O tempo não existe

Físico fala sobre a física quântica e diz que o tempo não existe

“O tempo não existe. E eu tenho 15 minutos para convencê-los disso”

Assim começa uma palestra TEDx feita em 2012 pelo físico italiano Carlo Rovelli, que não costuma aparecer na imprensa internacional.

Uma das vezes em que ele ganhou destaque foi na revista britânica New Statesmannuma reportagem assinada por George Eaton intitulada “O físico rockstar Carlo Rovelli explica porque o tempo é uma ilusão”, em tradução livre.

“A determinação de Rovelli em tornar a física quântica acessível e suas prodigiosas vendas de livros o levaram a ser chamado de ‘o novo Stephen Hawking'”, destaca o artigo.

Em 2020, no evento “The Nature of Time” (A Natureza do Tempo), organizado pela revista New Scientist, o físico teórico pegou uma corda e a esticou de uma ponta a outra do palco. E pendurou uma caneta no meio da corda para marcar o presente.

Rovelli disse: “É aqui que estamos.”

Ele então ergueu o braço direito e apontou para a direita: “Esse é o futuro.” Na sequência, apontou para a esquerda: “E esse é o passado.”

“Esse é o tempo do nosso dia a dia: uma longa fila, uma sequência de momentos que podemos ordenar, que tem uma direção preferida, que podemos medir com relógios”, disse. “E todos nós concordamos com os intervalos de tempo entre dois momentos diferentes ao longo do caminho, ao longo desta linha.”

Depois acrescentou: “Quase tudo o que eu disse está errado. Em termos factuais, isso está incorreto. É como se eu dissesse que a Terra é plana”.

“O tempo não funciona assim, ele o faz de uma maneira diferente”, emendou.

E esclareceu: “Essas não são ideias especulativas que aparecem em sonhos estranhos de físicos. São fatos que medimos em laboratório, com instrumentos, e que podem ser verificados”.

Pura rebelião

Nascido em Verona, na Itália, em 1956, Rovelli confessa que sua adolescência foi “pura rebelião”. O mundo em que ele vivia era diferente do que considerava “justo e belo” e, em meio a essa decepção, a ciência veio ao seu encontro.

No mundo acadêmico, o jovem pesquisador descobriu “um espaço de liberdade ilimitada”, que ele relembra em um de seus livros.

“No momento em que meu sonho de construir um novo mundo colidiu com a realidade, me apaixonei pela ciência, que contém um número infinito de novos mundos”, descreve.

“Enquanto eu escrevia um livro com meus amigos sobre a revolução estudantil (um livro que a polícia não gostou e me custou uma surra na delegacia de Verona: ‘Diga-nos os nomes de seus amigos comunistas!), mergulhei cada vez mais no estudo do espaço e do tempo, tentando entender os cenários que haviam sido propostos até então.”

Gravidade quântica

Rovelli decidiu dedicar sua vida ao desafio de conciliar duas teorias: a mecânica quântica (que descreve o mundo microscópico) e a relatividade geral de Albert Einstein.

“Para chegar a uma nova teoria, devemos construir um esquema mental que não tenha a ver com nossa concepção usual de espaço e tempo”, diz. “Você tem que pensar em um mundo em que o tempo não é mais uma variável contínua, mas uma outra coisa.”

Ao buscar possíveis soluções para o problema da gravidade quântica, Rovelli foi um dos fundadores da teoria da gravidade quântica em loop, também conhecida como teoria do loop, que apresenta uma estrutura fina e granular do espaço.

Essa teoria tem aplicações em diferentes campos – por exemplo, o estudo do Big Bang ou as formas de abordar e entender os buracos negros.

O físico italiano tem uma carreira brilhante, que inclui inúmeros prêmios e livros. Uma dessas publicações, “Sete Breves Lições de Física” (Editora Objetiva), foi traduzida para 41 idiomas e vendeu mais de 1 milhão de cópias.

Ele também foi professor na Itália, nos Estados Unidos, no Reino Unido e atualmente é pesquisador do Centro de Física Teórica de Marselha, na França.

Rovelli respondeu por escrito a algumas perguntas da BBC Mundo, serviço em espanhol da BBC. Confira a seguir os principais trechos da entrevista.

BBC Mundo – O que é o tempo? Ele realmente existe?

Carlo Rovelli – Sim, claro que o tempo existe. Do contrário, o que é que sempre nos falta? Mas a ideia comum que temos sobre o que é o tempo e como ele funciona não serve para entendermos átomos e galáxias. Nossa concepção usual de tempo funciona apenas em nossa escala e quando vamos medir as coisas com muita precisão.

Se quisermos aprender mais sobre o universo, temos que mudar a nossa visão do tempo. Porque o que costumamos chamar de “tempo”, sem pensar muito sobre o que isso significa, é realmente um emaranhado de fenômenos diferentes. O tempo pode parecer simples, mas é realmente complexo: ele é feito de muitas camadas, algumas das quais são relevantes apenas para certos fenômenos, e não para outros.

BBC Mundo – O que o senhor descobriu quando se perguntou: por que só podemos conhecer o passado e não o futuro?

Rovelli – A razão de termos informações sobre o passado e não sobre o futuro é estatística. Tem a ver com o fato de não vermos os detalhes das coisas. Não vemos, por exemplo, as moléculas individuais que compõem o ar da sala em que estamos. Mas, no mundo microscópico, não há essa distinção entre o passado e o futuro.

BBC Mundo – O senhor falou sobre a elasticidade do tempo e sobre um dia em que “vivenciamos coisas diretamente, como encontrar nossos filhos mais velhos que nós mesmos no caminho de volta para casa”. Como isso pode acontecer?

Rovelli – A pergunta correta é a oposta: por que quando nos separamos e nos encontramos novamente, o seu e o meu relógio medem o mesmo intervalo de tempo?

Não há razão para que devam medir esse mesmo tempo. A experiência nos diz isso apenas porque nossas medições não são precisas o suficiente. Se fossem, veríamos que o tempo corre em velocidades diferentes para pessoas diferentes, dependendo de onde estão e como se movem. Portanto, eu poderia me separar de meus filhos e reencontrá-los em um tempo que significa apenas um ano para mim, mas 50 anos para eles. Nesse cenário, eu ainda sou jovem e eles envelheceram. Isso certamente é possível. O motivo pelo qual normalmente não vivenciamos esse tipo de experiência é apenas que nossa vida na Terra se move numa velocidade lenta entre nós e, nesse caso, as diferenças de tempo são pequenas.

BBC Mundo – Algum dia poderemos viajar ao passado?

Rovelli – Considero extremamente improvável. Viajar para o futuro, por outro lado, é o que fazemos todos os dias.

BBC Mundo – O que o senhor quer dizer com isso?

Rovelli – Viajar ao passado é difícil. Mas viajar para o futuro é muito fácil. Faça o que fizer, você está viajando sempre para o futuro: o amanhã é o futuro do hoje.

BBC Mundo – Sabemos que o senhor gosta muito de gatos e prefere não se referir ao gato de Schrödinger[1] e a discussão se ele está vivo ou morto (ou dormindo). O senhor poderia explicar por que, segundo esse famoso experimento, o animal pode estar vivo e morto ao mesmo tempo?

Rovelli – Acho que o gato não está realmente acordado e dormindo ao mesmo tempo. Considero que, com respeito a si mesmo, o gato está definitivamente acordado ou dormindo. Mas quando se trata de mim e de você, pode não haver nem um estado, nem outro. Porque eu acho que as propriedades das coisas (incluindo os átomos e os gatos) são relativas a outras coisas e só se tornam reais nas interações com elas. Se não houver interações, não há propriedades.

BBC Mundo – Como o senhor explicou, a discussão entre os físicos da mecânica quântica não é apenas sobre o gato estar vivo e morto ao mesmo tempo, mas também sobre o experimento com dois eventos, A e B, nos quais A vem antes de B, mas também B vem antes de A. Como isso pode ser possível?

Rovelli – Quando dizemos que um evento A é anterior a um evento B, o que queremos dizer é que pode haver um sinal indo de A para B. Por exemplo, sua pergunta é anterior à minha resposta, porque me chega antes que eu possa respondê-la.

No entanto, às vezes pode acontecer que seja realmente impossível enviar um sinal de A para B, mas também impossível enviar um sinal de B para A. Então, nenhum é anterior ao outro.

A razão de não estarmos acostumados com isso é porque a luz viaja muito rápido, então tendemos a pensar que podemos ver tudo “instantaneamente”. Mas a verdade é que não podemos. Portanto, sempre existem eventos que não são ordenados de acordo com esse tempo.

BBC Mundo – O que o senhor quer dizer quando afirma que existem muitas versões diferentes da realidade, embora todas pareçam iguais em grande escala?

Rovelli – As propriedades de todas as coisas são relativas a outras coisas. As propriedades do mundo em relação a você não são necessariamente as mesmas em relação a mim. Normalmente, não vemos essas diferenças nas propriedades físicas porque os efeitos quânticos são muito pequenos. Mas, em princípio, podemos ver mundos ligeiramente diferentes.

BBC Mundo – O senhor disse que temos que reorganizar a forma como pensamos a realidade. Como podemos fazer isso? O que estamos perdendo se não tentarmos seguir por esse caminho?

Rovelli – Podemos continuar vivendo nossas vidas ignorando a física quântica, mas se estamos curiosos sobre como a realidade funciona, temos que encarar que as coisas são realmente estranhas.

BBC Mundo – A metáfora que o senhor faz sobre a mecânica quântica e sua interseção com a filosofia, como se essas duas áreas do conhecimento fossem um casal se reunindo, se separando, depois voltando e se separando novamente, é fascinante. A mecânica quântica e a filosofia precisam uma da outra?

Rovelli – Creio que sim. No passado, a física fundamental também avançou graças à inspiração da filosofia.

Todos os grandes cientistas do passado eram leitores ávidos de filosofia. Não há razão para que as coisas sejam diferentes hoje.

Na minha opinião, o inverso também é verdadeiro: os filósofos que ignoram o que aprendemos sobre o mundo com a ciência acabam sendo superficiais.

BBC Mundo – Para o senhor, o livro “A Ordem do Tempo” é muito especial porque “finge ser sobre física, mas secretamente é o meu livro sobre o significado e a finitude da vida”. Qual é o sentido da vida para Carlo Rovelli?

Rovelli – O sentido da vida para Carlo Rovelli é o que penso ser o sentido da vida para todos nós: a rica combinação de necessidades, desejos, aspirações, ambições, ideais, paixões, amor e entusiasmo, que surgem em várias medidas e em diferentes versões naturalmente de dentro de nós. A vida é uma explosão de significado.

Alguns projetaram o significado da vida fora de si mesmos e ficam desapontados ao perceber que havia algo ilusório em esperar que o significado viesse de fora.

Uma das minhas respostas favoritas a essa pergunta foi atribuída a um antigo sioux [etnia indígena norte-americana]: o propósito da vida é abordar com uma canção qualquer coisa que encontrarmos pela frente.

