As sete artes e ciências liberais

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O ensino e os estudos em épocas passadas, das artes e ciências chegaram  até nós a partir da Idade Média (476  a 1453 da era Cristã).

Apenas para relembrarmos, o período medieval iniciou-se com a queda do Império Romano, ocorrido em 476 e termina com a queda da cidade de Constantinopla, hoje Istambul, ocorrida em 1453.

Durante essa era, acreditava-se que a soma de todo o conhecimento, resumia-se a aos estudos de sete artes ou ciências. Elas eram conhecidas como “artes liberais” do latim “liber” significando Livre.

Mas na realidade elas já eram conhecidas desde Pitágoras e Platão, já sendo ensinada na Grécia antiga. Podemos afirmar que elas foram a base e a estrutura do ensino atual, sendo que além destes, Santo Agostinho também desempenhou um importante papel no estabelecimento de sua base.  

Com a invasão dos povos bárbaros que destruiu o Império Romano, muitos do conhecimento antigo quase que se perdeu, daí alguns estudiosos na Idade Média, terem reunidos todos os conhecimentos para sua preservação. Um deles, será do frade dominicano Thomas de Cantimpré que em suas Instituitiones divinarum et saecularum litterarum  plativa, que constituiu durante séculos um verdadeiro manual de ensino ministrado nos mosteiros, oferecendo uma síntese de tudo o que era considerado importante à formação intelectual de um monge. O livro está dividido em sete partes consagradas, cada uma delas, às sete disciplinas que na época romana foram consideradas dignas do homem livre, ou seja: As Sete Artes Liberais.

Elas dividem-se em dois grupos.

  • TRIVIUM (caminho de três estradas ou vias) que são a GRAMÁTICA, RETÓRICA E DIALÉTICA e
  • QUADRIVIUM (caminho de quatro estradas ou vias) são a ARITMÉTICA, GEOMETRIA, ASTRONOMIA E MÚSICA;

Todo Maçom deve ter o mínimo de conhecimento destas artes ou ciências bem como do valor de sua importância para o nosso simbolismo, sendo que para nós. a aplicação destas artes ou ciências é que de devemos continuamente adicionar ao nosso conhecimento, multiplicar a nossa benevolência para com os nossos semelhantes e dividir e auxiliar os seus com aqueles em necessidade.

As Artes ou Ciências Liberais eram estudos que visavam dar uma qualificação profissional voltados para fins econômicos, algo que rendesse o sustento. A Maçonaria nos tempos modernos, dita especulativa, as adotou e lhes deu o significado necessário para a compreensão dos Irmãos

Trivium

Gramática – A arte de escrever ou ler a da comunicação correta

Seu domínio dará ao Maçom, o poder de escrever e interpretar leis. Saber Gramática é ter capacidade para ser um governante, estando apto para ensinar quem necessita.

Segundo Eckersley e Macaulay, “gramática é a arte de colocar as palavras certas nos lugares certos”.

Retórica – A retórica é a arte que nos permite persuadir e influenciar o ouvinte.

Como ciência do discurso e da persuasão, relacionava-se a tudo o que fosse considerado matéria de opinião, podemos dizer que a retórica é a arte do convencimento. É um conjunto de técnicas que comunica uma ideia de modo claro e direto. Ela acrescenta força e elegância para os nossos pensamentos, cultivando nossos ouvintes.

Dialética ou Lógica – Arte de argumentar ou discutir.

Como ciência consiste em analisar a realidade, evidenciando suas contradições e buscando superá-las. Ela nos leva a conclusões baseadas em nosso conhecimento, dirige e nos orienta na busca da verdade.

Quadrivium

Aritmética – Estudo das propriedades do conjunto dos números racionais.

A aritmética é o processo de criação, ao  qual somos capazes de calcular todos os pesos e medidas, mas da vida, e sempre em um  sentido especulativo e filosófico.

Geometria – Ciência das figuras do espaço.

É parte da Matemática, visa estudar as possibilidades de medir um espaço, sendo que nossa Ordem faz uso de seus conceitos  nas edificações que erigimos, bem como vemos no interior de nosso Templo, como os diversos  símbolos que se relaciona com ela, como esquadro, compasso, triângulo, retas, círculos etc. e instrumentos necessários para a construção de nossa obra e de nosso Templo espiritual.

Astronomia – Ciência que estuda os astros e demais corpos celestes

Ela desvenda os mistérios do Cosmos (que quer dizer beleza, daí o termo cosmético). Não devemos confundir com a Astrologia. Ela é aquela arte pela qual podemos traçar a grande simetria, a beleza da criação de Deus através dos céus. Muitos símbolos existentes em nosso Templo, como o sol, a lua, as estrelas são emprestadas da ciência da astronomia.

Música – Arte que permite ao homem exprimir-se por meio de sons.

A música é uma arte que acalma, relaxa, é uma combinação harmoniosa de sons. Diz um antigo ditado que a música acalma as feras, tendo um efeito poderoso sobre nossa alma. A ciência hoje já descobriu que a Música acalma e relaxa animais, plantas crescem mais harmoniosamente quando a escutam. Sabemos da importância do  M. Harmonia em nossas sessões. No passado, a Coluna da Harmonia era composta por Irmãos músicos que tocavam, buscando propiciar a harmonia que deve reinar entre os Obreiros e equilibrar as emoções durante os rituais maçônicos. Infelizmente hoje, os músicos foram substituídos por aparelhagem eletrônica, operada pelo Mestre de Harmonia, que por isso tem uma função importante em nossos trabalhos. Ela purifica a mente e o coração, eliminado vibrações negativas, tornando a reunião harmônica. Portanto, nas sessões Maçônicas deve-se tocar a música que melhor traduza os sentimentos dos Irmãos em cada momento do ritual.

Considerações Finais

Assim, concluímos que as Sete Artes Liberais, estão próximas umas das outras, completando nossa Educação Maçônica.

Compilado por Dermivaldo Collinetti

Bibliografia

  • Enciclopédia Larousse
  • Revista 7º Milénio – As Sete Artes Liberais
  • Reflexões de um Companheiro – Internet, porem sem autor
  • Educação – Site Cola Web
  • Enciclopedismo Medieval – Olga Pombo
  • Astrocaracterologia – Edil de Carvalho
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O Desenho e o Canteiro no Renascimento Medieval (séculos XII e XIII): Indicativos da formação dos arquitetos mestres construtores – Capítulo IV

Retificação: os construtores das catedrais da França | Caetano de ...

4. O conhecimento geométrico : desenho para o projeto e o canteiro

A geometria prática conhecida e utilizada pelos mestres construtores – a Geometria Fabrorum – era composta de partes da geometria teórica, trabalhada com o auxílio de instrumentos e ferramentas, porém sem a utilização de cálculos matemáticos.

Embora a educação formal durante a Idade Média não tenha servido diretamente aos mestres construtores, ela foi importante para manter determinados estratos sociais em contacto com textos de geômetras da Antiguidade.

As primeiras experiências no sentido de reorganizar o ensino formal, destruído pelas invasões bárbaras da Alta Idade Média, foram iniciativas da Igreja, por razões de sua própria organização. Os reflexos destes conhecimentos culminarão nas Corporações de Ofício.

4.1 – A geometria nas Escolas

Durante o período de refluxo da vida urbana na Idade Média em razão das invasões bárbaras, o ensino dito formal permaneceu recluso nas chamadas Escolas Monásticas, dentro dos Mosteiros e Abadias, que sempre tinham sua localização no mundo rural, distante de qualquer contato com aglomerações humanas.

As escolas leigas haviam desaparecido, tornando as Escolas Monásticas uma novidade e não uma continuidade de herança da Antiguidade.

Um exemplo maiúsculo foi Vivarium, famoso mosteiro fundado por Cassiodoro em 555 (século VI), com o propósito de preservar as tradições culturais latinas então em franca extinção. O latim sofria com as invasões bárbaras; a fusão com inúmeras línguas e dialetos trazidos pelos invasores, transformou-o de uma língua de todo o ocidente europeu em uma língua regionalizada ou na pior hipótese, morta.

Este fato acarretará dificuldades na compreensão de textos da Antiguidade, principalmente romana, pela incapacidade crescente de entendimento do latim clássico que era até então a língua do estudo e da transmissão do saber.

Ainda no século VI, S. Bento de Núrcia, no Mosteiro de Monte Cassino, na Itália, estabelece a regula (regras) para seu mosteiro e que será seguida por todos os demais.

Ela determinava que o monge permanecesse no mesmo lugar, trabalhando manualmente para garantir sua subsistência e mais importante de tudo, que se dedicasse ao estudo e ao ensino. Com isso, os mosteiros beneditinos tornaram-se os primeiros centros de cultura importantes para a civilização ocidental.

Os monges fechados no scriptorium, uma espécie de oficina de escrita e iluminuras e na biblioteca copiavam obras da Antiguidade, multiplicando os exemplares e tornando-os mais acessíveis.

Em recente artigo, o paleobiólogo Cisne (op.cit.,2005,p.1305) destaca a importância do scriptorium através de uma analogia entre as obras aí produzidas e os fósseis. Assim como os trilobitas (parentes de quatrocentos milhões de anos de insetos e crustáceos) que ele costuma estudar, os manuscritos só se multiplicam se copiados individualmente, mas quanto mais deles existir, mais eles se multiplicam, simplesmente porque há mais indivíduos capazes de se reproduzir e ser copiados.

É aí, longe das cidades que surgiram as Escolas Monásticas, a princípio apenas para a formação de futuros monges. Mais tarde, estas escolas abrem-se para o público externo, com o propósito de formar leigos cultos (filhos da nobreza e de seus servidores).

O programa de ensino, de início era bastante elementar: aprender a ler, escrever, conhecer a Bíblia, canto e aritmética. O canto (música) e a aritmética são componentes do Quadrivium (música, aritmética, geometria e astronomia), herança da influência da Antiguidade sobre a Idade Média.

Com o tempo, o programa vai se enriquecendo, incluindo o estudo do latim e do Trivium (gramática, retórica e dialética). O sistema educacional baseado no Trivium e no Quadrivium havia sido estabelecido desde a Antiguidade,apoiado sobre as Sete Artes Liberais: Gramática, Retórica e Dialética compunham o Trivium, destinado à uma educação mais refinada (para treinar a mente) e Música, Aritmética, Geometria e Astronomia que compunham o Quadrivium, destinava-se a uma educação mais informativa, voltada para algum tipo de aplicação prática ou profissional.

Embora a Geometria figurasse no Quadrivium, seu estudo era teórico e calcado sobre os textos existentes (principalmente de Boécio), não tendo absolutamente nada, por exemplo, com a geometria registrada por Villard de Honnecourt em seus cadernos.

Os arquitetos mestres construtores gozavam um especial prestígio e consideração da sociedade, pois apesar de seu trabalho resultar em intervenções manuais, o ato de conceber ou projetar, denotava seu domínio sobre a Geometria (uma Arte Liberal), que o
distinguia dos operadores manuais.

Leonardo da Vinci diria mais tarde que o projeto é cosa mentale, corroborando o sentimento coletivo.

No século XII, Hugh de St. Victor nomeia as Sete Artes Mecânicas, nas quais percebemos que o trabalho manual e o esforço físico são denominadores comuns a todas elas. São elas: Lanificium (vestuário), Armatura (arte militar e arquitetura), Navigatio (navegação), Agricultura, Venatio (caça e pesca), Medicina e Theatrica (teatro). As Artes Liberais sempre foram consideradas superiores às Mecânicas e esta condição foi também justificada pela filosofia escolástica de Tomás de Aquino que ensinava que a alma (mente) era livre e o corpo sua prisão.

A posição da Geometria dentre as Artes Liberais explica-se pelo seu caráter teórico-mental, que necessita de instrumentos apenas quando se faz necessário materializar os conceitos de ponto, linha, etc…

O mesmo Hugh de St. Victor em seu livro Praticae Geometriae, divide a Geometria em dois campos: a Geometria Teórica e a Geometria Prática. A Geometria Teórica investiga espaços e distâncias por razões especulativas enquanto que a Geometria Prática investiga os mesmos espaços e distâncias, mas por meio de certos instrumentos que permitem decisões sobre as proporções ao juntar uma coisa à outra.

Sua Geometria Prática tratava ainda de três campos específicos: Altimetria, Planimetria e Cosmimetria (futura Estereotomia).

A Geometria Prática, também conhecida como geometria do artesão, infelizmente foi excluída do Praticae Geometriae, originalmente de Hugh de St. Victor, quando foi completada por Leonardo de Pisa em 1220. Esta exclusão provavelmente deveu-se ao fato de que o trabalho final de Leonardo de Pisa resultou num tratado matemático avançado, em que ele se sentiu desobrigado de iniciar com a habitual distinção entre Geometria Teórica e Prática.

Seu trabalho foi muito pouco lido ou utilizado, não somente em razão da sofisticação matemática, mas também pelo latim clássico em que foi escrito. Mais uma vez fica ressaltado o fato de que se a unidade proporcionada pela língua latina favoreceu o intercâmbio de conhecimento entre os pensadores e intelectuais, dificultou ou tornou-o inacessível aos mestres construtores.

A existência das Escolas Monásticas e as obras civis nos mosteiros, sem dúvida aproximaram leigos construtores de alguns monges também construtores. Esta união de dois grupos aparentemente tão distintos quanto ao acesso a fontes de conhecimentos da Antiguidade, pode ter resultado nas primeiras experiências de transmissão de algumas técnicas ou recursos geométricos dos monges para os trabalhadores contatados.

Gimpel (op.cit.,1973) dedica todo um capítulo aos monges construtores, indicando uma grande habilidade a ser considerada. Os mosteiros contratavam também muitos artistas e artesãos para a produção de objetos encomendados às suas oficinas pelas igrejas e cortes. Há registros que a Abadia de St. Gall contratava muito destes operários ambulantes. Era um pequeno mercado de trabalho.

Era prática geral empregar mestres construtores, da mesma maneira que canteiros, carpinteiros e ferreiros para a construção das igrejas. As oficinas monásticas ocupavam-se também, além da produção de artefatos, com a investigação técnica (Hauser,p.89).

No final do século XI, o monge beneditino Teófilo descreve na sua Schedula Diversarum Artium, uma série de invenções dos mosteiros: produção de vidro, uso do fogo na execução de vitrais, tintas, etc…

Operários e artistas ambulantes adquiriam prática nas oficinas monásticas em contato com monges letrados e com acesso à biblioteca. A preparação de jovens artistas era uma preocupação e a educação uma obrigação de toda ordem religiosa. Em muitos mosteiros essas oficinas de trabalhos manuais preparavam artistas para as catedrais e casas senhoriais, num esforço à parte da Escola Monástica.

A partir do século XI, quando as atividades humanas retornam ao ambiente urbano, ocorrem mudanças de forte repercussão no campo da disseminação do conhecimento. Essas mudanças vão desde o aparecimento das sucessoras das Escolas Monásticas, as Escolas Episcopais, de um novo grupo social que é a burguesia urbana, das Universidades e finalmente das Corporações de Ofícios.

Como resultado da revolução agrícola a partir do ano 1000, produziu-se excedentes, o que estimulou o comércio e as finanças (uso da moeda ao invés da troca de mercadorias). A mudança da matriz energética foi decisiva para a revolução agrícola. Aprimorou-se a força motriz do cavalo com novos arreios que permitiram o uso de arados profundos que revolviam melhor o terreno e introduziu-se o sistema de rodízio de campos de cultivo, o que aumentou consideravelmente a produção. O homem ficou assim liberado do uso da força motriz humana.

As Escolas Episcopais começam a funcionar em dependências da catedral ou da casa do bispo. Surgem pela necessidade de uma melhor formação de quadros para o clero, para a burocracia da Igreja e para o enfrentamento de ameaças heréticas.

A retórica, a argumentação e o conhecimento deveriam se contrapor às heresias e defender a doutrina da Igreja na vida civil. São recrutados eruditos e intelectuais para ministrarem aulas. Todos são chamados de clérigos, mesmo os alunos que não se destinam ao sacerdócio.

Existe agora na cidade, ao lado da sociedade feudal rural, um novo grupo social que é a burguesia urbana, dedicada às atividades mercantis, manufatureiras e financeiras. Seu poder, riqueza e importância cultural vão crescendo rapidamente.

Esta ânsia em ocupar novos lugares na sociedade faz com que se inicie uma renovação das ideias de escola, que aparecerá justamente nas Escolas Episcopais das Catedrais. Estas escolas, que foram instituídas no século XI pelo Concílio de Roma de 1079, passam a partir do século XII, com o Concílio de Latrão de 1179, a ser mantidas através de benefícios para a remuneração dos mestres, garantindo-lhe assim um vigoroso impulso neste século.

A novidade é que a atividade intelectual abre-se para o exterior, absorvendo elementos das culturas judaica e árabe e redescobrindo os autores clássicos como Aristóteles e Platão. Em 1126, a Escola de Tradutores de Toledo na Espanha está em plena atividade, traduzindo obras da Antiguidade do árabe para o latim. É desta época a tradução de Adelard de Bath da obra Os Elementos de Euclides.

