Afinal, somos pedreiros ou cavaleiros andantes?

Dom Quixote - Resumo, Autor e Análise - Arena Marcas e Patentes

Sr. e Ir.,

Estou envergonhado que sua gentil carta tenha ficado tanto tempo sem resposta, mas espero que você me desculpe quando eu lhe asseguro que não foi devido a negligência ou desrespeito, mas a falta de oportunidade para me satisfazer em alguns pontos, relacionados com a variedade de Maçonaria, que você menciona sob o nome de Maçonaria Escocesa.

Eu estava determinado a consultar nossos Irmãos na Escócia, particularmente nosso Irmão, Lord Aberdour, que é filho e herdeiro do Conde de Morton, e um excelente maçom; como tal, ele ocupou a presidência na Escócia, e sua senhoria agora foi eleito Grão-Mestre na Inglaterra, com a renúncia do Marquês de Carnarvan.

Lord Aberdour e todos os maçons escoceses (ou melhor, cavalheiros escoceses que são maçons) com os quais conversei, e fiz questão de consultar muitos, não conhecem nada sobre as formas e títulos que você menciona, e que você chama justamente a fraude de Maçonaria. Entre alguns dos nossos irmãos de mais baixo extrato, eu encontrei, e muitas vezes ouvi falar de irregularidades; como eu as chamo justamente, porque se desviam tanto de nossas cerimônias usuais, e são tão cheias de inovações, que no processo do Tempo, os antigos Landmarks serão destruídos pelo fértil gênio de Irmãos que melhorarão ou alterarão, se apenas para dar espécie às suas habilidades, e consequência imaginária; de modo que, em poucos anos, será tão difícil entender a Maçonaria, quanto distinguir os pontos ou acentos da língua hebraica ou grega, agora quase obscurecidos pela indústria de críticos e comentaristas.

Três cavalheiros estrangeiros e maçons visitaram recentemente a loja à qual pertenço, e foram apresentados por mim à Grande Loja e à Grande Festa; ao discorrer com esses cavalheiros, eu descubro que em alguns lugares da Alemanha, Holanda e Suíça, existem Ordens de Maçons desconhecidas para nós, a saber, Cavaleiros da Espada, da Águia, da Terra Santa com uma longa série de et caeteras; certamente esses pontos de Maçonaria devem ser maravilhosos; estou certo de que são muito novos; além disso, estas dignas e distintas ordens, eu descubro, têm sinais, toques, etc., peculiares às suas respectivas Dignidades, e enfeitam-se com diferentes fitas coloridas.

Eu ficarei feliz com sua assistência e a ajuda dos Irmãos na Holanda, para resolver estes intrincados e confusos pontos, e gostaria de saber (especialmente dos Irmãos que se distinguem pela denominação de Maçons Escoceses) de onde receberam sua constituição, o Grão-Mestre da Escócia, que eu presumo que eles reconheçam o chefe de sua sociedade, não conhecendo inteiramente a Ordem deles: A Lord Aberdour e vários outros nobres escoceses e cavalheiros que são bons maçons, comuniquei sua carta, e também a informação que recebi desses Irmãos estrangeiros, um dos quais era um oficial no serviço holandês; mas, considerando as mais rigorosas pesquisas que pude fazer, só posso dizer que eles exercitaram sua genialidade com esforços para tornar a Maçonaria ininteligível e inútil.

Essas inovações são de anos muito antigos, e acredito que os Irmãos encontrarão dificuldade para produzir um Maçom familiarizado com tais formas há vinte ou até mesmo dez anos atrás. Meu próprio pai tem sido um maçom nestes últimos cinquenta anos e esteve em Lojas na Holanda, na França e na Inglaterra. Ele não conhece nenhuma dessas cerimônias: Elas são estranhas para o Grão-Mestre Payn, que sucedeu ao Sr. Christopher Wren, bem como também para um velho Irmão de noventa anos, com quem conversei ultimamente; este Irmão me assegura que ele foi iniciado maçom na sua juventude e frequentemente frequentou Lojas até se tornar incapaz por sua idade avançada, e ele nunca ouviu ou conheceu quaisquer outras cerimônias ou palavras, diferentes das que usamos em geral entre nós; tais formas foram entregues a ele, e aquelas ele reteve. Quanto aos Cavaleiros da Espada, Águia, etc., o conhecimento deles nunca alcançou seus ouvidos, até que eu o informasse. As únicas ordens que conhecemos são três, Mestres, Companheiros e Aprendizes, e nenhuma delas chegou à honra de cavalaria pela Maçonaria; e eu acredito que você mal pode imaginar que, em tempos antigos, a dignidade da Cavalaria florescesse entre os Maçons; cujas lojas até agora consistiram de maçons operativos e não maçons especulativos. Cavaleiros da Águia, Cavaleiros da Espada, eu li em romances, o próprio grande Dom Quixote foi feito Cavaleiro do Capacete de Bronze, quando ele venceu o barbeiro. Cavaleiros da Terra Santa, São João de Jerusalém, Templários, etc., existiram, e acredito que agora existem os Cavaleiros de Malta, mas o que é isso para a Maçonaria? Nunca ouvi dizer que essas Ordens ou Honras foram obtidas por habilidade em Maçonaria, ou que elas pertenceram à Fraternidade dos Maçons, embora eu não duvide que pertençam agora, e existem muitos maçons membros dignos de suas Ordens & Honras, mas imagino que eles não pensam que obtiveram tais títulos apenas na Maçonaria.

Benevolência universal, amor fraternal, amizade e Verdade, agir pelo esquadro e viver dentro do compasso, são ou deveriam ser, os princípios da Maçonaria, a Regra & Guia de nossas ações. Sejamos bons maçons, podemos olhar com desprezo para outras Honras ou Títulos, está em todo o tempo em nosso poder ser bons maçons, e eu acho que devemos nos contentar e não procurar os campos aéreos de romance para títulos adicionais. Usar nosso maior esforço, caro Irmão, para evitar que uma sociedade realmente valiosa degenere e se perca em obscuridade, visando títulos, aos quais a própria natureza de nossa sociedade não pode nos dar um direito.

A única distinção de Fitas ou Joias, que fazemos em nossas Lojas, você encontrará em nosso Livro de Constituições, a saber, Grandes Oficiais usam suas joias douradas, pendentes em fitas azuis, e seus aventais revestidos de azul; aqueles Irmãos que serviram no cargo de Mordomo em nossa Grande Festa (dentre os quais devem ser eleitos todos Grandes Oficiais, exceto o Grão-Mestre) usam suas Joias de Prata sobre fitas vermelhas, e revestem seus aventais com vermelho; todos os outros irmãos usam aventais brancos e seus pingentes de joias em fitas brancas, e não devem usar outras joias além do esquadro o nível e o prumo, o Compasso pertencendo apenas ao Grão-Mestre.

Se o Mestre da Loja está ausente, o Mestre Instalado (Past-Master), ou o Primeiro Vigilante da Loja, o substituem, assim como os Regulamentos privados dessa Loja determinem.

Nossos brindes em loja são, primeiro ao Rei e à Maçonaria, com 3 vezes 3. O segundo ao Grão-Mestre, com 3 vezes 3, ao G.M.A. e GG. VV. com 3; seguir bebemos ao Ex-G.M., Irmãos estrangeiros de Distinção por Nome, tais como o Imperador, Rei da Prússia, etc., depois disso, o Brinde Geral da Maçonaria.

O Marquês de Carnarvon renunciou à Presidência em favor de Lord Aberdour, que agora é o G.M., e nosso digno Ir. Revis, G. M. A., mas tenho permissão para assinar esta Carta como G.M.A., e se você nos favorecer com uma Linha, siga o mesmo método usado antes pelo secretário do Sr. Hopp, que transmitirá suas ordens a mim, e cuidarei para que elas sejam devidamente cumpridas.

O antigo e o presente G.M. desejam seus Respeitos a nossos Irmãos por favor, aceite também os Respeitos do Dr. Sr. e Ir.

Seu mais afetuoso Ir. e obediente humilde servo

T. Manningham, G.M.A.

Jermyn Street, 12 de Julho de 1757.

Carta do Grão-Mestre Adjunto da Grande Loja de Londres, Dr. Manningham ao Irmão Sauer em Haia, respondendo a uma consulta sobre a Maçonaria Escocesa, que era uma novidade no Continente.

Tradução: José Filardo

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Philo Musicae et Architecturae Apolloni Society (1725-1727) – Uma sociedade de músicos maçons

Philo Musicae et Architecturae Apolloni Society – Uma sociedade de músicos  maçons | O Prumo de Hiram

Introdução

A Sociedade Philo Musicae et Architecturae Apolloni tem sido objeto de inúmeras pesquisas e textos, e especialmente como artigo incluído na enciclopédia de Albert G. Mackey. Ela é mencionada na obra de Goblet d’Alviella Des origines du grade de maitre dans la franc-maçonnerie (As origens do grau de mestre da franco-maçonaria).

A Ars Quatuor Coronatorum publicou uma série de trabalhos relativos a esta sociedade, entre os anos de 1970 e 1995.

No que diz respeito as investigações efetuadas acerca dos três primeiros graus da Maçonaria “moderna”, a referência é do livro Hiram et ses frères : Essai sur les origines du grade de Maître (Hiram e seus irmãos: Ensaio sobre as origens do grau de Mestre) de Roger Dachez.

A sociedade

O primeiro catecismo Maçônico conhecido, foi introduzido pelo Grão-Mestre Sir Christopher Wren em torno de 1685. O termo usado, em seguida, foi “exame” e ao contrário dos que se seguiram, foi muito conciso. Sabe-se que os maçons da época basearam seus modos de reconhecimento em sinais e toques, mas ainda deixando algumas perguntas e respostas, conforme abaixo:

“Pergunta: Qual o vosso nome?

Resposta: Aprendiz Ingressado – Lewis ou Precaução.

Resposta: Companheiro de Ofício – Geometria ou Esquadro.

Resposta – Mestre Maçom – Ac∴ ou G….”

Esta distinção nas respostas não indica de maneira confiável que a organização do Ofício se baseava em três graus claramente diferenciados por formas rituais distintos. No entanto, se trata de três respostas diferentes onde os elementos ainda estão presentes no dia de hoje.

Quanto à distinção real entre o Mestre Maçom e o Venerável Mestre (Mestre da Loja), não temos, até hoje, elementos precisos para afirmar que a ritualística e a diferenciação, existiam antes da primeira metade do século XVIII.

Acerca do estudo dos rituais que se acredita ter sido praticado pelos maçons no início do século XVIII, necessariamente temos que citar uma característica particular da época cuja prática não sobreviveu, eram as sociedades paramaçônicas e especialmente musicais, onde as atividades e a administração dependiam de uma loja.

A Philo musicae et Architecturae Apolloni Society foi uma dessas sociedades.

A cópia de Minute Book (Livro de Atas) desta sociedade foi doada ao Museu Britânico por John Henderson em 1859. O documento indica que a sociedade foi fundada em 18 de fevereiro de 1725 em um estabelecimento chamado Queen´s Head perto do Temple Barr em Londres, por uma loja que tinha o mesmo nome.

O grupo fundador foi liderado por Francesco Geminiani Xaviero (1687-1762). Ele ainda era um “aprendiz admitido” no momento da criação da “Sociedade” e era muito conhecido no meio musical.

Giminiani foi para Londres em 1714, ele foi um compositor virtuoso e professor de violino. Ele era um antigo discípulo dos músicos Corelli e Alessandro Scarlatti. Também era colecionador e comerciante de pinturas e quadros.

Apesar de Geminiani ser ainda um aprendiz, é provável que um de seus conhecidos, um membro fundador da Grande Loja de Londres, John Clerk, Barão de Penicuik, também músico e ex-aluno de Corelli, muito conhecido em seu tempo por suas composições de inspiração escocesa, também estivesse envolvido na criação desta sociedade. Acredita-se que pelo fato dos dois terem sido ex-alunos da Accademicia Arcadia de Corelli, foi o barão que indicou o seu amigo para a Maçonaria.

Em 1903, a Loja de Pesquisas Ars Quatuor Coronati, como parte de seus estudos sobre os antigos textos fundadores e as estruturas maçônicas do século XVIII, introduziu o Minute Book desta associação em suas crônicas, Ars Quatuor Coronatorum (Vol. XVI): artigo escrito por R.F. Gould com o título de Philo Musicae et Architecturae Societas Apollini.

A cópia dos trabalhos da Philo musicae nos apresenta uma informação especialmente importante para a história da Maçonaria e do estudo dos antigos rituais: nada menos do que a primeira menção explícita dos três graus conhecidos até hoje, com a elevação de um ao outro.

O arquivo da Grande Loja de Londres indica que a loja Queens Head é a origem da fundação desta sociedade musical, e estava registrada como se reunindo em Hollis Street perto de Oxford Square. Isso é um pouco surpreendente, já que os dois locais são muito distantes uns dos outros e poderia significar que aquela não era a mesma loja ou que houve uma separação formal entre a sociedade e a loja.

No entanto, o “livro de atas” nos informa que a Sociedade estava hospedada na loja e sua reunião anual era na quinta-feira seguinte ao dia de São João Batista.

O registro fornece outras informações importantes, que é a adoção do Padroeiro dos maçons “modernos” desde a fundação da Grande Loja em 1717.

Com relação a esta distância, a questão que surge é a de como eram as reuniões da loja e como tratavam os grupos afiliados na maçonaria especulativa inglesa. A indicação de lugares separados para organizar reuniões confirma, as dúvidas sobre a origem “operacional” da Maçonaria de Londres. Muitos sugerem que as reuniões das lojas no início da Maçonaria especulativa não era como hoje, pois não tinha um local fixo.

Sabe-se que na primeira metade do século XVIII, as lojas estavam começando a se estabilizar, seguindo um costume que começou no século anterior, que era o de se reunir regularmente de acordo com um calendário aprovado. Isso é o que tende a confirmar as crônicas da sociedade Philo musicae em relação as reuniões de sua loja de referência.

A indicação de loja em uma taverna que servia aos dois grupos sugere uma complementaridade entre a loja fundadora e sua associação, como se a última fosse um espelho da primeira, mais discreta, e por outro lado, a inauguração da associação no Temple Barr tinha sido por razões práticas, independentemente da regularidade das reuniões.

Se pode pensar também, e isso pode ser um motivo para outros tópicos de pesquisa, que a sociedade foi fundada para dar apoio ao cargo responsável pela harmonia, durante as reuniões da loja maçônica.

Este ponto merece ser notado, na medida que nos faz pensar que poderia haver uma forte complementaridade entre as estruturas, mas também ir mais longe, podendo ter criado outras associações paramaçônicas com objetivos diferentes.

Não esqueçamos que a maçonaria livre e aceita se apresentava como um “facilitador” de intercâmbios e pesquisas. Se a música pôde servir como um vetor para essas trocas, o que ocorria com as outras artes liberais?

Sobre este ponto, sabe-se que a Druid Order (Ordem dos Druidas) fundada nesse mesmo ano de 1717 e que se tornou mais tarde The Ancien and Archeological Order of Druids, não aceitava membros que não fossem maçons. Tal regra não desapareceu dos seus estatutos até 1874, sessenta anos após o Ato de União de 1813.

O fato de que todos os membros fundadores da Sociedade pertenciam a loja Queen´s Head nos permite formular uma série de questões, tanto sobre a identidade das duas estruturas, como sobre o registro da loja “no oriente” de Hollis Street.

Pelo menos até 1726 não temos disponíveis elementos concretos no que diz respeito às obrigações das lojas sobre locais de reuniões, sejam eles, templos ou tabernas. Pelo contrário, sabe-se apenas que a partir desse ano que a Grande Loja de Londres começou a se dispersar nos subúrbios da capital. Costuma-se pensar que este desenvolvimento foi a extensão natural dos frequentadores e o aumento no número de membros.

Para o presente caso, é muito difícil saber se a Sociedade e a Loja foram duas entidades separadas, pois, a Philo musicae Society é sempre apresentada como uma simples associação de amantes da música e não apenas de músicos, mas todos eram maçons.

É nesse ponto específico que se sugere, no início do texto, sobre os “pilares da harmonia”. Sabe-se que nos ritos anglo-saxões, desde o início do século XIX, existia oficialmente um cargo de organista herdado de práticas antigas.

No que diz respeito às lojas e suas relações com as associações que se desenvolveram, faltam documentos com regulamentos e práticas, mas acredita-se que eram distribuídos informativos indicando o local de encontro, o que não nos permite dizer, com certeza, se havia uma regra escrita ou implícita, aplicável às lojas, apesar de haver uma certa distância entre elas.

Por outro lado, sabe-se que as lojas muitas vezes levavam os nomes das tabernas em que se reuniam e que o cargo de “cobridor externo” (tyler) é uma herança de certa prática das lojas. A porta deveria ser protegida externamente para garantir a descrição dos trabalhos na época dos “construtores”. Aparece assim, a questão da identidade da loja Queen´s Head inscrita no quadro da Grande Loja de Londres.

O fato da ata indicar que a Sociedade foi fundada por membros da loja, significa que essa existia antes dela. Por certo, que poderia ser um exemplo de uma possível, chamada “Loja de Aceitação” do século XVII que ninguém sabe quem tomou a iniciativa de criar ou por que razão, conhecida apenas por algumas linhas enigmáticas do diário de Ashmole, citado como um testemunho da transição especulativa e que bem poderia ter sido nada mais do que uma espécie de clube formado por fora da Companhia de Maçons de Londres (London Mason’s Company), que foi realmente a única Guilda organizada que se conheceu na Inglaterra para o ofício dos maçons, e de onde a autoridade não escapou jamais do controle de Londres. A “Loja de Aceitação” ficou na história dos poucos vestígios documentais, em 1610 e depois em 1686 em relação com Elias Ashmole.

Não se conhece nenhuma outra estrutura comparável na Inglaterra daquela época e nem mais tarde, que se revele ou justifique, uma ligação entre a antiga London Mason’s Company e a maçonaria dos “modernos”. No entanto, Ashmole não indica em nenhum momento, que os homens de que estava falando eram construtores e não sabemos se existia algum documento atestando que as pessoas estranhas ao Ofício, tinham sido admitidos em lojas operativas inglesas.

Se fosse esse o caso, porque os membros da Queen´s Head não estiveram presentes na fundação da Grande Loja de Londres?

Esta hipótese não é, obviamente, muito confiável, e é citada aqui simplesmente para dizer que a antiga guilda ou Companhia não deixou vestígios convincentes que nos permitam pensar que as lojas passaram de uma para a outra.

Por isso, provavelmente, não aparecem como outra coisa que não uma espécie de sindicato dos trabalhadores da construção civil na capital britânica, demonstrando de modo confiável, os seus laços com os fundadores de 1717.

Nenhum membro, conforme o artigo 17 do Estatuto, poderia ser admitido na Sociedade Philo musicae se não fosse maçom. Essa condição para a adesão envolve algumas perguntas que revelam uma certa importância na história da Ordem:

  • Em primeiro lugar, se a Sociedade Philo Musicae iniciava ela mesma, membros não-maçons e concedia graus, o termo sociedade não seria um substituto do termo loja?
  • Seria um nome temporário para uma loja em formação? Se esse não for o caso, porque acreditar que as sociedades paramaçônicas podiam conceder graus que a loja mãe poderia ter feito?
  • Como consequência: a concessão de um terceiro grau por essas estruturas teria um valor mais administrativo?
  • Tal situação viria do fato de que o ritual utilizado na loja impedia as “comunicações” ou “pranchas”, como hoje, no caso do ritual emulação?

Sabendo que os “modernos” vieram principalmente da Royal Society e no mesmo ano, foram criadas pelo menos três sociedades notáveis, a Maçonaria, a Ordem dos Druidas e a Society of Antiquaries, constatando uma prática ritualizada, exclusivamente da maçonaria, oferecendo um ângulo de visão interessante sobre o que iria se tornar o conflito entre os “antigos” e os “modernos”.

Assim como a ciência desenvolveu diversas especialidades, as sociedades paralelas poderiam completar o objetivo maçônico. Por mais informal que possa parecer, o hábito de criar este tipo de “sociedades de músicos” parece ter seguido os passos de Maçons de Londres que se instalaram na França. Esta moda se espalhou por todo o continente muito tempo após a Philo musicae de Londres já ter sido dissolvida.