BBC Mundo – O senhor assinalou que na ciência muitos erros são cometidos quando fingimos estarmos certos, quando na verdade muitas vezes não temos essa certeza toda. O novo coronavírus trouxe muitas incertezas para nossas vidas. Como o senhor lidou com isso?

Rovelli – Eu tenho me esforçado não apenas para minimizar o risco para mim e para as pessoas que amo, mas também para minimizar meu próprio papel na disseminação da infecção.

Mas sabendo bem que o risco foi e continua a ser real e que milhões de pessoas morreram e ainda estão morrendo, tenho em mente que isso ainda pode acontecer comigo e meus entes queridos.

Essa constatação não deve ser motivo para pânico, mas também não gosto de esconder a cabeça na areia.

BBC Mundo – Que reflexões o senhor fez nestes tempos desafiadores para milhões de pessoas ao redor do mundo?

Rovelli – O que fico pensando é simples: não seria o momento de a humanidade trabalhar em conjunto, em vez de continuarmos a ficar uns contra os outros? O Ocidente está construindo novos inimigos: China, Irã, Rússia…

Não podemos viver de forma respeitosa e colaborativa, sem a necessidade de subjugar uns aos outros, de prevalecer sobre os outros, de vencer, em vez de cooperar para o bem comum?

A humanidade está enfrentando uma pandemia, milhões de mortes, desastres ambientais e ainda não conseguimos aprender a nos vermos como membros de uma única família, que é o que realmente somos.

A mecânica quântica é a descoberta de que a realidade é tecida por relacionamentos, mas permanecemos cegos para o fato de que prosperamos em relação aos outros, não uns contra os outros. Posso ser ingênuo, mas é isso o que penso todos os dias quando vejo o noticiário.

BBC Mundo – O senhor disse que gostou de ler “O Amor em Tempos do Cólera”, de Gabriel García Márquez, porque “nestes tempos sombrios, é bom ler sobre o amor verdadeiro”. Você pode nos contar mais sobre o que gostou no livro?

Rovelli – É um livro cheio de graça e luz. Retrata as muitas formas de amar e partilhar, com um olhar que sorri diante de toda essa complexidade.

Uma forma de amor é a lealdade da personagem Fermina Daza ao marido. Outra é a intimidade e a amizade de Florentino Ariza com dezenas e dezenas de mulheres. Mas esse amor absoluto entre ele [Ariza] e ela [Daza] é uma bela forma de amor, que foi venerado e valorizado por décadas, até que conseguiu florescer de forma maravilhosa quando os dois já estavam mais velhos.

Reportagem de Margarita Rodríguez

Fonte: BBC News Mundo

Notas do Blog

[1] – O que é o Gato de Schrödinger? Leia mais em: https://super.abril.com.br/mundo-estranho/o-que-e-o-gato-de-schrodinger/

[2] – O futuro já aconteceu e o tempo é uma ilusão. Leia mais em: https://opontodentrocirculo.com/2015/12/10/o-futuro-ja-aconteceu-e-o-tempo-e-uma-ilusao/

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Maçonaria: passado, presente e futuro: o Maçom dentro do contexto histórico

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Ultrapassadas as fases precursoras da maçonaria de ofício, esta surgiu no século XII, na qual os pedreiros eram livres. A Inglaterra foi o berço da Maçonaria Especulativa ou Moderna. No século passado a Maçonaria se organizou seguindo tendências locais. Na Inglaterra é o clube que impera. Na França a Maçonaria é patriótica. Nos Estados Unidos, é eminentemente filantrópica. No Brasil, ela não tem um enfoque principal. No século atual, levando-se em conta que o mundo está mudando sua visão mecanicista para uma visão mais holística, é de se esperar que a maçonaria do futuro poderá vir a ser até virtual, onde não existirão mais templos, mas sim centros cibernéticos de iniciação.

A Maçonaria Operativa teve vários períodos que a precederam que se poderia intitula-los de fase pré-operativa. Esta fase aconteceu no transcorrer de muitos séculos e talvez milênios. Os primeiros homens pré-históricos habitavam cavernas, mas com o passar do tempo migraram para fora delas, tornaram-se nômades, gregários e assim para terem abrigo, para se protegerem das intempéries, e também para se abrigarem da luz solar e se proteger às noites frias, começaram a construir suas choupanas, casas, surgindo assim ainda que de maneira ainda rudimentar os primeiros construtores, havendo entre eles os mais habilitados que se firmaram como os primeiros profissionais da construção, ainda que a humanidade estivesse engatinhando, e as casas ou abrigos eram toscos, simples.

Desta forma serão citadas várias etapas das construções que antecederam a fase da Maçonaria Operativa em si.

Fala-se que no Império Romano o segundo rei Roma, Numa Pompilio (714 a 671 a.C) sempre citado na literatura maçônica por ter mandado construir templos de deuses pagãos, criou para esta finalidade os collegia fabrorum dos quais se originaram os collegia construtorum que segundo referem alguns autores seriam as sementes da futura Maçonaria Operativa, porque ele teria regulamentado a profissão de construtores e também a organização dos cultos já que estes coleggias eram dotados de intensa religiosidade, mesmo naquela época em que se adoravam deuses pagãos. Cita-se também que em seu reinado ele teria mandado urbanizar Roma e as construções de tiveram um desenvolvimento.

As legiões romanas em suas conquistas destruíam tudo, mas levavam os colegiatti de construtores para reconstruir o que destruíam dentro dos seus interesses na região conquistada. Existem autores que contestam esta versão da história por fala de provas primárias.

Mestres Comacinos que apareceram em Como na Lombardia que eram arquitetos, hábeis escultores, reconhecidos pelos reis longobardos pelo édito de Rotari em 634 d.C e Liutprando em 713.d.C. Eles foram introdutores da arte romântica, que antecipou a arte gótica.

Antes de aparecer a Maçonaria Operativa ou Maçonaria de Oficio surgiram as Associações Monásticas fundadas por São Bento 529 d.C. e Cisterciense fundada pelos monges de Císter fundada pelo abade De Molesme em 1098 da nossa era, começaram a aparecer construções em que a arte gótica foi pouco a pouco predominando. As Associações Monásticas dos Beneditinos eram constituídas por religiosos, monges católicos, experientes projetistas e geômetras, verdadeiros artistas na arte de construir. Todavia guardavam a arte de construir em forma de segredo dentro de seus conventos. Varoli considera os beneditinos e os cistercienses como ancestrais da Maçonaria Operativa. O tratamento entre eles era de “Venerável Irmão”, e “Venerável Mestre”.

Mas foram obrigados a contratar profissionais leigos, pois a procura de seus serviços aumentava cada vez e necessitavam de homens para o trabalho mais simples e dessa convivência com os mestres, consequentemente aprenderam a arte de construir, ou lhes foi ensinada pelos próprios clérigos.

Estas ordens citadas são em linha geral para se ter uma ideia de como foram surgindo as construções especialmente as que precederam as corporações de oficio. Estes profissionais foram aprendendo com os clérigos e em face de da decadência da fase monástica apareceram as confrarias leigas. A importância destas ordens de clérigos foi muito necessária, pois além de espalharem a arte de construir, deixaram os princípios religiosos nas escolas e oficinas de arquitetura. Toda agremiação tinha seu santo protetor.

Estas fases precursoras da Maçonaria de Oficio são consideradas por Theobaldo Varoli Filho, como embriões da instituição que viria a ser Maçonaria Operativa.

Assim no século XII surgiu a franco-maçonaria ou maçonaria de oficio na qual os pedreiros eram livres ou francos maçons que deixaram sua influência muito significativa na Maçonaria atual. O termo franco ou livre significava que estes profissionais eram livres totalmente de qualquer servidão ou serem taxados de escravos. Seu único compromisso era construir.

Remanescentes das fases anteriores já citadas os operários se constituíram nas chamadas corporações de oficio, organizadas, prestavam auxilio mutuo, a divisão de trabalho era disciplinada, havia o mestre de obras, que deveria ser entendido na geometria e na arte de construir, que não era grau e sim função e os aprendizes (hoje serventes-pedreiros) que deveriam durante certo número de anos, cerca de sete anos aprender a profissão. Estas corporações eram apenas de profissionais da construção. A Igreja dominava totalmente seus membros. Toda corporação tinha seu santo protetor.

Paralelamente surgiram nesta mesma época as guildas especialmente no Norte da Europa, na Inglaterra, Alemanha e Dinamarca que eram confrarias no inicio religiosas, militares, e finalmente investiram na arte de construir. Havia entre eles assistência mútua e proteção, proteção aos familiares, ampliaram pouco a pouco a abrangência de suas ações e se tornaram verdadeiros corpos profissionais de construtores. Assumiram o caráter corporativo. Cada associado pagava uma joia. O novo membro era recebido ritualisticamente. Assim constituíram guildas de comerciantes, militares, dos marceneiros e carpinteiros de canteiros que construíram muitas casas de madeira além das construções majestosas de pedras. Foi nas guildas que surgiram a palavras loja, joia e banquetes termos estes que emprestamos para a nossa Maçonaria Moderna.

As guildas ainda pretendiam reformas sociais.

A Maçonaria Operativa nasceu destas duas tendências, corporações de oficio e das guildas. Há quem refere que sejam sinônimos. Não há como querer afirmar outra origem da Maçonaria Operativa, mas existem muitas tendências e controvérsias a respeito, quando se fala em origem da Ordem. A título de esclarecimento em 1909 o escritor maçônico Charles Bernadrin do Grande Oriente da França consultou 206 obras sobre maçonaria e selecionou 39 opiniões diferentes a respeito de suas origens.

Eles, além de castelos, fortificações e outras construções construíram muitas catedrais que ainda estão firmes, maltratadas pelo tempo. porem ostentando toda a sua bela arte gótica em vários países da Europa. Cada catedral tem uma história linda, onde se vislumbra o gênio de muitos construtores arquitetos, homens além de seu tempo.

  • Catedral de São Petrônio em Bologna Itália – iniciada em 1132;
  • Catedral de Chartres – França – iniciada em 1194 – reconstruída em 1214;
  • Catedral de Colônia – Alemanha – iniciada em 1248;
  • Catedral de Córdoba – Espanha – erguida pelos mouros;
  • Catedral de Santa Maria de Fiore – Italia – primeira catedral de Florença. A cúpula foi construída em 1418;
  • Catedral de Gênova – Itália iniciada em meados do século XIII;
  • Catedral de Milão – Itália – construção iniciada em 1288, só teve suas estruturas erguidas em 1389;
  • Catedral de Nápoles – Itália – iniciada em 1285;
  • Catedral de Sevilha – Espanha – em 1401 os cônegos de propuseram a construir a maior catedral da Europa;
  • Catedral de Notre Dame – França – construção iniciada em 1163.

A França em três séculos ergueu 80 majestosas catedrais, 500 grandes igrejas e milhares de casas paroquiais. A média da Europa Cristã na época era uma igreja para cada 200 habitantes, tal era o domínio da Igreja Católica sobre o povo.

