Mito, esquecimento e manipulação da história da Maçonaria latino-americana

Para entender história

Por ocasião do XV Simpósio Internacional de História da Maçonaria Espanhola realizado em Lisboa, em outubro de 2018, em torno de Mitos e História, dos 10 anos da revista REHMLAC, temos vindo a refletir como um balanço da investigação realizada nestes últimos 40 anos pela historiografia e seu alcance no conhecimento real do fenômeno maçônico. Aproveitando a reunião do Seminário Permanente Internacional de História da Maçonaria em Gijón, em fevereiro de 2019, uma síntese em torno do mito, esquecimento e manipulação da História da Maçonaria é apresentada com o desejo de que um dia a realidade do passado maçônico ocupe o lugar que se apropriou de seus mitos e lendas.

Estamos comemorando os primeiros dez anos da Revista de Estudos Históricos da Maçonaria Latino-americana e Caribenha [REHMLAC], portanto, nas reflexões que vamos compartilhar em voz alta, gostaria de começar acrescentando uma pequena nuance e um complemento ao título da inha apresentação: Mito, esquecimento e manipulação da história da Maçonaria latina, ou seja, ibérica, hispânica ou sul-americana, conforme as preferências de cada um. E farei isso lembrando o professor canário-sevilhano Francisco Morales Padrón que, em sua História da América, observou há 36 anos que ainda não havia um livro geral que estudasse o papel da Maçonaria na independência ou na história da América. Hoje ainda não temos essa publicação, embora seja verdade que um grande passo foi dado nos últimos anos, então, desde algumas universidades americanas e europeias, assim como desde o CEHME, o Grupo La Habana y la revista REHMLAC tem publicando muitos e valiosos estudos sobre a Maçonaria na América Latina, desde o Cone Sul (Chile y Argentina) até o México e o Caribe. Universidades e Centros de Estudos onde a Maçonaria alcançou o status de objeto histórico[1] .

No entanto, como foi revelado no XV Simpósio Internacional de História da Maçonaria Espanhola (Lisboa, 2018), centrado nos mitos e mal-entendidos da historiografia maçônica, ainda existem muitos tópicos e lendas em torno da história da Maçonaria, principalmente hispânica ou latina americana e em particular aqueles que se referem aos protagonistas da emancipação ou independência.

Marco Aurelio Skinner Vásquez[2] em seu ensaio sobre a possível influência da Maçonaria na revolução da independência da Grande Colômbia, onde questiona se dita influência é verdadeira ou mítica, reconhece que no inconsciente coletivo dos hispano-americanos há uma memória mítica que diz: A Maçonaria influenciou muito a liberdade dessas nações, mas não é fácil encontrar provas dessa afirmação.

Em contrapartida na maior parte da historiografia universitária americana e europeia, a Maçonaria nem mesmo é mencionada quando se trata da independência e dos chamados libertadores.

O colombiano Gilberto Loaiza Cano, da Universidad Nacional de Colombia e del Valle em Cali, afirma que “nem mesmo os estudos biográficos sobre os líderes políticos do século 19 na Colômbia contemplaram em suas análises as relações de seus biógrafos com a militância maçônica”[3]. Na maioria dos casos, os biógrafos preferiram omitir qualquer vínculo com a Maçonaria de seus biografados[4].

E no caso da Colômbia, as omissões mais marcantes são as de Francisco de Paula Santander e Tomás Cipriano de Mosquera, promotores e líderes indiscutíveis da Maçonaria colombiana e da primeira implantação da rede de lojas.

No entanto, esse vazio na historiografia universitária americana e europeia, até datas relativamente recentes, foi preenchido por contribuições mais ou menos valiosas de militantes maçons como Américo Carnicelli, Julio Hoenisberg e o mais recente de Mario Arango Jaramillo[5] ou por muito mais numerosos antimaçons e em geral mais infelizes, como o prolífico José Patricio Maguirre ou Ramón Martínez Zaldúa[6].

Um caso especial devido, ao grande número de publicações que delas trataram, embora nem sempre com a desejável exatidão e objetividade histórica, são algumas lojas ou pseudolojas, especialmente os chamados Lautaro[7] que, como se sabe, não eram maçônicas. mas sim político-patrióticas e pertencente a um momento muito específico da história da América, especialmente ligado à independência, emancipação ou revolução do início do século XIX[8]. Correspondem ao estudo muitas vezes confuso do papel desempenhado não só pela Maçonaria, mas pelas sociedades secretas em geral, sejam maçônicas, políticas, patrióticas, militares, literárias, econômicas ou filológicas, como a que atacou Bolívar em 1828[9].

Nos últimos quarenta anos, a Maçonaria tem sido estudada no contexto dessas práticas associativas e de construção dos novos Estados-nação americanos. A história da Maçonaria no início do século XIX é apresentada como mais uma forma de cultura política ou sociabilidade cosmopolita baseada na harmonia e na tolerância política, social, religiosa e fraterna.

É o caso de Eduardo Torres Cuevas para Cuba e de Francisco Javier Guerra, María Eugenia Vázquez Semadeni, Carlos Francisco Martínez Moreno, Guillermo de los Reyes e Marco Antonio Flores Zavala para o México[10], de Pilar González Bernaldo de Quirós para a Argentina[11], de Felipe Santiago del Solar para o Chile[12] ou Gilberto Loaiza Cano para a Colômbia e Miguel Guzmán-Stein e Ricardo Martínez Esquivel para a Costa Rica[13].

E embora seja verdade que na segunda metade do século 19 grande parte da classe política da Argentina, México e Colômbia – para colocar apenas três exemplos representativos de curso extensíveis aos demais países da área geográfica ibero-americana – militou nas lojas, no entanto, no primeiro terço do século a prática associativa maçônica foi muito mais diluída nas elites político-intelectuais. Em primeiro lugar, porque a introdução da Maçonaria nesses países é muito posterior à independência, o que nos leva a questionar se a Maçonaria na América espanhola é uma causa ou melhor, uma consequência da independência; e em segundo lugar, porque não é o mesmo que alguma loja ou pseudoloja implantada do exterior esteja localizada do que que haja uma maçonaria autóctone organizada e institucionalizada como tal.

A origem da famosa e polêmica “loja” Lautaro de Buenos Aires geralmente está localizada em 1812. No entanto, a Maçonaria Argentina foi fundada em 1857, como o Grão-Mestre Carlos Wilson lembrou em 1982 por ocasião da celebração do 125º aniversário da Grande Loja da Argentina de Maçons Livres e Aceitos[14]. O mesmo poderíamos dizer do Chile, que em 2012 comemorou o 150º aniversário da fundação da Grande Loja do Chile em maio de 1862, conforme afirmou o Grão-Mestre Luis A. Riveros em seu discurso comemorativo. E mais recentemente, em outubro de 2018, a Grande Loja da República Dominicana comemorou 180 anos de sua fundação em 1868.

Intimamente ligado ao acima mencionado está o papel desempenhado pelos chamados libertadores e sua suposta ou real filiação na Maçonaria, embora na realidade o único do qual haja evidências documentais confiáveis ​​de que ele foi iniciado em uma loja maçônica e, portanto, era um maçom, pelo menos em um curto período de sua vida é a de Simón Bolívar, o que não acontece, por exemplo, com Miranda, San Martín, O’Higgins e tantos outros que se tornaram heróis nacionais e símbolos da pátria, embora sua filiação nem sempre é clara ou suficientemente comprovada como a de Bolívar.

No entanto, Bolívar, que recebeu os três primeiros graus da Maçonaria em 1805 na Loja de Santo Alexandre da Escócia em Paris, não voltou mais em nenhuma outra loja maçônica europeia ou americana[15]. Em outras palavras, que em comparação com alguns meses ou semanas de militância maçônica em Paris, estamos enfrentando 25 ou 26 anos de retirada maçônica, ou pelo menos a ausência de notícias de participação direta.

Além disso, como resultado do fracasso da Convenção de Ocaña em junho de 1828, que confrontou os partidários do General Santander e os de Bolívar, e também o fracasso da conspiração contra Bolívar e sua tentativa de assassinato pela Sociedade Filológica, ao final de setembro do mesmo ano[16], Bolívar e seus ministros consideraram conveniente prevenir futuras conspirações, evitando encontros ilegais, a pretexto das sociedades culturais, e para tanto emitiu o decreto de 8 de novembro de 1828, sobre a proibição no território da república da Colômbia “das associações ou fraternidades secretas”. Certamente a Maçonaria não é especificamente mencionada no decreto, mas foi tacitamente incluída. Desde 8 de novembro de 1828, a Maçonaria foi oficialmente dissolvida na Colômbia.

Sobre a atitude pessoal de Bolívar e o motivo de sua entrada na Maçonaria, as palavras que o francês Luis Perú de Lacroix, marechal de campo de Bolívar e coronel do Exército da Grande Colômbia, recolhe no famoso Diario de Bucaramanga onde glosa assim algumas confidências. “Segundo ele” o libertador o fez no domingo, 11 de maio de 1828, sete meses antes do decreto de proibição:

Ele falou sobre a Maçonaria, dizendo que também teve a curiosidade de ser iniciado para ver de perto quais eram esses mistérios, e que em Paris fora recebido um Mestre, mas que aquele grau tinha sido suficiente para julgar o ridículo daquela antiga associação; nas Lojas ele encontrou alguns homens de mérito, alguns fanáticos, muitos mentirosos e muitos mais tolos zombados; que todos os pedreiros se parecem (sic) algumas grandes crianças, brincando com sinais, morisquetas, palavras hebraicas, fitas e cordas; que, no entanto, a política e os mafiosos podem tirar proveito dessa sociedade secreta, mas que no estado de civilização da Colômbia, de fanatismo e preocupações religiosas em que estão seus povos, não era político usar a Maçonaria, porque se tornar alguns partidários nas Lojas teriam atraído o ódio e a censura de toda a Nação, e então movido contra ele pelo clero e frades, que teriam se valido desse pretexto; que, pela mesma razão, a Maçonaria poderia fazê-lo ganhar pouco e fazê-lo perder muito de opinião[17]. Luis Perú de Lacroix, Diario de Bucaramanga (Caracas: Edição de Monsenhor Nicolás E. Navarro, 1935)

Este texto sintetiza bem a posição de Bolívar em relação à Maçonaria, na opinião de Nicolás E. Navarro, editor do Diario de Bucaramanga, que não tem dúvidas de que o oficial francês refletiu fielmente o pensamento do Libertador, já que o próprio Peru de Lacroix era maçom, grau 33, e não tinha interesse em ridicularizar ou subestimar a instituição a que pertencia[18].

Voltando ao decreto de proibição, é curioso o fundamento ideológico que o próprio Bolívar nele faz. Diz assim:

SIMON BOLIVAR

Presidente Libertador da República da Colômbia …

Tendo creditado a experiência tanto na Colômbia como em outras nações, que as sociedades secretas servem para preparar convulsões políticas, perturbando a tranquilidade pública e a ordem estabelecida; que ocultando por trás delas todas suas operações com o véu do mistério, fazendo presumir fundamentalmente que não boas nem úteis à sociedade e por isso mesmo se mostram suspeitas e temerosas a todos aqueles que ignoram os assuntos com os quais se ocupam, ouviu o parecer do Conselho de Ministros,

Decreto: Artigo 1. Todas as associações ou fraternidades secretas são proibidas na Colômbia, independentemente da denominação de cada uma …

Aqui a fórmula do decreto de Bolívar pela qual “todas as associações ou fraternidades secretas eram proibidas, qualquer que fosse a denominação de cada uma”, lembra outro decreto anterior, de 1817, do Arcebispo de Granada em que está incluída a bula de Leão XII, proibindo e condenando novamente “qualquer seita ou sociedade clandestina, qualquer que seja sua denominação…”[19].

Na década de 1820, as lojas maçônicas foram introduzidas na América hispânica principalmente via Jamaica, França e Estados Unidos[20], e se misturaram ou substituíram as sociedades patrióticas Lautaro.

Gilberto Loaiza Cano lembra que a partir dessas datas a pousada serve para reunir as facções ou partidos que disputavam o controle do processo organizacional das pós-independências. E traz exatamente o exemplo da conspiração contra Bolívar apoiada por um grupo de maçons sob a direção de Francisco de Paula Santander, fundador em Bogotá da Loja Libertad de Colômbia. Na outra ponta da história política cronológica do século XIX situa-se a aprovação da Constituição colombiana de 1886, quando os maçons daquele país ligados ao liberalismo radical foram novamente alvo de perseguições e proibições oficiais[21].

Este período é fundamental para compreender a orientação político-ideológica de praticamente toda a Maçonaria latino-americana, na Colômbia, Peru, Argentina e nas demais nações do triângulo formado entre o Pacífico, o Atlântico e o Caribe. Bem, o papel que na década de 1810 as sociedades patrióticas e as “lojas” Lautaro desempenhariam, nos anos após as independências será desempenhado por algumas lojas maçônicas. E a Maçonaria foi amplamente identificada com o liberalismo radical[22]. O liberalismo que terá o secularismo como companheiro de viagem e o anticlericalismo dentro de um projeto político-cultural mais amplo cuja forma última de expressão será o republicanismo.

A república, principal objetivo das sociedades patrióticas que lutaram pela independência, consubstanciada no juramento que os membros do “Lautaro”[23] deviam prestar, será incluída como forma de Estado e de governo nas Constituições dos diversos países que tornaram-se independentes da monarquia espanhola.

Juramento que lembra aquele que Bolívar também fez na montanha sagrada de Roma como uma rejeição ao caminho monárquico-imperialista adotado por Napoleão Bonaparte após sua dupla autocoroação em 1805, como imperador em Paris e rei dos italianos em Milão. Coroações em que Bolívar esteve presente por sua primeira admiração por Bonaparte, mas depois de sua decepção radical causada justamente por sua autocoroação [“A coroa que Napoleão pôs na cabeça eu olhei como uma coisa miserável e em estilo gótico” Diario de Bucaramanga)] reafirmou-o na sua vocação antimonárquica e republicana.

As lojas maçônicas, de certa forma herdeiras ou camufladas com os ideais e objetivos das sociedades patrióticas da primeira década do século XIX, também foram identificadas com o ideal republicano. E o fizeram de forma militante e proselitista ao contrário de algumas maçonarias europeias estabelecidas em países então ainda monárquicos como Itália, Espanha, França e Alemanha, além dos já tradicionais como Grã-Bretanha, Bélgica, Holanda e Escandinávia e países bálticos, ou mesmo do próprio Brasil, cujo imperador Pedro I foi maçom e quem realizou, em 1822, a independência daquela colônia em relação à sua metrópole Portugal. No Brasil, a república federal não seria proclamada até 1889.

Assim, do ponto de vista histórico, tanto na história americana como especificamente maçônica, a identificação quase sagrada que, principalmente na América, se faz entre a Maçonaria e a República não é muito consistente. Essa identificação fez com que a Maçonaria do século XIX na América Latina se visse desde suas origens muito comprometida com os projetos de secularização, principalmente no ensino, em nome de um liberalismo-republicanismo com suas ambiguidades ideológicas, especialmente na história político-religiosa. na segunda metade do século XIX. Ambiguidades reveladas na Colômbia onde, segundo Carnicelli[24] havia duas correntes maçônicas radicalmente diferentes. Uma delas na costa atlântica, no entorno do Conselho Supremo de Cartagena, que se caracterizou pelo fato de os maçons sempre buscarem conciliar os princípios da Maçonaria com sua fé católica. Já a outra, que corresponde ao centro e leste do país, era bastante anticlerical, estando ligada ao liberalismo radical. Entre os acontecimentos mais sintomáticos, devemos destacar a presença no Conselho Supremo de Cartagena de 14 padres católicos, entre os quais dois bispos: Juan Fernández de Sotomayor e Calixto Noguera[25] (o primeiro, grau 33 e, o segundo, grau 18), bem como aquele do secretário do Bispo de Santa Marta, Antonio González Carazo, leigo, membro da Loja União Fraterna, a qual informou, deveria ausentar-se para acompanhar Dom Luis José Serrano durante sua visita pastoral à diocese, na qualidade de secretário diocesano.

Estamos diante do avesso da medalha daquela outra maçonaria liberal colombiana do interior baseada em um ideal secularizador e geralmente anti-religioso e de controle social da profissão docente e das atividades da Igreja Católica.

É impressionante notar que essa abordagem historiográfica em que o acento é colocado na sociabilidade maçônico-religiosa, ou secularização do secularismo, bem como na cultura político-intelectual, dando especial destaque no passado da América a outras abordagens e militâncias de igrejas alheia e oposta ao católico, é uma linha de pesquisa à qual tem sido dada especial atenção da faculdade de teologia protestante da Universidade Marc Bloch de Estrasburgo em figuras proeminentes como a do pastor Pierre Bastian e seus discípulos Dévrig Molles e Gilberto Loaiza Cano[26]. Linha de pesquisa enriquecedora e complementar às anteriores.

Uma reflexão final sobre a linha de revisão dos trabalhos recentes realizados sobre a Maçonaria Ibero-americana nas primeiras décadas do século XIX tanto no sul (Colômbia, Brasil, Argentina, Chile …) e no centro (Cuba e Costa Rica) e no norte (México). Confirma-se a necessidade de continuar analisando os anos que precedem e se seguem à independência, que, como aponta Ballester Escalas em seu Simón Bolívar, “nasceu do grito ‘morram os franceses’ e dos protestos de fidelidade ao rei da Espanha expulso pelo rei invasor José Bonaparte”[27], mas também as da segunda metade do século XIX, que apresentam abordagens e realidades muito diferentes. Em ambos os períodos de estudo dos grupos de poder, destaca-se a importância dada à Maçonaria no debate público como uma nova forma de fazer política primeiro e de fazer história depois.

Aqui, a proeminência da Maçonaria reside no fato de ser objeto de debate público, não em uma presença ou realidade maçônica, já que em muitos casos ela nem existia, dando o paradoxo de que algo não existe e é introduzido muito mais tarde. Daí a ausência de documentos e arquivos, o que dificulta a pesquisa histórica.

O debate público sobre a Maçonaria dará origem e consistência a um imaginário popular que se forma em torno desta instituição, com conotações positivas e negativas – mais negativas do que positivas – de acordo com as ideologias político-religiosas do lugar e do momento. Imaginário que se fortalece no campo da polêmica principalmente na imprensa e nas brochuras tão ricas e variadas, esta última no México. Mas a polêmica também irá para o campo da história e da política.

A maçonaria real ou fictícia acabará ocupando um espaço político no momento em que, na América recém-independente, se busca e constrói identidades políticas. No período de 1826-1828 as lojas maçônicas ou a Maçonaria em geral, identificadas com outras sociedades mais ou menos secretas, foram apresentadas como uma nova forma de lidar com os sistemas políticos nascentes. Isso significará que do parlamento chileno ao mexicano, por meio do decreto colombiano de Bolívar de 1828, a Maçonaria, identificada como sociedade secreta política, está proibida e perseguida nesses anos na maioria das novas repúblicas hispano-americanas.

Desta forma, a Maçonaria, de protagonista torna-se ilegal e permanece fora da lei. A história da Maçonaria na América nos anos após a independência, ou a percepção histórica dela, se move, portanto, em uma área de fronteira entre a rejeição e a aceitação, entre a liderança política e a condenação. Em todo caso, parece que tanto para uns como para outros se identifica, na nova ordem política institucional, com posições a favor ou contra, como se fosse difícil – como acontece hoje – permanecer indiferente ao fato maçônico.

A título de conclusão, podem-se propor dois períodos históricos na América Latina. Um que abrange aproximadamente o primeiro terço do século XIX, no qual ainda não existe a Maçonaria, mas há muita conversa e debate sobre ela. E a segunda metade de um século em que a Maçonaria e os Maçons são, em muitos casos, conhecidos ou desconhecidos protagonistas dessa história.

Em ambos os casos, embora no primeiro seja por atribuição mais gratuita do que real, a Maçonaria, especialmente em certos autores que tratam do assunto, será identificada na América Latina com os libertadores e a independência e com uma forma de fazer política por ser o portador e difusor de princípios e valores como o liberalismo, a república, a federação[28], a soberania, a igualdade, os direitos individuais … e a secularização do espaço público.

No entanto, para a maioria dos historiadores, a Maçonaria é ignorada ou vista como não mais do que um fato marginal ou anedótico mais típico do ocultismo do que das ciências sociais[29].

Finalmente, para nós, o triângulo formado por REHMLAC , CEHME e SPIHM[30] como uma rede internacional de estudos históricos da Maçonaria, constitui uma equipe de trabalho e um objeto histórico de estudo e pesquisa multicultural e multinacional que tem a Maçonaria como seu centro visto de um amplo âmbito multidisciplinar em que nenhum aspecto histórico, social, político e cultural está ausente. Equipe que pesquisa e publica de forma coordenada na América e na Europa, principalmente da REHMLAC ‒ que nos reúne aqui hoje ‒ mas também da coleção Historia de la Masonería (editada por masonica.es) que nosso organizador Yván Pozuelo dirige com tanto sucesso, e do que em breve serão 30 volumes de anais dos quatorze simpósios internacionais sobre a história da Maçonaria Espanhola, realizada em Espanha, Gibraltar e Portugal entre 1983 e 2018, e organizada pelo CEHME nestes últimos 35 anos. Desta forma, estamos contribuindo para oferecer uma bibliografia ampla e variada que talvez um dia ajude a quebrar os estereótipos, clichês e falsidades que ainda cercam este pequeno pedaço de história que não é tão ruim quanto alguns acreditam, nem tão bom quanto outros desejam.

Autor: José-Antonio Ferrer Benimeli*

*Sacerdote jesuíta, professor de História pela Universidad de Zaragoza. Foi diretor do Centro de Estudos Históricos da Maçonaria Espanhola, e é membro da Real Academia de História da Espanha. Autor de mais de uma dezena de livros sobre Maçonaria.

Fonte: Revista de Estudos Históricos da Maçonaria Latino-americana e Caribenha – REHMLAC

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Notas

[1] – Essa falta de interesse historiográfico pela Maçonaria, denunciada em sua época por Francisco Morales Padrón, Historia de América (Madrid: Espasa Calpe, 1962) [2] , 100, mais recentemente foi também entre outros, por Pilar González-Bernaldo de Quirós , Civilité et politique aux origines de la nação argentina. Les sociabilités à Buenos Aires, 1829-1862 (Paris: Publications de la Sorbonne, 1999) (versão em espanhol no Fondo de Cultura Económica, 2002); Jean-Pierre Bastian, “Uma ausência notória: Maçonaria na historiografia mexicana ”, História mexicana 3 (1995), 439-460; Mario Arango Jaramillo, Maçonaria e poder político na Colômbia(Medellín: New Man Ed., 2011); Gilberto Loaiza Cano, “A Maçonaria e as facções do liberalismo colombiano no século XIX. O caso da Maçonaria da Costa Atlântica ”, História e Sociedade 13 (2007): 65-89, http://bdigital.unal.edu.co/23504/1/20438-68977-1-PB.pdf

[2] – Marco Aurelio Skinner Vásquez, Influência da Maçonaria na revolução de independência da Grande Colômbia. Verdade ou mito? (Bucaramanga: 2013).

[3] – Loaiza Cano, “Maçonaria e facções”, 3.

[4] – Como exceção, Loaiza cita os estudos de Antonio Nariño e Manuel Ancízar. Enrique Santos Molano, Antonio Nariño, filósofo e revolucionário (Bogotá: Planeta, 1999); Loaiza Cano, Manuel Ancízar e seu tempo (Medellín: Universidade Nacional da Colômbia, 2004).

[5] – Julio Hoenigsberg, Influência Revolucionária da Maçonaria na Europa e América (Bogotá: 1944); Américo Carnicelli, Maçonaria na independência da América (Bogotá: 1970), 2 vols. and History of Colombian Freemasonry, 1833-1940 (Bogotá: 1975), 2 vols.; Arango Jaramillo, Maçonaria e Partido Liberal. Outra cara na história da Colômbia (Medellín: Corselva, 2006).

[6] – José Patricio Maguirre, “Alguns antecedentes para avaliar a influência da Maçonaria na libertação da América Latina”, Boletim do Instituto de História da Argentina , n. 16-11 (1968-1969); Ramón Martínez Zaldúa, La masonería en Hispanoamérica ( Sua influência decisiva na revolução mexicana ) (México: B. Costa-Amie, 1965).

[7] – Nome adotado do guerreiro mapuche e líder araucano que derrotou o conquistador Valdivia em 1554. Alonso de Ercilla y Zúñiga, La Araucana (Madri: Gaspar y Roig Ed. 1852).

[8] – José Antonio Ferrer Benimeli, “As lojas Lautaro, os cavaleiros racionais e o movimento de independência americana”, em Maçonaria e sociedades secretas no México , coord. por José Luis Soberanes Fernández e Carlos Francisco Martínez Moreno (México: UNAM, 2018), 41-70.

[9] – Ferrer Benimeli, “Bolívar and Freemasonry”, Revista de Indias 172 (julho-dezembro 1983): 631-687.

[10] – Eduardo Torres Cuevas, História da Maçonaria Cubana. Seis ensaios (Havana: Imagem Contemporânea, 2004); François-Xavier Guerra, Le Mexique, de l’Ancien régime à la Révolution, (Paris, Publications de la Sorbonne, 1985); María Eugenia Vázquez Semadeni, A formação de uma cultura política republicana. O debate público sobre a Maçonaria. México, 1821-1830 (México: UNAM, 2010); Carlos Francisco Martínez Moreno, “A implantação da Maçonaria no México no século XIX” (Dissertação de Mestrado, UNAM, 2011); Guillermo de los Reyes Heredia, heranças secretas. Maçonaria, política e sociedade no México. O impacto da Maçonaria no discurso nacionalista, secular e liberal no México(Puebla: Universidade Autônoma, 2009); Marco Antonio Flores Zavala, “Maçonaria e Maçonaria no México, 1760-1936” (Tese de doutorado, Universitat Jaume I, 2016).

[11] – González-Bernaldo de Quirós, Civilité et politique .

[12] – Felipe Santiago del Solar, As lojas ultramarinas. Sobre as origens da Maçonaria no Chile 1850-1862 (Santiago do Chile: Occidente, 2012).

[13] – Loaiza Cano na nota 1. Miguel Guzmán-Stein, “Liberalismo, Educação, Igreja e Maçonaria: o processo de formação e secularização do Estado nacional através das relações institucionais na Costa Rica no século XIX” (Tese de doutorado, Universidade de Zaragoza, 2005); Ricardo Martínez Esquivel, Maçons e Maçonaria na Costa Rica no alvorecer da Modernidade (1865-1899) (San José: Editorial de la Universidad de Costa Rica, 2017).

[14] – Carlos Wilson, “125 Years of Freemasonry”, The Word of Freemasonry 1 (dezembro de 1982): 5-8.

[15] – Carnicelli, Maçonaria na independência da América , vol. II, 374-376, ao fornecer a Lista dos Maçons de 1809 a 1828, não pode deixar de apontar para Simón Bolívar, Libertador, como membro da Loja Santo Alexandre da Escócia, de Paris, sendo o único que não aparece em a Loja Americana, que supõe um reconhecimento indireto de sua atividade não maçônica na terra que ele libertou ou tornou independente.

[16] – Surpreendeu-se o guarda que guardava a residência do Presidente Libertador General Simón Bolívar, que foi salvo de ser assassinado pela coragem de Dona Manuela Sáenz que o encorajou a se jogar na rua de uma varanda, enquanto ela entretinha os conspiradores , assim ele foi capaz de escapar. Dona Manuela, chamada Libertadora do Libertador, era sua amante desde 15 de junho de 1822, dia em que se conheceram em Quito no baile que Dom Juan Larrea deu em homenagem a Bolívar, recém-chegado de Pasto. O idílio durou até a morte do Libertador, ocorrida em San Pedro Alejandrino, Santa Marta, em 17 de dezembro de 1830.

[17] – Luis Perú de Lacroix, Diario de Bucaramanga (Caracas: Edição de Monsenhor Nicolás E. Navarro, 1935).

[18] – Nicolás Eugenio Navarro, Tópicos Bolivarianos. Glosses para o “Diario de Bucaramanga” (Caracas: 1933): 17-20.

[19] – Sobre os decretos semelhantes que Fernando VII emitiu na Espanha naqueles anos contra as sociedades secretas, ver Ferrer Benimeli, Contemporary Spanish Masonry (Madrid: Siglo XXI de España Ed., 1980), vol. 1, 152-160.

[20] – Ferrer Benimeli, “Caminhos de penetração da Maçonaria no Caribe”, REHMLAC 1, no. 1 (maio-novembro de 2009): 4-15, https://revistas.ucr.ac.cr/index.php/rehmlac/article/view/6853

[21] – Loaiza Cano, “Maçonaria e facções”, 2-3.

[22] – Enquanto o liberalismo moderado ou conciliador em alguns lugares estará mais próximo da Igreja, apesar do fato de que para Roma a besta negra será o liberalismo sem distinções. Recordemos, entre muitos outros, Félix Sardá e Salvany, o liberalismo é pecado (Barcelona: Librería Católica, 1887); Maçonismo e Catolicismo. Paralelos entre a doutrina das lojas e a de nossa Santa Igreja Católica Apostólica Romana (Barcelona: Librería Católica, 1885).

[23] – “Não deves reconhecer como governo legítimo de teu país, mas sim aquele que é eleito pela vontade livre e espontânea dos povos, sendo o governo republicano o mais adaptável à liberdade da América, tende, por qualquer meio possível, aos povos decidirem por este tipo de governo ”. Rómulo Avendaño, Revista Buenos Aires , t. 19 (1869): 439. Navarro, Maçonaria e independência (Caracas: Ed. Sur-Americana, 1928), 29-30.

[24] – Carnicelli, História da Maçonaria Colombiana , vol. I, 39-91; vol. II, 37, 45, 98.

[25] – Tabela dos padres maçônicos do Conselho Supremo de Cartagena, preparada com informações de Carnicelli, de Loaiza Cano, “La masonería y las facciones”, 17-18.

[26] – Ao qual deve ser adicionado para o caso europeu o neoconvert Luc Nefontaine.

[27] – R. Ballester Escalas, Simón Bolívar (Barcelona: Ed. Toray, 1963), 45. Mesmo em 1821 os habitantes da Nova Espanha ainda eram obrigados a ser leais ao rei no decreto que proclamava a Independência e a União, bem como no juramento estabelecido de acordo com o plano de D. Agustín de Iturbide, primeiro chefe do exército das três garantias. Documentos relativos às últimas ocorrências da Nova Espanha (Madrid: Ibarra, 1821), 4-5.

[28] – Assim como nos Estados Unidos da América, outros países das Américas também adotaram a forma de república federativa, como Brasil e México.

[29] – Nesse sentido, o lugar destinado à Maçonaria na maioria das livrarias e editoras e mesmo em não poucas bibliotecas é muito esclarecedor.

[30] – REHMLAC ( Revista de Estudos Históricos da Maçonaria Latino-americana e Caribenha ), CEHME (Centro de Estudos Históricos da Maçonaria Espanhola) e SPIHM (Seminário Internacional Permanente sobre a História da Maçonaria).

Referências

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Episódio 44 – O mito do inferno de Platão

Na república utópica, o que desafia constantemente a grande preocupação de Platão é assegurar obediência voluntária, isto é, estabelecer um fundamento sólido para aquilo que, desde os romanos, chamamos de autoridade. Platão resolvia seu dilema através de contos bastante longos acerca de uma vida futura com recompensas e punições, nos quais ele esperava que o vulgo acreditasse literalmente e cuja utilização recomenda portanto à atenção da elite… (music: Slow Burn by Kevin MacLeod; link: https://incompetech.filmmusic.io/song/4372-slow-burn; license: https://filmmusic.io/standard-license)
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A eventual promiscuidade entre Maçonaria e poderes, sejam eles políticos, ou outros…

Autoindustrie: Trend zu immer größeren Fusionen und Übernahmen - autohaus.de

Qualquer sociedade dos tempos modernos é sujeita, de forma clara ou não, à influência de grupos organizados que, intencionalmente ou não, procuram influenciar “a sua trajetória” em função dos seus interesses. Se um desses grupos puder ter um nome, e esse nome for uns dos tradicionalmente identificados como “de risco”, então está criada uma mistura delicada, até porque será certamente visada pela comunicação social.

Assumo que sou maçom… e faço-o com a duplicidade de quem se sente orgulhoso de o ser, e de quem sente que quer dar… unicamente dar, sem estar a pedir que lhe deem. Infelizmente, a nossa sociedade parece não conseguir visualizar uma coisa sem a outra… possivelmente é a isto que chamam a sociedade materialista, traduzida naquela “famosa” frase – ninguém dá nada a ninguém.

Toda a polêmica que ocorre periodicamente, relacionando políticos com maçons ou maçons com interesses obscuros e/ou ilegais, é um claro sinal dos tempos em que vivemos – perdemos valores, perdemos a nossa capacidade crítica, engolimos tudo o que nos impingem, mas preferimos centrar-nos em identificar culpados, de preferência “culpados de estimação” – aqueles que podem sempre ser os responsáveis, até porque estão tão ocupados em fazer bem, que não têm tempo para se defender.

… e nada vende mais jornais do que uma boa “conspiração” orquestrada por uma organização de quem se sabe quase tudo, mas de quem se ignora quase tudo. A Maçonaria é uma dessas organizações: somos discretos, não fazemos alarde do que fazemos de bem, toda a gente acredita que temos uns segredos, que não temos; em resumo – é para desconfiar…

Não pretendo afirmar que todos os maçons são “impolutos”. Por mais apertado que seja o nosso método de seleção, procurando identificar homens cuja prioridade seja crescerem e tornarem-se Homens, haverá sempre alguns erros de “casting”… pessoas que usam o que for preciso para seu benefício pessoal. Contudo, esta incapacidade de ler as pessoas na sua totalidade, identificando as suas reais intenções, não deve e não pode levar a confundir o trigo com o joio.

Um maçom, que o é de verdade, procura melhorar, ajudar, dar a mão… contribuir para um homem melhor e para uma sociedade melhor. Compete-nos assegurar que assim é, e compete-nos impedir que a Arte Real seja utilizada para projetos individuais ou coletivos que nada tenham a ver conosco e com os ideais que defendemos.

Autor: António Jorge

Fonte: Respeitável Loja Mestre Affonso Domingues

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Maçonaria e Política: uma visão crítica na pandemia

Maçonaria volta às sessões e abdica de alguns rituais | Covid-19 | PÚBLICO

A palavra “política” na sua origem nos remete à Grécia Antiga, à polis grega, quando fazer política tinha o sentido de participar da cidade, exercer a cidadania. Diz-se que eles inventaram a política por ela ser imprescindível na vida do ser humano, fazendo-o distinguir-se dos deuses e dos animais. Para Aristóteles (384-322 a.C), “o homem é um animal político”, estando, assim, destinado a viver em sociedade. Platão (427-347 a.C.) já afirmava que,

“Não há nada de errado com aqueles que não gostam de política, simplesmente serão governados por aqueles que gostam.”

A capacidade de traduzir demandas da sociedade em meios aptos a converter a exigência em realidade pertence à Política. Governar é aumentar a confiança das pessoas e das empresas, alargar as esperanças e reduzir as incertezas. Entretanto, a percepção é que há uma simbiose entre política e corrupção. Mas, não é bem assim!

Tema polêmico por excelência, Política é o único mecanismo possível de solução pacífica de diferenças, compreendendo a busca de consensos. Os pontos mais complexos aí se circunscrevem. Política é inclusão social. O Papa Francisco diz que “a Política é a melhor forma da caridade, porque se empenha pelo bem comum”. A sua linguagem, a forma como a política dialoga com a sociedade, é um referencial da qualidade da democracia de um País.

A temática vem repercutindo em alguns oásis maçônicos, pois o trabalhar incessantemente pela felicidade do gênero humano enseja um caráter universal, tendo por isso cunho essencialmente político, por se impor como uma escola de civismo e de liberdade, onde se devem debater grandes assuntos de interesse do país. A realidade exponencial e disruptiva é o desafio.

Mas aí é que surge uma afirmação sobejamente decantada e que contrasta com sua missão. A Constituição de Anderson, de 1723, afirma que: “..deve-se evitar discussões sobre religião e política…”. Tal dispositivo vai de encontro ao conceito de liberdade que é um pilar da maçonaria moderna. As constituições dos países modernos e livres consideram como um direito inalienável do cidadão a liberdade de se manifestar e de debater os problemas políticos e sociais. Portanto, existe um dispositivo hierárquico atual e superior que abre os caminhos para uma efetiva participação, não obstante a disputa de narrativas.

Entende-se que as restrições quanto a debates sobre política e religião têm por cunho evitar-se apenas que a harmonia das Lojas não seja perturbada por discussões partidárias, contaminações ideológicas, proselitismo ou sectarismo que promovam o desentendimento e a desagregação. Assim, em decorrência das sucessivas crises políticas, a maçonaria não pode passar ao largo das questões de interesse do país. A realidade impõe-se, e ficar de fora, neste caso, é omitir-se, é ser cúmplice dos erros. Segundo o influente pregador Batista inglês. C. H. Spurgeon (1834-1892),

“Somente os tolos acreditam que politica e religião não se discute. Por isso os ladrões continuam no poder e os falsos profetas continuam a pregar.”

No contexto histórico vislumbra-se inegável a influência por vezes decisiva da ação política da maçonaria em vários acontecimentos de relevo. No caso brasileiro destacam-se os movimentos de rebeldia e de libertação que antecederam a Proclamação da República, e inúmeros outros conflitos e rebeliões, que contribuíram para o amadurecimento histórico do país, os quais contaram com a participação pioneira de várias Lojas e de membros expressivos da maçonaria, inspirados e movidos pelos princípios da Ordem.

Até um determinado período, a Maçonaria funcionou como veículo para expansão de ideias e organização de movimentos, atuando como um partido político camuflado. Em análise retrospectiva, a Maçonaria brasileira iniciou o século XX exercendo interferência política decisiva nos destinos do país, mas chegou ao final do período enfraquecida, gerando ilhas autossuficientes, em decorrência das cisões de 1927 e 1973, bem como do impacto das Revoluções de 1930 e de 1964, além de disputas intestinas de poder que são referências em sua estrutura administrativa. E com isso, esvaiu-se a medida de liberdade.

Apesar do conceito positivo junto àqueles que a conhecem, a Maçonaria ainda é desconhecida por grande parte da população brasileira. No cenário político nacional atualmente não tem nenhuma representatividade e não exerce qualquer sopro a exemplo da norte-americana ou da europeia, que mesmo assim vem decrescendo aceleradamente em número de obreiros. E vejam que capital intelectual e consciência de sua importância para liderar as transformações necessárias à promoção da justiça social é prédica recorrente entre suas colunas. O que falta é esse discurso repercutir no mundo profano.

A Maçonaria, como instituição, não pode continuar na velha toada de que não deve envolver-se diretamente em temas políticos e nas grandes decisões de interesse do Brasil, candidamente delegando aos maçons que o façam individualmente, pois um regramento de 1723, editado em outro momento histórico, impede ações mais decisivas em pleno século XXI. Somente caprichar na retórica e bradar que alguém tem que tomar uma providência é muito confortável. Esse comodismo e o obsequioso silêncio político da Maçonaria do Brasil precisam ser quebrados. Repetindo a questão de sempre: sabemos ou não dialogar?

O espírito da Constituição de Anderson vislumbrava a Maçonaria como uma organização de cunho muito mais abrangente, suprapartidário, abrigando todas as tendências. Mentes tacanhas distorceram tal entendimento e têm conseguido mantê-la acorrentada. É hora de a Maçonaria repensar sua atuação, decretar a sua independência e de agir com responsabilidade. Chega de discursos pomposos, manifestos bem comportados, fotos teatrais, homenagens, firulas, reverências e salamaleques com autoridades de plantão! No caso específico dos “irmãos” titulares de cargos no poder executivo, o mote deveria ser de pressioná-los para cumprir o juramento ou dar baixa na Ordem.

Como reiterado em trabalho anterior, já passou da hora de maçons e a Maçonaria, como um todo, assumirem o papel que já foi sua marca registrada no passado: revolucionária, decisiva, incomodativa, marginal em outros momentos. Defender que a maçonaria seja apenas uma escola de pensamento onde se cultive exclusivamente moral e ética e acalente o sonho de que seus princípios e valores sejam amplamente conhecidos e que forças do além inspirem os tomadores de decisão, sem se envolver diretamente, ficando na torcida para que a justiça e os bons costumes prevaleçam, é mais do mesmo. Educar os obreiros para que sejam pessoas do bem e apenas sonhar com um futuro melhor, pregando como os outros devem agir, é muito bacana, supimpa mesmo! Podemos chamar esse contexto de Maçonaria Contemplativa.

Se o apenas falar dentro da bolha não deu certo, algo está errado. Ou se for isso mesmo, a Maçonaria agiria melhor como um clube de serviços e cultivar a memória de um passado confortável pela frente e permanecer admirando-se no retrovisor da história, sonolenta, a lembrar do conto “Cidades Mortas”, onde Monteiro Lobato escreveu: “Ali tudo foi, nada é. Não se conjugam verbos no presente. Tudo é pretérito”. E nada é tão ruim que não possa piorar!

“Apesar de tudo”, o momento é de despertar e de assumir o protagonismo, sair na dianteira, declarar guerra e partir para cima dos poderes constituídos exigindo competência e transparência, abraçar pautas de interesse da sociedade, promover debates públicos, videoconferências abertas para não maçons, encaminhar e liderar propostas de soluções, criar pontes e ocupar espaços que permitam aos obreiros a reivindicarem, de forma organizada, com uma Maçonaria que poderíamos chamar de Executiva, as mudanças que todos exigem, pois a perda de contato com a realidade paralisa a consciência crítica. O dramaturgo e poeta Bertolt Brecht (1898-1956) certa vez escreveu: “Que continuemos a nos omitir da política é tudo o que os malfeitores da vida pública mais querem”.

O obstáculo maior sempre foi escapar das velhas ideias, das formas arraigadas de pensar, mas, em solo fértil boas sementes frutificam. Com a provocação e o impulso de novas gerações, em especial a Geração Z[1] ainda como uma voz que clama, a GLMMG vem de algum tempo construindo propostas, várias submetidas à Confederação da Maçonaria Simbólica do Brasil, visando a promover a coesão e a credibilidade da Ordem. Os Projetos “Gestão Maçônica” e “Cultura Cidadã”, constantes do Site da GLMMG atacam o cerne dessa questão. A propósito, lembrando um certo juramento, imaginamos que todos já os tenham lido e discutido em Loja.

Mas, um velho ditado popular adverte: “uma andorinha só não faz verão”. Aplausos e aplausos em Plenárias somente alimentam egos. Ao término dessas reuniões, como bons isentões, voltamos para nossas Lojas e a “Ordem do Dia” continua a ser o mais do mesmo, e nada de falar em temas palpitantes de interesse do país. As melhores intenções morrem nas palavras, em face de discursos emocionados, carregados de simbolismos e vazios de concretude.

Não obstante o sofrimento e custo social decorrente da pandemia do coronavírus, que superou os piores prognósticos realizados ainda no primeiro trimestre de 2020, navegamos nos últimos meses por mares turbulentos, com vários percalços e tropeços, que pegou a todos desprevenidos, com impactos na economia global, de vidas que se foram e o isolamento social (“fique em casa”), inédito nos tempos modernos, evocando sentimentos de perplexidade, inquietação, sensação de vulnerabilidade, de finitude e até de medo.

Tempo suspenso, portas trancadas, cortinas cerradas, famílias separadas, mortes transformadas em números, rituais de despedida não autorizados, sistema global econômico e de produção paralisados, além do conceito de liberdades individuais com leitura distorcida por autoridades confusas, conflitantes entre si e sem um norte. De outra sorte, água suja se limpando, poluição diminuindo e pássaros retornando aos locais de onde tinham desaparecido.

Nesse interim, boa parte das nossas Lojas encontrou o caminho das videoconferências para não interromper os estudos e a divulgação da cultura maçônica, procurando, ainda, manter os laços de fraternidade, mesmo que virtuais, porém com adesão ainda não avaliada de forma consistente, mas estimada em número inexpressivo em face da quantidade de maçons ativos, haja vista as mesmas carinhas a frequentar nossas telinhas, não obstante artilharia pesada de argumentos contrários a esse tipo de evento.

Não se pode descurar das sessões presenciais, quando possível, mas o papel complementar das reuniões virtuais é inquestionável. Vários temas estão sendo explorados, muitos conhecimentos compartilhados e ideias borbulhando, mas o da Política com “P” maiúsculo ainda encontra resistências. O mundo lá fora pegando fogo e a gente, por ora, apenas filosofando nas “lives maçônicas”!

A Maçonaria precisa ser protagonista e não apenas apoiadora ou um rebanho carneiril pastoreada por dirigentes políticos que sabidamente jogam mal, com raras exceções. Para isso, urge mudar sua forma de ação e trabalhar em um plano conjunto entre as Potências soberanas, com fôlego e determinação para ser uma influenciadora permanente, pela prática da moderna advocacy, sem se envolver no círculo vicioso da politicagem tradicional, que tem o hábito de dar voltas e parar no mesmo lugar, ensejando as mesmas contradições.

Agora que descobrimos um novo meio de reunir os maçons das várias Potências pela força das redes sociais e já estamos familiarizados com os recursos tecnológicos disponíveis, a novel missão seria a prática de um ativismo orquestrado, ombro a ombro, mesmo que virtual nesta fase, envolvendo a Ordem como instituição, seus Grão-Mestres na postura de estadistas e os maçons alinhados em torno de projetos amplamente discutidos e aprovados, distinguindo-se pelo exercício ético e competente de influenciar o comportamento e ações de outras pessoas, como “Agentes Cidadãos”, formando alianças do bem, não apenas com foco em resultados de curto prazo, mas de construir um país melhor para todos os brasileiros e uma saída para a atual crise que nos acorrenta.

A sociedade saberá reconhecer o empenho e certamente o exemplo da Maçonaria arrastará outros movimentos que anseiam por uma liderança competente e decisiva na Politica.

“Somente quem, frente a todas as dificuldades, pode dizer ‘Apesar de tudo! ’ tem a vocação para a política.” (Max Weber)

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da Loja Maçônica Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida e da Academia Mineira Maçônica de Letras.

Notas

[1] – Ver artigo “Maçonaria e Geração ‘Z’ Pós-pandemia”, em: https://opontodentrocirculo.com/2020/08/26/maconaria-e-geracao-z-pos-pandemia/

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Maçonaria e Geração “Z” Pós-Pandemia

O gestor da geração Z | Mundo Carreira

A moderna Maçonaria se identificou nos últimos 300 anos com causas nobres, lutas sociais e movimentos cívicos, revolucionários e libertários, que a fizeram prosperar até nossos dias, continuamente combatendo a intolerância, os preconceitos, os privilégios e defendendo novas ideias. Por isso angariou a antipatia de poderosos e de pessoas que simplesmente ignoram como ela funciona de fato.

Não obstante os percalços enfrentados até então, aliados ao respeito que a sua história inspira e é sobejamente decantada pelos seus obreiros mais dedicados e orgulhosos do status conferido pelo sentimento de pertencimento, a Maçonaria ainda é desconhecida por significativa parte da população brasileira e é vista por muitos com certo grau de desconfiança, apesar de todo o capital intelectual e consciência de sua importância para as transformações necessárias à promoção da justiça social.

Entre seus pontos fortes, cabe destacar o desenvolvimento de uma resiliência conferida pelo empenho na valorização do seu papel perante a sociedade, fazendo-se reconhecer como Oficina do saber, onde ideias e opiniões circulam sem nenhuma restrição, com estímulo ao livre debate, não deixando de exaltar suas características de acolhimento e sociabilidade.

No trabalho denominado “Evasão Maçônica: Análise da situação da GLMMG” (Silva, 2018, p.2) é enfatizado que

“toda organização necessita estar se reavaliando constantemente com a finalidade de conhecer suas potencialidades e suas fraquezas, de forma a continuar se mantendo perante a sociedade e, principalmente, a cumprir com os objetivos a que se propõe”.

Com a Maçonaria não poderia ser diferente.

Cabe, portanto, aos atuais membros ativos da Ordem honrar o legado recebido dos irmãos do passado e concentrar o foco nos enormes desafios que ela enfrenta na atualidade, notadamente em relação aos reflexos da pandemia do coronavírus, e que deverão balizar suas ações para o futuro, com vistas a reter seus atuais colaboradores e tornar-se atraente para o cidadão educado e com amplo acesso às informações, em função dos crescentes avanços tecnológicos.

O momento atual enseja uma sociedade e um tempo onde tudo é volátil e adaptável, denominados por Bauman (2001) de “modernidade líquida”, contrapondo-se a um recente período no qual imperava a modernidade sólida, que se apresentava ordenada, coesa, estável e previsível.

“Essa transição afetou os mais variados aspectos de nossa vida”.

Segundo ele,

“o advento do telefone celular serve bem como ‘golpe de misericórdia’ simbólica na dependência em relação ao espaço: o próprio acesso a um ponto telefônico não é mais necessário para que uma ordem seja dada e cumprida. Não importa mais onde está quem dá a ordem – a diferença entre ‘próximo’ e ‘distante’, ou entre o espaço selvagem e o civilizado e ordenado, está a ponto de desaparecer” (p.19).

Testemunhamos uma crescente

“elite dos residentes do ciberespaço que prosperam na incerteza e na instabilidade de todas as coisas mundanas…” (p.194).

Bauman afirma:

“vivemos em tempos líquidos, de conceitos e instituições instáveis e cambiantes”.

Isso fica demonstrado com o advento das redes sociais e os avanços científicos e tecnológicos que determinam novos feitios de interação, como o uso e abuso no tempo presente das videoconferências e do trabalho remoto, com o destaque para a atuação das gigantes Google, Facebook, Zoom e assemelhados, que aceleram a destruição de formas tradicionais de emprego, de comercialização de produtos, serviços, formas de ensino e aprendizagem, acelerando a obsolescência de hábitos, valores, dogmas, instituições e o surgimento de novos paradigmas. Nessa “era da informação”, a única certeza é a de que inovações hoje consideradas promissoras certamente desaparecerão antes de atingirem o potencial a que se propõem.

O protagonismo desse cenário cabe à Geração Z[1], compreendendo pessoas nascidas a partir de meados dos anos de 1990, considerada totalmente digital, e que demonstra valores profundamente diferentes, com demandas sociais e ambientais específicas e maior capacidade de reinventar a forma como trabalhar e solucionar problemas, comunicar-se e reunir-se, impondo diferentes hábitos de vida e de consumo, com apoio a modelos econômicos alternativos e desenvolvimento sustentável.

Esses nativos digitais não conhecem o mundo sem os meios de comunicação atuais e o veem de uma forma pequena e sem fronteiras, exigindo agilidade e praticidade em tudo na vida, como relacionamentos, educação e relações de trabalho. Na área da educação, demonstram maior conhecimento quando comparado às gerações anteriores. Concordando ou não com essa realidade, não se enxerga possibilidade de retorno. Para a professora e neurocientista britânica Susan Greenfield (apud Novaes, 2016), “estamos diante de uma mudança mental global”.

Citando matéria da Revista Exame (2006), a pesquisa de Novaes (2016) confirma que pelo lado profissional a Geração Z é multitarefa, ou seja, consegue fazer e entender várias coisas simultaneamente, habilidade essa que nenhuma geração anterior demonstrou, realizando tarefas online ou não, sem perder a atenção. Outra característica importante é que essa geração é caracterizada pelo imediatismo e chega ao mercado procurando empresas que valorizem a conectividade, a abertura ao diálogo, a velocidade e a globalidade. 

Não restam dúvidas de que é nessa safra de novas cabeças que a Maçonaria deverá depositar suas esperanças e garimpar seus futuros obreiros, cabendo aos dirigentes atuais ter em mente que esses jovens encaram a diversidade de uma forma natural e essencial na sociedade e enxergam além do que parece ditar o momento, ensejando, em certas situações, ausência de orientação ideológica clara. Têm o perfil flexível, adaptável e criatividade como habilidade principal, aliando tecnologia e aprendizado. A questão é:

Estamos preparados para recrutá-los e recebê-los em nossas Oficinas?

Nessa toada, a perspectiva futura da Maçonaria demanda um novo olhar e contínua inquietação do pensamento, em busca dos progressos necessários, envolvendo todo um universo que espera ser explorado. Precisamos efetivamente valorizar um ponto forte que a Maçonaria aprimorou ao longo da sua caminhada e contempla em seus fundamentos, que é o do protagonismo dos indivíduos, do papel do Maçom junto à sociedade e que se consubstancia nos novos tempos como tendência das organizações do século XXI, que para manterem-se competitivas investem em programas de ajuda aos profissionais para o desenvolvimento das habilidades de liderança embasadas na busca da autoconsciência e da reflexão. Isso é uma realidade e não podemos ficar indiferentes a esse valor da Ordem, que se vislumbra como um fortíssimo apelo para encantar a Geração Z.

A proposta cativante de trabalho da Maçonaria para atrair e engajar essa nova geração deverá demonstrar uma série de desafios e oportunidades de crescimento pessoal, voltados para a formação de lideranças, da ampliação de conhecimentos, de educação cidadã e de desenvolvimento de capacidades que expandam o poder de visão, análise e discernimento, que lhes permitirão lidar com situações da vida cotidiana e conscientização acerca de ações decisivas e transformadoras para que façam a efetiva diferença no seu meio social, em benefício da Família, da Pátria e da Humanidade. Despiciendo ressaltar nosso conceito de fraternidade, que é cartão de visita e marca indissolúvel da Maçonaria, conforme demonstramos no trabalho denominado “O Capital Social da Maçonaria”, que pode ser consultado clicando AQUI .

Por outro lado, um ponto fraco da Maçonaria, merecedor de profunda atenção, é a forma como muitas Lojas são geridas, sem dar a devida importância ao aperfeiçoamento de seus obreiros, descurando na formação de lideranças que apontem caminhos, deixando de explorar toda a base de conhecimentos e instruções disponíveis, contribuindo para o desinteresse, o desencanto e eventuais deserções, resultantes do descompromisso para com os propósitos da Maçonaria.

Na análise dos dados que apontaram as cinco maiores causas de abandono da Ordem, apurados por Silva (2018, p. 20-21), destacam-se a falta de um objetivo definido para a Ordem e que seja obrigatório o seu cumprimento por todos os Maçons e Lojas, a vaidade e o orgulho de alguns irmãos, além de motivos profissionais (transferência/incompatibilidade de horários, etc.) e a existência de discussões inúteis e sem objetivos práticos. Será essa uma barreira intransponível?

Não é segredo maçônico que em algumas Lojas dirigentes com deficiência na habilidade de gestão não permitem que obreiros se destaquem, principalmente os mais jovens, esses da tal Geração Z.

Alguns veteranos, não especificamente mais adiantados em idade, contaminados pela síndrome do “esse cara sou eu”, ensejando uma pompa sabichona, têm dificuldades em continuar a aprender e sair da zona de conforto, pois fazem o que fazem da mesma maneira há anos e continuam a gozar de relativo sucesso entre os pares. Precisam de uma Loja para chamar de sua. E são felizes nesse autoengano, em especial quando ouvem que são repositórios de incomensurável saber maçônico e festejados exemplos a serem seguidos. Possuindo um fraco por elogios, e por vezes protagonizando momentos de fofura, adoram afagos e sempre esboçam um sorriso brejeiro e uma falsa expressão de encabulamento.

Pesquisas no mundo corporativo revelam que o fator idade não é determinante para indicar competência ou a sua falta. Quando bem administrado, o choque de gerações pode ser positivo, notadamente pelo intercâmbio de conhecimentos. Ademais, não existe uma geração melhor que outra, sabendo-se que atitudes, mentalidades abertas e flexíveis compõem os requisitos para superação de adversidades. O importante é não se acomodar e ficar atento às inovações.

No âmbito da Maçonaria, a ampla pesquisa “Maçonaria no Século XXI”, formulada pelo irmão Kennyo Ismail (2018, p.26) evidencia no item 4.3

“a teoria de duas grandes gerações distintas no meio maçônico brasileiro, sendo a mais jovem, de até 46 anos de idade, de aproximadamente 1/3 dos maçons brasileiros atuais”.

Esse segmento, segundo a pesquisa,

“incentiva o questionamento, o exercício da antítese, o que parece ser, de certa forma, mal visto pela geração mais velha. A geração mais jovem também apresenta características mais críticas, tem uma média maior de nível de escolaridade e de hábito de leitura…”.

No grupo mais velho, o estudo verificou que há

“uma preocupação extremamente maior com uma melhor seleção de membros do que o observado na geração mais jovem, atualmente minoritária, o que pode ser um indício da preocupação com o fim da hegemonia”.

O trabalho apresenta uma série de contribuições que deveriam ser avaliadas com carinho pelas nossas Lojas.

Não são raras as situações em que alguns veteranos quando questionados por um Aprendiz ou Companheiro da Geração Z, sobre alguma questão específica, respondem com ar triunfalista que não chegou a hora do consulente saber. Na realidade não sabem exatamente como responder, criando um clima de constrangimento e desânimo daqueles que se mostram inicialmente entusiasmados e ávidos pelo saber maçônico. Tal situação encontra amparo na pesquisa elaborada pelo irmão Kennyo Ismail (2018, p.23), onde ele registra que

“menos de 5% dos maçons brasileiros sabem o que é a Maçonaria”,

com o agravante de que esses desconhecedores “são os mesmos que convidam, sindicam, escrutinam, iniciam e instruem novos membros na Ordem…” (p. 24).

Em nossa realidade dinâmica, temos a concorrência de Lojas que atraem bons obreiros por estarem acima da média e não se contentarem com pouco, sabendo aproveitar as oportunidades na divulgação de suas atividades, como a recente onda de convites e mais convites para reuniões em videoconferências, com uma variedade de temas em discussão. Isso ocorre porque são bem geridas, disciplinadas, ricas nas atividades e observam o cumprimento das regras. Como as notícias correm, e impedidos de chegar ao ótimo individual, muitos iniciados recentes, em especial da Geração Z, munidos de coragem e em busca de desafios, quando possível, procuram outras Oficinas, como acontece frequentemente no mercado de trabalho. O pior é quando, desiludidos, abandonam a Ordem, pois uma eventual propaganda negativa desmotiva a captação de candidatos potenciais.

É reiteradamente repercutida a situação de novos irmãos que demandam mudanças e recebem críticas por sonharem com melhorias e sofrem do descrédito daqueles que apenas desejam uma Loja tranquila, com sessões rápidas, sem muitos desafios e, de preferência, que elimine aqueles que de uma forma ou de outra incomodam com suas presenças ou não sejam lá muito simpáticos, por serem visionários e portadores de um espírito crítico mais aguçado. Tudo muito bem articulado e reverberado na cabeça do Venerável por um restrito grupo dominante, que tenta sob todas as formas manter o nível de influência e controle dos destinos da Loja. Nesse grupo temos aqueles que ameaçam frequentemente deixar a Loja, mas não escondem a carência de bajulação. Esse grupo é incansável e sempre recebe novos adeptos, para desespero do Venerável da vez que começa logo a sonhar com o término de sua gestão.

Mas a história não termina aqui. Como toda moeda tem dois lados, não poderíamos deixar de registrar a situação daqueles irmãos que não conseguem acompanhar o ritmo das Lojas de alto desempenho e logo saem à procura de uma Loja tradicional, amiga, sossegada, que não exige trabalhos e estudos, para se acomodarem à sombra das colunas e apenas curtir o lado social da Maçonaria, o companheirismo. Não raras vezes irmãos com esse perfil costumam levar junto outros que já deram o que tinham que dar ou perderam o prestígio, restringindo-se a decantar feitos do passado, e não se sentem à vontade junto às novas gerações que entram com toda força e vigor. Sem preconceitos e com todo o respeito, que sejam ambos felizes, pois continuamos irmãos!

A prática da Maçonaria Especulativa ensina que o debate é essencial, tanto em Loja quanto nas redes sociais ou círculos de estudos presenciais ou online.

Instruções ministradas burocraticamente, apenas para cumprir tabela e textos lidos eventualmente em nossas reuniões não agregam valor se não são sucedidos de reflexões. Ao não incrementar ou valorizar os temas para estudos e debates, restringimo-nos à perenidade da ritualística e expectativa do ágape que vem após as reuniões presenciais, deixando de explorar toda a base de conhecimentos e instruções disponíveis, que representam um riquíssimo tesouro colocado à disposição de todos.

Pensando na força da Geração Z que dará continuidade aos ossos trabalhos, o Quarto de Horas de Estudos em Loja e as Instruções Maçônicas merecem atenção mais disciplinada por parte dos atuais gestores, dado o alcance e a importância no sentido de preparar o quadro de obreiros, vez que disponibilizam todo um sistema onde se permite explorar variados assuntos, mediante promoção de debates sobre questões sociais de relevo, por meio de ensinamentos que levem ao aprendizado e ao progresso por meio da troca de experiência, que variam de acordo com as competências individuais e em face das vivências e descobertas proporcionadas pelos trabalhos apresentados.

Com as novas facilidades proporcionadas pelos recursos das videoconferências, com alcance inédito, e respeitadas as regras de segurança e o sigilo no que couber, os resultados positivos serão incomensuráveis. Sobre o alcance das instruções, permitimo-nos sugerir a leitura do artigo ‘A instrução maçônica” clicando AQUI .

Inúmeros temas que são caros à Geração Z e inundam o noticiário nacional poderiam ser discutidos sem a necessidade de encontros presenciais, cabendo aos Mestres no exercício da tão propalada Plenitude[2] empenharem-se para enriquecer a Ordem do Dia e tornar os trabalhos mais dinâmicos e atrativos. O escritor Yuval Noah Harari, em sua obra “21 Lições para o Século 21” (2018), apresenta uma resenha de problemas globais e temas palpitantes quando aborda a rapidez das mudanças que se divisam para os próximos anos, a ansiedade geral com relação ao compartilhamento de experiências e informações, novas oportunidades, com a tecnologia transformando vidas e seus riscos potenciais e a forma de trabalhar, os desafios políticos, o desafio de educação das crianças, como reagir e entender o volume de informações produzidas diariamente, com ênfase para a propagação dos discursos de ódio, os avanços e ameaças da inteligência artificial, a disrupção tecnológica e guerras cibernéticas, o colapso ecológico e mudanças climáticas, o conceito de liberdade, o crescimento das desigualdades e a situação de vulnerabilidade econômica de quem já sofre com a pobreza, o isolamento nacionalista, secularismo, e as disputas entre crenças, verdade e pós-verdade.

Harari dá realce às provações difíceis que a humanidade terá que enfrentar com relação às revoluções gêmeas na tecnologia da informação e na biotecnologia, que poderão excluir bilhões de humanos do mercado de trabalho, criando

“uma nova e enorme classe sem utilidade, levando a convulsões sociais e políticas com as quais nenhuma ideologia existente está preparada para lidar” (p.38-39).

Para ele, teremos de explorar novos modelos de sociedade pós-trabalho, de economias pós-trabalhos e de política pós-trabalho [e podemos hoje acrescentar o cenário pós-pandemia], pois os modelos sociais, econômicos e políticos que herdamos do passado são inadequados para lidar com tal desafio (p.59). Para apimentar um pouco mais, acrescenta:

“ou a democracia se reinventa com sucesso numa forma radicalmente nova, ou os homens acabarão vivendo em ‘ditaduras digitais” (p.95).

Não podemos deixar de destacar também a recaída do populismo e formas de governos autoritários que se insinuam. Isso afeta a Maçonaria de alguma forma? É assunto para ser discutido em Loja? Podemos agendar uma “live” para repercutir essas ideias? Isso é viajar na maionese ou passa longe dos nossos interesses quanto a tornar feliz a humanidade? Precisamos estar antenados. É um caso a pensar…..

Outro assunto de suma importância no mundo real e que causa arrepio no meio maçônico é a questão Política. Esse tema pode ser, ao contrário do que se pensa, agregador e cativar a Geração Z, se bem estruturado e conduzido com sabedoria. Conforme abordamos recentemente em artigo apresentado junto à GLMMG, no bojo do “Programa Cultural – Filosofando sobre a Ordem”, cujos resultados serão brevemente publicados, a Maçonaria, como instituição, não pode continuar na velha cantilena de que não deve envolver-se diretamente em temas políticos e nas decisões de interesse do Brasil, candidamente delegando aos Maçons que o façam individualmente, pois um regramento de 1723, editado em outro momento histórico, impede ações mais decisivas em pleno século XXI.

O cuidado é não envolver-se no círculo vicioso da politicagem tradicional e sim na Política com “P” maiúsculo.

O escritor maçônico Raimundo Rodrigues, no seu livro “Sutilezas da Arte Real” (2003), faz uma provocação corajosa ao afirmar:

“Precisamos, isso sim, de algumas mudanças, uma vez que estamos no século XXI e certos Landmarques não mais se coadunam com as nossas necessidades atuais”.

E continua:

“Precisamos, nós, os Maçons, envidar esforços para evitar o marasmo, evitar o dolce far niente” (p.145).

Não podemos olvidar que até a própria Igreja Católica está avaliando mudanças de rumo para não perder fiéis.

A postura de somente caprichar na retórica e bradar que alguém tem que tomar uma providência é muito confortável. Esse comodismo e o obsequioso silêncio político da Maçonaria do Brasil precisam ser quebrados. Afinal, sabemos ou não dialogar? Temos medo de expor nossas ideias e vê-las contestadas? Se sim, então tudo é um faz de conta. Falta o básico, a essência.

Aqueles gestores que são lentos, míopes ou orgulhosos demais para enfrentar a realidade e adaptarem-se aos novos tempos certamente serão responsabilizados pelas sequelas que deixarão como herança.

Sem sofisma, equivoco ou reserva mental que possam criar obstáculos à revisão de conceitos, é chegada a hora de a Maçonaria repensar sua atuação, decretar a sua independência e de agir com responsabilidade, assumindo o papel que já foi sua marca registrada e encantou a juventude no seu passado glorioso: revolucionária, decisiva, incomodativa, marginal em outros momentos.

Defender que a Maçonaria seja apenas uma escola de pensamento recheada de sábios, onde se cultive exclusivamente moral e ética e acalente o sonho de que seus princípios e valores sejam amplamente conhecidos e que forças do além inspirem os tomadores de decisão, sem se envolver diretamente, apenas divulgando moções de censura ou de apoio, e ficando na torcida para que a justiça e os bons costumes prevaleçam, é mais do mesmo. Como se diz no popular: é continuar a encher linguiça e fartar-se em banquetes ritualísticos. Bauman (2001, p.167) faz uma provocação:

A mais pungente e menos respondível das questões dos nossos tempos de modernidade líquida não é “o que fazer?” (para tornar o mundo melhor ou mais feliz), mas “quem vai fazê-lo?”.

Portanto, para atrairmos a atenção das novas gerações impõe-se fixar nossas esperanças e expectativas no potencial dos nossos quadros de obreiros, que representam a força da qual dispomos neste momento e que precisam ser mantidos, reforçados e motivados constantemente, para fazerem o trabalho de recrutamento junto a essa força jovem que viceja em nossa sociedade e enfrentarem as provocações que teremos pela frente.

No trabalho sobre “Maçonaria do Futuro: Gestão Maçônica” (Silva et al., 2019, p. 18), os autores reproduzem a opinião de um entrevistado que remete à questão da motivação:

“A Maçonaria, ao contrário do que muitos acreditam, é uma instituição voluntária e depende da participação ativa de seus integrantes para poder cumprir com seus objetivos. Para uma entidade desta natureza, o grande desafio é ser atraente para captar talentos e capaz de manter o nível de motivação para retê-los, compreendendo que não é um ato, mas um processo continuado”.

Então, em frente!

Vale sublinhar no referido estudo uma afirmação que nos serve de alento e também de preocupação:

“é muito improvável que ela [a Maçonaria] possa vir a deixar de existir, mas seus valores e fraternidade não podem ser negligenciados, sob pena de comprometer os pilares de sustentação que a mantém durante séculos, e ela se tornar obsoleta tanto para os Maçons, quanto para a sociedade, aproximando-se das atividades de um clube de serviço” (p. 44).

Por oportuno, contrariando expectativas e os críticos de plantão, o Mestre Raimundo Rodrigues (2003), do alto de sua sapiência, faz um alerta:

“Atenção, Críticos! é preciso que os erros sejam vistos, mas é necessário também que as virtudes sejam colocadas em relevo” (p.146).

E com a sua indiscutível autoridade afirma:

“Não temos dúvida de que a Maçonaria cresce em número de Lojas, em número de membros, sobretudo, isto é inegável, cresce em qualidade cultural dos Maçons brasileiros, haja vista o número de obras publicadas nos últimos 20 anos” (p. 133).

Confirmando esse sucesso, o Site da CMSB (https://cmsb.org.br) registra que as 27 Grandes Lojas já contam com mais de 3.000 Lojas Regulares e número superior a 120.000 membros ativos.

Reforçando seu argumento, Mestre Raimundo Rodrigues enfatiza uma realidade animadora:

“Um outro ponto que nos mostra a pujança da Maçonaria brasileira é o interesse que as Lojas de vários recantos do Brasil mostram pelo aprimoramento cultural de seus Obreiros. Seminários, cursos, palestras são realizados por toda a parte e já é expressivo o número de palestrantes que viajam de um lado para o outro do Brasil, atendendo ao chamado que lhes é feito por Potências e por Lojas” (p.134).

Ou seja, temos trabalho sério e competente sendo realizado e agora, pela experiência dos novos tempos, nem é mais necessário o deslocamento de um Oriente a outro, nem mesmo entre Lojas, tendo em vista as facilidades dos alegres e prestigiados encontros virtuais.

Como fartamente reconhecido na literatura maçônica e nos discursos de autoridades do meio, indispensável investir nas entidades paramaçônicas, incorporar nossas famílias, incrementar a convivência dentro e foras das Lojas, compartilhar atividades sociais, incentivar a participação de maçons em organizações de relevo social, realizar seminários e debates públicos sobre temas de interesse da sociedade civil, promover e apoiar campanhas filantrópicas, publicar manifestos, levar os princípios da Maçonaria junto ao ninho da Geração Z, os centros acadêmicos, torná-la visível e atrair candidatos potenciais, idôneos, de reputações ilibadas e tementes a Deus, já que não dispomos de um guichê de inscrições, sabendo-se que a juventude simboliza futuro e esperança.

Assim, cabe a cada um de nós avaliarmos erros e acertos do passado e meditar a respeito da real Maçonaria que pretendemos legar às futuras gerações, que certamente colherão os frutos que hoje plantarmos, caso ela sobreviva, se e somente se superarmos os obstáculos atuais.

É uma questão de atitude, pois o momento de que dispomos para agir é o agora, pois a nossa geração pode ser a última a ter a oportunidade de fazer as mudanças necessárias. Não podemos nos dar ao luxo de pedir ao mundo que espere ou pouco, pois nós os maçons ainda estamos decidindo.

Veronica A. Shoffstall, em um belo poema denominado “Depois de um tempo”, indevidamente atribuído a Shakespeare, afirmou:

“um dia você aprende….a construir todas as estradas hoje porque o terreno de amanhã é demasiado incerto para planos e futuros têm o hábito de cair no meio do voo….”

Apenas para reforçar o sentido da urgência que se nos afigura, permitimo-nos agregar mais uma metáfora muito bem colocada por Bauman (2001, p.70), sobre uma fala da Rainha Vermelha em Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol:

“Agora, aqui, veja, é preciso correr o máximo que você puder para permanecer no mesmo lugar. Se quiser ir a algum outro lugar, deve correr pelo menos duas vezes mais depressa do que isso!”.

Sabe-se que tempo é o nosso recurso mais escasso.

Considerando a afirmação do físico dinamarquês Niels Borh de que “fazer previsões é difícil, especialmente sobre o futuro”, sendo certo que um dia ele chega,

não podemos arregar e permitir que nossas Lojas se engessem e criem resistência a mudanças e permaneçamos aferrados a uma forma de pensar, de olhos fechados à evidência dos fatos e de que viveremos felizes para sempre, manipulando e sendo manipulados, permanecendo sorrateiramente “à ordem” no aguardo de reconhecimentos e glórias, certificados, homenagens, fotos bacanas em revistas e poses vitoriosas no Facebook, exibindo nossas alfaias coruscantes, e comprometendo seriamente a dinâmica das Lojas e o futuro da Maçonaria.

Evidentemente, não podemos descurar das tradições, do legado recebido e a entregar às próximas gerações.

Reiterando reflexão contida no artigo acima citado, dentro do “Programa Cultural – Filosofando sobre a Ordem”, da GLMMG, evidencia-se imprescindível termos consciência de que as instituições hoje não agem solitárias. A estratégia são as parcerias, habilidades e talentos se associando e potencializando esforços. Depreende-se crucial a aproximação entre as Potencias Regulares para desenvolverem um plano conjunto, não penas com foco em resultados de curto prazo, mas de construir uma Maçonaria vibrante e um país melhor para a ávida geração de brasileiros que aumenta dia a dia, com demandas inéditas.

Para isso precisamos sair da nossa caverna confortável e aquecida e mostrar a cara, pois

“ninguém acende uma lâmpada para cobri-la com uma vasilha ou colocá-la debaixo da cama. Ele a coloca no candeeiro, a fim de que todos os que entram vejam a luz” (Lc 8, 16).

Levemos, portanto, nossa luz ao mundo. Enfim, está em nossas mãos pavimentar o caminho que será trilhado pelos futuros obreiros. Portanto, para que sejam superadas as barreiras que hoje se apresentam para a efetiva melhoria de desempenho, mantendo a credibilidade até então conquistada e valorizar ainda mais a Maçonaria, permitimo-nos sugerir, como dever de casa e ponto de partida, o acolhimento e discussão sobre o diagnóstico e as propostas para minimizar eventuais deficiências, conforme o excelente trabalho “Maçonaria do Futuro: Gestão Maçônica” (Silva et al., 2019 – disponível no Site da CMSB – cmsb.org.br), que certamente ensejarão melhores perspectivas na longa e desafiadora jornada que teremos pela frente.

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da Loja Maçônica Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida e da Academia Mineira Maçônica de Letras.

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Notas

[1] Geração X: nascidos após o baby boom, pós-Segunda Guerra Mundial, a partir dos anos 1960 até o final dos anos 1970; Geração Y: nascidos após o início da década de 1980 e até 1995, igualmente conhecida como geração do milênio. (Fonte Wikipédia)

[2]Sugestão de leitura do artigo “Plenitude Maçônica”, em: https://opontodentrodocirculo.wordpress.com/2018/12/13/plenitude-maconica/

Referências Bibliográficas

A BÍBLIA SAGRADA. Edição Pastoral: São Paulo: Paulus, 1990;

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. RJ: Zahar, 2001;

GLMMG. Ritual Grau 1 – R ∴E ∴A ∴A ∴ Belo Horizonte: 2017;

GOMES, Márcio dos Santos. O Capital Social da Maçonaria. 2015. Disponível em: https://opontodentrodocirculo.wordpress.com/2015/09/04/o-capital-social-da-maconaria/. Acesso em 13.01.2020;

______________________________ A Instrução Maçônica. 2016. Disponível em: https://opontodentrodocirculo.wordpress.com/2016/02/23/a-instrucao-maconica. Acesso em 13.01.2020;

HARARI. Yuval Noah. 21 Lições para o Século 21. São Paulo: Companhia das Letras, 2018;

ISMAIL, Kennyo. CMI – Maçonaria no Século XXI. 2018. Disponível em: https://www.noesquadro.com.br/wp-content/uploads/2018/04/RELATÓRIO-CMI.pdf.  Acesso em 12.01.2020;

NOVAES, Tiago et al. Geração Z: Uma Análise sobre o Relacionamento com o Trabalho. 2016. Disponível em:

http://www.ucs.br/etc/conferencias/index.php/mostraucsppga/xvimostrappga/paper/viewFile/4869/1569. Acesso em 16.01.2020;

RODRIGUES, Raimundo. Sutilezas da Arte Real. Londrina: Ed. Maçônica “A Trolha”, 2003;

SILVA, José Eduardo. Evasão Maçônica: Análise da situação da GLMMG. 2018. Disponível em: http://www.glmmg.org.br/Gestao.Macons/assets/files/Pesquisa-evasao-GLMMG.pdf. Acesso em 12.01.2020;

SILVA, José Eduardo et al. Maçonaria do Futuro: Gestão Maçônica. 2019. Disponível em: http://www.glmmg.org.br/Gestao.Macons/assets/files/Gestao_Maconica_final.pdf. Acesso em 12.01.2020. Disponível na Biblioteca da CMSB em: https://cmsb.org.br/biblioteca/.

Mito da caverna: um convite permanente à reflexão

Mito da caverna - abstracta - Filosofia, Sociologia e Psicologia

Mudanças bruscas tendem a assustar e é natural que vários de nós estejamos apreensivos com as notícias que chegam como prenúncio de um futuro que, para muitos, não existirá. Cada um tem se equilibrado na sua corda bamba para não sucumbir diante de uma realidade tão dolorosa. Eu, por exemplo, recorri à leitura e à Filosofia, que sempre foram meus alicerces, sobretudo, em momentos como este, propício a reflexões.

Nesta primeira etapa da quarentena, lancei um olhar mais aprofundado para o Mito da Caverna de Platão e gostaria de compartilhar com vocês algumas questões. Mas antes, os motivos da minha escolha. O primeiro ponto é que o filósofo grego que viveu entre o século III e IV antes de Cristo é um pensador atual e estamos imersos na mesma realidade descrita por esse mito 2.400 anos atrás. É, no mínimo, curioso que ele traga questões muito apropriadas à situação particular da atual política brasileira.

Em “A República” (o mito está no capítulo VII, também chamado de livro VII, parte em que ele discorre sobre o conhecimento), quando Platão discute as formas de governo, da decadência política, parece que ele leu os jornais de hoje.

O que diz o Mito da Caverna?

O diálogo travado entre Sócrates, personagem principal, e Glauco, seu interlocutor, trata da teoria platônica sobre o conhecimento da verdade e a necessidade de que o governante da cidade tenha acesso a esse conhecimento.

Segundo a alegoria, alguns prisioneiros são mantidos desde a infância em uma caverna, no seu nível mais profundo, onde estão acorrentados e virados de costas para uma pequena parede com uma fogueira acesa e, por detrás dela, está a saída. Por ali passam homens transportando objetos que se transformam em sombras projetadas na parede em frente aos prisioneiros, que sequer têm noção de sua condição de confinamento. Estas sombras e o eco dos sons produzidos pelas pessoas de cima são todo o conhecimento que eles têm do mundo.

O caminho natural seria ali permanecerem por toda a vida. Porém existem coisas dentro de nós que ultrapassam a razão e isso é um mistério da condição humana. Lá pelas tantas, algo dentro de um dos prisioneiros começa a dizer que a vida não pode ser só aquilo. “Intuo que deve ter algo mais profundo para fazermos na vida”. É um “clique interno” que não tem explicação, mas pelo qual todos nós já passamos. Então certo dia ele se liberta.

Quando esse jovem arrebenta a corrente e olha para trás, percebe que tudo o que ele até então havia tomado como realidade eram sombras, uma mentira. Ao olhar para cima, ele vê uma luz lá no fundo, pequenina, muito mais forte que a fogueira. Pensa: “Se a luz dessa fogueira provocou tudo isso, aquela ali é que deve ter a verdade”. Não desiste até chegar lá. Cai mil vezes, levanta mil e uma e consegue sair com muito sacrifício e esforço. Ele se libertou por mérito próprio.

Acostumado com a escuridão, a luz do sol não o permite enxergar num primeiro momento.  Mas à medida em que vai se acostumando com a luminosidade, ele começa a perceber a natureza e a infinidade do mundo exterior. Esse homem não tinha tudo para ser feliz? Porém ele não pode usufruir dessa felicidade sabendo que toda a humanidade sofre e ele não fez nada. Ele é um homem e a virtude fundamental do ser humano é a fraternidade. Ele retorna.

O percurso íngreme faz com que ele caia várias vezes até chegar novamente ao estágio inicial, todo arranhado e machucado. Ao contar aos seus parceiros de uma vida toda o que havia acontecido e o que ele encontrara fora da caverna, ninguém acredita. “Se você voltou de lá assim, eu é que não quero conhecer esse lugar. Você só pode estar louco!”.

Se uma pessoa não está nem desconfiada que o esquema da caverna é uma ilusão, nada que se fale fará com que ela acredite, porque falta esse “clique interno”, não tem como ser imposto por outra pessoa. Quem está curtindo o espetáculo é capaz de agredir e destruir quem pensa de forma diferente, como fizeram com muitos filósofos ao longo da História.

Na visão de Platão, esse homem que se libertou, quando busca a sabedoria para si, é um filósofo. Quando ele tem necessidade de trazer consigo a humanidade e deixar pegadas, ele se torna um político verdadeiro, que na expressão pura, é um homem que conquistou tal nível de consciência que, para ajudar a humanidade, ele tem que descer. E só faz isso por uma única razão: compaixão.

Se uma pessoa deseja um posto no governo é porque estava abaixo do que é exigido para merecer esse posto. Isso significaria ganho para ela. O político verdadeiro não tem esse desejo, tem “sacro-ofício”. Ele abre mão da sua posição e desce até a caverna para conduzir a humanidade, porque sabe que se ele não o fizer, a humanidade vai ficar perdida ou vai ser explorada por alguém. Quer um posto de governo? Deseje estar abaixo.

Tudo que você leu até aqui sobre o Mito da Caverna é um resumo do que explica brilhantemente a professora Lúcia Helena Galvão em suas aulas. A partir de agora, compartilho um pouco do efeito desse conhecimento sobre minhas reflexões e vivências.

Uma ostra que não foi ferida não produz pérolas

Vocês já devem ter ouvido essa frase, que traduz exatamente como me sinto. As pérolas são resultado da entrada de uma substância estranha ou indesejável no interior da ostra, como um parasita ou um grão de areia. Ou seja, as pérolas são produto da dor.

Fazendo um paralelismo com a minha realidade, essa substância que, de tão recorrente, não tem sido tão estranha assim, se chama cortisona, o hormônio do estresse. Eu ando sentindo muita raiva e dor – no coração e na alma -, como a ostra sendo invadida por um corpo estranho. Já havia estudado o Mito da Caverna na faculdade de jornalismo. Desde então, recorri a ele algumas vezes e, nesses dias de isolamento social, comecei a assistir a palestras sobre filosofia, o que me fez produzir algumas reflexões que são a minha produção de pérolas.

Muitas informações contidas nessa alegoria denunciam a alienação humana, presente naqueles que insistem em negar a gravidade do momento em que estamos atravessando. Até quando alguns escolherão o fundo da caverna? Será que é uma pré-disposição ao engano ou puro comodismo? Sim, manter-se na ignorância é muito mais confortável do que buscar o conhecimento, que implica em muito sacrifício.

Diversas vezes já ouvimos dizer que a voz do povo é a voz de Deus. Isso quer dizer que, se tudo mundo pensa de tal forma, eu devo estar errado, como o prisioneiro que se atreveu a se libertar das correntes e conhecer o mundo lá fora. Seus parceiros o acusaram de estar louco, porém, na Idade Média todo mundo acreditava que a Terra era plana e estavam todos errados, só não Galileu Galilei e Giordano Bruno, como lembra muito bem Lúcia Helena em sua aula.

É impressionante que ainda hoje existam os terraplanistas, que contestam o que a Ciência já comprovou há séculos. É estarrecedor que a voz do povo queira desafiar o que vários cientistas e especialistas no mundo inteiro recomendam quanto às medidas que se devem adotar para combater o novo coronavírus. Ainda que não acreditem, contra fatos não há argumentos. Pessoas estão morrendo nos quatro cantos do planeta e, se não fosse a imprensa informando, já estaríamos – todos nós – condenados à morte.

“Em diversas épocas, não foi a maioria quem fez História. Sócrates era um só, Platão era um só, Galileu era um só”, ressalta a professora. No mesmo caminho parece estar indo […] tantos cientistas que neste momento trabalham, cada um, para encontrar uma vacina que nos tire desse algoz. Devo lembrar que os cortes de investimento na área de ciências, que começaram no segundo mandato da presidente Dilma Rousseff (PT), seguiram na gestão de Michel Temer (MDB) e se acentuaram com Jair Bolsonaro (sem partido), impediram a continuidade de pesquisas. Quem encontrar a cura para a doença responsável pela maior pandemia do século entrará para os anais da história. Será uma pessoa, não manada.

Vivemos tempos sombrios e só o verdadeiro conhecimento será capaz de nos libertar das amarras da ignorância. Não se iluda. Esse caminho é solitário e sair da caverna vai exigir muito esforço próprio, porque o verdadeiro conhecimento está acima do senso comum. Não na mensagem falsa que você recebe no seu WhatsApp e passa para frente. Não está naquele “influenciador digital” que vai para o seu canal e expressa sua opinião construída em cima de sombras.

Mas sempre valerá a pena lutar pela sabedoria, pois a recompensa é muito valiosa. Com ela, você aprende a formular seu pensamento, a ter senso crítico e, a partir do momento em que isso acontece, você deixa de fazer parte da grande massa de manobra. Você se liberta! A crítica pela crítica todo mundo sabe fazer, já a crítica fundamentada em bons argumentos é rara. E você será capaz de fazê-la. Lembre-se: conhecimento é a luz que vai te guiar em todas as suas decisões, que precisam ser, no mínimo, racionais. Hoje vivemos o tempo da paixão cega. Você saberá distinguir o que é falso do que é verdadeiro e vai ser mais consciente nas próximas eleições.

“Mitos são atemporais porque falam do homem, não de um tempo passado. Por isso, qualquer um que o ler se encontra lá dentro e sabe exatamente o momento em que ele está vivendo dentro daquela narrativa. Enquanto o homem for homem e lutar contra as mesmas sombras, aquele mesmo mito funcionará”, finaliza a professora Lúcia Helena Galvão, sempre generosa ao compartilhar conosco seus conhecimentos.

Por fim, um conselho. Não podemos cair na armadilha das paixões. Raiva, revolta e tristeza são emoções recorrentes neste momento. Pare, reflita, busque informações em fontes credíveis. Produza  a sua pérola verdadeira. O opinionismo raso não vai mudar em nada a realidade.

Autora: Diana Leiko

Fonte: Congresso em foco

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Uma abordagem ao percurso inicial da Maçonaria especulativa

Notícias Filhos do Arquiteto ✡: MAÇONARIA - OS 33 GRAUS DO RITO ...

Preâmbulo

As notas que vos apresento tiveram a sua gênese nas dúvidas que nos foram surgindo no que respeita quer à eventual “passagem de testemunho” da maçonaria operativa para a especulativa, quer aos reais motivos que terão estado por trás da constituição da Grande Loja de Londres em 1717, considerada como o marco fundacional da moderna maçonaria especulativa.

À medida que ia consultando diferente documentação, uma leitura mais atenta de alguns estudos e livros referidos na Bibliografia, foi importante para obter uma nova perspectiva de um dos capítulos mais interessantes da historiografia maçônica, alvo de diversas interpretações históricas de consistência variável, consoante os círculos maçônicos e os objetivos e tendências que perseguem.

Ficou mais claro para nós que a moderna maçonaria tem inequívocas raízes escocesas, que a partir do Norte influenciaram a Inglaterra e a Irlanda, sendo que os ingleses, através da criação da Grande Loja de Londres, vieram a recolher os louros da sua gênese. No entanto, a constituição da GLL traduziu também a intensa luta entre os blocos católico/stuartista e protestante/hanoveriano, que no fundo apoiavam duas concepções distintas da Maçonaria. As Lojas maçônicas foram utilizadas durante essa época para veículo dessa disputa, que se estendeu às terras francesas, iniciando a difusão da Maçonaria especulativa pelo continente europeu, com o exílio dos Stuarts.

Introdução

O fato de se questionar a eventual ausência de ligação direta entre a Maçonaria operativa e a especulativa, sendo uma “heresia” face às fontes tradicionais, não deixa de ser simultaneamente desafiador e estimulante. No entanto e independentemente da teoria seguida, restam poucas dúvidas de que a Maçonaria Especulativa se constituiu na Grã-Bretanha, no decurso do século XVII, em condições ainda incertas e historicamente muito pouco documentadas. No entanto quando procuramos evidências relativamente ao seu desenvolvimento, verificamos que são abundantes na Escócia e quase totalmente ausentes em Inglaterra.

Uma das primeiras abordagens diferenciadas das correntes tradicionalistas de grande parte dos historiadores ingleses do final do século XIX (Gould, Hughan e outros), é dada pelo trabalho de dois grandes historiadores ingleses da Maçonaria, Douglas Knoop (professor de Economia na Universidade de Sheffield e maçom) G. P. Jones (professor de História Econômica também em Sheffield, mas não maçom) nos finais dos anos trinta do século passado.

Contudo somente a partir de meados dos anos 70 começou a ser dada a devida atenção aos seus estudos e pesquisas. No prólogo da primeira edição da sua obra principal “The Genesis of Freemasonry”, salientam que:

“Embora tenha sido até agora habitual pensar a história da Maçonaria como uma questão totalmente à parte da história, justificando um tratamento especial, pensamos que se trata dum ramo da história social, do estudo de uma instituição social particular e das ideias que estruturam esta instituição, que se deve abordar e escrever exatamente da mesma forma que a história das outras instituições sociais.”

Esta abordagem tem vindo a ser seguida por alguns dos atuais historiadores e estudiosos maçônicos, como por exemplo R. Dachez e David Steveson, entre outros, que salientam que esta escolha incontornável está longe de ser unanimemente partilhada por numerosos autores que se “adaptam” às ocasiões da história maçônica, da mesma forma que a história de certas religiões e igrejas, tratada com objetividade, implica a contestação de alguns fiéis, que se recusam a olhar a sua história. Do mesmo modo, o que designa por “história laica da maçonaria” não alcança o espírito de todos os maçons, sendo um escolho que todo o historiador maçônico deverá estar consciente.

Esta corrente preconiza o caminho da aproximação “científica” (ou “autêntica”), segundo a qual uma teoria deve ser fundada a partir de fatos ou de documentos que a sustentem, por contraponto à aproximação “não autêntica” que se esforça por colocar a Maçonaria na tradição do Mistério, procurando, por um lado ligações entre os ensinamentos, as alegorias e o simbolismo e, por outro, as diversas tradições esotéricas (vide John Hamill – bibliotecário da Grande Loja Unida de Inglaterra, durante vários anos, na sua obra “The Craft. A history of English Freemasonry”).

Relativamente à gênese da maçonaria especulativa, a tese mais vulgarizada e partilhada quer pela esmagadora maioria da documentação maçônica, quer entre os Maçons, é a chamada teoria da “transição“, que preconiza a passagem gradual das Lojas operativas a especulativas, devido às transformações econômicas que levaram ao declínio das grandes construções, a partir dos finais do Renascimento.

Deste modo, indivíduos estranhos ao ofício, provenientes da nobreza ou com importantes cargos civis ou intelectuais de prestígio, movidos por interesses especulativos de base neo-platônica, alquimista ou Rosa-Cruz, teriam efetuado uma entrada progressiva nas lojas operativas em estado pré-moribundo, aproveitando as estruturas criadas e os rituais praticados, para desenvolverem os seus objetivos e tomarem o respectivo controle.

Quanto à constituição da Grande Loja de Londres, aprovada numa assembleia constituinte por 4 lojas existentes na cidade, em 24 de Junho (dia de S. João) de 1717, não terá sido provavelmente um ato criativo “espontâneo”, mas justificado por perspectivas politicas e sociais específicas, já que sempre nos pareceu de difícil sustentação histórica e social a teoria da espontaneidade, de per si.

As Lojas “antigas” da Escócia

Na sua obra principal The-Origins-of-Freemasonry-Scotland-s-Century-1590-1710, David Steveson, conclui que a contribuição medieval e renascentista, para a organização e história da Ordem, propiciou alguns dos ingredientes essenciais à formação da Maçonaria, mas o processo de combinação desses com outros ingredientes só ocorreu por volta de 1600 e teve lugar na Escócia .

É geralmente aceito pelos historiadores que os “Estatutos de Shaw”, no reino da Escócia, são o primeiro documento conhecido onde são lançadas as bases organizativas do sistema de Lojas da Maçonaria operativa, que veio posteriormente a servir de modelo à estrutura das Lojas especulativas.

Este documento resultou da reunião realizada em Edimburgo, em 28 dezembro de 1598, convocada e dirigida por William Shaw, Supervisor Geral dos Maçons e intendente das edificações do rei da Escócia, durante o reinado de James VI (James I da Inglaterra). Foi completado em 1599 por uma segunda série de regulamentos para dar solução à reivindicação da presença da Loja de Kilwinning. Estes estatutos consagravam a organização territorial das lojas por cidades e por regiões, impondo a eleição anual dos Oficiais.

São essencialmente regras práticas estabelecidas pelos mestres da corporação sediados em Edimburgo, tornadas mandatórias para todos os membros. Os dois primeiros artigos instruem e regulam a obediência, antecipando a iniciação maçônica, relativamente à qual não são dados detalhes, mencionando unicamente o juramento (“taking of the oath”) e a transmissão da “palavra de maçom” (“mason word”). O manuscrito conhecido como “Edinburgh Register House”, datado de 1695 explicita que o juramento é efetuado sobre a Bíblia e o candidato “jura por Deus”, S. João, o esquadro e o compasso.

Segundo P. Naudon, os estatutos de 1599, definem também a jurisdição da Loja e estabelecem as taxas mandatórias. O Mestre, aqui entendido como grau sobretudo honorífico, ou guardião (“Warden”) tem o poder de verificar as qualidades e aptidões dos companheiros, bem como a capacidade de expulsar os não cumpridores do juramento, podendo também nomear um secretário. Estes estatutos utilizam os termos, aprendiz ( “journey man” / mais tarde “entered apprentice”) e Companheiro (“Fellow-Craft”), o que prova a existência de pelo menos dois graus na Maçonaria operativa escocesa da época (século XVII).

A Maçonaria emergiu pois na Escócia no século XVII baseada em Lojas, organizações secretas ou semi-secretas/discretas de iniciados, combinando sociabilidade e fraternidade com segredos elaborados e esforçando-se genericamente em trabalhar para regular a entrada de artífices da pedra (“stonemasons“) e regulamentar as respectivas práticas de trabalho. Efetuavam rituais de iniciação e identificação descritos nos catecismos.

No decurso desse século XVII, alguns homens de níveis sociais distintos, começaram a ficar intrigados e simultaneamente curiosos com os segredos dos “stonemasons” e o reconhecimento de que a sua Ordem tinha um estatuto intelectual único, tendo alguns desses “outsiders” sido iniciados em lojas. Existem evidências de que certas personalidades próximas das correntes iluministas e Rosa-Cruzes da época, entre os quais Robert Moray, passaram e/ou debruçaram-se sobre estas organizações. A organização discreta/secreta e a existência de certos ritos despertaram-lhes interesse, mesmo que a sua passagem por elas, durante todo o século, tenha sido extremamente rara, esporádica ou efêmera.

Entre os fatos que evidenciam fortemente que tenha sido a Escócia preponderante no aparecimento da moderna Maçonaria, desde o final do século XVI e sobretudo no século XVII, apontam-se a existência dos registos mais antigos de:

  • utilização do termo “Loja” no sentido moderno do termo e evidência de que estas instituições existiam permanentemente;
  • Organização de lojas em âmbito nacional;
  • Registos oficiais e atas de reuniões efetivas;
  • Exemplos de “não-operativos” (“no working stonemasons”) que se juntaram às lojas;
  • referências à “palavra do Maçom” / “mason word“;
  • catecismos maçônicos expondo a “palavra do Maçom” e descrevendo iniciações maçônicas;
  • Evidências ligando o que era realizado pela loja com ideais éticos específicos, expostos pela utilização de símbolos;
  • Utilização de dois graus ou níveis na maçonaria;
  • Utilização dos termos “entered apprentice” e “fellow-craft” nesses graus;
  • Evidência da emergência dum terceiro grau (loja de Edimburgo), pela utilização de “masted’ como estatuto no mínimo diferente de “fellow-craft
  • Começo da percepção, por alguns, da maçonaria como “sinistra” ou “conspirativa”.

Ainda segundo Steveson, as reuniões nas Lojas ocorriam em média uma a duas vezes por ano, tendo a de Edimburgo, entre 1601 e 1710, reunido em média duas a três vezes por ano, o que representa um excelente registro, visto tratar-se duma importante loja urbana.

Percorrendo os registos do século XVII, imediatamente anteriores ao da criação da Grande Loja de Londres, Steveson e Naudon, comprovaram que a maçonaria escocesa possuía já um grau de organização e expansão nacional muito mais consistente do que acontecia em Inglaterra na mesma época.

Existe evidência de que em 1710 estavam ativas 25 lojas na Escócia, tendo mais algumas sido referenciadas ao longo do século, mas estando inativas ou extintas nessa data. Destas 25, 20 continuaram ativas e destas últimas, atualmente 80% ainda existem, o que constitui um registo assinalável.

Há contudo dois aspectos fundamentais, face à moderna maçonaria, que não existiam na Escócia no século XVII:

  • Não existia nenhuma autoridade central de supervisão, como uma Grande Loja (apesar de Schaw e alguns dos sucessores o tentarem criar esse figura, numa forma mais estatutária que efetiva), embora existisse uma rede de lojas
  • Inexistência de lojas compostas unicamente por não-operativos.

Em 20 de maio de 1641, alguns membros da loja de Edimburgo que estavam na época em Newcastle com o exército “conjurado” escocês (na guerra com a Inglaterra), admitiram como “maçom aceito” o honorável Robert Moray (juntamente com Alexander Hamilton, também general revoltoso), quartel-mestre geral do exército escocês, figura notável à época, considerado um dos “pais” da maçonaria especulativa e um dos grandes impulsionadores da Royal Society. Esta prática manteve-se ao longo do tempo, propiciando a formação de lojas nos regimentos escoceses e irlandeses. Mais tarde referiremos o seu importante papel no estabelecimento da moderna maçonaria no continente europeu, em especial na França.

A liberdade e independência das Lojas propiciaram a formação de algumas constituídas somente por membros não operativos. Segundo Naudon, por volta de 1670, mais de três quartos dos membros da Loja de Aberdeen não eram maçons profissionais. Os Estatutos de Shaw especificavam que estes membros estavam isentos da caixa de coleta, da marca, do banquete e do “pint” de vinho.

A dificuldade de generalizar o comportamento das Lojas, já que diferem consideravelmente em tamanho e composição, aplica-se também aos seus membros.

Os “não operativos ou “gentleman-masons” tinham como atrativo nas Lojas um ideal de amizade, uma mistura social informal (embora dentro duma instituição formal) e o banquete anual podendo adicionalmente compreender traços do antigo, do secreto, do misterioso e do ritualístico.

Parece ter sido esta a causa, mas podemos questionar o real motivo do aparecimento destas lojas pré- especulativas, sendo que está comprovado que a Escócia foi um dos países em que a maçonaria operativa mais persistiu de forma organizada, o que comprovadamente não aconteceu na Inglaterra.

É curiosa a análise do percurso de duas das figuras mais notáveis da época, relativamente às quais existem provas da sua iniciação, sem que no entanto existam dados continuados da sua presença em lojas. Quando Robert Moray, como referimos atrás, foi admitido na Loja Mary’s Chapel de Edimburgo, consta nos arquivos da Loja a seguinte minuta:

“Em Newcastle, a 20 de maio 1641. Neste dia, um certo número de mestres e outros estando regularmente reunidos, admitem o muito distinto Robert Moray, Mestre General de Quartel do exército da Escócia, o que foi aprovado por todos os mestres maçons da loja de Edimburgo que colocaram as suas assinaturas ou as suas marcas”.

Quanto a Elias Ashmole (antigo capitão da artilharia real e fervoroso stuartista), foi iniciado cinco anos depois de Moray, em Warrington (também a norte da Inglaterra), numa loja com mais características de se tratar de uma loja escocesa deslocalizada do que uma loja inglesa. Verifica-se pois que duas das principais figuras precursoras da nova maçonaria eram ambos fervorosos partidários dos Stuarts. Poderá isto ter algum significado? Provavelmente terá.

Steveson mostrou inequivocamente que esta organização profundamente inovadora, era estritamente específica da Escócia, sem que nenhum sistema idêntico tenha existido anteriormente. Como refere Dachez, contrariamente às versões clássicas, o aspecto mais importante deste trabalho foi evidenciar que a característica da “aceitação”, expressão tipicamente inglesa, utilizada para justificar a penetração dos especulativos nos operativos, jamais foi utilizada na Escócia durante o século XVII.

A partir deste trabalho, por consulta dos registos disponíveis das lojas, é possível identificar e estudar os 139 membros não operativos recebidos nas Lojas escocesas entre 1637 e 1717. É no mínimo curioso observar que o pastor Anderson, escocês, filho do secretário da Loja escocesa de Aberdeen, ignora por completo estes escoceses não-operativos. Será que o motivo principal terá sido o de constituírem, na sua maioria, fervorosos stuartistas?

Durante o reinado de Carlos I, uma dúzia de membros “gentleman” admitidos na Loja Mary’s Chapel de Edimburgo pertenciam à corte do Rei. Destes, só Robert Moray voltou à loja em 1647. O panorama das lojas escocesas majoritariamente operativas irá mudar consideravelmente a partir da morte de Carlos II. O quantitativo de personalidades não operativas recebidas nessas lojas, desde a ascensão ao trono de James II em 1685, eleva-se a mais de uma centena até 1717, aproximadamente o quíntuplo dos recebidos na totalidade do reinado de Carlos II, num período de tempo sensivelmente equivalente.

Na loja de Dunblane em 1696, por exemplo, dos 13 membros nomeados em ata de reunião, somente 4 são operativos, sendo a maioria constituída por nobres, quase todos ligados à causa stuartista. Steveson aponta que os membros dessa loja muito seletiva eram relativamente assíduos, mas não se preocupavam muito com o “ofício”, até finais de 1710, quando o predomínio passou para os operativos. Teria a ver com o final das “esperanças” dos stuartistas em reconquistarem o trono, como sugere Louis Trébuchet?

A prática comprovada, mas excepcional, das Lojas receberem a titulo honorário pessoas exteriores à profissão, que raramente lá voltavam, terá produzido, segundo Dachez, um conjunto de “maçons livres” com a possibilidade de transmitir uma Maçonaria que foram transformando em função dos seus próprios objetivos e preocupações intelectuais. Tinham descoberto algo que lhes interessou vivamente, um ritual e uma tradição.

Assim a “fronteira do Norte” terá sido permeável à expansão até ao Sul da Inglaterra destes maçons “não- operativos” que a Maçonaria operativa nunca integrou internamente, justificando plenamente que a maçonaria inglesa do século XVII tenha sido, desde a origem, puramente especulativa.

Parece não existir outra explicação plausível para a admissão de elementos não operativos nas Lojas Escocesas já que, por volta de 1717, ainda possuíam um importante papel na área da construção e, contrariamente ao que se passava na Inglaterra, não se reuniam em tabernas ou em locais esporádicos, mas em edifícios ou locais que lhes pertenciam.

As Lojas “antigas” da Inglaterra

Na Inglaterra a iniciação de cavalheiros (“gentlemen”) em Lojas é registada desde 1640, mas aqui o processo é muito mais obscuro.

Sendo fato praticamente inequívoco que a maçonaria especulativa, tal como a entendemos, surgiu na Inglaterra, não existem contudo documentos suficientemente esclarecedores de que pessoas estranhas ao oficio fossem admitidos em lojas operativas inglesas. E, mesmo relativamente a estas últimas e ao seu funcionamento como estrutura permanente em todo o território, não existem quaisquer dados.

Para os que defendem a primazia da Inglaterra no aparecimento da moderna Maçonaria, sobretudo no século XVII, apontam-se os seguintes fatos:

  • cópias mais antigas das “Old Charges” (não são conhecidas cópias escocesas anteriores a meados do século XVII);
  • utilização generalizada do termo “freemason” e utilização do termo “maçom aceito”(“accepted mason”);
  • Lojas compostas unicamente por “não operativos” (que se pode interpretar como indicando que a “maçonaria” inglesa era, muito mais que a escocesa, uma criação sem, ou com reduzida, sustentação profissional);
  • criação da primeira Grande Loja.

A única certeza que existe é de que as poucas lojas operativas que tardiamente surgem, permanecem operativas até à sua extinção, como a loja de Chester. A famosa loja de Acception, de Londres (século XVII), abusivamente citada como exemplo da transição especulativa é indevidamente classificada como Loja, uma vez que este termo não aparece nunca em suas respectivas atas, não se sabendo quem a fundou e por que motivo, deixando historicamente apenas dois leves traços documentais, em 1610 e em 1686, relacionados com Elias Ashmole.

Nas primeiras lojas inglesas, contrariamente à Escócia, não se detectam ligações aos operativos, o que sugere que a maçonaria foi aqui uma criação “artificial”, no sentido de ter sido originada por pessoas sem contato direto com a profissão, muitas vezes influenciados provavelmente pelo que “acontecia” ou então podem ter sido “importadas” a partir da Escócia. Não existe atualmente nenhuma loja na Inglaterra a que se possa ser feita referência continuada antes de 1716-17, quando a Grande Loja foi criada. As lojas inglesas só tinham inicialmente um grau, o que implicava substanciais diferenças nos rituais comparativamente à Escócia, onde existiam dois graus.

A teoria clássica da “transição”, foi posta contestada também por outros historiadores (finais da década de setenta), nomeadamente Eric Ward, que defendem que na Inglaterra, contrariamente à Escócia, não teria havido transição da maçonaria operativa para a especulativa e que as lojas dos primeiros se foram progressivamente extinguindo, sem deixar rastro, face às características sócio-econômicas da época. A crítica de Ward fundamenta-se sobretudo na interpretação do significado clássico atribuído a certas palavras-chave (origens de “freemason” e de “Free-Mason” ou “Free-Masons”) utilizadas indistintamente pela teoria da “transição”).

Também para Knoop e Jones, os únicos fatos mais ou menos incontestados, comprovam que desde a sua origem, as lojas maçônicas inglesas são puramente especulativas, contando-se como exceção, como vimos, a loja de Chester. Nesse período existiu também a Companhia dos Maçons de Londres, restrita à área da capital, e a única guilda conhecida na Inglaterra para a profissão de maçom, não se conhecendo mais nenhuma estrutura comparável. Esta corporação procurou o suporte de vários patronos de famílias nobres e comerciantes, com a figura de membros honorários, para ajudarem a assegurar o fundo financeiro de apoio aos associados.

Lembre-se que a Escócia era, no início do século XVII, um país estrangeiro e inimigo, havendo poucas relações entre ambos, motivo pelo qual a existência de Lojas operativas organizadas por toda a Escócia não poderia, por si só, impulsionar ou servir de catalisador do surgimento de uma Maçonaria especulativa, na mesma época, no sul da Inglaterra.

A tese de Colin Dyer (a teoria do “empréstimo”/“emprunt” em francês), seguida por outros autores ingleses contemporâneos, aponta para que o movimento que dá origem à maçonaria especulativa tenha tido origem e motivações claramente religiosas. O estudo comparado das “Old Charges” (“Antigos Deveres”) estabelece claramente que este movimento, aparentemente secreto, o que à luz da história da época se torna compreensível, não teve qualquer ligação com a maçonaria operativa. Teria sido estabelecido por altura de 1560 ou 1580, época em que os conflitos religiosos atingiram grande intensidade (atestam por exemplo que o Manuscrito da “Grande Loja, n°1” não teve nada a ver com o de “Cooke”, sendo um documento totalmente novo, já que a ortografia utilizada segue a das Bíblias publicadas em Inglaterra após a Reforma, ou seja a partir de 1540, cerca de 180 anos após este).

Os trabalhos de David Steveson trouxeram, contudo, uma nova interpretação da controversa questão das fontes da maçonaria especulativa. O fenômeno da “aceitação” utilizava uma expressão puramente inglesa, nunca adotada na Escócia, o que comprovou pela análise cuidadosa das listas dos membros das diversas Lojas, e da sua história durante vários decênios.

Detectou contudo, um novo ponto muito importante, a curiosidade e o interesse com que, desde a origem, algumas personalidades, entre as quais o famoso Sir Robert Moray, demonstraram sobre estas Lojas escocesas. A prática excepcional, mas comprovada, de receber com o título de membros honorários, pessoas estranhas ao ofício, teria permitido constituir uma população de “maçons livres”, que embora numericamente fraca, era legítima e ativa, possibilitando-lhes transmitir uma Maçonaria que lhes foi possível transformar em ordem às suas preocupações intelectuais e filosóficas.

Poderiam as lutas religiosas de 1640 a 1660/80 e depois entre stuartistas e hanoverianos, estar na origem da falta de documentação relativa às Lojas Inglesas?

Na Inglaterra, o papel de loja mãe foi durante muito tempo assegurado pela velha loja de York. Este teria sido o motivo da recua da “Old Lodge of York” em reconhecer a autoridade da Grande Loja de Londres, quando esta foi instituída em 1717. Segundo P. Naudon, somente após a reunião da Assembleia Maçônica de York, em 27 de dezembro de 1663, quando a Maçonaria já se tinha tornado especulativa, o título de grão-mestre foi aprovado, embora não conferisse autoridade administrativa a quem fosse designado. De fato, o escolhido poderia ser somente um “protetor”, garantindo o patrocínio à corporação. Os poderes do grão-mestre só foram criados a partir de 1717, com a Grande Loja de Londres.

Segundo Knoop e Jones, a hipótese duma rede desconhecida de lojas (iniciáticas e secretas), cuja existência e ensinamentos tenham escapado à análise do historiador, é insustentável, pelo menos se pretendermos permanecer no campo da história, tal como o entendemos.

Há, contudo, uma data a que devemos prestar atenção e que não é muitas vezes referida, que é 1707. Neste ano realizou-se o “Ato de União”, transformando a Escócia e a Inglaterra num único reino. As duas nações que tinham estado até aqui de costas voltadas e muitas vezes em guerra, iniciaram finalmente uma lenta, mas real , aproximação, sem que contudo, a desconfiança de um país face ao outro se tivesse automaticamente atenuado.

Da Royal Society à Grande Loja de Londres

Considerando as diferenças e eventuais interseções entre maçonaria operativa e especulativa, sobretudo na Escócia do século XVII e início do XVIII, nada permite fundamentar, face à sequência temporal e histórica, que a maçonaria especulativa tenha nascido em 1717. De fato, esta data é quase irrelevante no longo processo de desenvolvimento do movimento. Segundo Knoop e Jones,

“naquela altura, a formação da Grande Loja foi uma ocorrência de menor importância no desenvolvimento da Maçonaria, e não faz sentido constituir um marco na historia maçônica”.

No entanto a nova forma de organização instituída pela Grande Loja de Londres constitui uma inovação, face à organização predominante até ao momento, de raiz escocesa, centrada sobretudo nas Lojas.

P. Naudon salienta que não se conhecem as razões oficiais da criação da referida Grande Loja, francamente modesta na concepção, sendo a ênfase dada possivelmente à necessidade de um poder regulador sobre as lojas, o que fará sentido, como veremos.

Somos pois levados a concordar com a afirmação de J. Marty:

“O fato das mais influentes lojas maçônicas na Inglaterra, na Escócia e na Irlanda terem uma fortíssima influência stuartista, a outra família real que disputava o trono, impôs aos novos ocupantes do trono inglês o desenvolvimento de esforços imediatos para contrariar essa influência no mesmo terreno, como uma das formas de manterem o poder adquirido.”

Não é pois sustentável diluir historicamente a criação da Grande Loja de Londres (que no século seguinte evoluiria para a Grande Loja Unida da Inglaterra), como não deixando de corresponder a um plano político organizado pela nova família real inglesa, a dinastia Orange ou hanoveriana, para combater a influência stuartista.

Recuando de novo à questão do nascimento da Maçonaria Especulativa, é necessário correlacioná-la e ter também presente a criação da Royal Society, em 28 de novembro 1660, no Gresham College, em Londres e em que tiveram destacado papel alguns maçons ou Rosacruzes da época, nomeadamente Robert Moray, Elias Ashmole, Christopher Wren, e outros.

Robert Moray foi elemento preponderante na liderança que constituiu a Royal Society, e foi virtualmente o seu presidente durante 1661 e a primeira metade de 1662, apesar do titulo não ter sido formalmente utilizado por ninguém, até a carta patente receber o selo real, onde foi personagem decisivo. O aparecimento desta instituição mostrou claramente o crescente interesse na investigação científica e na experimentação, e o prestigio crescente destas atividades.

Antes da constituição da Royal Society, a ciência estava completamente dominada pela religião e amarrada a argumentos teológicos. Qualquer investigador que desafiasse a visão dos inquisidores era considerado herege e punido enquanto tal, pagando muitas vezes o preço da própria vida.

Mais do que um conjunto de ideias estabelecidas, os princípios de estudo da natureza propostos pela Royal Society representavam uma atitude e uma maneira inovadoras de pensar a realidade, resultantes do desejo de reexaminar e pôr em questão as ideias e os valores recebidos, mas com enfoques bem diferentes.

A esta grande mudança no desenvolvimento científico, levando uma comunidade a rejeitar uma teoria pseudo-científica anteriormente seguida, em favor de uma outra com ela incompatível, traduz uma mudança de paradigma, no sentido “kuhniano” do termo. A esta mudança não foram alheios os ideais da verdade, da tolerância, do respeito pelo trabalho realizado, da retidão e da fraternidade dos Maçons que estiveram associados à fundação e direção inicial da Royal Society, da qual que Isaac Newton veio a ser um dos mais notáveis presidentes (já no início do século XVIII).

Em resposta à interpretação de Eric Ward, Frederic Seal-Coon respondeu no ano seguinte (1979) com uma teoria mais política, que estabelecia a correspondência cronológica entre o nascimento da maçonaria especulativa e as relações tumultuosas da dinastia escocesa dos Stuarts com o trono da Inglaterra, ocupando grande parte do século XVII e a primeira metade do século XVIII, em que tentou recuperar o trono, após o exílio na França.

Na Grã-Bretanha, tanto os stuartistas, quanto os hanoverianos, foram atraídos para alianças maçônicas rivais. O sistema das lojas, combinado com o secretismo, ideais de lealdade e modos secretos de reconhecimento, originou uma estrutura ideal de organização, na qual os membros puderam colocar os seus próprios valores, podendo adaptá-los para utilização própria.

Da análise dos sermões do Rev. Anderson de 1712 e 1715, Steveson concluiu que era evidente uma tonalidade “whigh” (protestantes, partidários da casa de Hannover) radical e determinante, já que descreve o país como

“benzido com um bom protestante como soberano e uma feliz Constituição, depois de libertado das garras e da escravatura papista, pela revolução…”

Aliando estas interrogações ao fato das Constituições elaboradas pretensamente pelo Rev. Anderson (que era pastor presbiteriano escocês), elaboradas em 1723, seis anos depois da criação da Grande Loja de Londres, terem efetuado uma “limpeza criativa e radical” (continuada pelo duque de Montagu) de toda a documentação conhecida anteriormente existente, contribuiu para reforçar um conjunto de interrogações, cujo esclarecimento tentamos aprofundar.

Somos, pois, levados a concordar de novo com J. Marty, em que

“a história oficial que foi criada e difundida, constituiu parte de um programa de cultura imperial global muito ativo no último quadrante do século XVIII e no século XIX, por parte da potência dominadora a nível mundial nesse período, a Grã- Bretanha.”

Também não se encontra antes de 1723 nenhum texto proibindo as lojas escocesas, e mais tarde as lojas temporárias inglesas, de serem criadas sem terem a autorização superior de alguém com poderes para tal, mas a partir daquele ano, só puderam ser criadas novas lojas na Inglaterra com a obtenção prévia da carta patente, firmada pelo Grão-Mestre da Grande Loja de Londres.

O primeiro Grão-Mestre de origem nobre da Grande Loja de Londres foi, em 1721, o Duque de Montagu, “whigh” convicto, condecorado em 1718 por George I com a distinta Ordem da Jarreteira, responsável pela criação em 1745, de um regimento de cavalaria para combater o príncipe Carlos Eduardo Stuart, quando da última tentativa deste para recuperar o trono.

Os dados parecem pois apontar para que tenha existido uma tomada de poder dentro da fraternidade maçônica pela facção “whigh”, então minoritária, numa época em que a ascensão ao trono de George I de Hanover, três anos atrás, estava longe de ser unânime, quer na Inglaterra, mas sobretudo na Escócia.

A reação stuartista/jacobita não se fez esperar e o duque de Wharton, de regresso da Europa depois de convertido à causa stuartista, conquistou o grão-mestrado num golpe interno. Foi destituído no ano seguinte, mas a luta de influencias, perdida no território inglês, continuará agora na França.

As “lojas escocesas” na França

Desde que se deu a confrontação entre os Stuarts e o Parlamento, e mais tarde entre os Stuarts e a casa de Hannover, cada uma duas partes procurou trazer a Ordem para o seu lado. A ligação desta aos Stuarts era manifesta desde a Escócia, em virtude das origens escocesas comuns, pelo que não lhes foi difícil utilizá-la como aliada e veículo dos seus objetivos restauracionistas.

O papel desempenhado pela Maçonaria Escocesa na França é confirmado pelo cavaleiro Ramsay, no seu famoso “discurso” de 1737, sendo a presença de lojas escocesas mais evidente a partir do exílio forçado dos Stuarts.

A Maçonaria stuartista chegou na França em 1688 através das primeiras lojas militares que se formaram nos regimentos que acompanharam James II, no exílio em Saint Germain de Laye. Existem provas de que a fuga para França intensificou a criação de Lojas maçônicas nos regimentos stuartistas. Por volta de 1689, os regimentos escoceses e irlandeses sediados na França possuíam “staffs” maçônicos, constituindo muitas vezes, a autoridade administrativa, sendo os militares a executiva.

É possível que a primeira loja na França tenha sido a que mais tarde se designou por “La Parfaite Égalité” (inicialmente “Irish Guard Lodge”), loja militar real irlandesa do coronel Walsh, do regimento de guarda pessoal de James II. Quatro anos depois da sua fundação , o Grande Oriente de França reconhece, em 1777, que essa loja foi constituída em 25 de março de 1688.

A primeira loja francesa, indiscutivelmente conhecida, foi fundada em 1725 por Charles Radcliffe de Derwenwater e outros fervorosos stuartistas. Sensivelmente por volta de 1728, as lojas escocesas na França, reconheceram como Grão-Mestre o duque de Wharton, anterior Grão-Mestre da Grande Loja de Londres e apoiador dos Stuarts. Após a sua morte, em 1731, Lord Derwentwater assumiu o grão-mestrado, seguido por Hector MacLean (baronete escocês) de 1733 a 1735 e de novo Lord Derwentwater, a partir de 1736.

A concorrência “whigh”/hanoveriana, não se fez esperar muito, deslocando-se também a partir de 1734 para o solo francês, com a criação em Paris de uma loja rival à de Derwentwater, em que a Grande Loja de Londres se faz representar pelo duque de Richmond e Jean T. Desaguiliers. O conflito provocado pela existência de duas categorias de lojas rivais – escocesas e inglesas, transpôs-se e desenvolveu-se também na França, até à criação da Grande Loja de França e da nomeação do duque de Antin, como Grão-Mestre (ad vitam), em 24 de junho de 1738.

Foi o duque de Montagu, que sucedeu, desde 1721, ao pastor J. T. Desaguiliers, que se comprometeu a introduzir na França a Maçonaria especulativa (tendência “inglesa”). Do desenvolvimento dos ritos da época, a par das teorias filosóficas que sustentaram o aparecimento da Real Society, acabaria por surgir o Rito Francês. Mais tarde, e embora apresente maior parentesco com a matriz escocesa, acabaria por surgir o Rito Escocês Antigo e Aceito, assim designado apesar do berço francês.

Notas finais

Julgamos poder concluir, no essencial, que a moderna maçonaria teve origem escocesa, em vez de inglesa. A evidência escocesa pode ser fielmente comprovada durante o século XVII, através dos documentos oficiais de várias lojas, que foram conservados, graças aos Estatutos de Schaw. Contrariamente, na Inglaterra somente parcos registos em papel, que possam ter pertencido a Lojas, sobrevivem.

O termo “aceito” continuou a ser aplicado na Inglaterra aos Mmaçons iniciados, e a Grande Loja de Londres, fundada cerca de 40 anos depois, passou a chamar-lhes “maçons livres e aceitos“. Nos anos do rápido desenvolvimento da maçonaria inglesa depois de 1700, os rituais que surgiram eram baseados na “mason word” e as práticas descritas no catecismos mais antigos têm, sem dúvida, origem na Escócia.

A primeira referência a uma loja inglesa caracterizada por um corpo permanente e não por uma reunião ocasional, é a de Chester, também no norte do país. A primeira loja na Inglaterra cujas atas sobreviveram, a loja de Alnwick, fica a 20 milhas da fronteira com a Escócia. A loja mais antiga descrita na Inglaterra refere-se a Warrington, no Lancashire, também no Norte.

Tudo isto sugere claramente que as lojas maçônicas, na sua moderna configuração, nascem da instituição escocesa que se espalhou pela Inglaterra no decurso do século XVII. A maçonaria na qual os primeiros “gentlemen” não operativos foram iniciados foi também muito influenciada pelas práticas escocesas.

No entanto, e esta é uma diferença essencial, desde o início os ingleses preferiram encontrar-se informal e irregularmente, apelidando por vezes estes encontros ocasionais de “reuniões de loja”. No entanto, a institucionalização da estrutura, originada por Schaw, foi reconhecida e as lojas ocasionais foram dando progressivamente origem a instituições permanentes.

Doze dos Grão-Mestres da Inglaterra no século XVIII eram escoceses e, quando os maçons franceses inventaram inúmeros altos graus e rituais, sentiram que a melhor maneira de lhes dar legitimidade era designá-los por “Rito Escocês”. Também estes fatos parecem admitir tacitamente que a maçonaria escocesa tem um papel especial na história da Ordem….

O objetivo subjacente à elaboração das Constituições de Anderson, o papel desempenhado por Desaguiliers, a Grande Loja de Londres e os conflitos que se arrastaram por quase 100 anos entre “Antigos” e “Modernos”, podem dar lugar a diversas interpretações, mas certo é que por trás destes conflitos estavam dois conceitos distintos da Maçonaria, que foram utilizados na disputa do trono real britânico pelos blocos stuartista e hanoveriano.

Parece não existir dúvidas, face aos historiadores e obras que temos referido, que as Lojas maçônicas escocesas, irlandesas e inglesas foram palco da intensa luta entre estes dois blocos, que no fundo apoiavam duas concepções religiosas distintas, a católica e protestante. Também pode não ter sido ocasional que o Papado só tenha apresentado a sua primeira Bula contra a Maçonaria (“In Eminenti Apostolatus Specula”), quando já era evidente que a luta entre os dois blocos pendia para os protestantes (hanoverianos) e a derrota definitiva dos Stuarts se resumia a uma questão de tempo. Todavia, este assunto é por demais vasto, exigindo elevada preparação e estudo, para que possa ser tratado nestas breves e humildes notas.

Pelas análises dos historiadores que citamos, nomeadamente Steveson e Eric Ward, a teoria da “transição” parece não ter suporte documental fidedigno, pelo menos analisando historicamente os dois países onde mais se enraizava, a Inglaterra e a Escócia.

Parece também não existirem dúvidas de que as Constituições de Anderson traduziam uma versão mais universalista e agregadora da Maçonaria, rompendo com as versões mais tradicionalistas, que eram a base da Maçonaria católica stuartista.

Em reação a esta visão mais progressista (à época) organizaram-se mais tarde os “Antigos”. Esta polêmica entre “Antigos” e “Modernos” durou cerca de 100 anos, mas o enfraquecimento progressivo da Grande Loja de Londres e a pressão do establishment real acabaria, também por pressão adicional da revolução francesa e dos receios por ela provocados na monarquia britânica, de proporcionar a fusão das duas, originando a Grande Loja Unida de Inglaterra, com predominância inequívoca dos valores dos “antigos”.

O estudo das origens é fundamental para uma melhor compreensão da Ordem. No entanto a sua análise, contribuindo para a nossa progressão individual a caminho do conhecimento e da Luz, só alcançará o seu sentido último se alavancar o nosso trabalho no mundo profano.

Termino citando Jean Mourges:

“Independente da interpretação das origens, a Augusta Ordem deverá conservar dois princípios, sem os quais não será Maçonaria:

      • Os Maçons são construtores. Creem na possibilidade de estabelecer uma Ordem Social ou em todo o caso de contribuir para a estabelecer”; e,
      • Escolher os construtores que, entre eles, saibam elevar-se acima das querelas das Escolas, já que a perfeição da ordem Coletiva repousa na qualidade dos homens chamados a construí-la.”

Autor: Salvador Allende – R∴ L∴ Ocidente

Fonte: Freemason

Revisão e adaptação ao português brasileiro: Luiz Marcelo Viegas

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Bibliografia

“The-Origins-of-Freemasonry-Scotland-s-Century-1590-1710” – David Stevenson – Cambridge University Press, 1988.

“A Maçonaria e o Nascimento da Ciência Moderna -O Colégio Invisível” – Lomas, R. – Madras Editora Lda, 2007.

“The-Secret-History-of-Freemasonry-Its-Origins-and-Connection-to-the-Knights-Templar” – Paul Naudon – 2005.

“Les Origines de la Maçonnerie Spéculative” – Roger Dachez, revista “Renaissance”.

“The Genesis of Freemasonry” – Douglas Knoop e G.P. Jones” – Manchester University Press – 1947.

“Maçonaria Especulativa e Sir Robert Moray” – José Marti.

Blog + Sites da Loja Ocidente – http://a2ocidente.blogspot.pt.

“El Nacimiento del Escocismo” – Louis Trébuchet (www.masoniclib.com).

“Isaac Newton and the Scientific Revolution, Christianson, G. Oxford University Press.

“Sir-Robert-Moray-Freemason” – Robert Lomas.

“El Rito Francês Moderno” – Guillermo Fuchslocher.

Los Oficios y Los Oficiales de La Logia” – Daniel Berésniak.

“La Masoneria” – Armando Hurtado.

“La Pensée Maçonnique -Une Sagesse pour Occident” – Jean Mourges – Éditions P.U.F. – 1998.

Liberdade e desigualdade no Brasil – Uma reflexão maçônica durante a pandemia

Como os super-ricos aprofundam a desigualdade social no mundo ...

“Aqueles que abrem mão da liberdade essencial por um pouco de segurança temporária não merecem nem liberdade nem segurança” (Benjamin Franklin)

A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, fruto do Iluminismo e aprovada pela Assembleia Nacional Constituinte da França revolucionária em 1789, resume no primeiro artigo que “os homens nascem e são livres e iguais em direito”. A crítica que se faz é que a liberdade e igualdade ali referenciadas eram restritas às pessoas do sexo masculino, cidadãos possuidores de interesses, ficando de fora os pobres, os empregados, os escravos e as mulheres.

Em dezembro de 1948 foi promulgada “A Declaração Universal dos Direitos Humanos”, que delineia os direitos humanos básicos, adotada pela Organização das Nações Unidas, como uma norma comum a ser alcançada por todos os povos e nações. O que poucos sabem é que a influência da maçonaria é que permitiu a sua codificação.

Desde a primeira Declaração permanece em moda a discussão sobre o que é ser livre e ser igual. As sociedades que souberam trabalhar melhor e equilibrar esses conceitos são consideradas as mais prósperas.

O Brasil carrega uma dívida decorrente da Lei Áurea de 1888 que libertou juridicamente os escravos, mas não lhes proporcionou as condições de liberdade de consciência e de ter uma vida verdadeiramente livre, com o exercício da cidadania plena, que permita às pessoas exercerem todas as suas potencialidades legítimas. Na Constituição de 1891 foi negado o direito de voto aos analfabetos. Daí a se concluir que a chave da liberdade se dá com a melhoria da qualidade da educação, que emancipa, forma pensamento crítico, proporciona esperanças e é a mais efetiva via de acesso ao desenvolvimento de uma nação. É a educação que prepara o ser humano para o exercício consciente da cidadania.

Promulgada em 1988, um ano antes da queda do muro de Berlim, quando ainda imperava a crença de que o socialismo seria a solução para superar a pobreza e a desigualdade, e com um viés estatizante e quase anticapitalista, a atual Constituição Federal ampliou direitos ao permitir o acesso dos mais pobres aos serviços públicos. O Capítulo II, artigos 6º e 7º, definem com muita clareza os Direitos Sociais, com o destaque do art. 6º:

“São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância e a assistência ao desamparado.”

Representam conquistas do povo, mas é preciso vigilância, pois aquilo que se conquista pode também se perder ou nem chegar a ser implantado.

Políticas como o Bolsa Família, as cotas sociais nas universidades, o salário mínimo, as ações do SUS e fundos constitucionais (Fundef/Fundeb), produziram seus resultados. O Fundeb corre o risco de ser extinto em 2021, caso não seja prorrogado. Essa rede de assistência social criada ao longo dos anos pós-Constituição é que permite ao Estado amenizar o sofrimento das classes menos favorecidas. Mas, poucos são os assistidos e a qualidade deixa a desejar, em especial quanto ao ensino nas escolas públicas e as dificuldades de marcação de consultas, exames e atendimentos hospitalares. Isso para não falar nos problemas ligados a segurança, transporte público, habitação, violência e acesso à cultura.

No campo dos direitos civis, ações como o Estatuto da Criança e do Adolescente, o Código de Defesa do Consumidor e o Estatuto do Idoso se constituíram em grandes conquistas. Quanto aos direitos políticos, os avanços se deram a partir da permissão do voto do analfabeto e maiores de 16 anos, atendimento a demandas da população indígena, dos movimentos negro, feminista, LGBT e demais grupos minoritários.

Mas, privilégios em determinadas áreas ainda são mantidos. Esses direitos não deveriam ser bandeiras de grupos de pressão ou de partidos políticos, mas uma missão do Estado brasileiro. O País continua desigual porque o orçamento público sempre destina recursos aos grupos mais influentes, à elite burocrática e a quem efetivamente não precisa. Pequena parcela chega aos mais vulneráveis, como o Bolsa Família e a renda mínima aos maiores de 65 anos (Benefício de Prestação Continuada criado pela Lei Orgânica da Assistência Social – LOAS – de 1993). A solução passaria por uma reforma profunda do Estado.

As grandes dimensões territoriais do Brasil representam um fator dificultador, com desigualdades regionais, de renda e de elevado nível de violência. Essas desigualdades sociais e a injustiça persistem e são dolorosas. Mesmo entre os mais pobres existe diferença entre graus de pobreza. Como agravante, destacam-se o saneamento escasso e falta de urbanização em comunidades carentes, a precariedade da rede de proteção social, as diferenças entre os sistemas público e privado de saúde, com estimados 40% dos trabalhadores na informalidade, além de milhões de desempregados e pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza.

O surgimento do coronavírus, que atinge com sua força destrutiva indistintamente ricos e pobres, evidenciou o fosso social brasileiro, demonstrando que a desigualdade deixa claros seus efeitos em catástrofes naturais ou em pandemias, ensejando a urgente necessidade de socorro à população mais vulnerável e de um novo pacto social, com políticas públicas e econômicas mais progressistas. Especialistas afirmam que essa crise é a maior enfrentada pelo mundo desde o desastre econômico gerado pela Grande Depressão dos anos 30 e pós Segunda Guerra Mundial, sabendo-se ainda muito pouco de seus efeitos na sociedade e no corpo humano, em particular. A corrida armamentista da biologia está no seu auge.

As autoridades brasileiras durante a crise deixaram claro que são competentes para lidar com os incluídos, aqueles que pagam impostos e são, portanto, visíveis, mas extremamente ineficaz quando tem de lidar com os excluídos, aqueles não integrantes da sociedade de consumo, em especial os que não têm endereço fixo, os “desbancarizados” (sem conta em banco), sem telefone celular e acesso à internet, não detentores de um CPF ou com os mesmos bloqueados. O governo não sabe onde estão e quem são eles. Como falar em isolamento social em comunidades com famílias amontoadas em becos, muitas sem água encanada em casa, em uma convivência confusa entre as pessoas? São, portanto, invisíveis e muitos vivem ou sobrevivem em condições desumanas.

A classe carente e esquecida sempre esteve presente na cena diária, como os moradores de rua, os catadores de lixo, os mendigos, os vendedores e acrobatas de cruzamentos, dentre outros. Acrescentem-se os que vivem na informalidade e de biscates, sem garantias trabalhistas, os autônomos, os trabalhadores sem registro, que não têm poupança e precisam de rendimentos diários para sustentar suas famílias e dos poucos assistidos do programa Bolsa Família. E, por derradeiro, ainda sofrem com o menosprezo de autoridades de relevo em face das perdas com mortes de entes queridos vitimas da pandemia.

Assim como foi desafiadora a libertação dos escravos no século XIX, assim o é a superação da miséria nos tempos atuais. Os devastadores impactos da crise planetária da Covid-19 lançaram luzes nesse campo, e o Brasil se viu diante de um número gigantesco de desassistidos à míngua de uma renda mínima que garanta a sobrevivência, tendo o governo que adotar um auxílio emergencial para superar o grave momento vivido, que inicialmente tem a previsão de 3 meses, mas podendo ser vislumbrada a possibilidade de tornar-se perene. E sabe-se que esses recursos voltam imediatamente para a economia sob a forma de consumo. É sangue direto na veia.

O tamanho e a complexidade do País dificultam a escolha de um caminho ideológico para solução das desigualdades, ainda historicamente restrito ao grupo de centro-esquerda. Aqueles posicionados na centro-direita apostam na competição e enfatizam os valores da concorrência como condição para a promoção do desenvolvimento, para que o setor privado gere prosperidade, mas adota ações sociais focadas para o combate da pobreza e desigualdade, quando as contas públicas o permitem.

Um tema recorrente entre esses grupos é o combate à corrupção (sempre atribuída ao outro lado) como agenda prioritária, tema esse bastante explorado pelos meios de comunicação de massa, que acaba ocultando a questão da desigualdade. Ambas as correntes chegam aos extremos do espectro, com discursos bem polarizados e desviam o foco do essencial. O que se espera é que não haja retrocessos em função dessa polarização, com perda do que foi até aqui conquistado, e que as lideranças políticas do país sirvam a todos indistintamente, e não apenas ao seu grupo de iguais.

O dilema é ainda maior quando se fala em igualdade em um cenário de milhões de empregos a serem extintos pelo uso da inteligência artificial. Não se pode olvidar a nova tendência do “home office”, que se tornou alternativa viável durante a pandemia do coronavírus, acelerando mudanças de comportamento, vislumbrando-se um caminho sem volta, pois as empresas reduzem custos e os profissionais conciliam tempo e outros afazeres, além dos ganhos dos grandes centros em termos de movimentação de pessoas e veículos e melhoria do clima, com o destaque para as operações “on-line” que afetam a formatação das lojas físicas.

Mesmo não nos deixando influenciar pelo sentimento de angústia quanto ao futuro, difícil não pensar em um mundo mais desigual decorrente desta crise sanitária, com as implicações negativas em todas as áreas, como a econômica, política e, sobretudo, a social. Já se especula que essa pandemia possa ter as mesmas consequências para o Liberalismo do que representou a queda do “Muro de Berlim” para o Comunismo. Chegou a hora da verdade: é pagar para ver? Como ensina a sabedoria popular, o imprevisível é realmente muito difícil de prever.

O cenário da evolução tecnológica e o pós-crise ensejam novas preocupações na medida em que grande parte da força de trabalho desatualizada enfrenta concorrência das máquinas inteligentes com o aumento das condições de desigualdade. Mais uma vez, a solução está na educação e em políticas que protejam os direitos dos trabalhadores e apoio às empresas que geram empregos.

Entretanto, no momento, a única certeza é a de que as consequências da atual crise terão reflexos em políticas protecionistas e nas cadeias produtivas globais e serão absorvidas exclusivamente pelas empresas do setor privado, com quebras já no horizonte e o desemprego. O Brasil como um todo certamente sairá mais pobre, com déficit e dívida pública agravada e coesão social comprometida. Segundo os economistas, a solução passa pelo crescimento do Produto Interno Bruto, que dará suporte aos gastos públicos e à geração de empregos.

No contexto pré-crise, parte significativa do contingente de desempregados já não estava preparada para ocupar espaço na economia do futuro, por falta de mão de obra qualificada e carência de profissionais, inclusive para enfrentar os dias atuais. Muito tempo foi perdido com lorotas e populismo. E a sociedade assiste a tudo apenas dizendo-se esperançosa e confiante. Em quê ou em quem? Então, a solução passa por um alinhamento de todas as instituições agindo em uma só direção, com as diferenças colocadas de lado em nome do bem comum. Difícil de acreditar quando já se fala em sucessão no governo e grupos políticos reiniciam os tradicionais conchavos.

Mais difícil ainda reconhecer a ideologia social de que somos todos iguais e de que não existem seres piores ou melhores. Nosso País precisa desenvolver políticas públicas visando ao fortalecimento das instituições democráticas e superação da desigualdade e da violência. Por ser um dos mais injustos do mundo, o Brasil é um dos países mais desiguais do mundo. E justiça pressupõe dar a cada um o mínimo que lhe cabe, evitando privilégios e exclusões sociais. Sem justiça não há paz.

Por sua vez, a liberdade é motor do empreendedorismo e de transformações tecnológicas, que decorrem de projetos e sonhos. A área da Economia demanda um Estado bem organizado e uma sociedade consciente e mobilizada. Compete ao Estado criar as condições que viabilizem o desenvolvimento sustentado, em especial nos setores de saúde, educação, meio ambiente e ciência e tecnologia.

Segundo o artigo de Karen Franklin (CESCON, Paulo; Nodari, César. Filosofia, ética e educação: por uma cultura da paz. São Paulo: Paulinas, 2011),

“Toda sociedade democrática necessita de cidadãos comprometidos com o respeito aos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. Contudo, a conquista desse comprometimento não é natural e espontânea, ela precisa ser forjada no interior dos sujeitos e da sociedade, enfim, ela necessita ser educada.”

Mas, há uma corrente que vê isso como uma ameaça, dado que a formação de massa crítica e a consciência cidadã incomodam alguns dirigentes políticos que perdem espaço de dominação.

A discussão sobre a liberdade evoca um dilema repisado por vários analistas:

“devemos aceitar uma ditadura, com restrição às liberdades individuais, em troca de um contrato social de melhoria coletiva do padrão de vida?”

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso teve uma fala citada na Revista VEJA (Edição 2682, ano 52 – nº 16, de 15.04.2020, p. 26), prevendo a ascensão dos países orientais, menos presos às ideias de liberdade, após a pandemia da Covid-19:

“O povo não quer nem saber o que é liberdade e individualismo. Quer saber se tem emprego, tem comida, tem transporte, tem saúde. E, se eles derem isso, vão nos dar um banho.”

Esse posicionamento conflita com o pensamento contido na abertura desta prancha e merece reflexão.

No mesmo diapasão sente-se que a liberdade de expressão não é mais um valor cultuado ao se constatar que não se pode mais pensar de forma diferente sem sofrer a condenação de tribunais virtuais e ver ameaçadas as relações sociais e até mesmo o sagrado convívio no lar. Tempos muito estranhos!

Ainda sobre o direito à privacidade, uma nova ferramenta gerada pela revolução tecnológica passou a ser motivo de questionamentos, como ficou evidenciado na pandemia do coronavírus, com a possibilidade de rastreamento de pessoas doentes por intermédio dos telefones celulares. Essa estratégia poderia ser utilizada também por governos autoritários para controlar seus habitantes. O que precisa ser definido é como aplicar essas ferramentas sem desrespeitar as liberdades individuais.

A geração atual ainda não tinha passado pela experiência de confinamento social, com restrições de liberdades. Ainda não é possível avaliar as consequências de como as pessoas se portarão com a continuidade da quarentena e das perdas percebidas em cada situação, em especial na saúde mental, e notadamente quando iniciarem-se o relaxamento por setores da economia e houver um sentimento de tratamento desigual. Certamente teremos uma referência no tempo deste segundo decênio como o real marco do início do século XXI, antes da Covid e depois da Covid (a.c e d.c – com todo o respeito, com o “c” minúsculo).

No que tange à igualdade é imprescindível que criemos consciência de que dependemos um do outro para vivermos, não havendo espaço para o egoísmo que submete as pessoas ao nosso redor em situação de fragilidade. E, como cidadãos, devemos manter o respeito ao coletivo, dando tratamento igual e digno a todos, o que se constrói por meio do espírito de solidariedade e da garantia de uma sobrevivência com a instituição de uma modalidade de seguro social que garanta renda mínima para todos, nos moldes já mundialmente defendidos desde a crise econômica global de 2008, como a proposta de uma Renda Básica Universal (RBU), de forma que não haja famílias desassistidas. Isso é apenas o começo.

Enfim, a Maçonaria brasileira não pode apenas divulgar manifestos de repúdio e deixar de agir, ficando à margem dessas discussões, notadamente por sua histórica característica progressista, o que a colocou sempre envolvida nos grandes temas de interesse da sociedade em geral, sem partidarismos e apegos a personalidades da hora e a ideologias que não a sua missão de tornar feliz a humanidade. Repúdio sem ação é mera insatisfação!

Com as luzes do G∴A∴D∴U∴, que essa pandemia nos ajude a desconectar do egoísmo e do ódio e a focar em ações mais construtivas.

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

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Maçonaria e Antimaçonaria: Uma análise da “História secreta do Brasil” de Gustavo Barroso – Parte VIII

Integralismo – O Sentinela

3.3 – Ecos do anti-semitismo e o discurso integralista de Barroso

É justamente o que explica o antagonismo entre o povo judeu e a civilização nascida do cristianismo. No meio dum mundo transformado e adoçado, continua o homem de há três mil anos, ávido e hostil, encerrado na sua religião nacional, eternamente preocupado em escravizar todas as nações a Israel, como lhe foi anunciado de século em século pela sinagoga… Não se trata de odiar os judeus e ainda menos de desprezá-los. Não se despreza um povo que arrastou os séculos, a dispersão, a decadência moral e material, conseguindo manter-se intacto. Mas é natural que seja temido e que se pense em proteger contra suas agressões ao patrimônio moral e material das nações cristãs.[304]

Contemporaneamente, a primeira onda de violência contra os judeus ocorreu em 1933 com a ascensão de Hitler ao poder. A agressão organizada contra os judeus alemães, a legislação anti-semita e a discriminação social que passou a fazer parte da vida cotidiana
induziram milhares de famílias judias a abandonar definitivamente a Alemanha. Neste mesmo ano, o cônsul brasileiro em Colônia, Ildefonso Falcão relatou a seu chanceler sobre o grande interesse dos inúmeros judeus pelo consulado brasileiro. Segundo Milgram, Ildefonso Falcão demonstrava certa simpatia pelos comerciantes judeus que trariam consigo fortuna ao país acolhedor. Porém, na visão do ministro de Trabalho, Indústria e Comércio, Joaquim Pedro Salgado Filho, responsável pela imigração, o Brasil deveria privilegiar os imigrantes trabalhadores agrícolas, únicos capazes de se radicarem ao solo. Na perspectiva de Milgram a realidade se processava por vertentes assimétricas. O Brasil que se recuperava da crise e se inclinava pela via do desenvolvimento industrial tinha dificuldades para modificar sua autoimagem de país agrário. E os judeus europeus, que poderiam contribuir com a expansão econômica brasileira eram vistos como “elementos indesejáveis”, uma vez que poderiam inchar os centros urbanos[305].

Conforme ressaltou Maria Luiza Tucci Carneiro, apenas os técnicos e agricultores católicos tinham condições de contribuir para o projeto de modernidade idealizado pelo governo Vargas. Algumas exceções se faziam aos judeus capitalistas e, assim mesmo, mediante criteriosa seleção. No entanto, a possibilidade de termos entre nos judeus capitalistas também incomodava, visto ser corrente nos anos de 1930 a ideia de que estes
representavam um “perigo internacional”. Aliás, este era um slogan reverenciado pelo clássico livro anti-semita de Henry Ford, O Judeu Internacional traduzido no Brasil em 1933. Nesta linha de raciocínio estavam os diplomatas brasileiros sediados no exterior, principalmente aqueles que se encontravam radicados na Alemanha, Áustria, Polônia, Hungria e Romênia[306].

Deste modo, vários ensaios sobre as causas da proliferação do anti-semitismo na Europa foram desenvolvidos por emissários brasileiros que tentavam, através de seus relatos, alertarem o governo para uma futura onda de refugiados judeus. Por exemplo, em 2 de julho de 1931, Luiz de Lima e Silva, da Embaixada do Brasil em Viena, chamava a atenção de Afrânio de Mello Franco, ministro de Estado das Relações Exteriores, para os movimentos anti-semitas que se faziam “moeda corrente” nos países da Europa Central. Segundo Carneiro, Luiz de Lima e Silva, relatou ao ministro uma série de boatos e escândalos envolvendo estabelecimentos bancários e personalidades judaicas na Áustria. Para o embaixador os escândalos envolvendo o Banco Auspitz e o Credit-Anstalt, ambos amparados por abastadas famílias judias, foram apontados como um dos pivôs dos protestos anti-semitas em Viena[307].

A família judaica Rothschild, acionista majoritária do Credit-Anstalt, havia se transformado no principal alvo das contestações e Gustavo Barroso não deixaria de explorar de maneira oportuna esses acontecimentos.

Essa exploração entregue aos Rothschild perdura até hoje. Em 1933, depondo perante a comissão de inquérito do Senado norte-americano, o sr. Hayward, representante dos banqueiros judeus Dillon, Read & Cia., declarava que os empréstimos feitos pela sua casa para o Brasil se realizavam em colaboração conjunta com Rothschild, porque o governo do Brasil não poderia pensar em fazer um empréstimo sem primeiro discuti-lo com Rothschild! [308]

As principais matérias publicadas na imprensa sobre a questão judaica nos territórios do Reich eram cuidadosamente recortadas e enviadas ao ministro das Relações Exteriores com o propósito de mantê-lo atualizado sobre a recrudescência do anti-semitismo e, assim orientá-lo no procedimento a ser tomado diante daquela massa de refugiados judeus que começavam a buscar refúgio em terras brasileiras[309].

É importante que se diga que a questão judaica no Brasil não era similar àquela da Argentina ou da Europa, onde corria sem restrições o anti-semitismo popular e oficial. Nestes casos, o anti-semitismo era baseado em imagens distorcidas de judeus reais com os quais a população não-judia tinha contato regular. Na perspectiva de Jeffrey Lesser, o anti-semitismo no Brasil manifestou-se da seguinte forma: indivíduos influentes atacavam imagens de judeus imaginários que presumidamente eram ao mesmo tempo comunistas e capitalistas, e cujos estilos de vida degenerados se formaram em pútridos e miseráveis enclaves étnicos europeus. Os severos e irreais julgamentos eram modelados de acordo com uma leitura ingênua do anti-semitismo e o ódio aos judeus europeus, aplicado a uma imprecisa imagem da vida judaica fora do Brasil. O que é mais surpreendente em tudo isso é que os judeus reais que viviam no Brasil, fossem eles cidadãos ou refugiados, enfrentavam poucos empecilhos cotidianos ou estruturais para a conquista de objetivos econômicos ou sociais[310].

Assim, para Lesser a questão judaica brasileira era na verdade um esforço dos líderes do Brasil em encaixar imagens intolerantes dos judeus, filtradas da Europa, com a realidade de que a esmagadora maioria dos imigrantes judeus não era nem muito rica nem muito pobre, era raramente ativa politicamente, e rapidamente aculturou-se à sociedade brasileira[311]. Mesmo relativizando o anti-semitismo brasileiro como fez Lesser, não podemos deixar de observar a admiração, mal disfarçada, de alguns diplomatas com as iniciativas anti-semitas empreendidas por Adolf Hitler. Conforme demonstrou Carneiro, Araújo Jorge, da Legação do Brasil em Berlim, é um exemplo deste comportamento, pois muitos de seus relatórios traziam elogios às medidas legais tomadas pelo governo nacional-socialista para eliminar a influência judaica no país[312].

De maneira parecida as elites católicas correspondiam ao sentimento expresso pelos diplomatas. Na análise de Graciela Ben-Dror existia no Brasil dos anos 1920 e 1930 um racismo camuflado, apoiado em uma retórica legitimadora dos atos de exclusão e de violência. Do mesmo modo, a identificação entre os termos “católico” e “brasileiro” como sinônimos da identidade nacional era corrente no clero desde os anos 1920 o que contribuiu para rotular o judeu como inimigo do cristianismo. Para a autora parte da elite católica que ocupava os quadros da Ação Integralista Brasileira, não divulgavam o racismo por razões da doutrina cristã, mas mesmo assim, afirmavam que existia uma intima ligação entre judaísmo e comunismo, e por isso estavam a favor da aplicação de uma política de discriminação para os judeus no Brasil. Daí que o anti-racismo no Brasil caminhasse ao lado do anti-semitismo, sem que uma atitude fosse excludente da outra [313].

A Ordem dos franciscanos no Brasil, por exemplo, também seguiu por esta linha, afirmando existir um nexo entre judeus e comunistas, pois segundo alguns intelectuais católicos, os dirigentes comunistas Marx e Trotski eram judeus, e o era também todo o estado-maior soviético. A posição dos franciscanos era que não há que desprezar o povo judeu enquanto raça posto que no final dos tempos se converteriam ao cristianismo, mas em contrapartida os católicos deveriam estar sempre em alerta, pois esse povo possuía uma “obsessão destrutiva”, que projetava-se sobre o mundo cristão. Por este raciocínio, defendido pelos franciscanos, não foi sem motivos que na Idade Média, por exemplo, a Igreja isolou os judeus em lugar determinado, o gueto, e com isso evitou a difusão de seu espírito negativo. Não obstante, o anti-sionismo transformou-se em um dos componentes do anti-semitismo da época, várias críticas surgiram à ideia de “Terra de Israel”. Para os franciscanos o movimento “Sionista” converteu-se em sinônimo de “desejo de impor-se no mundo”. Tratava-se do desenvolvimento de um “messianismo imperialista”, extremamente perigoso, ao defender a constituição de um “império invisível dos judeus sobre toda a terra”[314].

A revista A Ordem, que havia sido fundada em 1921 pelo intelectual católico conservador, Jackson de Figueiredo, que, um ano depois, criou o Centro Dom Vital, também se transformou num dos veículos de propaganda do anti-semitismo. Jackson Figueiredo combatia, através da revista, o protestantismo, a Maçonaria e os judeus. Todos vistos como inimigos ao cristianismo. O Centro Dom Vital conseguiu reunir um grupo de intelectuais católicos antiliberais e conservadores, no qual se destacava o padre Leonel França, cujos livros, publicados nesses anos, tornaram-se textos centrais para a geração católica do pós-guerra. Em 1937, eram vinte centros deste tipo que havia se convertido na expressão intelectual mais importante do catolicismo brasileiro. Suas explicações espirituais e morais das mudanças ocorridas no país se impuseram a outras interpretações de tipo materialista e configuraram a linha central do pensamento católico do país[315].

Com uma visão de mundo totalizadora, a intelectualidade católica acreditava que era possível conduzir o Brasil pelo rumo correto da Doutrina Social da Igreja. Amoroso e Lima, por exemplo, defendia a introdução da educação religiosa nas escolas públicas, de acordo com a Constituição de 1934. Advertia contra as ameaças do judaísmo, dos maçons, do espiritualismo, do comunismo e do protestantismo naquele campo. Como bem salientou Gracieli, a crítica aos judeus combinava argumentos tradicionais com outros tomados do anti-semitismo moderno. Por exemplo, nos argumentos de Plínio Correa de Oliveira, o “problema judaico” provinha de haver sido o povo judeu “o povo deicida, que há dois mil anos está espalhando pelo mundo como castigo divino”. “Por razão, são nômades e não se misturam com raça alguma”. Suas capacidades intelectuais são notáveis, e “possuem especial talento comercial, graças ao qual acumularam um enorme capital, por meio do qual influenciam em todos os processos relacionados com os negócios”[316].

O argumento de Correa Oliveira era de que os comunistas foram reprimidos após a rebelião de 1935 e se encontravam continuamente vigiados pela forças de segurança. Daí que desde então a atenção dos católicos devia dirigir-se aos judeus, que não estavam sob violência alguma e eram “inimigos da ordem social e muito mais perigosos”. Suas conclusões são que por trás do comunismo se encontram os maçons franceses, cujos representantes ocupavam todos os cargos importantes do país. Por outro lado, destacava a influência dos judeus, que respaldavam o comunismo em todo o mundo. Em sua opinião, com base no que tinha sido escrito por Coty, o que ocorrera na França deveria constituir uma advertência para o Brasil, a fim de que a luta contra esses inimigos culminasse em vitória[317].

Na opinião de Marco Chor Maio, o anti-semitismo pode ser dividido em dois modelos de interpretação. O primeiro modelo remete-nos a “ideia de continuidade”. Segundo os autores que defendem este posicionamento, a relação entre judeus e não-judeus ao longo da história do mundo ocidental seria marcada por uma coleção invariável de tensões, conflitos, perseguições e massacres, que resultaria num elevado custo para a sobrevivência do povo judeu. Segundo Maio, um bom exemplo desse “modelo de continuidade” é o livro A Conspiração Mundial dos judeus: Mito ou Realidade, do historiador Norman Cohn. Para Maio, neste viés interpretativo, o anti-semitismo moderno é apresentado como mera atualização do passado. Esta vertente historiográfica elegeu o anti-semitismo como fonte explicativa da trajetória do povo judeu, o anti-semitismo é entendido, na sua essência, como invariante e atemporal[318].

O segundo modelo refere-se a “ideia de ruptura” muito bem representado pelos estudos de Hannah Arendt. Na análise da filósofa, o genocídio nazista foi um crime sem precedentes na história da humanidade e, justamente, por isso deve-se a singularidade do anti-semitismo moderno. Diante dos limites do “modelo da continuidade”, resumidamente entendido pela indiferença entre o moderno anti-semitismo e o antigo ódio religioso judaico, a autora propõe uma análise dialética, centrada no processo de interação entre judeus e não-judeus, ou seja, na longa e tortuosa história destas relações que prevaleceram desde a primeira diáspora judaica[319].

Segundo Maio, o modelo da “ruptura”, defendido por Arendt, contemplou ao mesmo tempo os dois padrões de anti-semitismo qualitativamente diferentes: o tradicional e o moderno. O padrão tradicional caracteriza-se pela existência de conteúdos religiosos e econômicos, indicando as formas de inserção dos judeus na sociedade. Primeiro, esta inserção se daria em terreno religioso, os judeus são vistos pelos católicos como a verdade viva do cristianismo. Segundo, na economia, como embrião monetário de uma economia pré-capitalista. Para Maio, o povo de Israel marginalizado, mantinha-se num equilíbrio precário com certa autonomia, dentro de uma sociedade não-judaica, oscilava entre a exclusão e a tolerância. Desta maneira, o anti-semitismo tradicional exercia três formas de poder: converter (batismo), isolar (Guetos) e expulsar (última decisão)[320].

De outro modo, o anti-semitismo moderno, operaria mudanças radicais, conferindo um conteúdo essencialmente político e destoando das notas religiosas e econômicas que em outrora caracterizavam o anti-semitismo tradicional. Segundo Maio, a tese de Tocqueville para explicar o ódio feroz do povo francês à nobreza após a Revolução Francesa, serviria também para explicar o anti-semitismo moderno. Este conflito teria surgido quando a perda de poder dos aristocratas não correspondeu ao declínio de suas riquezas, assim sem qualquer função pública, mas preservando sua riqueza, a nobreza tornou-se alvo do ódio popular. Algo semelhante teria acontecido com os judeus. O auge do anti-semitismo moderno corresponderia ao período em que os judeus perderam a influência e funções públicas, embora preservassem seus recursos. Os judeus adentraram o mundo moderno envoltos pelas imagens preconceituosas do passado. Ao entrar pela porta da frente da sociedade, os judeus não estavam despojados de seu passado de tensões com os cristãos, nem do perfil de comunidade à parte e intimamente ligada ao Estado através da economia[321].

Em outras palavras, o anti-semitismo moderno, ao evocar a responsabilidade judaica pela destruição dos valores da tradição, indicava como a única solução para este problema o trinômio, suspeita, vigilância e eliminação. Devido a impossibilidade de dissolução das características singulares e malignas deste povo, só restaria a eliminação da fonte de todos estes males[322].

Dito isto, veremos a seguir que a singularidade do discurso integralista de Barroso na AIB deve-se exatamente à sua identificação com o anti-semitismo e com o antimaçonismo. Entretanto, conforme o levantamento de Rodrigo Oliveira, apesar de perpassar a organização, tais bandeiras nunca adquiriram a centralidade na ideologia integralista. Em sua pesquisa realizada com o jornal integralista A Offensiva (Rio de Janeiro), o autor destacou o reduzido número de matérias que se dedicavam à temática antimaçônica e anti-judaicas representando, respectivamente, 0,32 % e 5,76% do total. Mesmo assim, é importante salientar que Barroso só posicionou-se a favor do anti-semitismo após ingressar na AIB. Dois fatores contribuíram para delinear o seu perfil anti-semita. O primeiro, refere-se a sua condição de Chefe de Milícias, em consoante contato com as bases integralistas, onde o anti-semitismo ajudava a sedimentar as novas crenças. O segundo, refere-se à competição com Plínio Salgado pela liderança do movimento. O discurso anti-semita era utilizado como elemento aglutinador e mobilizador representando assim um instrumento de pressão dentro do movimento[323].

De qualquer forma, o discurso anti-semita de Barroso fez vários adeptos não somente nos núcleos integralistas das capitais como também pelo interior dos estados. Segundo Ivair Augusto Ribeiro, ao analisar o jornal integralista Cidade de Olympia, publicado naquela cidade localizada no interior do estado de São Paulo, muitas das ideias de Hitler, contidas no livro Minha Luta, acerca dos judeus podem ser detectadas nos artigos de integralistas publicados no referido jornal. A aproximação judaica dos operários para angariar sua confiança, o suposto domínio da Maçonaria e o envolvimento dos judeus com o comunismo são alguns exemplos. O judeu era visto como quem contaminava as nações, aquele que inoculava o vírus da Maçonaria e do comunismo, com o propósito de desestabilizar os governos e completar seu plano de domínio universal. Outro imaginário, que teve sua origem na Idade Media, foi a ligação do judaísmo ao demônio, pois os judeus, também representavam o anticristo, a encarnação do mal[324].

Como já foi visto, para muitos integralistas, o combate ao judaísmo se justificava como forma de preservar a civilização cristã, alvo principal da imaginada conspiração judaico-maçônica. Os camisas-verdes criaram a imagem da eterna luta do “espírito das trevas” contra o “espírito da luz”. A presença do maligno torna-se mais evidente na medida em que o judaísmo vem associado a dois outros “males” que reforçam o ódio anti-semita: a Maçonaria e o comunismo. Não é por acaso que comumente em livros e artigos anti-semitas existe um cordão umbilical unindo judaísmo, Maçonaria e comunismo, os quais formariam um arcabouço com a pretensão de dominar o mundo e eliminar a civilização cristã. A luta contra o inimigo semita reforçava as idéias nacionalistas dos anos de 1930, pois proporcionava um elemento a mais para agregar o povo em torno da defesa dos interesses da nação e, consequentemente, atrair adeptos às ideologias nacionalistas de direita, como o nazismo e o integralismo[325].

Segundo Ribeiro, a existência de um inimigo “quase invisível”, que seria responsável pelas mazelas da economia a da sociedade brasileira, como o endividamento externo do país, foi muito bem explorado no livro Brasil – Colônia de Banqueiros (1934) de Barroso. A figura do inimigo estrangeiro nas manifestações nacionalistas servia para excitar a fé patriótica do povo e, ao mesmo tempo, fortalecia o movimento integralista, na medida em que este preconizava uma ideologia autóctone, voltada aos interesses nacionais e avessa à influência de doutrinas forasteiras. Desta forma, o nacionalismo de direita estabelecia os inimigos a serem combatidos: o comunismo, o liberalismo, a maçonaria, o capitalismo e em particular o judaísmo, que estaria por trás dessas ideologias “nefastas” aos interesses da pátria[326].

Nas palavras de Barroso, o Brasil após se libertar do julgo português em 1822 amarrou-se no “carro triunfante de Israel” como escravo. A dependência externa do país impunha aos brasileiros um trágico destino, ou ser servo do judaísmo capitalista dos Rotschilds ou, então, escravos submissos do judaísmo comunista de Trotski, pontos extremos da oscilação do pêndulo judaico no mundo. A cura desta mazela estaria, na opinião de Barroso, numa “Revolução Integralista”, a única com o poder de promover as mudanças de pensamento, de instituições e de rumo, repelir o liberalismo, o comunismo e o judaísmo capitalista e, assim, salvar a pátria espiritual e materialmente. O Chefe das Milícias propunha encontrar no fundo da alma nacional aquele espírito imortal dos catequizadores, dos descobridores, dos bandeirantes e dos guerreiros, para livrar a pátria do apocalipse. Deste modo, o primeiro passo era a “eliminação completa do inimigo”, somente com uma medida drástica o governo poderia livrar-se dessa doença crônica que prostravam o organismo brasileiro. Barroso buscava transmitir uma imagem fundamentalista incitando os “camisas-verdes” a lutar até a morte[327].

Barroso entendia que o motor da história envolveria um conflito incessante entre duas concepções de mundo radicalmente opostas: o espiritualismo cristão e o materialismo judaico. Em seu livro o Quarto Império, o autor desenvolveu melhor essa tese, demonstrando que nos últimos séculos, os judeus levaram a melhor sobre os cristãos, não só impediram a realização da “utopia cristã medieval” como também abriram caminho para a criação do mundo moderno, regido pelo “Império de Capricórnio[328].

Nas afirmações de Barroso, os judeus derrotaram o “Estado Cristão Totalitário” às claras, mas desde o século XVIII agiam encobertos pela clandestinidade maçônica. Para o autor, o judaísmo teria se infiltrado, primeiramente, na Ordem dos Templários, transformando aquela tradicional corporação medieval na Maçonaria. Aqui justifica-se, mais uma vez, o ódio do autor pela Ordem maçônica, pois ele acreditava que a instituição trabalhava, disfarçadamente, para desestabilizar a ordem social. Além disso, assegurava com impressionante convicção que o materialismo, criação da ideologia judaica, através dos preceitos maçônicos liberais, foi o responsável por criar as condições necessárias para a exploração da classe trabalhadora levando-a ao desespero. Por conseguinte, os judeus, mentores intelectuais desta guerra social, inventariam o comunismo por meio do marxismo, (Marx era judeu) com o objetivo aparente de atender aos anseios da classe trabalhadora. Nesta perspectiva, a Revolução bolchevique de 1917 é retratada como a confirmação do complô judaico-maçônico, para Barroso graças àquele evento revolucionário o judaísmo conseguiu edificar o chamado “Império de Capricórnio”[329].

Em suma, Barroso propunha uma revolução interior que fundaria o “Império de Carneiro”, a síntese perfeita entre a economia, a política e a espiritualidade. Esta revolução cristã integral propunha substituir o determinismo racial pelo domínio da religião. Em outras palavras, a competição entre raças seria dissolvida na unidade espiritual. Por isso o judeu deveria ser eliminado, pois esse era um povo incapaz de renunciar a sua condição material em beneficio de um projeto cristão totalitário. Ao recusarem o convite à diluição sugerida pela totalização cristã impediriam a realização da mesma, impondo assim a necessidade da dita “solução final”. Para Barroso não é por ódio, desdém ou desprezo que se deve fazer uma campanha sistemática contra a judiaria e sim por instinto de auto-conservação. Antes da completa eliminação do elemento judaico os povos não se curarão de suas enfermidades. O modelo revolucionário de Barroso baseava-se na fé e nas instituições, que são passiveis de ser alteradas. A revolução espiritual, que criaria o homem novo, também seria a base para a fundação de novas instituições[330].

FINIS

Autor: Luiz Mário Ferreira Costa

Fonte: Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2009.

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Notas

[304] – BARROSO, Gustavo. História secreta do Brasil: da abdicação de D. Pedro I á maioridade de D. Pedro II. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1938.

[305] – MILGRAM, Avraham. O Itamaraty e os Judeus. In: CARNEIRO, Maria Luiza Tucci (org). O anti-semitismo nas Américas: Memória e História. São Paulo: EDUSP-Fapesp, 2007. p. 383 .

[306] – CARNEIRO. Maria Luiza Tucci. Metáforas de uma Civilização. In: — (org). O anti-semitismo nas Américas: Memória e História. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo- Fapesp, 2007. p.293.

[307] – Idem, p. 301.

[308] – BARROSO, Gustavo. História secreta do Brasil: do descobrimento á abdicação de D. Pedro I. (op. cit), p. 282.

[309] – CARNEIRO. Maria Luiza Tucci. Metáforas de uma Civilização. (op. cit), p. 301.

[310] – LESSER, Jeffrey. Semitismo em Negociação: O Brasil e a Questão Judaica (1930 – 1945). In: CARNEIRO, Maria Luiza Tucci (org). O anti-semitismo nas Américas: Memória e História. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo-Fapesp, 2007.

[311] – Idem, p. 275.

[312] – CARNEIRO. Maria Luiza Tucci. Metáforas de uma Civilização. (op. cit), p. 305.

[313] – 3 BEN-DROR, Graciela. As Elites Católicas do Brasil e sua Atitude em Relação aos Judeus (1933-1939). In: CARNEIRO, Maria Luiza Tucci (org). O anti-semitismo nas Américas: Memória e História. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo-Fapesp, 2007. p. 224.

[314] – Idem, p. 230-231.

[315] – Idem, p. 231.

[316] – Idem, p. 234.

[317] – Idem, p. 234.

[318] – MAIO, Marco Chor. Nem Rotschild nem Trotsky. O pensamento Anti-semita de Gustavo Barroso. Rio de Janeiro: Editora Imago, 1992.. p. 230.

[319] – ARENDT, Hannah. As Origens do Totalitarismo: Anti-semitismo, Instrumento de poder. Rio de Janeiro: Ed. Documentário, 1975.

[320] – MAIO, Marco Chor. O pensamento anti-semita moderno no Brasil: o caso Gustavo Barroso (op. cit), p. 231.

[321] – Idem, p. 233.

[322] – Idem, p. 235.

[323] – OLIVEIRA, Rodrigo Santos de. Perante o tribunal da história: o anti-semitismo da ação integralista brasileira. Dissertação de Mestrado. Porto Alegre, 2004. p. 121 On-line. Disponível em http://www.qprocura.com.br/dp/16310/Perante-o-tribunal-da-historia-:-o-anticomunismo-da-acaointegralista-brasileira.html. Acesso em 10 de março de 2009.

[324] – RIBEIRO, Ivair Augusto. (op. cit), p. 353.

[325] – Idem, p. 359.

[326] – Idem, p. 360.

[327] – BARROSO, Gustavo. Brasil – Colônia de Banqueiros. 5.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1936.

[328] – 8 BARROSO, Gustavo. O Quarto Império. Rio de Janeiro: José Olimpio, 1935.

[329] – Idem, p. 130.

[330] – BARROSO, Gustavo. Integralismo e Catolicismo. Rio de Janeiro: Editora ABC Limitada, 1937.

A república idealizada por Maçons – O que deu errado?

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Completados cento e trinta anos de proclamada, a república brasileira parece ainda estar em processo de estabilização, e surgem muitos questionamentos sobre sua legitimidade e o compromisso no trato da coisa pública (res publica) que merecem reflexão, especialmente depois das diversas manifestações nas redes sociais questionando a proclamação da república e o fato de não haver nada para comemorar. Considerando ainda a celebração pela adoção do atual Pavilhão Nacional em substituição à Bandeira Imperial.

Ao longo dessas treze décadas foram promulgadas e outorgadas seis Constituições Federais (1891, 1934, 1937, 1946, 1967, considerando a Emenda de 1969 e 1988) e o país passou por nove moedas, com diversas desvalorizações (Réis: até 1941, Cruzeiro: 1942, Cruzeiro Novo: 1967, Cruzeiro: 1970, Cruzado: 1986, Cruzado Novo: 1989, Cruzeiro: 1990, Cruzeiro Real: 1993 e Real: julho de 1994).

Importante observar que a república foi proclamada através de um golpe militar em 1889, que se estendeu até 1894 nas mãos dos Marechais Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, e que só findou com a eleição de Prudente de Morais, e depois advieram outros cinco períodos de intervenção militar (1930 a 1934 – Revolução de 30, 1937 a 1945 – Estado Novo, 1945 – Min. José Linhares na Presidência do STF e do Executivo por convocação das Forças Armadas, 1955 – Movimento 11 de Novembro e 1964 a 1985 – Ditadura Militar). Nove presidentes não iniciaram ou concluíram seus mandatos por crises políticas ou golpes (Deodoro da Fonseca: 1891, Washington Luís: 1930, Júlio Prestes: 1930, Getúlio Vargas: 1945 e 1954, Carlos Luz: 1955, Jânio Quadros: 1961, João Goulart: 1964, Fernando Collor: 1992 e Dilma Rousseff: 2016).

O país passou por diversas revoltas e viu a formação de guerrilhas como a Revolta da Armada: 1892 a 1894, a Revolução Federalista: 1893 a 1895, Revolta de Canudos: 1893 a 1897, Revolta da Chibata: 1910, Guerra do Contestado: 1912 a 1916, Revolta dos Dezoito do Forte: 1922, Coluna Prestes: 1923 a 1925, Revolução de 1930, Revolução Constitucionalista: 1932, Intentona Comunista: 1935, Luta Armada: 1965 a 1972.

Trinta e um (31) presidentes da república não foram eleitos diretamente, considerando a posse de interinos e também eleições marcadas por fraudes eleitorais e pelo controle das oligarquias e do coronelismo (Deodoro da Fonseca: 1889, Floriano Peixoto: 1891, Prudente de Morais: 1894, Campos Sales: 1898, Rodrigues Alves: 1902, Afonso Pena: 1906, Nilo Peçanha: 1909, Hermes da Fonseca: 1910, Venceslau Brás: 1914, Rodrigues Alves: 1918, Delfim Moreira: 1918, Epitácio Pessoa: 1919, Arthur Bernardes: 1922, Washington Luís: 1926, Júlio Prestes: 1930, Getúlio Vargas: 1930, José Linhares: 1945, Café Filho: 1954, Carlos Luz: 1955, Nereu Ramos: 1955, Ranieri Mazilli: 1961, João Goulart: 1961, Castelo Branco: 1964, Costa e Silva: 1967, Garrastazu Médici: 1969, Ernesto Geisel: 1974, João Figueiredo: 1979, Tancredo Neves: 1985, José Sarney: 1985, Itamar Franco: 1992 e Michel Temer: 2016).

Merece destacar que somente nove presidentes podem ser considerados eleitos pelo voto popular livre e sem dúvidas no processo eleitoral, sendo que dois sofreram impeachment (Fernando Collor: 1992 e Dilma Rousseff: 2016) e dois terminaram seus mandatos antes do tempo Getúlio Vargas: 1950 (suicídio) e Jânio Quadros: 1960 (renúncia). Apenas quatro presidentes da república eleitos pela via direta puderam exercer seus mandatos integralmente: Eurico Gaspar Dutra (eleito em 1945), Juscelino Kubitschek (1955), Fernando Henrique Cardoso (1994 e 1998) e Luiz Inácio Lula da Silva (2002 e 2006). No momento, Jair Bolsonaro exerce o mandato de presidente, tendo sido eleito em 2018.

Foram oito presidentes presos por motivos políticos, por acusação e ou por condenação pelo cometimento de crimes: Hermes da Fonseca em 1922, Washington Luís em 1930, Arthur Bernardes em 1932, Café Filho em 1955, Jânio Quadros em 1968, Juscelino Kubitschek em 1968, Luiz Inácio Lula da Silva em 2018 e Michel Temer em 2019.

Deve ser registrado que as manifestações sobre a república apareceram no Brasil ainda no período colonial antes mesmo da influência da Independência dos Estados Unidos da América (1786) e Revolução Francesa (1789), ou das revoltas no solo brasileiro colonial com a Conjuração Mineira (1789), Conjuração Carioca (1794) e Conjuração Baiana (1798-1799), como lembra a historiadora e cientista política, Heloísa Starling (2018), referindo-se ao Frei Vicente do Salvador, que já em 1630 afirmou que “nenhum homem nesta terra é repúblico, nela zela, ou trata do bem comum, senão cada um do bem particular”.

As expressões republicanas no final do século XVIII construía na Terra Brasilis mais um sentimento antimonárquico, de liberdade da colônia e de independência que propriamente de melhor trato da coisa pública. No comentário do professor de Sociologia Alexandro Trindade, da UFPR (ISTOÉ, 2007), sobre a hipótese sustentada pelo historiador José Murilo de Carvalho de que o provo assistiu “bestializado” à proclamação da república, afirma que: “Foi um movimento de intelectuais e militares descontentes com a atenção que o Império dedicava a eles próprios”.

Na mesma matéria publicada pela Revista ISTOÉ na data do 118º aniversário da proclamação, reconheceu o presidente da OAB-Paraná, Alberto de Paula Machado, as dificuldades institucionais brasileiras, mas seguia acreditando que a República brasileira está se aprimorando, e afirmou que o país tem “um nível de democracia (…) com perspectivas boas de futuro. O que não melhora é o cuidado com a coisa pública” e cita as privatizações feitas no governo Fernando Henrique Cardoso e as denúncias do “mensalão”, na gestão Lula.

O futuro, entretanto, reservava para a nação mais escândalos somados a um mal maior, que foi a divisão do país em proporção nunca dantes vista por motivos ideológicos. Assim, a república nascida de um golpe militar, sem a participação popular, com o ilusório objetivo de que com a mudança do regime faria o país ingressar na modernidade, que não se confirmou, percebe, mais de um século depois, que nunca conseguiu estabilidade como demonstrado no início deste texto, e que gradativamente se afastou dos seus princípios fundadores (ordem, progresso, liberdade, igualdade e fraternidade).

Os mencionados princípios republicanos estão interligados com os ideais maçônicos. Segundo o Portal do Grande Oriente do Brasil[1], a Maçonaria é uma instituição filosófica, que “investiga as leis da natureza e relaciona as primeiras bases da moral e da ética pura”; filantrópica e educativa porque cultiva o aclassismo, “não está constituída para obter lucro pessoal de nenhuma classe, e procura conseguir a felicidade dos homens por meio da elevação espiritual e pela tranquilidade da consciência”; e progressista pois “acredita na imortalidade e da crença em um princípio criador regular e infinito, não se aferra a dogmas, prevenções ou superstições”. A Ordem maçônica tem como princípios “a liberdade dos indivíduos e dos grupos humanos, sejam eles instituições, raças, nações; a igualdade de direitos e obrigações dos seres e grupos sem distinguir a religião, a raça ou nacionalidade; a fraternidade de todos os homens, já que somos todos filhos do mesmo CRIADOR e, portanto, humanos e como consequência, a fraternidade entre todas as nações”, defendendo a humanidade e a democracia.

“Ciência, Justiça e Trabalho” é o lema da Maçonaria brasileira, pois tem-se “a ciência, para esclarecer os espíritos e elevá-los; justiça, para equilibrar e enaltecer as relações humanas; e trabalho por meio do qual os homens se dignificam e se tornam independentes economicamente. Em uma palavra, a Maçonaria trabalha para o melhoramento intelectual, moral e social da humanidade”. O objetivo da instituição é “a investigação da verdade, o exame da moral e a prática das virtudes”, e tem por dever “o respeito e os direitos dos indivíduos e da sociedade”, como a propriedade, mas também de proteger e servir aos nossos semelhantes. Enfim, a Maçonaria resume o dever do homem assim: ‘Respeito a Deus, amor ao próximo e dedicação à família’. Em verdade, essa é a maior síntese da fraternidade universal” (Portal do GOB).

No contexto histórico nacional estão os Maçons como protagonistas dos três principais eventos do século XIX, participando da fundação do Brasil independente, como também da Abolição da Escravidão e da proclamação da república. Muitas vezes a instituição Maçonaria é citada como partícipe nos eventos políticos brasileiros ocorridos no século XIX, entretanto, a sua presença ocorre mais pela iniciativa de cada homem que fazia parte desta distinta Ordem e sua influência social, do que por atividade institucional.

Inicialmente, os Maçons participaram efetivamente de todo o processo de independência envolvidos por dois dos principais protagonistas do movimento, José Bonifácio de Andrada e Silva e Joaquim Gonçalves Ledo eram Maçons e organizaram desde o Dia do Fico até a Coroação de D. Pedro de Alcântara Bragança e Bourbon como Imperador do Brasil. Entre esses eventos foi fundado o Grande Oriente Brasílico (do Brasil) e foi realizada a iniciação do Príncipe D. Pedro na recém-criada Ordem nacional. Ensina Castellani (1973) que:

A Independência do Brasil era a meta específica dos fundadores do Grande Oriente e logo todos eles dedicaram-se a consegui-la, embora o processo emancipador, nos meios maçônicos já tivesse sido iniciado antes de 17 de junho de 1822. Na realidade, o primeiro passo oficial dos Maçons, nesse sentido, foi o Fico, de 9 de janeiro, o qual representou uma desobediência aos decretos 124 e 125, emanados das Cortes Gerais portuguesas e que exigiam o imediato retorno do príncipe a Portugal, […].

Por ocasião da independência do Brasil foi considerada a proposta de José Bonifácio pela adoção da Monarquia como forma de governo, afastando a sugestão de Gonçalves Ledo, mas com adesão deste, cuja finalidade era de gerar na população brasileira o sentimento de nacionalidade, de patriotismo, de civismo, a identidade nacional e principalmente manter a unidade do território em torno da figura do Imperador, e assim todos esses objetivos foram construídos por uma elite política imperial. Ao contrário, a América espanhola formou diversas repúblicas.

O Maçom José Bonifácio ainda apresentou para o país em formação proposta de Abolição da Escravidão junto à Assembleia Constituinte em 1823, mas nunca foi debatida ou contestada, tendo sido ignorada (SENADO FEDERAL, 2012), e ao final houve vitória dos interesses escravagistas, colocando o Patriarca do Brasil no ostracismo, e mantendo a liberdade incondicional fora da Constituição do Império. Durante todo o Segundo Império a campanha de libertação dos escravos foi lenta e gradual com a adoção de várias leis abolicionistas, uma vez que os parlamentares do período eram grandes latifundiários e proprietários do elemento servil, termo usado pelo Monarca para identificar os que não tinham liberdade, mas sem mencionar os termos cativos ou escravos.

Os preceitos maçônicos relacionados à abolição da escravidão se concretizaram em 1850 com a Lei Eusébio de Queiroz que proibiu o tráfico e tornou ilegal a importação de cativos. Eusébio de Queiroz era Ministro da Justiça e Maçom, cuja iniciativa inaugurou uma série de quatro importantes leis. Em 1871 adveio a Lei do Ventre Livre, proposta pelo Maçom José Maria da Silva Paranhos, Visconde do Rio Branco, incentivado pelo discurso do Imperador D. Pedro II em 1867. A segunda lei abolicionista foi dos Sexagenários proposta pelo Ministro e Senador liberal Manuel Pinto de Sousa Dantas, em 1884, mas só foi aprovada em 1885 com emendas, como a que aumentar o limite de idade do cativo a ser liberto de sessenta para sessenta e cinco anos, por isso a Lei dos Sexagenários libertava apenas com 65 anos. Essa lei ficou conhecida também por Saraiva-Cotegipe em referência aos dois membros do gabinete ministerial do Império, o liberal Conselheiro José Antônio Saraiva[2] e o conservador Barão de Cotegipe, João Maurício Wanderley, que a apoiaram.

A Lei Áurea foi o documento legislativo decisivo que contou com a colaboração da Princesa Isabel do Brasil que, diante da Assembleia Geral, na Fala ao Trono no início de 1888 pediu a extinção do elemento servil no Brasil, como forma de atender o espírito cristão e liberal das instituições brasileiras. A proposta de abolição da escravidão foi apresentada pelo ministro da Agricultura da época, o Maçom Rodrigo Augusto da Silva, em 8 de maio de 1888 e foi votada nas duas casas em cinco dias, sendo que no dia 13 de maio foi assinada pela Princesa Regente Isabel e pelo propositor da norma. Assim, segundo D’Albuquerque (1970):

A libertação dos escravos no Brasil, foi, não há como negar, iniciativas de maçons, um empreendimento da Maçonaria. A Maçonaria, cumprindo sua elevada missão de lutar pela reivindicação dos direitos do Homem […]. Aí estão os fatos para confirmar nossa assertiva. Basta ver a predominância extraordinária de maçons entre os que pelejaram para que desaparecesse do Brasil a vexatória mancha da escravidão.

D’Albuquerque (1970) cita ainda vários Maçons que direta ou indiretamente também participaram da extinção da escravidão no Brasil: Nabuco de Araújo, José do Patrocínio, Luiz Gama, Joaquim Nabuco, João Alfredo, Quintino Bocaiúva, Rui Barbosa, Teófilo Ôtoni, Saldanha Marinho, Luis May, Chicorro da Gama, Pimenta Bueno (Marquês de São Vicente), Sousa Franco, Tristão de Alencar, Tôrres Homem, Francisco Otaviano, Figueira de Melo, Cristiano Ôtoni, Sinimbu, Jerônimo Sodré, Barros Pimentel, Nicolau Moreira (Presidente da Sociedade Brasileira contra Escravidão), Lopes Trovão, Castro Alves, Ubaldino do Amaral, João Ferreira, Serpa Júnior, André Rebouças, Paula Brito e Montezuma, dentre outros, demonstrando a contribuição dos homens que fazem parte da Maçonaria neste importante ato de cidadania nacional.

Dezoito meses depois da Abolição adveio a república, com a participação ativa de muitos dos Maçons acima citados. A mudança do sistema de governo permaneceu por muito tempo presente nos debates nacionais entre brasileiros e portugueses, liberais e conservadores, republicanos e monarquistas, mas sem que efetivamente fosse implementada. Destaque-se que durante o 2º Reinado foi fundado o partido republicano paulista em 1873, após a Convenção de Itu. A república simbolizava um rompimento com o antigo regime, era entendido como um ingresso na modernidade, deixando o Brasil ao lado dos Estados Unidos (1789), França (1792) e todas as repúblicas vizinhas da América Latina.

Além disso, a Monarquia no final do século XIX carregava o ranço do absolutismo, e simbolizava a desigualdade entre as pessoas, não sendo admitida a existência de membros da realeza e nobreza com privilégios garantida pelo simples fundamento do nascimento. A república era a alternativa que apresentava um rompimento com esse antigo regime, pois em tese, defendiam os republicanos, garantia a qualquer pessoa a possibilidade poder chegar ao poder pelo voto.

Some-se ao fundamento teórico que sustentava a defesa pela mudança de sistema no Brasil as questões religiosa, militar e abolicionista, surgidas nos últimos anos da Monarquia, que influenciaram consideravelmente na sua deposição. Cada uma delas ao seu tempo foi diminuindo o apoio de importantes setores sociais ao Imperador. Resumidamente, na primeira questão, os membros da igreja católica se sentiram preteridos pelo Imperador por interferir nos seus assuntos e vetar decisões do Vaticano[3]. Os militares queriam participar mais da política brasileira após a Guerra do Paraguai, mas o regime Monárquico não abria espaço para esta participação. Muitos fazendeiros, possuidores de grandes investimentos que envolviam mão-de-obra escrava, não ficaram satisfeitos com a abolição e também passaram a fazer oposição ao regime monárquico. O Imperador após a extinção da escravidão ficou politicamente isolado, sem qualquer apoio.

Certamente a república teria sido muito bem-vinda ao Brasil se à época ela tivesse realmente vencido aqueles homens que corrompiam as instituições, e os motivos para adoção do novo regime fossem legítimos e com participação popular. Todavia, ao contrário, foram vitoriosos os oligarcas, grandes latifundiários e aqueles que tinham sua economia baseada na manutenção da escravidão, que passaram a ver na figura do Imperador D. Pedro II e da futura governante, a Princesa Isabel do Brasil, empecilho para seus interesses[4], ou seja, “tudo deve mudar para que tudo fique como está”[5], e não houve concordância do povo, que apenas observaram tudo. Ademais, a ausência da participação e ciência do povo na proclamação da república gerou suspeição de legitimidade, tanto que foi realizado em 1993 um plebiscito[6] programado na Constituição de 1988, em que foi escolhida a forma de governo republicano e sistema presidencialista, e vencidos a Monarquia e o Parlamentarismo.

O que causa espécie é o fato do Imperador ter caído por ser culto, como pode ser observado em trecho da ata que registra a posse de Marechal Manuel Deodoro da Fonseca, publicado no Boletim do Grande Oriente do Brasil em 1890, em que se destaca o comentário do Orador (págs. 10-11):

Não cahio a Monarchia por ser tyrannica, nem oppressora; porém, sim, porque todas as instituições que deviam concorrer para mante-la, foram estragadas pelos homens que audazmente galgaram as mais elevadas posições, sem outro merecimento senão — ou a ambição que cega, ou o patronato que avilta.

Se me fosse permittido biographar n’este momento a vida do ex-Imperador, eu chegaria, sem receio de coutestação séria, a afirmar que muito deve este Paiz ao seu dedicado e extremoso amor de filho, e que se peccou foi por fraqueza de seu espirito, antes preparado para as disputas scientificas, que exigem só o concurso da razão; do que para as lutas de governo, que exigem o concurso da vontade, que quer e sabe querer. 

Pedro II não foi um político, nem poderia ser pelo fato de exercer o Poder Moderador, seu reinado não era tirânico ou opressor. Todavia, ele não se submeteu a ambição cega e ao aviltante patronato, nem se conformou com a situação dos escravos, por isso gradativamente promoveu a libertação dos mesmos, na velocidade e dentro das possibilidades que o estamento burocrático[7] do período permitia, pois infelizmente essas péssimas práticas continuaram com o advento do novo regime, uma vez que boa parte dos políticos e grupos influentes que derrubaram a Monarquia, continuaram atuando na república.

Tanto é que os homens livres e de bons costumes que contribuíram para a substituição da forma de governo, gradativamente foram afastados dos negócios do Estado ou se arrependeram. Pode-se citar como exemplo José do Patrocínio que foi deportado para o Amazonas por Floriano Peixoto em 1892 após editar matéria jornalística que criticava seu governo ditatorial. Outros também manifestaram descontentamento como Quintino Bocaiúva e Benjamin Constant aos quais atribuem as frases, na internet:

Só volto ao senado para pedir perdão a Deus pelo que fiz para que viesse essa república; e admiro que o povo ainda não tenha cortado a cabeça de quanto cometemos o tão funesto erro. (Quintino Bocaiúva)

Não era essa a república com que eu sonhava. (Benjamin Constant)

A Rui Barbosa é atribuída a frase: “Majestade me perdoe, não sabia que a república era isto”, amplamente divulgada na rede de alcance mundial, mas também sem indicação da fonte, gerando dúvida quanto ao momento em que as palavras foram dirigidas ao Monarca no exílio. Em outro momento, Rui Barbosa fez a mea culpa, quando em discurso em 17 de dezembro de 1914 no Senado declarou[8]:

(…) De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a ter vergonha de ser honesto. Essa é a obra da república nos últimos anos. No outro regime (a monarquia) o homem que tinha certa nódoa em sua vida era um homem perdido para todo o sempre – as carreiras políticas lhe estavam fechadas. Havia uma sentinela vigilante, de cuja severidade todos se temiam a que, acesa no alto, guardava a redondeza, como um farol que não se apaga, em proveito da honra, da justiça e da moralidade gerais.

Na República os tarados são os tarudos. Na República todos os grupos se alhearam do movimento dos partidos, da ação dos Governos, da prática das instituições. Contentamo-nos hoje com as fórmulas e aparência, porque estas mesmo vão se dissipando pouco a pouco, delas quase nada nos restando. (…)

E nessa destuição geral das nossas instituições, a maior de tôdas as ruínas, Senhores, é a ruína da justiça, colaborada pela ação dos homens públicos, pelo interêsse dos nossos partidos, pela influência constante dos nossos Governos. E nesse esboroamento da justiça, a mais grave de tôdas as ruínas é a falta de penalidade aos criminosos confessos, é a falta de punição quando se aponta um crime que envolva um nome poderoso, apontado, indicado, que todos conhecem, mas que ninguém tem coragem de apontá-lo à opinião pública, de modo que a justiça possa exercer a sua ação saneadora e benfazeja. (…)

A sentinela qual um farol era justamente o Imperador D. Pedro II, com seu caderninho preto onde anotava com o lápis fatídico os nomes daqueles, que por atitudes indignas, não deveriam mais pertencer a cargos de governo (PEREIRA, 2000).

Outra frase muito lembrada de Rui Barbosa é a de que “o parlamento no Império era uma escola de estadistas, na república uma praça de negócios”, sem registro conhecido, mas que pode ser compreendida como um resumo ou adaptação de trecho[9] que faz parte de Conferência em 1919. E no mesmo ano, Rui Barbosa tece elogios sobre o período monárquico:

O regime constitucional, na Monarquia, tinha, entre nós, dois largos pulmões, o parlamento e a imprensa, por onde a vida nacional se oxigenava livremente. O nome do Senado não desdizia, ali, das tradições da majestade antiga, não repugnava as grandezas consulares da casa de Cícero e Catão. A tribuna legislativa era gloriosa arena, onde as ideias e as virtudes se batiam pelas aspirações da honra e do civismo. (Obras Completas de Ruy Barbosa. V. 46, t. 1, 1919. p. 21).

Os presidentes maçons que assumiram a chefia do Poder Executivo na velha república não conseguiram vencer a nefasta forma de fazer política existente no país durante cada um de seus mandatos e não tiveram paz em seus governos, e por isso não se pode afirmar que eles tiveram as condições adequadas para implementar seus conhecimentos e comportamentos maçônicos, o país estava em convulsão desde a derrubada do antigo regime. Deodoro destituiu o Poder Legislativo e renunciou diante das pressões de eclosão da Revolta da Armada. Floriano, enfrentou diversas rebeliões e lançou uma ditadura com estado de sítio. Prudente, sofreu atentado e deparou-se com a Revolta de Canudos, um genocídio nacional. Sales, deparou-se com as exigências da oligarquia, com a formação da política do café-com-leite e instituição do coronelismo. Peçanha, assumiu com o falecimento de Afonso Pena, tendo sido registrada na sua gestão agitação política provocada pela oposição. Hermes, encarou a Guerra do Contestado e Revolta da Chibata. Brás, conseguiu a pacificação dos conflitos nacionais, como a Revolta dos Sargentos (1915) e enfrentou as greves em 1917, mas foi envolto na crise da 1ª Guerra Mundial (1917). Delfim, deparou-se com greves e problemas sociais. Washington, foi deposto e exilado pela Revolução de 1930.

Depois da velha república, ainda assumiram a presidência três Maçons. Na década de 50, sucederam a Getúlio, Café Filho, que fez cortes nas despesas do governo e contenções no crédito, mas adoeceu e foi impedido pelo Congresso, e Ramos, que governou sob estado de sítio até o início do mandato de Juscelino Kubitschek. E Jânio Quadros, que embora eleito com a maior votação até então obtida no Brasil, renunciou em 1961, com 206 dias de exercício do mandato, alegando que “forças terríveis” se levantaram contra seu governo (ANDRADE, 1985) e deram início aos fatos que ensejaram a quinta intervenção militar na república em 1964.

E o que deu errado? Na verdade, não é a forma ou o sistema de governo adotado na Independência ou em 1889 que fez o país ser melhor ou pior, pois a questão principal está nas pessoas que assumiram a responsabilidade de gerir o país nos momentos importantes para o desenvolvimento nacional. Ademais, não se pode afirmar que a manutenção da Monarquia conduziria o país ao desenvolvimento e resolução dos problemas nacionais por caminhos com menos dificuldades.

De certo, os Maçons participaram de diversos acontecimentos da história mundial, tiveram essencial presença na Independência dos Estados Unidos da América e adoção da república, sendo notório os símbolos nas cédulas de dólar, nas cidades construídas e nos monumentos erguidos, como a Capital Washington D.C., bem como nos eventos que envolveram a Monarquia britânica, como na restituição dos Stuarts[10] ao trono após o término do governo de Oliver Cromwell, a revolução Gloriosa, e o fato de ser o Grão-Mestre da Grande Loja Unida da Inglaterra membro da Família Real, o Duque de Kent, o Príncipe Edward. Duas nações com diferentes sistemas, mas que venceram suas dificuldades com a participação dos Maçons.

A Maçonaria não tem preferência por formas de governo ou de Estado, nem por sistemas de governo, estimula os governos a serem democráticos e contra toda forma de exploração e despotismo, sejam eles políticos, econômicos ou intelectuais.

Difícil afirmar que todas as contribuições e participações dos Maçons nas questões sociais e políticas alcançaram os resultados pretendidos. Como seres humanos todos podem realizar ações bem-intencionadas, mas que não lograram o êxito pretendido, assim como não há como evitar que más atuações tenham sido praticadas, conscientes ou não, pois errar é humano, e independe de ser iniciado ou não. Todavia, sempre esquecem ao criticar os Maçons e a Maçonaria das suas ações beneficentes e altruístas, da contribuição que sempre deram pela educação, na formação de jovens através de escolas que ajuda a manter e das entidades paramaçônicas (DeMolay, Filhas de Jó e Apejodistas), bem como de órgãos de promoção da saúde pública, e essas ações nunca cessaram.

Muitas vezes se atribui à Maçonaria as mazelas que se vivencia na atualidade, todavia, não há qualquer demonstração plausível que sustente a afirmação, até mesmo porque houve muita deturpação das informações e negação da história nacional, das instituições e dos ícones históricos, daí ser necessário resgatar a verdade, como também os adequados valores e comportamentos e exaltar as boas ações dos vultos nacionais. Até porque não é possível avaliar as ações do passado como se pudessem ser mudadas, as decisões tomadas no pretérito atenderam as demandas de suas épocas. Em mídia produzida pela TV GOB, pertencente ao Grande Oriente do Brasil, em homenagem à proclamação da república, o Maçom João Francisco Guimarães[11], Maçom, escritor e historiador (GOB, 2019), conclui sua exposição com um desabafo:

(…) a república acabou com o padroado, instituiu o casamento, o registro de nascimento, teve um ministério totalmente maçônico, começou a colocar o país no trilho (…) A república continua sendo uma grande dívida para os brasileiros e maçons. Até hoje a república loteia este país com trinta e poucos partidos, ministros de tudo que é qualidade, de má qualidade. E a sorte é que tem algumas boas intenções. Isso é o que acontece na república de hoje, 2016. (…)

Concluindo, é extremamente importante discutir a história do Brasil, estudar com seriedade as diversas interpretações e críticas sobre os fatos e eventos históricos, especialmente para compreender a Maçonaria, como se deu a participação de Maçons nos episódios pátrios relevantes, em especial a coexistência com a república, os objetivos que levaram a esse protagonismo e as condições de aplicação dos princípios e objetivos da Ordem maçônica, observando as condutas de todos os agentes e gestores (Pedreiros livres ou não) e o papel de cada agente na linha do tempo. Essa reflexão torna possível identificar os acertos e as falhas, como forma de deflagrar discussão proativa sobre os caminhos a serem tomados pela nação brasileira, principalmente depois das três décadas de experiência republicana, com a participação dos atuais Iniciados, sendo imprescindível que não somente apoiem as mudanças, mas também permaneçam integrados aos negócios públicos, empregando suas condutas maçônicas.

Autor: Eduardo Albuquerque Rodrigues Diniz
ARLS Liberdade Teresinense, 1.314 – Oriente de Teresina/PI

Fonte: BIBLIOT3CA

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Notas

[1] – Consulte: https://www.gob.org.br/o-que-e-a-maconaria/. As orientações da Maçonaria no Brasil leva em consideração documentos e práticas universais, como as Landmarks e a Constituição de James Anderson.

[2] – José Antônio Saraiva foi Presidente da Província do Piauí entre 1850 e 1853 e mudou no ano de 1852 sua capital de Oeiras para Teresina, que foi batizada com esse nome em homenagem à Imperatriz Thereza Cristina. Foi duas vezes Presidente do Conselho de Ministros e chegou a ser escolhido pela terceira vez pelo Imperador Pedro II no dia 15 de novembro de 1889 no lugar do Visconde de Ouro Preto, mas o fato sequer foi reconhecido pois o Golpe republicano já havia sido deflagrado.

[3] – Destaca-se na questão religiosa o fato ocorrido na década de 1870, depois que o Papa Pio IX enviou uma bula que determinava, entre outras coisas, que todos os católicos envolvidos com a maçonaria se afastassem dela e em caso de recusa fossem excomungados da Igreja. O Imperador D. Pedro II defendeu os Maçons, especialmente porque alguns membros da Ordem faziam parte de seu governo, e não consentiu na perseguição determinada pelo Vaticano. Todavia, os bispos do Rio de Janeiro, Olinda e Belém preferiram acatar a orientação de Pio IX promovendo a perseguição de maçons e a expulsão dos párocos ligados a maçonaria. A desobediência acarretou na prisão dos bispos de Olinda e Belém, e a questão somente foi resolvida com a intervenção da Princesa Isabel do Brasil, da missão do Barão de Penedo a Roma, libertação dos clérigos e cessação tácita das perseguições.

[4] – A Princesa Isabel do Brasil em carta ao Visconde de Santa Victória, sócio do Visconde de Mauá, datada em 11 de agosto de 1889, referia-se a pontos sensíveis no período, comprovando sua intenção em indenizar os libertos, fazer a reforma agrária e instituir o sufrágio feminino, o que desagradava sobremaneira as elites agropecuárias. Deve-se considerar também que Príncipe consorte, ou seja o marido de D. Isabel, Conde D’Eu, era francês e Maçom, e havia receio de ele pudesse influenciar no futuro terceiro reinado.

[5] – Frase famosa do príncipe de Falconeri, no livro O leopardo, escrito por Giuseppe Tomasi di Lampedusa, entre os anos de 1954 e 1957.

[6] – O Decreto nº 01 do Governo Provisório da República dos Estados Unidos do Brasil, de 15 de novembro de 1889, no art. 7º determinou que nenhum governo local poderia ser “contrário à forma republicana”, mas observou que os mesmos deveriam aguardar “como lhe cumpre, o pronunciamento definitivo do voto da nação, livremente expressado pelo suffragio popular” (BRASIL, 1889). Esse pronunciamento definitivo prometido no primeiro decreto do governo republicano ocorreu 103 anos depois, através do plebiscito previsto no art. 2º do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição Federal de 1988, marcado inicialmente para 7 de setembro, todavia, sua realização foi antecipada para 21 de abril, pela Emenda Constitucional nº 02, de 25 de agosto de 1992, o que gerou insatisfação das frentes defensoras da Monarquia e do Parlamentarismo e questionamentos por causa da antecipação da votação, pois tiveram reduzido o tempo para se organizarem, fazerem arrecadação de recursos financeiros e para realização da campanha de divulgação das propostas, favorecendo o status quo. Enfim, permanece a suspeição sobre a consulta e descrença quanto a forma e sistema de governo.

[7] – Para Raimundo Faoro: “O estamento burocrático comanda o ramo civil e militar da administração e, dessa base, com aparelhamento próprio, invade e dirige a esfera econômica, política e financeira. No campo econômico, as medidas postas em prática, que ultrapassam a regulamentação formal da ideologia liberal, alcançam desde as prescrições financeiras e monetárias até a gestão direta das empresas, passando pelo regime das concessões estatais e das ordenações sobre o trabalho. Atuar diretamente ou mediante incentivos serão técnicas desenvolvidas dentro de um só escopo. Nas suas relações com a sociedade, o estamento diretor provê acerca das oportunidades de ascensão política, ora dispensando prestígio, ora reprimindo transtornos sediciosos, que buscam romper o esquema de controle”.

[8] – Obras Completas de Ruy Barbosa. V. 41, t. 3, 1914. p. 86 e 87.

[9] – Na Conferência, afirmou Rui Barbosa: A nação não ouve o que dali se diz: porque o que dali se diz, não tendo autoridade alguma, nenhum prestígio, nenhum eco, nenhuma repercussão pode ter. Com govêrno parlamentar as câmaras legislativas constituem uma escola. Com o presidencialismo, uma praça de negócios. O segrêdo, que agora já se quer banir, até, da diplomacia, é a essência do govêrno interno sob as nossas instituições. (Obras Completas de Ruy Barbosa. V. 46, t. 1, 1919. p. 142).

[10] – Os Stuarts e seus defensores exilados na França receberam apoio dos Maçons para retornarem à Escócia, coroarem Charles Stuart como Rei escocês e, depois da morte de Oliver Cromwell, voltarem para a Inglaterra e também como rei inglês, restaurando a monarquia.

[11] – A gravação foi produzida em 2016 pela TV GOB.

Referências

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