Sabe-se há muito tempo que o número de maçons entre os músicos foi particularmente elevado na França. Sabe-se também que o sucesso destas associações não é explicado apenas pela amizade e o patrocínio que poderia gerar.

O músico, maçom e escritor Gérard Gefen, no seu livro Les Musiciens et la franc-maçonnerie (Os músicos e a maçonaria) diz:

“Na estrutura excessivamente rígida da sociedade francesa, as lojas maçônicas foram o lugar onde as diferenças de nascimento e condição se cruzavam, pelo menos em teoria.

Tal impressão de igualdade era estimável para os membros das classes burguesas, mas não conseguia atrair os músicos. Ao contrário da Inglaterra, onde a profissão tinha apreciado por muito tempo uma honra incontestável (membros da Capilla Real* eram chamados de senhores), músicos franceses eram considerados primos próximos a idiotas:  comediantes …” 

*Capilla Real era um corpo de músicos que servia a Corte Real.

O que se pode constatar é que, também dominada pelos maçons, as associações francesas desempenharam, no século XVIII, um papel muito importante na vida musical e no desenvolvimento do teatro musical do final do século. Isso estava em evidência na época da Revolução, especialmente pelo fato de que o círculo fechado da maçonaria assegurava, de uma só vez, público constante e os meios de criação de novas obras.

No entanto, as fontes disponíveis hoje em dia indicam que durante os dois anos de existência, a Philo musicae Society era formada por dezoito maçons quando se dissolveu em 23 de março de 1727. Parece que a sociedade teve uma vida muito curta, considerando o modo como surgiu.

Há fortes indícios de que o fim abrupto foi devido aos protestos do Grão-Mestre James Hamilton, 7º Duque de Abercon, que desprezava fortemente, desde o ano anterior a sua dissolução, a prática de associações com lojas.

O Grão-Mestre insistia que apenas as lojas regulares tinham autoridade para iniciar e conferir graus aos maçons. Essa situação atraiu a atenção de seu sucessor, William O’Brian, Conde de Ichiquin, sobre o inconveniente de conferir as “sociedades” o direito de iniciar Maçons e decidiu proibir, na Inglaterra, a prática de formar associações paralelas ou clubes paralelos, tendo em conta que uma loja para ser considerada legítima deveria ter recebido a patente da Grande Loja de Londres.

Outro argumento é que a Maçonaria, na medida em que permitiria tal forma de desenvolvimento, não tinha nenhum controle sobre a regularidade das ações, nem sobre a estruturas destas associações.

Este pequeno grupo de músicos, que era visto como insignificante e ignorado pelos historiadores, em sua ata de 12 de maio de 1725, atraiu a atenção para o fato de que a loja-sociedade conferia dois graus acima do grau de “Aprendiz”, ou seja, o de Companheiro e o de Mestre, que apareciam como uma novidade ….

“Nossos bem-amados irmãos e diretores desta mui venerável sociedade cujos nomes aparecem abaixo:

Irmão Charles Cotton e Irmão Bola Papillon – Foram regularmente passados a Mestres.

Irmão F.X. Geminiani – Foi regularmente passado a Companheiro e a Mestre.

Irmão James Murray – Foi regularmente passado a Companheiro”

Este Philo musicae Society minute book (Livro de Atas) está preservado no Museu Britânico e pode ser o mais antigo registro escrito, conhecido atualmente, onde consta a existência de um terceiro grau.

Além disso, é um documento precioso sobre a organização da Maçonaria antes de 1730, que envolve transmissão de graus, comunicação e iniciação com as organizações particulares que poderiam ser desenvolvidas fora da loja.

Mesmo que essas sociedades musicais fossem restritas a maçons, nada indica que o trabalho de natureza não maçônica estava presente em suas reuniões. Isso parece ter sido mais uma razão para a proibição feita contra eles.

No entanto, esta prática nos traz à dúvida sobre a verdadeira natureza de tais sociedades …..

  • Será que havia sido transferido a eles parte da autoridade da loja que eles faziam parte?
  • Será possível que a definição de loja daquele tempo não era tão clara como conhecemos hoje?

… os elementos para estas respostas provavelmente serão encontrados no “nomadismo” que abordamos antes.

Em outras palavras, os maçons da Philo musicae faziam isso por força do hábito, por ignorância da maçonaria ou simplesmente pelo fato de que as estruturas criadas em 1717 por seus fundadores, não tinham nada mais do que as ferramentas cujas formas eles copiaram?

Se fosse por hábito, de onde veio o grau de Mestre e de onde se conhecia a existência e a transmissão da “palavra”? Se fosse por ignorância, porque esse nome (Mestre) em vez de outro título mais elogioso? Seria o título de mestre dado aos mestres da música?

Essa última pergunta que incentiva alguns historiadores da maçonaria a considerar que o grau de Mestre não tinha sido inventado naquele momento, mas somente para diferenciar os membros que participavam da Sociedade Musical dos demais maçons da loja.

Essa teoria é, obviamente, incompatível com a eleição dos Maçons “modernos”, como Anthony Sayers no exercício do cargo de primeiro Grão-Mestre da Grande Loja de Londres. A principal razão dada para esta escolha foi a qualidade de mais antigo Mestre Maçom, embora livreiro de profissão.

Portanto, se um livreiro poderia ser um Mestre sem ser Grão-Mestre, isso significava que o grau sempre existiu na maçonaria especulativa e, consequentemente, que alguma forma de grau de Mestre era praticado, como o argumento de “mestre mais antigo” leva-nos a pensar que era um mestre de longa data, e bem antes de 1717.

Se essas associações musicais foram concebidas com diferentes propósitos, como o de desenvolver certos modos de investigação ou vias filosóficas, então é possível pensar que este tipo de sociedade foi criada com o objetivo de sistematizar a construção dos “pilares da harmonia” usadas ​​nas lojas…. Limitando a música a uma estrutura externa que não significa, necessariamente, dar-lhes todas suas prerrogativas.

A música fazia parte da vida da Corte e torna-se lógico pensar que os Mestres não gostariam de deixar para os cortesãos os direitos que eram próprios deles. Pode-se entender que este “hábito”, poderia confirmar a existência de uma forma mais “inovadora” de Maçonaria moderna, que parece ter se tornado um problema para o Grão-Mestre.

De fato, as autoridades da Grande Loja de Londres parecem ter mostrado a princípio uma certa indulgência em relação à Philo musicae.

Os sete principais oficiais e fundadores da sociedade foram convocados para ir a Grande Loja em 1725, sem dúvida, a fim de regularizar essa situação.

Eles não se preocuparam a responder ao convite. Em dezembro de 1725, o Duque de Richmond, Grão-Mestre, envia uma carta à Philo Musicae exigindo explicações sobre a recepção de maçons irregulares que estava ocorrendo na sociedade.

As atas deste último testemunham que a solicitação foi tratada com desdém, mas com raiva. Certamente as limitações obedienciais eram mal recebidas naqueles primeiros anos da maçonaria organizada, as reações dos membros da Philo musicae só podiam ser explicadas pelo prestígio de seu desempenho nas noites musicais ….”

Este “hábito” potencial das sociedades “fraternas” nos apresenta uma pergunta: as associações criadas ou associadas com lojas, “faziam” maçons e os elevavam aos três graus, incluindo o ensino da lenda de Hiram?

Se fosse esse o caso, era uma lenda maçônica ou um mito extraído do folclore e introduzido na Maçonaria por estas práticas paramaçônicas?

Na verdade, ela não diz em nenhum lugar que os maçons recebidos em suas cerimônias tinham sido despojados de tal qualidade após o encerramento da Sociedade, o que dá a entender que havia uma regularidade da cerimônia.

Concluindo, o texto acima nos dá um vasto campo de dúvidas sobre a maçonaria do início do século XVIII, muito mais perguntas do que respostas, o que é muito bom para o investigador da verdade que assim continua suas pesquisas…

Autor: Luciano Rodrigues

Fonte: O Prumo de Hiram

Bibliografia

Jean Bossu – Renaissance Traditionnelle, Nº 35, Julho de 1978 – Philo Musicae et Architecturae Apolloni Society

Ars Quatuor Coronatorum – Nº 16, 1903 – Philo Musicæ et Architecturæ Societas Apolloni: A Review – R.F. Gould

GOBLET D’ALVIELLA – 1907 – Des origines du grade de maitre dans la franc-maçonnerie

Roger Dachez – Hiram et ses frères : Essai sur les origines du grade de Maître

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Origem e evolução dos Cargos em loja da Maçonaria e dignidades maçônicas na Grã-Bretanha do século XVII até nossos dias – Parte III

Avental Provincial De Chester - Colecionador - Maçonaria | Mercado Livre

III – As Grandes Lojas provinciais

Desde meados do século XIX, existem Grandes Lojas provinciais na Inglaterra. Estas Grandes Lojas são dirigidas pelos Grãos Mestres Provinciais (nomeados pelo Grão-Mestre) e os Oficiais provinciais que usam decorações comparáveis às dos Oficiais da Grande Loja Unida da Inglaterra, com a famosa “liga azul”, o azul da Ordem da Jarreteira. As Grandes Lojas Provinciais cobrem todo o país, com exceção da região de Londres administrada diretamente pela GL. Esta particularidade destaca a verdadeira função dessas Grandes Lojas. De fato, para entrar no cursus honorum da maçonaria inglesa deve-se necessariamente começar pelo escalão provincial. Como os irmãos de Londres não contavam com isso, foi criado para eles no início do século, o “London Rank” e depois o “London Grand Rank,” que são o equivalente exato de uma dignidade de Grande Oficial provincial na jurisdição de Londres. Todos os anos são criados cerca de sessenta “Active Grand Rank” e cerca de 200 “Past Grand Rank[10], que envergam, evidentemente, a “liga azul”. Assim, constata-se que os cargos provinciais (ou seus equivalentes) são usados essencialmente para outorgar honras maçônicas[11] a irmãos que, por definição, são todos Past Masters. As Grandes Lojas provinciais, portanto, têm um papel muito mais honorífico que administrativo[12].

História das dignidades de Grandes Lojas Provinciais

Nas Constituições de 1738, não encontramos nenhuma provisão relativa aos Grandes Oficiais Provinciais (e muito menos aos Grãos Mestres Provinciais), embora saibamos que eles já existiam. Mas, o fato de que havia Grãos Mestres Provinciais não significa em absoluto que havia Grandes Lojas Provinciais. A distinção pode ser sutil, mas não deixa de ser real. Os Grãos Mestres provinciais realmente apareceram antes das Grandes Lojas provinciais.

Muito cedo na história da maçonaria inglesa, nomeavam-se dignitários para representar o Grão-Mestre nas províncias. Estes representantes eram titulares de uma missão que lhes era confiada pessoalmente (eram os Grãos Mestres Adjuntos para as províncias), mas eles não estavam no comando de uma estrutura administrativa regional com que tivessem de se ocupar.

Isso de fato permite entender, de passagem, uma expressão ambígua e muitas vezes citada das Constituições de 1738, sobre países estrangeiros:

“todas as lojas estrangeiras [isto é, fora da Inglaterra] estão sob o patrocínio do nosso GM, mas a antiga loja da cidade de York e as lojas da Escócia, Irlanda e France[13] e Itália[14] assumindo que tenham sua independência [affecting independency] e seu próprio Grão-Mestre, e que tenham a mesma constituição, os mesmos deveres e as mesmas regras que nós e que elas tenham o mesmo zelo com o estilo da Augusta e o segredo de nossa antiga e honrosa fraternidade.”

Este texto nos ensina que, na época de Anderson, havia dois tipos de Grão-Mestre. De um lado, havia Grãos Mestres colocados no comando de Grandes Lojas “presumindo sua independência” em relação a Londres e, de outro lado, Grãos Mestres nas províncias inglesas sob o controle do Grão-Mestre da Inglaterra. Esses últimos eram Grãos Mestres intuitu personnae, como pessoa, e, portanto, não estavam à frente de Grandes Lojas provinciais em sentido estrito do termo. Assim, a expressão “affecting independency” não é uma contestação dessa independência por Londres, como alguns autores estimaram imprecisamente, mas a constatação de uma situação diferente da que prevalece na Inglaterra, onde os Grãos Mestres Provinciais dependem diretamente do Grão-Mestre.

A primeira referência oficial aos Grãos Mestres Provinciais na Inglaterra encontra-se nas atas da Grande Loja em 1747. Naquela época, na hierarquia das dignidades, eles ficavam depois[15] dos Primeiros Grandes Vigilantes e antes do Grande Tesoureiro.

Em 1756, no livro das Constituições chamadas “d’Entick” (1ª edição), definem-se regras específicas relativas aos Grãos Mestres. Lê-se:

“O cargo de Grão-Mestre Provincial foi considerado particularmente necessário desde o ano de 1726 [note-se que não se pretende que existissem então Grandes Lojas Provinciais], quando do aumento extraordinário do número de obreiros [ou seja, de homens do Oficio], e suas viagens às vezes a partes mais remotas do mundo, a necessidade de que eles tenham à sua disposição uma autoridade própria.”

Isto se dá devido ao afastamento dos irmãos da metrópole que foi criado o cargo de Grão-Mestre Provincial para lhes dar um chefe por delegação. O Artigo II dessas Constituições afirma que “a nomeação deste Grande Oficial é uma prerrogativa do Grão-Mestre que lhe outorga sua delegação”, e que “o Grão-Mestre Provincial assim delegado tem o poder e a honra de um Grão-Mestre Adjunto”.

Em 1756, a instituição dos Grãos Mestres Provinciais está bem integrada na maçonaria inglesa e seu lugar na hierarquia é elevado: o Grão-Mestre Provincial situa-se na terceira posição, logo atrás da Grão-Mestre Adjunto. Note que mesmo neste texto de 1756, não há menção alguma de Grandes Lojas provinciais nem de oficiais provinciais. Ser Grão-Mestre Provincial é especialmente possuir um título equivalente ao de um Grão-Mestre Adjunto.

Em 1767, na 4ª edição das Constituições d’Entick, o artigo II é modificado:

“O Grão-Mestre Provincial assim delegado fica investido do poder e a honra de um Grão-Mestre em seu distrito particular e tem o direito de usar as decorações de um Grande Oficial, estabelecer lojas em sua própria província e em qualquer reunião pública, de marchar logo atrás do Grande Tesoureiro. Ele também tem o poder de nomear um Adjunto, vigilantes, um tesoureiro, um secretário, um porta-espada, que estão qualificados para usar as decorações de Grandes Oficiais quando eles oficiarem como tal naquele distrito particular, mas em nenhum outro lugar”.

Nessa época, começa então a se constituir em torno do Grão-Mestre Provincial, uma equipe de Grandes Oficiais. É o início de estruturação.

Nas Constituições de Noorthouck de 1784, os Grandes Oficiais são finalmente claramente identificados como elementos essenciais para o funcionamento de uma Grande Loja Provincial.

Assim, no período anterior à União de 1813, pode-se distinguir duas fases:

  1. A fase de 1726 a 1767, durante o qual há Grãos Mestres Provinciais, sem que se faça alusão às Grandes Lojas provinciais nem a Grandes Oficiais provinciais;
  2. A fase de 1767-1813, onde os Grãos Mestres provinciais adquirem o poder de nomear Grandes Oficiais Provinciais. Isso pressupõe uma espécie de Grande Loja Provincial, embora o termo não apareça ainda nos textos. Neste momento, a Grande Loja Provincial não está claramente definida e não tem ainda realmente estrutura nem poder.

A partir da União de 1813, a nova Grande Loja Unida da Inglaterra se constitui. As Constituições William (de 1815-1827) precisam então que o Grão-Mestre Provincial “detém [isto é, preside] uma Grande Loja Provincial, pelo menos uma vez por ano”. Mas ainda não se define o que é esta famosa Grande Loja Provincial.

Nos anos que se seguiram, as Grandes Lojas provinciais adquirem sua forma definitiva. Elas devem reunir-se uma vez por ano, os Oficiais provinciais passados e ativos devem estar presentes ali, bem como os Veneráveis, os Past Masters e os Vigilantes de todas as lojas individuais.

Uma Grande Loja Provincial aparece como a reunião de Grandes Oficiais provinciais (com poderes imprecisos), as quais se juntam todos os Veneráveis e Vigilantes em seu distrito. Esta prática é muito antiga, como é observado em York, e em Chester desde a década de 1730. Naquela época, alguns Grãos Mestres Provinciais já detinham o equivalente a uma Grande Loja Provincial. Eram, na verdade, reuniões com periodicidade indeterminada ocorrendo dentro da loja mais antiga em operação na região. Nessa reunião, e durante os trabalhos, a loja e os seus oficiais tinham uma função provincial. Note-se que é assim que funcionava a Grande Loja dos “Antigos” durante os três primeiros anos de sua existência. De 1751 a 1753, o que ainda era chamado de “Grande Comissão” (antes de se tornar a Grande Loja dos “Antigos”, considerando que eles não se erigiam como uma “Grande Loja” até que ela tivesse encontrado um irmão nobre para a presidir como Grão-Mestre) reunia-se anualmente em uma loja designada por antiguidade e era presidida pelo Venerável desta loja, que agia como Grão-Mestre pro tempore[16].

A organização das províncias é o último ato na evolução das dignidades maçônicas inglesas. A existência desses escalões provinciais não impedia a Grande Loja Unida da Inglaterra de ser muito centralizado e muito hierarquizada. A história dessas Grandes Lojas provinciais mostra bem que se tratava sobretudo no início, de dar dignidades a certos irmãos. Isto é particularmente notório com o caso da região de Londres, onde foram criados a partir do zero um substituto para as dignidades provinciais. As Grandes Lojas provinciais são assim menos um escalão administrativo que um escalão de dignidades intermediário entre as dignidades de uma determinada loja e as da Grande Loja Unida da Inglaterra. Este elemento tardio é certamente devido ao grande desenvolvimento da maçonaria Inglesa no século XIX.

Conclusão

A formação do sistema de dignidades e de cargos da loja no sistema Inglês é algo complexo e ainda parcialmente obscuro. No entanto, podemos identificar dois fatos importantes.

  1. Embora os cargos e dignidades de uma loja inglesa dos anos 1720 fossem fortemente influenciados pela herança escocesa (no vocabulário e na estrutura), o fato é que inovações importantes foram introduzidas (por exemplo, a aparição de dois vigilantes, ou a do diácono);
  2. É provável que alguns cargos de lojas particulares (por exemplo, o Tuileur ou Cobridor Externo) já existiam na Grande Loja antes de serem introduzidos em loja. Este relacionamento da Grande Loja e das lojas individuais coloca a questão do status real da Grande Loja fundada em 1717. Era ela uma potência reguladora, ou era simplesmente a reunião de lojas, uma vez que é provável que tenha sido só mais tarde, por volta de 1721-1723, com a entrada da aristocracia na maçonaria inglesa que Grande Loja tornou-se um poder que se impunha às lojas individuais? Assim, os novos cargos, que parecem necessários nestas grandes reuniões, poderia então ser introduzidos naturalmente nas lojas.

Autores: Roger Dachez e Thierry Boudignon

Tradução: José Filardo

Fonte: Bibliot3ca Fernando Pessoa

Notas

[10] – Portanto, existem dois tipos de oficiais provinciais: os “Active Grand Officers” e os “Past Grand Officers”. Este último status tem, na verdade, como função recompensar alguns irmãos. Para obtê-lo, não é necessário ter exercido as funções correspondentes. Entretanto, quando se o obtém, desfruta-se dos mesmos benefícios (condecorações etc.) que aqueles que realmente exerceram…

[11] – E, em teoria, também instalar lojas. Mas, na maior parte das vezes, o GM provincial delega esse encargo ao GM Adjunto, que por sua vez delega aos GM Assistentes que, eles mesmos, o confia aos Veneráveis ​​Mestres da região.

[12] – A administração local real é conduzida pelas Lojas de Mestres instalados, uma verdadeira estrutura que são clubes regionais de Veneráveis.