Na Alemanha surgiu a corporação dos steinmetzer onde os profissionais eram conhecidos por serem escultores, entalhadores de pedras ou canteiros, se dedicavam somente à arte gótica. Teve um grande impulso dado pelo arquiteto Erwin nascido em Steinbach. Ele, em 1275 convocou uma convenção em Estrasburgo para terminar uma importante catedral de arenito rosa. Nesta convenção compareceram os principais arquitetos ingleses, alemães, italianos e de outros países. Nesta ocasião teriam sido adotados, sinais, toques e palavras para a identificação secreta dos membros da confraria. É considerada como a primeira vez que adotaram estes meios de identificação, porque isto está registrado, mas é bem provável que já usavam sinais há muito tempo e também que outras corporações usassem suas próprias senhas. É sabido que o maçom operativo deixava um símbolo seu marcado nas pedras das construções onde trabalhava.

Interessante, citar os avanços da humanidade. Em 1453 Copérnico publica seu livro afirmando que a Terra gira em torno do Sol e em 1454 Johanes Gutenberg cria a impressão de tipos moveis fundidos em metal. Até então, todos os documentos eram feitos em manuscritos, ou seja, à mão. Nesta época cerca de 20 copistas produziam 20 livros cada dois anos. A partir daí passaram a serem publicados 1000 livros/ano. Pode-se considerar como a Internet da época.

Isto tudo viria modificar a maneira de pensar, abriria as mentes, pois poderiam ser lidos livros com mais facilidade e assim o homem buscar conhecimentos até então fora de seu alcance.

A situação da Maçonaria Operativa mudou. Por cerca vários séculos predominou a arte gótica que nasceu na França. A Renascença viria, e suas consequências se fizeram sentir tanto na arte gótica como no monopólio das corporações de oficio que dominavam este setor. Este fato determinou a decadência da Maçonaria Operativa. Já não havia mais tantas catedrais a serem construídas, e além do mais o povo estava preferindo o estilo clássico romano que era mais alegre, mais leve que o estilo gótico.

Com esta decadência, o nome da organização ainda era muito respeitado, mas começaram mudar os comportamentos dentro da Ordem. Começaram a aceitar como membros na Maçonaria, pessoas que não eram construtores. O registro do primeiro maçom aceito é datado de 08/06/1600 na Loja Saint Mary’s Chapel em Edimburgh do abastado fazendeiro John Boswell. Este tipo de aceitação foi sendo cada vez maior. Já não era aquela antiga corporação de construtores. Algo havia mudado. Era outra organização. Esta Loja tem registros de atas desde 1599.

Entretanto a Maçonaria Operativa era composta de Lojas com o lema “maçom livre em loja livre”. Tinham já constituídos os graus de aprendiz e companheiro. Mas os aceitos que geralmente eram pessoas de maior cultura foram mudando as concepções, trazendo novos conceitos dentro da Maçonaria ainda chamada de Operativa. Estes aceitos eram militares, comerciantes, pensadores, escritores sábios, filósofos, nobres, além de esotéricos, ocultistas, alquímicos, cabalistas antiquários, etc.

A Maçonaria Operativa até 1600 era eminentemente católica. Ela nunca fez alusões ou referência a templos, aos hermetistas, aos templários, rosa-cruzes, alquimistas, magos, cabalistas, esotéricos ou ocultistas. Não se falava em landmarques. Não havia a Bíblia em durante sessões. Não havia a lenda de Hiram. Havia a lenda Noaquita focalizando a morte de Noé, que foi aproveitada e enxertada na lenda de Hiram posteriormente. Não existia o valor simbólico das ferramentas. Não existia a antimaçonaria e nem potências maçônicas. Segundo alguns autores os aceitos rosa-cruzes contribuíram muito para filosofia da Ordem, porque grande parte destes aceitos eram rosa-cruzes. Um novo membro era recebido de uma forma mais simples e não através de uma ritualística sofisticada como atualmente estamos acostumados a realizar.

E assim desde o primeiro maçom aceito em 1600 (prova primária) até 1717 passaram 117 anos, mais de um século. O que restou da Maçonaria Operativa se transformou neste período de tempo em outro tipo de maçonaria. Também o mundo se modificou bastante.

Neste século XVII Descartes publica em 1637 o discurso sobre o Marco da Filosofia Moderna. Em 1661 Robert Boyle lança as bases da Química Moderna em 1687 Newton publica seu livro sobre a Lei da Gravidade e em 1698 Savery inventa o motor a vapor.

Em 1670 foi criado o grau de Companheiro (manuscrito Edinburgh Register-1696) Já se falava sobre ele desde 1598, mas não há comprovação.

A partir de 1703 a Maçonaria começou a receber aceitos indistintamente de todas as classes sociais e de todos os credos. Na Inglaterra predominava os anglicanos. A Maçonaria Operativa não era mais tão somente católica.

A Inglaterra foi o berço da Maçonaria chamada Especulativa, mas é mais racional o nome de Maçonaria Moderna. Especulativa não espelha realmente o que aconteceu com a Ordem e o conceito de especulativa não se encaixa muito nos acontecimentos históricos. Ela estava se transformando em Maçonaria Moderna. Muito embora tenha sido consagrado o nome de Especulativa.

Em 24/06/1717, data esta que espelha o que já estava ocorrendo há mais de 100 anos, o maçom aceito o pastor protestante Desagulliers, Anderson, George Payne com mais outros eruditos maçons conseguem reunir quatro lojas, sendo que uma delas era só de maçons aceitos e funda a Grande Loja de Londres. Inicialmente esta Grande Loja não foi bem aceita na Inglaterra. Os maçons ingleses se dividiram em antigos e modernos. Mas o sistema obediencial foi sendo aos poucos sendo adotado em toda a Europa.

Nascia assim o conceito de obediência ou potência e também a figura do grão-mestre. Surgiu uma nova era para a Ordem, ou melhor, a oficialização do que estava sendo realizado na prática. Criaram os landmarques por motivos óbvios, pois se agora existia um poder central, não havia mais loja livre, é claro que seriam necessárias novas regras para manter as lojas num mesmo plano e sob governo de um grão-mestre. Regras estas que evocaram a pré-maçonaria com o nome de maçonaria antediluviana, diluviana e pós-diluviana, a e ao mesmo tempo introduziram conceitos baseados nos Antigos Deveres (Old Charges) que chamaram de imutáveis, mas de que imutáveis, não tinham nada. Foi uma estratégia para angariar e segurar em suas fileiras os adeptos. Anderson escreveu seu primeiro livro das Constituições em 1723, eivado de fantasias, inverdades, de lendas citando fatos muitas vezes confusos, baseado nos Old Chargs especialmente no Poema Régio.

Ambrósio Peters afirma “Os Old Charges são regulamentos ou Antigos Deveres da Maçonaria Operativa e nada têm a ver com a Maçonaria Especulativa a não ser que a antecederam historicamente”.

O grau de Mestre foi criado em 1725 e incorporado no ritual em 1738, ano em que Anderson reescreveu suas Constituições, já mencionando o grau de Mestre. A lenda de Hiram levou muito tempo para ter a redação que tem hoje.

Já estava o mundo vivendo em pleno século XVIII, um século maravilhoso, o Século das Luzes. Tudo foi possível e permitido neste século. Erros e acertos. Experiências preciosas do comportamento humano. Solidificação da Ordem, ainda que dividida, avanço social e cientifico da atual civilização.

Algumas situações importantes aconteceram neste século Não serão citadas as invenções tecnológicas. Serão citados alguns dos livros que ajudaram a mudar o pensamento humano e também porque não dizer, a Maçonaria que é composta de homens.

  • 1751 – Diderot publica o primeiro volume da Enciclopédia;
  • 1757 – A Escola Fisiocrata inicia na França a Teoria da Economia Moderna;
  • 1762 – Rousseau lança o – Contrato Social, livro clássico do Iluminismo;
  • 1777 – Kant publica o livro Critica da Razão Pura;
  • 1791 – Tomas Payne publica o livro Os Direitos do Homem.

A Maçonaria na Inglaterra ficou restrita aos três graus simbólicos, mas na França a partir de 1740, foram criadas novas potências e criados inúmeros graus superiores, criados outros ritos além dos tradicionais, alguns ritos exóticos e mágicos, que ainda têm repercussão no século 21. A Alemanha acompanhou inicialmente a França nesta criação desenfreada de ritos e graus superiores, mas em 176/07/1782 no Congresso de Wilhelmsbaden expurgaram os abusos do Rito da Estrita Observância e dai fundaram o Rito Escocês Retificado, mas o efeito deste Congresso rendeu condições para ser fundado em 1801 um rito simples, enxuto sem conter excessos, voltado para a humanidade, chamado Rito de Shröder.

Xico Trolha (Assis Carvalho) enumerou 235 ritos nominados que foram criados no mundo, a maioria fruto da criatividade dos maçons, mas acredita que seja na casa dos 300 ritos. No século XIX foram criados mais ritos, porem disseminaram as potências maçônicas, e criou-se mais um fator complicador: as famosas cisões que normalmente ocorrem até hoje no seio da Maçonaria mundial, fazendo com que a Maçonaria se fragmentasse desde então.

O século XIX, rico em invenções tecnológicas a partir das quais propiciaram a continuação do avanço que temos hoje em dia. Apenas no pensamento humano, Freud e Carl Jung se destacaram em relação à mente humana. Freud publica em 1895 o livro Estudo sobre a Histeria, demonstrando que o homem não domina a mente. Mas houve grandes pensadores em outras áreas, neste século.

A Maçonaria entrou no Brasil que entrou oficialmente comprovado, em 1800 através da Loja irregular de nome “União”. Sendo que no ano seguinte os remanescentes desta loja se filiaram a uma Loja “Reunião” regular, reconhecida pelo Grande Oriente Isle de France – Rito Adonhiramita.

Neste século em 14/03/1893 foi iniciada na Maçonaria numa loja regular de nome “Livre Pensador” pertencente à Grande Loja Simbólica Escocesa da França, dissidente do GOF a feminista Maria Desraimes por um maçom de nome George Martin Venerável Mestre e em 04/04/1893 ela fundou logo em seguida a Maçonaria Mista na França e que levou o nome Loja Escocesa dos Direitos Humanos.

A Maçonaria Brasileira, no século XX ao lado de inúmeras cisões de menor importância, passou por duas grandes cisões que marcaram o século a de 1927 e a de 1973 resultando desta divisão as Grandes Lojas Brasileiras e os Grande-Orientes Independentes (COMAB).

A Maçonaria mundial neste século se organizou melhor em relação ao século anterior, mas seguindo tendências locais nos vários países. Na Inglaterra é o clube que impera. Os maçons comparecem nas suas respectivas lojas para se encontrar. Na hora do intervalo (chamada para o recreio) eles vão tomar uísque ou chá. A situação do próprio país é muito estável e não há necessidade de grandes campanhas filantrópicas na educação e na saúde pública. A Maçonaria lá tem influência na política, notadamente no Parlamento Inglês. Não admite a admissão de mulheres.