No século XII, Thierry de Chartres fez uma compilação dos textos e autores utilizados como base para as aulas das Sete Artes Liberais (Trivium e Quadrivium ) na Escola da Catedral de Chartres.

No Trivium , a Gramática era ensinada com textos de Donato e Prisciano; a Retórica, com textos de Cícero, Severiano e Martianus Capella e a Dialética com textos de Porfírio, Aristóteles e Boécio.

No Quadrivium, a Música era ensinada com textos de Boécio; a Aritmética, com textos de Boécio, Martianus Capella; a Geometria, com textos de Abelardo, Isidoro de Sevilha, Frontino, Columelle, Gerberto, Gerland e Boécio e a Astronomia com textos de Hygino e Ptolomeu.

O método utilizado é principalmente o comentário sobre o texto lido, estabelecendo-se as famosas Questiones Disputate entre os candidatos, à frente do Mestre e dos demais alunos (Pernoud,op.cit.,2004,p.6).

Os textos de Boécio utilizados no ensino da Geometria eram conhecidos como a Geometria de Boécio, embora fossem compilações parciais de Os Elementos de Euclides.

Shelby (op.cit.,1972) assegura que, embora o conhecimento dos mestres construtores pudesse teoricamente ser obtido na educação formal, não era isso que acontecia. Ler e escrever eram privilégios do clero, mas há evidências de um aumento nas taxas de alfabetização na Baixa Idade Média. Com isso, provavelmente, mais mestres construtores
aprenderam a ler e escrever, embora o fizessem em linguagem vernacular e não em latim, pois isto exigia a frequência desde cedo a cursos da educação formal, muitas vezes inacessível a este grupo.

Mesmo assim, a alfabetização traria benefícios pois, segundo Gimpel (op.cit.,1972), nas Escolas Episcopais de Chartres e Paris havia manuscritos em latim e também na língua da Picardia. Chama a atenção, nos séculos XII e XIII, que o monopólio da Igreja na organização escolar não é contestado pelo poder secular.

O século XIII é o século da Igreja triunfante e de poder incontrastável com a construção de inúmeras catedrais; da consolidação da universidade (1200 – Universidade de Paris), talvez a maior contribuição medieval à civilização ocidental e ainda é o século das Corporações de Ofícios.

Estamos também sob a égide da filosofia escolástica com sua organização, divulgação da filosofia de Aristóteles e do intelecto de Tomás de Aquino (1226 – 1274) em justificar a fé com a razão.

As universidades que se consolidarão neste século, eram originariamente chamadas de Studium Generale, agregando mestres e alunos dedicados a algum ramo do saber (Medicina, Direito ou Teologia). Com a efervescência da Baixa Idade Média, logo passou a
referir-se ao estudo universal do saber, sendo seu nome substituído por Universitas Magistrorum et Studiorum.

A universidade de mestres e alunos forma uma sociedade autônoma que tem seus membros retirados da jurisdição civil, isto é, dos tribunais reais. Eles ficam submetidos a tribunais eclesiásticos, o que é considerado como privilégio e consagra a autonomia desta corporação de elite (Pernoud,op.cit.,2004,p.3).

Mesmo nas universidades, diferente modalidade de educação formal, não encontramos o conhecimento dos mestres construtores.

Este conhecimento não seria encontrado num ambiente de estudos teóricos, porque a percepção da geometria pelo artesão é clara: é a geometria que manipula os materiais com instrumentos e de acordo com as regras de seu ofício. É conhecida como a Geometria Fabrorum, ou seja a geometria que fabrica um determinado artefato.

As cidades, agora com população fixa e com grande atividade comercial, tornam-se centros de atração pelas oportunidades que passam a oferecer. A atividade da construção, com os grandes canteiros de obras das catedrais é a maior força de atração.

Assim como a universidade logo constituiu uma corporação de mestres professores e alunos, os diferentes artífices que intervêm na obra arquitetônica, até por força do pensamento escolástico em dividir, classificar e organizar, isolam-se também em entidades civis chamadas Corporações de Ofícios, com o claro intuito de proteger os interesses dos praticantes daquele ofício.

As cidades estavam atraindo, com suas atividades de construção, muitos estrangeiros e moradores das vizinhanças, o que muitas vezes deixava seus próprios habitantes sem trabalho. Desta época vêm a denominação pedreiro livre (free mason), indicando aquele que não tinha vínculo com nenhuma Corporação.

O surgimento destes múltiplos ofícios rompeu com a ordem social que retratava o sistema feudal. As novas atividades urbanas, comerciais e artesanais em sua diversidade, propiciaram uma liberdade pessoal para os homens, até então inexistente na relação servo-senhor. Eram agora pessoas desligadas da terra e que sobreviviam na cidade com seu trabalho que já não era ligado à produção de alimentos.

Os trabalhos de projeto e construção corriam até então sob a organização das loggias, que ficavam localizadas dentro do próprio canteiro de obras. As loggias, que se diferenciariam das futuras Corporações de Ofícios, eram associações de trabalhadores autônomos organizados.

A loggia dos pedreiros dos séculos XII e XIII era uma organização cooperativa de artistas e artesãos contratados para a construção de uma grande obra – igreja ou catedral – sob a direção e administração de pessoas indicadas pela entidade que tinha encomendado o edifício. Fica clara a relação de dependência a um plano concebido antes da execução, portanto um projeto. Um projeto medieval.

Hughes Libergier é um exemplo destes diretores e administradores das obras ou seu arquiteto mestre construtor. Ele era o responsável pelo plano artístico (projeto), distribuição de tarefas e coordenação dos trabalhos individuais.

Nas loggias, o arquiteto mestre construtor trabalha quase sempre com as mesmas equipes. Alguns trabalhadores continuam com o mestre mesmo após o término de suas tarefas.

Por ser um grupo autônomo, tinha grande mobilidade e caso o trabalho terminasse ou se interrompesse, mudava sob a chefia de seu arquiteto mestre construtor e tomava novas tarefas. O que acontecia muitas vezes era a loggia ficar no mesmo local por gerações, em virtude da duração do tempo de obra.

Se a mobilidade não era tão importante para a loggia como grupo, era fundamental para a produção artística da época, cujo artista levava uma vida errante, trabalhando individualmente em vários grupos, como era a tradição dos operários contratados nas antigas oficinas monásticas.

Com a entrada da moeda em circulação, o trabalho livre e de fora da localidade passa a ser mais empregado pelos mestres. O mercado de trabalho se fortalece e agora a velocidade das obras depende dos recursos em dinheiro da entidade promotora.

A construção da catedral gótica era um processo muito mais longo e complicado que a construção da igreja românica. Requeria maior variedade de operários e mais tempo para a execução.

Estes inúmeros profissionais tinham seu trabalho organizado pelas regras da loggia: o tipo de empreitada, pagamento e treino de operários, hierarquia entre arquiteto, mestres especializados e operários, restrições à propriedade intelectual do trabalho e subordinação incondicional às necessidades da tarefa comum.

O objetivo era uma divisão e integração do trabalho produtivo sem atritos, com a maior especialização possível e a mais completa harmonia entre os diferentes indivíduos. Procura-se constituir uma união de espírito do grupo com uma subordinação voluntária à direção do arquiteto e um contato estreito deste com cada componente, para tornar possível a unidade artística da obra.

Esta organização do trabalho nas loggias era a mais apropriada à uma época em que a Igreja e algumas entidades da cidade eram as únicas compradoras das obras de arte por elas produzidas.

Quando o poder de compra da burguesia mercantil urbana alcançou um nível suficiente, esta passou a constituir-se num novo mercado para as obras de arte, permitindo que os artistas e artesãos abandonassem a loggia e se instalassem na cidade como mestres independentes.

É um momento único e sem retorno na relação projeto e obra: as diversas categorias intervenientes na obra agora podem trabalhar fora dela. É o afastamento do arquiteto da obra, pela separação entre o local de trabalho do artista e o local da edificação.

A concentração de artistas e artesãos nas cidades e a competição naturalmente criada, levaram a uma organização econômica coletiva, que resultou nas Corporações de Ofícios.

As Corporações de Ofícios na Idade Média surgiam sempre que um grupo profissional sentia-se ameaçado economicamente por competidores vindos de fora. Era uma organização própria de cada cidade.

O objetivo da Corporação era excluir ou ao menos restringir a competição: desde o início caracterizou-se por um protecionismo intolerante contra os que não fossem seus membros. Os regulamentos visavam somente à proteção do produtor dos artefatos. Mesmo a prescrição de qualidades mínimas ao produto procurava garantir mercados aos produtores.

Apesar de tudo, se comparados os regulamentos da loggia com os das Corporações, estes deram um passo à frente no tocante à liberdade do artista. Nas oficinas individuais que compunham a Corporação, os mestres de Ofício eram livres na utilização de seu tempo e na escolha dos meios artísticos. A Corporação apenas mantinha os mestres dentro de limites aceitos pela tradição profissional.

Agora, as diferenças do trabalho em relação aos séculos XI e XII já são bastante grandes. No século XI, em pleno período românico, todo o trabalho do artista era feito no próprio local da edificação, em sua posição final: a decoração de paredes pelo pintor era feita exclusivamente através de murais e o escultor trabalhava sobre andaimes, cinzelando a pedra após o pedreiro tê-la assentado.

A loggia do século XII, oferecia ao escultor um local de trabalho mais conveniente e melhor equipado que o andaime: uma oficina ao pé da igreja ou catedral, onde as esculturas eram esculpidas, marcadas e depois colocadas em sua posição definitiva no edifício.

Esta evolução, que culmina na Idade Média com a organização das Corporações de Ofícios, levou à independência do trabalho do escultor e a crescente separação entre arquitetura e escultura. Os painéis pintados também seguem a mesma tendência.

A transmissão dos conhecimentos do ofício era predominantemente oral, sendo feita pelo mestre a seus aprendizes.

Neste trabalho, os mestres não empregavam livros didáticos no sentido escolástico e nem formas literárias definidas. Os aprendizes faziam uma espécie de estágio por longos anos e mudavam de categoria ao comprovar competência em um trabalho completo, apresentado aos mestres da Corporação.

As Corporações tornaram-se também um círculo fechado de parentesco, onde a tradição em exercer determinado ofício ficava por muitas gerações com a mesma família, resguardando o imenso prestígio social que o arquiteto mestre construtor carregava.

Esta posição de quem dirigia e supervisionava pessoalmente as obras, pode ser avaliada pela lápide do mestre Hughes Libergier. Após sua morte em 1263, este arquiteto mestre construtor da igreja de Saint-Nicaise em Reims foi retratado em sua lápide como uma espécie de homem de letras, com o modelo de sua igreja, a virga e outros instrumentos de trabalho (N.B.: esquadro e compasso). A posse da virga, bastão que indicava o comando era também um padrão de unidade escolhido para a obra.

Hugo Libergier – Wikipedia

Apesar da Escolástica ter monopolizado a formação intelectual e ter cunhado o que se chamou de hábito mental que atingia os arquitetos com esta formação, não é possível afirmar-se que estes mestres arquitetos eram escolásticos. Shelby (op.cit.,1972) demonstra que os procedimentos utilizados na Geometria Prática pelos arquitetos eram independentes e distintos do pensamento matemático da tradição erudita e depois escolástica.

4.2 – A geometria no ofício

Uma fonte muito importante de informações sobre a tradição dos arquitetos mestres construtores surgiu de um autor anônimo – provavelmente um clérigo – por volta de 1400. Era o Artigos e Pontos de Alvenaria que afirmava o papel essencial da geometria no ofício dos pedreiros. Apresenta costumes e regulamentos referentes ao trabalho dos pedreiros da Inglaterra de então.

O autor estabelece a conexão entre geometria e trabalho com ferramentas e prossegue registrando que

“entre todos os ofícios do mundo, o ofício dos pedreiros era o mais notável e mais participante da ciência da geometria.”

O texto apresenta ainda uma versão das mais interessantes sobre as origens da Geometria e a história de Euclides. De acordo com o autor, Euclides teria sido empregado de Abraão durante sua estada no Egito. Assim, teria sido Abraão que ensinara a ciência da Geometria a Euclides, que por sua vez ensinou-a aos egípcios.

Esta visão ressalta a relevância do significado da Geometria para o autor e os pedreiros da época, principalmente pela tentativa de ligá-la a um personagem bíblico.

Para os pedreiros medievais, Euclides era o herói do ofício e a palavra Geometria tornara-se sinônimo de seu ofício.

Apesar da firme convicção de que a Geometria era a base do ofício, vimos anteriormente que não era através dos meios educacionais formais existentes à época que este contato se dava. A educação e formação dos pedreiros se davam no corpo da tradição de seu ofício, por meio do qual os conhecimentos técnicos necessários ao projeto e execução eram transmitidos de mestre para aprendiz,de pai para filho, do parlier ou jornaleiro para os menos experientes no trabalho.

Os arquitetos mestres construtores também adquiriam conhecimentos e habilidades em construção pelo estudo e profundo conhecimento das tradições do ofício. A capacitação no ler e escrever tornou possível o contato com textos antigos escritos sobre o ofício e traduzidos em língua vernácula.

Estas tradições, guardiãs de grande volume de conhecimento técnico e que eram transmitidas oralmente de uma geração à outra, desapareceram quando a tradição oral extinguiu-se ao final do período gótico.

As condições para resgatar os conhecimentos dos arquitetos mestres construtores foram dadas pelos escritos de alguns mestres alemães do final do século XV, portanto ao final do período histórico convencionado como Idade Média, porém já nos ares do Renascimento.

Sobre as traduções de Os Elementos de Euclides e sua disseminação pela Europa medieval, sabemos que no início da Idade Média houve a circulação de traduções em latim (Boécio) de partes da obra destinada a estudantes, com algumas Definições, Postulados, Axiomas e Proposições, porém sem as provas matemáticas.

Somente no século XII todo o conteúdo de Os Elementos foi traduzido de versões árabes para o latim por Adelard de Bath, mas permaneceu também na esfera dos estudos formais.

As tradições do ofício ligam-se ao artífice da prática, àqueles que usam a Geometria no trabalho. O pedreiro trabalhando com argila ou pedra, produz linhas, superfícies, quadrados e círculos em corpos sólidos da melhor maneira para sua tarefa e com suas próprias ferramentas: espátula, martelo, cinzel, corda, fio de prumo, etc…

Os documentos medievais referentes à Geometria (Folhas dos cadernos de Villard de Honnecourt, por exemplo) informam-nos que os problemas de estereotomia eram resolvidos pelos pedreiros medievais por meio apenas das ferramentas e instrumentos por eles conhecidos: eram procedimentos aproximados, seguidos passo a passo, que não envolviam cálculos matemáticos e eram eminentemente práticos.

Este proceder é realçado no livreto do mestre alemão Matthias Roriczer, intitulado Geometria Deutsch, publicado em 1488 e provavelmente inspirado no tratado De Inquisicione Capacitatis Figurarum de meados do século XV. Trata especificamente da Geometria conhecida pelo mestre pedreiro.

São doze páginas que contém figuras com letras e explicações sobre como resolver nove problemas: construir um ângulo reto, um pentágono, um heptágono, um octógono, como encontrar o comprimento da circunferência do círculo, como encontrar o centro de uma circunferência com apenas uma parte conhecida, como construir um quadrado e um triângulo que tenham a mesma área, como modelar e arrematar um frontão e como levantar um frontão da planta.

É um registro claro da Geometria Prática – a Geometria Fabrorum – pois ressalta sua independência da Geometria Teórica, uma vez que em nenhum caso as construções mostram-se matematicamente corretas.

Este tratado intitulado De Mensura Circuli, foi traduzido da árabe para o latim no século XII por Gerard de Cremona. Como retificar a circunferência do círculo, segundo a versão de Roriczer para o teorema de Arquimedes:

“faça três círculos um perto do outro e divida o diâmetro do primeiro círculo em sete partes iguais, como mostram as letras h,a,b,c,d,e,f,g. Coloque antes de a uma parte, obtendo i : ik é o comprimento retificado da circunferência do círculo.”

Este traçado era um recurso construtivo importante, pois apenas munido de régua e compasso, o pedreiro poderia obter a circunferência do círculo (colunas, torres circulares, etc…) “construindo” a solução do problema sem conhecer o teorema de Arquimedes ou suas provas matemáticas. Geometria Deutsch revela que o pedreiro medieval enfrentava problemas geométricos que poderiam requerer algum cálculo matemático através de métodos passo a passo que utilizavam seus instrumentos de trabalho e evitavam qualquer espécie de cálculo.

