A “velha” versus a “nova” maçonaria: os desafios da Irmandade na pós-modernidade

O CONFLITO ENTRE O NOVO E O VELHO – Comunidade Bíblica Regenerada

Na teoria sociológica, as questões voltadas às concepções de identidade estão sendo amplamente discutidas. Discute-se o termo identidade para designar características específicas de um sujeito, isto é, aquilo que o diferencia das demais pessoas. Este princípio de identificação não está preso somente às discussões da sociologia. É algo que ultrapassa as fileiras acadêmicas e atinge pessoas nas diversas relações sociais estabelecidas no cotidiano. O objetivo deste trabalho é problematizar a noção de identidade nos dias de hoje e indagar: a maçonaria parou no tempo, como muitos dizem, ou ela não se adequou ao novo estilo de vida pós-moderno?

Stuart Hall (2006) argumenta que existem três concepções de sujeito: o sujeito do iluminismo (aquele centrado, unificado, voltado essencialmente para a razão); o sujeito sociológico (produto das reflexões complexas do mundo moderno, não autônomo e formado nas relações com as outras pessoas); e o sujeito pós-moderno (que celebra o móvel, que assume diferentes identidades em diferentes momentos, uma “multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis”).

Estas três definições dadas por Hall demonstram um panorama da concepção de identidade do sujeito ao longo dos séculos. Lá, no sujeito do iluminismo, a maçonaria especulativa ganhava força, estruturando os ritos e rituais, organizando os templos e abandonando sua fase operativa – fruto do medieval – e iniciando a fase especulativa, na qual a moral, os bons costumes e o estilo de vida do profano valem mais do que o trabalho concreto na pedra bruta. Pelos ensinamentos morais, o maçom aprende a vencer as paixões, submeter suas vontades e alcançar novos progressos na maçonaria, atravessando por três grandes viagens simbólicas: o aprendizado, o companheirismo e o mestrado maçônico. Nesta fase que experimentamos até hoje, o maçom cuida de sua moral e, costumeiramente, ouvimos dizer que “estamos em constante processo de aprendizagem, construindo nosso templo interior”.

A maçonaria enquanto instituição assistiu e assiste a estas alterações de identidade colocadas por Hall. Convivemos bem com a égide iluminista – afinal, nascemos na era das luzes e fatalmente muitos autores desta linha ideológica sustentam a moral maçônica. Convivemos com a identidade sociológica, uma vez que o maçom é um ser social, se reúne em loja com maçons de diversas profissões e, consequentemente, há o estímulo fraternal da instituição. Para além dos templos, fazemos campanhas beneficentes, socorremos as viúvas necessitadas e auxiliamos as áreas da filantropia e do civismo, às vezes até confundindo atos políticos como legítimos da maçonaria…

Mas, a maçonaria está preparada para viver a pós-modernidade? Ela sabe lidar com as identidades flexíveis, mutáveis, indefinidas? Com o advento da tecnologia, os rituais já não são mais secretos; os sinais, toques e palavras estão disponíveis na internet; a compra de aventais está fácil; e esta própria mobilidade faz com que os irmãos muitas vezes não permaneçam nos ágapes, tenham diversos compromissos em suas agendas e o espírito fraternal se perca pouco a pouco.

Não proponho que retornemos ao passado imbuído de um pensamento nostálgico. A maçonaria não pode viver do passado: ela deve analisar o presente e intervir, no sentido de oferecer à sociedade melhores condições de vida no futuro, agindo em torno das lojas ou dos próprios irmãos em seus lares e locais de trabalho, enfim, no dia-a-dia.

A maçonaria deve permanecer com os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. Mas tem que se preparar para o futuro. Já encaramos pranchas e convites on-line, dispensamos os boletins impressos e uma carta enviada às coirmãs pelo correio não é mais algo de praxe. Precisamos refletir que o sujeito pós-moderno (ou que vive da modernidade tardia, como alguns autores dizem) é participativo, mutante, irônico, indeterminado, flexível, comprime as relações espaço-tempo, desconstruidor e anárquico. Todas estas características levam à criatividade própria das pessoas de hoje, que se engajam em manifestações via internet, que trabalham por projetos sem estarem presas a horários e regras e que prezam pela segurança financeira aliada a novos desafios.

O argumento deste artigo é que a ação da maçonaria precisa ser repensada. As relações sociais mudaram, as pessoas mudaram, a sociedade mudou, o modo de vida mudou e a maçonaria continua lá, intacta. É claro que não é necessário revolucionar a maçonaria, até porque os princípios gerais da ordem devem ser mantidos. Mas precisamos repensar a escolha dos irmãos, pois alguns postulados antigos caíram por terra. É preciso repensar as ações para além das paredes de nossos templos, pois ajudar financeiramente quem precisa (quando isso ocorre…), contribuir com rifas e promoções ou votar em candidatos irmãos não basta.

Sugiro que a maçonaria passe a refletir os caminhos que a pós-modernidade nos tem levado. Trabalhar por projetos, envolver os irmãos e explorar a criatividade são tarefas básicas. Agiremos, dessa maneira, como uma elite estratégica, colocada em postos fundamentais e que faz a diferença nas profissões, nos projetos que nos engajamos, nas empreitadas que topamos. Quando isso ocorrer, aproveitaremos nossa união, reforçando os laços de amizade e prosperidade entre os irmãos e, por conseguinte, pensando em uma nova atitude maçônica, totalmente condizente com a geração do novo século que já estamos vivenciando.

Autor: Tiago Valenciano

Fonte: Pavimento Mosaico

Referências bibliográficas

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP & A, 2006.

HARVEY, David. A condição pós-moderna. São Paulo: Edições Loyola, 2012. 22. Ed.

Screenshot_20200502-144642_2

Círculo, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

Zygmunt Bauman – Entrevista

Zygmunt Bauman - Fronteiras do Pensamento - YouTube

Bauman nos motivou a encarar um grande desafio contemporâneo: entender as mudanças que o advento da modernidade líquida produz na condição humana. E esse desafio orienta repensamos os velhos conceitos que costumavam cercar as narrativas de nossas vidas. Aprendemos com Bauman a tratar com rigor conceitual – reconhecendo a fluidez entre os laços, entre os conceitos e os saberes – temas que ainda não haviam conquistado um estatuto acadêmico claro, como o amor, o medo e a felicidade.

O Núcleo de Pesquisa em Estudos Culturais apresenta um depoimento exclusivo em vídeo do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, gravado em sua casa na cidade de Leeds, Inglaterra, no dia 23 de julho de 2011. Nele, o sociólogo polonês fala de expectativas para o século XXI, internet, a necessidade de construção de políticas globais, a construção de uma nova definição de democracia, entre outros temas.