Na França a Maçonaria é patriótica, ela ajuda o Governo a governar o país. Lá as potências tradicionais, mistas e femininas se unem para ajudar a França. Há inclusive tratados entres estes tipos de Maçonaria e a Tradicional.

Nos Estados Unidos, a Maçonaria é eminentemente filantrópica. Certas Lojas ao acontecer a transmissão de cargo de venerável, a nova gestão se compromete em conseguir para a gestão que se inicia doações superiores à anterior. Lá a Maçonaria banca hospitais, fundações, pesquisas científicas e serviços humanitários.

No Brasil, não se tem um enfoque principal. Não há uma causa geral que seja de todas as maçonarias do país. Entretanto em algumas cidades elas realizam alguns empreendimentos filantrópicos notáveis, mas não fazendo parte de um plano nacional e prestigiado por todos os maçons brasileiros.

Em relação ao presente, isto é já no século XXI, no Brasil a Maçonaria continua aumentando seus quadros em cerca de 10% ao ano. Talvez em razão dos mais jovens se sentirem desiludidos com as religiões e estão procurando outras respostas mais condizentes com a sua realidade espiritual. Mas seriam necessários mecanismos para reter estas novas aquisições no seio da Ordem, o que parece não existir.

Estima-se que haja cerca de cento e setenta mil maçons no Brasil. As três principais potências que se dizem regulares são as Grandes Lojas Brasileiras, Grande Oriente do Brasil e os Grande-Orientes Independentes. Todavia existem segundo estatística recente cerca quarenta e quatro potências entre a maçonaria de homens, a mista e a feminina não alinhadas e paralelas às três citadas.

Vejamos como é o sistema de administração e comando da Maçonaria brasileira As Grandes Lojas são em número de 27 e os Grande-Orientes Independentes em número de 21. Cada uma destas Grande Loja ou Grande Oriente Independente é uma potência. As Grandes Lojas tem um órgão normativo chamado CMSB que se reúne todo o ano e os Grande-Orientes Independentes (COMAB) também realizam reuniões anuais. O sistema é
o de confederação.

Já o Grande Oriente do Brasil é regido pelo sistema de federação. Existe um grão-mestre estadual para cada um dos 27 grande-orientes estaduais e o grão-mestre geral.

Portanto são 76 grão-mestres ao todo nestas três potências. E as outras 44? Tem muito grão-mestres na Maçonaria brasileira. Isto mostra quanto está dividida a Ordem no país.

Uma particularidade interessante da Maçonaria e a forma como as potências se reconhecem ou não.

A GLUI se considera a Loja-Mãe do Mundo. Ela reconhece ou não uma potência dentro ou fora da Inglaterra. Questiona-se quem lhe deu o direito de decidir se uma potencia é regular ou não.

Existe outra fonte de referência atualmente para o tal de reconhecimento: As 51 Grandes Lojas Americanas.

No Brasil o GOB e quatro Grandes Lojas Brasileiras (SP, MS, ES, RJ) são reconhecidos pela GLUI. Estas quatro Grandes Lojas são reconhecidas pelas Grandes Lojas Americanas também. (Nota do blog: Hoje esse número é bem maior. Já são 17 Grandes Lojas brasileiras reconhecidas pela Grande Loja da Inglaterra. Você pode conferir a lista no link http://ugle.org.uk/about/foreign-grand-lodges).

A maioria das Grandes Lojas Brasileiras é reconhecida pelas 51 Grandes Lojas Americanas.

A COMAB tem quatro de seus Grande-Orientes (GOP, GOSC, GORGS e Grande Oriente Paulista) reconhecidos pela CMI (Confederação Maçônica Interamericana), com sede em Bogotá que congrega 75 potências na América do Sul, inclusive o GOB e as Grandes Lojas assinaram este tratado. (Nota do blog: aqui também se aplica o mesmo comentário feito na nota anterior. A lista atualizada pode ser conferida no link http://www.cmisecretariaejecutiva.org/jst3/es/institucional/lista-ggpp).

O Grande Oriente da França não liga para os tais critérios de reconhecimento e segue sua caminhada na história da Maçonaria.

A Maçonaria Tradicional Brasileira não reconhece a Maçonaria Mista e a Feminina e inclusive as chamadas potências não alinhadas que completam a lista com 44 potências ao todo. Mas já deve ter sido acrescentada mais alguma “potência” que não temos conhecimento.

Para termos uma ideia como funcionam estas 44 “potências”. Daremos três exemplos:

  • Grande Loja Unida Sul Americana com sede em Campo Grande – Mato Grosso do Sul. Uma ala dissidente desta Grande Loja está fundando uma nova potência alegando igualdade de direitos dos cidadãos perante a Constituição Brasileira e afirmam que admitirão gays, lésbicas e simpatizantes, padres e evangélicos bissexuais, baseada na fraternidade francesa Arc em Ciel (Arco Iris) criada em 2003;
  • Grande Loja Mista do Rito de Memphis e Misraim. Um rito com 100 graus e o adepto que chega neste grau poderá entrar numa extensão do grau chamada de Centúria Dourada, que é uma extensão do Rito, onde se pratica a Alta Magia. (Existe no Brasil em SP, PR, DF, RJ, PA, RS. SC);
  • Grande Oriente Feminino do Estado Mato Grosso do Sul, cujo primeiro templo próprio foi inaugurado em 2008 em Campo Grande – MS, tendo o suporte para funcionar dado por três Lojas: “Divina Luz do Oriente” nº 01, “Filhas da Luz” nº 02 e “Obreiras da Arte Real” nº 03.

Mas dentro destas potências não alinhadas, acreditamos que exista alguma onde os seus adeptos possam estar bem intencionados, onde eles dentro da sua maneira de ser possam estar praticando uma Maçonaria aceitável, mas muitas delas desenvolvem atividades duvidosas. Uma delas é extorquir dinheiro de pessoas incautas com propaganda enganosa pela imprensa e Internet.

A trajetória da Maçonaria no mundo não foi linear. Ela teve momentos de gloria e de situações extremamente difíceis. Foi muito perseguida. Mas está aí, de pé. A antimaçonaria foi muito severa e cruel contra a Ordem. Desde as encíclicas papais nos excomungando, aos déspotas como Mussolini, Hitler e Franco que mandaram matar centenas de maçons, às religiões que pululam pelo Brasil adentro nos taxando de fazermos parte da demonologia, aos maçons traidores que escreveram contra a Ordem nos impingindo ritos macabros, o livro o Protocolos dos Sábios do Sião, que tanto mal nos causou e a atual posição das igrejas evangélicas americanas que têm feito com que milhares de maçons americanos deixem a Maçonaria.

Estima-se que atualmente existam cerca de 3.600.000 maçons no mundo, sendo 1.500.000 nos Estados Unidos, 250.000 na Inglaterra, 170.000 no Brasil e 1.600.000 no restante do mundo (pesquisa do Irmão João Leça-GOP).

Não se pode avaliar o futuro da Maçonaria no mundo e no Brasil. Se analisarmos as potências brasileiras ditas regulares que congregam perto de 7000 lojas, veremos que a maior parte dos maçons quer assistir às sessões, e no final ingerir os alimentos e beber algum tipo de bebida nos fundões dos templos perto de onde está a cozinha, geralmente no salão de festas após ir para casa, feliz porque encontraram muitos Amigos e Irmãos e estão felizes.

A Maçonaria brasileira vem mantendo uma tradição a qual é necessária, mas em muitos aspectos está ultrapassada neste século, pelas invenções, achismos, adendos e enxertos. Para uma grande parte de Irmãos tudo isso está bem como está. Eles não leem e está tudo bem, e sentem-se em paz com o GADU.

Mas uma minoria inquieta, ávida de saber, conhecer, raciocinar e vislumbrar outros destinos mais elevados para Ordem está aumentando em número dia a dia. Querem respostas. Mas querem respostas coerentes, transparentes e elucidativas. Querem mais ação. Questionam a vaidade de muitos pavões da Ordem, questionam a síndrome do poder que contamina muitos Irmãos, estão reclamando das invencionices, dos famosos achismos e de enxertos ritualísticos não justificados. Este grupo funciona como guardiões da Ordem e está realmente preocupado com a sobrevivência da mesma.

Dentro destas informações e do avanço tecnológico levando em conta que o mundo está mudando sua visão mecanicista para uma visão mais holística, será traçado um perspectiva deste futuro, mas sem compromisso com futuras verdades ou inverdades, porque ele ainda não aconteceu. Serão meras conjecturas. Sonhos, especulações.

Especula-se. Será que daqui a 500 a 1000 anos existirão templos? Existirão Igrejas? Haverá necessidade de templos? Qual será a concepção do GADU nesta época? Existirão potências maçônicas? O ser humano vencerá a luta contra a fera bestial que existe dentro de si e terminarão as guerras? E as doenças desaparecerão? A comunicação entre os seres será mais telepática e menos na linguagem? Haverá uma ética, uma moral no uso da Internet? Como será a Internet? Haverá sessões maçônicas virtuais? Enfim uma série de perguntas, todas elas baseadas em fatos que temos a nossa disposição no presente, e em cima dos quais podemos especular sobre o futuro, mesmo que nossa imaginação esteja errada. Mas podemos fazer uma projeção ideias. Porque não? Nossa imaginação está além da nossa realidade atual. Mas o que se imagina na mente torna-se realidade.

Lojas virtuais? Parece um grupo de maçons da GLUI já tentando antecipar o futuro fundou em 29/01/1998 a “Internet Lodge, nº 9659”. Continuam em atividade, mas parece que a Loja é hibrida, pois tem que ser uma parte dentro do templo, portanto, real. No Brasil fundaram duas Lojas virtuais uma em Brasília fundada pelo pranteado Irmão Castellani e a outra a Loja “Futura” fundada no Grande Oriente Independente de Pernambuco. Não deram certo. A Loja “Futura” existe agora como uma loja normal dentro de sua potência.

Atualmente estão sendo planejados e construídos aparelhos capazes de projetar hologramas em qualquer tipo de superfície. Imaginemos hologramas de Irmãos projetados para um espaço virtual que chamaremos de loja, onde esta loja funcionaria normalmente como atualmente, porém de forma virtual. Então o sonho dos irmãos que fundaram lojas virtuais no momento, sem ainda a necessária tecnologia, poderá um dia ser uma realidade.

O advento da Informática, Internet, Realidade Virtual, Mecatrônica, Robótica, Nanociência, Neurociências, está mudando completamente a maneira de pensar de todos, mesmo os que não admitem tal avanço. Toda a humanidade já sentindo os seus efeitos. Talvez não hajam mais templos no futuro e sim centros cibernéticos de iniciação maçônica. Imaginemos o candidato introduzido num recinto cibernético especial e através de um programa de iniciação já pronto, ele poderá vivenciar uma realidade mais intensa e mais verdadeira daquela que conhecemos. Este programa terá todas as fases da iniciação, porem contando com novos valores que por certo aparecerão na sociedade além dos avanços da tecnologia que ajudará este momento. Possivelmente o homem treinará e saberá usar suas faculdades para normais de maneira mais eficiente. A capacidade mental aumentará de 0,8 a 10% para 20% ou será maior? Como se eliminará o lado mau do ser humano, já ele é dualista?