[13] – Sabemos que os três primeiros GGMM da Maçonaria Francesa (o Duque de Wharton, Mac Leane, Lord Derwentwater) eram anglo-saxões. No entanto, não podemos considerá-los “representantes” do GM da Inglaterra pela simples razão de que eles haviam sido eleitos pelos irmãos franceses. Além disso, essas lojas eram provavelmente mais franco-escocesas que franco-inglesas. Esta é a oportunidade de esclarecer que a famosa “GL Inglesa da França”, cara para alguns “historiadores” nunca existiu. Trata-se simplesmente de uma falsificação do Cavaleiro de Beauchaine (ou Beauchesne).

[14] – A primeira excomunhão de maçons pelo papado veio, entre outras coisas, da presença de lojas na Itália.

[15] – Lembremo-nos que no protocolo maçônico de costume, são os mais altos na hierarquia que são os últimos.

[16] – A LNF funciona hoje dessa forma.

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Origem e evolução dos Cargos em loja da Maçonaria e dignidades maçônicas na Grã-Bretanha do século XVII até nossos dias – Parte II

EXPERTOS - ARLS:. Universitária Professor José de Souza Herdy

II – Evolução dos cargos em loja nos “Modernos” e nos “Antigos” até a união de 1813

Vimos que a estrutura da maçonaria inglesa da década de 1720 deriva globalmente das estruturas da maçonaria escocesa do século XVII. No entanto, não sabemos onde, quando, como e por quem essa transmissão foi feita[1]. Por outro lado, sabemos que houve, durante a transmissão, uma série de mudanças, das quais as mais significativas são o fato de que a Presidência da loja não é mais confiada a um “Warden” ou a um “Deacon”, mas a um “Master of lodge” (Mestre de loja), e que este presidente é ajudado não por um, mas por dois assessores, os “Wardens” (Vigilantes). Sabemos, também, que esta nova estrutura (isto é, um Venerável Mestre e dois Vigilantes) vai se impor. Aliás, na década de 1740, é a única conhecida, e é aquela da Grande Loja de Londres. É então que aparece um novo sistema, importado pelos irmãos vindos da Irlanda que tinham, provavelmente, costumes, práticas e tradições próprias. Em 1751 e depois em 1753, esses maçons constituem uma nova obediência, a “Grande Loja da Inglaterra segundo as Antigas Instituições”.

Como sabemos, esses maçons se auto denominavam “Antigos”, porque alegavam ter uma tradição mais antiga que a da Grande Loja de Londres, e atribuíam aos membros desta última, entretanto mais antiga que eles, o adjetivo pejorativo de “Modernos”. Esta “Grande Loja dos Modernos” é hoje chamada “Primeira Grande Loja”. Em 1772, os “Antigos” elaboraram uma lista de pontos de desacordo com os “Modernos”, em que levantaremos duas questões que são relevantes para o nosso tema:

O Venerável Mestre

Os “Antigos” reprovavam nos “Modernos” ignorar a instalação secreta do Venerável Mestre, considerada fundamental pelos irlandeses. Isto, na prática, permite o acesso ao grau do Arco Real, um grau que é considerado pela tradição irlandesa como a cúpula da Maçonaria. Esta instalação secreta de que não há praticamente nenhum testemunho antes de 1760 em solo britânico, transmite uma palavra, um sinal, um toque e é de fato uma espécie de super grau de Mestre. Assim, junto aos “Antigos”, o cargo de Venerável Mestre está relacionado com uma cerimônia que tem a estrutura de um grau: a Instalação. Isso rapidamente se imporá aos “Modernos”.

Os Diáconos

Os “Antigos” culpavam os “Modernos” por ignorar o cargo de Diácono. Lembremo-nos que os “Diáconos” existiam na Escócia, no século XVII nas corporações de ofício, mas não os encontramos na Inglaterra em 1723. São os irlandeses que implantarão o cargo de Diácono na Inglaterra e isso não é surpreendente uma vez que este cargo é claramente atestado em uma loja na Irlanda desde 1733 e, em 1743, durante uma procissão maçônica onde os diáconos desfilaram com uma espécie de bastão ou cana dourada. O cargo de diácono torna-se assim, em 1753, junto aos “Antigos”, um cargo da loja colocado imediatamente na hierarquia de cargos abaixo dos Vigilantes[2].

No entanto, a origem desses Diáconos vindos da Irlanda permanece um mistério. De fato, parece não haver realmente nenhuma relação entre o Diácono Escocês (que é único e que dirige a Corporação) e os Diáconos irlandeses (que são dois oficiais secundários da loja), apesar da homonímia aparente[3].

Assim é que este cargo, desconhecido dos “Modernos”, vai gradualmente se estabelecer em suas lojas. As divulgações impressas da década de 1760, principalmente originários da tradição dos “Antigos”, certamente contribuíram, de modo que, antes da União de 1813, em 1810 e 1812, já se encontram Diáconos nas lojas dos “Modernos”[4]. Estes Diáconos carregam um bastão negro com joias prateadas.

O Telhador (Cobridor Externo)

Originalmente, este cargo (como outros cargos talvez) era provavelmente uma dignidade específica da Grande Loja. Só então, e provavelmente por mimetismo, ele se tornou um cargo nas lojas. O Telhador[5] exerce, além da função de guarda externo da instalação secreta, a da ordem das palavras sagradas.

Na loja tem por função enviar as convocações aos irmãos, em mãos. Ele deve também traçar o painel da loja[6]. O cargo do Telhador evoluirá gradualmente para se tornar uma espécie de zelador da loja mediante uma pequena remuneração, que é sempre o caso na Inglaterra. Ao lado do Telhador apareceu depois de 1813 um Cobridor, tradução mais extensa que “Guarda Interno” ou guarda do interior, cargo que resulta simplesmente da divisão do cargo de Telhador[7].

A estrutura da loja depois da União de 1813, emprestou a maioria de suas formas dos “Antigos”. Seja quanto ao vocabulário utilizado, a presença de Diáconos, no lugar dos três oficiais principais[8], os “Antigos” impuseram seus usos aos “Modernos”[9] que, de fato, já os tinham amplamente adotados antes da União. Então, foi nessa época que foi fixado, e até nossos dias, o sistema de cargos e dignidades de loja na Inglaterra.

Continua….

Autores: Roger Dachez e Thierry Boudignon

Tradução: José Filardo

Fonte: Bibliot3ca Fernando Pessoa

Notas

[1] – O sistema escocês ainda está presente no manuscrito Keavan (1714), enquanto que o sistema Inglês é certamente atestado a partir de 1723.

[2] – Uma parte do papel dos vigilantes na tradição dos “Modernos” foi transferida para os diáconos que se tornam, de algum modo, seus adjuntos. Por exemplo, são os diáconos, e não os vigilantes como na tradição dos “Modernos” que orientam o candidato nas viagens.

[3] – Recordemos uma vez mais que o diácono escocês é uma espécie de delegado geral, enquanto o diácono irlandês, como o diácono da igreja católica, tem uma função subordinada.

[4] – Na época da União, em 1813, será reconhecido que o ofício de diácono não é apenas útil, mas necessário.

[5] – A palavra “Tyler” (Cobridor externo) aparece pela primeira vez na ata da Grande Loja em 1732.

[6] – Estas funções são encontradas na França, cf. O segredo dos maçons do Abade Perau.

[7] – O cargo de cobridor é estranho à tradição dos “Modernos”. Por exemplo, no Rito Escocês Retificado, cuja estrutura empresta muita coisa dos “Modernos”, vemos que é o Mestre de Cerimônias que exerce as funções de cobridor.

[8] – Nos “Modernos”, os dois vigilantes estão no ocidente, enquanto que nos “Antigos”, há um no ocidente e outro ao sul.

[9] – Pode-se acrescentar a isto, a questão da instalação secreta e a da ordem das Palavras sagradas.

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Origem e evolução dos Cargos em loja da Maçonaria e dignidades maçônicas na Grã-Bretanha do século XVII até nossos dias – Parte I

Trois gravures encadrées. Représentant des scènes maçonniques, gravures dites[...]

I – Os oficiais da Loja, da Escócia de William Shaw à primeira Grande Loja inglesa até 1750

Qual é a origem dos oficiais de uma loja maçônica? Responder a esta pergunta é necessariamente relacioná-la com o sistema primitivo de graus maçônicos e procurar essa origem primeiro na Escócia ao final do século XVII e depois na Inglaterra no início do século XVIII.

Lembremo-nos que na Escócia, no século XVII, o sistema de graus consistia em duas etapas: Aprendiz (isto é, um Aprendiz que fez suas provas durante 7 anos em média como Aprendiz registrado) e o Companheiro ou Mestre este último chegando raramente a ser alcançado em virtude de seu custo. Além disso, existiam dois tipos de estrutura nessa Maçonaria Escocesa: uma estrutura civil, administrativa e pública, a corporação ou Guilda de Mestres que governava a cidade e o emprego, e uma estrutura “secreta” específica do ofício, a loja. Estas estruturas, em princípio independentes eram, de fato, complementares, o que causava rivalidades e conflitos. De qualquer forma, a corporação consiste de Mestres, mestres que tinham na loja o “grau” mais alto que se podia conferir, o de Companheiro de Ofício, categoria na qual são recrutados os futuros mestres da corporação. Fica assim claro que o título de “Mestre” não era um grau da loja, mas uma dignidade civil, que era adquirido através de herança, casamento ou até mesmo compra.

No início do século XVIII, na Inglaterra, na década de 1720, um novo grau apareceria, o grau de Mestre. É certamente atestado em 1730, na forma em que o conhecemos e a composição desse grau, puramente Inglês, aparentemente, era o resultado da adição de uma lenda ao segundo grau, de Companheiro, de origem escocesa.

O novo segundo grau inglês, o de Companheiro “novo estilo” em um sistema agora de três graus, resultou de uma divisão do antigo primeiro grau escocês. Assim, no sistema inglês, o título de “Mestre” tornou-se um grau de loja. Este sistema tem, portanto, a seguinte composição: Aprendiz, Companheiro e Mestre Maçom. Mas o termo “Mestre” vai se tornar rapidamente ambíguo, uma vez que designará tanto um grau, “Mestre Maçom” quanto um cargo, o Mestre da Loja (cargo que sabemos ser também um grau)…

Os cargos da loja no século XVII

Em uma loja de maçons “operativos” na Escócia, no século XVII, havia um presidente que se chamava “Warden”, etimologicamente “o Guarda” (a tradução como Vigilante impôs-se somente no início do século XVIII). Esse termo, “Warden” ou Guarda é encontrado nas organizações tradicionais do ofício. Na Inglaterra também, embora as organizações de ofício (as “Companhias de Londres”, as guildas londrinas, incluindo a Companhia dos Maçons de Londres, “London Masons Company”) não tinham, naquela época, a importância das suas contrapartidas escocesas, no entanto, elas elegiam um presidente que trazia e ainda traz o título de “Warden”. Ao contrário, nas corporações escocesas, o presidente se chamava “Deacon”, ou Diácono (o enviado) ou, no vocabulário contemporâneo, “delegado geral”. As rivalidades entre a corporação e a loja explicam que, em alguns casos, há também “diáconos” nas lojas. Além dos cargos de “Vigilantes” na loja e o “Diácono” na corporação, não se conhecem outros oficiais na Escócia, embora seja provável que houvesse algum tipo de secretário-tesoureiro o “funcionário”, fora da profissão, mas cuja função era essencial a vida da loja.

Os cargos da loja no século XVIII (1717-1723)

Quando, onde e como o sistema escocês foi transmitido na Inglaterra até o aparecimento das lojas, depois de uma grande loja, com seus próprios oficiais? Isso ainda é, em parte, um mistério.

O sistema da primeira Grande Loja em 1723, era o seguinte: o Título IV das Constituições distinguia os Mestres, os Vigilantes, os Companheiros e os Aprendizes. Aqui o termo “Mestre” não se refere a um grau, que ainda não existia, mas um cargo, o “Mestre da Loja”. Há também um outro cargo: o Vigilante (“Warden”). A hierarquia ou o currículo maçônico assim se estabelecia: somos primeiro Aprendizes, depois Companheiros, grau que é uma qualificação indispensável para se tornar, eventualmente, Vigilante, depois Mestre da Loja, função superior à do Vigilante. Além disso, previa-se que em caso de incapacidade do Mestre da Loja, o “Senior Warden (Primeiro Vigilante)”, isto é, literalmente, “o guarda mais antigo” que o substituía, se não existisse um “ex” Mestre de Loja, e na falta do “Senior Warden,” chamava-se o “Junior Warden” (Segundo Vigilante) ou “o guarda mais jovem”. Note-se que a tradução para 1º e 2º Vigilantes é, na verdade, falha, embora seja consagrada pelo uso.

Constatamos assim que se distinguia, que se tratava tanto de Mestres quanto de Vigilantes, o mais velho e o mais novo. Assistimos aqui a origem da passagem de um “Warden” único, para dois “Wardens”? A duplicação de Vigilantes seria então o resultado de se levar em conta a antiguidade no exercício da função, exatamente como existe um “Mestre da Loja” e um “Mestre Instalado” (Past Master). Em suma, em 1723, a loja era presidida por um “Mestre” assistido por dois Vigilantes, o “Senior Warden” e o “Junior Warden”.

Mas existiam outros oficiais? O artigo 17 do Regulamento Geral da Grande Loja distingue um Grão-Mestre, um Grão-Mestre Adjunto, Grandes Vigilantes, um tesoureiro e um secretário, os dois últimos cargos parecendo ainda serem exercidos temporariamente.

Em relação ao período inaugural 1717-1723, faltam-nos documentos, pois o registro das atas da Grande Loja começa precisamente em 1723, e não foi senão em 1738 que Anderson reconstruiu as atas anteriores. Convém, portanto, manusear esses textos com prudência. De acordo com Anderson, havia em 1717, um Grande Mestre, Anthony Sayer, investido pelos mais antigos Mestres de Loja presentes. Havia também dois Grandes Vigilantes. Esta prática, um Venerável e dois Vigilantes, parece vir das quatro lojas fundadoras da Primeira Grande Loja, e se conservou.

Depois de 1730 e do aparecimento do grau de Mestre, foi necessário modificar o conteúdo do Título IV das Constituições. O currículo maçônico torna-se então o seguinte: Aprendiz, Companheiro e Mestre Maçom. Os Vigilantes são escolhidos entre os Mestres Maçons e para se tornar Mestre da Loja, deve-se ter sido Vigilante. A palavra “Mestre”, portanto, designa ao mesmo tempo um grau e um cargo.

Os Diáconos

Não há nenhuma menção dos Diáconos antes de década de 1740, isto é, num momento em que os irlandeses começam a se manifestar. Na obra Maçonaria Dissecada de 1730, bem como no manuscrito Wilkinson (circa 1727), não são os Diáconos que recebem o candidato, como na maçonaria inglesa contemporânea, mas o 2o Vigilante. Esta tradição passará então à França e permanecerá no Rito Escocês Retificado. Assim, constata-se que se o cargo de “Warden”, um cargo da loja escocesa, é facilmente implantado na Inglaterra, por outro lado o cargo de “Deacon” ou “Diácono”, um cargo da Corporação levará mais tempo, provavelmente por ser estranho às organizações de ofício inglesas. Assim, através dos Irlandeses e da Grande Loja dos “Antigos” este cargo tomará pé mais tarde na Inglaterra. Mas existe uma relação entre os cargos escoceses e irlandeses?

O Telhador ou Cobridor Externo

Desde 1723, na Inglaterra, Anderson, nas Constituições refere-se a um irmão encarregado de guardar a porta da Grande Loja, mas se ele designa a função, ele não a nomeia, o que será feito apenas na década de 1730. No entanto, não é certo que este cargo de Grande Loja já existisse nas lojas. Parece, mais, que o cargo de Cobridor, como talvez outros cargos, seria o produto de uma inovação da Grande Loja que, então, se espalhou pelas lojas querendo imitar a Grande Loja. Este fenômeno também foi observado na França. Neste contexto, a palavra e o cargo de “Tuileur (Cobridor)” aplicados a uma loja são atestados nas primeiras divulgações dos anos 1740, e seu papel na estrutura da loja é bem especificado ali.

No entanto, a Grande Loja de Londres começou a se interessar pela estruturação do sistema de cargos nas lojas, pois desde 24 de junho de 1727, ela decidiu, pela primeira vez, que o Mestre e os Vigilantes de todas as lojas, deveriam usar as joias da Maçonaria penduradas em uma fita branca. Em 17 de março de 1731, afirma-se que os aventais de couro bordados com seda branca serão reservados para o Venerável Mestre e os Vigilantes, enquanto a cor dos colares e da seda bordando os aventais dos Grandes Oficiais seria azul, sem especificar a natureza exata deste azul.

A partir de 1750, a Maçonaria Inglesa, no entanto, vai conhecer uma situação radicalmente nova.

Continua….

Autores: Roger Dachez e Thierry Boudignon

Tradução: José Filardo

Fonte: Bibliot3ca Fernando Pessoa

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Podcast Ritos & Rituais – 1717 ou 1721? Em que ano nasceu a Grande Loja da Inglaterra? (Parte II)

Nesse episódio, Rogério Miranda, Felipe Côrte Real e Cloves Gregorio, dão sequência ao debate sobre em que ano foi criada a Grande Loja da Inglaterra e Westminster: 1717 ou 1721?

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As Constituições de Anderson de 1723 e de 1738

The importance of the Constitutions of Anderson | SUN YAT SEN LODGE N. 8

Há um texto em La Tulip [1] que, parcialmente, atinge o alvo quando diz que “a distinção entre operativos e especulativos nunca poderá ser absoluta por dois fatores: o primeiro, que as Antigas Obrigações contêm parte de natureza especulativa na forma de uma espécie de lenda alegórica do Ofício; o outro fator exposto é que as primeiras lojas da Grande Loja de Londres eram nessa época operativas, apesar da aceitação de numerosos cavalheiros, ou seja, aqueles que sabem como desempenhar bem o seu ofício, que estão em posição de ocupar um cargo de responsabilidade social; que têm um senso de honra, pelo qual é respeitado pelos demais. Aprendeu mais com as viagens que fez e com a experiência direta com as coisas do que com os livros. Que foi formado com um critério pessoal, com o qual é capaz de julgar as coisas. E quem tem conhecimento sólido e útil para a vida. além da virtude de saber como dominar seus sentimentos e subordiná-los à razão, antes de agir de acordo com eles.

Mas, em 1723, elas não eram numerosas o suficiente, a tal ponto que várias prescrições foram consagradas no mesmo ano, como o parágrafo V das Antigas Obrigações[2].

Nessas questões se misturam, por um lado, a petição de Payne como Grão-mestre para recolher todos os manuscritos sobre Maçons e a Maçonaria, a fim de conhecer em primeira mão os usos antigos, que certamente já deviam ser conhecidos se atentarmos para o pastor James Anderson, que afirma que, em 1716, havia seis lojas, e em 1718 já havia meia centena, o que resulta em que devia haver um grande número de maçons entre todos esses membros, o que indica, por sua vez, que a referida herança não era fácil de dissolver, pois era muito evidente e ativa entre as lojas fundadoras da Grande Loja em 1717, fossem elas operacionais ou quase especulativas.

Exceto que a estratégia de que falam Roger Dachez e Alain Bauer era justamente a de conseguir todas as cópias possíveis e depois livrar-se delas, [este é um argumento desenvolvido por um bom amigo Anselmo Vega em seu romance El Muro de Piedra [3], cuja tese se conecta muito bem a toda essa estratégia, porque mais tarde, na época do Grão Mestrado do duque de Montagu, ele declara “que havia encontrado todas as cópias [aquelas cópias das Antigas Obrigações que foram submetidas pelos membros da Grande Loja] para que fossem reformuladas em um método novo e melhor.”[4]

Nesse contexto, em que se indica ter uma série de lojas promovido a redação das Constituições de 1723, denominadas de Anderson, cujo texto não só não é assinado, mas só tem uma dedicatória ao Grão-Mestre, o duque de Montagu, escrito e assinado por Theophilus Desaguliers, Grão-Mestre Adjunto em exercício, terminando com a aprovação da obra pelo duque de Warthon, mas uma vez terminado o mandato de Montagu.

