o centro da União, e os meios de conciliar a verdadeira amizade entre pessoas que de outra forma permaneceriam perpetuamente separados.” [1]

Anderson começa reafirmando a obrigação de um Maçom de cumprir a lei moral. Para cada religião daqueles dias isso incorpora o conceito de não fazer aos outros aquilo que não se faria a si mesmo. Um Maçom que entende a arte da Maçonaria nunca poderia duvidar da existência da divindade ou ser um libertino moralmente desenfreado, deixando de lado a moral, a ética e a existência de um poder superior operando o universo. Tendo aberto totalmente a porta, ele rejeita o argumento de que em um país cristão, um maçom tinha que ser cristão e afirma que uma vez afirmada a existência de um Ser Supremo e concordando-se em cumprir a lei moral, suas crenças religiosas são de foro íntimo.

Não está na natureza dos homens aceitar nem mesmo as melhores leis, sem tentar mudá-las para sua própria vantagem. Um pouco mais de 30 anos se passariam até que uma nova Grande Loja escrevesse uma outra Constituição, desta vez por um autor católico, Laurence Dermott que tentou devolver a Maçonaria ao reino do cristianismo.

“Um maçom é obrigado pelo seu Mandato a observar a lei moral como um verdadeiro NOACHITA; e se ele compreende corretamente a Arte, nunca será um ateu estúpido nem um libertino irreligioso, nem agirá contra a Consciência.

Em tempos antigos, os maçons cristãos eram acusados ​​em agir em conformidade com os usos cristãos de cada país em que eles viajavam ou trabalhavam; sendo encontrados em todas as Nações, inclusive de diversas religiões.

Eles eram geralmente obrigados a aderir àquela religião na qual todos os homens concordam (deixando a cada irmão a sua própria opinião particular); isto é, para ser homens bons e verdadeiros, Homens de honra e honestidade, não importando os nomes, religiões ou convicções pelos quais eles possam ser distinguidos, pois todos eles concordam em três grandes artigos de Noé, suficientes para preservar o Cimento da Loja. Assim, a Maçonaria é o Centro de sua União, e os Meios felizes de conciliar Pessoas que, caso contrário teriam permanecido em um perpétua Distância.” [2]

Esta Constituição exige que os maçons devem crer firmemente, não só verdadeiramente adorar o Deus eterno da Igreja Católica, mas também nos registros sagrados, que os dignitários e os pais da Igreja cumpriram e publicaram para o uso de todos os homens de bem. E em relação aos ateus, os não-cristãos não precisavam solicitar o ingresso. Sessenta e seis anos depois, o pêndulo balançaria de volta. A Constituição Maçônica da Grande Loja Unida da Inglaterra, formada em 1813 pela fusão de Modernos e Antigos abriu a porta para homens de todos os credos e introduziu o conceito de Deus como o Grande Arquiteto do Universo.

“Um Maçom é obrigado em sua ação, a obedecer à lei moral, e se ele compreende corretamente a Arte, nunca será um ateu estúpido nem um libertino sem religião. Ele, entre todos os homens, deve entender melhor que Deus não vê como o homem vê, pois o homem olha para a aparência externa, mas Deus olha para o coração. Um maçom é, portanto, particularmente obrigado a nunca agir contra os ditames de sua consciência. Deixe que a religião de um homem ou modo de adoração seja qual for, ele não é excluído da ordem, desde que ele acredite no glorioso arquiteto do céu e da terra, e pratique os sagrados deveres de moralidade. Maçons se unem aos virtuosos de toda religião no firme e agradável vínculo de amor fraterno; eles são ensinados a ver os erros da humanidade com compaixão, e esforçar-se, pela pureza de sua própria conduta para demonstrar a excelência superior da fé que eles possam professar. Assim, a maçonaria está no centro de união entre os homens bons e verdadeiros, e os meios felizes de conciliar amizade entre aqueles que de outra forma, manter-se-iam em distância perpétua.” [3]

O conceito de Deus em relação à filosofia maçônica continuaria pelos próximos 200 anos, conforme ilustrado no seguinte diálogo entre Albert Pike e Henry Leeson.

Em 1861, Henry B. Leeson do Supremo Conselho da Inglaterra escreve:

“Foi um privilégio coletar e preservar os disjecta membra do Rito Antigo espalhados neste e em outros países, os quais atestam a antiga base cristã da Ordem.” [4]

No entanto, o sistema de 33 graus do Rito Escocês de graus traça as suas raízes somente até a Grande Constituição de 1785, supostamente sob a autoridade de Frederico II. Portanto, qualquer referência a uma antiga base cristã precisaria referir-se à Maçonaria em geral e não ao Rito Escocês, em particular.

Em resposta a esta carta, o Soberano Grande Comendador da REAA SJ, Albert Pike, escreve:

“Eu não concordo com o Ilmo. Irmão Leeson, que a base antiga da Ordem era cristã. Se assim fosse, a Maçonaria prussiana teria estado certa ao excluir judeus da admissão às suas Lojas. Se assim fosse, seria uma fraude afirmar que a Maçonaria é universal. Nesse caso, como poderiam existir Lojas de hebreus e muçulmanos? E em relação ao Rito Antigo e Aceito, se ele tivesse uma base cristã, como é que a maioria daqueles que tiveram sua posse neste país de 1763 a 1800 eram hebreus?” [5]

Dez anos depois, o irmão Lindsay Mackersy 33°, o Delegado Escocês ao Congresso de Lausanne de 1875 iria protagonizar a maior jogada de desorientação da História Maçônica ao usar o conceito maçônico de crença em um Ser Supremo para anular e cancelar de forma cuidadosamente orquestrada os planos dos Supremos Conselhos Inglês e Francês, enquanto ao mesmo tempo, dava início a uma troca de tiros que ainda grassa nos dias atuais. John Mandelburg escreve:

“Embora Pike desejasse ver o REAA como tão “Universal” quanto o Craft, ele sempre sustentou rigidamente o que era proclamado por todos os corpos maçônicos regulares desde tempos imemoriais, uma profissão de fé por cada candidato no Grande Arquiteto do Universo como um Ser pessoal, cuja vontade revelada está contida em qualquer Volume da Lei Sagrada reverenciado pelo Iniciado. Que o Conselho Supremo Inglês foi ainda mais longe na exigência dos irmãos sob sua jurisdição de uma crença explícita na fé trinitária cristã, reforçada, ao invés de removida dessa posição. Nem Pike, nem, na verdade, qualquer membro dos três Supremos Conselhos britânicos, poderia conceber uma Maçonaria regular, que não fosse baseada em uma crença em uma divindade pessoal. [6]

No entanto, os persas acreditavam na existência de um Deus invisível. Eles acreditavam que há uma guerra contínua entre as forças do bem (forças da luz) e as forças do mal (forças das trevas). As forças do bem ganharão se as pessoas fizerem boas ações, tiverem bons pensamentos e falar bem. Deus era representado em seus templos através do fogo. Pike devia ter uma crença semelhante, porque ele cita o seu catecismo em sua palestra sobre o grau 28:

“Nós acreditamos em um só Deus, e não acreditamos em qualquer um além D’Ele; que criou os céus, a terra, os anjos. . . Nosso Deus não tem nem rosto, nem forma, nem cor, nem formato, nem lugar fixo. Não há outro como ele, nem pode a nossa mente compreendê-Lo.” [7]

Por que então Pike contradiz-se após o Congresso de Lausanne de 1875?

Autor: Jack Buta

Tradução: José Filardo

Fonte: REVISTA BIBLIOT3CA

Extrato do Artigo “A CONSPIRAÇÃO DE DEUS”
Publicado em: Review of Freemasonry Pietre-Stones

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Verdade e fé: as linguagens da catedral nos séculos XII ­ XIII

Catedral de Notre Dame - A catedral gótica mais famosa de Paris

A relação entre verdade e fé significava a aliança entre os homens e Deus na idade média. O compromisso com o divino tinha lugar num local sagrado onde transcorria o ritual da união simbólica, a igreja do cristianismo. Na passagem do século XII para o XIII, com o crescimento das cidades europeias, surgem as catedrais românicas e, posteriormente, as góticas. Nessa mudança, a grandiosa catedral gótica, a igreja do bispo, caracteristicamente urbana e moderna, passa a ser o espaço síntese das artes e o centro de toda a vida da urbe, sediando, inclusive, escolas e universidades. Sob a gestão dos arquitetos, chamados de doutores em pedra, as construções proliferaram e integravam os trabalhos dos artesãos de toda espécie, como os escultores, denominados de talhadores de pedra e os vitralistas. A dinâmica dos seus espaços abrangia também as performances religiosas, as gesticulações ritualísticas, a música e os cantos sagrados, e dispunha o altar como o palco principal do drama cristão

Verdade e fé. Duas palavras capazes de provocar uma discussão interminável. Na Idade Média, para os cristãos, homens e mulheres, ambas as palavras significavam fidelidade a Deus, a Aliança feita com ele, a misericórdia, a santidade e o mistério da Salvação. A palavra “amém”, que podemos traduzir como “assim seja”, no final de uma prece, exprime mais do que o desejo formulado: As palavras que acabam de ser pronunciadas são verdadeiras. Neste sentido, a palavra fé, significa, crer.

Faz-se necessário esclarecer que não podemos nos referir à Idade Média como um todo. Vamos nos deter em apenas dois séculos: o XII e XIII, na Europa ocidental, onde o sistema de crenças era profundamente distinto do atual. A verdade e a fé formam um só sentimento que não se faz presente apenas na prática religiosa e espiritual dos medievais. Constituem a essência da cultura política da sociedade feudal vassálica. O que significa isto? Uma sociedade sem mobilidade social, que se desenvolveu a partir de guerras, após a queda do império romano, dos campos devastados e uma profunda insegurança. Em meio ao caos, uma única instituição sobreviveu: a Igreja. Ela vai processar a síntese das duas culturas: a romana e a germânica. A fé está implícita na fidelidade, essencial nas relações homem a homem no medievo. De acordo com a etimologia latina, fides, quer dizer “palavra dada”. Isto é, estabelece a relação entre os homens, mediante a palavra dada e firmada, conforme descreve uma farta documentação desde a época dos merovíngios na França (finais do século V).

Com a urbanização da Europa, surgiram as grandes catedrais. Inicialmente as românicas, posteriormente as góticas. Os canteiros de obras se espalhavam nas cidades de maior importância. No comando do canteiro o arquiteto também é o responsável pela decoração. Ele estabelecia o programa que seria executado pelos que talhavam a pedra e delas faziam brotar as imagens. “Talhadores de pedra” como eram denominados os escultores de então. As imagens góticas se distinguem das românicas não apenas pelo conteúdo. Os intelectuais refletiam sobre o que estava em volta. Foi esta atenção voltada para o mundo real que foi transmitida aos construtores das catedrais. A natureza se fez presente nos capiteis góticos, diferenciando-se dos capiteis românicos, onde os elementos eram criados reproduzindo um mundo de criaturas e seres fantásticos. Nos capitéis góticos a cópia dos vegetais permite inclusive distinguir as espécies.

A igreja de Notre Dame constitui um belo exemplo do gótico. Todavia os capitéis da igreja que nos vemos atualmente foram restaurados por Viollet le Duc. A igreja como se sabe, foi atingida duramente pelos revolucionários. Viollet le Duc, esclarece a impossibilidade de a restauração recuperar a igreja original. Seja como for, os capiteis interagem com a arquitetura, participando da síntese das artes processada no interior do edifício. Não se trata apenas de uma decoração. Ao mesmo tempo, honram a presença do sagrado que é o elemento sintetizador. Todo lugar de culto é por natureza um lugar sacralizado. Não existe culto sem sacralização. Para os medievais as palavras em latim – decor e decus – possuíam um sentido específico. Não significavam nem decorar nem ornar. Para o Abade Suger de Saint Denis, implicavam em homenagear e exaltar.

Os séculos XII e XIII correspondem a uma Idade Média que avança na urbanização. São outros homens, outras mulheres. Mas a crença em Deus continua. Estuda-se “Deus”. E a cidade garante uma melhoria de vida, mas ao mesmo tempo é cercada por uma periferia de miséria. O poder da Igreja fortaleceu-se. Em cada cidade existe um bispo.

A pesquisa que venho desenvolvendo tem como objetivo explorar as linguagens da catedral. Para mim a linguagem possui um significado muito amplo. Concordo com Alphonse Dupront:

“A linguagem implica na multiplicidade de discursos falados e escritos, expressos plasticamente ou pela técnica; pelo gestual, pelos comportamentos, ou mesmo pelos silêncios”.

Neste amplo leque de possibilidades, o nosso foco direciona-se ao mesmo tempo para o discurso plástico e para o discurso litúrgico, buscando entender de que forma os dois discursos se encontram, interagem, e promovem sob o comando da arquitetura, novas linguagens que resultam na síntese das artes.

A síntese das artes é uma expressão vinculada ao século XX caracterizando a presença das manifestações plásticas em um espaço arquitetônico ou urbano. Ao me apropriar da expressão para falar da catedral medieval como espaço produzido pela arquitetura capaz de reunir as artes do medievo, em nenhum momento a expressão me pareceu inapropriada. O anacronismo é próprio da história. E o tempo das imagens não é necessariamente o tempo da história. Estou partindo do meu presente, e acredito que a expressão síntese das artes cabe muito bem no estudo das catedrais. A partir do momento em que o lugar do culto aumentou suas dimensões – distanciando-se da concepção de que a Casa de Deus se concebia espiritualmente – para construir templos monumentais, promoveu no seu interior, a síntese de todas as artes: não só a arquitetura (construção do edifício), mas a escultura (decoração de colunas internas e estatuárias nas fachadas), a pintura (colunas e vitrais, iluminuras dos evangelhos) e também a ourivesaria, música e as artes cênicas.

Este percurso não foi feito com rapidez. Inicialmente, os cristãos não se preocuparam com um lugar de culto. Foi a aliança estabelecida entre a Igreja e os Carolíngios, em particular com a política de Renovação do Império Romano, que propiciou uma ocupação de território por parte da Igreja. Ergueram-se gradualmente, e cada vez mais, igrejas, mosteiros, abadias e outros edifícios com funções e práticas vinculadas a Roma. Dominique Iogna-Prat, em um livro que se tornou rapidamente uma referência, intitulado La Maison Dieu, analisa como a construção de um Império cristão pelos carolíngios foi determinante para a Igreja. Até então, a “Casa do Senhor” não se apresentava como algo decisivo para os cristãos. O ritual celebrado ocorria de forma simples e em local, por muito tempo, minúsculo. Alguns historiadores alegam que os primeiros convertidos não possuíam meios e por isso se reuniam nas próprias casas para um culto muito simples. Mas, convém considerar também, que nos primeiros dois séculos, já haviam divergências a respeito da construção de um local para o culto. Para alguns o senhor “estava em toda a parte”. Logo não se fazia necessário erguer um templo.