Como imaginaríamos uma iniciação no futuro? O candidato ingeriria uma pílula de um psico-fármaco, que não produziria efeito secundário algum e a duração da sua ação seria tão somente de segundos a minutos tempo esse em que ele vivenciaria sua iniciação. Esta psico-droga causaria a expansão da mente e o candidato entraria em ondas alfa ou teta e desta forma e através do programa instalado e sentiria a natureza como se fora ele próprio. Ele se sentiria água, fogo, ar e terra. Ele se sentiria como se fosse uma parte consciente do GADU. Viajaria por todo o Universo, visitará galáxias distantes, se sentiria no interior de uma folha aprenderia com os sábios e encontraria seu autoconhecimento.

Como será a Moral e a Ética maçônicas no futuro? A Moral varia na cronicidade das épocas e o que é bom hoje para Maçonaria poderá não ser bom daqui há mil anos. Simplificando segundo autores, Moral é estudo e aplicação dos costumes da época e Ética seria a ciência que estuda as regras pertinentes. Qual será o conceito de fraternidade entre os maçons no futuro? Qual será a função do maçom no futuro? Social? Política? Cidadão do Universo? E o conceito do GADU como será?

Será que a Maçonaria tenderá tão somente ser uma Escola de Vida e de aperfeiçoamento do “eu” interior como muitos Irmãos no momento a concebem? Daqui há mil anos, o Estado tomará conta da saúde, da educação do bem estar do cidadão, da moradia, da segurança. Pouca coisa restará às Instituições como a Maçonaria realizarem.

Ou será que o GADU nos reservará um porvir fantástico, maravilhoso que não podemos conceber neste momento?

Autor: Hercule Spoladore

Fonte: Revista O Buscador

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Referências

CARVALHO, Assis. Rito & Rituais. Vol. 1. Editora “A Trolha” Ltda. Londrina. 1993.

CARVALHO, Assis. O Aprendiz Maçom – Grau 1. Editora “A Trolha” Ltda. Londrina. 1995.

NAUDON, Paul. A Maçonaria. Editora Difusão Europeia do Livro. São Paulo. 1968.

PALOU, Jean. A Franco Maçonaria Simbólica e Iniciática. Editora Pensamento. São Paulo. 1964.

PETERS, Ambrósio. Maçonaria – História e Filosofia. Gráfica e Editora Núcleo Ltda. Curitiba. 1998.

TOURRET, Fernand. As Chaves da Franco Maçonaria. Zahar Editores. Rio de Janeiro. 1976.

VAROLI, Theobaldo Filho. Curso de Maçonaria Simbólica. Editora A Gazeta Maçônica S.A. São Paulo. 1970.

Por que Maçonaria e Política?

Definição de Política – Aristóteles

O bem do indivíduo é da mesma natureza que o bem da cidade (polis), mas este é “mais belo e mais divino” por que se amplia da dimensão do privado para a dimensão do social, para a qual o homem grego era particularmente sensível, porquanto concebia o indivíduo em função da cidade e não a cidade em função do indivíduo.

Aristóteles dá a  esse  modo de pensar dos gregos uma expressão paradigmática, definindo o próprio homem como “animal político” (ou seja, não simplesmente como animal que vive em sociedade, mas como animal que vive em sociedade politicamente organizada).

Mas, nem todos aqueles que vivem na cidade são cidadãos. Para Aristóteles, ser cidadão é preciso participar da administração púbica, ou seja, fazer parte das assembleias  que legislam, governam a cidade e administram a justiça.

O que é a Maçonaria ? É uma instituição que tem por finalidade estabelecer a justiça na humanidade e fazer imperar a fraternidade. Suas divisas são : Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

Aí vamos deparar-nos com os vários conceitos de justiça: aquele emanado do direito, ou da filosofia, ou da economia, ou podemos sintetizá-los todos por um só conceito: O DE JUSTIÇA SOCIAL. É dever do maçom persegui-lo. E como persegui-lo senão pela política.

Parece-me que a grande dificuldade consiste em estabelecer a linha divisória que separa  a política, entendida como a gestão da polis, objetivando fazer imperar a fraternidade, das inclinações, ou, pior ainda, das paixões partidárias. Tudo isso potencializado pelo fato de não existir interpretação inocente da história, como pretendia o positivismo.

A própria Maçonaria fez sua opção por um modelo de ordenamento social, que é aquele fundamentado nos princípios de suas divisas.

Como escola de  aperfeiçoamento e alternativa de sociabilidade, qual o procedimento a adotar para otimizar seu objetivo ?

A meu ver, há dois procedimentos basilares que podem ser combinados:  o primeiro seria reunir as cabeças privilegiadas que temos e, mediante a madura administração de nossas divergências, acharmos o leito que possibilite escoar todo o jorro de ideias, delas emanadas,á direita e á esquerda, com tal magnitude que possibilite preencher o vazio das idéias transformadoras que agem como profetas da nova era. A outra, é buscar nas nossas melhores  tradições históricas portadoras de futuro a metodologia já utilizada por nossos irmãos e que provaram sua eficácia na práxis… Aí nosso Rito é imbatível.

Há duas ricas fontes para nos abeberarmos: uma é a Revolução Francesa; a outra, é a História do Brasil. Como o tempo é exíguo, procurá-la-ei somente na revolução Francesa.

Foi ela um momento de tamanho fulgor na história da humanidade que, até hoje, é possível vislumbrar o seu brilho! Ainda caminha altaneira em cima dos escombros  da ordem velha que sepultou.

A referência à história pátria, por ser específica, fica para outra oportunidade. Queremos uma referência universal.

Mas, o que foi a Revolução Francesa e qual foi o papel desempenhado pela maçonaria ? Bem, a revolução foi o coroamento de uma lenta evolução econômica  que instala no domínio do Estado a classe que estava madura para exercê-lo : a burguesia.

Foi o clímax provocado pela agudização das contradições existentes entre o caráter das forças produtivas e as relações sociais de produção.

Apesar de burguesa, com ela já nasciam as ideias de uma nova ordem social que lhe seria superior, posto que se pretendia menos excludente. Esta é a grande diferença para as revoluções que a precederam: a Inglesa e a Americana. Enquanto estas eram “estreitamente” burguesas e conservadoras ,  a francesa, pela sua “mélange” de classes, foi “largamente” burguesa e democrática. Ali começava a se forjar o emblema maçônico de construtores sociais. No passado, nós fizemos jus a ele; por isso, é ali que vou buscar a inspiração para falar sobre o tema.

A alternativa sobre “nossas cabeças privilegiadas” fica para o dia 02 de outubro.

Como se preparou o advento da Nova Ordem?

Vamos primeiro entender o que era a “velha ordem”, aproveitando a didática de Leo Huberman:

“Quando vamos ao cinema  assistir um filme sobre a Idade Média, observamos na tela os cavaleiros e damas engalanados em sua armadura brilhante e vestidos alegres, respectivamente, em torneios e jogos. Vivem em esplêndidos castelos, com fartura de comida e de bebida. Quase nem nos apercebemos que alguém deve produzir todas essas coisas. Também alguém tinha que fornecer alimentação e vestuário para os clérigos que pregavam, enquanto os cavaleiros lutavam. Assim,além de lutadores e padres, havia um outro grupo: o dos servos. A sociedade feudal consistia dessas três classes: sacerdotes, guerreiros e servos; sendo que o  homem que trabalhava, o servo, produzia  para as outras classes”.

A maioria das terras agrícolas estava dividida em áreas chamadas feudos. Um feudo consistia, apenas, de uma aldeia e as várias centenas de acres de terra arável que a circundavam e, nas quais, o povo da aldeia trabalhava. Na orla da terra arável, havia uma extensão de prados, terrenos ermos, bosques e pastos.

Cada propriedade feudal tinha um senhor. Pastos, prados, bosques e ermos eram usados em comum, mas a terra arável se dividia em duas partes :  uma, de modo geral  a terça parte do todo, pertencia ao senhor e era chamada  de “seus domínios”; a outra ficava em poder dos arrendatários  que, então, trabalhavam a terra.

As terras não eram cultivadas  em campos contínuos, tal como hoje, mas pelo sistema de faixas espalhadas.

Quais eram, então, as relações sociais de produção?

  • O camponês vivia numa  choça miserável. Trabalhando arduamente em suas faixas de terras espalhadas, conseguia arrancar do solo apenas o suficiente para uma vida paupérrima;
  • Dois ou três dias por semana, tinha que arar a terra do senhor em pagamento;
  • Em época de colheita, tinha primeiro que segar o grão nas terras do senhor (eram os “dias de dádiva”);
  • A propriedade do senhor tinha que ser arada primeiro, semeada primeiro e ceifada primeiro;
  • Uma tempestade ameaçava fazer perder a colheita ? Então, a plantação do senhor era a primeira  a ser salva;
  • O produto do senhor deveria ser vendido primeiro;
  • A estrada ou uma ponte necessitavam reparos ? Então,o camponês devia deixar o seu trabalho e atender à nova tarefa;
  • As prensas para moer o trigo ou a uva eram do senhor e exigia-se pagamento para sua utilização.

Por muito tempo, esta foi a relação social de produção. E por tanto tempo que a vida parecia ignorar  a sua principal manifestação : o movimento.

O nascimento da burguesia

Mas, começa a entrar em cena um personagem.

No século XI, as fortunas tinham pouco valor por que eram capital estático. Não havia estímulos à produção de excedente, por que o feudo se bastava. Só se fabrica ou cultiva além da necessidade de consumo quando há uma procura firme.

Mas chegou o dia em que o comércio cresceu e cresceu tanto que afetou profundamente toda a vida da Idade Média.

Os navios singravam de um ponto a outro para apanhar peixe, madeira, peles, couros e peliças. Os  mercadores que conduziam as mercadorias do norte encontravam-se com os que cruzavam os Alpes, vindos do sul, na planície de Champagne. Aí, numa série de cidades realizavam grandes feiras.

O senhor da cidade, o burgo-mestre, preocupava-se em preparativos especiais por que a feira proporcionava riqueza a seus domínios e a ele  pessoalmente.

Os mercadores pagavam taxa de entrada/saída, de armazenamento, de vendas e de aramar a barraca da feira. Possuíam salvo conduto, etc… O comércio, que era um riacho irregular, foi transformando-se em corrente caudalosa. Um dos efeitos mais importantes foi o crescimento das cidades. Aonde houvesse  local onde duas estradas se encontrassem, uma embocadura de um rio, ou, ainda, a terra apresentava um declive adequado, lá estavam os mercadores prontos para o exercício do comércio. E como um número cada vez maior de mercadores se reunisse nesses locais, criaram-se os “fauburgs”ou burgos extra-murais.