Screenshot_20200502-144642_2

Se você acha importante o trabalho que realizamos com O Ponto Dentro do Círculo, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Zygmunt Bauman, o pensamento do sociólogo da “modernidade líquida”

Modernidade Líquida para política e religião - Expresso IlustradoExpresso  Ilustrado

Pontos-chave

  • A modernidade imediata é “líquida” e “veloz”, mais dinâmica que a modernidade “sólida” que suplantou. A passagem de uma a outra acarretou profundas mudanças em todos os aspectos da vida humana. A modernidade líquida seria “um mundo repleto de sinais confusos, propenso a mudar com rapidez e de forma imprevisível”.
  • Na sociedade contemporânea, emergem o individualismo, a fluidez e a efemeridade das relações.

“Vivemos em tempos líquidos. Nada foi feito para durar.”

Essa é uma das frases mais famosas do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, falecido em janeiro de 2017, aos 91 anos. Ele deixou uma obra volumosa, com mais de 50 livros, e é considerado um dos pensadores mais importantes e populares do fim do século 20.

Bauman é um dos expoentes da chamada “sociologia humanística” e dedicou a vida a estudar a condição humana. Ele é visto por muitos como um teórico perspicaz e por outros como um ingênuo pessimista. Suas ideias refletem sobre a era contemporânea em temas como a sociedade de consumo, ética e valores humanos, as relações afetivas, a globalização e o papel da política.

Nascido na Polônia em 1925, Bauman serviu como militar durante a Segunda Guerra Mundial, foi militante do Partido Comunista polonês e professor da Universidade de Varsóvia. Filho de judeus, ele foi expulso da Polônia em 1968 por causa do crescente antissemitismo do Leste Europeu. Emigrou para Israel e se instalou na Inglaterra, onde desenvolveu a maior parte de sua carreira. Desde 1971 atuava como professor emérito de sociologia da Universidade de Leeds.

A modernidade sólida e a modernidade líquida

O tempo em que vivemos é chamado por muitos pensadores como “pós-modernidade”. O termo foi popularizado em 1979 pelo pensador francês Jean-François Lyotard (1924-1998). Para Lyotard, esse é o período em que todas as grandes narrativas (visões de mundo) entram em crise e os indivíduos estão livres para criar tudo novo.

Bauman não utiliza o termo pós-modernidade. Ele cunhou o conceito de “modernidade líquida” para definir o tempo presente. Escolheu a metáfora do “líquido” ou da fluidez como o principal aspecto do estado dessas mudanças. Um líquido sofre constante mudança e não conserva sua forma por muito tempo.

As formas de vida contemporânea, segundo o sociólogo polonês, se assemelham pela vulnerabilidade e fluidez, incapazes de manter a mesma identidade por muito tempo, o que reforça um estado temporário e frágil das relações sociais e dos laços humanos. Essas mudanças de perspectivas aconteceram em um ritmo intenso e vertiginoso a partir da segunda metade do século XX. Com as tecnologias, o tempo se sobrepõe ao espaço. Podemos nos movimentar sem sair do lugar. O tempo líquido permite o instantâneo e o temporário.

Em seu primeiro livro, “Mal-estar da pós-modernidade”, Bauman parodia Sigmund Freud (1856-1939), autor de “O mal-estar da civilização”. A tese freudiana é de que na idade moderna os seres humanos trocaram liberdade por segurança. O excesso de ordem, repressão e a regulação do prazer gerou um mal-estar, um sentimento de culpa.

Para Bauman,

“a modernidade sólida tinha um aspecto medonho: o espectro das botas dos soldados esmagando as faces humanas”.

Pela estabilidade do Estado, da família, do emprego ou de outras instituições, aceitava-se um determinado grau de autoritarismo. Segundo o sociólogo, a marca da pós-modernidade é a própria vontade de liberdade individual, princípio que se opõe diretamente à segurança projetada em torno de uma vida estável.

Bauman entende que na modernidade sólida os conceitos, ideias e estruturas sociais eram mais rígidos e inflexíveis. O mundo tinha mais certezas. A passagem de uma modernidade a outra acarretou mudanças em todos os aspectos da vida humana. A modernidade líquida seria

“um mundo repleto de sinais confusos, propenso a mudar com rapidez e de forma imprevisível”.

Bauman entende que a nossa sociedade teve uma maior emancipação em relação às gerações anteriores. A sensação de liberdade individual foi atingida e todos podem se considerar mais livres para agir conforme seus desejos. Mas essa liberdade não garante necessariamente um estado de satisfação. Ela também exige uma responsabilidade por esses atos e joga aos indivíduos a responsabilidade pelos seus problemas.

Na sociedade contemporânea emergem o individualismo, a fluidez e a efemeridade das relações. Se a busca da felicidade se torna estritamente individual, criamos uma ansiedade para tê-la, pois acreditamos que ela só depende de nós mesmos. Para Bauman, somos impulsionados pelo desejo, um querer constante que busca novas formas de realizações, experiências e valores. O prazer é algo desejado e como ele é uma sensação passageira, requer um estímulo contínuo.

À medida que o futuro se torna incerto, o sentimento coletivo dominante é que se deve viver o momento presente e exclusivamente para si. Dessa instabilidade e ausência de perspectiva também nasce uma angústia. A incerteza diante do futuro pode explicar o aumento do uso de antidepressivos e a intensa busca por entretenimento como formas de afastar essa sensação.

Em muitos casos, essa angústia resulta na paralisia da ação, na incapacidade de agir. Ao lidar com uma insegurança, muitas vezes o indivíduo se recusa a assumir responsabilidades ou assume o discurso do “eu não gosto de tomar decisões”. Somos livres, mas não conseguimos transformar o mundo – temos um sentimento de impotência. Em outros casos, essa frustração pode gerar um ódio intenso a tudo e a todos. Em entrevista ao jornal argentino Clarín, Bauman declarou:

“Escolhi chamar de ‘modernidade líquida’ a crescente convicção de que a mudança é a única coisa permanente e a incerteza a única certeza.”

Bauman entende a crise como sendo um tempo em que o velho já se foi, mas o novo não tem forma ainda. Em entrevista ao jornal italiano Il Messaggero, o sociólogo sinaliza que buscamos um estado de maior solidez.

“Ainda estamos em uma sociedade líquida, mas em que nascem sonhos de uma sociedade menos líquida.”

A sociedade do consumo

Bauman observa que o século 20 sofreu uma passagem da sociedade de produção para a sociedade de consumo. Isso não significa que não exista uma produção, mas que o sentido do ato de consumir ganhou outro patamar.

Se as grandes ideologias, alicerces e instituições se tornaram instáveis, o consumo se tornou um elemento central na formação da identidade. Muito além da satisfação de necessidades, consumir passa a ter um peso primordial na construção das personalidades. O ter se torna mais importante que o “ser”.