Foi a partir da dinastia carolíngia que a Igreja adquiriu visibilidade terrena. Isto é, construíram-se lugares específicos para o culto e “o termo ecclesia se impôs como terminus technicus para designar a igreja-monumento, lugar consagrado segundo os termos de um ritual que se fixou por volta dos anos 840.” É interessante notar que pela construção das igrejas e mosteiros a igreja ocupa um território. Torna-se concreta. Uma
olhada no mapa do Ocidente europeu nos faz perceber que a partir do século IX o número das construções aumenta e se torna maior do que o número dos castelos fortalezas.

Foi nos ateliês fundados por Carlos Magno que nasceu no final do século X um novo estilo de arquitetura que veio a ser denominada de românica. Tratava-se de uma igreja grande, de grossas paredes e caracterizada desde o século XI por uma arquitetura que se faz reconhecer pelo emprego sistemático das arcaturas e de bandas lisas. Foram construídas em cidades que pertencem a um território onde a instituição monástica ainda é “uma força de organização e foco de ação. Em especial, a ordem de Cluny teve um papel político e moral importante. Foram eles que organizaram as peregrinações, levando a população a se movimentar pelos caminhos e percorrerem as cidades, onde a igreja românica é uma espécie de relicário imenso, aberto a todos. A igreja monástica desta época é ao mesmo tempo a igreja dos monges e dos peregrinos graças a ação dos beneditinos da Ordem de Cluny, (fundada em 910). As peregrinações foram muito importantes para as cidades, que passaram a ter uma catedral onde se abrigavam uma ou mais relíquias de santos. A construção das igrejas românicas na sua notável variedade de estilos regionais é o resultado de um processo que perdurou até o séc. XII, quando se iniciam as experiências góticas.

O gótico é, sobretudo, a arte das grandes catedrais (não que não tenham ocorrido catedrais românicas grandes). Mas as grandes catedrais se deslocaram para as cidades mais populosas, mais ricas, com mais recursos. Enfim, onde existissem estradas que levassem os materiais extraídos das pedreiras. Para alguns historiadores da arquitetura, a arte românica e a arte gótica não são sucessivas. Não decorrem naturalmente, uma da outra. A arte românica pertence a uma ordem antiga, ligada a um passado histórico, enquanto o gótico se origina da pesquisa que resulta em uma arte que vários historiadores consideram “essencialmente moderna”.

A catedral gótica é a igreja do bispo. Uma igreja urbana que responde a uma liturgia mais complexa e exige um espaço grandioso para se realizar em toda sua expressão. O seu público é diferenciado. Isto é, constituído por indivíduos que moram na cidade. Os seus doadores possuíam uma profissão: eram artesãos os mais diversos, médicos (barbeiros), professores, livreiros, comerciantes. Estes habitantes que dominavam a vida da cidade econômica e socialmente, não entravam na catedral apenas para rezar. No seu interior se reuniam as confrarias e se realizavam as assembleias civis das quais toda a comuna participava. A catedral centralizava toda a vida urbana”. Graças às suas proporções, era nela que toda a população encontrava refúgio em caso de catástrofes naturais e guerras. Esta ideia de centralidade se mantém ainda hoje: a catedral de Notre Dame é o Km 0. O ponto de partida para toda a França.

Como sabemos, as cidades eram nesta época fortificadas. Isto é, fechavam as portas ao escurecer indicando claramente a grande importância econômica que haviam adquirido e o cuidado dos seus moradores com a proteção dos bens e das riquezas ali guardadas. Neste cenário, a Igreja, parte dominante da urbes, domina pela palavra, pelos dogmas, pelas regras e pela edificação da ética. Cada cidade demonstrava a sua importância econômica, social e política pela grandiosidade da catedral que podia construir – o que era naturalmente, proporcional às doações que recebia. A construção das catedrais alcançara uma monumentalidade impressionante. Ao mesmo tempo, passaram a ser construídas com maior rapidez. E isto tem uma boa explicação: no interior das mesmas, além dos locais citados acima – nos quais os habitantes não se reuniam para a prece -, cada catedral possuía uma escola, uma universidade.

São os arquitetos que comandam e promovem a síntese das artes na construção das catedrais. No século XIII, os primeiros arquitetos assinam suas obras e são respeitados como mestres das escolas. Eles se auto denominam “doutores em pedra”. O ensino no mundo urbano distingue-se profundamente do ensino anteriormente ministrado nos mosteiros, que apesar da imensa importância, estava voltado para si mesmo. No interior da catedral, as escolas e as universidades se abriam para o mundo. Para Georges Duby, esta

“É a razão que concebe a catedral, que faz aí se coordenarem conjunto séries de elementos discretos. Esta lógica se faz cada vez mais rigorosa e o edifício cada vez mais abstrato”

Panofsky destacou, entre as consequências importantes que a deslocação da educação para o âmbito urbano provocou no conhecimento, o caráter cosmopolita das escolas catedrais, universidades e as studia das novas ordens mendicantes. No clássico, Arquitetura Gótica e Escolástica, ele afirma que a escolástica detinha o monopólio da formação intelectual no âmbito restrito em torno de Paris. Distinguiu o arquiteto da cidade do arquiteto monástico. O primeiro aprendia o seu ofício e desde o início supervisionava suas obras pessoalmente. O papel predominante do arquiteto na condução dos trabalhos se revela pela atenção e pelo contato estreito com os escultores, pintores de vidro, entalhadores e outros. Era ele, o arquiteto, que os contratava e supervisionava pessoalmente, transmitia os projetos e o programa iconográfico.

O abade de Saint Denis considerou que a decoração era necessária por contribuir para a doutrina e participar do ritual. No exterior da catedral, as imagens nas portas e nas fachadas exerciam uma função pedagógica. As decorações podiam manifestar as hierarquias, divisões internas e polaridades do lugar da igreja. No espaço arquitetônico, as imagens se espalhavam, estruturando o espaço interior. Entretanto, ao meu ver, a distribuição das imagens não é tão aleatória. A relação de uma imagem, ou mesmo de um conjunto de imagens ao ritual, pode possuir um significado. É o caso principalmente das imagens do altar e mesmo dos nichos que se encontram nas laterais, na porta e no tímpano.

O crescimento das cidades, movido pela economia dos mercadores e do comércio, favoreceu a concentração das principais atividades urbanas na catedral, que era ao mesmo tempo escola e centro da urbes. Não importa se os arquitetos do gótico não tenham lido Gilberto de La Porree ou Tomás de Aquino no original, conforme considerou Panofsky. O que importa é que de qualquer forma, entraram em contato com o ideário escolástico por outros escolásticos e pela circulação das ideias. É possível que nem tenham percebido que, por força de sua atividade, tinham de trabalhar com quem esboçava os programas litúrgicos e iconográficos, isto é a própria Igreja.

De acordo com George Duby,

“A catedral gótica nasceu destinada a ser magnífica, por que é a morada de Deus, porque é o símbolo dos poderes espiritual e temporal. Para que a igreja do bispo fosse o coração da cidade e não uma cidadela fechada, reservada a clérigos. Os programas e os custos foram pensados, a racionalização do trabalho concebeu que os espaços litúrgicos fossem rapidamente abertos aos ofícios e ao curso anual das festividades e que o fluxo de rendimentos que os acompanha não sofresse interrupções”.

É neste contexto, que se inserem os Tratados de liturgia. No século XIII, o arcebispo de Mende, Guillaume Durand (cerca de 1230-1296), redigiu um dos mais importantes tratados de liturgia da Idade Média de que se tem notícia: O Rationale Divinorum Officiorum (Análise racional do serviço divino). A obra está inserida na longa tradição de interpretação alegórica da liturgia. O manuscrito que se encontra na BNF (Paris) possui oito livros que tratam da igreja, da hierarquia clerical, do vestuário litúrgico, da missa, do ofício divino, dos ofícios do domingo, das festas, dos santos e das finanças. Ou seja, repete várias passagens de outros tratados litúrgicos (conforme referência acima). Sua repercussão foi excepcional para a época: As fontes indicam mais de 200 manuscritos que datam da Idade Média. Para que se tenha uma ideia da importância do Tratado, em 1457 ele foi um dos primeiros manuscritos a ser impresso em Mogúncia, no mesmo ateliê onde dois anos antes foi impressa a Bíblia de Gutenberg. Quase um século mais tarde, o Tratado de Durand se mantinha atual, a tal ponto, que o rei Carlos V, em 1374, encomendou a Jean Golein a sua tradução para o francês. O códice foi iluminado à altura de um rei. As iluminuras revelam a riqueza dos materiais que percorrem os fólios do manuscrito, embelezando-o no sentido caro aos medievais.

Na abertura do texto traduzido, uma grande iluminura, com motivos vegetais de estilo italiano, enquadra o manuscrito, representando o momento em que Durand entrega o manuscrito ao rei Carlos V em 1374, de acordo com o prólogo (f. 1-2v); os fólios 28-34 se referem ao Tratado do Sagrado, definindo que sagradas são “todas as coisas que pertencem ao divino ofício, tanto ornamentos como quaisquer outras coisas”, confirmando o abade Suger.

Os sete livros do tratado dão uma ideia da obra. Tratam dos lugares, dos ornamentos, da consagração e dos sacramentos. Voltam-se inicialmente para o próprio edifício, sua arquitetura, que deve ter como função a rememoração da vida e da morte de Cristo. Ou seja, é aí, na arquitetura, que o cerimonial ganha a materialidade que está na própria pedra, seguindo a rigor o tratado litúrgico. Tanto a construção como as esculturas obedecem ao tratado. Não se trata de um edifício comum, mas de um edifício sagrado, onde se celebram vários rituais. A catedral recebe a todos. Inclusive o Rei. Por isso, é possível dizer que na catedral gótica se reúnem os dois poderes: o espiritual e o temporal.

O exame cuidadoso da planta interna de uma catedral, independente do seu estilo, evidencia um plano que revela o itinerário a ser percorrido, onde os personagens repetirão os mesmos gestos, as mesmas palavras e ao som da música instrumental e dos hinos realizam sempre a mesma performance. O figurino dos sacerdotes faz parte do ritual que é celebrado. A igreja todavia não é apenas uma arena teatral. É concebida como um locus, uma Terra sancta. Isto significa que ela é consagrada, tornando-se apta a realizar todos os demais sacramentos. A planta é em cruz romana orientada para o Ocidente. Nela estão localizados os lugares dos participantes e o seu ponto mais importante, o altar. É dentro deste pensamento que a arquitetura realiza uma das funções da igreja. Mas não é a única. Não podemos esquecer que os moradores da cidade não entravam nas catedrais apenas para rezar. No interior, da igreja monumental, construída com as suas doações (conforme salientamos acima), reuniam-se também, para outras atividades. A catedral dominava a cidade, era a própria cidade, a casa de todos.

As formas românicas ou góticas não produziam sobre os medievais o mesmo sentimento estético que podem provocar em qualquer um de nós, independente da crença religiosa, ou mesmo da ausência de fé. Para os homens e as mulheres da Idade Média, aquele edifício, possuía uma função importante, central na cidade. Isto porque para essas pessoas, o invisível possuía a mesma realidade do visível. Para elas, a vida não terminava com a morte. Elas acreditavam na eternidade. A relação visível e invisível, vida e morte era lembrada logo na entrada da igreja. As igrejas dos séculos XII e XIII trazem, ocupando todo o pórtico, esculturas em relevo que reproduziam a cena do juízo final (onde todos compareceriam, incluindo o clero, a realeza e a aristocracia). Na pedra o Cristo em majestade julgava os mortos, enquanto anjos e demônios realizavam uma triagem tomando cada um a parte das almas que lhes cabia. Ao lado, a Virgem Maria advogava a causa dos justos.

Outros temas bastante divulgados são o do Apocalipse, Pentecostes e o da Ascenção.

O pórtico possuía um valor simbólico extraordinário na medida em que constituía uma área de fronteira entre o sagrado e o profano. O simbolismo da porta representa a palavra do próprio Cristo. Em um sermão, Agostinho afirmou: “Cristo é a porta”, repetindo as palavras ditas por Jesus (Eu sou a porta). Nessa entrada, o profano e o sagrado ora se enfrentavam, ora buscavam a conciliação. Aí também, o mesmo discurso litúrgico que ditava regras para a arquitetura, separando territórios no interior, traçando itinerários para os peregrinos, promovia também cerimônias religiosas que possuíam um papel social importante. Na porta da catedral, realizavam-se procissões e demais festas determinadas pelo calendário litúrgico, tal como os domingos de ramos e da Páscoa. Aí também ocorrem importantes encenações como a da paixão. O discurso litúrgico tem, portanto, papel fundamental na sintetização das artes. É este discurso que subsidia e dita as regras. Ë segundo as suas determinações que se constrói, se esculpe e se pinta o cenário em que se fala, se cala, se canta, se senta e se levanta. Os tratados litúrgicos mencionam também os rituais internos, que se processam no interior da catedral em lugar determinado, tais como batizados e ofício dos mortos.

Contrariamente ao que se costuma pensar, os medievais não se sentiam pertencendo a um mundo de trevas. Os homens e as mulheres da Idade Média acreditavam que Deus é luz. A vivacidade da luz obtida com o vitral da catedral gótica, que já existia no românico, foi prolongada até a abóboda. A construção da catedral submetida à luz repousa na tradição de um discurso de longa duração, no qual se destacam nomes como o de Suger, mas, bem anteriormente, o do Pseudo Dionísio. As rosáceas são próprias à arquitetura gótica. São três rosáceas em Notre Dame que fazem com que o altar fique cada vez mais iluminado à medida que a pessoa se aproxima. São construídas com vitrais, o que produz um efeito especial na luz.

Simbolicamente, pode significar a caminhada do fiel em direção à luz.

Finalmente, a música e o jogo de luz e cores promovido pelos vitrais interagiam no cenário propiciando o desenvolvimento da performance, de acordo com o discurso do evangelho que determina os movimentos e os gestos do ou dos celebrantes e da plateia. – Vários historiadores da arte, entre eles Jean Claude Bonne, fazem referência à performance que compõe o ritual cristão.

Dois relicários de marfim provenientes respectivamente de Cambrigde e de Frankfurt, datados do século IX, e que se encontram atualmente no museu do Vaticano, representam o momento da celebração de uma missa, termo específico utilizado apenas pelos católicos. A missa é um ofício litúrgico no decorrer do qual os indivíduos presentes atualizam a última ceia que antecedeu a crucificação de Jesus. O ritual se divide em duas partes, como vimos nas representações dos relicários: primeiro, a liturgia da palavra: Isto é a leitura dos textos bíblicos, o sermão, as preces de suplicação e os cantos que também podem ser recitados; a segunda parte é composta pela liturgia da eucaristia que começa pela oferenda do pão e do vinho e, em seguida, pela consagração de ambos e repartição entre os presentes. Isto é a comunhão precedida pela prece do Agnus Dei (Cordeiro de Deus). A cerimônia é concluída pela formula Ite missa est (A missa é dita).

