Os (“Altos”) Graus escoceses iniciais tiveram origem na França?

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Para que se tenha a chance de entender por que algo inesperado aconteceu em um local específico, em um horário específico, parece lógico investigar o que aconteceu ali antes e durante esse período em outras partes do mundo e, em seguida, tentar descobrir se pode haver existido algum tipo de relação entre eventos que a princípio não pareciam relacionados entre si. Um médico não faria um diagnóstico antes de investigar o passado de um paciente (anamnese) e um tribunal não passaria uma sentença antes de investigar o passado de qualquer pessoa acusada de um crime grave.

Embora essa abordagem pareça razoável, muitos historiadores maçônicos seguem outra. Começam com uma opinião preconcebida, consideram um fato do qual tiram conclusões e misturam o resultado com algumas frases selecionadas de seus antecessores que usaram o mesmo método, dificilmente mencionando o que quer que tenham tomado emprestado. Tendo preparado assim um coquetel próprio, eles escrevem, chamam de trabalho de pesquisa ou de livro novo e colocam sua assinatura.

Os (altos) graus escoceses foram originários da França? A maioria dos autores maçônicos responde a essa pergunta com um enfático sim, mas estou longe de ter certeza de que eles estão certos. A afirmação parece ter se originado assim: escritores antimaçônicos seguidos por historiadores românticos franceses atribuíram uma origem francesa aos altos graus. Sua afirmação foi repetida de um livro para o outro sem controle. Então, em 1877, o Grande Oriente francês foi excluído da comunidade maçônica por razões bem conhecidas. Em uma situação que opunha uma Maçonaria deviacionista, de língua francesa, a uma respeitadora dos Landmarks, de língua inglesa, mais um pecado não importava muito. Pelo contrário, desde que “a Maçonaria pura e antiga” foi definida como composta apenas por três graus, incluindo o Arco Real, não era inconveniente adotar a opinião de que desde o início – desde a primeira metade do século XVIII – a Maçonaria francesa se desviou da linha pura e antiga.

Por volta da mesma época, nasceu a escola autêntica de pesquisa inglesa. Não se poderia esperar que membros da Loja Quatuor Coronati admitissem uma teoria não comprovada. No entanto, eles fizeram isso desde o início em outros domínios da pesquisa maçônica fundamental, como o das origens da Maçonaria:

Os fundadores da Loja cunharam a frase “escola autêntica ou científica” de pesquisa maçônica, que depois de cem anos levanta a questão de saber se eles cumpriram aquilo a que se propunham. Em seu apetite voraz por procurar evidências, a resposta é sim. No tratamento dessas evidências, penso que a resposta só pode ser um sim muito moderado, particularmente no que tange ao seu trabalho sobre as origens da Maçonaria. Eles examinaram, acharam falta e rejeitaram muitas das teorias mais estranhas de nossa existência e trataram da mesma forma as evidências fornecidas por Anderson. No entanto, eles não examinaram a premissa básica de Anderson de que a Maçonaria se desenvolveu diretamente a partir da maçonaria operativa. Isso eles parecem ter aceitado sem questionar e, como Darwin, passaram muito tempo procurando elos perdidos entre a maçonaria operativa e as evidências que vinham trazendo à luz sobre a maçonaria não operativa. Nisso, eles estavam se comportando de maneira não científica, buscando evidências para provar sua teoria, em vez de buscar evidências e analisá-las para ver o que poderia ser deduzido delas. (John Hamill, AQC 99, 1986, p. 4)

Buscar evidências para provar uma teoria equivale a escolher fatos e resulta em isolar eventos de seu contexto, o que a escola autêntica fez[1] e continua fazendo.

A Maçonaria do século XVIII não era a organização centralizada nacionalmente em que viria a se tornar. Ela se desenvolveu e mudou através da influência de irmãos que viajavam de um país para o outro, de uma parte do mundo para outra, trazendo consigo costumes e inovações de onde vieram e comunicando-os onde quer que chegassem. As Grandes Lojas Nacionais – nenhum Conselho Supremo ou órgão semelhante existia na época – tiveram pouca influência real nas ações individuais de seus membros. As regras do jogo eram diferentes.

Analisar os desenvolvimentos históricos e os rituais maçônicos fora desse contexto internacional, abordando-os com nossas regras atuais em mente, é provavelmente uma das razões pelas quais os historiadores do século XVIII maçônico são confrontados – e confrontam seus leitores – com situações inexplicadas ​​e inexplicáveis; pois tal técnica não faz sentido.

Pior ainda. Por mais de cem anos, os graus simbólicos e os graus adicionais são estudados em livros separados – ou em capítulos distintos de livros maçônicos – como se pertencessem a universos separados do mundo, sem feedback mútuo[2]. Esse não foi o caso ao longo do século XVIII, por exemplo, na Irlanda. Os historiadores irlandeses enfatizam o fato de que as Licenças emitidas por sua Grande Loja

forneceram às Lojas da jurisdição irlandesa certos poderes pelos quais elas julgavam ter plena autoridade para trabalhar qualquer grau maçônico sob seu mandado – um poder que exerciam a partir do momento em que eram criadas. O único limite para a prática exigia a presença de algum irmão competente para realizar as cerimônias […]. Consequentemente, os irlandeses garantiam que as Lojas, domésticas e no exterior, conferissem qualquer grau que desejassem, com pleno conhecimento e aprovação da G.L.[3][…] É difícil perceber que todos os graus já foram dados sob a única sanção e autoridade de uma Licença Simbólica. Antes da formação do Grande Capítulo e do Supremo Grande Acampamento, nos anos 1830, nenhuma outra Licença era conhecida. E assim, em nossos antigos Livros de Atas, encontramos os Graus mais altos e outros Graus secundários há muito esquecidos, conferidos aos Irmãos geralmente à taxa modesta de 5/5d. irlandeses ou 5/– ingleses. Cada Loja tinha chancelas separadas para estes graus[4].

No entanto, dois passos, ambos dados na Inglaterra, levaram à atual separação entre os Graus Simbólicos e outros graus. Em primeiro lugar, a redação do Artigo II dos Artigos da União ratificada por ambas as Grandes Lojas inglesas em 1813

É declarado e pronunciado que a Maçonaria Antiga pura consiste em três graus, e não mais; a saber: os de Aprendiz, Companheiro e de Mestre Maçom, incluindo a Ordem Suprema do Santo Arco Real. […]“

Segundo, o quinto dos Princípios Básicos, aceito pela Grande Loja Unida da Inglaterra, em 4 de setembro de 1929. O primeiro documento pôs fim às consequências negativas de uma situação maçônica estritamente inglesa, a saber, a existência de duas Grandes Lojas rivais na Inglaterra e suas colônias nos sessenta anos anteriores. O último expressou a avaliação inglesa da situação maçônica europeia entre as duas guerras mundiais.[5]

Algumas observações sobre a morte de Hiram

Antes de considerar se os graus Escoceses se originaram na França, vamos dar uma olhada na velha questão dos graus originais e de seus temas, uma vez que o conteúdo de um grau costuma ser mais revelador do que o nome ou o número atribuído a ele.

Historiadores da Maçonaria de língua inglesa admitem uma falta de manuscritos ou evidências impressas mostrando a evolução dos graus na Inglaterra entre 1730 (Maçonaria Dissecada) e 1760 (Três batidas distintas), uma falta pela qual Harry Carr cunhou a expressão ‘a lacuna de trinta anos’. Eles enfrentam a seguinte situação desconfortável:

  • uma primeira série de ‘catecismos’ e exposições emitidos entre 1723 e 1730, considerados incompletos porque “ não contém […] referência a uma oração ou a uma cobrança feita a irmãos recém-admitidos” (Knoop , Jones e Hamer , Catecismos Maçônicos Antigos , 1947, 2ª ed. [1963], p. 21 – Mesma ideia em Carr, AQC 94, 1981, p. 117);
  • o ‘intervalo de trinta anos’, de 1730 a 1760, durante o qual “um certo desenvolvimento [ocorreu]”, é um discreto eufemismo de John Hamill (The Craft , 1986, p. 65);
  • uma segunda série de exposições em inglês, começando com o Three Distinct Knocks (1760) e Jachin e Boaz (1762).[6]

No entanto, analisando, em 1980, as duas primeiras exposições em inglês da segunda série, Harry Carr fez uma pergunta que parece um pouco estranha em vista do exposto: “Por que ele [o autor de Jachin e Boaz usou a seção narrativa de abertura contendo práticas que eram estranhos para aos procedimentos ingleses?[7]. Em outras palavras: Carr admite a falta de elementos que permitam acompanhar a evolução do ritual inglês depois de 1730, mas não hesita em declarar certas práticas rituais de 1762 como procedimentos estranhos ao inglês[8].Bastante ilógico, não é?[9]

O porquê dos graus Escoceses ou os primeiros ‘altos’ graus terem sido inventados e trabalhados pode muito bem estar relacionado a duas perguntas:

– Quando a lenda envolvida em nosso atual terceiro grau se tornou parte da Maçonaria Simbólica?

– Qual foi a evolução da lenda em diferentes partes do mundo?

Uma evidência bem conhecida é que o assassinato do arquiteto fez sua primeira aparição impressa na Maçonaria Dissecada de Prichard, publicada em Londres, em outubro de 1730. Outra é que três graus distintos – ignoramos sua substância temática – foram trabalhados em Londres em maio de 1725:

Charles Cotton foi “feito maçom” em 22 de dezembro de 1724; algum tempo depois “Uma Loja foi realizada com Mestres suficientes para esse fim “a fim de passar Charles Cotton, Esc Mr. Papillon Ball and Mr. Thomas Marshall Companheiros.”; em 12 de maio de 1725, “Irmão Charles Cotton Esc | Irmão Papillon Ball foram regularmente passados a Mestres”).[10] 

Uma pista adicional foi aparentemente até agora ignorada. Está incluída em Um Diálogo Entre Simão e Felipe.

a) Um diálogo entre Simão e Felipe 

Por volta de 1943, a transcrição de um documento sem data – o manuscrito original foi considerado perdido – intitulado A Dialogue Between Simon, A Town Mason, & Philip, A Traveling Mason, foi trazida à atenção de Douglas Knoop, que a publicou na primeira edição (1943) de Catecismos Maçônicos Antigos (EMC). Naquele momento, Knoop, Jones e Hamer atribuíram a data de c.1740 ao documento. Depois que o Diálogo foi submetido e discutido na Quatuor Coronati Lodge, em 7 de janeiro de 1944, Knoop mudou de ideia e admitiu que poderia ter sido escrito já em c.1725. Felizmente, em 1945, um conjunto de fotografias que reproduzem o manuscrito original foi descoberto na Grand Lodge Library, em Londres (AQC 57, 1946, p. 21). A segunda edição (1963) da EMC, no entanto, não menciona nem a mudança sugerida de datação (pelo contrário, seu prefácio repete o c.1740) nem algumas diferenças entre a transcrição e o documento original, que incluiu dois esboços essenciais com as seguintes legendas:  “Esta é a forma das antigas Lojas” e “Esta Loja é a nova Loja sob o Regulamento Desaguliers”.[11]

Diálogo inclui as seguintes palavras:

E o Aprendiz Junior pega você pela mão e bate três vezes na porta. O Mestre pergunta: quem está lá. E o Aprendiz responde: Aquele que deseja ser feito maçom. A resposta do Mestre: Traga-o.

Nota: A razão para esses três golpes não é conhecida pelos Aprendizes, mas pelo Mestre, que é de HIRAM, o Grão-Mestre no TEMPLO DE SALOMÃO. Sendo assassinado por seus três Aprendizes e despachado pelo terceiro golpe que o último Aprendiz deu nele e isso porque ele não desvendaria os segredos para eles.[12]

Dizer que Hiram foi assassinado por seus três Aprendizes dá, eu acho, uma pista interessante para uma tentativa de datar o Diálogo, bem como para avaliar o estágio de desenvolvimento do sistema de graus no momento em que foi colocado no papel. Sugere as seguintes possibilidades:

  • Um ‘sistema’ composto apenas por dois graus: o grau de ‘Aprendiz’ seguido de um grau que incluía o assassinato de Hiram. Nesse caso, a datação pode ser anterior ao ano ( 1725) sugerido por Knoop numa segunda avaliação;
  • Um sistema de três graus no qual a lenda do nosso terceiro grau atual pertencia ao segundo grau, sendo o tema do terceiro desconhecido, mas possivelmente incluindo elementos conhecidos posteriormente como integrantes do Arco Real. Essa possibilidade foi exposta por Philip Crossle, um excelente estudioso irlandês, catorze anos antes da redescoberta do Diálogo.

b) Rito irlandês de Philip Crossle

Em 1927, Philip Crossle descreveu aquilo que o conteúdo temático do sistema nativo de três graus poderia ter incluído desde o início na Irlanda.