Temos inúmeras possibilidades de escolha e consumimos produtos que identifiquem um determinado estilo de vida e comportamento. Ao transformar tudo em mercadoria, nossa identidade também se constitui a partir da satisfação do prazer pelo consumo. Marcas e grifes se tornam um símbolo de quem somos. Sua compra também significa um status social, o desejo de um reconhecimento perante os outros.

Satisfazer por completo os consumidores, na realidade, significaria não ter mais nada para vender. Consumir também significa descartar. Temos acesso a tudo o que queremos e ao mesmo tempo as coisas se tornam rapidamente obsoletas.

“O problema não é consumir; é o desejo insaciável de continuar consumindo”, diz Bauman.

Tanto que o descarte do lixo é um grande problema na sociedade.

Bauman escreve:

“Rockefeller pode ter desejado construir suas fábricas, estradas de ferro e torres de petróleo altas e volumosas e ser dono delas por um longo tempo […], Bill Gates, no entanto, não sente remorsos quando abandona posses de que se orgulhava ontem; é a velocidade atordoante da circulação, da reciclagem, do envelhecimento, do entulho e da substituição que traz o lucro hoje – não a durabilidade e a confiabilidade do produto.”

As pessoas também precisam se reinventar para que não se tornem obsoletas. Elas precisam ter identidades fluidas. Segundo Bauman,

“na sociedade de consumidores, ninguém pode se tornar sujeito sem primeiro virar mercadoria, e ninguém pode manter segura sua subjetividade sem reanimar, ressuscitar e recarregar de maneira perpétua as capacidades esperadas e exigidas de uma mercadoria vendável.”

As relações líquidas

Na modernidade líquida, os vínculos humanos têm a chance de serem rompidos a qualquer momento, causando uma disposição ao isolamento social, onde um grande número de pessoas escolhe vivenciar uma rotina solitária. Isso também enfraquece a solidariedade e estimula a insensibilidade em relação ao sofrimento do outro.

Esse tipo de isolamento parece ser uma contradição da globalização, que aproxima as pessoas com a tecnologia e novas formas de comunicação. Mas se tudo ocorre com intensa velocidade, isso também se reflete nas relações pessoais. As relações se tornam mais flexíveis, gerando níveis de insegurança maiores. Ao mesmo tempo em que buscam o afeto, as pessoas têm medo de desenvolver relacionamentos mais profundos que as imobilizem em um mundo em permanente movimento.

Bauman reflete sobre as relações humanas e acredita que os laços de uma sociedade agora se dão em rede, não mais em comunidade. Dessa forma, os relacionamentos passam a ser chamados de conexões, que podem ser feitas, desfeitas e refeitas – os indivíduos estão sempre aptos a se conectarem e desconectarem conforme vontade, o que faz com que tenhamos dificuldade de manter laços a longo prazo.

O sociólogo acredita que as redes sociais significam uma nova forma de estabelecer contatos e formar vínculos. Mas que elas não proporcionam um diálogo real, pois é muito fácil se fechar em círculos de pessoas pensam igual a você e evitar controvérsias.

Para Bauman, a rede é mantida viva por duas atividades: conectar e desconectar. O contato no meio virtual pode ser desfeito ao primeiro sinal de descontentamento, o que denota uma das características da sociedade líquida.

“O atrativo da ‘amizade Facebook’ é que é fácil conectar, mas a grande atração é a facilidade de desconectar”, diz Bauman.

Política, segurança e economia

Na modernidade líquida, existe uma maior separação do poder e a política. O Estado perde força, os serviços públicos se deterioram e muitas funções que eram do Estado são deixadas para a iniciativa privada e se tornam responsabilidade dos indivíduos. É o caso do fim do modelo do Estado de Bem-Estar Social na Europa.

Bauman identifica uma crise da democracia e o colapso da confiança na política.

“As pessoas já não acreditam no sistema democrático porque ele não cumpre suas promessas”, diz o sociólogo.

Para ele, a vitória eleitoral de candidatos como Donald Trump nos EUA é um sintoma de que a retórica populista e autoritária ganha espaço como solução para preencher esses vazios.

No campo econômico, Bauman cita a fluidez dos mercados e o comportamento do consumo a crédito, que evita o retardamento da satisfação.

“Vivemos a crédito: nenhuma geração passada foi tão endividada quanto a nossa – individual e coletivamente (a tarefa dos orçamentos públicos era o equilíbrio entre receita e despesa; hoje em dia, os “bons orçamentos” são os que mantêm o excesso de despesas em relação a receitas no nível do ano anterior)”.

Para ele, as desigualdades sociais aumentaram. Ao mesmo tempo em que se aumentam as incertezas, os indivíduos devem lutar para se inserir numa sociedade cada vez mais desigual econômica e socialmente. Os empregos estão mais instáveis e a maioria das pessoas não pode planejar seu futuro muito tempo adiante.

Para o sociólogo, não existe mais o conceito tradicional de proletariado. Emerge o “precariado”, termo que Bauman usou para se referir a pessoas cada vez mais escolarizadas, mas com empregos precários e instáveis. Agora a luta não é de classes, mas de cada pessoa com a sociedade.

No mundo líquido, a sensação de segurança também é fluida.

“O medo é o demônio mais sinistro do nosso tempo”, alerta Bauman.

O medo do terrorismo e da violência que pode vir de qualquer parte do globo (inclusive virtualmente, como os hackers e haters das redes) cria uma vigilância constante, à qual aceitamos nos submeter para ter mais segurança.

Escreve Bauman no livro “Confiança e Medo na Cidade”:

“Essa obsessão deriva do desejo, consciente ou não, de recortar para nós mesmos um lugarzinho suficientemente confortável, acolhedor, seguro, num mundo que se mostra selvagem, imprevisível, ameaçador.”

No mundo off-line, a arquitetura das cidades está sendo cada vez mais projetada para promover o afastamento: muros, condomínios fechados e sistemas de vigilância estão em alta.

No livro “Estranhos à Nossa Porta”, Bauman escreve:

“a ignorância quanto a como proceder, como enfrentar uma situação que não produzimos nem controlamos é uma importante causa de ansiedade e medo”.

Ele relaciona a situação de desemprego dos europeus ao aumento do ódio contra os imigrantes. Ao mesmo tempo, manter esse medo aceso seria uma estratégia de poder para determinados grupos, como políticos de discursos nacionalistas e xenófobos.