Na primeira parte da liturgia da palavra, o Livro, o evangelho representa a palavra de Deus. No códice, seguidamente em tamanho A4, os fólios em pergaminho iluminados são costurados à mão. A capa pode ser em madeira, marfim e prata; em ouro, com o uso ou não de pedras preciosas e esmaltes.

Em tal cenário, o altar possui um papel essencial. Sobre ele, um conjunto de objetos – cálice, patena, evangelho – adquirem no momento apropriado a sua função. O altar do cristianismo está ligado à tradição judaica do sacrifício de um cordeiro no período da Páscoa. O cristianismo serviu-se de tal tradição em muitos aspectos, legitimando a vinda do Salvador ao mundo dos homens. A importância do altar é enfatizada pelo Antigo Testamento, no Gênese (Abraão Gn 12,7 e Jacó Gn. 12,7) no Exodus (Moisés Ex 20,24) e no Livro de Esdras ( Esd 3,2-3). O altar do Antigo Testamento é construído de pedra. Com a expansão do cristianismo, fiel a tradição judaica, a pedra se tornou por excelência, o material do altar. A palavra altar está vinculada a montanha – lugar sagrado de muitas crenças – lugar alto, onde ocorre a manifestação do sagrado (a teofania).

No interior da igreja, o altar une a palavra à eucaristia, referenciando-se a mesa da Páscoa. O altar é, portanto, o palco principal do drama cristão. Nele são feitas as narrativas e é atualizada uma das cenas mais importantes da história cristã.

Autora: Maria Eurydice de Barros Ribeiro

Fonte: Revista Estética e Semiótica / Volume 7 / Número 2

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De Deus ao Grande Arquiteto do Universo

Pierre Dupont, Portrait de Pierre François, huile sur toile, 76 x ...

Na abertura dos trabalhos na Grande Loja da França se fala “Á Glória do Grande Arquiteto do Universo”, e essa mesma invocação é repetida ao término dos trabalhos. Ao ouvir isso, os Irmãos consideram essa expressão como um fato original e raramente questionam a sua origem e significado profundo. Mas é necessário conhecer nossa História para saber de onde viemos. O presente artigo nos permitirá saber como chegamos a essa noção de Grande Arquiteto que é, pelo Rito Escocês Antigo e Aceito, a pedra angular do caminho iniciático. Vou tentar explicar como a Maçonaria iniciática passou de Deus ao Grande Arquiteto do Universo.

Desde o nascimento do Cristianismo até o fim do Idade Média, Deus está em toda parte e em tudo, e ai de quem contestasse este postulado. Na Maçonaria, até o século XVIII, os trabalhos se desenrolavam e seus juramentos eram realizados sobre a Bíblia, “na presença de Deus e de São João”. A invocação de Deus era vital na época porque, desde a Idade Média, a onipotência da Igreja Apostólica Romana governava não apenas a consciência, mas também todas as instituições, desde corporações menores até a realeza. Ela condenava à morte aqueles que não pensavam dessa forma. Desde o início da Maçonaria, a crença é, portanto, obrigatoriamente em Deus, Grande Geômetra (de acordo com a expressão de Pitágoras) que mede o universo com sua bússola, como mostrado por muitas iconografias do século XIV, e ainda permanece hoje na Maçonaria Anglo-Saxônica.

Em toda religião, a Palavra Divina tem uma virtude criativa. Assim, em Gênesis, seres e coisas adquirem sua existência no momento em que Deus as cria e dá nome a elas. Essa noção criacionista da Palavra ainda se encontra nas sociedades tradicionais, sendo uma condescendência primitiva, onde o recém-nascido só entra no estado de criatura após vários dias ou várias semanas, a partir do momento em que recebe um nome, resultado de um ato de fala. Dar um nome para um ser ou uma coisa é equivalente a um ato divino e fornece uma forma de poder para quem nomeia sobre aquele que é nomeado.

Então, dando um nome à divindade, o homem de alguma forma, garante poder sobre ela e a reduz para a dimensão humana. Os homens, com a cumplicidade de alguns religiosos, apreenderam a noção de Deus para dar-lhe não apenas um forma humana (isso é chamado de antropomorfismo), mas também sentimentos que o representam como um parente (um exemplo é o Deus Pai), um patriarca que pede para ser adorado, que se eleva a Juiz Supremo (veja o último julgamento) e que pune aqueles que pecam contra ele (ver Inferno e Purgatório). Deus é assim concebido à imagem do homem e é apenas um reflexo de sua personalidade. Aqueles que permanecem escravos de concepções imperfeitas e estreitas sobre o que é a Divindade, são suscetíveis a gerar fanatismo, fundamentalismo e perseguições, que são a negação da liberdade de consciência, como vemos com muita frequência em nossa sociedade atual.

Pela Maçonaria dos Antigos, à qual nós pertencemos, desde que a ideia permaneça única e homogênea nas Lojas e não difere da ideia de Deus do mundo profano, isto é, da Igreja Católica Romana, a ideia de um Deus Geômetra se tornou o início do renascimento do Grande Arquiteto do Universo (a primeira menção se deve a Philibert Delorme por volta de 1565, que o retirou de Platão), que não apresentou problemas aos irmãos: o Grande Arquiteto era Deus. Mas com o início do Iluminismo, se passa a  defender a ideia da religião natural e gradualmente abandonará a noção de espiritualidade, uma ideia que será adotada pela Maçonaria dos Modernos, como evidenciado pela primeira versão das Constituições de Anderson de 1723, cuja versão de 1738 e as versões a seguir, contém a crença em um Deus obrigatório. Enquanto isso, os Antigos (Escoceses, Irlandeses e Católicos do norte da Inglaterra) mantêm a crença em Deus, mas não a impondo como um dogma, ao contrário dos ingleses.

A questão de Deus na Maçonaria continuará na segunda metade do século XIX, mas o uso da palavra “Deus” se torna polêmico por certos Supremos Conselhos e certas Grandes Lojas. Existem várias razões para isso:

  • Campanhas anti-maçônicas em países católicos depois que o Papa perdeu muito de seu poder quanto ao Estado em 1870;
  • O renascimento de doutrinas ultramodernas favoráveis à Santa Sé;
  • A radicalização da doutrina católica (infalibilidade pontifical, proclamação da afirmação “fora da Igreja não há Salvação” que vai contra a liberdade de consciência);
  • E especialmente a atitude ultraconservadora da Igreja Católica que se manifesta contra a modernidade, liberdades individuais e coletivas, direitos humanos, democracia, sufrágio universal, ciência, filosofia.

Este fato foi debatido no Concílio dos Supremos Conselhos, reunidos em Lausanne de 6 a 22 de setembro 1875 para atualizar as Grandes Constituições de 1786, que regiam o Rito Escocês Antigo e Aceito, sobre a definição de Grande Arquiteto do Universo.

Para satisfazer todas as crenças e admitir todos os pontos de vista, os representantes dos doze Supremos Conselho presentes (dos vinte e três na época) usaram três expressões diferentes para definir o Grande Arquiteto do Universo, a saber:

  • No preâmbulo “a Maçonaria é uma instituição de fraternidade universal cuja origem volta ao berço da sociedade humana; ela tem como doutrina o reconhecimento de uma força superior que ela proclama existir sob o nome de Grande Arquiteto do Universo”;
  • Na Declaração de Princípios “A Maçonaria proclama, como proclama desde a sua origem, a existência de um princípio criador sob o nome Grande Arquiteto do Universo”;
  • Manifesto “Para elevar o homem à seus próprios olhos, para torná-lo digno de sua missão na Terra, a Maçonaria postula o princípio que o Criador Supremo deu ao homem também a liberdade mais preciosa, herança da humanidade inteira, que nenhum poder tem o direito de extinguir ou amortizar e que é a fonte dos sentimentos de honra e dignidade”. [1]

Três interpretações de Deus para satisfazer todos os maçons: Força superior endereçada aos agnósticos; Criador Supremo endereçado aos teístas; Princípio Criador para os deístas. Mas esse desejo de atender todas as sensibilidades religiosas é interpretado como uma recusa em se pronunciar e levará a rejeições dos teístas acusando os deístas de suavidade e, os agnósticos de ateísmo.

O Supremo Conselho da França e, depois dele, a Grande Loja da França, manterá a invocação de Grande Arquiteto do Universo definida, fora de todo o significado religioso, como Princípio Criador, abrindo o caminho para a Maçonaria não mais teísta, mas deísta, enraizada na tradição dos Antigos, respeitosos da liberdade de consciência e do direito de todos de exercê-lo em sua abordagem enquanto os Anglo-Saxões mantêm o reconhecimento de Deus e de sua mensagem revelada, assim como da imortalidade da alma, que o Grande Oriente da França suprime qualquer referência a Deus e o Grande Arquiteto e que a Bélgica, defendendo a imortalidade da alma, usa a expressão “Princípio Superior” que constitui uma aberração, porque implica que há um ou mais Princípios inferiores.

Durante o século XX, entre ciência e fé, a ideia de Deus está se tornando cada vez mais heterogênea com a perda de marcos metafísicos e a lógica do cientificismo. A noção de Deus está dividida entre dúvida e desconfiança da ciência e o surgimento de seitas que se tornam novas religiões, como a Cientologia ou Nascidos de Novo Cristãos (Born again Christians). Para nós, Maçons do Rito Escocês Antigo e Aceito, o Grande Arquiteto do Universo está a salvo destas discussões porque representa um símbolo, e um símbolo é interpretável por cada um de acordo com a abertura de sua consciência.

Para o Rito Escocês Antigo e Aceito, o Grande Arquiteto do Universo é o Princípio Criador. Etimologicamente, “princípio”, deriva do latim de principium, derivado de princeps, “que ocupa o primeiro lugar”. Significa “começo, origem dos tempos, causa original, fonte de todas as coisas”, então o adjetivo “criador” é supérfluo porque já está implícito no termo “princípio”. Pessoalmente, já anunciei várias vezes (e minha definição foi repetida no Journal de la Grande Loge de France), defendo a noção de princípio com P maiúsculo sem qualquer outro qualificador. Para mim este termo reconcilia todas as interpretações tomando uma dimensão transcendente aceitável por todos que procuram de boa-fé, sejam crentes ou incrédulo, mantendo uma religião venerando um Deus ou uma religião sem um Deus (como o budismo Ortodoxo).

Cristo em pé sobre o globo, cercado pelos quatro elementos (Lyon, Mathieu Huss, 1482)

Assim como Deus, o Princípio está sob o domínio do incognoscível, mas, diferentemente da religião, você não pode dar um nome sem cair em uma forma de profanação. É inefável que, sem nomear, a qualificação de Grande Arquiteto do Universo permite aos descendentes dos construtores que concebam uma entidade acessível à razão humana sem dar a ela poderes sobrenaturais que provavelmente favorecem a superstição. Se transpusermos essa qualificação de plano espiritual para o plano material, encontramos no Grande Arquiteto as noções da arquitetura de base, a saber: Ordem, Plano, Geometria, Harmonia, todas as noções que o homem pode integrar facilmente em seu sistema de pensamento.

Este princípio transcendente repousa não apenas na Palavra criativa, mas também na Luz (é necessário sabermos que a origem indo-europeia da palavra “Deus” denota a ideia de brilho). Esta trindade esotérica Princípio / Palavra / Luz, que não vai contra a interpretação religiosa da Trindade, baseada no tríptico Pai / Filho / Espírito Santo.

Nesse sentido, qual é a atitude da Igreja em relação a Maçonaria? Enquanto o Grande Arquiteto era Deus, nunca houve o menor problema. Mas a partir do momento em que os dois símbolos não coincidem mais a partir do século XVIII, as relações estragam e a atitude da Igreja se torna mais radical. Como os regimes totalitários político ou militares que a condenaram e ainda hoje a condenam, a Igreja Apostólica Católica Romana não foi deixada para trás em sua perseguição à Maçonaria. Para constar, mencionarei apenas os textos mais importantes publicados desde o nascimento da Maçonaria, na França e nos países subservientes a Roma:

  • A bula In eminenti apostolanus specula de 28 de abril 1738 do papa Clemente XII condenando os Francos-Maçons “que se reúnem na escuridão do segredo porque odeiam a luz”;
  • A bula Providas romanorum de Bento XIV de 16 de março de 1751, que confirma a penalidade de proibição e de excomunhão de 1738;
  • A carta apostólica Quo graviora de Leão XII de 13 de março de 1826, recordando a condenação da sociedade dos Franco-Maçons;
  • A cíclica Humanum genus de Leão XII de 20 de abril de 1884, confirmando a condenação da Franco-Maçonaria;
  • Mais perto de nós, a carta do Presidente da Congregação da Doutrina da Fé de 26 de novembro 1983, reafirmando a incompatibilidade entre a Igreja e Maçonaria; [2]
  • Deste último decorre a demissão em maio de 2013 do Pároco de Megève, infligido pelo bispo de Annecy o pedido do Vaticano de pertencer ao Grande Oriente da França, alegando que pertencer a Maçonaria e o serviço da Igreja Católica são incompatíveis.

Pessoalmente, considero que a condenação da Maçonaria pelo Vaticano aplica-se a Maçonaria sectária e anticlerical, mas nunca se referiu ao Rito Escocês Antigo e Aceito, porque nunca se opôs abertamente à religião, pelo contrário. Basta lembrar dessa passagem do manifesto do Concílio de Lausanne para se convencer disso:

“Para os homens para quem a religião é o consolo supremo, a Maçonaria [3] diz: cultive sua religião sem impedimentos, siga as inspirações de sua consciência; Maçonaria não é uma religião, ela não tem um culto …”.

Mais recentemente, outras Igrejas também tem se declarado hostis à Maçonaria, como a Igreja Anglicana cerca de vinte anos atrás, e as Seitas sectárias americanas como a Cientologia e os Nascidos de Novo Cristãos (Born again Christians), mas por diferentes razões: de fato, a Maçonaria Anglo-Saxônica, que é um quintal das Igrejas estabelecidas, é considerado um concorrente por Canterbury, uma vez que o número de fiéis caiu acentuadamente na prática do culto na Grã-Bretanha; por causa do importante lugar que ocupa nos Estados Unidos, representa um déficit para seitas de todos os tipos que passaram do declínio da espiritualidade para o benefício da religiosidade.

Após essa digressão no mundo da religião, vamos voltar ao nosso assunto.

O Princípio preexiste necessariamente a Palavra e para a Luz que são energias, isto é, forças. Até o espírito mais rebelde da metafísica é obrigado a observar que:

  • Por trás do princípio, existe a fonte, há energia,
  • Por trás da energia existe a lei, ou seja, um conjunto de regras,
  • Por trás da lei está o plano que permite o cimento de todas as coisas,
  • E que o plano apresenta o Arquiteto que o concebe.

E isso está em perfeita concordância com o conceito de Grande Arquiteto do Universo, ao mesmo tempo um símbolo menos redutivo e menos violador da consciência do que a interpretação de um Deus revelado, uma abordagem metafísica acessível a razão humana. Além disso, um símbolo é por definição interpretável e evolutivo de acordo com o conhecimento de cada um, seja cultural, religioso ou espiritual. Este símbolo tem, por outro lado, a vantagem de reconciliar religiões dogmáticas e religiões que não reconhecem a ideia de um Deus criador, tantos os crentes quanto os não crentes. Finalmente, este símbolo difere da ideia de Deus, pois ele representa um conceito, e nesse sentido ele não pode julgar nem Punir, muito menos ser adorado.