Primeiro Período. […]

Possivelmente a mesma prática, descrita por Pennell (1730):

  1. Aprendiz ou Irmão
  2. Companheiro
  3. Parte do Mestrado (M.M.), não restrito ao Presidente.

[…]

Segundo período.

Na medida em que se deu a conversão para o Arquismo Real, cuja data exata é impossível de ser definida, os três graus acima foram mantidos; mas os nomes foram mudados. […]

  1. Aprendiz Iniciante e Companheiro de Ofício (um grau), mais frequentemente chamado de ”Iniciante e Oficiando”.
  2. Mestre Maçom.
  3. Arco Real.

Aqui temos um sistema de apenas três graus. O número 1, o “aprendiz” de Pennell, ficou conhecido por um nome composto. Seu “Companheiro de Ofício”, tendo perdido seu significado anterior, deixou de representar um grau específico. O nome, apenas, foi unido ao primeiro grau, apenas para preservá-lo da extinção. O número 2, o “Companheiro de Ofício” de Pennell, foi rebatizado de “Mestre Maçom”. É importante manter isso em mente. O número 3, a “parte do Mestre” (M.M.) de Pennell, foi rebatizada de “Arco Real”. […] O significado do grau que nós, na Irlanda, chamamos agora de “Mestre Instalado” deve ter sido apenas uma parte da parte do Mestre de Pennell e parece ter sido fundido nas cerimônias conhecidas pelo nome geral de “Arco Real” do Segundo Período[13].[…] O Segundo Período nos apresenta as palavras “Arco Real”. Na minha opinião, nossa concepção do grau que leva esse nome não foi uma invenção – era a “parte do Mestre” (M.M.) de Pennell, revestida de um novo nome[14].

c) Algumas ideias de Robert J. Meekren[15]

J. Meekren seguiu uma trilha mais conservadora. Entretanto, sua experiência com vários rituais em diferentes partes do mundo permitiu que ele estudasse o ritual de M.M. com a abordagem comparativa recomendada por Douglas Knoop (The Genesis of Freemasonry, p.16). As citações, a seguir, de artigos que Meekren escreveu e de comentários que ele fez sobre trabalhos de outros estudiosos abrem perspectivas interessantes.

Aliás, há um grande mistério que é, ou parece ser, insolúvel por pura falta de evidência ou mesmo sugestão a respeito; e foi quando, e como, o motivo Elu foi incluído no terceiro grau tal como este é tratado nos países de língua inglesa. Não há nenhum vestígio disso em qualquer forma do grau de M.M. na Europa Continental. Isso deve ter ocorrido antes de 1760 e (como parece) depois de 1730. (AQC 68, 1956, p. 109)

Não há nada em Prichard ou em Le Secret sobre procurar a Palavra no túmulo de H.A.B.; por outro lado, é dito em Prichard que a Palavra foi perdida, e também é dito que “agora é encontrada”. Nas versões atuais na França – e que quase certamente refletem as formas então favorecidas nos círculos da Grande Loja na Inglaterra – a Palavra não está perdida. Aqueles que foram enviados para procurar o H.A.B. sabiam qual ela era, mas concordaram em alterá-la pelas razões apresentadas. A única forma da lenda hirâmica na qual se diz que a Palavra é procurada é a do rito de York na América, que descende do ritual dos “Antigos”. Neste, os pesquisadores são cobrados a “observar se palavra-chave do Mestre ou uma chave para ela deveria ser encontrada no corpo ou sobre ele”. Isso me parece o resquício de uma tradição ainda mais antiga, como indicaria o relato de Prichard, porque nada é feito dela, nem é mencionada de novo. Eu acho que a versão francesa pode muito bem ter sido uma das coisas que os “Antigos” objetaram no ritual dos autodenominados “Modernos”. (AQC 72, 1960, p. 50)

No Rito de York, que é quase universal nos Estados Unidos e que é o ritual dos “Antigos” um pouco elaborado, a ideia bastante fantástica de que aqueles Companheiros que descobriram o corpo do Mestre desaparecido tornaram-se automaticamente Mestres Maçons através de sua exclamação diante do túmulo é completamente evitada. A essência da história é que os dois reis e Hiram Abif formaram a primeira Loja de Mestres, e os Artesãos haviam prometido que, quando o Templo estivesse concluído, eles (ou seja, todos os que fossem julgados fiéis e, suponho, competentes) receberiam os segredos do Mestre como recompensa. Como os três concordaram ou se obrigaram a não comunicar esses segredos que haviam adotado, exceto quando os três estivessem presentes, o combinado era que, quando um deles estivesse ausente, isso não poderia ser feito. A mesma situação aparece no manuscrito Graham com os dois irmãos do rei Alboyne. Assim, embora os dois reis soubessem quais eram os segredos originais, eles não poderiam comunicá-los e, portanto, ficariam perdidos para aqueles que esperavam recebê-los. Consequentemente, o rei Salomão, que comparece ao túmulo quando o corpo de Hiram é levantado, anuncia que, embora os sinais e palavras adotados primitivamente pelos três Mestres originais (chamados Grandes Mestres) estejam efetivamente perdidos, ele os substituirá por outros, para que os dignos artesãos recebam o status de Mestres, embora não com a palavra pretendida originalmente. A palavra é especialmente enfatizada, embora os sinais também sejam mencionados.

Obviamente, o efeito da versão inglesa é praticamente o mesmo. Mas na França a história é radicalmente diferente. Não havia um acordo como o relatado nas versões inglesa e americana da história e, evidentemente havia mais de três Mestres, pois os descobridores do corpo, em muitos casos, são considerados Mestres, nove deles em uma versão que, temendo que os três assassinos possam ter obtido a palavra (evidentemente considerada apenas uma senha), concordam em alterá-la e, ao relatar isso, aquela que deveria ter sido a palavra original é abertamente contada ao candidato. Houve substituição, mas não houve perda – foi o Mestre que se perdeu. E enquanto nos modernos rituais franceses e outros europeus essa ideia evoluiu um pouco, ela permaneceu essencialmente a mesma desde o início, pois ela aparece, como ressalta que o irmão Ward, nos primeiros documentos franceses. (AQC 75, 1962, p. 172)

Para permitir que os leitores percebam as implicações das observações de R. J. Meekren, alguns textos relevantes são transcritos nos Apêndices 2 – 4 deste artigo. Eles incluem:

  • Partes do testemunho de John Coustos (vide anexo 3) feitas perante a Inquisição Portuguesa, em Lisboa, em março de 1743, sob a ameaça de tortura[16]. Em 1982, o padre José A. Ferrer Benimeli, s.j., transcreveu e emitiu a ata original da Inquisição e outros documentos referentes à prisão de Coustos[17]. Uma frase, “Ele disse ainda que ele, o prisioneiro, aprendeu todo o assunto acima exposto no Reino da Inglaterra”, é do maior interesse em relação a um elemento ritual mencionado por Coustos: “quando ocorreu a destruição do famoso templo de Salomão, foi encontrada, embaixo da primeira pedra, uma tábua de bronze sobre a qual estava gravada a seguinte palavra, Jeová, que significa Deus”.
  • Trechos de duas exposições francesas, Catechisme des Franc-Masons (1744) (vide anexo 4) e L’Ordre des Francs-Maçons Trahi et le Secret of Mopses Revelé (1745), onde aparecem em palavras quase idênticas.
  • Trechos paralelos da Parte do Mestre incluídos em Três Batidas Distintas (1760) (vide anexo 5) e em Jachin e Boaz (1762). Em ambos, os três assassinos são condenados e executados.

d) Comentários do Dr. Pott

Em um notável artigo traduzido do holandês que apareceu em Le Symbolisme (maio-junho de 1964, nº 365), o Dr. P. H. Pott resumiu as consequências do mito da morte de Hiram e sua possível influência nos temas dos graus Escoceses.

A Maçonaria ‘Azul’ dos graus simbólicos tem sua origem em determinados elementos relacionados à construção do Templo do rei Salomão. Nos graus de Apr. e Comp., eles são apresentados sob um aspecto extremamente indiferenciado, isto é, como um resumo geral preocupado com a construção de um templo, considerado de um ponto de vista simbólico. No grau de M. M., no entanto, tais elementos tornam-se mais precisamente delineados através do mito. O ponto não é mais, abstratamente, aquele da construção em geral, mas diz respeito a um evento trágico que ocorre dentro da aparência simbólica de um edifício considerado como um todo.

[…]

Indo além, pode-se dizer que o evento que ocorre no grau do M.M. acarreta consequências específicas que permanecem incompletas:

a) o assassinato de H.A. perturba a ordem das coisas: implica pôr fim a uma situação anormal e, consequentemente, prender e punir os culpados por seu crime, ou seja, exercer uma vingança justificada sobre eles;

b) a morte de H.A. resulta em uma interrupção dos trabalhos. Consequentemente, torna-se necessário encontrar um novo arquiteto, o mais competente possível, capaz de prosseguir com as obras e concluir o edifício da melhor maneira possível;

c) por causa do assassinato de H.A., a Palavra-Mestre se perdeu e todos os esforços devem ser feitos para recuperá-la.

A partir do momento em que alguém se sente instigado a dar uma sequência aos graus do Ofício, pode encontrar uma oportunidade numa das consequências mencionadas acima. E foi isso que de fato aconteceu.

Primeira evidência do Écossais, ‘Escocês’ ou dos ‘Altos Graus’

Vamos agora considerar as evidências sobre as primeiras aparições do Écossais, “escocês” ou “altos” graus em diferentes partes da Europa.

1 – A Loja irlandesa de Lisboa – agosto de 1738

Philip Crossle, cujas ideias sobre o Rito Irlandês foram mencionadas acima, ficaria interessado em ler uma declaração feita perante a Inquisição, em Lisboa, em 1º de agosto de 1738, por Hugo O’Kelly, então Mestre de uma Loja local, que, por volta de 1733, começou a trabalhar, e era então composta principalmente por Irmãos irlandeses. Provavelmente é a Loja N ° 135, licenciada em 17 de abril de 1735 pela primeira Grande Loja da Inglaterra, e que foi fundada por um matemático escocês chamado George Gordon[18].

A primeira bula papal contra os maçons, In Eminenti, foi lançada em 28 de abril de 1738, promulgada em Portugal em junho, e seu texto foi afixado nas portas das igrejas em Lisboa logo depois. Chamado como testemunha, O’Kelly declarou

que, assim que soube que o Santo Padre […] proibira tais reuniões, escreveu imediatamente a todos os membros de sua Loja [e] deu ordens para que não houvesse mais reuniões desse tipo […]”.

No decurso de seu testemunho – ao contrário de Coustos, cinco anos depois, ele não foi ameaçado de tortura e fez seu depoimento por vontade própria – Hugo O’Kelly disse que tornou-se Maçom na Irlanda, antes de chegar a Portugal, por volta de 1734-1735. Ele descreveu os sinais feitos “com a mão direita”, que pertenciam às três classes de maçons, e acrescentou:

e há mais duas classes que eles chamam de Excelentes Maçons, e de Grande Maçom, que estão acima de todas as outras e superiores às que ele, a testemunha, exercitou”.[19]

2 – Inglaterra

Durante os últimos cem anos, a autêntica escola inglesa descobriu muitos fatos que não se encaixavam na teoria do nascimento francês dos graus Ecossais, mas seus membros estavam tão convencidos de sua verdade que nem parecem ter considerado “uma reavaliação dolorosa” da evidência. Nenhuma tentativa foi feita para investigar se esses fatos faziam parte de uma situação geral na Inglaterra. Nada aparentemente sobreviveu em termos de ritual ou conteúdo dos graus mencionados a seguir.

a) Listas antigas de Lojas, 1733 e 1734

Na lista de manuscritos de Rawlinson do ano de 1733, a Loja n°115 se reuniu na Devil Tavern, Temple Bar, Londres, e foi descrita como “uma Loja de Maçons Escoceses”. Na lista gravada de Pine, de 1734, a mesma Loja aparecia como uma “Scott’s Masons Lodge”. Em junho de 1888, depois de ter mencionado as duas listas e citado Gould (“Os graus escoceses parecem ter surgido, por volta de 1740, em todas as partes da França”), John Lane fez uma pergunta sensata:  

Agora, se os graus “escoceses”, ou Lojas “escocesas” se originaram primeiro na França, e não até 1740, duas questões surgem naturalmente. (1) Onde nossos irmãos ingleses obtiveram a denominação distinta de um “Scotch” ou “Scott’s Masons Lodge”? e, (2) o que constituía sua peculiaridade em 1733? Respostas satisfatórias a essas perguntas seriam muito aceitáveis, mas não posso fornecê-las.[20]

b) A Loja existente em Bear, Bath, 1735

“Em 28 de outubro de 1735 A Loja se reuniu Extraordinária quando o nosso Valoroso Irmão Dr. Kinneir foi admitido e tornado Maçom. […] Na mesma data Loja de Mestres reuniu-se Extraordinária e nossos seguintes Valorosos Irms foram tornados e admitidos Mestres Maçons Escoceses (Scots Mastr Masons). [ dez nomes]. Presente. Hugh Kennedy S.M., David Threipland S.S.W.[21], David Dappe S.J.W. ”

Edward Armitage transcreveu o texto acima do Livro de Atas da Loja e comentou:

Desses três, só Hugh Kennedy pertencia à Loja da qual ele era Mestre quando as atas começaram a ser lavradas, em dezembro de 1732, e quando a Loja foi constituída como Loja regular, em 18 de maio de 1733, saindo em 27 de dezembro de 1733. Encontrei o nome de David Threipland como membro da Loja em Bear and Harrow, na Butcher Row, em 1730. Dos que receberam grau, os quatro últimos não eram membros da Loja; Dr. Toy era D.M. do País de Gales enquanto Wm. Nisbett, Esc., e Henry Balfour, Esc. tiveram o grau de Mestre conferido a eles naquele dia, aparentemente, para permitir que eles passassem para o Grau de Mestre Escocês. Na reunião seguinte da Loja, em 17 de novembro de 1735, Hugh Kennedy, John Morris, B. Ford e David Threipland têm as letras S.M. após seus nomes.[22]

c) Old Lodge Nº.1, Londres, 1740

“17 de junho de 1740. | Os seguintes membros desta Loja | Esta noite foram feitos Mestres Maçons Escoceses pelo Irm. Humphry’s do Mourning Bush Aldersgte. | [seguem nove nomes]”

Harry Rylands transcreveu o texto acima do Livro de Atas C da Old Lodge nº 1, que em 1717 se reuniu no Goose and Gridiron em Londres, e escreveu:

Na ata acima, a palavra “Mestre” é escrita sobre a palavra “Maçons”; evidentemente, ele pretendia inicialmente escrever que os membros foram feitos “Maçons Escoceses” e fizeram a correção para “Mestres Maçons Escoceses”. Vale notar que apenas dois dos presentes na reunião de auditoria não foram nomeados maçons escoceses: Richard Wotton e Richard Reddall, e, a menos que se possa supor que eles já possuíam o grau e ajudaram Humphreys, deve-se concluir que os membros da Loja foram, como afirmam as Atas, “feitos Mestres Maçons Escoceses pelo Irm. Humphry’s” sozinho. Também pela forma do registro e pelo fato de que vários, se não todos, daqueles cujos nomes foram fornecidos já eram Mestres Maçons, o grau de Mestre Escocês deve ter sido algo diferente do grau que já haviam recebido na Maçonaria Inglesa. Sou inclinado a pensar que o grau dado na Loja por Humphreys não era o grau estrangeiro de mesmo nome, mas o mesmo que era dado nas Lojas de Scott’s [Master] Masons’ [17] de 1733-34.[23]

d) Lodge at the Rummer, Bristol, 1740

18 de julho de 1740: “Orden’do & acordado Que Irm. Tomson & Irm. Watts [1º Vig e 2º Vig p.t. ] e qualquer outro membro desta L. que já seja Mestre Maçom pode se tornar Mestre Escocês…”. 15 de agosto de 1740: “Ordenado – Irm. Byndloss seja na próxima noite pass’do f.c. e que os Mestres Maçons sejam feitos Mestres Escoceses e esta L. para se encontrar às 5 horas para esse fim”. 07 novembro de 1740: “segundo a ordem de [sic] 18 jul 1740 Ir. Watts & Ir. Noble & Ir. Ramsay e Horwood & Morgan foram elevados a Mestres Escoceses e, ao mesmo tempo, Ir. Wickham e Ir. Pirkins foram elevados a Mestres”.[24]

e) O H-d-m Escocês, ou Antiga e Honorável Ordem de K-n-g (1743 [ 1741?] – 1750)

Em 26 de novembro de 1743, o seguinte anúncio apareceu em um jornal de Londres:

Os Irmãos do H —— d—— m Escocês, ou Antiga e Honorável Ordem de K—— n—— g, desejam encontrar o Grão-Mestre da referida Ordem, e o resto de seus Grandes Oficiais, no sinal do Cisne na Great Portland-street, perto de Oxford-Market, na próxima quarta-feira, exatamente às três horas da tarde, para celebrar o Dia. Por ordem do Grão-Mestre, E.W., Grand Sec.[25]

Duas semanas depois, em 11 de dezembro de 1743, um Capítulo da Ordem foi formado na Golden Horseshoe, Cannon Street, em Southwark, um bairro de Londres. Foi o quinto capítulo pertencente à Ordem, mas o primeiro mostra quando foi formado, uma vez que os quatro anteriores que afirmavam ser de Tempo Imemorial. Outros anúncios relacionados à Ordem apareceram em 1 de agosto de 1750 (reunião da Grande Loja e Grande Capítulo, assinada “Por Comando do P.G.M., N.B.L.T.Y.  Grande Secretário”) e em 17 de novembro de 1753 (reunião do Grande Capítulo da Ordem H.R.D.M., assinado como acima).

Em 1750, um certo William Mitchell, de Haia, recebeu vários documentos da Ordem em Londres, entre os quais uma patente nomeando-o

Grão-Mestre Provincial da Ordem do H.R.D.M. em todas as Sete Províncias Unidas”. No corpo da patente, é feita referência ao “o Justo Honável e Justo Venável Príncipe e Supremo Governante e Governador do Grande S.N.H.D.R.M. e Grão-Mestre do H.R.D.M. de K.L.W.N.N.G.”. A patente foi entregue a Mitchell pelo “SIR ROBERT R.L.F. Cavaleiro da Ordem do R.Y.C.S., Guarda da Torre do R.F.S.M.N.T., Presedente dos Juízes e Conselheiro do Grande S.N.H.D.R.M. e Grão-Mestre Provincial do H.R.D.M. de K.L.W.N.N.G. no S.B.” e datado assim: “Dado sob minha mão e o | Selo do meu Escritório em Londres | neste vigésimo segundo dia de julho | A.D. 1750, A.M.H. 5753 e em | o Nono Ano do meu Provincial | Grão Mestrado”.[26]

De acordo com as últimas palavras, a Ordem deve ter existido em Londres pelo menos desde 1741. Pode ter existido mais cedo caso Sir Robert R.L.Fnão tenha sido seu primeiro Grão-Mestre Provincial de Londres.

3 – Prússia – novembro de 1742

A sexta edição (1903) da história da Grande Loja-Mãe Nacional dos Três Globos, em Berlim, inclui o seguinte:

Em 30 de novembro, dia de Sto. André, 1742, os irmãos Fabris, Roman, Fromery, Finster, Perard e Robleau, membros da Loja aux trois Globes, foram autorizados por ela a estabelecer uma Loja Escocesa sob o nome de l’Union “para deixar seus irmãos mais novos aspirarem à mais elevada ou assim chamada Maçonaria Escocesa”. Essa Loja Escocesa, composta por membros da Loja de São João, existia além dela, sem exercer nenhum tipo de autoridade sobre ela nem interferir de alguma forma com sua administração, e possuía seu próprio caixa.[27]

Jacopo ou Jacobus Fabris era ser eleito Mestre da Loja Três Globos de Berlim, em 30 de Outubro de 1744. Pintor, nascido por volta de 1689, em Veneza, e falecido em 1771 em Copenhague (Dinamarca), ele foi tornado Maçom na Union Lodge, Londres[28]. Philipp Friedrich Steinheil, fundador e primeiro Mestre da Union Lodge de Frankfurt am Main, em 1742, havia sido membro da mesma Loja em Londres junto com Fabris[29]. Nenhum dos nomes existe nas primeiras listas de membros, incluídas nos dois primeiros livros de atas da primeira grande Loja da Inglaterra, transcritos em Quatuor Coronatorum Antigrapha, vol. X (1913).

Quando Eric Ward mencionou a Berlin Union Lodge antes da Quatuor Coronati Lodge, em 1962, ele comentou:

o fato de as Lojas ‘escocesas’ (scots) terem sido montadas em 1742 em Berlim, em 1744 em Hamburgo e em 1747 em Leipzig, todas de origem francesa [?], parece provável [!] que o conhecimento do grau em sua forma primitiva em Londres e Bath em 1735 fosse, similarmente, derivado da França”.[30]

Para apoiar a origem francesa reivindicada para essas Lojas, Ward referiu-se em uma nota de rodapé a uma tradução, para o inglês, de Findel, originalmente escrita em 1866! Findel citou Lachmann, que afirmava que “o grau escocês de Ramsay chegou cedo na Alemanha, provavelmente através de Graf Schmettow”[31]. Lachmann acreditava na existência do mítico grau escocês de Ramsay e ignorava que dois maçons distintos se chamavam Schmettow. Não há evidências de que o barão Gottfried-Heinrich (1710-1762), tornado maçom na Três Globos, em 13 de setembro de 1740, alguma vez tenha tido algo a ver com os graus escoceses de Berlim. Seu primo, Graf Woldemar (Dresden, 1719 – Copenhague, 1785), fundou a primeira Loja Escocesa (Scotch Lodge) em Hamburgo, em 1744. Após 1746, sua carreira militar e maçônica transcorreu na Dinamarca[32].

4 – França – dezembro de 1743

Até onde sei, a primeira referência documental aos graus Écossais na França está incluída em um conjunto de regulamentos gerais adotados pela Grande Loja, reunida em Paris, em 11 de dezembro de 1743, no dia em que o conde de Clermont foi eleito Grão-Mestre, dois dias após a morte de seu antecessor, o duque de Antin. Seu vigésimo e último artigo diz:

Como parece que recentemente (depuis peu) alguns irmãos se anunciam como Scots Masters (maîtres Ecossais), reclamando prerrogativas em Lojas particulares e afirmando privilégios dos quais nenhum vestígio pode ser encontrado nos antigos arquivos e usos das Lojas espalhadas pelo globo, a Grande Loja, a fim de consolidar a unidade e a harmonia que deve reinar entre os maçons, decretou que esses Mestres Escoceses, a menos que sejam Oficiais da Grande Loja ou de uma Loja particular, não deverão ser tratados com mais consideração pelos irmãos do que os demais aprendizes e companheiros, e não devem exibir quaisquer sinais de distinção.[33]

A data de 11 de dezembro, 1743 em conjunto com as palavras depuis peu (recentemente) deveria ser mantida em mente ao se afirmar que os ‘altos’ graus se originaram na França.

Gould, membro do comitê designado pela Grande Loja Unida da Inglaterra, em 5 de dezembro de 1877, para considerar a recente ação do Grande Oriente da França, viu no artigo acima um sinal das “primeiras inovações no ritual” na França (History of Freemasonry, vol. III, 1886, p. 141). Eric Ward, embora familiarizado com a maioria das evidências inglesas acima citadas, chamou em seu socorro um trabalho escrito em 1797, por John Robison, um dos primeiros autores antimaçônicos, para justificar a opinião que expressou em seu artigo de 1962, assim:

A riqueza de referências a Mestres Escoceses (Scots Masters) na literatura do continente, em comparação com a escassez na Inglaterra (e a total ausência na Escócia), leva inevitavelmente [sic] à visão de que isso era de origem francesa. John Robison continua […] dizendo: “Aconteceu que a Maçonaria simples, importada da Inglaterra, foi totalmente alterada em todos os países da Europa, seja pela impressionante ascensão de irmãos franceses… ou pela importação de doutrinas e cerimônias das Lojas parisienses. Até a Inglaterra, local de nascimento da Maçonaria, experimentou as inovações francesas; e todas as repetidas injunções, advertências e repreensões das antigas Lojas não podem impedir que pessoas de diferentes partes do Reino aceitem as novidades francesas… (Provas de uma conspiração, p. 9).[34]

3 – Conclusão

Depois de colocar minhas informações à disposição do leitor, cabe agora a ele decidir se os graus Écossais (antes “altos”) se originaram na França ou em outro lugar… por exemplo, na Irlanda ou na Inglaterra.

Se ainda houver dúvidas em sua mente, devo lembrá-lo de uma observação feita por Henry Sadler, historiador inglês cujo bom senso e senso de humor eu admiro muito: Isso pode ser verdade ou não, você deve aceitar pelo que vale; de minha parte, direi digo francamente a você que não engulo tudo o que leio nas Enciclopédias, maçônicas ou não” (AQC 23, 1910, p. 327), palavras que, presumivelmente, também podem ser aplicadas a muitos livros maçônicos.

Autor: Alain Bernheim
Tradução: S.K.Jerez

Fonte: BIBLIOT3CA

Publicado originalmente em: Pietre-Stones Review of Freemasonry

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Notas

[1] – “A escola autêntica […] estava inclinada a considerar isoladamente os desenvolvimentos maçônicos em cada país“ (Douglas Knoop e GP Jones The Genesis of Freemasonry , 1947, p. 16).

[2] – A ideia parece inicialmente ser apoiada pela circular aprovada pelo Conselho Supremo dos Estados Unidos em Charleston, em 4 de dezembro de 1802 (Walgren Nr. 15, Heredom vol. 3, p. 69). Incluía um relatório escrito por três membros do Conselho, Frederick Dalcho , Isaac Auld e Emanuel De La Motta, que afirmavam: “Embora muitos dos graus sublimes sejam, de fato, uma continuação dos graus azuis, ainda não há interferência entre os dois corpos“. Quando a Circular foi reimpressa, alguns meses depois, em Charleston (Oration, 21 de março de 1803, por Frederick Dalcho, na sublime Grande Loja da Carolina do Sul, Charleston. Charleston [1803]. Walgren Nr. 22, ibid., P. 72), o parágrafo que inclui as palavras acima tornou-se uma nota de rodapé esclarecedora (Apêndice, p. 64) que Emanuel De La Motta achou importante o suficiente para reproduzir em sua ‘Réplica’, publicada em Nova York, em 5 de setembro de 1814, em nome de seu Supremo Conselho: “Embora os Sublimes Maçons, neste país, não tenham iniciado ninguém nos graus Azuis, ainda assim seus conselhos possuem o direito irrevogável de conceder mandados para esse fim. É comum no continente europeu e pode ser o caso aqui, caso as circunstâncias tornem necessário o exercício desse poder. A legalidade desse direito deriva da mais alta autoridade maçônica do mundo e pode ser demonstrada para a perfeita satisfação de todos os órgãos maçônicos, judiciais ou legislativos. […] “ A ‘Réplica’ de La Motta ou resposta à Réplica de Cerneau (Walgren Nr. 36, ibid. , P. 80-81) é reproduzida na íntegra em alguns livros relativamente escassos: Joseph M’Cosh , Documents on Sublime Free-Masonry in the United States of America, Charleston 1823 (Walgren Nr. 55, ibid., P. 90), citação acima, p. 62; Robert B. Folger, The Ancient and Accepted Scottish Rite, in Thirty-three degrees, […] Nova York 1862, citação acima no Apêndice, p. 155; [Charles S. Lobingier ], The Supreme Council, 33 ° , Louisville, Ky., 1931, citação acima, p. 112.

[3] – William Jenkinson , Two Hundred Years of Masonry in the City of Armagh’, The Lodge of Research, No CC, Ireland. Transactions for the Year 1925 (impresso em 1933) , p. 107 Jenkinson tornou-se membro da Quatuor Coronati Lodge em 1934. Morreu em 1956.

[4] – Jenkinson , ‘In the Days of our Forefathers: Old Customs of the Irish Craft’, The Lodge of Research, No CC, Ireland. Transactions for the Years 1939-46 (impresso em 1948), pp. 35-36.

[5] – O momento em que os Princípios Básicos foram adotados foi infeliz. Isso resultou em apoiar dois anos mais tarde as Grandes Lojas Alemãs, que tentaram lidar com Hitler e, eventualmente, expressaram sua concordância com ele, e se recusaram a reconhecer a nova Grande Loja Simbólica da Alemanha, fundada em 1930, que se opôs a Hitler desde o início.

[6] – A autenticidade do ritual impresso em Jachin e Boaz foi estabelecida sem dúvida por Paul Tunbridge em seu artigo sobre Emanuel Zimmermann (AQC 79, 1966).

[7] – Três batidas distintas e Jachin e Boaz , com uma introdução e comentários de Harry Carr , The Masonic Book Club, vol. 12, 1981, p. [181].

[8] – Ver Henri Amblaine [= Alain Bernheim ] , ‘Masonic Catechisms and Exposures’, AQC 106, 1993, pp. 150-151.

[9] – Ser ilógico é descrito como uma característica britânica comum por Knoop e Jones: “Para o bem ou o mal, a maçonaria de Londres e Westminster na época de Walpole mostrou as quesão consideradas como características britânicas comuns. Primeiro, pode-se notar uma relutância ou incapacidade de seguir um argumento até o fim, e uma disposição a se satisfazer com uma posição um tanto ilógica“(AQC 56 , 1943 , p. 48).

[10] – Atas da Philo Musicæ e Architecturæ Societas Apollini , citadas por Gould, AQC 16, 1903, pp. 113-114.

[11] – Fac-símiles de ambos os esboços são reproduzidos em AQC 57, 1946, entre as pp. 10 e 11.

[12] – AQC 57, 1946, p. 9. Texto corrigido por JH Lepper após as fotografias do manuscrito original (ibid., Nota de rodapé 1, p. 7).

[13] – Philip Crossle , ‘The Irish Rite’, Dirigido à The Manchester Association for Masonic Research, 31 de março de 1927. Reproduzido em The Lodge of Research, No CC, Irlanda. Transactions for the Year 1923 (impresso em 1929), pp. 155-275. Citação atual: pp. 160-161.

[14] – Crossle, ibid., p. 193. Richard E. Parkinson, no segundo volume de The History of the Grand Lodge of Free and Accepted Masons of Ireland (1957) , observou, p. 321: “A massa de evidências que ele [Philip Crossle ] apresentou é sólida, mas deve-se admitir que sua teoria, por mais atraente que seja, ainda não obteve o apoio de estudiosos maçônicos fora da Irlanda“.

[15] – Robert James Meekren (Londres, 1876 – 1963) passou a maior parte de sua vida no Canadá. Foi editor do The Builder de 1925 a 1930 (de acordo com Wallace McLeod, citado por Art deHoyos ) e tornou-se membro da Quatuor Coronati Lodge em 1949.

[16] – Coustos nasceu em 1702 ou 1703, em Berna (Suíça), e seus pais foram para a Inglaterra. Seu nome é listado em 1730 como membro da reunião da Loja no Rainbow Coffee House, em Londres. Então ele pertenceu a uma nova Loja em Londres, licenciada em 17 de agosto de 1732 sob o nº 98, que se reunia reunida na Prince Eugene’s Coffee House, e que iria tomar o nome de Union French Lodge, em 1739. Ele se mudou para a França por volta de 1736 e era o Mestre de uma Loja em Paris, cujas atas existentes vão de 18 de dezembro de 1736 a 17 de julho de 1737. Coustos deixou a França por Portugal em 1741 e fundou uma Loja em Lisboa. Foi preso pela Inquisição em 14 de março de 1743 e permaneceu na prisão por quinze meses, durante os quais foi interrogado várias vezes e torturado três vezes. Os registros dos interrogatórios, traduzidos para o inglês, foram publicados na AQC 66 (1956) e 81 (1968). Eles fornecem informações altamente interessantes sobre a prática ritual maçônica. Wallace McLeod dedicou dois artigos a Coustos e suas Lojas (AQC 92 e 95, 1979 e 1982) e escreveu a Introdução da reimpressão de Os Sofrimentos de John Coustos, anunciada para venda em Londres, em 31 de janeiro de 1746 (vol. 10 do The Masonic Book Club, Bloomington, 1979).

[17] – José A. Ferrer Benimeli , Masoneria , Iglesia e Illustracion , Madri 1982, vol. II., Pp. 440-468, apêndices n ° 45 A – 45 X.

[18] – Ver atas da Premier Grand Lodge, de 17 de abril de 1735, Quatuor Coronatorum Antigrapha, vol. X (1913), p. 254.

[19] – Vatcher , ‘A Lodge of Irishmen at Lisbon, 1738’, AQC 84, 1971, p. 88. Atas originais da Declaración de Hugo O’Kelly, Ferrer Benimeli , op. cit., vol. I, apêndice N ° 40 C, pp. 304-305: “[…] e há mais duas a que chamao mas apenas Chamao Massones Excelentes e e há mais duas a que chamao Massones excelentes, e Masson grande, que he sobretodos, e mais superioir a qual elle testemunha exercitava”.

[20] – John Lane, AQC 1, 1886-1888, pp. 167 e 173. Também ver John Lane, A Handy Book…, 1889, pp. 24-25, e W. J. Hughan , The Engraved List of Regular Lodges from A.D. 1734 , 1889, p. 26.

[21] – W. R. S.  Bathurst (AQC 75, 1962, p. 168) sugere que David Threipland era o 2º Baronete do Castelo de Fingask , perto de Dundee, que ingressou na Earl of Mar em 1715 e morreu em 1746, ou um dos os filhos dele.

[22] – Edward Armitage, AQC 32, 1919, pp. 40-41. Em 8 de janeiro de 1746, dois irmãos “hoje foram feitos Mestres Escoceses“. Cinco “foram feitos maçons escoceses“ em 27 de novembro de 1754. Em 17 de fevereiro de 1756, dois irmãos “foram devidamente elevados a Mestres Maçons Escoceses. Ao mesmo tempo, Thomas Miller, o Desenhador da the Bear Inn, e John Morris, o Telhador, ambos Servos desta Loja, foram, para a conveniência dos negócios desta Loja, também elevados a Mestres Maçons Escoceses“. Em 14 de abril de 1758, “a Loja achou extra’ para elevar [nove nomes] Maçons Escoceses“ (Atas da Loja, citado por Eric Ward, AQC 75, 1962, pp. 132-133).

[23] – Records of the Lodge Original, No. 1. Now the Lodge of Antiquity, No. 2. Editado por W. Harry Rylands , impresso em particular em 1911, pp. 105-106.

[24] – A Loja foi autorizada sob o nº 137, 12 de novembro de 1735. Seu primeiro livro de Atas foi comprado de particulares em 1924 (Cecil Powell, AQC 49, 1939, p. 160). Acima extratos desse livro de atas, citado por Eric Ward, AQC 75, 1962, pp. 131-132.

[25] – F. W. Levander , ‘The Collectanea of the Rev. Daniel Lysons , FRS, FSA ‘, AQC 29, 1916, p. 26. Ver R. S. Lindsay (editado por A. J. B. Milborne ), The Royal Order of Scotland , 1972, p. 26.

[26] – Citações da patente de Mitchell, de Lindsay, op. cit., pp. 40-41. Lindsay declarou: “a Ordem é especulativa e, um estágio além da Maçonaria Simbólica, […] a Ordem foi fundada entre 1725 e 1741 como um protesto contra a eliminação de elementos cristãos dos três graus de Maçonaria Simbólica. (Op. Cit., P. 25-26).

[27] – “Am 30. November, dem St. Andreastage , 1742, stifteten die Brr. Fabris , Roman, Fromery , Finster , Perard e Robleau der Loge aux trois Globes mit deren Genehmigung “ fur das Emporstreben ihrer jungeren Brr. zur höhere oder sogenannten schottischen Maurerei “ eine Schottische Lodge unter dem Namen de União , welche Dann neben der Johannisloge und aus Mitgliedern derselben Fortbestand , ohne irgend eine Hoheit uber diese auszuuben , sich auch em Deren Verwaltung nicht einmischte , vielmehr ihre eigene Kasse hatte “. Geschichte der Grossen National- Mutterloge in den Preussichen Staaten genannt zu den drei Weltkugeln , 6a ed., Berlim 1903, pp. 14-15.

[28] – K. L. Bugge , Det Danske Frimureries Historie indtil Aar 1765 , vol. 1, Kj¢benhavn 1910, p. 47.

[29] – Georg Kloss , Annalen der Loge zur Einigkeit , 1842, p. 9. Alain Bernheim, Les Débuts de la Franc-Maçonnerie à Genève et en Suisse,  1994, pp. 67-68.

[30] – Eric Ward, AQC 75, 1962, p. 160.

[31] – Dr. Heinrich Lachmann , Geschichte und Gebräuche der maurerischen Hochgrade und Hochgrad-Systeme , Braunschweig 1866, p. 4.

[32] – Matthias G., Graf von Schmettow , Schmettau und Schmettow , Geschichte eines Geschlechts aus Schlesien [ Schmettau e Schmettow, Story of a family from Silesia], Buderich bei Dusseldorf, 1961. Bugge , op. cit., p. 47. Bernheim , op. cit., p. 67.

[33] – O 200 artigo  foi conhecido por Daruty (Recherches sur le Rite Ecossais Ancien Accepté, 1879, p. 97) e por Gould (History of Freemasonry, vol. III, pp. 141-2). Ambos o retraduziram de uma tradução alemã reproduzida em Findel (3d German ed., 1870, p. 285), originalmente publicada em ‘Zeitschrift fur Freimaurerei‘ (Altenburg, 1836). Após a Segunda Guerra Mundial, o texto original do Regulamento Geral de 1743 foi considerado perdido pelos historiadores maçônicos franceses. Redescobri-o Library of the Grand East of the Netherlands, anunciando a descoberta em 1969, no Annales Historiques de la Révolution Française, e publicando-a em 1974 (Travaux de Villard de Honnecourt , Volume X).

[34] – Ver nota 30.

A Maçonaria Inventada

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As origens da maçonaria especulativa: situação das teorias atuais

De todos os debates sobre a história da maçonaria, o que remete às origens da Maçonaria especulativa é um dos mais fundamentais. No entanto, este tema surgiu na França mais ou menos recentemente, e eu contribuí modestamente para divulgá-lo em 1989, publicando na Revista Renaissance Traditionnelle dois longos artigos, nos quais manifestei que se podia manter um debate sério sobre esta questão, expondo pela primeira vez em francês a essência dos estudos realizados até agora na Inglaterra e, desde o princípio dos anos setenta, na Escócia.

O simples fato de se levantar a questão das origens da Maçonaria especulativa e de mencionar a ausência de filiação direta com a Maçonaria operativa medieval como uma hipótese concebível, provocou em diferentes meios e em diferentes estudos reações abertamente hostis, algumas delas chegando até à irracionalidade.

Observo que, desde então, vários autores em diferentes estudos e trabalhos, consideraram útil mencionar este debate, já dado como inevitável e que, portanto, era preciso examinar, pelo menos, as teorias da substituição e a teoria clássica da transição, julgadas igualmente dignas dentro da Maçonaria.

É, obviamente, na Inglaterra e Escócia, em que se realizou todo um progresso considerável, embora não se possa negar que existem certas objeções e que estas são bem-vindas. No entanto, a emoção suscitada por este novo problema e o próprio fato de que até certo ponto estamos diante de um “debate sobre o debate,” obrigam-me, antes de abordar o cerne da questão, a voltar novamente, como um preâmbulo necessário, a tecer algumas considerações metodológicas que se aplicam ao conjunto deste trabalho.

Há trinta anos, nosso estudo endossou a posição definida em 1947 por dois grandes historiadores britânicos da Maçonaria, Knoop e Jones, expressas no prefácio da primeira edição de sua principal obra, A Gênese da Maçonaria:

“Primeiro – alertam os autores – embora até agora tenha sido habitual pensar a história da maçonaria como uma questão totalmente separada da história comum, justificando, assim, um tratamento especial, nós achamos que se trata de um ramo da história social, do estudo de uma determinada instituição social e das ideias que estruturam esta instituição, e que se deve abordá-la e escrevê-la exatamente da mesma maneira que a história de outras instituições sociais.”

Nós apresentamos essas observações, que adotamos sem reservas, convencidos de que não há outra maneira possível de se realizar pesquisa histórica. É, obviamente, uma importante escolha que, inevitavelmente, está longe de ser compartilhada pela unanimidade dos autores que trabalham na história maçônica.

Assim como a história de certas religiões e igrejas, quando tratada com a objetividade às vezes dolorosa do historiador, leva a conflitos com alguns fiéis que se recusam a olhar para a sua própria história, o que chamamos, por brincadeira, de “história secular” da Maçonaria também não conseguiu a adesão da unanimidade das mentes. Este é um risco do qual o historiador da Maçonaria deve ter plena consciência.

Por mais de 15 anos, o estudioso inglês John Hamill foi bibliotecário da Grande Loja Unida da Inglaterra e curador de seu fabuloso museu e seus arquivos. Em seu trabalho intitulado simplesmente The Craft, que após um profundo trabalho de revisão voltou a publicar em 1994, com o título de História da Maçonaria Inglesa, já expressava claramente esta dificuldade:

Há, portantodois tipos de abordagens para a história maçônica: a abordagem propriamente dita, como “autêntica” ou científica, segundo a qual uma teoria se fundamenta e é desenvolvida a partir de fatos verificáveis ou de documentos, e uma abordagem dita “não autêntica” que tenta colocar a Maçonaria no contexto das tradições de Mistério, buscando ligações entre os ensinamentos, a alegoria e o simbolismo da Maçonaria de um lado, e os das diferentes tradições esotéricas de outro. A falta de alguns conhecimentos sobre o período das origens da Maçonaria e a diversidade de abordagens possíveis pode explicar com segurança porque esse problema ainda é tão cativante.
[…] Se algum dia descobriremos as verdadeiras origens da Maçonaria é uma questão que permanece sem resposta.”.

Com esta perspectiva, gostaria de oferecer algumas reflexões sobre o problema das origens da Maçonaria especulativa. Mas o faço não apresentando catálogos pesados e enfadonhos de teorias mais ou menos fundamentadas e fatos ou documentos cuidadosamente analisados, mas como uma síntese de dez anos de trabalho, reflexões e pesquisas pessoais sobre este assunto.

Vulgata Maçônica: a teoria da transição

A tese mais antiga e mais difundida é aquela apresentada na maior parte das obras dedicadas à história maçônica na França, da qual compartilham espontaneamente a grande maioria dos maçons, e que, necessariamente, não examina a questão a fundo. É a teoria conhecida como transição.

Mesmo na rigorosa escola inglesa da Maçonaria, fundada no final do século passado por Gould e Hughan, ensinou-se por muito tempo essa teoria. Nas últimas décadas, seu partidário mais brilhante foi o estudioso Harry Carr, que tem sobre os outros historiadores da Inglaterra uma estimável posição de destaque intelectual.

Esta teoria afirma que, ao sair da Idade Média, a Maçonaria Operativa, que tinha então uma organização com lojas e rituais, sofreu certo declínio devido às mudanças econômicas que afetaram os ofícios da construção civil.

Na Grã-Bretanha, e em particular na Escócia no final do Renascimento, e ainda mais particularmente durante o século XVII, produziu-se uma transformação sensível da instituição. Homens estranhos ao ofício, que às vezes ocupavam cargos importantes na sociedade civil, intelectuais – voluntários dados à especulação alquimista de então, do neoplanismo nascido em Florença, no século XV, e da tradição Rosacruz, difundida desde o início do século XVII – tinham feito a sua entrada em lojas que naquela época se encontravam quase moribundas.

Estes Maçons Aceitos pouco a pouco foram aumentando seu número e sua influência a ponto de se tornarem a maioria no interior das lojas, chegando, em certa medida, a eliminar os maçons operativos, convertidos dessa maneira em estranhos dentro de sua própria instituição.

Esta Vulgata implica também algumas alternativas que, por vezes, integram o que poderia ser chamado de Lendas complementares.

A primeira destas lendas, por exemplo, é a dos Mestres Comacinos, pedreiros italianos misteriosos que, em virtude de franquias bem conhecidas que lhes foram concedidas pelo papa – e que justificariam assim a expressão maçom franco, ou livre – teriam atravessado a Europa, estendendo seus conhecimentos de arquitetura, esotéricos e geométricos, lançando as primeiras sementes da Maçonaria especulativa. Já mostrei em outro lugar, há alguns anos, de onde procede esta fábula sem qualquer base documental. No entanto, por força de cópias consecutivas sem comprovação das fontes, esta lenda adquiriu foros de verdade.

Outro componente, muitas vezes confuso, mas muito vivo na teoria da transição, é a hipótese do companheirismo. Não é o momento de mostrar em detalhes as contradições e inverossimilhanças. No entanto, esta hipótese repousa em grande parte em uma confusão grave, mas comum, sobre a Maçonaria operativa, já que esta poderia existir sob formas extremamente diversificadas, na Europa, desde a Idade Média, e, particularmente, na França, Inglaterra e Alemanha, com estatutos muito diferentes. A Guilda do Companheirismo propriamente dita, organização de origem essencial e exclusivamente francesa por um longo tempo, cujas origens históricas parecem certificadas até o século XV, mas sobre cujos usos, lembremo-nos, carece de informações substanciais ou confiáveis anteriores ao final do século XVIII.

Em todo caso, é importante ressaltar o fato de que a Maçonaria Especulativa foi formada sob condições ainda duvidosas, durante o século XVII, na Inglaterra, e jamais conheceu ou teve pontos em comum com a Guilda do Companheirismo, pelo menos neste momento da fundação.

Que se possa colocar alegar que são organizações vinculadas aos ofícios da construção civil – mas não exclusivamente à Guilda de Companheiros – nas semelhanças de formas e usos, não nos surpreende, mas devemos nos lembrar sempre do provérbio que todo historiador escrupuloso não deve esquecer: “comparação não é razão”.

Uma crítica radical da transição

Foi preciso esperar até os anos setenta para que se tivesse uma crítica decisiva e se fizesse avançar a teoria da transição. Foi o trabalho, em particular, de um notável pesquisador inglês: Eric Ward.

A crítica de Eric Ward assenta-se no sentido convencionalmente atribuído a algumas das palavras-chave usadas pela teoria da transição. Vou citar alguns exemplos:

Maçom, Maçom Franco ou Livre

A origem e o significado da palavra franco-maçom é um bom exemplo das ambiguidades exploradas pela teoria clássica. E. Ward foi capaz de mostrar de forma conclusiva que, contrariamente a todas as etimologias fantasiosas que ainda circulam hoje, a palavra franco-maçom (freemason) não pertence à Idade Média, pois é uma formação de duas palavras freestone mason  canteiro (maçom) da pedra branca – designando um trabalhador que trabalha efetivamente como uma determinada pedra macia que se pode cortar e trabalhar de maneira muito detalhada.

Agora, se tomarmos os primeiros testemunhos relativos aos pedreiros não operativos ingleses século XVII, notamos que estes Maçons Aceitos são também indiferentemente designados pelas palavras Free Masons, ou Free-Masons, com ou sem hífen, mas sempre com duas palavras.

Tudo indica claramente que, a partir do final do século XVII e início do XVIII, os termos Aceito e Franco são equivalentes para designar os Maçons não operativos. Mas como observou E.Ward em uma análise muito inteligente, freemason não é Free-Mason. A palavra Free, em Free-Mason ou Free and Accepted (Maçom Livre e Aceito) simplesmente se refere ao fato de que esses “novos” maçons são “livres” em relação ao Ofício, ou seja, simplesmente estranhos à profissão…

Em resumo, a identidade fonética e a proximidade morfológica das palavras freemason (palavra muito antiga, derivada do anglo-normando, e ligada à prática operativa) e Free-Mason, não devem nos fazer esquecer a verdadeira dissimilaridade semântica, e não nos podem autorizar a buscar e introduzir uma relação de parentesco entre homens de eras diferentes, os quais traziam esses nomes, obviamente, por razões muito distintas.

As lojas operativas inglesas

Outro problema levantado é o fato de que a Maçonaria especulativa tenha nascido na Inglaterra – no sentido exato do termo. Agora sabemos que não existe qualquer documento que dê provas de que pessoas estranhas à profissão tenham sido admitidas nas lojas operativas inglesas.

Por outro lado, a realidade das lojas operativas, no sentido que podemos dar à palavra loja, à luz da maçonaria especulativa – uma estrutura permanente, regular e controlando o Ofício em todos os pontos do território, com rituais específicos – é um fato problemático em solo inglês, uma vez que não há qualquer vestígio histórico disso.

Além disso, algumas raras lojas operativas curiosamente muito tardias, apenas conhecidas na Inglaterra, permaneceram operativas até o seu desaparecimento. Não se pode deixar de voltar ao estudo magistral de Knoop e Jones, O Maçom Medieval, cuja primeira edição remonta a 1933 e que, até onde sei, não foi superada. É notável que este trabalho tenha sido publicado por historiadores profissionais, fora dos círculos habituais de erudição maçônica e que somente na década de setenta tenha começado a exercer influência sobre eles, já que os dados estiveram disponíveis por 40 anos. A única coisa de quase certa é que, desde sua origem, lojas maçônicas que surgem na Inglaterra são puramente especulativas.

A Loja de Chester, que era, de fato, operativa e se desenvolveu em meados do século XVII, foi muito bem estudada pelos historiadores ingleses. Teve uma existência efêmera e é praticamente um “hapax”[1] na história maçônica inglesa.

Inclusive, no que diz respeito à famosa Acception de Londres, do século XVII, erroneamente descrita como uma loja, já que esse termo nunca aparece em seus anais e que também erroneamente é citada como uma prova da transição especulativa, devemos dizer que ninguém sabe quem tomou a iniciativa de fundá-la ou por que motivo. Este círculo de lojas constituído à margem da Companhia de Maçons de Londres foi a única guilda organizada conhecida na Inglaterra para o ofício de canteiro (maçom), e sua autoridade nunca ultrapassou a cidade de Londres.

Dentro da história a Acception maçônica deixa dois finos rastros documentais: em 1610, e, depois, em 1686, no relatório de Elias Ashmole. Não se conhece qualquer outra estrutura comparável na Inglaterra nesta época ou mesmo mais tarde. Parece ter sido uma espécie de clube que recebia, de acordo com a fórmula clássica de patrocínio muito conhecida também na Escócia, personalidades e notáveis que se revelassem úteis para o Ofício. Lembremo-nos, sobretudo, que os próprios operativos deviam ser admitidos no seio da loja, já que não eram membros de direito. E embora a Companhia dos Maçons de Londres tenha continuado até nossos dias, a Acception desapareceu sem deixar descendência conhecida.

Pode-se argumentar que as coisas que aparentam ser muito diferentes na Escócia, onde, desde o início do século XVII, a entrada de notáveis em lojas operativas organizadas parece certa. Teremos a oportunidade de voltar novamente a este caso, que é muito interessante. Observe-se, por agora, que a Escócia era, até início do século XVII, um país separado e até inimigo da Inglaterra, que muito poucas relações existiam entre ambos e que a existência de lojas operativas em Edimburgo ou Kilwinning, não explica, por si mesma, as circunstâncias do aparecimento de uma maçonaria puramente especulativa, na mesma época, no sul da Inglaterra.

A hipótese do empréstimo

A partir da crítica a esta teoria, nasceu, no início da década de setenta, o que pode ser chamado de contrateoria. Essencialmente negativa, pode-se dizer, ela não se propõe a solucionar de forma positiva a questão das origens da Maçonaria, mas sugere que a Maçonaria especulativa, contrariamente às afirmações da teoria da transição, teria deliberadamente pedido “emprestado” textos originais e práticas que pertenceram aos operativos, mas de forma completamente independente, sem filiação direta ou autorização.

A Maçonaria especulativa, portanto, teria mantido desde a sua fundação ligações puramente nominais ou, quando muito, laços alegóricos com os construtores das catedrais. Deixando, até certo ponto, a Maçonaria especulativa órfã de sua tradição fundadora, o questionamento levantado por E.Ward levou a erudição maçônica inglesa a buscar um modelo de substituição à teoria da transição, muito pouco operativa na sua formulação clássica. “Ce chantier est toujours en cours”[2].

Novas perspectivas sobre os Antigos Deveres

Em 1986, o grande estudioso inglês Colin Dyer acrescentou ao questionamento de Ward outra proposta mais positiva.

Esta teoria baseia-se principalmente na revisão da origem dos Antigos Deveres (“Old Charges”), textos fundamentais da tradição maçônica inglesa. Sabe-se, de fato, que entre as duas versões mais antigas conhecidas do Regius e do manuscrito Cooke – ambos datados em torno de 1400 – e as versões posteriores (das quais existem mais de 130 até meados do século XVIII), há um período de silêncio documental que chega a aproximadamente 150 anos.

Por outro lado, a partir de 1580, houve novamente um número crescente de textos dos Antigos Deveres. Agora sabemos, a partir de uma menção feita pelo Manuscrito Ms. Sloane 3848, que que uma cópia dos Antigos Deveres foi usada para a iniciação de Elias Ashmole, em 1646, na Loja Warrington, e que aquele documento era uma espécie de ferramenta de trabalho essencial nas lojas especulativas inglesas, em particular para a iniciação.

Naquela época, a aceitação de um candidato era uma cerimônia muito simples e fácil de realizar. Isto é admitido como fato muito comum, especialmente sabendo-se que, no final do século XVI não existia, ao que parece, qualquer loja operativa.

A hipótese de trabalho proposta por C. Dyer é estudar o conteúdo destas novas versões dos Antigos Deveres, com o objetivo de obter um testemunho sobre o espírito e os usos especulativos ingleses que poderiam ter surgido ao mesmo tempo que aqueles textos, ou seja, muito antes do que geralmente se pensa.

Os dois textos mais antigos disponíveis hoje, para esta “segunda onda”, são o Ms Melrosedo qual se tem uma cópia datada de 1674, mas que afirma referir-se a um original – desconhecido até hoje – de 1581, e especialmente o Ms Grand Lodge No. 1 cuja data comprovada é 1583, e que são interessantes para um estudo comparativo de seu conteúdo com a versão antiga de referência que é o Ms Cooke.

As diferenças observadas são resumidas essencialmente em dois grupos:

1. Alguns certificam que estes documentos não tinham provavelmente uma utilidade operativa e que os autores provavelmente não pertenciam à profissão de pedreiro. Por exemplo, as condições antigas, referentes à obrigação para todo Mestre de Obra – isto é, de todo patrono – de proporcionar a substituição de qualquer trabalhador que não realizasse o seu trabalho em tempo, pagar a ele por seu trabalho, foram simplesmente eliminadas.

2. Outras obrigações fazem o seu aparecimento, e têm significados religiosos e morais interessantes:

  • A obrigação de servir ao Senhor para quem ele trabalha é substituída por um juramento de lealdade “a Deus e à Santa Madre Igreja”. Note-se que este compromisso figurava no Ms Cooke sob a fórmula: “Deus, a Santa Igreja, e todos os Santos”.
  • A remoção desta última menção tem, obviamente, um significado religioso provável, uma vez que ela prevê que todo Pedreiro nunca deve cair no erro ou heresia de não ser, em qualquer circunstância, um homem discreto e prudente.

Ao todo, as diferenças observadas entre os dois conjuntos de textos levam C. Dyer a concluir que, após um silêncio de mais de cem anos, o MS Grand Lodge n º 1 não é de modo algum uma simples cópia, mais ou menos abreviada, de Cooke, mas um documento completamente diferente, que introduz muitas regras que já não se referem diretamente à prática operativa, mas tem um caráter especificamente religioso e moral.

O estudo mais detalhado da ortografia utilizada para os nomes bíblicos mostrados no Ms Grand Lodge, por outro lado, demonstra similaridade com os das Bíblias publicadas na Inglaterra após a Reforma, o que indica que ele foi escrito por volta de 1540.

Deste estudo resulta a proposta de uma hipótese segundo a qual o Ms Grand Lodge seria um dos primeiros textos, de uma longa série, utilizados a partir dos anos 1540-1580 por um grupo de homens conhecidos ao longo do século XVIII sob o nome de maçons especulativos ou maçons aceitos.

Agora, a história religiosa da Inglaterra do século XVI pode nos fornecer elementos susceptíveis de apoiar esta tese. Durante todo este período, todos os que expressaram convicções religiosas opostas ao poder existente perderam a vida nas fogueiras.

Esta rotina em tempos especialmente turbulentos fez com que algumas comunidades muito diferentes mergulhassem na discrição em suas práticas, ou mesmo no segredo.

É durante os anos 1560 a 1570 que a crise religiosa atinge seu ponto culminante. Estes anos foram caracterizados, em particular, pelos diferentes conflitos que assolavam a Escócia e a “deposição” teórica de Elizabeth pelo papa em 1570. Paralelamente a estes acontecimentos, os estudiosos da história religiosa da Inglaterra propuseram a existência de um movimento geral criado dentro da Igreja da Inglaterra, e cujo objetivo era orientá-la para o campo da Reforma.

Até 1570, de acordo com o historiador britânico J.E. Neal, tratava-se de uma verdadeira “organização secreta”, que deveria proceder com cautela devido às pressões dos mais moderados e devido às exigências expressas pela Rainha. Este movimento deveria conseguir a formação de uma seita independente da origem da igreja Congregacional.

O certo é que a situação daquele tempo levou a grupos diferentes, com convicções morais e religiosas bem definidas, a atuar sob a forma de organizações mais ou menos secretas.

Parece muito provável, se nos basearmos na tese de C. Dyer e de vários escritores ingleses atuais, que o movimento que deu origem à Maçonaria especulativa teve claramente sua origem em motivações religiosas daqueles momentos. O estudo comparado de Antigos Deveres estabelece em particular que este movimento, aparentemente secreto e que a história religiosa da época torna compreensível, já não tinha qualquer ligação com a Maçonaria operativa, uma vez que ele teria se estabelecido por volta de 1560 ou 1580, precisamente no momento em que os conflitos religiosos atingiram o seu clímax.

As múltiplas teorias

Por cerca de vinte e cinco anos, diversos autores têm realmente se alternado na formulação de uma teoria alternativa que possa racionalizar o conjunto de provas documentais que possuímos com relação ao período histórico que envolve o nascimento da Maçonaria especulativa, e que seja capaz de superar as objeções de E.Ward. Eles indicam um certo desânimo por parte dos pesquisadores e nos mostram o papel muito fértil da crítica devastadora de E. Ward. Foi levada a cabo a releitura de todos os documentos disponíveis sobre a história da Maçonaria inglesa à luz desta nova proposta.

Conseguiu-se, dessa forma, propor uma teoria política ligada aos acontecimentos da guerra de 1640-1660 na Inglaterra, acompanhada de uma teoria religiosa que também explorou o papel da caridade e da sociabilidade das primeiras sociedades de ajuda mútua nascidas no século XVII entre os artesãos, além do papel desempenhado pela dissolução das comunidades monásticas após a Reforma inglesa de 1534.

É evidente que nenhuma destas teorias é convincente. Todas tiveram o imenso interesse em promover uma redescoberta dos fundamentos históricos da Maçonaria Inglesa, em não confundir mais o seu desenvolvimento, com o da que Maçonaria Escocesa. É precisamente desta última surgiu uma nova teoria.

A chave escocesa: David Stevenson, em The Origins of Freemasonry

Em 1988, apareceram duas obras do erudito escocês David Stevenson. Estas, por sua vez, trouxeram consigo uma completa revisão da questão controversa das fontes da Maçonaria especulativa.

É quase impossível resumir a tese sustentada pelo autor, sem o auxílio de documentação farta e confiável. No entanto, descreverei as linhas essenciais.

Em 1598-1599, um alto funcionário da Coroa escocesa, William Schaw, Supervisor Geral dos Maçons e Intendente dos Edifícios do Rei, edita uma série de regulamentos que organizam, sobre novas bases, a profissão de pedreiro na Escócia.

Os Estatutos Schaw criam uma rede de lojas regionais com jurisdição geograficamente definida, e dão a estas lojas, cujos procedimentos operacionais foram bem definidos, a responsabilidade de dar aos trabalhadores os dois graus da Profissão: Aprendiz-Iniciante (Entered-Apprentice), geralmente após um aprendizado simples que durava cerca de sete anos, onde recebiam o grau que lhes permitia procurar livremente trabalho com um Mestre, ou seja, com um empregador. O Companheiro de Ofício (Fellowcraft) dessa forma afirmava seu total domínio da Profissão, mas, sobretudo, lhe era permitido postular eventualmente a entrada na Guilda de Mestresdenominada Incorporation, distinta da loja e uma organização puramente civil e política, que se apresentava como uma espécie de sindicato de patrões, controlando, por sua vez, tanto o Ofício quanto a Cidade.

Em um trabalho notável e consciente, D. Stevenson mostra que esta organização foi profundamente inovadora e estritamente inerente à Escócia. Nunca, nem na Escócia nem antes na Inglaterra, havia existido tal sistema. Ao dotar a loja de um estatuto legal, uma personalidade moral, uma existência real e ao definir o papel de seus Oficiais (Wardens ou Vigilantes ou Diáconos), os Estatutos Schaw evidenciam ter lançado as bases estruturais que mais tarde se transformariam, no resto da Escócia, na Maçonaria especulativa.

A contribuição mais notável de D. Stevenson, no entanto, é mostrar que, ao contrário da versão propagada pelas teorias clássicas, o fenômeno da Aceitação – tomando emprestada uma expressão puramente inglesa nunca usada na Escócia – conhecido por permitir a substituição progressiva dos operativos pelos especulativos nas lojas, nunca ocorreu na Escócia no século XVII.

Analisando cuidadosamente as listas de membros dessas lojas e examinando sua história ao longo de várias décadas, D. Stevenson mostra que as lojas escocesas permaneceram essencialmente, e durante muito tempo, como operativas. No entanto, e este é outro ponto novo e essencial, mostra também que desde o início algumas personalidades, incluindo o famoso Robert Moray, certamente próximo da escola de pensamento hermética, neoplatônica e rosacruz – seja qual for o significado deste último rótulo – têm estudado, na Escócia, sobre estas lojas. Sua organização relativamente discreta, se não secreta, e o conhecimento da existência de alguns ritos lhes interessaram, embora suas incursões documentadas nestas lojas, ao longo do século, sejam extremamente raras e geralmente efêmeras.

Resta dizer, e esta é provavelmente a principal conquista dos trabalhos de D. Stevenson, que a prática excepcional, mas inegável, de receber como membros honorários pessoas estranhas ao Ofício nessas lojas – onde estes novos aceitos talvez não mais voltariam – pode criar um contingente, embora provavelmente numericamente pequeno, de “pedreiros livres”, podendo, dessa forma, transportar e transmitir uma Maçonaria que estava aberta para que eles a transformassem em função de seus próprios interesses intelectuais. Portanto, é extremamente interessante ter em conta que Robert Moray, um dos primeiros “especulativos” conhecidos da Maçonaria, foi recebido, em 1640, em uma loja temporária, constituída à margem de uma guerra, em território inglês. Um fato que devemos registrar é a existência da enigmática Loja Warrington, igualmente temporária, que recebeu Ashmole seis anos mais tarde, à margem da mesma guerra, situada muito ao norte da Inglaterra…

A Escócia não inventou a Maçonaria especulativa. Criou, sob a liderança de William Schaw, as estruturas de uma maçonaria operativa bem organizada que servirá indiscutivelmente de modelo para a maçonaria especulativa que se organizará no início do século XVIII. Fez, especialmente, com que pedreiros não-operativos, que nunca tinham pertencido ao Ofício, assegurassem que este frágil frasco pudesse ser usado além da “fronteira do norte” (Northern Border) e que, colocando o pé em solo inglês, pudesse espalhar-se. Desse modo pode-se compreender porque a maçonaria inglesa do século XVII é ao mesmo tempo especulativa. 

Rumo a uma teoria sintética

Muitas questões ainda estão pendentes sobre este assunto tão complexo. Ainda há muitos enigmas a serem desvendados e muitos pontos ainda permanecem obscuros. O que pode ser dito é que agora temos os elementos de uma teoria sintética sobre as origens da Maçonaria especulativa, por cuja me formulação me dediquei durante vários anos. Gostaria agora de me arriscar a lançar as bases diante de vocês, consciente de propor um modelo sujeito a críticas e que irá necessariamente ser alterado.

A Maçonaria operativa na Grã-Bretanha e no resto da Europa desenvolveu-se em uma civilização pouco comunicante e estruturada em torno de poderes locais, em uma época em que os organismos de vocação nacional, como se os descreveria hoje, não faziam qualquer sentido.

Havia, na Inglaterra, trabalhadores mais ou menos qualificados, experientes, chefes e Mestres de Obra. Havia os canteiros de obras que podiam ocupar a vida inteira de um pedreiro para quem o ofício se resumia na construção de uma catedral da qual ele não havia visto ser colocada nem a primeira pedra e nem veria a conclusão. E isso exigiria necessariamente a transmissão dos conhecimentos sobre as obras. Assim, os Companheiros, mais antigos, formavam os mais jovens, os Aprendizes. Eram homens simples, analfabetos, não tinham sequer um sobrenome: eram João, o Construtor ou Edwin de Chester. Havia lojas que davam apoio ao edifício em construção, onde se guardavam as ferramentas, onde se descansava, onde se conversava sobre os problemas da obra e os projetos do dia seguinte. Temos algumas descrições sobre isso. Havia também planos, utilizando-se o solo nivelado para desenhar o esquemas ou modelos. Havia uma ordem social e religiosa, onde os clérigos eram essenciais.

Para organizar os contingentes de pedreiros, escreveram textos e regulamentos, e para dar significado ao trabalho destes homens, procuraram nas antigas crônicas, incluindo Pierre Comestor e Polychronicon, para escrever uma história que seria a dos Maçons. Sabemos bem que o poema Regius foi escrito provavelmente por um sacerdote do Priorado de Lanthony. É dele que constava o famoso ensinamento das lojas operativas, além, é claro, o conhecimento específico para o exercício de própria profissão, de forma natural e sem mistério. Havia também alguns costumes, certas cerimônias de caráter religioso, como tudo na Europa da Idade Média. Um trabalhador de um canteiro de obras jurava respeitar a Deus, à Santa Igreja, ao seu Rei e ao Mestre da obra, onde a Bíblia lhe era apresentada.

Eis tudo o que é conhecido das lojas inglesas operativas da Idade Média ou seja, canteiros de obras que duravam anos, até décadas, que nasciam, viviam e morriam pedreiros. Isso é tudo que sabemos, porque certamente é tudo o que existe para se saber. A hipótese de uma rede desconhecida de lojas iniciáticas e secretas, cuja existência e ensinamentos teriam escapado aos olhos do historiador é absolutamente insustentável, pelo menos quando nos esforçamos para permanecer no campo da história.

A partir dos século XV e depois no século XVI, em função da Reforma, o Ofício sofreu profundas transformações: muitas grandes obras, muitas catedrais, e os pedreiros foram cada vez mais servindo aos particulares, nobres e burgueses da época, e o faziam sozinhos ou com outros companheiros. O patrão agora era chamado de Mestre. A loja não tinha mais razão de ser, pois o novo tipo de obras não a tornava necessária. Isso explica por que as lojas operativas não deixaram quaisquer vestígios na Inglaterra: porque não existiam…

Porém nem tudo era fácil,  porque havia muitos pedreiros e naqueles tempos a doença podia atingir a qualquer momento, em qualquer lugar, e não  existia proteção social, pelo menos fora da Igreja. E esta é a razão pela qual, em toda a Europa, em todos os burgos, em todas as cidades, em todos os ofícios – não só o dos pedreiros – se desenvolveu mais a solidariedades natural, muitas vezes baseadas em uma profissão ou grupo social, o que se supõe ser a base das irmandades, e cujo objetivo principal objetivo era a assistência mútua: Mutualidade e Beneficência. Mantinha-se um fundo de dinheiro em comum e assim podia-se conseguir um enterro decente para uma pessoa falecida e apoiar até certo ponto sua viúva e seus filhos, ou buscar emprego para aqueles que estavam temporariamente privados dele. É isso que provavelmente Sir Robert Plot evoca, em 1686, em seu livro História natural de Staffordshire, quando menciona o testemunho, quase único para época, de uma organização chamada Maçonaria que diz que “funciona em todo o país“. A descrição que ele dá corresponde mais a uma sociedade fraterna de ajuda mútua a trabalhadores em dificuldades. Não menciona coisa alguma sobre o resto.

Em Londres, a poderosa Companhia dos Maçons, especifica da capital, durante o século XVII acolhia benfeitores escolhidos entre os notáveis da cidade, visando a enriquecer o seu fundo de ajuda. Essas irmandades municipais ainda existem, e algumas delas não mudaram sua vocação original: não eram Operativas, e, no entanto, não se tornaram especulativas, pois essa seria uma mudança muito radical.

Essa era a situação até o final do século XVII, na Inglaterra.

Em Londres, no início do século XVIII, pouco antes da primeira reunião da primeira Grande Loja, descobrimos algumas raras lojas – havia apenas quatro em 1717 – cuja composição e atividade parecem corresponder em muitos aspectos ao esquema mencionado de alguma atividade mutualista e caritativa.

Ignoramos, neste momento, que usos rituais tinham ou seguiam as diferentes lojas. Tudo leva a pensar que eram muito simples, como a loja onde Elias Ashmole foi iniciado ouvindo a leitura de um manuscrito dos Antigos Deveres e fez seu juramento.

Havia a Escócia, distante e brumosa, inimiga hereditária e tão diferente da Inglaterra.

Não se sabe muito como os pedreiros estavam organizados naquele pequeno país, muito pouco povoado e muito pobre, onde as catedrais não eram numerosas como na Inglaterra. Sabe-se, contudo, que até o final do século XVI, um alto funcionário do estado escocês, William Schaw, concebeu uma organização administrativa radicalmente nova, regulamentando de forma muito precisa os grupos de pedreiros, legislando sobre suas relações com os Mestres – os patrões – e agrupados em poderosos sindicatos municipais chamados Incorporations.

Os pedreiros já não eram livres na organização de Schaw, uma vez que deviam estar, necessariamente, ligados a uma seção territorial, uma instância precisa que, retomando o uso de uma antiga palavra presente na tradição do Ofício, recebeu o nome de loja, dando-se a ela, no entanto, um novo significado e um sentido muito distinto. Como seus colegas ingleses, os escoceses tinham a prática de receber em suas lojas, como patronos, protetores e benfeitores, personalidades que não retornavam novamente à loja, mas que podiam ajudar o Ofício, às vezes dando trabalho aos trabalhadores. Estes Cavalheiros Maçons, como eram chamados na Escócia (nunca por outro nome), não tinham qualquer vínculo duradouro com as lojas, pois nada tinham a fazer nelas e, por outro lado, também não eram incentivados a participar de suas reuniões, que por sua vez, eram raras, visto que as lojas escocesas se reuniam uma ou duas vezes por ano, no máximo, para tratar de assuntos administrativos.

A Escócia é um país singular. Conquistada em 1560 por um calvinismo radical, mas habitada por homens curiosos e apaixonados por filosofia e misticismo, e que muitas vezes gozavam da proximidade de um rei. Dentre eles se inclui o próprio W. Schaw. Foi lá que, em meados do século seguinte, se encontrava também outra personalidade maçônica: Robert Moray. Alguns deles estavam entre os Cavalheiros Maçons que, como já foi dito, nunca voltavam a colocar os pés na loja em que foram recebidos. No entanto, havia algo que lhes interessava vivamente: um ritual e uma tradição.

Nessa época, nas Ilhas Britânicas assim como em todo o continente, esses elementos eram essenciais na vida social. Muitos eventos sociais eram ritualizados, muitas vezes com uma evidente conotação religiosa. Assim, os pedreiros escoceses recebiam os Aprendizes e Companheiros com a ajuda de um ritual, embora muito rudimentar, com base no qual prometiam proteger os segredos do reconhecimento e que lhes permitiam garantir o privilégio de emprego e a proteção da ajuda mútua aos pedreiros devidamente registrados, e não aos Cowans, como chamavam na Escócia os pedreiros independentes, ou aqueles que não estavam filiados a qualquer loja. Todo o segredo se justificava desta forma, puramente utilitária, mas que era essencial em um país pequeno, onde a vida era difícil e o emprego extremamente raro.

Alguns dos Cavalheiros Maçons ávidos por investigações filosóficas, e eram muito sensíveis ao eco do neoplatonismo renascentista e às proclamações misteriosas dos primeiros manifestos Rosacruzes na segunda década do século XVII, queriam poder se reunir para fazer deles o objeto de seus trabalhos e pesquisas. Por uma questão de discrição, por gosto pelo mistério, pela sedução dos rituais estranhos e antigos que haviam conhecido, talvez tenham decidido se agrupar tomando emprestadas as formas simbólicas e rituais dos pedreiros escoceses – que também partilhavam um segredo – embora soubessem que o segredo dos pedreiros não fossem profissionais e operativos. Estes grupos eram poucos e errantes e independentes entre si. Esta era a situação na Escócia e também no norte da Inglaterra, como mostra o caso Ashmole, em meados de final do século XVII.

Observe-se aqui que o problema principal é, então, explicar como em princípios do século XVIII, em Londres, aparece, quase saída do nada documental, uma Maçonaria não operativa, que já não estava ligada à profissão de pedreiro, mas organizada em padrões muito próximos dos padrões da Maçonaria Escocesa.

O elo perdido deve ser encontrado. Fará com que um dia se encontrem maçons livres, sem lojas como Ashmole e Moray, de ascendência escocesa direta ou indireta e de lojas livres, como a Masonry inglesa descrita no final do século XVII por Robert Plot. Note-se que o efeito é como o de um jogo de transparências onde se sobrepõem estes dois aspectos das origens profundamente diferentes e, com isso, se obtém um retrato bastante preciso da primeira Maçonaria inglesa dos anos 1717-1723. Indicam que uma data importante, 1707, não deve ser negligenciada. É o Ato de União, que transformou definitivamente a Escócia e a Inglaterra em um único reino, o que, finalmente, permitiu uma abertura real, embora lenta e desconfiada de cada um dos países com relação ao outro.

Recordemos, finalmente, apenas para abrir uma última pista e arriscar mais uma abordagem, que um dos protagonistas, se não o mais importante pelo menos o mais conhecido desta primeira Maçonaria Inglesa, foi o pastor Anderson, de origem escocesa, nativo de Aberdeen, e cujo pai tinha pertencido à loja daquela cidade…

Paro por aqui.  Queria, depois de ter estudado arquivos, documentos e testemunhos, contar-lhes uma história, esperando que ela não ficasse muito longe da história real. Sombras passaram diante de nossos olhos, séculos transcorreram, e as antigas gerações viveram sem ser capazes de nos desvendar totalmente seu mistério. Embora o véu tenha sido parcialmente levantado, uma parte obscura ainda permanece: saibamos respeitá-la e não nos entreguemos às quimeras.  A busca das origens é sempre um desafio: às vezes o historiador deve renunciar provisoriamente ao seu direito de entender tudo, mas nada o impede, como homem, de continuar esperando tudo.

Autor: Roger Dachez
Tradução: José Filardo
Revisão: Sergio Jerez

Fonte: REVISTA BIBLIOT3CA

Notas

[1] – Hápax, em português. Palavra ou expressão de que só existe um único exemplo, em determinada língua, época ou autor. N.T.

[2] – Este projeto ainda está em curso. N.T.

 

Los Orígenes de la Masonería Especulativa – Parte I

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Téngase en cuenta que la pobreza bibliográfica española al uso es tremenda, por lo cual es muy generalizado ver los Hermanos “tragar” todo lo que les viene, a veces sin discernir, ni tener capacidad crítica al respecto de las muchas teorías que nos vienen como sobreañadidas.

Por ejemplo, yo estoy echando de menos desde hace muchos años , una buena traducción de la Querella de los Antiguos y los Modernos, que ya está publicada en los sencillos libros de Edimaf, pero en Francés, sería estupenda tenerla en español y comentada. Eso haría que nuestra formación subiera un peldaño, pues hay piedras esenciales para comprendernos a nosotros mismos que ni siquiera tenemos en cuenta.

Intentando paliar todo ese magma de ignorancia o confusión que existe, es lo que mueve a estos blogs a exponer trabajos que se salen del marco al uso, es lo que me hace publicar este trabajo de Roger Dachez, que iré entregando en capítulos sucesivos para ir teniendo perspectivas diferentes, y que debiera traer todo un panorama de preguntas y reflexiones sobre nuestra propia existencia, nuestra herencia y los mundos que nos hemos ido construyendo. Espero que sirva para algo. estos artículos, y pido perdón de antemano, por la deficiente traducción muy personal y un tanto basta.

De todos los debates relativos a la historia de la francmasonería, el que se refiere a los orígenes de la Masonería especulativa, no debe dudarse, es uno de los más fundamentales. Ahora bien, en Francia, este tema apareció más o menos recientemente, y yo he contribuido modestamente a que se conociera en 1989, publicándolo en la Revista Renaissance Tradicional, a través de dos largos artículos en los que ponía de manifiesto, precisamente que sobre esta cuestión podía y hay un serio debate, exponiendo por primera vez en lengua francesa una parte fundamental de los estudios efectuados hasta ese momento en Inglaterra y en Escocia, desde principios de los años setenta.

El simple hecho de plantear la cuestión de los orígenes de la Masonería Especulativa, y para decir las cosas claramente, de mencionar la ausencia de filiación directa con la Masonería operativa medieval como una hypothèse, simplemente posible, suscitó en distintos medios, y se vió en distintos estudios, en ocasiones con reacciones francamente hostiles, llegando a veces hasta la sinrazón. Observo que desde entonces varios autores, en distintos estudios y algunas obras, consideraron útil mencionar este debate, en adelante ya dado por inevitable, y por tanto era necesario que se examinasen, al menos, las teorías de sustitución y la teoría clásica de la transición , se juzgan gemelamente como dignas dentro de la masonería.

Es obviamente en Inglaterra y en Escocia, todo un progreso considerable, aunque no se puede negar que existen ciertas oposiciones, y que éstas se manifiestan de buen grado. No obstante, la emoción levantada por este nuevo problema, y el hecho mismo que hay hasta cierto punto estamos ante “debate sobre el debate”, me obligan, antes de abordar el núcleo central de la cuestión, a volver de nuevo, a la manera de un preámbulo necesario, a realizar algunas consideraciones metodológicas que valen para el conjunto de este trabajo . Nuestro estudio, desde hace treinta años, hizo suyo la posición definida en 1947 por dos grandes historiadores ingleses de la Masonería, Knoop y Jones, manifestada en el prólogo a la primera edición de su obra principal The Genesis of Freemasonry :  En primer lugar, advierten los autores, aunque haya sido hasta ahora habitual pensar la historia masonería como una cuestión aparte de la historia ordinaria, justificando de este modo un tratamiento especial, pensamos que se trata de una rama de la historia social, del estudio de una institución social particular y de las ideas que estructuran a esta institución, y que se debe abordar y escribirla exactamente de la misma forma que la historia de las otras instituciones sociales.

Sólo tenemos que retomar estas observaciones que aprobamos sin reserva, convencidos de que no hay otra vía posible en la investigación histórica. Es una elección obviamente importante que inevitablemente dista mucho de ser compartida por la unanimidad de los autores que trabajan en la historia masónica.

Así como la historia de algunas religiones, y de algunas iglesias, tratada con objetividad, es a veces dolorosa para el historiador, puesto que implica conflictos muy vivos con algunos fieles que se niegan a observar y a digerir su propia historia, es lo que sucede con la historiografía masónica que llamaremos como “la historia laica” de la Masonería, y es todo un escollo del cual el historiador de la Masonería debe se plenamente consciente.

Gran Logia Unida de Inglaterra

Hace más de una quincena de años, el erudito inglés John Hamill, que fue bibliotecario durante mucho tiempo de la Gran Logia Unida de Inglaterra, y conservador de sus fabulosos archivos y su museo, en su obra simplemente titulada The Craft, que vuelve a publicar en1994 con una trabajo revisado en el fondo y en la forma con el título: History of English Freemasonry, ya se expresaba claramente esta dificultad:

“Hay pues dos tipos de enfoques en cuanto a la historia masónica: el enfoque, propiamente dicho, como “auténtico” o científico, según el cual una teoría se funda se desarrolla a partir de hechos comprobables o de documentos; y un enfoque dicho “no auténtico” que se esfuerza por poner de nuevo a la Francmasonería en el contexto de la tradición de Misterio, buscando vínculos entre las enseñanzas, las alegorías y el simbolismo de la Masonería de una parte, y de la distintas tradiciones esotéricas por otra parte. La ausencia de algunos conocimientos sobre el período de los orígenes de la Masonería, y la diversidad de los enfoques posibles explican seguramente porqué este problema sigue siendo tan cautivante.”

[…] Saber si algún día descubriremos los verdaderos orígenes de la Francmasonería es una cuestión que permanece sin respuesta. » Con esta perspectiva deseo aportar algunas reflexiones sobre el problema de los orígenes de la Masonería Especulativa, y lo hago no aportando pesados y aburridos catálogos de teorías más o menos fundadas y de hechos o documentos escrupulosamente analizados, sino como una síntesis de diez años de trabajo, de reflexiones e investigaciones personales sobre este tema que les expongo Vulgta Masónicaque: la teoría de la transición La tesis más antigua y la más extendida, es aquélla que exponen la mayoría de las obras consagradas en cuanto a la historia masónica en Francia, y que comparten espontáneamente la inmensa mayoría de los Masones, y que necesariamente no examinan la cuestión a fondo , es la teoría conocida como transition.

Incluso en la rigurosa escuela histórica inglesa de la Masonería, fundada al final del siglo pasado por Gould y Hughan, se enseñó durante mucho tiempo esta teoría. En las últimas décadas, su partidario más brillante fue el erudito Harry Carr, que posee sobre el resto de historiadores de Inglaterra una estimable posición intelectual preeminente.

Esta teoría, afirma que al salir de la Edad Media, la Masonería Operativa, que poseía entonces una organización con logias y usos rituales, sufrió una determinada decadencia, a causa de las transformaciones económicas afectaron a los oficios de la construcción.

En Gran Bretaña, y, en particular, en Escocia, al final del Renacimiento, y más concretamente aún en el transcurso del siglo XVII, producto de una transformación sensible en la Institución , hombre ajenos al Oficio, fueron ocupando a menudo cargos importantes, en general desempeñados por intelectuales que de buen grado llevados por las especulaciones resultantes de la corriente imperante del momento de raíces alquimistas, neoplatónicas nacidas en Florencia, en el siglo XV, en combinación con la tradición Rosa-Cruz, muy difundida a partir del principio del XVII, habían hecho su entrada en logias en esos momentos muy moribundas. Estos Aceptados Masones, poco a poco, fueron aumentando su número y su influencia hasta el punto de convertirse en mayoritarios dentro de las logias, llegando hasta cierto punto a eliminar a los masones operativos, convertidos de este modo en unos extraños en su propia institución.

Esta Vulgata, que, implica también algunas otras alternativas, integra en ocasiones lo que se podría llamar como las leyendas complementarias. La primera de estas leyendas, es por ejemplo, el tema de los Maîtres Comacins, estos misteriosos masones italianos quienes, en virtud de franquicias muy conocidas que les fueron conferidas por el Papa – y que justificarían para el resto la expresión franc-maçon – hubieron de haber cruzado toda Europa, extendiendo su conocimiento arquitectónico, geométrico y esotérico, fertilizando así los primeros gérmenes de la Masonería Especulativa. Ya mostré en otra parte, hace algunos años, de donde procede esta fábula sin ningún fundamento documental, y por qué juego de copieteos sucesivos sin comprobación de las fuentes, esta leyenda ha ido adquiriendo visos de verdad.

Hypothèse Compagnonnique

Otro componente, a menudo confusa, pero muy viva dentro de la teoría de la transición, es la hypothèse compagnonnique. No es el momento de mostrar en detalle las contradicciones y las inverosimilitudes. Sin embargo descansa en gran parte, y es este punto destacaremos que hay una grave pero frecuente confusión entre la Masonería Operativa, tal como pudo existir, bajo formas extremadamente diversificadas en el resto de Europa de la Edad Media, en Francia, Gran Bretaña y Alemania, por ejemplo, con estatutos a menudo bien diferentes, y el Gremio del Compañerismo propiamente dicho, organización de origen esencial, y durante mucho tiempo, casi exclusivamente francesa, cuyos orígenes históricos parecen certificados hacia el XV siglo, pero sobre los usos de los cuales, recordémoslo, poseemos poca información sustancial o fiable antes del final del XVIII.

En cualquier caso, es importante hacer hincapié en el hecho de que la Masonería Especulativa se formó, en condiciones aún dudosas, durante el siglo XVII en Gran Bretaña, nunca jamás ha conocido p coincido con el Gremio del Compañerismo , al menos a este tiempo de la fundación.

Que se pueda situar la cuestión como organizaciones vinculadas a los oficios de la construcción – pero no exclusivamente para el Gremio Compañeros – en las semejanzas de formas y usos, no tiene que sorprendernos, pero debemos tener presente siempre este proverbio que todo historiador escrupuloso no debe olvidar “comparación no es razón”

Una Crítica Radical de la Transición

Fue necesario esperar a los años setenta para que hubiera una crítica decisiva y se llevara por delante la teoría de la transición. Fue la obra, en particular, de un notable investigador inglés: Eric Ward. La crítica de Eric Ward, está asentada sobre el significado clásicamente asignado a algunas de las palabras claves utilizadas por la teoría de la transición. Citaré algunos ejemplos. Freemason, Free-Mason. El origen y el significado de la palabra freemason es un buen ejemplo de las ambigüedades explotadas por la teoría clásica. E.Ward a podido demostrar de manera definitiva que, contrariamente a todas las etimologías fantasiosas que corren aún a día de hoy, la palabra freemason no pertenece a la Edad Media, ya que es una conformación de dos palabras freestone mason, masón de piedra franca, designando de este modo a un obrero que trabaja efectivamente una determinada calidad de piedra blanda que se puede cortar y trabajar de manera muy fina Ahora bien, si tomamos los primeros testimonios relativos a los masones no operativos ingleses del siglo XVII, observamos que estos Accepted Masons son también indiferentemente designados por las palabras Free Masons, u Free-Masons, con o sin guión, pero siempre con dos palabras.

Todo indica claramente que a partir del final del XVII, y principios del XVII, los términos Accepted et Free vienen a ser equivalentes para designar a los Masones no Operativos. Pero tal y como hizo observar E.Ward, en un análisis muy inteligente freemason no es Free-Mason. La palabra Free, en Free- Mason u Free and Accepted Mason simplemente hace referencia al hecho de que estos “nuevos” Masones son “libres” respecto al Oficio, es decir, simplemente ajenos al Oficio… En resumen, la identidad fonética y la proximidad morfológica palabras freemason (palabra muy antigua, derivada del anglonormando, y vinculada a la práctica operativa) y Free-Mason, no deben hacernos olvidar la verdadera desemejanza semántica, y no pueden autorizarnos a buscar y a introducir un parentesco entre hombres de épocas distintas, los cuales llevaron estos nombres por razones evidentemente muy diferentes. Las logias operativas inglesas? Otro problema planteado es el hecho de que la francmasonería especulativa haya nacido Inglaterra – en el sentido exacto del término. Ahora bien, nosotros sabemos que no existe ningún documento que dé prueba que de que personas ajenas al Oficio hayan sido admitidas en las logias operativas inglesas.

Continua…

Autor: Roger Dachez
Traduzido para o espanhol por Victor Guerra

Fonte: Diario Masónico

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