Por Carolina Cunha, da Novelo Comunicação

Para saber mais

O mal-estar da pós-modernidade, Zygmunt Bauman. Ed. Zahar, 1998.
Modernidade Líquida, Zygmunt Bauman. Ed. Zahar, 2001.
A condição pós-moderna, Jean-François Lyotard. Ed. José Olympio, 2002.
Amor Líquido: Sobre a fragilidade dos laços humanos, Zygmunt Bauman. Ed. Zahar, 2004.
Confiança e Medo na Cidade, Zygmunt Bauman. Ed. Zahar, 2009.
Estranhos à Nossa Porta, Zygmunt Bauman. Ed. Zahar, 2017.

Screenshot_20200502-144642_2

Só foi possível fazermos essa postagem graças à colaboração de nossos leitores no APOIA.SE. Todo o conteúdo do blog é disponibilizado gratuitamente, e nosso objetivo é continuar oferecendo material de qualidade que possa contribuir com seus estudos. E você também pode nos auxiliar nessa empreitada! Apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos blogs maçônicos mais conceituados no Brasil. Para fazer sua colaboração é só clicar no link abaixo:

https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Maçonaria e Pós-Modernidade

Resultado de imagem para pos-modernidade tumblr

Ao ser convidado a contribuir com uma análise da Maçonaria na contemporaneidade, pensei em fazer um estudo comparativo entre os valores de uma instituição milenar – a Maçonaria – e os valores da sociedade atual, associada ao fenômeno da pós-modernidade. De um lado cabe analisar como a Maçonaria tem persistido no tempo e qual será seu futuro, de outro, necessário se faz ver que atitude ela deve adotar em relação à contemporaneidade. Deve ser a Maçonaria um reduto de conservadorismo, resistindo às mudanças do tempo? Ou deve estar ela em constante processo de construção, renovação e adaptação à modernidade? Em suma: como uma instituição, supostamente milenar – a Maçonaria – poderá subsistir na pós-modernidade?

Todas as instituições milenares, como a Igreja Católica Apostólica Romana ou a Igreja Ortodoxa, são exemplos similares de modos de perpetuação no tempo, ou seja, de sobrevivência de seus valores antiquíssimos frente às transformações da história e das sociedades no decorrer dos séculos. Podemos supor que com a Maçonaria não seja diferente, pois se de um lado ela é resultante de uma tradição que remonta à antiguidade mítica, de outro possui uma história mais recente, que vai da Idade Média e Moderna até os nossos dias, em que podemos identificar as mudanças que foram se dando no tempo. Por fim, cabe ver a Maçonaria hoje, frente às profundas transformações da modernidade e pós-modernidade, refletindo sobre como ela se instala em nosso tempo.

I – O que é e como é a Maçonaria?

A Maçonaria hoje é essencialmente uma instituição filosófica, filantrópica, ritualística e mística, que prima pelo conhecimento esotérico, ou seja, aquele transmitido a poucos iniciados, e zela pela preservação da tradição espiritualista e moral de que se diz depositária. Na Constituição do Grande Oriente do Rio Grande do Sul – GORS está escrito, entre outras coisas, que a Maçonaria:

  • Proclama a prevalência do espírito sobre a matéria;
  • Pugna pelo aperfeiçoamento moral, intelectual e social da humanidade, por meio do cumprimento inflexível do dever, da prática desinteressada da beneficência e da investigação constante da verdade;
  • Condena a exploração do homem, bem como os privilégios e regalias;
  • Afirma que o sectarismo político, religioso ou racial é incompatível com a universalidade do espírito maçônico;
  • Combate a superstição, a ignorância e a tirania;
  • Defende a plena liberdade de expressão do pensamento;
  • Proscreve o recurso à força e à violência;
  • Reconhece o trabalho como dever social;
  • Considera irmãos todos os maçons.

Por fim, considera como deveres maçônicos: “amor à família, fidelidade e devotamento à pátria, e obediência à lei”.

Por tais princípios a Maçonaria é espiritualista, democrática, pacifista, igualitária, defensora da ciência e da lei, portanto, conservadora ou revisionista, e nacionalista em seu respeito à pátria, apesar de se propor universalista. Ao manifesta-se contra o sectarismo religioso, político e racial, a Maçonaria posiciona-se também contra o fanatismo e o dogmatismo. Tanto é assim que ela defende a tolerância, “para que sejam respeitadas as convicções de cada um“, e combate a tirania, em outras palavras é contra a opressão e a ditadura, defendendo a liberdade e a democracia, ao menos na teoria, já que historicamente nem sempre isto aconteceu, como mais tarde demonstraremos.

Pode ser aceito como maçom quem acredite em Deus e esteja trabalhando, tenha sua vida e moral investigada sem reparos, e seja aceito sem nenhum veto pela comunidade de irmãos. O ingresso se dá através de um ritual de iniciação extremamente teatralizado, com preparação, interrogatório, juramentos, viagens simbólicas, vestes ritualísticas, palavras e signos de reconhecimento, etc. N o ritual o candidato fica imerso física, emocional e mentalmente, o que é extremamente impactante e um dos pontos fortes da tradição maçônica.

A Maçonaria é também resultante de uma corrente pitagórica, pois herda dos matemáticos gregos uma mística numérica, exacerbada na concepção ritualística. Três são os graus simbólicos, três mestres formam um Capítulo e sete uma Loja. Nos ritos de cada Loja, os comandos são reprisados por três vozes: o Venerável Mestre, o Primeiro Vigilante e o Segundo Vigilante. Atrás do assento dos Veneráveis vê-se o Olho que Tudo Vê,inscrevendo a Santíssima Trindade dentro de um triângulo pitagórico. Às vezes, no triângulo, vê-se inscrito o místico Iod He Vau He, nome de Deus em letras hebraicas, feitos só de consoantes, pois suas vogais foram perdidas, colocando em dúvida o verdadeiro Nome de Deus e sua correta pronúncia. Sobre o altar dos Juramentos vemos o Livro da Lei ou Palavra Divina, representado por uma Bíblia judaico-cristã (poderia ser o Alcorão em comunidades muçulmanas), e sobre ela, o esquadro e o compasso, símbolos maiores da Obra maçônica: a construção de um templo espiritual no coração de todos os homens.

Os templos possuem 12 colunas laterais unidas por uma corda com 12 laços, sob um teto pintado como um céu estrelado, representando os 12 signos do zodíaco e o universo, organizado como um cosmos em torno do sol espiritual (o fogo central dos pitagóricos), unido pela irmandade dos maçons (os laços). Em diferentes ritos há diferentes números de graus, sendo o Rito Escocês Antigo e Aceito o que possui mais graus: trinta e três.

II – O que é e como é a pós-modernidade?