O aparecimento das contradições

Se recapitularmos as relações sociais de produção do tipo feudal, veremos que o crescimento das cidades, habitadas sobretudo por uma classe de mercadores que surgia, logicamente conduziria a um conflito. Toda atmosfera do feudalismo era de prisão, ao passo que, a da atividade comercial na cidade, era de liberdade.

As terras das cidades pertenciam aos senhores feudais que, a princípio, não viam diferença entre as terras da cidade e as outras que possuíam.

Esperavam arrecadar impostos, desfrutar os monopólios, criar taxas e serviços e dirigir  os tribunais de justiça, tal como faziam em suas propriedades feudais. As leis e a justiça feudais se achavam fixadas pelo costume e eram difíceis de alterar. Mas, o comércio, por sua própria natureza, é dinâmico, mutável e resistente a barreiras. Não podia se ajustar à estrutura feudal. Novos padrões precisavam ser criados. E os audazes mercadores começaram a agir. Face a face com as restrições feudais que os asfixiavam, uniram-se em associações chamadas de “corporações” ou “ligas”ou “guildas”.

Quando conseguiam o que queriam, sem luta, contentavam-se; quando tinham que lutar para alcançar o que almejavam, lutavam. E qual era a exigência básica desses pioneiros?

LIBERDADE! Liberdade para ir e vir; liberdade para comerciar; liberdade para possuir suas próprias terras, diferentemente do hábito feudal de arrendar.

O mercador poderia precisar para hipotecá-la, diante de um financiamento que possibilitasse a expansão dos seus negócios, sem pedir permissão a uma série de proprietários.

As populações urbanas desejavam proceder a seus próprios julgamentos, em seus próprios tribunais. Eram contrários às cortes feudais vagarosas, que se destinavam a tratar dos casos de uma comunidade estática. Desejavam fixar os impostos a sua maneira. Na luta pela conquista da liberdade da cidade, os mercadores assumiram a liderança.

O Mercantilismo

A teoria econômica do mercantilismo fundamentava-se na convicção de que a riqueza de uma nação baseava-se na quantidade de ouro, prata e metais preciosos de que dispusesse. Era uma política puramente nacional. O espetáculo oferecido pela Espanha do séc XVI é sugestivo: a extraordinária  prosperidade atingida por essa nação coincide com a circunstância de  ser esse país o que maior quantidade de ouro e prata recebia de suas minas da América.

A teoria sofistica-se, posteriormente, com a introdução do conceito de Balanço de Pagamento superavitário. Assim, um país devia exportar, nem que tivesse que  acabar com a indústria do outro para forçá-lo a importar e “planejar” sua economia para esse fim. Os  mercantilistas acreditavam que, no comércio, o prejuízo de uma país era o lucro do outro, isto é, um país só podia aumentar seu comércio a expensas do outro. Não consideravam o comércio uma troca vantajosa, mas como uma quantidade fixa, da qual todos procuravam tirar a maior parte.

O fruto da política mercantilista era a guerra.

A Revolução Industrial

Adam Smith, membro da Loja Maçônica Capela de Santa Maria, Edimburgo, desmascara a teoria mercantilista. Ficou claro que a maioria dos mercantilistas tinha interesses a proteger e, como tal, interessava-se mais pelas sugestões práticas do que pela análise. Adam Smith procura abordar o assunto de forma científica.

Na Europa Ocidental, a indústria ia crescendo e dando  novos contornos à civilização. A questão  do comércio livre passa a ser defendida por todos, principalmente pelos fisiocratas franceses. “Laissez faire, laissez passer”, torna-se o lema deles. A humanidade tinha chegado ao limite da velha ordem. Raiava, no horizonte da história, a promessa de um novo ordenamento social que marcaria o alvorecer de uma nova era.

O progresso nunca foi uma realização linear, nem evoluía linearmente. Sempre representou uma ruptura com o passado. As novas forças acabavam por subjugar a tradição e emergiam prontas para iniciar um novo ciclo histórico, até que chegasse a hora de ser substituídas.Assim como o aparecimento do mercador promoveu o choque com o sistema feudal, o próprio desenvolvimento do capital mercantil, com o tempo, começou a organizar a produção numa base capitalista que necessitava libertar-se das restrições artesanais das guildas.

Mas, faltava o papel final dos malhetes e ele não tardou. Quando as contradições atingiram seu apogeu, no momento mesmo em que a história convocava todos os homens livres e  de espírito temperado, para erigir os fundamentos da nova era, nossa instituição bradou: PRESENTE! Aquele brado selou para sempre o compromisso  de o  maçom ser o portador da revanche dos oprimidos pela  ausência de Liberdade, dos excluídos pela negação da Igualdade  e dos  desesperados pela falta de Fraternidade. É a “vingança” final dos justos!

O  lento desenvolvimento começa a proporcionar uma base material que possibilita o desenvolvimento da vida espiritual da sociedade. As novas idéias começam a influenciar a opinião culta européia. O Iluminismo (ou Ilustração ), admite-se, começa a nascer por volta de l640 e tem seu apogeu em 1789. Começa por combater uma ordem cósmica  livre de qualquer poder divino, regida por leis imutáveis e uniformes.

As lojas maçônicas, mesmo antes do nascimento da Moderna Maçonaria, já exercitavam a rebeldia intelectual. Primeiro, rebelando-se contra os dogmas religiosos, opondo-se-lhes a razão; depois, como decorrência vieram as  teorias evolucionistas, o  desenvolvimento das ciências físicas, químicas , econômicas e, finalmente, o compromisso de construir um novo edifício social, livre das estacas do absolutismo.

Desenvolve-se a compreensão de que a razão era algo humano, uma faculdade que se desenvolvia através da experiência , junto com suas irmãs memória e imaginação. Era uma força para transformar o real e um caminho à disposição de todos os homens que buscassem a verdade.

A grande burguesia, aliada aos nobres liberais, aproveita  a maçonaria para divulgar suas ideias. Para isso, conta com o concurso dos luminares.

A filosofia dos luminares, própria para a burguesia, possuía tal largueza de vistas e se assentava tão solidamente sobre a razão que, ao criticar depois contribuir para a queda do velho regime, dirigia-se a todos os franceses indistintamente.

Assim, entre os enciclopedistas, vamos encontrar:

  • Montesquieu – L`Esprit des Lois (1748);
  • Buffon – Histoire Nature ( 1749 – 1 vol);
  • Condillac – Traité des Sensations (1754);
  • Pe. Morelly – Code de La Nature (1755);
  • Voltaire – Essai sur les moeurs e l`esprit des nations (1756);
  • Rousseau-Discours sur l`origine et les fondements de l`inegalite parmi les hommes (1756);
  • Helvetius – De l`Esprit (1758);
  • Rousseau – L`Emile et Contract Social (1762).

O primeiro volume da enciclopédia aparece em 1751, sob o impulso de Diderot (Siecle de Luís XIV), de Voltaire e do  “Journal Economique”,que se tornou o jornal dos fisiocratas.

O Ir.: Malesherbes, cooptado pela maçonaria, estava  à frente da Biblioteca de Paris ( como tal, era o censor oficial) e não censurava as obras dos filósofos.Encorajado por essa neutralidade, o movimento filosófico se ampliou. Depois de 1770, a propaganda filosófica triunfou. A  Enciclopédia foi concluída em 1772. Voltaire e Rousseau morrem em 1778.

Em 1778, Panckoucke, Suard, Mably, Reynal, Morelly, Condorcet, D`Alembert e vários outros filósofos de segunda geração, todos maçons,  continuaram a obra dos chefes do movimento, com a publicação da suprema enciclopédia, a “Encyclopédie Méthodique”.

A propaganda oral, via lojas maçônicas, ampliou os limites da palavra impressa.

Quais eram as contradições da época ? Vejamos:

RELAÇÕES SOCIAIS DE PRODUÇÃO FORÇAS PRODUTIVAS
VELHO REGIME NOVA ERA
Privilégio de estirpe; Risco; Aparecimento da grande indústria;
Riqueza imobiliária; Riqueza mobiliária; Desenvolvimento da tecnologia a vapor;
Desdém pelas atividades práticas Valorização das atividades práticas Desenvolvimento do grande comércio.

Daí, com o aparecimento da nova indústria, há a necessidade de transformar o Estado, para estimular o desenvolvimento dos negócios. A vida  espiritual da  Nova Era  prepara-se para sepultar à da Velha Ordem. Mais tarde, a  “Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão” constituir-se-á no atestado de óbito do “ancien regime”.

Vida espiritual da sociedade

VELHO REGIME NOVA ERA
– dogma; – livre pensamento;
– classicismo; – início do romantismo;
– Aristóteles/S.Tomás – racionalismo/empirismo/dialética.

A nascente maçonaria francesa estudava a Enciclopédia. Passou a congregar todos os homens livres, inclusive os clérigos, contrários às amarras feudais e espirituais.

As grandes lideranças pertenciam à maçonaria: Sieyes, Condorcet, Petion, Gregoire, Mirabeau, Danton, Marat, Brissot, Camille Desmoulins, Laclos,etc… e souberam agir sincronizadamente   para impor ao rei Luís XVI uma  Assembléia Nacional. Em 27/06/1789,  o rei sanciona o que  tentara mas não pudera impedir. Ali nascia o emblema de construtores sociais, os Arquitetos do Progresso.

Novas ideias

  • Econômicas : Laissez faire, laissez passer;
  • Políticas: extinção das ordens privilegiadas – liberalismo político;
  • Sociais: busca da felicidade na própria terra dos homens;
  • Naturais : desenvolvimento da física, química, biologia, etc…

As ideias eram levadas, mediante correspondência dos deputados, para todos os rincões da França pela máquina jacobina. E o que era a máquina jacobina?

Vejamos a definição de François Furet:

“A máquina jacobina, fundada e dirigida com o concurso dos maçons, era uma  apertada rede de sociedades políticas, culturais, fraternais que se multiplicavam através da França de 1789 ao ano III. Entre clubes, lojas, círculos, etc… chegavam a 5500. Eram lugares privilegiados de aculturação política e constituíram muito cedo um vasto corolário em que se experimentavam a linguagem, as práticas e as representações da democracia direta.”

Após a revolução e, principalmente, quando houve o derrube da monarquia, já não havia mais o  elemento comum que unia todos os maçons. As forças políticas diversas estavam livres para iniciar suas jornadas, agregando elementos e campos afins.

Ainda assim, os maçons mantiveram a liderança em suas respectivas jornadas ideológicas.

À esquerda, no Clube dos Cordeliers, havia a liderança de Danton e Marat. Danton iniciado, ainda como obscuro advogado, na loja das Nove Irmãs. Marat, iniciado em setembro de 1769 na Loja Maçônica de Amsterdam, segundo seu biógrafo Gerard Walter.

