Protegido: A Iniciação Real e a Morte do Ego – Parte II (exclusivo para os apoiadores do blog no Apoia.se)

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Protegido: A Iniciação Real e a Morte do Ego – Parte I (exclusivo para apoiadores do blog no Apoia.se)

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Os fracos não têm vez na Maçonaria

Como preparar um “novo” normal?

Preliminarmente, que fique claro que a presente reflexão não tem nada a ver com a trama de “Onde os fracos não têm vez”, um misto de “western” e “film noir”, vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2008, e enseja uma mensagem no sentido de que, para sobreviver naquela loucura, fraqueza é algo que realmente não poderia ser demonstrada.

No cenário pós-pandemia do novo coronavírus, certamente a rotina de distanciamento social deverá ser atenuada, com restrições, permitindo o retorno aos nossos trabalhos e encontros sociais, com mudanças comportamentais que certamente impactarão hábitos já consagrados. Possivelmente, não teremos de volta a vida de antes. Difícil mesmo vai ser superar o vício das videoconferências e lives que parecem ter vindo para ficar (N.B: clique AQUI para ler o artigo “TFA e Pós-Pandemia”).

É certo que alguns ajustes relativos à higiene e interação pessoal se farão necessários até que a tão aguardada vacina contra a Covid-19 esteja disponível para todos. Muitas medidas hoje adotadas em nome do controle sanitário e novas formas de vigilância poderão surgir de acordo com cada faixa etária. Mesmo o Brasil terá que se submeter a um processo de reconstrução do tipo pós-guerra. Não podemos nos esquecer da nossa responsabilidade pelos riscos que podemos representar para as outras pessoas com o nosso comportamento.

Essa vontade quase incontrolável de retornar ao “normal” não pode se basear na irresponsável certeza de que nunca seremos atingidos pelos males que afetam os outros, ignorando as lições desastrosas que são evidenciadas diuturnamente nas publicações jornalísticas.

Em recentes discussões já se especulava sobre o futuro distante da maçonaria à luz dos avanços da inteligência artificial, com “iniciações” cibernéticas, em cenário abrangendo lojas virtuais (algumas já são realidade), com hologramas dos obreiros projetados nos respectivos cargos e posições ritualísticas, e outras tecnologias ainda a se tornarem realidade e muito mais (N.B: clique AQUI para ler o artigo “Especulações a respeito das iniciações no futuro”). Ocorre que esse tempo foi acelerado pela pandemia do coronavírus que motivou a realização de reuniões com os recursos de videoconferência, que vêm suprindo o impedimento de reuniões presenciais frente às restrições impostas pelas autoridades de saúde.

Quanto à continuidade dessa prática já exsurgem resistências, em especial de um grupo pouco afeito à tecnologia e agarrados a tradições que entendem não podem ser submetidas a novas leituras, em face da força avassaladora da modernidade. Não se pode descontinuar o uso de reuniões virtuais. Não temos como voltar atrás. Ainda mais inconcebível descartar as reuniões presenciais, pois a proximidade física, a fraternidade entre os irmãos, é imprescindível por se constituir na verdadeira razão de ser da Ordem. É certo que obstáculos sempre existirão, mas não são intransponíveis, dependendo da forma e da motivação com a qual os encaramos. O importante é que seja mantido o equilíbrio entre as tradições e o uso das atuais ferramentas tecnológicas.

Outro cenário que se vislumbra em nossas Oficinas envolve o agravamento da evasão de obreiros, em especial dentre aqueles com mais de 60 anos, enquadrados no grupo de risco da pandemia. Argumenta-se que muitos hoje sofrem pressões de familiares para redobrar os cuidados, considerando-se que já se fala que o novo coronavírus veio para ficar, constituindo-se em perigo permanente, mesmo na iminência do desenvolvimento de um antídoto. A comunicação nessa área ainda não está clara. Tiroteios de palpites vêm de todos os lados.

Tal perspectiva leva em conta o argumento de que as condições ambientais de nossas Lojas, na sua maioria, podem se enquadrar como insalubres, dado que o espaço é reduzido, com proximidade física entre jovens e idosos, e sem ventilação natural, com sistemas de ar condicionado capengas e sem manutenção periódica. Não se discute que essas condições podem ser revistas e um controle mais rígido de manutenção possa ser planejado e executado com responsabilidade pelos gestores.

Por outro lado, especula-se que esse pode ser um argumento para aqueles de diferentes idades maçônicas que já vislumbravam a possibilidade de abandonar a Ordem e que essa seria uma boa oportunidade de afastamento, dispensando-se maiores justificativas. Se tal avaliação procede, pode-se concluir que esses possíveis desertores não foram objeto de uma sindicância mais aprofundada ou que decepções podem ter comprometido as expectativas criadas anteriormente.

Quando a saída não é atribuída a algum conflito de compromissos ou dificuldades financeiras, a frustração pode ser consequência de interesses pessoais não atendidos, pois a aceitação do convite para integrar a Ordem tinha como objetivo tirar algum proveito pessoal, servir de meio para atingir interesses na área profissional ou o candidato imaginava participar de um clube social ou, apenas e tão-somente, conquistar novas amizades, desfrutar do seu status ou conquistar algum cargo de relevo com os contatos que se abrem no mundo profano.

Maçons de raiz entendem que os insatisfeitos devem mesmo pedir para sair, pois a Maçonaria é para cidadãos conscientes, livres pensadores, otimistas em relação à vida, sonhadores, abnegados e comprometidos com os estudos, onde os fracos nesses quesitos não têm vez, principalmente em tempos difíceis. Esses sinais de fraqueza podem ser observados dentre aqueles obreiros que demonstram intolerância constante, com uma arrogância e um nervosismo desproporcional, manifestada durante os trabalhos ou especialmente nos grupos de WhatsApp das Lojas, quando saem por qualquer discordância, retornam mais tarde e voltam a se desligar novamente, num vaivém interminável.

Como diz um veterano obreiro que se destaca pela autoproclamada sabedoria “pai d’égua”: “eles se acham os bacanas e nós não os reconhecemos como tal”. Ainda segundo ele, muitos dos que se acham os “reis da cocada preta” e consideram-se figurões da Ordem se melindram quando têm seus posicionamentos questionados ou não conseguem emplacar suas ideias. Alguns se ausentam sem justificativas ou desaparecem sem se despedir. Que sejam felizes!

Enfim, os que se orgulham de pertencer à Ordem e comungam com os seus princípios e fundamentos, e se constituem nas colunas da sabedoria, da força e da beleza, garantidoras da continuidade dos trabalhos, não se deixam abalar com as vicissitudes, honrando com vigor os compromissos assumidos. Portanto, com ou apesar das incertezas, sigamos em frente!

“Se não puder voar, corra. Se não puder correr, ande. Se não puder andar, rasteje, mas continue em frente de qualquer jeito” (Martin Luther King)

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

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Nascer de novo e a Iniciação Real

And I Hope You Hold A Place For Us - Cameron Gray Corra Para Meus ...

“Na casa de meu Pai há muitas moradas.” (João, 14:2)

Os judeus entendiam que o Templo de Jerusalém era a casa de Deus (1 Crônicas 29:7; 2 Crônicas 7:6; Esdras 1:4; etc.). Mas o mestre Yeshua Hamashia não estava se referindo ao Templo terreno, ao contrário, Ele estava falando da verdadeira casa do Pai. Essa casa não é terrena, mas celestial, espiritual, extradimensional, é o lugar da habitação Divina que está nos céus (cf. Salmos 33:13,14; Isaías 63:15).

É imprescindível para se ser maçom regular, para além da condição de homem livre e de bons costumes e do efetivo propósito de aperfeiçoamento, a crença no Criador e na vida depois da morte. O Grande Arquiteto do Universo, por definição e à escala humana, é Eterno. A LUZ que dele provém naturalmente compartilha dessa característica.

O Oriente Eterno é, assim, para os maçons o simbólico lugar de onde provém a LUZ, onde está o Grande Arquiteto do Universo, onde o que resta de nós, depois de tudo do que é físico se extinguir, tem lugar, se reintegra.

A “casa” do Pai é um outro universo extradimensional. As diferentes moradas são os universos infinitos que circulam nosso limitado entendimento.

Há muitas moradas no oriente eterno.

Uma delas é o palácio espiritual, onde estão as joias do conhecimento.

Dentro desse palácio existem muitas salas de iniciação. Porém, normalmente, essas salas estão vazias.

Poucos homens adentram esse recinto espiritual em busca da iniciação real.

A maioria é barrada na entrada desse palácio que reside dentro do coração, porque deseja receber a iniciação espiritual portando velhos dramas e ainda carregando antigas mágoas.

Eles chegam aos portões do coração espiritual e querem arrombar a porta com sua arrogância. Entretanto, existem “guardiões do Umbral”[1] que não permitem a entrada de “brutos homens de chumbo” que carregam em seu seio o orgulho, a ganância, inveja, paixões, egoísmo e o ódio. Homens “mortos” automatizados, hipnotizados, inconscientes e adormecidos pelas ilusões mundanas, presos na armadilha da dualidade e dos instintos, com suas mentes temporais, lineares e cartesianas.

Esses guardiões, postados na entrada dos salões de iniciação, conseguem observar na “aura”[2] os valores necessários e só deixam passar aqueles com real intenção de crescimento e progresso, que querem servir ao grande plano de regeneração e evolução da humanidade.

A maioria das pessoas que aporta a esse palácio e a essas salas espera ganhar alguma coisa na iniciação, quando, na verdade, elas precisam mesmo é perder.

Iniciar-se é perder! É perder a arrogância e o próprio ego…

A perda completa da noção subjetiva de identidade. Na psicologia analítica, é também chamada morte psíquica. O que chamamos de “eu” é uma estrutura mental que criamos para convivermos em sociedade, e na verdadeira iniciação essa construção deve ruir.

Ninguém ganha nada ao iniciar-se em um caminho espiritual, só perde.

Perde os condicionamentos e programas implantados por toda sua vida. Perde as tolices, perde o eu. E, ao perder a imaturidade, a própria pessoa nota um vasto potencial dentro de si mesma.

As luzes do Bem começam a surgir e ela, então, nota um tesouro espiritual resplandecente brilhando em todas as partes: dentro de si mesma e em todos os seres.

Então, esta pessoa, iniciada pelos hierofantes[3] do silêncio, só deseja servir, não deseja mais o poder. Ela já não se prende a nenhuma linha em particular. E nela surge o brilho daquelas jóias da paz dentro de seu coração. Ser aceito como pontífice destes “Mestres Iniciados”[4] é o início de um progressivo e trabalhoso auto-aprimoramento, abandono dos interesses mundanos e por fim um renascimento em um nível superior de consciência.

Aos salões da espiritualidade, só têm acesso aqueles de alma aberta e que trabalham generosamente a favor do progresso de todos os seres, indistintamente, o progresso real de todos.

Ser iniciado é ser um serviçal do “Amor Maior Que Governa a Existência”, e que dá vida a todos.

Não significa erguer a cabeça com arrogância, mas, simplesmente, erguer os olhos em direção às muitas moradas do GRANDE ARQUITETO DO UNIVERSO, além da Terra e além desta realidade dimensional.

Significa agradecer as possibilidades de crescimento e de trabalho digno – e a oportunidade de prosseguir.

Ser iniciado significa manifestar, cada vez mais, intenso brilho no olhar (que vence toda treva, sem agredi-la).

Ser iniciado é mergulhar nos porões e masmorras de si e conhecer o“lado sombrio” da nossa personalidade, o verdadeiro VITRIOL.

O submundo conturbado da nossa psique que contém os nossos sentimentos mais primitivos, os egoísmos mais afiados, os instintos mais reprimidos e aquele “eu escondido” que a mente consciente rejeita e que nos mergulha nos abismos mais profundos do nosso ser.

O iniciado perde muito, pois no caminho da iniciação real ele deixa as quimeras, as ilusões e desprende-se da ganância.

O iniciado não é mais a mesma pessoa, pois morreu o homem velho de “chumbo”, sequioso do poder; renasceu um ser de “ouro” que se alegra ao participar de alguma atividade produtiva e generosa a favor da humanidade.

Que todos aqueles que trilham os caminhos da Espiritualidade busquem sinceramente as salas espirituais do palácio que existe dentro do próprio coração. E que cheguem até essas salas portando a humildade real e o imenso desejo de servir ao grande plano de evolução e progresso.

Não há diploma nas salas espirituais, não há cargos, paramentos e medalhas, não há grau simbólico ou filosófico, não há nepotismo, afilhadismo, favoritismo, profanos de avental, promessa ou ritual.

O que existe é o Amor aplicado, o silêncio e a inspiração profunda, em que o aspirante à iniciação percebe, sem que ninguém lhe diga, aquela Luz Magnânima, que a tudo compreende.

Nas salas da iniciação não há palavras, somente puros sentimentos de amor, Inspiração e Silêncio.

Os  Franco-Maçons  atuais discernem  do que se trata?  Eles depositam em geral  seus metais sem ver nisso  malícia, depois, retomam-nos com  a mesma candura, após terem visto  materialmente uma luz que não os esclarece  “em espírito e em verdade”. Tudo,  em Iniciação,  depende, todavia, daquilo  que nós chegamos a ver interiormente.  As  provas  não têm  outro objetivo  senão que o de  nos colocar em estado  de ver a Luz: elas são  muito sérias, a despeito do  divertimento ao qual dão lugar,  muito freqüentemente, as iniciações  cerimoniais. Não são trotes, a não  ser para iniciadores ignorantes que profanam  as coisas santas; em Iniciação real, os ritos  prescrevem operações nas quais o adepto é, ao mesmo  tempo, o sujeito e o objeto, o agente e o paciente,  porque, — Maçom chamado a talhar a Pedra, — ele trabalha  sobre si mesmo, sendo a Pedra viva que se talha ela própria. Mas  o que opera em nós é Espírito, ou seja, Luz, e é a Luz operante que  somos chamados a descobrir em nós; para aí chegar, é-nos  necessário depositar  nossos metais, morrer  para as ilusões profanas  e completar nossa purificação  mental. É exigir muito de um candidato  a Franco-Maçom, homem de boa vontade, sincero  em seu desejo do bem, mas incapaz de iniciar-se  nos mistérios efetivos da Arte Real. Não se deve,  pois, reprovar à Franco Maçonaria colocar-se ao alcance  do grande número. Ao iniciar em seus símbolos, ela mantém  suas obrigações em relação aos iniciáveis que irão procurar,  pedir e bater, de forma a encontrar quem lhes responda e quem  se lhes abra, finalmente, a porta do santuário da Verdade. Outros não aprenderão a ritmar os três golpes misteriosos senão para  obter o acesso a uma Loja regular, em sua qualidade de Maçons reconhecidos regulares… convencionalmente! Iniciados apenas nas exterioridades, no lado sensível  da Franco Maçonaria, esses aderentes superficiais, — que são legião, — não vão além da  infância da Arte: eles se divertem com imagens cujo sentido não percebem, mas estas imagens  lhes pregam uma sabedoria à qual eles se mostram dóceis. Habituam-se se manter bem em Loja e  a desenvolver seus bons sentimentos. Sem elevar-se até o ideal muito heroico da Iniciação, tornam-se melhores  em modestas proporções. Se a Franco-Maçonaria moderna melhora seus adeptos, tornando-os mais fraternos uns em relação  aos outros, sua obra é louvável, mesmo que, sobre cinco milhões de membros ativos, ela não conte senão com uma ínfima  corte de Iniciados que realmente viram a Luz. (Oswald  Wirth — Os  Mistérios da Arte  Real — Ritual do Adepto. Pág 92).

Aos Buscadores, onde quer que estejam sobre a face da terra.

Aos Buscadores, onde quer que estejam sobre a face da terra.

Autor: Geovanne Pereira

Geovanne é professor de Filosofia, psicanalista, Mestre Maçom da ARLS Jacques DeMolay, n°22 – GLMMG e, para nossa alegria, também um colaborador do blog.

Notas

[1]Termo iniciático, bem conhecido nos mistérios do esoterismo, que representa um espírito que guarda ou protege a passagem de um nível para outro. Trata-se de um personagem espiritual, uma entidade de hierarquia, que protege o acesso a uma esfera ou a um estado superior de consciência. O termo foi popularizado por Bulwer Lytton no romance Zanoni de 1844. Segundo ocultistas como Dion Fortune, o guardião do umbral, ou habitante do limiar é uma projeção de todas nossas imperfeições, que se apresentam a nós impedindo a passagem. Neste caso, o discípulo só poderá cruzar o umbral (a passagem a outro plano ou esfera) caso consiga resolver todas as pendências kármicas que aquele nível superior exige.

[2] – Do latim aura – sopro de ar – halo luminoso de distintas cores que envolve o corpo físico e que reflete, energeticamente, o que o indivíduo pensa, sente e vivencia no seu mundo íntimo; psicosfera; campo energético.

[3] – entro do contexto das iniciações esotéricas da antiguidade, era o mestre que testava os neófitos (calouros) nas provas iniciáticas.

[4] – Grupo extrafísico de espíritos orientais que opera nos planos invisíveis do Ocidente, passando as informações espirituais oriundas da sabedoria antiga, adaptadas aos tempos modernos e direcionadas aos estudantes espirituais do presente. Composto por amparadores hindus, chineses, egípcios, tibetanos, japoneses e alguns gregos, eles têm o compromisso de ventilar os antigos valores espirituais do Oriente nos modernos caminhos do Ocidente, fazendo disso uma síntese universalista. Estão ligados aos espíritos da Fraternidade da Cruz e do Triângulo. Segundo eles, são “iniciados” em fazer o bem, sem olhar a quem.

 

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A Iniciação Maçônica e a Jornada do Herói

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Este estudo tem por objetivo analisar as influências arquetípicas e, consequentemente, mitológicas sobre a iniciação maçônica no Rito Escocês Antigo e Aceito, por intermédio da teoria conhecida por Jornada do Herói.

Muitos talvez possam julgar os rituais maçônicos como obsoletos, sem sentido ou mesmo inúteis. Serão apontadas as evidências de que os rituais maçônicos e a mitologia que os estruturam têm forte efeito sobre o inconsciente de seus praticantes (JUNG, 2005).

Clique no link abaixo e digite a P∴S∴ de Apr∴ (primeira letra maiúscula) para ter acesso ao texto:

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A fixação da ritualística no inconsciente do maçom

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Muitas vezes são imperceptíveis, mas as pessoas estão cercadas de Ritos. Eles, inclusive, contribuem para o bem-estar dos indivíduos. “Os ritos e rituais vêm da antiguidade com a mesma função: servem acima de tudo para facilitar o encontro com nós mesmos, para não nos desviarmos dos nossos objetivos e metas que traçamos com sinceridade; são uma ferramenta para nos lembrar quem somos, o que estamos fazendo e como estamos fazendo”, segundo España (2017).

Utilizados de forma equilibrada, os ritos ajudam o ser humano a ter mais autocontrole, a estar mais centrado nas ações que desempenham, impedindo-o de desconectar dele mesmo, e por isso, podem e devem ser criados e respeitados, como forma de trazer um ganho geral, melhorando sua motivação e consequentemente tudo ao seu redor.

Por exemplo, a estratégia utilizada para chegar ao trabalho diariamente pode ser considerada um hábito próprio que condiciona uma pessoa a sair sempre no mesmo horário, seguir pelos mesmos trajetos e alcançar o destino sem maiores problemas. Assim, desde o simples escovar dos dentes até a forma de encarar e resolver problemas complexos podem ser reflexo de um acúmulo de experiências próprias.

Entretanto, o que torna essas ações cotidianas em ritos são os significados que se dão a elas. Se escovar os dentes depois da alimentação ou antes de dormir traz uma sensação de bem-estar que supera simples fato de manter a higiene bucal, influenciando na sua concentração, pode-se estar diante de uma ritualística. Quando uma alteração no transcorrer dessas ações cotidianas, como a mudança no trajeto para o trabalho, influencia no desempenho de uma pessoa ou a fazer crer que gerou um descontrole na sua performance rotineira, e até chega a atrapalhar todas as demais atividades que serão desenvolvidas em seguida, pode-se constatar que houve a quebra de um rito. O grau de importância e significação que se atribui a determinados atos é que os tornam ritualísticos.

Além das experiências pessoais, destacam-se as cerimônias grupais, como as festas, tradições, funerais e outros comportamentos sociais, que desempenham importante papel na vida de um grupo. A ausência de uma solenidade nessas ocasiões pode ser encarada como um desrespeito e anulando a importância da passagem ou transição, reduzindo a ocorrência de um acontecimento que estabelece distinções muitas vezes entre estilos e modos de vida, o antes e o depois. Além disso, a ritualística assume uma “importância simbólica no processo de elaboração e assimilação de uma realidade subjetiva, mas com implicações de ordem prática, uma vez que envolve valores e posturas, na forma de se ver e se colocar no mundo.” (Diário de Antropóloga, 2009).

A identificação entre os membros de um grupo pode estar ligada à prática de ritos predeterminados, que são realizados muitas vezes sem entendimento de seus significados, como forma de aceitação pela coletividade e permanência nela. Todavia, é importante compreender os ritos sugeridos e alcançar seus significados, até como forma de solidificação da inserção coletiva. “Quando a integração não acontece a contento, o grupo se enfraquece, assim como o ritual. Antes que afete sua identidade como um grupo, a coesão entre os membros é impactada e seus laços sociais e afetivos não são reforçados. A experiência ritual favorece os laços sociais e a coesão do grupo” afirma Ritter (2015), que leciona ainda que:

É na necessidade humana de simbolização que os ritos encontram o caminho para existir, quer na repetição de rituais estabelecidos, quer pela atualização ou construção de novos. O simbólico é funcional na medida em que propicia a expressar e compreender uma experiência, ou conferir sentidos às vivências e à existência, ou ainda para olhar além de si mesmo e conviver na esfera coletiva. Mesmo que se valha de hábitos ou comportamentos repetitivos, com frequência e insistência nascem rituais que nos levam além do nosso comportamento e além de nossa individualidade, agregando sentidos e significados à nossa existência.

Os seres humanos atribuíram ao longo da história importâncias e significados a determinadas ações, e se sentem bem em repeti-las individual ou coletivamente, criando os mais diversos ritos para eventos grandes, formais, pequenos, públicos ou privados. Para Aristóteles “somos o que fazemos repetidamente. A excelência, portanto, não é um ato, mas um hábito”.

Conceitualmente, rito é um método utilizado para transmitir ensinamentos, funciona como uma lei, e segundo Ismail (2013) “é um conjunto de preceitos e obrigações gerais que produz efeitos sobre aqueles que estão sob seu alcance. Assim como uma lei, um Rito reflete princípios que o orientam, possui elementos históricos, além de buscar um objetivo específico”.

O ritual “é como uma instrução normativa, um manual de procedimentos que determina e regulamenta como essa lei deve ser praticada e observada” (ISMAIL, 2013), um livro que contém tudo referente ao rito, ou seja, um conjunto de regras, a ordem e a forma das cerimônias, religiosas ou não, com as palavras e orações, que orientam os praticantes do rito.

Já ritualística é a prática do rito segundo o ritual, isto é, a ritualística é o desdobrar do rito e precisa ser sempre fiel a ele e ao que está contido em determinado ritual. O rito em ação é a ritualística, com o exercício continuado dos mistérios observando os símbolos, princípios, preceitos e representações.

Analisando a questão sob o aspecto maçônico, destaca-se o ensinamento de Mackey (1869):

A Maçonaria é um sistema de moralidade desenvolvido e inculcado pela ciência do simbolismo. Este caráter peculiar de instituição simbólica e também a adoção deste método genuíno de instrução pelo simbolismo, emprestam à Maçonaria a incolumidade de sua identidade e é também a causa dela diferir de qualquer outra associação inventada pelo engenho humano. É o que lhe confere a forma atrativa que lhe tem assegurado sempre a fidelidade de seus discípulos e a sua própria perpetuidade.

Neste sentido, afirma Figueiredo (1998) que:

A Maçonaria é um sistema sacramental que, como todo sacramento, tem um aspecto externo visível, consistente em seu cerimonial, doutrinas e símbolos, e acessível somente ao maçom que haja aprendido a usar sua imaginação espiritual e seja capaz de apreciar a realidade velada pelo símbolo externo.

Além disso, como a Maçonaria é uma sociedade iniciática adotou uma linguagem simbólica e ritualística para registro de seus ensinamentos, através de ritos, anotados em rituais, para que somente os iniciados em seus mistérios possam praticá-los, o que pode ser constatado desde os primeiros registros como o Manuscrito Regius de 1390 (FILARDO, 2015).

Constata-se, portanto, a importância pessoal, social e iniciática, especialmente para a Maçonaria, dos ritos e ritualísticas, mas “o mundo moderno, entretanto, rejeita os rituais”, afirma Freitas Neto (2016), e complementa que: Vemos com grande frequência o desdém com que os mais jovens e os mais velhos tratam os rituais maçônicos como meras fórmulas vazias, lidos e repetidos automaticamente, sem força e vitalidade.

Destaca-se as observações de Mckay e Mckay (Apud FREITAS NETO, 2016):

A superficialidade estéril do mundo moderno tem seu fundamento em muitas questões, como o consumerismo irrefletido, a falta de desafios significativos e a perda de valores e normas compartilhados, ou mesmo de tabus compartilhados contra os quais se rebelar.

Nosso mundo moderno está quase vazio de rituais – ao menos no modo em que tradicionalmente pensamos neles. Aqueles que restam – como os que estão nos entornos dos feriados religiosos – perderam boa parte do seu poder transformativo e são hoje mais suportados do que propriamente apreciados, dos quais participamos mais por convenção do que por convicção. Ritual, hoje, é algo associado ao que é podre, vazio, sem sentido.

O fato de que toda cultura, em toda parte do mundo, em todas as eras, tem seus rituais é sugestivo de que o ritual é parte fundamental da condição humana. Os rituais já foram chamados, inclusive, da forma mais básica de tecnologia; são um mecanismo pelo qual coisas podem ser mudadas, problemas podem ser resolvidos, certas funções podem ser desenvolvidas e resultados tangíveis, atingidos. A necessidade é a mãe da invenção, e rituais surgiram da perspectiva límpida de que a vida é intrinsecamente difícil e que uma realidade “pura” pode, paradoxalmente, parecer irreal. Por eras os rituais foram os instrumentos pelos quais os homens puderam liberar e expressar emoções, construir sua identidade pessoal e a identidade da tribo, trazer ordem ao caos, orientar-se no tempo e no espaço, produzir transformações reais e construir camadas de significado e consistência para suas vidas. Quando os rituais são arrancados de nossa vida e esta necessidade humana não é satisfeita a apatia, inquietação, alienação, tédio, a perda das raízes e a anomia são o resultado.

Na atualidade, para muitas pessoas a prática de ritualísticas tornou-se ultrapassada, e em muitos casos é vista com preconceito e desdém. A observação dos ritos, inclusive maçônicos, é realizada de forma superficial, e a ritualística realizada de forma mecânica, sem qualquer preocupação com o significado e importância das mensagens e conceitos que os símbolos, palavras e gestos acumulados ao longo de séculos de atividade, decorrente de uma exagerada racionalidade e cientificidade, que terminou por destacar o lado consciente do homem moderno, o que termina por acarretar consequências desastrosas para o desenvolvimento do inconsciente humano.

Conforme Tavares (2018, informação verbal)[1] os ritos, mitos, símbolos são importantes no desenvolvimento da Psique, que segundo os psicanalistas está envolvida com o inconsciente, e responsável pelo crescimento e libertação do homem, ajudando-o a se encontrar interiormente. Deve-se considerar que a Simbologia é uma das ciências mais antigas do mundo, que possui seus sinais e efeitos sobre a humanidade. O homem e seus símbolos tem uma relação profunda que consistem em metáforas e na construção de compêndios de um conhecimento sensivelmente elevados, externados e expressados através de arquétipos.

Um arquétipo rege um símbolo (TAVARES, 2018). O grande imã que une os arquétipos aos símbolos e seus significados é o próprio homem, sendo necessário praticar sempre, para evoluir e continuar a crescer intimamente como indivíduo, gerando uma situação de satisfação interna, pois os símbolos e gestos funcionam como catalizadores das ações humanas como uma força psicológica, em um processo contínuo que leva o indivíduo a um avanço moral e ético, buscando estar bem e fazer o bem. O rito é uma forma de transmitir ensinamentos básicos e organizar as solenidades, especialmente maçônicas, através de um processo de troca de energia e renovação, sendo necessário tocar o símbolo e ser tocado por ele. No rito maçônico há três estágios, sendo no 1º grau do Simbolismo, o aprendizado, no 2º estágio, o desenvolvimento do caráter, e no grau de Mestre, encontra-se a plenitude, auxiliando o iniciado a lidar com a ambivalência entre o consciente e o inconsciente. A ritualística auxilia no desenvolvimento do caráter, auxilia “o outro” que existe dentro do indivíduo, já identificado como Psique, envolvido com o inconsciente e o instinto, e que ajuda o sujeito a lidar com seu consciente.

A racionalização do mundo atual, que reduz a importância da ritualística, termina por causar prejuízo ao inconsciente, e contribuindo para que o ego, ligado ao consciente, enfraqueça e adoeça. Para Jung (2017):  O homem moderno não entende quanto o seu “racionalismo” (que lhe destruiu a capacidade de reagir a ideias e símbolos numinosos) o deixou à mercê do “submundo” psíquico. Libertou-se das “superstições” (ou pelo menos pensa tê-lo feito), mas nesse processo perdeu seus valores espirituais em escala positivamente alarmante. Suas tradições morais e espirituais desintegraram-se e, por isso, paga agora um alto preço em termos de desorientação e dissociação universais.

Os antropólogos descreveram, muitas vezes, o que acontece a uma sociedade primitiva quando seus valores espirituais sofrem o impacto da civilização moderna. Sua gente perde o sentido da vida, sua organização social se desintegra e os próprios indivíduos entram em decadência moral. Encontramo-nos agora em condições idênticas. Mas na verdade não chegamos nunca a compreender a natureza do que perdemos, pois os nossos líderes espirituais, infelizmente, preocuparam-se mais em proteger suas instituições do que em entender o mistério que os símbolos representam. Na minha opinião, a fé não exclui a reflexão (a arma mais forte do homem); mas, infortunadamente, numerosas pessoas religiosas parecem ter tamanho medo da ciência (e, incidentalmente, da psicologia) que se conservam cegas a essas forças psíquicas numinosas que regem, desde sempre, os destinos do homem. Despojamos todas as coisas do seu ministério e da sua numinosidade; e nada mais é sagrado.

Em épocas remotas, quando conceitos instintivos ainda se avolumavam no espírito do homem, a sua consciência podia, certamente, integrá-los numa disposição psíquica coerente. Mas o homem “civilizado” já não consegue fazer isso. Sua “avançada” consciência privou-se dos meios de assimilar as contribuições complementares dos instintos e do inconsciente. E esses meios de assimilação e integração eram justamente os símbolos numinosos tidos como sagrados por um consenso geral.

À medida que aumenta o conhecimento científico, diminui o grau de humanização do nosso mundo. O homem sente-se isolado no cosmos porque, já não estando envolvido com a natureza, perdeu a sua “identificação emocional inconsciente” com os fenômenos naturais. E estes, por sua vez, perderam aos poucos as suas implicações simbólicas (…). Acabou-se o seu contato com a natureza, e com ele foi-se também a profunda energia emocional que esta conexão simbólica alimentava.

A racionalidade e a cientificidade não são prejudiciais ao desenvolvimento humano, mas não devem ser encarados de forma maniqueísta, anulando o lado mítico e simbólico da humanidade, até mesmo porque a acompanha desde sua fase embrionária, e ainda está presente nos dias atuais, apesar de mitigada sua importância. Os ritos tradicionais que alimentavam o inconsciente humano perderam espaço e deram lugar a novos que “não dão sustança ao espírito e não satisfazem”, como uma “cultura do confete” (MCKAY; MCKAY, apud FREITAS NETO, 2016).

Desta forma, a sociedade “moderna” está carente dos mecanismos que antes ajudavam a lidar com a morte e situações difíceis de perda e dificuldade, bem como auxiliavam no desenvolvimento individual e na descoberta interna e do mundo, por novos “rituais” que eliminam os problemas e somente apresentam o lado lúdico, “brilhante e colorida, que facilita o consumo passivo e rejeita o exame aprofundado das assunções” (MCKAY; MCKAY, apud FREITAS NETO, 2016). Destarte, não é difícil encontrar pessoas com complicações na vida pessoal e no enfrentamento dos problemas sociais e de relacionamento, em proporções maiores que em tempos mais remotos.

Na Maçonaria, os ritos ainda sobrevivem às mudanças da “atual civilização”, e sua prática constante reforça o lado inconsciente do Maçom, que deve ser trabalhado segundo seus preceitos filosóficos, auxiliando-o na convivência da Psique com a consciência, através da preservação dos conceitos éticos e morais gerais e iniciáticos, que devem reger sua vida como homem livre e de bons costumes, devendo encarar a simbologia de forma mais intensa.

Não cabe a este texto discutir as teses de como se chegou a este estágio social, mas fazer um alerta para o fato da racionalidade ampliar o consciente em detrimento do conhecimento íntimo, com reflexo estrutural da personalidade do profano ou iniciado, alterando seu amadurecimento e na forma de encarar a vida em comunidade, e para despertar sobre a importância do rito e da ritualística maçônica para o inconsciente do Maçom e conhecimento próprio.

Autor: Eduardo Albuquerque Rodrigues Diniz

Fonte: REVISTA BIBLIOT3CA

Nota

[1] – Palestra proferida pelo psicólogo Lázaro Tavares, com o tema: Psique e Rituais Maçônicos: efeitos e sinais, na SESSÃO CONJUNTA DAS LOJAS MAÇÔNICAS DO PALÁCIO DA ARTE REAL, em Teresina – PI, no dia 04 de outubro de 2018, conforme registrado em Ata da Sessão Conjunta da Aug e Resp Loj Simb Liberdade Teresinense, nº 1314.

Referências

CARR, Harry. O Ponto Dentro do Círculo. Seis Séculos de Ritual Maçônico – 1ª Parte, traduzido por FILARDO, José. Publicado em 2 de outubro de 2015. Disponível em: <https://opontodentrodocirculo.wordpress.com/2015/10/02/seis-seculos-de-ritual-maconico-1a-parte/&gt;. Acesso em 28.12.18.

Diário de Antropóloga – Diversidade Cultural. Cidadania. Cultura Popular. Semiótica e Interpretação. Rituais da Vida e Ritos do Cotidiano. Publicado em 3 de junho de 2009. Disponível em: <http://diariodeantropologa.blogspot.com/2009/06/rituais-da-vida-e-ritos-do-cotidiano.html&gt;. Acesso em 28.12.18.

ESPAÑA. Danilo. Ritos no dia a dia trazem motivação!. Publicado em 18 de novembro de 2017. Disponível em: <https://exame.abril.com.br/blog/o-que-te-motiva/ritos-no-dia-a-dia-trazemmotivacao/&gt;. Acesso em 28.12.18.

ISMAIL, Kennyo. No Esquadro. O que é rito e o que é ritual. Publicado em 18 de fevereiro de 2013. Disponível em: <https://www.noesquadro.com.br/termos-e-expressoes/o-que-e-rito-e-o-que-eritual/&gt;. Acesso em 28.12.18.

JUNG, Carl G. O homem e seus símbolos, traduzido por PINHO, Maria Lúcia. 3ª Edição Especial. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil. 2016.

MACKEY, Albert Galatin. Encyclopedia of Freemasonry. New York: Clark and Maynard, 1869.

MCKAY, Brett; MCKAY, Kate. O poder do Ritual, parte 1 – A necessidade do homem por rituais e os ritos de masculinidade, traduzido por FREITAS NETO, Edgard Costa. Publicado em 21 de fevereiro de 2016. Disponível em: <http://york.blog.br/poder-ritual-parte-1-a-necessidade-do-homempor-rituais-e-os-ritos-de-masculinidade/&gt;. Acesso em 28.12.18.

Riter, Ettore. Ritos e Rituais da vida diária – PensarAção. Publicado em 12 de Fevereiro de 2015. Disponível em: <http://www.pensaracao.com.br/ritos-e-rituais-da-vida-diaria/&gt;. Acesso em 28.12.18.

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A busca pelo Sagrado: o Mito do Herói e os ritos de passagem

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Eu saí da minha terra Me deu lição verdadeira Por ter sina viageira Coragem num tá no grito Com dois meses de viagem E nem riqueza na algibeira Eu vivi uma vida inteira E os pecado de domingo Saí bravo, cheguei manso Quem paga é segunda-feira Macho da mesma maneira Estrada foi boa mestra (Capoeira do Arnaldo – Paulo Vanzolini)

O rito de passagem ou de iniciação é um rito que marca a transição de um status social ou sexual a outro. Ritualmente reproduz o nascimento, a saída do bebê da barriga da mãe e a entrada para uma nova realidade. Assim como no nascimento, o rito de passagem exige o desprendimento, esforço, sacrifício. Em algumas culturas tais ritos são acompanhados de escarificações e privações[1].

Em 1909, Otto Rank (1884-1939) pesquisador, psicanalista, colaborador e colega de Sigmund Freud, em sua obra Der Mythus von der Geburt des Helden (O Mito do Nascimento do Herói) analisa os mitos de Sargon, Moisés, Karna, Édipo, Paris, Telephus, Perseu, Gilgamesh, Cyrus, Tristan, Romulus, Hercules, Jesus, Siegfried e Lohengrin. Em sua análise ele destaca símbolos recorrentes a todos esses mitos, tais como a água, a luta para nascer, mesmo contra toda adversidade, e a vitória do herói.

Otto Rank ressalta que para compreender os mitos é necessário adentrar no reino da imaginação.

“Numerosos investigadores têm enfatizado que a compreensão da formação do mito requer o retorno para a sua derradeira fonte, a faculdade da imaginação individual”[2].

A compreensão do mundo imagético é essencial para compreender o mito e para Otto, a fonte do mundo imagético é a criança.

Comentando sobre o livro de Otto Rank, O Mito do Nascimento do Herói, concorda que todos nós somos heróis ao nascer, quando enfrentamos uma tremenda transformação, tanto psicológica quanto física, deixando a condição de criaturas aquáticas, vivendo no fluido amniótico, para assumirmos, daí por diante, a condição de mamíferos que respiram o oxigênio do ar, e que, mais tarde, precisarão erguer-se sobre os próprios pés. Esta é uma enorme transformação, e certamente, um ato heroico, caso fosse praticado conscientemente[3].

Os mitos são frutos dos dramas infantis, segundo Otto Rank. No caso do mito do herói, este decorre do drama do incesto. O filho se rebela contra o pai para conquistar o amor da mãe. Esta é a tese do seu mentor, Sigmund Freud, que irá chamar de complexo de Édipo.

A rebelião do filho contra o pai pode não ser apenas para conquistar a mãe, pode ser também para conquistar a sua independência. A eliminação do ego infantil é a maior das lutas na passagem do jovem para o adulto. Os embates internos são muito mais difíceis e complicados do que combater outro ser humano.

“Os rituais das primitivas cerimônias de iniciação têm sempre uma base mitológica e se relacionam à eliminação do ego infantil, quando vem à tona o adulto, seja menina ou menino.”[4]

Tanto os meninos quanto as meninas experimentam mudanças fisiológicas tão intensas a ponto de provocarem uma mudança psicológica transfiguradora, ou seja, a passagem não é apenas fisiológica, é sobretudo mental. O embate mental independe do sexo, ou seja, é tão difícil para o menino quanto para a menina fazer a transição para o adulto. Os ritos de passagem seriam uma forma de resolver os conflitos entre a mente e o corpo.

A independência é conquistada quando o jovem se desprende da dependência dos pais. O primeiro passo para a independência é à oposição a ordem vigente e todo herói começa como um rebelde.

“O próprio herói, como demonstrado pelo desprendimento dos pais, começa sua carreira em oposição à geração mais velha. Ele é ao mesmo tempo um rebelde, um renovador e um revolucionário. Entretanto, todo revolucionário é originalmente um filho desobediente, um rebelde contra o pai.”[5]

A oposição é um dos passos para encontrar a individualidade, mas não é o fim. Apesar da redundância, a auto-superação faz parte do “heroísmo do herói”. Isso nem sempre acontece, mas costuma fazer parte do processo.

A jornada do herói é mais profunda do que qualquer rebeldia, vai até o âmago do espírito humano, para depois retornar trazendo essa essência de vida e doá-la para a humanidade.

Para Campbell, a façanha do herói começa com alguém a quem foi usurpada alguma coisa ou que sente deslocado entre as experiências normais dos membros da sociedade. Essa pessoa então parte numa jornada que ultrapassa o usual, quer para recuperar o que tinha sido perdido, quer para descobrir seu lugar na sociedade. Normalmente, o herói perfaz-se um círculo que inicia com a partida e termina com o retorno. Essa jornada tem algo de uma busca espiritual, pois o jovem evolui de uma posição de imaturidade psicológica para a coragem da auto-responsabilidade, na passagem se morre e renasce. Esse é o motivo básico do périplo universal do herói[6].

Arnold Van Gennep (1873-1975) é um dos mais importantes folcloristas e etnógrafos franceses. Ele cunhou o termo “ritual de passagem”. Fez um estudo sistemático dessas cerimônias e dedicou uma obra a elas, “Les Rites de passage” (Os Ritos de passagem – 1909).

Van Gennep identificou três fazes nos ritos de passagem:

  • A separação, o desprendimento dos pais e do ego infantil;
  • A margem, seria a busca da autonomia, ou seja, buscar despertar as qualidades do adulto;
  • Agregação, a aquisição do domínio de si, quando o jovem retorna não mais como criança, mas como adulto.

Essa mesma estrutura está presente nos mitos de heróis e não é por acaso. Segundo Campbell, todo rito é uma encenação mítica[7]. A epopeia mítica é reproduzida no rito, somos transportados do mundo profano para o sagrado, do sobrenatural.

Para Durkheim, o sobrenatural é uma noção tida geralmente como característica de tudo que é religioso. Entende-se por isso toda a ordem de coisas que ultrapassa o alcance de nosso entendimento; o sobrenatural é o mundo do mistério, do incognoscível, do incompreensível. A religião seria, portanto, uma espécie de especulação sobre tudo o que escapa à ciência e, de maneira mais geral, ao pensamento claro[8]. Ora, seguindo essa ideia de Durkheim, o mundo imagético do ser humano faria parte do sobrenatural, pois escapa à ciência e também não faz parte do pensamento claro e, sendo parte do sobrenatural, seria objeto de estudo das religiões.

Durkheim afirma que a única forma segura e confiável de aquisição do conhecimento é a razão, quanto a isso, Bachelard discorre que o raciocínio não é a única forma de aquisição do conhecimento e fará a sua Fenomenologia Poética que abarca também a sensibilidade. O que escapa a Durkheim é que o raciocínio permite, sem dúvida, analisar os fatos, compreender a relação existente entre eles, mas não cria significado. Para que a criação ocorra, é necessário imaginar[9]. Os mitos têm um aspecto pedagógico, mas, sobretudo, eles atuam no mundo imagético, dando um sentido à vida.

O próprio Durkheim percebe a necessidade humana de criar sentido à vida, remetendo ao aspecto simbólico, imagético do ser humano, ainda que com certo desdém e que deve ser mantido à distância:

“Os homens foram obrigados a criar para si uma noção do que é religião, bem antes que a ciência das religiões pudesse instituir suas comparações metódicas. As necessidades da existência nos obrigam a todos, crentes e incrédulos, a representar de alguma maneira as coisas no meio das quais vivemos, sobre as quais a todo momento emitimos juízos e que precisamos levar em conta em nossa conduta. Mas como essas pré-noções se formaram sem método, segundo os acasos e as circunstâncias da vida, elas não têm direito a crédito e devem ser mantidas rigorosamente à distância do exame que iremos empreender. Não são os nossos preconceitos, as nossas paixões, os nossos hábitos que devem ser solicitados como os elementos da definição que necessitamos; é a realidade mesma que se trata de definir.”[10]

A posição de Durkheim de reprimir o aspecto imagético do ser humano para alcançar a “verdade pura” é um dos pressupostos do pensamento científico, nascido da Revolução Científica, movimento do século XVII, que separou a Ciência da religião, especificamente das interpretações Teocêntricas da Igreja Católica. O problema é que o cientificismo foi predominante na sociedade ocidental e “rotulou” os mitos, chamando-os de “mentiras” que se contam para crianças. A razão foi dissociada da sua verdadeira fonte, o mito. Nessa busca pelo racional o sentimento foi abafado e o ser humano ficou dividido. As consequências desse movimento darão origem à diversas crises contemporâneas, tanto individuais, quanto sociais. Em nossa sociedade os ritos perdem importância, porque são vivências profundamente emotivas e na maioria dos casos, pouco ou nada lógicos.

Segundo Gilbert Durand em sua obra L’Imagination Symbolique a postura Científica de negar o mundo Imagético é reducionista, não contempla o ser humano de forma integral, razão e sensibilidade. Não percebe que a razão nasce do Imaginário. A própria Ciência é uma Hermenêutica, uma construção mítica, que Durand irá chamar de hermenêutica redutora em contraste com as hermenêuticas instaurativas.

“A mais evidente depreciação dos símbolos que nos apresentam a história de nossa civilização é certamente aquela que se manifesta dentro dos atuais cientistas do cartesianismo. Certos, como escreveu excelentemente um cartesianista contemporâneo, não é porque Descartes recusa de fazer uso da noção de símbolo. Mas que o único símbolo para o Descartes da terceira meditação, é a consciência, ela mesma a imagem e semelhança de Deus.”[11]

A vida imagética tem um sentido próprio, mais abrangente do que a razão e quando tenta reduzi-la ao ato concreto em si, parte de seu sentido se perde.

“…na linguagem, se a escolha do signo é insignificante porque este último é arbitrário, já não acontece o mesmo com o domínio da imaginação em que a imagem – por mais degradada que possa ser concebida – é ela mesma portadora de um sentido que não deve ser procurado fora da significação imaginária.”[12]

De todos os cientistas, os Físicos são os que mais buscaram explicar a realidade tendo por base o pensamento científico. A Física Newtoniana afirmou que a realidade era concreta, absoluta e permanente. Esse pensamento perdurou durante séculos, até o aparecimento de Einstein e sua Teoria da Relatividade, quando demonstrou que o espaço e o tempo não são absolutos, eles podem ser contraídos ou expandidos, contrariando a lógica de espaço e tempo absolutos de Newton.

Nossa noção de realidade foi ainda mais afetada com as descobertas dos físicos quânticos. Estes descobriram que a matéria, aparentemente tão sólida, é constituída em seu âmago por átomos, que por sua vez são em sua maior parte enormes espaços vazios. Os elementos constitutivos do átomo têm propriedades que contradizem a razão: têm comportamento dual onda-matéria, efeitos de tunelamento, são regidos por uma incerteza intrínseca que obriga a representá-los em termos de probabilidades, entre outros efeitos que ferem o bom senso. Na frase célebre do físico quântico Niels Bohr: “Se a mecânica Quântica não lhe chocou, é porque você ainda não a entendeu.” Os físicos quânticos estão demonstrando que a realidade em sua essência não é nem lógica, nem sólida, não existindo essa concretude sonhada pelo cientificismo, pensamento que será retomado pelos cientistas do imaginário.

Na teoria do Imaginário, a realidade é interpretada, criada a partir dos mitos, ou seja, é imagética. Segundo Juremir Silva, todo imaginário é real. Todo real é imaginado. O homem só existe na realidade imagética. Não há vida simbólica fora do imaginário. O mesmo já tinha sido percebido por Jacques Lacan no que se refere à sexualidade. Tudo acontece no imaginário: sexo, preconceitos…. O concreto é empurrado, impulsionado e catalisado por forças imagéticas. Nisso não se esconde um velho idealismo, travestido de novo, em função de uma renovação de terminologia, mas transparece uma constatação antropológica: o ser humano é movido pelos imaginários que engendra. O homem só existe no imaginário[13].

A frase célebre do Buda Sidarta Gautama de que nós fazemos a nossa própria realidade, será amplamente aceita na teoria do Imaginário. A realidade não é fruto dos fatos, mas das interpretações que damos a estes. Da mesma forma a eficácia do ritual, não está no ato em si, mas do sentido que damos a ele, sua força vem da crença no transcendente. O que nos remete a noção de sagrado e profano.

Para Durkheim, o sagrado e o profano são dois mundos que nada têm em comum.

“Não existe na história do pensamento humano um outro exemplo de duas categorias de coisas tão profundamente diferenciadas, tão radicalmente opostas uma à outra. A oposição tradicional entre o bem e o mal não é nada ao lado desta; pois o bem e o mal são duas espécies contrárias de um mesmo gênero, a moral, assim como a saúde e a doença são apenas dois aspectos diferentes de uma mesma ordem de fatos, a vida, ao passo que o sagrado e o profano foram sempre e em toda parte concebidos pelo espírito humano como gêneros separados, como dois mundos entre os quais nada existe em comum.”[14]

Durkheim explana que o homem nasce no mundo do profano e a sua passagem para o mundo do sagrado se dá por meio do ritual de passagem. Em que ele irá morrer no mundo do profano para renascer no mundo do sagrado. É o mito da morte e ressurreição do herói. A passagem para ele implica numa completa metamorfose.(grifo do blog)

“Ora, essa mudança de estado é concebida, não como o simples regular desenvolvimento de germes preexistentes, mas como uma transformação totius substantiae. Diz-se que, naquele momento, o jovem morre, que a pessoa determinada que ele era cessa de existir e que uma outra, instantaneamente, substitui a precedente. Ele renasce sob uma nova forma. Considera-se que cerimônias apropriadas realizam essa morte e esse renascimento, entendidos não num sentido simplesmente simbólico, mas tomados ao pé da letra.”[15]

O sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002) retoma a ideia de divisão no rito de passagem, mas descarta a ideia do transcendente ou do sagrado e analisa sob uma ótica prática, social. Os ritos de passagem teriam uma função social, a de separar os iniciados dos não-iniciados. Bourdieu propõe que os ritos de passagem deveriam ser chamados de ritos de legitimação, ou ritos de consagração ou ritos de instituição. Porque não é a passagem que importa, mas sim, a instituição da ordem estabelecida, que obriga o indivíduo a viver segundo as expectativas sociais ligadas à sua categoria[16].

Os ritos têm uma função social ligados à praticidade da vida, mas tentar explicar a sociedade apenas pela praticidade ou função social é esquecer que a sociedade é fruto dos mitos que engendra. Como já tinha observado Max Weber:

“Cada tentativa de explicação [do racionalismo ocidental] deve, reconhecendo a importância fundamental do fator econômico, levar em consideração, acima de tudo, as condições econômicas. Mas, ao mesmo tempo, não se deve deixar de considerar a correlação oposta… As forças mágicas e religiosas e as ideias éticas de dever nelas baseadas têm sempre, no passado, entre as mais importantes influências formativas de conduta.”[17]

Weber dedicará sua obra A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo para demonstrar como a influência de certas ideias religiosas afetou o desenvolvimento de um  espírito econômico[18]. As ideias religiosas que Weber se refere, são os mitos que aquele grupo criou e a que seguem. A razão, os atos conscientes são dependentes dos mitos que a norteiam. O mito nasce do Imaginário, e este tem uma significação própria, independente da razão.

O Desencantamento do Mundo, conceito de Max Weber, abordado em sua obra A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo também contribuiu para o enfraquecimento dos ritos de passagem. O desencantamento do mundo é a perda da crença no sobrenatural e na magia. Os ritos de passagem tornaram-se mais um mero reconhecimento do esforço desprendido pelo indivíduo do que o veículo de transformação interior.

“Tão grande processo histórico no desenvolvimento das religiões – a eliminação da magia do mundo, que começara com os antigos profetas hebreus e, juntamente com o pensamento científico helenístico, repudiou todos os meios mágicos para a salvação como sendo superstição e pecado, atingindo aqui [nos Calvinistas] a sua conclusão lógica.”[19]

A salvação não virá por milagre, ação do sobrenatural, mas pelo esforço próprio, o ascetismo protestante, que prioriza as obras materiais em oposição ao metafísico.

“Para o católico, a absolvição de sua Igreja era a compensação para as suas próprias imperfeições. O sacerdote era um mágico que fazia o milagre da transubstanciação e que tinha em suas mãos as chaves da vida eterna… Ele distribuía redenção, esperança de graça, certeza de perdão, garantindo assim o relaxamento daquela tremenda tensão à qual o calvinista estava condenado por um destino inexorável, que não admitia mitigação. Ele não poderia esperar o perdão pelas horas de fraqueza…”[20]

As perdas da crença no sobrenatural e na magia mudaram não apenas a nossa percepção do mundo, mas também a forma como lidamos com ele, com o outro e com nós mesmo. Mudou as nossas concepções míticas.

“Uma vez que o ascetismo se encarregou de remodelar o mundo e nele desenvolver seus ideais, os bens materiais adquiriram um poder crescente e, por fim, inexorável sobre a vida do homem, como em nenhum outro período histórico.”[21]

A perda da função imagética de nossa sociedade dessacralizou os ritos de passagem, dos quais, desembuídos do seu sentido primordial, restam apenas a forma ou formalidade.

A perda do sentido do rito de passagem pode estar no fato de não haver marcas definidas da transição do jovem para o adulto, como assinala Martine Segalen:

“A razão profunda do desaparecimento desses rituais também diz respeito ao fato de a idade da juventude não ser mais conquistada de repente, como outrora. A passagem se estende indefinidamente, sem que seja possível marcar com clareza um ‘antes’ e um ‘depois’, uma vez que os momentos de se adquirir o direito à sexualidade, à independência econômica e residencial e, mais amplamente, ao estatuto de adulto não coincidem mais.”[22]

Mircea Eliade, em sua obra O Sagrado e o Profano, fala que para o homem moderno o nascimento, o casamento e a morte não passam de acontecimentos de âmbito individual ou familiar, com a exceção de celebridades ou chefes de Estado. Numa perspectiva a-religiosa da existência, todas as passagens perderam seu caráter ritual, quer dizer, nada mais significam além do que mostra o ato concreto de um nascimento, de um óbito ou de uma união sexual oficialmente reconhecida[23].

Nas sociedades antigas os ritos de passagem eram um grande evento. Por exemplo, a união sexual era sagrada. A iniciação sexual dos gregos se dava nos templos e eles chamavam o casamento de télos, a consagração, e o ritual nupcial assemelhava-se ao dos mistérios nos templos. Os egípcios e o maias eram iniciados nos templos através das sacerdotisas, que na Grécia se chamavam Hieródulas e em Roma, Vestais. Nessas sociedades os jovens eram conduzidos aos templos para sua iniciação sexual.

As iniciações dos nossos índios Tupinambás se constituíam de rituais dolorosos em que toda a tribo participava. Este é um ponto importante, mesmo que as provas nos rituais sejam difíceis e dolorosas, a tribo (no sentido de grupo), e inclusive entidades sobrenaturais, acompanham o neófito, que é assistido em sua passagem. A participação da tribo significa: “Você não é o primeiro, nem será o último, essa passagem é difícil e estamos aqui para lhe ajudar, agora você terá que ser forte”. Se o neófito conseguir vencer as provas do ritual, significa que ele está pronto para assumir as suas novas responsabilidades.

No passado, a iniciação sexual era acompanhada por toda a comunidade através dos rituais. Décadas atrás, era costume o pai levar seu filho para o prostíbulo e ficar do lado de fora esperando o resultado. Talvez essa não seja a melhor forma de fazer a passagem, mas o fato é que a figura paterna estava presente e acompanhava o jovem nessa iniciação. Após o seu primeiro encontro com a meretriz o jovem tornava-se adulto, mas não é o ato sexual em si que importa e sim as transformações psicológicas trazidas por ele e que, de certa forma, remonta ao mundo imagético, à criação mítica da imagem que cada um tem do que é ser jovem e do que é ser adulto. Afinal o que diferencia um jovem de um adulto? A partir daquele momento o jovem deixava o seu mundo infantil e adentrava no mundo dos adultos.

Em nosso tempo atual, não há um momento definido em que o jovem deixa o seu mundo adolescente para assumir o adulto. É possível manter apegos infantis mesmo depois de casado e com filhos. Em nossa sociedade contemporânea os jovens são deixados à mercê de si próprios para fazerem seu ritual de passagem sozinhos, quando quiserem, como se fosse algo natural. O peso psicológico dessa passagem é grande, as migrações de uma fase a outra não acontecem de forma natural. O resultado é que o a passagem acontece de forma banal e sem assistência. Nosso herói está sozinho e o sagrado foi banalizado.

Autor: André Miele Amado

Fonte: Associação Brasileira de História das Religiões

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Notas

[1] – Como retratam em suas obras os pesquisadores Arnold Van Gennep, Victor Tuner, Jacques le Goff, Philippe Laburthe-Tolra e Jean-Pierre Warnier

[2] – RANK, Otto. The myth of the birth of the hero, pg. 66

[3] – CAMPBELL, Joseph. O Poder do Mito, pg.132

[4] – CAMPBELL, Joseph. O Poder do Mito, pg. 147

[5] – RANK, Otto. The myth of the birth of the hero, pg. 95

[6] – CAMPBELL, Joseph. O Poder do Mito, pg.131, 132

[7] – CAMPBELL, Joseph. O Poder do mito, pg. 113

[8] – DURKHEIM, Émile. As formas elementares da vida religiosa: o sistema totêmico na Austrália, pg. 5

[9] – PITTA, Danielle Perin Rocha. Iniciação a Teoria do Imaginário, pg.12

[10]Ibid, pg.4

[11] – DURAND, Gilbert. L’Imagination Symbolique, pg.23

[12] – DURAND, Gilbert. Estruturas Antropológicas do Imaginário, pg.28

[13] – SILVA, Juremir Machado da. Tecnologias do Imaginário, pg.1

[14] – DURKHEIM, Émile. As formas elementares da vida religiosa: o sistema totêmico na Austrália, pg.22

[15]Ibid, pg.23

[16] – SEGALEN, Martine. Ritos e Rituais Contemporâneos, pg.50

[17] – WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo, pg.32

[18]Ibid, pg. 32

[19] – WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, pg. 83

[20] Ibid, pg. 91

[21] Ibid, pg.135

[22] – SEGALEN, Martine. Ritos e Rituais Contemporâneos, pg. 67

[23] – ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano, pg. 151

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DURAND, Gilbert. “As Estruturas Antropológicas do Imaginário”. SP: Martins Fontes, 3° edição, 2002. DURAND, Gilbert. “L’imagination symbolique”. França: Presses Universitaires de France, 3 edição, 1976. PITTA, Danielle Perin Rocha. “Iniciação à teoria do imaginário de Gilbert Durand”. RJ: Atlântica Editora, 2005. DURKHEIM, Émile. “As formas elementares da vida religiosa: o sistema totêmico na Austrália”. SP: Martins Fontes, 3° edição, 2003. WEBER, Max. “A ética protestante e o espírito do capitalismo”. SP: Martin Claret, 2006. CAMPBELL, Joseph. Bill Moyers. “O poder do mito”. SP: Palas Athena, 21° edição, 2003. SEGALEN, Martine. “Ritos e rituais contemporâneos”. RJ: FGV, 2002. SILVA, Juremir Machado da. “Tecnologias do imaginário: esboços para um conceito”. Texto integrante da pesquisa em desenvolvimento “Rede de idéias: tecnologias do imaginário e comunicação.” RANK, Otto. “The myth of the birth of the hero: a psychological interpretation of mythology”. Publicado no Nervous and Mental Disease Monograph Series No. 18, The Journal of Nervous and Mental Disease Publishing Company, New York,1914. ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano; trad. Rogério Fernandes. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

O ex-Venerável, dono da Loja

É uma situação que ocorre com frequência na maçonaria brasileira e quiçá na mundial. O que vem a ser esta situação? Simplesmente, conforme o titulo do trabalho já sugere, é um Irmão que exerceu sua gestão como venerável de uma loja e que seu desempenho pode ter sido muito bom ou muito mau, mas seu mandato se esgotou, e ele esquecendo que já passou o seu momento como principal gestor da loja e que deveria ficar quieto no seu canto, insiste em se intrometer nos trabalhos da nova liderança que democraticamente surgiu na sua loja através do voto.

Apegado ao poder, chega aos limites da hipocrisia que, como se sabe, é o ato de fingir qualidades, ideias ou sentimentos que em realidade ele não tem e isso às vezes se torna uma verdade para ele ainda que falsa, um verdadeiro sofisma, e ele acreditando ser o que sabe tudo, que sabe mais que os outros, em fim é o dono da verdade.

Ele não sabe se conter, não consegue ficar sem dar palpites, ou sem dar ordens ao novo venerável; ou criticar o novo líder, não somando as suas forças com as da nova gestão, pelo contrário, atrapalhando-a. Se o novo venerável não for um líder pragmático, pulso forte, que não saiba se impor, ficará a mercê do antecessor, não podendo exercer a sua gestão a contento como planejou.

Todavia, numa loja democrática, não faltarão Irmãos que com coerência e bom senso, tomarão partido do novo líder e os mais habilidosos, chegam ao ex e com muito jeito, com parcimônia tentam fazê-lo compreender a nova situação, o que às vezes não conseguem havendo até em certos casos uma cisão na loja. Muitas novas lojas foram fundadas por ex-veneráveis que não souberam respeitar a nova liderança. Este é um fato inconteste.

Este apego ao poder é algo que o ex-venerável às vezes não pode se controlar, porque ele não estava preparado quando exerceu seu mandato para um dia deixa-lo como somente acontece nos regimes democráticos e uma loja maçônica não tem dono justamente por ser uma democracia. Ele se achou venerável, e não entendeu que apenas estava venerável.

Acha que continua venerável.

Este tema abre um leque mais profundo em relação a análise do poder nas lojas e como ele é manipulado.

Este tipo de dono da loja não é o pior entrave para uma loja. O pior ex-venerável é aquele tipo de irmão matreiro, político, de fala mansa, que sorri para todo mundo, abraça a todos três vezes e que se derrete em falsos elogios aos Irmãos do quadro e procede assim porque é uma das suas estratégias para se manter no poder eternamente. Ele se vale de bonecos ou títeres para cobrir uma gestão que por imposições das constituições das potências ele não pode se reeleger mais de uma ou duas vezes. Em seguida ele volta gloriosamente na próxima. Mas durante a gestão de seu preposto, quem dirigirá a loja de fato, será ele. Não de direito, mas de fato. Ele tomará todas as decisões e o venerável de plantão cumprirá rigorosamente o que o seu chefe determinar. Geralmente ele tem o seu grupo, formado por comparsas que são coniventes que antecipadamente já decidiu quem será o venerável para os próximos seis ou oito anos, mas sempre ele voltando após as gestões de seus substitutos arranjados ou então apenas preferirá ser o chefe por trás, nos bastidores, mandando em tudo e por muito tempo.

No fundo a sede de poder, nada mais que uma autoafirmação, insegurança, incapacidade de ser transparente com seus semelhantes e com o meio em que vive vaidoso mentiroso geralmente tendo uma visão unilateral dos processos de interação entres os Irmãos, tornando sua personalidade a de um verdadeiro psicopata social. Não sabe mais discernir os seus limites. Não tem sentimentos. Chega a ser uma doença um desvio de personalidade, e de comportamento.

Isto não é bazofia ou piada. Isto realmente acontece na Maçonaria brasileira num índice maior do que se pode imaginar, mas não como rotina. Infelizmente esta situação vem ocorrendo e muitos irmãos fingem não vê-la ou senti-la, porque os membros das lojas com exceção de verdadeiros maçons agem passivamente como cordeiros, esquecendo que uma loja aberta em sessão é uma tribuna livre onde ideias são criadas, sonhos são idealizados que podem mover o mundo, um verdadeiro laboratório social que pode mudar tudo para melhor e por isso todos os problemas devem ser discutidos e todos devem participar.

Uma situação esdrúxula aconteceu em uma loja que será omitido o nome da cidade, onde isso ocorreu. Um Irmão desses tipos de donos da sua loja, fez a sua loja votar o título de “venerável perpétuo” para ele. Até aí, nada de mais, a loja votou, está votado. Mas ele exigia que a loja só abrisse os trabalhos em suas sessões normais quando ele estivesse presente. E ele atrasava sempre cerca cinco a dez minutos. E aí a sessão começava. Isso é o cúmulo da hipocrisia, tanto deste sociopata ex-venerável como da loja que aceitava tal situação.

Pasmem! Parece uma estória inventada, mas não é. Isto é verídico!

Mas é bom que se frise que a maioria dos ex-veneráveis não se enquadra nesta descrição. Existem ainda muitos bons maçons na Ordem. Felizmente a maioria. São. Irmãos excelentes, preparados, humildes, sabem qual é o seu lugar dentro de uma loja, bons conselheiros, conhecem o peso de um malhete, porque já o manejaram quando foram veneráveis. Aprenderam mais ouvir que falar.

A maçonaria valoriza a Dialética, que é a arte do dialogo, ou a discussão, como força de argumentação permite que se contrariem ideias, que elas sejam discutidas em todos os sentidos e que dessa situação nasça uma ideia concreta, inteligente, e perfeita, uma verdadeira síntese de tudo o que foi tratado, desde que venha em favor da Ordem e da humanidade. Ela prega a igualdade e a liberdade de pensamento entre seus adeptos.

Esta situação de dono de loja é uma das causas maiores do afastamento de muitos honrados irmãos da Ordem. Se um irmão, sem medo, com coragem falar em nome da democracia e dos verdadeiros princípios da Ordem, e isto ferir os desígnios destes déspotas, este será marcado, perseguido e descriminado.

Considerando-se que temos cerca de seis ou sete mil lojas no Brasil, imagine-se o número de Irmãos que agem desta forma, considerando-se que a natureza humana é complexa e estranha, que muitos homens possuem a síndrome do poder em função de seu DNA animalesco onde um quer ser o dominante sobre o outro, ou sobre os outros.

Geralmente estas pessoas são inseguras, não são felizes, não estão de bem com a vida e esta forma de querer exercer um suposto poder sobre os outros é sua maneira de tentar equilibrar seus próprios defeitos.

A síndrome do poder também chamada de síndrome do pequeno poder é uma atitude de autoritarismo por parte de um individuo que recebeu um poder e tenta usá-lo de forma absoluta e imperativa sem se preocupar com os problemas dicotomizados que possam vir a ocasionar. A síndrome do pequeno poder pode se tornar uma patologia, quando se torna crônico. Existem aqueles Irmãos que mesmo longe do poder pensam que o possui. Quando a realidade lhe é mostrada, entram em depressão. Mas a maçonaria prega justamente o contrário. Ela é democrática. Quando se fala em vencer as paixões significa que o maçom deve fazer prevalecer em seu consciente racional sobre as programações erradas de seu subconsciente, ou seja, sobre a parte ruim que o ser humano tem dentro de si. Segundo São Francisco de Assis, é o “burro” ou a “besta” que o ser humano carrega dentro de sua consciência. Uma das condições mais exigidas pelos princípios maçônicos é justamente você fazer prevalecer seu lado bom, vencendo o seu lado mau.

A condição para um irmão ser venerável em primeiro lugar é que ele tenha merecimentos pessoais e que tenha um conhecimento profundo da ciência maçônica em todos os seus segmentos, tais como história da Ordem, ritualística, simbologia, administração, legislação e justiça sendo tudo isso associado à sua capacidade de liderança.

Evidentemente a Maçonaria terá que renovar seus líderes, para que novas ideias, novos postulados, novos rumos e até novos paradigmas sejam estudados, adotados e postos em ação.

Todavia correrá o famoso risco: Você quer conhecer uma maçom? Dê-lhe poder!

Por fim, enfatiza-se que este trabalho foi escrito para uma minoria de Irmãos, que são gananciosos do poder. Ressalve-se aqueles Irmãos ex-veneráveis pessoas intocáveis que não se enquadram neste contexto. Felizmente, a maioria. Estes são os sustentáculos da Ordem.

Autor: Hercule Spoladore 

Fonte: Revista Triângulo – GLMMG

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Os efeitos psicológicos da prática do ritual maçônico

Introdução

A definição mais comum de Maçonaria é a de que Maçonaria é “um belo sistema de moralidade velado em alegoria e ilustrado por símbolos” (ZELDIS, 2011). Isso já diz muito sobre a instituição e seu modo de ensino e aprendizagem, que ocorre por meio de rituais repletos de alegorias e expressões simbólicas. No entanto, entre o desdobramento do ritual e o comportamento moral de seus praticantes há um mecanismo psicológico que não pode ser ignorado e cuja compreensão pode colaborar um melhor entendimento da razão da Maçonaria atrair ao longo dos séculos o interesse de tantos distintos homens e a ira de tão perigosos inimigos, como os nazistas, papas e o Comintern – Comitê Comunista Internacional (ROBERTS, 1969).

Este estudo tem por objetivo analisar as influências psicológicas que a prática ritualística maçônica, suas falas, movimentos, símbolos, dramas e alegorias, pode ter sobre seus praticantes.

Muitos talvez possam julgar os rituais maçônicos como ingênuos, ultrapassados, estranhos ou até mesmo supersticiosos. Serão apresentados neste estudo indícios de que tanto os rituais como a mitologia possuem as mesmas fontes de origem — o inconsciente (CAMPBELL, 2007; JUNG, 2005).

Há, sem dúvida, inúmeras diferenças entre as religiões e mitologias da humanidade, e todas essas, de uma forma ou de outra, podem ser encontradas em alguma medida, representadas nas alegorias maçônicas (MAXENCE, 2010).

Foi em 1900 que Sigmund Freud apresentou ao mundo sua teoria do Inconsciente, na obra “A interpretação dos sonhos” (FREUD, 1972). O conceito de Inconsciente já existia de alguma forma desde a Grécia Antiga, contudo foi somente com Carl Gustav Jung que tal teoria encontrou sua plenitude, alcançando um sentido mais amplo, quando o mesmo diferenciou a atuação do inconsciente de uma camada mais profunda, que chamou de Inconsciente Coletivo, que são formas ou imagens de natureza coletiva que se manifestam praticamente em todo o mundo como constituintes dos mitos e, ao mesmo tempo, como produtos individuais de origem inconsciente, que influenciam toda nossa psique (JUNG, 2011c).

Ao contrário da escola freudiana, que afirma que os mitos estão profundamente enraizados dentro de um complexo do inconsciente, para Jung, a origem atemporal dos mitos reside dentro de uma estrutura formal do inconsciente coletivo. Torna-se assim uma diferença considerável para Freud, que nunca reconheceu a autonomia congênita da mente e do inconsciente, enquanto que, para Jung havia uma dimensão coletiva inata e com autonomia energética.

As ideias apresentadas por Jung foram o embasamento científico que o estudioso das Religiões e Mitologias Comparadas, Joseph Campbell, adotou para sustentar as similaridades existentes entre todas as religiões e mitologias da história. Tal conceito chamado anteriormente de “Monomito”[1] por Jaymes Joyce, foi esmiuçado por Campbell, que mostrou todo o roteiro da manifestação arquetípica do herói, que se encontrava representado em todo o mundo como um arquétipo do Inconsciente Coletivo (JUNG, 2010; JUNG, 2011a).

Assim, será com base nas obras de Campbell e Jung o desenvolvimento deste artigo, que visa comparar e reapresentar o simbolismo maçônico sob a ótica científica da Psicologia Junguiana e da Ciência das Religiões.

Análise Comparativa da Psicologia Junguiana com o Simbolismo Maçônico

O que é um Símbolo?[2]

Os símbolos são, em síntese, metáforas e compêndios de um conhecimento sensivelmente elevado (CAMPBELL, 2007), mas que em outras palavras, são manifestações exteriores dos arquétipos. Os arquétipos só podem se expressar através dos símbolos em razão de se encontrarem profundamente escondidos no inconsciente coletivo, sem que o indivíduo os conheça ou possa vir a conhecer (JUNG, 2011b). Dessa forma, em nosso nível comum de consciência, para compreendermos um elevado sentimento contido no Inconsciente Coletivo, necessitamos dos símbolos, gestos existentes desde o início da humanidade (CAMPBELL, 2008; JUNG, 2011a).

Essas afirmações precedentes necessitam de um exemplo hipotético: O amor da mãe para com seu filho jamais seria compreendido por palavras ou descrições objetivas, como números ou letras. Em vez disso, podemos, ao invés de escrever sobre tal amor, apenas apresentar o conhecido símbolo do coração. Deste modo, mesmo que parcialmente, a noção que teremos a respeito do amor de uma mãe para com seu filho, será muito mais próxima do que as expressadas por meras palavras (JUNG, 2011d).

As mitologias e sentimentos são comumente manifestados por meio de símbolos e gestos. Do mesmo modo, a Maçonaria atua através da ritualística das suas iniciações e instruções. Os símbolos e gestos atuam como um catalizador de sentimentos de seus praticantes através do mito trabalhado pelo grupo-cultura (CAMPBELL, 2008). O avanço moral que a Maçonaria proporciona a seus adeptos é, além de consciente, educativo e ético, também um reforço psicológico.

A diferença crucial entre símbolo e arquétipo é que o primeiro pode ser visto e em alguns casos também tocado e sentido, ao passo que o segundo pode ser apenas sentido, e mesmo assim, somente por intermédio do primeiro. Portanto, para que haja símbolos, deve antes haver arquétipos, pois aqueles são a manifestação destes em menor escala (JUNG, 2011d; JUNG, 2012). Contrariamente a esta teoria junguiana agora apresentada, observamos na psicanálise de Freud outra visão dos arquétipos, que se encontra centrada nos três arquétipos relativos ao chamado “Complexo de Édipo”, que, por suas características peculiares, possui proximidades com a antropologia e com a linguística, ao passo que a visão apresentada neste artigo, Junguiana, possui proximidades com os conceitos do Inconsciente Coletivo sustentados pelo sociólogo francês Émile Durkheim, um dos pais da Sociologia Moderna, onde em sua obra o define como o conjunto de crenças e sentimentos autônomos de uma sociedade (DURKHEIM, 2004). Suas teorias também influenciaram Freud, mas com devido efeito, acham-se proficuamente delineadas nas obras de Jung.

O Templo Maçônico do Rito Escocês e a Psique Humana

Os maçons são unanimes em dizer que o Templo Maçônico[3] é simbólico, e como já vimos, o símbolo é muito mais do que mera ornamentação artística para representar algo (JUNG, 2012). Importante registrar que o templo maçônico não é uma réplica do Templo de Salomão, se não apenas simbolicamente inspirado no Templo de Salomão, mas contendo muitas outras influências, de acordo com o Rito adotado (ISMAIL, 2012). No caso do presente estudo, refere-se a um templo do Rito Escocês Antigo e Aceito.

Portanto, toda a ornamentação e divisão do templo não é fruto do acaso, a começar pela Sala dos Passos Perdidos, mais adiante o Átrio, a Câmara ou Caverna de Reflexões, e finalmente o Templo em si. Todos estes compartimentos são estágios há muito tempo utilizados para separar o sagrado do profano (VAN GUENNEP, 2011).

Nesse contexto, o ritual tem por objetivo a realização da passagem de um estado de consciência para outro, estados esses chamados maçonicamente de profano e sagrado, e em última análise, o templo com suas divisões simboliza o estado de consciência em que nos encontramos. Desta forma, o templo em si representa um estado intransponível de pureza e santidade para seus membros. As funções-cargos expressas no ritual e as disposições do templo são personificações simbólicas das leis psicológicas que atuam na psique (CAMPBELL, 2007; MAXENCE, 2010), conforme será demonstrado neste estudo.

Rituais ou simples gestos simbólicos identificam nossa consciência com o campo essencial de ação. O soldado que retorna da guerra, ao passar pelo Arco do Triunfo, um rito de passagem, acaba deixando a guerra para trás. Da mesma forma, ao passarmos pela sala dos passos perdidos e posteriormente pelo átrio, sabemos que estamos em um local consagrado para a prática do bem, o Templo Maçônico. Assim, as salas que antecedem o templo, cumprem a função psicológica de devidamente introduzir o adepto em um local que, por meio de seus símbolos, colabora para o ingresso a um estado da consciência necessário para que o ritual cumpra seu dever cognitivo de forma efetiva (JUNG, 1978; VAN GUENNEP, 2011).

De acordo com a psicologia analítica de Carl G. Jung, a psique divide-se em três níveis: A consciência, o inconsciente pessoal e o inconsciente coletivo (HALL & NORDBY, 2010). Conforme se segue abaixo, tais divisões se conciliam em significados e funções com os cômodos de uma Loja Maçônica do Rito Escocês Antigo e Aceito, ou seja, sala dos passos perdidos, átrio e templo, sendo que na parte interior, teremos o ocidente e o oriente.

Nível 1 – Consciência: Sala dos Passos Perdidos

A consciência é a única parte da psique a qual conhecemos direta e objetivamente (HALL & NORDBY, 2010), e nela tudo ocorre geralmente de forma racional e lógica. Da mesma forma, isso também ocorre antes de adentrarmos ao templo, pois é na sala dos passos perdidos que tudo ainda ocorre de forma desprovida de questões oníricas, sem sinais ou gestos simbólicos.

O significado psicológico de persona, para Jung, é aquela parte da personalidade desenvolvida e usada em nossas interações mundanas, ou profanas, no vocabulário maçônico. É nossa face externa consciente, nossa máscara social, como veículo não de nossa real vontade, mas da nossa necessária aceitação (JUNG, 1978; HALL & NORDBY, 2010). Assim que, nas iniciações maçônicas, o gesto dos candidatos serem despidos de todos os metais, e iniciarem todos exatamente da mesma forma, significa que, naquele momento, o indivíduo despe-se de suas personas. Esse desprendimento se faz necessário visto que, conforme Jung, no nível do inconsciente pessoal – que citaremos logo adiante – não há persona, a qual se manifesta apenas no nível consciente.

O crescimento psicológico ocorre, de acordo com Jung, quando alguém tenta trazer o conteúdo-conhecimento do inconsciente, para o nível consciente, e estabelecer uma relação entre a vida consciente e o nível arquetípico da existência humana (JUNG, 1978; JUNG, 2011b). O homem que assim o fizer, haverá de reconhecer as origens de seus problemas no próprio inconsciente, pois a pessoa que não torna consciente suas limitações e defeitos, acaba por projetar sobre os outros tais percepções negativas (HALL & NORDBY, 2010). Fazendo o devido paralelo, o crescimento na senda maçônica somente ocorre quando se aplica no chamado mundo profano o que se estuda e aprende no mundo maçônico, que é neste quadro comparativo o referido inconsciente pessoal, e assim tem-se a oportunidade de transformar o conhecimento em sabedoria.

Nível 2 – Pré-consciência: Átrio

Para Freud, a consciência humana se subdivide em três níveis, chamados de Consciente, Pré-Consciente e Inconsciente. O estado intermediário entre a Consciência, abordada no Nível 1, e o Inconsciente, que será abordado no Nível 3, é o de Pré-consciência, o qual tem por característica uma experiência munida de relativo equilíbrio entre um material perceptível e um material latente (FREUD, 1972).

Dessa forma, tem-se o átrio do templo maçônico como representativo desse estado de pré-consciência, visto o átrio, apesar de muitas vezes interpretado como sendo uma extensão do templo, é fisicamente um cômodo intermediário entre a sala dos passos perdido e o templo maçônico. Nele ocorre o momento de transição entre os estados psicológicos, em que os maçons se concentram, geralmente com as luzes apagadas, para se desvencilharem dos problemas e pensamentos do chamado “mundo profano” e adentrarem ao interior do templo. Assim, o átrio se assemelha em correspondência com o pré- consciente na medida em que ambos não possuem uma natureza específica, mas sim transitória. Portanto, este estado intermediário tem por objetivo introduzir o personagem no recinto onírico e simbólico seguinte.

Nível 3 – O Inconsciente Pessoal: O Templo Maçônico

Todas as experiências que se têm, mesmo aquelas consideradas esquecidas, mas que todavia não deixaram de existir, são armazenadas no inconsciente pessoal. É nesse nível que ocorrem os sonhos quando se está dormindo, e como todos sabem, tais eventos sonhados são dotados de acontecimentos surreais e ilógicos perante a nossa realidade objetiva (JUNG, 2005).

Assim o Inconsciente Pessoal encontra correspondência com o templo maçônico, onde a ritualística e os símbolos alcançam a totalidade dos trabalhos, e estes retratam bem o estado fictício e mítico do drama maçônico, estado este que – paralelamente – também é encontrado nos sonhos, com seus símbolos abstratos, passagens ilógicas e surreais, onde tanto no estado onírico como na ritualística, pode-se viajar do Oriente ao Ocidente com alguns poucos passos, e do amanhecer ao pôr do sol, vai-se em alguns minutos, semelhante ao que ocorre nos sonhos, pois no nível do inconsciente pessoal não há uma limitação objetiva. Da mesma forma o simbolismo da ritualística não possui um senso lógico. Ambas linguagens (sonhos e ritualística) são figuradas.

Assim como o ritual maçônico não é literal e tem por objetivo transmitir instruções morais, os sonhos também não o são e, segundo Jung (2011d), o crescimento e amadurecimento moral são a real e efetiva finalidade dos sonhos. Destarte, em ambos os casos perde-se o efeito do lógico e racional, para com isso, trabalhar o simbólico e onírico. Sendo assim, interpretar o ritual maçônico de forma literal é um erro lastimável, ao passo que o sonho, inexoravelmente, também deve ser interpretado de forma não literal (JUNG, 2012).

Os conceitos de Anima e Animus foram talvez as duas mais importantes descobertas de Jung. Ambos são aspectos inconscientes de um indivíduo. O inconsciente do homem encontra ressonância com o arquétipo feminino, chamado de Anima, enquanto que a mulher associa-se com o arquétipo masculino, chamado de Animus. Cabe notar que quando se fala de masculino e feminino, em se tratando de Animus e Anima, está se referindo às expressões e características, e não algo literal (JUNG, 2011b; JUNG, 2012), pois, como supramencionado, o inconsciente reside em um nível atemporal, inteiramente psicológico, portanto não material.

A Anima manifesta-se na psique de forma emocional, passiva e intuitiva, por outro lado, o Animus manifesta-se de forma racional, ativa e objetiva. Jung costuma relacionar Anima ao deus grego Eros, o deus do Amor, ao passo que Animusé relacionado com o termo Logos, que significa verbo, razão (JUNG, 1978). No templo maçônico tal equilíbrio dual é conhecido pelas duas colunas, Boaz e Jaquim. No Rito Escocês, os Aprendizes Maçons tomam assento do lado da coluna Boaz, e ali são instruídos sobre a educação moral, espiritualidade e ética maçônica, conceitos perfeitamente associados ao arquétipo de Anima. Já do lado da coluna Jaquim tomam assentos os Companheiros Maçons, que, ao contrário dos aprendizes, possuem suas instruções voltadas para as artes ou ciências liberais, bem como para algum conhecimento esotérico, que são características de Animus. Ao Oriente vê-se o Sol e a Lua, que são símbolos conhecidos do Animus e da Anima.

Desta forma, Boaz e Jaquim, representam Anima e Animus, e a consecução entre ambas colunas representa o Casamento Alquímico, a totalidade do ser, ou seja, o Equilíbrio Perfeito, o Mestre. Aquele que caminha com tal união, anda pelo caminho ou Câmara do Meio (CAMPBELL, 2008), no nosso caso, o Mestre Maçom.

Nível 3 – Inconsciente Coletivo: Sólio do Oriente

Teoria proposta pela Psicologia Analítica, o inconsciente coletivo difere do inconsciente pessoal, visto que não se trata de experiências individuais, mas, como o nome sugere, são experiências coletivas (JUNG, 1978). Trata-se de uma espécie de reservatório de imagens, essas chamadas de imagens arquetípicas. Tais imagens e concepções são herdadas pelo homem de forma inconsciente através do inconsciente pessoal. O inconsciente coletivo estimula no homem desde o nascimento um comportamento padrão pré- formado. Assim, recebemos a forma do mundo em uma imagem virtual e essa imagem transforma-se em realidade consciente quando, durante a vida, identificamos os símbolos a ela correspondentes (JUNG, 2011b).

Os conteúdos do inconsciente coletivo são denominados de arquétipos. Um arquétipo é compreendido como um modelo original que conforma outras coisas do mesmo tipo, semelhante a um protótipo (JUNG, 2011b). Tanto o inconsciente coletivo como o arquétipo se confundem com aquilo que chamamos de egrégora.

Jung acreditava que tanto a experiência quanto a prática religiosa eram fenômenos que tinham sua fonte no inconsciente coletivo (JUNG, 2011c). O céu, o inferno, o Jardim do Éden, o Olimpo, são interpretados pela psicologia junguiana e freudiana como símbolos do inconsciente (JUNG, 2011c; FREUD, 1972), e se enquadram ao simbolismo do dossel e do sólio no Oriente, localizado a sete degraus acima do nível onde se encontram os Aprendizes, Companheiros e Mestres, onde se encontra o chamado Trono de Salomão e que possui estampado o “olho que tudo vê” no Rito Escocês Antigo e Aceito.

Assim como o inconsciente coletivo dispõe da pré-formação psíquica da psique (JUNG, 1978), o direcionamento dos trabalhos vem do Oriente da Loja, além de que as informações originais da Loja, presentes na carta constitutiva, também se localizam na região do sólio.

Os efeitos e sinais da Ritualística Maçônica no Inconsciente 

Os rituais praticados e todas as suas repetições centram o indivíduo dentro dos propósitos do mito, pois o ritual é a simples representação do mesmo. Ao participar de um ritual, vivencia-se sua mitologia. Assim, tais gestos e movimentos transcendem os adeptos (CAMPBELL, 2008), como, por exemplo, na execução do mito de Hiram Abiff, que ocorre no grau de Mestre Maçom. Tornar-se Mestre Maçom é o mesmo que Jung chamava de processo de individuação para realização do Si mesmo (MAXENCE, 2010).

Quanto à ritualística e seu potencial psicológico, Jung (2011b), discorre sobre a psicologia analítica e as formas de atuar no inconsciente pessoal do indivíduo:

Outra forma de transformação é alcançada através de um ritual usado para este fim. Em vez de se vivenciar a experiência de transformação mediante uma participação, o ritual é intencionalmente usado para produzir tal transformação. (…) Se recebe um novo nome e uma nova alma, ou ainda passa-se por uma morte figurada, transformando-se em um ser semidivino, com um novo caráter e um destino metafísico transformado. (Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo, CARL GUSTAV JUNG, 2011, p. 231)

Desta forma, o indivíduo que vivencia o ritual, as iniciações, elevações e exaltações, acaba por se transformar, seja pelas convicções conscientes ou pela influência do inconsciente (JUNG, 1978).

Os maçons devem, portanto, realizar reflexões da simbologia maçônica. Ao executar um ritual de alto valor cultural, com gestos e passagens incomuns à sociedade, o qual, sob um olhar cético e profano, pode ser considerado como infantil e ingênuo, deve o maçom analisar tais movimentos a nível psicológico, onde reside sua maior força e resultado. Ademais, abordar o ritual maçônico ou qualquer outro ritual sem um entendimento psicológico e simbólico do seu significado, é como ver animais nas nuvens, ou seja, um exercício de vontade e imaginação sem maiores resultados.

Conhecendo a antropologia das sociedades primitivas, Jung comparou a vida com a trajetória do Sol em um dia. A primeira parte, do nascimento para a sociedade, é semelhante ao amanhecer do Sol. A segunda parte, da participação efetiva no mundo e na sociedade, é semelhante ao meio dia. E, enquanto o desafio da primeira metade da vida é a própria vida, o desafio da segunda metade é a própria morte, representada pelo anoitecer (CAMPBELL, 2008; JUNG, 2005).

Para o primitivo não bastava ver o Sol nascer e declinar. Esta observação exterior correspondia a um acontecimento anímico, isto é, o Sol representava em sua trajetória o destino de um Deus. Todos os acontecimentos mitologizados da natureza, tais como o verão, inverno, amanhecer, meio dia e por do sol, as fases da lua, as estações, não são alegorias destas experiências objetivas, mas sim, expressões simbólicas do drama interno e inconsciente da alma, que a consciência humana consegue apreender através da dramatização dos rituais maçônicos (JUNG, 2011b).

Outro detalhe ritualístico curioso relativo ao Sol é a circulação em sentido horário, também chamada de dextrocentrica. Uma prática tão antiga quanto a Maçonaria. Os gregos e romanos tinham o lado direito como favorável, visto que este, de forma geral, favorece mais seu dono do que o esquerdo. Relacionaram tal procedimento ao aparente movimento que o Sol faz diariamente em torno da Terra. Assim, essas civilizações, tendo sempre o aparente movimento do Sol como referência, adotavam a circulação em sentido horário, tendo altares, fogueiras, totens ou sacrifícios como eixo de seus templos (ISMAIL, 2012).

A função psicológica da ritualística maçônica é a de restaurar um equilíbrio psicológico por meio do sistema mitológico proposto pela instituição, de modo a produzir um material onírico no inconsciente de seus membros (JUNG, 2005). Desta forma, o conhecimento da Maçonaria retrata um estudo do inconsciente, tanto do inconsciente pessoal, através dos efeitos diretos da ritualística, como do inconsciente coletivo, através do estudo da Mitologia Maçônica.

Nos rituais tribais de iniciação os membros recebem uma marca, que nos tempos atuais figura como simbólica (VAN GUENNEP, 2011), e que distinguem o iniciado dos não iniciados. Na iniciação no Rito Escocês isso ocorre com uma chancela no peito esquerdo. Seja uma marcação física ou apenas simbólica, tais atos ritualísticos operam igualmente no inconsciente (JUNG, 2005).

A prática de diferentes termos linguísticos também é usada para separar o sagrado do profano nos grupos religiosos (VAN GUENNEP, 2011). Este exemplo é um dos diferenciais da ritualística maçônica, onde uma linguagem própria é comumente adotada. Inúmeros são os exemplos disso no Rito Escocês, como justo e perfeito, tronco, Huzzé, sólio, pálio, veneralato e muitos outros.

Conclusões

Em síntese, a mitologia pode ser entendida, sob a ótica da Psicologia Junguiana, como um sonho coletivo, sintomático dos impulsos arquetípicos existentes no interior das camadas profundas da psique humana (JUNG, 1978), ou, numa visão religiosa, como a revelação de Deus aos seus filhos. Tanto a mitologia como os seus símbolos são metáforas reveladoras do destino do homem e nas diversas culturas são retratadas de diferentes formas (CAMPBELL, 2007). Sendo assim, a vivência do drama de um mito nada mais é do que uma ferramenta de compreensão e promoção do crescimento psicológico do individuo, sendo esta a função principal do mito (CAMPBELL, 2008). Assim, a análise para toda questão mitológica, como também, este estudo da ritualística maçônica em questão, é, por derradeiro, o estudo da psique humana.

Em várias sociedades e cultos primitivos, a prática religiosa consistia em vivenciar a Mitologia de forma direta, pois o mito poderia influenciar o executor da prática religiosa de forma indireta no decorrer das cerimônias, por intermédio do inconsciente. Assim o crescimento e a finalidade da Mitologia aconteciam de forma particular em cada um, como uma semente que aos poucos iria germinando (JUNG, 2005). Entendimento similar ocorre na Maçonaria e é explicitado quando maçons dizem aos neófitos na Palavra a Bem da Ordem que “hoje você entrou para a Maçonaria, mas precisa deixar que a Maçonaria entre em você“. A tradição maçônica conserva esses costumes como forma de instrução aos seus membros, sendo atualmente uma das poucas instituições em que o homem pode ter contato com tais experiências (BLAVATSKY, 2009).

Autor: Rafhael Guimarães

Rafhael é Mestre Maçom, Membro da GLMEES e Maçom do Real Arco, filiado ao SGCMRAB.

Fonte: Revista Ciência & Maçonaria

 

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Notas

[01] – O termo “Monomito” é de autoria de James Joyce, da obra “Finnegans Wake”

[02] – O conceito adotado nesta obra de símbolo é o da Psicologia Junguiana, que difere do conceito semiótico de símbolo instituído por Ferdinand de Saussure, pai da linguística, bem como também difere parcialmente de certas análises Psicanalíticas de Freud.

[03]O termo “templo maçônico” é comumente usado nos ritos maçônicos de origem latina. Os de origem anglo-saxônica costumam chamar o local de reuniões de “Sala da Loja”.

Bibliografia

BLAVATSKY, HELENA P. O ocultismo prática e as origens do ritual na Igreja e na Maçonaria. São Paulo: Pensamento, 2009. CAMPBELL, Joseph. As máscaras de Deus, Mitologia Ocidental. São Paulo: Palas Athena, 1994. CAMPBELL, Joseph. Herói de mil faces. São Paulo: Editora Pensamento, 2007. CAMPBELL, Joseph. Isto és Tu. São Paulo: Landy Editora, 2002. CAMPBELL, Joseph. Mito e Transformação. São Paulo: Ed. Ágora, 2008. DURKHEIM, Émile. Da divisão do trabalho social. São Paulo: Martins Fontes, 2004. FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos. Rio de Janeiro: Editora Imago, 1972. HALL, Calvin S.; NORDBY, Vernon J. Introdução à Psicologia Junguiana. São Paulo: Cultrix, 2010. ISMAIL, Kennyo. Desmistificando a Maçonaria. São Paulo: Universo dos Livros, 2012. JUNG, Carl Gustav. Interpretação psicológica do Dogma da Trindade. Rio de Janeiro: Vozes, 2011. JUNG, Carl Gustav. O Homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2005. JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Rio de Janeiro: Vozes, 2011. JUNG, Carl Gustav. Psicologia do Inconsciente. Rio de Janeiro: Vozes, 1978. JUNG, Carl Gustav. Psicologia e alquimia. Rio de Janeiro: Vozes, 2012. JUNG, Carl Gustav. Psicologia e religião. Rio de Janeiro: Vozes, 2011. JUNG, Carl Gustav. Símbolos e interpretação dos sonhos. Rio de Janeiro: Vozes, 2011. LEVI, Eliphas. Dogma e Ritual da Alta Magia. 20ª Edição. São Paulo: Pensamento-Cultrix, 2012. MAXENCE, Jean-Luc. Jung é a aurora da Maçonaria. São Paulo: Madras, 2010. MURPHY, Tim Wallace. O código secreto das catedrais. São Paulo: Pensamento, 2007. ROBERTS, J. M.: Freemasonry: Possibilities of a Neglected Topic. The English Historical Review, Vol. 84, No. 331, p. 323-335, 1969. STAVISH, Mark. As origens ocultas da Maçonaria. São Paulo: Pensamento, 2011. VAN GUENNEP, Arnold. Os Ritos de Passagem. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2011. ZELDIS, L., Illustrated by Symbols. New York, NY: Philalethes, The Journal of Masonic Research & Letters, Vol. 64, No. 02, p. 72-73, 2011.