Assim, por reposicionamentos sucessivos na história da Maçonaria iniciática, o Grande Arquiteto do Universo foi gradualmente se destacando do conceito de Deus. O espaço assim criado entre Deus, proposto como o detentor da Verdade revelada, e o Grande Arquiteto do Universo, símbolo do Princípio, surgiu como um espaço de liberdade para as pressões por uma espiritualidade livre de todos os dogmas. Para o homem livre, elaborar sua própria ideia da Divindade se torna um dos desafios do século XXI.

No mesmo sentido dessa evolução do conceito da divindade, o lema dos Conselhos Supremos do Mundo, Deus meumque Juice (ou seja, o certo, para o Maçom Escocês, interpretar Deus de acordo com sua cultura e o grau de abertura do seu espírito), que combina harmoniosamente fé e razão e especifica o relacionamento reconhecido pelo Rito entre o Divino e o Homem, este último não sendo imposto, em sua qualidade de Maçom, de nenhuma outra maneira além da escolhida por sua consciência como um homem livre. E nessa afirmação do Grande Arquiteto do Universo, o Sistema Escocês respeita a liberdade de todos de pensarem ou não sobre a divindade. Após o Concílio de Lausanne, o Soberano Grande Comendador Crémieux declarou:

“Não damos forma ao Grande Arquiteto do Universo, deixamos cada indivíduo pensar o que quiser.”

Porque Deus é algo pessoal que não se compartilha. O Maçom Escocês não está esperando por uma resposta revelada, muito menos uma definição mundial. Aí reside a dificuldade da abordagem iniciática, mas descobrir toda a sua grandeza e procurar por seus mistérios nos permite alcançar harmonia e equilíbrio que garante a nossa plenitude como homens.

Atualmente, alguns cientistas de alto escalão têm uma visão da divindade muito próxima da nossa. Assim, o astrofísico Trinh Xuan Thuan, em Caos e Harmonia, publicado pela Fayard Editions, escreve:

“O universo é definido com extrema precisão. São necessários pouco mais de dez números (na verdade quinze números chamados “constantes físicas”) para descrevê-lo: o da força gravitacional, a velocidade da luz, aquela que dita o tamanho dos átomos, sua massa, a carga de elétrons, etc. No entanto, seria suficiente que um desses números fosse diferente para que o universo inteiro e, portanto, nós, não existíssemos. Uma relojoaria muito delicada porque, com mudanças de algumas casas decimais, nada acontece e o universo é estéril. O Big Bang tinha que ter alguma densidade. Estrelas produzem carbono. A Terra está a certa distância do sol. A atmosfera tinha uma boa composição. Tudo isso foi necessário para a vida aparecer. Milhares de outras combinações foram possíveis. Os físicos recriam [essa atmosfera] em laboratório, mas nenhum cria à vida. Essa competição de circunstâncias é extraordinária demais para que o acaso seja o único responsável.”

O autor usa a metáfora da relojoaria, como a definição de Voltaire de Grand Horloger (“É impossível para mim conceber ver um relógio sem relojoeiro”), mas especialmente detectamos a presença de um espírito acima de tudo, imaginação ou elucubração, como Nativos americanos que usam a frase “Great Manitou” (Grande Espírito) para designar Deus.

Em conclusão, o Franco-Maçom Escocês descobre que pertence a um conjunto universal unido governado pelo Princípio, símbolo da transcendência, sem o direcionamento a um Yahvé, um Deus, um Alá ou um Buda ou qualquer outro ídolo, conceitos que limitam aos preceitos de uma Igreja, com exclusão de todas as outras crenças. Através da iniciação, a fé se manifesta no nível de uma experiência interior independente de dogmas que restringem a liberdade de consciência.

Embora se recuse a lidar com questões da vida cotidiana (no nível religioso, político ou social) sem ignorá-la, o caminho escocês é um caminho exclusivamente iniciático em sua dimensão espiritual, que torna o maior grupo de Maçons do mundo.

Tradução: Rodrigo de Oliveira Menezes

Texto recebido por e-mail, sem o nome do autor, em Francês. Traduzido e publicado.

Fonte: Ritos & Rituais

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Notas

[1] – Independente da interpretação do autor, vale a ressalva que a Proclamação de Princípios do Concílio de Lausanne foi o ponto principal de embate entre os Supremos Conselhos, fazendo com que muitas das determinações acolhidas pelos seus representantes não fosse aceita ou seguida por Escócia, Estados Unidos e demais países alinhados. Existe um artigo muito bem escrito no próprio site que narra todo esse desenrolar podendo ser acessado pelo link: https://ritoserituais.com.br/2018/09/19/o-concilio-dos-supremos-conselhos-do-rito-escoces-antigo-e-aceito-parte-1/

[2] – A íntegra desse texto já foi publicada no site através do link: http://ritoserituais.com.br/2019/06/25/macom-pode-comungar/

[3] – Naturalmente, esta é a Maçonaria do Rito Escocês Antigo e Aceito.

O significado da Páscoa

ENDOENÇAS: MARGENS DO RIO TÂMEGA E DOURO VOLTAM A ILUMINAR-SE ...

A Páscoa, como a maioria das pessoas imagina, não é uma festa somente cristã. A palavra Páscoa vem do hebraico Passach, que significa “passagem”. Ela foi instituída pelos judeus, quando ainda estavam no cativeiro no Egito. Refere-se não a passagem do povo judeu do Egito para a terra prometida, mas sim que Deus iria “passar” pela terra do Egito, e ferir os primogênitos, sejam de homens ou animais.

Ela deve ser comemorada no dia 14 do mês de Nissan, que é o primeiro mês do calendário judaico.

De acordo com as tradições judaicas, ela foi comemorada pela primeira vez há 3.500 anos, quando Deus enviou ao Egito as dez pragas, conforme relatado no livro de Êxodo.

Ao contrário dos cristãos, que se abstém de carne na sexta-feira santa, os judeus comem carne de carneiro com pão ázimo.

Enquanto os judeus comemoram a Páscoa indicando a passagem de Deus pelas terras do Egito, os cristãos celebram a ressurreição de Cristo, ocorrida três dias após sua crucificação, sendo considerado um dos dias mais importantes do cristianismo.

O cristianismo adotou muitos dos ritos judaicos, sendo a Páscoa uma delas. Mas a igreja, para distinguir da Páscoa judaica, decidiu que a data cristã seria comemorada no primeiro domingo após a Páscoa dos judeus, ou seja, após a primeira lua cheia da primavera que ocorre no hemisfério norte. Dai a Páscoa sempre ocorrer entre o dia 22 de março e 25 de abril.

Muitos dos costumes ligados ao período pascal originam-se dos festivais dos povos pré-cristãos da primavera.

Na Europa, esses povos homenageavam a deusa Ostera ou Ostara ou ainda Esther, sendo que, na língua inglesa, Easter quer dizer Páscoa.

Ostara era a deusa da Primavera, que era representada segurando um ovo em sua mão e observando um coelho, que era considerado símbolo da fertilidade. Tanto o ovo como o coelho são símbolos da chegada de uma nova vida. A celebração era realizada no Equinócio de primavera no hemisfério norte. Representa também o renascimento da terra após o inverno, a chegada da luz. Assim como muitos deuses antigos, Ostara foi cristianizada, bem como os seus símbolos, o ovo e o coelho.

Na Maçonaria essa data é celebrada, nos graus filosóficos, por uma sessão especial, a da Quinta-feira de Endoenças. Essa tradição pertence ao Grau de Cavaleiro Rosa Cruz, praticado no Brasil pelo Grau 18 do Rito Escocês Antigo e Aceito.

Independentemente de ter origem pré-cristã, o significado da Páscoa hoje é reforçar no coração de todos, que devemos ter um novo recomeço, perdoando nossos desafetos, sendo também um momento de começar uma nova jornada abandonando velhos vícios e hábitos.

Autor: Dermivaldo Colinetti
ARLS Rui Barbosa, Nº 46 – GLMMG – Oriente de São Lourenço

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Referências

A diferença entra as Páscoa Judaica e Cristã e sua influência na Maçonaria – College Adoniramita.

A origem da Páscoa – Autor desconhecido.

Pessach e Páscoa – A diferença entre as festas judaicas e cristãs e suas influências na Maçonaria. Luis Genaro L. Fígoli.

 

O problema da proibição da política e da religião na maçonaria

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É uma das primeiras coisas que nos dizem sobre a maçonaria, seja como instrução a um novo membro ou explicando alguns princípios básicos aos profanos.

“Não discutimos política nem religião na loja. É divisivo”. Também podemos ouvir algo do tipo: “Não há dois assuntos que dividam tanto os homens como política e religião”.

A esperança é que, ao aderir a essas “regras”, surja uma organização mais unificada. Nós, como membros desta fraternidade, pretendemos ser irmãos, não apenas no título, mas na mais ampla importância do termo. Devemos chorar com nossos irmãos, alegrar-nos com nossos irmãos, estar intimamente ligados a eles – ter Storge, que é o termo grego para um amor familiar. O escritor Irlandês C.S. Lewis, autor da obra “As Crônicas de Nárnia”, considerava que: “O amor familiar é responsável por 9/10 de toda a felicidade humana sólida e duradoura”.

Esse amor é da maior importância. Ele fornece uma base para nossos relacionamentos e gentilmente nos guia em nossas ações ao interagir com nossos irmãos de fraternidade. Unidade é o objetivo. Não podemos ter homens com raiva uns dos outros e também sermos unidos, não da maneira que queremos. Queremos promover uma visão unificada de melhorar os homens bons, elevar a condição humana e a mente consciente. Acima de tudo, tratamos nossos membros como família. Somos uma coleção diversificada de pessoas, todas com origens, costumes e crenças diferentes. Assim como no mundo profano, onde temos famílias biológicas com crenças diferentes das nossas.

Em nossas várias interações com nossa família, nos desviamos da discussão sobre política e religião?

Nos últimos tempos, essa resposta é “Sim”. De acordo com uma pesquisa da CBS de 2018, a maioria dos americanos não fala de política na mesa de jantar no Dia de Ação de Graças. Atualmente, as opiniões políticas são mais do que divisivas, são acusatórias, são definidoras, são mal compreendidas. Absolutamente polarizadoras e disruptivas. Esta é uma tendência que, no Brasil, virou uma febre a partir das últimas eleições.

A apreensão, o medo e a ansiedade que temos como sociedade em termos de discussão de nossas ideologias e outras crenças derivam de algumas deficiências simplistas.

Quando estão ocorrendo discussões de qualquer tipo, existe uma incapacidade da pessoa comum escutar, pensar e fazer perguntas refinadas sobre as ideias que estão sendo propostas. Nós ouvimos algumas palavras-chave e nossa atenção é imediatamente atraída para nossas próprias mentes, instantaneamente respondendo e tomando uma série de tangentes mentais. Perdemos a capacidade de perguntar e ouvir, para apenas repetir.

Uma vez que ouvimos uma opinião contrária à nossa, o primeiro ponto é procurar entender o que ela está querendo dizer, qual a sua visão sobre o assunto. Então, se você não concordar, apresente sua posição. Isso é apropriado, educado e nos permite crescer através da expressão mútua de ideias.

Em segundo lugar, temos um problema com a dissonância cognitiva. Esta é a aversão emocional em aprender algo que pode não apoiar ou que pode estar em completo contraste com uma ideia em que passamos anos acreditando.

Para ilustrar esta ideia, dou o exemplo de um homem que foi para a prisão por um assassinato há dez anos. O depoimento de testemunhas oculares, juntamente com o principal trabalho de investigação, foi usado na condenação do homem. O entendimento de que este homem era culpado era algo acreditado pela acusação. Sua convicção era prova da sua culpa absoluta. Anos depois, há um apelo. Evidência de DNA está disponível e, pela primeira vez, nosso homem condenado tem a chance de provar sua inocência. O caso é reaberto, o DNA é testado e sua inocência é comprovada. Nas mentes das pessoas que colocaram o homem na prisão ainda há a certeza de que ele é culpado. Este é um exemplo de dissonância cognitiva. Quando deixamos de reconhecer novas informações, independentemente do que isso significa para nós, não conseguimos progredir mentalmente e emocionalmente.

Se pudermos aprender a abordar essas coisas como uma sociedade, então talvez haja uma chance de crescimento e comprometimento efetivo. Isso, no entanto, é apenas um começo.

Abordando nossas vulnerabilidades

Temos uma incapacidade de admitir vulnerabilidade aos nossos pares. Especificamente, não admitimos quando não entendemos algo. Não há vergonha em admitir que não entendemos um conceito político ou religioso.

Todos nós temos receio disso, porque ao admitir que não entendemos algo, podemos ser notoriamente rotulados como de conhecimento inferior. Em vez de ajudar alguém a entender, algumas pessoas a rotulam como ignorantes e parte do problema. Isto está errado.

Fortalecendo a mente

Temos um analfabetismo geral da mente que só é enfraquecido por uma incapacidade ou uma ignorância intencional para tentar entender melhor. Essa “tentativa” é uma ação – um exercício que, sem seu uso, atrofia nossas mentes e a consequência é um quadro em branco pelo qual a mídia politicamente carregada pode imprimir sua própria versão de eventos. Uma mensagem subjetiva que é apresentada em uma rede promoverá uma maneira de pensar ou narrativa que é projetada para conquistar uma mente simples ou solidificar a crença existente do observador.

A única maneira de combater isso é praticar suas próprias habilidades de pensamento crítico. É difícil. Todos conhecemos os perigos de compartilhar artigos em mídias sociais sem lê-los, baseando nossa participação em um excelente título. Isto é relevante porque este é um exemplo de não pensar criticamente, não ler, não absorver a informação real para si mesmo.

Consumindo ideias

Isto nem sempre foi desse jeito. Houve um tempo antes das mídias sociais, antes que as manchetes fossem ressaltadas com o número de minutos que levaria para ler, por exemplo, “3 minutos de leitura”. Aparecendo sob um artigo postado no Facebook. No passado, precisaríamos pegar o papel ou o livro, abrir e lê-lo. Digeri-lo, falar com nossos amigos, familiares, vizinhos e colegas de trabalho, a fim de trabalhar a informação em nossas mentes. Se viajarmos mais para trás no tempo, você poderia notar que o título dos livros vinha no final do texto. Por exemplo, no final dos evangelhos, pode-se ler algo como: “Este é o evangelho segundo João”. Dessa forma, você leria o livro e depois obteria um título. Hoje, temos um título e, se não formos atraídos, passamos adiante.

Nos dias de outrora, pré-internet, cobertura de notícias pré-24 horas, presumo que talvez tenhamos sido melhores em discussões e em pensamento crítico. Provavelmente, porque nós tivemos que ser. Agora estamos muito ocupados para fazer nossa própria pesquisa, para nos ocuparmos de formar nossas próprias opiniões e confiar naquilo em que confiamos para ser notícias e informações precisas e objetivas.