A modernidade esteve associada à revolução industrial, à linha de montagem e ao Iluminismo, ou seja, à promessa da ciência moderna de libertar a humanidade da miséria, da superstição e das catástrofes naturais, produzindo uma vida de conforto e bem-estar. Porém, o Iluminismo desembocou na 1ª e 2ª guerras mundiais, no nazifascismo, no holocausto e nas bombas de Hiroshima e Nagasaki, ou seja, mostrou que não conseguira cumprir suas promessas, tendo transformado um sonho em pesadelo. Da crise de realidade da modernidade surgiu a pós-modernidade.

Mesmo que muitos vejam a pós-modernidade como uma hipermodernidade, ou seja, como uma etapa da modernidade e não um momento posterior, essencialmente diferente, o que importa é que todos vejam o momento atual como diferenciado do que havia antes, e tentem explicitar estas características. Ajudam a entender a época atual autores como: Michel Maffesoli, Jean Baudrillard, Giles Lipovetsky, Zigmud Bauman, David Harvey, Jameson, George Soros, Domenico De Masi e outros.

1. A Globalização

A pós-modernidade está associada hoje à globalização, a um estágio da economia em que a informatização, os capitais voláteis e os transportes rápidos, deram uma velocidade inédita aos negócios, criando uma acirrada concorrência mundial por matérias primas, energia, capitais, investimentos, produtos, enfim, por riquezas que, rapidamente trocam de mãos, trazendo insegurança generalizada. Usamos tênis de marca americana made in China, andamos num carro francês fabricado na Argentina, mas cujas peças vieram da Coreia. Escutamos músicas de um país, gravado noutro, e mixado também noutro. Vivemos numa cidade, trabalhamos noutra e tiramos férias numa terceira, viajando rápida e freqüentemente. O poder não mais está centrado no Estado, na nação ou nos partidos políticos, e sim na economia, mas diluído no conjunto de interesses das multinacionais e grandes grupos financeiros, que representam os interesses de milhões de acionistas. Somos afetados pela bolsa mundial, pela crise imobiliária americana e dos bancos europeus. Doenças infecciosas podem correr mundo e nos atingir, o terrorismo virou fenômeno global. Padecemos uma insegurança política, econômica e pessoal.

Vivemos uma cultura do excesso, do sempre mais e do descartável, das coisas, vontades e sentimentos, intensos e urgentes. É uma sociedade marcada pela velocidade, nela as mudanças ocorrem em um ritmo alucinante, provocando turbulências. Vivemos num mundo de imagens fragmentadas, de estímulos sensoriais vários, captados sem o tempo da reflexão: cinema, televisão, telões, monitores de computadores, telinhas de celulares, i-pods, etc. Correspondemo-nos por e-mails e conversamos através do MSN, vemo-nos através de oceanos, aproximando o distante e distanciando o próximo, porque substituímos o contato direto e as visitas por frias mensagens virtuais. Tudo é banalizado, devido às facilidades de se obter e descartar, e devido ao excesso. Por exemplo, a violência que se repete todos os dias não mais chama a atenção, a miséria que dorme pelas ruas e nos ataca nos semáforos, passar desapercebida. Os jovens estão alienados, não por falta de consciência social, mas por pessimismo, apatia e falta de solidariedade. Eles usam roupas e tênis de marca, sonham em consumir produtos de luxo, mas não possuem um projeto de vida. As identificações de grupo não mais são de classe ou ideológicas, são mais propriamente identificações de tribo, ONG ou gangue. Todas as maravilhas e todas as patologias encontram espaço na Web: nela todo dia ocorrem crimes virtuais, às vezes conectados a crimes do mundo real, como as drogas, a pedofilia, a antropofagia e suicídios coletivos.

2. Os Relacionamentos

Hoje as pessoas cada vez mais estabelecem uniões sem a formalização do casamento legal ou religioso, se unem e separam com grande facilidade, enfileirando casamentos sucessivos. Todos possuem meio-irmãos e irmãs, filhos de casamentos anteriores, seus ou de seus consortes. Mulheres optam por terem filhos sem marido e casais optam por não terem filhos, e até morarem separados. Aumenta o número de pessoas sozinhas, por opção ou não.

Com a revolução industrial, a mulher tornou-se operária, trabalhando ao lado de seu homem, enquanto a mulher burguesa foi preservada no lar, à espera do marido, como um objeto de desejo. A mulher em geral passou então a ser definida como um ser passivo, emocional, ligado à natureza, a casa e a família; e o homem passou a ser definido como um ser ativo e racional, gerador de cultura, ao qual corresponde o mundo de fora, da labuta e do Estado. No decorrer do século XIX o belo reino da mulher se transforma numa gaiola. No início do século XX, Freud tira a sexualidade da zona de tabu; nos anos 60 surge a pílula e o amor livre do movimento hippie; a homossexualidade sai do armário com o movimento gay e o movimento feminista passa a denunciar o estupro e a defender o aborto. Hoje há a pílula do dia seguinte, e inúmeros avanços na tecnologia do corpo: cirurgia plástica, silicone, lipoaspiração, bioplastia, e até cirurgia de mudança de sexo. Há uma erotização precoce das meninas, que mais parecem minimulheres. A homossexualidade é assumida já na puberdade, com erotismo explícito em locais públicos. Artistas se declaram bissexuais e é comum erotismo e pornografia na TV. A sexualidade se dilata no tempo, devido aos tratamentos hormonais e ao Viagra e similares. A engenharia genética cria bebês de proveta, pesquisa células-tronco, faz clonagem, enfim, vivemos no Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley.

As crianças hoje, desde cedo, via Web, entram em contato com outras línguas e realidades, inclusive com conteúdos perigosos, como a pornografia e o crime. Elas preferem comprar brinquedos que brincar. Os jovens vivem hoje uma infância e juventude com educação permissiva, sem limites, devido aos pais ausentes e invisíveis, o que joga no colo dos professores a tarefa de dar limites a quem não respeita autoridade e regras. Com menos autoridade, a educação tornou-se permissiva, o que leva a banalização da violência e das drogas, assim como a uma infantilização tardia, muitas vezes com uma permanência na casa dos pais até mais tarde. A infância se estende até a adolescência, os jovens e muitos adultos são infantilizados: assistem desenho, leem Harry Potter, não assumem responsabilidades que exijam esforço e sacrifício. Muitos adultos se comportam como adultescentes, se vestem como seus filhos, de quem querem ser “amigos” em vez de pais. Querem dar limite aos filhos, mas eles próprios não se dão limites.

Vivemos a Era do Ficar, do amor descartável, feito para ser usado e jogado fora, como objeto de consumo.  Os jovens hoje migram de uma festa pra outra, e “ficam” como vários parceiros ou parceiras numa mesma noite. Eles frequentam raves que podem durar dias, em locais afastados que permitem tudo: drogas, nudez, sexo, contato com a natureza. A iniciação sexual ocorre precocemente, com alto risco de gravidez, muitas vezes com parceiros menores que apenas “ficaram”, ou seja, nascem crianças de uma sexualidade desvinculada do afeto, para serem criadas sem pai e sem família estruturada.

