O esoterismo dos construtores de catedrais

Catedrais Medievais: A graça mística que agiu nos construtores das catedrais  medievais

A frase composta para o título consiste em três conceitos distintos: primeiro, o de esoterismo, em seguida, o de construtores e, finalmente, o das catedrais que são os monumentos mais grandiosos do catolicismo romano.

Estes três elementos justapostos refletem uma crença compartilhada por certos maçons: os construtores de catedrais praticavam entre eles, e gravavam nas pedras das igrejas, colégios e catedrais, mensagens e sinais de esoterismo, que para alguns autores do final do século XIX, se tornam pura heresia ou anticlericalismo se não ateísmo.

Vejamos rapidamente cada um desses conceitos separadamente, antes de compreender, porque é muito mais uma questão de compreender que de aderir.

O esoterismo

O esoterismo é uma maneira de pensar sobre a vida interior e que se manifesta na discrição, mesmo em segredo. Assim como o símbolo, de que só alguns podem entender o significado, escreve Marie-Madeleine Davy em sua indispensável “Introdução ao simbolismo romano”, publicado pela Editora Flammarion.

O esoterismo é uma forma universal de pensar, ao mesmo tempo no tempo e no espaço. Há esoterismo quando há conhecimento reservado a eleitos e revelado em segredo. Essa ideia remonta a tempos mais antigos. Ela é encontrada em abundância na Grécia. Em seguida, em Roma, com os celtas, os etruscos e os alemães, mesmo dentro do cristianismo com diversas tradições secretas ente as quais o gnosticismo; na Idade Média, com os cavaleiros templários, os cátaros, a lenda do Graal, os grandes poetas entre eles o maior, sem dúvida, Dante, com a alquimia, a adivinhação, a magia, a astrologia; no Renascimento com Paracelsus e um florescimento de pensadores e escritores esoteristas; no século XVII com os Rosacruzes, e no século XVIII com o ocultismo, a teosofia nascente; no século XIX, com ocultismo invasivo, a Teosofia e a escola de Papus; no século XX, com um resumo de todos os itens acima, usando o prefixo muito conveniente: neo.

Uma constatação geral: o esoterismo parece ser apanágio de intelectuais e pensadores pelo menos alfabetizados, ou seja, capazes de ler e escrever, e sobretudo livres para pensar à margem de quadros impostos.

A questão colocada acaba sendo saber se, em toda essa confusão omnidirecional, os construtores de catedrais puderam constituir um vetor de um ou outro desses diferentes sistemas secretos.

A existência de um esoterismo cristão é afirmada por alguns, incluindo, obviamente, Guenon que vê ali “o lado interior da tradição cristã”, mas que é rigorosamente rejeitado por outros e principalmente pela Igreja Católica Romana que nega absolutamente a existência de qualquer dimensão esotérica na doutrina cristã.

De fato, como conciliar afirmações contraditórias ‘tais como ’não deis pérolas aos porcos’, Mateus VII, 6, com ’O que vos digo na escuridão, dizei-o à luz do dia’, Mateus X, 27.

Mesmo assim, como conciliar a afirmação: “não se acende uma lâmpada para a colocar debaixo do alqueire, mas sim sobre um lampadário para iluminar o dia” com o seu oposto absoluto “estreita é a porta e apertado o caminho que leva à vida, e poucos são os que o encontram” Mateus VII, 6.

No exame dos textos cristãos, tanto canônicos quanto apócrifos, podemos então recorrer a muitas referências que lhe eram totalmente contrárias. Por exemplo, de um lado, a crença em um esoterismo cristão proveniente do pensamento do próprio Jesus marcada por um significado supostamente oculto contido em suas parábolas, e, de outro, a completa ausência e mesmo a recusa desse modo de pensar a doutrina que ele pregava.

Os construtores, ou maçons operativos

Portanto, se existe um esoterismo cristão, ou vestígios de qualquer outro pensamento esotérico que tenha uma origem diferente dentro do cristianismo, os trabalhadores que construíram as catedrais maravilhosas constituíram o vetor? Vejamos, portanto, como eles eram, tanto espiritual quanto sociologicamente

No século XII, a arte da construção é dirigida pelo mestre de obras, que é ao mesmo tempo arquiteto e engenheiro, e até mesmo empresário. Seu status social é frequentemente muito importante. Ele possui casas, às vezes um castelo. Com frequência ele assinava suas obras. Ganhando até vinte vezes o salário de um trabalhador qualificado, ele está perto do poder de quem depende sua sorte, e compartilha muitos privilégios. É também chamado Mestre Pedreiro. É ele quem tem uma formação emprestada de Pitágoras e de Euclides particularmente. Devemos encontrar vestígios disso em nosso grau de companheiro maçom…

Quanto ao patrão da obra, ele é muitas vezes constituído por uma comunidade religiosa, mosteiro, claustro ou capítulo de cânones. Ele inclui os únicos estudiosos da época, o clero secular que conheceu em diversos momentos de um estado vizinho à decadência. Os monges são muitas vezes eles mesmos, ao mesmo tempo mestres da obra e mestres de obra. Há outras escolas ou colégios de construtores que conhecem formas diferentes e hierarquizadas de organizações corporativas, e tudo isso ao longo da Idade Média. Estes trabalhadores trabalham por conta de cânones e capítulos constituídos em conselhos particulares para os bispos. A mão de obra abundante e não qualificada é recrutada na classe dos desenraizados: servos em fuga, filho de camponeses, filhos de famílias numerosas, além de trabalhadores especializados tais como pedreiros e canteiros. Esta última categoria inclui tanto os “desbastadores de pedras” (canteiros de pedras brutas) que os escultores-talhadores (pedreiros livres, abreviado como freemasons ou frimaçons sob o Cardeal Fleury), a noção contemporânea e distinta de artista sendo então desconhecida e inexistente.

Todo esse pessoal era analfabeto. As contas de salários estavam cheias de erros de soma, que não enganariam uma criança de 10 anos em nossos dias.

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As marcas lapidares, de transporte e sinais de posse, são grafites rudimentares compensando a ignorância generalizada do alfabeto.

Esta mão de obra analfabeta é profundamente católica romana, assim como toda a sociedade da época. A cultura estava exclusivamente nas mãos dos clérigos. A composição de imagens religiosas parte de princípios impostos pela Igreja Católica, precisamente codificados e de que qualquer desvio era punido. Os escultores contam a história sagrada aos fiéis, eles também analfabetos, de acordo com uma tradição cristã onde os monges e os mestres de obra são os depositários exclusivos e vigilantes.

Havia um segredo dos Pedreiros? Vários regulamentos corporativos revelam que no final da Idade Média, compromissos deviam ser assumidos de não revelar “certos truques do ofício” e nada mais. Esta obrigação de segredo não estava ligada particularmente ao oficio de construção, mas estava relacionada com a maior parte dos ofícios organizados como sindicatos. Os sapateiros e ferreiros tinham os seus…

Knoop e Jones, antes da escola francesa, estudaram a fundo o conjunto das Antigas Obrigações inglesas. Todos estes manuscritos, tipos de regulamentos ou constituições profissionais defendem rigorosamente isso: “o primeiro dever do Pedreiro é fugir da heresia, e também amar a Deus, à Santíssima Trindade, à Virgem Maria, os santos e a Santa Igreja, não brigar e ser discreto”.

Existe mais de uma centena desses manuscritos, que vão de 1389 a 1722. Os principais textos são: Ms Regius, datado de 1389; o Ms Cooke, do início do século XV; o Ms Plot datado de 1686; o Ms Grand Lodge datado de 1583; o Ms. Roberts datado de 1722. Eles nada contêm, absolutamente, que seja de natureza esotérica, observam Knoop e Jones. Eles foram escritos por alguns monges piedosos e eram destinados a serem lidos em grandes ocasiões a “trabalhadores totalmente analfabetos, profundamente crédulos e supersticiosos” assim os descreveu Bernard Jones.

A catedral

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Monumento grandioso e manifesto explosivo da dogmática romana, a catedral é o símbolo vivo da onipotência da Igreja, mas também da mais autêntica espiritualidade cristã. A catedral é símbolo. Sua própria função é de ordem simbólica, em uma sociedade teocrática e teocêntrica, onde tudo tem um significado espiritual e simbólico que remete a Deus. Ela é também ensino.

Marie-Madeleine Davy escreveu que “a fé penetra a existência, ou melhor, ela É a existência”. Os monges e ninguém mais, também preservaram, de alguma forma, pedaços de tradições simbólicas vindas da Mesopotâmia, do Egito, da Pérsia, da China, da Índia e da Palestina, todas as regiões de onde vêm elementos exóticos que às vezes adornam as capitéis e pórticos.

A alquimia tem ali o seu lugar, muito pouco esotérico, no sentido moderno do termo. Ela é integrada ao universo simbólico da catedral. Alguns prelados se apropriam da Arte Real, enquanto outros a ela se opõem e a rejeitam. Mas, no século XII, a alquimia é uma disciplina, ao mesmo tempo natural e hermética, o que não é absolutamente um pecado. A Alquimia serve para lembrar aos fiéis, entre outras imagens alegóricas, que ela é o templo de Deus; ela é considerada uma ciência “sacramental”.

A Igreja não é, contudo, unânime em considerar que o povo precisa de imagens edificantes e assustadoras. São Bernardo, por exemplo, critica com ironia, mas com firmeza todo este material de monstros ridículos “que os monges devem considerar como estrume”, escreveu este homem santo que não era brando com isso.

Em conclusão, como, sob estas condições, admitir a tese de romancistas anticlericais do século XIX, argumentando que os nossos trabalhadores analfabetos e devotos teriam constituído o veículo de tais ou quais tradições esotéricas do culto de Isis ou de Druidas celtas? E a se supor por um momento que se tal fosse o caso, seria preciso reconhecer que esta transmissão secreta foi exercida somente através dos mestres de obras, o que implica que ela foi infiltrada à revelia dos capítulos de cânones, à revelia dos bispos muito vigilantes e financistas desses projetos caríssimos. Que ela fosse, ainda mais exercida à revelia dos trabalhadores ingênuos e supersticiosos encarregados de sua execução revela, uma vez mais, pensamento ilusório.

Ou ainda, infinitamente mais absurdo ainda, com sua cumplicidade herética em tudo? E, finalmente, questão determinante, a intenção de quem receberá esta “mensagem”, o público presente nas igrejas católicas sendo composto de praticantes sinceros, mas ingênuos, incapazes de compreender o alcance escondido de alusões ditas esotéricas? A mensagem da Igreja sempre foi exclusivamente exotérica.

Mas a resposta a estas objeções é bem conhecida, e ela floresce mesmo em alguns círculos maçônicos, permeáveis a fábulas e mitos. A Tradição Esotérica seria então transmitida para o uso exclusivo somente dos “iniciados”.

Talvez, mas iniciados em que? No culto de Ísis, sob São Luis? Nas práticas dos Druidas, sob Filipe, o Belo? E existe um único documento irrefutável que permita apoiar cientificamente estas extravagâncias imaginativas? A resposta é claramente, não.

Conclusão

Por que, e quem propagou esta imagem ridícula do Maçom anticlerical, que ainda existe nos dias de hoje, e até mesmo em uma certa maçonaria? Quem é o inventor da imagem anticlerical, e com que finalidade?

Por duas razões, em minha análise, que levam ao conceito francês de uma maçonaria nacionalista e política, quando ela afirma:

A Maçonaria nasceu na França e não na Inglaterra ou na Escócia. Ela mesma foi exportada da França para a Inglaterra, originalmente! Ela descende em linha reta dos construtores de catedrais, que praticavam uma espécie de esoterismo de natureza anticlerical, herética, à margem da Igreja Católica, em filiação direta dos Grandes Iniciados egípcios, dos Collegia Fabrorum Romanos, dos druidas celtas, seguidos pelos Templários, os Rosacruzes, os Alquimistas e alguns outros “Atlantes”. Em suma, observemos, por um conjunto eclético de adversários pré-históricos do papado.

Esta filiação herética e anticlerical é reivindicada ao final do século XIX pelos maçons franceses em ruptura com a tradição maçônica. A intrusão da política em loja, por volta de 1860, que coincidirá com a ejeção do GADU e da Bíblia, leva a nova instituição secular a inventar uma justificativa e uma ascendência nobre, tanto histórica quanto espiritual: a do canteiro de pedras, do pedreiro, da imagem anticlerical, Grande Iniciado e detentor de segredos extraordinários, apesar de todo o poder espiritual e temporal da Igreja. Sabemos o destino que reservou a Santa Inquisição a esse tipo de pessoas.

Este construtor de catedrais puramente imaginário é, portanto, o ancestral sonhado do maçom “comedor de padres”: inimigo da Igreja Católica, mas ao mesmo tempo detentor de tradições e mistérios antigos genuínos, ou seja, que não se originam do judaico-cristão. Ele é o arquétipo da Tradição Autêntica (vamos lá com as guenonices capitalizadas!), que vem de todos os lugares, exceto de Roma e de Jerusalém.

E esta concepção surpreendente encontrou ecos cúmplices em alguns círculos intelectuais. E garante tiragens gigantescas ou faraônicas a autores populares.

Para alguns, trata-se de um sonho. Não os culpamos por escolher esta opção, muitas vezes fascinante porque mais suave e consoladora que a dura realidade.

“Eu sou bela, ó mortais, como um sonho de pedra …

Meu trono é o azul como uma esfinge misteriosa …

Porque eu tenho o que fascina estes amantes dóceis

Espelhos puros que fazem mais belas todas as coisas:

Meus olhos, meus olhos enormes, de claridades eternas …”

Para outros, esta opção calmante é um cálculo ideológico. Como tal, ela é lícita, justa e salutar de denunciar, como todas as fraudes moral e intelectual. Eu jamais me privaria disso. O sono da Razão produz monstros.

Autor: Jean van Win

Tradução: José Filardo

Fonte: Bibliot3ca Fernando Pessoa

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Bibliografia

Altamente recomendável:

** Initiation à la Symbolique romane, M. M. Davy, Champs, Flammarion.

** L’Esotérisme, Pierre A. Riffard, Robert Laffont.

** Images et Symboles, Mircea Eliade, TEL, Gallimard.

Muito interessantes:

L’Ordre corporatif dans la Belgique ancienne, André Frantzen, D. De Brouwer,1941

Le Moyen Age, Christian Papeians. Ed. Artis-Historia, Bruxelles.

Chateaux et Cathédrales, Marcel Brion, Edito Service, Genève.

Les Bâtisseurs de cathédrales, Jean Gimpel, Seuil.

Freemason’s Guide and Compendium, Bernard E. Jones, Harrar & Compagnie Ltd, London.

Signs & Symbols in Christian Art, George Ferguson, Hesperides Book, New York-Oxford University. (Prescriptions iconographiques de l’Eglise).

La Bible et les Saints, Gaston Duchet, Guide iconographique, Flammarion.

Textes politiques. Saint Bernard de Clairvaux. 10/18, Union générale d’éditions.

La Franc-Maçonnerie opérative, Louis Lachat, Ed. Figuière, Paris.

Questionável e tendencioso:

Les origines religieuses et corporatives de la Franc-Maçonnerie, Paul Naudon, Dervy

Delirante e imaginário:

Le Message des constructeurs de cathédrales, Christian Jacq, Rocher.

Maçonaria moderna: o legado escocês – Parte I

20 curiosidades sobre a Escócia - Viagens à Solta

A moderna Maçonaria, que tem como referência o ano de 1717[1] (ou 1721 para os puristas), não surgiu repentinamente como um raio em céu azul, como tentam argumentar alguns empoderados críticos internos da Ordem. Sem querer induzir ou convencer, vejamos os fatos históricos.

Entre os séculos X e XV, a Europa passou por diversas transformações sociais, políticas, econômicas e científicas, sobretudo, com o declínio do sistema feudal e o crescimento comercial e urbano, intensificado pelas Cruzadas e a expansão das rotas marítimas comerciais. A terra e o trabalho camponês perderam seu papel como única fonte de riqueza.

Nesse período houve um grande crescimento das atividades comerciais, oriundas dos trabalhadores que viviam numa sociedade agrária e estamental (que não permitia ou dificultava a ascensão social e antecedeu a Sociedade Industrial), os feudos, e passaram a comercializar os excedentes nos arredores das cidades, quando se deu o renascimento comercial e urbano.

Com o deslocamento de muitos trabalhadores para os burgos (antigas cidades medievais amuralhadas), o sistema feudal e agrário logo foi substituído por um capitalismo primitivo e urbano, fortalecido pelo surgimento da burguesia, formada por comerciantes, artesãos, alfaiates, sapateiros, ferreiros, carpinteiros, tanoeiros, marceneiros, artistas, mercadores, produtores têxteis etc.

Assim, com a necessidade de organizar e regulamentar determinadas profissões originou-se uma espécie de associações sindicais com o intuito de proteger interesses, de forma a melhorar o desenvolvimento da atividade laboral desde a distribuição dos produtos, garantir a qualidade e preços, bem como lidar com o mercado e seus concorrentes externos. Famílias mercadoras reuniram-se em guildas e assumiram a autoridade em muitas cidades, munidas de alvarás, como corporações municipais.

Nas cidades medievais, as instituições econômicas básicas eram as corporações de mercadores e as corporações de ofício com uma estrutura civil e administrativa, formada por pessoas de uma mesma profissão, de uma mesma orientação religiosa e que mantinham uma relação de proteção mútua. Por sua vez, o poder pessoal e universal dos senhores feudais foi gradativamente sendo substituído pelo poder centralizador dos soberanos, dando origem às monarquias nacionais centralizadas.

Por volta dos séculos XI, sob o manto da Igreja Católica, nasceu a Maçonaria Operativa ou de Ofício, que dominava a arte de construir, por intermédio das corporações ou confrarias dos mestres construtores de catedrais, abadias e mosteiros, que recebiam instrução e evangelização dos frades e protegiam os ensinamentos secretos da arquitetura e os interesses corporativos. Atribui-se o impulso das edificações de catedrais em louvor a Deus em virtude da não concretização da previsão apocalíptica dos fins dos tempos na virada do ano 1000.

A arquitetura medieval teve nas Igrejas a sua maior representatividade, com o desenvolvimento dos estilos românico e o gótico.  O românico, fruto da criação das comunidades rurais dos monges, típicas da Alta Idade Média (século V ao X) assinalou o seu apogeu no século XI, aparecendo em mosteiros, castelos e igrejas, com uma construção maciça, pesada, de linhas retas, com traços predominantemente horizontais e interiores sombrios. O florescimento do gótico, originário da região de Paris, esteve ligado à prosperidade da economia urbana e ao desenvolvimento do conhecimento, concebendo nas catedrais a obra da cidade e dos artífices das corporações de ofício, refletindo a mentalidade da Baixa Idade Média (século XI ao XV).

As catedrais góticas, banhadas de luz e calor, decoradas com pinturas e esculturas, significavam mais do que um templo de orações, eram utilizadas também como escolas, bibliotecas, galerias de arte, além de ponto de encontro de uma próspera sociedade. A burguesia também nelas se reunia em suas confrarias para realizar assembleias civis, funcionando como uma casa do povo e do poder da igreja.

Com as corporações ou confrarias surgiram os regulamentos na forma de cartas e constituições, descrevendo os compromissos dos membros, bem assim os conhecimentos e instruções morais e religiosas, de conteúdo explicitamente cristão, formando os “Antigos Deveres”, “Antigas Constituições” ou “Manuscritos”, delineando um sentido espiritual e material aplicáveis aos obreiros construtores, inspiradores da Moderna Maçonaria. O Museu Britânico e a biblioteca maçônica de West Yorkshire guardam vários desses documentos, que formam a base das constituições maçônicas.

Como não existia um organismo central que tomasse decisões para a totalidade das guildas de ofício, cada uma conservava sua autonomia e usava um manuscrito dos “Antigos Deveres” que melhor lhes aprouvesse e sobre os quais os juramentos eram prestados. Os mais famosos são o “Poema Regius” ou “Manuscrito Halliwell”, provavelmente de 1390, o mais antigo documento inglês sobre a Maçonaria, e o “Manuscrito de Cook”, estimado de 1450.

Alguns autores advogam a precedência da Carta de Bolonha, de 1248, como o primeiro documento maçônico operativo conhecido. Também referenciado como os “Estatutos de Bolonha”, sob os auspícios da Igreja Católica, o documento estabelecia a existência jurídica de uma associação no qual constavam a denominação e forma de eleição dos constituintes, com o objetivo de “proteger o ofício tanto no plano financeiro quanto no ético moral”. A proteção aos associados, tanto profissional quanto assistencial, incluía até as viúvas. O referido documento já fazia menção a “não operativos”, cuja lista de matrícula, datada em 1272 e ligada à “Carta de Bolonha”, consta “371 nomes de Mestres Maçons (Maestri Muratori), dos quais 2 são escrivães públicos, outros 2 são freis e 6 são nobres”, conforme registros no Arquivo de Estado da Bolonha.

Esta situação prevaleceu por 142 anos, até 1390, quando surgiu o “Poema Regius”, oportunidade em que foi introduzida a história de como Euclides de Alexandria simulou a geometria e traçadas normas de conduta ética e moral, alertando que a Maçonaria e o Maçom não devem ter um comportamento hipócrita (Hic incipiunt constituciones artis gemetriae secundum Eucyldem – Art. XV). O Manuscrito de Cook (1450), escrito em prosa, continha repetições dos anteriores, e, após uma prece de ação de graças de abertura, o texto enumera as Sete Artes Liberais (Gramática, Retórica, Lógica, Aritmética, Geometria, Música e Astronomia), dando prioridade à geometria, a qual é equiparada à Maçonaria.

Passados mais 208 anos do Poema Regius, em 1598, até então sob a proteção da Igreja, apenas com modificações administrativas, alteração significativa foi aquela introduzida na Escócia por William Schaw (1550-1602), Mestre das Obras da Coroa e Vigilante Geral dos Pedreiros, na área de construção de castelos e palácios, com larga experiência adquirida em cargos ocupados no reinado de Jaime VI. Segundo Nicola Aslan, “a maçonaria escocesa não possuiu ‘Old Charges’ como a sua congênere inglesa”, mas, do período operativo, afirma, destacam-se outros documentos como as Cartas de Saint-Clair (uma de 1601 e outra de 1628) e, principalmente, os Estatutos Schaw, que nenhum outro supera.

William Schaw mantinha estreitos laços com personalidades da elite do império, além de filósofos, políticos e livres pensadores. Reorganizou a profissão de pedreiro ao incluir alterações estruturais nas Lojas, entre elas as de fundo cultural e histórico, com manutenção de arquivos com registros de todos os acontecimentos relevantes e envolvendo a maçonaria do passado e perspectivas para os tempos vindouros.

Tais medidas abriram caminhos para que “não operativos”, pertencentes ao círculo de influência de William Schaw, então se constituindo em um novo protetor da Maçonaria (especulativa de transição), pudessem ser atraídos, não apenas para introduzir conhecimento humanístico e sim para inserir as Lojas nos meios políticos. Os dois regulamentos promulgados (1598 e 1599) definiam a organização territorial das lojas por cidades e por regiões, impondo a eleição anual dos Oficiais. Por ter lançado as condições que mais tarde se transformariam, no território escocês, na Maçonaria Especulativa, Schaw é considerado por muitos como o inventor da Maçonaria Moderna.

A mudança significativa, mal compreendida e criticada pelos puristas e chamada de teoria de transição, à míngua de documentação comprobatória, teria ocorrido no final do século XVI, em vista do declínio das antigas corporações medievais de construtores, quando, em número cada vez maior, os denominados “Maçons Livres e Aceitos”, homens que não eram pedreiros, substituíram os trabalhadores, transformando-se em sociedade de auxílio mútuo e num espaço para a livre manifestação do pensamento, com seleção dos membros “entre os homens conhecidos pelos seus dotes culturais, pelo seu talento e pela sua condição aristocrática, que poderiam dar projeção a elas, submetendo-se, todavia, aos seus regulamentos” (Castellani, 2007).

Em análise de David Stevenson (2009), historiador não maçônico, a evolução da Maçonaria na Escócia no século XVII surgiu em muitos sentidos da Renascença, mas sua evolução também foi profundamente influenciada pela Reforma, podendo ser vista como uma reação contra algumas das mudanças que o advento do Protestantismo trouxe ao país, envolvendo não apenas uma mudança em crenças religiosas, mas em todo o conceito do que era religião, antes vista como um método ritual de viver e não um conjunto de dogmas. “Com a vinda do Protestantismo, a ênfase mudou do comportamento e das ações para as crenças abstratas e a fé individual”. A reforma promovida pelos calvinistas liderados por John Knox (conhecidos como presbiterianos na Escócia), que aboliu o catolicismo romano em 1560, significou a completa abolição do lado religioso da fraternidade-guilda, levando ao desaparecimento daquelas organizações que funcionavam apenas como fraternidade. Restaram elementos de ritual e cerimônia em ocasiões como a admissão novos membros.

As medidas introduzidas por William Schaw, com a organização das lojas, ensejou um sistema no qual os rituais poderiam desenvolver-se, avalia Stevenson (2009), suprindo um vácuo deixado pela Reforma, como uma possível explicação por que tantos indivíduos de fora quiserem entrar para as lojas no século XVII, possivelmente de forma que fossem atendidos desejos de satisfazer o anseio humano por ritual, que a igreja reformada da Escócia ignorava.

Continua…

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

Nota


[1] Para melhor entendimento, recomenda-se a leitura do artigo “1717? 1721? Por enquanto, ainda 1717…”, no Blog “O Ponto Dentro do Círculo”, em https://opontodentrocirculo.com/2016/09/22/1717-1721-por-enquanto-ainda-1717/

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O enigma das catedrais góticas

Basílica de Saint-Denis - Horário, preço e localização em Paris

Catedrais Góticas, gigantescas paredes de vidro num caleidoscópio de cores rodeadas por uma teia de alvenaria e coroadas com gárgulas assustadoras. Esses arranha-céus de pedras dominaram as paisagens por quase mil anos. Como, na idade média, sem o uso da tecnologia e de ferramentas modernas, os engenheiros construíram as catedrais góticas? Agora os peritos estudam uma nova teoria, um código matemático oculto, tirado das páginas da bíblia, que foi usado como modelo. Mas para desvendar os códigos da catedral os investigadores precisam analisar essas mega estruturas medievais nos mínimos detalhes.

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As Sete Artes e Ciências Liberais – Parte II

Isidoro de Sevilha e as artes liberais | Ensaios e Notas

Usos, costumes, tradições e antigas obrigações da maçonaria medieval relembrados na maçonaria atual

Entre os maçons medievais, o segredo era norma respeitada e sujeita à juramentos sobre a Bíblia ou os Evangelhos. O mesmo se dava com a promessa de não revelar a estranhos os sinais, toques e palavras de reconhecimento mútuo entre os companheiros. O compromisso envolvia a obrigação de cumprir os regulamentos, as tradições e as regras de fraternidade exigidas pela agremiação.

Quando as corporações medievais chegaram a adquirir maior importância política e econômica, até as representações teatrais passaram aos seus domínios. Os dramas da época, as antigas peças gregas, por vezes mal traduzidas, outras deturpadas, eram representadas para os associados. Os temas referentes a cada profissão eram enaltecidos ao gosto dos congregados e assistentes levados ao sentido épico. Até os antigos “mistérios” eram declamados ou encenados, ao lado das narrativas e passagens de religião.

Cada corporação tinha o seu santo padroeiro e protetor. Os maçons operativos veneravam São João Batista, ou este santo e João Evangelista, aos quais dedicavam reuniões e festas especiais. Os obreiros de Estrasburgo se chamavam Irmãos de S. João.

Nota ao Aprendiz – A Maçonaria operativa ignorava a existência de São João de Jerusalém, ou S. João Esmoler ou Hospitaleiro, lendária figura de príncipe, filho do rei de Chipre, no tempo das Cruzadas. Conta-se que ele teria renunciado aos seus direitos de herdeiro do trono, com o propósito de se dedicar à caridade, socorrer guerreiros e peregrinos. Teria fundado também um hospício.

A figura desse lendário santo foi levada à Maçonaria especulativa por maçons que quiseram impor a ideia de que a Sublime Instituição seria originária dos Cruzados. O Barão de Tschoudy viria a adotar S. João de Jerusalém, no seu Rito Adoniramita. Outros maçons passaram a identificar S. João Hospitaleiro com S. João d’Escócia, figura que jamais existiu, embora seja sempre referida em rituais do escocismo, por diversas conjecturas.

Maçons do passado, magoados com os insultos e perseguições clericais, principalmente partidas dos jesuítas, repeliam a norma de se admitir João, o Batista, como padroeiro da Sublime Instituição. A verdade é que estavam a repelir a realidade histórica e uma tradição haurida dos antigos Pedreiros-Livres e Canteiros.

Essa represália pouco adiantou. João, o Batista, continua sendo o padroeiro, com o seu par tradicional, que é João Evangelista. E em toda parte do mundo o dia 24 de junho é uma data maçônica e o verdadeiro dia da Instituição.

A Maçonaria operativa medieval possuía também os Quatro Coroados, santos da profissão, os quais eram Severo, Severiano, Carpóforo e Vitorino. Contava-se que esses quatro santos teriam sido mortos a vergastadas, por ordem de Diocleciano, eis que se teriam recusado a esculpir imagens destinadas à adoração pagã. A Igreja chegou a confundi-los com outros cinco mártires – Cláudio, Castor, Sinforiano, Simplício e Nicostrato, artistas que teriam repelido a imposição do mesmo imperador, que encomendara a imagem de um ídolo. Os cinco artífices, por esse motivo, teriam sido condenados e asfixiados dentro de um barril carregado de material pesado e atirados ao mar (ano de 237).

Outras lendas de enaltecimento da profissão eram contadas pelos maçons medievais e havidas como patrimônio da corporação.

Como ensina a psicologia social, todo agrupamento humano definido tende a ser enaltecido por seus próprios componentes. Os maçons medievais, naquela época, pouco esclarecidos, não fugiram à regra. Acreditavam que a Maçonaria vinha dos tempos de Adão e que este havia ensinado a Geometria a seus filhos. Mal fundados em vários textos da Bíblia e maus conhecedores da história, fantasiavam uma complicada narrativa da profissão, envolvendo reis, patriarcas, sábios, filósofos e geômetras. Desse modo, chamavam de “maçons” a Abraão, a Nemrod, o rei caçador, a Nabucodonosor, a Pitágoras (“Peter Gower”), a Euclides e outros. Até as épocas das narrativas eram desencontradas.

Nota ao Aprendiz – Ainda hoje há irmãos maçons que costumam sustentar mitos semelhantes, pretendendo levar a origem da Maçonaria a tempos imemoriais. Outros procuram convencer que toda e qualquer personalidade ilustre seja ou tenha sido maçom.

Já no século passado, os estudos de Findel e outros abalaram todos os mitos pelos quais a Maçonaria seria originária do Egito, da Grécia, do Templo de Salomão, dos Essênios, dos cretenses e de outras fontes “antiquíssimas”. A maioria dos Corpos Maçônicos deste século já não admite as supostas “derivações” da Maçonaria, muitas delas engendradas pelos “maçons aceitos” de quando iniciou a Maçonaria especulativa.

Por esse motivo, e também por apresentarem como “segredos” muitas lições vulgares da história da filosofia, muitas instruções anexas a rituais foram abolidas. A regra a cumprir, para com os maçons iludidos ou mitômanos, é a tolerância, mas sem prejuízo do constante esclarecimento.

A par de tais lendas que liam para os recipiendários, os maçons operativos mantinham seus regulamentos profissionais e tradições.

As “obrigações” (“old charges”) deviam ser integralmente respeitadas, bem como os preceitos da ética do oficio. Várias dessas obrigações se conservaram até na Maçonaria especulativa e se tornaram “landmarks” ou lindeiros. A palavra “landmark” significa limite entre países ou territórios, mas entre os maçons veio a significar marco ou regra instransponível e imutável.

A legitimidade das antigas obrigações foi revelada mediante referências históricas, leis, bulas, papeis, inclusive decretos governamentais e clericais que tinham por escopo perseguir os maçons e proibir as reuniões das Lojas. Além desses recursos da história, havia os antigos “manuscritos”. Vários desses documentos eram reproduções ou cópias de escritos mais antigos. Outros eram realmente falsificados. A “velha Constituição de York, do ano de 925”, outorgada numa Convenção convocada pelo príncipe Edwin, filho do rei Athelstan, não passou de mistificação, que o maçom Findel e outros viriam a desmascarar.

Porém, por esse fato não há que negar os maçons operativos narravam a lenda de Athelstan e seu filho Edwin. Essa lenda consta, por exemplo, do livro conhecido por “Poema Régio”, mas cujo nome verdadeiro e “Hic Incipiunt Constitutiones Artis Geometriae Secundum Euclydem” (Aqui principiam as constituições da arte da geometria, de acordo com Euclides, ou Princípios Constitucionais da Arte). James O. Halliwel, 1840, encontrou esse livro, escrito em pergaminho, na Real Biblioteca, do British Museum. Atribui-se a obra ao século XV. Trata-se de uma “constituição” à maneira adotada pelas fraternidades e organizações profissionais da época. O poema contém 794 versos, nos quais se constam as lendas da fraternidade de pedreiros, as regras morais da “boa geometria”, os deveres dos companheiros nas suas relações mútuas e para com os senhores e proprietários.

Euclides, “por inspiração de Cristo”, teria ensinado as sete ciências e, certa vez, teria sido contratado para ensinar a Geometria aos jovens da nobreza do Egito. A “arte” se espalharia pelo mundo e teria chegado à Inglaterra (Ilha dos Santos). Certa vez, o rei-arquiteto Athelstan teria promovido uma convenção, na qual se teriam promulgado quinze principais artigos e quinze pontos fundamentais. O documento menciona o martírio dos “Quatro Coroados”, santos conhecidos por essa denominação que, por sua vez, viria a ser um atributo da “arte” (“Ars Quatuor Coronatorum”). Seguem-se as lendas da Torre de Babel, “construída muito depois do dilúvio e, em certa ocasião, dirigida pelo rei Nabucodonosor”. “Os construtores da torre se tornaram tão vaidosos que o Senhor os castigou, enviando-lhes um anjo que lhes confundiu a linguagem”. Consta do documento os significados morais das sete ciências e as regras da fraternidade.

Outro documento relevante, embora de tradução infiel, é o dos regulamentos profissionais da Fraternidade de Pedreiros (talhadores e escultores de pedra) de Estrasburgo. Esses estatutos teriam sido aprovados em Spira, em 1464 e ratificados em Ratisbona cinco anos depois, trata-se de uma verdadeira constituição da Ordem, na qual se consignam as regras de ética profissional, a admissão dos aprendizes, o tempo de aprendizado, o respeito aos planos e aos contratos de obra. Na confraria só podiam ser admitidos homens livres e de boa formação moral e familiar. Era proibido aos mestres confiar trabalhos aos companheiros que viesse amancebado ou passasse “a viver desregradamente com mulheres”, ou fosse jogador a tal ponto que dele se pudesse dizer “que havia apostado as próprias vestes”. O dever religioso, inclusive os de confessar e comungar, era imposto aos obreiros.

Outro “documento”, a chamada “Carta de Colônia”, atribuída ora aos jesuítas, ora a Frederico de Nassau, não passa de mistificação. Entre os demais documentos citados pelos historiadores maçônicos, podem mencionar-se a lei do Conde de Santo Albano (1663), o manuscrito Harley (1670), existente no Museu Britânico e escrito por Randle Holmes e o “Velho Manuscrito”, assinado por William Bray e escrito por Robert Cleark (1686). Os Estatutos Shaw, da Maçonaria Escocesa, foram publicados no final do século XVI (1598-1599).

Do confronto de todos os documentos e regulamentos e, mais, do que se pode concluir das referências históricas, resulta uma síntese de várias regras que se impunham aos maçons, entre as quais:

I – a de cumprir os mandamentos da Igreja, respeitar os sacramentos e confessar e comungar periodicamente;

II – a de respeitar as leis e as autoridades constituídas e de nunca tomar parte em sedições;

III – a de seguir os preceitos da “moral da boa Geometria”, de modo a viver de acordo com os bons costumes, a não se entregar ao jogo e a outros vícios, a mulheres de vida fácil, ao adultério e ao concubinato;

IV – a de somente admitir nas corporações e confrarias candidatos livres, de boa família (no sentido moral) e de bons costumes e boas referências (“good reports”);

V – a de não se admitirem jamais candidatos portadores de defeitos físicos ou doentes;

VI – a de os obreiros cumprirem os contratos de construção, de modo a contentar os proprietários e senhores, seguindo suas as ordens e condições combinadas e cuidando de terminar e entregar a obra no tempo ajustado;

VII – a de não se admitirem novos companheiros sem a licença do mestre da circunscrição e sem prévia comunicação às lojas da região, mediante a fixação de um pergaminho a uma prancha ou tábua colocada de modo ostensivo;

VIII – a de dar conhecimento à assembleia geral dos fatos que interessavam à fraternidade, inclusive admissões;

IX – a de comparecer periódica ou anualmente à assembleia geral, para tomar conhecimento das resoluções e receber conselhos e instruções sobre a Arte, sobre os salários a serem pagos e sobre a maneira de bem servir aos mestres, aos senhores e aos proprietários;

X – a de eleger mestres entre os companheiros mais experimentados e mais versados na Arte;

XI – a de cumprir as regras de fidelidade e fraternidade entre os companheiros e reservar “troncos” para os necessitados;

NotaDe certos regulamentos se vislumbra que o “tronco” se referia também a honorários pagos na conclusão das obras.

XII – a de os aprendizes serem sujeitos a prestar serviços aos mestres durante um determinado número de anos (na Alemanha se exigiam cinco anos e na Inglaterra sete); e a de os companheiros (aspirantes) praticarem o ofício em várias obras (três, pelo menos) e viajarem, antes de conseguirem a plenitude de seus direitos.

Nota – Referências históricas demonstraram cabalmente que esses prazos não eram iguais em todos os lugares e que a habilidade profissional era levada em consideração, de modo a se encurtarem os “interstícios”. Porém, houve época em que os mestres das diferentes profissões artísticas prolongavam, a seu bel-prazer, o tempo de aprendizado e faziam outras exigências, aproveitando-se da situação privilegiada de que desfrutavam como principais contratantes nas encomendas, e das condições regulamentares para aprovar a concessão, de cartas, licenças ou franquias. Certos regulamentos exigiam que o companheiro, para ser admitido ao trabalho, exibisse ainda a carta de apresentação de mestres e companheiros experimentados.

Por outro lado, revela considerar a tradição universitária que a Maçonaria herdou no que tange ao seu humanismo e à sua filosofia. Os estudantes da Idade-Média também se reuniam em corporações. Pagavam os professores, contratavam os mestres e os despediam. Desse modo é que fundaram as universidades.

Na Itália, na Espanha e no sul da França, as universidades seguiam o padrão de Bolonha. Nessas instituições se ensinavam o “trivium” (Gramática, Retórica ou Dialética e Lógica) e o “quadrivium” (Aritmética, Geometria, Música e Astronomia), mais ou menos na seriação secular instituída por Boécio. Para o estudante conseguir a carta de “mestre” era exigido um curso que durava sete anos ou pouco mais, pois o “trivium” exigia quatro ou cinco anos e o “quadrivium” o tempo restante.

As sete ciências, porém, não tinham o sentido atual. O seu ensinamento era filosófico e humanístico, isto é, mais ou menos como ocorre na Maçonaria.

As sociedades secretas estudantis resultam de tradições das universidades. A Maçonaria, por sua vez, contém muita coisa das tradições das universidades, quer por se inspirar nas práticas dos antigos Pedreiros-Livres, para os quais a Geometria era também uma ciência moral, quer porque os maçons mais versados do passado, e depois os “aceitos”, cuidariam de manter os melhores princípios das corporações, inclusive os das universidades.

Essa conclusão resulta de qualquer livro de história, como, por exemplo o de McNall Burns, 1º vol., Parte 4.

Constituída a Grande Loja Inglesa, em 1717, os seus principais fundadores cuidaram de reunir os velhos regulamentos, as lendas e tradições dos maçons e as antigas “obrigações” (old charges).

Em 1718, George Payne é eleito Grão-Mestre da Grande Loja e manda consolidar os regulamentos, usos e obrigações constantes de velhas cópias. Em 1719 é eleito Grão-Mestre o reverendo João Teófilo Desaguliers, que ao lado de James Anderson, fora um dos principais fundadores da Grande Loja.

George Payne, novamente eleito para o grão-mestrado em 1720, manda completar as compilações iniciadas em 1718. Surgem e se definem, por conseguinte, as Trinta e Nove Regras Gerais (“General Regulations”) condensadas nos conhecidos Regulamentos Gerais. No mesmo ano, por motivos que se ignoram, foram queimados preciosos manuscritos da antiga Maçonaria. O fato foi lamentável, embora existissem velhas cópias nos museus e velhos documentos nas Lojas que ainda não pertenciam à Grande Loja Inglesa.

Nota – Vários maçons autênticos, inclusive os que não eram católicos, atribuíram essa queima de documentos à preocupação de se ocultar a origem clerical da Maçonaria, pois os fundadores da Grande Loja Inglesa eram protestantes, na sua maioria. Não há muito fundamento em tal suposição. No mais, seria impossível ocultar que os Pedreiros-Livres e Canteiros eram católicos e que a primeira fase da Maçonaria operativa medieval pertencia aos monásticos. Isso não quer dizer que a Maçonaria seja uma derivação de Igreja Católica, eis que releva ponderar muito mais as tradições das corporações e fraternidades do que as circunstâncias em que essas organizações vicejaram.

O ilustre maçom autêntico Albert Lantoine, autor de “Lês Societés Secretes actuelles em Europe et en Amérique” (Paris 1940), é um dos que abonam a insinuação.

As Regras gerais viriam a ser aprovadas na data de S. João de 1721. Aos 17 de janeiro de 1723 foi aprovado pela Grande Loja Inglesa o tradicional LIVRO DAS CONSTITUIÇÕES, impropriamente conhecido por Constituição de Anderson, pelo fato de este fundador da Grande Loja haver-se dedicado ao projeto e compilado as velhas lendas, usos, costumes e “antigas obrigações”, tudo acrescido às “Regras Gerais”.

Do confronto histórico resulta que o trabalho de Anderson não foi muito fiel a tudo quanto revelaram as velhas cópias. As lendas do passado, mais ou menos alteradas, se acrescentaram outras, principalmente aquelas inspiradas na Bíblia, como conviria a bons ministros e pastores protestantes.

Contudo, a modificação foi salutar, pois a Bíblia é um dos maiores monumentos morais do mundo.

A chamada Constituição de Anderson se impôs como padrão de qualquer organização maçônica regular, isto é, fundada nos princípios da Maçonaria Universal, da qual a Grande Loja da Inglaterra é a “alma mater”.

Cumpre lembrar que no tempo de Anderson ainda havia uma corrente católica, mais ligada à antiga Maçonaria Escocesa. Essa corrente era também política, pois era partidária dos Stuarts. O Cavaleiro Ramsay pertencia a essa corrente.

Mais tarde se operou a unificação da Maçonaria inglesa.

O atestado mais definido dessa unificação é o tradicional RITO DE YORK, condensado num livro denominado “Landmarks”, Leis Básicas e Cerimônias dos Três Graus Simbólicos da Arte Maçônica, chamada, às vezes, RITO DE IORQUE, por terem compiladas, elaboradas e organizadas por representantes de todas as Lojas consideradas regulares reunidas na cidade de Iorque, na Inglaterra, em 1815, tais como foram aprovadas, confirmadas e sancionadas pela Grande Loja da Inglaterra, em 1815. O ritual também é, chamado de Ritual dos Maçons Antigos, Livres e Aceitos.

Em 1813 já havia ocorrido a formal unificação da Maçonaria inglesa, com a constituição da Grande Loja Unida (27 de dezembro de 1813, data de S. João Evangelista). A união das Grandes Lojas inglesas governadas pelos duques de Kent e de Sussex tinha sido preparada desde o começo daquele ano. O duque de Kent renunciou ao grão-mestrado para facilitar a unificação. Assim, se consumou a união de “Antigos” e “Modernos”.

Já então a Maçonaria se havia espalhado pelo mundo, com suas Lojas, algumas abraçando regras mistas e outras seguindo ou escolhendo entre regras da Grande Loja da Escócia e as regras da Grande Loja Inglesa.

Surgiram, por sua vez, vários ritos e rituais.

A Grande Loja da Escócia foi fundada aos 15 de outubro de 1736, em Edimburgo.

O Grande Oriente de França foi fundado oficialmente aos 24 de dezembro de 1772, mas a Maçonaria francesa já existia desde muito antes, quer sob a égide da Grande Loja Inglesa, quer de maneira independente. Sabe-se que em 1730 já existia a “Grande Loja Inglesa de França”. Em Paris havia a “Ordem dos Franco-Maçons do reino de França”, fundada aos 27 de dezembro de 1735.

Na Alemanha, as Lojas trabalhavam sob o sistema da Grande Loja da Inglaterra. Em, 1766, um mágico profissional hábil, prestidigitador, artista genial e homem culto de nome Schröder, funda o “Capítulo de Antigos e verdadeiros Franco-Maçons” e, depois, cria o belíssimo rito que tem o seu nome, com os três graus do simbolismo sob o nome de “Rito Retificado de Rosa-Cruz”.

Em suma, a Maçonaria se pratica por vários ritos ou métodos. De um modo geral, esses métodos conduzem o maçom ao mesmo resultado de aperfeiçoamento moral. Como afirmava Pascal, os homens se aperfeiçoam e conquistam a verdade seguindo os ritos.

As Lojas do mundo os congregam em Grandes Orientes ou Grandes Lojas, governadas pelos respectivos Grão-Mestres. Por sua vez, esses Altos Corpos se relacionam como as nações, por meio de troca de representantes, correspondências, tratados de amizade e confirmações de relacionamento mútuo. Não há poder maçônico internacional. As reuniões universais se efetuam por meio de Congressos e Convenções.

O templo doutrinário da Maçonaria

Dir-se-ia, pois, que o Templo Maçônico foi erguido com o melhor material produzido pela humanidade. Ergueu-se com os alicerces da História. Suas paredes foram levantadas com tijolos e pedras iguais, que representariam a manifestação do espírito humano e o denominador comum de todas as crenças. Todos os componentes do edifício maçônico se entendem ligados com a argamassa da comunhão universal. Enfim, os ornamentos do Templo completariam a síntese de todas as ideias dirigidas para um mundo melhor.

E o melhor paradigma para o Templo Maçônico não podia ser outro que não o Templo de Salomão. A Davi, que manchara as mãos de sangue, não fora concedido erguer o Templo (Crônicas, 28/3), de cuja obra possuía os projetos (Crônicas, 28/11 a 21 e Cap. 29). A tarefa haveria de caber a seu filho Salomão, que apelou para Hirão, rei de Tiro, monarca suserano e aliado a Davi. O rei Hirão enviou a Salomão o artífice, metalista e arquiteto Hirão Abi, filho de uma viúva da tribo de Neftáli (Reis, I, caps. 5, 6 e 7 e Crônicas ou Paralipômenos, caps, 2, 3 e 4).

ObservaçãoNo Rito Adoniramita (Adon-Hiramita) é preferido Adonirão e Hirão-Abi (V. I-Reis, 5/14).

Assim, foi edificado o Templo de Jerusalém, com pedras já preparadas nas pedreiras, de maneira que nem martelo, nem machado, nem instrumento algum de metal se ouviram na casa, enquanto a construíam (I, Reis, 6/7). O mesmo se dá com a Loja maçônica dedicada à construção do mundo melhor. O seu trabalho não se ouve lá fora.

FINIS

Autor: Jeffson Magnavita Barbosa Filho

Fonte: página da ARLS De Campos Ribeiro, 51

Referências

Ritual do Aprendiz Maçom – Edição de junho/2006.

Curso de Maçonaria Simbólica – (I Tomo) Theobaldo Varoli Filho – Editora – A Gazeta Maçônica

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As Sete Artes e Ciências Liberais – Parte I

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As Sete Artes Liberais. Livro de registro da biblioteca da Universidade de Tübinger (séc. XV).

As “Sete Ciências Liberais” da Antiguidade e sua significação Maçônica e, a reminiscência monástica introduzida na Maçonaria.

Na Maçonaria se mencionam muito as sete ciências liberais da antiguidade: Gramática, Retórica, Lógica, Aritmética, Geometria, Música e Astronomia. Os pedreiros-livres medievais enalteciam essas artes, nos seus regulamentos, envolvendo-as de lendas “secretas”. Numa época de menor divulgação da cultura, anterior à deste século, os maçons, ingenuamente, acreditavam também que essa arcaica seriação de ciências e artes fosse um mistério incomunicável a profanos, quer porque tivesse relação com o número sete, quer porque, de acordo com a opinião de “entendidos”, podiam representar os degraus que levam o maçom até o trono do Oriente, desde a Grade, como também poderiam ser o significado de certas escadas simbólicas.

A verdade é que as “sete ciências” ou “ artes” eram tudo quanto conheciam os antigos, ainda que os gregos se tivessem referido à física, à filosofia (Pitágoras) e a química fosse desconhecida, pois era praticada já no antigo Egito.

Ocorreu que Boécio (470-525), poeta e filósofo, secretário de Estado ou ministro do monarca ostrogodo Teodorico e, por ordem deste rei, condenado e decapitado, criou a divisão “trivium et quadrivium”, estabelecendo a seriação pela qual as três primeiras ciências deveriam ser a Gramática, a Retórica e a Lógica, e as quatro restantes a Aritmética, a Geometria, a Música e a Astronomia.

Boécio foi autor da Consolação da Filosofia, na qual ensinava a vencer as paixões para conquistar a paz de espírito, a felicidade e a comunhão com Deus. Seu contemporâneo, o macróbio Cassiodoro (468-561 ou mais), depois de ser ministro de Teodorico, retirou-se para um convento que resolvera fundar numa sua propriedade da Apúlia, na Itália, e ordenou aos monges que passassem a copiar os manuscritos antigos e a estudar e praticar as “sete artes liberais”.

Essa prática passou a ser seguida pelos beneditinos, monges da Ordem de São Bento, fundada em 529, em Monte Cassino, cujo célebre mosteiro viria a ser destruído pelos lombardos, em 580.

Os beneditinos foram os principais divulgadores da cultura na Europa medieval. Dedicavam-se ao arroteamento de terras e a vários ofícios e, ao mesmo tempo, entregavam-se aos estudos e à religião. Construíam seus próprios conventos e assim a constituir a Maçonaria monástica (ver nota, mais adiante).

Quando passaram, em parte, a dedicar-se às construções, os beneditinos disseminaram a arte românica. Depois criaram a própria arte beneditina. Congregando como irmãos (frates), nas oficinas que dirigiam os profissionais leigos da arte da construção, chegaram a monopolizar a edificação até o advento da arquitetura gótica, preferida para as catedrais.

A Ordem beneditina criou outras corporações monásticas.

Em 910, beneditinos dispostos a recuperar a severidade monástica, então em decadência, fundaram a célebre abadia de Cluny.

E, 1098 foi fundada a Ordem de Cister, no retiro de Dijon, perto de Citeaux, na França. Entre os monges cistercienses haveriam de surgir operosos construtores e seguidores do exemplo dos beneditinos, seus antecessores e fundadores. Ainda hoje há exemplos de monastérios construídos pelos atuais cistercienses, entre os quais há o Irmão Arquiteto.

Porém, os artistas leigos da construção, seguidores de uma profissão nobre e de velhíssima origem, não ficariam muito tempo sob a total dependência dos monásticos.

Entretanto, quando passaram a construir a Maçonaria-Livre, os profissionais da construção, católicos de religião, haveriam de conservar vários ensinamentos monásticos. Desse modo, as sete artes liberais continuaram a figurar nos seus códigos e regulamentos. Quanto às sete artes, a Maçonaria atual conserva o simbolismo moral e disciplinar que a elas emprestavam os obreiros medievais.

A Gramática, sistematização dos fatos da linguagem, a Retórica, arte da boa expressão e norma de eloquência, e a Lógica, ciência do método, ou da investigação da Verdade, ensinam que o maçom deve aperfeiçoar-se no falar e escrever, manifestar-se de maneira clara e dizer sempre a Verdade. Em suma, o maçom deve falar pouco e dizer muito.

A Aritmética, ciência das propriedades dos números e a Geometria, medida da extensão, ensinam ao maçom o dever de contar e medir as próprias ações e palavras. Essa regra se aplica principalmente àqueles obreiros que comparecem às Lojas para mostrar os seus dotes oratórios e cansarem a assistência com os seus discursos carregados de rançoso lirismo. Entre esses maçons há aqueles que se entregam a dar conselhos que ninguém pede e a recomendar aos aprendizes o dever de frequentar as sessões. A Maçonaria não é qualquer instituição acaciana e, muito menos, uma ordem que precisa mendigar o comparecimento de seus obreiros.

A Música lembra, em primeiro lugar, a harmonia que deve reinar entre os obreiros e os acordes de consonância. Lembra, mais, que o som afinado corresponde a uma frequência exata ou número certo de vibrações por segundo.

A Astronomia demonstra, antes de tudo, a perfeição da obra do Grande Arquiteto do Universo. Ensina, mais, o movimento aparente dos astros, a rotação e a translação da Terra, a lei da atração universal (Newton) e tudo quanto mais a ciência dos astros possa proporcionar ao simbolismo e ensinamentos maçônicos.

Nota – Fundação da Ordem de São Bento.

Fundada por São Bento, em 529, a Ordem Beneditina teve por berço o afamado mosteiro de Monte Cassino, na Itália. A própria Ordem construiu o mosteiro que em 580 viria a ser destruído, pela primeira vez, pelos lombardos.

A cultura medieval é, de um modo geral, privativa das ordens monásticas, principalmente a dos beneditinos, havidos como os “únicos eruditos” da Idade Média. Os beneditinos mais versados sempre se distinguiram nas letras e nas ciências e depois nas artes, inclusive a de construir. Os demais se dedicavam ao arroteamento de terras e ao plantio.

Foram os beneditinos que transcreveram, traduziram e interpretaram as obras gregas e romanas, bem como escritos e documentos do Oriente. Disseminaram a cultura medieval europeia e serviram de exemplo a outras ordens religiosas que surgiriam posteriormente. Encarregaram-se da missão de converter “pagãos” por toda a Europa. Na arte de construção, passaram a monopolizar e a dirigir a maçonaria operativa. Começaram pelo estilo românico. Depois implantaram na arquitetura as próprias características beneditinas e, mais tarde, também se dedicaram à Arquitetura Gótica. Associados aos pedreiros e canteiros fundaram autênticas organizações fraternais, as quais, por ordenamentos, costumes e certas cerimônias, seriam uma espécie primitiva de Lojas maçônicas.

Foi em 597 que os beneditinos se dirigiram à Inglaterra, (chamada Ilha dos Santos) e fundaram a abadia (não a catedral gótica) de Cantuária (Canterbury). No século VII, espalhando-se pela Alemanha, fundaram a abadias de Ettenheim, Lauresheim, Prüm, Monse, Hirschfeld, Fulda e outras. Da Alemanha passaram à Dinamarca, depois à França, pátria do estilo gótico e, enfim a quase toda Europa.

OS CISTERCIENSE – A Ordem de Cister, instituída, em 1098, foi fundada pelo abade De Molésme, no retiro de Citeaux, perto de Dijon, França. A princípio os cistercienses, como os beneditinos, seus inspiradores, se dedicaram ao ensino gratuito e à agricultura. Posteriormente, por seus mestres e arquitetos, passaram a erigir grandes catedrais e grandes construções, seguindo o exemplo dos beneditinos, seus mestres e fundadores.

AS CATEDRAIS – Na Idade Média a catedral não era uma simples sede religiosa ou uma igreja comum. Era realmente o centro das comunicações. Quase sempre abrangia uma escola gratuita, biblioteca e até uma sede de câmara municipal. O povo contribuía para a construção de grandes igrejas e havia, entre os habitantes de várias cidades, a emulação no sentido de construir catedrais maiores, mais altas e mais imponentes do que as outras.

Nota ao Aprendiz – Na Maçonaria atual ainda se preconiza o exemplo das antigas catedrais. Recomenda-se às Lojas para que se esforcem no sentido de se tornarem o centro social de todos os assuntos de seu “Oriente”.

Continua…

Autor: Jeffson Magnavita Barbosa Filho

Fonte: página da ARLS De Campos Ribeiro, 51

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Considerações sobre o Poema Regius, do século XIV

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O presente texto tem como objetivos:

  • situar, brevemente, um poema do final do século XIV – conhecido como Poema Régio – entre documentos denominados Old Charges (Antigas Obrigações);
  • explicar as características básicas do texto;
  • oferecer uma tradução sintética do seu conteúdo e,
  • contextualizar os dados considerados mais relevantes para a compreensão mais acurada de determinados aspectos da história da nossa Ordem.

I

A História mais antiga da nossa Ordem está cercada, de um lado, de imprecisões e lacunas e, de outro lado, de muitos dados fantasiosos, sem qualquer comprovação, geralmente arrolados ao léu. Falta, de modo habitual, conhecimento de metodologia de pesquisa científica a inúmeros daqueles autores que acabam elaborando teses mirabolantes e, assim, desejam recuar os primórdios da instituição a tempos imemoráveis, não-documentados e míticos. Contudo, entre suposições e dados documentais há enorme distância.

Parece evidente, no entanto, que haja vínculos estreitos entre a organização da nossa Ordem e a estrutura de algumas corporações de ofício medievais e que também a instituição tenha herdado traços diversos de outras ordens iniciáticas, sobretudo no que respeita ao embasamento filosófico, em especial das correntes neopitagóricas, neoplatónicas e similares. Todavia, este tema, em especial, é complexo o suficiente para gerar um outro trabalho. No ocaso da Idade Média, a corporação dos editores (sem dúvida, posterior ao ano de 1455, data em que Johan Gutenberg teria iniciado a reprodução mecânica de textos impressos) também mostra uma organização assemelhada em diversos aspectos à dos construtores medievais.

Desde três séculos para cá, existem documentos baseados em fatos históricos comprovados, sobretudo depois da constituição da Grande Loja de Londres, em 1717. No entanto, há outros, mais antigos, que têm importância seminal para compreender diversos fatos históricos relacionados com a nossa Ordem. As chamadas Old Charges (Antigas Obrigações) são manuscritos do final da Idade Média e do início da Idade Moderna usados pelas corporações dos Maçons Operativos Talhadores de Pedra e que foram encontrados, basicamente, na Inglaterra e na Escócia, e recobrem um período que vai do final do século XIV ao ano de 1748. Na verdade, os antigos manuscritos que, grosso modo, fazem referência tanto à Maçonaria Operativa medieval, quanto à Maçonaria Especulativa moderna, eram contabilizados, em 1872, por William James Hughan, como um total de 32 documentos. Em 1889, já se mencionavam 62, e o próprio Hughan, em 1895, falava da existência de 66 manuscritos, mais nove versões impressas e onze desaparecidas, num total de 86 documentos. No começo do século passado, em 1918, o Ir∴ Roderick H. Baxter, V∴ M∴ da Loja Quatuor Coronati, listou nada menos de 98 , incluindo as versões em falta.

Entre outros, fazem parte do que se denomina Old Charges:

  • o Poema Regiuscirca 1390;
  • Manuscrito de Cooke, de 1410, descoberto por Matthew J. Cooke, divulgado sob forma impressa em 1861, redigido em prosa de 930 linhas; 19 artigos sobre a história da Arquitetura e Geometria, quatro relativos à vida social dos maçons, nove conselhos de ordem religiosa e moral; o historiador Wilhelm Begemann indica a cidade inglesa de Gloucester como provável origem do documento e também há quem o date de 1430 ou 1440;
  • os Estatutos de Schaw, de 1598, referem-se a estatutos promulgados por William Schaw, na Escócia, a quem se faz menção como “mestre dos maçons” (Maister o’ Work Warden General o’er a’ the masons), na Loja Kilwinning, em Ayrshire, e cujos registos parecem remontar a 1140;
  • Manuscrito de Aitchison´s Haven, de 1598, no Condado de Midlothian, Escócia, contém um livro de balaústres da Loja de Edimburgo;
  • Manuscrito de Inigo Jones, de 1607, que, nomeado mestre dos maçons, na Inglaterra, organiza lojas no estilo das academias italianas e incentiva a ingressar na instituição personagens desejosos de adquirir cultura;
  • Manuscrito de Melrose, de 1674, balaústres da Loja Melrose Saint John, de Newstead, na Escócia, 258 páginas, que contam a história das reuniões de 1674 até 1792; o brasão de armas da Loja Melrose , gravado em madeira, remonta a 1156.

II

O chamado Poema Regius, datado supostamente de 1390, parece ser um dos elos mais antigos capazes de ligar, em definitivo, a Maçonaria Operativa à Maçonaria Especulativa. Trata-se de um manuscrito de 64 páginas, em pergaminho, de autor anônimo, que se encontra hoje no Museu Britânico. Foi catalogado como A Poem of Moral Duties: here entitled Constitutiones Artis Geometriae secundum Euclydem (Um Poema de Obrigações morais, aqui intitulado como as Constituições da Arte da Geometria, segundo Euclides), com metade do título em inglês e outra metade, em latim. O rei inglês George II, em 1757, apresentou-o à nação e mandou depositá-lo na abadia de Westminster. O antiquário James Orchard Halliwell-Phillips (1820-1889), um renomado especialista em Shakespeare, revelou o real sentido do manuscrito redigido em inglês medieval. Entre 1838-39, apresentou à Sociedade dos Antiquários de Londres um trabalho intitulado On the Introduction of Freemasonry in England (Sobre a Introdução da Franco-Maçonaria na Inglaterra) e, com isto, chamou à atenção de muitos Irmãos nossos (interessados em pesquisa séria sobre a História da Ordem) para as reais ligações entre maçons operativos e especulativos. Em 1844, Halliwell revisou e ampliou o seu texto e acrescentou-lhe uma cópia fac-simila do original. No ano de 1889, um fac-simile exato foi publicado no volume primeiro das Antigrapha da Lodge Quatuor Coronati, editado pelo secretário da Loj∴, Ir∴ George William Speth, com glossário indispensável e comentários do Ir∴ R.F. Gould.

Poema Regius está composto de quinze artigos e quinze pontos, alguns comentários introdutórios e uma longa peroração final. Trata-se de um poema – mas com rimas pobres-, com 794 linhas, redigido em inglês arcaico, contemporâneo a Geoffrey Chaucer [1]. Supõe-se que o manuscrito tenha sido copiado de um texto mais antigo e há indícios de que, ou o copista, ou o autor do texto original. tenha sido um padre, face às alusões que faz à cristandade, à necessidade de frequentar a igreja –

“o próprio Cristo ensinou-nos que a sagrada igreja é a casa de Deus, feita para nada mais do que para rezar, como nos ensina o Livro”- [(…) For Christ hymself, he techet ous/ That holy churhe ys Goddes hous,/That ys y-mad for nothynge ellus/but for to pray yn, as the bok tellus, linhas 87: 90, no original].

Há trechos que aludem, de modo transparente, à visão esposada pela igreja católica – os sete pecados capitais e o culto a Maria (que aparece somente no Poema Regius e em nenhum outro manuscrito das Old Charges). Nos versos finais, há claras instruções a respeito da maneira de se comportar dentro da igreja, como proceder durante a missa, como se ajoelhar, etc. Aparecem, ainda, menções ao pensador Santo Agostinho (354-430 d.C.), a personagens bíblicas, aos procedimentos a serem adotados na presença de nobres, às boas maneiras à mesa e nas ruas.

Há trechos em latim medieval, com evidentes erros de ortografia e/ou transcrição e, a certa altura, o texto faz menção ao rei inglês Athelstan [2], insinuando que teria sido ele o responsável pela regulamentação da Maçonaria (Operativa) na Inglaterra. A primeira linha do poema está em latim (já se notam os erros mencionados) e reza o seguinte: 

Hic incipiunt constituciones artis gemetriae secundum Eucyldem [sic] (Aqui começam as constituições da Arte da Geometria, segundo Euclides).

O texto menciona, na parte final, personagens bíblicos, como é o caso de Noé, refere-se à torre da Babilónia, ao rei Nabucodonosor II [3], ao dilúvio, à perda dos conhecimentos relativos à construção e ao fato de o erudito Euclides [4], muitos anos depois, ter ensinado novamente a arte da Geometria (recuperando, portanto, o conhecimento perdido) e, ao todo, as sete ciências, ou seja, as Sete Artes Liberais do mundo antigo. O narrador, em primeira pessoa, afirma que a Gramática é a primeira ciência de que tem conhecimento e, a seguir, enumera as outras seis: Dialética, Retórica, Música, Astronomia, Aritmética e Geometria; assevera, também, que a Geometria

“pode separar a falsidade da verdade” [ (…) con deperte falshed from trewthe, linha 574, no original].

III

Em linhas gerais, é possível concluir que o texto faz referência explícita à Maçonaria Operativa medieval, na medida em que menciona “grandes senhores” aos quais os Mestres Maçons estariam ligados, o que permite supor, corretamente, que tenham sido os nobres que contratavam a construção de castelos, catedrais, fortalezas, etc. Há uma série de alusões marcantes ao ambiente socioeconómico, político e cultural da Idade Média europeia e, particularmente, inglesa, como, por exemplo, a figura do xerife de um condado. No entanto, levando-se em conta uma sociedade, como a medieval, em que as classes sociais eram estanques e separadas, o papel da nobreza e da igreja era preponderante, não deixa de ser surpreendente ler, no Ponto Nono do texto que “todos os homens devem ser igualmente livres” e que a equidade no comportamento deveria ser observado tanto em relação a homens, quanto a mulheres.

A partir do texto, não fica muito claro se, de fato, os construtores medievais consideravam a existência de três graus diferentes na escala de conhecimentos, ou seja, Aprendiz, Companheiro e Mestre, uma vez que o texto cita a figura do Aprendiz (que devia ser subordinado a um Mestre), a do Mestre e, em sucessivas passagens, refere-se a Companheiros, mas não há clareza quanto ao fato de o termo significar, literalmente, “companheiro” ou referir-se a “todos os integrantes da confraria”. Convém lembrar que com o surgir da Grande Loja Unida de Inglaterra, em 1813, quando os Antigos e Modernos concordaram em trabalhar sob comando único, estabeleceu-se em definitivo, que

fica declarado e promulgado que a pura Antiga Maçonaria consiste de três graus e não mais , isto é, Aprendiz, Companheiro e Mestre Maçom, incluindo a Suprema Ordem do Sagrado Real Arco”.

A simples leitura dos quinze artigos do Poema Regius permite, no entanto, perceber inúmeras e claras interrelações entre operativos e especulativos e a existência de um rígido código ético.

É interessante mencionar que, em 1968, Henry Carr [5] afirmava o seguinte:

“Insisto, contudo, que a nossa Franco-Maçonaria atual, especulativa, é descendente direta da maçonaria operativa, cujos princípios podemos fazer retroceder aos mais antigos registos referentes à organização entre construtores, em 1356”.

Uma década mais tarde, Carr voltaria a dizer:

“A transição da maçonaria operativa para a especulativa não representou a substituição de uma atividade antiga sob nova direção. Era a atividade antiga, que, gradualmente, alterou o caráter, segundo as necessidades da sua época, mas com continuidade perfeita” [6].

Todavia, ao longo do século XX, nada menos que dez teorias diferentes desfilaram nas páginas do Ars Quatuor Coronatorum, publicação oficial da Loja Quatuor Coronati [7], muitas delas contraditórias entre si.

McLoughlin [8], por seu turno, lembra que documentos históricos autênticos mostram a existência, durante a Idade Média, de construtores de catedrais e outras obras que eram chamados de “Free and Accepted Masons” (Maçons Livres e Aceitos), chamados de operativos, e a designação recobria vários profissionais, inclusive carpinteiros. Aos poucos, prossegue, burgueses, nobres e até mesmo reis foram iniciados, gradualmente, como “especulativos”. Sublinha a existência de inúmeras lojas na Europa, nos séculos XV, XVI e XVII e menciona as atas, de 1599, da Loja Maçónica de Edimburgo nº 1.

IV

Segue, abaixo, resumo traduzido do texto, na ordem em que estão relacionados os artigos, pontos e outros dados no poema:

  • Artigo 1º – o Mestre Maçom deve ter segurança absoluta no conhecimento da Geometria e deve pagar os Companheiros corretamente;
  • Artigo 2º – todo Mestre Maçom deve comparecer às assembleias da Ordem;
  • Artigo 3º – um Mestre Maçom não deve aceitar qualquer Aprendiz, a menos que tenha certeza de que poderá conviver bem durante sete anos com ele e se estiver seguro de que o Aprendiz será capaz de aprender o ofício;
  • Artigo 4º – o Mestre Maçom deve supervisionar o trabalho do Aprendiz que, por sua vez, deve ter boa índole;
  • Artigo 5º – o Aprendiz não pode ser deformado para não fazer a Ordem passar vergonha porque faria mal à instituição e deve ser um homem forte;
  • Artigo 6º – o Mestre Maçom, convém sublinhar, deve ser perfeito na sua Arte e deve transmitir absolutamente tudo ao Aprendiz;
  • Artigo 7º – um Mestre Maçom não deve, em hipótese alguma, dar abrigo a ladrões ou assassinos, a fim de não envergonhar a Ordem;
  • Artigo 8º – um Mestre Maçom deve substituir, imediatamente, qualquer membro da Ordem que não corresponder às expectativas e necessidades;
  • Artigo 9º – o Mestre Maçom deve ser sábio e forte e deve ser útil à Ordem, onde quer que vá;
  • Artigo 10º – todos devem ter ciência, acima e abaixo (na hierarquia), que nenhum Mestre Maçom deve tentar suplantar o outro, mas deve comportar-se como um Irmão e deve terminar o seu trabalho de modo correto;
  • Artigo 11º – nenhum Maçom deve trabalhar à noite;
  • Artigo 12º – um Mestre Maçom, onde quer que esteja, deve zelar para que nada possa depravar os seus Companheiros;
  • Artigo 13º – se o Mestre Maçom tiver um Aprendiz, deve instruí-lo o necessário para que ele se torne útil à Ordem, onde quer que vá;
  • Artigo 14º – nenhum Mestre Maçom deve tomar Aprendiz, a menos que seja capaz de instruí-lo e responder por ele;
  • Artigo 15º – o Mestre Maçom deve ser um instrutor amigo, não deve prestar falso juramento e jamais deve envergonhar a Ordem.

Ponto Primeiro – onde se congregarem Mestres Maçons, devem demonstrar amor a Deus e também aos seus Companheiros;

Ponto Segundo – o Mestre Maçom deve trabalhar dedicadamente, para merecer o descanso;

Ponto Terceiro – o Aprendiz deve levar a sério os conselhos do Mestre Maçom e dos seus demais Companheiros também, e nada do que vir ou ouvir em Loja poderá contar a qualquer homem no mundo;

Ponto Quarto – nenhum homem deve mostrar-se falso em relação à Ordem, ou prejudicar os Mestres Maçons e Companheiros, e todos devem obedecer às leis;

Ponto Quinto – o Maçom deve receber pagamento do Mestre, que deve avisá-lo, até o meio-dia, se não precisar dele depois [desse horário];

Ponto Sexto – se surgir inveja ou ódio entre Maçons, cabe a outro Maçom corrigi-los, para que convivam segundo as leis de Deus;

Ponto Sétimo – o Maçom deve respeitar a esposa do Mestre e do Companheiro;

Ponto Oitavo – o Maçom sempre deve ser um mediador positivo entre o Mestre Maçom e os Companheiros;

Ponto Nono – o Maçom deve servir aos seus Companheiros, dia após dia, sem buscar quaisquer vantagens e todos os homens devem ser igualmente livres; deve pagar todos os homens de modo correto e deve ser justo com todos os Companheiros, todos os homens e todas as mulheres e também deve registar o bem que os Companheiros fizerem;

Ponto Décimo – o Maçom deve viver corretamente, para não fazer recair sobre a Ordem vergonha alguma e, se cometer algo impróprio, será chamado à Assembleia para explicar-se diante dos seus iguais; e, se não aparecer, será punido conforme a lei que vem de tempos antigos (that was y-fownded by olde dawe, no original);

Ponto Décimo-Primeiro – o Maçom, se vir um Companheiro executar um trabalho de forma incorreta, deve admoestá-lo com palavras dóceis;

Ponto Décimo-Segundo – no local em que se realizar a Assembleia, deve haver Mestres Maçons e Companheiros (Ther schul be maystrys and felows also, linha 409, no original), e outros grandes Senhores, e o prefeito da localidade e o xerife do condado (There schal be the scheref of that contré / And also the meyr of that syté, /Knytes and sqwyers ther schul be,/ linhas 411;13, no original) cavaleiros também; e, se houver qualquer acusação contra eles (Mestres e Companheiros?), devem tomá-los sob a sua custódia;

Ponto Décimo-Terceiro – o Maçom deve jurar que jamais roubará e jamais ajudará falsos Obreiros;

Ponto Décimo-Quarto – o Maçom deve jurar, perante Mestres Maçons e Companheiros, que obedecerá ao seu rei e também deve prestar o juramento dos Maçons sobre todos os pontos anteriores, e saber que será responsabilizado, se faltar com a palavra;

Ponto Décimo-Quinto – se os Maçons atentarem contra a Ordem, não poderão retornar a ela e o xerife poderá encarcerá-los e tomar-lhe os bens e o gado e colocá-los à disposição do rei, e deixar que ele lhes decida o destino (?).

Alia ordinacio artis gemetriae (sic) [Outras ordenações da Arte da Geometria]

Afirma o texto que, a cada ano, uma Assembleia deverá corrigir as falhas encontradas na Ordem e, a cada três anos, todos devem comparecer para corrigir os erros e manter os estatutos concedidos à Ordem pelo rei Athelstan.

Ars quatuor coronatorum [Arte dos Quatro Coroados]

“Rezemos, ao Deus Todo-Poderoso e à sua Mãe bendita para que todos estes artigos possam ser conservados como o fizeram os quatro mártires – que são grande honra para o Ofício -, (Pray we now to God almyht, / And to hys moder Mary bryht, / That we mowe keepe these artyculus here, / And these poynts wel al y-fere, / As dede these holy martyres fowre, /That yn thys craft were of fret honoure, / linhas 497:502, no original) foram bons Maçons, escultores e gravadores – e eles amaram a Deus e serviram e viveram segundo as leis de Deus”, reza o poema.

A seguir, faz menção à punição que os Quatro Coroados sofreram. Menciona que são festejados no oitavo dia após Alle Halwen (sic), ou seja, Hallow-e´en (Here fest wol be, withoute nay, /After Alle Halwen the eyght day. /, linhas 533:34, no original).

Parte significativa do conteúdo do Poema Regius reaparece nas Constituições dos Pedreiros Livres (The Constitutions of the Free-Masons), de James Anderson, editadas em 1723 [9]. É extremamente interessante, segundo nos parece, a linha de raciocínio ético que perpassa o texto e coincide com preceitos que sobreviveram até aos nossos dias dentro da nossa Ordem. A principal contribuição de Anderson foi o fato de subtrair do documento que redigiu referências explícitas ao denominacionalismo e, com isto, conferiu, em definitivo, caráter universal à nossa Ordem, que aceita a Iniciação de pessoas de qualquer confissão religiosa. No entanto, isto também já é tema suficiente para outro trabalho.

O longo Poema Regius merece uma tradução completa, cuidadosa e comentada para o português, tarefa que representa um desafio múltiplo não somente devido aos inúmeros problemas linguísticos que o texto oferece, às circunstâncias históricas que precisam ser elucidadas, mas, sobretudo, em decorrência da necessidade de identificar muitas fontes documentais corretas.

Autor: Aleksandar Jovanović

Fonte: Freemason

* O Poema Regius pode ser consultado AQUI

Notas

[1] – Geoffrey Chaucer (1343-1400), filósofo, diplomata, tradutor e poeta, autor dos Canterbury Tales (Contos de Cantuária), considerado o Pai da Literatura Inglesa, porque modernizou o idioma, inclusive devido aos conhecimentos que possuía de latim, francês, italiano, etc. e das respectivas literaturas.

[2] – Athelstan ou Æþelstān, o Glorioso (895-939), rei inglês (saxão), submeteu Constantino II, rei dos escoceses, na Batalha de Brunanburh, em 937, e, por isso, foi o primeiro a ostentar o título de rex totius Britanniae (rei da Bretanha inteira).

[3] – Nabucodonosor II (c. 632 a.C. – 562 a.C.), o mais conhecido imperador do Império neobabilônico. Ficou famoso pela conquista do Reino de Judá e pela destruição de Jerusalém e o seu Templo, em 587 a.C., além das monumentais construções na cidade de Babilônia e, entre elas, os Jardins Suspensos, conhecidos como uma das sete maravilhas do Mundo Antigo.

[4] – Euclides de Alexandria (360 a.C. – 295 a.C.), professor, matemático e escritor de origem desconhecida, criador da Geometria Euclidiana. Teria estudado em Atenas e teria sido discípulo de Platão. Foi convidado por Ptolomeu I a compor o quadro de docentes da Academia, que tornaria Alexandria o centro do saber, durante muito tempo. Euclides foi o mais importante matemático da Antiguidade: publicou os Stoikhía (Os Elementos), em 300 a.C., obra em treze volumes, a respeito de Geometria Plana, números, teoria das proporções, etc.

[5] – Carr, Henry. 600 years of Craft Ritual. Ars Quatuor Coronatorum, 81 (1968): 200.

[6] – Carr, Henry. Ars Quatuor Coronatorum, 91 (1978), passim.

[7] – Os Quatro Coroados (Quatuor Coronatis, em latim) eram, segundo reza a tradição, escultores de Sirmium (hoje Srem, região da Sérvia, ao norte de Belgrado), que se recusaram a esculpir uma estátua pagã para o imperador romano Diocleciano (243-305), porque se tinham convertido ao cristianismo. Por isto, foram aprisionados, martirizados com uma coroa de pregos agudos de ferro que lhes foi martelada no crânio. Foram eles Castório, Nicóstrato, Cláudio e Sinfrónio; Simplício, um quinto, morreu com eles, mas não há explicações claras a respeito. Aos Quatro Coroados está dedicada uma capela, erigida em 619, em Canterbury, Inglaterra. São venerados na Maçonaria inglesa e a Loja Quatuor Coronati Lodge No. 2076 ostenta, inclusive, o título de The Premier Lodge of Masonic Research (A primeira loja de pesquisa maçônica), e, de fato, é a mais importante Loja de pesquisas maçônicas, consagrada em 12 de Janeiro de 1886. A Ars Quatuor Coronatorum (A Arte dos Quatro Coroados) é a publicação regular da Loja de pesquisa Quatuor Coronati.

[8] – McLoughlin, Emmett. An Introduction to Freemasonry. In: Waite, Arthur E. [1970] A New Encyclopedia of Freemasonry and cognate instituted mysteries: their rites, Literature and History. New York: Weathervane Books. p. xxxiii.

[9] – James Anderson (1679-1739), escocês nascido em Aberdeen, foi ministro presbiteriano e membro da Grande Loja de Londres. Escreveu as Constituições, que ficaram conhecidas como A Constituição de Anderson. Em 1734, o nosso  Ir∴ Benjamin Franklin reproduziu e editou a obra, o primeiro livro maçônico impresso no que são hoje os Estados Unidos da América. A obra é considerada um dos marcos fundamentais da nossa Ordem.

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Referências

  • Anderson, James. The Constitutions of the Free-Masons containing the History, Charges, Regulations, &c of that most Ancient and Right Worshipful Fraternity. Digital Commons, University of Nebraska, Lincoln. 2006. Edição fac-similar electrónica..
  • Ars Quatuor Coronatorum. [1968]: 81.
  • Ars Quatuor Coronatorum. [1978]: 91.
  • DAVIES, Norman [1996] Europe. Oxford: New York. Oxford University Press. 1996.
  • WAITE, Arthur E. [1970] A New Encyclopedia of Freemasonry and cognate instituted mysteries: their rites, Literature and History. New York: Weathervane Books.

O desenvolvimento da arquitetura gótica a partir da filosofia escolástica – Parte Final

Alegorismo medieval, arquitetura gótica e a Iconologia de Panofsky – Arte,  Arquitetura e História
Saint Denis

V. Um registro em pedra e vidro

Quando Rossi fala na individualidade de um fato urbano[33], nos sentimos tentados a analisar a origem da arquitetura gótica justamente por sua ligação estreita com o urbanismo medieval da Baixa Idade Média, conforme visto anteriormente. São colocadas pelo autor as questões que envolvem a origem deste fato urbano, no sentido de se procurar o acontecimento que o deflagrou e o signo que o fixou no tempo. O acontecimento, aqui, em se tratando da arquitetura gótica, parece-nos ser o surgimento da filosofia escolástica, que promoveu uma nova esquematização do pensamento que se estendeu para toda a sociedade, tendo decisiva importância aí o processo de urbanização e de estabelecimento de centros de estudos nas cidades. O signo desta mudança histórica está expresso na nova forma de arquitetura, que representa tanto uma nova espiritualidade quanto uma nova relação entre a fé e a razão. Victor Hugo diz em seu livro Notre Dame de Paris[34], não por acaso um romance que tem a famosa catedral gótica como personagem, que nenhum pensamento ou ideal humano até o século XV deixou de ser gravado na pedra, na arquitetura. Diz que “nos seis mil primeiros anos do mundo, desde o pagode mais imemorial do Indostão até a catedral de Colônia, a arquitetura foi a grande escritura do gênero humano” [35]. Neste sentido, não podemos deixar de refletir na grandiosidade da arquitetura gótica em promover este registro. Tantos séculos depois que a última cidade romana deixara de existir, ao menos como uma cidade romana, a Europa ocidental e cristã, e mais que cristã, católica, voltava a se movimentar em direção ao urbanismo. De igual maneira, o pensamento até então mais obscurantista passava agora a flertar com a razão, sem, no entanto, desprezar a religião, muito pelo contrário. O desejo dos clérigos escolásticos é legitimar ainda mais o seu credo pelo argumento filosófico. Estes movimentos intensos não poderiam deixar de ser registrados, e, como bem disse Hugo, “até Gutenberg, a arquitetura é a escrita principal, a escrita universal” [36]. A catedral gótica é o signo claro e eloquente do que estava acontecendo naquele período e naquele lugar:

A arquitetura foi até o século XV o registro principal da humanidade; fato é que neste intervalo não apareceu no mundo pensamento um pouco complicado que não se tenha feito edifício; que toda a ideia popular, como toda a lei religiosa, tem tido os seus monumentos; que o gênero humano, enfim, não tem pensado nada importante que o não tenha escrito em pedra. E por quê? Porque todo o pensamento, quer religioso, quer filosófico, tem interesse em se perpetuar; porque a ideia que agitou uma geração quer agitar outras e deixar vestígios. Ora, que precária imortalidade a de um manuscrito! Como um edifício é um livro bem mais sólido, duradouro e resistente![37]

É impossível não pensar na opulência de uma catedral gótica, com suas formas inovadoras e tamanho descomunal, atuando exatamente como a ideia de Victor Hugo de que o livro de pedra é muito mais eloquente e eterno do que um simples manuscrito que perecerá em algumas décadas. Se concordarmos com o autor, perceberemos que neste caso o pensamento a se preservar é mais poderoso ainda, pois é, ao mesmo tempo, filosófico e religioso. A arquitetura gótica foi produzida pela filosofia escolástica, que, por sua vez, teve sua razão de existir na religião que procurava pensar, religião esta que já estava há mais de dez séculos produzindo edifícios que inscreviam de forma
duradoura, na história, as suas doutrinas.

Neste mesmo sentido, podemos afirmar que uma religião que tem a “necessidade da lembrança como tarefa religiosa fundamental” [38], seja pela repetição festiva da paixão de Cristo, seja pelo simples estudo bíblico, que afinal de contas trata do exame de fatos do passado descritos literariamente que estão na origem da própria Igreja, também se utiliza do expediente arquitetônico, tanto para reproduzir esta lembrança quanto para enviar sinais aos fiéis. Vejamos o que diz Maiolino, a respeito da forma dada às catedrais:

A planta da igreja gótica era em forma de cruz latina. Sua implantação era feita de forma que a nave e a capela-mor se situassem no braço longitudinal no sentido Leste-Oeste. Assim o altar-mor ficaria a Leste, onde nasce o sol, o que costumou-se chamar de cabeceira. A fachada ocidental ficaria preferencialmente a Oeste, onde o sol se põe, numa nítida alusão à necessidade do homem de percorrer um longo caminho para chegar até Deus. Desta forma, o braço do transepto ficaria no sentido Norte-Sul, sendo o lado do Evangelho para o Norte e o lado da Epístola para o Sul. A parte inferior do braço longitudinal da cruz era normalmente dividida em três naves, sendo a central maior que as outras duas, tanto em altura quanto em largura.[39]

É interessante notar como a arquitetura pode conjugar estas duas formas de comunicação e de contato entre presente, passado e futuro. Há, em uma mesma obra arquitetônica, conforme a descrição de Maiolino, a recordação das escrituras sagradas, um ideal de comportamento expresso na direção da construção e a perenização do símbolo máximo do cristianismo, que é a cruz, plantada naquele local para toda a eternidade, à vista de todas as gerações vindouras.[40]

Segundo Pignatari, “nem toda arquitetura é apenas pedra, nem toda música é apenas som” [41], o que nos faz imaginar uma certa consciência e racionalidade que se expressam através da construção de uma catedral gótica. Fazendo a análise de alguns dos fatores que abordamos neste trabalho como, por exemplo, a filosofia escolástica, a recordação característica da religião católica e a necessidade de se preservar em monumentos o pensamento filosófico e religioso, percebemos que faz muito sentido a afirmação do autor de que:

[…] a mensagem arquitetônica – especialmente quando entendida como mensagem de massa: o assentamento humano, a cidade – é endereçada, antes de mais nada a não-arquitetos, ou seja, a receptores e interpretantes cujo código principal não é o arquitetônico, mas que, no entanto (de maneira leiga, digamos), só podem absorver a mensagem decodificando-a, em primeiro lugar, segundo o código arquitetônico.[42]

Mesmo com toda a consciência com que os mestres-construtores aplicaram os princípios escolásticos em suas obras, na verdade o mais importante ainda é a mensagem que a construção vai levar adiante àqueles que são leigos, no caso, o imenso público fiel que vai fazer o uso efetivo da construção durante as missas e outras celebrações religiosas. Daí a importância de simbolizar e de significar para os habitantes daquele espaço urbano, que vão utilizar as dependências da catedral, a cruz, o caminho que o homem deve percorrer para ser mais justo, a mudança de uma estrutura militante românica para uma triunfante obra gótica. Representa-se aqui, além de uma mudança de gosto, uma grande e importante modificação mental daqueles homens e mulheres que viveram na Europa nos séculos XII e XIII. O signo destas mudanças foi expresso, com toda a sua complexidade – histórica, filosófica, religiosa, urbana e social – na arquitetura gótica, surgida não somente como uma substituta da arquitetura românica, mas como uma etapa posterior, diretamente ligada aos sentimentos humanos, cada vez mais urbanos, daquela sociedade em transição. E aí está a importância da arquitetura como fonte historiográfica, pois é do “confronto histórico e dialético, que permanece mesmo depois que os emissores e receptores originais já tenham desaparecido há séculos ou milênios, que flui o significado da arquitetura” [43]. A obra arquitetônica, por seu caráter de permanência, dialoga não só com aquelas gerações que a viram nascer, como com todas as outras que vêm a conhecê-la, e, desta forma, segue enviando sua mensagem continuamente, com todas as ressignificações que ela possa ter.

VI. Considerações finais

As transformações mentais ocorridas durante a Idade Média, no período de avanço do urbanismo, em uma Europa que havia passado quase mil anos apenas com raras e medíocres cidades, tiveram forte impacto sobre as estruturas materiais desta sociedade, incluída aí a nova forma de arquitetura desenvolvida, que veio a ser chamada “gótica”.

Mas o que constituem exatamente estas transformações mentais?

O desenvolvimento das cidades neste período provocou alterações profundas em todos os âmbitos da sociedade. Como temos por objetivo neste trabalho analisar a arquitetura gótica, que está intimamente ligada ao fator religioso, pois surge como a arquitetura de catedrais, devemos atentar para o caráter religioso da sociedade e para as transformações que o impactam diretamente.

Em primeiro lugar, podemos afirmar que, com o deslocamento do ensino, até então exclusividade dos mosteiros mais isolados, para as cidades, houve uma expansão do conhecimento e da atividade intelectual para um maior espectro da sociedade; ao menos, as reflexões que se produziam eram mais facilmente percebidas pela população leiga, embora esta, em sua grande maioria, permanecesse iletrada. Houve então o aparecimento da filosofia escolástica, que pretendia conjugar a fé com a razão, usando a última para legitimar a primeira. Este fenômeno, que tem as suas características metodológicas específicas, tais como clareza, esquematização, conciliação de interpretações conflitantes de autoridades filosóficas ou teológicas, promoveu uma nova forma de pensar – ou uma nova forma de organizar o pensamento – que não se restringiu a quem estava dentro das escolas ou diretamente ligado ao ministério da Igreja. Esta nova visão filosófica do mundo e da religião passou a se estender também às camadas populares, como ocorre, por exemplo, hoje em dia: mesmo um leigo no assunto utiliza termos como internet, e-mail, iPOD, embora não necessariamente saiba como funcionam, ou até nunca tenha utilizado de maneira profissional qualquer uma destas ferramentas tecnológicas. A filosofia escolástica ecoou por toda aquela sociedade urbana medieval.

No entanto, ela sem dúvida teve influência direta sobre aqueles que eram obrigados, por força de seu ofício, a trabalhar diretamente com aqueles que produziam e reproduziam estes conhecimentos; falamos aqui dos mestres-construtores em contato direto com os clérigos que os instruíam acerca da construção de uma nova igreja ou da produção iconográfica a ser utilizada. Esta influência se deu, como visto neste trabalho, na organização dos elementos constitutivos de uma obra arquitetônica gótica, conforme os preceitos escolásticos que a princípio eram aplicados aos seus tratados. Portanto, temos aqui uma revolução arquitetônica que está estreitamente ligada a um novo fator de entendimento teológico.

Com a revolução urbana, houve o desenvolvimento e divulgação da filosofia escolástica que tornou possível a criação da arquitetura gótica. De igual maneira, e tendo em mente o caráter visual do homem medieval que apreendia o novo através da visualização direta, talvez em boa parte pelo baixo grau de alfabetização que era o estado comum da maioria das populações, excetuados os clérigos, os quais tinham acesso à leitura e à escrita, concluímos que as catedrais góticas representaram simultaneamente os preceitos escolásticos, a influência da filosofia na arquitetura e a transição de gosto e de mentalidade que ocorria naquele instante histórico.

Como religião direta e essencialmente influenciada pela recordação, o cristianismo medieval inscreveu na pedra os ensinamentos da religião e sinalizou aos fiéis estes ensinamentos através das formas externas e internas de uma catedral gótica. Da mesma forma que uma obra arquitetônica não pode ser transposta para outro lugar, justamente por surgir a partir das especificidades culturais, religiosas, sociais e mentais do local onde é erguida, podemos compreender que a arquitetura gótica, nos séculos XII e XIII, época de seu apogeu, representou a mentalidade daquela sociedade em transição. Passava-se do românico ao gótico porque se passava da Igreja militante para a Igreja triunfante. A luta contra o mal, de antes, dá lugar a uma nova relação, mais metafísica, do homem com Deus. Uma relação de transcendentalidade, expressa de maneira eloquente e inequívoca na verticalidade gótica que eleva aquilo que é terreno ao âmbito celestial.

Finis

Autor: Eduardo Pacheco Freitas

Fonte: Revista Nuntius Antiquus

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Notas

[33] – Cf. Rossi, op. cit., p. 151.

[34] – Notre Dame de Paris é um romance de Victor Hugo publicado em 1831. No entanto, quando saiu a primeira edição foram suprimidos três capítulos que haviam sido perdidos pela gráfica durante o processo de produção do livro. Posteriormente, os cadernos contendo estes capítulos foram encontrados e foram incluídos nas novas edições. É exatamente um destes capítulos que trata, filosoficamente, desta questão da arquitetura ter sido a mais importante forma de registro humano até o século XV, quando surge o livro impresso. Para Hugo isto [o livro impresso] há de matar aquilo [a
arquitetura]
.

[35] – Cf. Hugo, op. cit., p. 221.

[36] – Cf. Hugo, op. cit., p. 225.

[37] – Cf. Hugo, op. cit., p. 227.

[38] – 8 Cf. Le Goff, op. cit., 1994, p. 444.

[39] – Cf. Maiolino, op. cit., p. 12.

[40] – Esta constatação é ainda mais importante quando temos em mente que o conhecimento, para os historiadores medievais, era entendido como a apreensão imediata de um dado. Conhecer significava ver com os próprios olhos, tocar com a próprias mãos e ouvir com os próprios ouvidos (cf. Rui, op. cit., p. 214). Nada mais adequado para a promoção desta experiência cognitiva que a solidez de uma catedral, aliada à música religiosa, às iconografias, à estatuária, aos vitrais e à sua luz de aspecto celeste. A união de todos estes elementos em um mesmo edifício certamente é capaz de marcar indelevelmente o entendimento acerca da cristandade em um indivíduo inserido em um contexto profundamente religioso como a sociedade medieval.

[41] – Cf. Pignatari, op. cit., p. 155.

[42] – Cf. Pignatari, op. cit., p. 155.

[43] – Cf. Pignatari, op. cit., p. 156.

Referências

AUDI, R. (Dir.) Dicionário de filosofia de Cambridge. Trad. Edwino Aloysius Royer. São Paulo: Paulus, 2006.

BRACONS, J. Saber ver a arte gótica. Trad. Jamir Martins. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

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FOCILLON, H. A arte do ocidente: a Idade Média românica e gótica. 2. ed. Trad. José Saramago. Lisboa: Estampa, 1993.

GOMBRICH, E. H. A história da arte. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: LTC, 2008.

GOMES, V. S. Gótico, a Escolástica de pedra. Disponível em: . Acesso em: 12/ 10/ 2011.

GOZZOLI, M. C. Como reconhecer a arte gótica. Trad. Carmen de Carvalho. Lisboa: Edições 70, 1986.

HUGO, V. Nossa Senhora de Paris. 2. ed. Trad. Não informado. Porto: Chardron,1945.

JOHNSON, S. Emergência: dinâmica de rede em formigas, cérebros, cidades e softwares. Trad. Maria Carmelita P. Dias. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.

LE GOFF, J. As raízes medievais da Europa. Trad. Jaime A. Clasen. Petrópolis: Vozes, 2007.

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LOPEZ, R. S. A cidade medieval. Lisboa: Presença, 1988.

MAIOLINO, C. F. A arquitetura religiosa neogótica em Curitiba entre os anos de 1880 e 1930. Dissertação de mestrado. Porto Alegre: UFRGS, 2007.

PANOFSKY, E. Arquitetura gótica e escolástica: sobre a analogia entre arte, filosofia e teologia na Idade Média. Trad. Wolfe Höernke. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

PIGNATARI, D. Semiótica da arte e da arquitetura. São Paulo: Cultrix, 1981.

PUGIN, A. W. N. O belo ontem. In: CHOAY, F. (org.). O urbanismo: utopias e realidades, uma antologia. 6. ed. Trad. Dafne Nascimento Rodrigues. São Paulo: Perspectiva, 2007, p. 117-120.

ROSSI, A. A arquitetura da cidade. Trad. Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 1995.

RUI, A. J. A elaboração de História na Idade Média: o exemplo de Alfonso X, o Sábio. In: DE BONI, L. A. (org.). A ciência e a organização dos saberes na Idade Média. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2000, p. 211-217.

SILVEIRA, E. A. Urbanismo e religiosidade na Idade Média. Estudos Ibero-Americanos, Porto Alegre, vol. 24, n. 1, p. 165-180, 1998.

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O desenvolvimento da arquitetura gótica a partir da filosofia escolástica – Parte II

O estilo gótico | M4
Catedral Basílica de Saint Denis

IV.1. A influência da filosofia escolástica sobre a arquitetura gótica

Nos anos 50 do século XX o pesquisador Erwin Panofsky expôs uma tese que estabeleceu uma inusitada ligação entre a filosofia escolástica e a arquitetura gótica. É sabido que ambas surgiram paralelamente no mesmo espaço geográfico, no caso o norte de Paris, e no mesmo período de tempo, aproximadamente entre os séculos XII e XIII. Panofsky vê nesta coincidência temporal e espacial dos dois eventos mais do que uma simples casualidade e defende a existência de uma relação mais concreta que a simples sincronia no tempo e no espaço. Aponta, entre outros fatores, uma provável influência de conselheiros escolásticos sobre os artistas e mestres [23] góticos.

No entanto, o autor vai além e chega a uma conclusão mais profunda, defendendo a hipótese de que esta influência, muito mais do que de forma direta e individual, se deu genericamente, através do que ele chama de “hábito mental”. Este conceito é entendido por Panofsky como “um princípio que rege a ação” e o autor sustenta seu pensamento com a simples constatação histórica de que “a escolástica detinha o monopólio da formação intelectual naquele âmbito restrito”.[24]

Em geral, a educação espiritual deslocou-se das escolas monásticas para instituições mais urbanas que rurais, de caráter antes cosmopolita que regionalista e, por assim dizer, apenas semi-eclesiásticas, a saber: as escolas catedrais, as universidades e as studia das novas ordens mendicantes que surgiram quase todas no século XIII e cujos membros desempenharam papel de crescente importância mesmo nas universidades.[25]

Isto é, a educação e a produção de conhecimento não estavam mais restritas à clausura dos mosteiros. Deixava de existir o isolamento natural das práticas intelectuais que passaram então a acontecer também nas cidades.

Podemos imaginar em qual clima psicológico e intelectual passou a existir a arquitetura gótica: dentro da cidade, envolta pela fé e pela razão, com a missão de substituir uma arquitetura que não satisfazia mais à religiosidade católica, que agora contava com um complexo sistema filosófico como respaldo teológico e intelectual. Neste sentido, devemos atentar para as observações de Maria Gozzoli:

[…] a escolástica – que enquadrava harmoniosamente todo o saber do tempo e afirmava a possibilidade de ascender a Deus não só pela fé, como pela razão. Chegava-se a Deus por um esforço de pensamento, complexo mas requintado, rigidamente formal mas rico de sutilezas: esses mesmos conceitos que, em arquitetura, inspiraram as catedrais góticas, a sua ascensão para Deus através de construções complexas mas requintadas, formalmente rigorosas, mas de igual modo ricas de pormenores.[26]

Aqui, as palavras-chave são: harmonia e ascensão; fé e razão; complexidade e requinte; formalidade e sutileza. São palavras que podem ser usadas tanto para caracterizar a escolástica quanto o gótico. Mais uma vez nos parece evidente a relação entre os dois fenômenos.

E sobre este contato, entre os mestres-construtores e os clérigos com os quais tinham que trabalhar, todos mergulhados em uma nova ambientação intelectual, Panofsky diz:

É pouco provável que os arquitetos do gótico tenham lido Gilberto de la Porrèe ou Tomás de Aquino no original. Mas entraram em contato com o ideário escolástico por inúmeros outros, sem perceber que, por força de sua atividade, tinham de trabalhar com quem esboçava os programas litúrgicos e iconográficos. Haviam frequentado a escola, tinham ouvido sermões e podiam acompanhar as disputationes de quolibet que tratavam de todas as questões imagináveis da atualidade e que se haviam transformado em eventos sociais, comparáveis a nossas óperas, concertos e conferências públicas.[27]

É feita uma ressalva: os mestres provavelmente não manusearam os livros que continham toda a essência do pensamento escolástico. Mas teriam sido fortemente influenciados por esta aura escolástica que dominava todo o ambiente. A escolástica estava no ar e os arquitetos do gótico estavam inseridos neste contexto.

IV.2. Completude, ordenamento e clareza

Existem três exigências mínimas e fundamentais para que se cumpra aquilo que é denominado pelos estudiosos de esquematismo ou de formalismo escolástico. A clareza é algo buscado incessantemente nos textos escolásticos e para se atingi-la de modo satisfatório deve-se utilizar: a completude, que é a enumeração suficiente – nem mais, nem menos – das questões a serem abordadas; o ordenamento seguindo o esquema de “partes das partes”, como forma de bem estruturar a exposição; e, obviamente, a clareza e força probatória, entendidas aqui como uma relação suficiente de reciprocidade entre o que se mostra e o que se comprova a partir disso. Como complemento a estes pré-requisitos para a correta exposição escolástica há ainda as similitudines de Tomás de Aquino, ou seja, uma espécie de analogia, com o uso de palavras adequadas, visando à melhor compreensão dos conceitos expostos.

É nesse sentido que, ao observarmos a estrutura de uma catedral gótica, podemos aplicar o conceito escolástico de completude, pois não há nada sobrando, nem nada que falte. Elementos como a cripta, as galerias, e as torres, com exceção daquelas frontais, foram eliminados, em nome da clareza e da síntese exata de todo o conhecimento cristão, seja no aspecto teológico, como também no natural, histórico e moral.

Da mesma forma é facilmente observado um “princípio de divisibilidade progressiva”, que consiste em uma homologia entre as partes que constituem uma construção gótica, demonstrando assim que todas as partes que compõem a estrutura situam-se dentro de um mesmo nível lógico. O exemplo mais claro dessa divisão progressiva, que pode sem dúvida ser associada à esmerada divisão e subdivisão de um tratado escolástico bem estruturado, está nos

[…] suportes [que] eram divididos em pilar principal, colunas adossadas, colunas adossadas secundárias e colunetas novamente subordinadas a estas últimas; a caixilharia das janelas, os trifórios e as arcadas cegas eram divididas em suportes e perfis de primeira, segunda ou terceira ordem; nervuras e arcos eram subdivididos numa série de perfis.[28]

Desta forma, assim como estamos habituados a fazer divisões sucessivas em um trabalho acadêmico, de forma a deixá-lo claro e organizado, os construtores, por influência da escolástica, aplicaram o mesmo princípio às suas catedrais.

IV.3. Manifestatio e concordantia

Em relação às duas premissas básicas da escolástica, aplicadas à arquitetura das catedrais góticas em seu apogeu, Panofsky diz:

Enquanto o primeiro, a manifestatio, nos ajuda a entender a imagem fenomênica da arquitetura clássica do apogeu gótico, o segundo, a concordantia, ajuda a compreender a gênese do apogeu gótico clássico.[29]

Ou seja, a manifestatio, compreendida como a maneira clara de explicitar os conteúdos relacionados à fé cristã à luz da razão, determinou a mesma clareza de linhas e divisão dos elementos constitutivos de uma obra arquitetônica gótica. Como exemplo, Panofsky cita o portal central da fachada ocidental da catedral de Notre-Dame em Paris, com os doze apóstolos representados em divisões simétricas de dois grupos no tímpano da catedral. A simetria, sem dúvida alguma, era algo caro aos escolásticos e manifestou-se também na arquitetura gótica.

Já a concordantia, em se tratando da necessidade de conciliação de “possibilidades contraditórias” presente na filosofia escolástica, expressa em sua forma mais completa através do método de Abelardo de Sic et Non[30] até chegar-se a uma síntese, uma solução, parece ter sido outro fator a influenciar a arquitetura gótica. Resumidamente, este método consistia em aceitar as possíveis contradições dos textos de autoria de filósofos, dos padres da Igreja e até mesmo das escrituras sagradas. No entanto, como passo posterior à aceitação da existência destas contradições, passava-se então a tentativa de conciliá-las, que se dava através do método de arrolamento de uma série de autoridades (autorictates) em uma espécie de conjunto (videtur quod) que era colocado em oposição a outro rol de autoridades (sed contra). Como resultado deste confronto entre duas autoridades com comentários opostos, conflitantes, a respeito de um tema, era produzida como solução a respondeo dicendium.

Um fato notório que demonstra de maneira bastante convincente esta relação, levando-se em consideração que as construções românicas do passado aqui funcionavam como auctoritas, é a solução definitiva que os mestres-construtores encontraram para alguns problemas típicos da origem da arquitetura gótica. São três quaestiones cruciais, que, ao serem resolvidas definitivamente, caracterizaram e diferenciaram de vez esta nova forma de arquitetura em relação às construções românicas de antes. As quaestiones que tiveram então o seu respondeo dicendium dado pelos arquitetos góticos foram: a rosácea na fachada ocidental, ao substituir a janela que sempre existiu por uma estrutura circular que era estranha ao gosto gótico; a estrutura da parede debaixo do clerestório, com a criação do trifório que conjugou o Sic românico de Caen com o Non gótico de Amiens; e a conformação dos pilares da nave central, que deixaram de ser somente associados a formas angulares e passaram a utilizar o núcleo cilíndrico[31]. É importante destacar que Panofsky defende que todas essas mudanças ocorreram – ainda que sendo sabida a importância do hábito mental criado pela filosofia escolástica – de forma consciente, sendo aplicadas de forma racional pelos mestres-construtores.

De acordo com Panofsky [32], a influência do princípio da concordantia sobre as obras do apogeu do gótico é tão grande que “a dialética escolástica desenvolveu o pensamento arquitetônico a um ponto em que ele quase deixa de ser arquitetônico”. É quase como afirmar que os construtores das catedrais não estavam construindo igrejas, mas fazendo filosofia em pedra e vidro.

Continua…

Autor: Eduardo Pacheco Freitas

Fonte: Revista Nuntius Antiquus

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Notas

[23] – Mestre era o nome que se dava ao arquiteto neste período.

[24] – Cf. Panofsky op. cit., p. 14-15.

[25] – Cf. Panofsky op. cit., p. 15.

[26] – Cf. Gozzoli, op. cit., p. 8-9.

[27] – Cf. Panofsky op. cit., p. 15.

[28] – Cf. Panofsky op. cit., p. 34.

[29] – Cf. Panofsky op. cit., p. 46.

[30] – Famoso tratado onde Abelardo arrola 158 itens importantes, desde suicídio até concubinato, que são confrontados, em uma relação dialética, a partir de visões conflitantes das autoridades e conciliados por fim. Entre outras, a importância deste texto está em demonstrar claramente a visão dos escolásticos e que a fé poderia buscar apoio na razão.

[31] – Para um maior aprofundamento no tema, recomendamos a leitura do capítulo V de Arquitetura gótica e escolástica, onde Panofsky examina detalhadamente todas estas
novas características da arquitetura gótica, comparando-as com os valores da arquitetura românica e demonstrando a relação da filosofia escolástica com a resolução destes problemas.

[32] – Cf. Panofsky op. cit., p. 62.

O desenvolvimento da arquitetura gótica a partir da filosofia escolástica – Parte I

Noyon Cathedral - Alchetron, The Free Social Encyclopedia
Catedral de Noyon – França

I. Introdução

Quando se fala de Arquitetura Gótica, ou simplesmente da Arte Gótica em geral, a primeira imagem que nos vem à mente é sempre a de enormes catedrais, pontiagudas, apontando para o céu, grandes o suficiente para acolher a população de uma cidade inteira. No entanto, a arquitetura gótica representa na história do ocidente medieval muito mais do que simplesmente um novo estilo arquitetônico. É sim, uma revolução na forma de se construir, sobretudo igrejas, mas a sua importância vai mais além, tornando-se o símbolo de uma revolução religiosa, de uma mudança de mentalidade e de uma mensagem filosófica enviada, através da pedra das construções, pela arquitetura. E seu aparecimento está associado de maneira íntima ao desenvolvimento das cidades no período da Baixa Idade Média.

Metodologicamente, temos como objetivo neste trabalho explorar estas relações a partir do conceito de “locus” conforme expresso no livro A arquitetura da cidade[1], que consiste na “relação singular mas universal que existe entre certa situação local e as construções que se encontram naquele lugar”[2]. Com isto, entendemos que o surgimento do estilo gótico está estreitamente ligado às especificidades do âmbito geográfico do continente europeu, mais precisamente na França setentrional.

Da mesma forma pretendemos estudar a relação existente entre o desenvolvimento da arquitetura gótica e o surgimento da filosofia escolástica[3], assim como procuraremos entender esta nova forma de arquitetura, surgida entre os séculos XII e XIII, como signo desta e de outras relações, e como fator de preservação da memória e registro do espírito de um período de transição de mentalidades.

II. Transformações mentais e materiais nas cidades medievais

Nos séculos XII e XIII aconteceram “profundas transformações nas estruturas materiais e mentais da sociedade europeia”[4], inserindo-se neste contexto de transformação o surgimento do estilo gótico e da filosofia escolástica como fenômenos eminentemente urbanos situados em uma conjuntura religiosa e social hegemonicamente católica.

Ainda de acordo com Silveira,

“o espaço urbano na Idade Média centralizou os principais equipamentos materiais e simbólicos do sagrado, […] constituiu-se como paisagem e ambientação social fundamental para a proliferação das manifestações coletivas da espiritualidade cristã.”[5]

Embora a autora esteja se referindo de maneira mais específica aos movimentos da sociedade no sentido de se atingir “novos modelos da religiosidade urbana”[6], ou seja, o desenvolvimento de ordens religiosas populares que encontraram terreno fecundo neste novo panorama, de caráter urbano, que estava se tornando mais e mais complexo, podemos ampliar a interpretação do texto e aplicá-lo ao que aconteceu à época do surgimento da arquitetura gótica.

É inegável a influência que o grande desenvolvimento urbano destes dois séculos teve sobre a sociedade como um todo. Em relação à ligação íntima entre o que acontece nas cidades e o que elas aparentam externamente, Lopez diz que

“visto o aspecto físico da cidade espelhar as intenções e as necessidades práticas dos cidadãos (e como negá-lo?), a sua estrutura e a sua evolução urbanística constituem uma província da sua história que não pode ser marginal.”[7]

Daí a importância de se reconhecer os efeitos sobre a arquitetura oriundos da evolução não somente material mas também mental das cidades e de se estabelecer estas relações como objeto de estudo historiográfico. Neste sentido, portanto, é que se faz necessário compreender que a passagem da arquitetura românica para a arquitetura gótica significa bem mais do que apenas uma mudança de estilo. As transformações religiosas e mentais daquela sociedade tiveram seu registro perfeito em suas obras arquitetônicas, e, logicamente, com mais impacto, nas construções dos grandes templos religiosos. As catedrais perderam seu aspecto de fortalezas e passaram a representar o transcendente, o contato com o divino. Sobre o surgimento do estilo gótico, Le Goff diz:

A arte gótica, que também foi chamada de arte francesa, inundou toda a Europa cristã, a partir da França do Norte e, mais particularmente, do centro dessa região, que se chamava a França propriamente dita, no século XIII, e mais tarde Île-de-France. Esta arte nova, muito diferente da romana, responde ao mesmo tempo a um grande crescimento demográfico, que reclama igrejas maiores, e a uma profunda mudança de gosto. Além das dimensões mais vastas, o gótico manifestou-se pela atração da verticalidade, da luz e até da cor.[8]

O autor nos traz informações muito importantes: em primeiro lugar é feita a delimitação geográfica do surgimento da arquitetura gótica, situando-a na França setentrional (não por acaso o mesmo local onde surgiu a Escolástica, pois, como veremos mais à frente, existem teorias a respeito desta relação); em segundo lugar, a nova forma dada às construções, agora maiores internamente e mais altas, que é importante, tanto por contentar uma nova necessidade estética, que indica claramente uma mudança de pensamento daquela sociedade em transição, quanto por poder acolher mais fiéis, já que estes aumentavam juntamente com o crescimento das cidades. Le Goff afirma que, “embora as causas demográficas não tenham sido mais que um dos fatores de substituição das antigas igrejas”, este aspecto é importante, porém salienta que ele não é o único responsável pela mudança.

Em face disso, podemos afirmar que à medida que o urbanismo se desenvolvia, havia uma mudança de gosto. E, ao mesmo tempo que a população crescia – e com isso surgia a exigência de templos maiores –, as antigas igrejas de aspecto soturno e militar não correspondiam mais aos valores religiosos e, consequentemente, estéticos, já que tratamos aqui da construção de edifícios destinados ao culto religioso.

O autor prossegue, informando sobre as características destas mudanças em termos arquitetônicos:

Nasceu uma Europa do gigantismo e da desmedida. Sempre mais alto! Esta parece ter sido a palavra de ordem dos arquitetos góticos. Depois de uma primeira geração de catedrais entre 1140 e 1190, marcada pelas catedrais de Sens, de Noyon e de Laon, o século XIII foi o grande século das catedrais, a começar por Notre-Dame de Paris.[10]

Esta busca desenfreada pela altura provocou uma espécie de competição entre os construtores de catedrais. Quem conseguiria construir a catedral mais alta? Devido a esta ânsia por verticalidade, acidentes aconteceram e obras desmoronaram[11]. As naves tinham cada vez mais maiores dimensões verticais, como atestam as catedrais de Notre-Dame de Paris (35 metros), Reims (38 metros) e Notre-Dame de Amiens (42 metros). Além disso, era planejada também a relação entre largura e altura da nave, com objetivo de proporcionar sempre uma maior sensação de impulso para o alto, para os céus.

III. O desenvolvimento da arquitetura gótica: uma revolução arquitetônica e religiosa

O estilo gótico surge quando o estilo românico mal havia se estabelecido, fazendo as igrejas deste último parecerem desprovidas de graça, com densidade exagerada e já obsoletas. A origem do termo “gótico”, significando esta nova maneira de construção, está no fato de seu aparecimento ter sido fora da Itália e de ter funcionado como uma substituta da arquitetura românica, numa clara alusão a velha dicotomia do mundo civilizado e do mundo bárbaro, pois o termo remete aos godos. Neste sentido, Gozzoli diz:

“é muito provável que os humanistas do Renascimento tenham adotado o termo gótico como sinônimo de bárbaro, no sentido de proveniente da região de além-Alpes, por oposição a românico.”[12]

A grande descoberta da arquitetura gótica, em relação à arquitetura românica, foi o fato de se desenvolver o arco ogival, uma grande evolução, se comparado aos antigos arcos redondos românicos, justamente por permitir maior altura das abóbadas. Aliada a esta inovação há uma outra, diretamente relacionada a esta nova modalidade técnica: a distribuição uniforme de peso, que ajuda a reduzir o material necessário para a construção da obra. Não só o arrojo das linhas, destas paredes que transmitem a impressão de serem inteiramente construídas em vidro, importou para os construtores. Eles cuidaram também para que a proeza artística pudesse ser claramente sentida e aproveitada por quem vislumbrasse a construção[13].

Afinal, a própria etimologia da palavra catedral revela a magnitude de tais obras (cathedra = trono episcopal)[14], pois estas não eram simplesmente igrejas, mas igrejas próprias dos bispos. Daí a importância atribuída à beleza das obras, já que, segundo Le Goff, esta foi uma “época em que o primeiro critério de beleza é o da grandeza”[15]. Desta forma, compreende-se a necessidade imperiosa de características de transcendentalidade e de utilização da luz natural, filtrada pelos vitrais, que construíam assim um ambiente celestial dentro dos templos.

Devido a toda esta imponência, poucas dessas edificações foram completadas conforme seus projetos originais, que eram por demais grandiosos:

É difícil imaginar a impressão que esses edifícios devem ter causado àqueles que só tinham conhecido as pesadas e sombrias estruturas do estilo românico. Aquelas igrejas mais antigas, em sua força e poder, talvez transmitissem algo da Igreja Militante que oferecia abrigo e proteção contra as investidas do mal. As novas catedrais propiciavam aos fiéis o vislumbre de um mundo diferente. Eles teriam ouvido falar, em sermões e cânticos, da Jerusalém Celestial, com seus portões de pérolas, suas joias de ouro de incalculável preço, suas ruas de ouro puro e cristal transparente (Apocalipse, XXI).[16]

Gombrich salienta que “tudo que era pesado, terreno ou trivial fora eliminado”; assim como a escolástica fez em relação à exposição metodológica do conhecimento, a arquitetura gótica fez com as suas linhas. Diz, ainda, que o artista gótico, ao realizar sua obra, “não a narra apenas para divulgar, mas para nos transmitir uma mensagem, e para consolo e edificação dos fiéis”[17].

Havia uma tendência, à época, por parte dos frades pregadores, de estimular a imaginação dos fiéis que eram convidados a visualizar mentalmente as cenas dos evangelhos. Nada mais natural do que expor artisticamente e através das linhas inovadoras e escolásticas das catedrais góticas esta forma de evangelizar. Podemos, de modo similar, encarar esta maneira de tratar o tema da espiritualidade, a partir de construções imagéticas mentais, como uma maneira de promover a memorização dos temas evangélicos, um estratagema que visava a tornar estes ensinamentos mais presentes, internalizados no cristão, em suma, uma forma de relembrar e perpetuar o conhecimento acerca dos evangelhos de um jeito mais lúdico e fácil.

Segundo Gombrich, devido ao espírito da época o objetivo era provocar as seguintes reflexões:

“Como se portaria um homem, como agiria, como se impressionaria se participasse de tais eventos? Mais do que isso: como se apresentariam aos nossos olhos tais gestos ou movimentos?”[18]

Diferentemente da Igreja Militante do século anterior, com suas construções objetivando combater o mal e vencê-lo, como fortalezas da cristandade, as catedrais góticas do século XIII, afinal o século da Igreja Triunfante, traziam, em forma de pedra e vidro, o Reino dos Céus até a Terra e promoviam uma experiência sensorial nos fiéis de caráter metafísico e plena de religiosidade. Segundo Pugin, “o próprio plano do edifício é o símbolo da redenção humana”[19]. Ele acrescenta que não bastava apenas criar e executar esta obra de arte arquitetônica sem haver sentidos maiores implícitos em cada pedra assentada e em cada imagem esculpida, pois,

[…] para que as construções produzam efeitos semelhantes sobre o espírito é preciso que seus autores tenham sido totalmente absorvidos pela fé e pela devoção, que a glorificação da religião tenha sido o próprio fim de sua educação.[20]

E é nesse sentido que o arquiteto, convertido ao catolicismo em 1833 e um dos promotores do renascimento gótico na Inglaterra, discorre acerca do sentimento e da filosofia que movia estes homens, desde o arquiteto ao pedreiro na execução de uma catedral:

Aqueles homens sentiam estar comprometidos com a ocupação mais gloriosa que possa caber a um homem, a de levantar um templo para a veneração do Deus da Verdade e da Vida. Este sentimento é que guiava ao mesmo tempo a mente que concebia os planos do edifício e o escultor paciente cujo cinzel recortava o detalhe admirável e diverso. Este sentimento é que levou os antigos pedreiros, apesar do perigo e das dificuldades da tarefa, a perseverar até que tivessem erguido suas flechas gigantescas numa região próxima das nuvens.[21]

Com isto, percebemos o quanto pode haver de coesão e determinação conjunta entre os diferentes estamentos – arquitetos, artistas, pedreiros, clérigos – quando há um objetivo comum que permeia toda a sociedade: levar a mensagem cristã adiante, preservando-a na arte, perpetuando-a na escultura e, de maneira mais perene, nas pedras que erguem as catedrais góticas até o céu. Esta imagem e este sentimento foram buscados à exaustão por todos aqueles envolvidos na realização de uma catedral gótica: causar a impressão de que o edifício se estende até o céu.

Contudo, Jacques Le Goff oferece uma visão que contrapõe este entendimento de Pugin em relação aos construtores de catedrais:

Não se deve crer, segundo o testemunho de certos textos célebres que mostram o entusiasmo das populações no sentido de contribuir para a reconstrução da catedral românica de Chartres, destruída por um incêndio em 1194, que as grandes catedrais do século XIII tenham sido construídas com o dinheiro e os incentivos dos burgueses. A ação financeira, artística e psicológica é essencialmente a dos bispos e dos cônegos, mais ou menos ajudados pelo rei e pelos príncipes territoriais.[22]

Ou seja, mais do que um evento de caráter absolutamente coletivo, de união de esforços, de sinergia pura e simples, de acordo com a visão de Le Goff, a construção das catedrais góticas foi um movimento, naturalmente, arquitetado de cima para baixo. Os clérigos, aliados à nobreza, contribuíram, mais do os que burgueses e muito mais, evidentemente, do que qualquer movimento espontâneo popular ligado a alguma forma de pregação evangélica, para que surgisse esse novo tipo de estrutura arquitetônica em pleno coração das cidades. Não se restringindo somente ao caráter financeiro, ao lançar a hipótese de que o dinheiro para as obras não vinha da burguesia, o autor vai ainda mais longe e afirma que justamente a ideia, a concepção do novo estilo parte quase exclusivamente do clero, com apoio maior ou menor da nobreza.

Continua…

Autor: Eduardo Pacheco Freitas

Fonte: Revista Nuntius Antiquus

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Notas

[1] – Cf. Rossi, op. cit.

[2] – Cf. Rossi, op. cit., p. 147.

[3] – Segundo o Dicionário de filosofia de Cambridge (São Paulo: Paulus, 2006, p. 286), a Escolástica é um conjunto de técnicas escolares e instrucionais desenvolvidas nas escolas das universidades da Europa Ocidental no final do período medieval, que incluíam o uso do comentário e da questão disputada.

[4] – Cf. Silveira, op. cit., p. 165.

[5] – Cf. Silveira, op. cit., p. 165-166.

[6] – Cf. Silveira, op. cit., p. 167.

[7] – Cf. Lopez, op. cit., p. 96.

[8] – Cf. Le Goff, op. cit., 1992, p. 205-206.

[9] – Cf. Le Goff, op. cit., 1992, p. 211.

[10] – Cf. Le Goff, op. cit., 1992, p. 206.

[11] – Em 1225, na cidade de Beauvais, planejou-se construir o coro da catedral com uma altura de 48 metros, o que provocou o seu desabamento no ano de 1284. (cf. Le Goff, op. cit., 1992, p. 211).

[12] – Cf. Gozzoli, op. cit., p. 3.

[13] – Um caso emblemático acerca da união de funcionalidade e beleza desenvolvida pelos construtores góticos foi a utilização dos vitrais, que, ao mesmo tempo, passavam a sensação de transcendentalidade e representavam os ensinamentos da Igreja. Segundo um religioso medieval citado por Gozzoli sem ser identificado, os vitrais ensinavam às pessoas simples que não conhecem as Escrituras aquilo em que devem crer (op. cit., p. 22). É uma perfeita junção de beleza e instrução, afinal trata-se aqui de uma sociedade que tem a maior parte de sua população analfabeta e suscetível a este tipo de estímulo.

[14] – Cf. Gombrich, op. cit., p. 188.

[15] – Cf. Le Goff, op. cit., 1992, p. 211.

[16] – Cf. Gombrich, op. cit., p. 188/ Podemos estabelecer uma interessante relação entre
a novidade gótica que é a utilização da luz natural, filtrada pelos vitrais, e sua capacidade de provocar sentimentos transcendentais nos fiéis, com o texto do versículo 23 do último livro da Bíblia: A cidade não precisa nem do sol, nem da lua, para lhe darem claridade, pois a Glória de Deus a iluminou, e o Cordeiro é a sua lâmpada. Neste sentido, basta-nos recordar que, devido ao caráter hierofânico do homem medieval, havia o entendimento de que a luz provinha diretamente de Deus (cf. Gozzoli, op. cit., p. 22) e como tal é possível entendermos a importância da presença da luminosidade em um templo gótico.

[17] – Cf. Gombrich, op. cit., p. 193.

[18] – Cf. Gombrich, op. cit., p. 201-202.

[19] – Cf. Pugin, op. cit., p. 118.

[20] – Cf. Pugin, op. cit., p. 118.

[21] – Cf. Pugin, op. cit., p. 118.

[22] – Cf. Le Goff, op. cit., 1992, p. 212.