Como o ator Bing Crosby disse no filme “White Christmas” de 1954, “todo mundo tem um ângulo”. Você sabe como é o ângulo do outro? Não. O único ângulo que podemos ter é o de tentar entender e, pelo nosso entendimento, pelo nosso ângulo de vista.

E o que isso tem a ver com a Maçonaria?

Por que proibimos os tópicos de religião e política dentro das lojas?

Eles são divisivos, sim, mas apenas quando decidimos não praticar as três primeiras peças das artes e ciências liberais. Aquelas três artes cuja fundação é baseada na fé da intenção, compreensão e amor ao nosso irmão. O Trivium – Gramática, Retórica e Lógica, que são encobertos nas lojas e a ênfase é quase inteiramente dada ao Quadrivium.

Mas, vamos ser honestos, quantos realmente estudaram isso quando nos foi dito?

O que descrevi acima são apenas algumas técnicas sobre como podemos começar a utilizar o Trivium para entender e manter um discurso educado com o objetivo de encontrar um terreno comum e resolver nossos problemas.

Diz-se que a Maçonaria é uma Ciência Moral Progressista. Muito do que falamos dentro da Ordem é de uma linguagem desconhecida. Enquanto afirmamos que entendemos as palavras e o significado, a realidade é que não entendemos. Nós raramente olhamos para o significado das palavras visualizando o tempo em que estas palavras foram escritas. As palavras mudam com o tempo e seus significados também.

Um exemplo maravilhoso é a palavra “Condescendência”. No uso atual, é algo negativo. Mas quando a palavra foi escrita, no entanto, significou algo totalmente diferente. Significava se encontrar no nível.

Vejamos as palavras, Ciência Moral Progressista, muito utilizadas para se referir a maçonaria, em seu uso contextual – isto é, o que essas palavras queriam dizer quando foram escritas. Este exercício nos permitirá compreender se estamos realmente agindo de acordo com os ditames da Maçonaria, algo com o qual estamos frequentemente preocupados, em outras palavras, protegendo a visão como exposta pelos documentos “sacrossantos”, “antigas obrigações” e os famosos “Landmarks”, como alguns gostam de citar.

A palavra “progressista” tem sido usada desde a década de 1600 na maioria das vezes para descrever o idealismo e movê-lo para frente. Embora isso possa não ser novidade para você, será novidade para aqueles que dizem que a palavra “Progressista” serve apenas para transmitir que “Progredimos” de grau para grau. Porque é mais provável que o primeiro, quando dizemos uma ciência moral “progressista”, estamos definindo o tom para um propósito. Esse propósito é aprovar um sistema pelo qual podemos influenciar um idealizador que promova a aceitação e as reformas sociais. Este ponto é ainda mais apoiado quando olhamos para a próxima palavra, “Moral”.

A palavra “moral” pode ser rastreada até os anos 1400 e seu uso lá, retrata o ideal de caráter e as ideias que alguém exibe no seu dia-a-dia. Seus comportamentos são definidos como sua moralidade. À medida que progredimos no tempo, provavelmente no período em que a linguagem foi usada em nossa fraternidade, a palavra mudou muito pouco. Agora é assumido não apenas os comportamentos, mas também o conceito de costumes. Finalmente, em 1752, vemos o uso para descrever os princípios, a boa conduta e a confiança de alguém. Curiosamente, mantém a ideia de costumes também, o que é muito relevante quando consideramos que existem vários costumes em todo o mundo. Além disso, cada um desses costumes é de natureza subjetiva no país de onde nasceram. Por exemplo. Alguém usa a mão esquerda para saudar? E se assim for, é essa “moral” na região em que a saudação foi dada?

Esta informação apoia a ideia de que a palavra “Progressista” significa ou está ligada a “Reformas Sociais”.

Em seguida, devemos olhar para a palavra “Ciência”. A partir de meados dos anos 1300, vemos que é usado para descrever o conhecimento, a aplicação do conhecimento e da aprendizagem. Este permaneceu assim até hoje.

Por essa exploração, devemos necessariamente nos perguntar como praticamos essa Arte Real?

Obviamente, vamos nos deparar com um enigma. Ainda não viu? Vamos continuar.

O enigma explicado

Há um ponto em que nossos governos nos forneceram líderes através do processo de meios democráticos. Esses líderes são titãs construídos no idealismo e financiados por doações de constituintes, lobistas e empresas. Esses líderes nos dão as leis pelas quais devemos viver e, no entanto, de onde tiram essas leis? Nossas leis derivam, na maioria dos casos, da nossa visão filosófica da vida – a maior parte disso é dada a nós através de nossas várias crenças e, em outras ocasiões, é derivada da simples reflexão sobre a condição humana.

Nosso sistema político, tal como existe, assumiu o idealismo dado por nossos textos religiosos. Para tornar as coisas mais complicadas, ele é amplamente baseado na questão das interpretações desses textos. Esta é a natureza humana, para dar sentido às coisas e querer governar com um conjunto de ideias em que se acredita, para transmitir o melhor modo de viver, para promover a ideia de unidade acima mencionada.

Por natureza, um governo deve tratar das questões do povo. A nossa constituição nos dá o direito à “vida e a liberdade”. Um sentimento semelhante na natureza vem de Thomas Paine, em seu livro The Rights of Man, no qual ele lista o papel do governo. No seu caso, a monarquia britânica e parlamento.

“O único propósito do governo é salvaguardar o indivíduo e seus direitos inerentes e inalienáveis; cada instituição social que não beneficia a nação é ilegítima – especialmente a monarquia e a aristocracia ”.

A fim de ajudar a nação, um governo assume a si próprio para abordar as reformas sociais, a “ciência moral progressista”. Não é surpreendente, considerando a conexão maçônica com a filosofia fundadora de nosso país.

O resultado/problema

Então, o resultado final é que a religião se infiltrou na política e tornou os dois inseparáveis. Além disso, o sistema político assumiu o que a fraternidade maçônica é encarregada de fazer. E, porque estes são agora inseparáveis, muitos não discutem a “Ciência Moral Progressista” em seu contexto apropriado sem violar nossa posição contra a discussão de política ou religião em nossas lojas.

Hoje, se você me disser algo em que acredita, posso apostar que seria rotulado como uma definição ampla de um campo político. Provavelmente como de Direita ou de Esquerda, devido ao extremismo presente no Brasil atual. Alternativamente, você poderia me dizer qual partido político do qual você é membro e eu vou adivinhar o seu alinhamento Religioso.

O Pew Research Center publicou uma enquete que nos fornece os dados sobre esse tópico. A afiliação partidária quase se tornou a nova religião devido aos valores morais que foram absorvidos pela instituição. Uma ideia simples como ajudar os menos afortunados através de um imposto é democrata e apoiar as mesmas pessoas através de doação voluntária é vista como republicana. O resultado é semelhante, mas a maneira como chegamos lá é diferente. A disputa que existe é em grande parte impulsionada pela compreensão dos direitos humanos no que se refere à nossa própria propriedade e sua capacidade de ser tributada ou não, e uma série de outras várias minúcias filosóficas.

Voltando ao início deste artigo, eu delineei um conjunto de práticas em que as pessoas poderiam começar a manter o discurso social e trabalhar para entender um ao outro. Se fizéssemos isso, poderíamos então começar a falar sobre questões que afetam a sociedade e despertar mais consciência do que nossos temperamentos?

Eu me pergunto se não há problema em discutir em uma loja de materiais de construção, a segurança de um grupo de trabalhadores locais que estão construindo um prédio?

Eu poderia fazer isso de tal maneira e organizar um programa social ou mesmo introduzir um projeto de lei no governo local para ajudar esses trabalhadores?

Você poderia usar a loja maçônica para falar aos nossos irmãos benevolentes sobre uma injustiça social que aconteceu na comunidade?

A resposta muitas vezes é um retumbante, “Não”.

Há uma grande confusão entre política e valores morais. Como eu sei disso? Porque eu já vi isso ser derrubado em uma loja. Porque eu tenho visto homens educados sob acusações maçônicas por tentarem praticar a “Ciência Moral Progressista”. Uma ideia simples para auxiliar e organizar algo para a comunidade, devido à jurisdição intelectual dos governos locais sobre todas as coisas relacionadas ao bem-estar de seus constituintes, é por vezes entendido como assunto de natureza política e, como tal, banido da loja.

Nos resta apenas doar dinheiro para causas benignas. Doando dinheiro para organizações que fazem o trabalho por nós e que provavelmente contribuem para os próprios políticos que prometem ajudar. Nós abandonamos a intenção original da Maçonaria? Nós negamos isso completamente? Ou talvez, o que temos feito é simplesmente o melhor que podemos fazer desde que nos vinculamos a ordem?

Conclusão

É minha intenção demonstrar algo muito real. Diretamente, que pelo exercício de remover nosso direito de discutir política ou religião dentro de uma loja, nós efetivamente neutralizamos nossa capacidade de praticar a Arte Real dentro do contexto de nosso propósito declarado original. Abandonando nossa tradição, sem nunca perceber. Por um lado, nos opomos veementemente a mudanças em qualquer coisa, por outro lado, ignoramos o que já mudou e aceitamos as limitações que colocamos em nós mesmos.

Se quisermos assumir o controle e praticar a Maçonaria, então devemos aprender como efetivamente comunicar, ouvir, digerir, fazer mais perguntas, ouvir de novo e compreender. Por essa ação, podemos ser capazes de ter essas discussões dentro de uma Loja e, portanto, afetar nossas comunidades locais, trabalhando verdadeiramente para a melhoria da condição humana. Talvez até mesmo deixar o mundo em uma versão melhor do que era antes de entrarmos nisso. Talvez em vez de proibir conversas de natureza religiosa ou política, deveríamos, ao contrário, treinar como manter um discurso apropriado.

Sem dúvida, não há recurso para separar a ideologia política da ideologia religiosa. A ligação é indissolúvel. Talvez com razão. Há, ao longo dos tempos, discussões filosóficas sobre se a humanidade pode ter um conjunto de morais sem ter um dogma religioso codificado do qual seria lamentável. Mais uma vez, os dois lados, que discordam ardentemente sobre a revelação dos direitos humanos e a moralidade.

Ao fechar este diálogo, desejo fazer um pedido a você, caro leitor, que é estar atento. Escutar antes de formular uma resposta e tentar, por mais desconfortável que seja, ver as coisas do ponto de vista de seu irmão. Se coloque no lugar dele, verdadeiramente. Somente através da tentativa deste exercício de percepção podemos ver a fundação de uma ideia estranha a nós, e a partir daí, onde podemos alinhar nossos valores e nos esforçar para incorporar a Unidade. Então, podemos praticar a Arte Real da Maçonaria, a Ciência Moral Progressista.

Autor: Robert H. Johnson
Tradução: Luciano R. Rodrigues

Fonte: Blog O Prumo de Hiram

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O equívoco da Escada de Jacó no REAA

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Tal afirmação poderá talvez “chocar” alguns irmãos do Rito Escocês Antigo e Aceito, acostumados a ouvirem falar constantemente quando das cerimônias de iniciação, elevação e exaltação e também nos graus denominados superiores (Altos Graus) que o maçom subiu mais um degrau na Escada de Jacó, aludindo é claro, a ascensão do maçom nos graus do REAA. Ledo engano; e falsa prédica.

A Maçonaria sempre foi perseguida pelo fanatismo religioso, desde a sua criação como Maçonaria dos Aceitos, ou Especulativa. No ano de 1738, cerca de 15 anos após a publicação da Constituição de Anderson, o Papa Clemente XII promulgou a Bula Papal “In Eminente”, excomungando a Maçonaria. A partir deste evento, através do Irmão Jonh Payne (Grão-Mestre), os Maçons passaram a adotar o…

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Fé e Razão: a liberdade de consciência na Maçonaria e a religiosidade

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1. Maçonaria e religião: breve visada histórica

Muito antes da Antiguidade, a vida profana se confundia com o sagrado. A partir da chamada Revolução Cognitiva, ocorrida há, aproximadamente, 50 mil anos, os humanos começaram a conferir significados para a realidade imediata que iam além do mundo material. Aqueles humanos antigos, então, passaram a simbolizar elementos de sua existência. Com isso, fenômenos naturais passaram a não ser apenas o resultado das forças da natureza agindo entre si, mas a manifestação de seres invisíveis, que interagiam neste mundo e, por vezes, controlavam os desígnios da humanidade. Assim, para muitos povos antigos, e também do presente, a vida seria regida pela vontade divina, manifestada por meio de eventos naturais e de acontecimentos das sociedades humanas que incluíam, entre outros, o mundo do trabalho.

É nesse sentido que é possível a compreensão da intensa relação estabelecida, na Idade Média da Europa central, tema de nossa atenção por ter sido o berço da Maçonaria, entre o trabalho e a espiritualidade, sobretudo por parte, no que diz respeito à história maçônica, da Ordem dos Templários e das corporações de ofício de construtores (NAUDON, 1964, p. 99 e ss.). Percebe-se nitidamente, nessas instituições, que o trabalho era marcado não apenas pelo caráter operativo (sua realização em si, como esquadrinhar e cortar pedras, empilhar toras de madeira, trançar fios para fabricar cordas, ordenhar animais, cuidar das plantações, alimentar os animais, entre muitos outros), mas também por muita especulação (observações empíricas da natureza, investigações teóricas, realizações de cálculos, reflexões etc.).

Um dos exemplos mais paradigmáticos dessa relação, ou seja, dessa mistura entre operativo e especulativo pode ser visto na Regra Beneditina, estabelecida por São Bento de Núrsia no século VI. De acordo com seus 73 capítulos, as comunidades religiosas cistercienses deveriam ser fixas e contar com todos os meios necessários para sua sobrevivência. Os mosteiros, portanto, precisavam ser autossuficientes, de modo que se encontrem no seu interior todas as coisas necessárias, isto é, água, um moinho,um jardim, uma padaria e oficinas, para que se possa exercer no próprio interior do monastério os diversos ofícios, conforme o capítulo LXVI, versículos 6-7, da Règle de Saint Benoît (SCHMITZ, 2018, tradução do autor). A explicação para isso, neste caso, era a garantia do isolamento dos monges cistercienses, em linha com os preceitos da ordem monástica (JORGE, 2012, p. 39-40). Independentemente de suas origens históricas, a Maçonaria também incorporou, como não poderia deixar de ser, a mistura do Operativo com o Especulativo, observada nas ações de solidariedade, na realização de cultos, nos deveres religiosos, na filantropia e na educação dos aprendizes, incluindo rituais de cunho religioso para a transmissão dos old charges. Entretanto, a peculiaridade da Maçonaria, em comparação com as demais corporações de ofício medievais, residiu na admissão dos chamados aceitos, que incluíam, entre outros, alquimistas. Vale destacar que esses alquimistas, assim como os integrantes da Rosa Cruz aceitos na Ordem maçônica no século XVIII, tiveram grande importância para a consolidação do caráter especulativo da Maçonaria, contribuindo para o aprofundamento dos estudos do que hoje chamamos de desenvolvimento interior, destinados para o trabalho reflexivo por parte dos maçons.