As pessoas passam horas na frente do computador, conversando pelo teclado, microfone ou webcam, com pessoas que não conhecem pessoalmente, ou com o irmão que está no quarto ao lado. Os sites e aplicativos de relacionamento produzem encontros com pessoas desconhecidas, cujos “avatares” virtuais podem estar idealizadas ou adulteradas, já que não são iguais aos seus originais. As amizades virtuais são medidas em quantidade em vez de qualidade, sendo “normal” alguém ter 700 amigos. Apesar disto, muitos se conhecem e casam através de sites de relacionamento, migrando do virtual ao real. O Second Live é um mundo virtual onde pessoas de todo o planeta se comunicam e interagem livremente. Nele se mistura realidade e virtualidade, pois possui uma moeda própria, que pode ser convertida em dólar real.

3. As Relações de Trabalho

O sociólogo italiano Domenico De Mais mostra que trabalho era sinônimo de trabalho braçal, e significava esforço e cansaço, portanto, havia no passado uma separação nítida entre trabalho e tempo livre. Só na época rural não era assim, pois o camponês e o artesão viviam no mesmo lugar em que trabalhavam, intercalando tarefas domésticas e outras distrações com o seu trabalho. Mas com a revolução industrial, separou-se o lar do trabalho, a vida das mulheres da vida dos homens, o cansaço da diversão. As mulheres burguesas ficavam em casa esperando seus maridos voltarem do trabalho, e as mulheres proletárias trabalhavam na fábrica e, no retorno às suas casas, continuavam trabalhando. Assim, a indústria tornou o trabalho dominante em relação a família, estudo e tempo livre. Hoje, as atividades cerebrais predominam sobre as manuais, as virtuais sobre as tangíveis, daí que a virtude profissional mais apreciada é a criatividade que, contraditoriamente, não é compatível com a burocracia dos tempos modernos.

De Masi mostra que, cada vez mais, trabalho, tempo livre e estudo, se tornam uma coisa só, que o trabalho braçal vem sendo substituído pelas máquinas, cabendo ao homem a ação de apertar botões, acionar máquinas e criar, ou seja, atuar intelectualmente, e como gestor.

A burocracia foi criada para exercer controle sobre o trabalho, no pressuposto de que as pessoas burlam as regras e tendem a não cumprir suas responsabilidades. Assim, a tradicional relação de subordinação inerente ao trabalho, que exigia disciplina, obediência, lealdade e boa vontade, concedida em troca de segurança no emprego, cedeu lugar a novas relações. Agora colaboração, qualificação e inovação, são mais importantes que lealdade, já que oferecemos nosso conhecimento a uma empresa ou projeto, enquanto nos sentirmos recompensados. Vendemos nossa competência sem preocupação com a perenidade, já que a efemeridade é inerente ao mercado.

4. As novas mídias

Na sociedade pós-moderna está surgindo o “homem de vidro”, ou seja, estamos vivendo cada vez mais o “Big Brother” geral, em que a privacidade está desaparecendo em nome de uma sociedade mais segura. Câmeras nos vigiam em toda parte, o risco e a insegurança aumentam, e os crimes virtuais disparam. Homicídio é a primeira causa da morte de jovens no Brasil, depois acidentes e suicídio. Aumenta a ausência de consciência social e de solidariedade: jovens põem fogo em mendigos, batem em empregadas domésticas, e tudo por uma violência gratuita, sádica e fascista.

O Governo americano está montando um Banco de Dados com todos os cidadãos do país para estender o projeto a todos os cidadãos do planeta. Carros, objetos e pessoas passarão a usar chips de instantânea localização, em SP prisioneiros já usam e está sendo implantado nos automóveis. A TV é interativa, ou seja, não podemos mais esconder o que vemos, consumimos e somos. Todos são egoístas, pensam apenas em seu próprio umbigo, vivemos a era do narcisismo e do hedonismo, em que o que importa é se obter prazer e vantagem em tudo.

III – Os Valores Centrais da Sociedade Pós-Moderna

São valores centrais da sociedade pós-moderna, o consumismo e a sedução, não só das pessoas, mas também dos objetos de desejo. Está se dando uma erosão das identidades sociais e das personalidades, um desgaste ideológico e político. Há cada vez mais indivíduos narcisistas, individualistas, consumistas, inseguros diante da obrigatoriedade e multiplicidade de escolhas a serem feitas. As relações se tornaram transitórias e fortuitas, aumentando a fragilidade dos laços sociais, as relações afetivas terminam sem motivo, com um sentimento de superficialidade, vazio e desamor, em que se não suportamos os outros e tampouco suportamos a solidão. Tudo se torna artifício e ilusão, a serviço do lucro capitalista, a moda se torna distinção social e signo de poder. Ninguém é espontâneo, todos são afetados pela publicidade, a autenticidade é forçada e forjada. A rapidez dos acontecimentos e a globalização da mídia e do jornalismo “anestesiam” o ser humano. Investimos em nós e em nosso corpo, mas não afastamos a insegurança da corrida contra o tempo, o medo da velhice e da morte.

Há um vazio dos sentimentos, e o desmoronamento do idealismo trouxe apenas apatia e comodismo. Todos hoje somos pessimistas, nos sentimos na Era do Vazio, do Mal-Estar e da Insegurança. A perfeição tecnológica obriga à diferenciação pelo design, e à identificação com marcas, símbolos de poder e estilo de vida. Já que não há mais fidelização, cada sonho de consumo supõe um emaranhado de marcas, modelos, acessórios e opcionais. O corpo é extremamente valorizado, os velhos querem parecer jovens, o que faz feliz a indústria estética: cirurgiões plásticos, academias, salões de beleza, clínicas de estética, etc.

IV – A Maçonaria na Pós-Modernidade

Considerando que hoje as pessoas são individualistas, egoístas e pragmáticas, que todos correm atrás da máquina, vivendo um dia-a-dia de stress e muito trabalho, ainda podemos dizer, como Karl Marx, que o homem é o seu trabalho. Como a Maçonaria supõe uma simbologia associada ao trabalho, em princípio ainda há lugar para ela em nossa sociedade. Mas quando pensamos no futuro do trabalho, principalmente a partir da obra de pensadores como Giles Lipovetsky, Domenico De Mais, Mefesoli e Baudrilhard, vemos que a Maçonaria contém uma simbologia que não mais fala ao coração do trabalhador contemporâneo, já que não trata do trabalho intelectual e das relações entre homem e máquina, ou trata do trabalho à distância, por meios virtuais. De outro lado, numa sociedade em que tempo é ouro, ninguém tem tempo, trabalho e ouro para desperdiçar, e ser maçom exige investimento de tempo, dinheiro e dedicação: hoje está valendo a pena isto?