Na centro esquerda, na Confederação Geral  dos Amigos da Verdade, destacavam-se os maçons Pe. Fauché e o republicano Nicollau de Boneville, redatores do jornal Bouche de Fer ( Boca de Ferro). O Círculo Social, como era conhecida a Confederação, foi essencialmente um laboratório de idéias sociais progressistas. Não dispunha da preferência das massas populares (estas preferiam o Clube dos Cordeliers), por tomarem posições bastante afastadas da extrema esquerda. Havia, principalmente no Pe. Fauchet, uma extraordinária noção de realidade e das possibilidades geradas. O próprio Marx , ao estudar a Revolução Francesa, reconhece que o Círculo Social foi uma das matrizes do Socialismo Científico, pela consistência das idéias divulgadas.

À  direita, havia a Sociedade de 1790. Congregava a alta burguesia aliada aos nobres liberais; destacavam-se os maçons: Pe. Sieyes, Marquês de Mirabeau, Duque de Orlelans, Duque de Chartres, Duque d`Aguillon, Duque de Biron, Conde de Clermont Tonerre, Visconde  de Noialles, Duque de  Rochefoucauld, Marquês de La Fayette, Pe. Gregoire, Laclos, etc…

Que chama era aquela que atraía e iluminava todos os homens com potencial vocação para Homem-Humanidade, que intuitivamente compreenderam que não são os homens que fazem as revoluções, mas estas, nas suas necessidades  inelutáveis, é que fazem os homens quando estes exprimem a rotação dos seus movimentos?

A Maçonaria e o momento atual

Vimos, anteriormente, que o desenvolvimento das forças produtivas condicionava as novas relações sociais de produção e que as velhas relações tinham que ser modificadas  para estabelecer um novo equilíbrio dinâmico entre o caráter das forças produtivas e elas.

Onde estamos hoje? Quais são as atuais relações sociais?

Para o economista Jeremy Rifkin,

“a transição para uma sociedade sem trabalhadores, a sociedade da informação, é o terceiro  e atual estágio de uma grande mudança nos paradigmas econômicos, marcado pela transição de recursos energéticos renováveis  para os não renováveis e de fontes de energia biológicas para as mecânicas. Ao longo de extensos períodos de história, a sobrevivência humana esteve intimamente vinculada à fecundidade do solo e às mudanças de estações.O fluxo solar, o clima e a sucessão ecológica condicionaram cada economia na terra. O ritmo da atividade econômica foi estabelecido com o aproveitamento da força do vento, da água, do animal e da capacidade  humana”.

É só lembrar que, com a Revolução Industrial, a escassez de energia, pelo corte predador das árvores que forneciam madeira para a construções naval e civil, para combustíveis, etc…, forçou a transição para uma fonte de energia disponível – o carvão. Nessa  época, é patenteada uma bomba a vapor para bombear o excesso de água das minas.

A união do carvão e das máquinas para produzir vapor marcou o início da era econômica moderna e sinalizou a primeira etapa de uma longa jornada para substituir o trabalho humano pela força mecânica.

É consenso que tivemos três Revoluções Industriais. Na primeira Revolução Industrial,  a energia movida a vapor foi usada para extração de minério, na indústria têxtil – força dinâmica daquela Revolução – e na fabricação de uma grande variedade de bens que antes eram feitos à mão. A escuna foi substituída pelo navio a vapor, a locomotiva a vapor puxava os vagões de carga, até então, puxados a cavalo. Já se iniciava uma significativa melhora no processo de transporte de matérias primas e produtos acabados. Escreve Rifkin: “a nova máquina a vapor era uma  nova espécie de escravo, uma máquina cuja habilidade física excedia grandemente o poder, tanto dos animais quanto dos seres humanos”.

A segunda Revolução Industrial foi a competição, no campo energético, entre o petróleo e o carvão. A energia elétrica entra em cena, ampliando as alternativas para operar as fábricas, iluminar as cidades e proporcionar comunicação instantânea entre as pessoas. A transferência de carga da atividade econômica do homem para a máquina continuava. “Na  mineração, na agricultura, no transporte e na industrialização, fontes inanimadas de energia eram combinadas a máquinas para acrescentar, ampliar e, eventualmente, substituir mais e mais tarefas humanas e animais no processo econômico”. (Idem)

A terceira Revolução Industrial emerge após a segunda guerra mundial e, somente agora, começamos a sentir o impacto no modo como a sociedade organiza a sua atividade econômica. Robôs com controle numérico, computadores e softwares avançados estão invadindo a última esfera humana – os domínios da mente. Adequadamente programadas, estas novas “máquinas inteligentes”são capazes de realizar funções conceituais, gerenciais e administrativas e de coordenar o fluxo de produção, desde a extração da matéria prima ao marketing e à distribuição do produto final e de serviços.

Após esse panorama comparativo, vamos à análise:

O homem sempre se organizou em função do trabalho. Do caçador/coletor paleolítico e fazendeiro neolítico ao artesão medieval e operário da linha de montagem atual, o trabalho tem sido parte integrante da existência diária. E isto é tão verdadeiro que criamos e desenvolvemos  toda uma cultura centrada no trabalho. Condicionamo-nos até a estigmatizar os que não trabalham.

Mas, as sofisticadas tecnologias da informação e da comunicação já nos permitem  antever a fábrica virtual. Por ironia, estamos mais próximos de Paul Lafargue do que do seu sogro, Karl Marx. Aí, já verificamos uma aguda contradição entre o caráter das forças produtivas ( fundamento tecnológico da produção) e as relações sociais de produção. Entretanto, não dá para afirmar que esta é a contradição primária).

Juntando-se a estas, aparecem outras contradições, como :

  • a “racionalização” do sistema financeiro, fundamentada na tecnologia, proporcionou uma substancial redução nos custos de operação, oriunda da dispensa da mão de obra,da agilidade e confiança nas operações. Como contrapartida, o mesmo sistema gasta algumas vezes mais para garantir a segurança;
  • a tecnologia da informação proporcionou um aumento significativo dos lucros, na medida em que possibilitou processar e controlar operações que ,pelo seu volume, jamais poderiam ser feitas sem ela. Parte considerável desse lucro foi e continuará sendo “mordida” por eventos como o “bug”do milênio e as ações dos Hackers;
  • hoje, já ‘possível projetar a fábrica virtual, operada e controlada por robôs ou tecnologias da informação, cercada por milhões de agressivos esfomeados que perderam seus empregos para as “máquinas”.;
  • há uma fortuna potencial relativa ao lixo gerado pela moderna sociedade que poderia ser racionalmente administrado não só em benefício dos excluídos, como também, em benefício da  qualidade do meio ambiente;
  • nunca a humanidade esteve tão próxima de promover a integral liberdade para os seres humanos, no mínimo, e, ainda assim, nunca houve uma época com  tanta incerteza;
  • a tecnologia promove uma abundância perigosa, pois traz consigo o desemprego tecnológico e a demanda ineficaz do consumidor. Num mundo em que os avanços tecnológicos prometem aumentar dramaticamente a produtividade e a produção de bens, ao mesmo tempo em que marginalizará ou eliminará do processo econômico milhões  de consumidores, a mágica da tecnologia parece ingênua, insensata até.

As evidências são preocupantes. Sabidamente planejamento e sistema capitalista não se combinam, o que acaba contribuindo para potencializar as preocupações.

Entretanto, a finalidade desta palestra não é propor soluções alternativas para o mundo. Faltam-me engenho e arte para tal. Mas sobram-me consciência e vontade para participar de uma busca  compartilhada.

Então o que e como fazer?

Aqui há uma tentativa de proposta,que vai buscar na experiência histórica o norte da ação transformadora. Sem a história, é impossível entender o que se passa no mundo, pois ela possui uma estrutura e um padrão que nos permitem verificar de que modo os vários elementos reunidos no interior de uma sociedade contribuem para a deflagração de um dinamismo histórico ou, inversamente, não conseguem provocar tal dinamismo.

Sabemos que determinada etapa histórica não é permanente e a sociedade humana é uma estrutura bem sucedida porque é capaz de mudança; o presente, não é o seu fim.

O exemplo da burguesia revolucionária, que foi sábia o suficiente para reunir todos os ingredientes que possibilitaram o salto de qualidade, deve ser seguido, devidamente relativizado. Somos a única instituição no mundo capaz  de se apresentar diante da história como agentes catalisadores da mudança, sem que confundamos nossas ações com as ações próprias de um partido político. Na minha avaliação a maçonaria está acima e além da luta de classes. Ela e só ela!

Por sermos universais, podemos promover vários ensaios, encontros, congressos, etc… com todas as grandes inteligências do mundo, presentes na instituição. Se não estiverem, nós as traremos. Aqui é o lugar delas.

Poderemos forjar novas lideranças mundiais a partir de nossas lojas universitárias. Deveremos ir aos parlamentos, forças armadas, Academia, etc… e buscar todos que se sentem compromissados perante o desafio de promover a necessária harmonia entre os elementos que formam a complexa tessitura  de nossa marcha evolutiva. A exigência será a vocação para Homem-Humanidade. E, hoje, ser Homem-Humanidade é sonhar com um ordenamento social que desempenhe a função histórica de ultrapassar  a emancipação provocada pela Revolução Francesa, superando os seus limites, isto é, criar uma emancipação universalmente humana e não apenas a de uma classe.

Um congresso do GOSP talvez ajudasse a criar os mecanismos necessários para iniciar nossa trajetória, ao contribuir para a formação de uma massa crítica, tão distante de nós. Mas já poderíamos inicia-la seguindo a orientação do Ir.: Onias de procurar inserirmo-nos e participarmos de Associações de Moradores, Sindicatos, Partidos Políticos, Conselhos Regionais, etc… Até porque a história nos ensina que as conquistas sociais se deram em função de uma estreita aliança com as massas populares.

Quanta experiência acumularíamos e que nos ajudaria a encontrar as variáveis que promovessem uma requalificação interna dos obreiros, definissem um perfil dos futuros candidatos e possibilitassem combinar internamente nossa disponibilidade de tempo, de tal ordem que as poucas horas disponíveis de um obreiro, multiplicadas pelo número de obreiros fossem suficientes para continuar a jornada racionalmente, isto é, sem os espontaneísmos. Poderíamos, aí, definir objetivos e as velocidades para alcançá-los.

Continuaremos fora da ribalta, fora do foco das atenções, onde se desenrolam os dramas da vida, até por que os bastidores são a especialidade da casa!

Mas, se em alguma Loja Maçônica do futuro,  nossos irmãos fizerem referência às ações dos irmãos do passado, que não permitiram que se apagasse a chama do compromisso histórico de participar da criação de um ordenamento social fundado nos princípios da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade, com certeza eles estarão falando de nós.

Autor: Francisco Simas

Fonte: BIBLIOT3CA

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Bibliografia

  • História da Riqueza do Homem – Leo Huberman – Ed Zahar;
  • A Evolução do Capitalismo – Maurice Dobb – Ed Zahar;
  • A Revolução francesa – Albert Soboul – Ed Zahar;
  • A Interpretação Social da Revolução Francesa – Alfred Cobban – Ed Gradiva;
  • 1789, O Emblema da razão – Jean Starobinsky – Cia das Letras;
  • Os Best Sellers proibidos na  França Pré Revolucionária – Robert Darton –Cia das Letras;
  • Princípios Fundamentais de Filosofia – Pulitzer – Ed hemus;
  • Evolução do Pensamento Econômico – Paul Hugon _EASA;
  • Pensar a Revolução Francesa – François Furet – Edições 70;
  • A Revolução Francesa – Manfred –Ed Arcádia;
  • História da Filosofia – G.Realis/D.Antiseri – Ed Paulus;
  • Discurso sobre A Origem e Fundamentos da Desigualdade entre os Homens – Jean Jacques Rousseau – lb 140;
  • A Revolução Francesa – Carlos Guilherme Motta;
  • A Era dos Extremos – Eric Hobsbawn – Cia das Letras;
  • Marat, O Amigo do Povo – Gerard Walter – Ed Vecchi Ltda;
  • O Novo Século – Eric Hobsbawn – Cia das Letras;
  • Dicionário Crítico da Revolução Francesa – F.Furet/M.Ozouf – Ed Melhoramentos;
  • O Fim dos Empregos – Jeremy Rifkin – Ed Makron;
  • O Furturo do Capitalismo – Lester Turow – Ed Rocco;
  • A Dialética do Concreto – Karel Kosek – Ed Paz e terra.
  • O Iluminismo como Negócio – Robert Darton – Cia das Letras

Mito e Filosofia

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Lições preliminares sobre as origens e as diferenças conceituais entre mito e pensamento filosófico tendo como base a cultura ocidental

Antes de buscarmos os conceitos e a diferença conceitual entre o mito e o pensamento filosófico, devemos afirmar como ponto de partida que somos descendentes da cultura ocidental, e como tal devemos estabelecer que o mito e a filosofia em questão são frutos das origens gregas, nosso escopo voltar-se-á, portanto, para estes. Cabe o esclarecimento, visto que os povos mais antigos do mundo, oriundos da cultura oriental, já buscavam explicações para a origem de tudo, valendo-se, não somente, de suas crenças e fantasias, mas, também, de especulações racionais. Dito isso, o que nos interessa é, portanto, – como filhos do ocidente – situar a diferença conceitual entre mito e filosofia dentro do contexto da Grécia antiga.

O Mito

É inevitável, ao falar da Grécia, vir à lembrança o termo “Mito”. Até hoje, as ruínas daquela civilização trazem à tona no consciente de cada homem informado, que ali, nos primórdios, aquele povo culto criou meios de se entenderem como seres humanos no mundo (kosmos).

A definição dada pelos dicionários, grosso modo, é a de que “mito quer dizer história ou conjunto de histórias que fazem parte da cultura de um povo e tentam explicar fenômenos incompreendidos ou sem resposta comprovada, como a criação do mundo, o sentido da vida humana e morte” (História ilustrada da Grécia antiga, p.58). Diante disso, cabe sanar o entendimento comum de que uma pessoa ilustre ou representativa para qualquer sociedade, por seus feitos e vultos, uma vez morta recebe status de figura mítica ou lendária. Daí ser comum ouvir-se falar do mito de Gandhi, o mito de Mandela, mito de Bruce Lee… O emprego do termo mito aí recebe uma conotação que não é a do mito grego.

O mito, isto é, o pensamento mítico busca por meio de uma crença alcançar uma verdade; procura encontrar o sentido da vida; tenta dar explicações que perpetuamente inquietam o ser humano. Os poetas gregos, entre os quais Homero se destaca, em seus escritos e narrativas dá sentido às crenças míticas. E, ainda, a Teogonia de Hesíodo traduzia a cosmovisão mitológica por meio de versos e da tradição oral, já que a família grega passava de pai para filho, de geração para geração, o conhecimento legado por esses gênios que tentavam interpretar o mundo por meio da palavra e da engenhosidade imaginativa do espírito. Politeístas que eram, os gregos valeram-se de muitos deuses para interpretar o mundo. Estes faziam parte de um mundo sobrenatural construído para explicar a realidade do mundo, sua origem, meio e fim.

Assim, Zeus era o chefe supremo do Olimpo. Homero o chamou de “o pai dos deuses e dos homens”. Possêidon, deus dos mares – sua mulher era Anfitrite, neta do titã Oceano. Hades, deus do subterrâneo, por isso o inferno bíblico é sinônimo de Hades. Háracles (o mesmo que Hércules), filho de Zeus e da mortal Alcmena, conhecido por suas façanhas incríveis. Ares, deus da guerra, filho de Zeus. Apolo, deus do sol. Hermes, conhecido como o mensageiro, filho de Zeus. Hefesto, deus do fogo, artesão divino, produzia os raios de Zeus. Dionísio (Baco, para os romanos), filho de Zeus, sua mulher desejou ver este em toda sua majestade, mas os raios luminosos procedentes desta visão a carbonizaram. Afrodite, deusa da beleza. Atena, deusa da sabedoria. Estes são algumas personagens míticas criadas da verve poética grega. Percebam que o mito é toda história construída com esses seres, que protagonizam um cenário de magia e fantasia.

O mito expressa o mundo e a realidade humana, além de ser sempre uma representação coletiva, ou seja, ele se refere à história de um grupo, de um povo, nunca de um único indivíduo. E os mitos são transmitidos de geração em geração, como uma espécie de herança que deve ser levada e passada adiante.

Justamente por tentar explicar o mundo e a complexidade da realidade, o mito não tem como ser lógico ou racional. Aos olhos dos leigos – e também dos menos sensíveis – os mitos parecem algo sem sentido. De fato, sua narrativa é ilógica e irracional, mas assim deve ser, pois ele está aberto a todas as interpretações possíveis. O mito deve, antes de tudo, ser decifrado (Op. cit., p. 71).

O pensamento filosófico

“Não se pode ensinar filosofia, o que se pode é ensinar a pensar filosoficamente”. Estas palavras de Immanuel Kant, de certo modo, revelam-nos o que a filosofia é. Delas podemos extrair que a filosofia não é coisa que se aprende, embora fosse Kant professor de filosofia. Mas ela, a filosofia, não se aprende na práxis de que alguém pode ensinar a alguém uma filosofia, tal qual o professor ensina ao aluno em suas aulas a fazer cálculos ou uma fórmula qualquer. Ora isso pode ser um contrassenso, já que os grandes filósofos tiveram professores e alunos. Verdade. Mas estes não se propuseram a ensinar, mecanicamente, nenhuma filosofia a alguém. Os grandes filósofos debatiam, argumentavam, criticavam, questionavam, duvidavam, ou seja, exercitavam o ato de pensar, mas pensar radicalmente, até ao âmago das coisas. Enfim, nesse sentido, professor e aluno eram verdadeiros agentes do pensar filosófico, e com isso faziam filosofia, pensavam filosoficamente. Como se percebe, o pensar filosófico é crítico e radical, exige sistematicidade e compromisso com o todo, e neste está o homem inserido.

A Filosofia (gr.: philosophia = amor à sabedoria) não foi uma criação ou uma descoberta de algum prodígio. Nem tampouco uma arte inventada da técnica apurada de um feiticeiro. Nem de um místico do deserto que recebeu uma revelação depois de uma peregrinação sem-fim. Não foi. A filosofia já nasce com o homem. Ela é a morada do ser, conforme Heidegger. É o ser humano que tem a dotação para fazer filosofia, pois ele tem o atributo próprio para isso. Só ele tem o que nenhum outro ser tem, aquilo que o faz diferente, e que o leva a indagar, perscrutar, duvidar, sobre si mesmo e sobre o mundo. Este atributo que é a razão é quem o qualifica para o pensar filosófico. O homem racional está apto para filosofar. Mas, não se contentando com isso, devemos dizer como Gianfranco Morra, que “todos são filósofos, à medida que querem ser humanos; ninguém é filósofo, à medida que é somente humano” (2001: p. 10).

Como a mitologia não mais fornecia a necessária e suficiente confiança para explicar o mundo, Tales de Mileto[1] ousou formular uma nova maneira de compreensão cosmológica (período cosmológico ou pré-socrático): o sábio grego ao observar às margens do Nilo a fertilidade deste, deduziu que a origem do mundo, o princípio substancial (arché) de todas as coisas era a água, pois ela é quem dá vida a tudo. Realmente, as águas do Nilo faziam germinar todo o tipo de vida tanto vegetal como animal. Hoje, parece tudo muito simples. E muitos podem até ignorar a importância disso, por não saberem que quem ousasse a contrariar a crença (doxa) do grego antigo, se não fosse capaz de provar poderia ser punido com a morte. Tales de Mileto é considerado o primeiro filósofo, e todos os outros que o sucederam em seu tempo – isto é, os pré-socráticos – buscaram como ele, uma explicação não mais nos mitos, mas na própria physis (natureza).

Desse contexto histórico-filosófico, percebe-se que o pensamento filosófico vale-se da razão para formular hipóteses ou questões problematizadoras em busca, sempre, da verdade das coisas. Daí a definição de Aristóteles que filosofia é a disciplina que estuda as causas primeiras e o os fins últimos das coisas. Por isso mesmo, a filosofia é um saber crítico, que põe em crise toda verdade preestabelecida, não aceita como evidente todo dado posto diante de si. A filosofia, portanto, não é ciência, não é um saber acabado e estanque.

Enfim, não é fácil definir a filosofia, mas deixo, nesse remate, a definição de Karl Jaspers[2]:

A filosofia é o pensamento no qual torno-me íntimo do Ser mesmo por meio da ação interior, é o pensamento no qual torno-me eu mesmo. Ela é, em outras palavras, o pensamento que prepara o lançar-se na Transcendência, recorda-o, e até, num instante sublime, o produz, à medida que é atividade de todo homem no seu pensar“. (A minha filosofia, 1941: 3 Apud Morra: 2001, p. 11).

Autor: José Fernandes Pires Júnior

Fonte: Portal da Filosofia

José Fernandes Pires Júnior é professor de Filosofia na rede de ensino público do DF, advogado e pós-graduando em Filosofia e Direitos Humanos. Autor do livro O Sofrimento dos Filósofos (Ed. Biblioteca 24 horas) e de vários artigos nas áreas do Direito e da Filosofia.

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Notas

[1]Os primeiros filósofos gregos costumavam ser chamados de pré-socráticos, porque eles antecederam Sócrates. Os textos dos iniciadores da filosofia se perderam praticamente todos, restando apenas trechos de alguns escritos e frases. Na qualidade de fundadores da filosofia, os pré-socráticos deram início ao discurso da razão, que viria a dominar o Ocidente desde então. (História ilustrada da Grécia antiga, p. 76).

[2]Filósofo e psiquiatra alemão, Karl Theodor Jaspers (1883-1969) trabalhou no hospital psiquiátrico na Universtität Heidelberg e, anos depois, lecionou filosofia na Universtität Basel. Seu pensamento está associado ao neokantismo e o existencialismo.

Referências Bibliográficas

A História ilustrada da Grécia antiga. São Paulo: Editora Escala, 2008

MORRA, Gianfranco. Filosofia para todos. Trad. Mauricio Pagotto Marsola. São Paulo: Paulus, 2001.

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