Episódio 59 – Teseu e a Iniciação

(music: Slow Burn by Kevin MacLeod; link: https://incompetech.filmmusic.io/song/4372-slow-burn; license: https://filmmusic.io/standard-license)

O mito de Teseu é, claramente, a descrição de um ritual de passagem: do profano ao sagrado; do homem profano, ao buscador. Pode-se compreender esse mito como o caminho que faz o indivíduo, a partir do momento que decide ser buscador: é o caminho do iniciado.

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À sombra dos mitos – Sinais de reconhecimento, segredo, fraternidade…

Brother H. A. | Maçonaria, Pedreiros

A Maçonaria, cuja originalidade consiste em misturar ritual e reflexão, tradição e modernidade, simbolismo e solidariedade, não escapou do mito. Ela tem uma dúzia de histórias ou referências míticas que ela emprestou do fundo cultural judaico-cristão e que lhe permitiu desenvolver uma visão particular do mundo.

Em relação à mitologia clássica, ela selecionou seus temas preferidos: ela não destaca Édipo, Sísifo ou Eros, Zeus ou os Titãs, Orfeu e o submundo, belas deusas e ninfas imprevisíveis, heróis metamorfoseados, monstros fabulosos ou histórias de amor e incesto. Mas encontramos o crime (assassinato de Hiram), tantas vezes presente nas relações entre os deuses pagãos; encontramos a questão da transmissão do conhecimento (as duas colunas) colocada por Prometeu ou Hermes; encontramos a culpa do homem envolvendo a vingança de Deus (o Dilúvio e a Torre de Babel).

Basta dizer que a mitologia maçônica, apesar de dimensões restritas, não pertence menos à mitologia universal. Ela pode se articular em torno de três eixos: primeiro, a construção do Templo, imagem fantasista do templo de Salomão. Este edifício é tanto o próprio templo interior de cada maçom que deve dominar sua natureza, e o templo exterior representado pela Cidade ideal; em todos os casos, assume-se que permanece inacabado. Em segundo lugar, a lenda de Hiram, transposição de múltiplos arquétipos, retomada parcial do mito de Ísis e Osíris, símbolo da transcendência diante da finitude humana, realização de um destino e esperança de uma ressurreição. Finalmente, o mito de cavalaria que não só penetrou o ritual desde o grau de aprendiz (cerimônia de iniciação), mas também promove os valores tradicionais atribuídos a esta instituição: honra, coragem, lealdade, generosidade, altruísmo. Tal como o conjunto da sociedade, o fascínio cavalheiresco também permeia a Maçonaria.

Esses mitos – com a exceção da cavalaria – aparecem nas Antigas Obrigações que, entre 1390 e 1720 são os textos de referência dos maçons operativos que serviram de corpus para o desenvolvimento da Maçonaria moderna. Estes manuscritos (cerca de cento e trinta cópias) geralmente incluem uma história lendária da profissão do construtor e uma lista dos deveres morais e profissionais dos pedreiros. Existem ali também muitas ocorrências religiosas: invocações a Deus ou os santos, à Virgem Maria ou à igreja, busca da salvação da alma, referências e histórias bíblicas, orações. Uma interpretação espiritualista deduzida ali, instalada no corpus maçônico no início do século XVIII: entre 1710 e 1750 escolhas ideológicas decisivas relacionadas aos mitos foram feitas: apagamento de Euclides e eliminação de Noé em favor de Hiram e Salomão, uso sistemático de elementos bíblicos, a promoção do Deus único. Esta concepção é hoje dominante no espaço reflexivo maçônico.

Uma releitura secular e racional dos mitos maçônicas foi necessária; ela desafia muitas concepções tradicionais, mas esta nova visão alternativa não é destrutiva: ele não tem a pretensão de se livrar de Deus nem de outros atributos do modelo dominante, mas ela prefere a geometria, fonte de outras Ciência e local de raciocínio dedutivo. Para ela, o mito comporta tanto a imaginação quanto a razão: é claro que a razão produz mitos e os mitos mais irracionais têm uma razão.

Mas o maçom, na busca incessante do sentido que lhe sugere a presença de seus mitos, deve reabilitar aqueles que lhe atribuem uma finalidade de compreensão lógica da razão do mundo. Por esta inteligibilidade adogmática distante dos abusos espiritualistas de discurso meloso, e sem negligenciar uma certa consciência mítica, ele cumprirá totalmente sua missão: compreender, aprender, construir e transmitir.

Dois personagens míticos eliminados: culpa de Hiram?

Euclides, a fonte racionalista esquecida

O Manuscrito Regius (1390), o mais antigo texto das Antigas Obrigações, começa com uma fórmula claramente significativa:

“Aqui começam os estatutos da arte da geometria segundo Euclides.”

Não só Euclides é o padrinho do Regius, mas lhe é creditado ser o criador das sete ciências; em todas as ações atribuídas a ele, Euclides sempre age de acordo com os princípios da razão geométrica, tornando-se um homem providencial. Ele é também – embora este ponto seja totalmente omitido pelos espiritualistas e historiadores maçons – aquele que pela primeira vez formaliza as regras de organização e funcionamento do ofício.

Ele é, assim, o autor de quatro “obrigações” decisivas:

  • A obrigação de transmissão recíproca: aquele que é mais avançado na arte da geometria deve instruir os menos dotados, a fim de aperfeiçoar e esta instrução deve ser recíproca;
  • O dever de fraternidade: os homens que praticam a arte devem “amar a todos como irmãos e irmãs”;
  • A designação de um mestre: o mais avançado na arte deve ser chamado de “mestre” para homenageá-lo particularmente;
  • O respeito mútuo: os maçons, para o bem da unidade, devem se chamar companheiros entre si, qualquer que seja o seu nível profissional.

Outro texto das Antigas Obrigações, o Manuscrito Dumfries no. 4 (C 1710) apresenta Euclides como aquele que cria quatro novas medidas verdadeiramente constitutivas da Maçonaria especulativa: a criação em forma de Ordem, o sinal de reconhecimento, o segredo e a regularidade do trabalho em loja.

Apesar desse papel essencial, Euclides não foi mantido como um mito da Maçonaria moderna: Anderson o cita pouco e os rituais desenvolvidos no decorrer do século XVIII, lhe atribuem apenas algumas evocações em alguns graus do Rito Escocês Antigo e Aceito.