2. Os aceitos

A liberdade de deslocamento concedida aos franco-maçons medievais os havia levado a formar laços com pessoas de diversas localidades, tecendo, assim, uma rede de proteção para os que se moviam de um local para outro. Adentrado o século XVIII, essa transição se completou, primeiro na Escócia, depois na Inglaterra, tendo contribuído para isso o declínio, ainda no século XVII, das corporações de ofício e das guildas, acompanhado pelo desenvolvimento e expansão de uma economia capitalista que levou a mudanças nos ritos de sociabilidade entre membros de distintos grupos sociais, em especial a pequena nobreza e a burguesia.

Como resultado da incorporação e ampliação dos aceitos em seu meio, a Maçonaria oitocentista da Europa se constituiu como espaço de tensões e ambiguidades, na medida em que representava toda a configuração social do Antigo Regime – que teve na França seu mais alto grau de refinamento –, baseada na simbologia tradicional de hierarquia e condição social, ao mesmo tempo que construía as bases de uma sociedade que hoje pode ser definida, clara e inequivocamente, como democrática. Nesse sentido, Vieira lembra que a Grande Loja de Londres era dirigida nos seus primórdios por quatro nobres titulados, cinco fidalgos, cinco profissionais da classe média e cinco artesãos, sendo dois marmorários, um carpinteiro, um ferreiro e um pedreiro (VIEIRA, 1987, p. 199). Nas Lojas, os maçons disputavam o poder, debatiam ideias, concorriam de acordo com regras estabelecidas em leis e Constituições, elegiam seus representantes por meio de votações, distribuíam funções de acordo com a ocupação que cada maçom tinha na administração da Loja, preconizavam o abandono das distinções profanas de status e riqueza e possuíam e valorizavam a liberdade de expressão, como bem apontou Margareth Jacob (JACOB, 1991, pp. 179-204). Em sua maioria, não se vinculavam ao Estado e a seus monarcas e aristocratas, o que lhes conferia um vasto espaço de manobra, fornecendo, desse modo, uma alternativa viável à Igreja e ao Estado, ainda que não estivesse livre de conflitos e cisões.

Como contraponto a essas transformações em curso, lembremos que, nessa mesma época, a França era governada por um dos mais significativos reis absolutistas da Europa e as monarquias ibéricas seguravam-se como podiam nas antigas, e já cambaleantes, estruturas administrativas coloniais calcadas no Antigo Regime, com suas mercês e concessões de títulos nobiliárquicos como formas de distribuição de privilégios as quais visavam facilitar a dominação das possessões ultramarinas. Porém, chegado o século XVIII, praticamente toda a Europa já contava com suas Lojas maçônicas. Só em Paris havia 10 mil maçons na década de 1770, para uma população estimada em 600 mil habitantes. Para efeitos de comparação, é como se houvesse, atualmente, 250 mil maçons só na capital paulista – o número real em 2019 beira um décimo dessa cifra.

No século seguinte, a Maçonaria europeia foi marcada por ideias progressistas que visavam à construção de uma fraternidade entre os maçons que fosse universal, viés este que seria gradualmente abandonado ao longo do século XX, diante da crescente crítica aos modelos alternativos de sociedades, em especial os de natureza progressista, como o comunismo e os socialismos (utópico e científico). Apesar desse retrocesso reformista da Maçonaria ocorrido na passagem do século XIX para o XX, um marco renovador que perdurou foi a liberdade de culto concedida a todos os seus integrantes, respaldada pela criação e inserção de símbolos, lendas e mitos que, conforme afirmou o Grande Orador do Supremo Conselho da França em um pronunciamento realizado no começo dos anos 2000, tornou a Maçonaria, em especial o Rito Escocês Antigo e Aceito, livre do reducionismo e aberta à multiplicidade de interpretações, até mesmo opostas entre si (ICHER, 2004).

3. Espiritualidade no REAA

A forte carga simbólica do REAA foi criada em um momento em que a espiritualidade europeia ainda não havia saído, de maneira ampla, dos domínios das religiões católica e protestante, o que explica o fato de a Bíblia ter sido a inspiração para essa construção. Esse cenário começou a ser mudado ao longo da segunda metade do século XVIII, com a inserção do hermetismo, do gnosticismo, do misticismo, da cabala e da Rosa Cruz. No século seguinte, fé e razão começavam a ter suas fronteiras sendo bastante bem definidas, com o crescimento do pensamento laico e do materialismo, em especial entre as camadas cultas. Esse cenário colocou em confronto o tradicionalismo das chamadas religiões do Livro e a espiritualidade filosófica e ampla.

O clima de contestação espiritual chegou à Maçonaria e instigou o que ficou conhecido como a Querela do Grande Arquiteto do Universo. Em 1872, Lojas da Bélgica, e depois em 1877, na França, deixaram de obrigar que os trabalhos fossem dedicados à Glória do Grande Arquiteto do Universo. Diante desse impasse, lideranças do Supremo Conselho da França, na Convenção de Lausanne, de 1875, decidiram pela universalização do tratamento destinado ao Grande Arquiteto do Universo, em vez de limitá-lo ao Deus das religiões, referindo-se a Ele como Criador Supremo, Princípio Criador e Força Superior – lembremos de muitas outras denominações como Deus, Essência Divina, Causa Primeira, Eterno, Ser Supremo, Consciência Ilimitada, Energia, Poder Universal, Natureza Original, Verdade Final, Amor, Perfeição, Luz. Desenvolvia-se, desse modo, o princípio da Liberdade Absoluta de Consciência. Contudo, a decisão tomada em Lausanne não pacificou as ânimos e gerou novas polêmicas que perduram (ICHER, 2004).

A falta de concórdia derivada das medidas adotadas em Lausanne pode ser melhor explicada se forem observadas as particularidades das Maçonarias francesa, também conhecida como Maçonaria Liberal (Grande Oriente da França), e inglesa, chamada de Maçonaria Regular (Grande Loja Unida da Inglaterra): a primeira, praticada na França e no continente europeu, foi marcada pelas transformações trazidas pelo Iluminismo e pela Revolução Francesa que defendiam os direitos como algo intrínseco aos homens, acima de qualquer crença religiosa; a segunda, caracterizada pela tradição e por uma monarquia conservadora. Os lemas de cada uma dessas maçonarias revelam essas diferenças conceituais: ―”Liberdade, Igualdade e Fraternidade” (França) e ― “Sabedoria-Força-Beleza”, que nos EUA se tornaria ―”Fraternidade, Auxílio e Verdade”.

Em 1961, essas diferenças seriam retomadas e aprofundadas. Nesse ano, o Grande Oriente da França e potências liberais fundaram o Centro de Ligação e de Informação das Potências Maçônicas Signatárias do Apelo de Estrasburgo (Clipsas), do qual decorreu a liberdade para as Lojas de: utilizarem ou não a Bíblia; saudarem ou não o Grande Arquiteto do Universo; iniciarem mesmo os que não acreditam na imortalidade da alma; aceitarem ou não ateus; incorporarem pessoas portadoras de deficiências físicas; interpretarem livremente a simbologia maçônica; e debaterem sobre política e religião.

Disputas ideológicas de natureza espiritual à parte, a decisão manifestada na Convenção de Lausanne vai em linha com os preceitos filosófico-iniciáticos da Maçonaria, manifestados no próprio Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA), de uma proposta de retorno a si mesmo ainda antes da cerimônia de Iniciação e, sobretudo, ao longo desta. Esse giro ontológico, essa guinada para dentro, exige do neófito, seguindo a própria ritualística, um esforço intelectual, a instrumentalização de uma razão a serviço de uma busca espiritual. Surge, daí, a necessidade de questionarmos o dualismo tão conclamado nos estudos dos séculos XVIII e XIX feitos sob a perspectiva da industrialização e modernização, a qual opõe, de um lado, a fé, e de outro, a razão. Apesar do inegável industrialismo e dos avanços técnico-científicos promovidos durante esse período, os quais a partir de 1789 vão se juntar ao radicalismo político, jacobino ou não, esse período também deve ser lembrado como o do surgimento de muitas ideias e atitudes que buscavam no além respostas para os dramas e as dúvidas de muitas pessoas.

Por toda a Europa, a partir de meados do século XIX, intensificou-se a procura pelo sobrenatural e místico, que visava obter respostas para problemas que o crescente incremento tecnológico e o desenvolvimento industrial não eram capazes de dar. Assim, milhares de pessoas procuravam no além a resposta para suas angústias pessoais, além de contatos com os mortos, ações que podiam ser atendidas não por meio das tecnologias industriais, mas pelo misticismo. Mesas volantes, gurus espirituais, práticas que se diziam vir do Oriente, novas concepções filosófico-religiosas e clubes místicos se espalhavam por todo o continente europeu (OLIVEIRA, 2019, pp. 28-29).

Concluímos, desse modo, que nenhuma época histórica deve ser analisada sob o prisma de categorizações amplas que promovam restrições ou alargamentos conceituais que estejam descolados do cotidiano daqueles que o viveram.

4. Maçonaria no Brasil: tensões com a Igreja católica e o despertar da razão

Ainda no século XVIII, a Maçonaria chegava à América portuguesa, acompanhada de seus opositores, que acusavam seus membros de incitarem complôs, atos maldosos e sedições, mesmo tendo em vista que o segundo ordenamento das Constituições de Anderson proibisse os maçons de se envolverem em conspirações (VIEIRA, 1987, p. 199).

Um Maçom é uma Pessoa pacífica perante os Poderes Civis, onde quer que resida ou trabalhe, e jamais deverá se envolver em Conjuras ou Conspirações contra a Paz e o Bem-estar da Nação, nem faltar a seus deveres perante os Magistrados inferiores (ANDERSON, 1982, p. 50).

Apesar dessa exigência colocada por Anderson, em acordo com Jean Théophile Desaguliers, no século seguinte essas imagens ligadas a ideia de complô ganharam força, incitadas pela produção e circulação de textos antimaçônicos (BARATA, 2006, p. 127). Ainda nos seus primórdios como organização efetiva e centralizada, a Maçonaria já levara o papa Clemente XII a emitir em 1738 a Constituição Apostólica In Eminentia postolatus specula, a primeira condenação católica formal à Maçonaria, motivado pelo incentivo que esta dava à reunião de homens de diferentes credos e pela manutenção de segredos entre maçons – mas isso não foi uma novidade, pois governos europeus já haviam feito o mesmo na Holanda, em Genebra, na França, na Suécia e em Hamburgo. Tal proibição foi reiterada em 1751, pela bula papal Providas romanorumpontificum, de Benedito XIV.

Em Portugal, suspeitos de heresia, os maçons eram acusados de serem maus católicos e maus vassalos e deveriam ser denunciados à Santa Inquisição, freando a expansão da Ordem. Essa associação entre más posturas como crentes e súditos se explica pelo caráter dual que a Inquisição adotou em Portugal a partir do século XVIII até 1821, quando foi extinta. Ciosa por justificar sua existência após a proibição de perseguir cristãos-novos, os inquisidores foram em busca dos “crimes de pensamento”, que incluíam os maçons. Assim, na época da Revolução Francesa, um mal cristão também era considerado um mal súdito, um inimigo do Estado (BARATA, 2006, p. 139). Por isso, diante da ameaça ao poder monárquico em uma Europa convulsionada pelos ideais libertários, todo comportamento suspeito era passível de perseguição e condenação – apesar de todo esse clima persecutório, a entrada de clérigos na Maçonaria não foi impedida. No início do século XIX, com o crescimento da Maçonaria em Portugal e no Brasil, aumentava também o temor de que os maçons pudessem estar em conluio com os invasores franceses e planejar a queda da monarquia portuguesa. Dava-se, portanto, a junção de maçons como hereges e conspiradores. A lenda negra tomava forma, alimentada pelas associações entre Lojas e revolucionários na França de 1789.

Associar a maçonaria a uma “seita” conspiratória que objetivava a destruição dos “tronos e dos altares” era uma forma de colocar ordem no caos. Era um método de encontrar uma resposta para as profundas mudanças vivenciadas na virada do século XVIII para o século XIX (BARATA, 2006, p. 164).

No mundo luso-brasileiro, seguiam as condenações. A Maçonaria era vista como organização dedicada à dominação mundial. E, assim, a “narrativa do complô” ganhava força no mundo luso-brasileiro.

[…] Estava guardado para nós o sermos testemunhas da maior perseguição, que nunca padeceu a Igreja de Deus, e toda excitada, e fomentada pelos Pedreiros-Livres!!! E querem estes miseráveis, que não estremeçamos, só de lhes ouvirmos o nome! Era necessário que deixássemos de ser Católicos, e que perdêssemos todo o cuidado, e interesse pelas coisas de Deus, para que fizéssemos a vista grossa ao maior Labéu da nação Portuguesa. Franco-Maçom é uma espécie de D. Quixote, ou Cavaleiro andante de Constituições, assim como o herói de Cervantes o era das formosas Dulcineias. Franco-Maçom é uma toupeira com semblante humano, que está ocupada sempre em minar, e escavar, e ainda que veja o poder do mundo a cair-lhe em cima, nem por isso tomará juízo, ou se fará mais comedido. Franco-Maçom é um aborto na classe dos seres racionais, pois se nutre de estragos, e ruínas, e antes quereria ver como Nero incendiada, ou arrasada uma Cidade inteira, do que ver desmentido um só ápice das suas enturradas teorias. Franco-Maçom é um desalmado, que está pronto a envenenar seu próprio Pai, quando seja necessário para os interesses da Seita!!! Ser Franco-Maçom, ou Pedreiro-Livre, é estar sempre em guerra com os seus concidadãos, maquinando contra tudo o que eles mais amam, e respeitam. Ser Franco-Maçom é ser tudo quanto é mau, é quebrar sem pejo os laços mais fortes da vida social, e viver disposto a zombar de todas as Leis, e de todas as autoridades. Ser Franco-Maçom é presumir de saber mais que Nosso Senhor Jesus Cristo, é querer emendar-lhe a mão, e instituir coisa melhor, que a o Evangelho!!! Tudo isto ainda não é nada para o que eles merecem, e creio que será impossível às forças humanas definir exatamente um só pedreiro!!! São eles com efeito os que realizam a adivinha. – Quanto mais se lhe tira maior é. Por mais que se diga, e torne a dizer, sempre fica muito, e muito que arranhar, pois a matéria é inesgotável, dá para tudo, e para todos a fartar (SÃO BOAVENTURA, 1824).

Ainda em 1809, a Imprensa Régia de Portugal publicou a primeira obra antimaçônica autorizada a circular no Brasil, intitulada Os Pedreiros-Livres, e os Iluminados, Que mais Propriamente se deveriam denominar os Tenebrosos, De cujas Seitas se tem formado a Pestilencial Irmandade, a que hoje se chama Jacobinismo. Nela, seu autor aproxima a Maçonaria aos Iluminatti bávaros, para expor os objetivos dessas instituições: a subversão do Trono e do Altar. Esse tipo de publicação só aumentaria nos anos seguintes, até atingir seu ápice na década de 1820, como resultado das disputas políticas em torno das Cortes de Lisboa, da independência do Brasil e das disputas pelo trono português entre D. Miguel e D. João VI, momentos de crise institucional em Portugal e também no Brasil (BARATA, 2006, p. 168).

Já no Segundo Reinado, crescia o clamor das elites sociais do país, veiculadas por setores da imprensa, em favor da modernização do país. O progresso era o grande objetivo ao qual se ansiava. Com base na observação da realidade nacional, muitos concluíram que o Brasil só poderia se modernizar pela ajuda dos protestantes, uma vez que foram eles os grandes responsáveis por muitas obras de infraestrutura iniciadas na segunda metade do século. Disso, concluía-se, por contraposição, que o catolicismo, manifestado pela Igreja, representava o retrocesso, o obstáculo a ser superado. Desse modo, não surpreende a adesão de muitos maçons aos protestantes, em apoio à imigração de pessoas vindas de países protestantes, como Suíça, Alemanha, Inglaterra, Irlanda, Escócia e, em especial, dos estados Confederados que perderam a Guerra de Secessão nos Estados Unidos (VIEIRA, 1987, p. 207). A díade Maçonaria/complô seguiria firme ao longo do século XX, como ocorreu em Pernambuco, com o acirramento da Igreja católica ao lado de setores da imprensa, tendo à frente o influente jornal A Tribuna. Como resposta a esses ataques, a Maçonaria pernambucana ampliou suas ações efetivas (fundação de escolas, bibliotecas públicas, clubes de leitura, entre outras) com forte teor anticlerical (COELHO, 2016, p. 70-72).

Ao longo do todo o século XIX, a Maçonaria brasileira se viu às voltas com cisões e influências externas. Uma sucessão de Grandes Orientes, apoiados por instituições maçônicas europeias de países como França, Inglaterra, Portugal e Bélgica, começou a ocorrer a partir de 1831, com a fundação do Grande Oriente Brasileiro, dividindo a cena local com o já criado Grande Oriente do Brasil, de 1822. A uma sequência de eventos ora favoráveis, ora contrários às Lojas maçônicas brasileiras, foi instaurada uma crise no seio da monarquia de D. Pedro II, com a chamada Questão Religiosa, nos anos 1870, na qual dois bispos da Igreja católica decidiram enfrentar a Maçonaria. Poucos anos antes desse ocorrido, buscando modificar a situação da Igreja no Brasil, o papado de Pio IX publicou a encíclica Quanta cura (1864) e seu anexo, Sílabo de Erros, este último atacando a Maçonaria brasileira.

Um dos resultados da Questão Religiosa foi o incremento de grupos concorrentes do catolicismo, como o protestantismo, o positivismo e o espiritismo (MATOS, 2011, p. 7), que se juntaram ao republicanismo e à Maçonaria, reforçando o programa liberal (registro civil de nascimentos, casamentos e óbitos, laicização dos cemitérios, Lei do Ventre Livre, projetos educacionais para adultos, reforma do sistema de ensino e abolição gradual da escravidão) até que, por fim, foi feita a separação do Estado e da Igreja pelo Decreto n. 119-A, de 7 de janeiro de 1890, confirmada pela Constituição de 1891. Essa separação já vinha sendo intensamente debatida no seio maçônico, entre o Grande Oriente dos Beneditinos (criado em 1863 como dissidência do Grande Oriente do Brasil) e o Grande Oriente do Lavradio que eram, respectiva e sinteticamente, a favor e contrário a essa separação.

Diante da laicização do Estado brasileiro, a Igreja católica adotou novas medidas e reformou suas estruturas, formando dioceses, arquidioceses e seminários, incentivou a vinda de religiosos estrangeiros e reforçou sua oposição à Maçonaria e outros grupos (MATOS, 2011, p. 13).

A criação do decreto de 1890, contudo, não levou ao abandono de práticas religiosas e ao aumento da secularização, mas deu as condições para que o contrário acontecesse, ao resultar na ampliação de outras práticas religiosas que não a católica e na busca por autonomia e legitimação de outras crenças em termos de manifestação pública. A liberdade de culto foi, então, consolidada para que as práticas antes tidas como feitiçarias, curandeirismos e batuques se organizassem como religiões, incluindo o espiritismo, de origem francesa (SILVA, 2010, p. 2) e praticada, em boa parte, por membros das classes médias urbanas. Aquele espírito progressista que animara a Maçonaria europeia do século XIX também pôde ser visto no Brasil na virada para o século XX. Em sua análise feita sobre a Maçonaria cearense, Marcos José Diniz Silva chama a atenção para a construção de um espaço maçônico em que as ideias espíritas e teosóficas tiveram campo fértil para germinar em confronto com o tradicionalismo católico.

Silva lembra que essa doutrina espiritual se respaldava na “fé racional”, ao lado do avanço do positivismo e do evolucionismo entre as camadas mais letradas e liberais da sociedade imperial, em contraposição à crescente romanização da Igreja católica contrária às modernizações de costumes, dinâmica já exposta por Silva (SILVA, 2010, p. 5). Portanto, assim como Margareth Jacob considerou a Maçonaria europeia como local de embates entre o tradicionalismo do Antigo Regime e o constitucionalismo de caráter democrático, podemos arriscar uma hipótese que sustenta a ideia do surgimento de um outro arco de tensão na Maçonaria brasileira: de um lado, a ritualística calcada na simbologia católica de base bíblica e, de outro, a adesão de maçons ao espiritismo kardecista, como ocorrera no Ceará, como parte dos esforços racionalistas típicos da Ordem maçônica.

Se a oposição da Igreja católica gerou uma resposta de igual intensidade e de sentido contrário por parte do Grande Oriente da França a partir de 1877, seguido por outros países, no Brasil essa resposta não foi tão intensa.

Essa “religião natural” maçônica conservando elementos esotéricos das tradições e Mistérios Antigos, aos quais se acrescentaram pressupostos racionalistas, positivistas e evolucionistas dos séculos XVIII e XIX, configurou com o Espiritismo e a Teosofia, promovida pela Sociedade Teosófica, uma grande corrente moderno-espiritualista (SILVA, 2010, p. 7).

No Brasil do começo da República, os maçons, ao menos no Ceará, partilhavam crenças comuns ao espiritismo e à teosofia, assentadas

[…] nos seguintes fundamentos: (a) difusão da antiga lei dos renascimentos sucessivos (reencarnação); (b) evolução espiritual; (c) evolução planetário-cósmica; (d) possibilidade de comunicação entre os vivos e os mortos (mediunidade); (e) aliança entre religião e ciência; (f) complementaridade entre todas as crenças religiosas, fundada na unidade das leis divinas; (g) a defesa e a prática da liberdade, da fraternidade e da solidariedade entre todos os povos, crenças e raças (SILVA, 2010, p. 11).

Podemos enfatizar os itens b) e g) como sendo os mais maçônicos, ainda que não os únicos, entre os citados. Do conjunto desses itens, inferimos o nítido caráter teleológico do Espiritismo e da Teosofia, ambos defendendo a ideia de que a humanidade caminharia rumo à evolução, a qual culminaria no encontro com Deus. Esse tipo de proposição é típica do século XIX, durante o qual doutrinas políticas, como o marxismo (que desposava a religiosidade e afirmava seu materialismo), asseguravam que a história humana é a história da evolução (neste caso, o ponto áureo seria a revolução do proletariado e a abolição do Estado). Muitas outras proposições seguiam pela mesma vereda, tais como as ideias de Alfred Russel Wallace e de Charles Darwin sobre a evolução da vida, que contribuíram intensamente para o fortalecimento do pensamento teleológico, o qual gerou proposições como as de Herbert Spencer (sobrevivência das sociedades mais fortes), o darwinismo social e a antropologia criminal evolucionista de Cesare Lombroso.

5. A resolução da tensão entre fé e razão na Maçonaria

A Maçonaria não esteve alheia às influências do pensamento teleológico que dominava as mentes europeias desde o século XVIII e também orientou seus adeptos no sentido de uma prática que misturava racionalismo e religiosidade/espiritualidade, sempre em busca da construção de uma sociedade melhor e mais evoluída, por meio do trabalho de autoconhecimento de cada maçom.

Para dar conta da pluralidade de crenças religiosas e filosóficas dos maçons, os diversos ritos surgidos desde o século XVIII incorporaram em seus rituais e ensinamentos uma forte carga simbólica, a ser decodificada pelos maçons conforme suas crenças. Vale lembrar que o primeiro ordenamento da Constituição de Anderson, de 1723, formulada sob liderança do conde de Montagu poucos anos após a criação da Grande Loja da Inglaterra – recentemente, afirma-se que a Grande Loja foi fundada em 1721 e não em 1717 –, já principiava o caráter ecumênico, ainda que restrito às religiões cristãs – os judeus só seriam aceitos no final do século (VIEIRA, 1987, p. 199) –, da Maçonaria inglesa:

Um Maçom é obrigado, por sua Condição, a obedecer à Lei moral; e se compreende bem a Arte, não será jamais um Ateu estúpido, nem um Libertino irreligioso. Mas se bem que nos Tempos antigos os Maçons fossem obrigados em cada País a ser da Religião, qualquer que fosse, desse País ou dessa Nação, contudo é considerado mais conveniente de somente os sujeitar àquela Religião sobre a qual todos os Homens estão de acordo, deixando a cada um suas próprias Opiniões; isto é, serem Homens de bem e leais, ou Homens de Honra e de Probidade, quaisquer que sejam as Denominações ou Confissões que os possam distinguir; pelo que a Maçonaria se torna o Centro de União, e o Meio de firmar uma Amizade sincera entre Pessoas que teriam ficado perpetuamente Distanciadas (ANDERSON, 1982, p. 50).

A dicotomia fé e razão remonta à Antiguidade grega, cujas narrativas mitológicas dariam conta de uma suposta verdade que estaria além da compreensão humana e, por isso, inegável, uma vez que pertenceria ao mundo dos deuses e titãs – de acordo com alguns autores, seus mitos não estariam desprovidos de racionalidade e, seguindo esse pressuposto, a filosofia teria surgido da depuração desses mitos, assunto, evidentemente, para muitos debates.

Chegada a Idade Média, período cronológico que começa a dizer respeito mais diretamente à Maçonaria, a religião (que substituiu os mitos gregos) e a filosofia se imiscuíram. Santo Agostinho e São Tomás de Aquino foram, sem dúvida, os nomes mais influentes desse processo de amalgamação. Ao ter se dedicado ao mundo das ideias, Platão foi, então, reinterpretado pelo bispo de Hipona para ser conformado às ideias cristãs baseadas, sobretudo, na contemplação de Deus. Ainda na visão do santo, Platão seria o responsável pela preparação das almas das pessoas para que pudessem receber o cristianismo. Nesse momento incipiente de formação da Igreja, a fé imperava sobre a razão. Tomás de Aquino, por sua vez, procurou equilibrar fé e razão no pensamento cristão medieval, de forma que a razão, a lógica e o empirismo estivessem a serviço da comprovação da existência divina, valorizando o mundo material, ao contrário do pensamento agostiniano – daí a influência de Aristóteles no pensamento de Aquino. A razão, aqui, deve ser mobilizada para demonstrar e organizar os mistérios da fé. Portanto, a verdade poderia ser buscada tanto pela razão quanto pela fé – a primeira fornecida pela filosofia; a segunda, pela religião.

Já no Renascimento, o pensamento contra a fé sem limites, que não aceita as explicações racionais, tomava vulto e se materializava das mais distintas maneiras: nas artes, na ciência, na literatura e na própria filosofia. Séculos depois, o Iluminismo aprofundaria essas críticas, sem negar, em sua totalidade, Deus ou a religião cristã. Nesse equilíbrio entre fé e razão, o ideário iluminista pautou-se, em grande parte, pela ideia da evolução constante rumo à perfeição e ao progresso contínuo e irrefreável construído por meio das habilidades humanas. Nesse sentido, o Iluminismo acabou por criar uma nova crença: a fé na modernidade e no progresso. No século XIX, em plena modernidade, o sobrenatural, como já foi mencionado, assumia – cabe indagar se algum dia deixou de assumir – protagonismo diante de muitas questões para as quais a ciência não tinha respostas. Foi nesse período que a Maçonaria, já consolidada na forma como a conhecemos hoje, reforçou suas estruturas políticas, administrativas e também filosóficas.

Preservando a condição de que um maçom deve crer em uma força superior, e não apenas no Deus dos cristãos, a Maçonaria pôde germinar entre adeptos de distintas crenças religiosas, processo que se estendeu ao longo de todo o século XX. Essa confluência fica clara no documento publicado em 1987 pelo Supremo Conselho do Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceito da Jurisdição Sul dos EUA (SUPREMO, 1987), no qual eminentes maçons, de diferentes religiões, manifestaram-se a esse respeito:

Algumas palavras de introdução.

Por Christian Frederick Kleinknecht Jr., 33º – Soberano Grande Comandante

[…] Todo Maçom deve acreditar em um Ser Supremo. […] A Maçonaria sempre recebeu homens de todas as fés e crenças religiosas, para adentrar em suas portas. O único requisito é que sejam homens bons, que acreditem no Supremo Arquiteto e na imortalidade da alma. […] a Maçonaria trabalha para melhorar os bons homens, construindo dentro de cada Irmão do Craft, um Templo de boas obras e realizações éticas. […] A Maçonaria, portanto, congratula-se com suas fileiras de cristãos, judeus, muçulmanos, budistas e todos os homens bons de qualquer religião que realmente aspiram a viver de acordo com a vontade do Criador. […] O que maçonaria significa para mim.

Por Reverendo Dr. Norman Vincent Peale, 33º.

A maçonaria não é uma religião, porém, na minha experiência, os maçons são predominantemente homens religiosos e, em sua maior parte, da fé cristã. Através da Maçonaria, no entanto, tive a oportunidade de compartilhar o pão com homens bons, além da minha fé cristã. A Maçonaria não promove nenhum credo religioso. Todos os maçons acreditam na Deidade, sem reservas. No entanto, a Maçonaria não faz exigências sobre como um membro deve pensar no Grande Arquiteto do Universo. A Maçonaria é, para todos os seus membros, um suplemento à vida boa, que elevou a vida de milhões de pessoas que entraram em suas portas. Embora não seja uma religião, como tal, ela complementa a fé em Deus, o Criador. É o apoio da moral e da virtude. A maçonaria não tem dogma nem teologia. Não oferece sacramentos. Ensina que é importante para cada homem ter uma religião de sua própria escolha e ser fiel a ela em pensamento e ação. Como resultado, homens de 4 diferentes religiões podem se encontrar em comunhão e fraternidade sob a paternidade de Deus. Eu acho que um bom Maçom se torna ainda mais fiel aos princípios de sua fé, por sua participação na Loja. […] Um maçom sem apologia.

Por Bispo Carl. J. Sanders, 32º, K\ C\C\ H\ – Igreja Metodista Unida, Alabama

Deixe-me rápida e enfaticamente dizer que a Maçonaria não é e nunca foi uma religião; no entanto, a Maçonaria sempre foi amiga e aliada da religião. Em 50 anos como ministro e como maçom, não encontrei conflito entre minhas crenças maçônicas e minha fé cristã. Não encontrei e não acho que a Maçonaria seja “incompatível com a fé e as práticas cristãs”. […] Minhas atividades maçônicas nunca interferiram em minha lealdade e meu amor pela minha Igreja. Muito pelo contrário, minha lealdade à minha Igreja foi fortalecida pelos meus laços maçônicos. Os bons maçons são bons homens religiosos. […] Eu tenho orgulho de ser maçom.

Por Rabino Seymour Atlas, 32º, K\ C\C\ H\ – Sinagoga Beth Judah, Nova Jersey

[…] a Maçonaria não é um substituto da religião, nem é uma religião. […] Maçonaria e Religião.

Por Reverendo Dr. W. Kenneth Lyons Jr., 32º, K\ C\C\ H\

[…] O rito escocês e a maçonaria da Loja simbólica nunca inferiram nem declararam que seus edifícios deveriam ser casas de culto, mas lugares onde a religião de todos os homens seria igualmente respeitada e a perseguição com as crenças religiosas não seria tolerada. [grifos do autor]

Se ainda restam dúvidas quanto ao caráter filosófico-religioso da Maçonaria, em especial do REAA, fiquemos com as palavras de Max Icher:

Ela é uma busca, uma meditação e uma aventura pessoal conduzidos num plano tradicional que indica uma orientação de pesquisa mas não exatamente a origem desta pesquisa. Aqui, a prática ritualística não é cultural ou sacramental mas ajuda a distinguir o mundo profano do mundo sagrado e a facilitar a passagem de um ao outro; o seu simbolismo só pode ser visto numa iniciação e como um suporte de uma reflexão meditativa. Ela não reclama nenhuma crença preliminar, mas somente uma disposição que possa responder a um apelo interior e uma tenacidade a querer acompanhar tão longe e por quanto tempo for necessário para lhe permitir desabrochar. Ela não repousa sobre nenhuma afirmação teórica ou formulação dogmática concernente às Verdades as quais convém subscrever, mas implica a prática efetiva de um percurso, prova iniciática em direção a uma ―realidade‖ cuja presença irá revelar-se ao coração, ao centro da pessoa.
[…]
Independente de uma revelação divina, de uma doutrina filosófica ou religiosa, de uma devoção a uma entidade divina, um profeta ou um guru, o caminho espiritual do Rito Escocês Antigo e Aceito é verdadeiramente universalista porque ele não impõe nenhum pré-requisito ideológico. Dirigido para o existencial, repousa sobre uma Fé no Homem, no sentido de uma confiança na sua perfectibilidade, na sua capacidade e discernimento e na sua faculdade de despertar todas as suas potencialidades: sensitiva, psicológica, intelectual, cognitiva, intuitiva e espiritual (ICHER, 2004).

6. Conclusões

O acirramento do conflito entre Igreja e Maçonaria pode ser reconstruído a partir do advento da chamada Maçonaria Especulativa de cunho iluminista, iniciado no século XVIII, rumo a criação de uma organização filosófico-racionalista, com base nos antigos mistérios e harmonizada com as religiões monoteístas de seus integrantes.

Por sua vez, poderíamos concluir também que a polissemia da simbologia maçônica é menos uma fuga fácil de disputas e discussões religiosas dentro das Lojas, do que uma forma eficaz, racional e libertária de incorporação dessas mais variadas crenças e filosofias, fornecida pela pluralidade de interpretações possíveis aos seus símbolos e narrativas simbólicas. A famosa inscrição do Templo de Delfos, na Grécia Antiga, Conhece-te a ti mesmo, muitas vezes atribuída a Sócrates, é um exemplo paradigmático do pensamento clássico antigo e está associada ao enaltecimento da razão e do movimento filosófico e intelectual de autodepuração do indivíduo. Ela é também o título da Introdução da Carta Encíclica sobre as relações entre fé e razão, do papa João Paulo II – lembrando que, aqui, a visada católica se justifica pela busca da verdade plena, que somente pode ser manifestada por Deus (PAULO II, 1999, p. 8). Nesse documento, o papa esclarece que a crença na verdade revelada pela fé está além da compreensão humana, o
que a torna dogmática e inquestionável.

Podemos concluir, portanto, que a fé é construída de forma coletiva, mas, ao fim e ao cabo, cala fundo na alma de cada crente, de maneira individual. Por sua vez, a verdade descoberta pela razão está sujeita a questionamentos, experimentações e repetições. Caberia, então, a cada maçom estabelecer um equilíbrio entre esses dois polos. Assim sendo, a liberdade de consciência é fundamental para que os maçons, em consonância com a natureza filosófico-iniciática do REAA, possam desenvolver seu longo, e infindável, trabalho de desbastamento interior, uma vez que a liberdade é a falta de entraves, a ausência de bloqueios coercitivos, ainda que possa trazer em si o germe da dúvida, a angústia da liberdade, em um aparente paradoxo. O paradoxo é apenas aparente porque a angústia deriva da imobilização, da incapacidade de se conhecer e reconhecer suas potencialidades e limitações. Sendo a consciência a capacidade inerente ao ser humano de perceber sua realidade imediata (exterior) e a si próprio (interior), ela, associada à liberdade, é o que deveria mover os maçons em busca de suas conquistas espirituais, sejam elas quais forem.

Autor: Paulo Ferraz de Camargo Oliveira

Fonte: Revista Ciência e Maçonaria

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Referências

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Maçonaria e Secularismo

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O secularismo é um conjunto de princípios legais baseados no primado da liberdade de consciência; não é uma arma contra as religiões, nem uma religião civil. A universalidade da lei comum não deve se referir a nenhuma das várias religiões para se impor a todos os cidadãos. Uma loja maçônica é um lugar de aceitação da diferença, de pacificação de intercâmbios. Isso porque a Maçonaria considera que o secularismo é um princípio universal de pacificação social.

A oportunidade que nos é oferecida de questionar aqui as ligações entre a Maçonaria e o secularismo é particularmente bem-vinda.

Princípio emblemático da tradição republicana francesa, sacralizado pela Terceira República e considerado “intangível” até 1940, o secularismo é hoje o lugar de um profundo esquecimento e, no momento em que ele é perigosamente desafiado pelos “fanatismos” e intolerâncias, sejam eles culturais, políticos, econômicos, religiosos, raciais, não é mais propriamente defendido e a pior das confusões reina em torno da noção…

Às vezes, o secularismo é confiscado em favor de um projeto identitário e usado como uma arma contra o Islã. Outras vezes, e ao contrário, pode-se dizer, ele é reduzido a um simples princípio de tolerância a serviço de um projeto multicultural de organização de designações identitárias. Ele é também apresentado como uma espécie de religião civil – aquela daqueles que não teriam nenhuma religião – quando não é visto como uma mera máquina de guerra contra convicções e sentimentos religiosos!… Cada um à sua maneira, todos esses discursos constituem tantas desnaturações do secularismo republicano.

É verdade que em nosso país a Maçonaria é sempre associada ao secularismo. Com suas tomadas de posição vigilantes a cada suposta ameaça, ela seria até vista – sem trocadilho – como “guardiã do templo”! …

A inspiração das lojas

Desde seus primeiros passos, a moderna Maçonaria desenvolve um pensamento universalista.  As Constituições de Anderson – seu texto fundador – anunciam que ela pretende se tornar o “Centro da União, [permitindo] uma amizade sincera entre pessoas que poderiam ter permanecido a uma distância perpétua”, seja por razões políticas, religiosas ou nacionais.

A loja que trabalha nesse “centro da união” é uma comunidade que implementa uma “fraternidade eletiva” em busca do pluralismo social, político e religioso. Ela só pode existir e durar porque é soldada por rituais rigorosos e eficazes.

A Loja Maçônica em trabalho é também um método, uma disciplina que contraria toda a espontaneidade e se opõe a todas as inclinações naturais, para realizar uma mudança de estrutura mental para assegurar a superação de intercâmbios interpessoais em benefício da unidade da loja. É uma contra-cultura tradicional na qual os maçons, protegidos pelo segredo de seus intercâmbios, se tornam tantos “contrabandistas” heterodoxos.

O que esta contracultura propõe é, antes de tudo, o trabalho sobre si mesmo – os maçons falam do seu “templo interior” que torna possível encontrar a unidade interior, reconciliar-se consigo mesmo, a condição primeira para poder para realmente abrir para os outros que eles aprenderam a ver como irmãos e, ao fazê-lo, trabalhar para a melhoria da humanidade – no “templo da humanidade” – Esta contracultura se afirma como um continuidade espiritual, uma tomada de consciência da solidariedade universal.

Ela é o lugar de uma certa igualdade, marca de tolerância e de abertura. Em loja, aceitar a diferença do outro, aceitar sua palavra e a respeitar é, para todo maçom, um requisito absoluto. Mas a tomada em consideração desta alteridade é feita no âmbito de referências comuns que não podem ser transgredidas.

Com suas ferramentas tradicionais de pacificação progressiva das relações, a Maçonaria é, portanto, uma espécie de laboratório de sociedade, laboratório do laço social que faz germinar naturalmente o princípio do secularismo.

Embora supervisionadas de perto, as lojas maçônicas foram, na sociedade política muito fechada do século XIX francês, as únicas associações ativas toleradas e, portanto, naturalmente, os lares subterrâneos do essencial da vida intelectual e política do país. É por isso que, desde a capitulação de Sedan, a República surgirá toda armada de lojas. Léon Gambetta, e todos os Jules, Simon, Grévy, Favre e especialmente Ferry, para citar apenas essas eminentes personalidades da primeira geração republicana, todos vieram diretamente das lojas.

A construção republicana do secularismo

A República tem por ambição uma construção permanente do laço cívico além das designações identitárias de cada um, na busca e preservação do que é comum a todos. No final do século XIX e início do século XX, a Maçonaria será participará verdadeiramente dos combates políticos para a construção do secularismo do Estado e as concepções que ela defenderá não serão diferentes daquelas que a República vai se dedicar a implementar.

O secularismo é um conjunto de princípios jurídicos baseados no primado da liberdade de consciência. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 26 de agosto de 1789, tem a religião por uma “opinião” como qualquer outra (Artigo 1.0), que surge, portanto, exclusivamente da liberdade de cada um. Isso necessariamente decorre da igualdade de todas essas opções espirituais aos olhos da lei e, portanto, a igualdade de todos os cidadãos, independentemente de suas opiniões ou religião. A universalidade da lei comum que não deve se referir a nenhuma das diferentes religiões para se impor ao conjunto dos cidadãos é indispensável.

O secularismo torna-se, assim, um princípio de organização social.  O poder público e a esfera a ele associada, com vistas a constituir, estabelecer e garantir os direitos e liberdades que beneficiarão a universalidade dos cidadãos, deve estar sujeitos a uma reserva absoluta em matéria de opções espirituais.

A esfera privada é a dos indivíduos e das comunidades, livre no respeito a lei.  Cada cidadão devem poder exercer estas liberdades individuais e privadas, que são as liberdades de consciência, de opinião religiosa ou outras – e da expressão, fora do domicilio privado, em nível de espaço civil aberto a todos, no respeito ao direito comum e à ordem pública.

Ao mesmo tempo, o Estado garante a independência dessas duas esferas e da unidade da comunidade política dos cidadãos em torno de valores comuns compartilhados.

Em uma sociedade secular, o reconhecimento do direito de cada um construir e expressar sua diferença é, portanto, sempre concebida em um espaço de relacionamento, confronto e diálogo com os outros. Esse comportamento representa, obviamente, um ideal difícil de construir e alcançar, que produziu em nosso país um modo de vida que é objeto de um consenso duradouro.

Ninguém precisa conhecer as escolhas filosóficas ou religiosas uns dos outros, elas lhes pertencem. Ninguém precisa conhecê-las, especialmente o Estado, que se proíbe de os recensear. Aqui, novamente, a religião é entendida como uma escolha individual, uma opinião – que se pode mudar – e não como um pertencimento. O culto público, que é legítimo, é praticado em lugares que lhe são normalmente reservados  e isso se traduz em nosso país pelo surgimento gradual de uma cultura compartilhada da discrição das expressões religiosas na sociedade civil.

É a própria essência da tradição histórica e jurídica francesa que vê nessa discrição compartilhada a melhor maneira de garantir que todos tenham a oportunidade de viver juntos em uma convivência serena e pacífica, baseada no respeito aos diferentes pensamentos.

Fundamentalmente, se o secularismo francês respeita todas as opções espirituais, é antes de tudo na medida em que elas são expressões da liberdade de consciência dos cidadãos. Assim, a República estará, sem dúvida, menos preocupada expressamente com o indivíduo cuja afiliação a uma comunidade é adquirida do que com o ateu, o agnóstico ou o crente individualista que rompe com seu grupo, porque eles estão sozinhos e sua liberdade precisa da proteção do Estado, que também deve ser capaz de proteger o direito de acreditar e de blasfemar.

Os desafios do presente

A construção republicana se define por seu caráter universalista, do qual o secularismo é uma ferramenta essencial.. Atualmente, assistimos a um ressurgimento de manifestações de afirmação identitária inspiradas na religião, mas que vão muito além das questões de culto, desafiando abertamente o secularismo e os princípios republicanos. E também observamos que a liberdade de consciência e a igualdade de todos recuam e não são mais garantidas em certos espaços privados.

No exato momento em que, portanto, parece que nosso secularismo constitucional devia, sem dúvida, ser exercido, além dos serviços públicos, na proteção do espaço social, “um lugar de compartilhamento sob o olhar dos outros”, em face de demandas urgentes de expressão religiosa, percebemos que o secularismo perdeu muito de sua força simbólica. O Estado republicano tem o dever de se envolver na defesa de projetos universalistas diante  ataques comunitaristas de certos grupos de pressão.

Como as lojas sabem fazer, a República deve se esforçar para criar públicos comuns.  Ela deve saber lutar contra as discriminações com base na igualdade, apresentando o que é comum aos indivíduos e grupos sociais, e não através do reconhecimento identitário, que se fechará como uma armadilha implacável sobre o cidadão e seus direitos.

Um estado neutro, sensível apenas à liberdade do cidadão individual é um modelo moderno e portador de progresso para o futuro. Seu instrumento fundamental é o secularismo, que por si só é capaz de impregnar um pensamento universalista da diversidade, livre da vulgata culturalista que atualmente está se espalhando sem restrições alguma no debate político e na mídia. Ela aparecerá então como um princípio universal de pacificação social.

Autor: Jean-Philippe Hubsch
Tradução: José Filardo

Fonte: REVISTA BIBLIOT3CA