O fato de que as Constituições não tiveram o nihil obstat da Grande Loja, supunha-se que era devido a que estas eram entendidas como um trabalho coletivo e, apesar da supervisão de quatorze membros da Grande Loja, a situação de aprovação não fica clara. Segundo Anderson, foi aprovado com algumas emendas, mas pode-se duvidar sobre algumas dessas questões [5], dado que a Grande Loja teve dificuldade em aprovar o trabalho de Anderson, um fato que este estava interessado em esconder.

O texto das Constituições ainda estava na gráfica em janeiro de 1723, por isso era necessário emitir uma segunda aprovação muito mais curta e mais séria com os nomes do Grão-Mestre Wharton e de seus adjuntos, tais como Desaguliers, alegando que o livro havia sido produzido em forma impressa na comunicação trimestral em 17 de janeiro de 1723, sendo ordenada a publicação e recomendado para o uso das lojas.

Alguns dias depois, em 23 de janeiro de 1723, o seguinte anúncio apareceu no Daily Journal:

“Em benefício da antiga Sociedade dos Maçons Livres. Agora está pronto para publicação, um novo conjunto de constituições e ordens, muito diferente do Antigo, pelo qual a referida Sociedade está feliz e silenciosa, regulado por muitas eras passadas.

Serve o presente para informar a todos os amantes da pura Maçonaria, retiradas as Inovações e Interesses pessoais, que terá uma preparação rápida e entregue a eles, gratuitamente, as antigas constituições e ordens, tiradas das melhores cópias; onde tais erros na história e na cronologia, que, devido ao descuido de vários transcritores que se infiltraram entre eles, será completamente retificados

A extensão extravagante das referidas novas Constituições e Ordens, superior aos quatro sermões comuns, torna mais evidente que nele se calculam os gastos e danos da sociedade, simplesmente para servir ao interesse de um único membro, o autor, cuja segurança era tal que ele os imprimiu antes de oferecê-los à Censura Geral da Fraternidade. Por quais razões, esperamos que a Irmandade não se apresse agora para incentivar o referido Inovador. Para mostrar de forma honrosa e justa que trata com seus amados Irmãos Maçons, seu livro completo de dois e seis centavos será publicado rapidamente, em um papel tão bom quanto o dele, pelo preço de seis centavos; dos quais aviso oportuno será apresentado neste documento “.[6]

De qualquer forma, temos essa significante dedicatória inserida nas Constituições de 1723:

“À Sua GRAÇA O DUQUE DE MONTAGU SENHOR: Por Ordem de Sua Graça, o Duque de Wharton, atual justamente honorável Grão Mestre dos Maçons, e como seu Adjunto, dedicou humildemente a Vossa Graça este Livro das Constituições de nossa antiga Fraternidade, em testemunho de vosso honroso, prudente e vigilante desempenho do cargo de nosso GRÃO MESTRE durante o ano passado.

Não preciso dizer a Vossa Graça, do trabalho que nosso instruído AUTOR realizou para compilar e codificar este Livro dos antigos Arquivos e quão escrupulosamente ele comparou e expôs tudo sobre a História e a Cronologia, para que essas NOVAS CONSTITUIÇÕES sejam uma descrição justa e perfeita da Maçonaria, desde o começo do mundo até o GRÃO MESTRADO de Vossa Graça, preservando tudo o que é verdadeiramente autêntico nos antigos, porque o trabalho agradará a todo Irmão que saiba que Vossa Graça a leu e aprovou; e Imprima-se agora para uso pelas Lojas, depois de aprovado pela Grande Loja quando Vossa Graça era GRÃO MESTRE. Todos os irmãos se lembrarão da honra que lhes fez Vossa Graça. Toda a Fraternidade sempre se lembrará da honra que lhes destes, bem como do vosso zelo pela Paz, Harmonia e Fraternidade duradoura, que ninguém sente mais intensamente que Meu Senhor.

De Vossa Graça reconhecido, servo obediente e irmão fiel. J.T. DESAGULIERS Grão-Mestre Adjunto”.

Para piorar as coisas, esta primeira edição Andersoniana provocou uma cópia pirata que reproduzia o essencial do que Anderson havia exposto nessas Constituições, sendo posta à venda no A Pocket Companion, sob a responsabilidade de um certo William Smith.

Em fevereiro de 1735, Anderson interporá com duas reclamações à Grande Loja, uma porque a primeira edição das Constituições estava esgotada e se supunha que alguém deveria estar encarregado de reeditá-las, e a outra era motivada porque o tal William Smith havia plagiado material de seu livro para redigir seu libelo no Free Mason’s Pocket Companion, uma vez que, segundo Anderson, as Constituições eram sua propriedade exclusiva.

Mas a realidade é que, a julgar por essas divulgações, as Constituições de Anderson de 1723, tampouco parece que fossem propriedade da Grande Loja.

O texto que se pode ler na página de rosto da obra deixa claro que os editores e detentores dos direitos autorais eram John Senex e John Hooke.

Anderson, na época, trabalhava na tradução de Conversations in the Realms of the House of the Dead de David Fassmann e recebia seu pagamento de Hooke e Senex, sob a forma de pagamento por página (copy money), então presumivelmente, algo semelhante aconteceu com o volume das Constituições. Tanto é que, por mais que Anderson reivindicasse à Grande Loja, a edição de 1723 não era propriedade dele, nem parece ser propriedade da Grande Loja, mas dos editores.[7]

Por outro lado, é verdade que as Constituições de 1738 são assinadas por sua própria vontade e assinatura: James Anderson A.M. O autor deste livro. Mestre, de tal forma que assume inteiramente sua paternidade, embora mais tarde tenha tido bastante problemas com a distribuição da edição e sua posterior venda.

O que parece claro, realmente, quando se lê as Constituições, é que as Antigas Obrigações são sempre referenciadas em seus escritos, embora os fundadores da Grande Loja de Londres pareçam estar interessados em querer se afastar daqueles conhecimentos antigos clássicos que os precederam.

Os referidos textos, ainda na época, tinham certo prestígio e presença, mas, mesmo assim, ainda queriam deitar abaixo por meio dele, com referência ao modelo operativo, o que não deveria ser nada fácil, pois eram necessárias táticas, estratégias e muita paciência para desenvolver a força dos vestígios identitários do conjunto corporativo operativo, por mais em declínio que este parecesse estar.

Estamos falando de um ambiente profissional e social com implicações políticas e religiosas, bem estabelecido por décadas na sociedade inglesa, para poder apagar com um toque de pena a sua importância e transcendência.

Um ano antes do trabalho publicado por Anderson, editaram-se as Constituições de Roberts (1722) que se estabeleceram por meio da ação da Grande Loja de York que permaneceu independente, cobrindo várias lojas operativas que não assumiram os predicados da Grande Loja de Londres de 1717, atuando como contrapeso diante do modernismo e ecumenismo desenvolvidos pela Grande Loja Londrina de 1717.

Esse é um assunto que dificilmente é discutido na literatura especializada em Maçonaria. Refiro-me à semelhança entre as Constituições de Roberts e as de Anderson, e ainda assim as semelhanças são incríveis, tanto que alguém poderia ousar dizer que Anderson teria conhecido de antemão o libreto de Roberts e teria deliberadamente tomado partes do referido trabalho, especialmente no que se refere a alguns de seus capítulos, e que mais tarde foram curiosamente adicionados nas modificações de 1738.[8]

Roberts era o nome do impressor da obra intitulada: As Constituições Antigas pertencentes à Sociedade Antiga e Honorável de Maçons Livres e Aceitos.[9] 

Voltando à questão que nos preocupa, talvez esse método “novo e melhor” de que falava o Grão-Mestre Montagu, não era outra coisa senão as Constituições de 1723, ou seja, a primeira fundação de um projeto que queria se afastar, apesar do fato de que seu redator querer remontar as origens maçônicas até o Paraíso Terrestre, para assim se distanciar de uma proposta tradicional reunida em um estrato popular, como eram os primeiros componentes, membros do Ofício, que eram a maioria neste primeiro momento da criação da Grande Loja acima mencionada.

Nesse contexto, temos o pastor, um membro da comunidade presbiteriana e não-conformista, James Anderson, trabalhando para dar uma Constituição ao projeto inglês, um objetivo que ele muito habilmente realiza com uma prosa dura com a qual tenta comunicar que a ideia da fundação existia desde tempos imemoriais, dessa forma as Antigas Obrigações eram sutilmente modificadas pelas novas Constituições de 1723, ou seja, pelos novos Regulamentos Gerais de uma nova organização assentada sobre bases operativas, mas aspirando que o caráter especulativo seria seu maior expoente, embora por enquanto fosse cativa de sua origem e tivesse que operar com três planos inseparáveis no contexto em que se movia, com um desejo intenso, não muito extrovertido, de alcançar uma certa unidade nacional em bases que poderíamos chamar de liberais dentro de uma Grande Loja monárquica mas de caráter protestante e newtoniano.

Três planos que se sobrepõem paralelamente, por um lado, o plano político onde a dinastia Hanoveriana desempenhará um papel importante, em cujo contexto a figura de Desaguliers é importante, embora em um primeiro momento os jacobitas [10], em posição permanente de combate, farão parte das elites maçônicas, em cuja trama a jovem Grande Loja queria desempenhar o papel de árbitro da reconciliação, ou pelo menos essa era a intenção que aquelas elites começaram e desejavam alcançar através de uma caridade muito ativa, ao mesmo tempo em que afirmavam sua vocação para constituir um espaço de consenso [11].

Eles tinham a antiga esperança de conseguir unir a disjecta membra da diáspora protestante no meio de uma monarquia europeia e um poder parlamentar fundado nos conceitos liberais dos quais partiam após a Revolução Gloriosa de 1688, fundindo-se ao mesmo tempo na tolerância religiosa que Locke defendia e cujos postulados foram recolhidos em Uma Carta Relativa à Tolerância de 1689.

Este poderia ser um bom exemplo da maneira de Desaguliers entender o projeto de fundação de uma nova estrutura maçônica, na qual as primeiras lojas tiveram um caráter inter-religioso, cujo objetivo foi reunido nas Constituições de 1723 no título II de Obrigações Da autoridade civil, superior e inferior:

“O maçom deve ser uma pessoa calma, submissa às leis do país onde está estabelecida e não deve participar ou se deixar arrastar pelos motins ou conspirações forjados contra a paz e contra a prosperidade do povo, ou mostrar-se rebelde à autoridade inferior, porque a guerra, a efusão de sangue e os distúrbios, sempre foram funestos para a Maçonaria.”

Estava-se falando da ameaça jacobita à sucessão de Hannover e da supremacia do parlamentarismo e da governança legislativa, vez que não estava no plano de apoio ao monarca, mas sim a um sistema constitucional do monarca, mas com o Parlamento e o poder judiciário e legislativo como intermediários; em suma, uma separação de poderes.

Embora o desenvolvimento do plano político tenha tido dificuldades devido às rivalidades entre hanoverianos e stuartistas, o conflito no contexto religioso não era menor, o que o colocava na própria raiz do contexto político após a decorrência de anos de guerras entre protestantes e Jacobitas [12], questão que ocupava um lugar importante nas preocupações do latitudinário Desaguliers enquanto redator da parte legislativa das Constituições de 1723 [13].

Ele encaixava essas preocupações no desenvolvimento de um importante Título das Constituições: Obrigações em relação a Deus e à Religião:

“Um Maçom está obrigado por sua condição (tenure) a obedecer a lei moral e se compreende bem a Arte, nunca será nem um Ateu estúpido, nem um Libertino irreligioso.”

“Embora em tempos antigos os Maçons fossem obrigados em cada país a adotar a religião daquele país ou aquela Nação, qualquer que fosse ela, hoje pensa-se ser mais acertado somente obrigá-los a adotar aquela Religião com a qual todos os homens concordam, guardando suas opiniões particulares para si próprio, isto é, serem Homens bons e leais, ou Homens de honra e probidade, qualquer que seja a denominação ou crença que os possam distinguir; por isso a Maçonaria se torna um centro da união e um meio de assegurar uma verdadeira Amizade entre Pessoas que de outra forma permaneceriam em perpétua distância.”

Essa questão, que no fundo nada mais é do que uma tensão entre o teísmo Noaquita e o deísmo como heresia cristã, faz com que, entre esses dois extremos, encontremos os relativistas cuja crença na ideia divina lhes parecerá útil, ou a dos racionalistas que colocavam a razão acima da fé, sem esquecer os agnósticos que deixam ao domínio íntimo a origem das coisas, ou os ateus incipientes que negam a existência de Deus, marcando, com suas atitudes, todo o desenvolvimento posterior da Maçonaria, tanto inglesa, quanto aquela outra, que não tardaria a atravessará o Canal da Mancha a caminho da França católica.

Por fim, seria necessário analisar o plano intelectual, embora se possa dizer que grande parte de seus membros participavam de tramas filosóficas transversais, não resta dúvida de que o aparato administrativo das lojas operativas federadas à Grande Loja, com inclusão cada vez maior de maçons especulativos tentará cooptar as elites culturais inglesas; daí que não demorará muito para que se vejam nos bancos maçônicos a presença de muitos membros ligados, por exemplo, à prestigiada Royal Society, até porque eles haviam sido, ou serão, muitos deles fellow (membro) daquela instituição.

Falou-se de um grande número de membros, e alguns deles muito famosos, com certeza sabemos que pertenciam à maçonaria: Martin Folkes (1719-1742) ateu e libertino da loja de Bedford HeadMaid´s Head; William Jones (1711-1740), da Loja Queen’s Head, William Stukeley (1718-1752) da Loja Fountain; John Machin (1730-1741) membro da loja Bedford Head; Thomas Pellet (1733-1740) da Loja Bedford; ou T. Desaguliers (1728-1735) pertencente à Loja Horn, University Bear-Harrow.

Dessa forma, é possível encontrar até oitenta membros “fellow” da Royal Society, que eram ou foram maçons entre 1725 e 1730, embora tal adesão perdesse força ao longo do tempo, sem esquecer os encontrões pessoais entre eles, o mais notável dos quais foi o que se deu entre Folkes e Stukeley, que disse do primeiro aquilo de “losing his teeth, he speaks so”.

A partir da década de 1740, essas presenças se tornaram cada vez mais raras, época em que havia duas grandes tendências políticas, os Whigs e os Torys, estes últimos alinhados com os jacobitas, somando aos partidários de James Stuart VII da Escócia, reinando sobre o trono da Inglaterra em 1685, quando James II da Inglaterra já convertido ao catolicismo.

Por sua vez, os Whigs da tendência protestante seguiam William de Orange, que subiria ao poder como William III, graças à revolução que James II desencadearia no exílio francês. Enquanto George I, Eleitor de Hanover, de tendência protestante, era apoiado por estes, tornando-se mais tarde rei da Inglaterra. Os maçons especulativos, fundadores da Grande Loja de Londres, apoiavam majoritariamente George I, visto que ele era Hanoveriano e Whig.

De toda forma, há que se enfatizar que os antecedentes maçônicos durante o século XVIII serão marcados pela marca cristã com a nova proposta da “religião natural newtoniana”, a cuja estrutura o corpus maçônico especulativo vai aderir e da qual vai se tornar uma bandeira da Grande Loja de Londres.

Dada a multiplicação de teólogos racionalistas nesse ambiente intelectual e maçônico, ocorrerá uma série de mutações que operarão no mesmo centro nevrálgico do Iluminismo, dando voltas no axioma de que o problema não era demonstrar a existência de Deus, mas sim que sua própria existência estava ameaçada.

Esse mesmo paradigma será desenvolvido dentro de uma maçonaria latitudinária que acusa essa herança newtoniana de um Deus filósofo, como um Grande Arquiteto do Universo que dota o mundo de leis racionais, mas que faz de sua distância uma incógnita, onde ele aparece como o autor do mundo, um mundo que os newtonianos designaram com o apelo ambíguo do sensoriun Dei, que se confunde com a natureza, em que ele é criticado por seu intervencionismo, mas, sem por isso, que os maçons reneguem a fé.

Uma herança contraditória no mundo dos maçons newtonianos de caráter hanoveriano e, é claro, dos maçons operativos jacobitas, que se explica com base nessa mistura de misticismo e racionalismo que caracteriza a maçonaria da época

“que se reforça de forma resistente diante dos racionalismos clássicos, tanto como cristãos em oposição à philosophia naturalis, que transplantada para a esfera francesa-cristã, retém seu duplo aspecto de philosophique et philantrophique, mas perde seu caráter igualitário, se não de palavra, pelo menos pelos atos”.[14]

Esse sentimento também se reflete nos campos filosóficos, especificamente em um artigo de Chesneau du Marsais, Le Philosophe (1743)[15] 

“A existência de Deus é a mais difundida e profundamente enraizada de todos os preconceitos; e em seu lugar, Le Philosophe coloca a sociedade civil: ‘esta é a única divindade que ele reconhecerá na Terra’. Presa pelos sistemas doutrinários das igrejas estabelecidas, a atenção ao governo se torna fútil, quando alguém é mantido em cativeiro sob o jugo da religião, torna-se incapaz das grandes visões que atraem para o governo e que são tão necessárias para situações públicas “.[16]

E Robert Kalbach exemplifica isso muito bem, quando explica que a irreligião na França se tornou uma paixão geral, ardente, intolerante e opressiva. Assim, os filósofos do Iluminismo atacavam a Igreja como um poder político, mas também apoiavam a tradição, reconhecendo a autoridade superior da razão individual baseada na hierarquia.

“A peculiaridade da Revolução Francesa é que ela desgosta aos homens, derrubando leis religiosas e civis ao mesmo tempo”.[17]

Mas a contradição é tão grande que, por exemplo, as propostas newtonianas de um cristianismo razoável como alternativa ao panteísmo dos livre pensadores, apesar da boa acolhida entre os membros da maçonaria e a posição vacilante dos teólogos anglicanos, tanto ortodoxos quanto latitudinários, terá uma forte rejeição por parte dos livre pensadores e místicos exaltados, embora Newton não poderá ser a referência para o futuro da Grande Loja por sua paixão ardente pela Bíblia; nesse sentido, temos a figura de Desaguliers, que aparecerá como o principal barqueiro entre ambas as margens do newtonismo, talvez na crença de que as Escrituras permitiam descobrir o esoterismo e retirar ensinamentos iniciáticos da mais alta importância.

Este é um assunto que parece não ter sido estudado em profundidade, ou seja, as relações entre a Maçonaria e a Royal Society, além de algumas abordagens como a de Richard Berman[18], que nos explica que parte dos numerosos abandono ocorridos por parte das elites cooptadas na época poderia ter vindo da forte crise que sofreu a Grande Loja e, principalmente, a partir da querela entre Antigos e Modernos que, lembro, estava em parte enraizado nas concepções deístas de uns e teístas de outros, o que abriu um cisma de entendimento sobre as realidades maçônicas no conceitual, mas também no administrativo, e que no fundo deve ser considerada uma rebelião, enquanto que a segunda Grande Loja era abertamente muito mais teísta cristã em todos os sentidos e com todas as consequências.

Autor: Victor Guerra

Tradução: José Filardo

Fonte: Revista BIBLIOT3CA

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Notas

[1] – Patrick Négrier La Tulip. Historie du rite du Mot de maçon 1637a 1739. Éditions Ivorie-Clair. 2005.

[2] – Op. Cit. La Tulip… Pág.71.

[3] – Vega Junquera, Anselmo. El Muro de Piedra. Editorial MASONICA.2013.

[4] – Op. Cit. Nouvelle historie… Págs.81-90.

[5] – Mereaux, Pierre. Les Constitutions d´Anderson. Vérité ou Imposture. Éditions du Rocher. 1995.Pág. 232-282.

[6] – Daily Journal. 25 de janeiro de 1723.

[7] – Prescott A. e Susan Mitchell Sommers. Searching for the Apple Tree: Revisiting the Earliest Years of Organized English Freemasonry, en Reflections on Three Hundred Years of Freemasonry, ed. John S. Wade (Surrey, UK: Lewis Masonic, 2017). Pág. 172-174. Tradução para o espanhol por Rogelio Aragón, publicada em 300 anos da Maçonaria: Maçonaria e Maçons 1717-2017. Volume V Cosmopolitismo. Editorial Palabra de Cio.México 2017; pode-se dar uma olhada no artigo de Pierre Nöel: Une forgerie autour de 1721? https://www.hiram.be/blog/2019/03/26/uneforgerie-autour-de-1721/?

[8] – Op. Cit. James Anderson… Pág. 197 Sgtes.

[9] – https://freemasonry.bcy.ca/history/old_charges/robertsconstitutions1722.pdf.

[10] – A Maçonaria Jacobita. https://masoneriaantigua.blogspot.com/2014/10/la-masoneriajacobita.html.

[11] – Beaurepaire, Yves-Pierre. O templo maçônico do século XVIII. Um espaço de paz religiosa e diálogo inter-religiosohttps://www.victorguerra.net/2018/04/el-templo-masonico-del-siglo-xviii.html

[12] – Berman, Richard. 1717 and All That. The Political and Religious Context. Prestonian Lecturer. Oxford Brookes University. 2016.

[13] – https://racodelallum.blogspot.com/2016/02/las-constituciones-de-anderson.html.

[14] – Porset, Charles. La religion des Philalèthes. Franc-maçonnerie et religion dans l´Europe des Lumières. Éditions Honore Champion. 2006. Pág. 89-100.

[15] – http://cerphi.ens-lyon.fr/spip.php?article73.

[16] – Jacob, Margaret. The Enlightenment as Lived. Late Eighteenth Century European Reformers. Revista REHMLAC. Ano 2011. Vol.3. Nº 1.

[17] – Kalbach, Robert. Montmorency-Luxembourg et son temps. Fondateur du Grand Orient de France. Éditions Dervy.2009. Pág. 258.

[18] – Berman, Richard. Schism: The Battle That Forged Freemasonry. Edit. Sussex Academic Press.2013.

Cowans: os pedreiros sem a palavra – Capítulo Final

A Concise History of Freemasonry

Os Cowans no ritual maçônico francês

Em geral, os rituais franceses geralmente não ecoam o tema dos cowans, pelo menos sob esse termo anglo-saxão definido, embora seja verdade que ele foi traduzido ou recriado, geralmente sob outros significados, como intruso, ou como espião ou simplesmente como profano.

Diante dessa situação paradigmática, o professor D. Stevenson vem ao nosso apoio, quando nos diz que toda essa trajetória pelas terras francesas é quando se nota que tal palavra desapareceu dos rituais atuais e “provavelmente porque houve poucos historiadores da maçonaria que examinaram a questão, bem como as áreas que ela cobre, e até os próprios maçons não sabem muito bem o que essa expressão significa[1], além das expressões canônicas em uso e encontradas em alguns tratados e em muitas páginas da web nas quais são repetidas como papagaios.

Localizados nos primeiros textos pré-rituais originários das heranças dos Modernos, e gerado em solo francês, como foi o ritual Luquet de 1745.  Isso nos diz que o Guarda do Templo (Tuileur) tem o senso e o dever de afastar os profanos:

P. Pourquoi vous armez-vous de glaive in vos L. ? (Por que estais armado com uma espada dentro da loja?).

R. C’est pour écarter les profs. (Para afastar os profanos).

Neste momento, não estamos mais diante de traduções, mas pelo contrário, diante de produções rituais típicas da prática maçônica francesa, que em sua fraseologia nos lembram vagamente o tema dos famosos cowans anglo-saxões, neste caso quem intervém é o Tuileur (Telhador) do Luquet, tratando de afastar os profanos, que parece dirigir-se a eles como os chamados cowans, que estariam interessados em obter esse acesso sem saber muito bem  para quê e, por outro lado, não parece fazer muito sentido afastar  aqueles que poderiam ser candidatos adequados para fazer parte da fraternidade maçônica.

É claro que, no subconsciente coletivo, atua sob pressão da constante presença de bisbilhoteiros no entorno das lojas para poder dar prazer ao público que exigia esse tipo de material, conforme mostra a extensa lista de divulgações e exposições que foram publicadas ao longo do século XVIII, tanto na Inglaterra quanto na França.

A exposér que vaza alguns anos após o Luquet, sob o título: Antimaçons (1748)comunica existência de pessoas indiscretas e dedicadas à espionagem, e serem malignas em suas pretensões.

On peut s’en rapporter aux sots pour remarquer tout ils n’ont que cela à faire. Ils sont espions par malignité, & indiscrets par besoin de conversation.”

Nesse sentido, estamos diante de uma definição mais exata da situação pela qual passava a Maçonaria, pois estarem todos os seus rituais sendo vazados para a opinião pública, evidentemente com a intenção de desacreditar, e cuja forma de obtenção como foi vista no Prichard de 1730 através de espionagem, daí a essencialidade do Guardião do Templo externo.

A Condenação do Régulateur sobre artesãos e Companheiros

Mas enquanto todas as exposições francesas vão se mover nesse mantra da bisbilhotice e a intrusão, será um ritual do final do século como o Régulateur du Maçon, que vai além ao definir uma diretriz muito alinhada com o associativismo terminológico que venho comentando, já que no ritual do grau de Aprendiz, ao detalhar as condições para admissão, ele explica:

“Raramente se admitirá um artesão, mesmo que ele seja um Mestre, especialmente em lugares onde as corporações e comunidades não estejam estabelecidas.”

Procurando explicações para esta citação, que não é mais sobre os cowans operativos sobre os quais foi insuflada uma certa penalidade em forma de maldição, mas que transfere essa pressão para o setor artesanal francês, realizando uma transmutação que havia sido realizada antes sobre os artesãos canteiros sem a palavra, ou seja, os cowans, embora obviamente a história dos dois grupos de cantaria, tanto ingleses quanto franceses sejam radicalmente diferentes.

Para entender em parte a razão dessas omissões no tratamento e estudo sobre os cowans e as condenações sobre os Companheiros nos rituais, nos voltamos para a figura de Pierre Nöel, que nos explica por que significados, autores como Guenón[2], Dat ou Guyot não expuseram a existência dessas incongruências, e a explicação vem do fato de que parte desses estudiosos nunca leram os rituais operativos da Worshipful Society e autores do outro lado do canal como Bothwell-Gose ou Debenham, pelo contrário, nunca leram o Régulateur du Maçon.

E, portanto, a questão da rejeição pode ser observada no que é exposto pelo ritual Luquet, que é, por sua vez, uma espécie de enxerto operativo de origem inglesa na ritualidade francesa; é evidente que nesta história não brilham muito os cowans que, geralmente, são semienterrados sob outros nomes, como se pode observar nas exposérs francesas, exatamente até que o Regulateur, de uma maneira muito discriminatória, volta a colocar no tapete as velhas essências inglesas de rejeição a alguns setores operativos do início do século XVIII.

Não deixa de parecer estranho que o “esquecimento” por parte dos historiadores e estudiosos franceses sempre tenha sido muito exigente e mais sobre o fato de que essa curiosa dissolução terminológica do cowan tenha ocorrido com base em várias traduções pelas quais outros termos mais tradicionais, ligados ao determinismo hexagonal foram incorporados, cujas adaptações surgiram com base em situações e realidades muito diferentes, que viriam a criar fortes distorções semânticas e de interpretação histórica.

Em 1801, quando o Régulateur du Maçon é publicado na França pela mão do Grande Oriente da França, que codifica a prática dos Modernos, mostra uma frase que vem complementar aquela já anteriormente exposta à forte rejeição dos artesãos, a frase termina com esta determinação:

“Jamais se admitirão os trabalhadores chamados Companheiros (Compagnons) nas artes e ofícios.”[3]

Conhecidos são os embates históricos do Companheirismo (Compagnons) na história das construções religiosas e sociais ao longo dos diferentes séculos, tanto de caráter religioso, sindical e social, que levaram os poderes civis a perseguir tais guildas, tidas como revoltosas, o que não deixa de ser paradoxal que a mente coletiva maçônica, pelo menos no âmbito castelhano, continue a propor paralelismos estranhos, acreditando que são os mesmos ou semelhantes construtores de catedrais e maçonaria e, portanto, continua a ser mitologizada como algo próprio da Maçonaria especulativa por herança, quando na realidade, no caso da França, é mais uma questão muito mais de guildas de Ofício e dos Companheiros.

Portanto, depois de ler o vade-mécum sobre o trabalho do Companheirismo na França[4] fica bastante claro que a censura feita pelo Régulateur não deixa de ser  é uma recriação do malditismo dos artesãos e, portanto, dos Companheiros, o que nos vem lembrar os velhos cowans anglo-saxõesapesar de sua história registrar grandes confrontos com seus irmãos de confraria, mas nesse outro contexto de torná-los alvo de invectivas e objetos de perseguição e zombaria, o que no contexto francês afetaria os Companheiros.

E é nesse contexto que se pode entender como lógica a condenação exposta no Régulateur, que se destaca dos usos terminológicos equívocos mais atuais, tais como profano ou intruso, para inclinar-se em direção às raízes operativas, transformando o dardo da marginalização desta vez sobre os Companheiros (Compagnons).

No entanto, um especialista em questões de Companheirismo, como é Jean-Michel Mathoniere, indica que essa referência aos Companheiros no Regulateur não se refere aos  Companheiros de Dever, mas aos “Companheiros do mesmo sistema corporativo e gremial dos operativos”. Essa acaba sendo uma opinião bastante estranha, pois desde os tempos antigos estamos diante de uma queixa quase permanente sobre a possível presença de artesãos, como cowans, cuja maldição está incluída no relato bíblico de Ezequiel 13.  10-15:

“Porque inclusive seduziram o meu povo, dizendo: Paz; não havendo paz; e um construiu um muro e eis que os outros o sujaram com lodo solto.”

Nas referências a seguir, eles são tratados ou assemelhados a intrusos, e de abomináveis,  fazendo-os passar continuamente, como “ouvintes intencionais” que desejam entrar nas lojas e, assim, obter a Palavra de Maçom, ou seja querer passar-se por, em todo caso querer passar-se por maçons, uma opinião encontrada em ambos os lados do Canal da Mancha, nessa sequência, primeiro como cowans e depois como espiões intrusos, embora seja necessário esclarecer que alguns seriam ouvintes involuntários (cowans) e outros seriam os ouvintes intencionais (espiões), a serem finalmente assemelhados aos Companheiros, que definitivamente serão classificados como indesejados.

Pessoalmente, estou inclinado a pensar que o Régulateur, em seu preâmbulo, quer abranger precisamente aqueles artesãos, qualificados em alguns setores como “vis, sem elevação e sem mérito”[5] e os Companheiros, como um reflexo do repúdio a esse estamento, dada sua história como guildas dentro da articulação do ofício na França.

Os maçons de Teoria e de Prática

Se isso era pouco dentro desse imbróglio terminológico da França do século XVIII, que relaciona os cowans ingleses a espiões e intrusos, etc., é perturbado pela chegada de outros significados e concepções controversos encontrados nos rituais franceses, que versam sobre os maçons de prática e de teoria.

Embora não deixe de ser certo que este assunto apresente muitos problemas ao lidar tanto com o conceito quando com a historiografia.

Um dos primeiros rituais que expõe a questão colocada é o ritual Luquet (1745). Em seu catecismo baseado na troca típica de perguntas e respostas, destaca-se a pergunta:

P. Quantos tipos de maçons existem?

R. Existem dois tipos.

P. Quais são eles?

R. O M. de Teoria e o M. de Prática.

P. O que você aprende como M. de Teoria?

R. Uma boa moral, para purificar nossas maneiras e nos tornar agradáveis a todos.

 P. O que é um M. de Prática?

R. Ele é um pedreiro, que trabalha a pedra e que levanta colunas sobre suas bases.

Aqui vemos, como um maçom de teoria se tornaria o virtuoso maçom especulativo com base no aceitação de bons elos cavalheiros, que formarão a associação da Grande Loja de Londres, em vez disso, o maçom de prática é apresentado como um simples e tosco pedreiro que não parece ter outro objetivo senão erguer colunas, ele não é um construtor, mas sua missão parece mais simples, como os antigos cowans, erguer pilares.

P. O que aprendeis como M. de Teoria?

R. Uma boa moral, purificar nossos costumes, tornando-nos agradáveis a todo mundo. [novamente a presença dos cavalheiros ou gentis homens]

P. Quais são as principais qualidades de um M. de Teoria?

R. Ser um homem livre e discreto, igual aos príncipes reconhecidos por suas virtudes e amigo de Deus e do próximo.”

Eleva-se o elemento cavalheiro à categoria semidivina, ao contrário de como se expõe o artesão e o pedreiro, simplesmente um trabalhador da pedra, em que permanecerão pelo resto de suas vidas, pelo menos sob essa concepção medieval de estar sujeito ao ofício por toda a vida.

P. Que é o Maçom Prático?

R. Quem usa materiais nos edifícios.

P. Não pode ser tão virtuoso quanto nós?

R. Todo homem pode estar nesse estado; mas a grosseria e muitas vezes as razões mecânicas impedem praticamente que ele se una.

Essa discriminação é algo compartilhado por outra divulgação francesa do mesmo ano, a Sceau Rompu (1745) e que prossegue nessa mesma linha o Luquet em seus ditados, e onde essa exposição sobre a grosseria baseada na ruralidade como incapacidade de se projetar e ser portador de suficiente argamassa para que a Maçonaria lhe diga que

“não tem lugar para quem constrói suas paredes simbólicas sem o cimento do amor fraterno.”

Por outro lado, observar que na tradução apresentada pela editora Pardes esses dois termos foram traduzidos diretamente como “Maçons especulativos e Maçons Operativos”, conforme indicado na nota colocada no rodapé da página da tradução. O catecismo continua:

P. Quantas classes de maçons existem?

R. Maçons de teoria e Maçons de Prática.

P. O que aprendeis como M. de Teoria?

R. Uma boa moral, para purificar nossos costumes e nos tornar agradáveis a todos.

P. O que é um Maçom de Prática?

R. Um trabalhador de pedra que levanta perpendiculares (aprumadas) sobre suas bases.

Em relação ao exposto, insiste-se nesse erguer verticalmente de forma unânime, como aqueles que erguem muros e os Maçons de Teoria  seria o maçom especulativo que deve aprender, por sua condição, a obter uma boa moral, a purificar as maneiras e ser agradável a todos. Deverá observar o silêncio, o segredo, a prudência e a caridade, fugindo das calúnias e da intemperança, pois a Arte Real dos Maçons sempre teve o desejo de unir a prática da virtude e as artes liberais herdadas da antiguidade.

E esse objetivo é proposto à custa de rebaixar o pedreiro simples, maçom de prática, que lhes doou primeiro suas ferramentas e conhecimentos para com eles construir uma fraternidade, para depois despojá-lo de toda a sua ciência, de seu ser e estar no sítio da construção maçônica.

De qualquer forma, essa não é a novidade, mas que uma divulgação deixe tão claro que os maçons operativos não tinham nenhuma conotação espiritual ou esotérica e que obviamente não parecem ter eco na Maçonaria recém-criada por sua falta de empatia e amor fraterno, o que cria um paradoxo, já que tais afirmações vão contra a corrente mítica que elevou os maçons operativos como os grandes construtores das catedrais com toda a sua carga místico-esotérica.

Em textos como a Divulgação de 1745, ou a de 1748, Le Nouveau Catéchisme de Franc-maçons, ou os rituais do Marquês de Gages de 1763, ou mesmo nos rituais do Duque de Chartres de 1784, todos eles se alinham para deixar clara a razão diferencial entre Maçons Práticos e Teóricos (Operativos e Especulativos), e nessas apreciações não há grandes diferenças de conceito entre eles.

É mais um dos últimos rituais descritos como provenientes do ramo dos Modernos, e já terminando o século XVIII, como é o Corpo Completo da Maçonaria, adotado pela Grande Loja de França (1761 ou 1774) isso continua na mesma posição.

P. Quantos tipos de maçons existem?

R. Existem dois tipos: Maçons de Teoria e os Maçons de Prática.

P. Quem são os Maçons de teoria?

R. São aqueles que aprendem uma forma de moral, purificam seus hábitos e se tornam agradáveis a todos.

P. Quem são os Maçons de Prática?

R. São os que talham a pedra e erguem a perpendicular (aprumada) sobre suas bases.

Essas definições na instrução do Segundo Grau do Regulateur (1786), voltam a reafirmar, com uma diferença entre uma e outra, mas rebaixando cada vez mais as funções do Maçom de Prática.

P. Quantos tipos de maçons existem?

R. Existem dois tipos, uns de Teoria e outros de Prática.

P. O que os aprendem os Maçons de Teoria?

R. Uma boa moral que serve para purificar nossos costumes e nos tornar agradáveis ​​a todos os homens.

P. O que é um Maçom de Prática?

R. É o trabalhador da construção.

Essa ideia da distinção entre ambos será mantida até o final do século XVIII, embora em parte vá se dissolvendo gradualmente, mas mesmo assim, surge alguma divulgação tardia que se afasta de tais paradigmas, como é o caso de Mahhabone (1766), que vai um pouco mais longe ao deixar para trás, pois assume o novo estado no qual o novo membro da loja deve ter tanto de cavalheiro quanto de pedreiro:

P. O que aprendestes ao se tornar Cavalheiro Maçom?

R. O Segredo, a Moral e a boa camaradagem.

P. O que aprendestes ao se tornar Maçom do Ofício?

R. A talhar a pedra em esquadro, dar forma à pedra, possuir o nível de habilidade com a perpendicular (prumada).

É evidente que a exposição Mahabone assume e adota as duas tipologias, é claro a dos cavalheiros como seu fundamento essencial, mas assumindo o elemento operativo como uma herança valiosa que o ajudará a elevar-se até o novo estado que propõem os cavalheiros, os quais

“trabalham de segunda a sábado, com giz, carvão de madeira e uma panela que significa Liberdade, Fervor e Zelo, essa é uma proposta um pouco diferente do futuro universo especulativo.”

A herança dos Antigos e dos Cowans um século depois

No entanto, dentro da corrente dos Modernos e no seio do continente, essa questão praticamente desaparece, exceto pela exceção do Régulateur, que eu já expus antes, por outro lado e a título de contraste, expor que a corrente dos Antigos recupera a antiga linha marcada pelos preconceitos.

É assim que a situação é apresentada em um texto do Catecismo de Instrução do REAA da Grande Loja da Espanha (GLE)[6].

P. Um maçom pode seguir sendo um Cowan?

R. Aquele homem que ingressa por mera curiosidade, para ganhar posição social ou vantagens nos negócios, o falso maçom é o verdadeiro cowan, uma fonte sutil de problemas dentro do corpo do Ofício, que certamente afetará a vida da Irmandade. se não se tiver cuidado.

A pergunta que poderíamos nos fazer é: Por que se segue recolhendo em diferentes textos do REAA a proposta de Anderson de 1738 em um documento de 2011 da Maçonaria de tradição espanhola?

A julgar pelo que alguns maçons anglo-saxões expõem, isso é relativamente fácil de entender, uma vez que os cowans são elementos exógenos das guildas da maçonaria especulativa, uma vez que são trabalhadores sem a palavra, que desejam ingressar em nossas fraternidades… e, portanto, esse termo tem sido o ideal para definir a situação.

Podemos verificar o mesmo no Duncans´Masonic Ritual and Monitor de 1866, e pertencente à herança Antiga:

P. Brother Tyler, your place in the Lodge. (Irmão Guarda do Templo Qual é vosso lugar em Loja?)

R. Without the inner door. (Fora da porta interna)

P. Your duty there? (Qual é o seu dever ali?)

R. To keep off all cowans and eavesdroppers, and not to pas o repas any but are duly qualified and have the Worshipful Master´s permission. (Manter afastados todos os profanos e bisbilhoteiros, e não deixe passar ninguém devidamente qualificado e sem a permissão do Venerável Mestre.)

Como já expliquei, no restante dos cadernos rituais franceses de raiz Moderna do século XIX, perde-se praticamente toda a referência à persistência nessas tessituras, exceto no Rito Francês Filosófico que retoma a questão, mas a partir de perspectivas novas e diferentes.

Conclusões

Com base no exposto sobre os famosos cowans, pode-se resumir o que segue:

  • Temos no início de toda essa história na região anglo-saxônica alguns pedreiros rurais (wallers ou construtores de muros) coexistindo no tempo e, circunstancialmente, nos mesmos lugares com os poderosos setores do Ofício (Craft) de caráter marcadamente urbano: guildas, confrarias, corporações, etc. .
  • Pedreiros rurais apontados pelas corporações de ofício como pedreiros marginais, ou mão de obra eventual, a quem designam em vários documentos como “Cowans”. (Canongate, Glasgow, Morher Kilwinning, York, Lodge Aitchison´s Haven).
  • Cowans, que, nas Old Charges, e em alguns outros regulamentos e documentos, são mencionados em relação ao exercício e regulamentação do Ofício, nos quais lhes são atribuídas uma certa especificidade profissional de natureza rural limitada à construção de muros e pequenas construções no meio rural e, portanto, a eles são reduzidos as áreas de trabalho e dedicação. (Estatutos de Shaw, manuscritos DumfriesWilkinson).
  • Termo que provém dos usos operativos da Escócia e que aparece em solo inglês e seus textos regulatórios no final do século XVII e início do século XVIII, estendendo esse termo em relação à Maçonaria a qualquer pessoa que não fosse um maçom especulativo.
  • Como tais trabalhadores da cantaria rural não estavam inseridos nos grupos das guildas urbanas do Ofício, ficando à margem da posse da Mason’s Word (Palavra do Maçom), que dava opção para mais benefícios de trabalho ou proteção.
  • Tais cowans aparecem no seio da ritualidade no início do período especulativo como tais cowans, mas também sob descrições: espiõesintrusos, etc., e sob o pretexto de entrar secretamente na Maçonaria, conforme apresentado em diversos textos. (Confissão de Maçons, Constituições de Anderson,)
  • São o resultado de campanhas de assédio e ridicularização, tanto nos rituais quanto por outros meios: canções e desenhos, nos quais são apresentadas como tal e conforme ocorre  no Ahiman Rezon, como imorais e abomináveis.
  • Na ritualidade francesa, o termo cowan vai adquirindo outros significados já comentados:  espiõesintrusos, e como profanos indignos, perdendo a raiz original, aparecendo certos problemas de tradução e interpretação ao perder a raiz.
  • A adaptação do termo cowan nos meios de comunicação de massa maçônicos franceses transformou sua presença como maçons de prática, como um ponto de ruptura e separação entre o mundo operativo e o mundo especulativo, que se apresenta como um simples obreiro que levanta colunas e sem atitudes, devido à sua grosseria.
  • Volta ao conceito de marginalização operativa, ou seja, considerando cowans certos setores do Ofício: os artesãos e os Companheiros(Régulateur du Maçon).
  • Desaparecimento prático, dentro da raiz dos Modernos no século XIX, de tais significados denegridores.
  • Presença dos velhos clichês operativos dentro da corrente dos Antigos e até o século XIX. ( Ritual e Monitor de Duncans)

Em geral, este estudo quis demonstrar como um termo que esteve presente por mais de um século em nossos rituais, como os cowans, foi sendo alterado em termos de definições, disseminação e desenvolvimento, em cujo setor do Ofício foi marcado com sangue e fogo sob alguns conceitos como pedreiros, artesãos ou companheiros, mas sob percepções ou tratamento pejorativos como espiões, intrusos, detestáveis ou abomináveis de quem a Maçonaria se serviu para denegrir e atribuir certas atitudes, quando, de fato, como diz Bob Walker da Grande Loja da Escócia, nunca esses [cowans] representaram um problema ou uma ameaça para Maçonaria[7].

No entanto, houve toda uma concomitância em querer apresentar os cowans sob diferentes denominações como pessoas que não são capazes de construir nada no seio da Maçonaria, porque lhes faltariam, como diz um maçom inglês “o cimento que supõe o amor fraternal”, recorrendo à mesma Bíblia em que o livro de Ezequiel 13:10-15 dedica um flagelo cruel a esses simples pedreiros rurais que constroem muros sem argamassa.

“Deste modo, destruirei o muro que vós cobristes com lodo solto, e o jogarei por terra, e sua fundação será descoberta e cairá, e sereis consumidos no meio dela; e sabereis que eu sou Jeová. Assim, cumprirei minha fúria no muro e naqueles que o cobriram com lodo solto; e eu vos direi: Não existe muro, nem quem o revestiu.”[8]

Não deixa de ser curioso que uma fraternidade como a maçônica, baseada no objetivo de “reunir os dispersos”, tenha mantido essa discriminação e denigração por tanto tempo.

Um termo como “cowans” que, se não fosse pela atenção ou estudo de autores como Mackey, Joseph Fort Newton, Henry Carr ou Sudarkis…, teria sido esquecido, perdendo toda a sua marca.

Estas são as investigações e reflexões que pude conceber para trazer à tona as velhas dúvidas maçônicas que desde a idade de aprendiz maçom eu vinha arrastando em relação a esses estranhos pedreiros rurais, os cowans.

FINIS

Autor: Victor Guerra
Tradução: José Filardo

Fonte: BIBLIOT3CA

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Publicado originalmente em: ritofrances.net/

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Notas

[1]Stevenson, David.Les Premiers Francs-Maçons. Les Loges Écossaises originelles et leursmembres. Éditions Ivoire-Clair. 2000.

[2]http://pierresvivantes.hautetfort.com/archive/2013/12/15/rene-guenon-et-les-origines-de-la-franc-maconnerie-les-limit-5247265.html#_ftn3, (René Guénon y los orígenes de la masonería: los límites de una mirada).

[3]Régulateur du Maçon. Editor Masonica. Es.

[4] – Berton, Hugues ; Imbert, Christelle. Les Enfants de Salomon. Approches historiques et rituelles sur le Compagnonnages et la franc-maçonnerie. Éditions Dervy. 2015.

[5] – Anatole de Maontaignon. Etat des ouvriers ramenés d’Italie par Charles VIII, 1497-8. Archives de L´Arte Français. T. 1. 1906.

[6]Lectura de Instrucción por preguntas y Respuestas, basadas en los catecismos y textos tradicionales del REAA. GLE. 2011.

[7] – Are there Cowans in our midst? http://www.themasonictrowel.com/Articles/General/other_files/are_there_cowans_in_our_midst.htm

[8] – Ezequiel 13. 14-15

Cowans: os pedreiros sem a palavra – Capítulo II

Geeks Forever: Creepypastas : A MÁGICA

Os cowans nas exposérs e nos rituais maçônicos

A etimologia da palavra cowans preencheu muitas páginas da historiografia inglesa e pouquíssimas páginas, para não mencionar quase nenhuma, em francês.

Embora isso se deva talvez ao fato de o termo ter sido traduzido para o francês de uma maneira muito diferente, e sua singularidade como tal ter sido ocultada de uma maneira que a maioria dos dicionários maçônicos em uso, apesar de ser um termo amplamente usado em inglês na Maçonaria operativa e especulativa em seus primórdios, na bibliografia francesa, dificilmente esse fato é levado em consideração.

Revisando os dicionários em uso como, por exemplo, o Dictionary of Freemasonry, de Daniel Ligou, ou a Enciclopédia de Saunier, nem mesmo a prolífica Irene Mainguy trazem o termo em suas publicações. Quem o faz são Boucher e Bayard, mas acrescentando as citações já expostas sobre a loja de Kilwinning.

Apenas o dicionário de Solange Sudarkis[1] é um pouco mais explícito. Esta autora nos remete às Constituições de Anderson de 1738, cujas palavras são retomadas por Laurence Dermott no Ahiman Rezon. Estendendo-se a autora do repertório em sua entrada ao que já foi exposto neste artigo, sem se aventurar em nenhuma outra novidade.

Nesta busca pela etimologia, há quem nos leve de volta às origens gregas para nos dizer que daí vem uma expressão semelhante que significa algo como “cachorro”. Continuando com essas andanças, existem aqueles que acabam diante da Revista de Maçonaria que, em seu volume 1, cita o Cavaleiro Ramsay quando fala sobre An Inquire Concerning Cowans; e sem sair do solo inglês, a pena de Sir Walter Scott cita os referidos operativos em seu romance Rob roy:

Ela não valoriza um Cawmil Mair como Cowan, e você pode dizer a Mac Callum More que Allan Iverach disse que sim.

É isso que alguns documentos repetem uma e outra vez, mas é preciso dizer que esse conjunto de contribuições dificilmente nos tira da roda gigante da repetição de citações, muitas delas tendo como base o que já foi bem escrito por Mackey, ou pelo próprio Joseph Fort Newton[2].

Quem vem em nosso auxílio neste árduo desbaste entre fontes primárias é, como quase sempre, o grande aluno do fenômeno maçônico, Henry Carr[3], que nos oferece mais pistas sobre tal termo, pelo menos para seguir adiante.

Os cowans nas Antigas Obrigações (Old Charges)

Analisei a etimologia do termo e sua adequação nos campos profissionais relacionados ao mundo da cantaria e, é claro, seu atrito socioprofissional devido a diferentes mudanças nos setores profissionais, e não vejo que manifestem uma atenção especial nas diversas regulamentações socioprofissionais do século XVI ao XVIII, ou seja, nas Antigas Obrigações (Old Charges).

Pode-se dizer que sua presença em tais textos é mínima, como nos mostra o prestigioso pesquisador da chamada Escola Autêntica, Henry Carr, que escreve que a presença dos cowans é notada em dois manuscritos, o Dumfries No. 4 e o Wilkinson.

O primeiro deles, de 1710, em sua lenda do Ofício, nos expõe outra variante do termo: cowin e em cujo texto se insere nesta frase:

The Assembly Itim that no master masson shall make any mould square or Rule to any Layer or cowin Itm that no mg within or without a loge shall set a lay mould of stone or other ways without».[4]

A tradução francesa se apresenta assim:

Item, nul maître maçon ne fabriquera aucun gabarit, equerre ou regle pour un poseur ou un cowan. 

Que viria a ser traduzido para o português assim:

Nenhum Mestre Maçom fabricará qualquer modelo, esquadro ou régua para alguém que se passa por (se apresenta), ou que não tem qualidades (finge) ou um cowan.

No Prefácio do referido manuscrito fala-se “das obrigações de todos os maçons verdadeiramente qualificados”. Assim, fazendo-se uma distinção entre maçons qualificados e os “outros”, deve se referir, portanto, aos cowans, que além disso qualifica como trabalhadores temporários.

O segundo documento é o manuscrito Wilkinson de 1727, que Harold Wilkinson da Loja Pomfret nº 360 encontrou em 1946 entre os documentos de seu falecido pai Samuel Blaze Wilkinson (1851-1931). E, portanto, ele carrega seu nome.

O manuscrito Wilkinson parece representar um ritual anterior a exposér de Prichard, e parece não haver evidências de que ele tenha sido praticado em qualquer Loja de Northampton, onde foi encontrado. Tampouco se pode afirmar, certamente, por razões que explicaremos mais adiante, que o documento fosse escrito em data anterior ao que se diz. Este evento, como o resto da história, foi publicado por Knoop e Jones em sua resenha sobre tal manuscrito[5].

Em resumo, cowan é um termo que, primeiramente, vem do campo profissional rural, isto é, de uma guilda no amplo mundo do trabalho em pedra, mas que estava fora das questões regulatórias e da articulação das corporações de ofício. Não parece que eles tivessem regulamentos ou qualquer organização, pelo menos os historiadores não o incluem como tal.

Sabemos tangencialmente e por fontes das próprias corporações de ofício que esses trabalhadores, por diferentes razões, eram exógenos ao classismo da cantaria, uma vez que eram trabalhadores que não tinham a etiqueta das distintas organizações corporativas (irmandades, guildas, corporações, etc.), onde seus membros tinham diferentes formas de aceitação e reconhecimento (palavras e toques) que faltavam a esses trabalhadores rurais que não podiam, portanto, valer-se da ajuda fraterna das diferentes organizações do Ofício.

Isso que, em princípio, não deveria ter maior importância, pois os dois setores não estavam em concorrência conforme já foi dito, quando a pressão trabalhista os levou a se mover, alguns em direção a áreas rurais com a construção de igrejas, e outros em direção a cidades para reconstrução delas, como foi o caso de Londres. Isso demonstra que um terceiro significado estava emergindo, de maneira depreciativa, fazendo os cowans rurais parecerem intrusos.

Os cowans no ritual maçônico inglês

Por outro lado, como eu já disse, o termo cowan não merece muito mais atenção do mundo sócio trabalhista da cantaria no território inglês, uma vez que as fortes estruturas e regulamentos assumiram a situação como uma consequência da estratificação sócio trabalhista, e assim podemos entendê-la quando não encontrar na barafunda de manuscritos regulatórios (Antigas Obrigações) nada mais do que um número muito pequeno de citações.

Sem descurar o declínio das guildas operativas, paralelamente, a questão dos cowans passou a um segundo plano.

Em vez disso, com o surgimento da Maçonaria especulativa a partir de 1717 e a chegada das exposérs publicadas nos tabloides ingleses, bisbilhotando os trabalhos do ritual maçônico que naquela época era um produto de alta demanda entre o público em geral, e esse termo estava vinculado principalmente ao âmbito profissional sob várias acepções: maçons rurais, pedreiro de muros, maçom sem reconhecimento ou pedreiro temporários etc., leva a uma nova acepção, e os famosos cowans começam a aparecer, atribuindo-lhes ou assimilando-os a novos termos como: leigos que pretendem entrar nas lojas, eles também são descritos como intrusos, e um pouco mais tarde eles são denunciados como espiões.

Assim, nos chegam as diferentes exposérs nos jornais da época, que dada sua semelhança, fazem com que seu conteúdo nos ofereça certas garantias de que o que elas nos dizem corresponde a uma realidade na qual quase todas coincidem mais ou menos[6].

Uma dessas exposérs, a A Mason’s Confession (Confissão de um maçom) de 1727, que reuniu as cerimônias dos maçons especulativos daqueles primeiros anos, traz em sua primeira citação:

immediately after that oath, the administrator of it says, you sat down a cowan, I take you u Mason. (Imediatamente após o juramento, o presidente diz: aqui chegastes como cowan (profano) e eu te aceito como maçom).[7]

Uma frase que não deixa de ser surpreendente, pois pode ser interpretada como uma mão estendida a quem, depois de procurar um lugar na vida, a encontra com essa ajuda de ser aceito como maçom. Mas estamos falando da época especulativa, dez anos haviam se passado desde a fundação da Grande Loja, e não estamos mais falando de um profano, mas de um cowan. O que o autor de Confissão nos quer dizer com esta frase?

Que ainda pesava a herança operativa no seio da nova proposta especulativa. É uma possibilidade.

Outra citação que já conhecemos em parte é esta:

Q. How high should a mason’s siege be? A. Two steeples, a back, and a cover, knee-high all together. ——N.B. One is taught, that the cowan is taught, that the cowans stage is built up of whim stones, that it may so on tumble down again; is taught, that the cowans siege is build-up of whim stones, that it may soon tumble down again; and it stands half out in the lodge, that his neck may be under the drop in rainy weather to come in at his shoulders, and run out at his shoes».[8]

Um assento, um local … mas onde? O texto está se referindo à parte externa da loja, naquele ponto em que o último trabalhador, talvez o cowan, não estava sob o abrigo da Loja e, portanto, exposto a intempéries que lhe fustigavam todo o corpo. É possível que seja isso.

Por outro lado, nas Constituições de Anderson, o autor não foi sensível a essa questão em seu texto de 1723, cuja ausência não chamaria a atenção, se não fosse pelo fato de que quinze anos depois, na revisão de 1738, ele introduziu esta frase:

Os maçons livres e aceitos não permitirão aos cowans trabalhar com eles, e eles não serão empregados a menos que haja uma necessidade urgente…

Cabe então perguntar por que Anderson levanta essa questão de “necessidade urgente”, justamente naquele momento, 1738 …? Essa necessidade foi justificadamente invocada em 1666, após o incêndio em Londres, que fez com que chegassem à capital inglesa as mais variadas guildas de pedreiros.

Um pouco antes da modificação andersoniana, foi publicada a talvez mais importante exposér dentro desse panorama de rituais maçônicos, e ligada ao setor dos Modernos. Trata-se da obra de Prichard, Maçonaria Dissecada (1730) em que o termo que nos interessa aqui surge em várias ocasiões. Vejamos então as citações:

A certa altura do catecismo clássico dos trabalhos rituais, o Venerável Mestre pergunta ao Aprendiz Aceito onde ele se situa e este responde:

Apr: Ao norte.

VM: Qual é o seu dever?

Apr: Manter afastados todos os cowans ou bisbilhoteiros (eaves-droppers)

VM: Se um cowan for capturado, como ele deve ser punido?

Apr: Colocando-o sob os beirais da casa em tempo chuvoso até que a água entre por seus ombros e saia pelos seus sapatos.[9]

É aqui que se aprecia o vínculo que se faz entre os cowans como “bisbilhoteiros”, (eavesdroppers), que é exatamente o termo de correlação. Mas, para que se perceba como esses termos desaparecem ou se deformam com as traduções, naquela já mencionada de Renato Torres, neste caso da chamada Maçonaria Dissecada, ele traduz “To keep off Cowans and Eves-droppers”, como “Afastar profanos e bisbilhoteiros.”

Como se pode ver, os rituais e os catecismos valem-se das mesmas fontes, pelo menos em relação a algumas questões, pois mostram as coincidências entre as duas exposérs: A Mason’s Confession e a Maçonaria Dissecada.

Também aparece um pouco mais adiante, quando a VM continua com o catecismo:

P. Qual era a altura da porta da Câmara do Meio?

R. Tão alta que um cowan não conseguiria cravar um alfinete.

A resposta, digamos, está na tradução da seguinte frase do catecismo, pelo menos em relação à tradução francesa, quando diz:

Ela é tão grande que uma manobra (manoeuvre) não podia cravar um alfinete (épingle).

E comento que tal explicação está na tradução porque, por um lado, manouevre, geralmente traduzida como manobra e, como me explica o maçonólogo Joaquim Villalta, esse termo deveria ser traduzido como “peão” ou “mão de obra”, para se encaixar no entendimento mais adequado da frase, inclusive entendendo o termo “Pin” como prego, ou seja, um cravo pequeno e fino. Mas, no entanto, a frase na realidade, no idioma original em inglês, é “So high that a Cowan could not reach to stick a Pin in”, ou seja, que não existe manobra alguma, apenas a versão livre francesa de cowan[10].

Por sua parte, Laurence Dermott também dedica a eles várias citações em sua Bíblia constitucional, como é o Ahimam Rezon (1751) para os Antigos, onde ele escrevia sobre esses pedreiros marginais como “When sinful Cowans were grooving in the tide, the Mason Ark triumphantly did ride”.[11]

Pecaminosos… Por qual razão o seu trabalho nas áreas rurais, construindo muros, era repreensível ou imoral? Quando, na realidade, os irlandeses que constituíam a Grande Loja dos Antigos eram geralmente da mais baixa classe social de Londres, ou pelo menos assim eram considerados, incluindo o próprio pai fundador.

Laurence Dermott se deixa resvalar ladeira abaixo quando indica que nobres ricos podem contratar bons maçons e não cowans. Tinha ele medo da concorrência?

When Men of Quality, Eminence, Wealth, and Learning, apply to be made, they are respectfully accepted, after due Examination; for such often prove good Lords (or Founders) of Work, and will not employ Cowans when true Masons can be had; they also make the best Officers of Lodges, and the best Designers, to the Honour and Strength of the Lodge; nay, from among them the Fraternity can have a Noble Grand Master; but those Brethren are equally subject to the Charges and Regulations, except in what more immediately concerns Operative Masons»[12]

Aqui, Dermott repete o que Anderson disse em 1738:

But Free and Accepted Masons shall not allow Cowans to work with them, nor shall they be employed by Cowans without an urgent Necessity; and even in that Case they must not teach Cowans, but must have a separate Communication; no Labourer shall be employed in the proper Work of Free-Masons.[13]

A seção dedicada ao telhador (Tyler) se determina:

BROTHER V. W.: You are appointed Tiler of this Lodge, and I invest you with the implement of your office. As the sword is placed in the hands of the Tiler, to enable him effectually to guard against the approach of cowans and eavesdroppers, and suffer none to pass or repass but such as are duly qualified, so it should admonish us to set a guard over our thoughts, a watch at our lips, post a sentinel over our actions; thereby preventing the approach of every unworthy thought or deed, and preserving consciences void of offense toward GOD and toward man.[14]

Mas nas Constituições dos Antigos, Ahiman Rezón, a palavra cowan aparece cerca de catorze vezes e novamente em Tubal Kain.

Outros textos rituais seguem linhas semelhantes, seja de uma forma muito definida, como já vimos ou retirando certas assimilações.

No Guia de maçons escoceses de 1829:

P. Quem são aqueles a quem você chama cowans?

R. Aqueles que não são maçons.[15]

Mais adiante, se pergunta:

P. Um maçom pode seguir sendo um Cowan?

R. Aquele homem que ingressa por mera curiosidade, para ganhar posição social ou vantagens nos negócios, o falso maçom é o verdadeiro cowan, uma fonte sutil de problemas dentro do corpo do Ofício, que certamente afetará a vida da Irmandade. se não se tiver cuidado.[16]

A pergunta que poderíamos fazer é: por que se segue em 1829 assimilando a questão dos falsos maçons aos cowans? E não apenas isso. Como é possível continuar mantendo-os como fonte de diversos problemas, e isso não é feito falando diretamente de profanos que desejam ingressar na Maçonaria?

Em geral, essas são perguntas que os historiadores não se fizeram, mas que dificilmente foram objetivadas, e a possível resposta que temos para essa tendência dos maçons de manter as analogias antigas dentro dos rituais que nos podem parecer um tanto estranha e até pouco compreensível, mas explica o conteúdo e o continente, embora no final o que resta de tudo isso, e se torna muito evidente, é o interesse em assemelhar o termo cowan a uma série de atitudes reprováveis.

Nesse sentido o ritual Duncans’ Masonic Ritual and Monitor (1866) se expressa deste modo:

Q. Brother Tyler, your place in the Lodge. (Irmão Guardo do Templo Qual é o seu lugar na loja?)

A. Without the inner door. (Fora da porta interna)

Q. Your duty there? (Qual é o seu dever ali?)

A. To keep off all cowans and eavesdroppers, and not to pas o repas any but are duly qualified and have the Worshipful Master´s permission. (Manter afastados todos os profanos e bisbilhoteiros, e não deixe passar ninguém devidamente qualificado e sem a permissão do Venerável Mestre.)

Nesta linha que marca muito uma parte da ritualidade inglesa dos Antigos, mesmo quando a unificação de 1813 com os Modernos e os Antigos a tenha deixado para trás, e eles haviam se imposto uma normalização ritual através da implosão de ritual padronizado para esta nova fase, como é o ritual Padrão de Emulação, e onde se pode ver que em um ritual como o Duncan, o chamado Tyler (Guarda do Templo), localizado fora da loja, apresenta como missão, espada na mão, garantir que nenhum cowan ou intruso entre na loja.

A esse respeito, dos cowans surgiu um dilúvio de versos e canções satíricas, como a de Gavin Wilson, poeta e maçom da loja St. David no. 36 de Edimburgo, que em 1788 em suas canções satíricas apresenta os cowans como tolos que, pretendendo obter o Palavra de Maçom, podem ser enganados de mil e uma formas[17].

Por sua vez, o prestigiado Makey apresenta, quando narra como Robert Jamieson, em sua busca por possíveis derivações do termo, se coloca diante da alocução que termina com o termo “cachorro” (talvez ligando o fato de que os escritores bíblicos haviam exposto precisamente o cão como uma imagem de desprezo) e, a partir dessa acepção a que chega Jamieson, este o coloca em relação à língua sueca, para concluir a caracterização dos cowans como Kujon ou Kuzhhjohn que significa: “tolo”.

Continua…

Autor: Victor Guerra
Tradução: José Filardo

Fonte: BIBLIOT3CA

Publicado originalmente em: ritofrances.net/

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Notas

[1] – Dictionnaire vagabond de la pensée maçonnique. Éditions Dervy. 2017

[2] – The Builders. A Story and Study of Masonry. Grand Lodge of Iowa. 1914.

[3] – The Early Masonic Catechisms. Quatuor Conorati Lodge nº 2076. 1975.

[4] – MS. on two lines withgo owl.

[5] – https://hermetismoymasoneria.com/s13doc2a.htm.

[6] – Révaguer, Marie-Cécile. Les âges de la vie pour le franc-maçon britannique du XVIIIe siècle In: Les Âges de la vie en Grande-Bretagne au XVIIIe siècle. Presses Sorbonne Nouvelle, 1995.

[7] – En la traducción de Renato Torres, para el libro: Catecismos Masónicos (1696-1750). Edito Pardes. Este traduz a frase como: Você sentou-se como um cowan, eu lhe ergo como um pedreiro.

[8] – P. – Qual deve ser a altura de um assento de maçom?  R. – Duas agulhas de campanário, um encosto e um teto, todos à altura do joelho. Nota- É ensinado que o assento de um cowan é feito de pedra vulcânica para que afunde rapidamente. E está localizado metade na loja, metade do lado de fora, para que o pescoço do cowan fique sob o beiral do telhado em tempo chuvoso e que a água lhe penetre por entre seus ombros e saia pelos seus sapatos.

[9] – O ilustrador W. Hogarth, em 1730, parodia esse curioso castigo em sua obra Night . Ver: Mulvey-Roberts, Marie. Hogarth on the Square: Framing the Freemasons. Journal for Eightieth-Century Studies. Vol. 23. 2003.

[10] – (Nota do Tradutor) Os Cowans, apesar de qualificados como pedreiros, não eram assim considerados pelas corporações, que os consideravam apenas “mão de obra” a ser contratada em caso de emergência. O que pode ter ocorrido é o tradutor francês interpretar a palavra cowan como mão de obra e ao grafar “main d’oeuvre”, escreveu “manoeuvre”, gerando assim uma distorção no entendimento da frase original em inglês.

[11] – “Quando os pecaminosos Cowans sucumbiam à maré, a Arca do Mason triunfante subiu.”

[12] – “Quando homens de qualidade, eminência, riqueza e aprendizado solicitam serem recebidos, eles são respeitosamente aceitos, após o devido exame; porque eles frequentemente provam ser bons Senhores (ou Fundadores) do Trabalho e não empregarão Cowans quando podem ter verdadeiros maçons; eles também são os melhores Oficiais da Loja, e os melhores Desenhistas, para a Honra e Força da Loja; mais que isso, de entre eles a fraternidade pode ter um Nobre grão-mestre; mas esses Irmãos estarão igualmente sujeitos aos Cargos e regulamentos, exceto no que concerne mais imediatamente aos Maçons Operativos.”

[13] – “IRMÃO VW: Fostes nomeado Tyler (guarda do templo) desta Loja e eu vos invisto com a ferramenta de seu ofício. À medida que a espada é colocada nas mãos do guardo do templo, para efetivamente permitir que ele se proteja contra a aproximação de cowans e espiões, e não permita que alguém passe ou repasse, a menos que esteja devidamente qualificado. Com isso se quer nos advertir a colocar guardar um guarda sobre nossos pensamentos, vigilância em nossos lábios, uma sentinela em nossas ações; evitando assim a abordagem de qualquer pensamento ou ato indigno e preservando as consciências sem ofender a DEUS e ao homem.”

[14] – A este respeito, há uma nota que diz Le Parfait Maçon – Pro-phanus significa fora do Templo, e o profano designa quem não entrou em seu Portal janua. O termo inglês Cowan designa qualquer estranho à guilda que não possua a Palavra, já que se tratava de um leigo, um espião ou um pedreiro ou um aprendiz que não foi recebido maçom (http://helmantica182.org/wp-content/uploads/2016/01/Lecturaspyg.pdf)

[15] – Contém uma nota que nos remete às Constituições Anderson de 1738

[16] – http://mvmm.org/c/docs/eng/wilson.html

História da Maçonaria Inglesa

Porque é que a maçonaria inspira tantas teorias da conspiração ...

Quando, por que e onde se originou a Maçonaria?

Somente existe uma resposta a essas três perguntas: não sabemos. Isso, apesar de todo o papel e tinta que foram usados no seu estudo. De fato, estas questões fundamentais foram bastante obscurecidas por vários historiadores maçônicos muito bem intencionados, mas mal informados. Faz pouco mais de um século que os historiadores maçônicos britânicos começaram a examinar com visão crítica a história tradicional do Ofício[1], que havia sido escrita por seus predecessores durante os 150 anos anteriores.

Ao considerar dita “história” pouco satisfatória, começaram a buscar provas documentais diretas da Maçonaria Especulativa anterior à formação da primeira Grande Loja da Inglaterra em 1717. Suas investigações e seus escritos não detiveram, entretanto, a permanente aparição de obras pertencentes ao que se podia denominar de escola de historiadores maçônicos mística ou romântica (no sentido autêntico da palavra), o que gerou ainda maior confusão.

Existem, portanto, dois enfoques principais da história da Maçonaria: o autêntico ou científico, que constrói e desenvolve sua teoria a partir fatos verificáveis e de documentação de origem comprovada e o enfoque não-autêntico no qual se busca colocar a Maçonaria dentro do contexto da tradição dos Mistérios, correlacionando os ensinamentos, a alegoria e o simbolismo da Ordem com seus homólogos pertencentes às diferentes tradições esotéricas. Para complicar ainda mais as coisas, existem opiniões divididas dentro das duas escolas principais que acabamos de citar.

O Maçom comum tira do próprio ritual suas primeiras noções da história do Ofício. À medida que vai progredindo em seu conhecimento das cerimônias, aprende que durante a construção do Templo de Jerusalém, os construtores qualificados (pedreiros ou Maçons), se dividiam em duas classes: Aprendizes e Companheiros. Todos trabalhavam sob as ordens de três Grão-Mestres (o Rei Salomão, Hiram, Rei de Tiro e Hiram Abiff), os quais compartilhavam certos segredos apenas por eles conhecidos. Aprende também que esses segredos foram perdidos com o assassinato de Hiram Abiff – assassinato que ocorreu devido à sua negativa de revelar tais segredos – e que se adotaram certos segredos em substituição dos primeiros, “até que o tempo ou as circunstâncias restaurem os segredos originais”.

Do ritual se deduz imediatamente que a Maçonaria já existia e estava estabelecida à época do Rei Salomão e que permaneceu desde então como uma sistema intacto. O candidato compreende logo que o ritual não contém uma verdade histórica ou literal, senão uma alegoria dramática mediante a qual se transmitem os princípios e axiomas fundamentais do Ofício. A primeira história do Ofício apareceu, com sanção oficial, como parte das primeiras Constituições[2], compiladas e publicadas em nome da primeira Grande Loja pelo Reverendo Doutor James Anderson, em 1723. A obra de Anderson consiste principalmente na história legendária do Ofício dos Construtores, desde Adão, no Jardim do Éden, até a formação da primeira Grande Loja em 1717.

Anderson não faz distinção alguma entre Maçonaria Operativa e Maçonaria Especulativa, com o que ficou implícito que uma era continuação da outra. Anderson foi criticado com frequência por sua história, mas essas críticas não são justas com ele. Ele não pretendia escrever uma história no sentido em que a entendemos atualmente, mas se propunha produzir uma apologia que estabelecesse uma filiação honrada para uma instituição relativamente nova.

Ele nem sequer afirmou ter escrito uma obra original, senão, como explicou na segunda edição das Constituições (1738), simplesmente resumiu as antigas Constituições góticas[3]. Foi delas que ele retomou as tradições segundo as quais as Lojas de Maçons existiram desde os tempos antigos. Igualmente retomou dali a ideia de que várias personalidades bíblicas históricas, e outras puramente lendárias, haviam sido patronos, promotores ou Grão-Mestres do Ofício, como um certo Príncipe Edwin, que havia convocado uma grande assembleia de Maçons no ano de 926 da era cristã[4].

Durante dita assembleia teria lhes outorgado uma Constituição e lhes teria ordenado que se reunissem trimestralmente para governar suas Lojas. É dada a impressão de que a Grande Loja ou Assembleia seguiu existindo de forma ininterrupta desde essa data até 1717. Por não haver Anderson produzido uma versão revisada e consideravelmente aumentada de sua história para a segunda edição das Constituições, a versão de 1723 foi aceita pelo que na realidade era: uma apologia construída a partir da lenda, do folclore, da tradição.

Na edição de 1738, Anderson parece haver dado, desafortunadamente, rédeas soltas à sua imaginação, pois construiu uma “história” detalhada da Maçonaria inglesa desde a suposta Assembleia de York até a ressurreição da Grande Loja em 1717 e a continuou inclusive até 1738. Para Anderson, os termos Geometria, Arquitetura e Maçonaria eram sinônimos. Todo monarca inglês ou personalidade histórica que, de qualquer maneira, tivesse patrocinado arquitetos ou Maçons, foi colocado em sua lista, seja como Grão-Mestre, ou, pelo menos, como Grande Vigilante da Maçonaria.

Com o fito de “comprovar” a antiga e ininterrupta linhagem da Instituição, Anderson assegurou que a união das quatro Lojas de Londres para formar uma Grande Loja em 1717 não havia representado a criação de uma nova organização, mas sim que tinha havido a “restauração”[5] de uma antiga organização que havia caído em decomposição devido à negligência de seu Grão-Mestre Christopher Wren.

Trata-se de uma assertiva surpreendente, a favor da qual não existe prova, especialmente porque na versão de 1723 não se menciona nenhuma restauração e o nome de Wren apenas figura em nota de pé de página como arquiteto do Teatro Sheldoniano de Oxford. Curiosamente, Wren ainda vivia quando apareceu a versão de 1723, mas já tinha falecido quando Anderson empreendeu suas revisões, de modo que o interessado não teve oportunidade de objetar.

Tendo em vista que a história escrita por Anderson foi publicada com a sanção da Grande Loja, atribuiu-se a ela o caráter de história sagrada, tanto mais por que seu conteúdo não foi impugnado pelos que tomaram parte nos eventos de 1717. Seu trabalho resultou de tão grande aceitação que continuou sendo publicado repetidamente, sem alterações, simplesmente com atualizações em todas as edições subsequentes, até à última edição, em 1784. Foi inclusive plagiado pelos diversos editores de manuaizinhos publicados no século XVIII, os “Companheiros de Bolso dos Franco-Maçons” (“Freemasons’ Pocket Companions”)[6)] e constituiu a base das “Ilustrações da Maçonaria” (“Illustrations of Freemasonry”), de William Preston, até na décima sétima edição (póstuma), em 1861, editada pelo Reverendo George Oliver.

Houve planos para incorporá-lo nas edições das Constituições da Grande Loja Unida da Inglaterra, datadas de 1825, 1827 e 1827. Foi então anunciado que as partes do livro publicadas constituíam uma segunda parte e que se publicaria em uma primeira parte da história da Maçonaria. Felizmente, a primeira parte em questão jamais foi publicada.

Com a exportação para a América do Norte das Constituições da primeira Grande Loja e as Ilustrações de Preston, bem como suas traduções para o francês e o alemão, a má informação de Anderson recebeu ampla divulgação. Exerceu assim profundo efeito sobre a concepção que se teve sobre a história do Ofício, bem como sobre a atitude diante do tema, atitude que subsistiu até bem entrado o século XIX.

Na verdade, a ausência de uma diferenciação, por parte de Anderson, entre Maçonaria Operativa e Maçonaria Especulativa iria marcar os enfoques da história do Ofício por espaço de muitas gerações e pode-se dizer que deu lugar ao desejo de estabelecer vínculo direto entre ambas tão logo a escola autêntica iniciou sua aproximação crítica à história aceita da Ordem. Ainda que a aproximação dos escritores da escola autêntica apareça como uma investigação científica, os métodos empregados por eles não seriam aceitos atualmente como científicos. Apesar de que eles examinaram cuidadosamente e comprovaram origem de cada fragmento de evidência que apareceu e que suas áreas de investigação se limitaram aos registros e documentos arquitetônicos, de construção e corporativos. De fato, seu trabalho ostenta a aparência de busca de evidências suscetível de encaixar dentro de uma teoria preconcebida.

Dispostos a provar a filiação direta entre a Maçonaria Operativa e a Maçonaria Especulativa através de uma fase de transição, ajuntaram fragmentos de informações procedentes de várias partes das Ilhas Britânicas, fragmentos que pareciam formar escalões em sua cadeia de descendência. Ao proceder desta maneira, com frequência tiraram a evidência de seu contexto e efetuaram suposições para as quais existia apenas uma tênue possibilidade de confirmação.

Em particular, assumiram a existência de uma uniformidade de condições e de atividades na Inglaterra, Irlanda e Escócia e ignoraram assim as circunstâncias particulares sociais, culturais, políticas, legais e religiosas que marcam diferenças cruciais entre esses países. Não levaram em conta, por exemplo, que até à Lei de União de 1707, Inglaterra e Escócia, ainda que unidas através da Coroa desde 1603, eram países separados que somente compartilhavam fronteira comum e que os eventos ocorridos em um país não tinham necessariamente paralelismo nos países vizinhos.

Entretanto, sua teoria era tão persuasiva, tão bem escrita e foi tão divulgada, que sua interpretação acerca da transição da Maçonaria Operativa para a Maçonaria Especulativa esteve perigosamente próxima de ser aceita como fato inquestionável. Necessário é enfatizar novamente que se trata apenas de uma teoria. Na Escócia, encontraram evidência inegável da existência de Lojas Operativas de talhadores de pedra. Tais Lojas se definiam segundo o ponto de vista geográfico (territorial) e constituíam unidades de controle da atividade Operativa com respaldo em leis estatutárias. Também obtiveram evidência indiscutível que as Lojas Operativas escocesas começaram a admitir durante o século XVII membros não-Operativos na qualidade de “Maçons Aceitos” ou “Gentis-homens Maçons” (Accepted or Gentlemen Masons) e que a princípios do século XVIII em algumas Lojas, os Maçons Aceitos haviam passado a predominar.

Estas Lojas, por sua vez, se converteram em Lojas Especulativas, enquanto as outras mantiveram seu caráter puramente Operativo. As Lojas Especulativas eventualmente se uniram para formas a Grande Loja da Escócia em 1736. Investigadores da escola autêntica também descobriram referências claras sobre o uso nessas Lojas, de uma Palavra maçônica[7] e de modos secretos de reconhecimento que permitiam aos Maçons Operativos de boa fé obter trabalho ou sustento quando viajavam ao território de outra Loja. Ao unir esses fatos, os historiadores  românticos pareciam contar com provas de uma transição gradual da Maçonaria Operativa para a Maçonaria Especulativa.

A falha de seu raciocínio consistia em supor que por não serem Operativos, os Maçons Aceitos nas Lojas Operativas escocesas tinham de ser necessariamente Especulativos, ou que, pelo menos deveria existir uma implicação sobre a atividade Especulativa da loja, derivada do próprio fato da aceitação. Até hoje, não apareceu prova alguma que apoie tais suposições. De fato, a evidência encontrada pareceria assinalar os não Operativos como sendo membros honorários das Lojas, adotados do mesmo modo que hoje se adotam eminentes personalidades como membros honorários de clubes, sociedades e instituições com as quais não têm vínculos profissionais ou vocacionais.

Quando a escola autêntica examinou os registros ingleses, seus investigadores não puderam encontrar evidência alguma da existência de Lojas Operativas. Em tempos medievais, a Loja dos Operativos consistia simplesmente de uma choça ou depósito anexo ao lugar de trabalho, no qual guardavam as ferramentas e descansavam. Em torno do ano de 1600, o sistema de guildas se encontrava praticamente moribundo, com a exceção das Companhias de Carroceiros e Transportadores de Londres (“London Livery Companies”).

Tampouco existia evidência de uma “palavra maçônica” inglesa ou de meios secretos de reconhecimento entre os Operativos ingleses. Qualquer evidência encontrada acerca da Maçonaria não Operativa – ou de aceitação – tinha um contexto não Operativo e entre os nomes encontrados e que podiam ser verificados e cruzados com outras evidências, muito poucos tinham sequer a mais tênue relação com a construção ou a arquitetura.

A Maçonaria de aceitação (existem ainda dúvidas se a Maçonaria do século XVII pode ser denominada de Especulativa) simplesmente parece ter surgido na Inglaterra como uma organização nova, sem nenhuma conexão anterior com o ofício Operativo. Apesar desta carência de provas, a escola autêntica misturou conjuntamente os eventos ocorridos na Escócia e Inglaterra e construiu a teoria da transição Operativa – Especulativa sobre as origens da Maçonaria[8], sem ter em conta as diferenças e discrepâncias entre os dois conjuntos de evidências. Antes de tudo, passaram por alto ou ignoraram o fato de que a Maçonaria não Operativa se estava desenvolvendo na Inglaterra quando as Lojas escocesas começaram a aceitar membros não Operativos. Se as Lojas Operativas escocesas constituíram um meio de transição, como poderia existir na Inglaterra a Maçonaria puramente não Operativa?

A busca de um vínculo direto não se confinou às Ilhas Britânicas, nem ao período da denominada “Assembleia de York” Foram feitas tentativas de encontrar para ela um parentesco clássico como descendente dos “Collegia Fabrorum” romanos (as escolas de construtores da época), pois, além disso, a palavra “escola” parecia levar implícita a existência de um culto filosófico ou “misterioso” ligado aos construtores romanos. A lenda dos “Magistri Comacini” (Mestres Comacinos) parecia oferecer fundamento religioso ao Ofício.

Afirmou-se que os hábeis e renomados Maçons da região do lago de Como no norte da Itália, possuíam segredos tão recônditos suscetíveis de serem comunicados a outros Operativos, que foram constituídos mediante uma bula papal (bula inexistente, na realidade). Dizia-se que haviam recebido instruções de viajar pela Europa para partilhar suas habilidades e “mistérios”. É notória a ausência de provas sobre sua existência real.

Foram revisadas diligentemente as tradições e os registros dos “Steinmetzen” alemães e da “Compagnonnage” francesa em busca de rastros de algum elemento Especulativo, mas nada foi encontrado. A evidência nos remete sempre e novamente à aparição da Maçonaria não Operativa na Inglaterra, durante o século XVII. A teoria de uma filiação direta da Maçonaria Operativa segue tendo seus partidários, especialmente o falecido e muito reverenciado Harry Carr, mas alguns investigadores atuais que trabalham na tradição da escola autêntica estão se inclinando a considerar um vínculo direto com os Operativos[9].

Em vez de buscar as provas de filiação direta, estão explorando a possibilidade de que os fundadores da Maçonaria Especulativa tenham se ocultado sob a aparência de uma organização ou guilda para desenvolver atividades e ideias que eram impossível de praticar ou professar na época. O período no qual se crê tenha evoluído a Maçonaria – entre fins do século XVI e durante todo o século XVII – se caracterizou pela estreita relação entre a política e a religião. Durante esses anos, as diferenças de opinião nessas matérias podiam dividir as famílias e eventualmente conduzir a guerras civis.

Particularmente no que concerne à religião, existiam sanções legais contra aqueles que decidiam não seguir os ditames do Estado. Surgem por si mesmas, em consequência, duas ideias possíveis relacionadas com a origem da Maçonaria durante esse período. Primeiro, que os fundadores eram um grupo oposto à intolerância política e religiosa do Estado, que desejavam reunir homens de diferentes concepções políticas e religiosas, que compartilhassem objetivo comum de melhoria social. Como se encontravam em situação em que ditas concepções eram consideradas subversivas, restringiam-se apenas à discussão desses assuntos com os que não eram membros. Estes parecem ter existido desde que se originou a Maçonaria.

Segundo, que os fundadores eram um grupo de religião cristã não conformista, que se opunha ao domínio da religião por parte do Estado. Tal grupo não se propunha depor a religião predominante, mas desejava promover a tolerância e a criação de uma sociedade na qual os homens fossem livres para seguir os ditames de sua consciência em matéria religiosa.

Assim, as reuniões se converteram em Lojas, os oficiais principais passaram a se denominar de Mestre e Vigilantes e as ferramentas de trabalho do talhador de pedras foram utilizadas, tanto por suas funções materiais práticas, como por seu valor simbólico. Recentemente, foi apresentada uma teoria de filiação indireta. Ela associa as origens com os aspectos caritativos, mais do que com as discussões filosóficas[10]. Considera a Maçonaria como produto do crescente movimento de auto-ajuda surgido no século XVII. Por não existir um sistema estatal de proteção e seguridade social, aqueles que ficavam doentes ou que passavam por dificuldades econômicas dependiam da caridade local e das rígidas estipulações da Lei dos Pobres.

Diversos agrupamentos gremiais começaram a organizar seus próprios sistemas. Quando se reuniam a debater amistosamente em tabernas e pousadas, mantinham uma caixa à qual os membros aportavam cotas durante cada reunião e da qual os mesmos membros podiam tomar dinheiro em tempos de necessidade. Em virtude dessa prática, tais agrupamentos receberam o nome de “Clubes de Caixa” (“Box clubs”). A participação nestes clubes estava reservada em princípio aos membros de um grêmio em particular. Existe evidência que nos clubes foram utilizados ritos rudimentares de iniciação.

Parece também que, como as Lojas Operativas escocesas, os Clubes de Caixa começaram a admitir membros que não estavam vinculados diretamente com seu grêmio particular. Evocou-se a possibilidade de que a Maçonaria tenha surgido originalmente tão somente como um Clube de Caixa para Maçons Operativos, os quais posteriormente começaram a admitir membros de outros grêmios.

A possibilidade de que a Maçonaria tivesse sido basicamente uma sociedade de orientação gremial na época da criação da primeira Grande Loja em 1717 foi levantada por Henry Sadler[11]. Sugeriu ele que uma luta pelo controle das Lojas teve lugar em princípios da década de 1720, entre os membros originais de orientação gremial e os que foram levados às Lojas por influência do Dr. John Teophilus Desaguliers e outros e que a Maçonaria autenticamente Especulativa não surgiu senão quando este último grupo ganhou o controle e começou a transformar a Maçonaria de sociedade de benefícios, para “um sistema de moral, velado por alegorias e ilustrado por símbolos”.

Também se buscou em outras organizações a origem da Maçonaria. Uma teoria agora descartada, mas que conservou credibilidade por longo tempo, via na Maçonaria a descendente direta dos Cavaleiros Templários medievais. Afirmou-se que depois da eliminação de Jacques De Molay – seu último Grão-Mestre, em 1314 – um grupo de cavaleiros escapou para a Escócia Uma vez ali, se reuniram no misterioso monte Heredom, perto de Kilwinning e, temerosos de ulteriores perseguições, se transformaram em Maçons convertendo os supostos segredos dos Templários nos segredos da Maçonaria.

Infelizmente para os partidários desta teoria, o misterioso monte de Heredom não existe (ainda que viesse a se constituir em elemento central de numerosos graus adicionais inventados na França do século XVIII). Tampouco é verídico que os Templários tivessem sido perseguidos na Escócia. Formaram, pelo contrário, parte da vida política e religiosa da Escócia até à Reforma, sendo que o Prior de Torpichen (principal Priorado Templário da Escócia), por direito próprio, um dos “Lores” espirituais do governo escocês. Mesmo assim, a lenda escocesa segue exercendo sua atração romântica.

O Reverendo Dr. George Oliver declarou que possuía um manuscrito do século XVIII que se referia ao que ele denominou “Rito de Bouillon”, um ritual dos três graus azuis no qual informava aos recipiendários que eles eram descendentes dos Templários. O manuscrito de Oliver se conhece apenas em cópias que datam do século XIX e um exame de seu conteúdo mostra um ritual altamente desenvolvido para os três graus azuis que incorpora muitas das modificações e adições ritualísticas realizadas depois da união das Grandes Lojas inglesas em 1813.

Alguns buscaram as origens da Maçonaria no Rosacrucianismo, seja como uma manifestação britânica da fraternidade Rosa-cruz, seja como um desvio da corrente principal do Rosacrucianismo[12]. Não é este o lugar para discutir a existência ou não de uma Fraternidade Rosa-cruz. Qualquer que seja a verdade a esse respeito, o certo é que a ideia Rosa-cruz se manteve entretecendo-se no pensamento europeu, desde sua aparição no início do século XVII. Os únicos fatores comuns à Maçonaria e ao Rosacrucianismo são a ideia central de criação de uma sociedade ideal e o simbolismo, para distribuir esse ideal aos seus iniciados.

Até aí chega a similitude. Não existe um acervo comum de simbolismo e ambas se desenvolveram ao longo de caminhos diferentes. Não há evidência que demonstre uma origem comum ou o desenvolvimento de uma a partir da outra. Muito se tratou de utilizar para esses fins o fato de que Elias Ashmole, o primeiro iniciado não Operativo de que se tem notícia certa, também se interessava no Rosacrucianismo. Mas nada se diz dos demais Maçons Aceitos conhecidos, que não tinham relação com a Rosa-Cruz (real ou imaginária), nem sobre os Rosa-Cruzes declarados que não tiveram vínculos com a Maçonaria de Aceitação.

A escola não autêntica possui quatro enfoques principais, os quais poderiam ser classificados como o “esotérico”, o “místico”, o “simbolista” e o “romântico”. As quatro abordagens têm dois fatores em comum: a crença de que a Maçonaria existe “desde tempo imemorial” e uma aparente incapacidade de distinguir entre fato histórico e lenda. As escolas esotéricas e místicas estão de fato interessadas na transmissão das ideias e tradições esotéricas, o que constitui em si uma linha de investigação válida.

Ocorre que, ao se aproximarem de seu objetivo, convertem similitudes entre grupos muito separados no tempo, como prova de uma tradição contínua transmitida de um grupo a outro, em uma espécie de sucessão apostólica esotérica. Os seguidores destas escolas tendem também a professar ideias heterodoxas acerca da natureza e propósito da Maçonaria, atribuindo-lhe implicações místicas, religiosas e inclusive ocultas, que nunca teve.[grifo nosso]

Os partidários da abordagem esotérica tomam os princípios, os rituais, as formas, os símbolos e a linguagem da Maçonaria e buscam similitudes com outros grupos (ignorando o fato de que os princípios e muitos dos símbolos são universais e não particulares da Maçonaria). Supõem que essas similitudes não são fortuitas mas deliberadas e constituem, portanto, prova de uma tradição contínua. Colocam, também, grande ênfase nos graus adicionais, revestindo-os de uma antiguidade espúria e vendo neles conteúdo esotérico e simbolismo muito maiores do que jamais se tentou lhes imprimir.

Ao ver o conjunto das diversas ramificações da Maçonaria um rito iniciático coerente, coisa que não é, a escola esotérica a compara com outros ritos iniciáticos, encontra semelhanças – reais ou impostas – e supõe um parentesco. John Yarker é, provavelmente, o maior expoente dessa escola. Seu “opus magnum”, “As Escolas Arcanas” (Belfast, 1909) é um monumento à erudição mal aplicada. Não apenas revela a amplitude de suas leituras, mas também sua dificuldade para digerir ou, em alguns casos entender, aquilo que havia lido.

À primeira vista pareceria que operava na escola autêntica, já que faz constante uso da “evidência documentária”. Um exame mais atento mostra que ele não efetuava análise crítica de suas fontes, com o que aceitava como fatos as lendas, a tradição e o folclore e chegava a negar fatos reais adequadamente documentados. Yarker estava firmemente convencido que a Maçonaria existiu entre os talhadores de pedra Operativos da Idade Média e que eles já trabalhavam com uma complexa série de graus que abarcava os três graus azuis (o Ofício) e muitos dos graus adicionais. Acreditava também que tal sistema havia declinado e que seu ”ressurgimento” no século XVIII constituía um renascimento, mas de forma distorcida.

Para poder aceitar as teses de Yarker, teríamos que aceitar que ao talhadores de pedra medievais eram homens intelectualmente preclaros, hábeis com o trato de ideias que não ingressaram no acervo da filosofia ocidental senão depois do Renascimento. Yarker viu a Maçonaria como a culminação ou o “summum bonum” de todos os sistemas esotéricos. Ao fracassar na “depuração” do sistema existente, Yarker introduziu, nos Estados Unidos da América, o “Rito Antigo e Primitivo da Maçonaria”. Este Rito combinava e reduzia os noventa e sete graus do Rito de Misraim e os noventa e cinco graus do Rito de Mênfis, convertendo-os em um “pout porri” de egiptologia, gnosticismo, rosacrucianismo, cabala, alquimia, misticismo oriental e cristianismo.

Resume perfeitamente a mente eclética e acrítica de seu principal promotor na Inglaterra. Este Rito a duras penas sobreviveu à morte de Yarker. Talvez os representantes mais característicos da escola mística sejam o Rev. George Oliver e A.E. Waite. Oliver foi um fervoroso fundamentalista pré-darwiniano que acreditava firmemente que a Maçonaria era essencialmente cristã e havia existido, sob uma forma ou outra, desde o começo dos tempos. Em vários sentidos pode ter sido o pai da escola autêntica. Lia com avidez qualquer livro maçônico ao seu alcance e colecionava até as frações de provas mais ínfimas que pudesse encontrar, mas, como Yarker, sua forma de leitura era acrítica e se inclinava para a invenção quando escasseavam as provas.

Waite, como Oliver, acreditava que a Maçonaria era essencialmente cristã, tanto em sua origem, como no seu caráter. Cria que a Maçonaria tinha suas raízes no sistema das guildas, mas que havia sido transformada em sistema místico. Seus rituais, em particular os dos graus adicionais, conteriam o conhecimento secreto dentro da tradição dos Mistérios. Sua desorganizada “Nova Enciclopédia da Maçonaria”, na qual pôs pesada ênfase sobre os graus adicionais, tanto existentes como extintos, foi demolida pela crítica da escola autêntica no momento de sua publicação em 1921.

A escola simbolista busca as origens da Maçonaria mediante a comparação e a correlação do simbolismo e da linguagem ritual e trata de encontrar a filiação direta entre a Maçonaria e várias religiões, cultos, mistérios e sociedades. Da mesma maneira que a escola esotérica, esta linha de investigação tem certa validade, mas como antropologia do simbolismo e não como investigação das origens da Maçonaria. A incidência de certos símbolos, gestos e terminologia conduziram esta escola a comparar a Maçonaria com religiões dos ameríndios, cerimônias maias, rituais mitraicos e aborígines, pinturas de templos egípcios, marcas de castas hindus, etc.

O problema é que os símbolos maçônicos não são exclusivos da Maçonaria, pois são universais. Dentro da escola simbolista se encontra quem foi buscar a origem do ritual maçônico mediante a exegese de obras de escritores bem conhecidos, com o fito de encontrar exemplos de “linguagem maçônica”. O mais excêntrico deles foi provavelmente Alfred Dodd, que se convenceu a si mesmo que Shakespeare (chame-se Shakespeare, Bacom ou Marlowe) compôs o Ritual do Ofício[13].

De uma maneira os seguidores da escola romântica se aproximam da tradição de Anderson, já que implicitamente acreditam na conexão direta entre a Maçonaria Operativa e a Maçonaria Especulativa, mesmo que tal vínculo se remonte a Adão, Salomão ou aos construtores medievais. Diferem da escola autêntica por rechaçarem, ou desconhecerem, as numerosas formas pelas quais a Maçonaria mudou e se desenvolveu durante o período do qual existem registros históricos. Estão dispostos a crer que o ritual tem sido praticado desde tempo imemorial, seja em suas formas fundamentais, seja conservando integralmente seus detalhes.

A carência de conhecimento sobre a origem da Maçonaria e a variedade de abordagens que existem para enfocar esta interrogação explicam, talvez, a intensidade com a qual se a investiga e a persistente atração que exerce. A ausência de dogmas oficiais implica que qualquer membro da Ordem pode dar ao ritual tanto ou tão pouco significado, conforme deseje. Nem sequer na Inglaterra existe um padrão, ou se trate de um ritual controlado de maneira centralizada ou de uma interpretação do ritual que deva ser aceita por todas as Lojas. Quando é que, alguma vez, cheguemos a estar prestes a descobrir as verdadeiras origens da Maçonaria é uma pergunta que permanece em aberto.

Os registros e documentos relacionados com a construção medieval foram revisados na sua totalidade, mas os arquivos religiosos, familiares e locais permanecem praticamente inexplorados. Por outro lado, a ser correta a afirmação de Anderson de que numerosos manuscritos foram queimados deliberadamente em 1720, “por alguns Irmãos preocupados que tais documentos fossem cair em mãos estranhas”, é bem possível que a prova crucial que procuramos já esteja perdida.

Autor: John Hamill*
Tradução: J. C. Miró

*Bibliotecário e Curador da Grande Loja Unida da Inglaterra; Past Master da Loja Quatuor Coronati No. 2.076.

Publicado nos n.º 9 e 10 (Nov. e Dez./2000) da Revista Internacional “Hiram Abif”, Mar del Plata – Argentina.

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Notas

[1]– Seguindo a tradição maçônica inglesa, o autor denomina “O Ofício” (The Craft) ao conjunto dos três graus fundamentais da Maçonaria e de seus membros, Os três graus fundamentais, Aprendiz, Companheiro e Mestre são conhecidos como “Maçonaria Azul”.

[2]– James Anderson, “As constituições dos Franco-Maçons, Com a História, Obrigações, Regulamentos, Etc. Desta Mui Antiga e Venerável Fraternidade”. Londres, 1723.

[3]– As Constituições Góticas (“Gothic Constitutions”) são a recopilação de preceitos corporativos, também conhecida como “Os Antigos Deveres” (“Old Charges”)

[4]– Para uma discussão sobre o tema da lenda de York, ver Begemann AQC 6 (1893); Gould AQC 5 (1892); Oliver AQC 61 (1948); Speth AQC 6 (1893) e Alex Horne “A Lenda de York nos Antigos Deveres” (“The York Legend in the Old Charges”) (Shepperton; A. Lewis, 1978). AQC: Anais da Quatuor Coronati, Loja de estudos históricos pertencente à Grande Loja Unida de Inglaterra.

[5]– Anderson é a única fonte que se pode citar para sustentar a ideia de que os eventos de 1717 constituíram uma restauração.

[6]– Os “Pocket Companions” começaram a aparecer em 1735 e eram uma mistura pouco feliz de plágios das regras e do relato histórico de Anderson, junto com vários deveres e orações.

[7]– Ver Douglas Knoop, “A Palavra Maçônica (“The Mason Word”), AQC 51 (1938).

[8] – O relato mais recente da teoria da transição Operativa-Especulativa é “600 Anos de Ritual do Ofício”, (“600 Years of Craft Ritual”) de Harry Carr, texto que se encontra no livro “O Mundo da Maçonaria”, de Harry Carr, (“Harry Carr’s World of Freemasonry”) publicado em Londres por A. Lewis, 1984.

[9] – Ver C.F.W. Dyer, “Algunas Reflexões Sobre a Origem da Maçonaria Especulativa (“Some Thoughts on the Origin of Speculative Masonry”), AQC 95 (1982).

[10] – Andrew Durr, “A Origem do Ofício” (The Origin of the Craft), AQC 96 (1983).

[11] Henry Sadler, “Fatos e Ficções Maçônicos” (“Masonic Facts and Fictions”), Londres 1887; reimpresso por Wellingborough (Aquarian Press, 1984).

[12] – Ver J. S. M. Ward, “A Maçonaria e os Antigos Deuses” (“Freemasonry and the Ancient Gods”) segunda edição (Londres, 1926). A.E. Waite, “A Tradição Secreta na Maçonaria” (“The Secret Tradition in Freemasonry”), (Londres, 1911).

[13] – Alfred Dodd, “Shakespeare: Criador da Maçonaria (“Shakespeare: Creator of Freemasonry”) (Londres, circa 1935) e “Foi Shakespeare o Criador dos Rituais da Maçonaria?” (“Was Shakespeare the Creator of the Rituals of Freemasonry?”), (Liverpool, sem data).