As pessoas não querem ter compromissos semanais que lhes diminua o tempo livre para sair, beber com amigos, namorar, assistir jogos de futebol ou jogá-lo, fazer um curso de pós-graduação, aperfeiçoamento profissional ou atualização cultural. Muitos preferem atividades gastronômicas ou sexuais, ou até trabalhar mais, em horas extras que rendam dinheiro. Enfiar-se num ambiente fechado, sem mulheres, para ouvir discursos e falas pomposas até altas horas, assistir e participar de uma ritualística complicada, que exige atenção, dinheiro e algumas leituras e tarefas, não parece ser um programa muito atraente.

Apesar da Maçonaria não ser uma religião, sua estrutura, trajetória e perspectiva pode ser comparada a da Igreja Católica Apostólica Romana. A Igreja é uma instituição milenar que nasceu entre os judeus sob o jugo de Roma, era, portanto, a religião da ralé. Porém, quando o Imperador Constantino se converteu ao cristianismo, a Igreja tornou-se da noite para o dia a religião dos poderosos, a ponto de se confundir com o próprio Império Romano. Foi quando ao se organizar, a Igreja perseguiu as “heresias” e definiu sua doutrina oficial, reinterpretando o cristianismo de Cristo. Na Idade Média, o Papa coroava imperadores e ninguém acordava e respirava sem pensar em Deus e nos dogmas da Igreja, já que esta estabelecia o que as pessoas podiam pensar ou fazer, sob a ameaça do inferno e da fogueira. Em resposta a tais abusos surge a Reforma Luterana. Com o advento do Renascimento, da imprensa, das grandes navegações e da descoberta do Novo Mundo, estava preparado o terreno para a Revolução Copernicana e Francesa, para o advento do Iluminismo e seu racionalismo científico, que desembocaria no capitalismo nascente. Assim, gradativamente, a Igreja foi perdendo terreno, a ponto de se modernizar para não perecer. A Igreja negociou o Estado do Vaticano, veio João XXIII com o Concílio Ecumênico, Paulo VI e suas viagens, e a Igreja aos poucos abole a batina e a missa em latim, dialoga com outras religiões e retoma sua vocação para os pobres. Surgem as CEBs e a Teologia de Libertação, a Pastoral Operária, a Pastoral Indígena, a Pastoral das Mulheres, etc. Entre tal período e hoje, tivemos João Paulo II e Bento XVI, o que implicou num retrocesso claro, pois a Igreja optou por ser uma reação conservadora à vida pós-moderna e à globalização. A missa em latim retorna, a Teologia de Libertação e suas pastorais foi desmantelada, a Igreja Católica Apostólica Romana se declara a única Igreja cristã legítima, colocando no lixo a proposta ecumênica. O Papa Bento XVI faz declarações críticas ao Islamismo, criando atritos onde antes havia uma distância respeitosa, o celibato sacerdotal se mantém, enfim, são inúmeros os sintomas de conservadorismo e retorno a uma visão antes superada.

Do mesmo modo a Maçonaria atravessou períodos de instabilidade e transformação. A Maçonaria Operativa medieval não é a mesma do período pós-revolução francesa e tampouco é a de hoje.

Se analisarmos as religiões que ainda crescem em nossa época, vemos que a primeira é a religião dos sem-religião, que inclui materialistas ateus e relativistas religiosos, ou seja, aqueles que vivem a religiosidade individualmente, crendo num Deus e praticando a religião de suas cabeças, muitas vezes uma salada religiosa e de doutrinas nem sempre coerente, e muito próxima do paganismo politeísta, principalmente quando vemos a imensa valorização do corpo e da sexualidade em nossa sociedade. A segunda religião que mais cresce é o islamismo, e dentro dele, cresce o fundamentalismo, o que indica que em parte a pós-modernidade aponta para mudanças ou para reações conservadoras a estas mudanças. Daí que em alguns países da Europa o Livro da Lei no ritual maçônico vem sendo representado pela Bíblia judaico-cristã acrescida de outros livros sagrados, inclusive o Corão. E, em certas Lojas, passou-se a aceitar como irmãos pessoas sem uma identidade e prática religiosa específica, ou seja, ateus ou relativistas religiosos. Cabe portanto perguntar: o que significa ser maçom numa época ateia ou num tempo em que ser religioso adquire novos significados?

A ritualística maçônica, apesar de bonita e significativa, não se coaduna com uma época em que todos querem tudo rápido e instantâneo, em que a espiritualidade de doutrinas e o ensinamento de mestres e gurus está disponível em livros, na internet e pessoalmente, em inúmeras seitas e religiões orientais e místicas que possuem representantes no ocidente. Se, na antiguidade, ser maçom era ser iniciado nos mistérios, ou seja, era ter acesso elitizado e restrito a conhecimentos esotéricos, próprio das ciências ocultas, como a numerologia, a magia, a cabala, o misticismo cristão, etc, hoje a iniciação nos mistérios não mais é algo restrito à maçonaria e quase inacessível.

O individualismo e o consumismo materialista exacerbado de nossos dias dificulta uma obra, como a maçônica, que se baseia no trabalho de equipe, no altruísmo, na ajuda mútua solidária, no estudo, numa moral estrita e na crença em valores que hoje estão nitidamente em crise.

No Ritual maçônico encontramos com ênfase a ideia de liberdade, que pode ser pessoal ou coletiva, conseguida por concessão ou conquista, sem ou com luta. Isto porque a Maçonaria defende o livre pensar, e os demais valores da Revolução Francesa: “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”. No Capítulo II, artigo 41 da Constituição Maçônica, os direitos listados são: direito de ir e vir; direito de votar e ser votado; direito de julgamento justo; direito de livre crença, opinião e liberdade de expressão. O Liberalismo defendia ainda a propriedade privada e a representatividade através do voto. Já o Democratismo defenderá o sufrágio universal, a ideia do poder como uma delegação do povo, a ênfase no Legislativo e a separação entre os poderes. Ambas as concepções aparecem no cerne do pensamento maçônico.

Tais são os princípios do Liberalismo, doutrina que na Idade Moderna era revolucionária, mas que em tempos de neoliberalismo é conservadora, apesar de alicerce dos valores da civilização ocidental. Por isto a Maçonaria defende o livre comércio, a criação de blocos econômicos, a abertura das fronteiras, a defesa do Estado de Direito, a liberdade de crença e opinião e a liberdade de imprensa.