Um exemplo comprobatório disso é a comparação entre a solução de Roriczer com a dada pelo De Inquisicione Capacitatis Figurarum para o mesmo problema do comprimento da circunferência do círculo:

“dado o diâmetro, encontrar a circunferência do círculo. Vamos supor que o círculo dado tem diâmetro ab e ab=14. O triplo do diâmetro é 42. Se adicionarmos ao produto 1/7 do diâmetro ab, isto significa 2. O número resultante é 44, que é o comprimento da circunferência do círculo.”

O autor do De Inquisicione desenvolve o teorema de Arquimedes em forma de cálculo matemático, enquanto Roriczer apresenta sua construção geométrica, perfeitamente acessível aos pedreiros.

A diferença fundamental entre Geometria Deutsch e o De Inquisicione é que Roriczer retirou do tratado apenas formas que poderiam ser expressas em termos geométricos, evitando todas as que pudessem requerer conhecimentos matemáticos.

Estas diferenças contrastam a geometria dos arquitetos mestres construtores e a geometria clássica desenvolvida por Arquimedes. Ambas pressupõem que toda construção geométrica seja possível de ser obtida com poucas ferramentas ou instrumentos.

Euclides aceitou esta pressuposição como uma restrição teórica no sentido de desenvolver seus argumentos enquanto que os pedreiros medievais a tomavam por uma prática absolutamente necessária em virtude de a eles faltar a habilidade do raciocínio matemático. A manipulação do mundo de Euclides torna-se possível através de suas ferramentas e instrumentos.

Para Euclides, a construção de uma figura geométrica com régua e compasso era uma parte, não absolutamente necessária do exercício matemático: Geometria – arte liberal – uso da mente. Sua preocupação era maior quanto à correção matemática da tarefa do que à sua construção.

Para Roriczer e os arquitetos mestres construtores, como a construção era geométrica, ou matematicamente falando, o final do exercício, a principal tarefa não era provar sua correção matemática, mas transformar a construção geométrica em forma arquitetônica em pedra: Geometria Prática – Arquitetura – Arte Mecânica – uso das mãos (Shelby,1972,p.416).

A mais famosa sequência de transformação de figuras geométricas em formas arquitetônicas é ilustrada por Roriczer no seu outro livreto sobre o projeto de pináculos: Booklet on the correct design of pinnacles.

Este livreto é dedicado ao bispo Wilheim von Reichenau com quem Roriczer trabalhou e que teria possibilitado seu acesso ao De Inquisicione. Além disso, o bispo era reconhecido como entusiasta e patrocinador da “arte livre da Geometria”. Este contato pode indicar e comprovar a absorção de conhecimento teórico pela aproximação com clérigos que tinham acesso a bibliotecas e textos mais antigos e da cultura clássica.

Esta interação, patrão eclesiástico e seu arquiteto mestre construtor, deve ter sido responsável por grande parte da cultura clerical nas tradições do ofício dos pedreiros na Baixa Idade Média.

O que Roriczer fez em seu livreto, foi descrever numa exposição detalhada, um problema de projeto e sua solução geométrica, afastando de vez a ideia de uma Idade Média que trabalhava sem plano ou projeto.

A forma do texto sugere o registro de um tipo de ensinamento oral que era tradicional no ofício, talvez a mesma explanação que o mestre fazia a seus aprendizes sobre os desenhos de Villard de Honnecourt.

Como não existia régua graduada com um padrão unitário universal e as unidades de mediadas eram regionais, havia duas possibilidades para transportar o desenho do projeto para a escala natural.

O arquiteto mestre construtor escolhia dimensões para os elementos arquitetônicos, que o pedreiro deveria executar sem uma régua graduada. Sem régua graduada e como a noção de escala embute conhecimentos matemáticos, este recurso estava fora do alcance do pedreiro.

Assim, métodos tinham de ser desenvolvidos para habilitar o pedreiro a transportar o desenho do arquiteto para o tamanho natural, num procedimento passo a passo.

No método de Roriczer, o pedreiro ao finalizar o pedestal do pináculo, poderia saber quanto o corpo principal estaria recuado em relação à face, diretamente na face superior deste pedestal. Ele não precisava estar preocupado com o tamanho especial do pináculo, porque a escala de todo o pináculo mudava proporcionalmente com a dimensão básica dada. Era o segredo dos pedreiros: como tirar a elevação da planta.

Ele não precisava de pergaminho ou prancha de madeira: usava a própria verdadeira grandeza do objeto em execução para obter as demais dimensões. O pedreiro tinha de conhecer a figura chave que o arquiteto havia escolhido e suas prescrições de uso. Às vezes, as razões de proporção eram incomensuráveis (irracionais) como era o caso da figura com quadrados de Roriczer.

Kossmann apontou uma segunda opção ao descobrir que entre os Cistercienses havia uma medida para planos de trabalho que era chamada de Grande Unidade (Grosse Einheit).

O tamanho variável desta unidade (de cinco a sete pés) era função do comprimento do pé utilizado na região em que o trabalho era executado.

O uso desta Grande Unidade presta-se também aos traçados reguladores, uma espécie de grade de eixos para posicionar paredes ou elementos de sustentação. A groma servia perfeitamente para este trabalho de lançamento do traçado regulador sobre o solo.

Esta hipótese difere do método das figuras chaves, pois aqui as proporções são entre números racionais. As unidades são materializadas através de ripas de madeira e marcadas tantas vezes quanto o esquema planejado determinar. (Frankl,op.cit.,1945,p.48).

A Geometria Fabrorum tinha assim as condições fundamentais para sua existência: trabalho com ferramentas e instrumentos e ausência de cálculos para estabelecer as proporções.

Continua…

Autor: Francisco Borges Filho

Tese apresentada à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo para obtenção do título de Doutor. Área de concentração: Estruturas Ambientais Urbanas.

Fonte: Digital Library USP – Theses and Dissertations

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Santo Agostinho – Trivium e Quadrivium (Parte II)

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O ensino do Trivium e do Quadrivium, a linguagem e a História na proposta de educação agostiniana – (Parte II)

A importância da linguagem

Em seu artigo Agostinho e a Educação Cristã: um olhar da História da Educação, Oliveira (2008) destaca alguns aspectos elencados por Santo Agostinho para a formação do cristão, entre os quais a linguagem e necessidade do conhecimento da escrita e das letras.

Ao apresentar um roteiro de como se tornar cristão, Agostinho nos brinda com um verdadeiro programa de estudos, necessários, em nosso entender, para qualquer aprendizagem e que independe da época em que o estudo se realiza. O autor destaca a importância da linguagem, do conhecimento da escrita, portanto, das letras, da necessidade do aprendizado do cálculo, de se entender a música, de se conhecer as instituições nas quais e para quais se realizam determinados estudos, de se conhecer a língua na qual o estudo está sendo realizado. Dentro deste aspecto, destaca a precaução necessária em relação às traduções. Do ponto de vista agostiniano, saber a língua no qual o texto foi escrito é condição para o bom entendimento da mensagem contida no mesmo (OLIVEIRA, 2008, p. 6).

Vários autores destacam que, ao se manifestar a respeito da linguagem, Santo Agostinho levanta questões que ultrapassam sua concepção religiosa, a exemplo da importância que a leitura, o conhecimento de línguas, a precaução com as traduções têm para a obtenção ou produção do conhecimento.

A importância da linguagem decorre do fato de que é esse meio de comunicação humana que faz das Escrituras um modo de aproximação de Deus para com o homem: pelo que está expresso em suas obras, os homens podem atingir a inteligibilidade de Deus.

Assim, quanto maior for a capacidade das pessoas de usarem a linguagem, melhores suas condições de se apropriar dos sentidos e ensinamentos contidos nos textos bíblicos. Por conseguinte, as conversões ocorrerão de maneira mais consciente. Na verdade, Agostinho apresenta diversos aspectos que julga serem elementos essenciais para se compreender as palavras contidas nas Escrituras. A nosso ver, apresenta, de fato, um roteiro de como se deve proceder para ser cristão. Do seu ponto de vista, a conversão é um processo de aprendizagem. No seu tempo, em geral, não se nascia cristão, mas se tornava, pela aceitação da doutrina (OLIVEIRA, 2008, p. 6).

Assim, com os recursos da linguagem, como metáforas, alegorias, comparações, diálogos com perguntas e respostas didaticamente organizados, os mestres articulariam os dois conhecimentos, os das ciências e as verdades divinas, levando os discípulos a entender as coisas espirituais. Por meio da linguagem comparativa, o próprio Agostinho trata de temas abstratos estabelecendo relações com outras situações concretas ou com objetos conhecidos pelos seus ouvintes. O próprio Agostinho utiliza muitas comparações no decorrer da sua obra para levar os leitores a entender conceitos complexos e abstratos por meio de assuntos conhecidos.

Em seu livro A Trindade, ele explica que, tendo como finalidade levar os homens a entender os princípios divinos: “[…] a Escritura, no seu modo de expressar, acomoda-se aos costumes humanos, pois fala a criaturas humanas (Santo Agostinho, A Trindade, L. I, cap. 12, § 23)”.

Nessa acepção, a linguagem é o principal instrumento de transmissão do conhecimento. Por meio dela, o ensino se efetivaria entre os indivíduos e se difundiria na sociedade.

Em seu De Magistro, quando tratou da necessidade de conhecer o significado e o conceito das palavras, o fez com vistas a que elas pudessem ser utilizadas adequadamente no ensino.

Nessa obra, a função da fala é abordada por meio de um diálogo com Adeodato, seu filho, que aos dezesseis anos contribuiu com as ideias que foram registradas.

Uma das ideias que Agostinho discutiu é a necessidade de se ter claro o que pretende quando se fala, ou seja, o autor discutiu a questão da intencionalidade da linguagem (AGOSTINHO, De Magistro), detalhando a significação da palavra e enfatizando a necessidade de pensar no que queremos ensinar quando falamos. Ou seja, de seu ponto de vista, não se trata de ensinar apenas palavras, mas também o que elas significam, o conteúdo que elas transmitem e, por isso, ele discute também a questão dos signos.

Na medida em que a linguagem estabelece a comunicação entre as pessoas, ele considerava que o conhecimento dos signos constituía-se em elemento potencial de aprendizagem. Da mesma forma que a palavra que se profere pode ser percebida pelo ouvido, a palavra escrita apresenta-se como um sinal para os olhos, despertando na mente o que se percebe com os ouvidos.

Segundo Horn (2006), esse aspecto do pensamento era tão inovador, que o autor foi considerado um precursor da concepção semiótica.

Um ponto que se destaca por todo o pensamento agostiniano sobre a filosofia da linguagem é a tese de que palavras representam sinais. Parece residir aqui uma inovação digna de nota, diante dos seus predecessores, razão pela qual repetidamente se afirmou que Agostinho é o patrono de uma concepção semiótica (de teoria dos sinais) da semântica, ou, ainda, da teoria do significado linguístico (cf. Coseriu, 1969; Eco, 1984 apud HORN, 2006, p. 6-7).

Horn (2006) informa ainda que essa definição de linguagem aparece em outras obras de Agostinho anteriores ao De Magistro:

Agostinho dispõe de uma série de observações interessantes e modos de visão originais sobre o fenômeno da linguagem. A sua intenção, contudo, não reside no desenvolvimento de uma filosofia sistemática da linguagem. Ao fundo, encontra-se, antes, a sua pretensão teológica de comprovar a presença de uma realidade divina no nosso falar e pensar. Apesar desse interesse de conhecimento incomum, pode-se atestar a Agostinho que a sua ocupação com filosofia da linguagem alcança, nas diferentes fases biográficas, um nível absolutamente respeitável. Possuímos, primeiramente, um tratado juvenil com o título De dialectica, que se ocupa com algumas questões de filosofia da linguagem e de teoria dos sinais, e sabemos que existiu um tratado surgido simultaneamente, De grammatica, o qual, porém, já cedo se perdeu (HORN, 2006, p. 6).

Segundo Horn, para se entender o que Agostinho pretendia com a definição das palavras como sinais, é necessário considerar uma importante distinção: a palavra como um sinal que representa (substitui) o objeto e como um meio de comunicação, de conhecimento.

Poucos anos depois da sua redação, no escrito De magistro, do ano de 389, Agostinho já se apóia muito claramente nessa definição, quando define palavras (verba) como sinais (signa) (2,3). Sem dúvida, para entender corretamente a concepção ali contida, tem-se de diferenciar entre duas funções, nas quais as palavras podem aparecer como sinais (cf. De magistro, 2002). (HORN, 2006, p. 7).

Assim, a primeira função estaria relacionada ao campo da semântica:

Por um lado, pode-se ter em vista uma função substitucional (nisso pensamos nós contemporâneos, via de regra): palavras designam algo, na medida em que elas, como sinais, estão por esse algo como que ‘a modo de substituição’. Assim a palavra ‘mesa’ designa o objeto mesa, na medida em que ela, como fonema (sinal sonoro) ou como grafema (sinal escrito), está para uma mesa no mundo das coisas físicas (HORN, 2006, p. 7).

Na segunda, os sinais têm um sentido constitutivo do conhecimento e, segundo o autor, é com essa acepção que Agostinho considera a palavra em suas orientações sobre o ensino.

Por outro lado, palavras podem ser tomadas como sinais num sentido ainda mais geral, a saber, constitutivo do conhecimento. Palavras abrem para nós novos conteúdos de saber, na medida em que formam o veículo de uma exposição, de uma narrativa ou de uma argumentação oral ou escrita. Palavras desvelam à ouvinte ou ao leitor algo novo; elas apresentam a ela ou a ele algo até então não-sabido. É esse segundo significado que Agostinho tem em vista com a sua tese do caráter de sinal das palavras, e não uma teoria de semântica. Palavras são sinais, não primariamente em sentido substitucional-semântico, mas sim em sentido constitutivo do conhecimento (HORN, 2006, p. 7).

Mammì (2000) assinala que Agostinho atribui a existência de signos à necessidade de comunicação entre os homens.

Os signos linguísticos nascem da impossibilidade de as almas humanas comunicarem-se diretamente entre si, após a queda no pecado; sua função é ensinar conceitos ou transmitir vontades. Em síntese, a linguagem é um instrumento que permite que as almas ajam uma sobre outra (p. 347).

Nesse sentido, na medida em que visava o ensino, era essa a função das palavras que Agostinho usava amplamente. Para ele, sua importância advinha do sentido que elas poderiam transmitir ao ouvinte. Pelas palavras se estabeleceria uma comunicação entre a contemplação individual interior e o outro.

Para Mammì (2000) a comunicação por meio das palavras, em Agostinho, assumiu proeminência na ação de uma alma sobre outra, porque elas contêm a possibilidade de ensinar, de convencer, enfim, de transformar as atitudes pagãs em atitudes cristãs.

Acrescentamos aqui um aspecto destacado por Mammì (2000) no pensamento de Agostinho: sua concepção de que as palavras têm função mnemotécnica de chamar à mente os conteúdos da consciência.

Ao que ensina é primordial ter domínio da palavra para utilizá-la, ou seja, tendo em vista a finalidade básica da linguagem, ensinar pressupõe o uso da palavra com conhecimento do seu significado. Seu uso adequado resulta na compreensão, por parte do destinatário, da mensagem que se quer transmitir; já seu uso indevido implica distorções e equívocos na mensagem, os quais comprometem a eficácia do ensino.

Ressaltando esta questão, podemos pensar que o uso adequado da linguagem é inerente ao livre-arbítrio, uma vez que este possibilita ao ser humano fazer as escolhas apropriadas também no que se refere ao uso das palavras, especialmente quando se ensina.

Diante do fato de que a arte da palavra pode persuadir para o bem ou para o mal, Agostinho fez, em A Doutrina Cristã, a seguinte pergunta: “por qual razão as pessoas honestas não poriam seu zelo a adquiri-la em vista de se engajar ao serviço da verdade?”

Assim, Santo Agostinho discutiu o porquê de se utilizar a arte da eloquência por tê-la como relevante na aplicação em persuadir o que considerava como verdadeiro. “Eis o que constitui o talento da palavra ou da eloquência: os princípios e preceitos dessa arte unidos ao empenho engenhoso da linguagem, especialmente exercitada a realçar a riqueza do vocabulário e do estilo” (AGOSTINHO, A Doutrina Cristã, Liv. IV, cap. 3,§ 1).

Os jovens, segundo Santo Agostinho, deveriam aprender essa arte em estudos à parte, conforme a disponibilidade que tivessem. Os mais ocupados com o serviço da Igreja poderiam assimilar a eloquência lendo ou estudando os bons oradores nas obras eclesiásticas e principalmente nas Escrituras.

É intrínseco ao ser humano, dotado da razão e da possibilidade de usá-la, distinguir a função das palavras, bem como conhecer o que elas significam. Nesse sentido, Santo Agostinho destacou a superioridade do conhecimento conceitual em relação ao morfológico.

O desconhecimento dos signos próprios, para Santo Agostinho, era um fator que comprometia a compreensão, mas também o era o dos signos figurados, muito utilizados nas Escrituras. “Ora, há duas causas de incompreensão do texto da Escritura. A verdade encontra-se oculta por signos desconhecidos ou por signos de sentido figurado. Com efeito, os signos são ou próprios ou figurados” (AGOSTINHO, L. II, cap. 10, § 15). Esses signos figurados consistiam em expressões da vida cotidiana utilizados para o ensino de outra significação. Segundo o autor, para alcançar a compreensão das passagens de sentido alegórico, era necessário, primeiramente, o conhecimento das palavras em seu sentido próprio.

Assim, para conhecer o sentido próprio e figurado das palavras, de forma a aprofundar a compreensão das Escrituras, era necessário ao estudioso latino conhecer o grego e o hebraico, verificando também a validade das traduções.

Para combater a ignorância dos signos próprios, o grande remédio é o conhecimento das línguas. Os conhecedores da língua latina, a quem pretendemos instruir neste momento, necessitam, para chegar a conhecer a fundo as divinas Escrituras, de duas outras línguas, a saber, o grego e o hebraico. Elas lhes permitirão recorrer aos exemplares mais antigos, no caso em que há infinita variedade de traduções latinas lhes traga alguma dúvida (AGOSTINHO, A Doutrina Cristã, L. II, cap. 11, § 16).

O contato com os textos originais permite verificar que a mesma palavra pode ter significados diferentes nos distintos idiomas. Esse desconhecimento prejudicaria a compreensão do sentido originalmente proposto.

Por isso, ele aponta as vantagens do estudo comparativo das diversas traduções latinas, o que também poderia auxiliar a compreensão dos textos sagrados: “A diversidade de traduções, contudo, tem sido mais ajuda do que obstáculo à compreensão do texto, isso ao se tratar de leitores não negligentes. De fato, o exame de muitos códices, com frequência esclarece certas frases obscuras (AGOSTINHO, A Doutrina Cristã, L. II, cap. 12, § 17)”.

Além dessas questões teóricas a respeito da linguagem, o autor descreve várias estratégias de retórica, que poderiam ser utilizadas no ensino cristão. Nesse sentido, a conversão de Agostinho proporcionou-lhe um imenso campo de trabalho. Os conhecimentos que trouxe do passado, dos critérios que os antigos haviam produzido foram direcionados para a formação de indivíduos, os quais não apenas fariam parte da sociedade que principiava a se formar, mas se tornariam seus dirigentes. E o fizeram fundamentados na educação cristã e no conhecimento historicamente produzido pela humanidade.

As normas que ele elaborou para orientar o estudioso das Escrituras na compreensão da mensagem cristã tornaram-se profícuas naquela sociedade que carecia de ser instruída nas letras, na fé e na civilização. Tratava-se de auxiliar os que sabiam menos a compreender as Escrituras e ensiná-las.

A importância do conhecimento e do ensino da História para a educação

Nesse sentido, a mensagem a ser transmitida perpassava pelo conhecimento da história, apresentado por Agostinho como uma forma de retomar princípios, conceitos e ensinar aos homens como agir diante das circunstâncias. Para Santo Agostinho,

[…] todos os informes que a ciência chamada história nos oferece sobre o sucedido nos tempos passados nos são de grande ajuda para compreendermos os Livros santos, ainda quando forem aprendidos fora da Igreja, em vã erudição (AGOSTINHO, A Doutrina Cristã, L. II, cap. 29, § 42).

A história, portanto, mesmo que não fosse aprendida como parte da formação cristã, constituía um instrumento para a formação da memória e da identidade do indivíduo na contemplação das Escrituras.

O conhecimento e os argumentos históricos permeiam as obras e os discursos de Agostinho. Com base no conhecimento histórico que ele tinha, pôde articular suas análises e seus argumentos nessa perspectiva.

Outro aspecto que Santo Agostinho destaca são as instituições humanas, que, para ele, se referem ao conhecimento histórico e literário produzido pela humanidade. A primeira vista, poderíamos pensar no acesso restrito a essas obras. No entanto, elas não foram desprezadas, antes se tornaram em fundamentos teóricos para os cristãos chegarem a uma compreensão mais aprofundada do ensino contido nas Escrituras. Deveriam, inclusive, segundo o autor, ser aprendidas de memória.

Toda essa parte de instituições humanas que são convenientes para as necessidades da vida, os cristãos não têm razão nenhuma para evitá-la. Eles devem, bem ao contrário, à medida de suas precisões, dedicar-se a seu cumprimento e aprendê-las de memória (AGOSTINHO, A Doutrina Cristã, L. II, cap. 26, § 40).

Finalmente, devemos considerar a consciência desse autor em relação ao seu tempo histórico. Várias são suas referências a fatos históricos, quando se tratava de se posicionar diante dos problemas e buscar explicações e soluções para eles. Por esse meio, ele se contrapunha àquelas explicações que considerava insuficientes para responder aos problemas enfrentados naquele período de transição.

Recorrer à história produzia condições de apreensão de princípios e valores que deveriam permanecer e daqueles que deveriam ser transformados por hábitos fundamentados na proposição cristã que confrontava os costumes pagãos.

Ao estabelecer a relação com o conhecimento do passado, entendemos que Santo Agostinho ofereceu parâmetros para situar historicamente tanto a prática formativa, quanto os conteúdos programáticos que deveriam ser preservados, difundidos, com vistas à produção do conhecimento que os cristãos assumiriam, em virtude da desarticulação política do referido período.

Em síntese, Agostinho foi um autor que dedicou grande parte de sua vida ao estudo das Escrituras e à difusão da educação cristã. Ao fazê-lo, elaborou orientações para o ensino, discutiu os conhecimentos teóricos que deveriam ser ensinados, bem como as estratégias para se ensinar corroborando com a educação do medievo, na medida em que seus postulados permaneceram norteando a educação no ocidente durante séculos.

FINIS

Autora: Maria Rita Sefrian de Souza Peinado

Fonte: Imagens da Educação

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Referências

AGOSTINHO. A Doutrina Cristã. Trad. Ir.Nair de Assis Oliveira. São Paulo: Paulus, 2002. AGOSTINHO. A Trindade. Trad. Agustinho Belmonte. 3. ed. São Paulo: Paulus, 2005. AGOSTINHO. Confissões. Trad. Maria Luiza Jardim Amarante. 17. ed. São Paulo: Paulus, 2004. AGOSTINHO. De Magistro. Trad. Angelo Ricci. 3.ed. São Paulo: Abril Cultural, 1984. DURKHEIM, E. A evolução pedagógica. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995. GILSON, E. A Filosofia na Idade Média. São Paulo: Martins Fontes, 2001. HORN, C. Agostinho: teoria lingüística dos sinais. Veritas, Porto Alegre, v. 51, n. 1, mar. 2006, p. 5-17. Disponível em: <http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/veritas/article/viewFile/1879/1400>. Acesso em: 08/11/09. LE GOFF, J. As raízes medievais da Europa. Petrópolis, RJ: Vozes, 2007.
MAMMÌ, L. Canticum Novum. Música sem palavras e palavras sem som no pensamento de
Santo Agostinho. Estudos Avançados, 2000. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142000000100020&lang=pt>. Acesso em: 14 nov. 2009. NUNES, R. A. da C. História da educação na Idade Média. São Paulo: EPU, 1979. OLIVEIRA, T. Agostinho e a Educação Cristã:
um olhar da História da Educação. Notandum , 17, jul-dez. 2008. Disponível em: <http://www.hottopos.com/notand17/terezinha.pdf>. Acesso em: 05/09/11.

Santo Agostinho – Trivium e Quadrivium (Parte I)

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O ensino do Trivium e do Quadrivium, a linguagem e a História na proposta de educação agostiniana – (Parte I)

Ao eleger o conhecimento do Trivium e do Quadrivium como necessários à compreensão e ensino das Escrituras, Santo Agostinho (354-430) marca a educação medieval com a preservação do conhecimento produzido na Antiguidade. A linguagem como instrumento de ascendência sobre as pessoas não se limitaria ao âmbito da religião, uma vez que a orientação agostiniana ocupou preeminência na educação em função das condições institucionais e políticas decadentes no Império Romano, estendendo suas influências no período medieval. Por meio de uma análise que leva em consideração os aspectos históricos, sociais, políticos do período, bem como a formação educacional de Agostinho, as fontes, algumas obras do autor e a historiografia revelam a influência e extensão da proposta de educação cristã para a formação do homem por meio do ensino. Nesse sentido, a teorização sobre a linguagem, o conhecimento da história sagrada e secular se constituem como fundantes à educação pela argumentação e por princípios e conceitos comunicados.

Tendo como eixo norteador a premissa metodológica de que os projetos de educação e de ensino das diferentes épocas correspondem às diferentes necessidades sociais, no decorrer
deste trabalho, procuramos situar Agostinho no universo histórico, intelectual, religioso e familiar de sua época. Ao analisar os aspectos particulares da vida, bem como da formação de Santo Agostinho em face dos aspectos gerais da sociedade, percebemos que algumas questões desse contexto foram abordadas pelo autor e destacadas pela historiografia que o estudou. Pudemos reiterar, com base nesses historiadores, que a ênfase de Agostinho sobre alguns aspectos de sua educação familiar e cultural, bem como o cuidado com que ele se dirigia aos seus ouvintes e aos leitores de suas obras relacionavam-se às características peculiares de um período de transição.

Conforme destacamos, nos chamaram a atenção as circunstâncias resultantes das migrações dos nômades e da desagregação política do Império Romano. Nas quais percebemos que sua proposta de educação que contempla muitas questões relativas ao ensino, emergia das necessidades que os tempos e a demanda impunham. O atendimento dessas necessidades somente poderia ser realizado por pessoas que tivessem condições culturais e religiosas para tal. Ao ensinar seus discípulos, Santo Agostinho preparou-os para formar outros; assim, juntamente com a evangelização, o conhecimento e a cultura se difundiam entre os povos nômades e remanescentes romanos.

Um aspecto da vida desse autor que nos incita a refletir é a necessidade que sentiu de se recolher em uma pequena propriedade rural para se dedicar exclusivamente ao estudo e à meditação das Escrituras. Lá ele estudava, meditava, escrevia e compartilhava com seus amigos os resultados de seus esforços. Embora esse recolhimento tenha durado por um período de aproximadamente três anos, entre sua conversão ao cristianismo e o período em que foi aclamado presbítero, conforme o costume, essa experiência permaneceu como um ideal formativo tanto no estilo de vida que levou desde então, quanto eu seus preceitos e instruções sobre o ensino. Antes, de se converter, Agostinho teve amante, oscilou entre várias filosofias, ou seja, conhecia o mundo e apreendeu em seu tempo as circunstâncias em que vivia o ser humano. Enfim utilizou todo o seu conhecimento previamente alcançado para esmiuçar sua análise sobre os diferentes temas de que tratou. Ele transmitiu seu conhecimento por meio de seus escritos, livros, cartas, diálogos e sermões, de modo que seu exemplo permaneceu nas Igrejas em que seus discípulos eram os responsáveis, pois esses também tinham a responsabilidade de formar outros cristãos.

Suas reflexões sobre o ensino ultrapassaram o âmbito de uma simples proposição e se tornaram práxis educativa. O próprio autor atuava em uma escola organizada na proximidade da sede episcopal.

Após sua conversão ao cristianismo, Santo Agostinho dedicou-se ao ensino, educando os clérigos em sua residência, proporcionando-lhes o conhecimento e formação religiosa. ‘Conta Posídio que Santo Agostinho, quando bispo, educava os clérigos na sua residência, onde eram instruídos e recebiam alimentação e roupa’ (NUNES, 1979, p. 108).

Conforme Nunes (1979), os livros desse autor tornaram-se manuais lidos na Idade Média pelos padres, que seguiam suas orientações e seus ensinamentos ao ensinar nas escolas paroquiais.

As escolas paroquiais exerceram essa função formadora, elas funcionavam na igreja matriz da paróquia ou na casa paroquial, com o intuito de preparar os candidatos ao sacerdócio com instrução mínima necessária ao desempenho sacerdotal. A escola episcopal alojava-se na igreja catedral ou na residência do bispo. A igreja tornou-se a única educadora daqueles tempos, pois era a única instituição que tinha condições e meios para educar e instruir (NUNES, 1979, p. 103).

Foi desse ponto de vista que procuramos identificar as diretrizes gerais da educação cristã que ele defendeu em algumas de suas obras. Para além delas, fomos identificando, no processo de leitura e análise, alguns aspectos de sua proposta que podem ser considerados como elementos educacionais que ultrapassam os limites de uma formação cristã datada e, ultrapassando fronteiras de espaço, de tempo, inclusive fronteiras culturais, permanecem como um legado para outras épocas, especialmente para o pensamento educacional do Ocidente. Nesse sentido, a contribuição de Agostinho permaneceu pela proposição de um ensino que contemplava não somente a formação ideológica religiosa, mas os conhecimentos produzidos pela humanidade. A proposta de Santo Agostinho era, portanto, uma proposta de erudição por parte daqueles que se dispunham a ensinar e a cristianizar os povos.

Seus postulados vigoraram por gerações no período medieval e têm permanecido na cultura ocidental. Em alguns aspectos mais timidamente, em outros mais vividamente.

Entre tantos aspectos, pontuamos que, em sua proposta de formação do cristão, ele valorizou a postura de quem ensina.

O percurso formativo e a vida de dedicação aos estudos proporcionaram a Agostinho a condição de pensar que a formação do cristão passaria pela necessidade do conhecimento de leitura e de escrita. Por isso, ao defender ferrenhamente a necessidade de os cristãos compreenderem as Escrituras, ele identificou os conhecimentos essenciais e os meios a ser
utilizados para formar aqueles que formariam outros cristãos.

Por isso, nosso objetivo é analisar alguns aspectos do ensino valorizados por Santo Agostinho, na expectativa de que despertem novas reflexões, frisando que todos esses conhecimentos, de seu ponto de vista, deviam ser incutidos nos homens para que eles tivessem mais condições de se aproximar do pensamento divino.

A Adoção do Trivium e Quadrivium

O primeiro deles é a eleição dos conhecimentos do Trivium e do Quadrivium como necessários para a compreensão e divulgação das Escrituras.

Para Santo Agostinho, a compreensão das Escrituras pelo estudioso pressupõe o saber ler e
escrever e também o conhecimento do Trivium e do Quadrivium. O Trivium, composto pelas disciplinas: gramática, dialética e retórica, é um conjunto de conhecimentos que abrange desde a forma da escrita, o significado das palavras, a lógica do pensamento até ao uso da linguagem que deveria ser escolhida para comunicar e ensinar o que se compreendeu. Esta linguagem, segundo a perspectiva da retórica, obedece a formas de estilo, a métodos para se alcançar o fim desejado – a comunicação, ou seja, o ensino.

Em sua análise dos campos de conhecimento do Trivium na educação medieval, Durkheim afirma que:

O trivium tinha por objetivo ensinar a própria mente, isto é, as leis às quais obedece ao pensar e expressar seu pensamento, e, reciprocamente, as regras às quais deve sujeitar-se para pensar e expressar-se corretamente. Tal é, com efeito, a meta da gramática, da retórica e da dialética. Esse triplo ensino é, pois, totalmente formal. Manipula unicamente as formas gerais do raciocínio, abstração feita de sua aplicação às coisas, ou com o que é ainda mais formal do que o pensamento, ou seja, a linguagem (DURKHEIM, 1995, p. 52).

As regras da lógica deviam fazer parte da formação do estudioso das Escrituras, não apenas com o objetivo de articular discussões para enganar o adversário, mas para convencer da verdade, que, para Santo Agostinho, era a verdade contida nas Escrituras. Ao discorrer sobre “os conhecimentos relativos não aos sentidos do corpo, mas à razão ou potência intelectiva da alma”, ele destaca a ciência do raciocínio (AGOSTINHO, A Doutrina Cristã, L. II, cap. 32, § 48).

A ciência do raciocínio é de muitíssimo valor para penetrar e resolver toda espécie de dificuldades que se apresentam nos Livros santos. Só se há de evitar o desejo de discussões (libido rixandi) e certa ostentação pueril de enganar o adversário (AGOSTINHO, A Doutrina Cristã, L. II, cap. 32, § 48).

Assim, ele distingue as diferentes formas do raciocínio.

Uma coisa é conhecer as regras do silogismo e outra conhecer a veracidade das sentenças. Pelas primeiras, aprende-se o que é deduzido logicamente, o que é deduzido ilogicamente e o que repugna à razão. A dedução lógica é esta: “Se ele é orador, é homem”. A dedução ilógica: “Se ele é homem, é orador”. E a dedução que repugna à razão: “Se ele é homem, é quadrúpede” (AGOSTINHO, A Doutrina Cristã, L. II, cap. 35, § 52).

As disciplinas do Trivium, portanto, constituíam, na perspectiva do autor, um instrumento para se chegar a conclusões lógicas ou ilógicas, verdadeiras ou falsas. Essa forma de raciocínio, esse conhecimento, deveria ser utilizado no exame das Escrituras.

E quando cada um tiver encontrado tudo o que aprendeu de proveitoso em outros livros, descobrirá muito mais abundantemente aí. E o que é mais, o que não aprendeu em nenhuma outra parte, somente encontrará na admirável superioridade e profundidade destas Escrituras. […]. Bem munido por essa formação e não estando mais paralisado por signos desconhecidos, o leitor manso e humilde de coração, submisso ao jugo de Cristo, carregado com um fardo leve, fundado, enraizado e edificado na caridade, poderá lançar-se ao exame e à discussão dos signos ambíguos das Escrituras, sobre os quais, no próximo livro, eu me preparo a discorrer, conforme o Senhor se dignar me inspirar (AGOSTINHO, A Doutrina Cristã, L. II, cap. 43, § 63).

Nesse sentido, o Trivium, como parte do ensino e da aprendizagem do cristão, tinha a função de formar seu pensamento por meio da ciência do raciocínio e esclarecer os diferentes aspectos da linguagem, os quais lhe abririam a possibilidade de interpretar as Escrituras.

Para Santo Agostinho,

[…] a ignorância da natureza das coisas dificultaria a interpretação das expressões figuradas, quando estas se referissem aos animais, pedras, plantas ou outros seres citados frequentemente nas Escrituras e servindo como objeto de comparações (AGOSTINHO, A Doutrina Cristã, L. II, cap. 17, § 24).

Segundo ele, para a compreensão eficaz das Escrituras, o estudioso deveria passar, necessariamente, pelo conhecimento das coisas, da ciência do raciocínio e das instituições
humanas, dominar os sentidos das palavras e dos signos, conhecer outras línguas, entre outros aspectos importantes do conhecimento.

Dessa maneira, tão importantes como os conteúdos do Trivium, são os conhecimentos do Quadrivium, que consistem num conjunto de conhecimentos objetivos e abstratos de aritmética, geometria, música e astronomia, os quais também eram úteis, segundo Santo Agostinho, à compreensão das expressões referentes a essas artes utilizadas nas Escrituras
como objeto de comparações a fim de alcançar o entendimento das coisas espirituais e, consequentemente, a rejeição das ficções supersticiosas.

A astronomia teria como objeto de estudos a ciência dos astros, da natureza e de seu poder. Santo Agostinho alertava, porém, que não se deveria utilizar esse conhecimento para tirar prognóstico de horóscopos, como faziam os genetlíacos, hoje chamados astrólogos. Em lugar de fazer conjecturas exatas para o tempo futuro, calcular o curso dos astros ou da lua, dizer qual a fase dentro de um período passado ou futuro, a astronomia era importante para desvelar o sentido das Escrituras como ciência dos astros criados por Deus. Assim, ele combatia um hábito característico do paganismo.

Quanto à importância da aritmética, Agostinho afirmava que a ignorância dos números impedia a compreensão de expressões figuradas ou simbólicas empregadas nas Escrituras. O mesmo vale para as noções musicais. Segundo ele, tanto a música quanto os números eram colocados em lugar de honra em muitas partes das Escrituras.

A música, nesse contexto, não deveria ser entendida como a arte do canto, mas como a disciplina que estabelecia as relações da música com a aritmética, com a harmonia dos astros e com as leis da acústica.

Segundo Oliveira (2008)

Assim, para Santo Agostinho, a leitura, a matemática, a natureza, a música, o conhecimento das línguas e a memória tornam-se condição primeira para a conversão do cristão. O cristão deve ser antes de tudo um ser que consegue entender e interpretar os escritos sagrados pelo conhecimento e não somente pela fé. O cristão também deve entender as relações sociais de cada tempo presente vivido pelos homens, pois são elas que imprimem os signos do conhecimento. É exatamente por isso que o autor chama a atenção para as mudanças que ocorrem de uma dada sociedade para outra (p. 6).

Nesse sentido, para Agostinho, os conhecimentos que compunham as disciplinas do Quadrivium eram pré-requisitos à formação do cristão.

Para Durkheim (1995), em sua análise sobre os campos de conhecimento, o Quadrivium

[…] era um conjunto de conhecimentos relacionados com as coisas. Seu papel era tornar conhecidas as realidades externas e suas leis, leis dos números, leis do espaço, leis dos astros, leis dos sons. Assim, as artes que abraçava eram chamadas artes reales ou physica (1995, p. 52).

É importante destacar que se atribuía um sentido alegórico às quatro disciplinas. Procurava-se um significado oculto nos números, nos astros. Desse modo, as disciplinas do Quadrivium ofereciam um conjunto de conhecimentos externos, necessários à compreensão das ilustrações ou de expressões figuradas dos Livros Santos.

Um homem fala com tanto maior sabedoria, quanto maior ou menor progresso faz na ciência das Santas Escrituras. E eu não me refiro ao progresso que consiste em ler bastante as Escrituras ou aprendê-las de cor, mas do progresso que consiste em compreendê-las bem e procurar diligentemente o seu sentido (AGOSTINHO, A Doutrina Cristã, L. IV, cap. 5, § 7).

Assim, percebemos que a proposição agostiniana para a difusão do cristianismo passaria pelo conhecimento do Trivium e do Quadrivium, já que, como as Escrituras foram escritas em linguagem humana, era necessário utilizar a ciência das coisas terrenas para explicar os princípios abstratos da religião.

Gilson (2001) destaca a importância com que os Padres e Agostinho, em particular, consideravam a cultura clássica, especialmente as “[…] artes liberais, bastante apropriadas ao uso da verdade e ainda alguns preceitos morais muito úteis” (AGOSTINHO, A Doutrina Cristã, Livro II, cap. 41, § 60). Elas seriam uma forma de o homem melhor interpretar as sagradas Escrituras.

Para compreender o texto todos os recursos das artes liberais eram requeridos, isto é, toda a erudição enciclopédica de Varrão: história (II, 28); geografia, botânica, zoologia, mineralogia, astronomia (II,29); medicina, agricultura, navegação(II,30); a dialética, tão útil para discutir as questões colocadas pela Escritura (II, 31-35); enfim, a aritmética, com suas diversas aplicações às figuras, aos movimentos e aos sons (II, 38). Mas achar-se em condições de compreender as Escrituras não é tudo, é necessário, além disso, saber falar a seu respeito. É aqui que intervém a Retórica, à qual é consagrado todo o livro IV da obra: porque os cristãos podem e devem ensiná-la, quais os deveres de um professor de retórica cristão e como os autores sacros uniram a eloquência à sabedoria. Que satisfação para Agostinho pensar que as Escrituras realizam, assim, o ideal de Cícero! Aliás, ele cita-o expressamente ao descrever o gênero de estilo e de eloquência que convém ao cristão; ele se entrega a uma exegese em regra de texto do Orator, 29, para explicar como, em que sentido o orador cristão pode observar os preceitos aí contidos, e essas discussões não eram, para ele, simples debates acadêmicos, já que, expulsa do fórum e confinada às salas de escola desde Júlio César, a eloquência vinha de reencontrar um público e retomar vida nas igrejas. Ambrósio, Cipriano, Agostinho não reivindicavam a tarefa de conduzir o povo ao bem comum da Cidade terrestre, mas acaso não eram os guias do imenso povo da Cidade celeste em peregrinação até Deus? (GILSON, 2001, p. 209).

Assim, imbricado na cultura clássica, Agostinho fundamenta o corpo teórico que daria a sustentação à compreensão e à difusão da doutrina cristã.

Le Goff (2007) destaca o fato de essa escolha de conteúdos feita por Agostinho ter permanecido até o século XII e XIII, o que, de nossa perspectiva, implica a permanência do conhecimento elaborado na Antiguidade.

Entre as escolhas culturais essenciais que o cristianismo medieval fez, em primeiro lugar, e sobretudo está a das classificações científicas e dos métodos de ensino. Transmitida por um retórico latino cristão do século V, Marciano Capella, a classificação e a prática das artes liberais dominam o ensino medieval. Divididas em dois ciclos, o do trivium, ou artes da palavra (gramática, retórica e dialética) e o do quadrivium, ou artes dos números (aritmética, geometria, música e astronomia), estas artes recomendadas por Santo Agostinho vão, nos séculos XII e XIII, fornecer o fundamento do ensino universitário na faculdade propedêutica dita faculdade de artes (LE GOFF, 2007, p. 26).

Em A Doutrina Cristã fica evidente o papel do conhecimento clássico na formação intelectual dos cristãos, tendo em vista que estes deveriam ensinar outros cristãos, reforçando, assim, o entendimento que continuava motivando o desenvolvimento do trabalho intelectual nas igrejas, nos mosteiros, nas escolas paroquiais e episcopais.

Nessa corrente, A Doutrina Cristã se tornou manual de educação e de ensino para a sociedade medieval, uma vez que nele Agostinho deu nova roupagem às leituras das Escrituras. Diferindo de Tertuliano, por exemplo, que no segundo século, não concordava que os cristãos ensinassem as letras, por considerá-las saber pagão. Nesse aspecto, as orientações agostinianas foram adotadas nas escolas paroquiais e nas dos mosteiros por conter a concepção de educação cristã e por definir o conjunto de disciplinas que deveria ser ensinado. Os escritos dos padres e dos monges, posteriores ao século V, evidenciam o conhecimento da proposição agostiniana.

Uma vez que Agostinho considerava que o domínio do conhecimento clássico fornecia subsídios para o conhecimento das coisas espirituais e propiciava condições de aprimorar a
fé, ele defendia que o homem cristão fizesse uso do pensamento racional, no qual a linguagem tinha papel fundamental. Por isso, em item específico, vamos analisar a importância que ele deu à linguagem, ao conhecimento das línguas e aos sinais como instrumentos de entendimento e comunicação.

Continua…

Autora: Maria Rita Sefrian de Souza Peinado

Fonte: Imagens da Educação

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Trivium e Quadrivium

A importância que hoje damos às chamadas artes maiores era, na Idade Média, dada às artes liberais. Eram chamadas artes liberais porque de fato para o cidadão comum era necessário ter apenas um leve conhecimento do que tratavam e o que eram, para perceber toda a sociedade. Eram uma espécie de programa educativo da Idade Média que foi sendo refinado (já Santo Agostinho falava da importância de duas artes: a música e a arquitetura) e que se tornou de fato uma estrutura de ensino no século VI por Boécio e Cassiodoro. As Artes Liberais dividiam-se em Trivium e Quadrivium.

O Trivium ou “encontro dos três caminhos” compreendia a Gramática, a Dialética e a Retórica. Hugo de Saint-Victor descreveu-as assim: “a Gramática é o conhecimento de como falar sem cometer erro, a Dialética é a discussão perspicaz e solidamente argumentada por meio da qual o verdadeiro se separa do falso; e a Retórica é a disciplina da persuasão para toda e qualquer coisa apropriada e conveniente”. Eram as disciplinas essenciais para quem pretendesse o sacerdócio ou qualquer lugar na hierarquia eclesiástica: nestas três disciplinas estava contido todo o conhecimento necessário para a administração da Igreja, mas também para a administração secular pois permitiam o domínio da língua, o conhecimento da sua estrutura, a argumentação e utilização do discurso poético como forma de persuasão, no caso administrativo. No entanto, com o ensino da Gramática, da Retórica e da Dialética a oscilar entre as fontes religiosas e os textos clássicos, era difícil encontrar o equilíbrio e quase sempre os ideais presentes nos textos bíblicos prevaleciam. Uma das razões da força da Dialética foi o fato de se fundamentar nos escritos aristotélicos que questionavam os propósitos bíblicos.

Os estudos mais avançados estavam reservados para o Quadrivium: Aritmética, Geometria, Astronomia e Música. A arquitetura medieval, por exemplo necessitava do conhecimento profundo de todas essas matérias do Quadrivium até porque para Boécio, elas eram todas derivações da matemática. Um arquiteto medieval não era só aquele que desenhava as plantas, mas todas as modificações, os planos de construção, o fornecimento de materiais e desenhava todos os pormenores decorativos. Com isto chegamos às artes liberais que propunham fazer do homem da Idade Média, um homem com um sentido prático aliado ao sentido teológico, metafísico e espiritual.

O afresco de Botticelli, na Villa Lemmi da família Médici, presume-se ter sido um pintado para celebrar a união entre um membro de uma família amiga dos Médici e uma jovem. Apesar do estado em que se encontra o afresco, vê-se nele tanto uma alegoria à união entre duas pessoas, como uma alegoria às Artes Liberais: não é fácil estabelecer esta relação, mas um dos atributos da Lógica é o Escorpião e se repararem, no centro da composição, uma jovem sentada de laranja tem ao seu colo um escorpião negro.

A Young Man Being Introduced to the Seven Liberal Arts (Sandro Botticellic. 1484)
Musée du Louvre, Paris

Abaixo, outro afresco em que as Sete Artes são representadas:

Allegory of the Seven Liberal Arts (Marten de Vos1590)
Colecção Privada

Vamos agora primeiro ao Trivium. A primeira alegoria é a Gramática. Laurente de la Hire nunca foi a Itália em vida, e por isso o seu trabalho é fruto do conhecimento teórico e do conhecimento visual que tinha dos modelos dos seus antecessores. E até o fazia bem pois conseguia obter composições regulares e equilibradas com ênfase nas linhas verticais e horizontais que utilizava.

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Allegorical Figure of Grammar (Laurent de la Hire – 1650)
National Gallery, Londres

Esta figura da Gramática sob a forma de uma mulher não é casual: era comum as mulheres personificarem as Artes Liberais graças à origem latina destes nomes (Gramática, Retórica e Dialética estão e são no feminino). A Gramática encontra-se neste quadro a jardinar e tem, enrolada no seu braço esquerdo, uma fita com os seguintes dizeres: “Uma voz articulada e aprendida da maneira correta”. A Gramática na Idade Média não tinha como objetivo ensinar a construir frases ou usar conjugações, mas assegurar a comunicação de ideias de forma clara. La Hire retrata a Gramática a cuidar de plantas e a regar flores. O vaso que a Gramática trata está assente num pequeno plinto com um pormenor de um fragmento romano, quase como se fosse uma ruína. E para completar, atrás dela, uma urna romana. A alegoria da Gramática pode ser feita através de uma mulher a regar plantas, jovens estudantes com livros aos seus pés.

A segunda alegoria, a retórica, é representada por “Rhetoricians at a Window” de Jan Steen, em que aquilo que vemos são homens ébrios. Nada que nos leve a pensar na Retórica enquanto Arte Liberal. A Retórica é frequentemente representada pelo livro, pelo manuscrito. E se não for mais nada uma das personagens está a ler qualquer coisa. Serve?

Rhetoricians at a Window (Jan Steen1662-66)
Philadelphia Museum of Art, Filadélfia

Logicamente, não consegui uma alegoria da Lógica, mas posso dizer que se alguma vez virem a pintura de uma figura feminina com uma cobra (que não seja a Cleópatra), com a sua mão pousada num ninho de vespas, a segurar um escorpião, um lagarto, se a virem com uma flor ou com um ramo de flores então estamos perante a Lógica, o que não tem lógica nenhuma. Menos lógica tem se disser que a Lógica distingue-se das outras Artes Liberais na representação, pois também pode ser representada por dois homens mais idosos de toga.

Passamos agora para as Artes do Quadrivium. A primeira delas, a Aritmética pode ser representada pelos seguintes elementos: uma tábua ou pequeno quadro, um ábaco, uma régua e um “compasso” (nessa altura tinha o aspecto de um compasso, mas servia para medir distâncias). E esta alegoria da Aritmética de Pinturicchio tem isso: a mulher que está no centro do afresco tem numa das mãos o tal “compasso” e na outra uma tábua. Mas o mais interessante é que todo o séquito masculino a acompanha com objetos relacionados com a Aritmética como livros, réguas e mais “compassos”.

The Arithmetic (Pinturicchio)
Palazzi Pontifici, Vaticano

Segue-se a Geometria cuja alegoria apenas consegui associada à arquitetura que lembre-se, não era uma Arte Liberal mas foi muito beneficiada com o ensino sistemático das Artes Liberais. Desta vez, tanto a Geometria quanto a Arquitetura estão representadas por crianças. A criança do lado esquerdo representa a Geometria, enquanto a do lado direito, a arquitetura. Como é que eu sei? Porque esta última está apoiada numa estrutura qualquer que presumo ser um fuste pois tem aos seus pés um capitel que me parece ser dórico. Se esta é então a Arquitetura a criança que é a Geometria terá os seus elementos identificativos. E eles estão lá: dois poliedros no chão (um dodecaedro e um cone), um esquadro, um transferidor e para a composição ficar completa só faltava a criança ter na mão um compasso e estar sentada sobre um globo terrestre.

Geometry and Architecture (Jean-Jacques Caffièri1776)
National Trust, Waddesdon Manor

Esta alegoria da Música é um pouco confusa pois nada nos indica, com toda a certeza que se trata de tal. No quadro vemos a musa Erato a guiar um cisne, atributo de Apolo que por acaso era um deus relacionado com a Música. Já que estamos a falar de Musas, para isso a musa deveria ser Euterpe, essa sim, deusa da Música. Seja como for, o cisne é um símbolo da Música (pois é o animal que “canta” antes de morrer), bem como o órgão portátil, a guitarra barroca, a viola e uma fila de sinos que a alegoria faz soar com um martelo. Há também no quadro uma lira um pouco estranha: a sua moldura são os cornos de um veado e as cordas estão esticadas a partir da cabeça do mesmo, até não se sabe bem onde. Outra relação com a Música é apoiada pelo fato de o veado estar relacionado com o ouvido e com a audição, devido ao fato de ser um animal que ouve muito bem. 

Allegory of Music or Erato (Filippino Lippic. 1500)
Staatliche Museen, Berlim

Por fim. Laurent de la Hire brinda-nos com mais do mesmo. Na verdade estas alegorias realizadas por la Hire fazem parte de um conjunto que compreende as Artes Liberais, mas felizmente só consegui encontrar duas obras da autoria dele porque não gosto do estilo. A alegoria é da Astronomia representada por uma mulher/anjo em êxtase (note-se lá atrás um pedaço de asa de anjo. Que toda a gente distingue e muito bem da asa de frango por esta estar geralmente depenada. Era uma piada). Na mão com os dedinhos esticados à parola, a Astronomia tem o compasso, mas do seu lado esquerdo podemos ver a panóplia de instrumentos relacionados com a representação da Astronomia: a esfera armilar, livros, e segundo me parece, um sextante. Para completar só faltaria o globo terrestre, mas isso seria pedir demasiado.

Astronomy (Laurent de la Hire – 1649)
Musée des Beaux-Arts, Orléans

Fonte: BELOGUE

Nota do blog

Clique AQUI para ler também o post “As sete Artes Liberais”.

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Qual é a arte da Arte Real?

Arte Real Atelier de Paramentos Maçônicos - Vila Gomes Cardim, São ...

Liberdade vai buscando, que é tão querida
Como sabe quem por ela rechaça a vida.
Dante, Purgatório. I, 71-72. [1]

Segundo os antigos rituais e as antigas Constituições maçônicas, a finalidade da franco-maçonaria é o aperfeiçoamento do homem.

Os antigos mistérios clássicos não tinham outro objeto e conferiam a télétê, perfeição iniciática. Este termo técnico estava vinculado etimologicamente aos três sentidos de fim, morte e perfeição, como já observa o pitagórico Plutarco. Jesus utiliza também a palavra téleios quando exorta seus discípulos a serem “perfeitos como vosso Pai que está nos céus”, inclusive se, por uma dessas frequentes incongruências das Santas Escrituras, afirma que “ninguém é perfeito exceto meu Pai que está nos céus”.

Essa definição poderia parecer explícita e precisa; e, não obstante, uma ligeira mudança formal alterou fundamentalmente o conceito. Tomemos como exemplo o dicionário de Pianigiani que afirma que a finalidade da franco-maçonaria é o aperfeiçoamento da humanidade; grande quantidade de profanos, assim como numerosos maçons, aceitam essa definição. A primeira vista pode parecer que aperfeiçoamento do homem e aperfeiçoamento da humanidade significam a mesma coisa. Na realidade, se referem a dois conceitos profundamente distintos, e sua aparente sinonímia gera um equívoco e oculta uma incompreensão. Outros utilizam a expressão aperfeiçoamento dos homens, igualmente equivocada. Evidentemente, é quase impossível decretar qual é a expressão correta, porque qualquer franco-maçom pode declarar correta a que está mais de acordo com suas preferências, e ainda comprazer-se, talvez, no equívoco. Mas quando se trata de determinar, histórica e tradicionalmente, a interpretação correta e conforme com o simbolismo maçônico, a questão muda de aspecto e já não se trata de preferências particulares.

O manuscrito encontrado por Locke (1696) na Bodleian Library – e que não foi publicado até 1748 – e atribuído a Henrique VI, da Inglaterra – define a franco-maçonaria como “o conhecimento da natureza e a compreensão das forças que há nela”; enuncia expressamente a existência de um vínculo entre a Maçonaria e a Escola Itálica, pois afirma que Pitágoras, um grego, viajou para instruir-se, ao Egito, à Síria e a todos os países onde os Venezianos [leia-se os Fenícios] haviam introduzido a Maçonaria. Admitido em todas as lojas dos Maçons, adquiriu um grande saber, voltou à Magna Grécia… e fundou uma importante loja em Crotona[2].

Para dizer a verdade, o manuscrito fala de Peter Gower; e, como o nome Gower existe na Inglaterra, Locke ficou bastante perplexo ante a identificação de Gower com Pitágoras. Mas outros manuscritos e as Constituições de Anderson mencionam explicitamente Pitágoras. O manuscrito de Cooke diz que a Maçonaria é a parte principal da Geometria, e que foi Euclides, sábio e sutil inventor, quem deu as regras desta arte e a chamou de Maçonaria. Há outros traços de reminiscências pitagóricas tanto nas “Old Charges” como no mais antigo dos rituais impressos (1724)[3], que atribui uma importância particular aos números ímpares, de acordo, neste caso, com a tradição pitagórica[4].

Todos os antigos manuscritos maçônicos concordam ao assinalar o aperfeiçoamento do homem, ou do simples indivíduo, como único objetivo da franco-maçonaria. As provas iniciáticas, as viagens simbólicas, o trabalho do aprendiz e do companheiro têm um caráter manifestamente individual e não coletivo.

Segundo a mais antiga concepção maçônica, a “grande obra” do aperfeiçoamento é realizada trabalhando sobre a “pedra bruta”, ou seja, sobre o indivíduo, desbastando, polindo e esquadrinhando a pedra bruta até transformá-la em “pedra cúbica da Maestria”, graças às regras tradicionais da “Arte Real” maçônica de edificação espiritual. Existe uma perfeita analogia com uma tradição paralela, a tradição hermética, que, pelo menos desde 1600, se encontra enxertada nela e ensina que a “grande obra” é realizada trabalhando sobre a “matéria prima”, transformando-a em “pedra filosofal” segundo as regras da “Arte Real hermética”. Operação que resume a máxima de Basílio Valentino: V.I.T.R.I.O.L. (Visita Interiora Terrae retificando Invenies Occultum Lapidem = Visita o interior da Terra, por retificação encontrarás a pedra oculta) ou a Tábua de Esmeralda, que modernos arabistas atribuem ao pitagórico Apolônio de Tiana. Pelo contrário, segundo a concepção maçônica profana e mais moderna, o trabalho de aperfeiçoamento deve ser realizado sobre a coletividade humana. É a humanidade ou a sociedade que ela há que transformar e aperfeiçoar; e, desse modo, substitui-se a ascese espiritual do indivíduo pela política coletiva. Os trabalhos maçônicos acabam por ter então uma meta e um caráter primeiramente social, às vezes unicamente social. O verdadeiro fim da franco-maçonaria – o aperfeiçoamento do indivíduo – passa a segundo plano quando não é francamente descuidado, esquecido e ignorado.

Tradicionalmente a primeira concepção é sem dúvida a correta e na literatura maçônica do século XVIII estiveram muito em moda as comparações e identificações exageradas e fantasiosas entre os mistérios de Elêusis e a franco-maçonaria. É indiscutível que o patrimônio ritual e simbólico da ordem maçônica somente se harmoniza com a concepção mais antiga da finalidade da maçonaria; efetivamente, o testamento do candidato à iniciação, as viagens simbólicas, as terríveis provas, o nascimento para a Luz iniciática, a morte e a ressurreição de Hiram, não podem ser compreendidos em sua relação com os trabalhos maçônicos e com a finalidade da franco-maçonaria caso tudo deva ser reduzido a fazer apenas política.

Historicamente, o interesse e a intervenção da franco-maçonaria nas questões políticas e sociais se manifesta apenas por volta de 1730, e unicamente em algumas regiões europeias, com a introdução da franco-maçonaria inglesa no continente. O pouco que se sabe das antigas lojas de antes do século XVII mostra a presença e o uso nos trabalhos maçônicos de um simbolismo de ofício, arquitetônico, geométrico, numérico, que, tendo por sua natureza um caráter universal, não se encontra ligado nem a uma civilização determinada nem a uma língua em particular e permanece independente de todo credo de ordem política e religiosa; é por essa razão que o maçom, de acordo com o ritual, não sabe ler nem escrever.

Com a lenda de Hiram e a construção do Templo faz sua aparição um elemento hebraico; e as palavras sagradas do aprendiz e do companheiro (as únicas graduações ou graus então existentes) que se referem a esta lenda são hebraicas. Mas esta lenda não pertence ao patrimônio tradicional da Ordem; a morte de Hiram não figura nos antigos manuscritos maçônicos, e as Constituições de Anderson ignoram o terceiro grau. De todas as maneiras, não há nada de extraordinário na presença de elementos e palavras hebraicas em uma época em que o hebreu era considerado como uma língua sagrada, a língua sagrada, aquela que Deus havia utilizado para falar ao homem no Paraíso Terrestre; trata-se de um fato cuja importância e significado não há que ser exagerado e que de nenhuma maneira é suficiente para se justificar a afirmação do caráter hebreu da franco-maçonaria. A letra G do alfabeto greco-latino, inicial de geometria e de Deus (God) em inglês, que aparece na Estrela Flamejante ou no Delta maçônico, parece ser apenas uma inovação (sem utilidade para quem não sabe ler nem escrever), enquanto que os dois símbolos fundamentais da ordem são os dois mais importantes do pitagorismo: o pentalfa ou pentagrama e a tetraktys pitagórica. A arte maçônica ou arte real, termos utilizados pelo neoplatônico Máximo de Tiro[5], era identificada com a geometria, uma das ciências do quadrivium pitagórico, e é difícil compreender como um Oswald Wirth, maçom erudito e hermetista, pode escrever que os maçons do século XVII[6] se proclamavam adeptos da Arte Real porque em outro tempo houve reis que se interessaram pela obra das privilegiadas corporações dos construtores da Idade Média. Os elementos de puro caráter maçônico constituem, junto com o simbolismo numérico e geométrico, o patrimônio simbólico e ritual arcaico e autêntico da fraternidade. Não dizemos seu patrimônio característico, porque estes elementos aparecem também, pelo menos parcialmente, no Companheirismo (compagnonnage), que de resto é muito próximo da franco-maçonaria.

Posteriormente, entre os séculos XVII e XVIII, quando as lojas inglesas começaram a receber como irmãos os accepted masons (pessoas que não exerciam a profissão de arquiteto ou o ofício de pedreiro), fazem sua aparição elementos herméticos e rosacrucianos como, por exemplo, Elias Ashmole (1617-1692), tal como assinala Gould em sua história da franco-maçonaria. O contato entre a tradição hermética e a maçônica fora da Inglaterra se produziu igualmente quase à mesma época, o que, evidentemente, implica a existência no continente de lojas maçônicas independentes da Grande Loja Inglesa. O frontispício de um texto hermético importante, editado em 1618[7], reproduz junto aos símbolos herméticos (o Rebis) os símbolos estritamente maçônicos do esquadro e do compasso; ocorre o mesmo em um opúsculo italiano de alquimia[8], impresso em lâminas de chumbo e que remonta praticamente a essa época.

Neste opúsculo se vê, entre outras coisas, Tubalcaim com um esquadro e um compasso em suas mãos. No entanto, na Bíblia, Tubalcaim é considerado como o primeiro ferreiro. Um erro de etimologia, naquela época muito praticado, e que o erudito Vossius repetiu, o identificou com Vulcano, o ferreiro dos Deuses e Deus do fogo, o qual, segundo os alquimistas e os hermetistas, presidia o fogo hermético (ou ardor espiritual), fogo que realizava a grande obra da transmutação. Em uma de nossas obras da juventude[9] demos uma interpretação errada da p∴ de p∴ Tub∴, pois ignorávamos a equivocada identificação de Vulcano com Tub∴ que era aceita pelos hermetistas e eruditos dos séculos XVII e XVIII. Hoje, nos parece evidente que esta p∴ de p∴ e algumas outras vêm do hermetismo, e que provavelmente foram introduzidas na franco-maçonaria e acrescentadas às palavras sagradas, constituindo provas do contato que havia se estabelecido entre a tradição hermética e a maçônica. As p∴ de p∴ do 2o. e 3o. graus não existem no ritual de Prichard (1730). Hermetismo e Maçonaria têm como fim a “grande obra da transmutação” e ambas as tradições transmitem o segredo de uma arte, à qual designam com o termo Arte Real já utilizado por Máximo de Tiro. É, pois, natural que tenham se sentido muito próximas uma da outra. Observemos que a adoção do simbolismo hermético não é efetuada em detrimento da universalidade maçônica nem de sua independência frente à religião e à política, pois o simbolismo hermético ou alquímico é, também, estranho, por sua natureza, a todo credo religioso ou político. A arte maçônica e a arte hermética, ou simplesmente a arte, é um arte e não uma doutrina ou uma confissão.

Até 1717 cada loja, de fato, era livre e autônoma. Os irmãos de uma oficina eram recebidos como visitantes nas demais oficinas, com a condição de satisfazer o telhamento (uma espécie de exame que permitia reconhecer que alguém era, na verdade, um irmão); mas somente o Venerável de uma oficina detinha a autoridade única e suprema entre os irmãos da mesma.

Em 1717, foi produzida uma mudança com a constituição da primeira Grande Loja, a Grande Loja de Londres, e pouco depois o pastor protestante Anderson redigia as Constituições maçônicas para as lojas sob a Obediência da Grande Loja de Londres; e, se bem que teoricamente uma oficina podia e pode conservar sua autonomia ou filiar-se à Obediência de uma grande loja[10], na prática só se consideram hoje lojas regulares aquelas que, direta ou indiretamente, são emanações ou derivações da Grande Loja de Londres, na suposição de que esta derivação, e somente ela, possa conferir a “regularidade”.

Isso posto, é muito importante observar que as Constituições de Anderson afirmam explicitamente que, para ser iniciado e pertencer à franco-maçonaria, a única condição é ser um homem livre de costumes irrepreensíveis, e exaltam (ao contrário das diversas seitas cristãs) o princípio da tolerância de cada qual pelos credos dos demais, ressalvando somente que um maçom não será nunca um “ateu estúpido”. Poder-se-ia pensar que Anderson admite que o franco-maçom pode ser um ateu inteligente, mas é mais verossímil que, como bom cristão, pensasse que um ateu é obrigatoriamente um imbecil, segundo a máxima que diz: Dixit stultus in corde suo: Non est Deus, (O estúpido diz em seu coração: Deus não existe). Aqui, seria necessário fazer uma digressão e observar que nesta disputa tanto o que afirma como o que nega não possui em geral nenhuma noção se aquilo que afirma existe ou não e que a palavra Deus é empregada habitualmente em um sentido tão vago que toda discussão é inútil. Seja como for, as Constituições da franco-maçonaria são explicitamente teístas; e os profanos, que acusam a franco-maçonaria de ateísmo, ou o fazem de má fé ou ignoram que ela trabalha para a glória do Grande Arquiteto do Universo. Observemos ainda que esta designação, que se harmoniza com o caráter do simbolismo maçônico, tem, igualmente, um sentido preciso e inteligível, ao contrário que certas designações vagas ou carentes de sentido como as “Nosso Senhor”, “Pai de todos os homens”, etc.

A qualidade de homem livre, exigida ao profano para iniciá-lo ou ao maçom para considerá-lo como irmão, é de grande interesse. Anderson não deixa de chamar de franco-maçons aos Free Masons, restando então examinar em que consiste essa freedom (liberdade) dos Free Masons. Trata-se somente da franquia econômica e social que exclui aos escravos e servos, e das franquias e privilégios que a corporação dos franc-maçons desfrutava frente aos governos dos estados e das distintas regiões onde exercia sua atividade? Ou essa denominação de maçons francos ou liberados deve ser tomada em outro sentido, referindo-se a pessoas que não são escravas dos preconceitos nem dos credos, liberdade que seria inútil trazer à luz? Se fosse assim, resultaria vão querer buscar as provas documentais e a pergunta ficaria pendente. Não obstante, pode aportar-se um esclarecimento graças a um documento de 1509 cuja existência ou cuja importância não foi, ao que parece, destacada até o presente.

Trata-se de uma carta escrita em 4 de fevereiro de 1509 a Cornelius Agrippa por seu amigo italiano, Landolfo, para recomendar-lhe um iniciado. Landolfo lhe escreve[11]:

“É alemão como tu, originário de Nuremberg, mas que vive em Lyon. Investigador curioso nos arcanos da natureza, é um homem livre, completamente independente dos demais, que deseja, por causa da reputação que já possuís, explorar também teu abismo… Lança-o, pois, para prová-lo ao espaço; e levado nas asas de Mercúrio voa das regiões do Austro às do Aquilão, toma também o cetro de Júpiter; e se nosso neófito quer jurar nossos estatutos, associa-o à nossa fraternidade.”

Tratava-se de uma associação secreta hermética criada por Agrippa, e há uma evidente analogia entre a prova do espaço que o iniciado deve enfrentar e as terríveis provas e viagens simbólicas da iniciação maçônica, inclusive quando a prova, aqui, se faz nas asas de Hermes. Hermes Psicopompo, o pai dos filósofos segundo a tradição hermética, é o guia das almas no além clássico e nos mistérios iniciáticos. Nesta carta também, se destaca a qualidade de homem livre, suficiente para abrir ao profano a porta do templo ao qual aspira; também aqui se manifesta substancialmente o princípio da liberdade de consciência e, ao seu lado, a tolerância. Ambas as tradições paralelas, hermética e maçônica, impõem idêntica condição para iniciar o profano: a de ser um homem livre, de onde se pode presumir que ela não se referia às franquias particulares das corporações de ofício, e por outro lado não faria sentido pedir isso aos accepted Masons que não eram pedreiros de profissão mas sim franco-maçons.

O caráter fundamental das Constituições de Anderson reside, pois, no princípio da liberdade de consciência e de tolerância, que permite também aos não cristãos pertencer à Ordem. Nas Constituições de Anderson a franco-maçonaria conserva seu caráter universal, não está subordinada a nenhum credo filosófico particular nem a qualquer seita religiosa, e não manifesta nenhuma inclinação por trabalhos de ordem social ou político. Pode ser que este caráter aconfessional e livre tenha inspirado igualmente à Maçonaria anterior a 1717 e que Anderson apenas o retificou nas Constituições.

Ao ser implantada na América e no continente europeu, a franco-maçonaria conservou em geral seu caráter universal de tolerância religiosa e filosófica e permaneceu à parte de todo movimento político e social, inclusive acentuando às vezes, como na Alemanha, seu interesse pelo hermetismo. Ao redor de 1740, começaram a multiplicar-se os novos ritos e os altos graus, mas conservando cuidadosamente os rituais e o rito dos três primeiros graus, os da verdadeira franco-maçonaria, chamada igualmente Maçonaria simbólica ou azul.

Os rituais destes altos graus são por vezes um desenvolvimento da lenda de Hiram, ou se relacionam com os rosa-cruzes, o hermetismo, os templários, o gnosticismo, os cátaros…, e já não têm um autêntico caráter maçônico. Do ponto de vista da iniciação maçônica, são absolutamente supérfluos. A franco-maçonaria está completa nos três primeiros graus, reconhecidos por todos os ritos, e nos quais se baseiam os altos graus e as lojas superiores dos diferentes ritos. O companheiro franco-maçom, uma vez que tenha chegado a mestre, acabou simbolicamente sua grande obra. Os altos graus só poderiam ter uma função verdadeiramente maçônica se contribuíssem para uma interpretação correta da tradição maçônica e para uma compreensão e aplicação mais inteligente do rito, ou seja, da arte real.

Isto não significa que se tenha que abolir os altos graus, já que os irmãos que foram agraciados com eles são livres, e que quem gosta de reunir-se em ritos e corpos para efetuar trabalhos que não se opõem às obras maçônicas devem ter a liberdade de fazê-lo. Não obstante, do ponto de vista estritamente maçônico, sua pertinência a outros ritos e a outras lojas superiores não os põe acima dos mestres que querem apenas efetuar o trabalho da Maçonaria universal dos três primeiros graus. Além disso, é evidente que ritos distintos como o de Swedenborg, os Escoceses, os da Estrita Observância, de Memphis…, ao serem diferentes, já não são universais, ou o são apenas na medida em que se baseiam sobre os três primeiros graus. Esquecer ou tentar desnaturalizar o caráter universal, livre e tolerante da franco-maçonaria, para impor aos irmãos das lojas pontos de vista ou objetivos particulares, seria ir contra o espírito da tradição maçônica e contra os termos das Constituições da Fraternidade.

É na França onde aparece a primeira alteração, ao mesmo tempo em que afloram os altos graus. A efervescência das ideias nessa época, o movimento da Enciclopédia, repercutem na franco-maçonaria que se difunde ampla e rapidamente. E, pela primeira vez, o interesse da ordem se dirige para as questões políticas e sociais e nelas se concentra. Afirmar que a Revolução Francesa seja obra da franco-maçonaria nos parece pelo menos exagerado. Por outro lado, é inegável que a franco-maçonaria sofreu na França – e seria difícil que isso não tivesse ocorrido – a influência do grande movimento profano que levou à revolução e culminou no império. A franco-maçonaria francesa tornou-se então e seguiu sendo desde esse momento, uma Maçonaria comprometida e interessada nas questões políticas e sociais. Alguns quiseram considerá-la como “tradicional” quando no máximo representa a tradição maçônica francesa, bem distinta da antiga tradição. Este desvio e este compromisso é a causa principal, se não a única, da oposição que seguidamente nasceu entre a Maçonaria anglo-saxônica e a francesa; na Itália, criou as divergências destes últimos cinquenta anos, que tiveram como consequência sua desunião e a debilitação ante os ataques e a perseguição dos jesuítas e os fascistas. Seja como for, inclusive os irmãos que seguem a tradição maçônica francesa não esqueceram o princípio de tolerância, e nas lojas maçônicas italianas, muito antes da perseguição fascista, havia irmãos de todas as crenças religiosas e de todos os partidos políticos, inclusive católicos e monárquicos.

Há que se recordar também, que no período que antecedeu à Revolução Francesa, nem todos os maçons esqueceram a verdadeira natureza da franco-maçonaria, mesmo quando ficaram desorientados pela plêiade de ritos diversos e opostos. No Convento dos Philalèthes reuniram-se maçons de todos os ritos, animados todos eles pelo mesmo desejo de restabelecer a unidade. Só Cagliostro, que havia fundado o rito da Maçonaria Egípcia, que unicamente constava de três graus e era exclusivamente dedicado à obra de edificação espiritual, se negou a comparecer a este Convento por razões que seriam muito extensas para explicar.

A influência maçônica francesa ocorreu também na Itália, depois da Revolução e durante o império. Ainda hoje, a presença de certos termos técnicos nos “trabalhos” maçônicos, como o “malhete” do Venerável (traduzido, no italiano, literalmente, por “maglietto”) assim como outros termos (louveton, tradução fonético-semântica de Lufton, filho de Gabaon, nome genérico do maçom segundo os primeiros rituais ingleses e franceses) são prova de isso. A franco-maçonaria francesa e a italiana mantiveram estreitas relações durante todo o último século, e por vezes uma atitude revolucionária, republicana, mas também materialista e positivista que seguia a moda filosófica da época. Não obstante, não se pode dizer que a franco-maçonaria italiana se converteu numa franco-maçonaria materialista, pois ainda que tenha sido tolerante diante de todas as opiniões, nem por isso deixou de venerar, e muito particularmente, um grande espírito como Giuseppe Mazzini e grandes franco-maçons como Garibaldi, Bovio, Carducci, Filopanti, Pascoli, Domizio Torrigiani e Giovanni Amendola, todos idealistas e espiritualistas[12]. Foi a selvageria furiosa e o vandalismo dos incultos fascistas que devastou os nossos templos, as nossas bibliotecas e quebrou os bustos de Mazzini e Garibaldi que decoravam as nossas sedes.

Por outro lado, há de se reconhecer que se a franco-maçonaria inglesa conservou sempre um caráter espiritualista e nunca lhe ocorreu negar a existência do Grande Arquiteto do Universo, frequentemente esteve tentada, e ainda está, a conferir um certo tom cristão ao seu espiritualismo, afastando-se dessa forma do espírito de imparcialidade absoluta e não confessional das Constituições de Anderson. Não se pode negar que o fato de obrigar a prestar juramento sobre o Evangelho de São João não é uma prova de tolerância perante profanos e irmãos agnósticos ou pagãos, judeus ou livre pensadores, que não têm uma especial simpatia pelo Evangelho de São João e ignoram tudo da tradição joanista. A intolerância acentua-se com o mau costume de impingir a leitura e o comentário dos versículos do Evangelho durante os trabalhos da Loja. Se este hábito criticável adquirir importância, terminará por reduzir os trabalhos da Loja a um simples serviço religioso corriqueiro ou puritano, uma espécie de “rosário” ou de “vésperas” fastidiosas, inúteis e insuportáveis para a livre consciência de tantos irmãos que, na Inglaterra e na América, não vão à missa, não aceitam a infalibilidade do papa, nem tampouco a autoridade da Bíblia. É necessário criar mal-estar e irritação nas nossas colunas sem uma contrapartida apreciável? Pode acreditar-se que, por esses meios, se converterá os outros às próprias crenças e que dessa forma se conterá o agnosticismo inglês e americano?

Estas considerações exortam a conservar o caráter universal da franco-maçonaria acima dos credos religiosos e filosóficos e dos compromissos políticos. Isto não significa que se deva ignorar a política. Com efeito, devemos nos proteger dela. A intolerância não pode tirar o espaço da tolerância e a tolerância pode tolerar tudo exceto a intolerância deliberadamente hostil. Desde o momento em que apareceram as Constituições de Anderson com o seu princípio de liberdade e de tolerância, a Igreja católica excomungou a franco-maçonaria, culpável precisamente de tolerância; e o encarniçamento contra a franco-maçonaria nunca seria desmentido. Na Itália, a perseguição à franco-maçonaria durante estes últimos vinte anos foi iniciada e mantida pelos jesuítas e pelos nacionalistas[13]; enquanto os fascistas, para ganharem a simpatia destes senhores, não vacilaram em provocar a aversão do mundo civilizado, no que diz respeito à Itália, com o seu vandalismo contra a franco-maçonaria. Os jesuítas perderam esta guerra, mas a lepra da intolerância propaga-se sempre, reveste-se de novas formas e é necessário que nos protejamos dela. Por outro lado, chegou a hora, se não nos enganamos, de difundir a franco-maçonaria por toda a Terra e estabelecer uma fraternidade entre os homens de todas as raças, civilizações e religiões. Para levar a bom termo esta tarefa é necessário que a franco-maçonaria não assuma uma fisionomia e um tom pertencente a uma minoria perante a qual as grandes civilizações orientais, China, Índia, Japão, Malásia, o mundo do Islã, têm se mostrado refratárias. Isso é possível desde que a franco-maçonaria não se circunscreva a uma crença qualquer e permaneça fiel ao seu patrimônio espiritual, que não consiste nem de uma fé codificada, um credo religioso ou filosófico, um conjunto de postulados ou de preconceitos ideológicos e moralistas, nem de uma bagagem doutrinal considerada detentora e portadora da verdade, à qual os não crentes devam ser convertidos. Há que se pensar que, ainda que a verdadeira religião e a verdadeira filosofia existam, é uma ilusão crer que se pode conquistá-las ou comunicá-las mediante uma conversão, uma confissão ou o recitar de certas fórmulas, porque cada qual entende as palavras destes credos e fórmulas à sua maneira, de acordo com a sua civilização e a sua inteligência; e no fundo, não são, como dizia Hamlet, mais que “words, words, words[14].

Enquanto não se reflete sobre isto, tem-se a ilusão de que essas palavras são compreendidas de igual maneira; tão rápido como se começa a raciocinar, surgem seitas e heresias, cada uma convencida de que detém a verdade. A sabedoria não pode ser compreendida racionalmente, nem expressada, nem comunicada. É uma visão, uma vidya, essencial e necessariamente indeterminada, incerta. E quando os olhos se abrem à luz com o nascimento na nova vida, aproximamo-nos dessa visão. A arte maçônica ou arte real é a arte de trabalhar a pedra bruta para tornar possível a transmutação humana e a percepção gradual da luz iniciática. O que não significa, naturalmente, que a franco-maçonaria tenha o monopólio da arte real.

No decurso dos dois últimos séculos a maior parte dos inimigos da franco-maçonaria recorreram sistemática e unicamente à injúria e à calúnia, apoiando-se em sentimentos moralistas e patrióticos. Afirmaram, assim, que os trabalhos maçônicos consistiam de orgias abomináveis, e com isso se tem manipulado os rituais, se tem desvelado as cerimônias maçônicas expondo-as ao ridículo, se tem acusado os maçons de trair a sua pátria pelo caráter internacional da Ordem, se tem afirmado que a franco-maçonaria é apenas o instrumento dos judeus, sempre para enganar e levantar os crentes e o público em geral contra a “Sociedade Secreta”. Os franco-maçons, naturalmente, sabiam muito bem que se tratava apenas de calúnias. E, como nada conseguia convencê-los, pensou-se em suprimi-los ou em retirar-lhes a possibilidade de se reunirem para trabalhar ou de responder e defender-se. Recentemente, um escritor católico[15] publicou um estudo histórico sobre “Tradição Secreta”, conduzido com competência e habilidade. As habituais e costumeiras calúnias, destinadas a impressionar os profanos, foram habilmente substituídas nele por uma crítica insidiosa, destinada a impressionar o leitor culto e o espírito dos nossos irmãos.

Esta crítica afirma que, no fundo, a tradição secreta não contém senão o vazio absoluto (pág. 139) e conclui afirmando que “na Escola Iniciática ou por meio dela a Tradição Secreta não tem ensinado absolutamente nada à humanidade” (pág.155). Não se compreende muito bem então como se pode afirmar igualmente que este vazio absoluto, “esta tradição secreta coincide (pág. 141), ainda que frequentemente de uma forma corrompida, com as doutrinas gnósticas. Mas não pretendamos demasiado. A franco-maçonaria é, pois, segundo o autor, uma esfinge sem segredo, dado que não ensina nenhuma doutrina. Desse modo o leitor se vê levado a concluir que, ao estar desprovida de conteúdo, a Maçonaria não tem nenhum valor.

Nas linhas precedentes mostramos que a franco-maçonaria não ensina nenhuma doutrina e nem deve ensiná-la, destacando que esta atitude é um de seus méritos. Isso posto, para chegar a concluir que a Tradição Secreta contém o vazio ao não conter uma doutrina, deve-se crer que somente uma doutrina pode ocupar o vazio. Na página 153, o autor afirma ainda: “o sistema iniciático supõe que o homem possa chegar a compreender, por um esforço da inteligência, os problemas inexplicados do cosmos e do além”. Na página 152 escreve: “a Igreja católica opõe às vãs elucubrações dos que se autodenominam iniciados, a força intangível de seu dogma que deve ser único porque não podem existir duas verdades” e que o sistema iniciático é incompatível com o cristianismo. A estas afirmações respondemos que ignoramos a existência de um sistema iniciático, que não conhecemos iniciados que façam suposições, e ainda menos que criem ilusões sobre a possibilidade de resolver por meio de sua inteligência ou de elucubrações os problemas inexplicados. Mas nos é impossível admitir que a fé em um dogma possa constituir um conhecimento, pois saber não é crer. De fato compreendemos que a verdade é necessariamente inefável e indizível. Deixamos aos profanos a consoladora e ingênua ilusão de crer que é possível formular de alguma maneira esta verdade e este conhecimento em credos, fórmulas, doutrinas, sistemas e teorias. Além disso, até Jesus sabia que suas parábolas eram apenas parábolas. Mas dizia também a seus discípulos que a eles “lhes era dado entender o mistério do reino dos céus”. Evidentemente só fides sufficit ad firmandum cor sincerum[16], mas non sufficit[17] para entender os mistérios. O que é igualmente válido para o simples raciocínio. Com isso não queremos diminuir de nenhuma maneira o valor da fé e do raciocínio. A fé isoladamente conduz ao desespero filosófico. E ambos são um pouco como o tabaco e o café: dois venenos que se compensam, mas certamente não basta fumar cachimbo e degustar um café para alcançar-se o conhecimento. Ao conhecimento multi vocati sunt[18], mas não todos e, entre estes muitos, pauci electi sunt[19]. Segundo a Igreja Católica, pelo contrário, é suficiente ter fé no Dogma, e o conhecimento e o paraíso estão ao alcance de todos os bolsos a preços realmente insuperáveis.

Resumindo: não existe uma doutrina maçônica secreta[20]; mas existe uma arte secreta, chamada Arte Real ou mais simplesmente Arte. É a arte da edificação espiritual à qual corresponde a arquitetura sagrada. Os instrumentos maçônicos têm, pois, um sentido figurado na obra da transmutação, e ao segredo da Arte Real corresponde o segredo arquitetônico dos construtores das grandes catedrais medievais. É natural que os franco-maçons venerem o Grande Arquiteto do Universo, mesmo que não se defina o que se deve entender por esta fórmula.

Na arquitetura antiga, especialmente na arquitetura sagrada, as questões de relação e proporção tinham uma importância capital. A arquitetura clássica estabelecia a proporção das diferentes partes de um edifício, e em particular dos templos, baseando-se em um módulo secreto ao qual alude Vitrúvio. Existe toda uma literatura referente à arquitetura egípcia e sobretudo à pirâmide de Quéops, que ilustra seu caráter matemático. E, inclusive, procedendo com a maior circunspeção, é certo, por exemplo, que esta pirâmide se encontra exatamente a 30o de latitude para formar com o centro da Terra e o Polo Norte um triângulo equilátero. É certo que está perfeitamente orientada e que a face voltada para o setentrião é exatamente perpendicular ao eixo de rotação terrestre, em função da posição que este tinha na época de sua construção. Quanto aos construtores da Idade Média, não eram guiados somente por alguns critérios estéticos. Preocupavam-se com a orientação da igreja, com o número de naves, etc. A arte dos construtores estava relacionada à ciência da geometria. O esquadro e o compasso são os dois símbolos de ofício fundamentais na arte maçônica; e a régua e o compasso os dois instrumentos fundamentais na geometria elementar. A Bíblia afirma que Deus fez omnia in numero, pondere et mensura[21]. Os pitagóricos criaram a palavra cosmos para indicar a beleza do universo no qual reconheciam uma unidade, uma ordem, uma harmonia, uma proporção. E entre as quatro ciências liberais do quadrivium pitagórico, a aritmética, a geometria, a música e a astronomia, a primeira estava na base de todas as demais. Dante comparava o céu do Sol com a aritmética porque “como da luz do Sol todas as estrelas se iluminam, assim da luz da aritmética se iluminam todas as ciências” e da mesma forma “que o olho não pode olhar ao sol, assim o olho do intelecto não pode olhar o número que é infinito”[22].

Sem entrar na crítica desta passagem, não deixa de ficar estabelecida a posição que a Aritmética ocupa segundo Dante. Por outro lado, tanto a Bíblia como a arquitetura aconselhavam considerar os números. Hoje em dia, ainda que se negue a reconhecer no cosmos uma unidade, uma ordem, uma harmonia, uma lei, e aceitando apenas o determinismo limitado pela lei das probabilidades, a física moderna continua considerando os números e as relações numéricas. De fato, não ficam senão eles, e tanto Einstein como Bertrand Russell constataram e reconheceram que a ciência moderna retornava ao pitagorismo.

Assim, pois, não há nada de surpreendente no fato de que os franco-maçons tenham identificado a arte arquitetônica com a geometria e tenham dado ao conhecimento dos números uma importância tal que ela (geometria) justifica sua tradicional pretensão de serem os únicos a conhecer os “números sagrados”.

Mas ainda temos de fazer algumas observações. A geometria, em seu aspecto métrico, ou seja, nas medidas, exige o conhecimento da aritmética. Isso posto, antigamente a acepção da palavra geometria era menos específica que hoje, e geometria significava genericamente toda a matemática. Assim a identificação da Arte Real com a geometria, tradicional na franco-maçonaria, não se refere à geometria tomada em seu sentido moderno, mas também à aritmética. Além disso, devemos observar que a relação entre geometria, Arte Real da arquitetura e edificação espiritual é a mesma que inspira a máxima platônica: “Que ninguém entre aqui se não é geômetra”. Máxima cuja atribuição é algo duvidosa, pois apenas é mencionada por um comentarista bastante tardio. Mas em obras que indiscutivelmente são de Platão podemos ler:

“…a geometria é um método para dirigir a alma para o ser eterno, uma escola preparatória para um espírito científico, capaz de voltar as atividades da alma para as coisas supra-humanas”, […] “inclusive é impossível chegar a uma verdadeira fé em Deus caso não se conheça a matemática, a astronomia e a íntima união desta última com a música.”[23]

Estas concepções e atitudes de Platão devem ser as da Escola Itálica ou pitagórica, que exerceu sobre ele uma grande influência, o que permite dizer quando se quer sustentar que a Maçonaria se inspirou em Platão que, em última análise, se volta sempre à geometria e à aritmética dos pitagóricos. O vínculo entre a franco-maçonaria e a ordem pitagórica, sem que se trate de uma derivação histórica ininterrupta, mas somente de uma filiação espiritual, é seguro e manifesto. O arcipreste Domenico Angherà no prefácio que escreveu para a reedição dos Estatutos Gerais da Sociedade dos Franco-maçons do Rito Escocês Antigo e Aceito (1874), que já haviam sido publicados em Nápoles em 1820, afirma categoricamente que a ordem Maçônica é idêntica à ordem pitagórica. Mas , mesmo sem ir tão longe, a afinidade entre ambas as ordens é certa. A arte geométrica da franco-maçonaria, em particular, provém direta ou indiretamente da geometria e da aritmética pitagóricas. E não é anterior, porque os pitagóricos foram os criadores destas ciências liberais, segundo o que se pode deduzir historicamente e a partir dos testemunhos de Proclo.

Aparte de algumas propriedades geométricas atribuídas, sem dúvida equivocadamente, a Tales, a geometria – diz Paul Tanery – brotou completa do cérebro de Pitágoras da mesma forma que Minerva saltou inteiramente armada do cérebro de Júpiter. E os Pitagóricos foram os primeiros a estudar a aritmética e os números.”

Para estudar as propriedades dos números sagrados dos franco-maçons e sua função na franco-maçonaria, a via que se oferece por ela mesma é, pois, a do estudo da antiga aritmética pitagórica. E o estudá-la tanto do ponto de vista aritmético ordinário como do ponto de vista da aritmética simbólica ou formal, como a chama Pico da Mirandola, correspondente à tarefa filosófica e espiritual que Platão atribui à geometria. Ambos os sentidos se encontram estreitamente ligados no desenvolvimento da aritmética pitagórica. A compreensão dos números pitagóricos facilitará a dos números sagrados da Maçonaria.

Autor: Arturo Reghini

Tradução: S.K.Jerez

Fonte: BIBLIOT3CA

Arturo Reghini (1878-1946), matemático e filólogo, ocupou um alto cargo na Maçonaria italiana (Supremo Conselho do Rito Escocês Antigo e Aceito, e membro honorário de Supremos Conselhos de outros países). Manteve correspondência com René Guénon, fundou e dirigiu as revistas Atanor – onde este último publicou em primeira versão o Esoterismo de Dante e o Rei do Mundo – e Ignis (1924-25) e contribuiu com a Ur (1927-28); escreveu numerosos artigos, e foi também chefe de redação daRassegna Massonica. Entre suas obras, Cagliostro, documents et études; Notes brèves sur le Cosmopolite; Considérations sur le Rituel de l’Apprenti Franc-Maçon; les Mots sacrés et de passe des trois premiers grades et le plus grand mystère maçonique; Aritmosofia; les Nomes Sacrés dans la Tradition Pythagoriciene Maçonique, todos editados hoje por Archè, Milano, e uma obra inédita em sete tomos: Dei Numeri Pitagorici.

NOTAS

[1] – Libertà va cercando ch’è si cara Come sa chi per lei vita rifiuta. (Dante, Purgatorio. I, 71-72.)

[2] – Hutchinson, Spirit of Masonry; Preston, Illustrations of Masonry; G. De Castro, Mondo segreto, IV, 91; A. Reghini, Noterelle iniziatiche, Sull’origine del simbolismo, en Rassegna Massonica, junio-julio 1923.

 [3]The Grand Mystery of Freemasons discovered wherein are the several questions put to them at their Meetings and installation, Londres 1724.

[4] – Virgilio, Bucólicas, Égloga VIII

[5] – Máximo de Tiro, Discours philosophiques, tradução Formey, Leyden, 1764: Discurso XI, pág. 173.

[6] – Cf. Oswald Wirth, Le Livre du Maître, 1923, pág. 7.

[7] – Johannes Daniel Mylius, Basilica Philosophica, Francfort, 1618.

[8] – Cf. Pietro Negri [= A. Reghini], Un codice plumbeo alchemico italiano, en UR, números 9 e 10, 1927

[9] – Cf. A. Reghini, Le parole sacre e di passo ed il massimo mistero massonico, Todi 1922.

[10] – O. Wirth expressa categoricamente esta opinião, cf. Le Livre du Maître, pág. 189.

[11] – Cornelius Agrippa, Cartas. Cf. também a monografía de A. Reghini, prefacio da versão italiana da Filosofía Oculta de Agrippa

[12] -Giuseppe Mazzini (1805-1872), fundador da “Jovem Itália” (sociedade secreta que trabalhava para o estabelecimento da república na Itália). Giuseppe Garibaldi (1807-1882), patriota italiano que luchó para libertar a Itália do domínio austríaco, dos Bourbons (reino das Duas Sicílias) e, finalmente, do papado. Giovanni Bovio  (1841-1903) filósofo e político radical de esquerda. Giosue Carducci (1835-1907) poeta. Quirico Filopanti (1812- 1894) patriota e universitário. Giovanni Pascoli (1855-1912) poeta. Domizio Torrigiani (1879-1932). Giovanni Amendola (1882-1926) político, filósofo, fundador do Movimento União Democrática Nacional.

[13] – Cf. os artigos de Emilio Bodrero em Civiltà cattolica, orgão da Companhia de Jesus, e em Roma Fascista, periódico; cf. também Ignis yRassegna Massonica, ano de 1925.

[14] – palavras, palavras, palavras (N.T.)

[15] – Cf. Raffaele Del Castillo, La tradizione segreta, Milão 1941

[16] – a fé é sincera o suficiente para compreender (N.T.)

[17] – não suficiente (N.T.)

[18] – muitos são chamados (N.T.)

[19] – poucos foram escolhidos (N.T.)

[20] – O. Wirth já havia dito a mesma coisa em 1941: “Como o método iniciático se nega a inculcar o que quer que seja, apenas é admissível que se tenha ensinado uma doutrina positiva no seio dos Mistérios”, no Livre du Maître, pág. 119. Del Castillo sustenta, ao contrário – e sem nenhuma prova – que a Maçonaria pretendeu ensinar uma doutrina secreta, e constata que não se encontra traço desta doutrina positiva. Ao invés de reconhecer que seu ponto de vista não é defensável, acusa a Maçonaria de ser redundante e incapaz. O vos qui cum Jesu itis, non ite cum Jesuitis.

[21] – Todas as coisas em número, peso e medida (N.T.)

[22] – “come del lume del Sole tutte le stelle si alluminano, così del lume dell’aritmetica tutte le scienze si alluminano […] che l’occhio dell’intelletto non può mirare […] il numero […] è infinito”. Dante, O Banquete, II, XIII, 15 e 19.

[23] – Gino Loria, Le scienze esatte nell’antica Grecia, 2ª edição, Milão 1914, pág. 110.

As Sete Artes Liberais

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Artes liberais é uma expressão que designa um conjunto de estudos e disciplinas através das quais se intenciona prover conhecimentos, métodos e habilidades intelectuais gerais para seus estudantes, ao invés de habilidades ocupacionais, científicas ou artísticas mais especializadas.

Visão geral do tema

Embora a expressão e o conceito de artes liberais tenha se originado na Antiguidade, foi nas Universidades da Idade Média que ela adquiriu seu alcance e significado atuais, bem como o número de disciplinas que a compõem (sete ao todo), descritas mais adiante.

Na Idade Moderna, as artes liberais eram consideradas as disciplinas próprias para a formação de um homem livre, desligadas de toda preocupação profissional, mundana ou utilitária. Contrapõem-se às artes mecânicas, ou seja, às disciplinas não diretamente relacionadas a interesses imateriais, metafísicos e filosóficos, mas estritamente técnicos (voltados à produção de utilidades que sirvam às necessidade cotidianas do homem).

O conceito de arte dado por Aristóteles — “a capacidade de produzir com raciocínio reto”, ou ainda, “uma disposição suscetível de criação acompanhada de razão verdadeira” — é capaz de fornecer alguns elementos acerca do conceito de artes liberais que os homens da Antiguidade e da Idade Média tinham.

Mediante o domínio das assim chamadas sete belas-artes, o homem seria capaz de produzir obras e idéias com poder de elevar o espírito humano para além dos interesses puramente materiais, rumo a um entendimento racional e livre da verdade.

Trivium e Quadrivium

Tradicionalmente, as sete artes liberais englobam, desde a Idade Média, dois grupos de disciplinas: de um lado, o trivium e do outro, o quadrivium. O trivium concentra o estudo do texto literário por meio de três ferramentas de linguagem pertinentes à mente. O quadrivium engloba o ensino do método científico por meio de quatro ferramentas relacionadas à matéria e à quantidade.

O Trivium

Etimologicamente, trivium significa “o cruzamento e articulação de três ramos ou caminhos”. Esse grupo de disciplinas incluía a lógica (ou dialética), a gramática e a retórica. As artes do trivium teriam como objetivo prover disciplina à mente, para que esta encontre expressão na linguagem, especialmente no que se refere ao estudo da matéria e do espírito. De acordo com definições clássicas, a matéria teria como característica essencial o número e a extensão, temas analisados respectivamente pela aritmética e pela música, bem como pela geometria e astronomia (ou astrologia clássica). Segundo esta mesma definição, o espírito teria como caractere essencial o número.

O Quadrivium

O quadrivium, etimologicamente o cruzamento de quatro ramos ou caminhos está voltado para o estudo da matéria, por meio do domínio das seguintes disciplinas: aritmética (a teoria do número); em música (a aplicação da teoria do número), em geometria (a teoria do espaço) e em astronomia (a aplicação da teoria do espaço).

No âmbito do quadrivium, a música é entendida como o estudo dos princípios musicais, tais como harmonia, não podendo ser confundida com a música instrumental aplicada (uma das sete belas-artes). O objetivo destas artes ditas “da quantidade” era prover meios e métodos para o estudo da matéria, sujeitos a aprimoramento no âmbito das disciplinas ditas superiores.

Estudos superiores

As disciplinas ditas superiores (de acordo com a definição dada pelos conceitos clássicos e medievais) formavam a parte central e preparatória do currículo das universidades medievais, preparando o aluno para entrar em contato com as três principais formações de tais centros de saber: a medicina, o direito e a teologia.

Como outras artes normativas — que ajustam ou regulam segundo um padrão ou norma — as artes da linguagem consistem em estudos práticos que ajustam a linguagem segundo uma norma, como por exemplo: o pensamento segundo a verdade, as palavras faladas e escritas segundo a correção ou a comunicação segundo a eficácia. É por isso que, no âmbito das artes liberais e dos princípios da educação superior, diz-se que “a verdade é a norma ou a meta da lógica”, “a correção é a norma da gramática” ou “a eficácia é a norma da retórica”.

Santo Tomás de Aquino e Aristóteles, na ocasião em que (ao primeiro) foi dito:

Bene scripsisti de me, Thoma.”

Segundo os propugnadores de tal método educacional clássico, para que se possa penetrar em níveis de conhecimento superior das ciências, da metafísica ou da teologia, o indivíduo deve ser capaz de pensar de forma retilínea e coerente, fazendo uso correto e eficaz das palavras, nos mais variados níveis de discurso.

Como é cediço, a educação ocorre por meio da comunicação, ou seja, pelo encontro de duas ou mais mentes, a possuir algo em comum. De acordo com tal sistema, isso implicaria na conclusão de que o trivium, antes de mais nada, é um estudo básico, cujo objetivo primordial é dar início a uma vida de aprendizagem – algo meramente provisório – com a qual se adquire uma das cinco virtudes intelectuais, abaixo explicadas.

As cinco virtudes intelectuais

De acordo com os postulados da educação clássica e medieval, assim como a linguagem é normalizada pelas artes da linguagem, o intelecto é aperfeiçoado pelas assim chamadas cinco virtudes intelectuais, sendo duas práticas e três teóricas – a saber: compreensão, ciência, sabedoria, prudência e arte.

Segundo definições clássicas, a compreensão é o captar intuitivo dos princípios primordiais (o pensamento lógico e a investigação lógica); a ciência é o conhecimento das causas mais prováveis; a sabedoria é a compreensão das causas ditas fundamentais; a prudência é o pensamento coerente concernente às ações e, por fim, a arte é o pensamento aplicado à produção e à capacidade de produzir.

Autor: Jaime Furlan

Fonte: 81 Nós

Referências bibliográficas

JOSEPH, Martines. a Roma Antiga – As Artes Liberais da Lógica, Gramática e Retórica.
Tradução de Henrique Silva. São Pedro: É Realido, 2008.


PINTO DE CARVALHO, Antônio [et al]. Arte Retórica e Arte Poética. Rio de Janeiro: Ediouro,2005.

JOSEPH, Miriam. O Trivium – As Artes Liberais da Lógica, Gramática e Retórica. Tradução de Henrique Paul Dmyterko. São Paulo: É Realizações, 2008. p. 21. JOSEPH, Miriam. p. 27.

Ligações externas

ENCICLOPEDIA CATÓLICA. “Las siete artes liberales”. 

COSTA, Ricardo da. “Las definiciones de las siete artes liberales y mecánicas en la obra de Ramon Llull”, em Revista Anales del Seminario de Historia de la Filosofía. Madrid: Publicaciones Universidad Complutense de Madrid (UCM), vol. 23 (2006), p. 131-164 (ISSN 0211-2337).

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