Noé, um destino maçônico contrariado

Noé, mito universal e um dos mais antigos da humanidade, tanto como resultado do dilúvio quanto da arca, representa na Bíblia o fundador da nova ordem mundial. Deus, vendo-o como o único justo e o único homem de integridade, conclui com ele a sua primeira aliança depois do dilúvio. Os termos dela são simples: Deus diz a Noé que ele nunca mais o amaldiçoará e, portanto, não destruirá os seres vivos como acabou de fazer. Ele, então, determina a Noé e a seus filhos uma missão de quatro pontos: eles devem ser fecundos e prolíficos; eles dominarão a natureza; eles poderão se alimentar de tudo o que há na terra, exceto o sangue; e eles deverão velar pela vida de seus irmãos, ou seja, não matar. O arco-íris será o sinal dessa aliança. Trata-se de uma nova filosofia equilibrando direitos e deveres: possibilidade para o homem dominar a natureza, mas obrigação de respeitar a vida dos outros.

Nos textos maçônicos do século XVIII, Noé é valorizado: Anderson o apresenta em 1738 como o pai da Maçonaria, cada maçom sendo um “verdadeiro filho de Noé” e Ramsay como o restaurador da raça humana e o primeiro Grande Mestre da Ordem. O Noaquismo é assim, a religião primitiva anterior a todo dogma, uma espécie de religião natural global em que todos os homens podem se reconhecer. Noé deveria ter sido o mítico fundador da Maçonaria especulativa. No entanto, ele desaparece muito rapidamente das referências maçônicas: ele já não é mencionado na edição das Constituições de 1756 e não reaparece no novo texto da Constituição Maçônica Inglesa de 1813. Ele não é mais encontrado hoje, senão no grau 21 do REAA chamado Noaquita ou Cavaleiro Prussiano e no Grau de Royal Ark Mariner, novamente praticado na França há vários anos. Como Euclides, ele foi deposto por Hiram.

Um novo rosto para Hiram: uma apresentação de sacrifício à luta de classes

O mito de Hiram é a narrativa fundamental da Maçonaria especulativa; aparecido na década de 1730, ele coloca em cena Hiram, Mestre Maçom do canteiro de obras do Templo de Salomão, que foi assassinado por três maus companheiros a quem ele não quis revelar o segredo dos mestres. Existem cerca de cinquenta versões do mito hirâmico. Mas, Hiram continua a ser o mestre perfeito, dotado de todas as virtudes humanas e de todas as competências técnicas possíveis; ao invés de revelar um segredo, ele se sacrificou e morreu: senso de Dever, recusa a ceder à fraude, ele representa no imaginário dos maçons um modelo de coragem e de vida, ao mesmo tempo um herói e um santo, o mito maçônico absoluto.

Esta lenda é incompleta porque um episódio crítico foi omitido pelos redatores maçônicos do século XVIII.

O documento sobre o qual repousa o mito, o Manuscrito Graham (1726), relata que um conflito profissional eclodiu no canteiro de obras: é uma disputa entre os trabalhadores e os pedreiros sobre salários. Hiram ocupa o cargo de vigilante de todo o canteiro de obra, mas é o próprio rei Salomão quem intervém para se chegar a um acordo: ele explica para acalmar as recriminações que todos os trabalhadores serão pagos da mesma forma, mas ele dá aos pedreiros um sinal que os trabalhadores não conheciam:

“E aquele que podia fazer o sinal onde os salários eram pagos eram pagos como pedreiros; os trabalhadores não o conheciam e eram pagos como antes.”

Embora a calma tenha voltado, Hiram se torna, portanto, cúmplice de uma torpeza de Salomão, de uma manipulação e uma mentira, apagada do texto maçônico, ostensivamente para dar a Hiram um papel idealizado.

Hiram é, portanto, o tipo de executivo dividido entre os objetivos do cliente e as queixas dos trabalhadores, defendendo até a morte os interesses da classe dominante.

As duas colunas antediluvianas, um mito negligenciado

Este mito é amplamente destacado por vários textos das Antigas Obrigações e retomado por Anderson. Ele encontra sua origem nas Antiguidades Judaicas do historiador Flavius Josephus (37-100). Ele indica que homens que tiveram a presciência de um cataclismo universal querido por Deus e que arriscava destruir a humanidade por água e fogo decidiram construir dois pilares sobre os quais todo o conhecimento seria inscrito, com o objetivo explícito de o preservar e transmitir às gerações futuras.

Pelo efeito de uma mudança de significado, uma confusão com as duas colunas do Templo de Salomão ele foi gradualmente instalado na mitologia maçônica; hoje, apenas no grau 13 do Rito Escocês o tema se mantém intacto.

Alguns aspectos são dignos de nota:

  • De acordo com as versões, passamos de quatro construtores (os filhos de Seth, terceiro filho de Adão e Eva) a um único construtor: Enoque, o patriarca antediluviano que foi levado vivo para o céu. Da mesma forma, os materiais de construção variam de pedra ao mármore, de tijolos ao latão.
  • A intenção inicial é motivada pelo medo de perder as invenções humanas; estas dizem respeito principalmente à astrologia, depois a geometria e a maçonaria. Finalmente, é Hermes que redescobrirá uma única coluna, permitindo o sucesso da operação.

Muitos historiadores maçons integram este mito no Noaquismo; essa assimilação é injustificada. Noé e as duas colunas não têm ligação alguma entre si. Noé é um personagem bíblico, enquanto que o episódio das duas colunas, invenção profana está ausente do texto bíblico; Noé é uma personagem que faz a ligação com Deus, enquanto a decisão de construir as duas colunas é puramente humana, sem um relacionamento anterior com Deus. Pode-se até argumentar que esta decisão é a marca de um desafio a Deus, os homens assumindo que arriscam perder permanentemente o que eles ganharam.

É preciso lembrar a natureza Prometeana de um projeto perfeitamente racional.

O duplo mito salomônico, ambiguidade da natureza humana

A Maçonaria é permeada pelo mito Salomoniano em dois aspectos: primeiro, a construção do Templo como o canteiro ideal e por outro lado, a pessoa do próprio rei Salomão, cujo papel é importante, especialmente nos graus escoceses. Sejam quais forem os textos, o Templo é a expressão da perfeição; ele representa o cosmos e para muitos maçons é a expressão simbólica do Templo Maçônico. Salomão é apresentado em todos os atributos da soberania: construtor, justiceiro, concedendo recompensas, presidindo todas as assembleias; na plenitude de sua glória, ele é, especialmente no REAA, o fiador simbólico da maestria sem defeito.

De acordo com a visão bíblica, Salomão é um homem sábio, possuidor do dom do discernimento na origem de sua equidade e sua tolerância proverbial, conhecimentos científicos e uma abordagem filosófica.

Esta visão é em grande parte distorcida e inequívoca. O templo não é apenas um santuário religioso, mas também ao mesmo tempo um lugar político. Sua construção interrompe o nomadismo da religião judaica e, simultaneamente funda a identidade nacional do povo judeu. Os caprichos da história fizeram dele um lugar de rivalidade e crimes, tanto religiosos quanto políticos. Salomão, por sua vez, mandou assassinar seu irmão e vários dignitários ou rivais para consolidar seu poder; depois de uma primeira parte do glorioso reino, ele se tornou infiel a seu Deus, entregando-se ao politeísmo e à poligamia, aumentando os impostos de seus súditos, usando escravos e não respeitando seus compromissos comerciais com seus vizinhos. Com sua morte, as tribos do norte se revoltaram e o país se dividiu em dois reinos.

Por que os maçons valorizam um lugar simbolicamente tão questionável e uma figura criminosa? Esquecendo-se o lado escuro dos homens e sua história, a Maçonaria quer mostrar a imperfeição da natureza humana?

A Torre de Babel, um mito amaldiçoado que se tornou benéfico

A Maçonaria propõe três grandes interpretações do mito da Torre de Babel:

  • A visão tradicionalista: construindo a Torre, os homens deram prova de orgulho e vaidade insuportáveis para Deus; a ira divina é, assim, natural, a confusão de idiomas é um castigo merecido, assim como a maldição do homem sobre a terra. Esta concepção moralizante e culpabilizante baseada na Bíblia está presente especialmente no Manuscrito Regius (1390), no Manuscrito Graham (1726) e quase totalmente no grau 21 do REAA.
  • A interpretação construtivista: ela tem sua origem no Manuscrito Cooke (c. 1400) que apresenta este mito como a capitalização da experiência adquirida pela “ciência da geometria”, que levou a uma mestria da arte de construir. Nada é dito sobre a intenção original dos homens nem sobre a vingança divina. A torre não é mais o símbolo da vaidade humana, mas torna-se o lugar da transmissão do conhecimento técnico. Estamos aqui na origem de uma visão amplamente positiva do mito.
  • A síntese Andersoniana: As Constituições de Anderson (1723 e 1738) ultrapassam as duas correntes anteriores, emprestando-lhes vários elementos. A construção da torre não tem a intenção de desafiar a Deus, este ponto não sendo mais que uma consequência; a sanção é a mesma para os homens, a da confusão de idiomas e a dispersão; mas os homens adquiriram por meio dela, uma competência excepcional que servirá ao desenvolvimento da arte de construir.

Assistimos durante quarenta anos uma inversão axiológica: seguindo-se a evolução geral da opinião a diversidade é agora uma bênção e o múltiplo é a ordem natural do mundo. Babel permanece a metáfora da desordem extrema e do excesso, mas a maioria dos maçons de nossos dias compartilha a ideia de que a diversidade é uma riqueza em nome do princípio de que é preciso “reunir o que está espalhado”. A reinterpretação regular desse mito mostra que ele não se fossiliza, Babel tendo se tornado ao longo do tempo o paradigma da unidade e da diversidade humana.

O mito no coração do homem

Todas as culturas o utilizam. É uma história que tem uma ou mais histórias; elas retratam deuses ou seres sobrenaturais ou heróis divinizados que adquiriram status divino; esses deuses têm relações entre si e com os homens. Eles muitas vezes se comportam de forma imoral, mas isso é para mostrar aos homens em contraponto aos valores morais que eles devem respeitar. Para muitos – especialistas ou simples seguidores – a natureza religiosa do mito é evidente, porque a intrigas na maior parte das vezes se refere à origem dos deuses, do mundo, do mal, da morte. Todas as religiões estabeleceram ligações com os mitos, porque eles são portadores de uma visão sagrada. Portanto, a questão dos mitos fundadores é essencial porque participa da crença coletiva em uma criação antiga, se não arcaica, expressando uma verdade reconhecida como certa e que se tornou atemporal.

Autor: François Cavaignac
Tradução: José Filardo

Fonte: REVISTA BIBLIOT3CA

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O mito de Sísifo e nós, maçons

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É bem possível que todos tenham vivenciado, nos primeiros dias que sucederam suas respectivas iniciações, a expiação que conheço nesses poucos dias como Aprendiz.

Peço que levem isso em conta e recepcionem com sapiência o exercício que faço da palavra, reconhecendo minha infância iniciática e sabendo separar o joio do trigo (se é que ele, o trigo, pode ser encontrado em uma ou outra linha deste texto).

Em passado recente o ministro Luís Roberto Barroso (STF), constitucionalista de estirpe, com a erudição que lhe é peculiar, publicou laureado artigo onde citava o mito de Sísifo, esmiuçado e bem conhecido por este Aprendiz durante determinado período de aprimoramento (MBA em Educação e Gestão de Negócios).

Lembrou o ministro que Sísifo, personagem da mitologia grega, era conhecido por sua astúcia, indiscutível culto à felicidade e ódio à morte.

Ele era filho do rei Éolo, da Tessália, que foi o fundador e primeiro rei de Éfira, também conhecida como Corinto, uma das cidades visitadas pelo Apóstolo Paulo e presente no Novo Testamento do livro sagrado dos cristãos.

Em uma determinada época, Sísifo despertou a ira dos deuses ao desafiá-los e enganá-los, situação que resultou na sua condenação por Zeus, o rei das divindades.

A reprimenda foi tornar-se um ser imortal e passar a eternidade empurrando uma pedra montanha acima, no Reino dos Mortos. Quando chegasse ao cume, a pedra rolaria para a base de novo e Sísifo voltaria novamente à tarefa.

O fio da meada vem do escritor francês Albert Camus, no ensaio filosófico “O Mito de Sísifo”, de 1941, que interpreta a história como sendo uma analogia ao castigo que é se dedicar a um trabalho sem sentido por toda a eternidade.

Agora, a digressão.

O History Channel, respeitoso e reconhecido canal de televisão, apregoou em notícia recente as cinco sociedades fechadas mais influentes e misteriosas da história. Informou que “recente reunião mundial do Clube Bilderberg voltou a levar às primeiras páginas a incógnita sobre a verdadeira influência que exercem alguns grupos fechados mais ou menos secretos sobre o destino do planeta”.

A nota é categórica ao afirmar que a Francomaçonaria está na lista, sem referência às demais potências da Ordem. Em primeiro lugar figura o famigerado clube de Bilderberg, que é o encontro das figuras mais influentes do mundo e que acontece desde 1954.

Tenho ciência que o Grande Oriente do Brasil é reconhecido pela Grande Loja Unida da Inglaterra. Uma leitura expandida da notícia pode dar a entender, então, que citar a Francomaçonaria foi fazer incluir a Ordem brasileira, alemã, francesa etc..

De toda forma, ouso divagar e sugerir que avaliemos a situação de tal modo que seja possível solidificar uma ampliação vertiginosa da compreensão que temos da realidade, no sentido de compreende-la na sua totalidade.

Reflitamos em conjunto: quais ações, condutas e posturas passeiam pelo nosso campo de visão e nos capacitam de forma a evitar que nós, maçons da contemporaneidade (e de terras tupiniquins), realmente não estejamos de fora?

De que modo nós, que ocupamos esse templo de elevação, trabalho e busca, integrantes do que, permitam-me, chamo de “juventude” Maçônica, efetivamente influenciaremos as andanças mundiais?

Compreendo que este tipo de provocação ou questionamento pode sugerir a vivência do inebriado estado que sucede a iniciação. Pode até sugerir, na cabeça de alguns, certa prepotência ou até um impulso juvenil, revelador, quem sabe, de patologias ansiolíticas ou coisas que o valham.

Não me importo! Rejeito a ideia de me quedar inerte e faço uso de uma das prerrogativas que minha condição de maçom oferece. Regozijo diante da garantia que tenho de me expressar, festejo o fato de “decorar” a coluna do Norte, revelo estar vivenciando a realização de um desejo longínquo (quiçá ancestral) e, enfim, certifico: nós devemos SER a diferença!

Alinhados aos ideais e às liberdades de pensamento que a Maçonaria desfraldou, devemos honra ao suor e às conquistas dos que nos antecederam. Devemos impulso enfático e destemido às ações progressistas e evolucionistas que nos regem.

Somos sucessores de homens que entregaram suas vidas à campanha republicana, à abolição da escravatura, à evolução da política nacional, à materialização da tão esperada anistia para presos políticos, à luta pela redemocratização do país etc.

Somos sucessores de Irineu Evangelista de Souza, o (primeiro) Barão e (depois) Visconde de Mauá (baluarte da industrialização brasileira), de José Bonifácio de Andrada e Silva, de Victor Hugo, do jurisconsulto baiano Rui Barbosa, de Victor Brecheret, de José Maria da Silva Paranhos, o Visconde do Rio Branco e símbolo da diplomacia brasileira, de George Washington, de Franklin Delano Roosevelt, de Benjamin Franklin e de tantos outros.

É de fácil percepção, então, que a coxia  não é o nosso lugar!

O “x” da questão é que, para estar no palco (e não na coxia), é preciso preparo. Mais que isso: é preciso consciência. Consciência essa que deve revelar ao seu portador a impossibilidade de se distanciar dos compromissos que foram assumidos no dia em que foi aceito na Maçonaria.

Que deve ser capaz de incrustar na cabeça de cada um aqui presente o absurdo que será se ele não se dispor a seguir sua vida na condição de homem honesto e honrado, uma vez que para estar aqui entre nós é preciso estar ciente de que uma das nossas missões é arrastar [positivamente] outras pessoas pelo nosso exemplo.

É preciso que roguemos, então, pela universalização de condutas éticas, prósperas e humanas, e que respeitemos, dessa forma, uma regra moral e igualitária que se extrai do princípio maior da filosofia de Kant, cuja dicção é:

“Age de tal modo que a máxima da tua vontade (o princípio que a inspira e move) possa se transformar em uma lei universal.”

E em uma Maçonaria que almeje agir de tal modo que sua conduta possa se transformar em uma lei universal, permitindo que outras pessoas sejam arrastadas pelos seus exemplos, não cabe “jeitinho”, “agrado” a guarda de trânsito, “café” para fiscal ou desavenças que não privilegiem a fraternidade que nos une. Não cabe intolerância, mentira, desafeto e falta de compaixão. Não cabe o exagero, o desacerto e a incompreensão das diferenças. Não cabe, estimados Irmãos, não cabe!

Cabe, sim, trabalho incessante pela realização dos fins da Maçonaria. Cabe, sim, o dever de estudo sobre todas as questões que agitam a sociedade. Cabe, sim, o dever de ser bom, justo, digno, ético, dedicado, corajoso, isento de orgulho e ambição, livre de preconceitos e pronto a todos os sacrifícios pelo triunfo do Direito e da Verdade.

É o cuidado com a autofagia!

Autor: Dinovan Dumas de Oliveira
ARLS Acácia de Aruã – GOSP/GOB
Oriente de Mogi das Cruzes, São Paulo

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O Mito de Tântalo

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Vanitas vanitatum et omnia vanitas – (Vaidade das vaidades, tudo é vaidade). Quem mais legou textos sobre a vaidade foi Eclesiastes (“O Pregador”). Presume-se que tenham sido escritos (originalmente em hebraico ou aramaico) pelo Rei Salomão.

Não é de hoje que o homem aspira a mais perfeita e elevada purificação. Como outrora, religiosos ferrenhamente devotados empreendem uma luta interior buscando alcançar o Olimpo, atingir o nirvana ou vivenciar o paraíso na terra.

O mito grego do rei Tântalo desvela a ambição de um mortal que, não satisfeito em ser notoriamente o “predileto dos deuses”, almeja transmutar-se num “deus” propriamente, incorrendo num erro brutal.

Apontando a hýbris (desmedida) em Tântalo, na obra intitulada “O Simbolismo na Mitologia Grega”, o renomado estudioso francês Paul Diel, afirma que:

“Afoito por sua conquista e esquecido de sua condição mortal e seus limites, Tântalo chega a se exaltar com tal intensidade que lhe sobrevém a tentação de querer se tornar um igual entre as divindades, puros símbolos do espírito”.

A fim de obtermos maior clareza sobre esse latente desejo humano e de sua possível perversão, descortinemos o mito legado pelo premiadíssimo tragediógrafo Ésquilo (524-456 a.C.).

A desfrutar néctar e ambrosia, Tântalo, o próspero e abençoado rei de Corinto, justo e bem quisto, torna-se o único mortal admitido à mesa dos olímpicos. A consciência dessa distintiva predileção acaba por enredá-lo numa vaidosa e desvairada grandiosidade imaginativa.

Presunçoso, no afã de confirmar seu estatuto de “igual” entre os deuses, Tântalo convida a todos do Panteão para um banquete em seu palácio e, pondo em teste a onisciência divina, lhes oferece o alimento terrestre sob sua forma mais abjeta: a carne de seu próprio filho, Pélops.

Servir essa funesta iguaria, fruto de sua obsessão doentia, simboliza a maior perversão empreendida por um mortal. Eis que os deuses são mesmo oniscientes, reconhecem a blasfêmia e, horrorizados, repudiam a ofensiva dádiva. Somente a deusa Deméter, da agricultura, perturbadíssima com o recente desaparecimento da filha Perséfone (Prosérpina ou Kore para os romanos), desatentamente ingere um pedacinho da carne.

Malsucedido, Tântalo nem se igualou aos deuses, nem os rebaixou a seu nível, pois Zeus, o soberano do Olimpo, restaurador da ordem, ressuscita Pélops reconstituindo o pedaço faltante do ombro por mármore (daí “hamartía“, a marca) e delibera sobre qual seria o pior castigo para o herege. O menino fora poupado, mas a maldição lançada aos descendentes da Casa de Atreu (cujo expoente será o ganancioso rei atrida Agamêmnon), como a “marca do pecado original” legado no mito de Adão e Eva, trazemos todos até hoje: a eterna insatisfação.

A condenação pelo veredicto dos deuses, pela “lei psíquica”, ilustra a justiça inerente a todos nós. É na perturbação oriunda do conflito interior da psyché (alma) humana que as divindades tornam-se expressões simbólicas da legalidade essencial da vida e de sua necessidade de fazer justiça.

A santidade idealizada e perseguida em ciclos míticos como o hindu, o islâmico e o cristão, por exemplo, é justa. Almejar, no entanto, a santidade absoluta, esquecendo-se da condição humana, é irrealizável. Mais ainda, uma ambição dessa magnitude constitui evidente desmedida (hýbris), caso de Tântalo.

Paul Diel, afirma que:

“Justamente em razão dos gregos não terem alcançado a visão clara e mais elevada do ideal simbolicamente expresso pelo mito cristão, é que [neles] o desejo de purificação perfeita só pôde ser visto sob seu aspecto negativo; o perigo de uma superexcitação doentia da esfera espiritual”. A visão mítica dos gregos nos “adverte contra esse perigo exprimindo unicamente o medo de ver rompida a harmonia das pulsões e perder a justa medida”.

Para outras formas de re-ligação (religião), o santo, o homem simbolicamente divinizado, “ungido” pelo “deus”, venceu todos os desejos da matéria, tanto no nível das inquietações físicas quanto no nível da imaginação exaltada e, tendo-os dissolvido, ele não é mais afetado por nenhuma tentação. Como Sidarta Gautama, o Buda, transcende a tudo e a todos.

Ao que Tântalo almeja, tornar-se também um deus, o grego impõe interdito. O ideal de santidade proposto pela doutrina cristã caracteriza um passo evolutivo que transpõe os marcos da cultura pagã. O interdito é esse: a carne se fazer espírito, o homem tornar-se deus. A correção é essa: o Espírito faz-se carne, Deus faz-se homem.

Desse modo, o indivíduo que busca a verdadeira santidade dispõe de toda energia de seus desejos, subtraindo-se ao mundo em relação ao qual ele nada mais deseja e, precisamente por haver-se assim libertado das múltiplas ligações afetivas, permanece unido ao mundo graças a vínculos mais intensos: o amor (caritas), a bondade e a compaixão.

Autora: Luciene Felix

Fonte: Blog Conhecimento Sem Fronteiras 

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Mito e Filosofia

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Lições preliminares sobre as origens e as diferenças conceituais entre mito e pensamento filosófico tendo como base a cultura ocidental

Antes de buscarmos os conceitos e a diferença conceitual entre o mito e o pensamento filosófico, devemos afirmar como ponto de partida que somos descendentes da cultura ocidental, e como tal devemos estabelecer que o mito e a filosofia em questão são frutos das origens gregas, nosso escopo voltar-se-á, portanto, para estes. Cabe o esclarecimento, visto que os povos mais antigos do mundo, oriundos da cultura oriental, já buscavam explicações para a origem de tudo, valendo-se, não somente, de suas crenças e fantasias, mas, também, de especulações racionais. Dito isso, o que nos interessa é, portanto, – como filhos do ocidente – situar a diferença conceitual entre mito e filosofia dentro do contexto da Grécia antiga.

O Mito

É inevitável, ao falar da Grécia, vir à lembrança o termo “Mito”. Até hoje, as ruínas daquela civilização trazem à tona no consciente de cada homem informado, que ali, nos primórdios, aquele povo culto criou meios de se entenderem como seres humanos no mundo (kosmos).

A definição dada pelos dicionários, grosso modo, é a de que “mito quer dizer história ou conjunto de histórias que fazem parte da cultura de um povo e tentam explicar fenômenos incompreendidos ou sem resposta comprovada, como a criação do mundo, o sentido da vida humana e morte” (História ilustrada da Grécia antiga, p.58). Diante disso, cabe sanar o entendimento comum de que uma pessoa ilustre ou representativa para qualquer sociedade, por seus feitos e vultos, uma vez morta recebe status de figura mítica ou lendária. Daí ser comum ouvir-se falar do mito de Gandhi, o mito de Mandela, mito de Bruce Lee… O emprego do termo mito aí recebe uma conotação que não é a do mito grego.

O mito, isto é, o pensamento mítico busca por meio de uma crença alcançar uma verdade; procura encontrar o sentido da vida; tenta dar explicações que perpetuamente inquietam o ser humano. Os poetas gregos, entre os quais Homero se destaca, em seus escritos e narrativas dá sentido às crenças míticas. E, ainda, a Teogonia de Hesíodo traduzia a cosmovisão mitológica por meio de versos e da tradição oral, já que a família grega passava de pai para filho, de geração para geração, o conhecimento legado por esses gênios que tentavam interpretar o mundo por meio da palavra e da engenhosidade imaginativa do espírito. Politeístas que eram, os gregos valeram-se de muitos deuses para interpretar o mundo. Estes faziam parte de um mundo sobrenatural construído para explicar a realidade do mundo, sua origem, meio e fim.

Assim, Zeus era o chefe supremo do Olimpo. Homero o chamou de “o pai dos deuses e dos homens”. Possêidon, deus dos mares – sua mulher era Anfitrite, neta do titã Oceano. Hades, deus do subterrâneo, por isso o inferno bíblico é sinônimo de Hades. Háracles (o mesmo que Hércules), filho de Zeus e da mortal Alcmena, conhecido por suas façanhas incríveis. Ares, deus da guerra, filho de Zeus. Apolo, deus do sol. Hermes, conhecido como o mensageiro, filho de Zeus. Hefesto, deus do fogo, artesão divino, produzia os raios de Zeus. Dionísio (Baco, para os romanos), filho de Zeus, sua mulher desejou ver este em toda sua majestade, mas os raios luminosos procedentes desta visão a carbonizaram. Afrodite, deusa da beleza. Atena, deusa da sabedoria. Estes são algumas personagens míticas criadas da verve poética grega. Percebam que o mito é toda história construída com esses seres, que protagonizam um cenário de magia e fantasia.

O mito expressa o mundo e a realidade humana, além de ser sempre uma representação coletiva, ou seja, ele se refere à história de um grupo, de um povo, nunca de um único indivíduo. E os mitos são transmitidos de geração em geração, como uma espécie de herança que deve ser levada e passada adiante.

Justamente por tentar explicar o mundo e a complexidade da realidade, o mito não tem como ser lógico ou racional. Aos olhos dos leigos – e também dos menos sensíveis – os mitos parecem algo sem sentido. De fato, sua narrativa é ilógica e irracional, mas assim deve ser, pois ele está aberto a todas as interpretações possíveis. O mito deve, antes de tudo, ser decifrado (Op. cit., p. 71).

O pensamento filosófico

“Não se pode ensinar filosofia, o que se pode é ensinar a pensar filosoficamente”. Estas palavras de Immanuel Kant, de certo modo, revelam-nos o que a filosofia é. Delas podemos extrair que a filosofia não é coisa que se aprende, embora fosse Kant professor de filosofia. Mas ela, a filosofia, não se aprende na práxis de que alguém pode ensinar a alguém uma filosofia, tal qual o professor ensina ao aluno em suas aulas a fazer cálculos ou uma fórmula qualquer. Ora isso pode ser um contrassenso, já que os grandes filósofos tiveram professores e alunos. Verdade. Mas estes não se propuseram a ensinar, mecanicamente, nenhuma filosofia a alguém. Os grandes filósofos debatiam, argumentavam, criticavam, questionavam, duvidavam, ou seja, exercitavam o ato de pensar, mas pensar radicalmente, até ao âmago das coisas. Enfim, nesse sentido, professor e aluno eram verdadeiros agentes do pensar filosófico, e com isso faziam filosofia, pensavam filosoficamente. Como se percebe, o pensar filosófico é crítico e radical, exige sistematicidade e compromisso com o todo, e neste está o homem inserido.

A Filosofia (gr.: philosophia = amor à sabedoria) não foi uma criação ou uma descoberta de algum prodígio. Nem tampouco uma arte inventada da técnica apurada de um feiticeiro. Nem de um místico do deserto que recebeu uma revelação depois de uma peregrinação sem-fim. Não foi. A filosofia já nasce com o homem. Ela é a morada do ser, conforme Heidegger. É o ser humano que tem a dotação para fazer filosofia, pois ele tem o atributo próprio para isso. Só ele tem o que nenhum outro ser tem, aquilo que o faz diferente, e que o leva a indagar, perscrutar, duvidar, sobre si mesmo e sobre o mundo. Este atributo que é a razão é quem o qualifica para o pensar filosófico. O homem racional está apto para filosofar. Mas, não se contentando com isso, devemos dizer como Gianfranco Morra, que “todos são filósofos, à medida que querem ser humanos; ninguém é filósofo, à medida que é somente humano” (2001: p. 10).

Como a mitologia não mais fornecia a necessária e suficiente confiança para explicar o mundo, Tales de Mileto[1] ousou formular uma nova maneira de compreensão cosmológica (período cosmológico ou pré-socrático): o sábio grego ao observar às margens do Nilo a fertilidade deste, deduziu que a origem do mundo, o princípio substancial (arché) de todas as coisas era a água, pois ela é quem dá vida a tudo. Realmente, as águas do Nilo faziam germinar todo o tipo de vida tanto vegetal como animal. Hoje, parece tudo muito simples. E muitos podem até ignorar a importância disso, por não saberem que quem ousasse a contrariar a crença (doxa) do grego antigo, se não fosse capaz de provar poderia ser punido com a morte. Tales de Mileto é considerado o primeiro filósofo, e todos os outros que o sucederam em seu tempo – isto é, os pré-socráticos – buscaram como ele, uma explicação não mais nos mitos, mas na própria physis (natureza).

Desse contexto histórico-filosófico, percebe-se que o pensamento filosófico vale-se da razão para formular hipóteses ou questões problematizadoras em busca, sempre, da verdade das coisas. Daí a definição de Aristóteles que filosofia é a disciplina que estuda as causas primeiras e o os fins últimos das coisas. Por isso mesmo, a filosofia é um saber crítico, que põe em crise toda verdade preestabelecida, não aceita como evidente todo dado posto diante de si. A filosofia, portanto, não é ciência, não é um saber acabado e estanque.

Enfim, não é fácil definir a filosofia, mas deixo, nesse remate, a definição de Karl Jaspers[2]:

A filosofia é o pensamento no qual torno-me íntimo do Ser mesmo por meio da ação interior, é o pensamento no qual torno-me eu mesmo. Ela é, em outras palavras, o pensamento que prepara o lançar-se na Transcendência, recorda-o, e até, num instante sublime, o produz, à medida que é atividade de todo homem no seu pensar“. (A minha filosofia, 1941: 3 Apud Morra: 2001, p. 11).

Autor: José Fernandes Pires Júnior

Fonte: Portal da Filosofia

José Fernandes Pires Júnior é professor de Filosofia na rede de ensino público do DF, advogado e pós-graduando em Filosofia e Direitos Humanos. Autor do livro O Sofrimento dos Filósofos (Ed. Biblioteca 24 horas) e de vários artigos nas áreas do Direito e da Filosofia.

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Notas

[1]Os primeiros filósofos gregos costumavam ser chamados de pré-socráticos, porque eles antecederam Sócrates. Os textos dos iniciadores da filosofia se perderam praticamente todos, restando apenas trechos de alguns escritos e frases. Na qualidade de fundadores da filosofia, os pré-socráticos deram início ao discurso da razão, que viria a dominar o Ocidente desde então. (História ilustrada da Grécia antiga, p. 76).

[2]Filósofo e psiquiatra alemão, Karl Theodor Jaspers (1883-1969) trabalhou no hospital psiquiátrico na Universtität Heidelberg e, anos depois, lecionou filosofia na Universtität Basel. Seu pensamento está associado ao neokantismo e o existencialismo.

Referências Bibliográficas

A História ilustrada da Grécia antiga. São Paulo: Editora Escala, 2008

MORRA, Gianfranco. Filosofia para todos. Trad. Mauricio Pagotto Marsola. São Paulo: Paulus, 2001.

O Julgamento de Osíris

O Julgamento de Osíris estava conectado com a ideia que os egípcios faziam da vida além túmulo. Essa vida transcorria-se numa região intermediária entre a terra e o céu, denominada Tuat.
 
O significado exato dessa palavra é desconhecido, mas geralmente ela é traduzida como “mundo do além”. Mais tarde, alguns estudiosos a associaram com a ideia de inferno, mas isso não é correto, já que o conceito de inferno integra sempre a ideia de um lugar onde as almas são castigadas sem esperança de remissão, o que não acontecia com a visão que os egípcios tinham da Tuat
 
E depois, o conceito de inferno apareceu bem mais tarde na história do pensamento religioso, a partir do desenvolvimento da cultura cristã. Na cultura egípcia essa noção era desconhecida. 
 
(….) 
 
Acreditava-se que todos os mortos eram levados para um salão, para ali serem julgados pelos deuses. “Os Senhores da Tuat”, era uma espécie de tribunal presidido pelo deus Osíris. Ali, um deus com cabeça de chacal, chamado Anúbis, pesava os corações dos defuntos numa balança, cujo contrapeso era uma pena de avestruz, símbolo da Maat. Se o peso encontrado fosse inferior ao peso da pena, o deus Thot, (ou Hermes segundo os gregos), anotava o nome do defunto entre aqueles que podiam subir na “Barca de Osíris”, também conhecida como a “barca de milhões de anos de Rá”, para atravessar a Tuat em direção ao território luminoso do Deus Rá (o Sol), onde seu espírito se uniria àquele deus, tornando-se também um astro
 
E o corpo do defunto, se todos seus atributos tivessem sido devidamente conservados, poderia continuar a viver eternamente nos Campos Elísios, na forma do seu ka. Eis aí o motivo do extraordinário desenvolvimento das técnicas de conservação de múmias entre os egípcios. Se o ib do morto,( coração, ou consciência), pesasse mais que a pena,(significando que o defunto não tinha praticado Maat em vida), ele era entregue á fera Ammit (ou Apépi ), que o devorava. 
 
(….) 
 
Essa representação é a base do ensinamento iniciático contido no mito de Osíris. O deus morto é como uma semente que se deposita no solo, e ali, na total ausência da luz, ela começa a regenerar-­se. Osíris é também como o Sol, que engolido pela serpente Apépi, atravessa as trevas da Tuat em busca da luz, semelhante à semente que, enterrada na escuridão da terra, rompe seu ventre e ressurge como planta nova para a luz do sol. 
 
Da mesma forma, o homem que morria podia ser regenerado na Tuat, se na sua vida terrena tivesse aprendido a praticar Maat. Daí o conteúdo iniciático dos Mistérios de Isis e Osíris. O iniciado aprendia, mediante a prática do ritual adequado, a regenerar-se em vida, renascendo simbolicamente no espírito.
 
Essa mesma ideia é desenvolvida na liturgia dos ritos maçônicos, por isso é que o conceito da Tuat tem muito interesse em qualquer estudo que se faça sobre a Maçonaria. 
 
É desse conceito que vem o simbolismo da morte iniciática e ressurreição do iniciado. Desde as mais remotas eras, os sacerdotes egípcios utilizavam a simbologia da morte e ressurreição do deus Osíris, como fórmulas para a transmissão de conhecimentos iniciáticos. Comparavam a vida do homem ao curso do Sol durante o dia e quando morria, ao tempo que corresponde à noite. Como o sol reaparecia todo dia, após vencer as trevas, também o homem poderia, repetindo certas fórmulas mágicas, renascer num novo corpo. 
 
Assim eles desenvolveram uma complexa escatologia, na qual as almas dos mortos que tivessem sido sepultados com todas as cerimônias prescritas pelos deuses, e conhecessem as palavras certas para pronunciar perante eles, poderiam acompanhar o Sol na sua barca, enquanto ele atravessava a parte da Tuat que eles deviam percorrer, enquanto estivessem mortos. 
 
(…) 
 
Todo o conteúdo mágico dos chamados Mistérios Egípcios visava a repetição simbólica desse processo de regeneração, pelo qual passava o deus em sua ressurreição, e que o iniciado devia repetir para poder ser, em vida, um adequado praticante de Maat, e após sua morte, ser julgado com benevolência pelos deuses. 
 
Dado o conteúdo profundamente esotérico dessa crença, não é de admirar que os organizadores do ritual da maçonaria (nos graus filosóficos) tenham se apropriado dela para passar aos iniciados a ideia de que o julgamento que realmente vale é o julgamento dos deuses. Não o julgamento faccioso dos inquisidores, nem o julgamento malicioso daqueles que nada sabem sobre o assunto que estão julgando. 
 
Resenha extraída do capítulo XXVIII do Livro ” O ILUMINISMO MAÇÔNICO”
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Teseu e a Iniciação

Na Mitologia Grega, os heróis eram semideuses, filhos de um deus e uma mortal (ou de uma deusa e um mortal), encarregados de cumprir tarefas para a humanidade. Eram masculinos, com exceção de Atlanta, heroína grega, que participou da caçada ao Javali de Caridon. Esses seres possuíam certos poderes, que os tornavam mais que humanos, mas menos que deuses, ficando à mercê desses – e, eram mortais. Assim, era Teseu, o maior herói ateniense, filho de Egeu e Etra, vencedor do Minotauro no labirinto de Creta.

O rei Egeu, de Atenas, não conseguia ter um filho; resolveu consultar o Oráculo de Delfos, que lhe respondeu: “não solte a boca do odre de vinho” na volta a Atenas”. No caminho, Egeu parou em Trezeno, para pedir ao rei Piteu que desvendasse a resposta da pitonisa. Piteu, que compreendera logo o sentido da mensagem, embriagou-o e colocou Etra, sua filha, na cama de Egeu. E, assim, Teseu foi gerado, passando a viver com sua mãe.

Aos dezesseis anos, já se tendo tornado famoso por seus feitos, vai a Atenas, e não foi reconhecido por seu pai. Egeu era casado com Medeia, a feiticeira, que lhe dera um filho, Medo. Medeia compreendeu logo quem era o recém-chegado, e resolveu envenená-lo. Mas Teseu percebe a armadilha e, no jantar, puxou de sua espada. Egeu, imediatamente, reconheceu-o.

Quando os primos de Teseu, os “palântidas”, os cinquenta filhos de Palas, irmão de Egeu, que sonhavam com a sucessão, souberam do acontecimento no jantar, resolveram tentar, ainda, conquistar o poder, mas Teseu conseguiu vencê-los.

A grande tarefa de Teseu foi matar o Minotauro no labirinto de Creta: Minos encomendou a Dédalo a criação do labirinto de Cnossos, para aprisionar o Minotauro, fruto da infidelidade de Pasífae, esposa de Minos. Essa traição aconteceu por vingança de Posseidon, o rei dos mares, que dera um touro branco de presente a Minos, para sacrifício. Minos ficou com o touro para si, e Posseidon fez com que Pasífae sentisse desejo pelo touro. Dessa relação, nasceu o Minotauro, que se alimentava de jovens atenienses. Dédalo confiou o segredo de como sair do labirinto a Ariadne, filha de Minos, que o contou a seu amante, Teseu.

Quando, pela terceira vez, Atenas forneceria o tributo de jovens destinados ao alimento do Minotauro, Teseu decidiu fazer parte do grupo, para matar o monstro. Derrotou-o, seguindo o conselho de Ariadne: amarrar um fio na entrada do labirinto e levá-lo consigo, para depois poder achar o caminho de volta. O herói acaba com a obrigação do sacrifício de sete moças e sete rapazes.

O navio, que transportava de volta Teseu e as setes moças e sete rapazes, estava com velas negras. “Se eu for vitorioso, “disse Teseu a seu pai”, içarei as velas brancas”. Mas, com a alegria da vitória, esqueceu a promessa feita a seu pai e não trocou as velas. Quando Egeu percebeu o navio com as velas negras, persuadido de que seu filho tinha morrido, suicidou-se, jogando-se ao mar.

As antigas culturas, que conhecemos, tinham, sem exceção, uma coisa em comum: símbolos e rituais. A partir de símbolos, elas criavam rituais, não só para as principais fases de transição da vida (ritos de passagem), mas, também, para o dia-a-dia e suas exigências. Em nossa sociedade e cultura, os ritos de passagem foram perdidos (adolescência-maturidade, solteiro-casado, etc.), e o estudo gnóstico cumpre esse papel, ritualizando, simbólica e filosoficamente, a senda do iniciado. Essa estrutura simbólica e ritual do gnóstico identifica numerosas heranças inconscientes coletivas, procedentes de diversas e antigas tradições. Os arquétipos ou símbolos são uma linguagem metafórica. Os rituais são as cerimônias de transformação interior; estão carregados de alegorias que se impõe desvendar e assimilar. Os símbolos utilizados têm origens diversas, e a espada, o número sete e o labirinto são alguns deles.

O mito de Teseu é, claramente, a descrição de um ritual de passagem: do profano ao sagrado; do homem profano, ao buscador. Pode-se compreender esse mito como o caminho que faz o indivíduo, a partir do momento que decide ser buscador: é o caminho do iniciado.

A espada, que Teseu usada no banquete, é símbolo da energia solar, do falo, da Criação e do Logos. Representa a força, a energia masculina e a coragem. É, também, um símbolo de justiça, de divisão entre o bem e o mal, de decisão. Uma espada dentro da bainha significa temperança e prudência. Acessório muito usado nas cerimônias de iniciação, geralmente, como símbolo de poder e autoridade, como emblema dissipador das trevas da ignorância. Nas reuniões de banquetes ritualísticos, é o nome que se dá à faca.

O número sete é místico – as sete cores do arco-íris, as sete notas musicais, os sete estados de consciência do homem, os sete raios cósmicos, etc. O número da vida – a união do ternário (espírito) com o quaternário (matéria). Os sete espíritos ante o Trono de Deus. Os sete Sacerdotes da Lei Cósmica. Os Sete Senhores do Carma. Os sete ciclos da Terra (quatro ciclos lunares com duração de sete dias). A origem do calendário atual. A renovação celular do corpo humano (sete em sete anos). Os sete orifícios do rosto humano. A plenitude, a ordem perfeita. A medida reguladora da coesão universal: sete planetas, sete divindades, sete metais, sete cores, sete dias da semana, sete chakras, sete pecados capitais e sete virtudes que lhe são contrapostas. A lei da evolução. O número dos adeptos e dos grandes iniciados. Quando Teseu se coloca entre os jovens que seriam devorados pelo Minotauro, passa a fazer parte da magia do número sete.

No mito de Teseu, o ápice de sua história é a entrada no labirinto, que representa sua alma, seu interior – ele vai até seu âmago destruir o mal ainda escondido. Somente Teseu conseguiu a façanha de sair vivo do labirinto, com a ajuda de Ariadne, que sabia o segredo. Esotericamente, por seus caminhos tortuosos e desconhecidos, o labirinto é considerado um símbolo da iniciação e representa a descoberta do centro espiritual oculto, a dissipação das trevas para o renascimento na Luz, a superação dos obstáculos e o encontro com o caminho da verdade.

Teseu passou por todas as  fases de um ritual: separação, purificação, morte e renascimento. Teseu simboliza as transformações que acontecem com o aspirante ao conhecimento oculto. Ele vai crescendo, enfrentando vários inimigos, até deparar-se com o mais terrível deles: sua própria fraqueza, seu labirinto.

Ao buscador é ensinado que, ao sair de cada labirinto, o iniciado estará enriquecido, mais experiente e mais determinado, e que sempre haverá outros labirintos a serem conquistados, e não destruídos. O iniciado é um Teseu, que sempre se aventurará nos labirintos de suas escolhas.

Autora: Martha Follain

Fonte: Revista Arte Real

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