A origem liberal do pensamento da Maçonaria Moderna é compreensível quando lembramos que a passagem da Maçonaria Operativa à Maçonaria Especulativa deu-se em 1717, com a criação da Grande Loja de Londres, que representou o fim do maçom livre na Loja Livre e o surgimento de uma estrutura maçônica escrita. Em 1723, surgiram as Constituições de Anderson (1684 – 1739), que se tornaram a base da Maçonaria Especulativa, com seus landmarks. Desaguliers foi seu grande propagador, e André Michel Ramsay foi seu renovador, com a introdução do escocismo.

A Declaração de Independência dos EUA, a Revolução Francesa, a Magna Carta inglesa e a independência das repúblicas latinas irão reforçar os valores liberais e a presença maçônica em tais eventos históricos importantes.

Porém, quando se deu o Golpe de 1964, início do período de ditadura militar no Brasil, a Maçonaria colocou no lixo seu mais caro princípio político-ideológico, o Liberalismo, ao se posicionar a favor do Golpe de 1964 e transformar o coronel, depois general, Golbery de Couto e Silva em seu principal porta-voz. A socióloga Tatiana Almeri demonstra no artigo “Guinada para a Direita: da visão liberal ao conservadorismo” que a Maçonaria foi reprimida em praticamente todos os governos totalitários (URSS, Espanha franquista, Alemanha nazista, Iraque de Sadam Hussein, etc) devido à sua tradição liberal, mas que, ao assumir, durante a ditadura militar no Brasil, uma fisionomia conservadora e autoritária, de extrema direita, ela se colocou em contradição flagrante com tudo que sempre defendeu, e em desabono de sua história de glórias, em defesa das liberdades individuais, de governos laicos, do Estado de direito e da independência do Novo Mundo em relação ao colonialismo. Ao assim agir, a Maçonaria brasileira deixou de ser a defensora dos valores mais caros da civilização ocidental, aproximando-se de uma visão fascista, anti-ocidental e antidemocrática. Assim, a Maçonaria brasileira necessita, hoje mais que nunca, modificar sua imagem frente à sociedade, deixando de lado sua cara conservadora, modernizando-se, sem deixar de resgatar os seus mais caros valores universais.

V – Como modernizar a Maçonaria?

A Maçonaria divide-se em Capítulos, Lojas e Potências, mas essencialmente, é descentralizada em suas ações. Para ser mais eficaz necessita articular-se dentro de uma unidade regional ou mundial, o que ela pouco faz. Não há uma Assembleia, Congresso ou Conselho de todas as Potências, inexistem encontros maçônicos internacionais, não há programas de intercâmbio, programas globais pela paz mundial, etc. Vivemos a era da globalização, enquanto a Maçonaria, apesar de ter princípios universalizantes, vive um feudalismo institucional.

Na política, a Maçonaria mostra-se tímida hoje, frente ao seu passado de brilhantismo liberal revolucionário e republicano. Muitos ingressam na Maçonaria pensando em usufruir influência política para, com padrinhos poderosos, poder influir nas grandes decisões ou vir a ocupar postos-chave ou postos de comando na área pública. Mas a carreira profissional dos maçons cada vez menos depende da Ordem e muito mais do currículo e esforço de cada um, e não do apadrinhamento de chefes ou comandantes. Porém, mesmo sem influenciar diretamente na carreira, o debate político na Maçonaria tem o mérito de ser uma aula de ciência política, ou seja, de funcionar como um exercício de cidadania e de democracia.

De outro lado, há que ressaltar na Maçonaria o seu caráter de detentora e transmissora da tradição iniciática, ou seja, da Grande Obra, que implica numa experiência que só poderá vivenciar e compreender quem se fizer irmão maçom. Mas tal tarefa de preservação dos tesouros antigos não é incompatível com uma abertura ao novo e aos tempos de pós-modernidade. Assim, podemos dizer que, para se modernizar, a Maçonaria  necessita:

  • assumir-se como discreta e não secreta;
  • tornar-se mista, aceitando homens e mulheres;
  • tornar-se mais jovem, promovendo uma maior participação da juventude em suas Lojas, evitando ser um lugar de aposentados com tempo livre ou de terceira idade;
  • tornar-se menos elitista, promovendo a participação de cidadãos não abastados;
  • não encarecer financeiramente de modo excessivo o avanço nos graus da Ordem, dificultando o progresso de quem possui parcos recursos financeiros;
  • cobrar os encargos de Loja de modo progressivo, com desconto aos mais jovens e menos ricos, e dando isenção de pagamentos a irmãos de baixa renda, como já faz em Portugal;
  • simplificar seus ritos, de modo a não cansar os participantes deles com rituais desnecessariamente longos e morosos, que dificultam a concentração no significado e na simbologia do que está sendo realizado, desgastando a ritualística, transformando o prazer em sacrifício;
  • desburocratizar os procedimentos das sessões, de modo que o cerne dos encontros seja: estudo, troca de ideias, deliberações conjuntas;
  • evitar debates desgastantes sobre detalhes ritualísticos acerca dos quais se perdeu o sentido original e que se transformam em disputas de egos;
  • promover uma maior atuação política e social, sem colorido partidário, mas engajada   e eficiente na defesa de questões éticas, ambientais, ou pela criação e/ou reforma de leis de interesse social, e pela defesa do bem-estar social, e de um Estado menos aparelhado, e mais profissional e eficiente;
  • incentivar o intercâmbio mundial entre Lojas, Potências e países, quer através da      troca de correspondência (virtual ou documental), quer através de Congressos (como a Europa já faz) ou projetos de parceria e intercâmbio;
  • incentivar o rodízio permanente de cargos em Lojas, com espaço oferecido aos novos  irmãos, de modo que cada Loja não se transforme em um clube fechado;
  • criar mais Lojas temáticas: Lojas-Museus, Lojas-Escolas, Lojas-Filantrópicas, Lojas-Temáticas em defesa de uma causa, Lojas-Experimentais, etc.
  • repensar o auxílio mútuo em parceria com instituições financeiras, visando ir além da ajuda aos carentes e o socorro em momentos de crise, tornando-o um instrumento de construção real do progresso igualitário de todos os irmãos, incluindo o financiamento da: educação superior, casa própria, casamento, negócio próprio, viagens de intercâmbio maçônico, etc.
  • regrar as relações entre os irmão fora de Loja, de modo a que elas sejam regidas por princípios éticos e de compromisso fraterno;
  • Debater ideias filosóficas e maçônicas, por mais radicais e estapafúrdias que pareçam, como as que apresento, de modo a atualizar permanentemente a Maçonaria, modernizando-a e homogeneizando-a, numa compreensão convergente aos seus princípios.

Autor: Antonio Henriques

Fonte: antoniohenriques.net

Screenshot_20200502-144642_2

Se você acha importante o trabalho que realizamos com O Ponto Dentro do Círculo, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

%d blogueiros gostam disto: