Resposta a um maçom desiludido (II) 

O que é e o que faz a Maçonaria? | São Carlos em Rede

O artigo anterior [1] foi a expansão de uma resposta que dei privativamente a um irmão que comentou outra matéria, para compor o texto sobre a desilusão ou quebra de expectativa, algo que, em minha opinião, representa um dos maiores, se não o maior problema da Maçonaria em nível mundial.

Esse irmão replicou ao meu comentário ainda com algumas noções equivocadas sobre a Ordem Maçônica. Volto a publicar minha resposta à sua réplica.

A instituição Maçonaria (especulativa), conforme a conhecemos, foi inventada em 1717 e é essa à qual pertencemos. Basta ler o Artigo 1 da Constituição de Anderson para ver que os inventores dela pretendiam somente que a loja fosse “um centro de união para reunir homens que de outra forma nunca se conheceriam”. Eles não falaram em sociedade iniciática ou coisa parecida.

“Artigo 1 – Um maçom é obrigado por seu mandato a obedecer à lei moral e, se compreende bem a arte, nunca será um ateu estúpido nem um libertino irreligioso. Embora nos tempos antigos os maçons fossem obrigados em cada país a praticar a religião daquele país, qualquer que fosse ela, agora é considerado mais conveniente apenas obrigá-los a seguir a religião com a qual todos os homens concordam, isto é, ser homens bons e verdadeiros, ou homens de honra e probidade, quaisquer que sejam as denominações ou confissões que ajudam a diferenciá-los, de forma que a Maçonaria se torne o centro de união e o meio para estabelecer uma amizade sincera entre homens que de outra forma permaneceriam separados para sempre.”

O “ritual” operativo era simples, chamava-se “Palavra de Maçom” e o maçom era (ainda é) “feito” e não “iniciado”. O Aprendiz não era bem um membro da loja. Ele estava vinculado diretamente ao Mestre da Loja a quem devia obediência. Terminado o seu período de treinamento, geralmente de sete anos, ele era apresentado à Loja para receber sua obrigação, o toque de maçom e a(s) palavra(s) de passe. Nesse momento, liam para ele a História do Ofício (algo como aquela introdução das Constituições de Anderson – que não era exatamente igual à dos Operativos, já que Anderson inventou uma mitologia própria dessa nova invenção de 1717) e suas Obrigações (Old Charges) que ele jurava cumprir. Passava então a ser Companheiro. O grau de Mestre só viria a ser inventado vinte anos depois.

Esse ritual foi adotado pelas lojas da Maçonaria de 1717. Toda a filosofia adicional foi gradativamente sendo introduzida e deformando a instituição original, transformando-a em outra coisa totalmente diferente. Isso aconteceu principalmente no Continente europeu, quando a Franco-Maçonaria foi transplantada para o ambiente latino. Foi também quando Rosacruzes e outros hermetistas descobriram as lojas maçônicas que lhes ofereciam a estrutura ideal para estudar suas matérias. E assim foi, um pendura uma coisa aqui, outro pendura algo acolá, e aquela pequena construção que abrigaria os homens sérios e de bons costumes foi se transformado em uma catedral barroca parecida com a Sagrada Família de Barcelona.

Quanto aos operativos, eles eram efetivamente rudes e analfabetos, com exceção talvez do Mestre da loja (proprietário da empreiteira) que detinha um conhecimento um pouco mais ampliado, provavelmente conseguindo ler as plantas traçadas pelo Arquiteto (que quase nunca era um maçom, e na maior parte das vezes era um eclesiástico). Se puder ler em inglês, leia as constituições manuscritas dos operativos (publiquei na Amazon um livro “Old Charges of the British Freemasons” que dá uma visão mais clara do mundo deles.

As catedrais eram concebidas por eclesiásticos ou nobres que eram os arquitetos. Veja-se o caso da Catedral de St. Paul em Londres, em que o arquiteto foi o Mestre de Loja (Operativa) Sir Christopher Wren e as lojas operativas irlandesas, escocesas e inglesas a construíram.

Os maçons eram apenas uma das guildas que construíam aquelas obras, havia guildas de pedreiros, de ferreiros, de vidreiros, de carpinteiros, de escultores, etc. Cada uma delas especializada em uma parte da obra. Essa noção de que só os maçons pedreiros construíram as catedrais é parte da plêiade de desinformação publicada por “achistas” que não pesquisam e que ousam publicar suas ideias sem base. A Madras aceita tudo.

Mas, conforme dissemos no artigo anterior, a Maçonaria pura e simples se reduz ao cultivo da fraternidade, ao aperfeiçoamento pessoal e sua projeção no meio e dentro desse aperfeiçoamento pessoal, existem os “Altos Graus” ou Graus Filosóficos. Ninguém é menos maçom se não for além do terceiro grau. E um maçom de grau 33 (ou de grau 99 como no rito Memphis Misraïm) não é mais importante que um maçom de grau 3.

Agora uma confissão. Eu mordo a língua e me penitencio de público nesse momento. Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa

Eu costumava fazer blague de algumas lojas que eu chamava de R.E.A.A. – Ritual E Ata e Ágape. Minha crítica era que aquelas lojas não exercitavam um aspecto tradicionalmente desenvolvido na Maçonaria brasileira: a participação na política de sua comunidade. É claro que não me referia ao Rito Escocês, e também eu dizia isso sobre as lojas das grandes cidades que geralmente não têm ação política porque os centros de poder são muito descentralizados, o que não ocorre em pequenas e médias cidades, onde a Maçonaria pode exercitar sua tradicional influência sobre as instituições da sociedade, em linha com nossos fundadores de 1822.

A Maçonaria brasileira, tanto reconhecida quanto não reconhecida, não tem consciência de que têm o DNA francês e que o intervencionismo é uma de suas características. Pretende seguir a orientação de Londres de “não discutir política nem religião”, mas na prática cada candidato que ingressa na Ordem tem no seu inconsciente a imagem da maçonaria “francesa” que foi a Maçonaria brasileira até início do século XX. E muitas vezes se frustra ao descobrir que isso é coisa do passado e que hoje muitas lojas são apenas e tão somente redutos conservadores.

Mas, Oh meu Zeus! como estava enganado. A velhice trouxe-me o aumento do entendimento, juntamente com o gosto pelo estudo da história, e acabei descobrindo que o “ágape”, ou “copo d’água” e a loja de mesa são a tradição mais cara e mais importante da Maçonaria, herdada, isso sim, do Mitraísmo, com seus jantares ritualísticos, através da Maçonaria Operativa reunida em tabernas pois, é à mesa, em torno de um bom prato e uma cerveja, que se formam os vínculos mais estreitos.

Na Maçonaria cabem todas as personalidades – para isso existem diferentes ritos que atendem a diferentes tendências – mas que têm um núcleo comum que no fundo é o rito “Palavra de Maçom” original, acrescido de mil penduricalhos e adereços “descobertos” e agregados pelos “achistas” de plantão, descontentes com aquela simplicidade clássica.

Nela há lugar para todo mundo, desde os mais simples até verdadeiros gênios inquietos que se perguntam: “Mas é só isso?” e insatisfeitos partem para uma busca mais profunda de um significado que lhe satisfaça. Todos são importantes e, apesar de seus graus, sempre serão Mestres Maçons e serão melhores maçons na medida em que exercitarem, não os seus altos conhecimentos, mas a simples fraternidade.

Autor: José Filardo.

Fonte: Biblioteca Fernando Pessoa

Nota

[1] – Clique AQUI para ler o artigo anterior.

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Em busca da Apple Tree: uma revisão dos primeiros anos da maçonaria inglesa (Parte IV)

Rodama: a blog of 18th century & Revolutionary French trivia: The Dancer  and the Freemason......1737

As atas da Loja da Antiguidade indicam por que a Grande Loja insistiu em deixar claro que ele não estava em dívida com as outras Lojas de Londres como também em promover uma versão alternativa de suas origens. Mas, e o que Sayer, Lamball e outros disseram em relação à sua posse como Grandes Oficiais em 1717? De onde surgiram essas histórias? Sayer e os outros podem ter relatado esta história com a esperança de obter assistência de caridade da Grande Loja. Enquanto faziam circular suas histórias no início da década de 1730, forneceram um material valioso a William Reid e James Anderson, que foram instruídos a mostrar que a Grande Loja era herdeira das antigas tradições. Para entender melhor essa dinâmica, precisamos voltar para a loja que, supostamente, se reunia na taverna Apple Tree da Charles Street.

Em 1723, disse-se que a loja que se reunia na Apple Tree tinha sua base na taverna Queen’s Head, em Knave’s Acre. Este lugar também era conhecido como Little Pulteney Street e atualmente corresponde à parte oriental da Brewer Street, no bairro do Soho. Strype descreveu Knave’s Acre como “estreita e habitada principalmente por comerciantes de coisas velhas e garrafas de vidro”[95]. A rua tinha uma péssima reputação, havia reclamações constantes de desordem nas casas à noite “Onde se refugiam e se divertem suspeitos de serem ladrões, batedores de carteira e outras pessoas dissolutas e más, onde se afirma que há homicídios, etc.”[96]. Os tabloides divulgavam um “remédio para malária”, um pó que garantia curar a febre, e os clientes em potencial foram instruídos a “subir as escadas Joyner’s, na porta ao lado de Queen’s Head, na Little Pulteney Street, Knave’s Acre”[97]. Recentemente, reformas foram realizadas em algumas propriedades ao redor de Knave’s Acre[98], então não está claro há quanto tempo a Queen’s Head tinha se estabelecido lá. Embora a loja em Queen’s Head seja classificado em segundo lugar na primeira lista de lojas e membros, foi montada sob uma carta constitutiva concedida pela Grande Loja datada de 23 de fevereiro de 1723. Por que essa carta constitutiva foi concedida é um mistério. Anderson contou, em 1738, que alguns membros da Apple Tree tinham se mudado para Queen’s Head devido a uma disputa[99], porém, dada a incerteza em relação à loja da taverna Apple Tree, esta explicação é um pouco obscura. Não se pode mais ter dúvidas de que esta loja se reunia em um outro lugar e não na Queen’s Head.

Presume-se que esta loja era formada principalmente por maçons operativos e artesãos, contudo, não era bem assim. Seu Mestre em 1723 foi Abraham Rayner, um advogado[100], e outro membro da loja, Moses Jevans, era um destilador[101]. No entanto, esta loja não era particularmente rica nem respeitável. Abraham Rayner esteve preso em Newgate durante três anos por dívidas e foi acusado de tentar enganar outro preso[102]. As poucas informações sobre Sayer, que dizia ter sido Grão-Mestre, indicam que ele era um homem que vivia em circunstâncias terríveis. Morava no bairro pobre de St. Giles in the Fields, e dependia da caridade de seus companheiros maçons para não morrer de frio no inverno[103]. Sua primeira esposa, Elizabeth, foi violentamente atacada por um grupo de mulheres irlandesas em 1736 e morreu no ano seguinte[104]. Em 1739, Sayer casou-se novamente com Eliza May, uma viúva, em uma cerimônia simples e discreta sob as regras da The Fleet[105]. Apesar de tudo, uma esplêndida coorte de seus irmãos maçons compareceu em seu funeral, realizado em St. Paul de Covent Garden em 1742.

Conforme a Grande Loja cresceu, a gestão de seus fundos de caridade tornou-se um assunto de suma importância. Desaguliers advertiu, em 1729, que a Grande Loja “não deve admitir pessoas que ingressam na sociedade apenas como um meio de sustento”[107]. Esse assunto se tornou um tema recorrente. Na comunicação trimestral em 1735, a mesmo em que Anderson foi contratado para compilar uma lista de Grão-Mestres para suas novas Constituições, foi aprovada uma resolução que previa que, para evitar que as pessoas ingressassem na Maçonaria para se beneficiar do fundos de caridade, todos os pedidos de ajuda deviam incluir evidências de que o o candidato havia desfrutado de “circunstâncias boas ou pelo menos toleráveis” enquanto tinha sido maçom[108].

Se por um lado a loja Queen’s Head contribuía regularmente para o fundo de caridade da Grande Loja, por outro era dela também que vinha a maioria dos pedidos de ajuda. O caso de Henry Pritchard, um carpinteiro Drury Lane que foi membro do Queen’s Head e outras lojas de Londres é ilustrativo. Em maio de 1723, ele foi julgado por ter agredido um homem chamado Abraham Barret, cujo crânio foi fraturado, por ele ter insultado a Maçonaria de forma escandalosa, usando um bom número de palavrões. O júri considerou Pritchard culpado, mas como a agressão foi provocada, aplicou apenas uma multa de 20 xelins[109].

A Grande Loja não estava disposta a deixar um de seus membros que tinha saído em defesa da Maçonaria, desamparado, e realizou uma arrecadação para ajudá-lo que somou mais de 28 libras[110]. Apesar da ajuda tão generosa, cinco anos depois Pritchard se encontrou novamente em perigo e recebeu ajuda da loja Queen’s Head[111]. Em 1730, Pritchard voltou a solicitar assistência da Grande Loja, argumentando que ele era maçom desde 1700. Seu pedido foi indeferido, pois lhe foi oferecida uma vaga no asilo e ele rejeitou[112]. No ano seguinte, Pritchard solicitou novamente a ajuda da Grande Loja, argumentando sobre sua pobreza, cegueira e idade, afirmando que ele foi maçom por mais de 40 anos – desta vez ele disse que tinha começado em 1690. Seu pedido foi aprovado, sendo acordado que Desaguliers lhe daria cinco libras dos fundos de caridade e que ele mesmo cuidaria para que Pritchard os usasse com sabedoria.

Este caso demonstra como os fundos de caridade da Grande Loja eram muito atraentes para os membros que estavam envolvidos no trabalho físico e artesanal, e que a gestão discricionária do fundo levou os candidatos a enfatizar a sua filiação e antiguidade na Maçonaria. Outro membro da loja Queen’s Head que tentou lucrar com a caridade maçônica foi o próprio Sayer. Como vimos anteriormente, seu nome não aparecia na lista de Grão-Mestres nas Constituições de 1723. Em 1724 ele foi um dos primeiros a solicitar a ajuda da Grande Loja – embora naquela ocasião não tenha mencionado sua posição – e seu caso foi o estopim para o estabelecimento de um fundo de caridade[114]. Em abril de 1730, Sayer novamente solicitou a ajuda da loja, descrevendo seus infortúnios e extrema pobreza e, desta vez, utilizando o argumento de que havia sido Grão-Mestre de uma loja. As opiniões dentro da Grande Loja estavam divididas sobre como ajudar Sayer. Alguns estavam dispostos a oferecer-lhe £20, enquanto outros achavam esta quantia muito generosa e deveria ser oferecida apenas 10 libras. No final, decidiram-se por um meio termo e ele recebeu 15 libras, mas com o esclarecimento de que tal ajuda seria dada a ele “porque ele foi um Grão-Mestre”. Com isso queríamos deixar bem claro que só alguém com tamanha importância na organização poderia esperar ajuda dessa magnitude. Alguns meses depois, Sayer foi acusado pelo Mestre e pelos Vigilantes da loja Queen’s Head de realizar iniciações irregulares, afirmando que Sayer havia encontrado outra maneira de obter benefícios financeiros utilizando-se de sua antiga posição maçônica[115].

Sayer explorou seu status de ex-Grão-Mestre para seu próprio benefício, mas a loja da taverna Queen’s Head também tinha motivos para apoiar os argumentos de seu membros, como Sayer e Pritchard, de terem sido maçons desde antes da fundação da Grande Loja. Em 1729, a Grande Loja reorganizou a numeração de suas lojas filiados, ordenando-as de acordo com a data de sua constituição. Uma vez que a carta constitutiva da loja Queen’s Head era de 1723, ela recebeu então número 11. A loja apresentou uma reclamação, solicitando ser colocada mais acima na lista das lojas, que foi rejeitado categoricamente pelo Grão-Mestre Adjunto, Alexander Choke, visto que a Grande Loja tinha dúvidas sobre as afirmações da Queen’s Head e seus membros[116]. Pouco tempo depois, o comitê de caridade da Grande Loja foi reformado para incluir nele os Grão-Mestres das lojas mais antigas. A perda da antiguidade da Queen’s Head afetava sua participação no comitê de caridade, por isso seu grande interesse em reverter a decisão da Grande Loja.

Sayer, Lamball e companhia inventaram histórias sobre suas posições dentro maçonaria para conquistar prestígio social e para aumentar suas chances de receber assistência financeira da Grande Loja. Além disso, a loja que frequentaram tentou provar sua antiguidade por razões semelhantes. Anderson, por sua vez, recebeu o instrução para demonstrar a antiguidade da Grande Loja em face da crescente competição das novas Grandes Lojas de Dublin e Edimburgo e para auxiliar no planejamento político da organização londrina. O autor das Constituições fez uso das histórias de Sayer, Lamball e outros porque eram muito úteis para esse propósito. É necessária uma pesquisa mais aprofundada sobre o contexto e a fundação da Grande Loja, sendo impossível no presente trabalho cobrir o assunto em sua totalidade. Nossa intenção é enfatizar que a Grande Loja não foi fundada na taverna Goose and Gridiron após uma série de negociações na Apple Tree, em 1717. Nossa melhor interpretação, dadas as evidências reunidas, é que a Grande Loja foi fundada com a nomeação do Duque de Montagu como Grão-Mestre, em 1721. Isso coloca a visita de Desaguliers a Edimburgo em agosto de 1721, em um contexto completamente diferente. Mas isso é uma outra história.

Considerações Finais

Foi-nos sugerido que deveríamos encerrar esta investigação instando a Grande Loja a adiar suas celebrações do tricentenário até 2021. Mas isso não é nossa intenção. Preferimos que o referido aniversário seja o evento que desencadeie uma maior pesquisa sobre a história inicial da Grande Loja. Com sua narrativa da Apple Tree e da Goose and Gridiron, Anderson criou um mito excepcionalmente duradouro, que muitas outras organizações fraternas adotaram. Por exemplo, de acordo com membros do Druid Circle of the Universal Bond[117], John Toland fez um proclamação em Primrose Hill para chamar todos os druidas para se encontrarem na taverna Apple Tree de Covent Garden. Assim, de acordo com a tradição, em setembro de 1717 foi fundada esta ordem druídica – da qual o mencionado William Stukeley foi governante – no mesmo local onde a Grande Loja foi supostamente fundada[118]. Esses mitos fundadores são muito importantes para todas as organizações fraternas, e Anderson sabia disso. Como ele mesmo disse no prefácio de suas Royal Genealogies, é importante que “cada nação tenha sua própria fábula”.

Autores: Andrew Prescot e Susan Mitchell Sommers
Traduzido por: Luiz Marcelo Viegas

Fonte: REHMLAC

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Notas

[95] – Stow y Strype, Survey, vol. II, 84.

[96] – London Evening Post, 20-22 de julio de 1732.

[97] – Weekly Journal or British Gazeteer, 22 de febrero de 1729.

[98] – “Brewer Street and Great Pulteney Street Area”, en Survey of London: Volumes 31 and 32, St James Westminster, Part 2, ed. Sheppard (Londres: London County Council, 1963), 116-137; una mujer anciana fue encontrada muerta en el ático de una casa nueva, construida en Knave’s Acre, en 1722: Daily Journal, 10 de enero de 1722.

[99] – Book of Constitutions, (1738) 185.

[100] – Old Bailey Proceedings: Accounts of Criminal Trials, 10 de octubre de 1733, Harvard University Library, ref: t17331010-4.

[101] – Según su testameto, fechado el 15 de abril de 1735.

[102] – Old Bailey Proceedings Online, 7 de septiembre de 1722, ref. f17331010-1.

[103] – A. Calvert, “Antony Sayer”, AQC 14 (1901): 183.

[104] – Sesiones de la corte de justicia, 17 de enero de 1736; Registro de entierros, St. Margaret, Westminster, 12 de agosto de 1737.

[105] – King’s Arms Register. Fleet Market, 10 de junio de 1739, Londres, Inglaterra, Registro de matrimonios y bautismos clandestinos, 1667-1754. Estos matrimonios, considerados irregulares bajo la ley de matrimonios de 1753, se realizaban dentro o en las inmediaciones de la prisión The Fleet, de la que nos hemos ocupado anteriormente. (N. Del T.)

[106] – London Evening Post, 16-19 de enero de 1742.

[107] – QCA 10, 105.

[108] – QCA 10, 251.

[109] – Daily Post, 18 de mayo de 1723.

[110] – QCA 10, 54-55.

[111] – QCA 10, 115.

[112] – QCA 10, 134.

[113] – QCA 10, 208-209.

[114] – QCA 10, 59.

[115] – QCA 10, 131, 137-138.

[116] – QCA 10, 106.

[117] – Un breve, pero interesante relato que intenta hermanar los orígenes del Druid Circle con los de la Gran Logia, se encuentra en Society X, “1717: Druidry and the founding of modern Freemasonry” (12 de febrero de 2013 [25 de septiembre de 2017]): disponible en https://5ocietyx.wordpress.com/tag/druidcircle-of-the-universal-bond/ (N. del T.).

[118] – Ronald Hutton, Blood and Mistletoe: The History of the Druids in Britain (New Haven y Londres: Yale University Press, 2009), 125-129.

Em busca da Apple Tree: uma revisão dos primeiros anos da maçonaria inglesa (Parte III)

John Montagu, 2.º Duque de Montagu

Um acontecimento que constituiu uma tragédia para o estudo da história da Maçonaria foi a “noite da indignação”, que aconteceu na Loja Antiguidade em novembro de 1778, quando os simpatizantes de William Preston, em sua disputa com o Grande Loja, roubaram arquivos e móveis[80]. Na época deste incidente, a loja tinha em sua posse as atas completas entre 1721 e 1778, bem como três volumes com os arquivos dos tesoureiros e dos secretários. Os dois volumes, que continham as atas de 1721 a 1733 foram perdidos e outros volumes tiveram suas páginas rasgadas. A perda desses registros é desastrosa. No entanto, foi preservado um rascunho, marcado com “E”, contendo alguns das primeiras atas. Felizmente, este volume ainda está em sua encadernação original, e tem anexado a ele o cartão de Charles Stokes, “Livreiro em Red-Lyon, perto de Bride-Lane, na Fleet Street”. O cartão está datado de 1716, provavelmente a data em que foi gravado. Stokes era conhecido por comercializar o “famoso tabaco oftálmico, que é fumado suavemente e é agradável de cheirar”, que foi amplamente divulgado a partir de 1720, e a as folhas de tabaco são vistas no cartão[81]. Stokes, “uma pessoa engenhosa que colecionava medalhas, pinturas e outras curiosidades”, faleceu em 10 de junho de 1741[82]. A participação de Stokes na Loja Antiguidade está registrada no Volume “E” e, em 1719, ele foi tutor de geometria, álgebra e assuntos relacionados junto com Jonathan Sisson[83].

Graças à sobrevivência do livro e do cartão de Stokes, sabemos que o livro “E” em arquivo no Loja Antiguidade é anterior às ações de Preston e seus seguidores e que, provavelmente, foi encadernado em princípios década de 1720. Boa parte do livro não foi usada até anos depois de seu aquisição, uma vez que também contém atas de 1759 a 1767 entre as páginas 9v e 85, além da contabilidade da loja da página 148v ao final do volume. Ele também contém várias notas de, por exemplo, a entrega de uma placa para imprimir ingressos, em julho de 1751, ou na página 7v o reembolso das verbas pagas durante uma cerimônia trimestral em abril de 1756. Na página 124v há uma lista negócios inacabados de grandes oficiais, o que é muito interessante porque omite a inclusão de Anderson como o Primeiro Vigilante em 1723. No entanto, esta lista é muito tardia, pois está escrita pela mesma pessoa que escreveu a ata entre 11 de junho e 26 de agosto de 1766. O volume não escapou ileso da “noite da indignação”, uma vez que entre as páginas 125 a 133 existem alguns trechos, escritos em caligrafia do final do século XVIII, que supõe-se sejam do livro de atas de 1721 a 1733 que está perdido. Como o observa Wonnacott[84], eles foram escritos por uma mão que não pode ser anterior a 1765 e muitos traços têm uma semelhança marcante com as notas de rodapé do obras de William Preston, sugerindo que se trata de registros que foram elaborados e corrigidos sob sua direção.

Mas, no início do livro “E”, existem dois documentos que podem ser datados sem dúvida a partir do início dos anos 1720. Após a reprodução de um retrato do Duque de Montagu por John Faber, há uma ata na página 2 que descreve a nomeação do duque em junho de 1721; então, das páginas 4-5, há uma lista de membros da loja, datada de 18 de setembro de 1721. O início desta lista é redigida pela mesma pessoa que redigiu a ata da reunião de Montagu. Adições subsequentes à lista, que deixam um registro de alguns figuras ilustres da loja, como o primeiro conde de Waldegrave e Sir Charles Hotham, representante de de Beverly no Parlamento[85], são primeiro da mão original e depois de uma variedade de mãos que parecem ser, como no caso do artista Benjamin Cole, assinaturas dos próprios membros. As últimas entradas na lista referem-se às iniciações de 15 de março de 1725, o que significa que a lista não pode ser posterior a 1726. A maioria dos membros nomeados na primeira seção aparecem na lista de membros da Loja na taverna Goose and Gridiron. Outros nomes na lista de 1725 aparecem como membros da Loja na taverna Queen’s Arms, que é para onde se mudou a Loja da Goose and Gridiron[86]. Isso nos leva a pensar que a relação entre as duas lojas é mais complexa do que se acreditava anteriormente, provavelmente devido ao papel do Duque de Wharton como Grão-Mestre da Loja Queen’s Arms. No entanto, a lista da loja mostra os membros no início da década de 1720, e foi copiado no livro “E” nessa época. O nome do mestre William Esquire parece, à primeira vista, um erro de redação, porém, possivelmente, se trata de um William Esquire que batizou sua filha Ann em St. Botolph Aldgate em 1710[87]. Nesse caso, ele é o primeiro mestre da Loja da Antiguidade.

Visto que a lista de membros da Loja Antiguidade contida no livro “E” data do início dos anos 1720, pode-se presumir que o relato da nomeação do duque de Montagu, escrito pela mesma pessoa, foi elaborado não muito depois de 1721 e portanto, pode ser considerada uma fonte contemporânea. Esta ata amplia consideravelmente a lista de nobres e senhores ilustres que compareceram ao evento. Concorda com a menção de Stukeley sobre a presença de Lord Herbert e Sir Andrew Fountaine, bem como Lord Hinchingbrooke[88], que mais tarde visitaria Stukeley na Loja Fountain. Também nos diz que Lord Hillsborough, um amigo próximo do Duque de Wharton[89], esteve presente. A ata não diz explicitamente que Lord Stanhope esteve presente, mas a entrada “P. Stanhope” pode se referir a ele. O William Stanhope, que aparece, é possivelmente o irmão mais novo de Lord Stanhope. No texto um bom número de baronetes e cavaleiros também são mencionados, como Sir William Leman, terceiro Baronete, Sir George Oxenden, quinto Baronete, parlamentar do Partido whig por Sandwich[90]; Sir Robert Rich, quarto baronete, que na época era parlamentar por Dunwich e apoiador de Walpole[91], Sackville Tufton, mais tarde sétimo Conde de Thanet e Coronel John Cope, parlamentar por Queenborough e também apoiador de Walpole[92]. A ata também menciona Christopher Wren Jr., que mais tarde se tornaria mestre da loja Antiguidade, bem como membros das lojas Goose and Gridiron e Queen’s Arms, incluindo Richard Boult, Charles Hedges e William Western, membro da Royal Society.

O documento da Loja Antiguidade mostra-nos que, entre os presentes na iniciação de Montagu estavam representantes da mais alta classe da sociedade. O mais surpreendente é a notícia de que o duque de Wharton também compareceu. Isso não era inerentemente improvável, mas, uma reportagem na imprensa, publicada em 5 de agosto de 1721, afirmava que Wharton começou na Maçonaria na Loja na taverna Queen’s Arms apenas no final de julho do mesmo ano[93]. Isso nos leva a questionar a sequência exata dos eventos sobre a iniciação de Wharton, embora não desacredite o relato da Loja Antiguidade[94]. A reunião é descrita como “uma assembleia geral de um grande número de maçons”, a ata declara que o duque de Montagu foi eleito Grão-Mestre, e jurou sobre a bíblia, “observar e manter inviolável no futuro, todas as franquias e liberdades dos maçons da Inglaterra e todos arquivos da antiguidade sob a custódia da antiga loja de São Paulo em Londres”.

Embora esse ata fosse claramente destinada a reforçar as reivindicações da loja, estas estavam baseadas na posse dos arquivos das Old Charges. Neste contexto, quando Payne apresentou um documento muitos mais velho realmente complicou a coisa toda. Isso adicionou importância à segunda parte do juramento de Montagu: “Firmemente observar e nunca permitir qualquer interferência nos Landmarks das antigas lojas da Inglaterra, o que da mesma forma será feito por seus sucessores, que estarão obrigados por juramento a fazer o mesmo”.

Em reciprocidade, as antigas lojas concordaram em renunciar aos seus privilégios em favor deste novo órgão, que era a Grande Loja:

Neste dia, os maçons de Londres, em seu próprio nome e em nome do restante de seus irmãos da Inglaterra, concedem seus reservados e distintos direitos e poderes de reunir-se em capítulos, etc., presentes nas antigas lojas de Londres, em favor do que hoje foi publicamente reconhecido e notificado aos irmãos reunidos na Grande Loja.
Os senhores das antigas lojas aceitaram e confiaram em nome de suas lojas e tudo foi juramentado de forma pertinente

Assim, a descrição contemporânea mais completa e detalhada mostra-nos que a nomeação do Duque de Montagu e o ato de transferência dos privilégios das antigas lojas de Londres para o Grão-Mestre e a nova Grande Loja foi realizada, não na Loja da taverna Goose and Gridiron em 1717, mas na reunião no Stationers ‘Hall em 1721.

Este relato é convincente não apenas porque é mais contemporâneo do que o de Anderson, mas também porque está de acordo com o histórico de Stukeley e as evidências encontradas nos jornais. Aparentemente, foi George Payne, com a ajuda de Desaguliers e talvez do próprio Stukeley, que concebeu um esquema para levar a Maçonaria a um novo nível social e cultural nos meses anteriores, além conseguir levar para suas fileiras personagens ilustres como o duque de Montagu e talvez também o duque de Wharton. Payne foi, sem dúvida, quem orquestrou toda a operação, preparou o regulamento da nova organização e talvez tenha sido nomeado Grão-Mestre durante esse processo. Mas o significado das atas da Loja Antiguidade é muito claro: a Grande Loja não foi fundada na taverna Goose and Gridiron em 24 de junho de 1717, mas sim quatro anos depois, quando as lojas de Londres fizeram a transferência formal de seus privilégios para o nova organização, em 24 de junho de 1721 no Stationers ‘Hall. Portanto, a contagem de Anderson do que aconteceu entre 1717 e 1721 deveria ser desconsiderada.

Continua…

Autores: Andrew Prescot e Susan Mitchell Sommers
Traduzido por: Luiz Marcelo Viegas

Fonte: REHMLAC

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Notas

[80] – W. H. Rylands y C. Firebrace, Records of the Lodge Original, No. 1, now the Lodge of Antiquity, No. 2 (Londres: Harrison, 1911-26), vol. I, 1-14; Colin Dyer, William Preston and his Work (Shepperton: Lewis Masonic, 1987), 67

[81] -Por ejemplo, en el Applebee’s Weekly Journal del 6 de agosto de 1720. Véase Francis Doherty, A Study in Eighteenth-Century Advertising Methods: The Anodyne Necklace (Lampeter: Edwin Mellen Press, 1992), 349-50.

[82] – London Daily Post and General Advertiser, 11 de junio de 1741

[83] – Evening Post, 9-11 de julio de 1719. Jonathan Sisson fue un fabricante de instrumentos para astronomía, navegación e ingeniería, inventó el teodolito moderno (N. Del T.).

[84] – W. Wonnacott, ‘The Lodge at the Goose and Gridiron’, AQC 25 (1912), 168.

[85] – Sobre Waldegrave, véase Berman, Foundations, 148-150; sobre Hotham, véase E. Cruickshanks e I. McGrath, “Hotham, Sir Charles, 4th Bt”, en The History of Parliament: the House of Commons 1690-1715, eds. Eveline Cruickshanks, Stuart Handley y D. W. Hayton (Londres: History of Parliament Trust, 2002 [citado el 2 de agosto de 2016]): disponible en http://www.historyofparliamentonline.org/volume/1690- 1715/member/hotham-sir-charles-1663-1723

[86] –La logia en Queen’s Arms fue famosa posteriormente por el patronazgo del Dr. Johnson, de Boswell y de Garrick. En la década de 1720 también se le conocía como King’s Arms, pero por cuestiones de consistencia aquí usaremos el nombre más usual y conocido de Queen’s Arms.

[87] – “England Births and Christenings, 1538-1975”. Genealogical Society of Utah, Salt Lake City, FHL microfilm 370933.

[88] – Sobre Hinchingbroke, véase E. Cruickshanks y S. Handley, “Montagu, Edward Richard, Visct. Hinchingbrooke”, en The History of Parliament [citado el 5 de mayo de 2017]: disponible en http://www.historyofparliamentonline.org/volume/1690-1715/member/montagu-edward-richard-1692-1722; Berman, Foundations, 135.

[89] – Berman, Foundations, 143.

[90] – R. Sedgwick, “Oxenden, Sir George, 5th Bt”, en The History of Parliament [citado el 5 de mayo de 2017]: disponible en http://www.historyofparliamentonline.org/volume/1715-1754/member/oxenden-sirgeorge-1694-1775

[91] – S. Matthews, “Rich, Sir Robert, 4th Bt”, en The History of Parliament [citado el 5 de mayo de 2017]: disponible en http://www.historyofparliamentonline.org/volume/1715-1754/member/rich-sir-robert-1685-1768; Sommers, “Dunwich: the Acquisition and Maintenance of a Borough”, en Proceedings of the Suffolk Institute of Archaeology and History 38 (1995): 317-318; Berman, Foundations, 127-128.

[92] – A. Newman, “Cope, John”, en The History of Parliament [citado el 5 de mayo de 2017]: disponible en
http://www.historyofparliamentonline.org/volume/1715-1754/member/cope-john-1690-1760

[93] – Robbins, “Earliest Years”, 68.

[94] – Wonnacott, “Goose and Gridiron”, 171. Es probable que no haya habido rituales durante la cena del 24 de junio de 1721, por lo que tal vez ni Wharton ni nadie más haya sido iniciado en esa fecha

Em busca da Apple Tree: uma revisão dos primeiros anos da maçonaria inglesa (Parte I)

Freemasons For Dummies: Freemasonry: It's About Food

A tradição que diz que em 24 de junho de 1717 quatro lojas maçônicas em Londres se reuniram na taverna Goose and Gridiron, perto da Catedral de St Paul, em Londres, estabeleceram a primeira Grande Loja e elegeram Anthony Sayer como seu primeiro Grão-Mestre é totalmente dependente de uma narrativa de James Anderson na segunda edição do Livro das Constituições em 1773. A narrativa de Anderson contém muitas contradições e inconsistências. Ao revisitar fontes como o relato de William Stukeley de sua iniciação em 1721 e um relato da eleição do Duque de Montagu como Grão-Mestre nos registros da Loja da Antiguidade, argumenta-se que a Grande Loja não foi criada em 1717, mas sim no jantar no Stationers’ Hall em Londres em 24 de junho de 1721, quando o Duque de Montagu foi eleito Grão-Mestre.

Introdução

Uma das vantagens de comemorar aniversários é que eles nos permitem reconsiderar e revisar os eventos comemorados. Assim, o 800º aniversário da Carta Magna em 2015 deu origem a novas descobertas sobre a origem do que foi adicionado ao documento original de 1215 e dos escribas que intervieram na sua elaboração; enquanto em 2016 o 400º aniversário de Shakespeare trouxe consigo o identificação de uma nova primeira edição e, graças à análise multiespectral, o rascunho do testamento do bardo de Avon foi datado. Esperamos que as celebrações do tricentenário da Grande Loja também deem um novo impulso às investigações do que Alfred Robbins chamou, em seu clássico artigo de 1909, de “os primeiros anos da maçonaria inglesa organizada”[1].

A pesquisa inovadora de Robbins sobre as primeiras referências à Grande Loja nos jornais da época nos mostra o quanto pode ser alcançado pela análise sistemática de fontes primárias. Infelizmente, poucos investigadores seguiram os passos de Robbins. O consenso geral ainda se baseia no que Albert Calvert expressou em seu livro publicado no bicentenário da Grande Loja, onde questionou se há evidências cada vez mais contundentes e autênticas sobre os primeiros anos desta organização maçônica do que aquelas fornecidas por James Anderson na edição de 1738 das Constituições[2]. Do nosso ponto de vista, pode-se fazer uma análise mais crítica das fontes que ainda existem sobre a história da Maçonaria na Inglaterra em 1723. Além disso, propomos que, após o estudo dessas fontes, se obtenha uma imagem totalmente diferente da fundação da Grande Loja do que a que Anderson escreveu. Esperamos que as celebrações do tricentenário, e o presente trabalho em particular, sirvam para reativar a investigação das fontes primárias nos primeiros anos da Grande Loja.

Mas vamos começar revisando o texto fundamental. A história da formação da Grande Loja em Londres foi contada pela primeira vez na edição de 1738 das Constituições de Anderson, ou seja, mais de 20 anos após os eventos que ela pretende registrar. Anderson relata a ascensão de George I ao trono inglês em 1714, bem como a rebelião liderada por Charles Stuart, o famoso Velho Pretendente. O autor das Constituições nos conta que, em 1716, uma vez que a rebelião foi sufocada, as poucas lojas que existiam em Londres se sentiram abandonadas pelo grande mestre Christopher Wren e decidiram “se encontrar e se estabelecer sob um Grão-Mestre, que seria o centro de união e harmonia” [3]. Anderson então lista as quatro lojas que se reuniram[4]. Primeiro, Goose and Gridiron Lodge[5], na área conhecida como St.Paul’s Churchyard. A sucessora desta loja é a Antiguidade nº 2. Em segundo lugar, a Crown Brewery Lodge, localizada em Parker’s Lane, perto de Drury Lane. Esta loja foi extinta por falta de membros logo após 1736. Terceiro, a Apple Tree Tavern Lodge, localizada na Charles Street na área de Covent Garden. A história desta loja é complicada, mas pode-se dizer que é a antecessora da loja Fortitude e da Antiga Cumberland nº 12. E, finalmente, a loja da taverna Rummer and Grapes em Channel Row, na área de Westminster. A sucessora dessa loja é a Royal Somerset House e Inverness nº 4.

Anderson relata que essas quatro lojas se reuniram na Apple Tree Tavern na Charles Street. Nessa reunião, “alguns irmãos mais velhos” também se encontraram, os quais, aparentemente, não eram membros de nenhuma das quatro lojas. A reunião foi presidida pelo mais velho dos Mestres Maçons. Anderson afirma que a assembleia “foi constituída como uma grande loja provisória na devida forma.” Como bem explicou Begemann há algum tempo[6], essa afirmação é puro jargão jurídico usado por Anderson para demonstrar a continuidade com os Grão-Mestres anteriores. No entanto, o resultado dessa reunião descrita por Anderson foi muito claro. As lojas reviveram as comunicações trimestrais da Grande Loja, concordaram em realizar uma reunião e banquete anuais e decidiram eleger um Grão-Mestre. De acordo com Anderson, em 24 de junho de 1717, um banquete de Maçons Livres e Aceitos foi realizado na Cervejaria Goose and Gridiron e que, antes do jantar, o mestre que havia presidido a reunião na Apple Tree Tavern propôs candidatos para o posto de Grão-Mestre. Uma votação foi realizada e Anthony Sayer foi eleito.

O relato de Anderson tem conotações topográficas muito importantes. Duas das pousadas estavam localizadas em Covent Garden, uma área que, com suas praças e mercados lotados, era a epítome do que o historiador Vic Gatrell descreveu como a “energia infinita e desordem rítmica” da vida urbana do século XVIII[7]. Este historiador sul-africano mostra-nos como a área de Covent Garden, com sua interessante mistura social de comerciantes, livreiros, artistas, atores, prostitutas e batedores de carteira, pode ser considerada o primeiro bairro artístico e boêmio. Uma das quatro lojas que Anderson lista se reunia na Tavern Crown em Parker’s Lane, uma rua estreita “mesquinha”[8] e perto das famosas “Hundreds of Drury”, uma das partes mais decadentes de Covent Garden[9]. É provavelmente a mesma Tavern Crown mencionada em um caso de 1722 aberto no Old Bailey, o tribunal criminal de Londres entre 1674 e 1913, no qual uma empregada do taberneiro foi acusado de roubar um capuz de seu patrono. Em sua defesa, a criada argumentou que qualquer pessoa poderia ter roubado a vestimenta, visto que a Tavern Crown era um local sem ordem, e afirmou que “o pior de que ela poderia ser culpada era ajudar seu patrão a conseguir prostitutas para os cavalheiros. “[10].

Charles Street, onde as negociações para formar uma Grande Loja deveriam ter ocorrido 300 anos atrás, ficava no coração de Covent Garden[11]. Em 1844, essa rua mudou de nome e hoje faz parte da Wellington Street, que é a continuação da Bow Street e a conecta com The Strandy e Waterloo Bridge. Para quem conhece Covent Garden, é a parte da Wellington Street ao norte da Tavistock Street, onde fica a entrada do antigo Flower Market e do London Film Museum. Charles Street foi um reflexo da importância de Covent Garden como um bairro de artistas. Os pintores Thomas Gibson e Isaac Collivoe Sr. viveram lá, e as pinturas de Collivoe foram vendidas após sua morte, em 1726, em uma casa de leilões e sala de concertos, na própria Charles Street, que era chamada de “The Vendu”[12]. O artista Claude du Bosc tinha uma loja nesta rua, na qual vendeu uma tradução de Ceremonies and Religious Customs of the Various Nations of the Known World, uma obra-chave escrita por Bernard Picart e Jean Frédéric Bernard, que continha uma ilustração de uma loja maçônica[13]. O dramaturgo e poeta laureado Collley Cibber e o ator Barton Booth também moravam lá. Mas Charles Street também foi um reflexo da extraordinária mistura social de Covent Garden. Abrigava a entrada secreta de Hummums, um banho turco famoso por ser um centro de prostituição, e o bordel administrado pela “Mãe” Hayward, que, após sua morte em 1743, recebeu um valor de 10.000 libras[14]. Em uma esquina da Charles Street, a viúva Hillmann oferecia o seu remédio “Prevenção venérea”, que garantia que “infalivelmente conquiste e destrua todas as partículas do veneno venéreo”[15].

A vida urbana agitada, enérgica, às vezes aterrorizante e muitas vezes imoral que se desenrolou na Inglaterra durante o século XVIII poderia ser desfrutada plenamente na Charles Street, o pano de fundo para o encontro que Robert F. Gould descreveria como “o momento mais importante da história da Maçonaria ”[16]. Mas esse encontro aconteceu na Charles Street? A Apple Tree Tavern existia? As respostas a essas perguntas são menos certas do que se poderia supor pela repetição do argumento de Anderson por mais de 300 anos. O relato da fundação da Grande Loja em 1716-1717 não foi divulgado publicamente em nenhum lugar antes da edição de 1738 das Constituições. Na edição de 1723 desta obra, não são mencionados de forma alguma os acontecimentos de 1717. Ao referir-se ao reinado de George I, as Constituições de 1723 apenas mencionam a colocação da primeira pedra de St. Martin-in-the-Fields, em setembro de 1722, e afirma-se que os maçons livres e aceitos floresceram sob a direção de seu Grão-Mestre, o duque de Montagu. A única referência feita a qualquer Grão-Mestre antes de Montagu é uma breve menção a George Payne, que ocupou o cargo durante os regulamentos de 1720[18]. De Anthony Sayer se diz que era um Vigilante da Loja nº 3, segundo a lista de lojas da versão de 1723 das Constituições, mas em nenhum momento se menciona que foi um Grão-Mestre[19].

Não é apenas a história da fundação da Grande Loja que está ausente das Constituições de 1723. Não há menção dos numerosos livros e artigos publicados sobre o assunto da Maçonaria entre 1723 e 1738, como William’s Pocket Companion for Free-Masons, de William Smith ou Maçonaria Dissecada de Samuel Pritchard. A primeira referência à Grande Loja foi feita no Post Boy de 24 a 27 de junho de 1721, onde uma nota foi publicada sobre o banquete em que o Duque de Montagu foi nomeado Grão-Mestre[20]. O documento mais antigo que sobreviveu, emitido pela Grande Loja, é um convite para o grande banquete de 1722, contendo uma gravura de John Sturt, o mesmo gravador que ilustrou a Cyclopedia de Ephraim Chambers[21]. O primeiro livro de atas da Grande Loja começa em 24 de junho de 1723. A história da Apple Tree, da Goose and Gridiron e das outras lojas é baseada inteiramente no relato de Anderson em suas Constituições de 1738. A hipótese é, como John Hamill explicou recentemente que “quando Anderson escreveu suas histórias, muitos dos que compareceram ou que conheciam aqueles que estavam presentes na taverna Goose and Gridiron em junho de 1717 ainda estavam vivos” e que eles o teriam retificado se necessário[22]. No entanto, essa suposição é um tanto arriscada.

Em fevereiro de 1735, Anderson apresentou duas queixas à Grande Loja: uma porque a primeira edição das Constituições estava esgotada e outra porque William Smith plagiou material de seu livro para compor o Free Mason’s Pocket Companion. Segundo Anderson, as Constituições eram “sua propriedade exclusiva”. Mas na verdade não eram. O formato e o texto lidos na página de título da obra deixam claro que os editores e detentores dos direitos autorais foram John Senex e John Hooke[24]. Anderson, que na época estava trabalhando com Hooke na tradução de Conversations in the Realms of the House of the Dead de David Fassmann, recebeu seu pagamento de Hooke e Senex na forma de “pagamento por página” (“copy money”) e não para todo o volume das Constituições[25]. Assim, não importa o quanto Anderson tenha reivindicado à Grande Loja, a edição de 1723 não era sua propriedade.

Duas figuras-chave na edição de 1738 das Constituições foram os editores Richard Chandler e Caesar Ward. Chandler fora aprendiz de Hooke e, após a morte de Hooke em 1730, adquiriu sua empresa e muitos dos direitos autorais que ela possuía[26]. Em 1734, Chandler fez parceria com seu cunhado, Caesar Ward, e eles procuraram expandir seus negócios para York[27]. As negociações de ambas as editoras para a compra do York Courant, em janeiro de 1739, foram provavelmente o motivo pelo qual a publicação da nova edição das Constituições foi atrasada, já que Anderson relatou que a obra estava pronta para impressão em janeiro de 1738, mas foi anunciada para venda já em janeiro de 1739. Por causa de sua amizade com Francis Drake, Ward esperava que as Constituições vendessem bem entre os maçons de Yorkshire. A importância de Chandler e Ward na produção das Constituições de 1738 é evidente no posterior destino da obra. Após o suicídio de Chandler em 1744 e a falência de Warden em 1746, as cópias restantes das Constituições de 1738 foram vendidas a um editor chamado Robinson, que aparentemente não era maçom. Robinson republicou o livro com sua própria página de título e sem referência à Grande Loja[28].

Como em 1723, era muito provável que Chandler e Ward pagassem a Anderson por página por seu trabalho nas Constituições de 1738. Os problemas financeiros de Anderson e o fato de ele ser um devedor sujeito às “regras de The Fleet”[29], eram um forte incentivo para sua produção literária. Ele e seus editores esperavam maximizar as vendas produzindo um volume mais completo e confiável do que seus concorrentes. Os anúncios da obra destacaram que “este novo livro tem quase o dobro de páginas do anterior, com muitas informações novas, especialmente sobre as transações da Grande Loja desde então”[30].

O trabalho de Anderson passou pelo escrutínio e correção de um grupo de grandes oficiais da Loja, mas não sabemos quem eles eram ou se eles tiveram algo a ver com os eventos de 1716-1717. George Payne e Jean-Théophile Desaguliers, duas figuras de suma importância nos primeiros anos da Grande Loja, ainda estavam em serviço como Grandes Oficiais por volta de 1738-1739. Mas muitos dos outros Grandes Oficiais haviam ingressado na Maçonaria muito depois de sua fundação. O fato de a Grande Loja ter ficado um tanto confusa com o que foi publicado na edição de 1723 das Constituições nos diz que a memória coletiva de seus primeiros anos não era muito boa.

Anderson começou a se envolver com a Grande Loja em 1721 e, portanto, não tinha conhecimento direto dos eventos anteriores. Mas, como bom historiador, assumiu a tarefa de coletar testemunhos orais e escritos, os quais tentou vincular. No final da edição de 1738 de seu livro, Anderson lista os irmãos que o apoiaram durante a sua preparação deste[31]. Em sua outra grande obra, Royal Genealogies, ele fornece uma lista semelhante. A lista de 1738 não era uma lista de membros, mas sim uma forma de divulgar suas conexões sociais e demonstrar sua autoridade no assunto. Assim, nesta lista encontramos os nomes do duque de Richmond, do conde de Inchiquin e do conde de Loudon. Outros listados, como os artistas John Pine e Louis-Phillippe Boitard ou o impressor Thomas Aris, são mencionados por sua intervenção na produção do volume. Alguns outros foram adicionados à lista à medida que contribuíam com informações sobre eventos específicos, como William Goston e o cientista Erasmus King, um amigo de Desaguliers, que atuou como Vigilantes durante a iniciação do Príncipe de Gales em 1737[32].

Muitos dos homens que Anderson menciona, como Martin Clare, William Graeme e Edward Hody, entraram na Maçonaria no final da década de 1720 e início da década de 1730[33]. É altamente improvável que Thomas Desaguliers, filho de Jean-Théophile, que tinha apenas 17 anos de idade e que começou a frequentar as lojas em 1738, tenha sido útil nas investigações de Anderson[34]. Dos maçons que Anderson menciona, que foram iniciados na Maçonaria no início da década de 1720, apenas um afirmou ter estado presente nos eventos de 1716-1717. Este é Jacob Lamball, um carpinteiro que foi nomeado o Primeiro Vigilante da Goose and Gridiron em 1717. Parece que Lamball foi a principal fonte de informações de Anderson para os eventos daquele ano. É surpreendente que Anderson não tenha mencionado Anthony Sayer em sua lista de agradecimentos, apesar de ainda estar vivo em 1738. Isso se explica pelo descrédito em que Sayer caiu devido às denúncias que foram movidas contra ele, em 1730, por iniciar maçons irregularmente, apesar de ter recebido ajuda financeira da Grande Loja. Se Anderson consultou Sayer, ele não estava disposto a ir a público.

Existem muitos elementos que desacreditam Lamball como testemunha dos eventos de 1716-1717. Apesar de ter sido nomeado Vigilante em 1717, não há evidências de sua atividade maçônica até março de 1735, quando serviu como o Primeiro Vigilante para substituir Sir Edward Mansell[35]. Isso aconteceu na primeira comunicação trimestral imediatamente após aquela em que Anderson propôs um novo esboço das Constituições. Suspeito, parece que o próprio Anderson foi o responsável pelo reaparecimento de Lamball na Grande Loja. Não se sabe como Lamball foi nomeado superintendente em 1735, pois há alguns problemas com sua história. Em 1717, Lamball era apenas um aprendiz de carpinteiro, pois começou seu contrato com John Manwell em março de 1714[36]. Lamball não se tornou um carpinteiro independente registrado na Carpenters ‘Company até 6 de junho de 1721[37]. Como aprendiz, o tempo de lazer e o descanso de Lamball eram estritamente controlados por seu mestre[38], por isso parece difícil que ele tenha sido capaz de se dedicar à organização da Grande Loja. Mas existem outras anomalias com Lamball. Quando se casou em 1725[39], declarou ter mais de 30 anos, o que significa que tinha cerca de 19 anos quando começou como aprendiz, idade superior à habitual de 14 anos. Em 1731, entretanto, Lamball era mais próspero e havia estabelecido sua própria carpintaria na Hyde Street, Bloomsbury, e estava alugando uma nova casa em Camberwell[40]. Ele continuou a frequentar a Loja até 1745. Em 1756, Lamball solicitou ajuda de caridade à Grande Loja devido à sua idade avançada e doença (ele tinha aparentemente 61 anos). Ele recebeu dez guinéus[41]. Ele morreu três anos depois e foi enterrado na Igreja de St George em Bloomsbury[42].

Anderson também se baseou em fontes escritas. O Grande Secretário John Revis deu-lhe acesso aos livros de atas da Grande Loja. No final do primeiro livro, há uma lista dos oficiais da Grande Loja, começando com Sayer como Grão-Mestre e continuando com Lamball e Joseph Elliot como Vigilantes. Essa lista foi alterada por Anderson, pois, após o nome do vigilante William Hawkins, nomeado em 1723, ele acrescentou: “quem enunciou e, em seguida, James Anderson AM foi eleito em seu lugar”[44]. Anderson também acrescentou as iniciais “A.M.F.R.S.” após o nome de Martin Clare, registrado em 1734. Independentemente de nossa opinião sobre as alterações feitas por Anderson no livro, isso confirma que a lista foi compilada independentemente de sua pesquisa e que ele a usou como fonte. Como o resto das atas, a lista de oficiais da Grande Loja foi escrita com a caligrafia de William Reid, que foi nomeado Grande Secretário em dezembro de 1727[45]. A fonte e a cor da tinta sugerem que Reid inseriu a lista no livro de atas depois de 1731, possivelmente em 1734. Assim, temos que esta lista, apesar de ser independente do trabalho de Anderson, também foi compilada muito depois da fundação da Grande Loja e provavelmente refletia o clima dentro dela na década de 1730.

Anderson fez o possível para reunir as histórias de pessoas como Lamball e os fragmentos de informações escritas, como os livros de atas mencionados anteriormente. Infelizmente, Anderson sucumbiu à tentação de atualizar e polir suas fontes. Ele acrescentou informações sobre Joseph Elliot, um dos Vigilantes da época de Sayer, afirmando que ele era um capitão. No entanto, não há informações a esse respeito nos arquivos militares. Anderson também acrescentou que John Cordwell, nomeado Vigilante da Grande Loja em 1718, era um “carpinteiro da prefeitura”. Cordwell era na verdade um membro do The City Carpenters Guild em 1738, quando se envolveu em uma batalha legal com o prefeito e o conselho devido a discrepâncias nos preços da madeira no contrato para a nova Mansion House[47], mas ele obteve esta posição em 1722 e não antes[48]. Da mesma forma, Richard Ware é mencionado na lista de oficiais como Vigilante da Grande Loja em 1720, e Anderson nos informa que ele era um matemático. Não há registros das contribuições de Ware para a matemática, mas sabe-se que foi um livreiro de sucesso e que muitas das obras que publicou tratavam da perspectiva e da arquitetura[49].

Continua…

Autores: Andrew Prescot e Susan Mitchell Sommers
Traduzido por: Luiz Marcelo Viegas

Fonte: REHMLAC

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Notas

[1] – Alfred Robbins, “The Earliest Years of English Organized Freemasonry”, Ars Quatuor Cororonati –a partir de ahora AQC–22 (1909):67-89.

[2] – Albert F. Calvert, The Grand Lodge of England 1717-1917 (Londres: Herbert Jenkins, 1917), 1.

[3] – James Anderson, The New Book of Constitutions of the Antient and Honourable Fraternity of Free and Accepted Masons (Londres: Caesar Ward and Richard Chandler, 1738), 109-110.A pesar de que existen ediciones en español de esta obra, se ha optado por hacer traducciones propias de los fragmentos citados por los autores del presente trabajo, con el fin de respetar la fuente original consultada por ellos (N. del T.).

[4] – Robert Freke Gould, The Four Old Lodges, Founders of Modern Freemasonry, and their Descendants (Londres: Spencer’s Masonic Depot, 1879). Un resumen conciso de lo descubierto por Gould se encuentra en “Fortitude and Old Cumberland Lodge No. 12”,CollectedEssays and Papers relating to Freemasonry(Belfast y Londres: William Tait, Spencer & Co., 1913), 183-187.

[5] – Se respetarán los nombres en inglés de las logias, tabernas, cervecerías, calles y lugares de referencia para facilitar su ubicación en otras fuentes y medios(N. del T.).

[6] – Wilhelm Begemann, Early History and Beginnings of Freemasonry in England, trad.LionelVibert, manuscrito resguardado en la Library and Museum of Freemasonryde Londres, 575. Este manuscrito es una traducción de los dos volúmenes de Begemann, Vorgeschichte und Anfänge der Freimaurerei in England(Berlín: E. S. Mittler, 1909) que estaba siendo preparada para su publicación por la logia Quatuor Coronati, pero que nunca vio la luz debido a la negativa de publicar el trabajo de un investigador alemán durante la primera guerra mundial.

[7] – Vic Gatrell, The First Bohemians: Life and Art in London’s Golden Age (Londres: Allen Lane, 2013),4.

[8] – JohnStow y JohnStrype, ASurvey of the Cities of London and Westminster(Londres: A. Churchill, J. Knapton, 1720), vol. II, 76.

[9] – Gatrell, FirstBohemians, 29-44.

[10] – Old Bailey Proceedings Online, 7 de septiembre de 1722versión 7.2, ref.f17220907-1.

[11] -Sobre Charles Street, véase “’Bow Street and Russell Street Area: The former Charles Street”, enSurvey of London: Volume 36, Covent Garden, ed. F.H.W.Sheppard (Londres: London County Council, 1970), 195-196.

[12] -Daily Journal,19 de enero de 1727.

[13] -Timothy Clayton, “Du Bosc, Claude (b.1682,d.in or after1746)”,en Oxford Dictionary of National Biography(Oxford:Oxford University Press, 2004), no. índ. 101008118; Lynn Hunt, Margaret Jacob y Winjand Mijnhardt, The Book that Changed Europe: Picart and Bernard’sReligious Ceremonies of the World(Cambridge, MA: Harvard University Press, 2010).

[14] -Fergus Linnane, Madams: Bawds and Brothel Keepers of London(Stroud: Sutton Publishing, 2005), 37, 95.

[15] -London Journal, 7 de octubre de 1721.

[16] – Gould, Four Old Lodges, 45.

[17] – The Constitutions of Free Masons (Londres: William Hunter for John Senex and John Hooke, 1723), 44-48.

[18] – The Constitutions of Free Masons,58.

[19] – The Constitutions of Free Masons,74.

[20] – Robbins, “Earliest Years”, 68. El reporte publicado en el Post Boy se reimprimió en el Weekly Journal or British Gazetteer, el 1 de julio de 1721, en el Weekly Journal orSaturday’s Post, también del 1 de julio de 1721, y en el Ipswich Journal, del 24 de junio de 1721.

[21] – Oxford, Bodleian Library, MS. Rawlinson C. 136, f. 5. Dado que este grabado ha sobrevivido hasta nuestros días, parece extraño que Anderson mencione, en la edición de 1738, que se comisionó un nuevo grabado para los boletos del banquete anual de 1723. Book of Constitutions, 115.

[22] – John Hamill, “When History is Written”, Freemasonry Today,7 de junio de 2016.

[23] – Quatuor Coronatorum Antigrapha –a partir de ahora QCA–10 (1913):244-245.

[24] – Si la logia o Anderson hubieran sido los titulares de los derechos de autor de las Constitucionesde 1723, entonces la página de título habría dicho algo como “Impreso para el autor (o la Gran Logia) y vendido por John Senex y John Hooke”, como se ve, por ejemplo, en la obra de 1725 de William GarbottNew-River, la cual dice “impreso para el autor y vendido por J. Hooke en The Flower-de-Luce de St Dunstan”. Véase M. A. Shaaber, “The Meaning of the Imprint in Early Printed Books”, The Library25 (1944), 120-141. James Ravenindica que, a principios del siglo XVIII, “los derechos de reproducción de una obra generalmente eran comprados por el librero-editor o por un consorcio de libreros. La mayoría de los autores renunciaba a cualquier reclamo sobre la titularidad; los derechos se dividían en participaciones entre distintos grupos de libreros”. Véase James Raven, “The Book Trades”’,en Books and their Readers in Eighteenth Century England: New Essays, ed. IsabelRivers (Leicester: Leicester University Press, 2011), 15. Acerca de los “pagos por página”, véase Richard Sher, The Enlightenment and the Book: Scottish Authors and their Publishers in Eighteenth-Century Britain, Ireland and America(Chicago y Londres: University of Chicago Press, 2006), 215-216. Tobias Smollett recibiótres guineas por cada página de Complete History of England.

[25] -La traducción de la obra de Fassmann tiene una referencia a la elección de un gran maestro por parte de los masones. Véase Prescott, “The Publishers of the 1723 Book of Constitutions”, AQC 121(2008):160, donde se indica que dicha traducción se publicó en 1719. La fecha correcta de la publicación es 1723, lo cual se deriva de los anuncios aparecidos en la prensa (en algunos casos, el libro de Fassmann se publicitaba junto con las Constituciones). Véase British Journal, 16 de febrero de 1723; London Journal, 9 de marzo de 1723. El crédito de Anderson como traductor y autor de la referencia a la masonería se hizopúblico en la reimpresión de 1739 del libro de Fassmann, posterior a la muerte de Anderson, en la página de título. News from Elysium or Dialogues of the Dead(Londres: J. Cecil and F. Noble, 1739). Sobre Fassmann, véase C. Sammons, “David Fassmann’s Gespräche in dem Reiche der Toten”, Yale University Library Gazette 46 (1972):176-178; yJ. Rutledge, The Dialogue of the Dead in Eighteenth-Century Germany(Fráncfort y Berna: Herbert Lang, 1974).

[26] – Prescott, “Publishers of 1723 Book of Constitutions”, 161-162.

[27] – Sobre Ward, véase further C. Y. Ferdinand, “Ward, Caesar (bap. 1710, d.1759)”, en Oxford Dictionary, no. índ. 101064292;y W. G. Day, “Caesar Ward’s Business Correspondence”, Proceedings of the Leeds Philosophical and Literary Society, Literary and Historical Section19 (1982):1-8. El catálogo A catalogue of books printed for Caesar Ward and Richard Chandler, at the Ship between the Temple-Gates in Fleet-Street, and sold at their Shop at Scarborough, 1734, se encuentra en la British Library: RB 23.a.5967.

[28] – QCA12 (1960), 80-81. John Entick, en su prefacio a The Pocket Companion and History of Free-Masons(Londres: J. Scott, 1754), nos dice que la supervisión de Anderson de la producción de las Constitucionesde 1738, fue muy descuidada: “por el motivo que haya sido, ya sea por fuerza de su salud o por confiar en el manejo de extraños, esta obra se publicó en muy malas condiciones. Las regulaciones, que habían sido revisadas y corregidas por el gran maestro Payne, estaban interpoladas en ocasiones y, en otras, el sentido quedo totalmente obscuro y vago”.

[29] – The Fleetera una prisión londinense que albergaba, mayormente, a deudores. Muchos de los prisioneros en realidad no residían dentro de los muros del edificio, sino que vivían en los alrededores, pero tenían que sujetarse a las “reglas de The Fleet” (N. del T.).

[30] – Por ejemplo, véase London Daily Post and General Advertiser, 22 de enero de 1739; Country Journal and the Craftsman, 25 de enero de 1739; London Evening Post, 27-30 de enero de 1739.

[31] – Book of Constitutions(1738), 229.

[32] – Sobre Erasmus King, véase J. H. Appleby, “Erasmus King: Eighteenth-Century Experimental Philosopher”, Annals of Science47 (1990):375-392. No queda claro si se trata del mismo William Goston que tuvo problemas legales con John Ward respecto a un proyecto de minería en sus tierras. RicBerman, The Foundations of Modern Freemasonry: The Grand Architects Political Change and the Scientific Enlightenment(Brighton: Sussex Academic Press, 2012), 167.

[33] – A Graeme se le menciona por primera vez en las minutas de la Gran Logia cuando fue nombrado oficial en 1734: QCA10, 241; Lo mismo sucede en el caso de Hody: QCA10, 254; sobre Martin Clare, véase Prescott, “Clare, Martin”,en Charles Porset y Cécile Revauger, Le monde maçonnique des Lumières: Europe-Amériques & Colonies, Dictionnaire prosopographique(París: Editions Champions, 2013), vol.1, 808-818.

[34] – Audrey T. Carpenter, John Theophilus Desaguliers: A Natural Philosopher, Engineer and Freemason in Newtonian England(Londres y Nueva York: Continuum, 2011), 241.

[35] – QCA10, 247.

[36] – “Jacob Lamball Son of Nicholas Lamball late of Sellborne in ye.Co [..] of Hants Yeom bound to John Manuel Citizen & Carpenter”, Carpenters’ Company, Minute Book of Courts and Committees, marzo 1713/1714, ref. GLCCMC251120116.

[37] – Archivo de la Carpenters’ Company,ref. GLCCMC251040025.

[38] – JoanLane, Apprenticeship in England 1600-1914(Londres: UCL Press, 1996), 95-116.

[39] – Lamball, declarado como miembro de la parroquia de St.Giles in the Fields, mayor de 30 años y soltero, se casó con Sarah Brown, mayor de 21 años,de la parroquia de St.Paul, Covent Garden, con licencia, el 23 de junio de 1725 en la iglesia de St.Benet’s, Paul’s Wharf, en Londres. Genealogical Society of Utah, Salt Lake City, FHL microfilms 547508, 574439, 845242.

[40] – Daily Advertiser, 5 de marzo de1731.

[41] – QCA12, 96-97.

[42] – London Metropolitan Archives, P82/GEO1/056: St George, Bloomsbury, registro de entierros, febrero de 1731 a marzo de 1761.

[43] – Agradecemos a Diane Clements y a Susan Snell por permitirnos consultar el libro original en la Library and Museum of Freemasonry.

[44] – QCA 10, xxiii-xxiv, 196. Songhurst sugiere que Anderson también borró la frase “quien substituyó a Mr.Hawkins” en la minuta en la que aparece como primer vigilante, del 24 de junio de 1723. Esto supone que Anderson nunca fue electo vigilante, pero que actuó como tal a partir del 28 de agosto de 1730.

[45] – QCA 10, XXV.

[46] – “City Carpenter” se refiere a aquellos miembros del gremio de carpinteros que obtenían puestos públicos en “the City”, el centro administrativo y financiero que, incluso en la actualidad, es independiente de Londres(N. del T.).

[47] – Gentleman’s Magazine9 (1739):214, 361-362; S. Perks, The History of the Mansion House (Cambridge: University Press, 1922), 178-87; Sally Jeffery,The Mansion House (Chichester: Phillimore, 1993), 78.

[48] – Evening Post, 16 de diciembre de 1721; Post Boy, 2 de enero de 1722. Un tal “señor Cordwell” aparece como miembro de la logia que se reunía en la taberna Queen’s Arms en 1725: QCA10, 32. No queda claro si esta referencia es acerca del Cordwell de esta historia o de su padre, que también fue carpintero pero que murió en 1728.

[49] – Richard Ware padre, fallecido en 1756, de acuerdo con The London Book Trades of the Later 18th Century, (Exeter: Exeter Working Papers in Book History) 10;A catalogue of books, printed for, and sold by Richard Ware, at the Bible and Sun on Ludgate-Hill, removed from Amen-Corner(Londres: ¿1755?).

Afinal, somos pedreiros ou cavaleiros andantes?

Dom Quixote - Resumo, Autor e Análise - Arena Marcas e Patentes

Sr. e Ir.,

Estou envergonhado que sua gentil carta tenha ficado tanto tempo sem resposta, mas espero que você me desculpe quando eu lhe asseguro que não foi devido a negligência ou desrespeito, mas a falta de oportunidade para me satisfazer em alguns pontos, relacionados com a variedade de Maçonaria, que você menciona sob o nome de Maçonaria Escocesa.

Eu estava determinado a consultar nossos Irmãos na Escócia, particularmente nosso Irmão, Lord Aberdour, que é filho e herdeiro do Conde de Morton, e um excelente maçom; como tal, ele ocupou a presidência na Escócia, e sua senhoria agora foi eleito Grão-Mestre na Inglaterra, com a renúncia do Marquês de Carnarvan.

Lord Aberdour e todos os maçons escoceses (ou melhor, cavalheiros escoceses que são maçons) com os quais conversei, e fiz questão de consultar muitos, não conhecem nada sobre as formas e títulos que você menciona, e que você chama justamente a fraude de Maçonaria. Entre alguns dos nossos irmãos de mais baixo extrato, eu encontrei, e muitas vezes ouvi falar de irregularidades; como eu as chamo justamente, porque se desviam tanto de nossas cerimônias usuais, e são tão cheias de inovações, que no processo do Tempo, os antigos Landmarks serão destruídos pelo fértil gênio de Irmãos que melhorarão ou alterarão, se apenas para dar espécie às suas habilidades, e consequência imaginária; de modo que, em poucos anos, será tão difícil entender a Maçonaria, quanto distinguir os pontos ou acentos da língua hebraica ou grega, agora quase obscurecidos pela indústria de críticos e comentaristas.

Três cavalheiros estrangeiros e maçons visitaram recentemente a loja à qual pertenço, e foram apresentados por mim à Grande Loja e à Grande Festa; ao discorrer com esses cavalheiros, eu descubro que em alguns lugares da Alemanha, Holanda e Suíça, existem Ordens de Maçons desconhecidas para nós, a saber, Cavaleiros da Espada, da Águia, da Terra Santa com uma longa série de et caeteras; certamente esses pontos de Maçonaria devem ser maravilhosos; estou certo de que são muito novos; além disso, estas dignas e distintas ordens, eu descubro, têm sinais, toques, etc., peculiares às suas respectivas Dignidades, e enfeitam-se com diferentes fitas coloridas.

Eu ficarei feliz com sua assistência e a ajuda dos Irmãos na Holanda, para resolver estes intrincados e confusos pontos, e gostaria de saber (especialmente dos Irmãos que se distinguem pela denominação de Maçons Escoceses) de onde receberam sua constituição, o Grão-Mestre da Escócia, que eu presumo que eles reconheçam o chefe de sua sociedade, não conhecendo inteiramente a Ordem deles: A Lord Aberdour e vários outros nobres escoceses e cavalheiros que são bons maçons, comuniquei sua carta, e também a informação que recebi desses Irmãos estrangeiros, um dos quais era um oficial no serviço holandês; mas, considerando as mais rigorosas pesquisas que pude fazer, só posso dizer que eles exercitaram sua genialidade com esforços para tornar a Maçonaria ininteligível e inútil.

Essas inovações são de anos muito antigos, e acredito que os Irmãos encontrarão dificuldade para produzir um Maçom familiarizado com tais formas há vinte ou até mesmo dez anos atrás. Meu próprio pai tem sido um maçom nestes últimos cinquenta anos e esteve em Lojas na Holanda, na França e na Inglaterra. Ele não conhece nenhuma dessas cerimônias: Elas são estranhas para o Grão-Mestre Payn, que sucedeu ao Sr. Christopher Wren, bem como também para um velho Irmão de noventa anos, com quem conversei ultimamente; este Irmão me assegura que ele foi iniciado maçom na sua juventude e frequentemente frequentou Lojas até se tornar incapaz por sua idade avançada, e ele nunca ouviu ou conheceu quaisquer outras cerimônias ou palavras, diferentes das que usamos em geral entre nós; tais formas foram entregues a ele, e aquelas ele reteve. Quanto aos Cavaleiros da Espada, Águia, etc., o conhecimento deles nunca alcançou seus ouvidos, até que eu o informasse. As únicas ordens que conhecemos são três, Mestres, Companheiros e Aprendizes, e nenhuma delas chegou à honra de cavalaria pela Maçonaria; e eu acredito que você mal pode imaginar que, em tempos antigos, a dignidade da Cavalaria florescesse entre os Maçons; cujas lojas até agora consistiram de maçons operativos e não maçons especulativos. Cavaleiros da Águia, Cavaleiros da Espada, eu li em romances, o próprio grande Dom Quixote foi feito Cavaleiro do Capacete de Bronze, quando ele venceu o barbeiro. Cavaleiros da Terra Santa, São João de Jerusalém, Templários, etc., existiram, e acredito que agora existem os Cavaleiros de Malta, mas o que é isso para a Maçonaria? Nunca ouvi dizer que essas Ordens ou Honras foram obtidas por habilidade em Maçonaria, ou que elas pertenceram à Fraternidade dos Maçons, embora eu não duvide que pertençam agora, e existem muitos maçons membros dignos de suas Ordens & Honras, mas imagino que eles não pensam que obtiveram tais títulos apenas na Maçonaria.

Benevolência universal, amor fraternal, amizade e Verdade, agir pelo esquadro e viver dentro do compasso, são ou deveriam ser, os princípios da Maçonaria, a Regra & Guia de nossas ações. Sejamos bons maçons, podemos olhar com desprezo para outras Honras ou Títulos, está em todo o tempo em nosso poder ser bons maçons, e eu acho que devemos nos contentar e não procurar os campos aéreos de romance para títulos adicionais. Usar nosso maior esforço, caro Irmão, para evitar que uma sociedade realmente valiosa degenere e se perca em obscuridade, visando títulos, aos quais a própria natureza de nossa sociedade não pode nos dar um direito.

A única distinção de Fitas ou Joias, que fazemos em nossas Lojas, você encontrará em nosso Livro de Constituições, a saber, Grandes Oficiais usam suas joias douradas, pendentes em fitas azuis, e seus aventais revestidos de azul; aqueles Irmãos que serviram no cargo de Mordomo em nossa Grande Festa (dentre os quais devem ser eleitos todos Grandes Oficiais, exceto o Grão-Mestre) usam suas Joias de Prata sobre fitas vermelhas, e revestem seus aventais com vermelho; todos os outros irmãos usam aventais brancos e seus pingentes de joias em fitas brancas, e não devem usar outras joias além do esquadro o nível e o prumo, o Compasso pertencendo apenas ao Grão-Mestre.

Se o Mestre da Loja está ausente, o Mestre Instalado (Past-Master), ou o Primeiro Vigilante da Loja, o substituem, assim como os Regulamentos privados dessa Loja determinem.

Nossos brindes em loja são, primeiro ao Rei e à Maçonaria, com 3 vezes 3. O segundo ao Grão-Mestre, com 3 vezes 3, ao G.M.A. e GG. VV. com 3; seguir bebemos ao Ex-G.M., Irmãos estrangeiros de Distinção por Nome, tais como o Imperador, Rei da Prússia, etc., depois disso, o Brinde Geral da Maçonaria.

O Marquês de Carnarvon renunciou à Presidência em favor de Lord Aberdour, que agora é o G.M., e nosso digno Ir. Revis, G. M. A., mas tenho permissão para assinar esta Carta como G.M.A., e se você nos favorecer com uma Linha, siga o mesmo método usado antes pelo secretário do Sr. Hopp, que transmitirá suas ordens a mim, e cuidarei para que elas sejam devidamente cumpridas.

O antigo e o presente G.M. desejam seus Respeitos a nossos Irmãos por favor, aceite também os Respeitos do Dr. Sr. e Ir.

Seu mais afetuoso Ir. e obediente humilde servo

T. Manningham, G.M.A.

Jermyn Street, 12 de Julho de 1757.

Carta do Grão-Mestre Adjunto da Grande Loja de Londres, Dr. Manningham ao Irmão Sauer em Haia, respondendo a uma consulta sobre a Maçonaria Escocesa, que era uma novidade no Continente.

Tradução: José Filardo

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Philo Musicae et Architecturae Apolloni Society (1725-1727) – Uma sociedade de músicos maçons

Philo Musicae et Architecturae Apolloni Society – Uma sociedade de músicos  maçons | O Prumo de Hiram

Introdução

A Sociedade Philo Musicae et Architecturae Apolloni tem sido objeto de inúmeras pesquisas e textos, e especialmente como artigo incluído na enciclopédia de Albert G. Mackey. Ela é mencionada na obra de Goblet d’Alviella Des origines du grade de maitre dans la franc-maçonnerie (As origens do grau de mestre da franco-maçonaria).

A Ars Quatuor Coronatorum publicou uma série de trabalhos relativos a esta sociedade, entre os anos de 1970 e 1995.

No que diz respeito as investigações efetuadas acerca dos três primeiros graus da Maçonaria “moderna”, a referência é do livro Hiram et ses frères : Essai sur les origines du grade de Maître (Hiram e seus irmãos: Ensaio sobre as origens do grau de Mestre) de Roger Dachez.

A sociedade

O primeiro catecismo Maçônico conhecido, foi introduzido pelo Grão-Mestre Sir Christopher Wren em torno de 1685. O termo usado, em seguida, foi “exame” e ao contrário dos que se seguiram, foi muito conciso. Sabe-se que os maçons da época basearam seus modos de reconhecimento em sinais e toques, mas ainda deixando algumas perguntas e respostas, conforme abaixo:

“Pergunta: Qual o vosso nome?

Resposta: Aprendiz Ingressado – Lewis ou Precaução.

Resposta: Companheiro de Ofício – Geometria ou Esquadro.

Resposta – Mestre Maçom – Ac∴ ou G….”

Esta distinção nas respostas não indica de maneira confiável que a organização do Ofício se baseava em três graus claramente diferenciados por formas rituais distintos. No entanto, se trata de três respostas diferentes onde os elementos ainda estão presentes no dia de hoje.

Quanto à distinção real entre o Mestre Maçom e o Venerável Mestre (Mestre da Loja), não temos, até hoje, elementos precisos para afirmar que a ritualística e a diferenciação, existiam antes da primeira metade do século XVIII.

Acerca do estudo dos rituais que se acredita ter sido praticado pelos maçons no início do século XVIII, necessariamente temos que citar uma característica particular da época cuja prática não sobreviveu, eram as sociedades paramaçônicas e especialmente musicais, onde as atividades e a administração dependiam de uma loja.

A Philo musicae et Architecturae Apolloni Society foi uma dessas sociedades.

A cópia de Minute Book (Livro de Atas) desta sociedade foi doada ao Museu Britânico por John Henderson em 1859. O documento indica que a sociedade foi fundada em 18 de fevereiro de 1725 em um estabelecimento chamado Queen´s Head perto do Temple Barr em Londres, por uma loja que tinha o mesmo nome.

O grupo fundador foi liderado por Francesco Geminiani Xaviero (1687-1762). Ele ainda era um “aprendiz admitido” no momento da criação da “Sociedade” e era muito conhecido no meio musical.

Giminiani foi para Londres em 1714, ele foi um compositor virtuoso e professor de violino. Ele era um antigo discípulo dos músicos Corelli e Alessandro Scarlatti. Também era colecionador e comerciante de pinturas e quadros.

Apesar de Geminiani ser ainda um aprendiz, é provável que um de seus conhecidos, um membro fundador da Grande Loja de Londres, John Clerk, Barão de Penicuik, também músico e ex-aluno de Corelli, muito conhecido em seu tempo por suas composições de inspiração escocesa, também estivesse envolvido na criação desta sociedade. Acredita-se que pelo fato dos dois terem sido ex-alunos da Accademicia Arcadia de Corelli, foi o barão que indicou o seu amigo para a Maçonaria.

Em 1903, a Loja de Pesquisas Ars Quatuor Coronati, como parte de seus estudos sobre os antigos textos fundadores e as estruturas maçônicas do século XVIII, introduziu o Minute Book desta associação em suas crônicas, Ars Quatuor Coronatorum (Vol. XVI): artigo escrito por R.F. Gould com o título de Philo Musicae et Architecturae Societas Apollini.

A cópia dos trabalhos da Philo musicae nos apresenta uma informação especialmente importante para a história da Maçonaria e do estudo dos antigos rituais: nada menos do que a primeira menção explícita dos três graus conhecidos até hoje, com a elevação de um ao outro.

O arquivo da Grande Loja de Londres indica que a loja Queens Head é a origem da fundação desta sociedade musical, e estava registrada como se reunindo em Hollis Street perto de Oxford Square. Isso é um pouco surpreendente, já que os dois locais são muito distantes uns dos outros e poderia significar que aquela não era a mesma loja ou que houve uma separação formal entre a sociedade e a loja.

No entanto, o “livro de atas” nos informa que a Sociedade estava hospedada na loja e sua reunião anual era na quinta-feira seguinte ao dia de São João Batista.

O registro fornece outras informações importantes, que é a adoção do Padroeiro dos maçons “modernos” desde a fundação da Grande Loja em 1717.

Com relação a esta distância, a questão que surge é a de como eram as reuniões da loja e como tratavam os grupos afiliados na maçonaria especulativa inglesa. A indicação de lugares separados para organizar reuniões confirma, as dúvidas sobre a origem “operacional” da Maçonaria de Londres. Muitos sugerem que as reuniões das lojas no início da Maçonaria especulativa não era como hoje, pois não tinha um local fixo.

Sabe-se que na primeira metade do século XVIII, as lojas estavam começando a se estabilizar, seguindo um costume que começou no século anterior, que era o de se reunir regularmente de acordo com um calendário aprovado. Isso é o que tende a confirmar as crônicas da sociedade Philo musicae em relação as reuniões de sua loja de referência.

A indicação de loja em uma taverna que servia aos dois grupos sugere uma complementaridade entre a loja fundadora e sua associação, como se a última fosse um espelho da primeira, mais discreta, e por outro lado, a inauguração da associação no Temple Barr tinha sido por razões práticas, independentemente da regularidade das reuniões.

Se pode pensar também, e isso pode ser um motivo para outros tópicos de pesquisa, que a sociedade foi fundada para dar apoio ao cargo responsável pela harmonia, durante as reuniões da loja maçônica.

Este ponto merece ser notado, na medida que nos faz pensar que poderia haver uma forte complementaridade entre as estruturas, mas também ir mais longe, podendo ter criado outras associações paramaçônicas com objetivos diferentes.

Não esqueçamos que a maçonaria livre e aceita se apresentava como um “facilitador” de intercâmbios e pesquisas. Se a música pôde servir como um vetor para essas trocas, o que ocorria com as outras artes liberais?

Sobre este ponto, sabe-se que a Druid Order (Ordem dos Druidas) fundada nesse mesmo ano de 1717 e que se tornou mais tarde The Ancien and Archeological Order of Druids, não aceitava membros que não fossem maçons. Tal regra não desapareceu dos seus estatutos até 1874, sessenta anos após o Ato de União de 1813.

O fato de que todos os membros fundadores da Sociedade pertenciam a loja Queen´s Head nos permite formular uma série de questões, tanto sobre a identidade das duas estruturas, como sobre o registro da loja “no oriente” de Hollis Street.

Pelo menos até 1726 não temos disponíveis elementos concretos no que diz respeito às obrigações das lojas sobre locais de reuniões, sejam eles, templos ou tabernas. Pelo contrário, sabe-se apenas que a partir desse ano que a Grande Loja de Londres começou a se dispersar nos subúrbios da capital. Costuma-se pensar que este desenvolvimento foi a extensão natural dos frequentadores e o aumento no número de membros.

Para o presente caso, é muito difícil saber se a Sociedade e a Loja foram duas entidades separadas, pois, a Philo musicae Society é sempre apresentada como uma simples associação de amantes da música e não apenas de músicos, mas todos eram maçons.

É nesse ponto específico que se sugere, no início do texto, sobre os “pilares da harmonia”. Sabe-se que nos ritos anglo-saxões, desde o início do século XIX, existia oficialmente um cargo de organista herdado de práticas antigas.

No que diz respeito às lojas e suas relações com as associações que se desenvolveram, faltam documentos com regulamentos e práticas, mas acredita-se que eram distribuídos informativos indicando o local de encontro, o que não nos permite dizer, com certeza, se havia uma regra escrita ou implícita, aplicável às lojas, apesar de haver uma certa distância entre elas.

Por outro lado, sabe-se que as lojas muitas vezes levavam os nomes das tabernas em que se reuniam e que o cargo de “cobridor externo” (tyler) é uma herança de certa prática das lojas. A porta deveria ser protegida externamente para garantir a descrição dos trabalhos na época dos “construtores”. Aparece assim, a questão da identidade da loja Queen´s Head inscrita no quadro da Grande Loja de Londres.

O fato da ata indicar que a Sociedade foi fundada por membros da loja, significa que essa existia antes dela. Por certo, que poderia ser um exemplo de uma possível, chamada “Loja de Aceitação” do século XVII que ninguém sabe quem tomou a iniciativa de criar ou por que razão, conhecida apenas por algumas linhas enigmáticas do diário de Ashmole, citado como um testemunho da transição especulativa e que bem poderia ter sido nada mais do que uma espécie de clube formado por fora da Companhia de Maçons de Londres (London Mason’s Company), que foi realmente a única Guilda organizada que se conheceu na Inglaterra para o ofício dos maçons, e de onde a autoridade não escapou jamais do controle de Londres. A “Loja de Aceitação” ficou na história dos poucos vestígios documentais, em 1610 e depois em 1686 em relação com Elias Ashmole.

Não se conhece nenhuma outra estrutura comparável na Inglaterra daquela época e nem mais tarde, que se revele ou justifique, uma ligação entre a antiga London Mason’s Company e a maçonaria dos “modernos”. No entanto, Ashmole não indica em nenhum momento, que os homens de que estava falando eram construtores e não sabemos se existia algum documento atestando que as pessoas estranhas ao Ofício, tinham sido admitidos em lojas operativas inglesas.

Se fosse esse o caso, porque os membros da Queen´s Head não estiveram presentes na fundação da Grande Loja de Londres?

Esta hipótese não é, obviamente, muito confiável, e é citada aqui simplesmente para dizer que a antiga guilda ou Companhia não deixou vestígios convincentes que nos permitam pensar que as lojas passaram de uma para a outra.

Por isso, provavelmente, não aparecem como outra coisa que não uma espécie de sindicato dos trabalhadores da construção civil na capital britânica, demonstrando de modo confiável, os seus laços com os fundadores de 1717.

Nenhum membro, conforme o artigo 17 do Estatuto, poderia ser admitido na Sociedade Philo musicae se não fosse maçom. Essa condição para a adesão envolve algumas perguntas que revelam uma certa importância na história da Ordem:

  • Em primeiro lugar, se a Sociedade Philo Musicae iniciava ela mesma, membros não-maçons e concedia graus, o termo sociedade não seria um substituto do termo loja?
  • Seria um nome temporário para uma loja em formação? Se esse não for o caso, porque acreditar que as sociedades paramaçônicas podiam conceder graus que a loja mãe poderia ter feito?
  • Como consequência: a concessão de um terceiro grau por essas estruturas teria um valor mais administrativo?
  • Tal situação viria do fato de que o ritual utilizado na loja impedia as “comunicações” ou “pranchas”, como hoje, no caso do ritual emulação?

Sabendo que os “modernos” vieram principalmente da Royal Society e no mesmo ano, foram criadas pelo menos três sociedades notáveis, a Maçonaria, a Ordem dos Druidas e a Society of Antiquaries, constatando uma prática ritualizada, exclusivamente da maçonaria, oferecendo um ângulo de visão interessante sobre o que iria se tornar o conflito entre os “antigos” e os “modernos”.

Assim como a ciência desenvolveu diversas especialidades, as sociedades paralelas poderiam completar o objetivo maçônico. Por mais informal que possa parecer, o hábito de criar este tipo de “sociedades de músicos” parece ter seguido os passos de Maçons de Londres que se instalaram na França. Esta moda se espalhou por todo o continente muito tempo após a Philo musicae de Londres já ter sido dissolvida.

Sabe-se há muito tempo que o número de maçons entre os músicos foi particularmente elevado na França. Sabe-se também que o sucesso destas associações não é explicado apenas pela amizade e o patrocínio que poderia gerar.

O músico, maçom e escritor Gérard Gefen, no seu livro Les Musiciens et la franc-maçonnerie (Os músicos e a maçonaria) diz:

“Na estrutura excessivamente rígida da sociedade francesa, as lojas maçônicas foram o lugar onde as diferenças de nascimento e condição se cruzavam, pelo menos em teoria.

Tal impressão de igualdade era estimável para os membros das classes burguesas, mas não conseguia atrair os músicos. Ao contrário da Inglaterra, onde a profissão tinha apreciado por muito tempo uma honra incontestável (membros da Capilla Real* eram chamados de senhores), músicos franceses eram considerados primos próximos a idiotas:  comediantes …” 

*Capilla Real era um corpo de músicos que servia a Corte Real.

O que se pode constatar é que, também dominada pelos maçons, as associações francesas desempenharam, no século XVIII, um papel muito importante na vida musical e no desenvolvimento do teatro musical do final do século. Isso estava em evidência na época da Revolução, especialmente pelo fato de que o círculo fechado da maçonaria assegurava, de uma só vez, público constante e os meios de criação de novas obras.

No entanto, as fontes disponíveis hoje em dia indicam que durante os dois anos de existência, a Philo musicae Society era formada por dezoito maçons quando se dissolveu em 23 de março de 1727. Parece que a sociedade teve uma vida muito curta, considerando o modo como surgiu.

Há fortes indícios de que o fim abrupto foi devido aos protestos do Grão-Mestre James Hamilton, 7º Duque de Abercon, que desprezava fortemente, desde o ano anterior a sua dissolução, a prática de associações com lojas.

O Grão-Mestre insistia que apenas as lojas regulares tinham autoridade para iniciar e conferir graus aos maçons. Essa situação atraiu a atenção de seu sucessor, William O’Brian, Conde de Ichiquin, sobre o inconveniente de conferir as “sociedades” o direito de iniciar Maçons e decidiu proibir, na Inglaterra, a prática de formar associações paralelas ou clubes paralelos, tendo em conta que uma loja para ser considerada legítima deveria ter recebido a patente da Grande Loja de Londres.

Outro argumento é que a Maçonaria, na medida em que permitiria tal forma de desenvolvimento, não tinha nenhum controle sobre a regularidade das ações, nem sobre a estruturas destas associações.

Este pequeno grupo de músicos, que era visto como insignificante e ignorado pelos historiadores, em sua ata de 12 de maio de 1725, atraiu a atenção para o fato de que a loja-sociedade conferia dois graus acima do grau de “Aprendiz”, ou seja, o de Companheiro e o de Mestre, que apareciam como uma novidade ….

“Nossos bem-amados irmãos e diretores desta mui venerável sociedade cujos nomes aparecem abaixo:

Irmão Charles Cotton e Irmão Bola Papillon – Foram regularmente passados a Mestres.

Irmão F.X. Geminiani – Foi regularmente passado a Companheiro e a Mestre.

Irmão James Murray – Foi regularmente passado a Companheiro”

Este Philo musicae Society minute book (Livro de Atas) está preservado no Museu Britânico e pode ser o mais antigo registro escrito, conhecido atualmente, onde consta a existência de um terceiro grau.

Além disso, é um documento precioso sobre a organização da Maçonaria antes de 1730, que envolve transmissão de graus, comunicação e iniciação com as organizações particulares que poderiam ser desenvolvidas fora da loja.

Mesmo que essas sociedades musicais fossem restritas a maçons, nada indica que o trabalho de natureza não maçônica estava presente em suas reuniões. Isso parece ter sido mais uma razão para a proibição feita contra eles.

No entanto, esta prática nos traz à dúvida sobre a verdadeira natureza de tais sociedades …..

  • Será que havia sido transferido a eles parte da autoridade da loja que eles faziam parte?
  • Será possível que a definição de loja daquele tempo não era tão clara como conhecemos hoje?

… os elementos para estas respostas provavelmente serão encontrados no “nomadismo” que abordamos antes.

Em outras palavras, os maçons da Philo musicae faziam isso por força do hábito, por ignorância da maçonaria ou simplesmente pelo fato de que as estruturas criadas em 1717 por seus fundadores, não tinham nada mais do que as ferramentas cujas formas eles copiaram?

Se fosse por hábito, de onde veio o grau de Mestre e de onde se conhecia a existência e a transmissão da “palavra”? Se fosse por ignorância, porque esse nome (Mestre) em vez de outro título mais elogioso? Seria o título de mestre dado aos mestres da música?

Essa última pergunta que incentiva alguns historiadores da maçonaria a considerar que o grau de Mestre não tinha sido inventado naquele momento, mas somente para diferenciar os membros que participavam da Sociedade Musical dos demais maçons da loja.

Essa teoria é, obviamente, incompatível com a eleição dos Maçons “modernos”, como Anthony Sayers no exercício do cargo de primeiro Grão-Mestre da Grande Loja de Londres. A principal razão dada para esta escolha foi a qualidade de mais antigo Mestre Maçom, embora livreiro de profissão.

Portanto, se um livreiro poderia ser um Mestre sem ser Grão-Mestre, isso significava que o grau sempre existiu na maçonaria especulativa e, consequentemente, que alguma forma de grau de Mestre era praticado, como o argumento de “mestre mais antigo” leva-nos a pensar que era um mestre de longa data, e bem antes de 1717.

Se essas associações musicais foram concebidas com diferentes propósitos, como o de desenvolver certos modos de investigação ou vias filosóficas, então é possível pensar que este tipo de sociedade foi criada com o objetivo de sistematizar a construção dos “pilares da harmonia” usadas ​​nas lojas…. Limitando a música a uma estrutura externa que não significa, necessariamente, dar-lhes todas suas prerrogativas.

A música fazia parte da vida da Corte e torna-se lógico pensar que os Mestres não gostariam de deixar para os cortesãos os direitos que eram próprios deles. Pode-se entender que este “hábito”, poderia confirmar a existência de uma forma mais “inovadora” de Maçonaria moderna, que parece ter se tornado um problema para o Grão-Mestre.

De fato, as autoridades da Grande Loja de Londres parecem ter mostrado a princípio uma certa indulgência em relação à Philo musicae.

Os sete principais oficiais e fundadores da sociedade foram convocados para ir a Grande Loja em 1725, sem dúvida, a fim de regularizar essa situação.

Eles não se preocuparam a responder ao convite. Em dezembro de 1725, o Duque de Richmond, Grão-Mestre, envia uma carta à Philo Musicae exigindo explicações sobre a recepção de maçons irregulares que estava ocorrendo na sociedade.

As atas deste último testemunham que a solicitação foi tratada com desdém, mas com raiva. Certamente as limitações obedienciais eram mal recebidas naqueles primeiros anos da maçonaria organizada, as reações dos membros da Philo musicae só podiam ser explicadas pelo prestígio de seu desempenho nas noites musicais ….”

Este “hábito” potencial das sociedades “fraternas” nos apresenta uma pergunta: as associações criadas ou associadas com lojas, “faziam” maçons e os elevavam aos três graus, incluindo o ensino da lenda de Hiram?

Se fosse esse o caso, era uma lenda maçônica ou um mito extraído do folclore e introduzido na Maçonaria por estas práticas paramaçônicas?

Na verdade, ela não diz em nenhum lugar que os maçons recebidos em suas cerimônias tinham sido despojados de tal qualidade após o encerramento da Sociedade, o que dá a entender que havia uma regularidade da cerimônia.

Concluindo, o texto acima nos dá um vasto campo de dúvidas sobre a maçonaria do início do século XVIII, muito mais perguntas do que respostas, o que é muito bom para o investigador da verdade que assim continua suas pesquisas…

Autor: Luciano Rodrigues

Fonte: O Prumo de Hiram

Bibliografia

Jean Bossu – Renaissance Traditionnelle, Nº 35, Julho de 1978 – Philo Musicae et Architecturae Apolloni Society

Ars Quatuor Coronatorum – Nº 16, 1903 – Philo Musicæ et Architecturæ Societas Apolloni: A Review – R.F. Gould

GOBLET D’ALVIELLA – 1907 – Des origines du grade de maitre dans la franc-maçonnerie

Roger Dachez – Hiram et ses frères : Essai sur les origines du grade de Maître

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Origem e evolução dos Cargos em loja da Maçonaria e dignidades maçônicas na Grã-Bretanha do século XVII até nossos dias – Parte III

Avental Provincial De Chester - Colecionador - Maçonaria | Mercado Livre

III – As Grandes Lojas provinciais

Desde meados do século XIX, existem Grandes Lojas provinciais na Inglaterra. Estas Grandes Lojas são dirigidas pelos Grãos Mestres Provinciais (nomeados pelo Grão-Mestre) e os Oficiais provinciais que usam decorações comparáveis às dos Oficiais da Grande Loja Unida da Inglaterra, com a famosa “liga azul”, o azul da Ordem da Jarreteira. As Grandes Lojas Provinciais cobrem todo o país, com exceção da região de Londres administrada diretamente pela GL. Esta particularidade destaca a verdadeira função dessas Grandes Lojas. De fato, para entrar no cursus honorum da maçonaria inglesa deve-se necessariamente começar pelo escalão provincial. Como os irmãos de Londres não contavam com isso, foi criado para eles no início do século, o “London Rank” e depois o “London Grand Rank,” que são o equivalente exato de uma dignidade de Grande Oficial provincial na jurisdição de Londres. Todos os anos são criados cerca de sessenta “Active Grand Rank” e cerca de 200 “Past Grand Rank[10], que envergam, evidentemente, a “liga azul”. Assim, constata-se que os cargos provinciais (ou seus equivalentes) são usados essencialmente para outorgar honras maçônicas[11] a irmãos que, por definição, são todos Past Masters. As Grandes Lojas provinciais, portanto, têm um papel muito mais honorífico que administrativo[12].

História das dignidades de Grandes Lojas Provinciais

Nas Constituições de 1738, não encontramos nenhuma provisão relativa aos Grandes Oficiais Provinciais (e muito menos aos Grãos Mestres Provinciais), embora saibamos que eles já existiam. Mas, o fato de que havia Grãos Mestres Provinciais não significa em absoluto que havia Grandes Lojas Provinciais. A distinção pode ser sutil, mas não deixa de ser real. Os Grãos Mestres provinciais realmente apareceram antes das Grandes Lojas provinciais.

Muito cedo na história da maçonaria inglesa, nomeavam-se dignitários para representar o Grão-Mestre nas províncias. Estes representantes eram titulares de uma missão que lhes era confiada pessoalmente (eram os Grãos Mestres Adjuntos para as províncias), mas eles não estavam no comando de uma estrutura administrativa regional com que tivessem de se ocupar.

Isso de fato permite entender, de passagem, uma expressão ambígua e muitas vezes citada das Constituições de 1738, sobre países estrangeiros:

“todas as lojas estrangeiras [isto é, fora da Inglaterra] estão sob o patrocínio do nosso GM, mas a antiga loja da cidade de York e as lojas da Escócia, Irlanda e France[13] e Itália[14] assumindo que tenham sua independência [affecting independency] e seu próprio Grão-Mestre, e que tenham a mesma constituição, os mesmos deveres e as mesmas regras que nós e que elas tenham o mesmo zelo com o estilo da Augusta e o segredo de nossa antiga e honrosa fraternidade.”

Este texto nos ensina que, na época de Anderson, havia dois tipos de Grão-Mestre. De um lado, havia Grãos Mestres colocados no comando de Grandes Lojas “presumindo sua independência” em relação a Londres e, de outro lado, Grãos Mestres nas províncias inglesas sob o controle do Grão-Mestre da Inglaterra. Esses últimos eram Grãos Mestres intuitu personnae, como pessoa, e, portanto, não estavam à frente de Grandes Lojas provinciais em sentido estrito do termo. Assim, a expressão “affecting independency” não é uma contestação dessa independência por Londres, como alguns autores estimaram imprecisamente, mas a constatação de uma situação diferente da que prevalece na Inglaterra, onde os Grãos Mestres Provinciais dependem diretamente do Grão-Mestre.

A primeira referência oficial aos Grãos Mestres Provinciais na Inglaterra encontra-se nas atas da Grande Loja em 1747. Naquela época, na hierarquia das dignidades, eles ficavam depois[15] dos Primeiros Grandes Vigilantes e antes do Grande Tesoureiro.

Em 1756, no livro das Constituições chamadas “d’Entick” (1ª edição), definem-se regras específicas relativas aos Grãos Mestres. Lê-se:

“O cargo de Grão-Mestre Provincial foi considerado particularmente necessário desde o ano de 1726 [note-se que não se pretende que existissem então Grandes Lojas Provinciais], quando do aumento extraordinário do número de obreiros [ou seja, de homens do Oficio], e suas viagens às vezes a partes mais remotas do mundo, a necessidade de que eles tenham à sua disposição uma autoridade própria.”

Isto se dá devido ao afastamento dos irmãos da metrópole que foi criado o cargo de Grão-Mestre Provincial para lhes dar um chefe por delegação. O Artigo II dessas Constituições afirma que “a nomeação deste Grande Oficial é uma prerrogativa do Grão-Mestre que lhe outorga sua delegação”, e que “o Grão-Mestre Provincial assim delegado tem o poder e a honra de um Grão-Mestre Adjunto”.

Em 1756, a instituição dos Grãos Mestres Provinciais está bem integrada na maçonaria inglesa e seu lugar na hierarquia é elevado: o Grão-Mestre Provincial situa-se na terceira posição, logo atrás da Grão-Mestre Adjunto. Note que mesmo neste texto de 1756, não há menção alguma de Grandes Lojas provinciais nem de oficiais provinciais. Ser Grão-Mestre Provincial é especialmente possuir um título equivalente ao de um Grão-Mestre Adjunto.

Em 1767, na 4ª edição das Constituições d’Entick, o artigo II é modificado:

“O Grão-Mestre Provincial assim delegado fica investido do poder e a honra de um Grão-Mestre em seu distrito particular e tem o direito de usar as decorações de um Grande Oficial, estabelecer lojas em sua própria província e em qualquer reunião pública, de marchar logo atrás do Grande Tesoureiro. Ele também tem o poder de nomear um Adjunto, vigilantes, um tesoureiro, um secretário, um porta-espada, que estão qualificados para usar as decorações de Grandes Oficiais quando eles oficiarem como tal naquele distrito particular, mas em nenhum outro lugar”.

Nessa época, começa então a se constituir em torno do Grão-Mestre Provincial, uma equipe de Grandes Oficiais. É o início de estruturação.

Nas Constituições de Noorthouck de 1784, os Grandes Oficiais são finalmente claramente identificados como elementos essenciais para o funcionamento de uma Grande Loja Provincial.

Assim, no período anterior à União de 1813, pode-se distinguir duas fases:

  1. A fase de 1726 a 1767, durante o qual há Grãos Mestres Provinciais, sem que se faça alusão às Grandes Lojas provinciais nem a Grandes Oficiais provinciais;
  2. A fase de 1767-1813, onde os Grãos Mestres provinciais adquirem o poder de nomear Grandes Oficiais Provinciais. Isso pressupõe uma espécie de Grande Loja Provincial, embora o termo não apareça ainda nos textos. Neste momento, a Grande Loja Provincial não está claramente definida e não tem ainda realmente estrutura nem poder.

A partir da União de 1813, a nova Grande Loja Unida da Inglaterra se constitui. As Constituições William (de 1815-1827) precisam então que o Grão-Mestre Provincial “detém [isto é, preside] uma Grande Loja Provincial, pelo menos uma vez por ano”. Mas ainda não se define o que é esta famosa Grande Loja Provincial.

Nos anos que se seguiram, as Grandes Lojas provinciais adquirem sua forma definitiva. Elas devem reunir-se uma vez por ano, os Oficiais provinciais passados e ativos devem estar presentes ali, bem como os Veneráveis, os Past Masters e os Vigilantes de todas as lojas individuais.

Uma Grande Loja Provincial aparece como a reunião de Grandes Oficiais provinciais (com poderes imprecisos), as quais se juntam todos os Veneráveis e Vigilantes em seu distrito. Esta prática é muito antiga, como é observado em York, e em Chester desde a década de 1730. Naquela época, alguns Grãos Mestres Provinciais já detinham o equivalente a uma Grande Loja Provincial. Eram, na verdade, reuniões com periodicidade indeterminada ocorrendo dentro da loja mais antiga em operação na região. Nessa reunião, e durante os trabalhos, a loja e os seus oficiais tinham uma função provincial. Note-se que é assim que funcionava a Grande Loja dos “Antigos” durante os três primeiros anos de sua existência. De 1751 a 1753, o que ainda era chamado de “Grande Comissão” (antes de se tornar a Grande Loja dos “Antigos”, considerando que eles não se erigiam como uma “Grande Loja” até que ela tivesse encontrado um irmão nobre para a presidir como Grão-Mestre) reunia-se anualmente em uma loja designada por antiguidade e era presidida pelo Venerável desta loja, que agia como Grão-Mestre pro tempore[16].

A organização das províncias é o último ato na evolução das dignidades maçônicas inglesas. A existência desses escalões provinciais não impedia a Grande Loja Unida da Inglaterra de ser muito centralizado e muito hierarquizada. A história dessas Grandes Lojas provinciais mostra bem que se tratava sobretudo no início, de dar dignidades a certos irmãos. Isto é particularmente notório com o caso da região de Londres, onde foram criados a partir do zero um substituto para as dignidades provinciais. As Grandes Lojas provinciais são assim menos um escalão administrativo que um escalão de dignidades intermediário entre as dignidades de uma determinada loja e as da Grande Loja Unida da Inglaterra. Este elemento tardio é certamente devido ao grande desenvolvimento da maçonaria Inglesa no século XIX.

Conclusão

A formação do sistema de dignidades e de cargos da loja no sistema Inglês é algo complexo e ainda parcialmente obscuro. No entanto, podemos identificar dois fatos importantes.

  1. Embora os cargos e dignidades de uma loja inglesa dos anos 1720 fossem fortemente influenciados pela herança escocesa (no vocabulário e na estrutura), o fato é que inovações importantes foram introduzidas (por exemplo, a aparição de dois vigilantes, ou a do diácono);
  2. É provável que alguns cargos de lojas particulares (por exemplo, o Tuileur ou Cobridor Externo) já existiam na Grande Loja antes de serem introduzidos em loja. Este relacionamento da Grande Loja e das lojas individuais coloca a questão do status real da Grande Loja fundada em 1717. Era ela uma potência reguladora, ou era simplesmente a reunião de lojas, uma vez que é provável que tenha sido só mais tarde, por volta de 1721-1723, com a entrada da aristocracia na maçonaria inglesa que Grande Loja tornou-se um poder que se impunha às lojas individuais? Assim, os novos cargos, que parecem necessários nestas grandes reuniões, poderia então ser introduzidos naturalmente nas lojas.

Autores: Roger Dachez e Thierry Boudignon

Tradução: José Filardo

Fonte: Bibliot3ca Fernando Pessoa

Notas

[10] – Portanto, existem dois tipos de oficiais provinciais: os “Active Grand Officers” e os “Past Grand Officers”. Este último status tem, na verdade, como função recompensar alguns irmãos. Para obtê-lo, não é necessário ter exercido as funções correspondentes. Entretanto, quando se o obtém, desfruta-se dos mesmos benefícios (condecorações etc.) que aqueles que realmente exerceram…

[11] – E, em teoria, também instalar lojas. Mas, na maior parte das vezes, o GM provincial delega esse encargo ao GM Adjunto, que por sua vez delega aos GM Assistentes que, eles mesmos, o confia aos Veneráveis ​​Mestres da região.

[12] – A administração local real é conduzida pelas Lojas de Mestres instalados, uma verdadeira estrutura que são clubes regionais de Veneráveis.

[13] – Sabemos que os três primeiros GGMM da Maçonaria Francesa (o Duque de Wharton, Mac Leane, Lord Derwentwater) eram anglo-saxões. No entanto, não podemos considerá-los “representantes” do GM da Inglaterra pela simples razão de que eles haviam sido eleitos pelos irmãos franceses. Além disso, essas lojas eram provavelmente mais franco-escocesas que franco-inglesas. Esta é a oportunidade de esclarecer que a famosa “GL Inglesa da França”, cara para alguns “historiadores” nunca existiu. Trata-se simplesmente de uma falsificação do Cavaleiro de Beauchaine (ou Beauchesne).

[14] – A primeira excomunhão de maçons pelo papado veio, entre outras coisas, da presença de lojas na Itália.

[15] – Lembremo-nos que no protocolo maçônico de costume, são os mais altos na hierarquia que são os últimos.

[16] – A LNF funciona hoje dessa forma.

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Origem e evolução dos Cargos em loja da Maçonaria e dignidades maçônicas na Grã-Bretanha do século XVII até nossos dias – Parte II

EXPERTOS - ARLS:. Universitária Professor José de Souza Herdy

II – Evolução dos cargos em loja nos “Modernos” e nos “Antigos” até a união de 1813

Vimos que a estrutura da maçonaria inglesa da década de 1720 deriva globalmente das estruturas da maçonaria escocesa do século XVII. No entanto, não sabemos onde, quando, como e por quem essa transmissão foi feita[1]. Por outro lado, sabemos que houve, durante a transmissão, uma série de mudanças, das quais as mais significativas são o fato de que a Presidência da loja não é mais confiada a um “Warden” ou a um “Deacon”, mas a um “Master of lodge” (Mestre de loja), e que este presidente é ajudado não por um, mas por dois assessores, os “Wardens” (Vigilantes). Sabemos, também, que esta nova estrutura (isto é, um Venerável Mestre e dois Vigilantes) vai se impor. Aliás, na década de 1740, é a única conhecida, e é aquela da Grande Loja de Londres. É então que aparece um novo sistema, importado pelos irmãos vindos da Irlanda que tinham, provavelmente, costumes, práticas e tradições próprias. Em 1751 e depois em 1753, esses maçons constituem uma nova obediência, a “Grande Loja da Inglaterra segundo as Antigas Instituições”.

Como sabemos, esses maçons se auto denominavam “Antigos”, porque alegavam ter uma tradição mais antiga que a da Grande Loja de Londres, e atribuíam aos membros desta última, entretanto mais antiga que eles, o adjetivo pejorativo de “Modernos”. Esta “Grande Loja dos Modernos” é hoje chamada “Primeira Grande Loja”. Em 1772, os “Antigos” elaboraram uma lista de pontos de desacordo com os “Modernos”, em que levantaremos duas questões que são relevantes para o nosso tema:

O Venerável Mestre

Os “Antigos” reprovavam nos “Modernos” ignorar a instalação secreta do Venerável Mestre, considerada fundamental pelos irlandeses. Isto, na prática, permite o acesso ao grau do Arco Real, um grau que é considerado pela tradição irlandesa como a cúpula da Maçonaria. Esta instalação secreta de que não há praticamente nenhum testemunho antes de 1760 em solo britânico, transmite uma palavra, um sinal, um toque e é de fato uma espécie de super grau de Mestre. Assim, junto aos “Antigos”, o cargo de Venerável Mestre está relacionado com uma cerimônia que tem a estrutura de um grau: a Instalação. Isso rapidamente se imporá aos “Modernos”.

Os Diáconos

Os “Antigos” culpavam os “Modernos” por ignorar o cargo de Diácono. Lembremo-nos que os “Diáconos” existiam na Escócia, no século XVII nas corporações de ofício, mas não os encontramos na Inglaterra em 1723. São os irlandeses que implantarão o cargo de Diácono na Inglaterra e isso não é surpreendente uma vez que este cargo é claramente atestado em uma loja na Irlanda desde 1733 e, em 1743, durante uma procissão maçônica onde os diáconos desfilaram com uma espécie de bastão ou cana dourada. O cargo de diácono torna-se assim, em 1753, junto aos “Antigos”, um cargo da loja colocado imediatamente na hierarquia de cargos abaixo dos Vigilantes[2].

No entanto, a origem desses Diáconos vindos da Irlanda permanece um mistério. De fato, parece não haver realmente nenhuma relação entre o Diácono Escocês (que é único e que dirige a Corporação) e os Diáconos irlandeses (que são dois oficiais secundários da loja), apesar da homonímia aparente[3].

Assim é que este cargo, desconhecido dos “Modernos”, vai gradualmente se estabelecer em suas lojas. As divulgações impressas da década de 1760, principalmente originários da tradição dos “Antigos”, certamente contribuíram, de modo que, antes da União de 1813, em 1810 e 1812, já se encontram Diáconos nas lojas dos “Modernos”[4]. Estes Diáconos carregam um bastão negro com joias prateadas.

O Telhador (Cobridor Externo)

Originalmente, este cargo (como outros cargos talvez) era provavelmente uma dignidade específica da Grande Loja. Só então, e provavelmente por mimetismo, ele se tornou um cargo nas lojas. O Telhador[5] exerce, além da função de guarda externo da instalação secreta, a da ordem das palavras sagradas.

Na loja tem por função enviar as convocações aos irmãos, em mãos. Ele deve também traçar o painel da loja[6]. O cargo do Telhador evoluirá gradualmente para se tornar uma espécie de zelador da loja mediante uma pequena remuneração, que é sempre o caso na Inglaterra. Ao lado do Telhador apareceu depois de 1813 um Cobridor, tradução mais extensa que “Guarda Interno” ou guarda do interior, cargo que resulta simplesmente da divisão do cargo de Telhador[7].

A estrutura da loja depois da União de 1813, emprestou a maioria de suas formas dos “Antigos”. Seja quanto ao vocabulário utilizado, a presença de Diáconos, no lugar dos três oficiais principais[8], os “Antigos” impuseram seus usos aos “Modernos”[9] que, de fato, já os tinham amplamente adotados antes da União. Então, foi nessa época que foi fixado, e até nossos dias, o sistema de cargos e dignidades de loja na Inglaterra.

Continua….

Autores: Roger Dachez e Thierry Boudignon

Tradução: José Filardo

Fonte: Bibliot3ca Fernando Pessoa

Notas

[1] – O sistema escocês ainda está presente no manuscrito Keavan (1714), enquanto que o sistema Inglês é certamente atestado a partir de 1723.

[2] – Uma parte do papel dos vigilantes na tradição dos “Modernos” foi transferida para os diáconos que se tornam, de algum modo, seus adjuntos. Por exemplo, são os diáconos, e não os vigilantes como na tradição dos “Modernos” que orientam o candidato nas viagens.

[3] – Recordemos uma vez mais que o diácono escocês é uma espécie de delegado geral, enquanto o diácono irlandês, como o diácono da igreja católica, tem uma função subordinada.

[4] – Na época da União, em 1813, será reconhecido que o ofício de diácono não é apenas útil, mas necessário.

[5] – A palavra “Tyler” (Cobridor externo) aparece pela primeira vez na ata da Grande Loja em 1732.

[6] – Estas funções são encontradas na França, cf. O segredo dos maçons do Abade Perau.

[7] – O cargo de cobridor é estranho à tradição dos “Modernos”. Por exemplo, no Rito Escocês Retificado, cuja estrutura empresta muita coisa dos “Modernos”, vemos que é o Mestre de Cerimônias que exerce as funções de cobridor.

[8] – Nos “Modernos”, os dois vigilantes estão no ocidente, enquanto que nos “Antigos”, há um no ocidente e outro ao sul.

[9] – Pode-se acrescentar a isto, a questão da instalação secreta e a da ordem das Palavras sagradas.

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Origem e evolução dos Cargos em loja da Maçonaria e dignidades maçônicas na Grã-Bretanha do século XVII até nossos dias – Parte I

Trois gravures encadrées. Représentant des scènes maçonniques, gravures dites[...]

I – Os oficiais da Loja, da Escócia de William Shaw à primeira Grande Loja inglesa até 1750

Qual é a origem dos oficiais de uma loja maçônica? Responder a esta pergunta é necessariamente relacioná-la com o sistema primitivo de graus maçônicos e procurar essa origem primeiro na Escócia ao final do século XVII e depois na Inglaterra no início do século XVIII.

Lembremo-nos que na Escócia, no século XVII, o sistema de graus consistia em duas etapas: Aprendiz (isto é, um Aprendiz que fez suas provas durante 7 anos em média como Aprendiz registrado) e o Companheiro ou Mestre este último chegando raramente a ser alcançado em virtude de seu custo. Além disso, existiam dois tipos de estrutura nessa Maçonaria Escocesa: uma estrutura civil, administrativa e pública, a corporação ou Guilda de Mestres que governava a cidade e o emprego, e uma estrutura “secreta” específica do ofício, a loja. Estas estruturas, em princípio independentes eram, de fato, complementares, o que causava rivalidades e conflitos. De qualquer forma, a corporação consiste de Mestres, mestres que tinham na loja o “grau” mais alto que se podia conferir, o de Companheiro de Ofício, categoria na qual são recrutados os futuros mestres da corporação. Fica assim claro que o título de “Mestre” não era um grau da loja, mas uma dignidade civil, que era adquirido através de herança, casamento ou até mesmo compra.

No início do século XVIII, na Inglaterra, na década de 1720, um novo grau apareceria, o grau de Mestre. É certamente atestado em 1730, na forma em que o conhecemos e a composição desse grau, puramente Inglês, aparentemente, era o resultado da adição de uma lenda ao segundo grau, de Companheiro, de origem escocesa.

O novo segundo grau inglês, o de Companheiro “novo estilo” em um sistema agora de três graus, resultou de uma divisão do antigo primeiro grau escocês. Assim, no sistema inglês, o título de “Mestre” tornou-se um grau de loja. Este sistema tem, portanto, a seguinte composição: Aprendiz, Companheiro e Mestre Maçom. Mas o termo “Mestre” vai se tornar rapidamente ambíguo, uma vez que designará tanto um grau, “Mestre Maçom” quanto um cargo, o Mestre da Loja (cargo que sabemos ser também um grau)…

Os cargos da loja no século XVII

Em uma loja de maçons “operativos” na Escócia, no século XVII, havia um presidente que se chamava “Warden”, etimologicamente “o Guarda” (a tradução como Vigilante impôs-se somente no início do século XVIII). Esse termo, “Warden” ou Guarda é encontrado nas organizações tradicionais do ofício. Na Inglaterra também, embora as organizações de ofício (as “Companhias de Londres”, as guildas londrinas, incluindo a Companhia dos Maçons de Londres, “London Masons Company”) não tinham, naquela época, a importância das suas contrapartidas escocesas, no entanto, elas elegiam um presidente que trazia e ainda traz o título de “Warden”. Ao contrário, nas corporações escocesas, o presidente se chamava “Deacon”, ou Diácono (o enviado) ou, no vocabulário contemporâneo, “delegado geral”. As rivalidades entre a corporação e a loja explicam que, em alguns casos, há também “diáconos” nas lojas. Além dos cargos de “Vigilantes” na loja e o “Diácono” na corporação, não se conhecem outros oficiais na Escócia, embora seja provável que houvesse algum tipo de secretário-tesoureiro o “funcionário”, fora da profissão, mas cuja função era essencial a vida da loja.

Os cargos da loja no século XVIII (1717-1723)

Quando, onde e como o sistema escocês foi transmitido na Inglaterra até o aparecimento das lojas, depois de uma grande loja, com seus próprios oficiais? Isso ainda é, em parte, um mistério.

O sistema da primeira Grande Loja em 1723, era o seguinte: o Título IV das Constituições distinguia os Mestres, os Vigilantes, os Companheiros e os Aprendizes. Aqui o termo “Mestre” não se refere a um grau, que ainda não existia, mas um cargo, o “Mestre da Loja”. Há também um outro cargo: o Vigilante (“Warden”). A hierarquia ou o currículo maçônico assim se estabelecia: somos primeiro Aprendizes, depois Companheiros, grau que é uma qualificação indispensável para se tornar, eventualmente, Vigilante, depois Mestre da Loja, função superior à do Vigilante. Além disso, previa-se que em caso de incapacidade do Mestre da Loja, o “Senior Warden (Primeiro Vigilante)”, isto é, literalmente, “o guarda mais antigo” que o substituía, se não existisse um “ex” Mestre de Loja, e na falta do “Senior Warden,” chamava-se o “Junior Warden” (Segundo Vigilante) ou “o guarda mais jovem”. Note-se que a tradução para 1º e 2º Vigilantes é, na verdade, falha, embora seja consagrada pelo uso.

Constatamos assim que se distinguia, que se tratava tanto de Mestres quanto de Vigilantes, o mais velho e o mais novo. Assistimos aqui a origem da passagem de um “Warden” único, para dois “Wardens”? A duplicação de Vigilantes seria então o resultado de se levar em conta a antiguidade no exercício da função, exatamente como existe um “Mestre da Loja” e um “Mestre Instalado” (Past Master). Em suma, em 1723, a loja era presidida por um “Mestre” assistido por dois Vigilantes, o “Senior Warden” e o “Junior Warden”.

Mas existiam outros oficiais? O artigo 17 do Regulamento Geral da Grande Loja distingue um Grão-Mestre, um Grão-Mestre Adjunto, Grandes Vigilantes, um tesoureiro e um secretário, os dois últimos cargos parecendo ainda serem exercidos temporariamente.

Em relação ao período inaugural 1717-1723, faltam-nos documentos, pois o registro das atas da Grande Loja começa precisamente em 1723, e não foi senão em 1738 que Anderson reconstruiu as atas anteriores. Convém, portanto, manusear esses textos com prudência. De acordo com Anderson, havia em 1717, um Grande Mestre, Anthony Sayer, investido pelos mais antigos Mestres de Loja presentes. Havia também dois Grandes Vigilantes. Esta prática, um Venerável e dois Vigilantes, parece vir das quatro lojas fundadoras da Primeira Grande Loja, e se conservou.

Depois de 1730 e do aparecimento do grau de Mestre, foi necessário modificar o conteúdo do Título IV das Constituições. O currículo maçônico torna-se então o seguinte: Aprendiz, Companheiro e Mestre Maçom. Os Vigilantes são escolhidos entre os Mestres Maçons e para se tornar Mestre da Loja, deve-se ter sido Vigilante. A palavra “Mestre”, portanto, designa ao mesmo tempo um grau e um cargo.

Os Diáconos

Não há nenhuma menção dos Diáconos antes de década de 1740, isto é, num momento em que os irlandeses começam a se manifestar. Na obra Maçonaria Dissecada de 1730, bem como no manuscrito Wilkinson (circa 1727), não são os Diáconos que recebem o candidato, como na maçonaria inglesa contemporânea, mas o 2o Vigilante. Esta tradição passará então à França e permanecerá no Rito Escocês Retificado. Assim, constata-se que se o cargo de “Warden”, um cargo da loja escocesa, é facilmente implantado na Inglaterra, por outro lado o cargo de “Deacon” ou “Diácono”, um cargo da Corporação levará mais tempo, provavelmente por ser estranho às organizações de ofício inglesas. Assim, através dos Irlandeses e da Grande Loja dos “Antigos” este cargo tomará pé mais tarde na Inglaterra. Mas existe uma relação entre os cargos escoceses e irlandeses?

O Telhador ou Cobridor Externo

Desde 1723, na Inglaterra, Anderson, nas Constituições refere-se a um irmão encarregado de guardar a porta da Grande Loja, mas se ele designa a função, ele não a nomeia, o que será feito apenas na década de 1730. No entanto, não é certo que este cargo de Grande Loja já existisse nas lojas. Parece, mais, que o cargo de Cobridor, como talvez outros cargos, seria o produto de uma inovação da Grande Loja que, então, se espalhou pelas lojas querendo imitar a Grande Loja. Este fenômeno também foi observado na França. Neste contexto, a palavra e o cargo de “Tuileur (Cobridor)” aplicados a uma loja são atestados nas primeiras divulgações dos anos 1740, e seu papel na estrutura da loja é bem especificado ali.

No entanto, a Grande Loja de Londres começou a se interessar pela estruturação do sistema de cargos nas lojas, pois desde 24 de junho de 1727, ela decidiu, pela primeira vez, que o Mestre e os Vigilantes de todas as lojas, deveriam usar as joias da Maçonaria penduradas em uma fita branca. Em 17 de março de 1731, afirma-se que os aventais de couro bordados com seda branca serão reservados para o Venerável Mestre e os Vigilantes, enquanto a cor dos colares e da seda bordando os aventais dos Grandes Oficiais seria azul, sem especificar a natureza exata deste azul.

A partir de 1750, a Maçonaria Inglesa, no entanto, vai conhecer uma situação radicalmente nova.

Continua….

Autores: Roger Dachez e Thierry Boudignon

Tradução: José Filardo

Fonte: Bibliot3ca Fernando Pessoa

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